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MANUAL

BÍBLICO
SBB
M i s s ã o d a S o c i e d a d e Bíblica d o Brasil:
D i f u n d i r a Bíblia c sua m e n s a g e m a todas as pessoas e a t o d o s os g r u p o s sociais c o m o i n s t r u m e n t o d e t r a n s -
f o r m a ç ã o e s p i r i t u a l , d e f o r t a l e c i m e n t o d e v a l o r e s éticos e m o r a i s e d e d e s e n v o l v i m e n t o c u l t u r a l e social.

M251M M a n u a l Bíblico S B B ; t r a d u ç ã o d e L a i l a h d e N o r o n h a . B a r u e r i , S P : S o c i e d a d e
Bíblica d o Brasil, 2 0 0 8 .
816 p. : il. ; 24,5 c m .

T e x t o s bíblicos: A l m e i d a R e v i s t a e A t u a l i z a d a , 2 . e d . © 1 9 9 3
c N o v a T r a d u ç ã o n a L i n g u a g e m d e h o j e , © 2 0 0 0 , S o c i e d a d e Bíblica d o B r a s i l .
T í t u l o e m inglês: T h e N e w L i o n H a n d b o o k t o t h e Bible.
978-85-311-1118-1

1. Bíblia S a g r a d a 2. M a n u a i s Bíblicos 3. H i s t ó r i a d a Bíblia


4. T e r r a s Bíblicas I. S o c i e d a d e Bíblica d o B r a s i l I I . N o r o n h a , L a y l a d e

C D D - 220.9

C o p y r i g h t d o t e x t o © 1999 Pat e D a v i d A l e x a n d e r
E d i ç ã o originalmente p u b l i c a d a e m inglês c o m o n o m e T h e N e w L i o n H a n d b o o k t o t h e Bible
T r a d u z i d o para o p o r t u g u ê s a p a r t i r d a terceira e d i ç ã o e m inglês
C o p y r i g h t d a edição inglesa © 1999 L i o n I I t i d s o n pie
C o p y r i g h t desta t r a d u ç ã o 2008 S o c i e d a d e Bíblica d o B r a s i l

C o n s u l t o r e s : Rev. Dr. G . M i k e B u t t e r w o r t , Dr. D a v i d I n s t o n e - B r e w e r , Rev. Dr. R . T . F r a n c e , Dr. S u e G i l l i n g h a m ,


A l a n R. Millard, Rt. Rev. J o h n B. T a y l o r , Dr. S t e p h e n T r a v i s , Dr. B e n W i t h e r i n g t o n

O s direitos morais dos a u t o r e s f o r a m a s s e g u r a d o s

P u b l i c a d o n o Brasil p o r S o c i e d a d e Bíblica d o Brasil


A v . Ceci, 706 - T a m b o r é
B a r u e r i , SP - C E P 06460-120
C a i x a Postal 330 - C E P 0 6 4 5 3 - 9 7 0
w w w . s b b . o r g . b r - 0800-727-8888

T r a d u ç ã o : Lailah d e N o r o n h a e S o c i e d a d e Bíblica d o Brasil


R e v i s ã o , edição e d i a g r a m a ç ã o : S o c i e d a d e Bíblica d o Brasil

O s textos bíblicos c i t a d o s f o r a m e x t r a í d o s d a t r a d u ç ã o d e J o ã o F e r r e i r a d e A l m e i d a , R e v i s t a e A t u a l i z a d a ,
2a edição © 1993 S o c i e d a d e B í b l i c a d o B r a s i l , e d a N o v a T r a d u ç ã o n a L i n g u a g e m d e H o j e , © 2 0 0 0 S o c i e -
d a d e Bíblica d o Brasil

Muitos dos t e x t o s s ã o a s s i n a d o s e r e p r e s e n t a m o p o n t o d e v i s t a d o s a u t o r e s . O c o n t e ú d o d o s
textos é d e i n t e i r a r e s p o n s a b i l i d a d e d o s a u t o r e s e n ã o r e f l e t e , n e c e s s a r i a m e n t e , a p o s i ç ã o d a
Sociedade Bíblica d o B r a s i l , q u e p u b l i c a a p r e s e n t e e d i ç ã o n o i n t u i t o d e s e r v i r o S e n h o r J e s u s
Cristo e ajudar o l e i t o r a c o n h e c e r m e l h o r o L i v r o S a g r a d o .

Impresso e e n c a d e r n a d o na E s l o v é n i a
E A 9 7 3 M B - 12.000 - 2008 - S B B
MANUAL
BÍBLICO
SBB Editado por
PAT E DAVID A L E X A N D E R

Sociedade Bíblica
do Brasil
Lista de abreviaturas usadas Prefácio

Abreviaturas gerais
d.C. depois de Cristo 5., ss. seguinte(s) A Bíblia é o livro mais distribuído e lido d o
a.C. antes de Cristo NT Novo Testamento m u n d o . A l g u n s a l ê e m p o r curiosidade, alguns
cf. conferir AT Antigo Testamento
c o m o parte d e u m a busca espiritual, outros p o r
cap., caps, capítulo(s) v., vs. versiculo(s)
causa d o seu rico l e g a d o cultural.
p. ex. por exemplo P- pagina
Este Manual foi criado para ser u s a d o c o m a
etc. et cetera
Bíblia; para estar j u n t o dela. N ã o é apenas para
referência, falando a o leitor sobre a Bíblia. A inten-
ção é reunir informação q u e antes só p o d i a ser
encontrada e m vários livros d e referência d i f e r e n -
tes. Isto é feito tanto visualmente c o m o pela pala-
Livros bíblicos vra escrita. As ilustrações, os mapas e diagramas
Gn Gênesis Ma Naum são incluídos, n ã o para e m b e l e z a r o t e x t o , mas
Êx Êxodo Hf Habacuque para esclarecer seu significado. O Manual p o d e
Lv Levítico Sf Sofonias
ser usado c o m qualquer v e r s ã o o u tradução da
Nm Números Ag Ageu
Bíblia. '
Dl Deuteronômio Zr Zacarias
Js Josué Ml Malaquias A l é m d e ser u m livro para ser u s a d o c o m a
Jz Juizes MI Mateus Bíblia, o Manual t a m b é m estará j u n t o a o leitor,
Rt Rute Mr Marcos convidativo e acessível. A o editar o Manual tínha-
ISm lSamuel Le Lucas m o s e m m e n t e as pessoas q u e estão c o m e ç a n d o
2Sm 2Samuel Jo João a estudar a Bíblia. Assim, n e n h u m c o n h e c i m e n t o
1RS IReis At Atos prévio é necessário. Os vários colaboradores espe-
2Rs 2Reis Rm Romanos cializados c o m u n i c a m d e f o r m a simples — n ã o
lCr 1 Crônicas Ko ICoríntios simplista. T e r m o s técnicos são usados o m í n i m o
2Cr 2Crônicas 2Co 2Corintios possível. Q u a n d o são usados, são explicados.
Ed Esdras Gl Gálatas
O o b j e t i v o principal é ajudar o s leitores a
Ne Neemias Ef Efésios
e n t e n d e r o próprio t e x t o da Bíblia. As seções-guia
Et Ester Fp Filipenses
CI Colossenses — Parte 2 sobre o A n t i g o T e s t a m e n t o e Parte 3
Jó Jó
SI ITs ITessalonicenses sobre o N o v o — analisam cada livro, parte p o r
Salmos
Pv Provérbios 2Ts 2Tessalonicenses parte, r e s u m i n d o e f a z e n d o a n o t a ç õ e s o n d e
Ec Eclesiastes ITm ITimóteo e x p l i c a ç õ e s s ã o necessárias. P e q u e n o s a r t i g o s
Ct Cântico dos Cânticos 2Tm 2Timóteo d e destaque, escritos p o r especialistas, p e r m i t e m
Is Isaías Tt Tito q u e interesses específicos sejam investigados e m
Jr Jeremias Fm Filemon maior detalhe.
Lm Lamentações Hb Hebreus O s passos seguintes são interpretar o q u e é
Ez Ezequiel Tg Tiago lido e apreciar o q u e a Bíblia p o d e nos dizer hoje.
Dn Daniel IPe 1 Pedro Isto significa descobrir se u m d e t e r m i n a d o livro
Os Oséias 2Pe 2Pedro é escrito c o m o poesia o u prosa, história o u carta
Jl Jool 1Jo Uoão
— e seu c o n t e x t o histórico. O s diagramas e arti-
Am Amos 2Jo 2João
gos na Parte 1 foram projetados para ajudar nesta
Ob Obadias 3Jo 3João
parte. E a Parte 4, o Auxílio Rápido, facilita e agiliza
Jn Jonas Id Judas
Apocalipse a localização d e informação sobre p e r s o n a g e n s ,
Mq Miquéias Ap
lugares, assuntos e ilustrações.
Abrir a Bíblia e m Gênesis e ler direto até A p o -
calipse g e r a l m e n t e n ã o é a m e l h o r m a n e i r a d e
começar! " C o m o Ler a Bíblia" (na Parte 1) o f e r e -
ce várias alternativas úteis. O Manual p o d e estar
s e m p r e à mão, qualquer q u e seja o p o n t o d e par-
tida d o leitor: u m livro da Bíblia, u m p e r s o n a g e m
bíblico, uma questão específica, arqueologia bíbli- A g r a d e c e m o s a todos q u e c o n t r i b u í r a m c o m este
ca, cultura, literatura. A l g u m a s pessoas p r e f e r e m livro direta o u indiretamente, c o m p a r t i l h a n d o seu
uma leitura mais superficial; outras g o s t a m d e ir discernimento s o b r e o e n s i n a m e n t o bíblico, dis-
a fundo. p o n i b i l i z a n d o s e u p r ó p r i o material, o u simples-
m e n t e p o r seu entusiasmo n o e s t u d o da Bíblia e
Por que uma edição completamente sua convicção d e sua relevância e seu p o d e r para
nova? transformar vidas.
0 Manual foi publicado pela primeira v e z e m T a m b é m s o m o s m u i t o gratos àqueles q u e aju-
1973. E m 1983 foi revisado l e v a n d o e m considera- d a r a m d e tantas outras formas. A l g u n s são m e n -
ção as novas traduções importantes q u e haviam cionados e m "Agradecimentos", e m b o r a isto n ã o
surgido naquele p e r í o d o . E m 25 anos, as v e n d a s faça j u s a o valiosíssimo auxílio v i n d o d e várias
atingiram a marca d o s três milhões e o Manual já fontes — d e s d e diretores d e m u s e u s e coleções
foi publicado e m 28 línguas e m t o d o o m u n d o . àqueles q u e d e r a m h o s p e d a g e m , ajuda, informa-
Nas palavras d e u m editor asiático, ele se t o r n o u ção e acima d e t u d o incentivo.
uma "obra seminal". Pessoalmente, n e n h u m o u t r o livro t e v e u m
0 p r o p ó s i t o desta revisão mais a m p l a é ser- p a p e l tão significante e m nossas vidas q u a n t o
vir os leitores n o n o v o m i l ê n i o . S e n t i m o - n o s a Bíblia. E s p e r a m o s q u e o Manual na sua n o v a
estimulados a reescrever o texto e reformular forma ajude futuras gerações d e leitores a e n t e n -
a o b r a c o m o u m t o d o . T e m o s muitas f o t o g r a - der a Bíblia e m t o d a a sua atualidade.
fias novas para ajudar a imaginar o passado e o
livro t e m mapas e diagramas n o v o s . O m a n u a l Pat e David Alexander
levou e m consideração as n o v i d a d e s na área d a Oxford
pesquisa bíblica e coloca a Bíblia b e m d e n t r o
de seu c o n t e x t o histórico. Ele t a m b é m reflete as
preocupações mais recentes d o s leitores. C o n v i -
damos m u i t o s c o l a b o r a d o r e s n o v o s , h o m e n s e
mulheres, para c o m p a r t i l h a r seu c o n h e c i m e n t o .
Um poeta fala s o b r e Salmos, u m a autora t a l e n -
tosa c o m muitos anos d e e x p e r i ê n c i a n o O r i e n t e
Médio e s c r e v e u e s t u d o s s o b r e as m u l h e r e s d a
Bíblia. L e v a m o s e m conta os interesses tias pes-
soas — n o c u i d a d o c o m a criação, nas histórias
(que t ê m u m papel t ã o i m p o r t a n t e na narrativa
da Bíblia), na justiça, n o papel d a mulher, n u m a
sociedade multirreligiosa, n o lugar d a Bíblia n o
mundo atual...
C o m o nas edições anteriores, o t e x t o bíblico
foi considerado assim c o m o ele aparece e m nos-
sas Bíblias, l e v a n d o e m conta seus tipos diferentes
de literatura. A maior p r e o c u p a ç ã o é c o m o c o n -
teúdo e significado d a Bíblia, n ã o c o m questões
de interesse m e r a m e n t e técnico. Nos assuntos e m
que há controvérsias, tentamos mostrar isso, s e m
necessariamente entrar n o debate.
Somos gratos aos eruditos por compartilharem
os frutos d o seu trabalho c o m u m público mais
amplo. A s obras d e referência clássicas n o nível
mais acadêmico f o r a m fonte vital d e informação.
Conteúdo

INTRODUÇÃO O ANTIGO
À BÍBLIA TESTAMENTO
Veja o índice completo a página 11 Veja o índice completo à página 97

Introdução
98

••••••
C O M E Ç A N D O A ESTUDAR OS "CINCO LIVROS"
A BÍBLIA Gênesis a Deuteronômio
12 108

A HISTÓRIA DE ISRAEL
A BIBLIA N O SEU C O N T E X T O
Josué a Ester
24
220

POESIA E SABEDORIA
E N T E N D E N D O A BIBLIA
Jó a Cântico dos Cânticos
44
344

OS PROFETAS
TRANSMITINDO A HISTORIA
Isaías a Malaquias
60
408

A BIBLIA H O J E
78
O NOVO AUXÍLIO
TESTAMENTO RÁPIDO
Veja o índice completo à página 525 Página 779

Introdução
527

OS E V A N G E L H O S E A T O S
Mateus a Atos
538

AS EPÍSTOLAS
Romanos a Apocalipse

REFERÊNCIA RÁPIDA A MAPAS


E DIAGRAMAS

• Os livros da Bíblia 14
• Fazendo associações —
a Bíblia e a história do mundo 26
• A Bíblia no seu tempo 28
• Entendendo a Bíblia 50
• A história do Antigo
Testamento 100
• Israel nos tempos do Antigo
Testamento 104
• Reis de Israel e Judá 306
• Os profetas no seu contexto 414
• Israel nos tempos do Novo
Testamento 526
• A história do Novo Testamento 536
Autores Rev. Dr. Gerald LBray, John H. Eaton, ex-Professor de Paula Gooder, Professora de Dr. Philip Johnston, Professor
e C o l a b o r a d o r e s Professoranglicano de Divindade, Antigo Testamento, Universidade Estudos Bíblicos, Faculdade de Antigo Testamento, Wycliffe
Escola de Divindade de Beeson, de Birmingham; autor de estudos Ripon, Cuddesdon, Oxford; Hall, Oxford:
Universidade de Samfotd, sobre Salmoseos Profetas: estudos especializados: • PosiçõesdoAntigo Testamento
Alabama; autor de Biblical • Os Salmos em seu contexto evidência para crença no com relação ao pós-morte
interpretation, past and present: misticismojudaico no Novo
David ePat Alexander, • Interpretando a Bíblia Dr. Mark Elliot, Professor de Testamento, teologia feminista, Rev. F. D. Kidner, ex-Diretor
editores do Manual original; através dos séculos Teologia Histórica e Sistemática, interpretação bíblica: de TyndaleHouse and
até 1994 respectivamente Universidade de Nottingham: • Entendendo Cotossenses Library for Biblical Research,
Diretor e Editora Chefe de Lion Rev. Dr. Richard A. com Dr.StephenTravis: Cambridge:
Publishing, Oxford: Burridge, Deão do King's M Lista Aprovada - Rev. Dr. Michael Green, • Poesia e sabedoria
• Todos o$ íoiografíos College, Londres, e Professor o cânon das Escrituras, Estudioso do Novo Testamento,
(exceto aquelas descritas em Honorário deTeologia; autor Livros deuterocanónicos autor e professor; Consultor de Dr.K.A. Kitchen,
Agradecimentos) íorom tirados de What are the Gospels?, Evangelismo para os Arcebispos ex-Professor de Egípcio e
especialmente por David Four Gospels, One Jesus? Dra. Grace I. Emmerson, de Canterbury e York: Copta, Escola de Arqueologia
Alexander eJohn na série People's Bible ex-membro do Departamento • "Boas Novas!"-dos primeiros e Estudos Orientais,
Commentary: deTeologia, Universidade cristãos, Dons espirituais Universidade de Liverpool:
• Esboço da Bíblia nas Panes
2 ei, com anotações eartigos • Estudando os evangelhos de Birmingham: • Egito
por Pol Alexander, exceto • Entendendo Oséias Rev.GeoffreyW.Grogan.
Rev. Dr. Mike Butterworth, ex-diretor, Instituto de Dr. Nobuyoshi Kiuchi,
aqueles atribuídos a outrem Mary J. Evans, Diretor do Curso Treinamento Bíblico, Glasgow: Professor de Antigo
Diretor de St Albans e Oxford
Rev. David Barton, Chefe Ministry Course; especialista de Vida e Ministério Cristãos e • 0 Espírito Santo em Atos Testamento, Universidade
de Serviços de Informação, em história do Antigo Professora de Antigo Testamento, Cristã de Tóquio:
Diocese das Escolas de Oxford: Testamento e Profetas: Faculdade Bíblica de Londres: Dr. P. DerynGuest, • Sacrifício
• Os Profetas • Profetas e profecia Professor de Bíblia Hebraica,
• laco, iosé, Davi, Retrato Dr. Todd E. Klutz, Seminário
deleremias Universidade de Birmingham,
George Cansdale Rev. David Field, ex- Faculdade Westhill: Teológico de Dallas e
Rev. Dr.Craig (in memorian), vice-presidente, Faculdade • Entendendo luízes Faculdade de Wheaton;
Superintendente, Sociedade Teológica de Oak Hill, Londres: doutorado em demonologia
Bartholomew. . p s q u i s a d o i
;,

• 0 reino de Deus Michele Guiness, Jornalista antiga e exorcismo,


da Escola de Teologia e Estudos Zoológica de Londres: e escritora freelance judaico- Universidade de Sheffield;
Religiosos, Escola Superior de • As codornizes, Pescando Rev. Dr. R. T. (Dick) France, cristã: Professor de Novo Testamento,
ChetenhameGloucester: no Lago da Galileia ex-diretor de Wycliffe Hall, Universidade de Manchester:
• Páscoa e a Última Ceia
• 0 texto e a mensagem Oxford; estudioso do Novo m Magia no Antigo
Rev. Colin Chapman,
Testamento e escritor: Dr. Donald Guthrie Testamento
Dr. Richard Bauckham, Professor de Estudos Islâmicos,
Professor de Estudos do Novo Escola de Teologia do Oriente • Religião judaica no período (in memorian), Vice-diretor,
Próximo, Beirute; escritor do Novo Testamento, Jesus Faculdade Bíblica de Londres: J. Nelson Kraybill,
Testamento, Universidade
de St Andrews: sobre conflitos entre árabes eo Antigo Testamento, "Deus • As Cartas (revisado para Presidente do Seminário
conosco" - a encarnação, esta edição pelo Rev. Dr. Bíblico Menonita.Elkhart,
• Uma história do ponto de vista e israelenses e relações entre StephenMotyer)
feminino (Bufe), Perspectivas cristãos e muçulmanos: 0 Antigo Testamento no Novo Indiana; autor de Imperial
• A terra prometida, "Guerra Testamento, A Dispersão judaica Cult and Commercein John s
de mulheres nos Evangelhos, Richard S. Hess, Professor de
Santa" Apocalypse:
Entendendo o Apocalipse Frances Fuller, autora, Antigo Testamento, Seminário
• Adoração do imperador
R.J.Berry, Professor Rabino Dan Cohn-Sherbok, editora e ex-diretora de Baptist de Denver, Colorado; eApocalipse
de Genética, Universidade Professor de Judaísmo, Publicatioits, Beirute; residente do especialista em Bíblia e
de Londres: Departamento deTeologia e Oriente Médio por muitosanos: Oriente Próximo antigo: Dra. Melba Padilla Maggay,
Estudos Religiosos, Universidade • Sara, Agar, Retrato de Rute, • Nomes de pessoas em Presidente do Instituto de
• Comentários de um Gnl—11
geneticistafsobre nascimento de Wales, Lampeter: Ana, Retrato de Ester, Maria, Estudos sobre Igreja e Cultura
virginal) • A Bíblia Hebraica Marta e Maria, Maria Madalena Asiáticas, Manila, Filipinas:
Colin Humphreys, Professor
• Perspectivas culturais:
Dr. John Bimson, Diretor de Rev. A. E. Cundall, ex-diretor, Dr. David Gill, Professor sênior de Ciência de Materiais, OrienteeOcidente
Estudos e Professor de Antigo Faculdade Bíblica de Vitória, de História Antiga, Universidade Universidade de Cambridge:
deWales, Swansea: m A estrela de Belém,
Testamento, FaculdadeTrinity, Austrália; autor de vários livros Dr. I. Howard Marshall,
0 recenseamento
Bristol; autor de The World of e estudos relacionados com • A provinda romana da Professor de Exegese do Novo
theOld Testament; consultor, o Antigo Testamento: ludéia, A cidade de Atenas, Dr. David historie Brewer, Testamento, Universidade
lllustrated Encyclopedia olBible • Examinando a cronologia Governo romano, Cultura grega, Pesquisador, TyndaleHouse de Aberdeen; estudos
Places: dos reis A cidade de Roma, A cidade de and Library for Biblical especializados - Lucas-Atos,
• Recriando o passado, Vida Corinto, A cidade de Éfeso Research, Cambridge: as Cartas de João e as Cartas
Nômade, Vida Sedentária Dra. Katharine Dell, • lesus e dinheiro, iesus e as Pastorais (Timóteo eTito):
Professora de Divindade, Dr. John Goldingay. cidades, lesus e as mulheres • Os Evangelhos e Jesus
E.M.BIaiklockijn Universidade de Cambridge; Professor de Antigo Cristo, Os milagres do Novo
memorian) Professor Emérito Professora e Diretora de Testamento, Seminário Rev. Philip Jenson, Professor Testamento
dos Clássicos, Universidade de Estudos na Faculdade St Teológico Fuller, Pasadena, de Antigo Testamento,
Auckland, Nova Zelândia: Catherine; especialista em Jó Califórnia; autor de Models FaculdadeTrinity, Bristol: Rev. Dr. Andrew McGowan,
• A família Herodes, Um e literatura de sabedoria: for Scripture e Models for • Um estilo de vida: Os Dez Diretor, Instituto Teológico
historiadorovalia o Movo • Entendendo ló, Sabedoria Interpretation of Scripture: Mandamentos, Sacerdócio no Highland, Elgin:
Testamento em Provérbios eló • Dicas para entender la Bíblia) Antigo Testamento • Os doze discípulos de Jesus
Alan R. Miilard, Professor de Rev. Dr. John Dr. Stephen Travis, Rev.Dr.D.Wilkinson.
Hebraico e Línguas Semíticas, Polkinghorne, ex-professor Vice-reitor e diretor Professor de Apologética
Universidade de Liverpool; de Física Matemática, de Pesquisa, Faculdade Cristã e diretor do Centro
Membro da Sociedade de Universidade de Cambridge; de St lohn, Nottingham; de Comunicação Cristã,
Antiquários e palestrante Membro da Sociedade Real: especialista em Novo Faculdade de St John,
internacional sobre • A Bíblia do ponto de vista Testamento: Universidade de Durham;
arqueologia bíblica: de um cientista • Lendo a Bíblia; astrofísico teórico e Membro
• 0Antigo Testamento e comDr.MarkEIliot: da Sociedade Astronômica
o Antigo Oriente Próximo, Claire Powell, Professora • Lista aprovada - Real; palestrante e radialista
Histórias da criação, Histórias do de Novo Testamento, Grego, o "cânon" das Escrituras, sobre questões relacionadas
dilúvio, Abraão, Onde ficavam Cristologia, Hermenêutica e com ciência e religião; autor
Livros deuterocanónicos
Sodoma e Gomorra?, Moisés, Gênero na Faculdade Cristã de lieGod.theBigBangand
(idades da conquista, Cananeus Todas as Nações, Ware, Herts: Steve Turner, poeta, Stephen Hawking eAlone in the
e filisteus, A arca perdida, 0 • Mulheres de fé, A Bíblia do jornalista e autor de vários Universe?
templo de Salomão e suas ponto de vista feminino livros de poesia e biografia: • Deus e o universo
reconstruções, 0 escriba, Os • Salmos do ponto de vista
assírios, Os babilónios, Os persas Professor Sir Ghillean de um poeta HughG.M.Williamson,
Prance, Diretor do Jardim Ocupante
Evelyn Miranda Feliciano, Botânico Real, Kew, Inglaterra: Rev. Dr. Peter Walker, da cátedra Regius de hebraico,
escritora e Professora, Instituto de • Pessoas como Professor de Novo Testamento, Universidade de Oxford:
Estudossobrea Igreja e Cultura administradoras de Deus Wycliffe Hall, Oxford; autor
• Entendendo Isaías
de lesus and the Holy City:
Asiáticas, Manila, Filipinas: Dr.Vinoth
m A justiça e os pobres • lerusalém no período RobertWilloughby,
Ramachandra, Secretário do Novo Testamento Professor de Novo Testamento,
Rev. J. A. Motyer, Regional
Faculdade Bíblica de Londres,
ex-Professor de Antigo da Associação Sul Asiática Dr. Steve Walton, especialista em Evangelhos e
Testamento: de Estudantes Evangélicos, Professor de Novo teologia política:
Colombo, Sri Lanka; autor Testamento, Faculdade MA paz de Deus, Amor
• Os nomes de Deus, A
de Recovery ofMissions, Gods de St John, Nottingham;
importância do tabernáculo.
thatfail: especialista em
Os Profetas (com Dr. Mike
Butterworth) • lesus numa sociedade Lucas-Atos.
pluralista • 0 que é a Bíblia?,
Rev. Dr. Stephen Motyer, Divulgando a palavra - a tarefa
Professor de Novo Testamento Dr. Harolcl Rowdon da tradução
e Hermenêutica, London Bible Ex-professoreinstrutor
College: residente, Faculdade Bíblica Walter WangerinJr.,
• As cartas, Paulo de Londres; editor-chefe Ocupante da cátedra
e secretário internacional Jochum da Universidade de
Rev. Dr. Stephen Motyer, de Partnership, uma rede Valparaíso, Indiana; professor
Professor de Novo Testamento de igrejas independentes: de Literatura e Redação;
e Hermenêutica, London Bible • Soldados romanos no Novo teólogo e escritor; autor
College: Testamento, Pilatos de 0 Livro de Deus: A Bíblia
• As Cartas, Paulo Romanceada:
Rev. J. A. Simpson, Deão • A Bíblia como uma história
Rev. Dr. Michael Nazir-Ali, de Canterbury:
Bispo de Rochester, ex-diretor • 0 nascimento virginal Rev. Dr.JoBailey Wells.
da Church Mission Society e ex- Deã, Faculdade Clare,
bispo de Raiwind, Paquistão: Reva.VeraSinton, Cambridge:
mO Cordoe a Biblia Ex-diretora de Estudos • Contadores de histórias -
Pastorais, Wycliffe Hall, a tradição oral, Os escribas,
Dr. Stephen Noli, Professor Oxford: O trabalho dos editores
de Estudos Bíblicos na Escola • Questões sexuais na igreja
Ministerial Episcopal deTrinity, de Corinto Dr. Gordon Wenham,
Amridge, Pensilvânia; autor de Professor de Estudos do Antigo
AnjosdeLuz, Poderes das Trevas: Rev. John B.Taylor, Testamento, Escola Superior de
Pensando biblicamente sobre Estudioso do Antigo Cheltenham e Gloucester;
anjos, Satanás e principados: Testamento e ex-bispo de St • Alianças e tratados
• Anjos no Bíblia Albans: no Oriente Próximo
• Introdução ao Antigo
Meie Pearse, Chefe de Testamento, Os "Cinco Livros" Rev. David Wheaton,
Departamento, Faculdade História de Israel Cónego emérito da
Bíblica de Londres; Professor Catedral de St Alban;
convidado de História da Dra. JoyTetley, Diretor ex-diretor da Faculdade
Igreja, Seminário Teológico do Curso Anglicano de Teológica Oak Hill, Londres;
Evangélico, Osijek, Croácia: Treinamento Ministerial, Capelão honorário de Sua
• Nosso mundo—o mundo Cambridge: Majestade, A Rainha:
deles • Entendendo Hebreus • A ressurreição de Jesus
Introdução
à Bíblia
COMEÇANDO A BÍBLIA ENTENDENDO TRANSMITINDO A BÍBLIA H O J E
A ESTUDAR NO SEU A BÍBLIA A HISTÓRIA
A BÍBLIA CONTEXTO

14 Os livros da Bíblia 26 Fazendo associações 46 Dicas para entender 62 Contadores de histórias 80 Perspectivas culturais
18 0 que é a Bíblia? — a Bíblia e a história yj Entendendo a Bíblia — a tradição oral — Oriente e Ocidente
22 Lendo a Bíblia do mundo 52 A Bíblia como uma 64 Os escribas 83 lesus numa sociedade
28 A Bíblia no seu tempo história 66 0 trabalho dos editores pluralista
30 Recriando o passado 53 Interpretando a Bíblia 68 A Bíblia Hebraica 86 0 Corão e a Bíblia
36 A terra de Israel através dos séculos 70 Uma lista aprovada 89 A Bíblia do ponto de
38 Animais e aves 58 0 Texto e a mensagem — o "cânon" das vista feminino
40 Arvores e planias Escrituras 92 A Bíblia do ponto de
42 0 calendário de Israel 74 Divulgando a palavra vista de um cientista
— a tarefa da 95 Nosso mundo — o
tradução mundo deles
COMEÇANDO A
ESTUDAR A BÍBLIA
Introdução à Bíblia

livros da Bíblia
ANTIGO TESTAMENTO (39 livros)

OS "CINCO LIVROS"

Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronõmio

Estes livros c o n t ê m histórias


sobre a criação do m u n d o , o g r a n -
d e d i l ú v i o e o s pais ( c m ã e s ! ) d a
nação d e Israel (Gênesis); a escra-
vidão no Egito c o êxodo (Êxodo):
e os 4 0 anos de p e r e g r i n a ç ã o n o
"deserto" do Sinai (Números;
Deuteronõmio).
Eles t a m b é m r e g i s t r a m o d o m d a
lei d e D e u s p a r a s e u p o v o r e s u m i -
d o nos D e z M a n d a m e n t o s ( Ê x o d o ;
Deuteronõmio) e regras
detalhadas para sacri-
fício e a d o r a ç ã o , c e n -
trados no tabernáculo
( t e n d a especial d e D e u s )
(Êxodo; Levítico).
Horus, simbolizado
por este olho. era
u m d o s deuses
d o Egito, onde os
israelitas foram escravizados.
Começando a estudar a Bíblia 15

HISTORIA DE ISRAEL POESIA ESABEDORIA OS PROFETAS

Josué Jó • Isaías • 12 "profetas


Juízes Salmos • Jeremias menores":
Rute Provérbios • Lamentações Oséias,
1 e 2Samuel Eclesiastes • Ezequiel Joel, Amós,
1 e2Reis Cântico dos Cânticos • Daniel Obadias,
1 e 2Crônlcas Jonas,
Esdras Miquéias,
Neemias O shqfar, feito de chifre Naum,
j de carneiro, era roçado
Ester Habacuque,
para chamar os
israelitas à batalha. Sofonias,
Ageu,
Zacarias,
Malaquias

C o m e ç a n d o c o m a conquista da Estes livros c o n t ê m a m a i o r parte O s profetas t r a z i a m a palavra de


terra p r o m e t i d a ( J o s u é ) , estes l i v r o s d a poesia da Bíblia e a "sabedo- Deus a seu povo: adver-
dão continuidade à história da nação, r i a " ( g r a n d e parte c m f o r m a de m m tindo sobre o julgamento
de seus heróis e daqueles que falha- provérbios: Provérbios, Eclesias- ( q u a n d o o p o v o se desviava
r a m para c o m a nação a o desviá-la de tes) q u e e r a b a s t a n t e p o p u l a r de Deus) incentivando c o m
Deus. O período de liderança dos "juí- no Oriente Próximo antigo por esperança e promessas
zes" (Gideão, S a n s ã o e o u t r o s ) t e r m i n a volta da época d o Rei S a l o m ã o . (nos m o m e n t o s difíceis). A
com S a m u e l , q u e u n g i u os primeiros J ó é u m a dramatização poéti- m a i o r i a v i v e u nos séculos
reis de Israel. D e p o i s d o s reis S a u l , ca sobre o sofrimento. Salmos 8 e 7 a . C , q u a n d o a nação
Davi e Salomão (1 e 2 S a m u e l ; I R e i s ) , é u m livro de hinos. Cântico estava sob ameaça, pri-
as dez tribos d o N o r t e se separaram e dos Cânticos é poesia r o m â n t i - m e i r o dos assírios e depois
f o r m a r a m o R e i n o de Israel, e n q u a n - c a lírica. dos babilônios. A m ó s falou
to a l i n h a g e m de D a v i c o n t i n u o u e m O povo de Israel pela justiça a favor dos
Judá. A q u e d a d e S a m a r i a nas mãos mulras vezes pobres. A l g u n s p e r t e n c e m
trocou o Deus
da Assíria m a r c o u o f i m de Israel. Mas verdadeiro por ao p e r í o d o d o retorno do
u m remanescente d c J u d á s o b r e v i v e u ídolos. Esta é e x í l i o . V á r i a s profecias (as
uma imagem de
à destruição de J e r u s a l é m e r e t o r n o u Baal, deus dos m a i s c o n h e c i d a s estão e m
do exílio n a Babilônia. R e n o v a n d o sua cananeus. Isaías) p r e v ê e m a v i n d a do
obediência à lei de D e u s , reconstruí- "Messias", que D e u s e n v i a -
r a m o T e m p l o e as m u r a l h a s da cidade r i a p a r a l i b e r t a r seu p o v o e r e i n a r
(Esdras; Neemias). c o m justiça e p a z .
16 Introdução à Bíblia

LIVROS NOVO TESTAMENTO (27 livros)


DEUTEROCANÔNICOS/APÓCRIFOS

Incenso foi uni dos


presentes que os
OS EVANGELHOSE ATOS
magos trouxeram
^ p a r a o menino
esus.

O mais antigo •
fragmento do v,p-.
Evangelho de João K ^ J / V W>íá
w

data de 125-130 . .,-


Tobias Oração d e d.i.. • r :
Mateus
Judite Azarias/Cân- ***lKt:V;;.iK • -
Marcos
'lorloi":
Adições a Ester tico dos três Lucas
Sabedoria de jovens João
Salomão Susana Atos
Eclesiástico Bel e o D r a g ã o
Baruque 1,2,3, A Judeia estava
1 e2Esdras e4Macabeus sob domínio
romano n o período
Carta de O r a ç ã o de do NT.
Jeremias Manasses

p Evangelho
G r a n d e parte deste material adi- de João Os quatro evangelhos registram
c i o n a l , i n c l u í d o n a s Bíblias C a t ó l i c a s , registra a vida de Jesus, principalmente
como Jesus
mas, e m g e r a l , ausente nas edições transformou seus três a n o s c o m o p r e g a d o r itine-
protestantes, v e m da tradução g r e g a em vinho a água r a n t e , e a s e m a n a f i n a l e m q u e foi
de jarros como
(Septuaginta) da Bíblia h e b r a i c a . este. crucificado. Sua ressurreição é con-
Macabeus relata a luta j u d a i c a pela siderada confirmação de sua rei-
i n d e p e n d ê n c i a n a é p o c a " e n t r e os vindicação de ser o Messias/"Filho
Testamentos". Veja t a m b é m "Livros de Deus" prometido. Todos
deuterocanônicos". Póncio Pilatos se b a s e i a m n a e v i d ê n c i a de
o governador testemunhas oculares den-
romano que
mandou cunhar tre seus seguidores mais
esta moeda, chegados: cada autor tem
autorizou a
Canetas, tinta e
crucificação de
seu próprio propósito e m
estojo d o período
d o NT.
Jesus. contar a história.
Atos é a continuação do Evange-
l h o d e L u c a s , a h i s t ó r i a d e c o m o os
primeiros cristãos, principalmente
P e d r o e P a u l o , d i f u n d i r a m as " b o a s
O Códice novas" de Jesus entre judeus e gen-
Sinaítico, tios, c h e g a n d o até a p r ó p r i a R o m a .
que data
d o século 4 d . C ,
contém todo o N T ,
Começando a estudar a Bíblia 17

AS CARTAS E APOCALIPSE

• Romanos • Tiago
• 1 e 2Coríntios • 1 e 2Pedro
a Gálatas • 1,2e3João
:: Efésios • Judas
: i Filipenses • Apocalipse
i: Colossenses
n 1 e2Tessaloni-
censes
• 1 e 2Timóteo
• Tito
a Filemom
Hebreus

A s 13 primeiras cartas — escritas


para "novas igrejas" recém-forma-
das — l i d a m c o m situações específi-
cas, questões q u e os cristãos e s t a v a m
levantando, e as necessidades d c líde-
res. Todas são d e autoria d e Paulo, o
"apóstolo dos gentios", cuja conversão
dramática é registrada e m Atos.
Hebreus (mais parecido c o m u m
sermão do que u m a carta) é u m
livro a n ô n i m o .
A s outras, cartas "gerais", d i r i g e m -
se a grupos mais amplos d e cristãos.
Apocalipse, embora u m a carta
circular, é o ú n i c o e x e m p l o n o N o v o
Testamento d e u m a o b r a "apocalípti-
ca". Escrita para cristãos perseguidos,
ela lhes assegura q u e os propósitos d e
Deus estão s e n d o e serão realizados,
até a história c h e g a r a o f i m , o m a l
ser finalmente destruído, e o p o v o d e
Deus g o z a r p a r a s e m p r e d a sua p r e -
sença nos " n o v o s céus e n o v a terra".
Introdução à Bíblia

O que é a Bíblia?
Steve Walton

Para muitas pessoas a Bíblia é u m u m a coleção de histórias — h á u m a 1. Criação


livro desconhecido. O que ela contém? grande história contada pelo con- Deus criou o universo do nada,
D o que se trata? É m e l h o r v e r a Bíblia j u n t o d e relatos i n d i v i d u a i s . N o c e n - pela sua simples p a l a v r a . G n 1
c o m o u m t o d o para não nos perder- t r o d a g r a n d e h i s t ó r i a está D e u s e o r e g i s t r a seis o c a s i õ e s e m q u e D e u s
mos e m meios aos detalhes. A s duas q u e ele está f a z e n d o c o m o m u n d o falou e acrescenta: " E assim acon-
maneiras mais eficazes de analisar a e a humanidade. A Bíblia começa t e c e u . " D e u s f i c o u satisfeito c o m o
Bíblia são: considerá-la u m a história; e c o m D e u s c r i a n d o os céus e a t e r r a , u n i v e r s o q u e c r i o u , e o c h a m o u de
ouvi-la c o m o u m a t e s t e m u n h a . e conta a história da sua relação " m u i t o b o m " ( G n 1.31). E l e c o l o c o u
c o m a h u m a n i d a d e até o d i a f u t u - pessoas n o seu m u n d o para cui-
A grande história r o e m q u e as g u e r r a s , as d o e n ç a s , d a r dele e usar todo o seu poten-
A Bíblia é u m m a g n í f i c o l i v r o de a m o r t e , e a d o r d e i x a r ã o de existir. cial, dando-lhes responsabilidade
histórias, c h e i o d e n a r r a t i v a s m u i t o Esta g r a n d e história t e m seis partes pelos animais, pássaros, á r v o r e s e
b e m escritas. M a s e l a é m a i s q u e principais. plantas.

2. Queda

D e u s d e u às p r i m e i r a s pes-
soas l i b e r d a d e p a r a e x p l o r a r o
j a r d i m e m q u e as c o l o c o u , m a s
proibiu-as d e c o m e r o f r u t o de
uma determinada árvore (Gn
2.15-17). I n f l u e n c i a d o s p o r
t i m a s e r p e n t e f a l a n t e (a p e r -
sonificação d o m a l ) , elas d e c i -
d i r a m n ã o f a z e r a v o n t a d e de
D e u s ( G n 3.1-7) e D e u s r e a g i u
expulsando-as do j a r d i m (Gn
3.22-24). E s t a h i s t ó r i a ( g e r a l -
mente c h a m a d a de "queda
da h u m a n i d a d e " ) é vital
para compreendermos gran-
de p a r t e d a B í b l i a , pois e x p l i -
c a q u e a r a ç a h u m a n a está d e
relações cortadas c o m D e u s
— e t o d a a criação foi afeta-
da pelo r o m p i m e n t o deste
relacionamento.
Começando a estudar a Biblia 19

3. Israel Os mandamentos também 4 . Jesus


diziam como o povo de Deus devia
viver (Êx 2 0 . 3 - 1 7 ) .
O povo, no entanto, não conse-
guia viver consistentemente como
Deus queria, e então outra parte cru-
cial da lei era o sistema sacrificial.
Quando o povo desobedecia à
lei, a maneira de "cobrir" seu erro
e restaurar o relacionamento com
Deus era o sacrifício de um animal
no lugar da pessoa que desobedece-
Em seguida vem o período de ra a lei. A pessoa colocava uma das Os profetas prometeram mais
Israel. Deus escolheu um homem, e mãos na cabeça do animal, para que um simples retorno à terra.
seus descendentes, para ser o meio demonstrar que este estava sendo Eles falaram de outras coisas boas
de reparar o estrago que a rebe- sacrificado por ela, para que Deus que Deus faria para seu povo, inclu-
lião humana contra Deus causara perdoasse sua desobediência. sive liberdade para adorar e viver
— um homem chamado Abr(a)ão Tratava-se de um procedimento como povo de Deus e a oportuni-
que vivia na cidade de Ur. caro, pois animais eram um gran- dade de envelhecer sem medo. Isto
Deus deu a Abraão uma promes- de sinal de riqueza na sociedade ficou ainda mais difícil quando o
sa tripla: uma descendência; uma rural da Antiguidade. Posterior- povo se tornou prisioneiro cm sua
terra que Deus daria a seus descen- mente, os sacrifícios passaram a própria terra c foi oprimido por
dentes; e que por meio da descen- ser oferecidos no Templo de Jeru- povos pagãos. No século 1 d.C,
dência de Abraão Deus abençoaria salém, a capital da nação. eles se sentiam como se ainda esti-
toda a humanidade (Gn 12.1-3). A vida de Israel continuou com vessem no exílio, sendo castigados
Após escolher esta nação, Deus muitos altos e baixos por mais de por Deus, embora estivessem fisi-
a protegeu e cuidou dela. 1 0 0 0 anos. camente na sua terra. Os romanos
Eles se tornaram escravos no A nação se dividiu após a morte os governavam e eles não tinham
Egito, mas Deus agiu para livrá-los do rei Salomão, e a parte norte do liberdade para viver como o povo
por intermédio de Moisés, tirándo- reino (Israel) caiu nas mãos dos de Deus devia viver. Mas as histó-
os do Egito, conduzindo-os numa assírios no século 8 a.C, porque rias centrais que os definiam como
peregrinação de 4 0 anos pelos abandonara sua fé cm Deus dando povo de Deus eram histórias de
desertos da Península do Sinai, até lugar a outras religiões. Deus agindo para resgatá-los — Ele
introduzi-los na terra onde Abraão O povo do reino do sul (Judá) fizera isto no êxodo e no retorno da
tinha vivido antes deles. foi levado ao exílio na Babilônia Babilônia, e por isso eles criam que
Este ato maravilhoso, chamado de cerca de 150 anos mais tarde, por Deus o faria novamente.
êxodo, tornou-se um momento mar- razões semelhantes. Nesse contexto aparece Jesus,
cante para a nação de Israel, pois, daí Mas Deus não desistira do seu um mestre judeu que curava e
em diante, eles se lembrariam desse povo. Ele restaurou o povo de Judá na falava do "reino" de Deus — afir-
episódio como o momento em que sua própria terra cerca de meio século mando que Deus ainda estava no
Deus os tinha salvado e os adota- depois. Profetas — que transmitiam a controle, apesar de seu povo estar
do. Até hoje, o povo judeu celebra o palavra de Deus ao povo — interpre- sofrendo e sendo oprimido.
êxodo na festa anual da Páscoa. taram este retorno como um "novo Durante três anos Jesus ensinou,
Enquanto estavam no deser- êxodo" (veja, por exemplo, Is 40.3-5; curou e libertou pessoas de forças
to, Deus fez outra coisa que seria 43.1-7). Os profetas também anuncia- opressivas, anunciando que o poder
muito importante para a vida da ram um salvador vindouro, que Deus de Deus podia ser visto no que Ele
nação: deu-lhes sua lei. A nação era enviaria para libertar seu povo, uma fazia e dizia (Lc 11.16-20).
sua por causa da sua bondade em pessoa que os judeus chamavam de Jesus se importava com os
tirá-la do Egito: logo, os "Dez Man- "Messias". Diversos grupos de judeus pobres e excluídos da sociedade —
damentos", um resumo da idéia tinham crenças diferentes com rela- Ele ajudou até estrangeiros despre-
central da lei, começam assim: ção ao Messias, mas todos esperavam zados que o procuravam (p. ex. Mt
"Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te que ele trouxesse o reino de justiça da 8.5-13). Jesus dizia oferecer reno-
tirei da terra do Egito, da casa da parte de Deus. vação para a nação, trazendo boas
servidão" (Ex 2 0 . 2 ) . novas do perdão de Deus. Ele falava
20 Introdução à Bíblia

a respeito do Templo de uma forma 5. O s s e g u i d o r e s d e Cristo prias necessidades. Além disso, eles
que sugeria que este seria destruí- tinham de estar prontos para sofrer
do e substituído de certa maneira pela sua fé em Jesus — muitos
por sua própria pessoa (Jo 2.18- foram excluídos socialmente, outros
22; Mc 13.1-2). morreram porque se compromete-
Esta mensagem não foi bem ram a segui-lo.
aceita pelos líderes judeus, cuja vida
dependia da existência do Templo.
Muitos deles estavam colaborando 6 . 0 fim dos tempos
com os governantes romanos e não
queriam a instabilidade que Jesus
aparentemente trazia.
Isto levou a uma trama para Após a sua ressurreição, Jesus
matar Jesus (Jo 11.47-53). Surpre- deu a seus seguidores a responsa-
endentemente, Jesus não resistiu a bilidade de contar aos outros sobre
isto. Ele parecia saber o que esta- ele. Antes de voltar para Deus, ele
va se passando e falava disso por prometeu dar-lhes poder para rea-
meio de parábolas (Mc 12.1-12). lizar esta grande tarefa.
Além disso, Jesus considerava sua Na festa judaica de Pentecostes,
morte a realização daquilo que os pouco tempo mais tarde, os segui-
sacrifícios representavam: perdão dores de Jesus foram surpreendi-
e renovação para o povo. dos pelo envio do Espírito Santo, Como os primeiros cristãos lida-
Na noite em cjue foi preso e jul- quando receberam a capacidade dc vam com este sofrimento? Como
gado, ele passou tempo com Seus falar em novas línguas, dc forma entendiam o que Deus estava fazen-
amigos, celebrando a Páscoa que que uma grande multidão foi atraí- do agora que Jesus deixara a terra?
comemorava o êxodo do Egito. da para ouvi-los falar sobre Jesus. O último livro da Bíblia, Apoca-
Jesus deu àquela refeição um novo Aquele pequeno grupo rapi- lipse, mostra que Deus tem o contro-
significado. Ele deu ao pão e ao damente espalhou a mensagem le dos processos da história, algo que
vinho da refeição um novo signi- sobre Jesus por todos os países ao elevaria os espíritos dos cristãos perse-
ficado. Ele interpretou o pão e o redor do mar Mediterrâneo. Peque- guidos à presença do grande Deus que
vinho da refeição como símbolos nos grupos de cristãos começaram serviam. Mais que isso, os primeiros
do seu corpo e sangue, entregues a formar-se, inicialmente entre o cristãos aguardavam um dia em que
na morte (Lc 22.14-20). povo judeu, mas depois também Jesus voltaria à terra para completar,
Pouco depois Jesus foi preso, entre não-judeus: a promessa feita finalmente, a obra que começara na
julgado e condenado à morte a Abraão de que toda a humanida- Sua vida, morte e ressurreição.
pelos líderes judeus, e depois de seria abençoada por meio da sua Nesse dia, os cristãos esperam a
pelos romanos (pois os judeus não descendência começava a se cum- renovação e restauração de todo o
podiam fazer execuções naquela prir! Estes grupos reuniam-se na universo de volta ao plano original
época). Ele foi executado por cru- casa de algum membro do grupo. de Deus na criação (Ap 21.1-8).
cificação. Trevas cobriram a terra E os primeiros grupos cristãos Será também um dia em que o
enquanto ele estava pendurado na tinham seus problemas! As car- mal e o pecado serão removidos
cruz. Jesus morreu. tas dos primeiros líderes cristãos do mundo, um dia no qual aqueles
Três dias depois Seus seguidores demonstram os tipos de dificulda- que rejeitam a Deus serão julgados
ficaram totalmente maravilhados des que tinham, ajustando-se a um e aqueles que confiam em Jesus
e alegres em vê-lo vivo novamen- novo modo de vida que derrubava verão o Senhor face a face.
te: a morte não fora capaz de der- barreiras entre as pessoas — bar-
rotá-lo. Ele era o mesmo Jesus que reiras de gênero, condição social e
conheciam há três anos, mas que raça (Gl 3.28).
agora estava mais vivo que nunca. Eles tiveram de aprender o que
Ele realmente era o Messias! significava ser seguidor de Jesus:
não era mais possível viver do jeito
que se quisesse. Cuidar dos outros,
principalmente de outros cristãos,
era mais importante que suas pró-
21

A Bíblia como testemunha


A Bíblia não conta esta história
dc forma distante, como um his-
toriador faria. Ela é escrita para
convidar aqueles que ouvem sua
mensagem a confiar em Jesus tam-
bém. E escrita para convencer seus
leitores a se tornarem seguidores
de Jesus, e ajudá-los a entender
como segui-lo com outras pes-
soas. Ler a Bíblia é como receber
um convite para uma festa — ela
busca nossa resposta!

Este grupo de jovens cristãos da Ásia representa


os milhões que ao longo dos séculos ouviram
a história da Bíblia c sc tornaram seguidores
de Jesus.

Traduções da Bíblia Capítulos


e versículos
A Bíblia ou, pelo menos, uma parte dela já guagem arcaica, e preferem uma tradução mais atual, Em edições modernas da Bíblia, o texto
foi traduzida para mais de 2400 línguas. No Brasil,como a Nova Tradução na Linguagem de Hoje. costuma ser disposto em parágrafos e seções. E
a Bíblia completa já foi traduzida, além do por- Ter mais de uma tradução na mesma língua, o caso, por exemplo, da Nova Tradução na Lin-
tuguês, para línguas minoritárias como, waiwai, longe de ser um problema, é uma bênção. Em guagem de Hoje. Um sistema mais antigo, ciiado
guajajara e guarani-mbyá. geral, as diferentes traduções se complementam, em grande parte para localizar textos bíblicos, é
Em português, assim como em outras línguasou seja, uma ajuda a entender a outra. Além disso, a divisão do texto em capítulos e versículos. Os
majoritárias, existem várias traduções. Algumas permitem uma leitura comparativa e uma melhor números dos capítulos começaram a ser inseridos
são mais antigas; outras, mais recentes. compreensão da mensagem da Bíblia. no texto bíblico no século 13 d.C. Os números dos
versículos foram acrescentados posteriormente, no
Alguns leitores preferem uma tradução mais Para maiores detalhes sobre diferentes tra-
século 16.
antiga como, por exemplo, a edição Revista e Corri- duções, veja p. 77.
gida de Almeida. Outros têm dificuldade com a lin- Cada livro da Bíblia tem um nome. Sempre
que se faz referência a uma passagem, este nome,
em geral abreviado, aparece em primeiro lugar.
Logo em seguida aparece o número do capítulo.
Um ponto separa o capítulo do versículo, que
aparece por último. Assim, uma referência bíblica
normalmente tem a seguinte estrutura: livro, capí-
tulo, versículo(s). Por exemplo: Gn 12.1-3 significa
"livro de Gênesis, capítulo 12, versículos uma três".
Rm.3.21-26 significa "carta aos Romanos, capítulo
três, versículos 21 a 26" (veja uma lista de abre-
viaturas no início do livro). Este sistema permite
localizar facilmente qualquer texto bíblico.
Por mais útil que seja o sistema de capítulos
e versículos, não deveria ser determinante na hora
de ler o texto. Afinal, essa divisão na faz parte
do original; foi acrescentada posteriormente, ÀS
vezes, a divisão do capítulo ocorre no meio da
história e o versículo termina com vírgula! Portan-
to, recomenda-se ler trechos mais longos, e com-
pletos. Em outras palavras, é melhor ler parágrafos
e seções do que ler versículos e capítulos.
22 Introdução à Bíblia

Lendo a Bíblia
Stephen Travis

Ler a Bíblia pode ser uma tarefa difí- O que motivou as pessoas que Relacionamento
cil. Às vezes é emocionante, renovador. contaram as histórias, compuse- Em segundo lugar, elas contam
Mas às vezes ficamos perplexos. ram os salmos, escreveram as car- a história do nosso relacionamen-
Como podemos começar e conti- tas, profetizaram o futuro? to com Deus. Há histórias sobre o
nuar lendo? Como elas viam Deus atuando povo tentando obedecer a Deus,
na vida das pessoas? mensagens de profetas e apósto-
É útil saber exatamente porque Podemos resumir seu propósito los incentivando o povo a redes-
estamos lendo. As pessoas lêem a em quatro categorias. cobrir o caminho de Deus, orações
Bíblia por várias razões diferentes. de pessoas que anseiam receber a
• Você pode lê-la como literatura. "Quando... um indivíduo bênção de Deus.
Os Salmos, por exemplo, e o livro humildemente toma este livro
de Isaías são considerados dois escrito por pessoas comuns Comunidade
dos melhores livros do mundo. e que traz bem evidenciadas Em terceiro lugar, cias falam
• Você pode lê-la para descobrir as marcas do tempo sobre nosso relacionamento com o
a história do mundo antigo. e as dificuldades causadas peio povo de Deus, a igreja. Os livros
• Você pode ler a Bíblia para estu- processo de transmissão, da Bíblia foram escritos em gran-
dar a base da fé e dos padrões o Espírito Santo começa a agir de parte para uma comunidade,
éticos judaicos e cristãos. e transmite Cristo por meio dele não para indivíduos. Então vere-
• Ou você pode ler a Bíblia para para a mente e o coração mos que sua mensagem se diri-
descobrir os temas e histórias e a consciência do leitor." ge a nós mais claramente quando
que inspiraram a obra de vários Donald Coggan estudamos a Bíblia com outras
artistas, músicos e escritores do pessoas do que quando o fazemos
mundo. História sozinhos.
Todas estas são razões positi- Em primeiro lugar, elas contam
vas para estudar a Bíblia. Mas só a história de como Deus convidou Sociedade
chegaremos ao cerne da ques- um grupo específico de pessoas Em quarto lugar, elas falam
tão se perguntarmos por que para conhecê-lo, de forma que no — principalmente no Antigo Tes-
os livros bíblicos foram final o mundo inteiro aprendesse a tamento — sobre nosso relaciona-
escritos. conhecê-lo e amá-lo. mento com a sociedade e o mundo.
Apesar da variedade de livros A Bíblia não é um livro sobre uma
na Bíblia e da grande extensão de religião que só se preocupa comi-
tempo durante a qual foi escri- go como pessoa. Ela mostra como o
ta, há uma linha de racio- povo de Deus devia refletir em suas
cínio em toda a obra que próprias vidas o caráter de Deus e
dá sentido às diversas seu interesse por todo o mundo.
partes. Ela dá milhares de exemplos do
significado de "ame o SENHOR, O
A Bíblia é como uma seu Deus... e ame o seu próximo
bússola, dando direção como você ama a você mesmo".
a nossas vidas.

Então, se quisermos ouvir a


mensagem da Bíblia, como deve-
mos lê-la?
• Reconheça a variedade
q u e h á n a B í b l i a . Há his-
tórias e parábolas, orações e
poesias, profecias e provérbios,
visões do céu e conselhos práti-
cos para o dia a dia.
Começando a estudar a Bíblia 23

Nossa vida encerra vários aspec-


tos diferentes e Deus se interessa
por cada um deles. Por isso, geral-
mente não é uma boa idéia tentar
ler a Bíblia direto de Gênesis até o
fim. É melhor, por exemplo, variar
de vez em quando entre o Antigo e
o Novo Testamento.
Um bom plano c começar com
um F.vangelho, depois ler alguns
salmos, depois uma das cartas
mais curtas do Novo Testamento, e
depois um trecho de Gênesis (capí-
tulos 1—11).
• Pergunte: "Que tipo de
l i v r o e s t o u l e n d o ? " Não
l e m o s um l i v r o de histó-
ria como lemos o manual de
m a n u t e n ç ã o d o c a r r o . Da
mesma forma, os vários tipos
de livros bíblicos precisam de descritos acima: o que aprendo Ler a Bíblia em pequenos grupos pode
ser uma maneira estimulante de cslodn-la,
abordagens diferentes. Quan- sobre o plano de Deus para o pois os membros d o grupo podem compartilhar
do leio o Sermão do Monte (Mt mundo; sobre meu relaciona- sua compreensão da mesma.

5 — 7 ) faço uma pausa a cada mento com Deus, com o povo


frase, porque todas as palavras de Deus, e com a sociedade c • A Bíblia não é um livro de
de Jesus são informações vitais o mundo? c u l i n á r i a com uma receita
para a vida cristã. Quando leio É claro que nem toda passagem para cada circunstância da vida
o livro de Eclesiastes no Anti- ensinará algo sobre cada uma des- moderna. Ela é parecida com
go Testamento, tenho uma tas quatro áreas da nossa vida. Mas uma bússola para nos guiar
abordagem mais descontraída sempre há algo para ajudar você a na direção certa, e não tanto
e me divirto com sua manei- refletir sobre sua vida com Deus. com um mapa que traz todos
ra estranha de ver a natureza • Precisamos também permi- os detalhes anotados. A men-
humana. tir q u e a B í b l i a n o s f a ç a sagem da Bíblia gradualmente
• Tente, de vez e m q u a n d o , p e r g u n t a s — deixar que ela transforma as pessoas no que
ler trechos mais longos de questione nossos pressupostos, elas deveriam ser.
uma só vez, especialmente nosso comportamento e nossas A Bíblia faz o cristão c o cristão
se estiver estudando um livro prioridades. reage a Deus e às questões da vida
narrativo. Não lemos apenas Ouviremos sua mensagem se a como Cristo reagiria.
duas páginas de um romance e abordarmos com a reverencia ade-
depois o colocamos de lado até quada — não uma reverência pelo
o dia seguinte. que está impresso no papel, mas
Leia um F.vangelho inteiro c pelo Deus que fala conosco por
você perceberá coisas sobre Jesus meio da Bíblia.
que jamais notara antes. • N ã o d e s a n i m e se sentir que
Leia toda a história de Davi precisa fazer um curso inten-
em 1 c 2Samuel e terá uma noção sivo de interpretação bíblica
melhor do envolvimento de Deus para poder começar a ler.
em todos os altos e baixos da vida Ninguém aprende a jogar fute-
dessa pessoa, algo que você jamais bol ou qualquer outro esporte
compreenderia se lesse apenas sentado na poltrona, lendo livros
alguns versículos de cada vez. de educação física! Use os guias
• À medida q u e lê, pergunte disponíveis, começando com
que ensinamento a passa- este Manual. Mas não deixe que
gem oferece sobre os quatro estes impeçam você de entrar em
aspectos do propósito da Bíblia campo!
26 introdução à Bíblia

Fazendo associações —
a Bíblia e a história do mundo
2000 a.C. —2000 d.C.

Judaísmo Primeira rebelião judaica |


Templo de Jerusalém deffl
Criação Josefo, historiador judeu I
das sinagogas Segunda rebelião judaita
Revolta dos macabeus sot> Bar Kochba
Septuagínta ou tradução Jesus
grega da Biblia hebraica
Mfe':
oslinl
Cristianismo |
iemita:
Igrejas fundadas no Impéiic fita.
0 período bíblico desde Abraão se sobre- profetas de Israel. A mensagem de Jesus apa- ena índia
ImperadorConstaniinoadola
põe a cerca de metade de nossa história até os receu numa época singular, quando o sistema o Cristianismo HiWi
dias de hoje. Como os acontecimentos bíblicos de comunicações do mundo romano e a língua Domingo setoma dia doSstafc
Concilio de llicéia esta&eíeteovrJFJ^
se relacionam com o que se passava no resto grega possibilitaram sua rápida propagação no CantodehinosdesenvorvKjo |
do mundo? Fazer ligações pode ser fascinante. Império Romano e no Oriente. Este diagrama traz por Ambrósio

Será que os israelitas levaram o monoteísmo ao apenas alguns dos personagens, acontecimentos
Egito, tendo sido mais tarde suprimido? As novas e ideologias que ajudam a mostrar o desenvol-
religiões na Ásia surgiram na mesma época dos vimento das idéias desde 2000 a.C.

Budismo, SicldhariliaGautama.Bi!da

hinduísmo, Rígveda, updnishads: poesia e ensinamentos hindus


Jainrsmofjndadona India
religiões
Con ludo na China
asiáticas
Taotsmo

1
Ideologias, crenças, idéias PaganisnwdáwiconaGiécia La o-Tsé. filósofo chinês Filosofia grega: Aristóteles. Platão Neoplatonismo, filosofia gre$>
Religião pantefsta se desenvolve na índia coroasiio.fundador Estoicismo
Politeísmo, religíõesétnicas. religiões Períododeadoracaoitionoleistado da religião persa Epicuroefilosofia "epicurista"
primitivas sol no Egito Ésquilo, Sófocles. Heródoto, Eurípedes
Slonehenge, Inglaterra:quebrar Sócrates, filósofomoral

Civilizações, pessoas, acontecimentos Era do Ferro Dispersão do povo celta pela Europa Alexandre, o Grande, (enquista Polinésios estabelecem colori):
Irtiliíaçãoeiíuíca (entrai eocidental aPérsiaeinvadeaíndia no Pacífico Civil
Egilo antigo ! Era do Bronze Império Assírio Grande Muralha daChina Governo romano, cultura helírií! t'.ií
Mesopotâmia Hititasem Anatólia Primeiros jocoso ímpícsrecjistfàdoi Grécia sob controle romano Imperador Constantino reúne:; Pin
Império Babilónico ; Império Romano impérios ocidentaleorienlil P
Hamuiábi dos códigos babilónicos Cananeus
Império Persa sendoacapital Constantin;^ Aial
Sele primeiros períodos da I iteratu ra Pompeu (aplura Jerusalém
Civilização grega HunosinvademaEuropa Jt
chinesa : Júlio César
Ilíada e Odisséia de Homero :V,i;
Cultura mínoica em Creta i Navios chineses chegam à índia
Construção da Acrópole em Atenas ; Horácio, Ovídio, Séneca
Adoção da democracia em Atenas
Início do Império Indiano
A Bíblia no seu contexto 27

Judeusinstalanvsena Alemanha, Ibn Eira, estudioso


11
llii'Oílirli.'i.'l ; 1 'i 11 ' i ' ' ' m: Holocausto judeu
desenvolvem a ling uâ lldlthe Maimónides. filósofo Estado judeu de Israel
110
Misticismo <abalístko|udeu
Perseguidos jtdeus
BaEmopa

gostinho Divisão eniiekjrejas romana fundação da ordem dominicana Biblia do Rei Tiago ÍKincj lames Version) Fundações de sociedades missiona rias Movimento ecuménico pa raunir igrejas
e oriental se torna permanente Tomás de Aquino, teólogo Presbiterianos e puritanos e bíblicas Publicação de "Os Fundamentos"
remitas do deserto
Construção de catedrais JohnVíytliffe, reformador ingle's Inicio da escola dominical
loiustiosmo Puritanospartem no navio Mayflower nos EUA. criando a palavra
na Europa iariHiß. reformador na Botona Pernéeosla! ismo
V' •:.!,! •: da ctCerr tendi Irra para a Amirica 'ftníarwntalisü'
leotoçü escolástica Primeira Coocfco do Vaticano
•SSÒttcetanal•; Herra Aoabatistas : iisrenciaiis-Tic rva teoloçjia
Con? egacoru listas
Bernardo de Clarara L eaiffalifc*dade papal
Seforau (Uteio, Catrinoi 5.111; i is - • -1* 11 igreja &#y (Vahan, evaocjefcsu
auto* dehn» Reamamento nos EUA:
üí*w9. prene-to porta crtsiào WiBiamTyndale traduzo NI em Londres Segunda Concilio do Vat k ano, reformas
Valdemes Moody eSankey
I hglès para o inglés catõltcas
Pietistas Critkada Biola
Francisco de Assis e os franciscanos
Inácio de Loyolaeos jesuítas lohn Wesley eos metodistas Movimento carismático
Albigenses
Concilio de liento: Contra • reforma da
Igreja Católica Romana

Mñbíossufistas Mjrwnc^rtasr^comtradasoolrá inpe>toolànii(OBa(»*à irnpaciodacGkura Islãracos proroorem estados


Islamismo e lei ocidentais em vanas arras rr*ulmanos
Primeira unívrisidaot em Império Otomana
til;j ní-.'
do mundo em Cairo
Mioñé
DeverrvoNimenlodaShaiia,
Império muçulmano da
leiíslàmica
LspanhaáChina

Propagação do império RanjitSingheos sikhs


e das obw hindus Rarnakrishna, mestre hindu
Primeiros santuários shintoistas
noJapão

liadouiadadocotihedri Renascença na a rir e no saber DesenvoU'imrntoda dent ia: Pasteur, Psicologia IFreud, Jung)
Nascea ciência; fundação Oiluminismo:rationallsmo,humanismo Faraday AlbertEinsteinearelatividadr
de sociedades cientificas Filósofos: Hoboes, Descartes. Spinoza, Charles Darwin,"AOrigemdasEspécies Comunismo
Copérnico afirma quea torra giraem Loifce. Hume, Rousseau, Kant por Seleção llatural' Teoria quântica na fiwa
torno do sol Boyle. Newton. Linnaeus, cientistas Marxeingels, Man ifesto Comunista Positivismo lóg k o
Nietzsche, filósofo Existencialismo
Feminrsno
Mkrobwkrçia, geriet«
Monrnento ambienialrtU
Movimento Mova Era

i OttofundaoSacioImpéiiollomann- Mongóis invadem a Asia c a Eu ropa Período barroco ; Revolução Industrial Primeira Guerra Mundial

Civilizaçãoraaia,México Germánico AstetasnaAméricaCeniral Rembrandt, artista Romantismo Fusão do átomo

Era dourada da aitebuantina Fu ndaçáo do im p ério Otom ano IS. Bach. Handel, compositores Eradas ferrovias Invenção da tele-máo
'ii , : 'M M. • i • i 'i
Prir*if3JC'nalinip(fivo err Cultsia inca no Peri Classicismo w leairo. m arquiteturas Exploração e colonialismo Segunda Guerra Mundial
Movineatos abolioontsus nVvoltçáoEletronka
him Car1asUagno.prriieroimcefjdordo ry-}.- .it-'t '• ; na Iteraiva
Telefone, eieinodaôe Maröa Luther King
LeonardodaVnõ Mozart. BeMba*« .erurucadisska
Uesopctànuiigiio, Jerusalém InketasCriuaias >->!• nvül ' f i " t -i da medicina CuHuraspopeiock
Gistcwáa Calcaba pane paia o Movo
Evangelhos dei ncisfamf Lançamento da Coca Cola Pnmeiraviagrmálua
Mundo 4

Pn meiros íogos olimpiíos modernos Epidemia de AID


William Shakespeare
internet
Automóveis
28 Introdução à Bíblia

A Bíblia no seu tempo


2500 » C 2250

Reino Exílio
Unido

Êxodo e Reino
conquista Dividido

Os patriarcas Israel no Egito


Reino
Rei Davi faz de Israel
Abraão no Norte
de Jerusalém sua capital
José Rei Acabe
fiei Salomão
Moisés Profeta Elias
constrói o Templo
Profeta Eliseu
Dez Mandamentos/ Samaria conquistada pelo
Lei de Deus dada no Sinai Assíria 722/1

Preparação do
Reino
Tabernáculo/Tenda Jeru
deJudá
de Deus no Sul pela
doT
Batalha de Jericó Profeta Isaías

Juizes Rei Ezequias

Sansão Profeta Jeremii

Samuel

Primeiros Jogos Olímpicos |


nul registrados c. 776
I Construção das pirâmides Prainha
do Egito de ouro,
Rómulo, primeiro rei * pç
I Criação de sepulturas reais d e Ur. ( m

em Ur de Roma
I Primeiras bibliotecas do mundo, Império Assírio M ~\C
I
na Mesopotâmia Civilização minóica em Creta Tutancámon Inicio da construçãotk
I do Egito (morto Acrópole em Atena -
eme. 13381
30 Introdução à Bíblia

Recriando o passado
John Bimson
O reíl (monte formado
por ruínas) da cidade bíblica
de Laquis.
No detalhe: instrumentos

"A arqueologia prova que a Bíblia é


verdadeira?"
Esta é uma pergunta feita freqüen-
temente a arqueólogos que também
trabalham com a Bíblia. O indagador
geralmente quer saber se há evidên-
cia arqueológica de que eventos espe-
cíficos aconteceram.
Na realidade a arqueologia rara-
mente dá evidência deste tipo. Na
maioria dos casos ela dá um contexto
no qual a Bíblia pode ser mais bem DESENTERRANDO CIDADES ANTIGAS
compreendida. Ate recentemente grande parte da
arqueologia bíblica envolvia a escavação
d e tells, m o n t e s f e i t o s d e r u í n a s d e c i d a d e s
Novas abordagens antigas. A s cidades nos t e m p o s da Bíblia
geralmente eram reconstruídas várias { o u lei e m h e b r a i c o ) . E s c a v a r u m tell sig-
Atualmente, a arqueologia
vezes no m e s m o local, muitas vezes após a nifica c a v a r p o r várias c a m a d a s ( o u estra-
envolve muito mais que a escava- d e s t r u i ç ã o p o r i n i m i g o s , i n c ê n d i o s o u ter- tos), s e n d o q u e c a d a c a m a d a r e p r e s e n t a u m
ção de t e l h (sítios arqueológicos). remotos. Uma cidade que é freqüentemen- p e r í o d o d e ocupação. Escavação e registro
te r e c o n s t r u í d a s o b r e s u a s p r ó p r i a s r u í n a s cuidadosos capacitam arqueólogos a com-
Levantamentos regionais podem acabará f o r m a n d o um monte d e t a m a n h o p o r a história d e u m a cidade, a v e r mudan-
nos ajudar a ver como cidades, c o n s i d e r á v e l e t a l m o n t e c u m tell e m á r a b e ça n o s e u s t a t u s e na s u a c u l t u r a .

vilas e acampa-
mentos nôma-
des estavam
relacionados,
e a entender o
clima, a produ-
ção de alimen-
tos e os padrões
mutantes de
assentamento
da antiguidade.
Estas abor-
dagens aparen-
I HISTORIA DE ADVERTÊNCIA
temente não estão relacionadas As primeiras tentativas d e ligar des-
com a Bíblia (c alguns arqueólogos cobertas a r q u e o l ó g i c a s à Bíblia l e v a r a m a
algumas conclusões enganosas. A desco-
não gostam do termo "arqueologia berta d e u m a série d e longas construções
bíblica"), mas, se elas nos capaci- retangulares e m M e g i d o e m 1928 ( a c i m a )
foi i n t e r p r e t a d a c o m o se f o s s e m e s t á b u l o s e
tam a entender como a sociedade
foi d a t a d a d o p e r í o d o d e S a l o m ã o . A d e s c o -
funcionava nos tempos bíblicos, b e r t a l o g o foi l i g a d a a u m a r e f e r ê n c i a , feita
podem indiretamente esclarecer a cm I R s 9.15, d e q u e S a l o m ã o reconstruiu
CERÂMICA AUXILIA A DATAÇÃO
M e g i d o e a s " c i d a d e s o n d e f i c a v a m o s seus
A s d a t a s d o s e s t r a t o s d e u m tell g e r a l -
Bíblia para o leitor moderno. carros d e guerra" mencionadas três versí-
m e n t e s ã o e s t a b e l e c i d a s p o r sua c e r â m i c a .
culos depois.
Estilos d e c e r â m i c a e s t a v a m s e m p r e m u d a n -
Subseqüentemente as construções do; assim, f r a g m e n t o s d e c e r â m i c a ( s e m p r e
foram datadas d o reinado d c A c a b e , um abundantes c m c a m a d a s d e o c u p a ç ã o ) são
século depois d e S a l o m ã o . A g o r a se suge- u m a b o a pista p a r a a d a t a e m q u e d e t e r m i -
re q u e estas c o n s t r u ç õ e s s ã o a i n d a m a i s n a d o estrato era uma cidade próspera. E m
recentes e alguns arqueólogos duvidam última análise, as d a t a s d a c e r â m i c a d e p e n -
q u e s e q u e r sejam estábulos. Isto d e v e n o s d e m d e ligações c o m o Egito ou a Mesopo-
advertir contra estabelecer conexões preci- tâmia, regiões nas quais l o n g o s p e r í o d o s de
pitadas. A evidencia arqueológica n e m sem- h i s t ó r i a a n t i g o s f o r a m r e c o n s t r u í d o s a par-
p r e é fácil d e i n t e r p r e t a r . tir d e listas d e r e i s .
A Bíblia no seu contexto 31

Esclarecendo A Pedra dc
INSCRIÇÕES
Roseta foi
o Antigo Testamento encontrada
Há, hoje,
Era g e r a l a a r q u e o l o g i a e s c l a r e c e o várias evidências
por soldados
contexto cultural, ao invés do contexto arqueológicas d e
de Napoleão
histórico d e u m e v e n t o da B í b l i a , c o m o que certo nível
perto de
demonstrado por estes exemplos do A n t i g o de alfabetiza-
Roseta,
Testamento. ç ã o era comum
junto ao
no Israel anti-
rio Nilo.
g o , c o m o a Bíblia Este anel, dos
Ela registra
s u g e r e ( v e j a , p o r séculos 8-7 a . C , traz
um decreto
TEMPLO DE SALOMÃO e x e m p l o , J z 8 . 1 4 , o nome de seu dono
do rei
A planta d o T e m p l o d e S a l o m ã o , c o m I s 1 0 . 1 9 ) . I n s c r i - em hebraico.
Ptolomeu V
sua d i v i s ã o t r i p l a , t e m s e m e l h a n ç a s c o m ções e m cerâmica e vasos d e pedra, e m
do Egito, em
t e m p l o s c a n a n e u s d o f i n a l d a Gra túmulos, pesos, marfins e
grego (parte
do Bronze e c o m um templo selos f o r a m d e s c o b e r t a s e m
inferior),
p o s t e r i o r d o n o r t e da Síria. diversas localidades. A l g u n s
escrita
Em seu i n t e r i o r , o T e m p l o d e nos e s c l a r e c e m indireta-
S a l o m ã o tinha painéis d e demótien egípcia (no m e n t e acerca da sociedade
madeira entalhados com meio), e hieróglifos (parte israelita.
querubins, palmeiras, superior). Ela foi a chave
cabaças e flores. Placas para decifrar a escrita U m a c o l e ç ã o d e óstracos
de marfim entalhado c m egípcia antiga. (fragmentos de cerâmica
estilo fenício, encontra- c o m i n s c r i ç õ e s ) d a Samaria,
das e m Samaria (figura que data d o século 8 a . C ,
d e palmeiras à esquer- registra o p a g a m e n t o de
d a ) e na S í r i a e A s s í r i a , impostos e m espécie (vinho
são semelhantes a essas e ó l e o ) aos a r m a z é n s d a c i d a d e . Eles r e v e l a m
decorações do Templo que alguns indivíduos supriam em grandes
de Salomão. q u a n t i d a d e s — u m sinal d e q u e e r a m pro-
p r i e t á r i o s d c g r a n d e s f a z e n d a s . A concentra-
A prática de Salo- ç ã o d e t e r r a s nas m ã o s d o s r i c o s foi m u i t o
mao de revestir gran- c o n d e n a d a p e l o s p r o f e t a s d o s é c u l o 8, p o i s
d e p a r t e da d e c o r a ç ã o isto o c o r r i a g e r a l m e n t e às custas d o s pobres
interior d o Templo com ( A m 8.4; M q 2 . 2 ; Is 5 . 8 ) .
H o u r o p o d e ser ilustrada
p;-. por templos egípcios.
E s t e s e x e m p l o s nos
ajudam a imaginar o
Templo de Jerusalém.
Eles t a m b é m m o s t r a m
que os detalhes da des-
crição são completa-
mente plausíveis no
seu d e v i d o c o n t e x t o .

As vitórias do Faraó
Mcmcptá (cerca de
1208 a.C.) foram
registradas nesta estela
(mais dc 2 m de altura).
Ela contém a referência
mais antiga, além
Na antigüidade, era comum usar fragmentos de
da Bíblia, a um povo
cerâmica, que sempre estavam a mâo. para fazer
chamado Israel.
breves registros e escrever cartas.
—v-V-

PRODUÇÂO DE AZEITE DE OLIVA


O azeite d e o l i v a era u m dos produtos
mais i m p o r t a n t e s d o s t e m p o s b í b l i c o s ( O s
2.8, e t c ) . Era u s a d o na c o z i n h a , na i l u m i -
nação d a s c a s a s , na f a b r i c a ç ã o d c c o s m é t i -
cos e c m v á r i o s r i t u a i s .
E s c a v a ç õ e s e m E c r o m ( T e l M i q n e , na
planície litorânea a o e s t e d e J e r u s a l é m ) t è m
esclarecido a produção d e ó l e o d e oliva d o
século sete a.C.
Bacias r e t a n g u l a r e s e c o m p r e s s o r e s d e
pedra e r a m usados para a m a s s a r as a z e i t o -
As duas fotos acima mostram
nas e cada bacia tinha a seu l a d o d o i s t o n é i s
métodos diferentes dc extrair óleo
para prensar a polpa a fim d e p r o d u z i r l í q u i d o
de oliva: o mais antigo era a viga
( 2 0 - 3 0 % d e ó l e o ) . V á r i o s pesos d e p e d r a s d e
e o peso; depois veio o pesado rolo
77 quilos e r a m usados n o p r o c e s s o d c pren-
de pedra; e, finalmente, a prensa.
sagem. Calcula-se q u e as 115 prensas d e ó l e o
d e Ecrom p o d i a m p r o d u z i r 5 0 0 toneladas, o u à direito: Estes jarros eram usados
652.500 litros por a n o . para armazenar óleo de oliva.
32 Introdução à Bíblia

Esclarecendo o Novo Os rolos do mar Morto foram


armazenados em jarros como estes
Testamento e escondidos cm cavernas da região pela
comunidade de Qumran quando esta
VIDA RELIGIOSA foi destruída pelos
A descoberta dos Manuscritos d o M a r romanos durante a
M o r t o c m 1 9 4 7 t r a n s f o r m o u nossa v i s ã o d o revolta judaica.
m u n d o d e Jesus.
Os rolos nos r e v e l a r a m uma seita d o
judaísmo (provavelmente a dos essênios)
1 >4 ,,. vl...,-.,,:.-. .--^v...'j
T
que tinha muitas características distintas c ,. Í...Í.I
;

a b r i r a m o s nossos o l h o s p a r a o f a t o d e q u e o •
j u d a í s m o d o p r i m e i r o século não era uma fé

uniforme e estática: ela estava m u d a n d o c
continha g r a n d e v a r i e d a d e e m seu m e i o .

Escavações em Qumran descobriram o saiptoritim,


isro é, a sala em que os rolos foram escritos.
A Bíblia no seu contexto 33

AS CONSTRUÇÕES DO REI HERODES À cidade foi construída e m escala, c o m Parte d e um m o n u m e n t o c o m o nome e


teatro, anfiteatro, b a n h o s públicos, está- título d e P i l a t o s foi d e s c o b e r t o c m Cesaréia
Em v á r i o s a s p e c t o s o m u n d o q u e J e s u s
dio e um t e m p l o c m honra a o I m p e r a d o r e m 1961 (veja "Os j u d e u s s o b o g o v e r n o roma-
conheceu fora m o l d a d o por H e r o d e s o
Augusto. no: a p r o v í n c i a da J u d e i a " ) .
Grande ( 3 7 - 4 a . C ) . H e r o d e s foi responsá-
vel por muitas construções q u e alteraram O palácio d o p r ó p r i o H e r o d e s e m Cesa-
o panorama d e Jerusalém c d e outras cida- réia mais tarde tornou-se residência d o s
d e s d o seu r e i n o , t a i s c o m o H e b r o m , J e r i - g o v e r n a d o r e s r o m a n o s da Judeia, inclusive
có e Samaria ( r e n o m e a d a Sebaste, nome P ô n c i o Pilatos.
grego c m honra a A u g u s t o C é s a r ) .
Em Cesaréia ( t a m b é m n o m e a d a e m O teatro d o rei Herodes, cm Cesaréia.
honra a o i m p e r a d o r ) , H e r o d e s f e z d e u m
pequeno ancoradouro um p o r t o impor-
tante, o r d e n a n d o a seus e n g e n h e i r o s q u e
c r i a s s e m u m p o r t o a r t i f i c i a l g r a n d e o sufi-
ciente para o s m a i o r e s n a v i o s m e r c a n t e s
da é p o c a .
34 Introdução à Bíblia

A JERUSALÉM DO PRIMEIRO SÉCULO


Escavações no setor j u d a i c o d e Jerusa-
lém d u r a n t e a d é c a d a d e 1970 r e v e l a r a m
exemplos d e mansões, ocupadas pela elite
( p o s s i v e l m e n t e s a c e r d o t e s ) no s é c u l o u m d a
era c r i s t ã .
Uma delas, agora conhecida simples-
m e n t e c o m o a mansão, foi c o n s t r u í d a e m
d o i s n í v e i s n u m t e r r e n o i n c l i n a d o . A s prin-

cipais áreas d c estar f i c a v a m no t é r r e o , e


no p o r ã o h a v i a c i s t e r n a s e b a n h e i r a s p a r a a
purificação ritual. U m a d a s salas d o t é r r e o
tinha um s e g u n d o andar.
As paredes tinham r e b o c o d o s dois lados
e os interiores t i n h a m o r n a m e n t a ç ã o rica
em d e t a l h e s . A l g u n s d o s p i s o s e r a m d e c o -
rados c o m mosaicos. V i d r o s e cerâmica d e
luxo b e m c o m o mesas d e pedra d e alta qua-
lidade foram encontrados nessas casas, q u e
foram destruídas e m 70 d . C , q u a n d o Jeru-
s a l é m foi t o m a d a p e l o e x é r c i t o r o m a n o .
Estas d e s c o b e r t a s d ã o u m a i d é i a d a v i d a
d e s f r u t a d a p e l o s r i c o s na é p o c a d e J e s u s ,
tais c o m o o l í d e r j u d e u q u e é m e n c i o n a d o
em Lc 18.18-23.

CAFARNAUM
Em c o m p a r a ç ã o , g r u p o s d e c a s a s e s c a -
v a d a s e m C a f a r n a u m i l u s t r a m as casas b e m
mais simples das pessoas que v i v i a m nas
províncias.
A s p a r e d e s e r a m f e i t a s d e p e d r a s basál-
ticas i r r e g u l a r e s , c o m p e d r a s m e n o r e s e
argamassa para preencher os espaços.
A l g u n s pisos e r a m d e pedra e p e q u e n o s
objetos p o d a m ser facilmente perdidos e n t r e
as p e d r a s , c o m o na p a r á b o l a d a m o e d a per-
d i d a q u e Jesus c o n t o u ( L c 1 5 . 8 ) . A l g u m a s
casas tinham s e g u n d o andar. O s telha-
dos e r a m f e i t o s d e v i g a s q u e s u s t e n t a v a m
galhos ou juncos, cobertos c o m argila.

Salas e objetos descobertos em escavações na


Cidade Alta, cm Jerusalém, em frente ao Templo
de Herodes. Essas casas foram queimadas quando
os romanos tomaram Jerusalém em 70 d . C , após
a revolta judaica.
A Bíblia no seu contexto 35

O COTIDIANO
N o c l i m a e x t r e m a m e n t e s e c o da bacia
do M a r M o r t o , sandálias, cestos, esteiras
c roupas s o b r e v i v e r a m d e s d e os séculos 1
e 2 nas l o c a l i d a d e s d e M a s s a d a e E n - G e d i .
Estes o b j e t o s i l u s t r a m d e f o r m a i o d a e s p e -
c i a l o c o t i d i a n o na J u d é i a a n t i g a .

Jarros- pratos e objetos domésticos de bronze


encontrados em Massada.

Reconsirução parcial iVo detalhe: As vezes,


de uma das casas de síío encontrados
Para mais informações sobre Jerusalém dcsiruídas artefatos que revelam
em 70 d.C. Seus a habilidade de quem
a vida diária veja:
móveis e piso em os fez. Um exemplo é
198 Vida nômade mosaico dão uma idéia este vaso de vidro, que
do estilo de vida dos data de época próxima
242 Vida sedentária ricos, apenas 40 anos à de Jesus.
após a morte de Jesus.
Um poço reconstruído
nos ajuda a entender
um aspecto importante
do cotidiano nos
tempos bíblicos.
36 Introdução à Bíblia

A terra de Israel
Israel jamais foi um país gran-
de ou muito poderoso. A distân-
cia de Dã, no Norte, a Berseba, no
Sul, não chega a 230 quilômetros.
Mas sua posição na estreita faixa
de terra entre o mar e o deserto na
parte oriental do Mar Mediterrâ-
neo lhe confere importância espe-
cial. Desde a antiguidade até hoje
a terra e seu povo têm sofrido com
uma série de lutas. Nos tempos
bíblicos, essas lutas eram travadas
geralmente entre as grandes civili-
zações da Mesopotâmia, a Nordes-
te, e do Egito, ao Sul.

Agricultura e geografia
Asdode
Israel produz uma extensa
+42 m
variedade de alimentos. Cereais e
grãos, legumes, uvas, figos, romãs, DIAGRAMA DA TERRA
azeitonas e tâmaras são cultivados A s regiões g e o g r á f i c a s d e Israel esten-
dem-se d e N o r t e a Sul, paralelas à costa.
desde os tempos bíblicos. Dcslocando-sc para o interior, a planície
Desde a época de Abraão e litorânea dá lugar a u m a cadeia d e peque-
nas c o l i n a s , s e g u i d a d a r e g i ã o m o n t a n h o s a
mesmo antes disso, ovelhas e central, q u e forma a "espinha dorsal" de
cabras são criadas naquela região t o d o o país. Passando essas m o n t a n h a s , a
altitude cai drasticamente até se c h e g a r ã o
acidentada e pedregosa, provendo
vale d o Jordão, sendo que existem mais
leite, carne e lã. Pastos mais ver- cadeias d e montanhas a leste.
des possibilitam a criação de gado.
Peixes são abundantes no Lago da
Galileia.
O Mar Morto fornece sal e miné-
rios. Mais ao Sul, é extraído cobre e
o deserto é rico em minérios.

A PLANÍCIE LITORÂNEA A REGIÃO MONTANHOSA CENTRAL


A e x t r e m i d a d e sul d a p l a n í c i e l i t o r â n e a Os montes de Samaria e os montes
foi n o p a s s a d o a t e r r a d o s f i l i s t e u s . P e r t o da Judeia, mais a o Sul, são parte desta
de Haifa, ao Norte, a planície é interrom- "espinha dorsal" d c montes acidencados e
pida p e l a s e r r a d o C a r m e l o , cujas c o l i n a s rochosos.
s e e s t e n d e m p a r a o i n t e r i o r a t é se u n i r e m à
região montanhosa central.
Para mais intormações veja:
38 Animais eaves
40 Árvores e plantas
A Bíblia no seu contexto 37

índice pluviométtico Regiões de Israel


CHUVAS
Israel t e m d u a s esta-
ções: o i n v e r n o , frio e
úmido: o verão, quente e
seco. A t e m p e r a t u r a v a r i a
bastante d e uma r e g i ã o
para o u t r a . N o i n v e r n o ,
pode nevar c m Jerusalém c
cair c h u v a g e l a d a na G a l i - Mar Mediterrâneo Monte Heimm
leia, e n q u a n t o a t e m p e r a -
tura m é d i a e m J e r i c ó n ã o
baixa d e 15"C. N o v e r ã o , a
t e m p e r a t u r a m é d i a n o lito-
GALILEIA rlANALIO
ral e na r e g i ã o m o n t a n h o s a MtlLUA ORIENTAL
é d e 2 2 - 2 5 ° C ; na r e g i ã o d o :S .-..>-<, logo,
Mar M o r t o s e m a n t é m u m a , Haifa-- \ da Galileia
temperatura constante de MomeCotmeb • ra Nazaré' " \
4 0 ° C d u r a n t e o d i a . A s chu- Ptaakie ; í v

vas c o m e ç a m e m o u t u b r o , / delezréâ^A
são mais f o r t e s e m d e z e m -
bro/janeiro e terminam ! Moptêsr-.: i ;
Jerusalém de Somaria
por v o l t a d e a b r i l .

Gaza Mor / - = 0 DCUORDÃO


Morto
Berseba
Monie Hebo
Belém 1 . / .'_ .-
PLANÍCIE
COSTEIRA
\tAar -
Morte

Belém Berseba
Mat Morto Monte Nebo
+760 m
-390 m +833 m DESERTO
+1000 m DONEGUEBE

+500 m

Nivél do mar

-500 m

-lOOOm

0 VALE DO JORDÃO GALILEIA 0 DESERTO


O Jordão c o m e ç a perco d o sopé d o monte Ao norte d o monte C a r m e l o , o territó- A o sul d e B e r s e b a está o d e s e r t o d o
Hermom e c o r r e para o Sul, d e s c e n d o cerca rio se a b r e numa a m p l a c fértil p l a n í c i e , N e g u e b e . Aqui o índice pluviométrico é
d e mil m e t r o s a l é c h e g a r a o m a r M o r t o (a o vale de Esdraelom ou de Jezreel. A l é m b a i x o , e t u d o q u e se v ê s ã o p e q u e n a s m a n -
m e n o r a l t i t u d e d o m u n d o n o seu p o n t o d e l a e s t ã o os m o n t e s e vales q u e c e r c a m o chas d e v e g e t a ç ã o e uma eventual acácia
mais b a i x o , o u seja, m a i s d e 8 0 0 m a b a i x o l a g o da Galileia. A c i d a d e d e Dã e o monte e n t r e o s m o n t e s á r i d o s . Estes ficam m a i s
d o n í v e l d o m a r ) . O v a l e é. u m a d e p r e s s ã o H e r m o m , que é coberto de neve ( 2 8 4 0 m altos, acidentados e imponentes à medida
profunda, q u e foi c r i a d a p o r f a l h a s g e o l ó - d e altura), m a r c a m a fronteira ao norte d o q u e s e v a i na d i r e ç ã o d o S i n a i , a o Sul.
gicas nessa á r e a i n s t á v e l . P o s s u i u m c l i m a país.
quente e ú m i d o b e m c a r a c t e r í s t i c o .
38 Introdução à Bíblia

Animais e aves
Animais gazelas, camundongos, ratos e outras
Antes da época de Abraão, ove- criaturas pequenas, bem como o tími-
lhas e cabras já pastavam nos mon- do hiracoídeo que se esconde entre as
tes acidentados e rochosos de Israel, rochas.
fornecendo leite, queijo e carne. A lã, Havia muitas cobras, a maioria
usada para fazer vestimentas, sempre delas inofensiva, mas algumas que
foi valiosa. podiam ser letais, inclusive víboras,
que foram, possivelmente, as que
picaram os israelitas durante a jorna-
da pelo deserto.
Havia também gafanhotos e oca-
sionalmente nuvens destruidoras de
gafanhotos do deserto.
No lago da Galileia havia uma gran-
de variedade de peixes (veja "A pesca
no mar da Galileia").

Cobras cxisletn em todas as regiões de Israel.


Não é fiícil identificar as que são mencionadas
Os campos mais férteis de Gileade na Bíblia. A serpente mortífera de Nrn 21
e Basã, a leste do rio Jordão, fizeram provavelmente í- a víbora, semelhante à víbora dc
chifres (acima). Muitas, como a cobra de Clifford
com que essas regiões ficassem famo- (abaixo), são inofensivas.
sas por seu gado.
Camelos e jumentos são animais
de carga e transporte de pessoas nos
países do Oriente Médio desde os
primórdios. Mulas são uma cruza de
jumento e cavalo. Havia cavalos no
Egito na época de José. Eles puxavam
carruagens e eram montados por sol-
dados na frente de batalha.
Um número bem maior de ani-
mais selvagens habitava a terra de
Israel nos tempos bíblicos do que
acontece atualmente — lobos, leões
Camelos são muito importantes em regiões dentro c
e ursos, raposas e chacais, o jumento ao redor do deserto. Os tnklianitas atacaram Israel
selvagem (onagro), o íbex, veados e montados cm camelos (.1/. n.S). A rainha dc Sabá
utilizou-os para transportar cargas ( l l t s 10.2).

faamhfmeinfonmaxsveja:
Ovelhas e cabras 144,269, etc.
Gafanhotos 165,489
Há mais de 40 tipos dc lagartos em [ m e l .
Codornizes 196 B t c é o lagarto Dabb.
Jumentos 248,259, etc.
Corvos 291
Arganazes 383
Pombos 405,599
Gazelas 405 Deus disse que Ismael, o filho de Abraão e Agar.
seria como o jumento selvagem (foto), lutando
contra iodos (<;n 16.12).
A Bíblia no seu contexto 39

Nos tempos bíblicos, a maioria das pessoas simples


usava jumentos para se locomover e fazer o transporte de cargas.
Jesus entrou em Jerusalém montado

Pássaros
Uma variedade de habitats, do semi-
tropical ao árido, contribui para a riqueza
O raio do deserto è um dos vários roedores de pássaros que podem ser encontrados
encontrados em diferentes habitais de Israel. em Israel. Além dos que são nativos,
muitos pássaros passam pela região na
primavera e no outono, numa im portan-
te rota migratória da África para a Euro-
pa e a Ásia Ocidental.
A Bíblia menciona muitos pássaros
que não podemos identificar clara-
mente. Dentre os que podemos estão
a águia, o abutre, a coruja, a cegonha, a
garça, a andorinha, o pardal, a codorniz,
a perdiz, a rolinha, a pomba, a gralha e
0 "bode selvagem" mencionado em versões mais
amigas da Bíblia é o íbex núbk>. Embora nesta
o corvo.
foto apareça em terreno plano, o Ibcx é um animal
montês, podendo ser visto ainda hoje nas arcas
rochosas perto de En-Gcdi.

v»V
O órix ( d o deserto) estaria extinto, se não fosse
criado em cativeiro.
40 Introdução à Bíblia

Arvores e plantas
Árvores
Embora seja provável que Israel
jamais tenha tido florestas densas,
algumas áreas atualmente descampa-
das eram regiões de floresta nos tem-
pos bíblicos.
A árvore do deserto é a acácia, usada
pelos israelitas para construir a arca da
aliança e partes do tabernáculo.
Carvalhos, abetos, ciprestes e
pinheiros cresciam nos montes.
Álamos, salgueiros, tamargueiras e
loureiros formavam densas moitas ao
longo das margens do rio Jordão.
As mais importantes eram as
árvores frutíferas: vinhas e oliveiras,
As uvas amadurecem na vinha. ísta palmeira cresce i
figueiras, pés de romã, tamareiras e subtropical.
amendoeiras.
O cedro usado para o palácio do
rei Davi e o Templo de Salomão foi tamarjmeira
importado do Líbano. em flor.

As olivas são um produto importante em Israel.


Figos crescem numa arvore que
faz sombra perto de uma casa.

Para mais fotos e informações veja:


Acácia do deserto 174
Papoulas 391
Romãs 405
Videiras427,638
Figueira 623
h
i' r , fl A n £ O O
A Bíblia no seu contexto

Plantas e ervas
Os contrastes de clima resultam
numa variedade incomum de plantas
e flores silvestres.
Uma exuberância de flores do
campo adorna os montes da Galileia
na primavera — os "lírios do campo" A Bíblia usa mais de 20 palavras
de que fala Jesus — açafrão, anémo- 1
para referir-se a espinheiro ;!
na, narcisos, ciclamens, papoulas,
margaridas amarelas e muitas outras.
Ervas e especiarias sempre foram A mais vivaz das flores da
primavera é a anémona
valiosas, algumas por seu uso medi- vermelha.
cinal, outras pelo sabor que acrescen-
tavam a uma dieta um tanto insossa.
Entre as ervas comuns estão cominho,
endro, alho, anis, hissopo, arruda,
menta e mostarda. O crisantemo amarelo pode ser As papoulas florescem
um dos "lirios do campo" de até nos lugares mais
Há também mais de 120 tipos c|ue Jesus falou. pnliey.i IMIS.
de ervas daninhas e espinheiros em
Israel!

A íris amarela é uma planta Na antiguidade, o papel era


do brejo. feito do caule do papiro.
42 Introdução à Bíblia

O calendário de Israel
O calendário é uma daquelas coi- desenvolveram seus próprios siste-
sas essenciais à qual nem sempre se mas com grande índice de precisão.
dá o devido valor. Os mais antigos Sabemos pouco sobre o calendá-
calendários, inclusive os do Israel rio israelita antigo, com exceção das
antigo, foram elaborados em função festas. Mas o Mishnah (a coleção de
das estações do ano agrícola e dos leis judaicas feita no final do século
ritos religiosos associados a essas 2 da era cristã) faz uma descrição
estações. Por causa disto, e porque completa do sistema que os judeus
era tudo tão complexo, os sacerdotes criaram sob influência babilónica.
se tornaram especialistas na adminis- Ele continuou a ser usado junto com
tração do calendário. O comércio e o o calendário romano. Este, que foi Quando os israelitas chegaram a Canaã, eles
governo também exigiam datação tão bem reformado por Júlio César, usaram os antigos nomes cananeus para designar
os meses. Durante o exílio, esses nomes foram
precisa. Assim, os grandes impérios sobrevive quase intacto ainda hoje, subsiiniídos pelos nomes babilónicos que
da Mesopotâmia e do vale do Nilo dois mil anos depois. aparecem nas colunas abaixo.

MARÇO MAIO JUNHO JULHO AGOSTO


NISA LAR SIVÃ T A M U Z A B E
Mês 1 Mês 2 Mês 3 Mês 4 Mês 5
nome antigo: Abibe nome antigo.Zive
Colheita de linho Colheita de linho Colheita de grãos Cultivo das Colheita de Colheita O
e cevada videiras frutas de verão de uvas e olira de uv
Festas: Festas:
14-21 Páscoa e Pães Colheita/Semanas >mbe
sem Fermento (Pentecostes) "obeniác
A Bíblia no seu contexto 43

Paro mais iníormupes veja:


UM PROBLEMA NO NOVO TESTAMENTO
O sábado (dia dc descanso) semanal A maioria dos autores d o N o v o Testa- 190 As grandes testas religiosas
a p r e s e n t a v a seus p r ó p r i o s p r o b l e m a s , p o i s m e n t o relaciona certos acontecimentos c o m
o ano não contém um número inteiro de o calendário judaico c m uso naquele tempo.
semanas, n e m um número inteiro d e meses. Ocasionalmente eles identificam datas
Na a n t i g u i d a d e o s á b a d o p o s s i v e l m e n t e e r a fazendo referência a governantes não-
a j u s t a d o p a r a c o i n c i d i r c o m as testas princi- judeus. Lucas, por e x e m p l o , refere-sc ao
pais o u a t é m e s m o c o m o s d i a s d e lua n o v a i m p e r a d o r r o m a n o T i b é r i o e m seu E v a n g e -
( v e j a l.v 2 3 ) . D e p o i s d o e x í l i o , o s á b a d o d e lho. Os relatos eslão repletos d e referências
sete c m s e t e d i a s passou a ser o b s e r v a d o às g r a n d e s festas a n u a i s : P á s c o a , T a b e r n á -
com maior rigor e tornou-se independen- culos, Pentecostes. Mas até nisto não havia
te d o c a l e n d á r i o l u n i s o l a r , d c m o d o q u e o s uniformidade absoluta. Havia pequenas
judeus ortodoxos vieram a ler problemas diferenças entre o calendário seguido pelos
com a relação e n t r e s á b a d o s e festas. fariseus c o c a l e n d á r i o d o s saduceus.

i: \ : sn
A foto mostra uni auxilio
simples para lembiat
';y m ' J i m
as estações d o ano
agrícola. As anotações, em
hebraico, foram gravadas
sobre pedra calcária
por volta de 900 a.C.
Encontrado em Gezer, este
artefato <• conhecido <»i«<>
o "Calendário de Gezer".

OUTUBRO NOVEMBRO DEZEMBRO JANEIRO FEVEREIRO MARÇO


Tisri Marquesvã Quisleu Tebete Sebate Adar
Mês 7 Mês 8 Mês 9 Mês 10 Mês 11 Mês 12
fit anrigo: Etanim nome antigo: Bui
Colheita Lavragem Lavragem Lavragem Cultivo tardio Cultivo tardio
de uvas e olivas e plantio e plantio e plantio
feras; Chuvas de outono Chuvas de outono Chuvas Chuvas
kmUuis (Ano Novo) Festas: da primavera da primavera
imóculos (Bairacas) Luzes (Dedicação Festas:
do Templo) Purim
ENTENDENDO
A BÍBLIA
46 Introdução à Bíblia

Dicas para entender


John Goldingay

A Bíblia não é o que a maioria de Entretanto, mais da metade da


nós espera de um livro religioso ou Bíblia é história, e então é por aí
texto sagrado. que vamos começar.
Em primeiro lugar, ela é mais uma
biblioteca que um único volume. Ela A natureza da história
abrange histórias, parábolas, leis, ora- bíblica
ções, poemas, cartas, visões, profecias Precisamos ter três coisas cm
e outros tipos de literatura. Estas não mente para entendermos os livros
são obra de um único autor, mas de históricos da Bíblia.
uma variedade de autores humanos • Em primeiro lugar, a maio-
que escreveram em mais de um con- ria deles tem u m interesse
tinente, viveram em mais de um milê- pelos fatos. Isto os aproxima
nio e falaram em mais de uma língua. bem mais da história do que da
Assim, esta "mensagem de Deus" é ficção.
diferente do que algumas outras reli- A fé cristã é fundamental-
giões acreditam ter. mente um "evangelho" — uma
mensagem de "boas novas" da
A maior parte da Bíblia não afir- parte de Deus. Ela diz às pes-
ma ter sido "ditada" por Deus. Ela Quando abrimos a Bíblia, devemos perguntar o soas, por meio da história de
nem sempre é Deus falando para o que eslamos lendo, tode ser uma hislória, como Israel e dos relatos da vida de
pode ser unia cana.
povo. Pode ser o povo falando com Jesus, o que Deus fez por elas,
Deus, como nos Salmos. Ou pode na convicção de que estas coi-
ser pessoas falando para pessoas, "Acima de tudo, o cristianismo sas são decisivas para a maneira
como nas cartas do Novo Testa- é uma religião narrativa, como as pessoas se relacionam
mento escritas por Paulo. eéa narrativa que faz dela uma com Deus. Se Deus jamais hou-
religião sólida. As histórias são vesse feito algo em benefício de
Deus fala através de pessoas eloqüentes. Até mesmo não- Israel ou cm Jesus, não haveria
Em toda a Bíblia Deus fala por cristãos e ateus reconhecem que evangelho. Assim, os fatos são
intermédio de pessoas. Isto signi- elas penetram nosso ser." essenciais para que se entenda
fica que entender as pessoas pode Jim C r a c c a Bíblia.
nos ajudar a entender a Bíblia. Mas não devemos impor à
Sc, por exemplo, você sabe o que Se recebermos quatro corres- Bíblia nossas próprias expec-
significa sentir dor, ficar com raiva, pondências, leremos cada uma à tativas quanto à sua natureza
estar deprimido, ter alegria, amar, luz do que é — uma propaganda, histórica. A história bíblica é
prestar culto, entenderá e poderá sc uma conta, uma carta de amor ou uma combinação divinamente
identificar com muitos dos salmos. uma carta contendo uma oração. inspirada de fatos e criativida-
Se você puder se colocar na situa- Se as correspondências vêm da de literária.
ção de um líder de igreja que se nossa própria cultura, sabemos ins- O fato de que a história da
preocupa com a sua congregação, tintivamente como lê-las. Se vêm Bíblia está ligada à natureza da
ou de um membro da igreja que é de outra cultura, é mais provável fé cristã como "evangelho" tem
repreendido pelo pastor, isto o aju- que as entendamos mal. Podemos outra implicação.
dará a compreender as cartas do até acreditar na propaganda quan- As pessoas são, muitas vezes,
Novo Testamento, que foram diri- do lemos: "esta é uma oferta espe- tentadas a ler a história da
gidas às primeiras igrejas cristãs. cial feita só para você!" Bíblia principalmente para tirar
Os livros da Bíblia vêm de cul- exemplos de como devem viver.
Que tipo de livro é esse? turas diferentes da nossa. Assim Mas se o objetivo da história
Para entender determinado livro sendo, como podemos entendê-los? bíblica fosse simplesmente ins-
da Bíblia, precisamos descobrir que Normas diferentes se aplicam pirar-nos dessa maneira, ela
tipo de material estamos lendo. a tipos diferentes de literatura. teria sido outro tipo de histó-
Entendendo a Bíblia 4.7

ria. Muitas vezes, parece que Os livros d o NT foram escritos para públicos diferentes,
usando palavras e conceitos conhecidos por eles:
os personagens da Bíblia nos
mostram os dois lados: como
se leva uma vida fiel e dedicada
a Deus, e como não se deve ser
povo de Deus.
Isto em si reflete o fato de
que a história da Bíblia tem
mais a ver com o que Deus fez
com as pessoas do que com
aquilo que as pessoas fizeram.
Os eventos ocorrem apesar das
pessoas tanto quanto por inter-
médio delas.
Assim, ao lermos a história
da Bíblia, devemos ter uma
pergunta em mente:
"O que Deus está fazendo
aqui, e como, e por quê?"
Uma segunda característica
Pessoas "no mercado", à medida que as his-
das histórias bíblicas, como de tórias sobre Jesus c a m e n s a g e m cristã sc
qualquer história, é que ela é difundiam.
Judeus religiosos, representados pelos dois
escrita p a r a um público.
h o m e n s l e n d o a Tora j u n t o a o M u r o d a s
Por exemplo, os livros de Lamentações, em Jerusalém.
Romanos, como os que aparecem neste relevo,
Samuel e Reis, de um lado, e
lendo rolos.
Crônicas, de outro, nos dão
duas versões da história de
Israel no período dos reis. São
versões diferentes da mesma
história, porque elas foram
escritas para públicos em situa-
ções diferentes:
- Israel sob o castigo de Deus
após a queda de Jerusalém
- e Israel um século mais
tarde, quando de certa forma
Deus o havia restaurado.
Essas duas comunidades
precisavam que lhes fossem
apresentadas perspectivas
diferentes da mesma história.
Se entendermos para quem o
livro foi escrito, apreciaremos
o motivo pelo qual a história
é contada daquela maneira e
entenderemos melhor o que
cie procura transmitir. Pessoas de fala grega no mundo helenista que
Uma terceira característica de havia colonizado grande parte daquela região
- como a cidade de Jerash, na atual Jordânia.
uma história bíblica é que ela é
história, com todas as carac-
terísticas de uma boa história.
Tem começo, meio e fim e
um enredo cheio de surpresas Pensadores c filóso-
fos, como aqueles que
(a história de José ou de Jesus,
debateram com Paulo
por exemplo). em Atenas.
48 Introdução à Bíblia

Cirande parte da Biblia I lebraica. a Torá que este


Ela tem personagens: alguns
rabino está lendo, é instrução, ou seja, as regras
personagens são tão com- pelas quais Deus protege a liberdade do seu povo.
plexos quanto nós mesmos e
outras pessoas que conhece-
mos, ao passo que outros per- Precisamos nos esforçar para
sonagens menos expressivos entender as questões que estão por
não chegamos a conhecer tão trás dessas instruções, para enten-
bem (a história de Rute é um der como devemos tomar a atitu-
exemplo). de equivalente no nosso próprio
A história tem um tema (Juí- contexto.
zes, por exemplo, fala sobre Podemos perguntar, por exem-
ligação entre o sexo e a violên- plo, qual era o objetivo dessas
cia). Uma história interessante instruções. Que situação elas pres-
pode ter mais que um tema (a dc supunham? Que problema ten-
Jonas é sobre como não ser um tavam solucionar, ou que perigo
profeta, e também sobre como queriam evitar? Que convicções
Deus se preocupa com os gen- teológicas e morais tinham como
tios, e possivelmente também base?
fala sobre como Deus chama Então podemos tentar descobrir
Israel ao arrependimento). se há problemas e perigos equiva-
Assim, ela precisa ser apre- "Uma palavra de verdade lentes que precisamos abordar dc
ciada e compreendida como pesa mais que maneiras equivalentes.
uma história. Isto implica o mundo inteiro." No antigo Israel, por exemplo,
várias coisas: A l e x a n d e r Sob.henitsyn as pessoas tinham que construir
Uma história precisa ser lida uma mureta ao redor do telhado
como um todo, não apenas lo que seus autores tinham em (plano) das casas para que as pes-
em pequenos episódios, como mente, pois a prática da leitura soas não caíssem de lá. Em certas
geralmente acontece nos cultos e do estudo silencioso e indivi- áreas das grandes cidades de hoje,
e nas leituras diárias. dual é algo típico dos tempos lombadas eletrônicas ou reduto-
Devemos nos deixar levar modernos. res de velocidade podem ser uma
para dentro da história. Inter- forma semelhante de proteger a
pretar a Bíblia requer o exercí- O que fazer vida das pessoas.
cio da nossa imaginação. e o que não fazer Outro tipo de questão surge dos
Isto não significa que deve- Nas grandes histórias do Antigo padrões diferentes das instruções
mos impor à Bíblia nossas pró- e do Novo Testamento há longas que aparecem nas várias partes da
prias idéias, embora façamos seções de instrução sobre como Bíblia. Algumas parecem dar liber-
isto inconscientemente. Às viver. dade a mulheres e escravos, por
vezes isto não importa; a his- Nem o Antigo nem o Novo Testa- exemplo; outras parecem aceitar
tória pode até nos convidar a mento estão interessados em obe- sua opressão.
fazer isto. Afinal, um contador diência cega, assim que precisamos Aqui podemos ver os ideais de
de histórias não conta (nem entender os motivos dessas instru- Deus em conflito com situações
consegue contar) tudo, e sabe ções. Na verdade, a Bíblia geral- reais de forma bem prática.
que aprendemos quando nos mente dá essas instruções, embora Jesus, ao falar sobre casamento
identificamos com a história. sejam vistas como algo natural ou e divórcio, falou da tensão entre o
Mas é importante que não que não precisa de muita explica- que Deus queria na criação e o que
interpretemos a história com ção. Isto porque seriam facilmente Moisés permitiu por causa da tei-
um significado que ela, em si, compreendidas na cultura da qual mosia do povo (Mc 10).
não tem. procedem (por exemplo, o motivo Sua posição com relação a
Ler na companhia de outras pelo qual os israelitas do Antigo este problema específico pode ser
pessoas ajuda a evitar estas coi- Testamento não deviam cozinhar aplicada de forma mais ampla.
sas e também é útil de outras um cabrito no leite de sua mãe, ou Portanto, a questão é: qual é o
maneiras. Quando lemos a pelo qual as mulheres de Corinto equivalente mais próximo do ideal
Bíblia com um grupo de pes- no Novo Testamento deviam pôr de Deus, levando em consideração
soas e a discutimos com elas, um véu na cabeça quando estavam a teimosia humana neste contexto
ficamos mais próximos daqui- na igreja). com relação a este problema?
50 Introdução à Bíblia

Entendendo a Bíblia
A Bíblia foi escrita há muito tempo
para pessoas que viviam numa cultura
diferente da nossa.
..• ;-R--;_r. r^._ ASSASSE •. -

Os estágios de compreensão e
aplicação que aparecem nestas pági- DE Q U E T I P O
ANTIGO
nas nos ajudam a evitar erros como: D E E S C R I T O SE
TESTAMENTO
• tirar um trecho do contexto. A Bíblia TRATA?
nõoé uma caixinha mágica!
• fundamentar uma doutrina num
versículo que foi mal interpretado
— como acontece freqüentemente
com seitas e movimentos heréticos.
• dizer que ela é muito distante e
difícil para os leigos: não é!
• lê-la apenas como literatura ou
geografia ou história: ela é isto,
mas também é mais do que isso:
é a mensagem mais importante de
todas.
• lê-la como mágica, ou fábulas, ou DE Q U E PARTE
contos de fadas... a Bíblia foi escrita D A BÍBLIA F O I
por pessoas em situações reais con- TIRADO?
forme eram inspiradas por Deus.

DE Q U E T I P O
NOVO
D E ESCRITO SE
TESTAMENTO
TRATA?

SoHhhHíIIIHI^HHHÍ
Entendendo a Bíblia 51

É uma lei moral, válida para todas


as épocas? Ou uma questão de lei
LEI social ou cerimonial? No segundo
caso, que idéia ou princípio geral é
expressado?

O que aconteceu? Onde? Com


HISTÓRIA quem? Por que essa história foi con-
tada? Qual é o moral da história?

Não leia poesia como se fosse


prosa! Espere encontrar simbolismo
POESIA/ e linguagem figurada. Em vez de
SABEDORIA usar rimas, a poesia hebraica dizia a
mesma coisa duas vezes com pala-
vras diferentes.

Qual é o contexto histórico por


PROFECIA trás da passagem? Seu estilo é poé-
tico, simbólico? Qual era o propósito
original da profecia?
0 Q U E ESSA
PASSAGEM C O M O A MESMA
SIGNIFICAVA PARA M E N S A G E M SE
O S PRIMEIROS APLICA A NÓS
LEITORES O U HOJE?
OUVINTES?
Quatro relatos dos ensinamentos
EVANGELHO e acontecimentos da vida de Jesus.
A passagem é narrativa ou se trata
de uma história com moral?

HISTÓRIA O que aconteceu? A história foi


(ATOS) incluída para transmitir uma lição?

Quem estava escrevendo a quem


— e por quê? (Veja, p. ex., o início
EPÍSTOLA da epístola.) Qual é o tema ou argu-
mento principal da epístola como
um todo? Como a passagem se
encaixa nisso?

No contexto da perseguição
romana, João usou o estilo literário
APOCALIPSE apocalíptico: figuras tiradas do AT e
simbolismo poético. Leia com ima-
ginação e emoção para ter a pers-
pectiva mais ampla.
52 Introdução à BMia

A Bíblia como uma história


Walter Wangerin Jr.

A Bíblia é, no fundo, uma narrati- "(A história da criação) A narrativa cria ordem onde só
va. A criação nos é apresentada como é ao mesmo tempo a mais havia o caos. Pelo fato de a forma
uma narrativa. Os acontecimentos que conhecida e a menos conhecida narrativa apresentar um ordena-
envolveram o povo de Israel — seus de todas as histórias do Antigo mento, pelo fato de ela reconhecer
ancestrais, sua história, os juízes, reis Testamento. O que a maioria e usar os elementos desta existência
e profetas — aparecem na forma de das pessoas conhece não é o texto, como elementos próprios e convi-
uma crônica histórica. E Jesus Cristo mas a vasta estrutura de doutrina dar o ouvinte a que entre no mundo
é revelado, não tanto em proposições que teólogos construíram sobre dela, cia consola esse ouvinte com
de natureza sistemática, mas muito o texto. A história está escondida todo sofrimento que ele tem, num
mais numa comovente narrativa. no alicerce, mas tudo que vemos é mundo organizado e significante.
o que foi construído A narrativa consola. O ensino
O problema da narrativa é sua em cima dele." pode envolver a nossa mente; mas
ambigüidade. Ao contrário da dou- T r c v o r Dcnnis uma narrativa toma conta de todo o
trina, ela não confina as pessoas nosso ser — corpo, sentidos, razão,
num único pensamento explicá- "Encontro" em si implica ação emoção, memória, riso e lágrimas.
vel, definindo unanimidade e não dramática. Personagens com perso- Além disso, a narrativa insere as
deixando que o indivíduo siga o nagens entram num relacionamen- pessoas numa comunidade — no
seu próprio caminho. Ela admite to no qual certos acontecimentos se tempo presente e através dos tempos.
tantas variedades dc interpretação destacam por serem significantes É isto que acontece quando judeus
quantos forem os seus leitores. e expressivos. Estes são momentos recontam e revivem a história do
Os pregadores — quando usam da mais intensa interação, quando êxodo na Páscoa, quando cristãos
uma unidade narrativa — geralmen- a presença de Deus, a nosso favor recontam e revivem a história da
te a usam para seus próprios fins. Ela ou contra nós, é sentida de maneira paixão de Cristo na Santa Ceia,
se torna uma ilustração, algo inferior tão forte que todos os outros obje- quando Martin Ltither King decla-
àquilo que querem ensinar. O que os tos, detalhes e gestos, são definidos ma uma história para milhares dc
pregadores geralmente não fazem por essa presença. pessoas engajadas no movimento
com uma história é, simplesmente, Esses momentos, reunidos, for- contra a discriminação dos negros
contá-la — dar-lhe vida c expressão. mam a história da religião; e são — "Eu estive no topo da monta-
A "verdade santa", que é o obje- lembrados e contados como narrati- nha! Olhei e vi a Terra Prometida!
tivo de qualquer religião, é uma vas, pois foram, a princípio, aconteci- Talvez não chegue lá com vocês"
coisa viva. Ela quer um relaciona- mentos. São significantes; testificam, — evocando a imagem do velho
mento com as pessoas que buscam cada vez que são narrados, um rela- Moisés no monte Nebo enquan-
um relacionamento com ela. E a cionamento atemporal com Deus. to todo Israel, nas campinas de
narrativa é o ponto dc encontro no Mas estas mesmas histórias fun- Moabe, aguardava, pronto, a hora
qual os relacionamentos começam, damentais também dão significa- de fazer a travessia.
amadurecem, podem ser comple- do às experiências pelas quais as É isto que acontece: pessoas frag-
tamente conhecidos, designados, pessoas passam nos dias de hoje, mentadas são restauradas outra vez
lembrados c vividos. naquilo que elas têm em comum. de modo comovente, simplesmente
Existem e já existiram religiões Elas descrevem e contêm uma ao ouvirem uma narração da histó-
sem teologias. Mas nunca existiu quantidade enorme de sentimentos ria que lhes é comum.
uma religião sem uma narrativa. E imediatos, impulsos involuntários, As narrativas são tão antigas
uma narrativa ou história não é uma relacionamentos humanos instá- quanto a própria religião, porque
história enquanto não for contada. veis, anseios espirituais. é da natureza das religiões fazer
E esse contar da história é um dever Não é que a vida das pessoas uma narrativa acerca do mundo.
crucial dos líderes da religião. lhes tenha sido explicada intelec-
Quais são as histórias que os líde- tualmente e elas conseguiram enten-
res da fé cristã precisam narrar? Em der, mas é como se um pai amoroso
quais narrativas se oferecem oportu- e poderoso viesse e as abraçasse e
nidades de um encontro com Deus? confortasse.
54 Introdução à Bíblia

Declínio e renovação Calvino acreditava que um pio, foram dadas como parte da
Durante a Idade Média, este texto deve sei lido no seu contex- aliança que Deus tez com Israel
lipu de interpretação entrou em to histórico e como uma narrativa através de Moisés. Mas quando
declínio, em boa parte porque interligada. Ele também deu gran- Cristo veio, elas deixaram de ser
poucas pessoas sabiam ler grego de ênfase ao significado real das relevantes e, assim, puderam ser
ou hebraico. Mas ela não desapa- palavras c censurou as tentativas descartadas.
receu, c por muito tempo a igre- de alterar isto simplesmente para Isto não significa que essas leis
ja insistiu eme sua doutrina devia ajudar a estabelecer este ou aquele não tenham vindo de Deus. Mas,
ser baseada em afirmações claras ponto doutrinário ou teológico. como as circunstâncias passaram
das Escrituras. Isto ajudou a man- a ser outras, fez-se necessária uma
ter uma noção da importância do Interpretação "pactuai" nova aplicação desse antigo ensi-
significado histórico-literário do Com base nesta convicção, namento, Esta aplicação foi forne-
texto na mente das pessoas e as desenvolveu-se um estudo bem cida por Jesus, que reinterpretou a
incentivou a estudá-lo com mais mais profundo das partes históri- aliança de maneira radical.
cuidado. cas da Bíblia, que acabaria no que
A partir de 1200, aproximada- veio a ser conhecido como inter- Pensamento histórico-crítico
mente, houve um ressurgimento pretação "pactuai". Aqui a Bíblia A interpretação histórica do
do interesse pelo texto e alguns é vista como registro histórico do tipo pactuai continuou a dominar
monges até aprenderam hebraico relacionamento salvador de Deus o campo da teologia bíblica até
para poderem comentar o Antigo com o seu povo, cristalizado na o início do século 19, quando foi
Testamento com mais precisão. O "aliança" ou "pacto" que Deus suplementada e parcialmente subs-
grande avivamento do estudo que fez com eles. Este relacionamen- tituída pelo que hoje chamamos de
ocorreu nos séculos 15 c 16 colo- to cresceu c se desenvolveu com o pensamento "histórico-crítico".
cou essa abordagem em evidência passar do tempo, até ser cumprido Ele adota a ênfase histórica de
outra vez. em Cristo. Calvino, mas vê a Bíblia essencial-
Martinho Lutero (1483-1546) A interpretação pactuai (ou mente como registro da comunida-
insistiu que este era o único méto- aliancista) é uma maneira muito de da aliança c sua visão de Deus,
do de interpretação confiável para boa de demonstrar como o Anti- não como a revelação de Deus para
transmitir a "Palavra de Deus" a go Testamento continua sendo a ela. Esta abordagem detectou mui-
nós, embora, na prática, ele nem "Palavra de Deus" embora par- tas opiniões teológicas diferentes na
sempre seguisse esse princípio. tes dele não se apliquem mais a Bíblia, o que dificultou a tarefa de
João Calvino (1509-1564) ado- nós atualmente. ("Testamento" é lê-la como unidade ou um só livro.
tou as posições de Lutero e as o mesmo que "aliança" tanto no
sistematizou numa série de comen- hebraico quanto no grego.) Interpretação canónica
tários que continuam sendo clássi- As leis relativas a alimentos que Mais recentemente, houve uma
cos do gênero. aparecem em Levítico, por exem- reação contra este tipo de análise e
Não raras vezes a Itíblia Ao lado ila ênfase
foi usada como "livro mágico", escolástica na doutrina
sendo que textos eram tirados existe a tradição de
de seu contexto para literatura devocional.
assustar os leitores Esta ilustração é tirada
ou para dar sustentação de uma edição de
a religiões misteriosas 1689 dos "Kxcrclcios
compreendidas apenas Espirituais" de Inicio
por seus membros. de Loyola. 'IVatn dos
Sete Pecados Mortais,
citando Jó 2 c Ap 9.
• • • • •
Intendendo a Bíblia 55

uma nova proposta, "interpretação Significado espiritual uma alegoria de coisas divinas.
canónica", foi apresentada. Sempre existiram aqueles que Alegoria é uma forma literária na
Ela concorda que a Bíblia pode achavam que a Bíblia não é uma qual uma coisa representa outra,
ter várias fontes diferentes, mas diz mensagem direta de Deus, mas mesmo sem que haja ligação real
que o que importa é o fato de que um enigma que deve ser decifra- entre as duas. Alegorização é o
elas chegaram a nós como mensa- do, geralmente de forma altamen- uso sistemático de alegoria como
gem única num só livro. Portanto, te complexa e misteriosa. forma de interpretar um texto.
o que une a Bíblia é mais impor- Ela se tornou popular como
tante que aquilo que nos lembra Um código secreto de núme- forma de interpretar o Cântico
das origens diversas de parte do ros? Por exemplo, no hebraico dos Cânticos, que muitos crentes
material que ela contém. e no grego cada letra representa viam como ilustração do relacio-
também um número, e, em fun- namento entre Cristo e sua noiva,
No mundo moderno pode-se ção disso, surgiram teorias segun- a igreja, ou entre Cristo e o crente
dizer que quase todos os intérpre- do as quais a Bíblia seria um código individual.
tes da Bíblia inseridos no contexto numérico secreto. Como método de interpretação,
acadêmico adotam uma forma de A numerologia, que é como se a alegorização entrou na igreja
interpretação histórico-literária, e chama isso, era prática bastante cristã por intermédio de Clemente
que a maioria deles pode ser clas- comum em certos grupos judeus, de Alexandria (falecido por volta
sificada como "críticos históricos". e, de tempos em tempos, reaparece de 215 d.C), que seguiu a linha de
entre os cristãos, embora atualmen- Filo. Orígcnes (cerca de 185-254
te nenhum estudioso ou teólogo d.C), que foi discípulo de Clemen-
respeitável leve tal prática a sério. te, a transformou numa forma sis-
temática de interpretação bíblica.
Alegoria? Segundo Orígenes, havia três
Na época de Jesus, Filo de Ale- níveis de significado nas Escritu-
xandria (falecido em 50 d.C.) ras: o literal, o moral e o espiritual.
desenvolveu a teoria que o Antigo Estes correspondiam às três "par-
Testamento era em grande parte tes" do ser humano: corpo, alma e

O erudito holandês
Desidério Erasmo
04*6-1536) aplicou
seu conhecimento
dc hebraico e grego
à interpretação da
Bíblia. William Tyndale
(1494-1536) foi outro
que se voltou às
línguas originais para
fazer sua tradução
pioneira para o
inglês. A tradução de
Tyndale foi a base
para a Versão do Rei
Tiago (King James
Version), que trouxe
o significado simples
das Escrituras a todos.
Com a prensa de
Gutenberg, a Bíblia
saiu das bibliotecas e
alcançou os mercados.
1
56 Introdução à Bíblia

espírito. Mais tarde, no século 4, o o que ei a considerado o motivo Níveis diferentes


monge João Cassiano acrescentou pelo qual não viam Jesus nele. de significado
outro sentido espiritual, o "anagó- Na melhor das hipóteses, a ale- Em anos recentes, o crescen-
gico", que é semelhante ao espiri- gorização foi um meio de encon- te interesse dos estudiosos pelos
tual, mas focaliza a vida futura do trar referências ao Salvador em gêneros literários usados na Bíblia
cristão no céu. lugares que à primeira vista pare- levou muitas pessoas a perceber
A alegorização era muito popu- ciam muito improváveis (como no diferentes níveis de significado no
lar na Idade Média, especialmente exemplo de Cântico dos Cânticos), texto, o que, por sua vez, está tra-
entre os monges, embora estudio- e de aplicar passagens bíblicas zendo de volta a antiga interpreta-
sos sérios tenham feito o possível obscuras ao cotidiano. ção espiritual.
para mantê-la sob controle. Porém, Após a Reforma, a alegoriza- Grande parte das interpretações
ela parecia oferecer uma manei- ção cessou entre os intérpretes alegóricas é grosseira ou indubita-
ra muito atraente de interpretar o do mundo acadêmico, mas con- velmente errônea, mas pelo menos
Antigo Testamento, que não pre- tinuou sondo popular em outros a alegorização mostra que uma
cisava mais ser interpretado lite- lugares. Muitos hinos usam a passagem pode ter um significado
ralmente. Os acontecimentos que peregrinação do povo de Israel no mais profundo do que, à primeira
descreve — a matança dos amale- deserto para representar a vida vista, parece ter.
quitas, por exemplo — não deviam cristã. Este é um dos temas ale- Algumas teorias modernas têm
ser entendidos como modelos góricos favoritos da antiguidade. muito em comum com a alegori-
para a conduta cristã, mas sim Os chamados "negro spirituals", zação e muitos esforços no senti-
como sinais, indicando que deve- nos quais o rio Jordão represen- do de tornar a Bíblia "relevante"
mos fazer morrer o pecado que se ta a morte, a Terra Prometida, o para mulheres, para pessoas dc
manifesta em nossa vida. céu, c assim por diante, fazem países subdesenvolvidos e para
As pessoas que adotaram esta uso freqüente de alegorias. No outros assuntos contemporâne-
abordagem geralmente acusavam século 19, principalmente, os pre- os precisam sem dúvida, ir além
os judeus de serem "literalistas" na gadores gostavam muito de usar do que as palavras em si estão
sua leitura do Antigo Testamento, alegorias. dizendo.

Juntamente com a interpretação histórico


literaria, o uso espiritual e devocional da
Bíblia teve continuidade, por exemplo,
entre os pietistas. O compositor

O desenvolvimento do método científico produziu


varias abordagens de interpretação da Biblia.
Alguns, como Blaise Pascal (1623-1662). usaram
as "provas" cientificas de maneira positiva,
mostrando, por exemplo, como as profecias
do AT se cumpriram no NT. Outros cientistas,
principalmente no século 19. usaram a abordagem
"reducionista" (se a ciência demonstra que as
origens humanas são evolutivas, o relato da
Bíblia tem de estar errado). Mais recentemente,
à medida que as pessoas começam a apreciar as
diferentes formas dc literatura na Bíblia, muitos
Personagens importantes para o retomo à
passaram a considerai o relato bíblico e a posição
interpretação hislórico-literárin da lllblia foram
científica complementares. São maneiras diferentes
Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino
de ver a mesma coisa e responder perguntas
(1509-1564).
diferentes.
Entendendo a Bíblia 57

Aqueles que estudam a Bíblia ficado da morte de Cristo na cruz,


não precisam escolher entre os como sacrifício em nosso lugar.
dois tipos de interpretação: podem Mesmo no Novo Testamento,
emprestar idéias de ambos. Mas é é importante distinguir o que o
melhor dar preferência à interpre- texto ensina como princípio teoló-
tação histórico-litcrária direta. gico permanente daquilo que ele
Os cristãos acreditam que a simplesmente registra como fato
aliança do Antigo Testamento histórico (as duas coisas não são
entre Deus e seu povo se cumpre idênticas). Por exemplo, os cristãos
c, portanto, tem seu significado são chamados para seguir o exem-
verdadeiro em Cristo. Isto deve ser plo — para imitar — tanto Cristo
levado em consideração quando quanto o apóstolo Paulo. Isto sig-
tentamos aplicar uma passagem nifica compartilhar suas atitudes
específica do Antigo Testamento e convicções, e viver da forma que
aos dias atuais. eles aprovariam — não se tornar
A vinda de Cristo alterou as carpinteiro ou fazedor de tendas!
condições em que um determina-
do texto do Antigo Testamento era A Bíblia é o 1 ivro ma is importante
aplicado originalmente? Neste caso, na história da civilização ocidental.
é provável que este texto deva ser Ela foi acolhida em muitas culturas
usado de forma diferente hoje. Por e comunidades, influenciando a fé
exemplo, aquilo que o Antigo Testa- e a prática. E crucial que seja lida
mento diz sobre os sacrifícios que, de maneira que leve em conta os
em tempos antigos, eram ofereci- diversos tipos de literatura que ela
dos no Templo (que não são mais contém (veja também, "Chaves que
realizados) pode esclarecer o signi- abrem o entendimento").

N o século 20. a
preocupação com a
justiça para os pobres
na América Latina
produziu a teologia
da libertação. Em
outros lugares, houve
uma ênfase à teologia
feminista ou à teologia
negra. Cada uma
aplica as Escrituras
a áreas diferentes
da vida. O perigo
está em reinterpretar
as Escrituras para
adequá-las à causa.
Significados podem ser
impostos à Bíblia que
não estão de acordo
com o texto original.

1%
Um coral de Soweto. O sol se põe". I loje literalmente. Isto,
Africa d o Sul. Canções em día ninguém porém, não a torna
populares fazem acredita que estas menos "verdadeira".
uso de uma rica palavras descrevem Um dos desafios da
tradição de imagens o que realmente nossa época é usar
e figuras bíblicas para acontece. Elas nosso conhecimento
expressar a esperança simplesmente das diferentes formas
c os temores de descrevem o que o de literatura na Bíblia
cristãos face às duras observador vê. Da para determinar
realidades da vida. mesma forma, a se o texto deve
linguagem poética não ser interpretado
deve ser interpretada "literalmente" ou não.
58 Introdução à Bíblia

O texto e a mensagem
Craig Bartholomew ^—'

O estudo acadêmico da Bíblia ("crí- ca, era inevitável que estes novos
tica bíblica") tem sido dominado por movimentos na teoria da literatura
várias ênfases diferentes que se reve- logo se manifestariam também no
zam na posição de destaque. campo da teologia bíblica. E nos
A primeira é a ênfase histórica. últimos anos estas novas questões
O método hislórico-crítico, desen- foram aplicadas à Bíblia.
volvido na Alemanha no século Pelo fato de representarem uma
19, foi adotado por estudiosos da reação a teorias modernas, estas
Inglaterra e dos Estados Unidos no novas abordagens geralmente são
início do século vinte. conhecidas como pós-modernismo.
Este método era crítico, por- O pós-modernismo levantou ques-
que lia e avaliava o texto bíblico tões complexas sobre textos, auto-
do ponto de vista da cosmovisão res, leitores e o mundo, sugerindo
moderna. Era histórico, porque que os textos não têm significa-
usava ferramentas históricas dos únicos e que seu significado
desenvolvidas pela filosofia moder- depende em grande parte do(s)
na da história. Também era históri- leitor(es).
co no seu interesse, não tanto pelo Sob a categoria geral de pós-
texto na sua forma atual quanto Os estudiosos analisam o rexto de várias modernismo tornou-se comum os
maneirai, paia ajudar as pessoas entenderem
pela história do texto e dos acon- e interpretarem a mensagem.
a
estudiosos fazerem leituras des-
tecimentos a que se refere. construtivistas, feministas, etc., dos
Os principais tipos de análise textos bíblicos. Uma leitura des-
dos textos bíblicos que surgiram Não é de admirar que, na déca- construtivista irá, por exemplo, pro-
desta abordagem foram: da dc 1970, tenha surgido, cm rea- curar lugares num texto nos quais
• Crítica textual — Tem como ção a esse problema, uma ênfase há tensão entre a mensagem geral
objetivo definir os textos hebrai- literária. Essa nova ênfase focali- e aquilo que um pequeno trecho
cos e gregos mais confiáveis do zava os livros bíblicos como tex- do texto pode estar dizendo. Desta
Antigo e do Novo Testamento. tos literários e os explorou deste forma o desconstrutivismo expõe
• Crítica d a s fontes — Preo- ângulo. A forma narrativa que contradições que procura localizar
cupa-se com as fontes por trás caracteriza a maior parte da Bíblia e espera encontrar em todos os tex-
do texto. recebeu uma atenção renovada e tos. Uma leitura feminista exami-
• Crítica da forma — Preocupa- novos assuntos, tais como o papel nará como as mulheres são ou não
se com a forma ou o gênero dc do narrador, a forma do enredo, e são retratadas nos textos bíblicos.
pequenas unidades de texto e a a descrição e o desenvolvimento O efeito do pós-modernismo
origem do seu gênero na vida dos personagens, passaram a ser sobre os estudos bíblicos foi minar
comunitária de Israel. explorados. a crítica histórica dominante, sem
• Crítica da tradição, — Pre- No final da década de 1970 deixar nenhum método principal
ocupa-se com a origem e o algumas novas tendências radicais em seu lugar. A impressão que se
desenvolvimento dos temas começaram a aparecer no campo da tem atualmente é de uma varieda-
bíblicos na vida de Israel. teoria literária. Movimentos como o de de abordagens interpretativas
• Crítica da r e d a ç ã o (do ale- "pós-estruturalismo" e o "descons- dentre as quais podemos escolher,
mão redaktor, que significa trutivismo" levantaram questões simplesmente por questão de pre-
editor) — Preocupa-se com a como: "Os textos possuem signifi- ferência pessoal. Na comunida-
maneira em que o texto foi edi- cados que podemos descobrir, ou os de acadêmica mais ampla não há
tado na sua forma final. leitores constroem estes significa- consenso com relação à maneira
Um grave problema do método dos, de forma que há tantos signifi- correta de ler a Bíblia ou de pros-
histórico-crítico é sua incapacida- cados quantos forem os leitores?" seguir nos estudos bíblicos.
de de focalizar os livros da Bíblia Por causa da ênfase literária A interpretação bíblica está em
na sua forma atual. presente na área da pesquisa bíbli- crise!
62 Introdução à Bíblia

Contadores de histórias
a tradição oral
Jo Bailey Wells

A história do povo de Deus no Anti- vêm de fontes orais que circulavam é contada e recontada. Portanto,
go Testamento começa com Abraão entre o povo, isto é, histórias sobre os estas narrativas não são material
em Gn 12. Porém as histórias sobre patriarcas foram transmitidas verbal- adequado para reconstruir uma
Abraão e os outros patriarcas que o mente de uma geração a outra, por história detalhada e precisa.
seguiram — Isaque e Jacó — são conta- meio de contos populares, até o ponto • A s histórias s ã o adapta-
das em Gênesis como uma retrospecti- em que esta tradição viva também se das p a r a as necessidades
va. Lemos sobre o chamado de Abraão desenvolveu em uma tradição escrita. ou situação d o s ouvintes.
para pôr-se a caminho da terra prome- Estudiosos da área da crítica da As narrativas relacionadas com
tida pela fé a partir da posição fixa da forma (veja "O texto e a mensa- os patriarcas preocupam-se com
chegada de Israel na terra prometida. gem") identificaram a influência as promessas da terra, rivalida-
As histórias são contadas como se da tradição oral que subjaz a várias des entre famílias, o anseio por
— através dos olhos de Moisés — Israel partes da Bíblia. No Antigo Testa- descendentes e a correspondente
estivesse relembrando sua pré-história. mento estas incluem principalmen- necessidade de proteger a mulher
Isto levanta a questão de como Moi- te os livros de Gênesis, Êxodo, Josué do patriarca — preocupações
sés — ou a pessoa que escreveu Gênesis e os livros de Samuel. No Novo Tes- importantes para um povo migra-
— sabia sobre os eventos que acontece- tamento, a tradição oral influen- tório. Portanto, é relevante per-
ram pelo menos 600 anos antes da sua ciou especialmente os Evangelhos. guntar: "Como esta história pode
época. Sem negar que Moisés tenha sido ser adaptada à minha situação?",
inspirado por Deus, podemos imaginar Histórias de viajantes que pode ser bem diferente.
que ele possuía algumas fontes escritas As histórias que foram escritas • As histórias s ã o contadas
a partir das quais formulou o registro. a partir de fontes orais têm uma p a r a e n s i n a r u m a lição.
No entanto, não temos evidência delas. característica particular e é impor- Em geral, uma lição moral, para
Na realidade, é improvável que um povo tante levar isso em conta quando se avivar ou inspirar. Por exemplo,
nômade se preocupasse com leitura, trata de interpretar essas histórias. a história da obediência de
escrita e preservação de registros. A ques- • Não podemos saber onde e Abraão, quando foi solicitado
tão da sobrevivência era mais imediata. quando elas se originaram. a oferecer Isaque em sacrifício
Agora se reconhece, mais apropria- A forma e o conteúdo de uma his- (Gn 22), é contada de forma a
damente, que as histórias em Gênesis tória podem mudar à medida que inspirar o povo de Israel a ter,
cm relação a Deus, a mesma
dedicação e fidelidade que
caracterizaram o patriarca.
• Os t e m a s d a s h i s t ó r i a s
orais seguem padrões e
temas típicos. Assim como
cada cultura tem gêneros carac-
terísticos de narrativas popula-
res (os brasileiros contam piadas
sobre portugueses e vice-versa,
os alemães narram romances
entre príncipes e moças pobres,

Um judeu ortodoxo cm Jerusalém, seguindo a


instrução de Deus, transmite a história para seus
filhos, enquanto otttervam um modelo do Templo.

Páginas anteriores: Esta pintura de Tony lludson


mostra um contador de histórias africano e o
fascínio dos seus ouvintes.
63

os quenianos explicam como o


leopardo ficou malhado), exis-
tem também gêneros específi-
cos de narrativas bíblicas.
Um tema recorrente é o do herói
que deixa seu lar e mais tarde
retorna com uma fortuna:
Jacó foge de seu irmão Esaú e
retorna com esposas e riqueza (Gn
27—35)
José é banido pelos seus irmãos,
porém mais tarde reina sobre eles
(Gn 37—45).
A importância destas histó-
rias não esta no tema em si, mas
na maneira sutil em que o tema
é usado e adaptado para ensinar
uma lição. Para Jacó, era difícil rico que se vestia de púrpura Muilas das histórias da Bíblia foram contadas
retomar porque primeiro ele pre- oralmente antes de serem escritas para serem
e um pobre chamado Lázaro lidas. Aqui, um contador de histórias no atual Irã
cisava fazer as pazes com Esaú. Na — Lc 16.19-20) — tem grande reconta a seus ouvintes as façanhas de Alexandre,
história de José, aconteceu o inver- significado. o Grande.

so, com os irmãos inadvertidamen- • D i s c u r s o direto — O enre-


te encontrando José. do de uma parábola freqüen- mente adequado usar as mesmas
temente se desenrola por meio histórias como exemplos de fide-
A arte do contador de histórias do uso do discurso direto. Na lidade (e infidelidade). Elas expri-
As histórias que são conta- parábola da viúva persistente mem verdades que provaram ser
das (parábolas, por exemplo) são (também conhecida como pará- reveladoras e instrutivas para inú-
diferentes das histórias que são bola do juiz iníquo), ouvimos meras gerações que as seguiram,
escritas para serem lidas (tais não só os apelos da viúva, mas valorizaram e passaram adiante.
como romances). Para terem efei- também os resmungos secretos Além disso, pessoas que fazem
to, elas devem prender a atenção do juiz iníquo (Lc 18.1-8). parte de culturas onde predomina
dos ouvintes. Podemos identificar • L i n g u a g e m — Para que as a oralidade têm uma memória mais
algumas técnicas de narração nas histórias causem impacto, sua confiável do que nós, que depen-
parábolas de Jesus: linguagem deve ser vívida e demos de arquivos e computado-
• Inversão — O tema do herói concreta, chegando até ao exa- res. Os israelitas, principalmente,
deixando o lar e retornando gero. A intenção não é neces- empenhavam-se na preservação
com uma fortuna é invertido sariamente que esses detalhes de histórias. Eles valorizavam o
na parábola do filho pródigo sejam levados ao pé da letra. dom da memória — desenvolven-
(Lc 15.11-32). Isto ocasiona Considere o tamanho da dívi- do técnicas sofisticadas de memo-
um final surpreendente. da na parábola do empregado rização — e assumiram a tarefa
• R e p e t i ç ã o — Na parábola que não queria perdoar (Mt de recontar às novas gerações as
dos lavradores maus (Lc 20.9- 18.21-35). Dez mil talentos são histórias a respeito daquilo que o
16), o dono da vinha manda uma quantia inimaginável de Deus fiel havia feito no passado:
três empregados para receber a dinheiro para enfatizar alcance "Portanto, tenham cuidado e
sua parte. Isto ajuda a aumen- ilimitado do perdão de Deus. sejam fiéis para que nunca esque-
tar a tensão e antecipar o clí- çam as coisas que viram. E contem
max quando — finalmente — o Podemos confiar na tradição aos seus filhos e netos" (Dt 4.9;
dono envia seu filho. oral? veja também 5.1; 6.7, e assim por
• Concisão — O detalhe nar- Entender as origens prováveis diante).
rativo de uma história oral é do material bíblico nos ajuda a ser-
conciso, dando asas à imagina- mos sábios no modo de lê-lo e usá-
ção dos ouvintes. Diante disso, lo. Por exemplo, embora possa ser
aquilo que é narrado — o imprudente tentar reconstruir a
nome de um personagem ou a história primitiva de Israel a par-
cor de uma roupa (o homem tir das histórias em Gênesis, é alta-
64 Introdução à Bíblia

Os escribas
Jo Bailey Wells

O Israel antigo vivia num mundo geração a geração através do relato mantidos em segurança na arca
que não dependia apenas da tradição oral (por exemplo, Ex 13.14-15), a (e, mais tarde, no santuário do
oral. Se somos herdeiros da Bíblia, em existência da escrita significava que Templo em Jerusalém), era pos-
particular do Antigo Testamento, isso havia algo que permitia que se con- sível fazer cópias que podiam
se deve unicamente ao fato de terem ferisse o que estava sendo contado. ser consultadas por pessoas que
existido gerações de escribas judeus Considere, por exemplo, o recebi- tinham perguntas ou dúvidas.
que copiaram e recopiaram partes das mento da lei no monte Sinai. E alta- • Ela p o s s i b i l i t a p r e c i s ã o
Escrituras durante mais de 1.500 anos. mente significativa a afirmação de — As palavras de um profeta
que Moisés recebeu os mandamen- podiam ser escritas no dia em
O alfabeto já existia na terra de tos, não apenas verbalmente, mas que foram pronunciadas, e guar-
Canaã quando os israelitas se torna- também de forma escrita em tábuas dadas para verificação posterior
ram uma nação. Isso lhes possibilitou de pedra. De acordo com os relatos (veja Dt 18.22). Registros sobre
uma forma simples de fazer o regis- em Êxodo e Deuteronômio, Moisés reis, seus programas de ação e
tro de revelações divinas, tradições desceu do monte carregando estas acontecimentos relacionados
orais e acontecimentos históricos. tábuas e as colocou na arca, onde com os mesmos podiam ser
Os textos hebraicos mais anti- seriam guardadas (Dt 10.4-5). mantidos e atualizados, e mais
gos já encontrados datam do século A escrita tem um impacto signi- tarde usados como fontes pelos
9 a.C, embora seja bastante pro- ficante numa cultura predominan- historiadores bíblicos (por exem-
vável que gerações anteriores de temente oral: plo, lRs 11.41; 2Rs 23.28).
escribas israelitas também escre- • Ela confere autoridade
viam usando o alfabeto. — A escrita dá poder às pala- Escribas como escritores
vras de uma forma que as torna Literalmente, um escriba — no
A palavra escrita diferentes da palavra falada. hebraico, sopher — é qualquer
Embora muito tenha sido conta- Uma vez escrita, a lei podia ser pessoa que escreve. Embora qual-
do verbalmente e passado adiante de preservada e continuar inalte- quer pessoa com força de vontade
pudesse aprender a ler e até mesmo
escrever hebraico sem muito esfor-
wWw> -ífTíí iy aro n t f w \¿h m wrftò won ço, o termo normalmente é usado
m'] D t o w v w n s w iron o r b shasn m j n z r w s para descrever um grupo desig-
nado de pessoas que cumpriam
s»róa retWw j e w a n s a t s S s í - n » n u w î w wp hiír a tarefa especial de escrever — e
copiar — os registros históricos e
w riva» nfrra iVfflNv rvw rtá syr w^i ansos sagrados de Israel.
Antes do exílio, essas pessoas
provavelmente formavam centros
administrativos na corte real. Mais
tarde, por volta do segundo século
a.C, "os escribas" se tornaram um
d " 3 rvan i w i ,
partido político distinto formado
por uma classe de pessoas aliamen-
No período pró-exilio, o hebraico compartilhava rada durante séculos. Assim, tc instruídas, afiliadas aos fariseus.
uma escrita com os cananeus e fenícios, baseada
num alfabeto de 22 letras. Isto tornava a leitura
ela se tornou uma fonte com
e escrita relativamente simples, comparada autoridade. Esdras é descrito como o mode-
com os sistemas de escrita cuneiforme da
Mesopotâmia e no Egito. Após o exilio,
• Ela d á acessibilidade — Um lo de escriba (veja também "O escri-
por influência da escrita arantaica, o hebraico trecho escrito pode ser copiado ba"). Ou seja, ele era membro de
passou a ser escrito com len-as mais cheias,
inúmeras vezes, e até coloca- uma classe de pessoas instruídas
a assim chamada escrita "quadrática"
que aparece acima. do nos batentes das portas da que se dedicavam a copiar, guardar
casa (Dt 6.9; 11.20). Enquanto e interpretar a lei. Este trabalho exi-
os textos originais da lei eram gia cuidado c treinamento durante
Transmitindo a História 65

vários anos (veja SI 45.1; Ed 7.6) e


era muito respeitado (Jr 8.8). Ele
A descrição
estava intimamente ligado ao sacer-
d o escriba exemplar,
dócio. Segundo a tradição, Esdras
conforme Eclesiástico 39
tinha vários papéis a desempenhar.
Estes provavelmente aparecem de Ele aprende de cor os ensinamentos de
forma idealizada no livro de Eclesi- homens famosos e procura descobrir o que
ástico (Eclesiástico 38.24—39.11): querem dizer as comparações.
• Pregador: reunir o povo a cada Explica também o significado escondido
ano para ler a lei, explicá-la e dos provérbios e emende os segredos das
incentivar o povo a colocá-la comparações.
em prática Presta serviços a pessoas importantes e
• Juiz: ouvir aqueles que tinham é visto na companhia das autoridades...
queixas e julgar questões espe- E, se for da vontade do Senhor Todo-
cíficas da lei judaica. Poderoso, ele ficará cheio do espírito de
• Instrutor: administrar escolas conhecimento...
de escrita e treinar aprendizes Ele terá conhecimento e saberá julgar
de escribas. com justiça e meditará nos mistérios de
• Acadêmico: estudar a lei e produ- Deus.
zir obras c teorias em resposta. Mostrará como é sábia a instrução que
ele recebeu e se sentirá orgulhoso por causa Antes da invenção da imprensa, os escribas
Copiar A tarefa do copista era da Lei da aliança do Senhor.
hebreus fatiam cópias das Escrituras com um
cuidado e uma precisão que nos impressionam,
reproduzir o texto com o máximo de cies que viviam num mundo que geralmente não
precisão possível. Assim, não impor- se importava tanto com a verdade. Ainda hoje os
escribas judeus trabalham com a mesma atenção
ta quantas vezes um trecho do Anti- escrupulosa cm relação aos detalhes.
go Testamento tenha sido copiado,
desde que a cópia tenha sido bem
feita. Podemos apenas identificar as
ocasiões em que foram cometidos É impressionante o grau de
erros, com base nas variações entre semelhança que existe entre dife-
os textos ou manuscritos. rentes cópias do texto, cópias essas
que surgiram em eras diferentes,
foram transmitidas por diferentes
As diferenças entre textos ou
meios e até foram recebidas em
manuscritos podem ser atribuídas a:
línguas diferentes
• omissão ou adição de uma pa-
lavra A descoberta dos Rolos do Mar
• erros de ortografia, que mais Morto cm 1947 — sendo que foram
tarde resultamemerros de inter- descobertos manuscritos 1.000
pretação anos mais antigos que quaisquer
outros conhecidos anteriormente
• inclusão no texto principal de
— deixou bem claro que a trans-
uma nota explicativa original-
missão do texto se deu com uma
mente incluída na margem
precisão extraordinária.
• danos causados a um rolo, não
deixando alternativa senão
especular quais seriam as pala-
vras ilegíveis ou ausentes
• alteração de um escriba, feita
para suavizar idéias considera-
das ofensivas.
Embora os copistas tenham
cometido pequenos erros que
entraram no texto escrito, o pro-
cesso de cópia incluía revisão e
correção cuidadosa.
66 Introdução à Bíblia

O trabalho dos editores


Jo Bailey Wells

As Escrituras hebraicas, como as


conhecemos, provaveimentesurgiram
gradativamente. As fontes originais
compõem a matéria-prima, a partir
da qual acredita-se que gerações de
editores trabalharam para compilar
estes "ingredientes" até os livros atin-
girem sua forma final no "cânon" (a
lista oficial).
Este processo de edição ou "reda-
ção", para usar o termo técnico pro-
vavelmente ocorreu de algum ponto
antes do exílio até o século II a.C. O
Novo Testamento se tornou "fixo"
muito mais rapidamente, e o trabalho
de editores é menos significativo.

A importância dos editores


O estudo do trabalho dos edi-
tores é conhecido como "crítica da
redação" (veja "O texto e a men-
sagem"). Esta procura descobrir
os propósitos teológicos por trás
da organização do material num
livro, já que a forma dos livros
como os temos reflete o trabalho
dos editores assim como dos auto-
res e tradutores.
Se pudermos entender como
um livro veio a ser escrito da
forma como o conhecemos hoje,
é provável que tenhamos maiores
chances de entender sua perspec- ções diferentes do rei Manas- Sem o trabalho dos editores que reuniram e
organizaram os materiais, não haveria Bíblia. Estes
tiva e o caráter singular de sua ses. De acordo com o editor rolos das Escrituras numa sinagoga de Tsefnl, no
mensagem. de Reis, julgamento e exílio norte de Israel, são testemunho de seus esforços.
Por exemplo: caíram sobre Judá por causa
• Nos livros de Samuel, o Cânti- do acúmulo de pecado, espe-
co de Ana é inserido no início cialmente o de Manasses (2Rs
da história. Isto diz ao leitor 23.26). Em comparação, o Cro-
alerta, bem no início da narra- nista fala do arrependimento de
tiva, que a história vai enfatizar Manasses, para mostrar como
a identificação de um "rei", ou Deus está sempre disposto a
"ungido" cm Israel (ISm 2.10), atender o pedido do peniten-
e a fidelidade de Deus para te (2Cr 33.12-17). Nos livros
com ele. A disposição de textos históricos, principalmente, os
num livro afeta a compreensão editores selecionaram suas
ampla do significado do livro histórias para destacar uma
como um todo. determinada interpretação dos
• Em Reis e Crônicas há descri- acontecimentos.
67

Coletando e organizando asseções d o Antigo Testamento

0 Pentateuco: A história deuteronomista: Histórias posteriores:


Gênesis a Deuteronômio Josué, Juízes, 1 e 2Samuel, Crônicas — Esdras — Neemias
1 e 2Reis

Os primeiros cinco livros da Bíblia Esta seção recebe seu título de Quer estes livros tenham ou não
aparecem como história única e coe- Deuteronômio, o livro que a prece- sido escritos pelo mesmo autor, ou
rente — como se produzida por um de, pois dá continuação aos mesmos por diferentes autores, eles foram
único autor sem necessidade de um temas e teologia da aliança. reunidos por um editor (conhecido
editor. Porém há muitos estilos diferen- Sua composição é complicada, como "o Cronista") para formar uma
tes de escrita, e algumas histórias são pois contém tradições do período narrativa contínua, enfatizada pela
repetidas de perspectivas diferentes. primitivo de Israel como organização repetição no início de Esdras dos dois
Em geral acredita-se, portanto, que isto tribal na terra prometida, assim como últimos versículos de 2Crônicas.
representa o trabalho final de compila- as histórias de administrações reais Esta narrativa, datada de 400 a.C.
dores que reuniram várias fontes. desde a época de Davi até o exílio. aproximadamente (embora às vezes
Wellhausen, um estudioso alemão Assim sendo, os livros desta seção se atribua uma data mais recente), é
do século 19, sugeriu que havia quatro reúnem trabalho feito por várias gera- feita para encorajar a pequena comu-
fontes, conhecidas como J, E, D e P, que ções de historiadores. O relato de nidade restaurada a acreditar que eles
teriam se originado em períodos e locais acontecimentos passados também realmente são herdeiros das antigas
diferentes. Cada uma tratava as origens é feito em retrospectiva: os edito- promessas que Deus fez a Israel.
de Israel de forma distinta. Se isto for ver- res refletem sobre o passado à luz É possível que "o Cronista" tenha tido
dadeiro (e continua sendo uma teoria), de acontecimentos atuais (por volta uma grande influência sobre a reunião
a história que agora temos representa da época do exílio). Esses "editores" e disposição de outros livros do Antigo
não só o trabalho de "reunião de fon- eram, portanto, estudiosos e escrito- Testamento para formar o cânon.
tes" feita pelos editores finais durante ou res sofisticados.
depois do exílio mas também o trabalho
de "subeditores" anteriores sobre cada
uma das fontes individuais.

Os Salmos Os Profetas: Isaías, Jeremias,


Ezequiel, os 12 "profetas
menores"

Estes derivam da adoração do É possível que Jeremias tenha sido


Israel antigo. É provável que estes responsável pela formação do livro
"hinos" foram reunidos durante o que leva seu nome (veja Jr 36.32).
exílio, quando o povo foi privado Mas, em geral, é provável que os
da adoração normal no Templo. O registros dos profetas anteriores ao
processo de edição reuniu a coleção exílio e do período do exílio foram
para criar um livro para estudo (o SI 1 preservados durante este período e
estabelece esta idéia desde o início). editados posteriormente.
Assim, os salmos são ordenados em Como no caso da história deute-
cinco "livros", que incluem coleções ronomista, o material foi reavaliado à
menores como unidades inteiras (p, luz da experiência atual e livros pós-
ex., os Salmos de Asafe, SI 73—83; os exílicos (Ageu, Zacarias e Malaquias)
"cânticos dos degraus", SI 120—134). foram acrescentados.
Além disso, cada salmo recebe um
título para auxiliar a meditação (veja,
p. ex, SI 51).
68 Introdução à Bíblia

A Bíblia Hebraica
Dan Cohn-Sherbok

A base da fé judaica é a Bíblia. Para cristão. O mais substancial desses "A Torá foi revelada do céu. Isto
os judeus, as Escrituras são chamadas livros se chama A Sabedoria de implica nossa crença de que toda
de Tanak. Este termo é um acrônimo Jesus, filho de Siraque (também a Torá que temos em nossas mãos
formado com a letra inicial das pala- conhecido como Sirácida ou Ecle- hoje é a Torá que foi entregue por
vras que designam as três divisões siástico). Entre as outras obras se Deus a Moisés, e que ela é totalmen-
da Bíblia hebraica: Torá (instrução); incluem: a Sabedoria de Salomão, te de origem divina. Com isto quero
Neviim (profetas); Ketuvim (escritos). 1 e 2Macabcus, Tobias e Judite. dizer que toda a Torá chegou a ele,
Outras obras literárias do vinda de Deus, por meio do que é
Uma lista aprovada de livros período do Segundo Templo sao metaforicamente chamado de 'fala';
A Torá consiste nos Cinco Livros conhecidas como os pseudepígra- mas a natureza real desta comuni-
de Moisés: Gênesis, Êxodo, Levíti- fos. Entre estes livros não-canô- cação é desconhecida a todos exceto
co. Números e Deuteronômio. De nicos se encontram o Testamento a Moisés a quem foi dada."
acordo com a tradição, estes livros dos Doze Patriarcas, 1 e 2Enoqite A exemplo de Maimônides, o
foram revelados por Deus a Moisés e Jubileus. filósofo Namânides, do século 13,
no monte Sinai. Nas fontes rabínicas, faz-se uma no seu Comentário do Pentateuco,
A segunda divisão da Bíblia distinção entre a revelação do Pen- argumentou que Deus ditou a Moi-
hebraica — Profetas — se divide em tateuco (Torá no sentido restrito) e sés e este escreveu os Cinco Livros
duas partes. as escrituras proféticas. Em geral de Moisés. É provável, argumen-
• Profetas Anteriores - contém sc diz que a Torá foi dada dire- tou ele, que Moisés tenha escrito
os livros de Josué, Juízes, 1 e tamente por Deus, enquanto os Gênesis e parte de Êxodo quando
2Samuel e l e 2Reis. livros jjroféticos foram dados por desceu do monte Sinai. No fim dos
• Profetas Posteriores — é compos- meio de profecia. 40 anos no deserto ele teria com-
ta dos profetas maiores (Isaías, Os livros restantes das Escri- pletado o restante do Pentateuco.
Jeremias e Ezequiel) c dos profe- turas — os Hagiógrafos — foram Namânides observou que esta
tas menores (Oséias, Joel, Amós, transmitidos por intermédio do teoria segue a tradição rabínica de
Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Espírito Santo ao invés de profe- que a Torá foi dada rolo por rolo.
Habacuque, Sofonias, Ageu, cia. Porém todas estas obras cons- Para Namânides, Moisés foi como
Zacarias e Malaquias). tituem o cânon das Escrituras. um escriba que copiou uma obra
A terceira divisão é feita de mais antiga.
uma variedade de livros divina- Interpretação Por trás deste conceito está a idéia
mente inspirados: Salmos, Pro- De acordo com os rabinos, tam- mística dc uma Torá primordial que
vérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, bém as exposições e elaborações contém as palavras que descrevem
Rute, Lamentações, Eclesiastes, da lei escrita foram reveladas por eventos muito antes de eles aconte-
Ester, Daniel, Esdras, Neemias e 1 Deus a Moisés no monte Sinai. cerem. Todo este registro estava no
e 2Crônicas. Posteriormente, essas exposições céu antes da criação do mundo.
Durante o período do Segundo foram transmitidas de geração em Além disso, Namânides afirma-
Templo (depois da volta do exílio geração e por meio deste processo va que os segredos da Torá foram
na Babilônia), os judeus escreve- uma legislação adicional foi incor- revelados a Moisés e são suge-
ram vários outros livros cm hebrai- porada à lei. Assim, o judaísmo ridos na Torá pelo uso de letras
co, aramaico e grego, mas que não tradicional afirma que a revelação especiais, os valores numéricos de
foram incluídos na lista oficial ou de Deus é dupla e está em vigor palavras e letras e os adornos dos
cânon das Escrituras. para sempre. caracteres hebraicos.
No entanto, estes textos con- Na Idade Média esta crença tra- Análoga à interpretação mística
quistaram status oficial na Igre- dicional foi afirmada sempre de da Torá proposta por Namânides,
ja Católica Romana e nas igrejas novo. Por exemplo, o filósofo judeu a obra mística medieval conheci-
ortodoxas orientais. Conhecidos Moisés Maimônides declarou, no da como o Zohar afirma que a Torá
como livros deuterocanônicos ou século 12, que a crença na Torá contém mistérios que vão além da
apócrifos, eles tiveram considerá- MiSin.ii I 'Torá do Sinai) é uma compreensão humana. Como o
vel impacto sobre o pensamento crença fundamental no judaísmo: Zohar explica:
Transmitindo a História 69

"Disse R. Simeão: 'Ai do homem mento do fundamentalismo do


que considera a Torá um livro de sim- passado. Mesmo assim, tanto os
ples lendas e questões do cotidiano! judeus ortodoxos quanto os não
Se fosse, até nós poderíamos compor ortodoxos continuam a pensar que
uma Torá sobre assuntos cotidia- a Bíblia judaica é fundamental
nos, uma obra de excelente qualida- para a fé.
de. Sim, até os príncipes do mundo
possuem livros de maior valor que
poderíamos usar como modelo para
compor tal Torá. A Torá, no entan-
to, contém em todas as suas palavras
verdades sobrenaturais e mistérios
sublimes ... Logo, se a Torá não
tivesse colocado vestes deste mundo,
o mundo não poderia resistir a ela.
Portanto, as histórias da Torá são
apenas suas vestes exteriores, e quem
olha para esta veste como sendo a
Torá em si, ai dele — este não terá
lugar no mundo vindouro.'"

O impacto da pesquisa
moderna Um rolo da Bíblia hebraica 6 erguido numa
sinagoga judaica. A lei é honrada como dom de
Na era moderna, porém, tor- Deus ao seu povo.
nou-se cada vez mais difícil susten-
tar o conceito tradicional judaico Moisés. Pelo contrário, agora ele
de revelação divina à luz da inves- é visto como coleção de tradições
tigação e descoberta acadêmica. originadas em períodos diferentes
Já no século 16, os estudiosos no Israel antigo.
indicaram que os Cinco Livros de Para os judeus ortodoxos, no
Moisés parecer ser compostos de entanto, tal posição moderna é
fontes diferentes. irrelevante. O judaísmo ortodoxo
Na metade do século 19, dois permanece dedicado à teoria de
estudiosos alemães, Karl Heinrich que a Torá escrita e a oral foram
Graf e Julius Wellhausen, concluí- transmitidas por Deus a Moisés no
ram que os Cinco Livros de Moisés monte Sinai. Este ato de revelação
são compostos de quatro documen- serve como base para todo o siste-
tos principais que existiram sepa- ma legal assim como para as cren-
radamente mas depois foram ças doutrinárias sobre Deus.
reunidos por uma série de editores Entre os judeus não ortodoxos,
ou "redatores". por outro lado, há uma aceitação
Outros estudiosos rejeitaram a geral das descobertas da pesqui-
teoria de fontes distintas; ao invés sa acadêmica moderna. Tal abor-
disso afirmam que tradições orais dagem não fundamentalista, que
foram modificadas durante a his- considera as novidades acadêmi-
tória do Israel antigo e que só ao cas recentes no campo dos estudos
final desse processo é que foram bíblicos, elimina a crença tradi-
compiladas para formar uma única cional da infalibilidade das Escri-
narrativa. turas e, portanto, fornece uma
A despeito dessas teorias dife- base racional para a alteração da
rentes, há um consenso entre os lei e a reinterpretação da teologia
críticos bíblicos modernos, inclu- das escrituras hebraicas à luz do
sive judeus reformados, conser- conhecimento contemporâneo.
vadores e reconstrucionistas que No período moderno, conse-
o Pentateuco não foi escrito por qüentemente, houve um afasta-
70 Introdução à Bíblia

Uma lista aprovada —


o "cânon" das Escrituras
Stephen Travis e Mark Elliott

A Bíblia consiste em 66 livros. Mas Livro dos Doze" e agrupados siderada muito recente ou arrisca-
por que estes livros específicos? num único rolo). da em sua teologia ou que estava
Por que um livro judaico como a É provável que estes também associada a grupos dentro do judaís-
Sabedoria de Salomão não foi incluí- eram uma coleção reconhecida mo e não a toda a comunidade
do no Antigo Testamento? na época de Esdras ou pouco judaica.
Por que foram incluídos quatro depois. Certamente Eclesiástico A lista resultante é idêntica aos
Evangelhos, e não mais nem menos? 44—49 (século 2 a.C.) demons- 39 livros que os cristãos chamam
E por que as comunidades judaicas tra familiaridade com a Lei e os de Antigo Testamento. O método
e cristãs dão tanta importância a esses Profetas como os conhecemos. judaico de contagem considera 1
livros? Os escritores do Novo Testa- e 2Samuel como um livro só, e o
Estas são questões sobre o "cânon". mento usam a frase "a Lei e mesmo se aplica a l e 2Reis, 1 e
os Profetas" como designação 2Crônicas, Esdras — Neemias. Os
No grego, a palavra "cânon" signi- dessas escrituras (Mt 5.17; Jo 12 profetas menores também são
ficava uma vara ou régua, portanto 1.45; At 13.15; Rm 3.21). vistos como um único livro.
um padrão ou regra. Os cristãos pas- • O s E s c r i t o s consistiam em Os cristãos aceitaram o cânon
saram a usar essa palavra em refe- grande parte de documentos definido pelos judeus do primei-
rência a uma lista de livros inspirados posteriores e sua aceitação ro século de nossa era principal-
por Deus que eles reconhecem como geral como coleção definiti- mente porque Jesus e os escritores
Escrituras com autoridade divina. va provavelmente se deu no do Novo Testamento se referem a
As escrituras judaicas primeiro século da era cristã. uma grande variedade de livros
Na época de Jesus, os judeus já Duzentos anos antes, todavia, do Antigo Testamento como tendo
haviam categorizado suas escritu- o prólogo de Eclesiástico já autoridade divina. Citações são
ras em três partes — a Lei, os Profe- falava sobre "a Lei, os livros dos freqüentemente introduzidas com
tas e os Escritos. Estas três coleções Profetas e os outros livros". E frases como "Está escrito" ou até
foram reunidas cm estágios. os Rolos do Mar Morto incluem "Diz o Senhor".
• A Lei ou Torá (Gênesis a Deu- cópias ou pelo menos fragmen- De acordo com Lc 24.44, Jesus,
teronômio) foi a primeira a ser tos de todos os livros da Bíblia depois de sua ressurreição, disse:
reconhecida como documento judaica exceto Ester, indicando "Era necessário que se cumpris-
fundamental de Israel por causa que a comunidade que produ- se tudo o que a meu respeito está
da sua associação a Moisés. No ziu esses manuscritos (entre escrito na Lei dc Moisés, nos Pro-
quinto século a.C-, Esdras a cerca de 150 a.C. e 68 d.C.) fetas e nos Salmos." "Salmos" aqui
trouxe de volta cm sua forma valorizava todos esses livros. pode referir-se aos Escritos como
escrita da Babilônia para Jeru- Outros livros escritos no perío- um todo, pois nesta divisão da
salém, c toda a comunidade a do de 300 a.C. a 100 d.C. eram Bíblia hebraica os Salmos geral-
reconheceu como "o Livro da valorizados por diversos grupos mente vêm em primeiro lugar.
Lei de Moisés" (Ne 8.1). de judeus. A tradução grega das Provavelmente o primeiro cris-
• O s P r o f e t a s é a seção que Escrituras hebraicas, conhecida tão a analisar criticamente que
inclui os Profetas Anteriores (a como Scptuaginta, incluiu vários documentos judaicos deviam ser
seqüência narrativa de Josué a desses livros (veja "Livros deutero- considerados como escrituras
2Reis, que interpretava a his- canônicos"). Mas após a catástrofe sagradas foi Melito, bispo de Sar-
tória do ponto de vista profé- da destruição de Jerusalém pelos des, por volta de 170 d.C. Sua lista
tico) e os Profetas Posteriores romanos em 70 d.C, os judeus, sob era idêntica aos 24 livros do cânon
(Isaías, Jeremias, Ezequiel e os a liderança dos fariseus, optaram hebraico, que ele chamava de
12 "profetas menores", conhe- por um cânon mais enxuto de 24 "livros da antiga aliança" (Eusébio,
cidos pelos judeus como "o livros. Excluíram a literatura con- História Eclesiástica 4.26.13-14).
Transmitindo o História 71

O Novo Testamento carta aos Hebreus, já em 200 reunidos para adoração liam as
A história do cânon do Novo d.C. cristãos egípcios a incluíam "memórias" dos apóstolos "que
'['estamento é mais a história em sua coleção das cartas dc são chamadas Evangelhos"
de uma coleção de coleções que Paulo. Mas ela só teve maior (Apologia 1.66).
de uma coleção de documentos aceitação na igreja ocidental a O Evangelho de João demo-
individuais. partir do quarto século. rou mais para ser aceito, em
• Os p r i m e i r o s d o c u m e n t o s • O s E v a n g e l h o s À medida comparação com os outros
a serem reunidos foram as que os cristãos se familiariza- três — talvez porque era usado
c a r t a s d e P a u l o . O here- vam com mais de um Evan- pelos gnósticos para promover
ge Marcião nos informa que gelho, perceberam que cada sua própria versão da fé cristã,
antes de sua época (cerca de um trazia uma perspectiva ou talvez apenas porque era tão
140 d.C.) já havia uma cole- diferente da história dc Jesus. diferente dos outros. Mas antes
ção fixa das dez cartas prin- Como acreditavam firmemen- do ano 200 Irineu argumentava
cipais de Paulo. Por volta do te que havia uma única men- que é tão natural haver quatro
ano 200 havia coleções que sagem evangélica coerente, Evangelhos quanto há quatro
também incluíam 1 e 2Timó- isto passou a ser um problema. ventos e quatro cantos da terra
teo e Tito. Os autores cristãos Mas as vantagens de afirmar (Contra as heresias 3.11.8).
deste período os citavam fre- as contribuições distintas dos Outros documentos seme-
qüentemente como tendo a quatro Evangelhos acabaram lhantes a evangelhos como o
autoridade das Escrituras. prevalecendo. Evangelho de Pedro e o Evange-
Embora houvesse dúvidas Por volta de 150 d.C, Justino lho dos Egípcios continuaram a
freqüentes sobre a autoria da já descrevia como os cristãos ser usados nas igrejas orientais,

Do rolo ao livro

Os documentos que entraram no cânone maior dos rolos do mar Morto) tem 8 m e 20 começou a substituir o rolo durante o segundo
da Bíblia Hebraica foram colecionados, original- cm de comprimento. Rolos também podiam ser século d.C. Mais tarde, passou-se a adicionar as
mente, num "livro" em formato de um rolo. No feitos de pergaminho (couro). capas, para proteger o livro.
início, os rolos eram feitos de folhas de papiro. Num rolo, o texto era escrito e lido em colu-
Cada folha tinha cerca de 30 cm de altura e 20 nas. Os cilindros nas duas pontas permitiam ao
cm de largura. As folhas eram coladas umas leitor desenrolar e enrolar o texto à medida que
nas outras, formando rolos de comprimento ia lendo.
variado, embora fosse pouco comum um rolo No tempo do NT, a maioria dos rolos
com mais de 20 folhas. 0 Rolo do Templo (o (incluindo os documentos do NT) era feita de 53
papiro, e não de pergaminho. Mas os rolos eram
. - : ; • ' " ' ' - •' £ ' = S ¡ = - ' i
difíceis de manusear e transportar. Tudo indica :sr.. :;R.-
que os cristãos íoram pioneiros no desenvol- ,. S . S ^ . ffii"-.-.v.fc-
vimento do "códice", isto é, na fabricação do '•'•'.' .'.'••""
ftilF
livro assim como o conhecemos hoje. Neste
W^Mi J { ; l | Í ' P : f |
caso, as páginas são dobradas e fixadas numa
extremidade (a lombada). Esta forma do livro

à esquerda: Um rolo escrito em hebraico.

A direita: Uma página cio Códice Sinaífico. a


manuscrito atais antigo dc todo o NT (mais
uma parte do A T ) de que hoje dispomos.
Escrito em grego sobre pergaminho,
ele foi descoberto no século 19 no
Mosteiro de Santa Catarina,
no sopé do monte Sinai.
Esse códice data do século
-I d.C.
72 Introdução à Bíblia

I m m depois do ano 300 d.C, Eusé- • livros contestados, i.e., aqueles


* <OCKXIXXC^OIIIXCI -^<|?*CI|füf -
bio fez referência a uma cole- que ainda não eram universal-
I MHÍA.I AHay-"1"<4>mJs l O l M i l .«.»4
y M c i c o y w » . R * - ' I I N - O I iii-oi-iií,-,
ção de sete "cartas católicas". mente aceitos — Tiago, Judas,
Provavelmente a coleção sur- 2Pedro, 2 e 3João, os Atos de
*"('V"HiiikxueNTe(.:uKiit giu do desejo de sc ter um tes- Paulo, o Pastor de Hermas, o
. W I - R E R O V U - I ü v c t i I R 11 • M<>Y
^•YÍANEXEÍEENXVFM-I ikmi-m!.. temunho comum dos apóstolos Apocalipse de Pedro, a Carta de
OOI-IOYCYI i M f O M K M o r e i ' Y W "tidos como colunas" (Gl 2.9) Barnabé e o üidaquê
. f * í*.*"' M O C
* - M HM- ao lado das cartas de Paulo. • os firmemente rejeitados, inclu-
• A t o s e A p o c a l i p s e fica- sive os Evangelhos de Pedro, de
ram fora destas três coleções. Tomé e de Matias e os Atos de
Embora d o mesmo autor do André e de João.
Evangelho de Lucas, Atos foi Na sua carta de páscoa de 367
separado dele em data bem d.C, Atanásio apresentou pela
K X M e N ' í "O I C O d>0 .V KM o i Ü f IMuV *
antiga e não é citado por auto- primeira vez uma lista de livros
00©0-VCXMC*>>*<<X!*.!X-Ol pc.cn.».,. '
,
res cristãos antes do tempo de autorizados idêntica ao Novo Tes-
. C'J-i'X.\Òn. X'.M'CpTv>Vvoix r 1

Justino. Mas por volta do ano tamento que conhecemos e esta foi
O M "<Xi O O P X I í A M e U K . v l M»,riV '
200 sua importância foi reco- amplamente aprovada no Oriente.
YMI M l - M K l £ ( O l I Ml'l I H M c t ) MIO "¡ '
nhecida como evidência de que A mesma conclusão foi endossada
M C P C O O III IK11 MtífâtU P \ | < X m I " * Paulo e os outros apóstolos pre-
. - ! l<M M < ri K*0 X M C KlXI i Xf *l -FWO
no Ocidente por uma declaração
gavam o mesmo evangelho, ao papal cm 405 c no norte da Áfri-
' ^ K O I M U i U » X M O X • Kl-CMCOHfcW '
KMMKOimiWil^MaiiHMUTflX contrário dos esforços de Mar- ca nos Sínodos de Hipona (393) e
cião e outros hereges de reivin- Cartago (397).
YK4| N > MMfXNPAYMWAiiTiC
dicar Paulo para si e rejeitar os A extensão do cânon, no entan-
k >.1X>¿- i ( i C C T I M t l M T G M X H M
M
outros apóstolos. to, jamais foi formalmente defini-
Í ' O X X O X< V i w o t i OOTXJS..»-
âC-f*J'N'KXfOKin-IXCMAY.Ul)|o)M<n * O livro de Apocalipse foi da por um concílio ecumênico da
OYSCxifxOAMi>PüriiujMo.>i aceito mais rapidamente no igreja inteira. Assim, ainda hoje,
MOV i v ' * K Y n - « > C l W n ; n u : f i 11\'
'1' U I M « ( N V Y \ O W C O \ K.\i«Vy" d >
O c i d e n t e que no O r i e n t e , embora as igrejas ortodoxa, cató-
cl>MÇfrn|»«x>i|.t)ei-Hic\H\o mas até no Ocidente esteve lica romana e protestante compar-
sob suspeita por causa do seu tilhem o mesmo cânon do Novo
uso pelos montañistas com Testamento, a igreja etíope tem
seu entusiasmo excessivo por um cânon de 38 livros.
especulações quanto ao fim do Se revisarmos os critérios pelos
mundo. No quarto século seu quais os 27 livros alcançaram sta-
a m status como escritura foi reco- tus canónico, podemos ver que
nhecido no Oriente — com a quatro perguntas fundamentais
O Códice Alexandrino foi dado de presente pelo compreensão de que o milênio foram feitas sobre cada documen-
Patriarca de Constantinopla (que parece té-lo de Ap 20 não devia ser inter- to em consideração.
encontrado em Alexandria, no F.gito) ao rei da
Inglaterra (quando o presente chegou, em 1627, pretado literalmente. • Ele é apostólico? Em vários
o rei era Charles 1). Escrito à mão, em grego, no Após três séculos de uso, as casos esta era simplesmente
período entre 400 e 450 d . C , este códice é uma
das cópias mais antigas da Bíblia.
igrejas começaram a confirmar uma questão de autoria. As
formalmente quais livros mere- cartas de Paulo, por exemplo,
mas com o passar do tempo caí- ciam autoridade para determinar foram rapidamente aceitas com
ram em desuso porque expres- suas vidas e seus ensinamentos. base nisto, enquanto Hebreus
savam doutrinas que tinham Listas de livros autorizados foram permaneceu em dúvida por
mais em comum com a heresia feitos em várias partes do mundo mais tempo porque sua autoria
gnóstica que com a tradição cristão. era incerta.
recebida pela igreja. Entre estas, particularmente Outros documentos foram
• As Cartas Católicas (Tiago interessante é a classificação dos incluídos porque vieram de
até Judas) formaram a última documentos em três grupos feita uma pessoa diretamente rela-
coleção a ser reunida. Pelo fato por Eusébio: cionada c o m um apóstolo
de não haver reconhecimento • os livros aceitos nas igrejas sem se não do próprio apóstolo.
claro da sua autoria apostólica, qualquer restrição — quatro Assim, os Evangelhos dc Mar-
todas, exceto IPedro e Uoão, Evangelhos, Atos, 14 cartas de cos e Lucas foram reconhecidos
foram pouco usadas antes Paulo, Uoão, IPedro e também como tendo autoridade ao lado
do quarto século. Um pouco Apocalipse "se desejável" de Mateus e João.
Transmitindo a História 73

Era crucial saber que cada


documento provinha do perío-
do mais antigo da história da
igreja. No entanto, o teste de
apostolicidadc não foi aplicado
de forma rígida. Por exemplo,
apesar da dúvida com relação
à autoria de Hebreus, ele foi
aceito porque atendia aos crité-
rios seguintes.
• É ortodoxo? O livro combina
com a compreensão da fé cris-
tã que recebemos por meio da
tradição viva da igreja?
Com base nisto m u i t o s
documentos com títulos apa-
rentemente autênticos como o ram sua autoridade intrínseca Não demorou muito e os lideres da Igreja tiveram
dc decidir quais dos escritos em circulação eram
Evangelho de Tomé e os Atos de por meio do uso constante na genuínos e seriam benéficos para toda a Igreja. Os
João foram rejeitados, porque igreja. quatro Evangelhos que aparecem no inicio do NT
se destacavam do restante. Kstas páginas de um
seu ensinamento era de caráter evangelho desconhecido são bastante antigas, ou
gnóstico. Nos tempos modernos já houve seja, da primeira metade do século 2.

• E católico? 0 livro comunica quem sugerisse, aqui e ali, que o


a palavra dc Deus à igreja em conteúdo do cânon deveria ser via — do manancial que é o Novo
geral, não apenas a um grupo revisado. Testamento.
seleto? Cartas originalmente Alguns sugeriram que o ceticis- Os livros do cânon do Novo
dirigidas a uma igreja específi- mo que reina cm círculos acadê- Testamento se distinguem por
ca foram aceitas se sua mensa- micos quanto à autoria apostólica darem testemunho em primeira
gem pudesse ser comunicada a dc certos livros deveria levar a um mão da história de Jesus Cristo e
um público mais amplo. questionamento de sua canoni- do impacto que ele teve no perío-
Assim, até uma carta como cidade. Outros perguntaram por do formativo da vida da igreja. O
2João que, aparentemente, que o cânon do Novo Testamento cânon é um caso de sobrevivência
não tem maior significado tor- deveria se limitar estritamente a dos mais aptos.
nou-se canónica por causa da esses 27 livros. Por que não incluir
sua ênfase na defesa da ver- outros documentos cristãos anti-
dade contra "enganadores ... gos tais como o Evangelho de Tomé
que não confessam Jesus Cristo ou os Atos de Paulo?
vindo em carne" (vs. 7-11). Mas, como vimos, dúvidas
• O livro alentou a vida das sobre autoria não são razão sufi-
igrejas ao longo do tempo? ciente para excluir um documen-
No final das contas, o teste mais to. Os livros em questão provaram
importante que podia ser apli- há muito tempo seu valor na vida
cado a um documento era se ele cristã. E embora alguém possa
havia demonstrado seu valor se beneficiar da leitura de outros
divino através de sua habilidade livros que foram escritos nos pri-
de renovar, sustentar e guiar a meiros tempos da igreja cristã,
igreja. a verdade é que os documentos
Não devemos imaginar que o do Novo Testamento continuam
processo dc definição do cânon sendo especiais.
foi obra dc comissões que se Provavelmente nenhum dos
reuniram para julgar os escri- documentos que ocasionalmen-
tos cristãos e decidir se podiam te são propostos para inclusão
fazer parte do cânon ou não. no cânon seja tão antigo quan-
Seria mais exato dizer que os to os documentos que integram o
documentos que acabaram Novo Testamento. Sua mensagem
entrando no cânon demonstra- é derivada — e às vezes se des-
74 Introdução à Bíblia

Divulgando a palavra
a tarefa da tradução
A maioria das pessoas não lê a do, pois a maioria das pessoas fala- meiros 300 anos após a morte de
Bíblia em si, mas versões da Bíblia na va aramaico ao invés de hebraico e Jesus, os cristãos produziram ver-1
sua própria língua, pois os livros da assim não entendia muito do Anti- soes do Novo Testamento numa
Bíblia foram escritos em três línguas go Testamento lido em hebraico. O variedade de línguas — para que
antigas: hebraico, aramaico e grego. "Targum" era uma versão aramaica pessoas que não sabiam grego pudes-
A maior parte do Antigo Testamen- do Antigo Testamento usada antes sem ler sobre Jesus e crer nele.
to foi escrita em hebraico, a língua dos de e durante a época de Jesus — Eles começaram com o latim,
israelitas. Algumas partes do Antigo uma versão bastante expandida e a língua dos romanos (por volta de
Testamento estão em aramaico, a lín- parafraseada do original hebraico. 150-220 d . C ) , o siríaco, falado
gua que era usada em Israel na época na Síria antiga (por volta de 160
de Jesus e que está relacionada com o As primeiras traduções do d.C.) e o copta, uma língua do
hebraico. Novo Testamento Egito (por volta do terceiro século
O Novo Testamento foi escrito em Essas versões do Antigo Testa- d.C), e depois passaram a traduzir
grego "comum" — a língua falada por mento foram feitas principalmen- para as línguas do Oriente Médio,
muitas pessoas em todo o Império te para ajudar aqueles que já eram do Norte da África e da Europa.
Romano na época de Jesus. judeus a entender sua fé. Nos pri- Estas primeiras traduções
foram motivadas por dois fatores:
Os autores dos livros bíblicos eles acreditavam que os livros do
escreviam para comunicar e, por Novo Testamento eram inspirados
isso, usavam a linguagem de seu por Deus, e assimilaram o chama-
público-alvo. Não demorou muito, do de Jesus de "fazer discípulos de
no entanto, para que a mensagem todas as nações" (Mt 28.19). Estas
começasse a ser levada a pesso- duas convicções os motivaram
as que não conheciam as línguas a tornar os livros do Novo Testa-
bíblicas. Isto tornou necessário o mento acessíveis ao maior número
trabalho de tradução das Escritu- possível de pessoas na língua que
ras — uma tarefa que foi iniciada 1 1 essas pessoas falavam — para que
mV-.TV> i-Pvjf". ,*:?
ainda antes do tempo de Jesus. ('.mV.t i r , - , .'.'i í. - r ^ a vida delas também pudesse ser
(•TM ) ' ' . <j < ' transformada pela mensagem de
1 M T v V t V ' >•";'>'
O Antigo Testamento em grego • : ;í-:»í.rM'"'-j --f"
Jesus.
O povo judeu do século 3 a.C. w s p o l i u i - . i r ; Neste ponto o cristianismo con-
produziu uma versão do Antigo Tes- trasta de forma interessante com
tamento em grego conhecida corno o islamismo, pois os muçulmanos
Septuaginta. A Septuaginta era falam sobre a produção de comen-
usada para leitura em voz alia nas tários do Corão e interpretações
sinagogas localizadas em cidades do mesmo, mas não de traduções,
do Império Romano onde se fala- pois entendem que o original (em
va grego, cidades como Corinto, árabe) é estritamente intraduzível.
Antioquia e Roma. Os judeus que Pelo fato do cristianismo ser
moravam nessas cidades muitas uma fé missionária, dedicada a
vezes não entendiam o Antigo Tes- ajudar os outros a encontrarem
tamento em hebraico e então preci- Deus por intermédio de Jesus Cris-
savam da Bíblia na língua que eles to, o Novo Testamento foi escrito
podiam compreender. Umn das primeiras línguas que recebeu uma originalmente na língua comum
tradução do N T foi o copta (no Kgito), no
Algo semelhante acontecia em século 3 d . C Está c urna página do Evangelho daquele tempo e depois traduzido
Israel por volta do mesmo perío- de João. para as línguas de muitos povos.
Transmitindo a História 75

O aumento do número
de traduções
No século 16, na Europa, houve
um grande renascimento das tra-
duções da Bíblia, à medida que os
cristãos se deram conta outra vez
da importância dc levar a mensa-
gem dc Jesus aos outros, especial-
mente àqueles que não conheciam
latim, a língua das pessoas cul-
tas. 0 estudioso holandês Erasmo
escreveu:
"Cristo quer que seus mistérios
sejam amplamente divulgados...
Eu gostaria que fossem traduzi-
dos para todas as línguas de todo o
povo cristão, para que pudessem ser
lidos e conhecidos, não apenas pelos
escoceses e irlandeses, mas também
pelos turcos e sarracenos. Gostaria Das 6.071 línguas conhecidas O uso de computadores facilitou muito a tarefa
dos tradutores em todo o mundo.
que o lavrador pudesse cantar parte mundialmente apenas 5% têm a
deles enquanto vai arando o solo, Bíblia completa, outros 13% têm
que o tecelão possa recitar esses tex-o Novo ou o Antigo Testamento e hebraicos e aramaicos serão
tos enquanto tece, que o viajante ainda outros 14% têm pelo menos usados.
possa, com suas narrativas, espan-um livro da Bíblia traduzido. Jun- Não temos os manuscritos ori-
tar o cansaço da jornada." tos, estes números significam que ginais dos livros bíblicos escritos
Durante um tempo, esta con- mais de 95% da população mun- pelos primeiros autores; temos
vicção foi combatida por setores dial têm pelo menos uma parte uma grande quantidade de
tradicionalistas da igreja daquela da Bíblia numa língua conhecida. cópias antigas dos textos bíblicos
época, pois havia o temor de que Mas ainda existe muito por fazer! (mais de 5.000 apenas do Novo
as pessoas formulariam suas pró- Testamento), mas as cópias
prias interpretações da Bíblia, caso Como se faz uma tradução nem sempre concordam entre
pudessem ler o texto em sua pró- Versões modernas da Bíblia si. Nenhum item essencial da
pria língua. Isto significaria que a geralmente são resultado do tra- fé cristã depende de uma dife-
igreja perderia o controle daquilo balho dc um grupo ou de uma rença entre essas cópias antigas,
em que as pessoas criam. equipe de tradução e passam por mas a tradução de uma passa-
Mas aqueles que queriam colo- quatro estágios antes de serem gem específica pode depender
car a Bíblia na linguagem das pes- publicadas. de qual cópia antiga está mais
soas simples não achavam que isto • Um rascunho de cada livro próxima do original.
levaria à anarquia. Queriam ape- é produzido, sendo que cada A ciência da crítica textual
nas que o poder que a Bíblia tem tradutor trabalha com deter- (veja "O texto e a mensagem")
de transformar vidas estivesse minado número de livros. Esse é usada para decidir qual cópia
acessível a todos, não apenas aos rascunho de tradução c levado está mais próxima do original.
eruditos. a uma discussão com o grupo Essa ciência leva em conta a
A invenção da imprensa um de tradutores. Algumas línguas idade das diferentes cópias e a
pouco antes desse tempo propi- não têm forma escrita, ou seja, disseminação de determinada
ciou um meio barato de tornar existem apenas na forma oral. formulação ou palavra no con-
essas novas traduções disponíveis Assim, antes de se poder fazer junto das cópias.
a muitas pessoas. uma tradução, são necessários • Um grupo de especialistas
Atualmente, as Sociedades muitos anos de trabalho árduo (consultores) dá orientações
Bíblicas Unidas e a Associação para reduzir a língua à escrita. a respeito de certos assuntos,
Wycliffc de Tradutores Bíblicos Este trabalho é feito em con- incluindo crítica textual, ques-
continuam o trabalho de produ- junto com falantes nativos. tões relacionadas com as lín-
zir versões da Bíblia em línguas Este passo envolve uma deci- guas originais, assuntos ligados
diferentes. são sobre quais textos gregos, à arqueologia, ou simplesmente
76 introdução à Bíblia

o estilo e a maneira de expres- os tradutores focalizam ou pri- Por exemplo, se uma versão
sar o sentido do texto na língua vilegiam a língua original (ou é produzida tendo em mente
alvo. língua-fonte), produzem uma as crianças, sua linguagem será
• Pessoas que representam a igre- versão literal (ou palavra por mais simples c as frases mais
ja e outras entidades farão uma palavra) em que o texto da tra- curtas, em comparação com
revisão do rascunho da tradu- dução se orienta pela maneira uma versão feita para adultos.
ção, às vezes usando o texto em como a língua-fonte organiza Se a versão é feita para pes-
grupos de estudo bíblico para palavras e sentenças. soas para as quais a língua-alvo
testar trechos ou livros inteiros Isto pode parecer um pouco não é a língua materna, os tra-
que foram traduzidos. estranho ou artificial para dutores evitarão palavras mais
• Finalmente, os tradutores origi- alguém que não conhece a lín- raras ou frases peculiares.
nais "arrematam" o rascunho, gua original — mas pode ser Uma versão para uso de pes-
preparando uma versão final uma vantagem, por exemplo, na soas eruditas e estudantes pode
ser mais técnica.
No caso de algumas versões
modernas em certas línguas,
é importante usar linguagem
"inclusiva". Em português, por
exemplo, isso significaria usar
a palavra "pessoas" ao invés
de "homens" quando o origi-
nal claramente inclui também
as mulheres nessa referência.
Outras línguas não têm este pro-
blema, já que nelas existe um
termo para "homens e mulhe-
res" usado para grupos mistos.
Tudo isto significa que é útil tere
usar mais de uma versão da Bíblia.
Versões diferentes darão nuances
diferentes do origina], e, para quem
não lê hebraico, aramaico e grego,
Boas notícias devem set compartilhadas. "Ide hora de traduzir a poesia hebrai- isto enriquecerá sua compreensão
poi lodo o mundo e pregai o evangelho a toda da mensagem da Bíblia.
a criatura", disse Jesus aos seus discípulos, lista
ca (tal como aparece nos Sal-
tem sido a tarefa dos cristãos desde o princípio mos), pois permite ao leitor ver E haverá situações em que
até agota: traduzir o evangelho para línguas
como o original foi estruturado. determinada versão será mais
locais, pela palavra falada, através de gestos de
amor c dc ainda, e pela palavra escrita. A alegria • Foco n a l í n g u a - a l v o Por útil ou mais adequada do que as
dessa boa nova se tomou real na sida desta mãe outro lado, se os tradutores outras, como, por exemplo, quan-
africana e de seu filho. Hoje essa boa nova alcança
pessoas cm todos os continentes. focalizarem a língua-alvo, o que do se fizer uma leitura em voz
resulta é uma versão de leitura alta na igreja, quando se estiver
para publicação. Nesse proces- fácil, mas que não é literalmente fazendo um estudo em particular,
so, às vezes eles tornam a con- exata. No ponto extremo desta quando se estiver dirigindo uma
sultar os especialistas para tirar abordagem se encontram as discussão em grupo, ou quando
dúvidas quanto a uma ou outra paráfrases, que são uma refor- se estiver ensinando a fé cristã às
questão. mulação bastante livre do origi- crianças.
nal na língua-alvo, geralmente
Versões diferentes com o uso de formulações sur-
Grupos diferentes de traduto- preendentes ou interessantes.
res produzem versões diferentes Na prática a maioria das ver-
— às vezes bem diferentes umas sões fica entre os extremos do
das outras. muito literal e da paráfrase.
Por que são tão diferentes? • Foco n o p ú b l i c o alvo Um
• Foco na língua original Em segundo fator que ajuda a
primeiro lugar, a língua foca- explicar a variedade de versões
lizada pode ser diferente. Se é o público-alvo.
Traduções da Bíblia em português
Eis um breve histórico da tradução da Bíblia para o português.

Tradução de Almeida - 0 primeiro a Tradução do Padre Matos Soares sete editoras católicas brasileiras, baseia-se
traduzir o Novo Testamento para o por- - Tradução datada de 1932, feita a partir da nos textos originais hebraicos, aramaicos e
tuguês a partir do original grego foi João Vulgata. Editada originalmente em Portugal, gregos, comparados com a Nova Vulgata.
Ferreira de Almeida, missionário protes- foi várias vezes reimpressa no Brasil. Até há Ela se destina, entre outros propósitos, à
tante na Ásia (especialmente na cidade de pouco tempo, era a versão mais difundida citação em documentos da Igreja Católica e
Batávtá, na liba de Java). Traduziu o Novo entre os católicos. à preparação de edições litúrgicas.
Testamento, lançado em 1681, e parte do
Antigo Testamento (quando faleceu em Almeida Revista e Atualizada (ARA) - Nova Versão Internacional (íWI) - Publica-
1691, a tradução estava em Ez 48.21). 0 Fiel aos princípios de tradução de equivalência da no Brasil em 2001. Define-se como tradução
trabalho foi concluído por Jacobus op den formal, que caracterizam o texto de Almeida, evangélica, fiel e contemporânea. Segue a filoso-
Akker, colega de Almeida. A Bíblia toda só a edição Revista e Atualizada surgiu no Brasil fia de tradução da New International Version.
foi publicada em 1753. após o trabalho de mais de uma década. A
* Comissão tratou de atualizar a linguagem, A Boa Nova - Tradução em Português
Versão de Figueiredo - Tradução do mas também levou em conta os últimos Corrente - Lançada pela Sociedade Bíblica de
Padre Antônio Pereira de Figueiredo a partir avanços da arqueologia e exegese bíblicas. Portugal em 1993. Foi preparada porbiblistas
da Vulgata, entre os anos de 1772 e 1790. Foi A Bíblia completa foi lançada em 1959. protestantes e católicos e sua linguagem é pró-
a primeira Bíblia completa publicada no Brasil, xima à usada pela maioria dos portugueses.
em 1864. Bíblia de Jerusalém (BJ) - Edição prepa-
rada por uma equipe de exegetas católicos e Nova Tradução na linguagem de Hoje
Almeida Revista e Corrigida (ARC) - A protestantes. A Bíblia completa foi publicada (NTLH) - Em 1988, a SBB lançou a Bíblia na
tradução de Almeida foi trazida para o Brasil em 1981. Uma edição revista e ampliada foi Linguagem de Hoje (BLH), a primeira tradução
pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangei- publicada em 2002. completa da Bíblia feita por iniciativa da SBB. Em
ra e entregue a uma comissão de tradutores 2000, foi lançada a Nova Tradução na Lingua-
brasileiros, que foram incumbidos de dar ao Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) gem de Hoje (NTLH), uma segunda edição do
texto uma feição mais brasileira. - Publicada em 1994 e reeditada em 2002. texto da BLH, com alterações no texto do Antigo
Os livros bíblicos foram traduzidos, introduzi- Testamento e uma revisão mais aprofundada da
Tradução Brasileira (TB) - A primeira dos e anotados por uma equipe de estudiosos tradução do Novo Testamento. Orientada pelos
Bíblia completa traduzida inteiramente no católicos, protestantes e judeus. princípios de tradução dinâmica, a NTLH empre-
Brasil. 0 trabalho foi feito entre 1902 e 1917 e ga uma linguagem que é acessível às pessoas
teve Rui Barbosa como um de seus consultores Bíblia Sagrada - Tradução da CNBB menos instruídas e, ao mesmo tempo, aceitável
lingüísticos. Era uma tradução bastante literal. - Publicada em 2002 por um consórcio de I às pessoas mais eruditas.

Página de rosto d o
Novo Testamento
de João Ferreira d e Almeida,
publicado em 1693.
80 Introdução à Bíblia

Perspectivas culturais
Oriente e Ocidente
Melba Maggay

Até recentemente, as pessoas do defende a Bíblia na nossa cultura do e o secular, o público e o parti-
Ocidente envolvidas diretamente na como se fôssemos todos racionalis- cular. Eles consideram a realidade
transmissão da mensagem cristã para tas de uma era científica. uma unidade.
outras culturas em geral não estavam As culturas ocidentais baseadas
cientes das pressuposições culturais O que está errado? na cultura grega tendem a dividir
por trás da sua própria leitura das Muitos estudiosos perceberam a pessoa em corpo e alma, diferen-
Escrituras. Elas pressupunham que que o cristianismo como foi teo- ciando o "espírito" e a "matéria".
sua leitura do evangelho registrada na logicamente desenvolvido no Oci- A noção ocidental de que a reli-
Bíblia era relativamente objetiva. dente focalizou as idéias complexas gião está relacionada com o "espí-
Assim, o mesmo "pacote" é leva- que envolvem o pecado e a culpa. A rito" e não com as coisas materiais,
do de cultura a cultura, sem levar em questão que mais preocupa a "cons- como comida e bebida, levou a
consideração se o contexto social é ciência introspectiva do Ocidente" uma rígida separação entre espi-
do Terceiro ou Primeiro Mundo, e se é se podemos ter certeza de que ritualidade e envolvimento com
o público está imerso numa visão de realmente iremos ao céu. o mundo. A divisão entre "salvar
mundo animista, budista ou hindu. Esta pergunta, embora não as almas" e "alimentar os corpos"
Em reação, vozes cristãs do Ter- seja completamente irrelevante, é está longe da justiça e das dimen-
ceiro Mundo levantaram a questão pouco importante para os filipinos, sões nacionalistas dos movimentos
do contexto, desafiando teologías e para os quais o que importa mais religiosos nativos.
métodos de comunicação tipicamen- é acesso ao centro do poder que
te ocidentais e chamando a atenção governa sua vida e o universo. Pensando e sentindo
para a importância da cultura no ato Cada cultura tem um senso As pessoas numa sociedade
de ler e ensinar a Bíblia. interno do que considera "errado", amplamente oral como a filipina
ocasionando certa introspecção vêem a vida como realidade primá-
A tradição teológica ociden- ou reflexão. Nas Filipinas, o rom- ria — eventos passados guardados
tal é parte importante da herança pimento da harmonia no nosso na memória e reinterpretados com
da igreja em todo o mundo, mas relacionamento com a socieda- o passar do tempo; disso vem o
c apenas uma das possíveis leitu- de ou com o cosmos é uma falha senso de que o mundo não é fixo, c
ras, e o que uma cultura conside- considerável. sim um sistema interpessoal dinâ-
ra essencial pode certamente ser O Ocidente, que tende a indivi- mico dc encontros com pessoas e
diferente do que outra cultura con- dualizar e personalizar o "pecado", outros seres.
sidera importante. considerando-o, antes de tudo, uma Pensamento e expressão são
Os filipinos, em sua cultura, questão de traição e mentira e sexo geralmente altamente organiza-
ainda se impressionam com "o ilícito, ou de coisas gerais relacio- dos, mas de maneiras imaginativas
poder... que pode ser claramen- nadas com violação da integridade e intuitivas ao invés de analíticas e
te percebido... por meio das coi- interior c usurpação dos direitos de abstratas. Experiências humanas
sas que foram criadas". Porém o outras pessoas, precisa aprender a concretas são destiladas em pro-
cristianismo ocidental se dirige a levar em conta a dimensão social e vérbios, enigmas, mitos e parábo-
eles como se houvessem há muito cósmica do pecado. las, o que explica a preferência por
passado a idade do misticismo e histórias ao invés de proposições,
precisassem ser arduamente con- Dupla personalidade pelo poder das imagens ao invés
vencidos da existência dc um Deus O holismo filipino opõe-se à de palavras abstratas.
sobrenatural. Nosso povo ainda tendência ocidental de comparti- Aqui, na cultura filipina pré-
não conhece a natureza "desmiti- mentar a realidade. Os filipinos espanhola, a escrita era usada
ficada", desprovida do maravilho- não fazem distinção rígida entre o principalmente como forma dc
so e do mágico. Mas o Ocidente natural e o sobrenatural, o sagra- comunicação social, não como
A Bíblia hoje

forma dc acumular sabedoria e ao intelectualismo abstrato, supon- Somos todos condicionados pela nossa cultura.
Tanto o Oriente quanto o Ocidente podem
tradições antigas. do que o que Deus estiver fazendo, contribuir para a compreensão da Bíblia e de sua
estará fazendo em sua mente. mensagem. Esta cena no mercado é de Manila,
nas Filipinas, que é o contexto cultural da au
Expressões de fé Conseqüentemente, a fé passa a
deste artigo.
A ênfase do protestantismo nas ser, em grande parte, definida em
expressões cognitivas, proposicio- termos de aquisição de informação dc conflito entre culturas. A noção
nais e verbais de fé em contraste bíblica, ao invés de discipulado; de tempo como sendo linear — um
com a ênfase católica na emoção, como habilidade dc demonstrar tempo único e absoluto que pode
no ritual e na imagem, data da aceitação de certas fórmulas de ser medido pelo relógio, no qual
ligação histórica entre a Reforma fé, ao invés da capacidade de apli- uma hora tem sempre 60 minutos
e a invenção da imprensa. car tal conhecimento no cotidia- na hora que podem ser perdidos ou
A invenção dc Gutenberg tor- no. Este etos fica muito distante ganhos, ou podem receber valor
nou possível a impressão e distri- da cultura nativa que valoriza a monetário — é muito diferente da
buição de Bíblias, democratizando sabedoria ou a habilidade de inte- noção nativa de tempo como algo
a leitura das Escrituras, que por grar vida e conhecimento, dizeres orgânico, ligado às estações e aos
sua vez levou a uma ampla alfabe- sábios e relacionamentos eficazes movimentos lunares.
tização. O centro litúrgico passou com pessoas e situações. O agricultor acorda com o nascer
do altar para o púlpito, da Imagem do sol para trabalhar c pára quan-
para a Palavra. Uma questão de tempo do o sol está muito quente. O pes-
Após 400 anos dc alfabetiza- O tempo como valor dominante cador observa a maré c espera por
ção, o Ocidente evoluiu para uma na organização da vida nas socie- noites de lua nova. As festas acon-
cultura religiosa fortemente ligada dades ocidentais é outro exemplo tecem nas estações de colheita e
82 Introdução à Bíblia

ritual, e medições de tempo variam mais próximo do sentido hebraico de o tempo é linear — a Bíblia fala do
dos ciclos climáticos ao período de tempo como "determinado" ou "opor- tempo como tendo um princípio e um
tempo que se leva para fumar um tuno"; um momento amadurece até fim, da história com um propósito
cigarro. o tempo designado de construir ou não um ciclo interminável de nasci-
Pelo fato de o tempo nesta cul- plantar, ou arrancar e destruir. As mento e morte, da ascensão e queda
tura estar ligado ao fluxo dos even- pessoas discernem as estações e de impérios — há um sentido em que
tos ao invés do relógio, as coisas determinam se é tempo kairos (opor- vivemos o tempo como um ciclo.
começam quando estão prontas e tuno) ou apenas tempo chronos (que Estes, é claro, não são os únicos
terminam quando estão completas. passa) c agem de acordo. exemplos das diferenças entre o pen-
O que chamamos de "horário fili- A ênfase ao tempo como presen- samento ocidental e oriental. É real-
pino" é na verdade sincronia com te vivo foi mal interpretada como mente difícil comunicar-se através de
o fluxo de eventos à medida que o hábito de se deixar para amanhã barreiras culturais. Mas estar ciente
acontecem. Isto pode ser visto no o que se poderia fazer hoje, mas é do nosso condicionamento cultural e
fato de eventos começarem somen- mais correto entendê-la como uma reconhecê-lo é um progresso. Então
te quando os lugares na sala estão falta de futurismo ou de ansieda- começamos a nos abrir para outros
preenchidos e os próprios organiza- de com relação ao amanhã. "Basta discernimentos culturais. E as pers-
dores estarem prontos, ou no fato a cada dia o seu próprio mal", diz pectivas combi nadas de Oriente e Oci-
de que um alvoroço de preparativos Jesus. Não adianta preocupar-se dente trarão uma compreensão mais
acontece em cima da hora porque o com um amanhã que não podemos rica da Bíblia e de sua mensagem.
evento está prestes a começar. controlar, ao contrário da ilusão oci-
O filipino está interessado, não no dental de que por mero planejamen-
horário em que algo acontece, mas se to e administração podemos nos
uma ação já terminou ou pertence ao proteger das incertezas do futuro.
"ainda não". Isto está, de certa forma, Embora haja um sentido cm que
83

Jesus numa sociedade


pluralista
Vinoih Ramachandra

Os autores bíblicos viviam num "A reivindicação Bíblia hebraica, uma passagem na
ambiente social tão pluralista quanto não é tanto que Jesus qual Deus declara ser o único Sal-
o nosso em matéria de religião. Israel é como Deus, vador universal. Ele convoca todas
foi chamado para andar nos cami- mas (pie Deus é como Jesus." as nações da terra a dobrarem os
nhos do Senhor sob o olhar atento joelhos diante dele. Mas aqui, é
de outras nações. A singularidade do escrituras hebraicas. Eles adora- ao nome de Jesus que, no final da
etos social de Israel vinha da revelação vam ou prestavam culto a Jesus. história humana, todo joelho se
única que Deus confiara a Israel. Algumas das primeiras "cristolo- dobrará. O mundo inteiro reco-
Deus, como criador e soberano do gias" eram expressas em hinos de nhecerá que Jesus é o Senhor
mundo, estava agindo na história de adoração coletiva. verdadeiro. E esta reivindicação
todas as nações e culturas. Mas em Um fragmento de um destes surpreendente é feita sobre um
nenhuma nação além de Israel Deus hinos primitivos provavelmente criminoso judeu que fora recente-
agiu por amor a todas as nações. encontra-se nas palavras seguin- mente executado!
tes, escritas cerca de 25 anos após Igualmente surpreendente é o
Sempre que os israelitas pen- a crucificação. E parte de uma contexto literário em que isto apa-
savam que Deus era apenas mais carta que Paulo, líder cristão de rece — uma exortação para imitar
uma divindade tribal ou tentavam origem judaica, escreveu para uma esse Cristo em sua mentalidade
adorar a Deus à maneira dos ritos das igrejas que fundara na colô- humilde e atitude dc servo!
de fertilidade comuns entre os nia romana de Filipos. Ele escreve
cananeus, eles estavam traindo a sobre "Cristo Jesus" (Fp 2.6-11): Na Palestina do icnipo dc Jesus, a sociedade era
sua vocação no mundo. "o qual, embora estando diversificada, mais ou menos como a nossa. Em
Cesaréia de Filipe, onde Pedro confessou que Jesus
Segundo os autores dos Evan- na forma de Deus, era o Messias enviado por Deus, havia um templo
gelhos, a história de Israel alcan- não considerou que dedicado ao deus grego Pan. Nichos escavados na
rocha para abrigar estátuas dc deuses podem ser
ça a sua verdadeira plenitude em o ser igual a Deus era vistos ainda hoje.
Jesus de Nazaré. Ele incorpora os algo de que ele deveria
propósitos dc Deus para as nações tirar vantagem;
ao viver como o Filho que é fiel a mas a si mesmo se esvaziou,
Deus. Ele é aquele sobre quem Moi- assumindo a forma de servo,
sés havia escrito, aquele que fez tornando-se semelhante aos
com que Abraão ficasse alegre, ao homens.
ver o tempo da vinda dele, aque- E, sendo encontrado em forma
le que é Senhor até de Davi. Nele humana, a si mesmo se
converge o conjunto de imagens do humilhou e foi obediente até
Antigo Testamento, tanto do "Servo a morte, e morte de cruz!
de Deus" de Isaías, suportando a Por isso também Deus o
ira de Deus para curar as nações, exaltou sobremaneira e lhe
quanto do "Filho do Homem" de deu o nome que está acima
Daniel, recebendo um reino eterno de todo nome,
que abrange todos os povos. para que ao nome de Jesus se
Mas Jesus também traz a his- dobre todo joelho...
tória de Deus a seu verdadeiro clí- e toda língua confesse que
max. Desde o início, a igreja cristã, Jesus Cristo é Senhor, para
que também vivia num mundo a glória de Deus Pai."
religiosamente pluralista, consi- Nesta passagem, "o nome que
derou adequado falar dc Jesus na está acima de todo nome" é uma
linguagem usada para Deus nas alusão clara a Is 45.22-24 na
84 Introdução à Bíblia

Aqui novamente, como no Israel de Deus — estava irrompendo no representava a própria identidade e
antigo, o povo da aliança de Deus mundo, e tomando forma em e por de Israel como nação, a ação de | ri
(neste caso, a igreja de judeus e meio de suas palavras e ações. Jesus era realmente radical,
gentios) proclama a singularida- Na sua presença, homens e Jesus apresentou-se também d
de de Deus/Cristo andando como mulheres recebiam perdão incon- como aquele a quem todas as a
Deus/Cristo andou. dicional de seu pecado. Pessoas nações prestarão contas no fim da . n
Esta visão elevada de Jesus cer- que haviam fracassado moralmen- história. Na história extraordinária u
tamente veio da maneira como o te e não tinham vez na sociedade do julgamento final em Mt 25.31- | ci
próprio Jesus via sua relação com recebiam uma nova identidade e 46, a base do julgamento será ares- I a
Deus e Israel. Tanto o ensino de eram inseridos em novos relaeio- posta das nações a ele — expressas o
Jesus quanto seu estilo de vida namentos. Ao declarar tal perdão na sua resposta àqueles com quem n
implicam uma profunda auto- Jesus deixava de lado o Templo cie se identificou. A forma positiva u
compreensão. Para Jesus, o "reino com seu sacerdócio divinamen- como Jesus muitas vezes assumia
de Deus" — a grande esperança de te instituído e seu sistema sacrifi- direitos e prerrogativas de Deus t(
Israel quanto à presença salvadora ciai. Como o Templo em Jerusalém escandalizou seus contemporâneos a
A Bíblia hoje 85

Meninos posam ao lado das ruínas de uma antiga


igreja em Gadara, uma das Dez Cidades (gregas)
que, na época de Jesus, ficavam nas imediações da
Galileia. Jesus fez a afirmação de que ele é o único
caminho que leva a Deus num mundo semelhante
ao nosso, ou seja, um mundo em que diferentes
religiões disputavam a preferência das pessoas.

nova ordem mundial. Esta lingua-


gem foi aplicada a Jesus após a sua
ressurreição porque deu significa-
do a suas palavras e obras anterio-
res à crucificação. Por intermédio
de Jesus, o Deus Criador tiraria
sua criação da sujeição ao mal e à
morte e a elevaria para comparti-
lhar sua própria vida.

"É ao nome de Jesus que,


no final da história humana,
todo joelho se dobrará."

A esperança judaica de ressur-


reição agora se torna fé em Jesus
que, em Jo 11.25, afirma ser "a res-
surreição e a vida". Ao ressuscitar
Jesus, Deus lhe deu seu próprio
poder de levantar os mortos. Ele é
o "Autor da vida" (At 3.15), "aquele
que vive" (Ap 1.18; comparar com
o uso desta expressão como títu-
lo divino em Dt 5.26; Js 3.10; SI
42.2, e t c ) , o "espírito vivificante"
(ICo 15.45), aquele a quem o Pai
concedeu "ter vida em si mesmo"
para que também possa dar vida a
outros (Jo 5.21-26).
Ao falarem de Jesus, Espírito e
Deus ao mesmo tempo, os apóstolos
não só fazem declarações extraor-
e provocou a indignação das auto- dinárias sobre Jesus, mas também
ridade religiosas. fazem declarações surpreendentes
No centro da fé e da pregação sobre Deus. A reivindicação não é
dos primeiros discípulos estava a tanto que Jesus é como Deus, mas
afirmação de que Jesus havia sido que Deus é como Jesus. Jesus, e
ressuscitado por Deus: que durante especialmente Jesus na sua crucifi-
um período de 40 dias após sua cru- cação, é de certa forma a plenitude
cificação ele apareceu a eles num da divindade numa personalidade
corpo físico e depois continuou a humana. Com esta convicção os
comunicar-se com eles, a "habitar" primeiros cristãos se negavam a
neles e capacitá-los por meio de considerar-se apenas membros de
uma nova atuação do Espírito. uma "religião" entre várias: eles
Na crença judaica daquele eram testemunhas entre as nações
tempo, "ressurreição" representava do que Deus, em Jesus, fizera por
a derrota do mal, a vinda de uma toda a humanidade.
86 introdução à Biblia

O Corão e a Bíblia
Michael Nazir-A!i

O livro sagrado dos muçulmanos, o bra" seus leitores do que foi esqueci- usado não só para avaliar as outras
Corão, alega repetidamente ser a con- do e que "abranda" ou ab-roga certas escrituras em relação ao Corão
tinuação da revelação dada na tradição partes das escrituras mais antigas: mas também para determinar
judaico-cristã e é considerado pelos "As revelações que ab-rogamos como certas passagens fundamen-
muçulmanos a última de uma linha- ou fazemos cair no esquecimen- tais no Corão se relacionam com
gem de escrituras dada aos profetas: to, nós as substituímos por outras, outras partes do livro.
"Cremos emAláeaquiloquedecima iguais ou melhores" (2.106). No que diz respeito à lei mosai-
foi enviado sobre nós, sobre Abraão, Este versículo foi muitas vezes ca, a posição do Corão é que pelo
Ismael, Isaque, Jacó e as tribos de Israel e
o que foi outorgado a Moisés e a Jesus e
o que foi dado a todos os profetas vindo
do seu Senhor. Não fazemos distinção
entre todos eles, porque foi a Alá que
nos submetemos" (Sura 2.136).

As outras escrituras são men-


cionadas com freqüência, especial-
mente o Tawrat (ou Torá), o Zalnir
(Salmos) e o Injil (Evangelho).
Judeus e cristãos são exortados,
além disso, a viver segundo a von-
tade dc Deus como foi revelado nos
seus livros:
"Que o povo do Evangelho jul-
gue de acordo com aquilo que Alá
revelou nele c quem não julga pelo
que Alá revelou é rebelde" (QS.50).
Alguns versículos antes, os judeus
também são desafiados a viver
segundo a luz e orientação da Torá.

No que Corão e a Bíblia


diferem
No entanto, já na época em que o
Profeta do Islã ainda era vivo come-
çava a ficar claro que as Escritu-
ras dos judeus c cristãos eram bem
diferentes da revelação que o Profe-
ta alegava ter recebido. Como expli-
car isto, se todos eram a Palavra de
Deus?
Esta dificuldade é contornada de
maneiras diferentes, mas principal-
mente pela alegação dc que o Corão
"cumpre" as outras revelações mais
parciais: que, cm certos casos, "lem-

Um imnnic se dirige ¿1 um grupo de pessoas numa


mesquita de Istambul.
f A Bíblia hoje «7

menos algumas de suas cláusulas te às discrepâncias entre suas mas apenas de "esquecer" o que
foram decretadas corno castigo por escrituras e as dos judeus e cris- receberam (cf. 5.15).
rebelião. Jesus supostamente revo- tãos é a acusação do Tahrif. É a Os primeiros comentaristas
gou algumas delas e o Profeta do crença que o "Povo do Livro" que muçulmanos, tais como Tabari e
Islã abrandou outras (3.50; 4.160; viveu em período anterior muda- Razi, eram da opinião que a alte-
5.90). Assim o Corão, na visão ram ou corromperam seus livros ração era tahrif bi'l ma'ni, uma cor-
muçulmana, é a revelação final e de tal forma que estes não mais rupção do significado do texto sem
definitiva que "cumpre" as outras concordam com o Corão. O "Povo necessariamente envolver corrup-
escrituras e, naquilo que estas con- do Livro" é acusado de alterar as ção do texto em si.
tradizem o Corão, são ab-rogadas. escrituras para seus próprios pro- Gradativamente, porém, sur-
pósitos (2.75-79; 4.46; 5.14). Pode giu um consenso de que "o Povo
Um texto corrompido? ser, todavia, que os cristãos não do Livro" era culpado de tahrif bi'l
Outra maneira pela qual o sejam acusados, pelo menos no lafz, a corrupção do próprio texto.
islamismo procura fazer fren- Corão, de alterar as escrituras, O teólogo espanhol Ibn Hazm e o
mestre itinerante na índia, o cien-
tista Al-Biruni, foram os principais
propagadores desta teoria. Muitos
estudiosos, no entanto, continuam
a defender que o Corão não afir-
ma corrupção geral das escrituras
judaico-cristãs, mas apenas que os
textos foram mal usados e certas
passagens, ocultadas.

Uso da Bíblia
Embora os muçulmanos acredi-
tem que o conteúdo do seu livro
sagrado tenha sido recebido dire-
tamente de Deus e, portanto,
não depende de qualquer outro
documento literário ou histórico,
muitos estudiosos muçulmanos
referem-se à Bíblia quando tentam
comentar o significado do Corão.
Estes estudiosos não são ape-
nas os que integram uma esco-
la mais "liberal" de pensamento.
Os conservadores também usam
a Bíblia extensivamente como
contexto histórico para o estu-
do do seu próprio livro. Ao faze-
rem isto, precisam definir até que
ponto houve alteração do texto,
independentemente das interpre-
tações a que foi submetido por
judeus e cristãos.
Muitos chegam a conclusões
surpreendentes: concordam, por
exemplo, que narrativa e comentá-
rio na Bíblia podem sofrer altera-
ção, mas que isto não se aplica às
palavras inspiradas dos próprios
profetas. Isto, é claro, deixa intacta
a integridade de extensos trechos
da Bíblia!
Como os muçulmanos No que tange às escrituras Tentativas de produzir tais obras
entendem a revelação judaico-cristãs, por outro lado, há demonstram, noentanto, quão gran-
Para que cristãos entendam a um grande número de manuscri- de é a dificuldade que os muçulma-
visão muçulmana da Bíblia, é cru- tos, às vezes em línguas diferen- nos tem com a noção cristã de como
cial que tenham alguma noção de tes, que são usados para elaborar livros diferentes da Bíblia foram
como os muçulmanos vêem a reve- a edição crítica de um texto. A escritos e como a lista aprovada sur-
lação. A idéia de uma obra pre- confiabilidade é atingida não pela giu na sua forma atual.
determinada descendo do céu, dependência de uma única linha
para a qual o profeta apenas serve dc evidência manuscrita, mas pela Entendimento mútuo
de meio ou instrumento, não con- comparação de tradições manus- O diálogo paciente entre muçul-
diz com o conceito dc revelação critas diferentes. manos e cristãos sobre as escri-
para a maioria dos cristãos. Estas são as formas diferentes turas dc cada fé tem, na verdade,
Em diálogo com muçulmanos, de chegar àquilo que a comunida- aprofundado a compreensão da
é muito importante explicar como de considera um texto confiável. posição do outro lado. Os cristãos
os cristãos entendem que a reve- compreendem a extensão da con-
lação é mediada, não só por meio Livros fora do "cânon" tinuidade que existe entre o Corão
das limitações de cultura c língua, oficial e as escrituras que eles usam,
mas também por meio dc um pro- Ocasionalmente os muçulma- enquanto os muçulmanos passam
cesso dc acréscimo nas tradições, nos produzem livros semelhan- a apreciar algumas das escrituras
de reflexão e edição por parte de tes ao assim chamado Evangelho às quais o Corão se refere.
comunidades e indivíduos. de Barnabé que, segundo eles, é Isto é muito bem-vindo, pois
A maneira em que a evidência o Evangelho autêntico. No entan- só pode levar a uma melhor
manuscrita é tratada nas duas tradi- to, nem o próprio Corão, nem a compreensão do que se tem em
ções é um exemplo disto. Todas as tradição muçulmana mais anti- comum e ao estabelecimento de
edições atuais do Corão são deriva- ga, faz qualquer referência a tais uma base a partir da qual se pode
das de uma única recensão (sendo obras. "Barnabé" é, na realidade, lidar com as sérias diferenças que
que as variantes foram destruídas no uma obra relativamente moderna, permanecem.
decorrer da história). Para os muçul- escrita na Espanha muçulmana,
manos, isto é um sinal da integrida- que discorda do Corão em certos
de e confiabilidade do livro. aspectos importantes!
A Bíblia hoje 89

A Bíblia do ponto de vista


feminino
Claire Powell

O século 20 testemunhou grandes e com a retificação do desequi- Antigo Testamento sobre a situação
mudanças nas atitudes com relação ao líbrio no qual mulheres e o sexo das mulheres, mas os homens pre-
status e papel das mulheres. A educa- feminino foram marginalizados valecem, assumem o poder até na
ção das mulheres foi uma das chaves nas traduções da Bíblia, na teolo- vida religiosa e as mulheres pare-
para abrir novas oportunidades no gia e na igreja. cem ser raramente vistas ou ouvi-
mercado de trabalho, e para dar maior das. O que está registrado aparece,
respeito ao trabalho tradicionalmente Parceiros iguais na maioria das vezes, na forma de
feito por mulheres. Gênesis começa com o fato de narrativa descritiva. A questão que
Uma mudança de perspectiva da que homens e mulheres foram isto levanta é se a narrativa afirma
Bíblia também era necessária, não criados iguais à vista de Deus e a vontade de Deus para os papéis
porque as mulheres se relacionem na presença um do outro. A cria- e status de homens e mulheres
com Deus ou vêem a Bíblia de forma ção de ambos é considerada muito em todas as culturas em todos os
diferente dos homens, ou porque boa (Gn 1.31). A mulher é cria- tempos, ou se simplesmente des-
todas as mulheres pensem da mesma da a partir do homem, não para creve o que estava acontecendo na
forma, mas porque, até recentemente, mostrar subordinação, mas para época (da mesma forma que, por
quase toda interpretação bíblica era mostrar que ela é semelhante a exemplo, apresenta a poligamia e
feita por homens. ele, em contraste com os outros a escravidão), para que possamos
Na cultura secular c na igreja, a seres criados, e para demonstrar aprender, imitando o que é bom e
masculinidade se tornou a norma a interdependência que Paulo, em corrigindo o que não é. As Escri-
do que significa ser humano e era ICo 11.11-12, diz ser eternamente turas registram muitas coisas que
fácil marginalizar, mesmo que característica da raça humana: "No não defendem!
inconscientemente, a contribuição entanto, no Senhor, nem a mulher
e importância das mulheres. Teó- é independente do homem, nem o Deus e a Bíblia
logos focalizaram principalmen- homem é independente da mulher. são preconceituosos?
te a maneira como Deus lida com Porque assim como a mulher foi Será que a Bíblia como tal favo-
os homens, considerando mais feita do homem, também o homem rece os homens em detrimen-
importante na teologia e na histó- nasce da mulher." to das mulheres? E o patriarcado
ria cristã as coisas que os homens (no sentido mais amplo, o siste-
fazem, enquanto as mulheres, os Rivalidade e competição ma de homens no poder) é justi-
papéis que elas exercem, a fé, a Os problemas entre homem e ficado pelo próprio texto? Estaria
experiência e os interesses delas mulher só começaram depois que Deus tratando as mulheres dessa
ficavam em segundo plano. Tanto a desobediência causou a "queda" forma? É bem mais provável que
homens quanto mulheres acos- da humanidade em Gn 3. Então, aquilo que encontramos descrito aí
tumaram-se a aprender sobre fé ao invés da mutualidade e com- está para ilustrar como o status, a
a partir de exemplos bíblicos de plementaridade do Eden, tiveram função e a experiência das mulhe-
homens como Pedro, enquanto o início a rivalidade e a competição. res ficam longe do ideal divino de
exemplo de mulheres como Maria Dc Gn 4 em diante, isto acontece igualdade. Há indicações suficien-
eram subconscientemente vistos como cumprimento da previsão de tes disto no texto em si.
como "apenas para as mulheres"! que o homem dominaria a mulher Embora grande parte da his-
Portanto, toda a igreja, mulhe- (Gn 3.16). Este não era o ideal dc tória focalize as atividades dos
res e homens, se beneficia com a Deus, mas parte das conseqüên- homens, as mulheres estão pre-
valorização da experiência de fé cias inevitáveis da queda. sentes e têm papéis importantes. A
por intermédio das mulheres nas Se Gênesis estabelece o cenário, liderança não c restrita a homens.
Escrituras, com a recuperação da o drama se desenrola na história Tanto Débora, ajuíza (Jz 4), quan-
importância esquecida das mulhe- da salvação no restante da Bíblia. to Hulda, a profetisa (2Rs 22),
res na história da missão da igreja Não há uma palavra inequívoca no assumem papéis responsáveis de
90 Introdução à Bíblia

liderança que não são descritos no do contexto específicos. Nos casos km Taçtoban, nas Filipinas, um grupo de mulheres
se reúne para estudara liíhlia.
texto como algo excepcional. Pelo em que há diferença entre deta-
contrário, elas são respeitadas. lhes de uma situação do primeiro
século e do presente, o princípio líder em Filipos; Febe era diaconi-
Do Antigo ao Novo do ensinamento é que deve ser sa em Cencréia (Rm 16.1); Júnia (a
O fato de a maioria dos líderes seguido. Logo, quando Paulo indi- evidência da maioria dos manus-
serem homens representa a cultura ca em lTm 2 que as mulheres não critos indica que Júnia era uma
patriarcal desenvolvida na época. devem ensinar ou ter autoridade mulher) era apóstola (Rm 16.7).
Não há mandato divino para tal. sobre homens, ele está se dirigin- Os crentes são recomendados por
As mulheres foram excluídas do do a um problema específico de Paulo a ensinarem uns aos outros
sacerdócio do Antigo Testamen- ensinamento falso e autoridade (p. ex. Cl 3.16) e nenhuma exce-
to, mas muitos homens também injusta em Éfeso. Em tal contexto ção aqui impede mulheres de ensi-
foram! E o Novo Testamento nos as mulheres deviam parar o que nar homens. Há registro de Priscila
apresenta um sacerdócio de todos estavam fazendo de errado. ensinando Apolo (At 18.26).
os crentes, homens e mulheres! O princípio permanente para As listas dc dons no Novo Tes-
No Antigo Testamento, a circun- hoje é que as mulheres são proibi- tamento (p. ex. Rm 12; ICo 12; Ef
cisão era o sinal de que se pertencia das de ensinar o que é errado, mas 4) não especificam sexo. Dada a
ao povo da aliança de Deus — um não por isso proibidas de ensinar cultura patriarcal da época, não é
sinal que, fisicamente, só podia ser o que é correto! Nisto elas podem de admirar que os líderes homens
colocado no corpo de homens. Mas servir de exemplo de conduta para fossem mais numerosos que as
com o nascimento da igreja surgiu os homens, assim como os exem- mulheres, mas está é uma descri-
um novo sinal. O batismo incluía plos dos homens geralmente são ção, não um padrão.
fisicamente homens e mulheres, aplicados a mulheres. Uma indicação disto pode sei
judeus e gentios. Sabemos, com base em Atos e vista em lTm 3.2, que diz que, para
Nas cartas do Novo Testamen- nas epístolas, cjue mulheres eram alguém ser candidato ao episcopa-
to há várias indicações de que proeminentes entre os líderes em do, precisa ser "marido dc uma
quaisquer restrições sobre mulhe- quase todas as primeiras igrejas só mulher". Isto poderia indicara
res se aplicam dentro da cultura e que se reuniam nos lares. Lídia era necessidade de ser casado e mono-
A Bíblia hoje 91

gâmico ou, mais provavelmente, Nas línguas que não têm um bar a cultura judaica de dominação
ter pureza e fidelidade no casa- pronome inclusivo, o masculino masculina da sua época. Porém
mento. Num contexto em que era ou o feminino deve ser usado para ele claramente quebrou as regras
provável que a maioria dos líderes refletir o fato de que a natureza do seu tempo. Ele ensinou mulhe-
fossem homens e, quase com cer- de Deus é pessoal, não impessoal. res; discutiu teologia com elas;
teza, casados, isto serve de regra "Aquilo" não serve. O uso de "ele" aceitou adoração delas; elevou sua
para a situação de Éfeso naquela para Deus indica que Deus é uma posição em discussões sobre divór-
época, não sendo uma proibição pessoa. Não está relacionado com cio; e tocou mulheres ritualmente
futura para todos os homens soltei- o sexo (àquilo que é biologicamen- "impuras". Tais ações não parecem
ros ou para as mulheres! lTm 3.12 te determinado) ou gênero (aquilo grande coisa pelos padrões atuais,
faz a mesma exigência no caso dos que c socialmente determinado). mas foram atos notáveis na época e
diáconos, mas isto não pode signi- Ultimamente as imagens femi- iam além do que era aceitável. Isto
ficar que todos os diáconos elevem ninas de Deus nas Escrituras (tais abriu caminho para seus seguido-
ser homens, já que Paulo chama como dar a luz ou prover alimen- res fazerem o mesmo.
Febe de diaconisa em Rm 16.1. A to) foram redescobertas. O mesmo No passado, o fato de Jesus ter
liderança e responsabilidade bíbli- aconteceu com o uso de termos nascido como homem era consi-
ca na igreja devem ser baseadas no femininos com relação a Deus, p. derado vantajoso para os homens.
caráter, chamado e compromisso ex. o Espírito Santo e a sabedo- Se encarnação significa que "Deus
cristão, não em questões de gêne- ria no Antigo Testamento. Classi- se fez um homem", então a reden-
ro ou sexo. ficações gramaticais masculinas ção das mulheres fica em che-
e femininas são usadas, mas elas que ou pelo menos é secundária,
Deus masculino não transmitem necessariamente e Jesus é mais bem representado
ou feminino? o ser ou a essência. no sacerdócio por homens que por
Muitas pessoas têm uma ima- Também houve progresso no mulheres.
gem mental de Deus como sendo reconhecimento da valorização Mas a Bíblia jamais usa a mas-
homem, ou pelo menos mais mas- social do masculino que é ineren- culinidade de Jesus como instru-
culino que feminino. Isto se deve te a muitas línguas e a conseqüen- mento de comparação; usa apenas
em grande parte às imagens de te marginalização das mulheres sua humanidade, que é comum
Deus na arte primitiva, e à descri- — colocando-as dc lado, ignoran- a homens e mulheres. E o Novo
ção de Deus como "ele" ou "pai". do-as ou considerando-as atípicas Testamento ensina nitidamente
Dt 4.15-16 lembra Israel de que no que tange à experiência huma- o sacerdócio de todos os crentes;
Deus não tem forma ou aparência. na. Esta não é a visão bíblica. No todos podem chegar a Jesus e todos
Eles não deviam fazer imagens de passado, quando Deus era conside- podem rcprcscntá-lo na terra.
escultura (ou supostamente formar rado masculino, o erro estava em Na encarnação Jesus repre-
imagens mentais) de Deus como considerar a masculinidade como senta um modelo de humani-
homem ou mulher. Masculino c sendo mais semelhante a Deus. dade, não de masculinidade. As
feminino são diferenças biológi- mulheres, assim como os homens,
cas na humanidade criada. Ambos O exemplo de Jesus podem encontrar seu padrão nele
os sexos refletem igualmente uma Jesus não introduziu um movi- e seguir seu exemplo em todos os
imagem do Criador. mento revolucionário para derru- aspectos.
92 Introdução à Bíblia

A Bíblia do ponto de vista


de um cientista
John Polkinghorne

A busca pela verdade religiosa "Jamais poderemos ca que c muito difícil prever de
é semelhante ã busca pela verdade confinar Deus antemão quais serão as idéias
científica. Se queremos saber como dentro de nossas gerais corretas. Somente a expe-
Deus é, temos que descobrir o que ele definições." riência pode nos mostrar isto.
fez e como ele tem se manifestado. Na realidade, esse elemento de
Para nos ajudar nessa busca pela surpresa é uma das coisas que
verdade, o registro mais importante Creio que precisamos lera Bíblia torna a pesquisa científica tão
de que dispomos e que trata de expe- desta forma, mas certamente pre- compensadora e interessante.
riências religiosas é a Bíblia. cisamos lê-la também de outras Nunca se sabe o que se vai des-
maneiras. De modo especial, não cobrir no momento seguinte.
A Bíblia como fonte devemos apenas julgá-la, mas tam- Por exemplo, todos os dias da
de evidência bém deixar que ela nos julgue. minha vida como físico teórico
A Bíblia hebraica — aquilo que usei as idéias da mecânica quân-
os cristãos chamam de Antigo Tes- A abordagem de um cientista tica. Esta teoria descreve como as
tamento — trata de como Deus se Não importa o que façamos, coisas se comportam numa escala
revelou a alguns pastores nômades, as experiências que temos afetam bem reduzida do tamanho de áto-
como Abraão; como Deus libertou nossos pensamentos e influenciam mos ou menor ainda. No final das
os descendentes dessa gente da nosso modo de pensar. Passei 30 contas, o comportamento daquilo
escravidão no Egito; como Deus anos da minha vida trabalhando que é muito pequeno é totalmen-
estava envolvido com a história do como físico teórico, tentando usar te diferente da maneira como nós
povo de Israel, tanto em situações a matemática para entender alguns experimentamos o mundo na esca-
de juízo como dc salvação. dos padrões incríveis bem como a la "normal" de nosso dia a dia.
No Novo Testamento lemos como ordem que existe no mundo físico. Parece que vivemos num mundo
Deus agiu para revelar-se de manei- Seja num sentido positivo ou nega- que é previsível e que pode ser
ra nova e mais clara. Os Evangelhos tivo (e sem dúvida, por ambos ao descrito. Sabemos onde as coisas
falam sobre a vida, morte e ressur- mesmo tempo), isto afeta a manei- estão e o que estão fazendo. Tudo
reição de Jesus, enquanto as outras ra como penso sobre todo tipo de isto muda quando vamos ao nível
obras (como as cartas de Paulo) coisas. dos átomos.
— muitas das quais são anteriores Gosto de começar com os fenô- O elétron, por exemplo, é uma
aos evangelhos — contam como os menos, com coisas que aconte- das partes que compõem o átomo.
primeiros cristãos estavam maravi- ceram, e depois tentar criar uma Se você sabe onde ele está, não
lhados com a nova vida que encon- explicação a partir disto. Meu lema pode saber o que está fazendo;
traram cm Cristo. é este: "Comece com casos especí- se sabe o que está fazendo, não
Quando lemos a Bíblia como ficos e só então tente entender o pode saber onde ele está! (Isto se
um registro de experiências reli- que está acontecendo em geral". chama princípio da incerteza de
giosas das quais podemos apren- Este tipo de pensamento induti- Heisenberg).
der sobre a relação de Deus com a vo é natural no caso do cientista, e O mundo quântico é indefinido
humanidade — como evidência na isto por duas razões. e indescritível. Não podemos ima-
nossa busca pela verdade — esta- • Estamos procurando idéias que ginar em termos cotidianos como
mos necessariamente sujeitando-a, têm razões que as sustentem; ele é. No entanto, podemos enten-
até certo ponto, a nosso julgamen- essas razões vão estar na evi- dê-lo, usando a matemática e o
to. Devemos decidir se estamos dência que estamos conside- conjunto especial de idéias quân-
lendo um relato histórico ou uma rando, os eventos que motivam ticas que aprendemos a partir de
simples narrativa, se o que é dito nossa crença.
reflete a vontade de Deus ou as • Aprendemos que o mundo é Um pesquisador científico fazendo seu trabalho
tradições humanas. cheio de surpresas. Isto signifi- ao microscópio de elétrons.
94 Introdução à Bíblia

uma abordagem indutiva dos fenô- que busco a verdade na ciên- se arriscar, nunca conseguirá
menos atômicos. cia e a maneira em que busco a enxergar nada.!
Ninguém podia imaginar verdade na religião. As pesso- O mesmo é necessário na busca
anteriormente que a matéria se as às vezes se surpreendem pelo religiosa da verdade. Jamais
comportava desta maneira tão fato de eu ser cientista e pastor. poderemos confinar Deus dentro
estranha quando observada suba- Pensam que é uma combinação de nossas definições. Ele sempre
tómicamente. Na realidade, pes- estranha, ou talvez desonesta. excederá nossas expectativas e
soas extremamente inteligentes Sua surpresa ocorre porque não mostrará que é um Deus dc sur-
levaram 25 anos para entender o percebem que a verdade é tão presas. Sempre há mais para
que estava acontecendo. importante na religião quanto na aprender.
Para entender a natureza, é pre- ciência.
ciso deixar o mundo físico mostrar Acredita-se em geral que a fé Cuidado, leitor!
como ela é. Você deve começar por é uma questão de fechar os olhos No entanto, há uma diferen-
baixo, com a maneira como as coi- e fazer força para acreditar no ça importante entre crença cien-
sas se comportam, e a partir daí ir impossível porque alguma autori- tífica e fé religiosa. Esta última é
avançando na formulação de uma dade que não pode ser questiona- muito mais exigente e perigosa.
teoria adequada. da manda que você creia. Creio plenamente na teoria quân-
A maneira de pensar ditada pelo Muito pelo contrário! tica, mas esta crença não ameaça
bom senso não será adequada para O salto de fé é um salto para a mudar a minha vida dc forma sig-
nos dizer, por si mesma, como Deus luz não para a escuridão. Envolve nificante. Porém não posso acredi-
é. Teremos que tentar ciescobrir com compromisso com o que entende- tar em Deus sem saber que devo
base no que ele realmente revelou a mos para que possamos aprender obedecer à sua vontade para mim
respeito de si mesmo. Ver a Bíblia e entender mais. E preciso fazer à medida que esta me é revela-
como fonte de evidência sobre isto na ciência. E preciso confiar da. Deus não existe apenas para
como Deus tem agido na história e, que o mundo físico faz sentido e satisfazer minha curiosidade inte-
acima de tudo, em Jesus Cristo, é que a teoria que você aceita hoje lectual; ele deve ser honrado e
uma estratégia natural a ser segui- lhe dá alguma noção dc como ele respeitado e amado como meu
da por um pensador indutivo. é, para que se possa progredir e Criador e Salvador.
Na verdade, vejo que há muito obter maior conhecimento e for- Então cuidado! Ler a Bíblia
em comum entre a maneira em mular uma teoria melhor. Se não pode mudar sua vida.
Bíblia hoje 95

Nosso mundo — o mundo deles


Meie Pearse

Dizer que a Bíblia é uma coleção


de documentos históricos é afirmar o
óbvio. Mas podemos facilmente igno-
:

rar as implicações disto ao tentarmos KÉjflT .


entender o que estamos lendo.

A "bagagem"
que carregamos
Precisamos estar cientes cie que,
quer sejamos cristãos quer não, Um estilo de vida diferente UMKI multidão multirracial numa via urbana;
este é o mundo de muitos leitores da Bíblia hoje.
temos todo tipo de idéias sobre Na Bíblia nos deparamos com Esta é uma realidade bem distante daquela que
o mundo e sobre a própria Bíblia pessoas e culturas totalmente era vivida nos tempos bíblicos, ilustrada por uma
mulher beduína junto a um poço nas proximidades
antes mesmo dc começarmos a ler diferentes das culturas dos países
de Belém. Há fronteiras a serem transpostas na
o texto. "desenvolvidos" modernos: era compreensão da mensagem atemporal da Bíblia.
Além disso, há 2.000 anos de uma sociedade em grande parte
reflexão, teologia e desenvolvi- agrícola e hierárquica, na qual a sado, exceção feita a algumas gera-
mento de doutrina entre o Novo mortalidade infantil, a constan- ções do mundo moderno.
Testamento e nossa época. te ameaça da fome por causa de Fica claro, então, que para ler
Podemos facilmente chegar colheitas frustradas e a probabili- a Bíblia muitos de nós precisamos
à Bíblia supondo que ela sim- dade de uma morte relativamen- de um esforço mental considerá-
plesmente refletirá as idéias que te precoce para a maior parte do vel para sairmos de nossa própria
absorvemos na nossa própria povo podiam ser consideradas cultura e entendermos as pessoas
época ou dentro de nossa tradição normais. da Bíblia como elas realmente são.
eclesiástica. Em resumo, eles viviam como Mas o esforço compensa! No míni-
Aqueles que abordam a Bíblia a maioria das pessoas na história mo, permitirá que compreenda-
confiantes de que ela apoiará suas humana tem vivido, exceto algu- mos o restante da raça humana. Na
próprias opiniões políticas, entre mas gerações do mundo moderno melhor das hipóteses, tocaremos,
outras, podem aprender uma lição ocidental. ou, melhor, ou seremos tocados,
salutar com pessoas no passado Elas aceitavam casamentos não pelo deus desta era, mas pelo
que (equivocadamente) também arranjados e até a escravidão. A Deus de todas as eras.
pensaram assim! palavra "liberdade" significava, não
O próprio fundamento da cos- um princípio moral, mas uma con-
movisão ocidental — objetividade dição de não ser escravo ou, talvez,
e subjetividade, direitos humanos, de não passar fome ou necessidade.
feminismo, economia livre, socia-
lismo — não significaria nada para Uma mentalidade diferente
pessoas nos tempos bíblicos (ou Raramente pensavam em Deus
mesmo para pessoas que viveram (ou, no caso das nações pagãs,
antes do século 18). em deuses), anjos e forças malig-
Precisamos permitir que a nas como seres cuja existência
Bíblia fale para nossa situação — podia ser questionada. Pelo con-
mas nos termos dela. Não entende- trário, eram as maiores realidades
remos a Bíblia adequadamente se a serem encaradas, influenciando
impusermos nossas idéias moder- toda a vida.
nas à mente de Abraão — ou de Em resumo, as pessoas da Bíblia
Rute, ou Amós, ou dos presbíteros pensavam como a maioria das pes-
da igreja de Jerusalém. soas na história humana tem pen-
O ANTIGO TESTAMENTO

PENTATEUCO A HISTORIA POESIA OS PROFETAS


DE ISRAEL E SABEDORIA

Gênesis a Deuteronõmio Josué a Ester Jó a Cântico dos Cânticos Isaias a Malaquias

Introdução ao 108 Introdução 220 Introdução 344 Introdução 408 Introdução


Antigo Testamento 115 Génesis 225 Josué 349 Jó 414 Os profetas no seu
A história do Antigo 117 Histórias da criação 228 Cidades da conquista 352 Entendendo Jó contexto
Testamento 119 Pessoas como 231 Cananeus e filisteus 359 Salmos 417 Isaías
Mapa: Israel nos administradoras de 238 Juízes 363 Os Salmos no seu 420 Entendendo Isaías
tempos do Antigo Deus 234 "Guerra Santa" contexto 423 Profetas e profecia
Testamento 121 Nomes de pessoas em 242 Vida sedentária 367 Salmos do ponto de 432 Os assírios
185 0 Antigo Gênesis 1—11 247 Entendendo Juizes vista de um poeta 439 Jeremias
Testamento e o 123 Histórias sobre 251 Rute 379 Deus e o universo 441 Retrato de Jeremias
Antigo Oriente dilúvios 252 Retrato de Rute 382 Autojustificação, 456 Os babilónios
Próximo 131 Agar 254 Uma história do ponto maldição e vingança 459 Lamentações
132 Abraão de vista feminino nos Salmos 461 Ezequiel
136 Onde situavam-se 255 1 e 2Samuel 388 Cristo nos Salmos 473 Daniel
Sodoma e Gomorra? 257 Ana 393 Provérbios 478 Posições do Antigo
138 Sara 265 Magia no Antigo 395 Sabedoria em Testamento com relação ao
143 Mulheres de fé Testamento Provérbios e Jó pós-morte
144 Jacó 269 Davi 397 Temas importantes 480 Os persas
149 José 276 1 e 2Reis em Provérbios 483 Oséias
154 Egito 279 0 Templo de Salomão 10—31 486 Entendendo Oséias
159 Êxodo e suas reconstruções 400 Eclesiastes 488 Joel
162 Os nomes de Deus 283 As cidades fortificadas 403 Cântico 490 Amós
170 Um estilo de vida: os do rei Salomão dos Cânticos 491 A justiça e os pobres
Dez Mandamentos 287 Examinando a 495 Obadias
176 A importância do cronologia dos reis 496 Jonas
tabernáculo 296 0 Obelisco Negro 498 Miquéias
180 Levitico 301 0 Prisma de 500 Naum
182 Sacrifícios Senaqueribe 502 Habacuque
185 Sacerdócio no Antigo 302 0 sítio de Laquis 504 Sofonlas
Testamento 305 A arca perdida 505 Ageu
190 As grandes festas 306 Reis de Israel e Judá 507 Zacarias
Durante todo o período religiosas 308 1 e 2Crõnicas 512 Malaquias
do AT — desde o tempo
193 Números 325 0 canal de Ezequias
do êxodo, <|u,indn o
povo persuadiu Arão 196 As codornizes 328 Esdras 515 Os livros
a fazer um bezerro
198 Vida nômade 332 0 escriba deuterocanônlcos
semelhante aos que
representavam o deus 205 Deuteronõmio 334 Neemias 521 Os gregos
Ápis. do Egito, até a 206 Moisés 340 Ester
época dos profetas
— o povo de Israel teve 210 Alianças e tratados no 341 Retrato de Ester
muitas dificuldades para Oriente Próximo
214 A terra prometida
;l
cumprir promessa
de adorar somente
o Deus verdadeiro.
Introdução
ao Antigo Testamento

Os cristãos já se acostumaram a chamar a Os Profetas Anteriores são o que nós cha-


primeira parte da Bíblia, de Gênesis a Mala- maríamos de histórias: Josué, Juízes, 1 e
quias, de Antigo Testamento. Mas ele data de 2Samuel e l e 2Reis. Veja "Introdução aos
antes da época de Cristo e antes mesmo de Livros Históricos" para entender melhor por-
haver um Novo Testamento. Por isso, é impor- que são descritos como Profetas. Em síntese,
tante lembrar que antes ele era independen- é porque estes livros não são história pura e
te, e que era, e ainda é, a Bíblia completa do factual nem anais enfadonhos. Pelo contrá-
povo judeu. rio, contam as histórias do desenvolvimento
Não é de admirar que os judeus não gostem da vida de Israel como uma espécie de desdo-
do nome 'Antigo Testamento" pois isto impli- bramento da palavra e das promessas de Deus
ca que é incompleto sem o "Novo Testamen- por intermédio de Abraão, Moisés e Davi. São
to" cristão. Para os judeus, ele é a revelação mais que apenas história, pois apontam para
completa de Deus, a Bíblia Hebraica, que eles o Deus de Israel e ilustram sua palavra e seu
tratam com grande reverência e respeito. modo de agir.
Os escribas Eles o chamam de Tanak, que é um acrôni- Os Profetas Posteriores são mais conheci-
copiavam mo formado a partir da letra inicial das pala- dos: Isaías, Jeremias, Ezequiel e o "Livro dos
o AT à mão.
Escreviam coluna
vras que designam cada uma das três partes: Doze" ou "Profetas Menores": dc Oséias a
após coluna • a Torá ou Lei de Moisés Malaquias.
em pedaços
• os Neviim, ou seja, os profetas
de pergaminho que,
como esic • e os Ketuvim, ou os Escritos. O s Escritos
rolo, eram Na Bíblia hebraica a ordem dos 39 livros é Os Ketuvim incluem todo o restante na
enrolados
e guardados
um pouco diferente daquela que é familiar aos seguinte ordem: Salmos, Jó, Provérbios, os
nas sinagogas. cristãos, mas é aqui que devemos começar. Cinco Megilot (veja abaixo), Daniel, Esdras,
Neemias, 1 e 2Crônicas.
A Torá E interessante observar que Daniel não está
A Lei, os Cinco Livros incluído nos Profetas, que é onde se encontra
de Moisés — Gênesis, em nosso Antigo Testamento. Isto está corre-
Êxodo, Levítico, Núme- to, de certa forma, porque Daniel é uma obra
ros e Deuteronômio — é de estilo diferente, de cunho mais apocalíptico
a pedra fundamental das (veja Apocalipse, introdução e características)
Escrituras hebraicas, a do que profético.
parte mais importante. Além disso, Esdras e Neemias apare-
Freqüentemente toda cem antes de 1 e 2Crônicas que historica-
•"5--—" .. a Bíblia é descrita por mente os precedem. O Antigo Testamento,
judeus como "A Torá" com razão, inverte a ordem. No entanto,
a Bíblia hebraica pode refletir a seqüên-
Os Neviim cia em que os diversos livros foram aceitos
Esta é uma pala- no cânon das Escrituras autorizadas. Resta
vra no plural que sig- mencionar os Cinco Megilot (literalmente,
nifica Profetas. Nada "pequenos rolos"), os livros de Rute, Cân-
menos que 21 livros tico dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações
estão incluídos na e Ester. Estes foram reunidos e usados em
segunda parte do conexão com cinco festas judaicas: a festa
Tanak, e para sim- das Semanas (Rute), da Páscoa (Cântico
plificar são dividi- dos Cânticos), dos Tabernáculos (Eclesias-
dos em Profetas tes), o jejum comemorando a queda de
Anteriores e Pro- Jerusalém em 587 a.C. (Lamentações) e
fetas Posteriores. Purim (Ester).
Introdução ao Antigo Testamento 99

O povo dc Deus
Estas são as três subdivisões da Bíblia aprendeu duras
lições durante
Hebraica. Elas remontam à antiguidade, certa- a peregrinação no
mente ao primeiro século da era cristã, e indí- deserto,
onde as condições
cios delas são encontrados no ensino de Jesus.
adversas
Por exemplo, já comentamos que os judeus ressaltavam
freqüentemente se referiam às suas escrituras que eles
dependiam
como a Torá, a lei. Mas também havia ocasiões de Deus até para
em que eram chamadas "a lei e os profetas", as necessidades
básicas da vida.
refletindo as duas primeiras subdivisões prin-
cipais do Tanak.
Jesus referiu-se muitas vezes ao Antigo
Testamento dessa maneira. A referência mais
interessante é Lucas 24.44 quando, após ter
ressuscitado dos mortos, Jesus disse a seus dis-
cípulos no cenáculo que "era necessário que se
cumprisse tudo o que a meu respeito está escri-
to na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos".
Para mostrar que todas as Escrituras hebraicas
apontavam para ele como Messias de Israel,
Jesus mencionou especificamente as três seções
âoTanak. Isto justifica plenamente o novo nome
que os cristãos deram à Bíblia hebraica, a saber,
"Antigo Testamento" — preparando o caminho
para o Novo Testamento que ainda viria.
• Veja também "A Bíblia Hebraica" e 'Jesus e
o Antigo Testamento".
O Antigo Testamento

A historia d oA n t i g o T e s t a m e n t o

ISRAEL T e m p o d o s patriarcas Israel no

Abraão Isaque Jacó

Abraão
parte de Ur

ANTIGO ORIENTE PROXIMO

Reino Médio — segunda Fundação Código de


¡•^ grande era da cultura egípcia do Império Hamurábida
2134-1786 culture Hitita Babilónia
Uma adaga e sua bainha
Influência de Ur feitas de ouro revelam Hicsos
^ restringida pelos a atte refinada governam o ^
invasores dos antigos ourives Egito 1710-1570
Introdução ao Antigo Testamento 101

0 período
de cada livro
da Bíblia indica
Êxodo
seu contexto
Levítico I histórico,
não a data
Números | de autoria.
Deuteronômio j
Josué
Juízes

Ramesses

Peregrinação J u í z e s

Moisés Josué

Oêxodo
Escravidão no Egito
do Egito
Faraó colocou
feitores sobre os Queda de Jericó:
israelitas e fotçou- início da conquista
os a trabalhar, de Canaã
construindo as
cidades de Pitome
Ramessés

Colapso do Império
r w
Hitita

Filisteus e outros povos


k k . Códigos
' deleishititas ' do mar se instalam no leste
do Mediterrâneo
Início 1300-1200 Dinastia) 9 no Egito
do Reino Novo— — grande programa de construção
o melhor período no delta dos Faraós Seti I e Ramsés II
do Egito
102 O Antigo Testamento

Juízes
Rute
ISamuel
2Samuel
1 Reis

2Reis
Krónicas

2Crônicas

Livros poéticos ed e sabedoria Salmos, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes


O s P r o f e t a s Veja gráfico dos profetas j

Primeiros reis de Israel ISRAEL -


Reino do Norte Jeroboão II

Construção Acabe
Rei Profetas Elias 722/1 a.C. Queda de
do Templo em e Eliseu Samaria. Israelitas
Saul Jerusalém
Gideão levados à Assíria

Rei Salomão

fro dourada
de Israel

filisteus e outros povos


do mar se instalam no leste
do Mediterrâneo

Colapso Era dourada


do Império Hitita de Tiro (Fenícia)

Derrota de Damasco
Damasco começa U Surgimento ¡
para Tiglate-Pileset
a ter poder" da Assíria da Assíria
A B C
i Abcl-Beic-Maaca
Tiro
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Israel Quedes

nos tempos
do Antigo Testamento Hazor
Heron» :
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0 Saiiilt Hat V . - GALILEIA Uo»e«Í .'.St.ilOlC

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Bete-Seä
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Satom
Dota I «Tisbé

» Jabes-Gileáele-
Samaria i

Afeca
AMOM
lope limnate

Bete-Hotom de baixo
Rabá
Bete-Horomdetima
M l s ä
Gibeão P
Gezei
Etrom
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Timna breque Aijalomi rtnatote
Quiriate-Jeatim S J E I M A | É M

:Estaol -•"
Bete-SemesEi Belém
Asdode
Maqueda Deserto
libna« B Azeca do Judeia
jAsquelom Wie m Adulão Tecoa i Ala fote

FILÍSTIA * « Q u e
" a
" Béete-
Mar Salgado ¡ : Quiriataim
Laquisc, » * « «
Hebrom / (Mar de Araba)- Di bom
Gaza lEglom
! Arwr
JUDÁ En-Gedi ~v RioArnom

Maom
Ziclague )

Gerar
A rade
MOABE
Berseba
Horma Ar

Deserto do Heguebe Quir-Haresete

AMALEQUITAS
Introdução ao Antigo Testamento 105

O Antigo Testamento e o Antigo Oriente Próximo


Alan Millard

A Bíblia é um texto antigo, um mesmo acontecimento, muitas vezes boão II e Uzias fortaleceu o reino de
relato histórico. Assim sendo, é impor- temos exemplos de costumes e fenô- Judá, Tiglate-Pileser III (745-727 a.C.)
tante que se estude esse texto à luz menos bastante semelhantes aos que restabeleceu o controle assírio na Síria
do conhecimento que temos a respei- são descritos no AT, mesmo que não e na Palestina. O rei assírio registra o
to do mundo em que ele foi escrito. exista conexão direta entre eles. É tributo que lhe foi pago por Menaém,
Isto é importante, porque a fé cristã se claro que uma semelhança superficial de Samaria, e afirma ter sido respon-
baseia em acontecimentos históricos, pode ser aparente, o que requer cui- sável pela substituição de Peca por
fatos que realmente aconteceram. dado da parte de quem quer estabe- Oséias (2Rs 15.19-20,30). Em 2Rs 15.19
lecer o paralelo. Mesmo que não nos (veja também ICr 5.26), Tiglate-Pile-
Testando, testando... dê evidência direta ou circunstancial ser é chamado de Pui. Este nome
Os acontecimentos registrados e da fidedignidade histórica da Bíblia, era conhecido também dos cronistas
explicados na Bíblia podem ser com- o conhecimento a respeito do Antigo babilônios do século 6 a.C, época em
parados com outros acontecimentos Oriente Próximo ajuda a entender a que, se acredita, os livros de 1 e 2Reis
que são conhecidos de outras fontes Bíblia, pois o estudo dos costumes, da receberam sua redação final.
históricas. A própria Bíblia é feita de cultura, da literatura e da história dos Depois disso, o dominio assírio na
documentos tão antigos e tão sujeitos vizinhos de Israel nos dá uma idéia Samaria fez de Judá um estado vassalo.
à análise histórica quanto esses outros do que podemos esperar no caso dos No entanto, os reis de Judá preferiam
textos daquele tempo. próprios israelitas. lutar por independência, buscando,
A precisão do relato bíblico pode, Precisamos considerar três tipos para tanto, a ajuda do Egito. Assim,
também, ser conferida à luz de outras de evidência que podem ajudar a Ezequias se rebelou, e Senaqueribe
fontes históricas conhecidas. No entender a Bíblia: a evidências direta; invadiu Judá e sitiou Jerusalém. O rei
entanto, isto nem sempre é tão sim- a evidência circunstancial; e a evidên- assírio fala sobre isso em várias ins-
ples quanto poderia parecer. Muitas cia da analogia. crições. Relata que Ezequias enviou
vezes os documentos são fragmentá- tributo a Nínive (a quantia parece não
rios. E, em muitos casos, a evidência Evidência direta ser exatamente a mesma que aparece
arqueológica se presta a mais de Como vimos, referências diretas a em 2Rs 18.14-16), mas em momento
uma interpretação. Temos em mãos Israel são raras e quase que restritas algum afirma ter tomado Jerusalém.
só um pequeno número de escritos a nomes de reis. Também não menciona — fato com-
antigos que descrevem os mesmos Entre os relatos que temos se preensível — o que aconteceu com
acontecimentos que aparecem na encontra um sobre a invasão de o seu exército! A Crônica Babilónica
Bíblia. E, quando temos dois relatos, Sisaque, que foi rei do Egito de 945 registra a primeira tomada de Jerusa-
ainda é preciso levar em conta que a 924 a.C. (1Rs 14.25-26). Uma inscri- lém por Nabucodonosor (2Rs 24.8-17),
muito raramente dois observadores ção em Tebas, que se encontra em datando-a precisamente de 15 ou 16
descreverão o mesmo acontecimento péssimo estado de conservação, lista de março de 597 a.C.
sob um mesmo ponto de vista. uma série de cidades conquistadas na
Os hebreus eram um povo rela- Palestina, o que é uma clara evidência Evidência circunstancial
tivamente insignificante. A história de que houve a tal invasão. A maioria das descobertas que
deles não causou maior impacto Israel entrou em contato com os aparecem em livros de arqueologia
sobre as grandes potências daque- assírios, pela primeira vez, por volta bíblica se inscreve no item "evidência
la época, cujos registros históricos de 853 a.C, quando forças de "Acabe, circunstancial". Trata-se de questões
chegaram até nós. São raríssimos os o israelita", em aliança com Damasco que não têm relação direta com acon-
personagens bíblicos que aparecem e outras cidades, enfrentaram as tro- tecimentos bíblicos, mas nos fornecem
em outros escritos, ficando as exce- pas de Salmaneser III (858-824 a.C). exemplos de práticas ou registram inci-
ções por conta de alguns dos últimos E, alguns anos depois, "Jeú, filho de dentes que, aparentemente, são com-
reis de Israel e Judá. Não obstante, Onri", pagou tributo ao mesmo rei paráveis com textos bíblicos.
sempre que é possível fazer uma com- assírio. Assim, aprendemos que o casa-
paração, a precisão do relato bíblico Depois de algumas décadas de mento de Abraão com a escrava
é impressionante. Embora raramente enfraquecimento, durante as quais Agar — motivado pela esterilidade
encontremos relatos paralelos sobre o Israel chegou a prosperar sob Jero- de Sara — e a subseqüente recusa do ^ W .
106 O Antigo Testamento

k.^. patriarca em mandá-la embora (só hebreus. Isto significa que não temos dido por qualquer pessoa interessa-
mudou de idéia por orientação divi- acesso a muitos aspectos da vida deles. da. Isto fez com que a escrita fosse
na) concordam com os ditames das O processo natural de decomposição mais comum em Israel, mesmo que
Leis de Hamurábi, da Babilônia, que dos materiais levou ã destruição de os escribas profissionais ainda tives-
vigoravam no tempo de Abraão. todos os documentos em papiro ou sem um importante papel a desem-
Os nomes dos patriarcas de Isra- pergaminho que porventura tenham penhar. A evidência que nos vem de
el também concordam com nomes sido soterrados em cidades e lugares vários documentos escritos menos
geralmente usados na primeira da Palestina. O mesmo se aplica a importantes mostra que isso era de
metade do segundo milênio antes móveis e peças de vestuário. fato assim no Israel antigo. Se as pes-
de Cristo, como revelaram milhares soas se utilizavam da escrita na vida
de documentos daquele tempo que diária, é fácil concluir que poderia ser
chegaram até nós. usada também para produzir obras
A glória de Salomão é confirmada de literatura.
por fontes egípcias. Segundo 1 Rs 9.16, A palavra escrita era tratada com
ele casou com a filha do Faraó. Isso respeito. Livros antigos de grande
teria sido impossível dois ou três sécu- valor eram copiados com muito cui-
los antes, durante o apogeu egípcio. dado. Podiam ser revisados ou edi-
Naquele tempo, as princesas do Egito tados, mas raramente se consegue
não deixavam a corte, e os pedidos de detectar como isso era feito, a menos
reis estrangeiros que quisessem casar que se tenha acesso a cópias antigas
com uma princesa egípcia eram inde- para fazer a comparação.
feridos. No entanto, no século 10 a.C, Os egípcios, assírios, babilônios,
quando o Egito era governado pela hititas e cananeus — todos tinham
a
enfraquecida 21 dinastia (e pela que ritos religiosos, sacrifícios e ordens
viria depois desta), essa regra foi que- sacerdotais bem estruturados. Seus
brada. E foi assim que Salomão casou templos eram bem construídos e
com a filha do Faraó! Uma pintura encontrada num túmulo egípcio
luxuosamente decorados, em especial
Para revestir o interior do Tem- mostra a fabricação de tijolos e nos ajuda a por reis bem sucedidos. Tivessem os
visualizar o trabalho dos escravos israelitas no israelitas sido diferentes neste parti-
plo (IRs 6.21-22), Salomão fez uso
Egito.
de grande quantidade de ouro. Isto cular, teriam sido os únicos excêntri-
condiz com a esplêndida decoração cos naquele contexto. Mas este não
dos interiores de templos egípcios, Sempre que itens como esses foi o caso. As analogias mostram que
babilônios e assírios. foram preservados em culturas vizi- o tabernáculo, o templo de Salomão e
Um pouco antes da época de nhas, pode-se, por vezes, afirmar a legislação levítica eram o equivalen-
Salomão, Gideão pediu a um moço, que algo semelhante era conhecido te israelita ao que se podia encontrar
aparentemente alguém que estava ali também no Israel antigo. Cada caso entre os povos vizinhos.
à disposição, que lhe desse por escri- precisa ser examinado com cuidado, Além disso, a exemplo do que se
to os nomes dos líderes de Sucote para que se tenha certeza de que as passava nas nações vizinhas, a maio-
(Jz 8.14). Hoje, sabe-se que nomes circunstâncias são de fato paralelas, ria da população tinha que trabalhar
podiam ser facilmente escritos e mas alguns deles são suficientemente duro e sofria para satisfazer as exi-
lidos naquela época. Nas imedia- claros e nos ajudam a entender o AT. gências do rei, que vivia no luxo e
ções de Belém e em outros lugares Nenhuma literatura das cidades israe- na fartura.
foram encontradas pontas de flechas litas chegou até nós, mas não se pode Seria de se esperar que em Israel,
feitas de cobre e que traziam o nome duvidar de sua existência. O próprio que era uma nação em meio a outras
dos seus donos. Esses artefatos são AT dá testemunho disso, por mais que nações, houvesse formas de pensa-
dos séculos 12 e 11 a.C. e mostram os eruditos ainda discutam a antigui- mento e de expressão semelhantes
que escrever e ler eram fenômenos dade de sua forma escrita. às das nações vizinhas. Quando, no
comuns naquele tempo. No Egito e na Babilônia, os siste- exame da literatura babilónica ou
mas de escrita eram complicados, o egípcia, encontramos detalhes que
A evidência da analogia que resultava num monopólio dos soam estranhos aos nossos ouvidos
Afora o AT, não temos praticamente escribas. Em Israel (e estados vizi- modernos, nos esforçamos ao máxi-
nenhum relato escrito sobre a vida, o nhos), o descomplicado alfabeto de mo para entendê-los. Procuramos
pensamento e a história dos antigos 22 letras podia ser facilmente apren- explicar inconsistências, paradoxos
Introdução ao Antigo Testamento 107

e aparentes contradições, sem colo-


car em dúvida a fidedignidade dos
textos que são nossa única fonte de
informações (a menos que tenhamos
razões objetivas bem fundamentadas
para fazê-lo).
É de esperar que a literatura de
Israel tenha características semelhan-
tes àquelas, e também estas deveriam
ser tratadas com respeito. Algumas
delas são claras, como, por exemplo,
a narração dos acontecimentos fora
de ordem cronológica ou a inserção
de dados que não têm uma conexão
óbvia com o contexto.

Semelhanças e diferenças
Esses exemplos já bastam para cil de encontrar evidência material da Uma placa cananéia de marfim, encontrada em
Medido, mostra o tipo de harpa que Davi tocava.
mostrar o valor da coleta, do estudo fé monoteísta de Israel, do culto sem o
O trono de Salomão e .1 mobília no palácio do
e da aplicação de tudo que o antigo emprego de imagens, da centralização rei Acabe haviam sido ricamente decorados com
Oriente Próximo nos fornece em ter- do templo. Os vizinhos dos israelitas, marfim entalhado.

mos de pano de fundo da Bíblia. Exis- sem se darem conta da singularida-


te uma impressionante convergência de do Deus de Israel, pensavam que Se os aspectos históricos e cultu-
entre essa evidência direta e indireta não passava de um deus nacional ou rais estão em harmonia com nosso
e o AT, a ponto de se poder classificar local como os seus deuses (Quemos, conhecimento dos tempos antigos,
como suspeita qualquer tentativa de no caso dos moabitas; Milcom, no como de fato é o caso, as diferenças
questionar o quadro que o AT pinta da caso dos amonitas). Para complicar de natureza religiosa e ética reque-
cultura e da história de Israel. a situação, os israelitas nunca foram rem explicação. O AT tem uma expli-
Não se conseguiu mostrar que qual- totalmente fiéis a Deus. Assim, artefa- cação: Deus falou.
quer dessas descobertas contradiga os tos religiosos pagãos são encontrados
relatos da Bíblia hebraica. Pode haver em ruínas das cidades israelitas.
discrepâncias, incertezas, questões por As diferenças aparecem de forma
responder. Isto é inevitável diante do mais nítida quando se compara o
caráter incompleto da evidência dispo- ensino bíblico com outros textos
nível. Novas descobertas solucionam daquela época. Alguns aspectos não
problemas antigos, revelando, muitas têm nada que lhes seja semelhante
vezes, as premissas falsas em que se no contexto ao redor de Israel, como,
baseiam algumas teorias modernas. por exemplo, as exigências absolutas
Ao mesmo tempo, podem levantar dos Dez Mandamentos, a dedicação
novas questões e servem de estímu- exclusiva do povo ao Deus que os
lo a um estudo mais aprofundado, havia escolhido, a igualdade dos indi-
à busca de novos enfoques e uma víduos em equilíbrio com a respon-
melhor compreensão. sabilidade corporativa, e o altruísmo
Se a maior contribuição da arque- dos profetas.
ologia bíblica tem sido na área das Embora alguns pensem que é
semelhanças entre Israel e as nações impossível crer neles, o fato é que
vizinhas, isto não significa que se possuímos manuscritos que lhes
podem ignorar as diferenças. O AT garantem uma antiguidade de mais
proclama que essas diferenças são de 2 mil anos.
intransponíveis. Embora tivesse muito Embora alguns os considerem ina-
em comum com os povos vizinhos em ceitáveis, o fato é que, apesar da sua
termos de língua e cultura, Israel era antiguidade, eles ainda fazem sentido
bem diferente em termos de fé. É difí- em nosso mundo de hoje.
Os Cinco Livros
GÊNESIS A DEUTERONÔMIO
John Taylor

O nome dado aos cinco primeiros livros O Prólogo


da Bíblia é "Pentateuco". Vem de duas pala- A história começa com o chamado de
vras gregas que significam "cinco rolos". Mas Abraão em Gn 1 2 , mas primeiro há um Prólo-
é melhor considerar o Pentateuco um só livro go feito de antigos registros e tradições que se
dividido em cinco partes, ao invés de cinco destina não só a introduzir os temas principais
livros reunidos num só rolo. Desta forma res- da narrativa como também para relacioná-los
peita-se sua origem hebraica — os judeus o com os propósitos de Deus neste mundo de
chamam de "Torá" (Lei) ou "Cinco quintos de seres humanos caídos, de nações divididas e
Moisés" — e também a própria unidade que de uma ordem criada que era originalmente
lhe é inerente. boa.
Isto não quer dizer que o Pentateuco é Estes capítulos ainda deixam muitos leito-
uma extensa narrativa colocada numa ordem res modernos perplexos, graças a sua lingua-
cronológica rígida. Logo fica óbvio ao leitor gem pré-científica, à estupenda longevidade
que ele contém uma grande variedade de de seus personagens e à grande dificuldade
material literário — narrativas, leis, instru- de colocá-los num contexto histórico identi-
ções rituais, sermões, genealogias, poesia — ficável. E, é claro, diferem muito das descri-
que foram reunidas de fontes diferentes. No ções científicas das origens do universo e da
entanto, significa que o material foi cuidado- vida que são atualmente ensinados nas esco-
samente inserido numa estrutura narrativa, las. Gn 1—11 contém material escrito numa
com um propósito definido em mente e com variedade de estilos, que muitos estudiosos
objetivos identificáveis por parte do autor ou atribuem a fontes diferentes reunidas num só
editor. documento por um autor ou editor. Não obs-
Introdução

tante, seu foco principal não é fornecer um É a estes capítulos que nos voltamos quan-
tratado científico de como as coisas começa- do buscamos orientação bíblica sobre questões
ram e como a vida se originou, mas oferecer fundamentais relativas a Deus, à humanidade
ao leitor o contexto religioso, social e geográ- e ao mundo. Em cada estágio Deus está pre-
fico da história que começa com Gn 12. sente — não apenas pressuposto, mas agin-
Parte do material foi descrito como "mito", do constante e ativamente. Este mundo é o
mas este pode ser um termo enganoso, mundo de Deus. A história humana é um des-
mesmo quando "mito" é considerado no seu dobramento do plano de Deus. Ele é total-
sentido técnico de um "texto religioso cria- mente responsável pelo mundo e tudo que
do para explicar uma tradição, instituição ou nele há. Todos os povos são criação de Deus,
outro fenômeno". Ele dá a impressão de que feitos à sua imagem, com capacidades espi-
aquilo que está escrito não é nem histórico rituais para bondade, adoração e comunhão
nem verdadeiro. Mas na verdade estes primei- com Deus. Não há lugar nenhum para outros
ros capítulos de Gênesis dão testemunho das deuses. Gn 1 é totalmente abrangente: sol,
seguintes realidades religiosas lua e estrelas são obra de Deus, com fun-
• que o mundo que conhecemos foi criado ções a desempenhar num universo ordena-
pela vontade de Deus do, e até os monstros marinhos (os tanninim
• que homens e mulheres foram criados à da mitologia antiga) foram criados por Deus
imagem de Deus (Gn 1.21).
• que o pecado entrou na vida humana por Os seres humanos formam o clímax da
meio de uma desobediência moral criação, superiores a todas as outras criatu-
• e que toda a raça humana está sofrendo as ras, mas subordinados a seu Criador. Só que
conseqüências do pecado. quando buscaram uma posição superior e qui-
Inevitavelmente há muita linguagem e seram ser como Deus, caíram a uma posição
expressão simbólica usada para descrever inferior e descobriram que todos os seus rela-
estas características e eventos, mas elas con- cionamentos se deterioraram.
têm algumas das verdades mais profundas de • Ao invés de ser uma relação boa, amigá-
toda a Bíblia e não devem ser facilmente des- vel, livre de vergonha, o sexo passou a ser
cartadas por uma apreciação inadequada do secreto, luxurioso e anômalo.
que os textos estão dizendo. • O parto se tornou doloroso e perigoso.
• O cuidado pela terra se tornou penoso. do povo escolhido de Deus, não apenas como
• Até a própria terra foi afetada c, ao invés de um acontecimento num passado distante, mas
produzir alimento em abundância, precisa como algo importante para todos hoje.
ser dominada e manuseada e trabalhada. A idéia da escolha (eleição) divina especial
Não há nada que o pecado não tenha arrui- de indivíduos traz consigo duas característi-
nado. Sua corrupção atinge a vida familiar, na cas subsidiárias: promessa e responsabilida-
qual a religião logo gera rivalidade, o amor de. Gn 12—22 está repleto de promessas que
fraternal se transforma em assassinato e a jus- Deus fez a Abraão.
tiça deteriora-se em vingança (Gn 4 ) . • Abraão recebe a promessa de uma descen-
A resposta de Deus ao pecado é, de forma dência tão numerosa como as estrelas do
consistente, uma mistura de julgamento e céu.
misericórdia. Começando com a provisão de • Ele recebe a terra de Canaã como herança
roupas para Adão c Eva, passando pela vigi- para seus filhos.
lância da árvore da vida, e chegando à confu- • Ele recebe promessa de um grande nome
são das línguas em Babel, Deus abranda sua no futuro.
justiça com generosidade. Para além do cas- E o favor especial do Senhor Deus seria
tigo imediato de expulsar Adão do jardim do demonstrado não só a Abraão c sua família,
Eden e de expulsar Caim da sociedade huma- mas a todas as pessoas por intermédio dele.
na; para além da destruição causada pelo dilú- Assim, as promessas de Deus a Abraão não
vio e da dispersão das nações, sempre existe foram apenas para o proveito egoísta de pou-
a intenção última dc Deus que é trazer bem- cos escolhidos. Elas deviam ser usadas com
estar e bênção para a humanidade. responsabilidade para que outros pudessem
Logo, num mundo de desordem c corrup- compartilhar dos benefícios. No cerne da
ção, condiz inteiramente com a natureza de escolha de Israel por Deus há um propósito
Deus que ele chame um homem, Abraão, e, missionário. A história de Israel deve ser lida
por intermédio dele, seus descendentes, os como a longa história das tentativas desse
judeus, para serem o canal da graça e da reve- povo de cumprir suas responsabilidades —
lação para todo o mundo. É esta história que com alguns sucessos, mas com muitos fracas-
o Pentateuco conta. sos bem evidentes.
A história é dividida em duas partes:
• A primeira parte (Gn 12—50) é domina- A aliança de Deus
da pelas quatro gerações dos patriarcas A palavra "aliança" sugere restrições legais,
— Abraão, Isaque, Jacó c José. documentos selados, e coisas do gênero. Mas
• A segunda parte (Êxodo — Deuteronô- segundo a mentalidade hebraica a idéia de
mio) é dominada pela figura altaneira de aliança abrangia todo tipo dc relacionamento
Moisés. humano. Era o vínculo que unia pessoas em
• Embora seja extremamente difícil saber obrigações recíprocas, seja por meio de um
com certeza as datas nesse estágio inicial contrato de casamento, um empreendimen-
da história de Israel, uma estimativa razoá- to comercial ou um compromisso verbal. Era
vel permite um período de cerca de 600 natural que o relacionamento do povo com
anos para estes eventos, isto é, de 1900 Deus também fosse expresso cm termos de
a.C. a 1250 a.C. aproximadamente. Antes uma aliança.
de lermos a história contada nos Cinco No Pentateuco, essa terminologia de alian-
Livros, devemos observar os quatro temas ça é usada em três ocasiões diferentes:
principais. • quando Deus promete a Noé que não
mais destruirá a terra por águas dc dilú-
O p o v o escolhido de Deus vio (Gn 9.9-11).
O Antigo Testamento foi escrito para o povo • quando Deus faz suas promessas a Abraão
de Israel — o povo que via em Jacó (=Isra- (Gn 15.18; 17.4).
el) seu ancestral comum e Abraão como fun- • quando a aliança do Sinai é estabelecida
dador da sua nação. Os cristãos, igualmente, com Moisés e resumida no "livro da alian-
consideram Abraão o pai de todos aqueles que ça" (Êx24.7).
dependem de Deus pela fé c não de si mesmos Embora no cotidiano as alianças fossem
(veja Rm 4.16). Portanto, lemos a história em feitas entre semelhantes, no uso religioso esse
que Deus chamou Abraão para se tornar pai termo sempre se referia a um relacionamento
111

entre um participante superior e outro infe- Os Cinco Livros


( o Pentateuco)
rior. A forma da aliança entre Deus e Israel em relíiram a criação
Éxodo e Dcutcronômio foi esclarecida pelas do mundo e a
entrega da Lei.
descobertas de tratados hititas de suserania O tecelão (na foto,
feitos entre um rei e seu vassalo. Esses trata- trabalhando com
um tear vertical)
dos consistiam em revela o dom
• uma introdução histórica da criatividade
e nos lembra que
• uma lista de estipulações a Lei de Deus está
• maldições e bênçãos invocadas sobre as relacionada com
o cotidiano.
duas partes
• um juramento solene
• e uma cerimónia religiosa para ratificar a
aliança.
A maior parte destas características pode
ser encontrada no modelo de alianças do Anti-
go Testamento. (Veja "Alianças e tratados no
Oriente Próximo".)
Mais importante que a forma da aliança,
porém, era seu significado teológico.

Baseava-se n a iniciativa d e D e u s .
Deus agiu cm misericórdia e soberania,
fazendo uma promessa incondicional dc
jamais castigar a humanidade com outro dilú-
vio (Gn 9.11). Deus escolheu Abraão e seus comum, elas convergem na idéia da santidade
descendentes para serem os canais da sua dc Deus. Um Deus santo exige que seu povo
misericórdia a um mundo caído. Ele firmou reflita seu caráter tanto na adoração quanto
esta escolha ao comprometer-se com a nação no comportamento.
israelita com as seguintes palavras: "Farei com
que vocês sejam o meu povo c cu serei o Deus A Lei d e D e u s
de voces" (Êx 6.7). A idéia de lei é central aos Cinco Livros e,
como vimos, deu seu nome (Torá) ao livro
Implicava u m a nova r e v e l a ç ã o d e como um todo. Na forma mais simples, abran-
Deus. gia os Dez Mandamentos (Êx 20; Dt 5), mas
Deus apareceu a Abraão como seu escudo ligados a estes havia várias coleções de leis que
(Gn 15.1) e como o Deus Tõdo-Podcroso ("El foram classificadas como:
Shaddai", Gn 17.1). Apareceu a Moises como • o livro da aliança (Êx 21—23)
"Yahwch" ("Eu Sou o que Sou", Ex 3.14), e • o código de santidade (Lv 17—26)
mais tarde como "Yahwch, o teu Deus, que tc • a lei de Deuteronômio (Dt 12—26).
tirei da terra do Egito") (Êx 20.2). (Veja "Os Comparações feitas com outros códigos
nomes de Deus"). legais do antigo Oriente Próximo, especial-
mente o Código de Hamurábi, revelaram
Fazia exigências m o r a i s e rituais vários pontos de contato. Isto era de se espe-
ao povo. rar, pois Israel fazia parte da cultura medi-
As estipulações da aliança incluíam essas terrânea oriental e compartilhava as idéias e
duas características. O ritual era representado experiências dos seus vizinhos. O que é mais
pelo costume da circuncisão dado a Abraão significativo não são as semelhanças, mas as
(Gênesis 17.10), pelo sábado, o dia de des- diferenças que dão um caráter todo especial
canso (Êxodo 20.8-11), e por todas as exi- às leis de Israel. Estas podem ser resumidas
gências relativas à adoração e ao sacrifício como:
encontradas no Pentateuco. Ao mesmo tempo • seu monoteísmo rígido (tudo está relacio-
as exigências éticas foram apresentadas nos nado com um só Deus)
Dez Mandamentos e outras leis. • sua preocupação notável com os desfavo-
Apesar dc parecer, à primeira vista, que recidos: escravos, estrangeiros, mulheres e
essas duas exigências não têm nada em órfãos
Deus para o seu povo que ele tirou do Egito.
Não se tratava de coisas genéricas, mas de
ordens específicas para situações específicas:
adoração, trabalho, vida familiar, casamento,
respeito pela vida e propriedade, justiça ele-
mentar e o âmbito pessoal da vontade. Para
todas estas áreas da vida humana Deus tinha
um mandamento que era explícito e inevitá-
vel. Cristo não o destruiu: antes, o cumpriu
e ampliou.

E as outras regras?
Grande parte de Levítico e outras partes
do Pcntateuco são compostas de leis cerimo-
niais e rituais. O propósito destas leis era dar
instruções para a administração cotidiana da
comunidade israelita e também ensinar como
um Deus santo devia ser adorado por um
O êxodo narra • seu espírito de comunidade, baseado no povo santo. Assim, além de instruções rela-
o resgate do povo
relacionamento de aliança compartilhado tivas ao culto ou à adoração (festas, sacrifí-
de Deus: eomo
Deus tirou por todo Israel com o Senhor Deus. cios, e t c ) , foram dadas instruções detalhadas
o seu povo Também se notou que as leis no Antigo Tes- com vistas à preservação da pureza ritual. O
do £gito
e o guiou tamento são expressas de duas formas: "não povo israelita devia permanecer livre de con-
pelo "deserto" matarás..." / "não furtarás..." (lei apodíctica) taminação de fontes externas, principalmen-
inóspito do Sinai
para unia e "se alguém... / aquele que..., terá que..." te a influência depravadora da religião dos
nova terra. (lei casuística). Como a maioria dos antigos cananeus. Eles deviam aproximar-se de Deus
códigos dc lei era do tipo casuístico, é possível devidamente cientes da sua distinção moral
que a legislação apodíctica fosse uma forma e ritual.
peculiarmente israelita, e neste caso os Dez Estas regras não se aplicam mais à igre-
Mandamentos eram algo peculiar a Israel. ja cristã, embora os princípios subjacentes
ainda tenham muito a nos ensinar. E o ela-
Jesus rejeitou a Lei? borado sistema de sacrifícios cumpriu-se no
Alguns cristãos acreditam equivocadamen- sacrifício único de Cristo, o cordeiro perfeito
te que, no Sermão do Monte, Jesus rejeitou de Deus, por intermédio de quem os pecados
a lei judaica dando preferência a sua nova são perdoados e foi feita a expiação em favor
lei do amor. Mas as críticas de Jesus não dc todos para sempre (veja Hb 10.1-18).
foram dirigidas contras as leis, mas contra
a maneira em que os rabinos as interpreta- Ê x o d o : D e u s sai e m s o c o r r o
vam. ("Vocês ouviram o que foi dito" era a O quarto tema principal encontrado nos
frase rabínica tradicional para introduzir sua Cinco Livros e recorrente em toda a Bíblia é
interpretação). Ele estava revelando a moti- o êxodo do Egito, descrito em Êx 1—12. Para
vação interna por trás dos mandamentos, todos os judeus este foi e é o grande ato sal-
que os intérpretes não conseguiram detectar vador dc Deus, que gerações futuras lembram
e valorizar. com gratidão.
• Foi uma intervenção milagrosa de Deus em
U m a lista d e "nãos"? resposta ao clamor de seu povo escraviza-
Algumas pessoas também criticam os Dez do (Êx 3.7)
Mandamentos por serem negativos. Mas eles • Foi essencialmente o ato de Deus — "com
seguem uma afirmação positiva: "Eu sou o mão poderosa e braço estendido".
SENHOR, o teu Deus..." Aqueles que teste- • Foi uma grande vitória sobre os deuses do
munharam a libertação que Deus operou e Egito que demonstrou a supremacia total
que vivem sob a soberania de Deus, devem de Deus.
demonstrar isto através de um comporta- • Foi um momento na história lembra-
mento distinto. Os Dez Mandamentos, por- do e recontado anualmente na Festa da
tanto, começaram como a constituição de Páscoa.
Introdução 113

Com freqüência lembrava-se às gerações único outro tema que se repete com regulari-
finuras que houve um tempo em que eram dade desanimadora é o pecado persistente do
membros de uma comunidade escrava que povo de Israel. Este demorou a aceitar Moisés
Deus, em sua misericórdia, havia redimido da como seu libertador. Reclamou das dificulda-
escravidão. Elas eram incentivadas a sc lem- des da viagem. Até tiveram saudades da vida
brarem do passado e advertidas contra o peri- que tinham levado no Egito (devidamente
go de esquecer o que Deus fizera por elas (p. romanceada, Nm 11.5).
ex„ Dt 6.12). Intimidaram-sc diante da possibilidade de
Como evento histórico o êxodo foi defi- entrar na terra de Canaã e peregrinaram duran-
nitivo. O fato de que Deus fizera isto antes te 40 anos no deserto da indecisão. Nem Moisés
significava que poderia fazê-lo novamente. estava imune e foi castigado, sendo impedido
Quando Israel estava no exílio na Babilônia, de conduzir o povo para dentro da terra pro-
a nação esperava por um segundo êxodo (Is metida. Mas o pecado não era novidade. Os
51.9-11). E quando Cristo veio, sua obra de capítulos introdutórios de Gn 1—11 deixaram
libertação foi descrita com a linguagem do isto claro, como vimos anteriormente. De forma
êxodo (p. ex., Lc 9.31). notável, em sua soberana providência, Deus
Estes, portanto, são os quatro temas que conseguiu lidar com a desobediência humana
estão sempre próximos da superfície, como e encontrar um caminho através dela e para
constante preocupação destes cinco livros. O alem dela.
115
RESUMO
A criação do mundo
GÊNESIS e sua deterioração.
O chamado e a promessa
de Deus a Abraão
e seus descendentes.
Gênesis é uma epopéia, uma coleção de histó- capítulos terminam
rias grandiosas. O título significa "princípio" e este com o erro de Babel: as Caps, i — Jí
éo livro dos começos na Bíblia — o princípio do nações são divididas e A criação
A queda humana
mundo e o princípio de uma nação. É importante dispersas.
O grande dilúvio
analisar os primeiros capítulos especialmente como No cap. 12, deixa-
uma narrativa: uma história preocupada com a se de lado o cenário Caps. 12—50
verdade e o significado no sentido mais profundo, mais amplo da história Histórias de Abraão,
uma história cujo narrador tem prazer em pintar humana e a atenção Isaque, Jacó e José
quadros e mostrar padrões. Uma narrativa deve se volta para um único
ser considerada no seu todo, não em pedaços. Se indivíduo, Abraão, e
levarmos em conta a natureza do material, muitos seus descendentes. O
"problemas" simplesmente desaparecerão. mundo não melhorou
depois de Noé, mas
A formação d o livro Deus não irá destruí-lo.
Gênesis não tem um autor ou data de autoria Ao invés disso, Deus começa, por intermédio de
definidos. Suas histórias foram contadas oral- uma pessoa e nação específica, a executar seu
mente muito antes de serem reunidas e escritas. plano de "redimir" o mundo e recuperar relacio-
Muitos estudiosos acreditam que as primeiras namentos rompidos.
coleções do material do AT provavelmente foram Gênesis leva adiante essa narrativa, passando
feitas na época do rei Davi ou do rei Salomão, por Isaque e Jacó e culminando com a morte de
com a possibilidade de que ainda houve algum José no Egito. E ainda assim a história do gran-
trabalho editorial até 400 a.C. dioso propósito de Deus para a humanidade
Muitos povos antigos tinham suas próprias mal começou. Ela continua através das pági-
histórias da criação e podemos imaginar estas nas da Bíblia até as últimas palavras do livro de
histórias sendo contadas e recontadas de gera- Apocalipse.
ção em geração. Será que Moisés, com sua for-
mação na corte egípcia, começou a escrevê-las?
Uma antiga tradição associa seu nome aos cinco G n 1.1—2.3
primeiros livros da Bíblia. Como estes livros Uma boa criação
atingiram sua forma atual pode ser questão de O grande drama do princípio de todas "Alo princípio,
Deus criou
debate, mas não há dúvida de que estas histó- as coisas começa com Deus. A linguagem é os céus
rias expressam as convicções mais profundas do simples, mas vívida. Ela evoca a maravilha c e a terra.
A terra eslava
povo de Deus de que este mundo é obra de um variedade da criação, começando com o que sem forma
Deus Criador, que é totalmente bom, e que ama era sem forma e vazio e culminando numa e vazia;
havia trevas
e se importa com sua criação. O povo de Deus exuberância de vida. sobre a face
do abismo...
não precisava defender a existência de Deus: eles Mais do que isso, esse relato nos dá a chave Então Deus disse:
o conheciam por experiência própria. que abre o entendimento a respeito de nós 'Haja luz'."

mesmos e do mundo à nossa volta. A histó- Gn 1.1-3


Conteúdo ria, ordenada e moldada num padrão lógico,
0 "prólogo" (caps. 1—11) passa rapidamente deixa claro que
do mundo como Deus o criou para o mundo • a origem do mundo e da vida não foram
assim como o conhecemos. A boa criação de acidentais; há um Criador, a saber. Deus;
Deus deteriora-se progressivamente como resul- • Deus fez tudo que existe;
tado do pecado humano de rejeitar o Criador e • tudo que Deus fez era bom;
ignorar suas advertências. Desde o início, as pes- • em meio a toda a criação maravilhosa de
soas decidiram seguir seu próprio caminho, com Deus, os seres humanos são especiais: só
resultados desastrosos. eles foram feitos à "semelhança" de Deus
Em seguida, ocorreu o grande dilúvio, des- e receberam autoridade sobre as demais
truindo tudo. Deus age para julgamento e criaturas;
também para salvação. Noé e sua família são • os seis "dias" de atividade criativa de
resgatados. Há um novo começo. Porém estes Deus, seguidos de um "dia" de descanso.
Pentateuco

estabelecem o padrão para a vida de tra- G n 2.4—3.24


balho dos seres humanos. A degradação
A criação é descrita como tendo aconteci-
do em seis dias. Oito vezes Deus fala e algo Gn 2.4-25: H o m e m e m u l h e r
novo é criado: Se o mundo que Deus fez era bom, como
ficou do jeito que é agora?
Dia 1 A luz é separada das trevas: Esta segunda história, após a criação, expli-
há dia e noite ca tanto as coisas ruins como as boas no nossi
Dia 2 A separação dos "céus" mundo. Destaca os dois seres humanos e seu
(atmosfera da terra) relacionamento com Deus. E significativo que
Dia 3 Há separação entre terra e mares e agora Deus tem um nome diferente. Na primei-
começa a "produção" ra história era Elohim, Deus o Criador, o Altíssi-
ou "formação": plantas e árvores mo. Agora ele é Yahweh Elohim [SF.NHOR Deus]
Dia 4 Sol, lua e estrelas o nome pessoal pelo qual cie pode ser conheci-
Dia 5 Criaturas marinhas e aves do (veja "Os nomes de Deus").
Dia 6 Animais que vivem na terra Em hebraico, "Adão" é tanto um nome pes-
Pessoas soal quanto uma palavra que significa "huma-
Dia 7 A criação está completa. nidade". Deus forma o primeiro ser humano e
Deus descansa planta para ele um jardim no Eden, no Orien-
te. Mas nem pássaros nem animais fornecem
Este não é um registro cronológico. As o companheirismo de que o homem preci-
"separações" dos três primeiros dias criam sa, e ele não foi criado para levar uma vida
os "espaços" que Deus preenche em seguida. solitária e auto-suficiente. Então Deus cria
Não nos é dito quando a criação ocorreu. Nem a mulher, que compartilha a própria natu-
temos detalhes de como Deus fez surgir a terra reza do homem. Aqui está a parceira ideal.
e a vida — nem quanto tempo isto levou. O "Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne
contador de histórias não compartilha as pre- da minha carne" exclamou Adão com alegria,
ocupações de uma era científica. Ele se preo- dando-nos os primeiros versos de poesia da
cupa com coisas mais importantes. Bíblia. Esses dois foram literalmente "feitos
• Dias Estes são mais bem entendidos como um para o outro". Estavam nus, em perfeita
um padrão escolhido como meio mais vívido transparência de um para o outro. E tudo era
de expressar a energia criativa e satisfação de perfeito. Nunca mais seria assim.
Deus, a organização e majestade simples da Em 2.24, o escritor reforça a idéia: o ver-
maneira pela qual cie criou todas as coisas. dadeiro casamento é um relacionamento todo
São usados para ensinar uma lição: 2.3. especial e exclusivo.
• A " i m a g e m " o u " s e m e l h a n ç a " d e D e u s (1.27) • A s d u a s á r v o r e s O que será que significam
De toda a criação, apenas o homem e a mulher essas imagens tão poderosas? Será que uma
são descritos como sendo criados à semelhança árvore representa a vida e a outra, o conhecimento
de Deus. E uma afirmação que separa as pessoas proibido? Será que a locução "do bem e do
dos animais, colocando-as num relacionamento mal" é uma expressão idiomática hebraica que
especial com Deus. Ele lhes dá controle sobre o significa "tudo" — todo conhecimento? Ou
mundo recém-formado e todas as suas criaturas. será que a importância real das árvores está na
A "semelhança" é tão básica à natureza humana oportunidade que apresentam ao homem e à
que até a posterior decadência da humanidade mulher de dizer "sim" ou "não" a Deus? Sua
— a "Queda" — não a destruiu. O pecado escolha fatal os separou da "árvore da vida".
certamente a deteriorou e manchou, mas Eles serão afastados da presença de Deus. Verão
as pessoas ainda são racionais, moralmente a morte. Mas ainda resta uma esperança. No
responsáveis e criativas de maneira que os último livro da Bíblia, a árvore da vida aparece
animais não são: podemos imaginar, sonhar, às margens do rio na "nova Jerusalém", onde
planejar e moldar nosso futuro. Podemos ser Deus e seu povo viverão juntos novamente — e
responsáveis pelo nosso ambiente e cuidar dele as folhas dessa árvore servem para "curar as
de forma adequada. Podemos desfrutar de uma nações" (Ap 22.2).
variedade de relacionamentos. Também temos • U m rio (2.10) Este é um lugar real e geográfico.
liberdade para escolher, embora esta liberdade Embora Pisoni e Giom não sejam conhecidos, os
agora tenha uma inclinação enganosa. rios Tigre e Eufrates desaguam no Golfo Pérsico.
Histórias da criação
Alan Millard

Como o mundo começou? Esta Entretanto, idéias comuns não deri-


é uma pergunta que a maioria das vam necessariamente de uma fonte
pessoas faz. E muitos povos em dife- comum. É enganoso reduzir histórias
rentes partes do mundo têm suas diferentes trazidas das várias partes
próprias histórias de criação, contadas do mundo aos fatores que têm em
e recontadas ao longo dos anos, na comum para afirmar que todas têm
tentativa de dar uma resposta. Signifi- uma fonte comum. É improvável que
ca isto que as histórias do Gênesis são todas essas diferentes histórias, ou uma
apenas mais uma versão, adaptada às grande parte delas, tenham uma fonte
crenças dos hebreus? única.

Fonte c o m u m a todas
Em Gn 1—2 temos um relato mais
amplo da criação dos céus e da terra, Muito antes de histórias como aquelas nos
seguido de uma descrição mais deta- primeiros capítulos de Gênesis serem registradas
por escrito cias eram contadas e recontadas ao
lhada da criação do ser humano. Estes redor de fogueiras nos acampamentos de povos
relatos têm vários pontos em comum nômades e no seio das famílias.

com outras histórias da criação do


cosmos e do homem:
• uma divindade pré-existente; 0 Gênesis Babilónico
• a criação como resultado de uma
ordem divina; 0 famoso Gênesis Babilónico, geralmente Há indícios claros de que essa história foi
• o ser humano como o ponto alto relacionado com a história bíblica da criação, formulada a partir de relatos anteriores. De
da criação, formado do pó da terra é uma história entre várias, e não era nem a fato, foram encontradas narrativas mais anti-
como se molda um vaso, mas tam- mais antiga nem a mais popular. Escrito ao gas que contêm alguns desses elementos. Só
bém de certa forma um reflexo da final do segundo milênio antes de Cristo em um tema reaparece com freqüência, a saber,
divindade. honra de Marduque, deus dos babilónios, a criação da humanidade com uma centelha
Quase todas as religiões politeís- que é o herói dessa história, o relato começa divina para que os deuses ficassem livres de
tas têm árvores genealógicas de seus com Tiamat, uma figura seus trabalhos. A luta entre os
deuses, sendo que estes podem fazer materna das águas, que deuses, que aparece no Gênesis
parte de suas histórias de criação. dá origem aos deuses. (0 Babilónico, não tem equivalente
Um casal original ou até mesmo um nome "Tiamat" tem algu- no AT, apesar das tentativas de
só deus que se criou a si mesmo e ma relação com a palavra muitos eruditos no sentido de
se auto-propagou chefia a família hebraica para "abismo" descobrirem referências implí-
divina, cujos membros representam que aparece em Gn 1.2. citas a essa luta no texto de Gn
ou controlam elementos ou forças Isto se deve a conexões 1.2 e em outras passagens que
naturais. lingüísticas pré-históricas falam do poder de Deus sobre
Na visão de alguns povos, o uni- entre as línguas babiló- as águas.
verso físico ou um elemento fun- nica e hebraica.) Tiamat
damental como a água ou a terra foi morta por Marduque
sempre existiu, e os deuses tiveram numa batalha entre ela
sua origem a partir disso. Para outros, e seus filhos, cujo baru-
Nesta tahuinha de argila está inscrita uma parte
o universo é obra de um deus ou lho a deixara irritada, e do cadáver dela foi do relato babilónico da criação. Foi copiado por
formado o mundo. As pessoas foram criadas volta do século 7 a . C , mas se baseia em outras
deuses. Estes são conceitos simples, histórias que remontam ao terceiro milênio a.C.
baseados em observação e lógica para aliviar os deuses do trabalho de manter
elementar. Por exemplo, o concei- a terra em ordem, e, assim, os deuses têm
to do ser humano como "pó" pode descanso.
ser facilmente deduzido do ciclo de
morte e corrupção.
18 Pentateuco

Gênesis e outros relatos mais textos e a reavaliação dos mais na verdade, tão acentuadas que aju-
do antigo Oriente Próximo antigos, ficou claro que muitas das dam a destacar o caráter de "revela-
É mais interessante, e mais correto, supostas semelhanças são, de fato, ção" do Gênesis, que o distingue tão
colocar o relato do Gênesis ao lado aparentes ou ilusórias. Por exemplo, claramente de narrativas folclóricas.
de outros relatos do antigo Oriente não existe qualquer relação entre
Próximo, que é o mundo do AT, Ao os sete dias da criação no Gênesis
fazermos isso, notamos que são pou- e o fato de a história babilónica da
cas as antigas histórias de criação que criação aparecer em sete tabuinhas
têm mais do que um ou dois concei- de argila. A segmentação da história
tos básicos em comum, como a sepa- dos babilônios não tem nada a ver
ração entre céus e terra e a criação com o seu conteúdo ou com fases
do homem a partir do barro. ou estágios no poema em si.
Porém as histórias dos babilônios Essas semelhanças quanto aos
têm algumas notáveis semelhanças fatos mencionados servem apenas
com o relato hebraico. Desde que o para enfatizar a vasta diferença de
primeiro dos relatos babilónicos foi perspectiva moral e espiritual entre
traduzido para línguas modernas, o Gênesis bíblico e as narrativas aná-
ao longo do último século, afirma- logas que mais se aproximam dele.
va-se, com freqüência, que os relatos Não se pode afirmar, como alguns
babilónicos eram a fonte mais remo- o fazem, que o Gênesis foi derivado
ta da crença dos hebreus. Todavia, dessas outras histórias. As diferenças
recentemente, com a descoberta de de ponto de vista e de conteúdo são,

A Epopéia de Atrakhasis

Um poema babilónico em particular • Toda a raça humana acabaria sendo des- história babilónica — em especial a con-
sugere uma comparação com o relato do truída num dilúvio, exceção feita a uma dição dos seres humanos como substitutos
Gênesis. Trata-se da Epopéia de Atrakhasis, família. dos deuses no que diz respeito ao trabalho
que se relaciona com os primórdios da huma- Por outro lado, em Atrakhasis as pessoas — remontam a um poema sumeriano, Enki
nidade e o começo da vida em sociedade, têm trabalho árduo a realizar desde o início, e NinmakJ), escrito no período anterior ao
fazendo alusão à ordem existente no mundo não existe um "Adão" único, e nada se diz ano 2000 a.C.
sem descrever a sua criação. No começo da sobre uma formação separada da mulher,
narrativa, os deuses inferiores trabalham na um jardim chamado Eden, e uma queda em
irrigação da terra e decidem se rebelar con- pecado. Na verdade, não existe ensino moral
tra a sua sorte. Para aliviar esses deuses de nenhum. Ao contrário, o significado é que
sua estafante tarefa, foram criados os seres esta é a origem de nossa sorte e cabe-nos
humanos. Estes são uma solução satisfatória aceitá-la.
até o momento em que o barulho que fazem Uma versão suméria menciona cinco
irrita os deuses, levando-os a destruí-los no importantes cidades que existiram no perío-
dilúvio. v do pré-diluviano, e esses nomes se conectam
Em geral, Atrakhasis (conhecido a par- com listas de reis pré-diluvianos, preservadas
tir de cópias feitas por volta de 1600 a.C.) em relatos separados. A idade desses reis
tem algumas semelhanças com trechos de ultrapassa em muito a dos patriarcas que
Gn 2—8: aparecem em Gn 5. Os escritores babilóni-
• Os seres humanos são feitos de barro e cos consideravam o dilúvio uma importante
de um elemento divino (o "sopro" em interrupção ocorrida na história de seu pais.
Gênesis; a carne e o sangue de um deus, (Veja "Histórias sobre dilúvios".)
em Atrakhasis). Portanto, na cobertura ampla dos fatos,
• A tarefa dos seres humanos é manter a terra Gênesis e a tradição que aparece em Alrokhosis
em ordem (trabalho árduo em Atrakhasis; se referem aos mesmos acontecimentos.
guarda de um paraíso em Génesis). Alguns dos temas que aparecem na
J19

O nome Cuxc (descendente de Noé) está ligado neste mundo bom? A narrativa não expli-
a Babilônia em 10.8,10. Assim, a descrição pode ca. Mas claramente Deus assumiu um risco
ser de quatro rios, todos correndo na direção enorme ao dar a suas criaturas a liberdade
do golfo, com o "Éden" em algum lugar acima de escolher. O que ocorre em seguida é um
dele. impressionante discernimento da psicologia
da tentação e do pecado: a tentativa dc passar
Gn 3: U m a e s c o l h a fatal adiante a culpa c, no final, a vergonha.
Entra em cena a serpente — criatura de A serpente questiona aquilo que Deus
Deus, porém rebelde. De onde vem o mal disse, depois o chama de mentiroso. A mulher

Pessoas como administradoras de Deus


Chulean Prance

0 relato do Gênesis deixa bem Hoje, parece que não somos afetados ções" (Gn 9.12). "Eis que estabeleço
daro que os seres humanos foram pelo fato de hectares e mais hectares a minha aliança convosco, e com a
criados para cuidarem da Terra, e não de floresta tropical serem derruba- vossa descendência.e com todos os
para destrui-la. dos a cada dia que passa. No entanto, seres viventes que estão convosco:
Em meio à terrível destruição o texto também indica que as árvo- tanto as aves, os animais domésticos
do meio ambiente, à poluição e ao res se destinavam à alimentação, e e os animais selváticos que saíram
extermínio de espécies que se veri- nisto podemos, com certeza, incluir da arca como todos os animais da
ficam em nossos dias, é bom voltar a madeira, o látex e muitos outros terra" (Gn 9.9-10). Visto que esta
ao Gênesis e ver como as coisas eram produtos que elas nos fornecem. Não aliança foi feita com todas as cria-
no princípio: "Tomou, pois, o Senhor devemos fazer uso exagerado ou turas, temos a responsabilidade de
Deus ao homem e o colocou no jar- além da conta desses recursos, mas zelar por elas, tratando de evitar que
dim do Éden para o cultivar e o guar- também deixar árvores de pé para espécies sejam extintas por abuso ou
dar" (Gn 2.15). que formem uma paisagem bonita destruição de seu habitat.
0 verbo hebraico abad, traduzido e nos dêem sombra. Temos de cuidar da criação por-
por "cultivar", também pode significar A responsabilidade que a huma- que ela pertence a Deus, não a nós.
"servir", e o verbo shamar, traduzido nidade tem por todas as criaturas foi "Ao Senhor pertence a terra e tudo o
por "guardar", dá a idéia de observar re-enfatizada na aliança que Deus que nela se contém": assim começa
ou preservar. A instrução dada às fez com Noé após o dilúvio. Este o SI 24. Devemos, igualmente, cuidar
primeiras pessoas foi no sentido de pacto não foi feito apenas entre da criação porque Cristo é "o primo-
servir e preservar o solo. Deus deu à seres humanos e Deus, mas incluía gênito de toda a criação" (Cl 1.15) e
humanidade domínio sobre o resto "todos os seres viventes que estão "nele, foram criadas todas as coisas,
da criação, para cuidar dela, e não convosco, para perpétuas gera- nos céus e sobre a terra... Tudo foi
para destrui-la. criado por meio dele e para ele".
Segue-se que cuidar da criação é Somos, hoje, conclamados a sermos
uma responsabilidade cristã em nos- seus curadores ou mordomos de sua
sos dias, pois aqueles que conhecem criação — até que ele venha.
o Criador deveriam ser os primeiros
a tomarem a dianteira na proteção
daquilo que ele criou.
Gn 2.9 diz: "Do solo fez o Senhor
Deus brotar toda sorte de árvo-
res agradáveis à vista e boas para
alimento".
É significativo que, neste texto, o
aspecto utilitário não aparece em pri-
meiro lugar. O propósito das árvores Estii samambaia gigante, em Piji. é apenas
um exemplo do crescimento exuberante c
era, em primeiro lugar, estético, pois extraordinário das plantas desde o inicio da
elas deviam ser agradáveis à vista. criação.
120 Pentateuco

estabelece um contraste entre Adão e Cristo:


Mm
como descendentes de Adão todos morremos,
separados dc Deus; Cristo, por outro lado, nos
restaura à vida eterna, conectando-nos outra
(•A vez com Deus (Rm 5; ICo 1 5 ) .
• A d ã o e E v a Competição e dominação surgem
no momento da queda em pecado. No início os
dois foram criados igualmente "à imagem de
Deus". Eram independentes e co-dependentes,
juntamente responsáveis pelo bem-estar do
mundo c dos seusfilhos.A maldição de Gn 3.16-
1 9 é uma descrição de como o relacionamento
humano mais íntimo foi arruinado por causa
da desobediência a Deus: vemos isto no
relacionamento entre homens c mulheres no
O jardim precisa contrapor ao claro mandamento de restante das Escrituras e na história do mundo
do Éden
Deus o fruto tentador, o desejo de ter conhe- desde aquele tempo até os nossos dias. Segundo
A história do
cimento como o dc Deus. Eva exagera ao Gn I. Adan c F.va foram criados juntos, Em Gn2,
jardim do Éden
está ambientada falar da rigidez da proibição divina e apro- Adão foi criado primeiro, mas isto não se reveste
nos vales
xima perigosamente da tentação. Será que de nenhum significado especial. Eva é descrita
bem irrigados
ela quer simplesmente conhecer assim como como "auxiliadora" dc Adão em relacionamento
da antiga
Mesopotámta. Deus conhece ou será que pretende ser igual compatível c casamento, não no sentido de
a Deus (em contraste com o Filho de Deus, inferioridade, visto que, no AT, essa mesma
disposto a se humilhar: Fp 2.6-8)? A deci- palavra ("ajudador") é usada, na maioria das
são c deliberada e fatal. Adão, em silencio, vezes, quando se está falando sobre Deus.
não protesta. Também ele come do fruto. O
homem e a mulher decidiram seguir seu pró-
prio caminho, ignorar o Deus que lhes havia Gn4—5
dado a vida. De Adão a Noé
Mas a bondade de Deus c o pecado huma-
no são como óleo c água. A separação c ine- Gn 4: C a i m e Abel
vitável. O relacionamento de Deus com as Após sua expulsão do jardim, Adão e Eva
pessoas e das pessoas umas com as outras é tiveram dois filhos: Caim, o lavrador, e Abel, o
arruinado. O homem e a mulher não ficam pastor. No momento adequado cada um deles
mais à vontade juntos. A serpente agora é ini- trouxe sua oferta a Deus. A dc Abel foi aceita,
miga dos seres humanos. A mulher sofrerá no mas não a de Caim. Não foi o que Abel ofe-
parto, que é o processo humano mais funda- receu, mas sua fé (Hb 11.4) que tornou sua
mental. O desejo e a dominação prejudicarão oferta aceitável. O ressentimento amargura-
o relacionamento entre os sexos. O trabalho do de Caim demonstra uma atitude bastante
de Adão será marcado por suor e fadiga. diferente. Como os profetas dirão sempre de
Por causa de sua transgressão voluntária, novo: Deus não pode ser comprado por sacrifí-
o acesso à "árvore da vida" agora lhes é veda- cios. Eli' quer que o ofertante também faça "o
do. Eles devem deixar o jardim para sempre. que é certo" (v. 7). A fé verdadeira não pode
Estão sozinhos, separados de Deus. Estão ser separada do comportamento correto.
vivos, porém apenas pela metade, na medi- Caim matou Abel (não se precisa muito
da em que estão sem Deus. A morte é apenas para passar da rebelião ao assassinato)
uma questão de tempo. Deus havia falado a e Deus o condenou a uma vida nôma-
verdade. Mas ele ainda é bondoso e tem para de, dando-lhe, porém, proteção contra a
com eles um cuidado paterno (3.21). morte. Os vs. 17-24 alistam alguns des-
• A d ã o No restante do AT essa palavra significa cendentes de Caim e demonstram o início
humanidade. Também é muito parecida com da vida civilizada. Enoque construiu a pri-
a palavra hebraica para "solo" (um jogo de meira cidade. Seus sucessores aprenderam
palavras semelhante a "humano" e "húmus"). a tocar c apreciar música — e a trabalhar
No NT, Adão é nosso ancestral, o fundador com ferro e bronze. Mas as habilidades
da raça à qual todos nós pertencemos. Paulo criativas não foram acompanhadas por pro-
Genesis 121

Nomes de pessoas em Gênesis 1—11


Richard S. Hess

No mundo bíblico, os nomes das N i n r o d e ("nós vamos nos rebelar" do dilúvio. Essa semelhança entre os
pessoas muitas vezes têm uma ori- ou "vamos nos rebelar!") descreve o nomes é uma característica que apa-
gem ou um significado que nos diz personagem que aparece em Gn 10, rece também em outras genealogias
algo a respeito do caráter ou das especialmente se ele tiver, também, do antigo Oriente Próximo.
convicções da pessoa nomeada. Em alguma conexão com o episódio da A figura de Enoque (o homem justo
Gênesis, como no restante da Bíblia, torre de Babel, em Gn 11. que Deus removeu deste mundo, em
os nomes de muitos dos personagens S e m significa "o nome", aquele Gênesis) aparece também em listas de
principais das narrativas têm um sig- através do quem viria Abrão, cujo sábios pré-diluvianos encontradas no
nificado especial. nome Deus engrandeceria. antigo Oriente Próximo.
Mais interessante é o fato de apa-
0 nome significa... O n o m e soa parecido c o m . . . recerem, no antigo Oriente Próximo,
0 nome A d ã o significa "humanida- Além do significado direto das nomes semelhantes aos que ocor-
de'^ se aplica muito bem ao primeiro palavras hebraicas que são usadas rem nos capítulos iniciais de Gêne-
ser humano e também representan- como nomes nesses primeiros capí- sis. Alguns nomes e partes desses
te da raça humana. O nome tem este tulos de Gênesis, aparecem também nomes integram nomes pessoais usa-
significado em Gn 1.26-28 e aparece trocadilhos. Palavras parecidas no dos em diferentes períodos históricos
com o sentido correlato de "homem" som estabelecem uma conexão entre daquela região. Por exemplo, as raízes
nos caps. 2—3 e na maior parte do o nome da pessoa e algum aconteci- semíticas que subjazem aos nomes de
cap. 4. Somente em Gn 4.25 A d ã o mento da história. "Eva" e de "Sem" aparecem com fre-
passa a ser nome próprio. A palavra A d ã o soa como "solo" qüência em nomes próprios. Outras
0 nome E v a pode ser entendido ou "terra", a a d a m a h que Deus usou raízes, como as de Lameque e Arfa-
no sentido de "aquela que dá a vida". para criá-lo. xade, não aparecem nunca. Algumas,
Descreve o papel da primeira mulher, C a i m soa como o verbo q a n a h , como o nome Adão e a primeira parte
como sugerido em Gn 3. Vale lembrar "criar", "adquirir". Eva emprega esse dos nomes de Metusalém e Metusael,
que o nome dela só aparece ao final verbo em Gn 4.1, ao descrever o ocorrem em épocas e lugares espe-
do capítulo. envolvimento divino no nascimento cíficos apenas durante o segundo
C A I M pode ter relação com o tra- de Caim. milênio antes de Cristo ou em perío-
balho de beneficiar metais, na medi- N o é se parece com n a c h a m , o do anterior a ele. Não fazem parte
da em que este foi um ofício que se "consolo" que, segundo palavras de nomes próprios usados durante o
desenvolveu entre seus descenden- de seu pai Lameque, esse homem primeiro milênio, o período dos reis
tes, em especial Tubalcaim. traria. israelitas, o que mostra que remon-
A B E L é uma palavra hebraica usada tam a um período mais antigo, e não
para descrever algo que é efêmero ou Nomes semelhantes a um período mais recente.
passageiro. Em Eclesiastes, é traduzi- Existem nomes perecidos quanto
do por "vaidade". Sugere a brevidade ao som nas genealogias de Caim e
da vida daquele que foi assassinado Sete (e nas genealogias de Enoque e
por seu irmão sem deixar descenden- Lameque chegam a ser nomes idên-
tes, sem nada que pudesse dar con- ticos), mas isto não significa neces-
tinuidade ao seu nome ou torná-lo sariamente que temos duas versões
permanente. diferentes da mesma genealogia origi-
S E T E , por outro lado, pode signifi- nal. Isso serve para mostrar que, ape-
car "pôr" ou "colocar", ou, em Gn 1—11, sar das semelhanças externas (nomes
"fazer a vez de substituto". É claro que semelhantes), as pessoas podem ser
este nome se aplica muito bem àque- totalmente diferentes quanto ao seu
le que substituiu Abel na função de verdadeiro caráter. No caso de Caim
pessoa através da qual se cumpriria a e Sete, trata-se de duas linhas genea-
esperança de Adão e Eva. lógicas que seguem em direções
E N O Q U E significa "dedicação" e opostas: a de Caim leva ao assassi-
pode ser uma forma de descrever a nato e ao orgulho; a de Sete leva à
consagração desse homem a Deus. justiça e à salvação de Noé das águas
Pentateuco

gresso moral. Lamcque tomou duas espo- G n 6—11


sas. A dor e os problemas que isto trouxe O dilúvio e Babel
são evidentes em histórias posteriores. E
ele gabou-se do assassinato que cometeu, Gn 6.1-8: U m a r a ç a p e r d i d a
excedendo Caim. A raça humana, imersa em violência e cor-
Os dois últimos versículos dão um vislum- rupção, traz destruição sobre si mesma. Deus
bre de esperança. Adão e Eva tiveram Sete e reduz a longevidade para 120 anos. Mas ape-
as pessoas começaram a "invocar o nome do nas isto não traz resultados. Apenas um ato
Senhor". de julgamento livrará o mundo do pecado.
• A e s p o s a d e C a i m Os vs. 14-15,17 dão a • 6.2 Versões diferentes falam dc "filhos de
impressão de uma terra, até certo ponto, deuses" ou "filhos de Deus" (i.e. anjos) ou ;
povoada. A maneira mais simples de explicar "seres sobrenaturais".
isto é supor que havia outros filhos de Adão • 6.4 "Gigantes" (no hebraico, nefilim): os
c Eva que não são mencionados. Outros "valentes" (heróis) do passado.
argumentam com base no fato de a palavra
"adão" significar homem, ou humanidade, Gn 6.9—9.29: A história d e N o é
que toda uma raça foi criada, e não um Como na criação, devemos abordar este
único casal. relato como uma narrativa, esperando ima-
gens, símbolos e padrões, buscando o motivo
"fcíKílianfo Gn 5: G e n e a l o g i a pelo qual cia está sendo contada, a "a mensa-
durar a ferra,
não deixarão A Bíblia traz com freqüência genealo- gem (ou mensagens) da história".
dc haver gias semelhantes a esta de Gn 5 para defi- No princípio. Deus estabeleceu os limites
semeadura
e colheita, nir uma importante linha dc descendentes. da terra e das águas, tirando ordem do meio
frio e calor, Muitas dessas genealogias são seletivas, às do caos. Agora, corno resultado do pecado
verão e inverno,
dia t noite." vezes para criar um padrão de certo número humano, as forças dc destruição são libera-
de nomes (p. cx., Mt 1). A idéia não c somar- das. Mas nem tudo está perdido.
(Promessa de Deus
após o dilúvio, mos todos os números e calcular o tempo Num cenário de julgamento, a narrati-
em Cn 8.22) decorrido. ( 0 Arcebispo James Ussher fez va enfatiza o ato divino de salvação. Noé,
isto e datou Adão dc 4004 a.C. Entretanto, "o único homem íntegro daquele tempo", o
com base em Jericó e outras cidades, temos único que "andava com Deus", não seria con-
conhecimento dc uma civilização que data de denado com os outros. Deus tinha um plano
7000 a.C, e este ainda não é o princípio da dc resgate bem elaborado. Ele arranjaria um
história humana.) lugar de segurança e refúgio. Uma vida intei-
No Oriente Próximo antigo, os núme- ra de conhecimento c de confiança em Deus
ros geralmente eram usados para demons- havia preparado Noé para esse momento. E
trar importância em vez de quantidade real. ele fez exatamente o que Deus ordenara.
As idades decrescentes de Matusalén! a José Infelizmente, mesmo um novo começo nãu
podem ser interpretadas como os efeitos restaura o Éden nem altera a natureza huma-
cumulativos do pecado. na. A "imagem de Deus" (9.6) permanece,
A longevidade atribuída a esses ances- mas permanece também a disfunção na cria-
trais é impressionante. Varia dos 777 anos ção. Os animais agora passam a ser alimen-
de Lameque aos 969 anos de Matusalém. to para os humanos. E a própria história de
Cada um dos dez registros segue o mesmo Noé termina mal. (É significativo que a Bíblia
padrão: nos conta as falhas até dc seus maiores perso-
Quando fulano tinha tantos anos, nasceu o nagens.) Noé ficou bêbado, Cam desonrou o
seu filho beltrano. Viveu mais tantos anos e teve seu pai e o patriarca amaldiçoou Canaã, filho
outros filhos e filhas. Viveu mais tantos anos e (mais novo?) de Cam. Teria Canaã agravado
moireu. o desrespeito dc Cam? Não sabemos. Mas os
A nota melancólica da frase final "e mor- canancus foram, mais tarde, subjugados pelos
reu" só varia no caso de Enoque, o homem descendentes dc Sem, os israelitas.
que "andou com Deus". Para ele Deus linha Histórias de um dilúvio foram transmiti-
outros planos. E o último dos dez, Noé, tam- das em diversas línguas em muitas partes do
bém "andava com Deus" (6.9). Ele também, mundo. Os relatos babilónicos (sumérios e,
embora de forma diferente, foi salvo da em especial, acádios) se assemelham muito
morte. à história registrada aqui. Isto não deveria
Gênesis 123

Histórias sobre dilúvios


Alan Millard

Reminiscências de um dilúvio ou 0 " N o é " babilónico


de vários dilúvios podem ser encon-
tradas em todo o mundo. Como seria
de esperar, apresentam vários aspectos Segundo a narrativa babilónica do dilúvcioé,u, até que passassem os sete dias de tem-
em comum: pessoas são salvas dentro depois da criação dos primeiros seres humap no es,tade. Foi então que Atrakhasis mandou
de um navio; animais foram levados a o barulho que osfilhosdestes faziam era tapnátsosaros para fora do barco, para verificar se
bordo; o navio "atracou" no alto de um que o deus da terra não conseguia dormir.aSe teu
rsra era de novo habitável (um episódio pre-
monte. Da Babilônia (e só de lá, entre as planos de acabar com o barulho deramserem vado unicamente na versão de Gilgamés), e
histórias antigas de dilúvio) nos vem um nada, quando o piedoso Atrakhasis conseguoiu fereceu um sacrifício no alto da montanha,
relato tão parecido com o de Gênesis assegurar a ajuda do deus que havia cro ianddoe o barco havia estacionado. Com muita
que as pessoas se perguntam se não os homens. Por fim, os deuses optaramap vo idrez, os deuses se reuniram "como moscas",
houve empréstimos ou influência de um dilúvio catastrófico, e todos juraram q aouesentirem o cheiro do sacrifício, e juraram
um sobre o outro. manteriam o plano em segredo. Mas tambném unca mais provocar semelhante destruição. A
Já faz um século que conhecemos desta vez Atrakhasis foi advertido. Num sond heou,sa mãe jurou por um colar de pedras azuis
a Epopéia de Gilgamés, tabuinha 11. o deus orientou-o a construir um barco eM leavsaro deus cujo sono havia sido perturbado
Otema da narrativa é o seguinte: os para dentro dele a sua família e também aalginudnas não se dava por satisfeito. E depois de
seres humanos não podem ter nenhu- animais. Deveria, igualmente, explicar sua açãuoma discussão em torno da injustiça inerente
ma esperança de imortalidade, pois aos outros seres humanos, dizendo quenu sme castigo indiscriminado, foi organizado um
o único que a alcançou foi o Noé tratava de um castigo que lhe sobreviria sp istaerm a a em que algumas mulheres deixariam
babilónico. Essa narrativa foi inserida que eles pudessem ser beneficiados. Quandoe dar à luz, entrando em ordens religiosas, ao
no ciclo de Gilgamés a partir de uma todos estavam a bordo, começou a tempestapdaesso que outras teriam seus filhos vitimados
obra anterior, a Epopéia de Atrakhasis e toda a humanidade foi destruída. por doenças, impondo, dessa maneira, limites
(veja "Histórias da criação"), onde faz Os próprios deuses foram afetados pealao crescimento populacional. (Os termos usa-
parte de um relato mais longo sobre tragédia. Como não havia sobrado ninguém dos deixam claro que essa narrativa era uma
a história humana desde a criação, que pudesse servi-los,ficaramsem a comid exaplicação para o sistema social que vigorava
como no Gênesis. e bebida que lhes era apresentada nos sa ncori-tempo do autor.)
fícios. A solução foi agüentar o sofrimento no
0 moral da história
A história do dilúvio na Babilônia
aparece também num texto sumeriano,
que conta praticamente a mesma his-
tória, só que de forma mais abreviada.
E muitas outras composições sumeria-
nas se referem à época do dilúvio, num
passado remoto, ou até mesmo a um
tempo pré-diluviano.
A história do dilúvio no Gêne-
sis está, claramente, ambientada na
Mesopotâmia, e as numerosas seme-
lhanças encontradas dão a entender
que se trata de um relato sobre o
mesmo acontecimento mencionado
na narrativa babilónica. Temos, neste
caso, pessoas de diferentes lugares Esta tabuinha de argila que remonta
que guardaram reminiscências do ao século 7 a . C , proveniente de
a
Nínive, é a 1 1 tabuinha da Epopéia
mesmo desastre natural. Mas o moral de Gilgamés e contém o registro
da história e o conteúdo teológico babüónico d o dilúvio.
124 Pentateuco

das duas narrativas são muito dife-


rentes entre si. A revelação de Deus 0 dilúvio sob uma nova luz?
se encontra, não apenas na narração
dos acontecimentos, mas também na
interpretação dos fatos.

O final d o dilúvio
na narrativa babilónica
Eu ofereci uma libação no alto da
montanha,
Os deuses sentiram o cheiro.
Os deuses sentiram o cheiro suave,
Os deuses se ajuntaram como
moscas ao redor
do que oferecia o sacrifício.
Quando finalmente a grande
deusa (Ishtar) apareceu (ela
disse):
"Todos vocês deuses aqui, como
nunca esquecerei meu colar
de lápis-lazúli,
Eu vou me lembrar desses dias,
e deles nunca me esquecerei".

O final do dilúvio no relato Não deveria nos surpreender que existam mar Negro se encaixa perfeitamente nestas
do Gênesis tantas reminiscências de histórias de dilúvios características.
Levantou Noé um altar ao SENHOR em várias partes do mundo. Os Drs. William Será que isso poderia ser a origem das
e, tomando de animais limpos e de Ryan e Walter Pitman, especializados em geo- histórias sobre dilúvios? Será que essas histó-
aves limpas, ofereceu holocaustos logia marítima, ficaram em especial intrigados rias foram levadas à Mesopotâmia por povos
sobre o altar. E o SENHOR aspirou o com as narrativas que aparecem na Bíblia e que migraram para lá, saindo das imediações
suave cheiro e disse consigo mesmo: no relato babilónico. Segundo o Dr. Ryan, "se, do mar Negro, e depois foram levadas da
Não tornarei a amaldiçoar a terra como a descrição parece sugerir, o dilúvio fez Mesopotâmia para Canaã por Abraão? Isto
por causa do homem, porque é mau com que comunidades inteiras se deslocassem explicaria a referência ao Ararate como a
o designio íntimo do homem desde para outros lugares, era de se esperar que a montanha mais alta da região.
a sua mocidade; nem tornarei a ferir história do dilúvio fosse transmitida às gera- Afirma o Dr. Ryan: "Temos evidência
todo vivente, como fiz. (Gn 8.20-21) ções futuras". conclusiva de que houve um dilúvio no mar
Os geólogos descobriram que o mar Negro. A evidência de que se trata do mesmo
Negro já foi um lago de água doce, mas que aparece na Bíblia e no Épico de Gtgamés
que, uns 9 mil anos atrás, repentinamente é circunstancial, e isso levou a uma amigável
as águas ficaram salgadas. Pesquisas adicio- disputa entre nós e os arqueólogos".
nais revelaram que o nível das águas subiu Entretanto, ha uma série de perguntas
uns 60 m. Mais elementos foram reunidos a sem resposta. A tradição babilónica não con-
partir de uma avaliação sismográfica do leito corda com isso. Não sabemos com certeza se
do mar. A aplicação de testes de carbono havia gente morando nas imediações do mar
14 adiantou a data do dilúvio para 7550 Negro naquele tempo. E, no relato bíblico, as
anos atrás. águas do dilúvio diminuem.
Eles ventilaram a hipótese de que o final
de uma Era do Gelo traria uma dramática
elevação do nível dos mares, e concluí-
ram que o lugar mais provável para uma
corrente catastrófica seria uma bacia num
formato de garrafa que tivesse conexão com
o mar através de uma passagem estreita. 0
Gênesis 125

causar surpresa, se todos esses relatos refle-


tem lembranças de um acontecimento que de
Navio dos puritanos: 27.5 m
fato ocorreu naquela mesma região. Não há
necessidade de supor que o autor de Gêne-
sis tenha-se baseado nas histórias babilónicas
para obter esta informação. Na realidade, a
natureza crassa dessas histórias babilónicas Clíper: 64,5 m

(com seus deuses excêntricos e briguemos)


torna isto improvável. A história de Gênesis
pode ter sido reunida de mais de uma fonte
para chegar à sua unidade atual.
Navio dc cruzeiro moderno: 262 m
• O n d e e q u a n d o ? Com base na linguagem
usada no cap. 7, fica claro que o autor quer
que vejamos o dilúvio como um evento
cósmico, um ato de julgamento que reverte o
ato criador. O que segue é um novo começo.
Mas o autor não compartilha nosso conceito
do mundo global. "A terra" do autor é a terra
da história da humanidade antiga relatada
em Gn 2 e seguintes. (Compare Gn 41.57; Gn 10: O s d e s c e n d e n t e s A arca
também At 2.5). de N o é A palavra hebraica
Não temos como saber com certeza quando As nações do mundo bíblico são todas des- para "arca"
significa "caixa"
o grande dilúvio que inspirou essas histórias cendentes dos três filhos de Noé: Sem, Cam ou "baú", e ajuda
realmente aconteceu. A lista de nações e Jafé. A genealogia é organizada conforme o a entender
o formato
descendentes dos filhos de Noé (Gn 10) seguinte padrão: da mesma.
sugere uma data bastante antiga — alguns As medidas
mostram que
milhares de anos antes dos dilúvios do sul da Título (1) ela era enorme.
Mesopotâmia por volta de 4000 a.C, cujos Descendentes de Jafé (2-4) Se um côvado
tiver uns 45 cm.
vestígios foram encontrados em escavações. Detalhe extra sobre Java (5a) as dimensões
E possível que esta história remonte ao fim da Resumo (5b) da arca são 133 m
Era Glacial, por volta de 10.000 a.C. de comprimento,
por 22 m
• A aliança (6.18) é um terna recorrente e Descendentes de Cam (6-7,13-18a) dc largura
importante. É um acordo formal entre Deus por 13 m de altura.
Detalhe extra sobre Ninrode (8-12) Ela foi projetada
e seu povo, estabelecido sucessivamente com e Canaã (18b-19) para flutuar,
Noé, Abraão, a nação de Israel (por intermédio Resumo (20) não velejar -
e não houve
de Moisés) e o rei Davi. A cada estágio a aliança problemas
se torna mais densa em termos de promessa, Descendentes de Sem (22-29a) para zarpar!
Fora da história
até a vinda dc Cristo, que introduz a "nova Detalhe extra sobre Sem (21) do dilúvio,
aliança". (A palavra "testamento", usada nos c Joctã (29b-30) a palavra '"arca"
só ocorre na
títulos Antigo Testamento e Novo Testamento, Resumo (31) história em que
tem o mesmo significado). Moisés lói tirado
Isão c salvo!)
Em cada uma dessas instâncias, Deus Resumo da lista inteira (32) das águas d o Nilo.
toma a iniciativa. Ele estabelece os termos e Naquele contexto,
a palavra significa
os torna conhecidos. Somente Deus garante A família de Sem vem por último: estas são "cesto" ou "cesta".
seu cumprimento. As pessoas desfrutam das as nações em torno das quais o próximo está-
bênçãos da aliança à medida que obedecem gio da narrativa se desenvolve. "Hêber" é da
aos mandamentos dc Deus. mesma raiz que o adjetivo pátrio "hebreu".
Veja "Alianças e tratados no Oriente
Próximo". Gn 11.1-9: A t o r r e d e B a b e l
• Quarenta d i a s A Bíblia freqüentemente Aqui está outra história antiga que expli-
associa importância especial a certos números. ca as condições atuais. Por que a humanidade
"Quarenta" é usado sempre de novo para está dividida? Por que existem tantas línguas
indicar algo importante, uma nova etapa, diferentes? A história da queda da humani-
uma ação de Deus, ou apenas para indicar dade não explica tudo. Esta história tenta
"um longo período de tempo". explicar.
Pentateuco

Mizraim
Cuxe

Nações que Cin 10 apresenta um quadro dos povos do mundo antigo a princípio, foram dados a indivíduos tornaram-se nomes que
descenderam que Israel conheceu, estendendo-se do Sudão Oto Sul) passaram a identificar rodos os seus descendentes (como no caso •
d o s filhos às montanhas do Cáucaso (no Norte), e das ilhas gregas de Israel). Os relacionamentos que a história registra entre algum I
de N o é (no Oeste) ao Irá ( n o Leste). Muitos desses nomes são dos povos diferem dos de Gênesis, mas migrações, guerras de
encontrados em outros escritos antigos e podem ser situados conquista e casamentos inter-raciais podem ocultar as verdadeira •
num mapa. mas outros ainda são desconhecidos. Nomes que, origens.

Em Sinar ( = Suméria, antiga Babilô- Babel (Babilônia) provavelmente era um tem-


nia), reino de Ninrode, o caçador (10.10), plo cm forma de torre piramidal ou zigurate,
as pessoas se reuniram para realizar um semelhante àqueles que foram construídos
grande projeto arquitetônico — uma cida- na Babilônia no terceiro milênio a.C. Há ura
de e uma torre que chegasse ao céu. Deus jogo de palavras entre Babel c balai, "confu-1
observa este esforço cooperativo e o consi- são" ou "mistura". Uma inscrição relacionada
dera o início de uma terrível rebelião contra a um zigurate posterior na Babilônia o des- \
Uma reconstrução ele. Então divide o povo por meio da lin- creve como "o prédio cujo topo está no céu".
artística do templo guagem (compare com At 2, quando estas O templo no topo era o local para o deus des-;
em fornia de torre
(zigurate) da cidade barreiras começam a ser derrubadas), e o cer e encontrar aqueles que o serviam.
de Ur. dispersa — exatamente o que as pessoas
estavam querendo evitar. A grande torre
fica inacabada. G n 11.10-32: D e S e m a A b r a ã o
Aqui novamente a lista de nomes é sele-1
tiva, provavelmente abreviando a extensão F
total de tempo envolvida. Os ancestrais de I
Noé viveram muito mais tempo que os de |
Terá, e a idade de paternidade passou a ser I
bem menor.
Quando chegamos ao nome de Tera, a lista |
se torna mais detalhada. Esta é a família na
çjual devemos nos concentrar. Os três filhos de
Tera são alistados e sua cidade natal é Ur dos
caldeus. Após a morte de Harã, Tera partiu J
em direção a Canaã, com seu neto Ló, Abrão j
e Sarai. A jornada os levou 900 km a noroeste
WÊÊBÊBSBBÊÊÊBÊBBM

seguindo o rio Eufrates, até Harã — que era,


como Ur, um centro de adoração à lua. (Js
24.2 registra que Tera "adorava outros deu-
ses".) Ali eles se instalaram. Tera morreu, e o
cenário está pronto para a história de Abraão,
que, segundo At 7.2-4, ouvira o chamado de
Deus antes de partir. Seu novo nome registra
a promessa de Deus de tomar este homem pai
de muitas nações, Gn 17.5.
• Ur Veja "Abraão".
> Harã A rota de Ur a Canaã via Harã era
bastante comum para os viajantes nesta
época. Harã era uma cidade importante no
ponto de encontro de rotas de caravanas entre
a Mesopotâmia e o ocidente. O nome significa A viagem
de Abraão
"encruzilhada" ou "estrada".
d e Ur a Canaã

Gn 12.1—25.18
História de Abraão

G n 12.1-9: A c o n v o c a ç ã o
para a j o r n a d a
Gn 12.1-4 registra a ordem e promessa
Deus a um homem, Abrão, e a resposta obe-
diente da parte deste. As conseqüências deste
simples ato, todavia, se espalhariam progressi-
vamente, levando ao nascimento de uma nova
nação e, com o passar do tempo, beneficia-
riam todo o mundo.
"Partiu Abrão..." Ele já partira de Ur,
cidade próspera com segurança e um alto Sodoma, Gomorra, Admá,
ZeboimeovaledeSidim
padrão de vida. Agora ele partiu na segun- provavelmente se situem
da etapa da jornada, viajando outros 700
km a sudoeste até Canaã (Palestina), com Abraão
e a guerra
Sarai, sua mulher estéril, seu sobrinho Ló e
dos r e i s : Gn 14
seus rebanhos.
Em Siquém, no meio do território cananeu,
Deus falou novamente em resposta ao chama-
do de Abraão. "Esta terra" seria herança dos
descendentes de Abrão. Porém a jornada con-
tinuou na direção do Neguebe, região que se
estende ao Sul, desde Berseba até o planalto Naquele tempo, grupos como estes podiam ••Saia da sua
terra, do meio
do Sinai — hoje semi-árida, porém mais habi- viajar livremente de um país a outro, sem dos seus parentes
tável na época de Abraão. maiores problemas com as línguas. Veja e da casa de seu
pai e vá para
0 estilo de vida de Abraão representa a "Vida nômade". uma terra que
vida de peregrinação: o altar e a tenda tes- • " S e r ã o a b e n ç o a d o s / s e a b e n ç o a r ã o " (12.3) eu lhe mostrarei.
Os seus
temunham a sua fé e a falta de uma mora- Ambos os sentidos são possíveis, mas o NT, descendentes
dia fixa. vão formar uma
seguindo a versão grega do AT (a Septuaginta), grande nação."
• Nômades As histórias de Abraão, Isaque e favorece "serão abençoados".
Jacó nos dão uma idéia da vida seminômade (Palavras que Deus
disse a Abraão em
na Palestina antiga, de pessoas que passavam Gn 12.10-20: F o m e Gn 12.1-2)
parte do tempo deslocando-se com seus A fome levou Abrão ao Egito. Pressionado
rebanhos em busca de pastagens, e parte pelo medo e pela insegurança, este homem
do tempo assentados, cultivando a terra. de fé tratou de defender-se com uma perigosa
130 Pentateuco

meia-verdade (veja 20.12) que colocou cm risco • M e l q u i s e d e q u e (18) Esta c n única aparição
todo o projeto de Deus. Deus interveio com pra- do misterioso rei/sacerdote de Salérn
gas. Sarai foi salva e Abrão foi vergonhosamente (provavelmente Jerusalém; o nome significa I
deportado. "paz" — shalom, salaam). A autoridade dei
• A i d a d e d e S a r a i Parece surpreendente que Melquiscdeque (um décimo — o "dízimo" — |
Sarai, aos 65 anos, seja descrita como "muito era a parte de Deus, de modo que Abrão trata
bonita" (12.14). Porém, como ela viveu até este homem como representante de Deus), [
os 127 anos, seus 60 anos equivaliam, quem a falta de informação sobre ancestrais ej
sabe, aos nossos 30 ou 40 anos. descendentes (extremamente importante para i
qualquer homem que reivindicasse realeza
Gn 13: A e s c o l h a d e L ó ou status sacerdotal), e seu papel duplo de
Rebanhos cada vez maiores provocaram sacerdote e rei, levaram autores posteriores a j
a última quebra de vínculos familiares. Ló, a considerá-lo um prenúncio do Messias (veja SI
quem o generoso Abrão deu o privilégio de 110.4; Hb 7.1-10). "Deus Altíssimo", veja "Os I
escolher, selecionou os pastos férteis do vale nomes de Deus".
do Jordão.
Depois de Gn 15: A a l i a n ç a c o n f i r m a d a
denotar os reis
tribais, Abraão
Gn 14: O misterioso Desta vez a aliança não é introduzida por
reuniu-se numa Melquisedeque uma ordem. Deus ouviu as dúvidas e os medos
refeição de
comunhão com
Embora a vida seminômade fosse comum de Abrão — "Continuo sem filho" (v. 2); "como
Melquiscdeque, na época de Abrão, também havia muita posso ter certeza...?" (v. 8) — e a resposta de
rei de Salem.
gente que vivia em aldeias e "cidades" mura- Deus tranqüiliza Abrão, na medida em que é
O "estandarte"
que aparece das (pequenas cidades; veja "Vida sedentá- uma repetição das promessas.
abaixo, e que ria"). Estas eram governadas por "sheiks" • O h e r d e i r o Era prática comum na época que I
havia sido
locais, que por sua vez geralmente eram vas- casais estéreis adotassem um herdeiro, às vezes, j
'.meu,i,In n u m

túmulo real salos de reis mais poderosos. como neste caso, um escravo. O contrato de
de Ur alguns Os suseranos (v. 1) das cinco cidades adoção podia conter uma cláusula no sentido \
séculos antes da
época de Abraão, da região do mar Morto (v. 2 ) vinham do de que, se o casal viesse a ter um filho, este
apresenta cenas distante Elão c da Babilônia (Sinar) e da teria precedência como herdeiro legal.
de guerra de um
lado, e. aqui. Anatólia (rei Tidal). Rotas comerciais tor- • V . 6 'Abrão creu (depositou sua fé/confiou) no
o banquete da navam relativamente fáceis as viagens e a Senhor, e isso lhe foi creditado como justiça (o
vitória e o desfile
dos despojos. Este
comunicação entre a terra natal de Abrão e Senhor se agradou dele e o aceitou)". Este é um
estandarte é um Canaã. (Os elamitas exerceram poder con- dos versículos mais significativos das Escrituras,
mosaico
de conchas,
siderável na Babilônia. Ur foi uma das cida- e, naquelas circunstâncias, uma resposta de fé
calcário vermelho des que conquistaram e saquearam naquela surpreendente. Paulo (em Gl 3.6-9) argumenta
e lápis-lazúli.
época). com base nisto que judeus e gentios são
reconciliados com Deus pela fé, e não por
obedecerem às leis de Deus (já que nenhum de
nós pode levar uma vida perfeita). "Abrão creu e
foi abençoado; portanto, todos os que crêem são
abençoados como ele foi" (Gl 3.9, NTLH).
• O r i t u a l d a a l i a n ç a Desta maneira é que
se confirmavam acordos na época (veja Jr
34.18). O castigo por violar o contrato era
a morte — simbolizada pelo abate c divisão
dos animais. Aqui, significativamente, apenas
Deus se comprometeu ao passar entre as
partes. Trevas, fumaça e fogo marcaram a
presença de Deus como aconteceria também
• A m o r r e u s (7) Os aliados de Abrão penenciam no monte Sinai (veja Èx 19.18; Hb 12.18).
a uma tribo que compartilhava a terra com os • Q u a t r o c e n t o s a n o s (13)... n a q u a r t a geração
cananeus. Eles tinham bons motivos para apoiar (16) A palavra "geração" também pode significar
Abrão, já que seu próprio povo fora vítima do "vida". Abrão supostamente viveu bem mais
ataque. Uma perseguição rápida e um ataque que um século. Logo, quatro gerações podem
de surpresa deram a vitória a Abrão. equivaler a quatrocentos anos.
Gênesis 131

Agar
Frances Fuller

Agar era uma escrava. Quando "Agora eu vi o Deus que me vê". (O lei- A história dessas duas pessoas
Sara a entregou a Abraão para que tor, lembrado de que Sara descobriu ainda é atual, pois trata da preo-
ela lhes desse um filho, Agar não teve que Deus tinha ouvido o riso dela, por cupação de Deus com os fracos, os
escolha. Porém, estar grávida de um mais que ela tivesse rido baixinho, se desprezados, os pobres, os oprimidos.
filho de Abraão lhe deu certa vanta- pergunta o que teria acontecido se Ela mostra como Deus cuida daque-
gem. Ela havia adquirido valor, pois Agar e Sara tivessem decidido com- les que não fazem parte da aliança, e
era capaz de algo que era vedado a partilhar suas experiências!) até mesmo dos que estão, quem sabe,
Sara. Ela se tornou insolente, e isso Por mais 13 anos Agar se colocou bem longe da fé.
era perceptível no seu jeito de olhar a serviço de Sara. Quando Deus tor-
e no modo de agir. Sara, porém, rea- nou a falar, enfatizando que o filho
giu de forma tão severa que Agar teve da promessa nasceria de Sara, e Sara
de fugir. É provável que o plano de de fato teve um filho, as coisas mais
Agar fosse seguir pela longa estrada uma vez se complicaram para Agar.
do deserto, rumo ao Egito. Um anjo No dia em que Isaque foi desmamado.
do Senhor "encontrou-a" junto a uma Sara pediu a Abraão que ele mandas-
fonte, ao longo dessa estrada. se embora a escrava e o filho dela. E
0 anjo chamou Agar pelo nome Abraão atendeu ao pedido de Sara.
e lhe disse coisas admiráveis. A des- Agar e o filho saíram, andando
cendência dela seria multiplicada, a errantes pelo deserto, levando con-
ponto de não se poder contá-la — a sigo um pouco de comida e um
mesma promessa que havia sido odre de água. A água logo acabou e
feita a Abraão e Sara! Deus conhecia Agar, desesperada, deixou o menino
a opressão de Agar e prometeu que debaixo duns arbustos, esperando
o filho dela seria "como um jumento que morresse. Mas Deus interveio,
selvagem", difícil de domar, hostil, chamando do céu, lembrando a Agar
independente, difícil de oprimir. O que ele faria de Ismael uma grande
anjo disse a ela que voltasse para a nação. A mãe e o filho sobrevive-
sua senhora, e ela obedeceu. ram, vivendo na região montanhosa
Esse encontro deve ter sido uma e deserta conhecida como o Sinai. A história de Agar
experiência espiritual e tanto! Agar Deus cuidou de Ismael e cumpriu as é contada em Gn 16.1-16;
disse o seguinte a respeito dele: promessas feitas a Agar. 21.9-21; 25.12. Veja também
Gl 4.21-31

> V. 16b A NTLH traduz: "não expulsarei os resultante seria da esposa). Mas as emoções "'Olhe para o céu
e conte as estrelas
amorreus até que eles se tornem tão maus, que humanas em tal situação são complexas, c o se puder...
mereçam ser castigados". Isto ajuda a entender resultado infeliz não é surpreendente. Será esse o
número dos seus
a ordem dc destruir os povos cananeus na • A n j o d o S e n h o r (16.7) Veja Jz 2.1. descendentes'.
Abrão creu em
conquista da terra prometida. Deus lhes deu
mais de quatro séculos para mudar de caráter. Gn 17: O sinal d a circuncisão Deus, o Senhor."
Gn 15.S-6
Na época de Josué, esses povos haviam chegado Deus confirmou a aliança mais uma vez,
ao ponto em que não havia volta. Como no caso dando novos nomes a Abrão e Sarai. A maio-
de Sodoma e Gomorra, o julgamento não podia ria dos povos antigos, inclusive os hebreus,
mais ser adiado. dava muita importância aos nomes das pes-
soas e dos lugares. Os nomes das pessoas
Gn 16: C o n c e s s ã o geralmente diziam algo sobre a sua origem
Sarai encontrou sua maneira de fazer com ou expressavam uma súplica ("Que Deus...").
que a promessa de Deus se realizasse. Sendo A mudança de nome, neste caso, indica um
estéril, ela recorre à tradição e entrega sua novo começo. Assim, Abrão ("pai exaltado")
escrava a Abrão. (Esta cláusula podia estar foi mudado para Abraão ("pai de muitos"). E
incluída no contrato matrimonial: o filho Sarai sc tornou Sara.
132 Pentateuco

Abraão
Alan Millard

Os judeus do tempo de Jesus genealogias e na história do próprio


tinham orgulho em afirmar: "Somos povo. Famílias que possuíam terras
descendência de Abraão". Essa afir- faziam um registro dos descendentes,
mação ainda é repetida por judeus e para provar que eram os verdadeiros
muçulmanos de nossos dias. proprietários. Assim, o Israel antigo liste documento sumeriano com seu envelope, da
terra natal de Abraão, a cidade de Ur, e a tflbuldl
Abraão é Importante por ser o fazia o título de propriedade da terra em cuneiforme (nu página aposta) mostram o tipo
homem a quem Deus prometeu a em que morava remontar a Abraão, de civilização desenvolvida que Abraão deixou
para trás quando Deus o chamou.
terra de Canaã e também por ser por mais que este nunca tivesse, ele
o modelo de fé: ele creu em Deus próprio, tomado posse da terra.
e levou Deus a sério. Na verdade, diz como Abraão reconheceu Deus,
Abraão foi o primeiro a ter em mãos Um h o m e m de fé o Deus verdadeiro, pois sua família
os títulos de uma propriedade mate- O pai de Abraão levou a sua famí- adorava "outros deuses" (Js 24.2),
rial e de segurança espiritual. lia de Ur, na Babilônia, para Harã, na incluindo, talvez, o deus lua, que
Em qualquer época as pessoas região onde hoje fica o sul da Turquia. era o patrono tanto de Ur quanto |
querem ter sua identidade, buscan- Foi ali que Deus chamou Abraão, e de Harã. Num mundo em que se
do-a, muitas vezes, no passado, em este respondeu com fé. O texto não adoravam muitos deuses e deusas,

Ur

Ur já era uma cidade bem antiga quando tos de ouro, e o "Estandarte Real de Ur" no qual
Abraão nasceu. Escavações no "Cemitério Real", aparecem cenas de guerra e paz (v<'
que data de cerca de 2500 a.C, revelaram uma época de seu apogeu, por volta de
série de tesouros: xícaras decoradas, utensílios fei- 2100 a.C, Ur era uma metrópole. 0 poder

O povo de Ur apreciava a música c a arte.


Esta harpa reconstruída è um dos tesouros
recuperados dos Túmulos Reais.
Gênesis 133

crer num único Deus que pudesse de intermediários, numa religião sim- um sinal de sua intenção de ficar na
suprir todas as suas necessidades ples e pessoal. terra. No entanto, eram, acima de tudo,
era algo que faria de Abraão uma Tão logo Abraão chegou ã região sinais de sua dedicação a Deus. Os
pessoa diferente de todas as outras. central de Canaã, Deus lhe prometeu lugares onde Abraão edificou altares
No entanto, esta era claramente a sua que aquela terra seria de seus des- não se tornaram lugares sagrados para
convicção. Embora, em conexão com cendentes (Gn 12.7), promessa que foi sempre. O único pedaço de chão que
Abraão, apareçam vários nomes para repetida em 13.15-17, no Abraão possuiu naquela terra
Deus, os mais freqüentes são "Javé" cap. 15 (de forma sole- foi a caverna do campo de
!o SENHOR) e "Deus". Outros nomes ne), e em 17.8. A histó- Macpela, perto de Hebrom,
aparecem uma única vez: Deus ria de Israel se baseava onde Sara foi sepultada.
Todo-Poderoso (£/ Shaddai, Gn 17.1; nessa promessa. Sem Deixar a sua casa, a socie-
veja Êx 6.3), Javé, Deus Eterno (Gn esperar que pudesse dade que ele conhecia tão
21.33), Deus Altíssimo (Gn 14.18-22). tomar posse daquela bem, e dirigir-se a uma terra
Fica claro que todas essas designa- terra, era necessário que desconhecida por ordem de
ções se referem à mesma Divindade. Deus reafirmasse a pro- Deus era um ato de fé. Saber
Abraão também podia identificá-lo messa anteriormente que ele nunca possuiria a
com "o Criador do céu e da terra" a feita. O próprio Abraão terra aumentou a sua fé. Os
quem Melquisedeque, rei de Salém, deixou claro, diante de 25 anos de espera pelo nas-
servia (Gn 14.18-22). Em vários lugares Deus, que necessitava cimento do descendente foi
da terra de Canaã, Abraão ofereceu dessa reafirmação (Gn outro teste, um teste que ele
sacrifícios e fez orações, sem ritos ela- 15.2,3). Os altares que ele edificou e e Sara tentaram superar pela conexão
borados ou sacerdotes que servissem as árvores que plantou eram, talvez, de Abraão com Agar,

O maior teste de todos


Por fim, Abraão enfrentou o teste
mais duro para a sua fé quando Deus
pediu que ele sacrificasse o seu filho,
uma ordem que Abraão acatou, ciente
de que Deus proveria para si o cordei-
ro para o holocausto (Gn 22.8; veja Hb
11.17-19). Sacrifício de seres humanos
era algo raro no mundo bíblico, de
sorte que o pedido de Deus deve ter
soado muito importante aos ouvidos
de Abraão.
Estes bolos vasos de ouro estavam entre os ou quartos dispostos ao redor de um
tesouros descobertos nos Túmulos Reais, em Ur. Segundo uma tradição posterior,
áttio central (veja a reconstrução d
Salomão construiu o Templo no
esquerda).
mesmo local onde Isaque foi amarra-
Ao ser invadida por gente vinda
de seus reis se estendia para o Ocidente, che- do. O fato de isso não ser mencionado
do Elão, a oeste, lá pelo ano 2000 a.C,
gando à costa do Mediterrâneo. Nesse período pode ser indício de que o Gênesis é
a cidade de Ur entrou em decadên-
foi construído o grande zigurate (templo em um relato mais antigo, enfatizando
cia, mas as ruínas do grande zigurate
forma de torre piramidal) em honra a Sin, o simplesmente que Deus provê.
sobrevivem até os nossos dias.
deus-lua que era adorado pelo povo de Ur. Quando Isaque tinha idade para
A cidade era um centro de comércio interna- casar e gerar um filho, a quem seria
cional e tinha dois portos bem movimentados, repassada a promessa da terra, Abraão,
que se conectavam com o rio Eufrates através convencido de que Deus o guiaria, man-
de canais. A maior parte da população morava dou seu servo de volta para Harã com a
em casas de um piso, feitas com tijolos de barro, tarefa de encontrar uma noiva entre os
embota houvesse também algumas casas de seus familiares. Esta história é contada
dois andares. A maioria das casas era relativa- de forma magnífica em Gn 24.
mente espaçosa, sendo que havia várias salas Uma família de poucas pessoas
seria presa fácil dos inimigos. Mas
134 Pentateuco

U m personagem histórico?
A partir da Bíblia, podemos situ-
ar Abraão por volta do ano 2000
a.C. Como seria de esperar, não há
nenhuma referência a ele em relatos
extra-bíblicos. O estilo de vida do
patriarca e os nomes dos membros de
sua família refletem bem a cultura dos
pastores semi-nômades que os erudi-
tos modernos chamam de amoritas
(e que eram encontrados em todo o
Oriente Próximo no período que vai
de 2000 a 1600 a.C). Embora alguns
episódios da vida de Abraão (como
recorrer a uma escrava para ser mãe
substituta) pudessem ter ocorrido
mais adiante na história dos israelitas,
o quadro geral se encaixa melhor no
tempo dos amoritas.
A maneira como Deus é apresen-
tado e a maneira como ele se rela-
ciona com Abraão têm importância
vital, desafiando os leitores a terem
a mesma fé que teve Abraão.

^ > Abraão era um homem rico e tinha Este xeque beduíno das imediações de lierseha
ilustra o tipo de vida de um líder tribal do deserto.
um grupo de homens encarregados
Vivendo em lendas amplas, eles têm a liberdade
de sua segurança. Assim, teve como para conduzir os seus rebanhos aos melhores pastos.
resgatar seu sobrinho Ló, quando
este foi levado embora por inimigos,
além de auxiliar outra pessoas da Na história de Sodoma e Gomorra
região que tinham sofrido o mesmo (Gn 18—19), Abraão se mostrou compas- A história de Abraão é contada em
ataque. Neste caso, foi positivo o sivo para com os seus vizinhos, por mais Gênesis, desde 11.26 até 25.11. Veja
relacionamento de Abraão com os que Deus já os tivesse condenado por também lo 8.33-59; Rm 4;
chefes dos cananeus. Todavia, houve causa de seus pecados. Em seu famo- Hb 11.8-19.
momentos em que, por motivos de so diálogo com Deus, ele estabeleceu
segurança pessoal (Gn 12 e Gn 20), o princípio de que Deus não destruiria MOMENTOS MARCANTES
ele criou situações constrangedoras, a cidade, se nela fossem encontrados O chamado de Deus — Gn 12.1-5
fazendo com que Sara, sua mulher, se dez justos. Infelizmente, nem dez foram A aliança — Gn 15
passasse por irmã (era, na verdade, sua encontrados e as cidades e seus habi- A oração por Sodoma — Gn 18
meia-irmã). tantes foram destruídos. O nascimento de Isaque — Gn 21
O "sacrifício" de Isaque — Gn 22
Gênesis 135

O sinal físico da circuncisão traz não só nós, pois queremos ter relações com eles"
Abraão mas também Ismael e toda a comuni- (v. 5 ) . Todos os homens da cidade estavam
dade multirracial da casa de Abraão para den- envolvidos nessa terrível tentativa de estupro
tro da aliança. — nenhum deles se junta ao protesto dc Ló
Vinte e quatro anos após deixarem I l a r ã , contra a infração dos mais sagrados princípios
é anunciado o nascimento de Isaque, filho de da hospitalidade, para não dizer de civilida-
Sara. de. Deus tinha evidências claras de que o cla-
• Circuncisão Não se tratava de um ritual novo. mor contra Sodoma tinha a sua razão de ser
Nas nações vizinhas representava admissão ao (18.20-21).
status de adulto dentro da tribo. No caso de Israel, • O que aconteceu? A catástrofe provavelmente
era um sinal exterior — desde o nascimento foi um terremoto acompanhado pela explosão
— de um relacionamento especial com Deus; de gases naquela região instável do Vale da
não apenas um sinal de propriedade, mas um Grande Fenda. O julgamento de Deus assumiu
símbolo da realidade de todas as promessas de a forma de u m desastre "natural", mas para
Deus expressas repetidas vezes nesses versículos. o bem de Ló Deus poupou a cidade de Zoar.
A circuncisão também significava obediência a "Está bem; concordo. E u não destruirei
Deus por parte do seu povo. aquela cidade. Agora vá depressa, pois cu não
poderei fazer nada enquanto você não chegar
Gn 1 8 . 1 - 1 5 : O s m e n s a g e i r o s l á " (19.21-22). Mesmo assim, a mulher de Ló
Abraão acolheu u m estranho e, sem se dar ficou para trás, parando para olhar, e morreu
conta, recebeu o próprio Senhor na sua casa. — v i r o u uma "estátua de sal", não num passe
As efusivas boas-vindas e a preparação da de mágica, mas ao ser sufocada pelo enxofre
comida (apesar da inconveniência da chegada e pelos destroços que caíram sobre ela.
dos visitantes durante o descanso do meio-dia) • Moabe e Amom (37-38) Aparentadas
são elementos típicos da hospitalidade entre com Israel, estas duas tribos que ocupavam
povos nômades do deserto até hoje. Aquele as terras a leste do Jordão e do mar Morto
"um pouco de comida" (v. 6) acabou se trans- adoravam outros deuses (veja Nm 25) e foram
formando numa refeição de pães frescos, coa- freqüentemente denunciadas pelos profetas.
lhada, leite c carne da melhor qualidade. As Apesar do caráter sórdido da origem dessas
palavras "Será que para o S E N H O R há alguma tribos, sua alienação em relação a Israel não
coisa impossível?" revelam a verdadeira iden- era inevitável, como a história de Rute deixa
tidade do visitante c o riso incrédulo de Sara muito claro.
transforma-se em temor.
G n 20: H u m i l h a d o p o r u m r e i p a g ã o
Gn 1 8 . 1 6 - 3 3 : U m a s ú p l i c a Muitos consideram esta história uma sim-
por S o d o m a ples repetição de G n 12.10-20. Entretanto,
0 pedido de Abraão demonstra a qualida- Abraão, com certeza, não foi o primeiro nem
de do seu relacionamento com Deus. Não é de o último a repetir o mesmo pecado q u a n -
admirar que 2Cr 20.7 o descreve como "amigo" d o se encontra sob pressão. Tampouco foi
de Deus. Deus precisava conhecer pessoalmen- a única pessoa a ser humilhada duas vezes
te (v. 21) a verdade sobre Sodoma e Gomorra: na presença daqueles que não têm o "temor
rumores não eram suficientes. Abraão chegou de Deus" (v. 11) a orientar suas ações. Abi-
à conclusão de que o julgamento era inevitá- meleque (veja 26.1) saiu dessa situação com
vel, porém sabia que era contra a natureza de mais honra que Abraão, o homem de fé. Mais
Deus condenar os inocentes. Falou cautelosa- uma vez ficamos no suspense. Será que Deus
mente, sem tentar fazer Deus mudar de idéia, permitirá que a insensatez de Abraão arruine
mas cada vez mais certo de que o "juiz de toda seu plano no último momento?
a terra" agiria "com justiça". Na ocasião, embo- • Gerar Uma cidade antiga perto do litoral,
ra não tivessem sido encontrados nem dez "jus- ao sul de Gaza.
tos" em Sodoma, Deus salvou quatro pessoas
— Ló, a mulher dele, c suas duas filhas. G n 21.1-21: I s a q u e e I s m a e l
Vinte e cinco anos se passaram desde que
Gn 19: D e s t r u i ç ã o e r e s g a t e a promessa fora feita. Os pais idosos de Isa-
"Onde estão os homens que entraram na que ficaram naturalmente radiantes com seu
sua casa esta noite? Traga-os aqui fora para nascimento. A exigência de Sara de expulsar
JO Pentateuco

\\>i ficar l á o abaixo d o nível d o mar ( o u d o s


m u r o s mares), o mar M o n o não lem v a / ã n
Onde situavam-se Sodoma e Gomorra? OU saída. A á g u a e v a p o r a , d e i x a n d o n i n a a l i a
concentração d e sal q u e e l i m i n a i o d a s as formas
Alan Millard de vida.

Acredita-se que Sodoma e Gomor- identificar essas cidades e, por isso,


ra foram submersas após o cataclismo a localização nunca foi confirmada.
que as destruiu e que as cidades agora Na verdade, as cidades poderiam ter
se encontram submersas na parte sul existido em qualquer lugar no vale
do mar Morto, onde há estranhas próximo ao mar Morto.
formações de sal. Betume também Geólogos sugerem que um ter-
é encontrado naquela região, o que remoto, comum nessa região volátil,
se encaixa com os "poços de betu- poderia ter causado um grande incên-
me" mencionados em Gn 14.10. Mas dio e a liquefação d o betume numa
nenhuma ruína foi encontrada para escala grande suficiente para engolir
Sodoma e Gomorra.
Mor
Ueálaróntc 1
• i |

/ Jerusalém •
Mm

fes
Mono

Possível
localizarão
de Sodoma o
Gomorra (ho|e
coberta por águas
rasas)
Gênesis 137

Agar c Ismael contrariava o costume da época e está disposto a oferecer aquele que lhe é mais A o fin.il d a
história e m
Abraão precisou de uma palavra de Deus antes importante que tudo no mundo? Será que ele q u e DeUS pós
de concordar. Gl 4.22-25 mostra porque o rom- confiará em Deus no que diz respeito a Isaque? A b n l o I prova,
o patriarca
pimento era inevitável. Mais uma vez apare- No passado, ele havia deixado de confiar em
ofereceu como
ce o cuidado de Deus por Ismael, embora este Deus para sua própria segurança: duas vezes sacrifício um
carneiro, e m
não fosse filho da promessa. Expulso por Sara o vimos de forma egofsia colocar em risco a
lunar d e seu
e Abraão, ele não foi abandonado por Deus. vida de Sara. Mas agora ele confia mesmo sem filho, Ksln
Pelo contrário, "protegido por Deus, o menino entender. E ao oferecer seu próprio filho, ele representação
d a cabeça d c um
cresceu" (20). (Veja também 25.9,12-18; 28.9; reflete a oferta muito mais preciosa de Deus carneiro data d a
36.3,10 e a alegoria de Paulo em G l 4). em Jesus. época de A b r a ã o .

• Vs. 6,9 "Isaque" em hebraico significa riso (veja E Isaque? Será que esperneou o u discutiu?
17.17; 18.12-15). A palavra surge novamente Na narrativa, seu papel é
no v. 9: "brincando com" / "provocando". passivo, não ativo: uma
• 0 menino ( 1 4 ) Ismael já devia ter 14 anos aceitação do sofrimen-
ou mais. to — como o servo do
Senhor em Is 53;
Gn 2 1 . 2 2 - 3 4 : U m a r i x a como Jesus
por c a u s a d e u m p o ç o que foi s u b -
A água sempre foi preciosa para os pasto- misso até a
res no clima seco do sul da Palestina. O índi- nu irte.
ce pluviométrico mensal nesta área cai de 100 • "Deus pôs
mm, em janeiro, para zero nos quatro meses Abraão à prova"
do verão (junho a setembro, naquela parte do ( 1 ) 0 termo antigo
mundo). Assim sendo, não nos surpreende que "tentou" tem o
tenha havido um rixa por causa de um poço mesmo significado
em Berscba (veja os problemas de Isaque, e a de provar o u testar. Em
renovação do pacto, 26.17-33). "Abimeleque" outras passagens da Bíblia é Satanás quem
pode ser um título filisteu para "rei" (como o testa o u , então, são os seres humanos que
"Faraó" egípcio), em vez de um nome pessoal. (equivocadamente) colocam Deus à prova.
• Filisteus Abimeleque e o povo de Gerar "Não nos deixes cair em tentação", Jesus
podem ter sido antigos colonizadores filisteus ensinou seus discípulos a orar no Pai-Nosso.
naquela região. Q u a n d o os israelitas saíram Mas as palavras do v. 1 são claras: é assim que
do Egito, toda a área litorânea do Sul era o autor interpretou a situação; possivelmente,
habitada por filisteus. E desde o período dos foi assim que Abraão a interpretou. ( I C o 10.13
Juízes houve conflitos entre os dois povos.
Na Palestina, há
conflitos por causa
Gn 2 2 : U m a m a n e i r a c h o c a n t e de água desde o
t e m p o de A b r a ã o
de t e s t a r a f é até o presente.
0 que Abraão sabia a respeito de Deus Aqui, rebanhos
bebem á^ua num
certamente jamais o levaria a imaginar que poço nas colinas
Deus poderia querer um sacrifício humano. da J u d e i a ,

Para cie, assim como para leitores de todos


os tempos, as palavras devastadoras com
que a história começa são chocantes: "Pegue
agora Isaque, o seu filho, o seu único filho, a
quem você tanto ama". Q u e tipo de Deus é
este Deus que pensávamos conhecer? A ins-
trução é ainda mais intrigante, já que todas
as promessas de Deus convergiam em Isa-
que. Como Deus podia exigir sua morte?
No final da história podemos respirar ali-
viados. Deus não quer um sacrifício humano.
Deus provê, e os dois retornam juntos (v. 5).
A questão é claramente apresentada como de
confiança (veja Mb 11.17-19). Será que Abraão
Pentateuco

Sara
Frances Fuller

Lá na Mesopotâmia ela era Sarai, Sarai era estéril. Deus havia pro- te. Poderia uma mulher ter um filho
meia-irmã e esposa de Abrão. O metido a Abrão uma descendência estando já na menopausa? Será que
S E N H O R mandou que Abrão saísse à tão numerosa quanto as estrelas, um camelo conseguiria voar?
procura de uma terra que Deus lhe e mês após mês era a mesma frus- Quando, por fim, Sara tinha o
daria, e assim ela passou a acompa- tração e o mesmo recado a Abrão: filhinho em seus braços, ela se deu
nhá-lo numa vida nômade, morando "Ainda não foi desta vez". Por fim, conta de que para Deus não havia
em tendas, sempre uma pessoa de Sarai decidiu resolver a situação à impossíveis e começou a rir de ale-
fora em culturas estranhas. sua maneira. Segundo o costume, gria, triunfo e satisfação. "Deus me
Ela era bonita, tão bonita que o mari- o filho de Abrão com a escrava de deu motivo para rir", disse ela, ima-
do se sentia inseguro. Alguém poderia Sarai seria filho de Sarai e reconheci- ginando que todos os que ouvissem
matá-lo para ficar com ela. Assim, ele do como herdeiro. Assim, Sarai entre- essa história passariam a rir com ela.
combinou com ela o seguinte: "É assim gou a escrava a Abrão. O resultado Deram ao menino o nome de "Riso",
seguindo a orientação de Deus, que
conhecia todos os motivos de riso que
Sara tinha.
Depois disso, houve ciumeira entre
Sara e Agar por causa dos filhos, e
Sara pediu a Abraão que mandasse
Agar e Ismael embora. Sara viveu 127
anos e morreu em Hebrom. Abraão
chorou a morte de Sara e comprou
a caverna de Macpela para sepultar
a mulher. Durante três anos, Isaque
não se deixou consolar.
Um documento encontrado entre
os Pergaminhos do Mar Morto, escrito
séculos mais tarde, enfatiza, em deta-
lhes, a beleza física de Sara. O após-
Sara acompanhou sen m a r i d o numa vida n ô m a d e ,
indo d e lugar e m l u g a r e v i v e n d o e m tendas c o m o
foi que a escrava, grávida, passou a tolo Pedro, por sua vez, tendo em
estas mulheres. desprezá-la, e ela própria, Sarai, ficou mente a fidelidade de Sara em rela-
braba com Abrão. Tratou de maltra- ção a seu marido e relevando os seus
que você pode mostrar que me ama: tar a escrava Agar e, quando nasceu defeitos, escreveu que ela é modelo
aonde quer que cheguemos, diga o menino Ismael, Sarai ficou tudo da beleza interior que caracteriza as
sempre a respeito de mim que eu sou menos realizada e feliz. mulheres dedicadas a Deus.
apenas um irmão". Isso salvou a pele Ao que tudo indica, Deus tam-
de Abrão, mas deixou Sarai exposta, bém não estava contente com a
num mundo em que as mulheres não situação. Quando tornou a falar com
eram senhoras do seu destino. Duas eles, mudando o nome do patriarca
vezes ele foi levada para fazer parte de Abrão para Abraão, ele também
do harém de homens poderosos: pri- deu um novo nome a Sarai. Ela pas-
meiro, do Faraó do Egito; depois, do saria a se chamar Sara, que significa
rei Abimeleque, de Gerar. A Bíblia não "princesa". E Deus prometeu que ela
diz como Sarai se sentiu nessa situa- teria um filho e que ela seria a mãe
ção. Traída? Usada? Violada? Nas duas de nações e de reis. Abraão encos-
vezes Deus interferiu para resgatá-la, tou o rosto no chão e começou a rir
mandando pragas sobre o Faraó e diante da idéia de Sara ter um filho
levando Abimeleque a ter pesade- aos 90 anos de idade. Escutando a A história de Sara
los — e assim Abrão foi solicitado a conversa na entrada da tenda. Sara é narrada em Gênesis,
buscá-la de volta. riu também, mostrando-se descren- caps. 12—23. Veja, também,
1Pe 3.3-6; Hb 11.11.
Gênesis 139

oferece outro comentário sobre provação e a Rebeca recebeu


jóias d e o u r o
provisão de Deus.)
e prata.
> A t e r r a d e M o r i á (2) Abraão fez a sua oferta Esla moça judia
icmcniia que
num dos montes sobre os quais Jerusalém se
v i v e em Israel
situa atualmente (possivelmente o próprio se a d o r n o u com
monte d o T e m p l o — veja 2 C r 3.1). O um tradicional
c o l a r de prata
pequeno g r u p o d e pessoas levou três dias e uma tiara d e
para fazer a viagem d e cerca de 80 km. prata.

• Família d e Naor (20-24) Esta rápida


atualização d o outro ramo da família de
Abraão serve para apresentar Rebeca, que
será foco de atenção no cap. 24.

Gn 2 3 : U m t ú m u l o p a r a S a r a
Abraão, estrangeiro na terra, não tinha
direito a propriedade. Ele viveu sem receber
"as coisas que Deus tinha p r o m e t i d o " ( H b
11.13) e teve que negociar até para ter u m
local para enterrar sua esposa. Este capítulo c
o 21 registram os primeiros direitos legais da
família de Abraão cm Canaã.
Os heteus que ocupavam a área de Hebrom
devem ter sido imigrantes do reino hitita (fun-
dado por volta de 1800 a.C., na região onde
hoje fica a Turquia), que foram atraídos ao Sul
pelo comércio. A negociação é descrita v i v i -
damente, conforme detalhes da lei hitita ( a
menção das árvores, pesagem da prata pelos
padrões da época e a proclamação na presen-
ça de testemunhas à porta da cidade).
Túmulos familiares, geralmente caver-
nas ou escavações n a rocha, também eram
comuns. Atualmente n o local tradicional d o
túmulo em H e b r o m aparece uma mesqui-
ta, pois os muçulmanos têm Abraão em alta G n 25.1-11: O s ú l t i m o s d i a s
conta. de Abraão
Os filhos d e Q u e t u r a são os ancestrais
Gn 2 4 : R e b e c a de vários povos d o norte da Arábia. Todos
Abraão j á era idoso. Isaque era solteiro. O foram sustentados p o r Abraão. Mas Isaque
cumprimento d a promessa depende de uma c o n t i n u o u sendo o único h e r d e i r o de seu
esposa e de filhos para Isaque: uma esposa pai, e, com a morte de Abraão, as posses e
essencialmente escolhida por Deus, uma jovem promessas tornaram-se suas: Deus abençoou
da família do povo de Deus. A história narrada Isaque.
Acordos
é uma das mais belas d o AT. Ela reflete o cos- • V . 11 Beer-Laai-Roi, no Neguebe, c o poço importantes
podiam s e r
tume do casamento arranjado, tradicional no de Agar (16.14).
registrados p o r
Oriente. (Isaque é novamente colocado n u m escrito desde os
tempos amigos.
papel passivo.) O servo fiel e a própria Rebe- G n 25.12-18: O acordo entre
ca destacam-se na narrativa. Os presentes do O s d e s c e n d e n t e s A b r a ã o e os
heteus d a região
servo no v. 53 selam o noivado. Nenhuma con- de Ismael de H e b r o m
clusão podia ser mais adequada d o que esta: Essas tribos ocupa- poderia l e r sido
registrado c m
Deus, que guiou tão claramente esse casamen- vam o Sinai e a parte cuneiforme sobre
to em todas as suas etapas, coloca o seu selo noroeste da Arábia — u m a lalniiiiiia
de argila
sobre o casamento n o amor profundo de Isa- "desde Havilá até Sur" semelhante
que por esta jovem extraordinária. (v. 18). a esta.
Pentateuco IflHflHBi
atitude de Esaú: ele era "profano"; "por uma
refeição vendeu seus direitos dc herança como
filho mais velho"; "assim Esaú desprezou o
seu direito de filho mais velho".
• Abimeleque/filisteus (26.1) Veja 21.22-34.

G n 27—35
A história de Jacó

G n 27: Jacó e Esaú


N e n h u m personagem se saiu bem nesta
história. O plano dc Isaque foi contra aqui-
lo que Deus revelara antes d e os meninos
nascerem (25.23). Esaú, ao concordar com
o plano, não honrou sua palavra (25.33): a
bênção acompanhava o direito de filho mais
velho. Jacó e Rebeca, embora estivessem do
lado do direito, não se referiram a Deus, mas
trapacearam c mentiram para alcançar seus
objetivos.
H e b r o m , local G n 25.19—26.35 Isaque confiou totalmente nos seus senti-
d o tradicional
túmulo dos
A história de Isaque dos e todos eles falharam — até o paladar do
patriarcas, fica n o Mais uma vez a linhagem continua pela qual tanto se orgulhava. Quando seus ouvidos
alto, nos montes
ação direta d e D e u s . Esaú e J a c ó nascem revelaram a verdade ("a v o z é de Jacó"), não
d a Judeia. A
construção depois de vinte anos de espera. N u n c a houve acreditou. A bênção foi de Jacó, como Deus
maior, sobre tuna
gêmeos c o m personalidades tão diferentes. sempre quis — mas por um alto preço. Esaú
caverna usadn
como túmulo, A história n o cap. 26 se assemelha a inci- estava disposto a matar seu irmão. O relacio-
data da época
dentes na vida dc Abraão, porém é distinta de namento entre Isaque e Rebeca foi prejudi-
d e Herodes,
c o m adições relatos anteriores. A fome faz com que Isaque cado. E Rebeca jamais tornou a ver seu filho
posteriores no se retire d o Neguebe, mas ele vai para Gerar, predileto. Jacó, que gostava de ficar em casa,
período bizantino
e n a época das ao Norte, e não para o Egito, no Sul. Ele adota foi para o exílio.
Cruzadas. com Rebeca o mesmo artifício que seu pai
usara (mais verdadeiramente) com Sara: mas G n 28: O s o n h o
Rebeca não é tirada dele. Como a maioria de A bênção de despedida que Isaque pro-
nós, Isaque vacila entre a fé e o medo, pre- feriu e q u e , desta v e z , f o i d a d a d e forma
cisando sempre ser tranqüilizado por Deus: genuína reconheceu Jacó como real herdei-
"Não tema, porque estou com você." ro da promessa d e Deus. J a c ó partiu e em
Abimeleque propõe a paz com honra, mas Betei ("casa d e D e u s " ; 100 km ao norte de
na casa d o patriarca há motivo para amargu- B e r s e b a ) , a o anoitecer, n u m momento de
ra. A o casar-se com Judite, filha de um heteu, profunda solidão. Deus sc fez presente com
Esaú fez outra escolha errada. ele. Deus repetiu a este homem pouco pro-
• O direito de primogenitura (25.31) Como missor a promessa feita a Abraão e Isaque,
filho mais velho, Esaú haveria de suceder acrescentando u m a garantia pessoal: "Eu
Isaque como chefe da família e herdaria o estarei c o m você e o p r o t e g e r e i . . . E farei
dobro em relação a seu irmão Jacó. Quando com que v o c ê volte para esta t e r r a . " Mal
vendeu seu direito de primogenitura, ele acreditando, J a c ó respondeu com sua pró-
perdeu todo direito à herança e à bênção que pria promessa.
a acompanhava. ( N o AI^ a bênção proferida • V. 2 Padã-Arã ("planície de Arã") é a mesma
pelo pai comunica prosperidade material região que Arã-Naaraim ('Ara dos rios"), a
a seu filho — as palavras têm poder. O N T Mesopotâmia grega (atual leste da Síria —
acrescenta uma dimensão espiritual ao norte do Iraque). A terra natal de Rebeca ficava
conceito de bênção.) entre os rios Eufrates e Habur. Mais tarde
A trama calculista de Jacó é descrita sem encontramos os arameus estabelecidos mais ao
comentários — mas H b 12.16-17 censura a sul, na Síria, e também na direção leste.
> O sonho (12-15) No Egito mitigo (veja Gn 4 0 - ^ 1 ) de trapaça nos negócios. O logro no casamen- A o sair c o m
a tarefa d c
e na Babilônia dava-se muita importância aos to de Jacó com Lia causou uma vida familiar
encontrar uma
sonhos. H á sonhos importantes no A T também intolerável. A esposa mal-amada esperava a esposa para
[saque, o servo
—como é o caso deste. Mas não há necessidade cada novo filho ganhar a afeição do marido.
d e A b r a ã o levou
de um interprete especial: Deus fala claramente. Raquel, bela e amada, vivia amargurada por unia tropa d e
0 significado vem com o sonho. continuar estéril. E Jacó acabou por ser nego- d e z camelos. E (

na viagem d e
A "escada" que aparece em algumas ciado entre as duas. (Posteriormente a lei v o l t a , Rebeca veio
traduções era uma escadaria (será que as impediria que o homem tomasse por mulher montada mim
camelo. N a época
histórias do grande zigurate de U r foram a cunhada, pois isso criaria inimizade entre as d e Salomão, os
transmitidas a Jacó?), com anjos subindo e duas irmãs: Lv 18.18). camelos haviam
se t o r n a d o um dos
descendo por ela (veja também J o 1.51). • 29.18 Jacó ofereceu seus serviços em lugar principais meios
A "coluna" — não muito grande — do presente de casamento habitual. Labão d e transporre,
tanto e m períodos
consagrada com óleo foi posta de pé para aproveitou a oportunidade para explorar a d e p a z como c m
celebrar a visão. Pedras ou montes de pedras generosidade da oferta. A escrava dada a sua tempos de guerra.

geralmente eram usados desta maneira (veja filha (v. 24) pode ter sido parte do dote.
31.51-52). • 29.28 Após a semana de festas, Raquel foi
dada a Jacó, com a condição de que deveria
Gn 2 9 — 3 1 : J a c ó e n c o n t r a a l g u é m à trabalhar mais sete anos por ela.
sua a l t u r a • 29.31 Por mais que Jacó tenha, talvez,
Estes três capítulos abrangem os 20 anos desprezado Lia, Deus não a desprezou. Ela
do exílio de J a c ó : 14 anos de serviço para veio a ser a mãe de Levi (a linhagem dos
obter as duas esposas, e seis para que pudes- sacerdotes) e de J u d á (a linhagem real).
se ter seus próprios rebanhos. N ã o foram • 30.3 Isto reflete o mesmo costume que Sara
anos muito alegres para Jacó, que encontrou seguiu (16.1-2).
no tio Labão alguém à sua altura em termos • 30.14 Acreditava-se que mandrágoras induziam
42 Pentateuco

Padã-Arà

A viagem
dc Jacó:
ida c v o l t a

P o r u m a p e d r a d c pé c o m o se fosse u m pilar e r a u m a m a n e i r a
de " m a r c a r " u m acontecimento importante, c o m o , p o r e x e m p l o ,
o t r a t o entre J a c ó e Labão (31.45). A pedra q u e aparece n a foto
encontra-se nas ruínas d a antiga S i q u e m .

Sumte • 31.44 O pacto de não agressão feito por Labão


Penuel
IMaanaim
c Jacó tem muitos paralelos contemporâneos.
A refeição sela a aliança.

Gn 32:Jacó luta
Belfl , com Deus
Embora Esaú tivesse se estabelecido em
Mula
(Belém) Seir, no extremo sul, o encontro entre os dois
Ht'hrom; Esaú vindo
(Júntale Albo dc Seit
irmãos era inevitável. A notícia de que Esaú
se aproximava depressa, e com u m pequeno
exército, aterrorizou Jacó. Mas desta vez ele
planejou e orou.
Sozinho e sem sono, Jacó v i u o conflito
com Deus, que havia marcado toda a sua
v i d a , culminar nessa estranha luta. Ele não
foi nem o primeiro nem o último que, numa
crise, primeiro lutou com Deus para depois
se apegar a ele com fé renovada. Jacó saiu
a fertilidade. Por ironia, foi Lia quem ficou grávida mancando d o confronto, mas era u m novo
outra vez. homem. O próximo altar que edificou não foi
• 30.21 A história d o trágico estupro dc Diná ao Deus de seus pais, mas a "Deus, o Deus ele
é contada no cap. 34. Israel" (El Elohe Israel, 33.20).
• 30.37-43 Jacó acreditava que a observação
dos galhos durante a gestação afetaria os G n 33: O s reencontro
cordeiros n o ventre. Na realidade ele devia dos irmãos
seus rebanhos ao poder de Deus e à prática de As boas-vindas dc Esaú a o irmão que o
cruzamento seletivo que o sonho revelou. enganara foram i n c r i v e l m e n t e efusivas e
• 31.14 Lia e Raquel tinham direito a parte generosas. O presente de Jacó, e sua aceitação
da riqueza que seus presentes de casamento por parte de Esaú, selam a reconciliação.
haviam trazido a Labão. • V . 14 Jacó não tinha a intenção de ir a
• 31.19 Raquel agiu, segundo pensava, Seir, como fica claro no estágio seguinte da
a favor d e Jacó. A posse dos ídolos d o lar viagem. Mas ele não conseguiu dizer isso com
poderia ajudá-lo a reivindicar a herança. franqueza.
Gênesis 143

Mulheres de fé
Claire Powell

Durante séculos, a interpretação do para as mulheres. As experiências Em muitas culturas, as mulheres


de Gênesis esteve relacionada com tanto de mulheres quanto de homens são, injustamente, acusadas de serem
a vida dos grandes homens de fé, são vistas como modelos de fé para as únicas culpadas por isso. As três
os pais ou patriarcas do povo de todo o povo de Deus. matriarcas devem ter sofrido com esse
Israel. De uns tempos para cá, no estigma. Nos casos de Sara e Raquel,
entanto, houve uma redescoberta A aliança q u e Deus fez eram elas que não podiam conceber,
das histórias das mulheres de fé e O relato da aliança que Deus ao passo que a situação de Rebeca
de sua centralidade no desenvolvi- estabeleceu (Gn 15—17) ocupa um e Isaque é um tanto ambígua. Entre-
mento da história da salvação. Há lugar central na promessa de salva- tanto, o texto deixa claro que é Deus
mais histórias sobre homens, mas, ção, tanto para os descendentes de quem dá ou retém o dom de filhos,
no passado, as mulheres eram, mui- Abraão quanto, em termos de missão mesmo que o marido ou a mulher não
tas vezes, marginalizadas ou ignora- mundial, para todas as nações. possa, tecnicamente, tê-los.
das, mesmo quando suas histórias Mas essa aliança não foi feita
apareciam no texto bíblico. Desse unicamente com Abraão. Ela foi feita Marginalização
modo, o antigo preconceito cul- também com Sara, que, a exemplo Segundo Gn 46.7,27, Jacó levou
tural em relação às mulheres foi de Abraão, recebeu um novo nome consigo para o Egito os filhos e netos,
perpetuado. e sem a qual Abraão não poderia as filhas e netas, mas no cômputo
As experiências e oportunidades ter tido Isaque, o filho da promessa final de setenta pessoas (é provável
na vida das mulheres de hoje pare- (Is 51.2). O sinal dessa aliança era a que esta cifra não seja literal, mas
cem bem diferentes daquelas que circuncisão (dos homens). uma forma de expressar a totalida-
aparecem no Gênesis. É claro que a de) são incluídos especificamente os
Bíblia nos vem eme por meio de uma homens, com a possível exceção de
cultura e uma história. Diante disso, é 'As experiências tanto duas mulheres: Diná e Sera. Se todas
preciso verificar constantemente se de mulheres as mulheres tivessem sido contadas, a
as histórias dos patriarcas estão des- quanto de homens família de Jacó teria sido muito mais
crevendo a cultura daquele tempo, são vistas como numerosa do que aquelas setenta
ou prescrevendo o que deveria ser modelos de fé..." pessoas, mas, nas culturas do antigo
um padrão cultural de nossos dias; Oriente Próximo, as mulheres não
se o AT está apresentando atitudes Entretanto, embora não houvesse contavam, literalmente. Isso nos diz
que pessoas daquele tempo tinham circuncisão para as mulheres, não algo sobre o silêncio a que foram
em relação ao papel das mulheres, há nenhum indício de que, devido a reduzidas as mulheres e sua con-
ou se está defendendo abertamente isso, elas deveriam ser consideradas, dição de marginalizadas na cultura
sua adoção em todos os tempos e dentro da aliança, como membros de dos tempos bíblicos, mas não signi-
em todos os lugares. segunda categoria. E o NT enfatiza fica que é assim que elas deveriam
Sempre de novo aparecem, nas que a fé, e não a circuncisão, sempre ser tratadas.
histórias dos patriarcas, indícios de foi a base bíblica para alguém ser
que Deus tem um conceito mais aceito por Deus. O rito do batismo,
elevado das mulheres do que trans- no NT, insere os homens e as mulhe-
parece na maneira como elas eram res na igreja cristã.
tratadas pelos outros. Em Gn 16.5,
por exemplo, Agar é maltratada por Mulheres que não podiam
Abraão e Sara. Eles a tinham na conta ter filhos
de uma simples escrava, ao passo que No AT, uma grande família era
o anjo do S E N H O R a chama pelo nome. considerada uma grande bênção de
A pesquisa bíblica mais recente tende Deus. Mas, um padrão que se repete
a chamar a atenção para esses deta- nas histórias das matriarcas Sara, Rebe-
lhes e procura descobrir, dentro dos ca e Raquel é a decepção da falta de
próprios textos, um status mais eleva- filhos (Gn 16.1-2; 25.21; 30.1,2).
Jacó
David Barton

Jacó era filho de Isaque e Rebeca, Idoso e cego, vendo que a vida Labão, Jacó teve de trabalhar sete
neto de Abraão. Mas, se Abraão era lhe chegava ao fim, Isaque pediu a anos para pode casar com ela. Mas,
o fiel servo de Deus, sempre disposto Esaú que lhe preparasse sua comi- na hora H, o astuto Labão entregou
a obedecer, independentemente do da predileta, como prelúdio para a Lia, a filha mais velha, para só então
preço a ser pago, Jacó não era farinha bênção que daria ao filho o direito oferecer a Jacó a filha mais moça, que
do mesmo saco. à herança da família. Rebeca escutou se chamava Raquel.
A história do nascimento já sinali- 0 que Isaque disse a Esaú e elaborou Ao todo, Jacó trabalhou 14 anos
za o que ele viria a ser. Rebeca teve o plano de cobrir as mãos e o pes- para o tio Labão. Mas aqueles não
gêmeos, e ele foi o segundo a nas- coço de Jacó com pele de cabrito, foram anos perdidos. Jacó acumulou
cer. Os dois devem ter "lutado" muito para que ele se parecesse com Esaú riquezas e conhecimento, igualando-
durante a gestação, e Jacó saiu da e também para vencer a resistência se ao próprio Labão. A história das
barriga da mãe segurando o calca- de Jacó, que temia ser amaldiçoado ovelhas e das cabras (Gn 30.25-43)
nhar do primogênito Esaú. pelo pai. Aquele era um momento dá a entender que Jacó entendia o
crucial. Uma vez proferida, a bênção processo de procriação de animais de
O homem d o contra não poderia ser revogada, pouco uma maneira que escapava a seu tio.
Esperto e sempre disposto a importando os protestos de Esaú. E Jacó se valeu desse conhecimento
levar vantagem pessoal, Jacó parece Assim, Jacó passou a fazer parte para tirar uma grande vantagem.
ser, desde o início, o típico homem da linhagem de Abraão e Isaque, a Nessa mesma época a família de Jacó
do contra. Num primeiro momento, linhagem que recebeu a promessa aumentou. As constantes desavenças
conseguiu fazer com que o faminto de vir a ser uma grande nação (sendo entre Raquel e Lia, juntamente com a
e exausto Esaú abrisse mão do direi- que tudo isso já estava implícito nas preferência de Jacó por Raquel, pre-
to de primogenitura em troca de um palavras que Deus havia dito a Rebe- pararam o terreno para uma disputa
prato de comida. ca em Gn 25.23). familiar que, mais tarde, acabaria tra-
Se Esaú era caçador e homem de zendo problemas para José.
ação, Jacó era calmo e introspectivo, Novas áreas a explorar Não obstante, o fato de ter tan-
preferindo o ambiente caseiro do Jacó, muito perspicaz, concluiu tos filhos, aliado a seu sucesso como
acampamento familiar. Isaque tinha que era uma boa idéia ficar tão longe pastor de ovelhas, fez de Jacó alguém
predileção por Esaú, o primogênito, quanto possível de seu irmão furioso, que merecia respeito. Não é de sur-
mas Jacó era o favorito de sua mãe, e, assim, mudou-se para a casa de um preender, portanto, que Labão passe
a hábil e manipuladora Rebeca. Foi a tio, o irmão de Rebeca, que vivia em a tratar o sobrinho e ex-dependente
prontidão e vigilância de Rebeca que Harã. Labão era bem diferente do com frieza. E Jacó, aproveitando a
permitiu a Jacó sair em vantagem. sereno Isaque e do infeliz Esaú; nele ausência temporária de Labão, tratou
Jacó encontrou alguém à sua altura. de fugir, de volta ã terra de Canaã.
Jacó ficou rico. c u i d a n d o b e m d o s rebanhos
d e seu sogro. Apaixonado pela filha mais moça de Labão estava furioso. Mas o fato de,
no final, fazerem um acordo no sen- HHHHHHH resse próprio e a ambição pessoal.
tido de cada um respeitar o território Jacó tem o seu lado bom. Ele amava
do outro mostra claramente o novo Raquel com amor sincero, e sua tris-
status que Jacó havia alcançado: ele teza diante da suposta morte de
era, agota, um homem independente, José foi profunda. Mas ao longo de
com razoável quantia de bens. sua vida ele procurou levar vantagem
em tudo, disposto, inclusive, a pisar os
A virada outros para alcançar seus objetivos.
É nesse momento que começa a U m m o m e n t o decisivo na v i d a de J a c ó Foi o No entanto, e isto está implícito na
d a q u e l a noite e m que l u t o u c o m um estranho
aparecer o outro lado de Jacó, a saber, história, Deus nos toma assim como
misterioso n o vau d o rio .laboque, retratado acima.
o seu relacionamento com Deus. somos. Até mesmo um ardiloso tra-
Anteriormente, quando fugia do irado paceiro como Jacó tem seu lugar no
Esaú, Jacó havia tido um sonho fan- ele havia "lutado com Deus e com os estabelecimento da vontade de Deus
tástico em que aparecia uma escada homens" e saído com a vitória. Dessa e pode, no final, ser transformado
cujo topo atingia o céu (Gn 28.10-22). vez Jacó ficou admirado: "Eu vi Deus por um encontro com o mistério de
(Mais tarde Jesus faria referência a face a face, e ainda estou vivo". Deus.
essa visão, Jo 1.51.) Ele marcou o lugar
e lhe deu um nome, pois aquele era De volta ao lar
um ponto de encontro entre Deus e O encontro com Esaú foi tran-
a humanidade. Mas, por mais que um qüilo. Também este havia prospera-
senso de destino tenha influenciado do. Os dois se abraçaram, mais por
seu modo de agir em Harã, parece respeito do que por afeição, e aca-
que as implicações morais daque- bariam por se separar, partindo em
la visão tiveram pouco efeito sobre direções opostas. Jacó comprou terras
ele. Agora, em sua viagem de volta à em Siquém, onde construiu um altar
terra natal, onde possivelmente teria para El, o Deus de Israel. Depois, ele
de encarar a fúria de seu irmão, Jacó se mudou para Betei, onde havia tido
teve seu caminho literalmente barra- aquele primeiro sonho, nem sempre
do pelo mistério de Deus. devidamente lembrado. E ali a sua
Jacó havia feito o possível para ten- condição de patriarca foi definitiva-
tar impressionar Esaú com as riquezas mente estabelecida através de nova
que havia acumulado e, se necessário, manifestação de Deus. As promessas
negociar um acordo de paz. Na noite feitas anteriormente a Abraão e Isa-
que antecedia o encontro, ao transpor que foram, agora, confirmadas para
o vau do Jaboque, Jacó se deparou ele também.
com um estranho. Aquela luta, que Nesse ponto a história de Jacó se
durou a noite toda, deu início a uma dissolve, por assim dizer, na história
nova etapa na vida de Jacó. Aquele de seus filhos, acima de tudo na histó-
era, com certeza, o velho e astuto ria de José, seu filho predileto, nasci-
Jacó, que, vendo-se em desvantagem do da amada Raquel, e que teria todo
diante de um opositor tão poderoso, aquele sucesso no Egito. Mas Deus
pediu-lhe, antes de tudo, não o nome, lhe apareceu mais uma vez, quando A história de Jacó se inicia em
como seria de esperar, mas a sua bên- estava de mudança para o Egito (Gn Gn 25, e eleé o personagem
ção. Só então ele o deixaria ir. Mas 46.3-4), assegurando-lhe que a pro- principal da narrativa até o final do
quando o misterioso estranho o havia messa continuava de pé, para ele e cap. 35. Gn 50 registra a sua morte.
abençoado (sem revelar seu nome), as gerações subseqüentes.
MOMENTOS MARCANTES
Jacó percebeu que mancava, ao afas-
tar-se do ribeiro na hora do amanhe- Deus agindo A promessa — Gn 25.22,23
cer. Ele saía ferido daquele encontro. Este é, talvez, o motivo condutor A primogenitura —
Vemo-lo enfraquecido, com uma fra- de toda essa narrativa: Deus realiza Gn 25.29-34
queza nunca antes vista. Ao mesmo os seus propósitos, não apenas por A bênção — Gn 27
tempo, porém, Jacó era maior do que meio da extraordinária fidelidade O sonho - - Gn 28.12-22
havia sido até então, pois agora ele de Abraão, mas também através de O casamento — Gn 29—30
tinha um novo nome, Israel, porque coisas mais suspeitas como o inte- O encontro com Deus —
Gn 32.22-32
Pentateuco

G n 34: E s t u p r o e v i n g a n ç a rota comercial, passava pelo planalto oriental.


Diná foi violentada por Siquém, levando Posteriormente houve inimizade entre Edom
a um crime ainda mais grave, de assassina- e Israel.
to, cometido pelos irmãos de Diná. A história • Elifaz e Temã (11) Compare J ó 4.1. Seria
apresenta Diná em silêncio e sem poder algum, Edom o contexto o u ambiente em que se
enquanto um registro ocidental moderno teria passa a história de J ó ?
x

enfatizado a vítima e seus sentimentos. Mas • V . 31 Esta passagem parece ter sido escrita
a questão que interessa ao autor/editor, neste na época dos reis de Israel.
caso, é a sobrevivência tribal e nacional. A
terrível vingança perpetrada pelos irmãos de
Diná, em resposta ao insulto sofrido pela irmã, G n 37—50
mostra a necessidade da lei que limita a vin- A história de José
gança ("olho por olho" — e nada mais).
Será que o povo dc Hamor aceitou os termos G n 37: D e filho predileto
propostos por ganância (v. 23)? O u não sus- a escravo
peitaram dc nada porque o rito de circuncisão Aqui começa a parte final de Gênesis, cen-
estava ligado à preparação para o casamento? trada em José. Esta é a última das histórias de
O relato em G n 49.5-7 procura compen- família. Nos livros de Êxodo a Dcuteronômio
sar a ausência de qualquer comentário de vai aparecer a história de uma nação.
ordem moral a respeito de Simcão e Levi neste • A túnica especial (3) Q u e r ela fosse de
caso. Sua conduta foi errada e isto não foi mangas longas ( c , portanto, para lazer, não
esquecido. para trabalho) quer multicolorida (como
• V . 30 Se Jacó queria conciliação, por que as pinturas egípcias de vestes asiáticas), os
não fez nada (v. 5)? Mais uma vez o autor irmãos de José a viram como sinal dc que
conta os "podres", sem tentar encobrir as Jacó pretendia tornar José seu herdeiro (veja
falhas dos antepassados da nação. Eram todos 48.21-22; 49.22-26).
pecadores. • Siquém (12) Será que Jacó estava preocupado
com o bem-estar dos seus filhos que se
G n 35: R e t o r n o a Betei encontravam na região onde Diná havia sido
Quando Jacó retorna ao lugar da promes- estuprada c os irmãos dela haviam vingado a
sa de Deus, esta seção da narrativa chega ao honra da irmã (cap. 34)?
seu final. Este capítulo é uma conclusão, antes • V. 21 Ruben, o mais velho — que teria mais
do início da história de José. Deuses estran- a perder, caso seu pai decidisse fazer dc José
geiros foram eliminados. Deus reafirmou sua o herdeiro — não está a favor da violência,
aliança. Raquel morreu perto de Belém (Erra- assumindo responsabilidade por seu irmão
ta), ao dar à luz a Benjamim, o último dos 12 mais novo.
filhos de Jacó. A cortina se fecha sobre os dois • V . 24 A "cisterna" era uma espécie de poço
irmãos, Esaú c Jacó, quando eles enterram seu seco.
pai idoso, Isaque, no túmulo da família (veja • Caravana de ismaelitas/midianitas (25,28)
cap. 23). Esses dois grupos de habitantes do deserto
descendiam de Abraão. Alguns consideram
o uso dos dois nomes um indício de fontes
Gn36 diferentes usadas pelo editor. Mas o uso de
A linhagem de Esaú nomes alternativos é uma característica da
Mais uma vez, antes de começar u m novo literatura do Oriente Próximo e os nomes aqui
capítulo da história, o autor oferece urna atua- são permutáveis (compare os vs. 28 e 36; Jz
lização do outro ramo da família. Esaú/Edom, 8.24).
o Vermelho (por causa do caldo vermelho pelo O "bálsamo" de Gileade (área a leste do
qual trocou seu direito de p r i m o g e n i t u r a ) , Jordão e norte do Jaboque) era famoso e o
deu seu nome à terra de Seir que tomara dos comércio de especiarias era importante desde
horeus (20-30). a antiguidade. As especiarias tinham muitas
• Edom (8) O território de Esaú fica a leste do utilidades — na preparação de alimentos e
mar Morto, com o vale de Arabá estendendo- na manufatura de incenso e cosméticos. A
se ao golfo de Acaba e a região montanhosa rota comercial que ia de Damasco até a costa
de ambos os lados. A estrada real, importante passava por Dotã.
Gênesis 14-

• V . 26 J u d á , d e cuja linhagem vieram os


reis de Israel, procedeu mal nesta situação
e no capítulo seguinte. Mas nos caps. 43—44
apareceu de modo mais favorável. E e m
49.8-12 Judá recebe a bênção de seu pai.
• V . 28 A Bíblia de Jerusalém e outras
traduções entendem que "eles" (que aparece
no texto hebraico) são os midianitas. Mas
conforme o v. 27 c G n 45.4 é mais provável
que as outras versões estejam corretas: José
foi vendido por seus irmãos.

Gn 38: L i n h a g e m d e J u d á
Esta história extraordinária provavelmente
foi incluída porque ela forma parte da gene-
alogia da futura casa real, da qual o próprio
Messias descenderia ( M t 1.3; Lc 3.33; e tam-
bém a história de Rute). Ao colocá-la aqui, o
ßctsi'lw. uni oásis na extremidade d o deserto do Negue be,
aparece c o m freqüência nas histórias d e Gênesis. A q u i . legumes
escritor estabelece um contraste mais acentua-
são vendidos n u m m e r c a d o b e d u i n o d e B c r s c b a . do com o comportamento de José no cap. 39.

Tera
I
lea
Noar ( T ) Abraão, Isaque, Jacó

Agar Sara CD Abraão


e a s 12 t r i b o s d e I s r a e l

KOfKlbülál

Betuel

Labão
Ismael Isaque ( Q R e b e c a

Esaú
Jacó (D Lia Raquel :JÜ!jL; Zilpa
InmubiM'

I
Ruben Dã
Simeão Naftali
Levi Gade
Judá Aser
Issacar José (T)Asenate
Zebulom Benjamim
Diná Efraim
Manasses
-148 Pentateuco

Se um homem morresse sem filhos, seu Q u a n d o o copeiro finalmente se lembrou de


irmão linha a obrigação de gerar herdeiros José, ele não só mostrou que podia explicar a
para ele, casando-se com a viúva (a lei do levi- mensagem de Deus como ofereceu um plano
rato, Dt 25.5, de Levir= cunhado). A ação (e definido de ação.
o castigo) de O n ã não tem nada a ver com "Isso não depende de mim. É Deus quem
controle de natalidade ou masturbação, mas vai dar uma resposta..." disse José. E Earaó
tem tudo a ver com suscitar o u não herdeiros elogiou esle homem "em quem está o Espírito
segundo a lei do levirato. de Deus" (v. 38).
• V. 14 O véu com que Tamar cobriu o rosto fez • V . 14 A tradição egípcia exigia que José
com que ela parecesse uma prostituta (casada) fizesse a barba e colocasse roupa de linho
que servia num templo dos cananeus. As festas antes de se apresentar na corte.
estavam ligadas a rituais de fertilidade na • Vs. 40-43 A investidura de José seguiu
religião de povos que moravam em Canaã — a tradição egípcia: o anel (símbolo de sua
e, através de seu casamento, Judá envolveu-se autoridade), roupas de linho fino (vestimenta
com tudo isso. da corte) e um colar de ouro em recompensa
• Perez (29) Foi de sua linhagem que veio pelos seus serviços. Cavalos e carros haviam
Davi c, mais tarde, o próprio Cristo. ajudado os Faraós hiesos a conquistar a
supremacia no Egito. Após 13 anos na condição
G n 39: J o s é : s u c e s s o e d e s g r a ç a de escravo, José tornou-se governador de todo
O relato sobre a vida de José no Egito que Egito, subordinado apenas ao Faraó.
aparece nos caps. 39—50 encaixa-se perfei- • V.45 O m , que equivale a lleliópolis, ficava
tamente no contexto do Egito sob os Faraós 15 km a nordeste do Cairo, era o centro da
hiesos, que eram semitas. Eles reinaram de adoração egípcia ao sol.
cerca de 1710 a 1570 a . C , tendo sua capital • V. 46 José tinha 17 anos quando a história
(Avaris) na parte oriental do delta do Nilo. começou (37.2), c mais nove anos se passariam
Gosém também se encontrava nessa mesma até a família ser reunida outra v e z .
região. • Vs. 51-52 "Manasses" e "Efraim" são nomes
Esta história de sedução, recusa e difama- hebraicos.
ção, foi comparada com uma obra egípcia inti- • V. 54 Períodos de intensa fome eram comuns
tulada (.Vwtfos dos üois Irmãos, que começa de no F.gilo. Mas era raro que houvesse fome no
forma semelhante. Mas a mágica e o milagre Egito e na Palestina simultaneamente.
que aparecem nesse conto são nitidamente
diferentes da história de José e não há moti- G n 42—45: A fome propicia
v o real para ligar as duas obras. O importan- a reunião da família
te aqui é que José manteve a fé em Deus c, Estes capítulos apresentam um relato como-
mais importante ainda, Deus se manteve leal vente do encontro de Jose com seus irmãos,
a José, no sucesso e na desgraça. da prova à qual ele os submete, e, ao final, da
reunião de José com todos eles. Por trás de sua
G n 40: O s s o n h o s aparente rispidez, José escondia uma disposi-
dos prisioneiros ção de perdoar de forma total c generosa o mal
Nesta época, no Egito, dava-se muita impor- que tinham feito contra ele, c uma profunda
tância aos sonhos. Intérpretes profissionais compreensão da forma como Deus guia a vida
tinham manuais que descreviam sonhos c seus das pessoas (45.5-8). José era certamente um
significados. Mas o copeiro de Faraó e seu padei- homem bastante sensível, capaz de chorar de
ro não tinham a quem recorrer. " E Deus quem tristeza e de alegria.
dá à gente a capacidade de explicar os sonhos", Diante de cada novo desafio que aparece
disse José. E Deus revelou o significado. em seu caminho, os irmãos mostraram uma
• V . 17 A língua egípcia tinha nomes para 38 genuína mudança de atitude com relação ao
tipos de bolos e 57 tipos de pão. passado. Vinte anos não conseguiram apagar
seu sentimento de culpa (42.21-22). Eles não
G n 41: D a p r i s ã o a o p a l á c i o fariam com Benjamim, que agora era o filho
Dois anos depois o próprio Faraó teve um predileto de Jacó, o mesmo que haviam feito
sonho que seus mágicos e sábios não consegui- com José.
ram decifrar, apesar de todo seu treinamento • 42.37/43.3 Judá tem sucesso onde Ruben
e ioda uma biblioteca de livros de referência. fracassou. Ele agora assume a liderança.
Gênesis

José
David Barton

José era filho de Jacó e Raquel, dele. Com 17 anos de idade, filho de o quanto valia um jovem escravo,
que era o primeiro amor de Jacó. Ele obscuro pastor de ovelhas, ele tem robusto e bem articulado. Potifar, o
nasceu após longos anos de espe- uma sensação interior do poderoso oficial egípcio a quem ele foi vendi-
ra e depois do nascimento de dez destino que lhe estava reservado. O do, era um homem próspero, chefe
meios-irmãos. pai ficou pensando no caso, mas nos de uma grande casa, e José soube
Quando José nasceu, Raquel irmãos isso só conseguiu despertar aproveitar a oportunidade que isso
expressou o desejo de ter outro ódio por alguém que era tão dife- propiciava para chegar à realização
filho. O pedido foi atendido, mas o rente deles. de seus sonhos. Não demorou muito
nascimento de Benjamim acabaria lhe Naquelas circunstâncias, era, com e ele passou a administrar tudo que
custando a vida. Isto criou um profun- certeza, um ato de ingenuidade ou Potifar tinha, tendo acima dele ape-
do vínculo entre José e Benjamim e da mais pura cegueira da parte de nas o próprio Potifar.
fez com que ele fosse especialmen- Jacó mandar que José fosse verifi-
te amado pelo pai. Como sinal de car como estavam seus irmãos, que O prisioneiro
apreço, Jacó deu ao filho uma túnica estavam apascentando os rebanhos Mas sua carreira foi interrompida
longa, de mangas compridas. nas colinas distantes dali. Segundo bruscamente pela intervenção da
uma tradição rabinica, o homem mulher de Potifar. O relacionamento
0sonhador que encontrou José (37.15) era um entre os dois, naquela tentativa de
José era um sonhador, e os dois anjo que o guardava. Seja como for, sedução por parte da mulher, é des-
sonhos sobre a sua própria importân- ao verem o irmão sozinho, lá longe, crito de forma bem plástica, por mais
cia, registrados em Gn 37.5-11, são a os irmãos entenderam que aquela era que exista uma ponta de arrogância
chave para compreensão da vida a hora da vingança: na maneira como José se esquiva dela
(Gn 39.7-20). Será que se tratava da
O escravo mesma atitude esnobe que havia dei-
A idéia inicial era matá-lo, mas xado tão furiosos os seus irmãos? De
Ruben (o mais velho) não o permitiu. qualquer modo, José aprendeu que
José acabou ficando sem a túnica, foi um escravo não tem direitos, nem
jogado num poço, e, no final, vendi- mesmo o direito de resposta, e foi
do como escravo a uma caravana de lançado na prisão.
mercadores. A aflição de José só será Ele se volta outra vez aos recursos
mencionada mais tarde (Gn 42.21), que havia em seu interior. " O S E N H O R
mas podemos imaginar o que se pas- estava com ele", diz o narrador, e
sava no íntimo desse jovem que tinha essa força interior impressionou o
uma clara compreensão do que viria chefe dos carcereiros. A pedido de
a ser no futuro e que, de repente, foi dois dos antigos servidores do Faraó,
jogado num poço escuro onde, apa- José foi, outra vez, levado ao mundo
rentemente, ficaria até morrer. dos sonhos. A interpretação que ele
Entrementes, a Jacó foi noticia- deu aos sonhos foi precisa: um servi-
do que seu filho era morto, o que dor seria morto, o outro, reabilitado.
trouxe grande tristeza ao patriarca E assim aconteceu. José ficou todo
(Gn 37.31-36). esperançoso, mas ainda não seria
Canaã ficava na rota de comércio desta vez que ele sairia da prisão.
entre as nações ao Norte e a Oeste, e No gozo de sua própria liberdade, o
com o Egito, que fica ao Sul. Os mer- volúvel chefe dos copeiros esqueceu
cadores que compraram José sabiam completamente de José.
Ele acabaria saindo da prisão da
C o m o g o v e r n a d o r d o rei n o E g i t o , José teria se forma mais dramática que se poderia
vestido c o m o o oficial e g í p c i o retratado nesta
estatueta. Ria data d o p e r í o d o e m q u e Israel
imaginar. O Faraó teve vários sonhos,
estava n o E g i t o . e ninguém conseguia interpretá-los.
Foi então que, finalmente, o chefe dos Ao ver o querido irmão Benja- O moral da história
copeiros lembrou. José foi levado da mim, José se retirou para chorar, A história de José é diferente das
prisão à sala do trono. Ali, não ape- de tão emocionado que ficou. Mas histórias anteriores, no Gênesis. Dife-
nas interpretou o sonho, mas disse ele tinha mais uma surpresa para rentemente das histórias de Abraão.
ao Faraó o que deveria ser feito à luz eles. Ao fazer a distribuição dos Isaque e Jacó, trata-se de uma narra
do mesmo (Gn 41.1-36). Uma atuação mantimentos, José pediu que seu tiva contínua. Nas histórias anteriores,
impressionante! copo de prata fosse colocado na Deus se revela a cada um dos patriar-
boca do saco de mantimentos de cas, mas José é simplesmente alguém
Braço direito d o Faraó Benjamim. O administrador de José que tem sonhos. Deus é sempre o
O resultado de tudo isso foi que foi atrás deles, quando já estavam Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Ape-
José se tornou um homem livre e a caminho de Canaã, e o impasse sar de sua fama e importância, José
ficou encarregado de fazer frente à estava criado. Podia ser um truque nunca foi acrescentado à lista.
fome prenunciada pelo pesadelo do Mas com José tem início uma nova
Faraó. compreensão da maneira como Deus
Nem sempre um sonhador é tam- lida com as pessoas, e esta compre-
bém uma pessoa de ação. Mas José ensão passará a ter maior impor-
agrega à sua notável percepção da tância nos capítulos seguintes da
realidade medidas práticas de arma- história que a Bíblia conta. José era
zenamento de cereais durante os um homem vulnerável. Ele foi rejeita-
anos de fartura. Assim, quando che- do. Porém foi através dele que Deus
garam os anos de escassez, havia ali- trouxe salvação, não somente para
mentos para sobreviver. José estava o seu povo, mas para outros povos
no auge do poder. Casou com a filha também. O ponto alto da história de
de um sacerdote, e o Faraó delegou José é a cena do perdão. E esses são
a ele a responsabilidade de admi- temas que reaparecem no livro de Jó,
nistrar a distribuição dos cereais na segunda metade de Isaías, e, acima
armazenados. de tudo, no ministério de Cristo.
A fome foi severa e longa. Afetou
O s sonhos eram considerados altamente
não apenas o Egito, mas também as significativos n o E g i t o a n t i g o . A c i m a aparece u m a
porte d e u m " m a n u a l d e s o n h o s " das egípcios,
regiões vizinhas. Não demorou muito
p r o v a v e l m e n t e c o m p o s t o na é p o c a d e J o s é .
e mercadores famintos, vindos de S o n h o s bons e r u i n s são listados e m colunas, c o m
suas a-spectívas interpretações.
longe, foram bater à porta do palá-
cio de José. Entre eles, os irmãos do
próprio.

Equilibrando a balança bem óbvio, mas os irmãos sabiam


As ironias se multiplicam, à agora que estavam totalmente à
medida que a história se desenro- mercê daquele senhor egípcio. José
la. José reconheceu seus irmãos, só se deu por satisfeito, vendo que
mas estes viram nele apenas um a balança da justiça estava equili-
homem poderoso a quem eles vie- brada, quando Judá se ofereceu A história de José é narrada
ram pedir ajuda. José foi ríspido para ficar em lugar de Benjamim. em Gn 37—50.
com eles, acusando-os de espiona- Seus sonhos se tornaram realidade.
gem. Depois de certificar-se de que Agora ele podia dizer quem era e MOMENTOS MARCANTES
Jacó e Benjamim estavam bem, exi- dar-lhes o seu perdão.
Nascimento — Gn 30.22-24
giu a presença do irmão mais moço Assim, houve reconciliação na
A túnica, os sonhos e a traição
como prova da inocência deles. Os família. Jacó, já avançado em dias, foi
dos irmãos — Gn 37
irmãos, por sua vez, lembraram o trazido de Canaã ao Egito. Ali, pôde
Escravo de Potifar — Gn 39
que haviam feito com José, e inter- reencontrar seu filho, agora podero-
Na prisão — os sonhos do
pretaram aquela situação como so, e acabou fixando residência, em
padeiro e do copeiro — Gn 40
castigo pela sua maldade. Desta terras que lhe foram entregues pelo
O sonho do Faraó e o novo
vez Simeáo ficou preso, enquanto Faraó e protegido por José contra
status de José — Gn 41
os outros voltaram a Canaã, para as agruras dos restantes anos de
Os irmãos: provações e
buscar Benjamim. fome.
reencontro — Gn 42—45
• 43.32 Os egípcios provavelmente acreditavam G n 46—47: Descendo ao Egito
que a presença de estranhos à mesa conta- O povo de Israel, a casa de Jacó, partiu para
minaria a comida. Por esta mesma razão, poste- o Egito com a promessa tranquilizadora de Deus
riormente os judeus passariam a não comer com de que os acompanharia e os traria de volta —
não-judeus. como nação.
» 44.2,5 Jose pode ter usado seu copo de prata • 46.34 A aversão dos egípcios pelos pastores
para fazer adivinhações (interpretando eventos nômades provavelmente não difere muito do
conforme o movimento das gotas de óleo sobre sentimento que muitas pessoas de residência
a água), como algumas versões sugerem. Outra fixa ou sedentária têm em relação aos ciganos
possibilidade é que o administrador estava errantes. Neste caso, a antipatia teve um
dizendo que era impossível não ser descoberto efeito benéfico, na medida em que manteve a
por esse mestre sábio e poderoso que se chamava família como unidade isolada. Caso contrário, Josó ordenou
José. a identidade do grupo poderia ser rapidamente n pesagem
e estoeugein
t 45.5,8 " N ã o foram vocês... mas foi Deus". perdida. de grãos n o r.j-ilo.
Não havia ressentimento no coração de José: • 47.16-19 Graças à política econômica de José, lista pintura
do T ú m u l o
ludo que havia acontecido fora parte do plano o Faraó se tornou dono da terra e o povo tornou-
d e M e n n a , a oeste
providencial de Deus. A escravidão que ele se seu arrendatário. Apenas os sacerdotes de TeD M , que

sofrera serviu para salvar vidas. mantiveram suas propriedades. data de 1400 a.C.
aproximadamente.
I 45.10 Em tempos de fome, os nômades mostra alguns
da Palestina tinham permissão de levar seus G n 48—49: A bênção de Jacó oficiais pesando
grãos para
rebanhos para as pastagens que ficavam na Mais uma vez um ciclo se completa: desde o pagamento
parte oriental do delta do Nilo. a bênção que Jacó recebe de seu pai cego até d e impostos.
152 Pentateuco

José e sua o momento em que ele próprio abençoa os I


família
filhos de José (acontecimento descrito em Hbl
vão ao Egito
11.21 como ato de fé). Sem maior dificuldade. I
as mãos de Jacó se cruzaram para expressar I
que a bênção de Deus recaía sobre o filho mais l
novo, em acentuado contraste com a história [
de Jacó e Esaú no cap. 27. Efraim c Manas-1
sés foram considerados filhos do próprio Jacó, I
Jose p vendido aos fazendo com que Jose desfrutasse de ume
midianitas em Dota
herança dupla.
e l e v a d o ao Egilo para
ser vendido como A benção proferida por Jacó se dirige a um l
futuro distante, quando os descendentes des-1
tes doze ocupariam a terra prometida. Paraos i
territórios, veja Josué caps. 13—22 e mapa. I
• 49.4 O ultraje registrado em 35.22 custou a
Jacó e seus filhos vão Ruben seu direito de filho mais velho.
Heliópolis (OmJ

ter com José n o Egito • 49.5-7 Fica claro que Jacó pronuncia juízo i
para fugir da fome
i'Ménfis sobre a conduta de Slmeão e Levi cm Siquém j
EGITO (34.13-31). As duas tribos seriam espalhadas [
(mas a de Levi como sacerdotes da nação).
• 49.10 üe Judá veio a linhagem real dc
Israel e também o Messias.
• 49.13 Embora próximo o suficiente do mar
com a possibilidade de explorar o comércio
marítimo, o território de Zebulom não chegava,
de fato, até o litoral.
• 49.19 Tais ataques são registrados na Pedra
Moabita do nono século a.C.

Q u a n d o a família
de J o s e se m u d o u
para o fcgiio,
a cena d e v e ter
sido semelhante
à que aparece
na pintura
a o lado e q u e
mostra u m g r u p o
d e visitantes
d o sul d e C a n a ã ,
d u m período
anterior a o de J o s e ,
sendo apresentado
a corte egípcia.
U m nobre o r d e n o u
que essa cena fosse
pintada na parede
de seu túmulo,
em Beni-Hasã.
Gn 5 0 : O f i m d e u m a e r a
José c o n s e g u i u , finalmente, retornar a
Canaã, mas apenas para enterrar seu pai no
:úmulo da família em H e b r o m — ainda sua
única propriedade na terra prometida.
A seqüência de quadros pintados no Gêne-
sis, começando com as vigorosas pinceladas que
retratam a criação e a vida exuberante no Eden,
continuando com a queda, a promessa e o sur-
gimento de uma nova nação em Canaã, termina J o s é teve ( l i m i t o a um funeral reservado p a r a egípcios importantes
com a morte de José no Egito. Porém ainda há o u famosos. N a religião egípcia, esse ritual incluía detalhados
preparativos p a r a a v i d a depois d a morte. O modelo de b a r c o
mais a contar. "Deus virá ajudá-los e os levará funeral q u e aparece na foro acima foi e n c o n t r a d o n u m t ú m u l o
deste país para a terra que ele jurou dar", disse egípcio.

José, cheio de confiança e esperança ate o final.


> Vs.2-3 Era normal recorreraembalsamadores
profissionais, mas talvez José quisesse evitar • V . 22 José viveu 110 anos, que era o ideal
comprometimentos religiosos. Dois séculos egípcio de longevidade, um sinal da bênção
nais tarde, um embalsamamento levaria, de de Deus. Seu último pedido resume a fé que
modo geral, 70 dias. O luto guardado por Jacó ele teve ao longo de toda a vida (v. 25).
(oi apenas dois dias mais breve do que o tempo • V . 26 O caixão normalmente era feito de
de luto observado quando morria um Faraó. madeira, trazendo uma cabeça pintada.
154 Pentateuco

Egito
K. A. Kitchen

Assim como a história da Suméria não de certos conceitos (como uma


e da Babilônia, também a história do ordem justa, etc). Nos grandes tem-
Egito é muito rica e se estende ao plos era realizado o culto oficial (o
longo de 30 séculos. Tudo começou ritual diário das oferendas), ao qual
por volta de 3000 a.C, quando o vale tinham acesso unicamente o Faraó, o
e o delta foram unidos sob o gover- sacerdote e altos dignitários. Somente
no de um só rei. Os hieróglifos, um por ocasião das espetaculares procis-
sistema de escrita feito, em parte, de sões festivas é que o povo em geral
ideogramas, mal haviam sido inven- podia honrar os grandes deuses, cuja
tados. A longa série de reis ou "Fara- bênção sobre o Egito se implorava N o caso d e j ó i a s d o E g i l o a m i g o , u m a das peças
preferidas e r a m o s colares, c o m o esre d e faiança
ós" compreende 30 famílias reais ou através dos ritos nos templos. As
azul.
dinastias. Mas é mais fácil dividir o pessoas simples adoravam deuses
período que vai de 3000 a 300 a.C. domésticos, em santuários menores,
em sete etapas ou eras: a inicial (era e em "oratórios" colocados na entra-
arcaica); três eras de grandeza (Reino
Antigo, Reino Médio, e Reino Novo),
0 território do Egito
separadas pelo primeiro e segundo
períodos intermediários de dissen-
são; e o período final, que trouxe 0 verdadeiro Egito não é aquele quadrado 0 que mantém o Egito vivo é a enchente
a derradeira decadência. (Veja o vazio que aparece nos mapas modernos. É, isto anual do Nilo. Antes da construção das barra-
diagrama) sim, o vale estreito que se estende ao longo de gens em tempos modernos, um "bom Nilo'
mais de 900 km, iniciando em Assuã e terminando significava prosperidade, pois trazia água em
Em tempos mais recentes, foram
na região do delta, onde orioNilo deságua no mar abundância para as plantações e depositai»
feitas tentativas de diminuir essas
Mediterrâneo. No mapa, o delta e o vale formam uma nova camada de solo aluvial. Um rii
datas em até 300 anos (identificando
uma figura semelhante à flor de lótus na extremi- baixo, por sua vez, representava carestia e;
o Faraó Ramsés II com o Sisaque do
dade de um caule curvado, sendo que o pequeno ao passo que o excesso de água deixava um ras
relato bíblico, e assim por diante), mas
"broto" é a província do lago de Faium. tro de destruição generalizada. Onde as águas
a evidência mais ampla que nos vem
do Nilo alcançam, existe viçosa e exuberante
do Egito e da Mesopotâmia confirma
vegetação; onde elas não chegam, o que se
a datação tradicional.
vê é um deserto, seco, sem vida, de coloraçãt
Durante a maior parte da história
amarelada ou marrom.
egípcia, a verdadeira capital ficava na
Premida pelo deserto, a população do
junção entre o vale e o delta, geral-
EGITO 4 m e
f se concentrava na estreita faixa de terra cultivá-
mente em Mênfis. No Reino Novo, a . ... SINAI
Mênfis
f
vel ao longo do vale e nas amplas planícies c<
cidade de Tebas, uns 500 km mais
região do delta. Os egípcios ficavam afastados,
para o Sul, veio a ser a capital meri-
porém não isolados, das populações vizinhas.
dional. Ela seria por muito tempo um
Internamente, a principal via de comunicação
importante centro religioso, como a
' era o Nilo. Para fora do país, havia uma raia
cidade do deus Amun. No período
que, passando pelo norte da península do Sinai,
final, Mênfis teve que dividir a con-
levava à Palestina, e outra que, passando pelos
dição de capital com várias cidades
vales desertos da região oriental, levavam ao
localizadas no delta. Durante toda
mar Vermelho. 0 rio Nilo propiciava uma eco-
essa história, o pivô da sociedade era 1' catarata
nomia agrícola, e das regiões desertas eram
o Faraó, na condição de intermediário
trazidas pedras e outros metais.
entre os deuses e os homens. Os deu- CUXE

ses eram, muitas vezes, a corporifica-


ção de forças da natureza ou de suas a
2 catarata '-.
manifestações (o sol, a lua), quando
Gênesis

A história do Egito antigo

Romanos I

(Império I Greg os
Persa)

m raão :
losc Moisés «Salomão

OlOa.C ¡2700 JJ400 p 100 |l8(10 h soo 1200 900 «I0 300
i

da dos grandes templos. Um dos de Provérbios), poesia lírica e religio-


aspectos mais salientes da religião sa, sendo que algumas dessas obras
era a magia. Vista de forma positiva, se tornaram clássicas e obrigatórias
ela era, nas palavras do mestre do rei para alunos. O trabalho dos campo-
Merikare, "um braço que se podia usar neses era a base da pirâmide social.
para manter à distância os golpes da Os magníficos monumentos — desde
vida". A magia "negra", por outro lado, as gigantescas pirâmides e os templos
era um crime passível de punição. até os delicados afrescos e minúsculos
As atribuições seculares do Faraó anéis sinetes — foram produzidos por
eram, na prática, compartilhadas e um grande número de artistas e arte-
executadas por altos oficiais de esta- sãos que estavam a serviço do Faraó,
do: governadores para o sul e o norte, dos templos, e das pessoas importan- O o l h o sagrado d o deus egípcio H o r u s era pintado
sobre barcos para afastar o mal.
tesoureiros, superintendentes de tes de cada um daqueles períodos.
silos, e inclusive chefes de cobrado- (cerca de 1210 a.C), tribos edomitas
res de impostos! Esses departamentos O Egito e a Bíblia receberam permissão para se dirigir
eram apoiados por uma burocracia de De Abraão a José aos lagos de Pitom, "para se manterem
escribas, que atuava na capital e nas O Egito aparece pela primeira vez vivos, e manterem com vida os seus
províncias. As grandes ordens sacer- na Bíblia como o lugar onde os patriar- rebanhos, graças à grande provisão
dotais tinham as suas propriedades e cas se refugiaram durante períodos de do Faraó". O Egito mantinha guardas e
sistemas administrativos. A partir do fome (Gn 12.10- 20; Gn 42—47). Graças oficiais de fronteira ao longo da divisa
Reino Novo, o Faraó também manti- ao Nilo, o Egito não dependia das chu- oriental, e às vezes os visitantes eram
nha e chefiava um exército perma- vas mediterrâneas que eram de vital escoltados para dentro (como Sinuhe,
nente de carros de guerra e divisões importância na Síria e na Palestina. na História de Sinuhe) ou, então, para
de infantaria. A educação se baseava E não foram somente os patriarcas fora (como aconteceu com Abraão, em
no treinamento de escribas na admi- hebreus que se refugiaram no Egito G n 12.20).
nistração civil e nas escolas anexas durante períodos de carestia. Duran- Os Faraós do tempo de Abraão e de
aos templos. O Egito teve uma rica te o Reino Antigo, algumas cenas José integravam, ao que tudo indica, a
produção literária de histórias, livros em esculturas retratam estrangeiros a a a
12 e a 13 (ou 15 ) dinastias respecti-
de sabedoria (semelhantes ao livro esfomeados, e, uns mil anos depois vamente (Reino Médio em diante), I
156 Pentateuco

período em que muitos estrangeiros grande pórtico de pilonos de... (um nhecer o Deus de Moisés e não está
encontraram trabalho no Egito, e isto templo de) Ramsés II"; sobre homens disposto a fazer mais um feriado.)
em vários níveis, desde escravos até "que fabricam cada dia sua quota de O fato de uma princesa de ura
altos oficiais (como José que estava a tijolos"; sobre funcionários que não harém que ficava na região oriental
serviço de Potifar, Gn 39.1-4). E, à seme- têm nem homens nem palha para do delta acolher uma criança estran-
lhança do que foi feito com José, mui- fazer tijolos" (veja Êx 5.7). As condições geira, como em Éx 2, não é nada
tos de seus contemporâneos que não descritas em ÊX 5 são confirmadas por surpreendente na sociedade egípcia
eram egípcios receberam um segundo documentos egípcios daquela época. cosmopolita do Reino Novo. Sabemos
nome egípcio. Em toda a parte e em Na parte ocidental de Tebas, na aldeia que crianças oriundas de Canaã eram
todas as classes sociais, acreditava-se criadas em haréns de outras partes do
que os sonhos eram significativos, a tal mundo. Havia estrangeiros em todos
ponto de escribas elaborarem manu- os segmentos da sociedade, desde
ais para ajudar a interpretação deles. o mais insignificante escravo até o
0 tema das sete vacas não aparece copeiro à direita do Faraó. Um Moisés
apenas no sonho do Faraó (Gn 41.18- não era nenhuma exceção naquele
21), mas também na Fórmula mágica contexto. Os mágicos e sábios (Êx 7.11;
148 do Livro dos Mortos, que fala sobre 8.7,18; 9.11) eram sacerdotes e escri-
a alimentação no além. bas eruditos. Os próprios egípcios
No plano económico, as autorida- contavam histórias divertidas sobre
des egípcias mantinham um detalha- as façanhas desses homens.
do registro das propriedades rurais e, Quando os israelitas deixaram o
em véspera de colheita, mediam ou Egito, o Faraó, provavelmente Ram-
avaliavam as plantações para fins de sés II, mandou seus carros de guerra
taxação. Num sistema desses não era atrás deles. Seiscentos carros (Êx 14.7)
difícil pôr em prática as medidas pro- era uma força considerável, mas per-
postas por José (Gn 41.34-35,48-49; feitamente verossímil, uma vez que se
47.23-26). Além disso, a região do têm noticias de destacamentos bem
delta era propícia para a criação de maiores naquele tempo.
gado (Gn 46.34), algo que é evidencia- No período de peregrinação pelo
do por uma inscrição datada de cerca deserto, quando da construção do
de 1600 a.C. tabernáculo (que era, em essência,
As roupas de linho fino que José A s imponentes colunas d o T e m p l o d e A m u n . e m
uma estrutura pré-fabricada), foram
vestia na sua condição de alto oficial Karnak, ilustram o p o d e r d o s Rwaós egípcios. utilizadas técnicas conhecidas desde
(Gn 41.42) são conhecidas de inúme- longa data no Egito para a constru-
ras pinturas egípcias. Já o processo de ção de estruturas que precisassem
mumificação e os caixões do Egito (Gn em que moravam os trabalhadores ser montadas e desmontadas rapi-
50.2-3,26), bem como os sepulcros (Êx nas tumbas reais, foram encontra- damente, tanto para uso profano
14.11), eram e continuam proverbiais dos "relatórios de trabalho" gravados quanto para fins religiosos. Que
até hoje. sobre cacos de cerâmica, que eram Israel já havia saído do Egito e esta-
os "blocos de notas" daquele tempo. va instalado na região ocidental da
Moisés e o ê x o d o Ali aparece um registro de dias traba- Palestina ao final do século 13 a.C. é
Quatro séculos mais tarde, muitos lhados e dias de "folga", e, por vezes, um dado confirmado pela única refe-
hebreus eram escravos nas olarias são dadas razões específicas para a rência egípcia a Israel (num contexto
egípcias do Reino Novo, trabalhando ausência de alguns: "a mulher dele em que se fala também sobre Gezer
para os grandes projetos de cons- está doente", ou "ajudando o chefe a e Asquelom), o cântico de vitória de
trução daquele tempo. O ponto alto fazer cerveja", ou (que pena!) "picado Merneptah (cerca de 1210 a.C), suces-
desse trabalho foi a construção das por um escorpião". Mais interessantes sor de Ramsés II.
cidades de Pitom e Ramessés (Éx 1.11), são os registros sobre um homem
sendo esta última a residência oficial "fazendo sacrifícios ao seu deus", ou Períodos posteriores
e sede governamental de Ramsés II, sobre todo o grupo tendo vários dia O Egito reaparece na história bíbli-
na parte oriental do delta. Papiros de folga para participar de uma festa ca do tempo de Davi e Salomão. Salo-
daquele tempo falam sobre os Apiru religiosa local. (Compare com Êx 5.1-5, mão casou com a filha de um Faraó
(povos que incluíam os hebreus), "que onde Moisés pede uma folga para os que conquistou Gezer e fez dela o
arrastam pedras para a construção do hebreus, mas o Faraó afirma desco- dote da princesa (1Rs 9.16). Tudo indi-
por esperarem ajuda do Egito (veja
Is 30—31; Jr 46). O Egito não era
adversário à altura para assírios e
babilônios, e, com o surgimento do
Império persa, se tornou realmente
um "reino humilde" (Ez 29.15), per-
dendo sua independência durante
os séculos seguintes.

« m ú m i a s d o E g i t o a n t i g o são m u n d i a l m e n t e em Karnak, e também em inscrições


famosas. Esta p i n t u r a mostra o processo d a
encontradas em Karnak e em Megido
RHimiíicacáo. O c o r p o d e J o s é foi preservado desta
•nua.
(na própria Palestina).
Depois disso, o poderio egípcio
ca que esse Faraó era Siamun (cerca de entrou em rápido declínio. Os pro-
970 a.C), que, a julgar pelo fragmento fetas de Israel censuraram seus reis
de um baixo-relevo encontrado em
Tànis (a Zoã da Bíblia), capital dessa
dinastia, fez incursões na região dos
filisteus e no sudoeste da Palestina.
A estrutura literária do livro de Pro-
vérbios — em grande parte um "livro
sapiencial" de Salomão — revela afi-
nidades com outras obras do gênero
escritas na região do Oriente Próximo,
várias delas no Egito. Entretanto, a rei-
terada afirmação de que Provérbios
deriva em parte diretamente de uma
obra egípcia escrita por Amenemo-
pe carece de fundamentação mais
sólida.
Em pouco tempo, a dinastia de Sia-
mun deu lugar a um novo rei e uma
nova dinastia: Sheshonq I, fundador
a
da 22 dinastia, o Sisaque da Bíblia
(IRs 11.40; 14.25). Este considerava o
Israel do tempo de Salomão um rival
na política e no comércio. E quando
Roboão sucedeu a Salomão, o Faraó
valeu-se de Jeroboáo para dividir
aquele reino em duas facções inimi-
gas, e, por um breve tempo, sujeitou
a monarquia dividida dos hebreus
a seus próprios interesses materiais.
Essa campanha na Palestina foi regis- O Iraje d e u m a princesa egípcia ( c o m o a q u e Verso: U m dos maiores tesouros d o Kgito: o rei
aparece na história d e M o i s é s ) é ilustrado neste T u t a n c a m o n e sua esposa, retratados e m faiança
trada numa grande cena de triunfo
afresco d a rainha A h m é s - N e f e n a r i (cerca d e 1S0O d o u r a d a , prateada e a z u l . na p a n e posterior d o
que se encontra no templo de Amun, a . C . ) . d e Tebas. trono d o rei.
159 '
Resumo
Como Deus resgatou

ÊXODO os israelitas da escravidão


no Egito e fez deles
o seu povo.

Caps. 1—11
Israel no Egito
Moisés
O livro de Êxodo é a história do nascimento de voltou-se n o v a m e n - Caps. 12—18
Israel como nação. É uma epopéia em que quase te à região fértil do O êxodo
tudo gira em torno de Moisés, o personagem cen- delta. Teve início um A páscoa
tral. Foi ele quem tirou o povo do Egito, o "êxodo" grande programa de Do Egito ao Sinai
(a saída) que dá nome ao livro. Por intermédio construção, incluindo
de Moisés, Deus deu a seu povo a norma de vida as cidades-armazém Caps. 19—40
— a lei — dando-se a eles e fazendo deles o seu do Faraó. U m a leva- O povo de Deus
próprio povo num contrato duradouro (a aliança). Os dez mandamentos
v a o nome do suces-
Lei e aliança
Êxodo mostra Deus no controle da história. Reve- sor de Seti, Ramsés
O tabernáculo de Deus
la um Deus que pode ser conhecido; que resgata II (que foi o principal e adoração
os oprimidos; um Deus "santo" cuja bondade e responsável por sua
justiça são impressionantes. construção). E havia
A história egípcia não menciona o êxodo, mas uma mão-dc-obra disponível e barata residente
de acordo com 1 Rs 6.1 ele ocorreu 480 anos antes na área: os israelitas.
da construção do templo de Salomão (inaugura- A presença desse grande número de estran-
do por volta de 970 a.C). Ou seja, somando tudo, geiros em seu território (veja 12.37) deixara
chegamos ao ano de 1450 a.C. Um novo cálculo o Faraó inquieto. A q u i estava sua chance de
das datas da história de Israel, feito recentemente assegurar que não causassem problemas. O
com base nas listas de reis egípcios, apoia esse povo foi organizado em equipes de trabalho,
ano como data do êxodo. Mas a maioria ainda subordinadas a capatazes, que deviam j u n -
favorece uma data mais recente, do século 13, tar barro e fazer tijolos para a construção de
para a qual há boas evidências. O número arre- novas cidades.
dondado de 480 (12 x 40) possivelmente signifi- Mas apesar da opressão crescente a explo-
cava 12 "gerações". Se calcularmos, como se faz são demográfica c o n t i n u o u . Faraó decidiu
atualmente, 25 anos por "geração", chega-se à intervir diretamente ( Ê x 1.15-22). Mas as par-
data do século 13. O comentário histórico que se teiras hebréias não concordaram com o plano
seque é baseado nesta teoria. do rei, que era de matar todos os meninos
recém-nascidos. O poder de Faraó não conse-
guiu vencer a fé e a coragem das parteiras.
Êx 1.1—12.36
Israel no Egito Ê x 2: M o i s é s , p r í n c i p e d o E g i t o
Todos os meninos hebreus recém-nasci-
Êx 1: U m a n a ç ã o e s c r a v a dos deveriam ser lançados no Nilo. Este era o
Quase 300 anos haviam se passado desde a decreto de Faraó. Mas a água que afoga pode " S e quisermos
morte de José e o final de Gênesis. O povo de também ser usada para fazer flutuar um cesto entender
a mensagem
Jacó vivera no Egito cerca de 370 anos. Seu sta- impermeável (a palavra hebraica usada aqui central do NT,
o livro que mais
tus privilegiado era coisa do passado. Agora eles é a mesma que designa a "arca" de N o é ) , e a vale à pena
são uma nação escrava sob um novo Faraó, de vida de Moisés foi salva pela ação criativa de estudar
com atenção
uma dinastia que há muito esqueceu o que José sua mãe. è este livro do
fez pelo Egito (veja G n 41). Moisés tinha 40 anos quando fez a primei- Êxodo."
As coisas haviam mudado no Egito. O poder ra tentativa de libertar o povo (2.11-12), mas R. A. C o l e
dos Faraós hiesos havia sido quebrado e os rei- essa tentativa acabou em desastre. Outros 40
nos do Alto e Baixo Egito estavam novamen- anos se passaram até os acontecimentos nar-
te unidos. A nação estava no apogeu do seu rados no cap. 3 (At 7.23; Ê x 7.7).
poder militar, com a sede do governo em Tebas • A filha d e Faraó provavelmente era filha
e Mênfis, sob a liderança de uma nova dinastia dele com uma concubina, não uma princesa
de Faraós. Mas quando Seri I (provavelmente o de sangue real. (Ramsés I I teve cerca de 60
"novo rei" do v. 8) chegou ao poder, a atenção filhas!) Ela deve ter levado Moisés ao harém
160 Pentateuco

Moisés roí
'Você reúne todas as qualificações". Não foi
adorado p o r
uma princesa 'Você é . . . " ou "você tem...", mas " E u Sou".
egípcia e criado,
O que nos dá identidade, o que daria auto-
como príncipe,
na casa real. ridade a Moisés, era a identidade de Deus.
U m a escultura a presença dele: " E u estarei com você".
e m relevo d e
Carquemis, • 3.13: " Q u a n d o . . . me perguntarem : Qual
século 8 a . C , é o nome dele? Q u e lhes d i r e i ? " Moises
mostra a rainha
Tawarisas
não podia v o l t a r apenas c o m uma expe-
segurando seu riência subjetiva que ele havia tido. Deus
príncipe.
se descreveu mais claramente: " E u Sou!
é o Deus v i v o , do qual deriva tudo o que
existe. E Deus se conecta com aquilo que o
povo j á sabia: ele não é um estranho para
seu p o v o . Ele é o Deus de A b r a ã o c dos
outros, cujas histórias eles conhecem.
• 4.1: " O s israelitas não vão acreditar era
m i m . " Deus d e u a Moisés três sinais —
demonstrações d o poder de Deus — cora
os quais poderia convencê-los de que ele
realmente se encontrara com Deus. Este é
o tipo de mágica que conheciam, pois esta-
"Deus onde foi criado com outros, aprendendo va associada à religião do Egito (cap. 7),
d i s s e (t Moisés;
'Eu S o u
a ler e escrever os hieróglifos e as letras • 4.10: " N u n c a tive facilidade para falar!"
o que Sou'" cursivas egípcias, estudando leis c adquirindo Mas o Deus que o criou lhe d a r i a condi-
ÉX3.14 conhecimento em vários ofícios e esportes ções de falar.
(veja At 7.22). Não era inédito na época criar • 4.13: "Por favor, manda outra pessoa". Isso
meninos estrangeiros dessa maneira e treiná- Deus não faria, mas permitiu que Moisés
los para ocupar posições de destaque no fizesse de Arão, seu irmão, o porta-voz.
exército, no sacerdócio o u na administração • M o n t e H o r e b e (3.1) Não se sabe com
civil. certeza onde ficava localizado, mas uma
• Mídia (15) Os midianitas eram descendentes antiga tradição o identifica com Gebel Musa
de Abraão por meio de sua segunda esposa, (2.244 m de altura) na parte sul da península ]
Quetura. Eles moravam no deserto, de modo do Sinai.
que, nesses anos de vida nômade, Moisés • O A n j o d o S E N H O R (3.2) Praticamente!
teve um bom treinamento para a futura identificado com Deus; veja comentário sobre!
peregrinação com Israel através do deserto. J z 2.1.
• O SENHOR (3.15) As letras maiúsculas usadas
Ê x 3—4: A s a r ç a a r d e n t e na maioria das Bíblias indicam o "nome
Moisés estava no Sinai (Horebe), o mesmo pessoal" de Deus, no hebraico " Y H W H " , prova-1
lugar onde viria a receber a lei, quando Deus o velmente pronunciado " Y a h w e h " o u "Javé"j
chamou. Nascido hebreu, criado como egípcio, tradicionalmente lido como "Jeová". (Veja
Moisés enfrentava sua própria crise de iden- "Os nomes de Deus".)
tidade, agravada pela rejeição de seu povo. • Prodígios (3.20) No pensamento hebraico,!
Enquanto andava pelo deserto, parou ao per- um prodígio ou milagre não é uma inversão!
ceber uma sarça em chamas. Era real? Era da ordem natural, mas um uso extraordinário
uma visão? Ele se aproximou, e Deus se dirigiu dela por parte do Deus que criou o mundo.
a ele com uma comissão assustadora: " E u o A distinção que hoje geralmente se faz entre
Página oposta: enviarei ao Faraó para que você tire do Egito o modos "naturais" e "sobrenaturais" de agir é
Tendo matado
meu povo". Mas o emissário se mostrou muito estranha ao pensamento do autor.
um cruel capataz
egípcio, relutante. Ele levantou uma objeção depois da • As riquezas dos egípcios (3.21-22) Veja 11.2-3;
Moisés fugiu outra e todas elas foram rebatidas por Deus: 12.35-36. Elas seriam usadas para mobiliar e
para o deserto.
Ali, Deus
• 3.11: "Quem sou eu?" Este era o dilema de enfeitar o tabernáculo de Deus (35.20-29).
se encontrou com Moisés. Isso era bem mais complicado do • 4.19 A morte de Faraó foi registrada em 2.23.
ele, na dramática
que d i z e r " N ã o me sinto qualificado para • 4.21 A Bíblia diz que Deus endureceu o
experiência
d a sarça ardente. essa tarefa". E a resposta de Deus não foi: coração do Faraó, que o Faraó endureceu
Éxodo
162 Pentateuco

Os nomes de Deus
Alec Motyer

Dois termos hebraicos são tradu- Textos como Êx 34.6-7, SI 103, S I respondido: "o Deus Todo-Poderoso",
zidos por "Deus": 111, S I 146, Mq 7.18-20 mostram de ou teria usado um dos outros títulos
• El, "A Divindade", Deus no poder e forma bem clara a compreensão que, de Deus conhecidos dos patriar-
na singularidade da sua natureza no tempo do AT, se tinha sobre o cará- cas: "Deus Altíssimo", "Deus Eterno",
divina. ter que esse nome revela. "Deus, o Deus de Israel", etc.
• Elohitn, uma forma plural que, no Assim, quando, em Êx 3 (vs.
entanto, não significa "deuses", mas Revelação progressiva 6,13,15,16), se diz que Yahweh é "o
Aquele que possui de modo com- O nome Yahweh aparece na Bíblia Deus de vossos pais", essa riqueza de
pleto todos os atributos divinos. desde o início (Gn 4.1). Sua ocorrên- significado é adicionada à revelação
Além destes, existe o nome pes- cia mostra que o nome era não só do Redentor santo.
soal Yahweh ou Javé. Por reverência conhecido como usado (p. ex., Gn
e para evitar que esse nome fosse 4.26; 14.22). Como pôde, então, Deus Deus de t o d a a humanidade
pronunciado, os judeus, em leitura dizer a Moisés (Êx 6.2-3) que "pelo Mas o Deus que se revela de
pública, diziam Adonai, "Senhor", meu nome, O S E N H O R , não lhes fui modo especial a um povo, o Deus
quando chegavam a esse nome. As conhecido" (isto é, aos patriarcas)? que é "meu Deus" para as pessoas
traduções em grande parte ainda Os especialistas no estudo do AT que fazem parte da nação escolhida,
seguem essa prática, traduzindo responderam essa questão, dizendo o "Santo de Israel" não pode ficar res-
Yahweh por " S E N H O R " ou colocando que temos várias tradições da história trito a esse povo. Ele é o "Criador" (Is
" S E N H O R Deus" ou " S E N H O R , meu Deus" primitiva do povo de Deus. Segundo 40.28), "Juiz" (Gn 18.25) e "Rei" (Jr 10.7)
onde o hebraico traz Adonai Yahweh uma tradição, o nome divino era — o Deus de toda a humanidade (Nm
(o Soberano Yahweh). Muito se tem a conhecido desde o início; segundo 16.22; Jr 32.27).
ganhar quando se percebe que por outra, oposta à anterior, esse nome
trás da forma S E N H O R está o nome só foi revelado a Moisés.
pessoal de Deus. Por mais influente que seja essa
Ao declarar o seu nome ao povo, teoria, ela não é nem irrefutável nem
Deus queria revelar-lhes o seu caráter necessária. No AT, "conhecer" vai além
mais íntimo. Em termos lingüísticos, do simples acesso a informações;
o nome Yahweh se relaciona com o envolve desfrutar ativamente de
verbo "ser/existir". Este verbo não sig- comunhão com a pessoa conhecida.
nifica simplesmente "existir", mas "estar Por exemplo, os filhos de Eli com cer-
ativamente presente". Yahweh é o Deus teza conheciam o nome como manei-
ativamente presente entre o seu povo. ra de "identificar" Deus, mas "não se
Mas Deus decidiu revelar isso numa oca- importavam (literalmente "nãoconhe-
sião em que eles precisavam ser redimi- ciam") o S E N H O R " (ISm 2.12; compare
dos, pois se encontravam na situação de 1Sm 3.7; Êx 33.12-13). Assim sendo, Êx
escravos condenados. 6.2-3 nos diz aquilo que até aquele
Em outras palavras, a noção de momento tinha apenas o significado
"presença ativa" nos diz que Deus está de um "identificador", um epíteto
conosco, mas não nos diz que tipo para Deus ou uma forma de se dirigir
de Deus ele é. Ao escolher a tempo a ele, havia assumido o significado de
do êxodo para revelar o significado uma afirmação a respeito do caráter
do seu nome, Yahweh se identificou desse Deus que tinha esse nome, a
como o Deus que salva o seu povo e saber, que ele é o santo Redentor e
derrota os seus adversários. o Juiz santo, aquele que sempre se
Na base de sua auto-revelação faz presente entre o povo.
como Yahweh (Êx 3.5) está a santi- Esta interpretação de Êx 6.2-3 é
dade de Deus, que se manifesta em confirmada pelo Gênesis. Se alguém
santo resgate e ira santa por ocasião tivesse perguntado a Abraão, "quem
da Páscoa (ÊX 12). é Yahweh?", ele com certeza teria
seu coração e que o coração do Faraó se
endureceu: três verbos diferentes sem diferença
real no significado. Para o escritor hebreu, o
fato de ser Deus é a primeira causa de tudo não
conflita com a responsabilidade humana.
> Arão (4.14) Três anos mais velho que
Moisés ( 7 . 7 ) , ele supostamente nasceu antes
do edito do Faraó. Miriã era a irmã mais velha
de ambos.
> 4 . 2 4 - 2 6 No v. 2 4 , o pronome objetivo "-lo"
(em "matá-lo") pode ser uma referência a
Gérson, e não a Moisés. De qualquer modo, "o
S E N H O R se encontrou com Moisés c procurou
matá-lo" pode ser outro exemplo de Deus como
a primeira causa — talvez a ameaça fosse u m A foto mostra u m a mistura d e lama d o Nilo c o m palha s e n d o
acidente o u uma doença. A família de Moisés colocada e m moldes d e madeira para fazer tijolos, q u e é secada
ao s o l . T i j o l o s q u e i m a d o s a o sol sao material d e construção b o m
agora estava ligada aos antepassados de Israel e b a r a t o amplamente usado na Á f r i c a e na Á s i a . A palha m o í d a
— o povo de Deus — p o r meio do sinal da reforça o tijolo.

aliança, a circuncisão.
SENHOR e não v o u d e i x a r que os israelitas
Êx 5 . 1 — 6 . 1 3 : P r i m e i r a v i t ó r i a saiam daqui" ( 5 . 2 ) .
de F a r a ó Assim, Deus dá início a uma série de casti- "Agora eu ouvi
os gemidos
0 primeiro pedido a Faraó apenas agravou gos para ensinar a Faraó e seu povo quem era o dos israelitas,
a situação. O povo se voltou contra seu "liber- S E N H O R e qual era o alcance do poder de Deus que estão sendo
escravizados
tador". F r u s t r a d o , Moisés recorreu a Deus sobre toda a criação ( 7 . 5 , 1 7 ; 8 . 1 0 , 2 2 ; 9.14). pelos egípcios,
novamente. E Deus renovou seu chamado, Nove vezes Deus agiu, e Faraó, seus magos e e lembrei
da aliança
lembrando a Moisés quem Deus era e dizen- todos os deuses do Egito foram incapazes de que fiz com eles.
do o que pretendia fazer. reverter o j u í z o de Deus. Os magos podiam Portanto,
diga aos israelitas
y 0 pedido (5.1) Isto parece ser menos que imitar, mas não eram capazes de impedir. o seguinte:
Eu sou o SJÍ.V/ÍOK.
toda a verdade, mas serve como u m teste. Vou livrá-los
Israel deveria deixar o Egito para oferecer 1. O Nilo, centro da economia e do culto da da escravidão
do Egito...
sacrifícios, porque a natureza destes seria nação, isto é, sua força vital, "transformou- Farei com que
ofensiva aos egípcios ( 8 . 2 6 ) . A reação de se em sangue": os peixes não podiam viver vocês seja o meu
povo e eu serei
Faraó revelou sua hostilidade implacável, já na água vermelha e grossa ( 7 . 1 4 - 2 4 ) . o seu Deus".
prevista por Deus ( 3 . 1 9 ) . 2 . Sete dias mais tarde, rãs, f u g i n d o das
> Acesso ao Faraó Se esse Faraó era Ramsés margens d o r i o e dos peixes em d e c o m - Palavra d e Deus a
Moisés, Ê x 6.5-7
II, sabe-se que ele recebia também pessoas p o s i ç ã o , p r o c u r a r a m r e f ú g i o nas casas
(confira 5 . 1 5 - 1 8 ) . Moisés, criado no harém, (7.25—8.15).
sabia como chamar a atenção do Faraó. 3 - 4 . Depois, o país foi infestado, primeiro
> 6.3 O nome Y H W H ( S E N H O R ) é usado em por mosquitos e depois por moscas que se
Génesis de 2 . 4 em diante, mas é claro que criaram entre as carcaças dos peixes e das
era conhecido p o r aqueles que, mais tarde, rãs (8.16-32).
escreveram as histórias. 5-6. O s animais foram atingidos p o r uma
peste, e tumores apareceram nas pessoas e
Êx 6 . 1 4 - 2 7 : G e n e a l o g i a nos animais ( 9 . 1 - 1 2 ) .
Quem eram Moisés e Arão? A genealogia 7. C h u v a de pedra e tempestades destru-
os identifica como descendentes de Jacó por íram as safras de linho e cevada, mas não
meio da linhagem de seu filho Levi. A lista é as de trigo c cspclta, que ainda não haviam
um trecho da lista mais longa de Nm 2 6 . c r e s c i d o . E os e g í p c i o s q u e d e r a m o u v i -
dos às advertências de Deus foram salvos
Êx 6 . 2 8 — 1 0 . 2 9 : P r a g a s a t i n g e m o (9.13-35).
Egito 8. O vento trouxe uma nuvem de gafanho-
Faraó o u v i u e rejeitou o pedido de M o i - tos da Etiópia que destruiu toda a vegetação
sés. Demonstrou que tipo de pessoa ele era: do país ( 1 0 . 1 - 2 0 ) .
"Quem é o S E N H O R . . . ? E u não conheço o 9. Durante três dias a luz do sol permaneceu
164 Pentateuco

encoberta por "trevas espessas" (provavelmen- pois Deus estava em ação, demonstrando seu
te uma tempestade de areia provocada pelo controle absoluto. Ele fez distinção entre seu
vento conhecido como cansim) (10.21-29). povo e os egípcios. Ele controlou a extensão
e as áreas afetadas por cada praga. Anunciou
As pragas ocorreram durante u m perío- a vinda de cada uma c podia fazê-las cessara
do de seis meses a u m ano. E m cada caso qualquer momento em resposta a oração.
Deus d e c i d i u valer-se de desastres natu- • 7.24 O solo arenoso filtra a água.
rais para c o n f u n d i r o Faraó e os deuses do • 7.25 Antes da construção da grande represa
Egito (12.12). Ele fez com que o "deus N i l o " de Assuã, a cheia anual ocorria entre junho e
trouxesse ruína em lugar de prosperidade. outubro.
As rãs (associadas aos deuses egípcios da • 8.16-17 "Mosquitos", "piolhos": a palavra
fertilidade) trouxeram doença ao invés de ocorre apenas aqui. Foi do " p ó da terra" que
Esta estátua fecundidade. E o poder de Rá, o deus sol, foi eles saíram.
colossal d o
eliminado. O s acontecimentos seguem uma • A dureza de coração d o Faraó Veja em 4.21.
Faraó Ramsés 11
(provavelmente ordem lógica, que poderia ter começado com Deus não interferiu, deixando-o tomar suas
o Faraó de Ê x o d o ) uma inundação acima do normal, trazendo próprias decisões, de modo que no final o
é um dos vários
monumentos e lama vermelha c espessa ou algas vermelhas poder de Deus ficou evidente para todos.
construções que que poluíram a água. • 9.31-32 Este é um detalhe que revela
díío conta d o seu
poder no Egito Não importa como conhecimento da situação local. O linho era
antigo. aconteceu, o fato é vital para a importante indústria de tecelagem
que não se tratava egípcia. O trigo, importante item de exportação,
de m e r o " a c a s o " . realmente amadurece um mês ou dois após a
cevada.

Ê x 11.1—12.36: A m o r t e r o n d a
a terra
A preliminar havia terminado: a advertên-
cia de Deus em 4.22-23 estava prestes a se
realizar. Este era o fim da linha para Faraó
e seu povo. Mas para Israel era o início. Este
foi um dia que seria lembrado ao longo dos
séculos, o dia em que feriu mortalmente os
primogênitos dos egípcios, mas poupou e
libertou seu p r ó p r i o p o v o . ( F o r a m literal-
mente "todos" os primogênitos, ou apenas os
jovens das famílias mais importantes, inclu-
sive o filho do próprio Faraó? De que instru-
mento Deus se valeu: a peste bubônica ou a
poliomielite? Não sabemos. Mas os egípcios
foram devastados.)
U m a nova festa foi instituída c um novo
ano (religioso) começou. (A época é março/
abril.) O cordeiro o u cabrito da páscoa, assa-
do sobre o fogo, representa a proteção e
provisão de Deus por seu povo: Israel é o pri-
mogênito de Deus. As ervas amargas repre-
sentam todo o sofrimento que suportaram no
Egito. Os pães sem fermento evocam a rapi-
dez da sua partida (não havia tempo para
usar fermento c deixar o pão crescer). Veja
"A Páscoa e a Última Ceia".
Mas o povo não partiu de mãos vazias. Os
anos de escravidão são, de certa forma, pagos
pelas roupas e jóias entregues pelos egípcios,
mais que ansiosos em vê-los partir.
Êxodo 165:

Ex 1 2 . 3 7 — 1 9 . 2 5 do deserto? A nuvem e o fogo eram


O êxodo do Egito fenômenos sobrenaturais? Na Bíblia,
tanto a nuvem quanto o fogo são
Êx 1 2 . 3 7 — 1 3 . 2 2 : F u g a n o t u r n a símbolos associados a Deus.
Como Deus havia previsto ( G n 15.13-14),
após quatro séculos numa terra estranha Ê x 14: P e r s e g u i ç ã o ^
Israel estava livre. Pode-se questionar o tempo e desastre
exato que o povo ficou no Egito ( G n 15.16 diz Presos entre o mar e as monta-
"quarta geração"), mas o grande fato indiscutí- nhas, com água pela frente e o exér-
vel é que Deus libertou o seu povo. Começa a cito do Faraó vindo ao encalço deles, os
viagem em direção à fronteira. israelitas enfrentaram seu primeiro gran-
Antes disso, porém, foram dadas instru- de teste de fé. E entraram em pânico, cla-
ções adicionais sobre a celebração da Páscoa: mando a Deus e acusando Moisés de traição.
quem poderia participar e onde deveria ser Mas Deus fez as águas retrocederem para que
comemorada. Esses acontecimentos deveriam pudessem atravessar sãos e salvos, fazendo
ser comemorados de duas maneiras: as paredes de água desabar sobre as tropas
• Durante um p e r í o d o de sete dias após a de Faraó. E assim Israel entendeu que eram A oitava praga foi

Páscoa as pessoas d e v e r i a m comer pães verdadeiras as palavras de Moisés: "Vocês uma nuvem de
gafanhotos que
sem fermento, em l e m b r a n ç a da f o r m a não terão de fazer nada: o S K N H O R lutará por devastou o Egito.

apressada como saíram do Egito. vocês" (14.14).


• Como a l i b e r d a d e de Israel h a v i a s i d o • Vs. 17-18 Não há menção do afogamento
comprada com a morte dos primogênitos de Faraó, e nem todos os carros de guerra se
dos egípcios, os p r i m o g ê n i t o s da nação perderam. A vitória foi ganha às custas de
pertenceriam de forma especial a Deus e Faraó, e o destacamento que perseguiu os
deveriam ser "resgatados". escravos foragidos foi destruído — um golpe
• 600.000 homens ( 1 2 . 3 7 ) N m 11.21 dá o duro o bastante.
mesmo número. Contando mulheres e crianças,
o total seria de 2 a 3 milhões de pessoas — um Ê x 15.1-21: O c â n t i c o d e v i t ó r i a
número bastante alto. É possível que se usasse Sc houve uma vitória que merecia ser con-
um número alto simplesmente para indicar tada às gerações futuras, esta certamente era
"muitos", sem que se tivesse feito um censo ela. Primeiro Moisés conduziu o povo num
exato. Em capítulos subseqüentes fica claro que grande hino de triunfo: Deus salvou Israel;
isso era gente demais para uma sobrevivência destruiu seu inimigo. Depois Miriã e todas as
no deserto. Assim, Deus concedeu o maná. As mulheres cantaram o refrão e dançaram de
vezes também faltava água, embora o povo alegria. A canção é um belo exemplo de poe-
tivesse aprendido a sobreviver com pouca água sia semítica antiga (veja "Poesia e Sabedoria",
e seus acampamentos tenham se espalhado introdução).
para que se pudesse usar várias fontes de água
a cada parada da viagem. Quando
os israelitas
• 13.15 A partir de G n 22, onde Deus forneceu d e i x a r a m o Egito,
um carneiro para ser sacrificado no lugar de seus "despojos"
incluíam jóias
Isaque, fica claro que Deus jamais exigiu d e prata e o u r o .
o sacrifício de um filho, apesar da tradição Estes colares
egípcios datam
que havia em Canaã. E em Nm 3.11-13 Deus
d a época
escolheu os levitas para representar todos os d e Moisés.
primogênitos de Israel: "são meus".
• 13.16 Veja texto e ilustração de Dt 6.8.
• 13.18 O "deserto" era uma região de estepes
na qual os animais podiam pastar. O "mar
Vermelho", numa tradução mais exata, é "mar
de Juncos" (veja mapa na p. 166). O povo
estava indo para o leste, afastando-se do delta
do Nilo.
• Os ossos de José (13.19) Veja G n 50.24-25.
• 13.21 A coluna de nuvem era um redemoinho
Pentateuco

• A profetisa (20) Miriã certamente alegava • 16.33 Veja também H b 9.4.


ter sido a porta-voz de Deus ( N m 12.2), a • Á g u a da rocha (17.6) Deus mostrou a
exemplo de Débora, uma profetisa posterior Moisés o local. Sabe-se que a rocha calcária
(Jz 4.4). d o Sinai retém umidade. Este incidente,
e os nomes Massa e M e r i b á , tornaram-se
Êx 15.22—17.7: C o n d i ç õ e s sinônimo de rebeldia (veja H b 3.7-11).
adversas
No deserto, o povo logo ficou sedento e Ê x 17.8-16: A t a c a d o s !
faminto — c rebelde. Não demorou, e come- Josué (o homem que seria sucessor de
i çaram as reclamações. N o Egito havia abun- Moisés) liderou u m g r u p o seleto contra os
I dância de peixe, de frutas e legumes — e não amalequitas, t r i b o n ô m a d e descendente
havia falta de água. Aqui Deus proveria uma de Esaú. Mas foi Deus quem deu a vitória,
Miriá" pegou maneira de ensinar ao p o v o obediência e enquanto Moisés levantava seus braços em
seu tamborim dependência diária dele.
e liderou a dança oração.
após a travessia • Codornizes (16.13) Veja " C o d o r n i z e s " em
Os amalequitas possivelmente tentavam
triunfal d o mar Números.
•Vermelho". expulsar os israelitas de um oásis fértil.
• G ô m e r (16.16) U m j a r r o c o m capacidade • 17.14,16 É possível que esse relato fizesse
de 2 litros. parte do Livro das Guerras do S E N H O R (Nm
• Maná (16.31) Não podemos saber com 21.14), uma obra que não foi preservada.
certeza o que era esse "maná", embora vários Depois da "guerra santa" de Saul ( I S m 15),
fenômenos naturais tenham sido sugeridos. os amalequitas são pouco mencionados.
Esta substância foi o alimento básico dos
israelitas durante 40 anos, c cessou de repente
quando entraram em Canaã. Outra descrição Ê x 18: S á b i o c o n s e l h o
aparece em Nm 11.7-9. O fardo da liderança era pesado e a suges-
tão prática de Jetro no sentido de reorganizar
Fora do Egito:
as peregrinações
e delegar tarefas foi sábia. Jetro, embora não
N ã o há certeza quanto aos locais mencionados nem q u a n t o
no deserto
à rota. O s israelitas n ã o p e g a r a m a rota costeira, mesmo
fosse israelita, era considerado um homem
q u e mais p r ó x i m a ( 1 3 . 1 7 ) , p o r q u e não estavam p r o n t o s piedoso. Ele foi bem recebido e seu conselho
para e n c o n t r a r as forças d o s filisteus. E m vez disso, foram
foi seguido. Mas em questões religiosas, ele
para Sucote, a o s u l , v o l t a r a m para o norte antes d e atravessar e,
novamente, para o s u l , descendo pelo oeste d a península • aprendeu com Moisés (8-11). N ã o fica claro
d o S i n a i . O a v a n ç o d e v e ler sido lento: n o m á x i m o entre quando Zípora retornou para casa, mas é pos-
I S e 2S km p o r dia.
sível que tenha acontecido logo após o inci-
O " m a r V e r m e l h o " ( o u mar d e J u n c o s ) p o d e se referir
dente registrado em Ê x 4.24-26.
à região d o s lagos A m a r g o s o u a o golfo d c S u e z .
A travessia provavelmente aconteceu e m a l g u m l u g a r • 18.13 Moisés, como j u i z , ficava sentado;
entre Q a n t a r a (46 km a o sul d c Porto S a i d ) e o norte d e Suez.
os requerentes ficavam cm pé.

Ê x 19: O a c a m p a m e n t o
n o Sinai
C o m o Deus p r o m e t e r a ( 3 . 1 2 ) , Moisés
levou o p o v o de Deus ao monte Sinai. Ali
Deus estabeleceria sua aliança com a nação.
T r o v õ e s , r e l â m p a g o s , f o g o e terremoto
anunciaram a presença de Deus e demons-
t r a r a m seu p o d e r (20.20 e x p l i c a porquê;
BK Moisés envia homens para compare a experiência de Elias no mesmo
espionai a letra de Canaã — eles
vão até Hebrom e voltafn.. local — l R s 19.8-12 — e o contraste feito
em H b 12.18-25). O S e n h o r D e u s , santo,
H f J s israelitas, assustados tom os
relatos de gigantes na terra, se terrível, inacessível, falou.
(¡alto de Suez.
rebelam. Oeos dii que deverão • 19.15 " P r e p a r e m - s e . . . não se acheguem
ficar no deserto.por 40 anos. Mas
eles marcham para Canaã — Monte Sinai/Hcxebe a m u l h e r " — v e j a " p u r o e i m p u r o " , em
e são denotados.
L v 15.
• 19.22 Os sacerdotes só passaram a existi!
c o m o o r d e m após estes acontecimentos no
Sinai.
168 Pentateuco

Êx 20—40 • T í t u l o : identifica o autor da aliança (2a).


Leis e um tabernáculo para Deus • P r ó l o g o h i s t ó r i c o : descreve as relações
passadas entre as duas partes (2b).
Ê x 20.1-21: O s D e z M a n d a m e n t o s • O b r i g a ç õ e s impostas a o vassalo (3-17),
No princípio. Deus pronunciou as palavras a c o m p a n h a d a s p o r " b ê n ç ã o s " ( p . ex.
"Então, que deram origem à v i d a . Agora Deus pro- 6,12b) e "maldições" (5,7b).
Deus falou
Iodas estas nuncia as palavras que orientam o viver.
palavras: Este resumo e ponto culminante d o pacto Ê x 20.22—23.33: O c ó d i g o d e leis
'Eli SOU O SliNHOR,
teu Deus,
ou da aliança de Deus com seu povo estabe- Esta seção, conhecida como "o livro da alian-
que te tirei lece uma norma ética básica que se aplica a ça", é o registro mais antigo que temos da lei
do Egito,
da terra todos os povos de todos os tempos (já que judaica. Consiste em "julgamentos", isto c, leis
da escravidão. estas são as instruções d o "Fabricante", o u casuísticas, e "estatutos" o u ordens diretas.
Não terás outros
deuses diante seja, do Criador). As primeiras três "palavras" Embora semelhante cm forma a outros códigos
de mim..."' dizem respeito ao relacionamento d o povo de lei da Ásia ocidental antiga, o código judaico
com Deus, e as sete restantes, ao relaciona- tem várias características distintas:
Palavras iniciais d o s mento das pessoas entre si. Como Jesus disse, • O código como um todo se baseia na auto-
Dez M a n d a m e n t o s .
Êx 20.1-3 os mandamentos se resumem a amar a Deus ridade de Deus, não de um rei.
e ao nosso "próximo" (Mt 22.37-40). • Não há divisão entre a lei civil e religiosa.
Os mandamentos demonstram a preocupação A maioria dos códigos orientais lida apenas
de Deus com todos os aspectos da vida humana. com questões legais: a religião e amoral
Deus estabelece os padrões para os relacionamen- são tratadas em outro lugar. Na Bíblia, leis
tos familiares, impõe respeito pela vida humana, civis, morais e religiosas são inseparáveis,
o sexo, a propriedade, a palavra e o pensamen- demonstrando a preocupação de Deus pela
to. Deus nos fez: quem mais pode determinar a vida toda.
melhor maneira de viver? • H á uma só lei para todos, pouco importan-
Escritas em tábuas de pedra, preservadas do a posição social do indivíduo. Merecem
na arca da aliança, essas dez "palavras" cons- destaque especial as leis que protegem os
tituíram a base da lei de Israel. Na forma elas fracos c indefesos (escravos, órfãos, viú-
seguem o padrão dos tratados conhecidos n o vas, estrangeiros).
Este é local Oriente Médio no século 13 a . C , principalmente • O fato de haver penalidades fixas, delimita-
d o acampamento
israelita diante
os tratados entre suseranos e seus vassalos (veja das (para cada crime um castigo específico),
d o monte Sinai. 'Alianças e tratados no Oriente Próximo"): revela um conceito elevado da vida humana.
Estas são as leis de um Deus que se impor- formalmente selada por um sacrifício especial e
ta, um Deus que é "misericordioso" (22.27). por uma refeição tomada pelos representantes do
A legislação tem em vista o futuro, a vida povo na presença de Deus. O sangue aspergido
sedentária e agrícola que Israel teria na terra sobre o povo e sobre o altar uniu as duas partes
de Canaã, pois a rebeldia de Israel ainda não no acordo. De fato, cada uma das partes estava
havia condenado o povo a passar 40 anos na jurando mantê-lo sob pena dc morte.
península do Sinai. A passagem pode ser resu- • Nadabe e A b i ú (1) Dois dos filhos de '•Ilido
que Israel
mida da seguinte forma: Arão, que mais tarde acabariam morrendo, precisava
• Instruções gerais sobre culto o u adoração desonrados ( L v 10.1-2). inicialmente
para ser
(20.22-26) • Viram o Deus de Israel (9-11) N o Oriente salvo tio Egito
• Leis civis ( 2 1 . 1 — 2 3 . 1 3 ) : os direitos dos Médio, fazer uma refeição com alguém é uma era aceitar
a liberttição
escravos (21.1-11); homicídio c ameaças forma toda especial dc se (cr comunhão com que Deus estava
à vida humana (21.12-32); ofensa, roubo essa pessoa. O autor quase não tem palavras operando.
Agora
e dano à p r o p r i e d a d e ( 2 1 . 3 3 — 2 2 . 1 5 ) ; para descrever a comunhão indescritível que
é introduzida
obrigações sociais c religiosas (22.16-31); se seguiu ao sacrifício e completou a aliança. a idéia tie que
a obediência
justiça e direitos humanos (23.1-13). • Hur (14) Obviamente trata-se dc uma pessoa é necessária
• Leis relativas às três festas principais — importante cm Israel. Ele e Arão seguraram os assim como
festa dos pães sem fermento, da colheita braços de Moisés em oração durante a batalha a/é."
dos primeiros frutos e do encerramento da com os amalequitas (17.12).
colheita (23.14-19). • Quarenta dias e quarenta noites (18) Certos
• As intervenções de Deus em favor de seu números têm significado especial na Bíblia. O
povo obediente (23.20-33). número 40 aparece em praticamente cada nova
Estes regulamentos ampliam, com deta- etapa da história de Israel: no relato do dilúvio,
lhes, o resumo de Èx 20.1-17. no episódio dos espias em Canaã, na jornada de
• Ela não ficará livre (21.7) O senhor dela Elias ao Horebe, na tentação dc Jesus no deserto,
ainda é responsável por sua escrava-esposa. c no período entre sua ressurreição e ascensão.
• 21.23-24 A vingança ou retaliação tem
limites rígidos: uma vida por uma vida, Êx 25—27: O t a b e r n á c u l o
não uma carnificina sem fim. Esta é a Deus havia tirado o povo do Egito. Estabe-
famosa Lei do Talião: um regulamento que lecera os termos da sua aliança e estes foram
se destina aos juízes no tribunal. Na área aceitos. Agora, como sinal visível de que este
dos relacionamentos pessoais, Jesus excluiu era seu p o v o , Deus deu a Moisés instruções
por inteiro a possibilidade de vingança ( M t para construir uma tenda especial: Deus devia K. A . C o l e
" O decálogo...
5.38-42). ter uma morada como as dc seu povo e viver
deu forma,
• 22.18 A feitiçaria é condenada também no entre eles. Deus os guiaria e acompanharia propósito
aonde quer que fossem, e eles saberiam que e um plano
NT (At 13.10; 19.19), mas a pena de morte
para a vida.
era a sentença a ser aplicada naqueles tempos Deus não era uma divindade local cujo poder Embora culturas
se limitava ao Sinai. orientais
do AT.
anteriores
• 22.19 No Israel antigo, a bestialidade 'Icmplos |x>rtáteis, prefabricados, semelhantes tivessem tido
(característica da religião cananéia) c a temporariamente
à tenda dc Deus (o tabernáculo), já eram cons- a noção de que
prática da aios homossexuais (veja Lv 20.13 e truídos no Egito no período anterior ao êxodo. a justiça
nota em Lv 18.22) eram crimes para os quais agradava
Aqui, embora a descrição seja minuciosa, faltam
aos deuses,
estava prevista a pena dc morte. alguns pontos ou detalhes; em outras palavras, foi sobre a ruchu
Saltclu IÍIIS
• 23.11 A terra também merece descanso: não se trata de uma planta completa. Por exem-
Tábuas ida leij
Deus preserva e alimenta os animais selvagens plo, o teto dessa tenda podia ser horizontal ou que a civilização
assim como cuida da humanidade. erguido com uma estaca. <H illcilllll loi
edificada."
• 23.31 Aqui, o "mar Vermelho (ou mar dos A ilustração à p. 177 mostra a estrutura
Juncos)" é claramente o golfo de Acaba. Estas básica c a posição da mobília. A estrutura da
fronteiras "ideais" — do golfo dc Acaba ao tenda propriamente dita era revestida com
mar Mediterrâneo; do Sinai ao rio Eufrates cortinas de linho, sobre as quais havia uma
— foram atingidas por um breve período na cobertura de pano feito de pêlos de cabra,
época de Davi e Salomão. encimada por dois revestimentos impermeá-
veis (feitos de peles de carneiro tingidas de
Êx 24: S e l a n d o a a l i a n ç a vermelho e de couro fino).
0 povo aceitou a aliança e esta aprovação foi Muitos dos materiais usados foram trazidos
170 Pentateuco

Um estilo de vida: os Dez Mandamentos


Philip Jenson

Tendo saído do Egito, os israelitas ciai. Diante do que Deus havia feito por
chegaram ao monte Sinai, onde fize- Oqueéa"Torá"? eles, os membros do povo de Deus,
ram uma aliança com Deus. Ali, Deus de bom grado, acolhem a lei e prome-
entregou os Dez Mandamentos, que A palavra hebraica "torá" é, geralmente, tem cumpri-la. Era possível incorrerem
aparecem em Êx 20.1-17, com a finali- traduzida por "lei". Agora, lei é muitas vezes castigo, por causa de desobediência
dade de possibilitar ao povo cumprir considerado algo universal e impessoal. (Êx 20.5), mas este não era o propó-
a sua parte do acordo (ÊX 19.5). Existe "Torá" é, para sermos mais exatos, "instru- sito maior do mandamento. Oito dos
outra passagem que traz os Dez Man- ção" ou "ensino". É a palavra bem pessoal mandamentos têm formulação nega-
damentos na íntegra: Dt 5.6-21, onde que Deus fala ao seu povo, dizendo-lhe tiva ("não..."), mas estes simplesmente
se enfatiza que esses são os manda- como deve viver. Mais tarde, a palavra veio definem o espaço ou os limites dentro
mentos e que não haveria outros (Dt a ser usada como título do Pentateuco, pois dos quais os israelitas podiam viver
5.22). Na comparação entre as versões as histórias e também as leis nele contidas com segurança.
de Êxodo e Deuteronômio, aparecem eram instrução para o povo, dizendo quem No NT aparece o mesmo padrão: a
pequenas variações, mas isto é reflexo é Deus e como o povo deveria viver. nova vida em Cristo está disponível, e
da flexibilidade com que a Bíblia em de graça, para todos; mas requer-se,
seu todo trata dessa questão da lei. então, que o povo de Deus viva de
"A Torá é verdade,
No AT, os Dez Mandamentos e o objetivo de conhecê-la maneira que agrade a ele. "Se guar-
são, literalmente, as "dez palavras", dardes os meus mandamentos, per-
é viver segundo ela".
o Decálogo (Êx 34.28; Dt 4.13; 10.4). manecereis no meu amor", disse Jesus
Maimónides
aos seus discípulos (Jo 15.10).
A lei que Deus d e u a seu p o v o era um eslilo d e
v i d a , não apenas u m a lista de regras. Nas palavras
d o salmista, é lâmpada para os pés e l u z p a r a o Diferentes t i p o s d e lei
caminho d e rodos que p r o c u r a m segui-la.
Algumas leis são mais amplas e uni-
Sua importância se deve ao fato de versais do que outras. Deuteronômio
terem sido as únicas "palavras" fala- faz distinção entre "o mandamento"
das diretamente por Deus. Todas e "os estatutos e juízos" (Dt 6.1). A
as outras leis vieram por meio forma positiva do "mandamento" é
de Moisés (Êx 20.1,19). o famoso Shemá (Dt 6.4-9): "Ouve,
Israel, o S E N H O R nosso Deus, o SENHOR
O d o m d e Deus é um. Amarás o S E N H O R teu Deus de
ao seu p o v o todo o teu coração..." A forma positiva
"Eu sou o SENHOR, teu do primeiro dos Dez Mandamentos é
Deus, que te tirei da terra do esta: "Não terás outros deuses diante
Egito" (Êx 20.2): esta é a base de mim" (Dt 5.7).
para tudo o que segue. Pri- Outras leis são bem específicas, e
meiro Deus salva, por graça; só estas se encontram em Êx 21—23 e
então ele conclama Dt 12—26.
o povo a mostrar- Em termos de genérico e específi-
se agradecido e co, os Dez Mandamentos constituem
ser o b e d i e n t e . um meio-termo. Foram gravados em
Vários mandamen- pedra para mostrar que, em princí-
tos aparecem em pio, são válidos para sempre. São
outros documentos dez ao todo, e dez é o número que
de natureza ética ou simboliza aquilo que é completo.
em códigos de leis, mas Eles têm por objetivo apresentar
o Pentateuco insere os um quadro abrangente da vida de
mandamentos num contexto obediência a Deus. Entretanto, havia
histórico e teológico todo espe- também a necessidade de ser sele-
•ocio 171

tivo, pois esse quadro só podia ser Códigos de lei no mundo antigo
apresentado de forma esquemáti-
ca. Os mandamentos pedem para Há vários paralelos entre os manda-
serem interpretados e aplicados, e mentos da Bíblia e as leis que aparecem
já podemos ver isso em andamento em códigos elaborados por vizinhos do
nos mandamentos mais longos. A povo de Israel. Entretanto, em parte
lei do sábado se fundamenta tanto alguma se encontra a mesma concen-
na criação (Êx 20.10) como no êxodo tração de mandamentos num mesmo
(Dt 5.15). texto. Em muitos casos também há sig-
nificativas diferenças no que diz respeito
Ornais i m p o r t a n t e a detalhes. Por exemplo, no código do rei
em p r i m e i r o l u g a r babilônio Hamurábi {foto ao lado) aparece
A ordem dos mandamentos é alta- o seguinte:
mente significativa. "Se um cidadão roubou um boi, ou
• Os primeiros quatro (na contagem uma ovelha, ou um jumento, ou um porco,
reformada) tratam da questão ou um barco, se for propriedade do templo
fundamental da atitude do povo ou da coroa, ele deverá restituir trinta vezes
de Israel em relação a Deus, Estes mais; mas, se a propriedade é de um vassa-
introduzem os mandamentos lo, deverá restituir dez vezes mais, ao passo
seguintes, que dizem respeito ao que, se o ladrão não tiver como restituir,
comportamento na comunidade. deverá ser morto". (Lei 8)
• 0 mandamento do sábado já faz Em Israel, não havia diferenças de
a conexão entre a atitude em rela- classe, e não havia previsão de pena de
ção a Deus e a atitude em relação morte por causa de roubo (Èx 22.1).
ao próximo, pois nem mesmo a um
escravo se permitia que trabalhasse
no dia que Deus santificou. Jesus
reafirmou esse vínculo em seu resu-
mo da lei em dois mandamentos
(Mt 22.36-40).

A interpretação Há diferentes sistemas denumeração dos mandamentos. •iò tradição reformada (seguida
dos mandamentos neste artigo), Êx 20.2 é visto como o prólogo, a proibição das imagens é um mandamento
distinto, e o duplo "não cobiçarás" forma um único mandamento. Abaixo aparecem algumas
0 que significa "não matarás"? das opções de numeração:
Nem sempre está claro o que um man-
damento significa. As leis mais específicas
Judaica Católica/Luterana Reformada
examinam casos mais difíceis e estabele-
cem diferentes níveis de desobediência e
castigo. Por exemplo, há diferença entre 1. Introdução 1. Não ter outros deuses; 1. Não ter outros
crime culposo (involuntário) e crime doloso 2 . Não ter outros deuses; não fazer imagens deuses
(intencional), como se vê em Êx 21.12-14. No não fazer imagens 2 . 0 nome do Senhor 2. Não fazer imagens
contexto israelita, a necessidade de matar 3.0 nome do Senhor 3.Sábado 3.0 nome do Senhor
no contexto das guerras era tão evidente 4.Sábado 4 . Honrar os pais 4 . Sábado
que nem era preciso discutir essa questão! É 5. Honrar os pais 5. Não matar 5. Honrar os pais
possível que, de tempos em tempos, se che- 6. Não matar 6. Não adulterar 6. Não malar
gasse a conclusões diferentes, devido, em 7. Não adulterar 7. Não roubar 7. Não adulterar
grande parte, à mudança das circunstân- 8. Não roubar 8. Não dar falso 8. Não roubar
cias, mas todos aceilavam a autoridade mais 9. Não dar falso testemunho 9. Não dar falso
ampla e abrangente dos mandamentos. testemunho 9. Não cobiçar a casa testemunho
10. Não cobiçar 10. Não cobiçar a mulher 10. Mão cobiçar
172 Pentateuco

"A Lei foi dada depois que Deus


havia salvo o seu povo,
não antes... Israel não
procurava cumprir a Lei para
obter salvação. Os cristãos não
tentam ser bonzinhos para
chegarem ao céu. Deus já agiu,
trazendo salvação.
Já atravessamos o mar
Vermelho. Cristo já morreu
e ressuscitou. Ser obediente
a Deus é uma resposta
à salvação, e não um
pré-requisito para a mesma".
Marcus Maxwell

Depois do mandamento do sábado, Letra e espírito


o único outro mandamento positi- O contexto, o conteúdo e o tom
vo é o que manda honrar os pais. dos Dez Mandamentos refletem uma
Este aponta para o valor funda- consciência de que o espírito da lei
mental no desdobramento da lei: era tão importante quanto a sua
estabilidade e harmonia na família. letra. Os profetas fizeram severa crí-
É o único mandamento que vem tica àqueles que tentavam subverter
acompanhado de promessa (Ef ou descartar os mandamentos (Am
6.2), pois, sem honra, a sociedade 8.5). Também Jesus criticou seus
entraria em colapso e os objetivos contemporâneos por interpretarem
que Deus tem para a família de os mandamentos de forma muita
Abraão não seriam alcançados (Êx restrita (Mt 23.23).
19.5-6). Em consonância com outros tex-
No final, o décimo mandamento tos bíblicos, a lei, de modo geral, e
vai além da ação externa e trata os Dez Mandamentos, de forma espe-
da motivação interior, uma ênfase cial, procuram estabelecer um reino
que Jesus aplicou também a outros de justiça e paz, fundamentado no
mandamentos (Mt 5.21 -48). amor a Deus e ao próximo.
J o y Davidman do Egito (11.2-3) e voluntariamente oferta- E x 28—30: O s sacerdotes
"O conceito bíblico
de sociedade dos pelos israelitas, para que o tabernáculo de e seus deveres
se baseia, Deus fosse o mais digno possível o u estivesse Se o tabernáculo de Deus devia ser um
não nos contratos,
mas na aliança... à altura de Deus. Q u a n d o não havia bancos, lugar de beleza e esplendor, o sacerdote tam-
Alianças era prático converter as riquezas em jóias, que bém devia estar vestido adequadamente. Suas
tem a ver com
deveres em vez podiam ser usadas e transportadas com facili- vestes tinham o propósito de lhe conferir "dig-
de direitos.
Enfatizam o bem
dade. A madeira é escassa no deserto do Sinai; nidade e beleza" (28.2), não por causa dele,
comum ao invés a acácia é uma das poucas árvores que cresce mas como convém àquele a quem ele serve
do benefício
pessoal." ali. As peles provinham dos rebanhos dos pró- e representa. As pedras preciosas gravadas
prios israelitas. com os nomes das doze tribos indicam sua
J o n a t h a n Sacks
Os povos do O r i e n t e M é d i o antigo eram outra função, a de representante do seu povo,
hábeis na arte de fiar, tecer e no uso de coran- fazendo expiação pelo seu pecado.
tes naturais (o escarlate era obtido do inse- • O Urim e o Tumim (28.30) Dois objetos que
to conhecido como cochonilha; a p ú r p u r a , representavam "sim" e "não". Não se sabe
usada pelos ricos, era extraída do molusco exatamente como eram usados para descobrir
m ú r e x ) . Também eram p r o d u z i d o s b o r d a - a vontade de Deus.
dos finos. Pedras preciosas e semipreciosas • Os sininhos na barra da sobrepeliz de Arão
eram lapidadas, polidas e gravadas (como (28.33-34) Provavelmente para garantir que
as de A r ã o ) . O u r o e prata eram forjados e ele não entrasse na presença de Deus sem se
deles se faziam padrões bastante elaborados. anunciar.
Deus mobilizou todas essas habilidades para • 28.42 A exigência de roupa de baixo para
a construção do seu tabernáculo. os sacerdotes contrastava com a nudez ritual
• Estola sacerdotal (25.7) Veja 28.6-14, e a de outras religiões.
figura do sumo sacerdote e a legenda em " O • 29.20 A orelha para ouvir e obedecer a
Sacerdócio no A T " . Deus; a mão e o pé para trabalhar para ele.
• Arca da aliança (ou d o testemunho) Esta era • 30.13 O imposto era uma pequena quan-
uma caixa de madeira transportada com varas, tidade de prata (6g). Ao tempo do NT, a
revestida de ouro e medindo cerca de l,22m didraema (duas dracmas) tornou-se o imposto
x 76cm x 76cm. Nela eram guardadas as duas anual do templo ( M t 17.24).
pequenas tábuas de pedra em que estavam • A consagração Cada elemento dessa
escritas as "dez palavras"; além disso u m pote elaborada cerimônia indicava a "alteridade"
de maná, e mais tarde a vara de Arão. Os o u "distância" de Deus. Ele estaria com seu
"querubins" provavelmente eram esfinges aladas povo, mas não podia haver familiaridade. 0
A arca da aliança
era feita com semblantes humanos que representavam homem só poderia aproximar-se de Deus nos
de acácia,
os espíritos mensageiros de Deus. A arca era o termos que Deus havia estabelecido. O pecado
que é uma
das poucas símbolo visível da presença de Deus. desqualifica todos de entrar na presença de
áivores que cresce
• 25.37 As lâmpadas do candelabro eram a Deus. O s sacerdotes e todo o equipamento
no clima seco
d o "deserto" única fonte de luz no tabernáculo: o santo dos deviam ser separados especialmente para o
d o Sinai.
santos ficava completamente escuro. serviço do Senhor. Assim, Arão e seus filhos
deviam ser purificados e vestidos, e ter seus
pecados expiados por sacrifício para poderem
assumir seu cargo. O Deus vivo não é um ídolo
impotente, que as pessoas podem adorar do
jeito que bem entenderem. Deus estabeleceu
os termos que possibilitariam sua morada
entre seu povo.

Ê x 31.1-11: H a b i l i d a d e s especiais
Q u a n d o Deus escolhe as pessoas para um
trabalho específico ele também as capacita
para essa tarefa. O v. 3 é uma das primeiras
referências ao "Espírito de Deus". As habilida-
des destes artesãos são dons espirituais para o
serviço de Deus e os nomes dos dois entraram
para a história.
17:

Cansadas
de esperei por
Moises, que lhes
truriu a lei d e
Deus. os israelitas
persuadiram A r ã o
a fazer-lhes um
b e z e r r o de o u r o
- simbolo d e
fertilidade
e foiça n o Egito.
Este pequeno
bezerro (foto),
com sua '"casa",
foi recentemente
rinonlrado
em Israel.

Êx 3 1 . 1 2 - 1 8 : U m d i a d e d e s c a n s o • 32.26-29 " Q u e m é do SüNHOR?" A própria


A maneira como o sábado, o dia do descanso, tribo de Moisés, os levitas, se colocou do lado
é observado é um indicador da saúde espiritual de Moisés. O que se seguiu foi uma "guerra
do povo. A obediência nisto c uma prova da sua santa": alguns foram castigados como exemplo,
obediência a üeus também em outras áre;is. talvez alguns líderes, mais provavelmente
adoradores pegos ao acaso. " I r m ã o " significa
Êx 3 2 : U m b e z e r r o d e o u r o compatriota. Mas até laços de família eram
para a d o r a r menos importantes que lealdade a Deus (veja
Apenas seis semanas após fazerem o voto as palavras de Jesus: Mt 12.46-50).
solene da aliança com Deus, o povo pediu uma
réplica dos antigos deuses do Egito. "Eles eram Ê x 33: A g l ó r i a d e D e u s
um povo escravo, que ainda tinha a mentalida- Deus não voltaria atrás na sua promessa,
de de escravos, por mais que Deus os tivesse mas Israel perdeu a presença dele e, sem a
libenado" (R.A. Cole). E Arão, o sumo sacerdo- presença de Deus, a terra prometida não seria
te de Deus, não só fez o bezerro, como também nada. Mais uma vez Moisés intercedeu pelo
o identificou com Deus. povo num momento de crise. A resposta de
A morte era a penalidade para aqueles Deus o incentivou a pedir que Deus se reve-
que violassem a aliança, mas Israel foi salvo lasse a ele em todo o seu esplendor.
pela oração altruísta de Moisés. As tábuas • Face a face (33.11) N m 12.8 acrescenta
quebradas p r o c l a m a v a m dramaticamente como explicação: "claramente, e não p o r
que a aliança havia sido rompida. Tal peca- enigmas".
do não podia deixar de ser castigado. • Peço-te que me mostres a tua glória (33.18)
• 32.14 Deus levou em consideração a reação Moises queria ver Deus como ele é. mas
humana, nem tanto "arrependendo-sc", mas seres humanos só podem ver Deus em sua
agindo de maneira diferente. passagem, somente nas coisas que ele fez.
176 entateuco

A importância do tabernáculo O t a b e r n á c u l o o r a u m a t e n d a p a r a D e u s , c o m dou i


Alee Motyer c o m p a r t i m e n t o s , m o n t a d a d e n t r o d e u m espaço
f e c h a d o o n d e e r a m o f e r e c i d o s o s sacrifícios. Naqtxi tj
espaço, q u e m e s t a v a n o c o m a n d o e r a m o s s a c c r d o u l
e levitas.

0 povo de Deus estava acampado rifa o povo com a outra metade do A idéia básica d e u m a estrutura portátil é atestada I
junto ao monte Sinai. Todos os dias sangue (v.8), criando uma identi- n o lígito desde antes d e 20üt) a . C . O s exemplos qur \
f o r a m e n c o n t r a d o s possuem unia estrutura d e viga*! f
eles olhavam com temor para a nuvem dade entre eles e o sacrifício feito
que cobria a monte (Êx 19.16-22), pois por eles tanto inicialmente como
isto significava que Deus estava che- pelas fraquezas e pecados do dia
gando para falar com eles. Foi durante a dia.
a permanência naquele lugar que, ins- Assim, o monte Sinai representa o
truídos por Moisés, eles providencia- cumprimento de metade da promes-
ram materiais que seriam usados na sa de aliança feita em Ê X 6.7: "Farei
construção de uma complexa tenda com que vocês sejam o meu povo".
que viria a ser chamada de "taberná- Deus os trouxera para junto de si e, no
culo". No dia em que essa estrutura sangue derramado, deu-lhes um meio
finalmente ficou pronta e foi erguida, de viverem e andarem com ele.
"a nuvem cobriu a tenda da congre-
gação, e a glória do S E N H O R encheu o A presença d e Deus
tabernáculo" (Êx 40.34). O Senhor de E que dizer da outra metade da
fato tinha vindo para habitar entre o promessa de aliança? Deus havia dito
seu povo. Este é o significado maior também: "e eu serei o seu Deus" (ÊX
do tabernáculo. 6.7). Ao fixar residência entre eles,
armando a sua Tenda entre as tendas
A cerimônia deles, o Senhor realiza esse segundo
A cerimônia descrita em Êx 24 tipo de identificação com o seu povo.
coloca a entrega da lei em seu devido Ele é, de fato, o Deus deles. O taberná-
contexto. Dela faziam parte os seguin- culo representa a plenitude e o ponto
tes elementos: alto da redenção do povo de Deus.
• O altar, com suas 12 colunas (v.4), Tudo o que Deus havia feito tinha
simboliza que todo o p o v o de em vista este propósito final: "habi-
Deus estava na presença dele (pois tarei no meio dos filhos de Israel" (ÊX
havia 12 tribos de Israel). A verda- 29.43-46).
de foi expressa numa pedra, ou Em toda a narrativa que trata do
seja, esse relacionamento deveria tabernáculo, a grande ênfase é a pre-
ser permanente. sença de Deus. Esta ênfase é expressa
• Derramar a metade do sangue de duas maneiras:
do sacrifício no altar (v.6) significa • Há uma série de textos que tratam
que é por meio do sangue derra- deste assunto (p. ex., Ê X 25.8,22;
mado que o povo pode chegar ã 29.42-46; 40.34-38). Deus queria que
presença de Deus. O pecado ine- o seu povo sempre levasse consi-
vitavelmente significa morte; ele go os valores aprendidos no monte
traz afastamento da presença de Sinai. Ali Deus havia habitado no
Deus. Mas uma vez feita expiação meio deles e eles viram a manifesta-
do pecado, as pessoas podem ser ção visível da presença dele.
trazidas a Deus e desfrutar da sua • Mas Deus não estava apenas
presença. dando-lhes algo que pudessem
• A seguir, Moisés apresenta ao povo lembrar. Ele decidiu habitar entre
a lei de Deus. É ela que é o padrão eles, caminhar com eles. O taber-
de obediência que Deus requer do náculo representa algo ainda
povo comprado com sangue (v.7). mais intenso ou profundo do que
• O povo se compromete com uma a experiência no Sinai (compare
vida de obediência, e Moisés bor- 24.18 com 40.35). Eles não ficaram
78 Pentateuco

com o brilho desvanéceme de uma que é visível, quando, na verdade, o em seu povo (ICo 3.16; Ef 2.19-22);
experiência que, com o passar do tabernáculo existia como o indispen- que Deus quer que seu povo o adore
tempo, se tornaria cada vez menos sável "invólucro" para o Deus invisível, segundo a vontade dele e não como
importante. Ao contrário, habi- quando este descia para estar com o povo imagina que deveria ser (veja
tando entre eles, o próprio Deus o seu povo. O fator determinante é Mc 7.6-13); e que somente através de
garantia a realidade sempre atual Deus e sua natureza, não os homens sacrifício e sangue derramado é que
e constante de sua presença. e suas necessidades. os pecadores podem ter comunhão
A narrativa do tabernáculo é Desta forma, o tabernáculo resu- com o santo Deus (veja Ef 2.11-18;
interrompida e manchada pelo episó- me uma verdade bíblica fundamental Hb 10.19-25).
dio do bezerro de ouro (Êx 32—34). sobre religião: ela precisa ser molda-
Antes desse ato de rebeldia aparece, da pela natureza e vontade de Deus.
em todos os detalhes, no texto, o Sempre de novo a Bíblia desmascara
projeto do tabernáculo (Êx 25—31). a tendência humana de adaptar a reli-
Depois dele, aparecem, passo a gião às suas próprias necessidades e
passo, os detalhes da execução do expectativas. Agora, se a religião não
projeto (Êx 35—40). Por que temos corresponder com a vontade de Deus,
de acompanhar o processo de cons- ela será, em última análise, vã e sem
trução do tabernáculo nos mínimos sentido (veja, p. ex., Is 29.13).
detalhes? Não bastaria o resumo que
aparece em Ê X 40.16-33? Por que dar A arca d a a l i a n ç a
destaque a cada nova fase do proje- Bem no centro dessa religião teo-
to? Certamente para enfatizar esta cêntrica ou dirigida pela vontade de
grande verdade: que nem mesmo os Deus estava a arca. Tudo apontava
mais audaciosos e obstinados atos para ela. Três entradas correspon-
de rebeiião humana podem levar o dentes (Êx 26.31-32,36-37; 27.16-17)
Senhor a desistir de seu propósito de levavam até ela, pois o propósito de
morar entre o seu povo. Ele decidiu se entrar no pátio do tabernáculo
fazer isto segundo o que ele mesmo era ter acesso à presença de Deus.
havia planejado e nada poderia levá- Ao longo do caminho que levava à
lo a mudar de idéia. Nós até pode- arca ficava o altar dos holocaustos (Êx
mos ficar impacientes e nos rebelar, 27.1-8), o altar do incenso (30.1-6), e o
mas Deus é paciente e insiste em propiciatório (a tampa da arca), sobre
continuar. o qual era derramado o sangue do
sacrifício (Êx 25.17-22; Lv 16.14), para
Uma r e l i g i ã o c e n t r a d a e m mostrar que o ser humano somente
Deus podia se aproximar de Deus por meio
Portanto, o tabernáculo expressa de sacrifício, oração e a eficácia do
a verdade de que o Senhor decidiu sangue derramado.
morar entre o seu povo, e a vontade Dentro da arca estavam as tábuas
de Deus determina todo o plano da da Lei, a declaração verbal suprema
grande Tenda e de sua construção. da santidade de Deus (ÊX 25.16). Esta
A partir de Êx 25.10, a descrição santidade era a razão por que Deus
deixa de lado o interior e se volta para habitava sozinho (pois ninguém está
o exterior: a mobília, a arca, a mesa à altura da santidade dele) e também
e o candelabro (25.10-40), depois a a razão por que por meio de sangue
cobertura (26.1-37), o altar e o pátio um pecador podia chegar à presença
(27.1-19). dele (pois o sangue mostra que uma
É uma narrativa bem ordenada, vida foi entregue em pagamento pelo
mas, pensando bem, a ordem é sur- pecado).
preendente e inesperada. Seria de Portanto, toda a estrutura do
esperar que o "edifício" viesse em tabernáculo expressa verdades cla-
primeiro lugar, seguido pelas coisas ras e maravilhosas. O tabernáculo é
que estavam dentro dele. Mas isso um resumo visível das afirmações
seria o mesmo que começar pelo centrais da Bíblia: que Deus habita
êxodo 179

Ex 34: A r e n o v a ç ã o d a a l i a n ç a
As tábuas foram gravadas novamente, sim-
bolizando a renovação da aliança p o r parte
de Deus. Esta seleção específica de leis foi
influenciada pela recente idolatria de Israel
e também pelas futuras tentações represen-
tadas pela religião dos povos canancus. O s
primogênitos de Israel pertencem a Deus,
mas seriam "comprados de volta" o u resgata-
dos — não deveria haver sacrifício de crian-
ças como em Canaã. N o futuro, ao estarem
muito ocupados com o plantio e a colheita,
eles não deviam esquecer a lei do sábado.
Os primeiros frutos deviam ser trazidos a
Deus, já que era ele quem tornava a terra
fértil. Israel não deveria lançar mão da prá-
tica comum entre os cananeus de cozinhar o
cabrito no leite de sua mãe com o propósito suas decorações, e as vestes dos sacerdotes fica- Deus t i r o u seu
aumentar a fertilidade. ram exatamente como Deus havia prescrito. p o v o d o Egito,
guiando-os
A longa comunhão de Moisés com Deus Q u a n d o a obra terminou, Deus instruiu pela região
montanhosa e
foi demonstrada em sua face quando ele vol- Moisés a que armasse e organizasse o taberná-
semi-árida da
tou para junto do povo: ele começou a refle- culo, para que fosse consagrado. Arão e seus península d o
tir um pouco da glória de Deus (veja 2 C o filhos foram ungidos para o serviço. Sinai, rumo à
rerra prometida.
3.18). Quando tudo ficou pronto, Deus demonstrou
sua satisfação. A nuvem, símbolo visível da pre-
Êx 3 5 — 4 0 : M o n t a n d o sença de Deus, cobriu a tenda, e o lugar ficou
o tabernáculo de Deus cheio da luz resplandecente da glória de Deus.
Estes capítulos registram como as instru- Durante 300 anos, até ser substituído pelo
ções dadas nos caps. 25—31 foram cumpridas Templo na época de Salomão, o tabernáculo
ao pé da letra. O s artesãos foram ao trabalho, de Deus foi o centro da adoração do povo de
o povo entregou suas ofertas e o tabernáculo, Israel.
Resumo
O livro das leis de Deus

LEVÍTICO para o seu povo.

Caos. 1—15
Sacrifícios para removei
o pecado e renovar a
comunhão com Deus
Os sacerdotes
Puro e impuro

Levítico é o livro das leis derivado diretamen- do tabernáculo não


Caps. 16—27
te da aliança de Deus com seu povo no Sinai. É mais se aplicam, pois Questões de conduta,
essencialmente um texto destinado aos sacerdo- o "único sacrifício que moralidade e santidade
tes, que deverão instruir o povo. Jesus ofereceu uma só O dia da expiação
Levítico é apresentado como as instruções vez" é suficiente para
de Deus a Moisés. Sempre de novo aparece o perdoar "os pecados
refrão: " O S E N H O R disse a Moisés..." Para muitos, do mundo". Também
na tradição judaica e cristã, o livro foi escrito não mais se aplicam
por Moisés. Porém, não há um autor declarado e aos cristãos as antigas
muitos pensam que o material, na forma em que leis sobre alimentos. Os
se encontra hoje, foi organizado por um escritor apóstolos resolveram esta questão, à medida que
que viveu depois do tempo de Moisés. as boas novas começaram a ser pregadas entre os
No Sinai, o povo de Israel entrou num relacio- não-judeus. Muitas das detalhadas regras de saúde
namento todo especial com Deus, muito pareci- e higiene também pertencem, em grande parte, a
do com acordos que, naquele tempo, eram feitos uma era e um estilo de vida do passado.
entre um rei poderoso e uma nação de menor O que permanece e tem valor perene são os
importância (Éx 20—23). As regras detalhadas princípios básicos, o caráter imutável de Deus, a
de vida e adoração estabelecidas em Levítico são necessidade que os seres humanos têm do per-
centradas numa única afirmação: dão, a expiação e a restauração do relacionamen-
"Sejam santos, pois eu, o S E N H O R , O Deus de to com Deus que se cumpriria em Cristo.
vocês, sou santo." (Lv 19.2)
É por isso que os pecados devem ser levados
a sério, e isto explica a leis a respeito de pureza, L v l — 7
saúde e higiene. O povo de Deus deve ser distin- Os sacrifícios
to e diferente das nações à sua volta, cuja religião Essas instruções se d i r i g e m , inicialmen-
não exigia moralidade e santidade. Um relacio- te, à pessoa que ia oferecer u m sacrifício
namento íntimo com Deus significa uma vida de ( 1 . 1 — 6 . 7 ) , e, n u m segundo momento, aos
obediência e fé. sacerdotes (6.8—7.6). Elas dizem respeito a
Levítico não é muito lido pelos cristãos de cinco tipos de sacrifícios:
hoje. Um livro de regras para sacerdotes do Israel
antigo parece despertar apenas o interesse de 1. O h o l o c a u s t o (cap. 1; 6.8-13): a única
alguns curiosos, e a própria descrição de sacrifí- oferta em que o animal inteiro era queimai
cios de sangue é repulsiva para muitos. A "nova do; um símbolo de dedicação.
aliança" substituiu a antiga. 2. A o f e r t a d e c e r e a i s o u d e m a n j a r e s
Porém Deus ainda é santo e exige que seu (cap. 2; 6.14-18): geralmente uma oferta
povo seja santo. A famosa afirmação de Jesus, que acompanhava o holocausto o u a oferta
"ame o seu próximo como você ama a si mesmo", de comunhão.
vem deste livro. Levítico tem muito a dizer sobre 3. A o f e r t a d e c o m u n h ã o o u o s sacrifí-
o cuidado adequado pelos pobres, estrangeiros c i o s p a c í f i c o s (cap. 3; 7.11-36): restabe-
e pela terra. E, mais importante ainda, a com- lecia a comunhão entre o ofertante e Deus, e
preensão da morte de Cristo que aparece no NT, unia os ofertantes como família e / o u comu-
ou seja, que Cristo remove o nosso pecado, que nidade enquanto festejavam; ou poderia ser
Cristo tomou o nosso lugar na cruz, baseia-se nos uma oferta de ação de graças.
conceitos estabelecidos em Levítico. 4. A o f e r t a p e l o p e c a d o p o r ignorân-
Mas que partes de Levítico ainda são válidas? c i a (4.1—5.13; 6.24-30): feita para obter
Aqui a Carta aos Hebreus ajuda (e serve de exce- o perdão. Não está claro qual o relaciona-
lente "comentário"). É claro que as regras e os rituais mento entre esta oferta e a oferta pela culpa
(item 5). Em geral, a oferta pelo pecado • Nem f e r m e n t o n e m m e l . . . t e m p e r e com
parece referir-se a ofensas contra Deus, e sal (2.11-13) Fermento o u mel causavam
a oferta pela culpa a ofensas contra o pró- fermentação. Por detrás desta regra talvez
ximo. (Mas mesmo os pecados contra os estivesse o papel desempenhado pelo v i n h o
outros são considerados pecado contra Deus, (bebida fermentada) nos excessos cometidos
como 6.2 afirma claramente). na religião dos cananeus. O sal, por outro
5. A o f e r t a p e l a c u l p a o u p e l o s a c r i l é g i o lado, é conservante e lembrava a aliança de
(5.14—6.7; 7.1-10). Deus com o seu povo.
• Não comam g o r d u r a (7.23) Esta parte
0 ritual seguia um padrão definido. A pes- "especial" o u "nobre" do animal era oferecida
soa que oferecia o sacrifício trazia a sua oferta a Deus.
(um animal sem defeito físico tirado do pró- • ... p r o i b i d o s de comer o sangue (7.26) A
prio rebanho, ou, no caso dos pobres, rolinhas razão disso é dada em 17.10-14 (veja nota).
ou pombas) até o átrio do tabernáculo. Colo-
cava a mão sobre a oferta, para indicar que
esta era sua propriedade e se destinava a ser Lv8—10
um substituto. Depois, a vítima era imolada. A consagração dos sacerdotes
(Em caso de oferta pública, quem fazia isso
era o sacerdote.) O sacerdote pegava a vasi- L v 8: A c e r i m ô n i a
lha com o sangue do sacrifício e o respingava Terminada a descrição dos deveres sacri-
no altar. Queimava uma determinada parte do ficiais do sacerdote, Moisés implementou as
animal com certas porções de gordura (ou o instruções dadas em E x 29. N u m ritual com-
animal inteiro no caso do holocausto). O res- plexo c impressionante, A r ã o e seus filhos
tante era comido pelos sacerdotes, o u pelos são consagrados sacerdotes. Moisés e x e r -
sacerdotes e suas famílias, o u ( n o caso da ceu as funções sacerdotais em lugar deles.
oferta de comunhão) pelos sacerdotes e ado- O sangue na orelha, na mão e no dedão d o
radores juntos. pé direito de A r ã o indicava a consagração
A prática de oferecer algum tipo de sacrifício do homem todo ao serviço de Deus, o u v i n -
era como que universal entre os povos antigos d o e colocando em prática as instruções de
e os sacrifícios de Israel têm algumas seme- Deus.
lhanças com os de seus vizinhos. No entanto, N o tabernáculo
havia um altar
certas características são singulares:
para os sacrifícios
• 0 monoteísmo absoluto de Israel, ou seja, e um altar para
o incenso. Este
a crença num único Deus verdadeiro, e o
altar, feito d e
ritual como instrução vinda diretamente pedra calcária,
c o m um chifre
de Deus.
e m cada canto,
• A ênfase d a d a à ética e à m o r a l i d a d e , data da época
e m que
decorrente da p r ó p r i a s a n t i d a d e moral
o s israelitas
absoluta dc Deus; o pecado como barreira conquistaram
que impede a c o m u n h ã o ; a necessidade Canaã.

de arrependimento e expiação; a insistên- Foi encontrado


em Megido
cia na obediência à lei de Deus ( m o r a l e e é provavelmente
cerimonial). u m altar
d e incenso.
• A completa a u s ê n c i a (e p r o i b i ç ã o ) de
práticas associadas que eram comuns em
outras religiões; nada de magia o u de fei-
tiçaria (veja "Magia no A T " ) .
• 0 alto padrão do sistema sacrificai: nada
de delírios, prostituição ritual, orgias, ritos
de fertilidade, sacrifícios humanos, etc.
• Aroma a g r a d á v e l a o S E N H O R ( 1 . 9 ) Esta
é a forma humana de expressar a satisfação de
Deus com a oferta. O povo sabia eme Deus
não precisava ser alimentado por eles, pois
era Deus quem os alimentava com o maná.
Pentateuco

Sacrificios
Nobuyoshi Kiuchi

Oferecer sacrifícios era o aspecto as pessoas discutem o que deveriam dilúvio (compare 8.21-22 com 6.5-7), o
central do culto no AT, e todas as comer numa ocasião especial, como, sacrifício de Noé fez com que a atitu-
pessoas daquele tempo sabiam do por exemplo, na festa do Natal. Portan- de de Deus em relação à sua criação
que se tratava. No entanto, isto é to, as pessoas matavam um animal para passasse de uma ira destruidora a uma
algo que intriga os leitores de hoje. comer carne quando queriam sinalizar promessa de preservação futura.
Como podia essa prática tão rude e que o momento exigia uma celebração
cruel aproximar uma pessoa de Deus, especial. Fazer isso envolvia um custo Restaurando a paz
e ainda por cima perdoar pecados? considerável. Disto passamos ao conceito de
No entanto, tanto o AT como o NT Ao oferecer um sacrifício, a pessoa expiação, que ocupa um lugar cen-
indicam que isso de fato era assim. estava, por assim dizer, acolhendo o tral na visão bíblica dos sacrifícios. 0
Na verdade, no NT a morte de Cristo convidado mais importante que se sacrifício é uma forma de lidar com os
na cruz é vista como o ponto alto e poderia imaginar: o próprio Deus. O problemas criados pelo pecado, que
cumprimento de todos os sacrifícios que se oferecia em sacrifício era a destrói a paz que deveria existir entre
de animais no AT. Assim, precisamos comida que se daria a um convidado Deus e a humanidade. Outros povos
fazer um esforço para entender a de honra. Embora a Bíblia dê bastante viam nos sacrifícios uma maneira de
função dos sacrifícios na cultura dos atenção à forma como os diferentes alimentar os deuses, mas esta idéia é
adoradores do tempo do AT. sacrifícios de animais deviam ser ofe- enfaticamente rejeitada na Bíblia. Deus
recidos, ela também mostra que cada é o criador: ele não precisa ser alimen-
Contexto um desses sacrifícios era acompanha- tado pelas suas criaturas. Ao contrário,
Precisamos imaginar como era a do por uma oferta de cereais (seja o ele é quem alimenta os seres humanos
vida numa pequena aldeia onde pra- grão em si, seja a farinha ou o pão) (Gn 1.29-30; SI 50.8-13). Qual, então, a
ticamente todos tinham um pedaço e por uma libação de vinho (que era razão dos sacrifícios?
de terra, que era cultivado para derramado no chão, ao lado do altar
conseguir o sustento da família. Era — Nm 15.1-12). Portanto, um sacrifício P o r q u e o s sacrifícios?
uma agricultura de subsistência, e as era uma refeição especial preparada A primeira vez que, na Bíblia, se
pessoas se consideravam felizes se em honra do Criador. fala sobre sacrifícios é imediatamen-
conseguiam chegar ao final do ano te após Adão e Eva serem expulsos
com algum cereal de sobra para a Só o melhor era b o m do jardim do Éden. A segunda vez
semeadura do ano seguinte. que chega é logo após o dilúvio. Estas histórias
Os bens mais preciosos que se Nesse contexto, podemos entender mostram o que é o pecado e quais
tinha eram os animais. A maioria dos por que nenhum desses animais podia as suas conseqüências. Adão e Eva
moradores da aldeia teria um reba- ter algum defeito (p.ex., Lv 1.3). Seria morreram espiritualmente, ao serem
nho de ovelhas ou de cabras. Os mais uma grande falta de respeito querer afastados de Deus. Nos dias de Noé,
ricos teriam alguns bois e algumas enganar Deus com algo de qualidade a maioria dos homens pereceu no
vacas, animais de grande valor por- inferior (2Sm 24.24). dilúvio. Foi o suave cheiro do sacrifí-
que puxavam o arado e as carroças, Foi o que Caim tentou fazer, ofe- cio de Noé que levou Deus a mudar
além de fornecer carne e leite. recendo apenas alguns produtos da de atitude, prometendo nunca mais
A maioria das pessoas era semi- terra, ao passo que Abel ofereceu as tornar a destruir a sua criação.
vegetariana, não por convicção ou primícias do seu rebanho e a gordu- Nas passagens que falam sobre
decisão pessoal, mas porque não podia ra (Gn 4.3-5). Não admira que Deus sacrifícios, muitas vezes se menciona
se dar ao luxo de carnear seus valiosos tenha rejeitado o sacrifício de Caim. esse "cheiro suave". Também se diz
animais. As pessoas comiam carne A colocação desta história bem no que os sacrifícios são oferecidos para
quando recebiam uma visita importante começo da Bíblia mostra a importân- "fazer expiação", ou seja, os pecados
(p. ex., 2Sm 12.1-6), por ocasião de um cia, no caso dos sacrifícios, das atitu- dos fiéis são perdoados e eles estão
casamento, ou nas grandes festas reli- des certas e das ações adequadas. outra vez em paz com Deus.
giosas como a Páscoa. Ainda em socie- Esta mensagem é reforçada em Gn Agora, por que a atitude de Deus
dades mais ricas de nossos dias pode-se 8. Embora a humanidade continuasse em relação aos pecadores é mudada
ver um reflexo dessa atitude, quando tâo pecadora quanto era antes do através dos sacrifícios?
Vários "modelos" são usados • Isto nos traz à idéia de que o san- O s j u d e u s d e i x a r a m d e oferecer sacrifícios
q u a n d o seu T e m p l o foi d e s i r u í d o pelos
para interpretar os sacrifícios, e a gue faz expiação. O sangue repre- romanos e m 70 d . C , mas os samaritanos
maioria deles tem alguns pontos em senta a vida. E era a vida do animal, a i n d a c o n t i n u a m c o m o sistema sacrificial
d a antiga a l i a n ç a .
comum: "derramada" na morte, que resta-
• Todos os animais oferecidos em belecia a paz entre Deus e as pes-
sacrifício, bem como o vinho e os soas (Lv 17.11). Às vezes esse san-
cereais, representavam o que de gue era visto como o pagamento • Seu sangue nos purifica de todo
mais precioso tinha a pessoa que de um resgate, a vida do animal pecado ( U o 1.7).
trazia o sacrifício. Eram coisas essen- substituindo a vida do pecador Por fim, o livro de Hebreus (caps. 8;
ciais à vida dessa pessoa. Trazendo (p.ex., nos holocaustos). Outras 10) deixa claro que Cristo é tanto o
essas ofertas, a pessoa devolvia a vezes era visto como pagamento sacerdote perfeito quanto o último
Deus os dons mais preciosos que de uma dívida (a oferta pela culpa). sacrifício, pois a morte dele faz com
havia recebido. E podia, ainda, ser visto (no caso que todos os sacrifícios de animais
• A vítima sacrificial representava de oferta pelo pecado) como uma que alguém, porventura, ainda quei-
a pessoa que oferecia o sacrifício. forma de purificar tanto pessoas ra fazer sejam desnecessários.
Colocar a mão sobre a cabeça da como lugares e objetos, possibi-
vítima era uma forma que o ofer- litando a Deus, que é totalmente
tante tinha de dizer "este sou eu". puro e santo, se fazer presente
Quem oferecia o sacrifício estava, entre o povo.
ou se dedicando a Deus (prova-
velmente um aspecto central no A morte d e Cristo
caso dos holocaustos), ou reco- Todas estas imagens são reunidas
nhecendo que, por causa dos seus no NT, na interpretação da morte de
pecados, merecia morrer e que o Cristo.
animal estava morrendo em seu • Ele é o verdadeiro cordeiro de
lugar (p. ex., em sacrifícios para Deus que tira o pecado do mundo
tirar a culpa de pecados). A vida do (Jol.29).
animal era entregue em lugar da • Ele deu a sua vida em resgate por
vida do ofertante. muitos (Mc 10.45).
L v 9: A r ã o e s e u s f i l h o s tas delas expressam. Deus age em e através dos
assumem o cargo processos que ele embutiu no mundo natural.
É significativa a ordem dos primeiros sacri-
fícios que eles ofereceram: L v 11: L e i s s o b r e a l i m e n t o s
1. U m a oferta pelo pecado: obtendo purifi- As regras para a dieta do povo foram cla-
cação e perdão. ramente estruturadas: casos duvidosos foram
2. U m holocausto de dedicação a Deus. excluídos. Israel podia comer:
3 . U m a oferta pacífica: a c o m u n h ã o c o m • A n i m a i s q u e r u m i n a m e t ê m o casco
Deus é restaurada e desfrutada. fendido.
• Criaturas do mar que possuem barbatanas
L v 10: F o g o ! e escamas.
A alegria durou pouco. Logo Nadabe e Abiú, • Aves que não aparecem na lista daquilo
filhos de Arão, decidiram fazer as coisas do seu que é proibido.
jeito, e Deus respondeu ao fogo com fogo, redu- • Insetos pertencentes a quatro classes da
zindo o sacerdócio a três pessoas. Possivelmen- família dos gafanhotos.
te estavam sob a influência de bebida alcoólica Entre os alimentos proibidos estavam:
(10.9). Seja lá qual tenha sido a razão, a santi- • A n i m a i s c a r n í v o r o s (estes transmitem
dade de Deus exigia respeito absoluto daqueles f a c i l m e n t e infecções n u m c l i m a quen-
que o servem. Suas ordens deviam ser obedeci- te onde a carne se d e c o m p õ e cm pouco
das, não manipuladas. tempo).
• V . 6 O cabelo despenteado c as roupas • Carne de porco (muito perigoso pelo mesmo
rasgadas eram sinais de luto. motivo). Os porcos também são hospedeiros
• V. 9 Os sacerdotes de Deus deviam evitar de vários parasitas.
os excessos de Canaã, onde a bebedeira fazia • Insetos e aves de rapina (igualmente hos-
parte dos ritos religiosos. pedeiros de doenças).
• V. 16 A oferta pelo pecado do povo devia ser • Moluscos (estes ainda são causa comum
comida pelos sacerdotes na área do santuário de intoxicação alimentar e enterite).
como sinal de que Deus aceitara a oferta. A Os vs. 32-40 estabelecem normas para pre-
desculpa de Arão não é clara, mas Moisés venir a contaminação de alimentos e água.
ficou satisfeito com a resposta. Princípios semelhantes regem normas gover-
namentais modernas de saúde pública.

Lv 11—15 L v 12: O p a r t o
Puro e impuro Em Canaã, a prostituição c os ritos de fer-
Hoje, se conseguirmos ir além dos detalhes tilidade faziam parte do culto. Em Israel, por
de algumas dessas leis quanto à pureza, pode- outro lado, qualquer coisa sexual ou sensual
remos compreender e apreciar os princípios era estritamente banida da adoração a Deus,
sensatos de dieta, higiene e medicina que mui- como este capítulo e o 1 5 deixam claro. A

Alimentos puros (ou kosher)

Estas são as leis alimentares (kosimit) usar o mesmo vasilhame e os mesmos talhe- precisa vir de um animal abatido de um jeite
observadas nos lares de judeus praticantes: res para carne e lacticínios. Após uma refeição especial, e se você não pode comer uma série
• Podem ser consumidos apenas animais que que inclua carne, é preciso esperar algumas de alimentos ou não pode fazer a mistura K
têm unhasfendidaseque ruminam. É proibido horas antes de ingerir produtos lácteos. muitos deles, você fica impedido de comer
o consumo de sangue, assim que os animais • Alimentos neutros, como peixe, ovos, (ora de sua casa e de sua comunidade, teto
precisam ser degolados e é necessário deixar cereais, legumes e frutas podem ser inge- é, portanto, uma arma que protege contra a
que se escoe o máximo de sangue possível. ridos tanto com carne quanto com produtos ameaça da assimilação" (Stanley Price).
• Somente podem ser comidos peixes que à base de leite.
têm barbatanas e escamas. Crustáceos não 0 resultado da observância dessas leis ali-
podem ser consumidos. mentares foi a constituição e preservação, ao
• Numa refeição e no seu preparo, deve haver longo dos tempos, de uma comunidade judaica
total separação entre carne e leite. Não se pode distinta. Porque "se a carne que você consome
• • • • • • B B

Sacerdócio no Antigo Testamento


Philip Jenson

Em todas as religiões existem líde- Desenvolvimento histórico


res que exercem uma função especial O desenvolvimento do sacerdó-
no relacionamento com a divindade. Da cio ao longo da história de Israel é
qualidade e honestidade do trabalho um tanto complexo. Datar e inter-
dos sacerdotes depende a experiência, pretar os textos de que dispomos
mais ou menos positiva, que o povo tem nem sempre é tarefa fácil. Vários tex-
de Deus e até mesmo o nível de vida em tos nos dão vislumbres do sacerdó-
sociedade. Israel não era diferente neste cio em vários momentos do AT:
particular, embora houvesse também • Os próprios patriarcas exercem
algumas diferenças significativas, em a função sacerdotal de oferecer
comparação com outros povos. sacrifícios (Gn 31.54).
Os lideres religiosos de Israel eram • A t r i b o de Levi r e c e b e um
os sacerdotes e os levitas. Eles eram ministério sacerdotal específico
especialistas em religião, responsáveis (Êx 32.26-29).
pelo bom relacionamento entre Deus • Arão e seus filhos são consagra-
e o povo. dos sacerdotes, e os demais clãs
levíticos são seus auxiliares (veja
As funções d o s s a c e r d o t e s abaixo).
Deus chamava sacerdotes para • Um grande conflito entre levitas
o exercício de uma série de impor- que queriam o mesmo status dos
tantes tarefas. Em Dt 33.8-10 apa- sacerdotes (Nm 16—17).
rece uma antiga descrição dessas • Um levita peregrino de caráter
tarefas. Esse texto se refere à tribo duvidoso é apontado para ser
de Levi, que havia revelado um zelo especialista religioso (Jz 17—18).
todo especial por Deus (confira Êx • Eli e seus filhos: uma peque-
32.26-29). Diante disso. Deus pediu na "empresa" familiar toman-
aos levitas que fossem um exemplo do conta d o templo em Siló
e se tornassem líderes religiosos: (1Sm 1—2).
• Deveriam ensinara Lei de Deus aos • Um sacerdócio que cresce em
demais israelitas. Nisto se incluíam, número e prestígio juntamente
não apenas instruções éticas mais com o crescimento da monar-
amplas (Os 4.1-6), mas também quia. O sumo sacerdote era, em Esta estampa d o s u m o sacerdote é baseada na
decisões sobre casos difíceis de d e t e r m i n a d o s momentos, um descrição e m F.x 28. Mostra a sobrepeliz azu) c o m
o s s i n i n h o s e m volta d a b o r d a ; a estola sacerdotal
natureza ritual e legal (Dt 17.8-12). importante líder político, além a m a r r a d a c o m u m c i n t o ; e o peitoral c o m as 12
• Eles cuidavam, também, dos luga- de ser um líder religioso (2Rs 11). pedras preciosas, u m a para cada u m a das tribos.
N a m a o d o s u m o sacerdote está o bastão de A r ã o
res sagrados e santuários, onde • Um grupo de levitas compondo ( N m 17).
eram oferecidos incenso e sacrifí- salmos para o uso do povo (SI 50
cios em favor do povo. e SI 73—83 são da autoria de
• Outra responsabilidade era o Urim Asafe, um levita). Os sacerdo-
Borlas d o u r a d a s , c o m o
eTumim, o meio oficial de se lan- tes e levitas eram responsáveis esta d o século 14 a.C.,
çar sortes, levando a uma respos- pelo relacionamento pessoal e encontrada e m Carquemis,
eram usadas pelo s u m o
ta de Deus em forma de "sim" ou cúltico do povo com Deus. sacerdote.
"não", O Urim e o Tumim ficavam • Vários grupos de levitas canto-
no peitoral do sacerdote, e eram res, instrumentistas e porteiros
usados por solicitação de pessoas participando do culto noTem-
ou do rei (1 Sm 23.9-12:28.6). plo(1Cr15).
186 Pentateuco

Uma visão fundamental por seus pecados e pela impureza missão e testemunho corporativo foi
^ para o culto de todo o povo (Lv 16; veja também retomado no NT (1Pe 2.9).
A descrição mais detalhada do "As grandes festas religiosas"). O propósito dos fariseus era fazer
sacerdócio se encontra em Êxodo, com que um grupo maior de pes-
Levítico e Números. Esses textos U m sacerdócio fora d o padrão soas observasse níveis de santidade
são, muitas vezes, atribuídos a uma Nos primeiros tempos, os sacerdo- sacerdotal. Entretanto, a tendência era
fonte sacerdotal (P), que, segundo tes serviam a Deus em lugares altos e aplicar isto acima de tudo ao âmbito
muitos eruditos, assumiu uma forma santuários locais (p. ex., 1Sm 21). No cúltico, e Jesus os censurou severa-
escrita num período mais recente da entanto, nesses lugares muitas vezes mente por negligenciarem pontos
história do povo de Deus do AT. No se adorava deuses estranhos, e não o mais importantes da Lei (Mt 23).
entanto, é possível que um texto mais SENHOR. Uma solução para este proble- O autor da carta aos Hebreus
recente inclua material mais antigo. ma foi centralizar tudo em Jerusalém, examina a fundo o significado da
Assim, outros eruditos sustentam onde ficava o templo nacional. Este pessoa e obra de Cristo em relação
que o núcleo fundamental dessas foi um dos objetivos da reforma de com a figura do sumo sacerdote que
instruções de natureza sacerdotal é, Josias (2Rs 23). aparece no AT. A função sacerdotal
de fato, antigo, por mais que admi- Nem mesmo em Jerusalém os específica de oferecer sacrifícios pelos
tam a possibilidade de que, com o sacerdotes estavam imunes às ten- pecados se tornou obsoleta diante da
passar do tempo, esse material foi tações que acompanhavam os privi- morte de Cristo. Diante disto, a igre-
retrabalhado e interpretado por légios do ofício que Deus lhes havia ja apostólica evitou descrever os seus
vários editores. dado. Uma dessas tentações era pre- líderes usando linguagem sacerdotal.
Seja como for, os textos sacer- ocupar-se tanto com a manutenção Mas o NT descreve, também, como
dotais nos propiciam uma visão da ordem vigente que tudo que lhes pessoas especializadas assumiram as
fundamental de como devia ser interessava era seu próprio conforto, outras funções sacerdotais de ensinar,
organizado o culto a Deus na vida levando-os a ignorar a situação espi- liderar e orientar. No AT, era função
do povo. Arão e sua família foram ritual desesperadora do povo. Em dos sacerdotes possibilitar que o
consagrados por Deus para oficiarem muitos momentos os profetas con- povo crescesse em conhecimento
no santuário. Assim, tinham de seguir denaram os sacerdotes, porque estes e santidade. Apesar da ruptura ou
padrões elevadíssimos de pureza e desviavam o povo do caminho e não descontinuidade trazida pela morte e
santidade. Os levitas estavam encar- ensinavam a Torá (Jr 18.18). ressurreição de Cristo, este continuou
regados de ajudar os sacerdotes nas É claro que havia exceções, como sendo um ideal para a igreja e a sua |
funções deles e zelar pelo taberná- podemos ver no caso de Ezequiel, liderança no NT.
culo (Nm 8). que era ao mesmo tempo profeta
Quando oficiavam, Arão e seus e sacerdote. Ele censura os sacer-
filhos usavam vestes suntuosas que dotes negligentes e apóstatas (Ez 8;
refletiam a santidade e função espe- Ez 22.26), mas, ao fazê-lo, se utiliza de
cial que desempenhavam. Em nome linguagem e figuras do âmbito sacer-
do povo, eles ofereciam a Deus dotal. Depois da destruição de Jeru-
sacrifícios que tinham a finalidade salém, suas promessas de salvação
de resolver o problema do pecado e a visão do futuro que ele projeta
e da impureza, possibilitando, desta estão relacionadas com a reconstru-
maneira, que Deus habitasse entre ção do templo e o restabelecimento
o seu povo (Lv 15.31; veja "Sacrifí- do sacerdócio (Ez 40—48).
cios"). As ofertas pacíficas, que eram
outro tipo de sacrifício, fortaleciam U m reino de sacerdotes
os laços de comunhão dentro da É possível que o sacerdócio como
comunidade e com Deus. Em nome grupo distinto tenha surgido no
de Deus, os sacerdotes instruíam o momento em que foi organizada a
povo em assuntos relacionados com nação, mas todo o Israel foi chamado
o culto (Lv 10.10). O sumo sacerdote para ser um "reino de sacerdotes e
tinha de observar normas rigorosas nação santa" (Êx 19.6). O povo deve-
de santidade, pois era quem chega- ria fazer o que os sacerdotes faziam,
va mais próximo de Deus. No Dia ensinando às outras nações o conhe-
da Expiação, ele oferecia sacrifícios cimento de Deus. Este conceito de

_
Levítico 187

intenção não era tachar de "suja" este aspecto Lv 15: Fluxos


da vida humana, algo que é confirmado por Veja o cap. 12. Foram dadas normas a res-
outras passagens das Escrituras. O propósito peito de fluxos normais (seminal e menstrual)
era assegurar que isso não fizesse parte da e fluxos anormais, possivelmente fluxos malig-
adoração a Deus. A regra de pureza absoluta nos. Foram prescritos banhos tanto para preve-
em todas as questões sexuais era também uma nir infecções como para esterilizar.
forma de proteger a saúde das pessoas. • Puro e impuro O fluxo de sêmen do homem
> Impureza após o parto Estas leis são c ;i menstruação feminina (ou o contato com
intrigantes, em especial porque o parto é um destes) tornavam o homem ou a mulher
elemento necessário no ciclo da vida que o ritualmente impuros. Nenhum destes era em si
próprio Deus criou e ordenou. O período mais pecaminoso e não havia necessidade de oferecer
longo de impureza no caso do nascimento de sacrifícios. No judaísmo posterior, apenas as
uma filha (80 dias, e não 40, como no caso regras relativas à menstruação continuaram em
do nascimento de um filho) se explica, talvez, vigor, efetivamente barrando as mulheres da
pela crença de que havia um fluxo de sangue adoração ou do contato com homens, naquela
mais longo após o nascimento de uma filha. época. Em Cristo, essas restrições não mais se
Os bebês em si não eram impuros. E não era aplicam, e, em nossos dias, nenhuma mulher
o pano, mas o fluxo de sangue, que tornava a deveria ter medo de ler a Bíblia e de participar
mulher "impura" no tocante à adoração a Deus dos cultos de adoração.
de maneira pura, sem poluição. (O cap. 15
tem regras semelhantes relacionadas ao fluxo
masculino e ao fluido seminal.) Em Cristo estas Lv 16
desqualificações não têm mais importância O dia da expiação
alguma, pois o sacrifício perfeito que ele ofereceu O dia anual de expiação para toda a nação
faz com que homens e mulheres que nele crêem foi marcado para o décimo dia do sétimo
sejam perdoados e estejam habilitados a entrar mês (o mês de tisri — setembro/outubro).
na presença de Deus a qualquer momento. Somente nesse dia Arão podia entrar no
> V. 6 Veja Lc 2.22-24. Lugar Santíssimo do tabernáculo de Deus,
onde ficava a arca da aliança. Primeiro ele
Lv 13—14: Suspeita de doença devia obter perdão e purificação dos seus
de pele próprios pecados. Só então poderia purifi-
Embora a palavra "lepra" seja usada cm car o tabernáculo e oferecer sacrifício pelos
várias versões, a verdadeira lepra é apenas pecados do povo.
uma das doenças de pele mencionadas aqui. Assim, ano após ano, Israel era lembrado
Ocap. 13 foi escrito em linguagem técnica, ou do pecado que os tirava da presença de Deus
seja, trata-se de um livro-icxio profissional que e da necessidade de expiação para trazer per-
ajuda o sacerdote-medico a fazer diagnósticos, dão c restaurar relacionamentos.
capacitando-o a distinguir entre formas "agu- No NT, a carta aos Hebreus entende que
das" e "crônicas" das várias doenças. Esta é a o Levítico foi cumprido cm Cristo. Os deta-
formulação mais antiga de normas de quaren- lhes da primeira aliança são "um símbolo para
tena c medicina preventiva relacionadas com hoje" (Hb 9.9). Cristo, o sumo sacerdote da
essas doenças. Em outras palavras, entre docu- "nova aliança", entrou, não num "santuário
mentos provindos do antigo Oliente Próximo, construído por seres humanos", mas "entrou
não existe nenhum texto mais antigo do que no próprio céu, onde agora aparece na presen-
este a tratar dessas questões. ça de Deus para pedir em nosso favor" (9.24),
Com relação a roupas e construções, a ele que, "ao se cumprirem os tempos, se mani-
"doença" é um mofo ou um fungo. festou uma vez por todas, para aniquilar, pelo
> 14.34-53 Atualmente existem sistemas sacrifício de si mesmo, o pecado" (26).
semelhantes de inspeção e tratamento para • Azazel (8,10) Um lugar no deserto para onde
mofo. era enviado o bode expiatório, simbolicamente
> Cedro (14.49) Essa madeira contém uma levando embora os pecados de Israel. O
substância usada na medicina para doenças significado é incerto, mas não pode referir-
de pele. se a uma oferta a um demônio, como alguns
> Hissopo (14.49) Uma eiva, possivelmente sugerem, pois isto era estritamente proibido
manjerona, que continha um anti-séptico suave. (veja, p. ex., 17.7).
Pentateuco

• Fora do acampamento (27) Nenhuma destas • V . 21 Parece que o sacrifício de crianças,


ofertas podia ser comida, já que ninguém devia isto é, queimar uma criança enquanto ainda
comer de sua própria oferta pelo pecado, e estava viva, era algo associado com o culto
Arão identifica-se com o povo na oferta pelo a fvloloque, o deus adorado pelos amonitase j
pecado deles. Compare H b 13.11-14. outros.
• V . 22 Entre os antigos egípcios e cananeus, j
a atividade sexual era quase que divinizada: j
Lv 17—26 prostitutas cultuais eram chamadas de
Leis para a vida "sagradas" ou "santas" e a prática homossexual
e para a adoração e a prostituição feminina faziam parte do culto.
Esta lei não está relacionada com predisposição,
L v 17: O s a n g u e é s a g r a d o mas com a prática desses atos. Em Lv 20.13,
O c o n t e x t o sugere que matar animais a penalidade prevista é morte. Ambos os
domésticos era considerado um tipo de sacri- textos ocorrem no contexto de ser santo e
"Sejam santos, fício. Assim, para impedir que fossem ofereci- como parte de toda uma lista de proibições. |
pois eu, o SENHOR,
o Deus de vocês, dos sacrifícios a demônios do deserto (17.7), Dificilmente alguém defenderia a aplicação da j
sou santo. " todos os sacrifícios deviam ser oferecidos no pena de morte, em nossos dias, no caso de tais
U19.1 lugar adequado, e à Pessoa adequada. (Em ofensas. Mas será que princípio envolvido não
Corinto, no N T , a maioria da carne vendida se aplica ainda hoje, em contraste com as leis
"Ame os outros
como você ama nos mercados havia sido "sacrificada aos ído- alimentares, que não mais se aplicam (como o
a você mesmo." los". E m I C o 8, Paulo lida com o problema que N T deixa claro)? Paulo obviamente acredita que j
Lv 19.18
isto causava aos cristãos daquela cidade.) sim (Rm 1.24-27): ele entende que a prática
"Os estrangeiros • 17.10-16 E o "sangue", isto é, a vida que homossexual de homens e mulheres é contrária j
que vivem na terra foi entregue o u "derramada" na morte, que ao propósito de Deus na criação. Deus dá valor
de vocês...
vocês devem consegue o perdão; o animal entra como ao nosso corpo e não é indiferente para cora J
amá-los substituto da pessoa que cometeu a ofensa. aquilo que fazemos com ele, seja no âmbito da Í
como vocês amam
a vocês mesmos." Uma vida preciosa, entregue, paga o preço da sexualidade, seja em qualquer outra atividade.
L v 19.33-34
liberdade de outros. Para os cristãos, a ligação É " n o corpo" que devemos glorificar a Deus e
com a morte expiatória de Cristo é inevitável. conhecer seu Espírito que em nós habita.
Compare Rm 5.8-9; E f 1.7.
L v 19: S a n t i d a d e e j u s t i ç a
L v 18: T a b u s s e x u a i s Este capítulo ecoa os dez mandamentos. 0
Lv 18.3 é a chave que abre o entendimento v. 2 está no centro da lei moral de judeus e cris-
desses capítulos. Com base no que conhece- tãos (veja IPe 1.15-16). A santidade de Deus,
mos sobre a religião dos cananeus e dos egíp- que devemos refletir, se manifesta na atenção
cios, é evidente que muitas dessas leis foram dada aos menos favorecidos (9-10,14,20), ou
dirigidas contra as práticas específicas dos seja, Deus cuida dos pobres, dos estrangeiros,
vizinhos de Israel. das pessoas com necessidades especiais. Deus
6-18: em Israel, o casamento entre paren- não quer a desonestidade, a exploração dos
tes próximos, tanto p o r vínculos de sangue outros, c a perversão da justiça (11,13,15). Em
como por casamento, era proibido. No Egito, outras palavras, se o salário atrasa, isso inte-
onde não existia uma legislação sobre o casa- ressa a Deus. Ele quer que respeite a vida e a
mento, tais uniões eram comuns. reputação dos outros (16-18).
19-30: o adultério, o sacrifício de crian- Deus também se preocupa com o mundo
ças, as relações homossexuais, e a bestiali- natural, com a maneira como cuidamos de |
dade (possivelmente um remanescente da sua criação. Ter paciência enquanto a árvore
adoração a animais) — tudo isso fazia das vai ficando mais velha significa aumento da
religiões indescritivelmente depravadas que produção a longo prazo (23-25). ( N o cap. 25
os habitantes da terra de Canaã praticavam. esse tema é ampliado em termos de cuidado
Israel devia evitar todo comportamento que pela terra.)
trazia o j u í z o de Deus sobre a terra (compare • Vs. 26b-31 Estas são todas práticas pagãs.
G n 15.16).
• V . 18 Jacó havia feito justamente o que L v 20: P e n a l i d a d e s
este texto proíbe, o que foi causa de muita Os v s . 6-21 descrevem as penalidades
infelicidade ( G n 29—31.) pela desobediência a leis que aparecem nos
Levítico ÍS9

caps. 18—19 (compare, p. ex., 6 com 19.31; 7. A F e s t a d o s T a b e r n á c u l o s ou d a s


9 com 19.3; 10 c o m 18.20). Para o leitor B a r r a c a s , em lembrança perpetua dos dias
moderno, aplicar a pena de morte a uma vividos em tendas após a libertação do Egito.
grande gama de ofensas parece u m casti- (Mais tarde, esta festa foi associada à colhei-
go demasiadamente severo. ( N o s casos em ta da uva, a vindima.)
que nós tiramos os delinqüentes d o conví-
vio social, mandando-os para a prisão, essas L v 24: O c a n d e l a b r o ; o p ã o
leis tratavam de removê-los p o r meio da sagrado; o pecado de blasfêmia
morte: um tipo de cirurgia moral/judicial.) O cap. 24 passa das festas especiais para
Em todos os casos — e é bom que se obser- dois deveres r e g u l a r e s : as lâmpadas que
ve isto — trata-se de oposição deliberada deviam ficar acesas na tenda de Deus, e a
à santa lei de Deus, o u , então, de ofensas oferta semanal de doze pães. Esses pães lem-
contra pessoas. Nenhuma delas diz respeito bravam às tribos sua dependência completa
a questões de bens o u propriedades. da provisão de Deus. Não eram colocados ali
• 20.13 Veja 18.22. para Deus comer (como nas religiões pagãs).
Havia uma clara orientação no sentido de que
Lv 21—22: L e i s p a r a o s s a c e r d o t e s Arão e os sacerdotes deveriam comer esses
Por causa da sua posição c de seus deve- pães.
res, os sacerdotes estavam sujeitos a rigo- Os vs. 10-23 registram a lei sobre a viola-
rosas normas de p u r e z a r i t u a l . Se alguma ção d o mandamento que trata do nome de
coisas os tornasse "impuros", isso significa- Deus. Dá-se ênfase ao fato de que a mesma
va que não podiam tocar em nada d e n t r o lei vale tanto para os israelitas corno para os
do santo templo de Deus. As regras para o estrangeiros residentes.
sumo sacerdote (21.10-15) eram ainda mais • O l h o p o r olho (20) O princípio expresso
rígidas (compare 11 com 1-2; 13-14 com 7 ) . por esta lei é o de uma justiça pública precisa
Nenhum homem que tivesse defeito físico e limitada, que proibia a vingança pessoal
poderia exercer o ofício de sacerdote, embo- c a matança ilimitada. O fato de se permitir
ra pudesse comer daquilo que era oferecido legalmente uma retaliação na forma de mutilação
em sacrifício. do corpo não significa necessariamente que essa
Apenas o melhor que podemos oferecer, era a prática. A compensação por ferimento
seja no sacerdócio ou nas ofertas sacrificiais, grave geralmente era feita na forma de multa
é digno de Deus. (como implica a exceção feita no caso de "A terra é
minha, pois
assassinato — Nm 35.31-34). vocês são
Lv 23: F e s t a s e c e l e b r a ç õ e s para mim
estrangeiros
As estações do ano, o plantio e a colhei- L v 25: A n o d e D e s c a n s o e peregrinos.'
ta eram marcados p o r festas especiais. A o e Ano do Jubileu
Lv 25.2»
exemplo do sábado semanal, elas refletem um Este capítulo prevê o tempo em que o povo
padrão com o número sete e evocam o fato de ocuparia a "terra prometida". O padrão do
Deus, na criação, ter dado um destaque espe- número sete, refletido nas festas (cap. 23), é
cial ao sétimo dia. estendido à terra. O sétimo ano seria u m ano
de descanso para a terra, ou seja, não haveria
1. O s á b a d o , isto é, um dia de descanso de plantio. Seria um ano no qual o povo, libera-
sete em sete dias. do de grande parte do seu trabalho normal,
2. A P á s c o a , s e g u i d a dos sete dias da devia ser instruído e treinado na lei de Deus
Festa d o s P ã e s s e m F e r m e n t o ( e m ( D t 31.10-13).
março/abril). O qüinquagésimo ano, após o sétimo perí-
3. A F e s t a d a P r i m e i r a C o l h e i t a (em odo de sete anos, seria outro ano de repouso
abril), seguida, sete semanas depois, pela para a terra, que reverteria a seu d o n o ori-
4. A Festa d a s S e m a n a s ( P e n t e c o s t e s ) , ginal. Nessa ocasião, aqueles que passaram
isto é, a festa da colheita (junho). por dificuldades poderiam readquirir a liber-
5. Festa d a s T r o m b e t a s , ou seja, a Festa dade e recuperar as suas propriedades. O
do Novo A n o , que era a primeira das três Ano do J u b i l e u , o u A n o da Libertação, tinha
festas no sétimo mês ( s e t e m b r o / o u t u b r o ) ; um duplo propósito: lembrava ao povo que a
sendo as outras terra pertence a Deus; e impedia os ricos de
6. O D i a d a E x p i a ç ã o ; c se apossarem de todas as terras.
190 Pentateuco

As grandes festas religiosas

As principais festas religiosas de


Israel estavam intimamente relacio- Páscoa e Pães Asmos
Êx 12.1-20; 23.15
nadas com as diferentes estações e
com o ano agrícola (Veja "O calendá-
rio de Israel", na Parte 1), lembrando A Páscoa era celebrada no primeiro mês Na festa da Páscoa, e d u r a n t e todaj
ao povo como Deus cuidava deles. d o ano (março/abril). Esta celebração c o m e - s e m a n a s e g u i n t e , a p e n a s se podia comer
Algumas dessas festas comemoravam mora a saída d o p o v o d o Egito, sob a liderança "pães asmos", isto é, pães feitos sem feri
os grandes acontecimentos da histó- d e Moisés. m e n t o , p o r q u e as m u l h e r e s não tiveram:
ria do povo, momentos em que Deus Nos t e m p o s d o AT e d o NT, cada família t e m p o de deixar o pão crescer por ocasião
os havia resgatado de forma memo- sacrificava u m cordeiro na v é s p e r a da Pás- da saída d o Egito.
rável. Assim, combinavam celebração c o a . Para esta festa, t o d o s os q u e p o d i a m Hoje, por ocasião da Páscoa, somente os'
festiva com pensamentos mais sérios se d e s l o c a v a m a J e r u s a l é m . Mas a refeição samaritanos ainda sacrificam cordeiros como
sobre a necessidade que tinham do da Páscoa era — e ainda é — uma c e l e - nos v e l h o s tempos. Os j u d e u s deixaram de
perdão e da ajuda de Deus. b r a ç ã o em f a m í l i a . 0 c a r d á p i o s i m b o l i z a f a z ê - l o q u a n d o os r o m a n o s destruíram o
Cada ano, havia três momentos diferentes aspectos da escravidão n o Egito t e m p l o e m 70 d.C.
marcantes ou festas nacionais das e d o ê x o d o . E cada a n o se r e c o n t a a h i s -
quais todos os "homens de Israel" tória d e c o m o o a n j o de Deus " p a s s o u p o r
deviam participar: Páscoa, Colheita e c i m a " das casas dos israelitas, d e i x a n d o - o s
"Tabernáculos". c o m v i d a , na noite em q u e f o r a m m o r t o s
os p r i m o g ê n i t o s d o Egito (veja "A Páscoa e
Dançarinos celebram a c o l h e i t a n u m kibutz
a última ceia"). ( f a z e n d a c o l e t i v a ) , e m Israel.

Atualmente, a Páscoa é
essencialmente uma celebração
familiar nos lares j u d e u s .

A o final da colheita dos cereais, 50 diai


(sete semanas) depois da Páscoa, v i n h a ;
Festa das Semanas, posteriormente chama-.
da de Pentecostes. Trazendo suas ofertas p
Deus, o p o v o era lembrado d e que a terras
tudo o que ela produzia era dádiva de Deus.
Este era um tempo de profunda gratidão.
Levítico

"Tabernáculos" Purim e Festa da Dedicação


Êx 23.16; L v 23.33-43
Essas duas festas n ã o estão previstas
Um segundo g r u p o de festas importantes na Lei.
ocorria no sétimo mês d o calendário judaico Purim (Et 9) comemora a libertação dos
(setembro/outubro). judeus da sanha assassina de Hamã na época
No primeiro dia d o mês (depois d o exílio, a d o Império persa.
Festa do Ano Novo), u m toque de t r o m b e - A Festa da Dedicação (Jo 10.22) cele-
tas sinalizava o início d o mês mais importante brava a purificação e dedicação d o templo após
do calendário d e Israel. Uma oferta de cereais sua profanação no tempo de Antíoco Epifanes,
era oferecida a Deus e n i n g u é m podia traba- em 168 a.C. (época do Império grego).
lhar naquele dia (Festa das Trombetas,
Hm 29.1).
No décimo dia daquele mês, era observado
i Dia da Expiação (Lv 16), u m m o m e n t o
em que todos confessavam o seu pecado e Acima, à esquerda: Crianças
e n c e n a m a história d e Ester
pediam a Deus q u e lhes concedesse perdão e na festa d e P u r i m .
purificação. Havia jejum desde o pôr d o sol d o
 esquerda: C h a n u k a h
nono dia até o p ô r d o sol d o dia seguinte. 0 (Dedicação), e m dezembro,
è a festa das l u z e s .
sumo sacerdote colocava suas vestes especiais.
Ele matava u m boi e m sacrifício pelos seus Sábado e lua nova
pecados e os pecados d e sua família, borrifan-
do parte do sangue diante da arca da aliança. Além das "três grandes festas", havia ainda
Esta era a única oportunidade e m q u e o s u m o outras.
sacerdote podia entrar no Lugar Santíssimo d o No sétimo dia da semana, todos paravam de
tabernáculo ( o u , mais tarde, d o templo). Ele trabalhar. Esta era a lei. O modelo para isto era
sacrificava u m bode pelos pecados d o p o v o e a criação d o m u n d o e m seis dias, seguido pelo
um segundo bode era mandado para o deserto, descanso n o sétimo. Correspondia a necessidade
Indicando que os pecados d o p o v o haviam sido que todos os seres humanos têm de descanso
levados embora. regular para reporem energias. As leis d o sába-
A Festa dos Tabernáculos (Barracas) d o passaram e ser rigorosamente observadas
caia no dia 15. Era uma festa q u e durava sete depois d o exílio {Jesus e seus discípulos tiveram
dias e celebrava o final da colheita das frutas, problemas e m relação a isso), e a guarda do
ocorrendo ao final da colheita das uvas e das sábado se tornou u m a espécie de marca regis-
olivas. 0 povo morava e m abrigos feitos c o m trada d o judaísmo até os nossos dias.
ramos, lembrando o t e m p o e m q u e viveram Desde os tempos antigos, havia refeições
em tendas, no deserto. especiais e sacrifícios e m família q u e marcavam
a festa da lua nova. As trombetas eram tocadas
para anunciar essa festa.

O a t o d e a c e n d e r as velas marca
o início d o sábado.
Pentateuco

L v 26: B ê n ç ã o s e c a s t i g o s rebanhos e os primeiros frutos d o campo


A recompensa pela obediência é retratada seriam de Deus p o r direito (ele aceita parte
como um idílio de paz e abundância. O melhor pelo t o d o ) . U m décimo de todo gado e dos
é que Deus andaria entre seu povo, como anda- p r o d u t o s da terra também são devidos a
ra com os primeiros seres humanos no jardim. Deus. A l é m disso, o p o v o podia consagrar
É a restauração do jardim do Éden. indivíduos o u bens a Deus em sinal de dedi-
A desobediência, p o r outro lado, traria cação o u ação dc graças. Normalmente estes
calamidades à nação: doenças fatais, fome, seriam resgatados pelo v a l o r determinado
feras devastando a terra e guerra levando ao mais um quinto.
exílio (como realmente aconteceu mais tarde • " C o n s a g r a d o " a o S E N H O R ( 2 8 ) Trata-se
na história de Israel). As maldições são mais de algo deliberadamente dedicado e separado
detalhadas que as bênçãos: com a natureza para Deus; portanto, não estava mais ao dispor
humana, o medo p r o d u z uma reação mais da pessoa. O v. 29 provavelmente se refere a
rápida que o amor. Porém, mesmo depois de uma pessoa "consagrada" na forma de uma
toda a desobediência. Deus promete atender o sentença dc morte.
pedido que brota de arrependimento sincero. • V. 34 Remete-nos à fonte de autoridade destas
e todas as leis em Levítico. Esses mandamentos
L v 27: Votos e d í z i m o s são de Deus, dados por intermédio dc Moisés,
Os primogênitos, as primeiras crias dos no monte Sinai.
Resumo
O diário de viagem

NÚMEROS
da jornada de Israel
desde o monte Sinai
ao rio Jordão

Histórias mais
conhecidas
Os doze espias
(cap. 13)
Este é o quarto dos "Cinco Livros de Moisés", ra civil e religiosa, A serpente de bronze
contendo as instruções de Deus (torá) para seu comandaram a con- (cap. 21)
povo. tagem, auxiliados por Balaão e o anjo
Números narra 38 anos da história de Israel, a um representante de (cap. 22)
saber, o período da peregrinação no deserto da cada tribo. No segun- Um novo líder: Josué
(cap. 27)
península d o Sinai. Ele começa dois anos após do censo (cap. 26),
a fuga do Egito e termina na véspera da entrada feito 38 anos mais
em Canaã. O título vem da "numeração" (censo) tarde, após a morte de
de Israel nos primeiros capítulos e no cap. 26. Arão, seu filho Eleazar
0 livro poderia ser chamado "As murmurações assume seu lugar.
de um povo". A confiança dos israelitas no Deus • 603.550 ( v . 46)
que os tirou do Egito evaporou-se quando come- Este é um número bastante alto: veja em Êx
çaram as dificuldades da vida no deserto. Núme- 12.37. Uma população total de cerca de 2 a
ros é uma longa e triste história de insatisfação e 3 milhões equivaleria a toda a população de
murmurações. Canaã, mas outras passagens dão a entender
Por causa da desobediência do povo, uma dis- que os cananeus eram mais numerosos que os
tância de cerca de 350 km tornou-se a viagem de israelitas ( D t 7.7,17,22).
uma vida. De toda uma geração que havia presen-
ciado as maravilhas da libertação do povo, operada N m 2: O a c a m p a m e n t o
por Deus na terra do Egito, apenas Moisés, Josué e A organização cm quatro grupos de três tri-
Calebe sobreviveram aos 40 anos de peregrinação. bos era igual tanto na hora de acampar como
Ou seja, somente três homens chegam até o final na hora de marchar. Q u a n d o o p o v o se des-
do livro e o ponto de entrada na terra prometida. locava, as três tribos d o leste, lideradas p o r
Nem o próprio Moisés entrou para desfrutar dela. J u d á , iam à frente. N m 10.17 dá uma ordem
Mas Deus permanece constante, sempre pre- um pouco diferente para a seção d o meio: os
sente com seu povo; e as lições difíceis que foram filho de Gérson e os filho de Merari carrega-
aprendidas capacitaram Josué a conduzir a nova vam a 'lenda de Deus, seguidos pelas tribos de
geração para seu novo lar. Ruben, Si meão e Gade c coatitas com a mobí-
lia e os objetos sagrados. As tribos d o norte,
Dã, Aser e Naftali formavam a retaguarda. Os
Nml—9 líderes tribais eram os mesmos que ajudaram
Preparando-se para partir com o censo.
Ramsés I I , o Faraó do Egito contemporâneo
Nm 1: O c e n s o de Moisés, usou esta mesma formação retan-
0 propósito do censo é alistar todos os homens gular na sua campanha na Síria. Assim, é pos-
de mais de 20 anos para o serviço militar. Os levi- sível que Moisés estava fazendo bom uso d o
tas, por virtude dos seus outros deveres, estavam treinamento militar que anteriormente havia
isentos. Moisés e Arão, os líderes do povo na esfe- recebido no Egito.

Manasses | Levitas carregando


Efraim | atenda de Deus
Benjamim Zebulom
194 Pentateuco

• As 12 tribos Trata-se dos filhos de Jacó depois que os sacerdotes os desmontavam e


( J u d á , Issacar, Zebulom, Ruben, Simeão, cobriam.
Gade, Dã, Aser, Nafiali, Benjamim) e dos dois V s . 21-28: os f i l h o s d e G é r s o n esta-
filhos de Jose (Efraim c Manasses). Os levitas vam encarregados de transportar as cortinas
— a tribo de sacerdotes de Israel — eram e os revestimentos da Tenda e do pátio sob a
separados, pois pertenciam a Deus. supervisão de Iiamar.
• O s estandartes/bandeiras (2.2) A tradição V s . 29-33: os f i l h o s d e M e r a r i deviam
judaica suplementa os símbolos: um leão para proteger e transportar a estrutura — colunas,
J u d á , uma cabeça humana para Ruben, um estacas e cordas — também sob a supervisão
boi para Efraim, uma águia para Dã. de Itamar. Os filhos de Gérson e de Mera-
ri dispunham de carroças puxadas por bois
N m 3: U m a m i s s ã o e s p e c i a l (7.7-8).
A reivindicação dos primogênitos por parte
de Deus começou na noite da Páscoa (Êx 12). N i n 5: J u l g a m e n t o p e l a p r o v a
Agora os levitas substituem os primogênitos V s . 1-4: aqueles que eram "impuros" (veja
de todo Israel na missão especial de auxiliar Lv 13; 15; 21) ficavam de quarentena.
os sacerdotes no serviço d o Senhor. Mas o Os vs. 5-10 estipulam a compensação quan-
censo mostrou que os primogênitos de Israel do alguém prejudicava outra pessoa.
excediam os levitas cm número (273) c para Os vs. 11-31 dizem respeito às mulheres
redimir esse grupo excedente foi necessário suspeitas de infidelidade. Na ausência de evi-
fazer um pagamento. dência devia haver um julgamento por prova.
• S i d o para o santuário (3.47) Uma quanti- Julgamentos deste tipo eram comuns na anti-
dade de prata equivalente a 12 g; não se guidade, e são bem conhecidos ainda em par-
tratava, pois, de uma moeda. tes da África e índia. Comparado com outros,

N m 4: O p a p e l d o s
levitas
O s e g u n d o censo dos
levitas alista i n d i v í -
duos entre 30 e 50
anos, qualificados
para cuidar da Tenda
de Deus. (Os limites
de idade v a r i a r a m

N o inóspito
deserto d o Sinai
o s israelitas
tiveram saudades
d o E g i t o fértil,
com seus legumes
frescos, peixes
e aves.
Uma pintura
tumular egípcia
mostra homens
caçando aves nos
banhados. Os dois
peixes numa lança
remontam
ao segundo
milênio a . C .
no Egito.
Números 195

Troniberas
de praia eram
rocadas para
este chega a ser brando c está menos orienta- N m 8: A d e d i c a ç ã o d o s l e v i t a s convocar o povo
c para levantar
do para um veredicto de culpa. Não é claro se Os vs. 1-4 d i z e m respeito às lâmpadas acampamento.
a água continha alguma erva que provocaria para a sala externa da Tenda de Deus (veja
aborto caso a mulher fosse culpada e estava Êx 27.20-21; L v 24.1-4). O restante do capí-
grávida, ou se funcionava apenas por suges- tulo trata dos levitas.
tão psicológica. Aqueles que serviam a Deus deviam ser
completamente puros. A o se lavarem c rapa-
Nm 6 . 1 - 2 1 : O n a z i r e u rem o corpo, eles garantiam a pureza exter-
Um voto especial dava ao nazireu (que não na. O sangue do sacrifício limpava a mancha
deve ser confundido com nazareno, natural de interna do pecado.
Nazaré) seu status espiritual. Os sinais exter-
nos da consagração a Deus são: N m 9.1-14: A s e g u n d a P á s c o a " O SENHOR
tc abençoe
• abstinência do v i n h o o u qualquer outra N i n g u é m podia deixar de celebrar a Pás- e te guarde;
bebida f o r t e ( o s s a c e r d o t e s t a m b é m coa (veja E x 12). Mas quem estivesse ausen- o SENHOR faça
resplandecer
deviam ser a b s t e m i o s , c o m o p a r t e da te o u a pessoa que fosse ritualmente impura o seu rosto
adequação para se apresentarem diante na época p o d i a c e l e b r a r a festa um mês sobre ti e tenha
misericórdia
de Deus; isto também pode r e f l e t i r u m depois. de ti; o SENHOR
sobre ti levante
compromisso c o m a simplicidade da vida • Não quebrarão nenhum osso (9.12) Compa- o rosto c tc dê
nômade, em contraste com as influências re J o 19.36. I C o 5.7 descreve Cristo como a paz."
corruptoras da civilização); "nosso cordeiro da Páscoa." Bênção d e A r ã o
• cabelos sem corte; sobre Israel.
N m 6.24-26
• cuidado