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A violência contra a mulher é uma expressão da questão social, e para tal

enfrentamento é necessário fortalecer as politicas públicas para as mulheres, porém


no sistema econômico vigente tais políticas tem se apresentado apenas na
perspectiva de minimizar às problemáticas. Desse modo, é necessário uma reflexão
sobre a violência contra a mulher e de como se apresenta a rede de proteção as
mulheres atualmente.

1. PATRIARCADO: AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO

1.1 Patriarcado e gênero: dois conceitos que dialogam

Para ponderar sobre o gênero é preciso conceituá-lo e, considerar sua


trajetória histórica. Foi nos movimentos de mulheres que o campo de estudo de
gênero surgiu. Segundo Guimarães (2005), Teve sua formulação na academia no
ano de 1970, depois foi adquirindo espaço e autonomia no campo de pesquisa
acadêmica, para melhor compreender seus desdobramentos teórico-metodológicos
e políticos atingindo até hoje status mais consistentes.
O termo Patriarcado vem do grego “árjo”, que significa mandar e ”pater” que
significa pai, referindo-se a um território ou jurisdição governados por um patriarca.
Esse termo foi utilizado primeiramente pelos hebreus para designar as famílias
formadoras daquele povo. O patriarcado é um sistema social baseado no controle
dos machos sobre as fêmeas, no qual há relações hierárquicas entre os homens e
solidariedade entre eles, que os possibilitam a controlar as mulheres. (SAFFIOTI,
2004)
No pensamento Grego, toda a figura que não era identificada como adulto e
do sexo masculino, devia obediência aos homens. Esse pensamento permeou e se
perpetuou nas relações sociais em todos os níveis até os dias de hoje. Tendo
transportado desta civilização a figura do homem provedor, se estimulou que ele
seria a mais alta autoridade do meio em que vive, prevalecendo suas convicções, o
que faz intensificar/fortalecer os conceitos de desigualdade entre homens e
mulheres em questões físicas e sociais.
Assim, para Saffioti o patriarcado:

1 – não se trata de uma relação privada, mas civil; 2- dá direitos sexuais aos
homens sobre as mulheres, praticamente sem restrição. [...] 3 - configura
um tipo hierárquico de relação, que invade todos os espaços da sociedade;
4 – tem uma base material; 5 – corporifica-se; 6 – representa uma estrutura
de poder baseada tanto na ideologia quanto na violência. (SAFFIOTI, 2004,
p. 57e 58)

Esse modo de definir esse conceito deixa totalmente claro e real o poder do
homem e a submissão dos que não pertencem ao mesmo sexo. Existe uma
desvalorização da mulher até mesmo pela forma física, que é sempre dita quase
poeticamente como o sexo frágil, o que já mostra um caráter de desvalorização do
sexo feminino, o que acaba por querer castrar a mulher em suas potencialidades
desenvolvidas ou a serem desenvolvidas. Essa expressão de que o corpo feminino
é frágil tem por finalidade incutir um mecanismo de que ela deve ser protegida por
outro ser, inviabilizando o conceito de mudança e superação seja física, mental ou
emocional.

Para compreender como se dá a relação de poder entre homens e mulheres


precisamos conceituar gênero. Segundo Lucena:

A categoria gênero ajuda-nos a compreender que o lugar da mulher na


sociedade é socialmente construído enquanto subordinação do feminino ao
masculino. Por ir além do sexo biológico, o gênero pressupõe que o esforço,
a dupla jornada do trabalho, a maternagem, os cuidados com o outro em
detrimento de si próprias muitas vezes são concebidos socialmente como
da “natureza”, como “coisas de mulher”. Assim sendo, a divisão sexuada do
trabalho e os espaços de subordinação feminina deixam de ser
questionados, contribuindo para que não se reconheça a produção de
valores de uso, de bens e serviços que compõem a geração da riqueza
cada vez mais acumulada nas mãos de poucos, na sociabilidade
contemporânea do capital. (2010, p. 26)

De acordo com Araújo (2000, p. 69), “gênero é relacional e, nesse sentido um


gênero só existe em relação com o outro”. Dessa forma gênero surge na tentativa de
entender a reprodução da subordinação e como a dominação masculina é mantida
em varias manifestações, introduzidas nas dimensões subjetivas e simbólicas de
poder. Ainda a autora complementa que:
[...]esse conceito fosse assumido também pelo feminismo de base marxista,
preocupado em responder à permanência de relações de opressão entre
homens e mulheres, mesmo em contexto econômicos e políticos
diferenciados. Trata-se de importante recurso analítico para pensar a
construção/desconstrução das identidades de gênero, isto é, os caminhos
através dos quais os atributos e lugares do feminino e do masculino são
social e culturalmente construídos, muito mais como significados do que
como essência. (ARAÚJO, 2000, p. 69)

Segundo Arrazola por gênero entende-se:

categoria relacionada de análise, relação social historicamente constitutiva


da sociedade, sua organização, dinâmica e contradições e como identidade
subjetiva. Quer dizer, o gênero, concebido também como relações sociais
de sexo, é uma construção social histórica do feminino e do masculino.
Enquanto relação social, constitui relações desiguais e hierárquicas, de
dominação-exploração masculina sobre as mulheres, organizadas a partir
das diferenças percebidas entre seus corpos sexuados, concebidas como
expressão da “natural” superioridade masculina inferioridade e dependência
feminina. As relações de gênero são, portanto, relações de poder.
(LAMAS,1997; SAFFIOTI, 1992; SCOTT, 1991 apud ARRAZOLA, 2010, p.
227)

A mulher passou por fases diferentes durante a história e seu


desenvolvimento social. Inicialmente enfrentou um estagio de exclusão quando não
existia o direito de trabalhar, e as que trabalhavam eram tidas como descumpridoras
da lei. Seguiu outro estágio, o de proibição severa e limitações. De acordo com o
autor Gaudêncio (2005), era necessário que o marido permitisse para que ela
exercesse qualquer papel fora da sua casa. Foram cobradas por parte legislativa
aos empregadores, imposições de regras que buscavam questões de segurança e
higiene o que os levava a optar por não empregar pessoas do sexo feminino, visto
suas desvantagens para a empresa.

Mas isso tornava a prejudicar as mulheres uma vez que os empregos eram
concedidos fora da lei, o que acabava por desprotegê-la totalmente, visto que a
maioria necessitava trabalhar para sobreviver. E depois chegou uma fase de
proteção para o publico trabalhador feminino em relação aos horários, boas
recomendações dos trabalhos anteriores sem proteção, essas transições marcadas
por profundas mudanças tecnológicas e sociais. Portanto, vale ressaltar que
somente na Constituição Federal de 1988, a igualdade entre homens e mulheres em
todos os níveis foi promulgada e divulgada. (GAUDÊNCIO, 2005)

De acordo com Castro (2000), na década de 1970 na Europa, nos EUA e


também na América Latina iniciam varias publicações feministas no campo do
materialismo histórico para explicar o contexto social e econômico da mulher, com
ênfase no mercado de trabalho capitalista. No intuito de discutir a divisão entre
trabalho produtivo e não produtivo, tendo também como introdução o debate sobre o
conceito de produção e reprodução, o valor do trabalho doméstico e a relação entre
a divisão sexual e social do trabalho.

Já o final da década de 1980 como afirma Castro (2000) é de regressão na


dinâmica da produção marxista no campo teórico feminino, pois o conceito de
patriarcado sobrepõe o conceito de gênero e do trabalho “em favor de práticas
culturais dos significados do corpo, e de prazeres”. (p. 101)

Nesse sentido, o trabalho das mulheres no âmbito urbano e rural é marcado


pela invisibilidade seja ele para o mercado, para o autoconsumo familiar ou
autônomo, não tem o devido reconhecimento como trabalho, pois ainda predominam
as características de atividades complementares e de ajuda ao marido, pai ou irmão.
Como aponta Arrazola.

Tais atividades são concebidas como desligadas do processo produtivo e


consideradas simples extensão do desvalorizado trabalho domestico e das
atividades da reprodução (divisão sexual do trabalho) essencializadoras do
feminino pela ideologia patriarcal que as concebe como obrigação e dever
das mulheres dada sua natural condição, a maternidade e “definidora” do
seu lugar social. (ARRAZOLA, 2010, p.235)
O modelo da sociedade patriarcal é enraizado culturalmente pela opressão,
hierarquização, divisão sexuada dos papeis e da subordinação da figura da mulher,
sendo o homem o dominador. Tais relações constituem nas desigualdades entre
homens e mulheres que de tal maneira, ocasionam as relações violentas entre os
sexos.
Com isso, o sistema patriarcal que forma nossa sociedade mantém uma base
de desigualdades, impossibilitando e limitando o âmbito feminino nas variadas
esferas sociais, submetendo suas qualidades e capacidades físicas e/ou intelectuais
à figura masculina que se apodera tornando-se hegemônico nas relações sociais e
econômica.

1.1.1 Historicizando o conceito de violência contra a mulher

A violência de gênero deve ser compreendida como uma relação de poder,


caracterizado pela dominação do homem e pela submissão da mulher. Segundo as
autoras Saffioti e Almeida (1995, p. 159) violência de gênero é uma expressão mais
recente, e busca designar um padrão de comportamento que “[...] visa à
preservação da organização social de gênero, fundada na hierarquia e desigualdade
de lugares sociais sexuados que subalternizam o gênero feminino”.

A violência de gênero é uma questão que se faz presente nas variadas relações
sociais, na sociedade ocidental, e que por muito tempo foi invisibilizada e tolerada. A
desigualdade entre os sexos é intrínseca ao sistema patriarcal, o que demonstra
fortemente a hierarquia nas relações de gênero.

O enfrentamento da violência contra a mulher tem origem a partir do movimento


feminista, que se iniciou com uma ação coletiva e política das mulheres para a
mudança nas relações desiguais de domínio entre os sexos.

A violência contra a mulher é produto de uma construção. Podemos chamar de


violência toda conduta que se baseia em gênero que venha acarretar dano, morte,
sofrimento que pode ocorre nos âmbitos físico, sexual e psicológico. Segundo Pinafi
(2007), o combate a violência de gênero foi dado pela (ONU), Organização das
Nações Unidas, criando em 1949 uma comissão de status da mulher, que formulou
varias teses contra a violência culminando com à igualdade de direitos entre homens
e mulheres na Declaração Universal dos Direitos Humanos, garantindo igualdade de
direitos sem distinção entre homes e mulheres.
UYUUTT
No Brasil foram desenvolvidas varias medidas de proteção almejando
estabelecer uma solução de combate à violência contra mulher. Foi fundada no Rio
de Janeiro em 1981 o SOS Mulher com objetivo de oferecer um espaço para
mulheres vitimas de violência, vindo a ser também um espaço de reflexão e
mudanças nas condições de vidas das mulheres que enfrentavam esse problema,
logo depois foram fundadas SOS Mulher também em São Paulo e Porto Alegre com
as mesmas funções e finalidades. Essa luta por estabelecer igualdade de direitos
resultou também na criação do conselho Estadual da condição Feminina no ano de
1983, em 1985 foi implantado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e a
primeira delegacia de Defesa da Mulher (DDM). (PINAFI, 2007)

Os movimentos feministas denunciaram as relações desiguais entre homens e


mulheres baseadas na submissão/dependência da figura feminina ao homem. O
homem tem sua imagem agregada à ideia de superioridade, dominador das relações
sociais, familiares, afetivas, significando uma relação baseada na violência, típica do
patriarcado. Estas relações com características patriarcais não se limita ao espaço
doméstico, mas reflete também na vida pública:

[..] é possível compreender como as várias faces das relações humanas


originam-se dos processos materiais e históricos, desencadeados a partir
das relações que homens e mulheres estabelecem com vistas à produção e
reprodução de suas vidas e de suas necessidades. (ARAÚJO, 2000, p. 65 e
66,)

O modelo de sociedade brasileira também é pautado aos moldes de cultura


patriarcal caracterizado pela opressão, exploração e as relações sociais desiguais
marcados por princípios burgueses.
Segundo Lucena (2010, p. 22) entende-se violência como “aquelas relações
que violentam e contrariam o direito e a justiça, através de variadas formas de
estranhamento; ou seja, de desumanização.”
A violência faz parte da história da humanidade exercendo papéis importantes
e diversos nas diferentes formas de relação e organização social. Assim para Saffioti
e Almeida (1995), é um tema discutido que vem adquirindo cada vez mais espaço,
por causa do seu agravamento na contemporaneidade, por sua interferência no
cotidiano dos homens e mulheres. Sendo um fato real, complexo e multifacetado
que traz efeito específico na sociedade capitalista, e que tem sido um assunto de
frequente mediação do Estado via políticas públicas, com um enfoque especial para
a violência de gênero. Para à Convenção de Belém do Pará,

Entender-se-á por violência contra a mulher qualquer ato ou conduta baseada


no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico
à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada. (CONVENÇÃO DE
BELÉM DO PARÁ, 1994, ART. 1°)

É na década de 1970, que surge o termo violência contra mulher fruto dos
movimentos feministas, ao despertar a sociedade e divulgar que as mulheres eram
alvo principal da violência praticada pelos homens. Começa a ser objeto de
denúncia em 1980, a partir das manifestações feministas, até então as mulheres
sofriam a violência em silêncio. Com as lutas feministas o tema violência se tornar
público.

Nesse contexto o movimento feminista teve um importante papel no que diz


respeito às lutas e conquistas de políticas sociais para as mulheres. No primeiro
momento essas lutas feministas estavam ligadas na perspectiva de denúncia, no
segundo momento foi desenvolver ações que buscam garantir o atendimento e o
apoio via serviços exclusivos para mulheres que viviam em situações de violência.
(GUIMARÃES, 2005)

A violência é uma das maneiras mais frequentes para controlar as mulheres,


uma atitude universal de exercício do poder masculino e a componente central da
dominação de gênero. Essa legitimação e a execução da violência de gênero
acontecem graças aos mitos prescritos na sociedade que naturalizam a colocação
subalternas das mulheres e homens que exercitam sexualidades não homogêneas.
(SAFFIOTI e ALMEIDA, 1995)

A violência é um produto e, ao mesmo tempo, um elemento estrutural na


subordinação das mulheres, dependendo fortemente, para sua
perpetuação, desta mesma subordinação, na qual as mulheres perdem a
sua condição de sujeito. A violência, portanto, é um componente das
relações desiguais de gênero e, por isso, “atravessa” as demais relações
sociais, sobrepondo-se a elas, e manifestando-se de forma relativamente
homogênea em todas as classes e segmentos sociais. (PORTELLA, 2005,
p. 93,)

Para a compreensão da questão da violência contra a mulher devemos


considerar os diferentes entendimentos: violência contra a mulher, violência
doméstica, violência intrafamiliar, violência de gênero e outras. A violência contra a
mulher pode acontecer em todos os âmbitos, ou seja, dentro de casa ou fora dela.

Dessa forma, a figura da mulher associada consequentemente a um ser


submisso, que deve obediência ao homem, constata-se a violência doméstica
quando ocorrem dentro de casa, nas relações entre pessoas da família, como
companheiros, maridos, amantes, namorados, ou seja, pela pessoa que a mulher
mantém uma relação afetiva/conjugal. E afetam proporções não apenas entre as
partes, agressor e agredido, mas, se estendem para todos os membros da família.

Assim a violência intrafamiliar é toda ação ou omissão que prejudique o bem-


estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno
desenvolvimento de outro membro da família. (LISBOA; PINHEIRO, 2005)

Diante do exposto das variadas formas de violência contra as mulheres


supracitadas, vale ressalta a nova Lei que inclui a questão do Feminicídio 1 no código
penal, sancionada recentemente pela Presidente do Brasil Dilma Rousseff, no dia 09
de março de 2015. O homicídio contra as mulheres a partir da aprovação da Lei
passa a ser classificada como crime hediondo, isto, implica o não pagamento de
fianças dos acusados, podendo ser responsabilizados por 12 a 30 anos de prisão.

1
Termo utilizado para qualificar o assassinato de mulher justificado pelo gênero.
1.2 IMBRICAÇÕES ENTRE A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E A “QUESTÃO
SOCIAL”

1.2.1 A violência contra a mulher como expressão da “questão social”

Vivemos em uma sociedade em que a violência se manifesta em todos os


lugares, de todas as formas, gerando cada vez mais vítimas “como se fosse um
vírus que contaminasse as pessoas provocando uma verdadeira epidemia na
sociedade”. (MEDEIROS, 2005, p. 100). Vimos que esse fenômeno não se
apresenta apenas no atual contexto contemporâneo, mas abrange toda historia da
humanidade.

Tratar à violência como um fenômeno das relações sociais não implica dizer
que toda a mulher sofrerá com a mesma intensidade da mesma agressão,
considerando que cada uma tem sua singularidade. Concordamos com a autora ao
dizer que:

[...] pelo fato de tratar do fenômeno da violência contra as mulheres como


estrutural das relações sociais e, portanto, conferir-lhe um estatuto de
problema social e político que diria respeito a toda a sociedade e não
apenas às mulheres. Afirmar a universalidade do problema leva à exigência
de responsabilização pública e governamental com relação ao mesmo e
chama a atenção para a sua natureza emergencial, mas, como em qualquer
processo de generalização, deixa escapar singularidades e, com isso, a
complexidade do fenômeno. (PORTELLA, 2005, p. 94)

Dessa forma, compreendemos que a questão da violência contra a mulher


trata-se de uma perversa realidade social, ou melhor, de uma singular persistência
da desigualdade que no atual estagio do desenvolvimento capitalista apresenta a
seguinte configuração, é uma desigualdade que além de produzir e multiplicar novas
injustiças sociais em meio a um avanço científico tecnológico resgata também
antigas desigualdades de injustiças que somadas às novas implicam nas relações
sociais. (PORTELLA, 2005)

Visto que, a relação da questão social e gênero se dar a partir da ampliação


da hierarquização e da desigualdade entre homens e mulheres:

Consideramos a problemática de gênero como uma das expressões da


questão social, uma vez que essas, mediante as diferenças construídas
socialmente entre homens e mulheres, reproduzem desigualdade ao serem
apropriadas e refuncionalizadas pelo capital, favorecendo, portanto, a
manutenção e o fortalecimento da classe dominante. (RUSSO; CISNE;
BRETTAS, 2008, p.144)

Uma vez que, o Estado é capitalista, entendemos que a condição da mulher


está relacionada a uma cultura de subordinação vinculada a manutenção e
reprodução do capital. Nesse sentido, o modo de produção capitalista reproduz a
opressão da mulher para ao seu fortalecimento.

Em suma, o sistema capitalista produz e reproduz a desigualdade econômica


e social entre os sexos destituindo apenas uma parcela da população aos direitos
sociais, gerando obstáculos para a construção de uma sociedade em que se efetive
a liberdade, a justiça, a democracia e a igualdade. Após o exposto da violência de
gênero como uma das expressões da questão social, iremos debater sobre as
políticas públicas para as mulheres.

1.3 O ENFRENTAMENTO A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER POR MEIO DAS


POLÍTICAS PÚBLICAS

1.3.1 - Políticas públicas para as mulheres

Ao analisar o fenômeno da violência contra a mulher, deve-se primeiramente


compreender a discriminação histórica da mulher, onde ocorre a desigualdade
econômica, social e política entre ambos os sexos, isto porque a mulher sempre
ocupou e ocupa um papel inferior. Portanto é a ausência da igualdade que legitimiza
à violência.

Faz-se necessário também á compreensão da atual dinâmica da sociedade


brasileira marcadas pelas transformações do capitalismo contemporâneo, das
ultimas três décadas do século XX ate os dias atuais. Em um contexto onde se inclui
a crise do capital e os procedimentos de restauração, assim como analisa
(ARRAZOLA, 2010, p. 227 apud BEHRING, 2003) “a contra-reforma do Estado
como sua base de sustentação. Estado que, como a sociedade, concebo como um
estado de classe, patriarcal e racista”.

A restauração capitalista e a reforma do Estado, como resposta á crise do


capital, além de possuir característica na divisão de classe, também implicam no
caráter sexuado ou generizado, no modo em que esses procedimentos atingem
diferentes e com desigualdades a mulheres e homens, assim, reproduz a
desigualdade de relações de gênero. (ARRAZOLA, 2010)

Dessa forma, cabe ao Estado como provedor do “bem comum” não se


ausentar do seu papel, no atual contexto em que a sociedade contemporânea
necessita de intervenção imediata, como, resolução nas relações de desigualdades
de gênero e principalmente ampliação em políticas públicas para as mulheres.

Até o momento, estivemos limitadas ao campo das políticas específicas e,


no plano da sociedade, apenas começamos a esboçar uma rejeição da
violência contra as mulheres, restrita ao plano das opiniões e sem qualquer
eficácia prática. Não se pode negar que milhares brasileiras devem suas
vidas a estas políticas e às ações do movimento de mulheres, mas não
podemos omitir também que ainda estamos longe de tocar nas condições
que constroem a violência e perpetuam injustiças e
desigualdades.(PORTELLA, 2005, p. 99)
A expressão da violência contra a mulher vem mostrando algumas
particularidades que requer um olhar crítico para essa demanda seja no âmbito
político, econômico e social. Trazendo Pernambuco como exemplo.
“um contexto fortemente marcado pela confluência entre cultura patriarcal,
desigualdades sociais, estagnação econômica e enraizamento de redes
criminosas nacionais e internacionais e sabendo que este é um contexto
presente em outras áreas do Brasil.” (PORTELLA, 2005, p. 96)

Dessa forma, o Estado de Pernambuco necessita, para o enfrentamento da


violência contra a mulher, da implementação de políticas públicas de caráter
preventivo, com intuito de minimizar as expressões da violência contra a mulher
contribuindo para o empoderamento e qualidade de vida das mesmas.

Como a violência é um problema complexo, as soluções políticas para a sua


prevenção e erradicação são também complexas, requerendo uma
compreensão ampla da questão – ou seja, entendendo que é um problema
da sociedade e do Estado e não das mulheres –, exigindo vastas e criativas
ações voltadas para diferentes grupos sociais e a mais abrangente
intersetorialidade entre as políticas públicas (PORTELLA, 2005, p. 98)

É importante que as políticas públicas tenham sua atuação direcionada para o


combate da discriminação, reforçando que os direitos das mulheres também
constituem nos direitos humanos.

O governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, criou a Secretaria de


Política para Mulheres (SPM), em 2003, tendo a violência doméstica como uma de
suas especialidades. Sendo assim, as ações para o enfrentamento à violência
contra as mulheres passam a ter um maior investimento e a política é ampliada no
sentido de promover a criação de novos serviços (como o Centro de Referência, as
Defensorias da Mulher) e de propor a construção de Redes de Atendimento para a
assistência às mulheres em situação de violência. (POLÍTICA NACIONAL, 2011)

Vale salientar que, as políticas públicas de segurança supracitada têm como


arcabouço as delegacias especializadas de atendimento à mulher, os centros de
referência e as casas-abrigo. Porém, cabe também: “os serviços de atendimento a
mulheres em situação de violência na rede de saúde, as ações de capacitação das
polícias e profissionais de saúde para a identificação de casos de violência contra as
mulheres, e as políticas de assistência social e proteção policial para as mulheres
em situação de risco”, entre outras. (PORTELLA, 2005, p. 99)

Em 20072 de janeiro foi criada a Secretaria da Mulher pelo Governo


Pernambuco, que tem como objetivo debruçar sobre o diagnóstico do problema da
violência contra as mulheres, bem como as elaborações das ações de
enfrentamento. Em fevereiro, inicia-se a pesquisa sobre o atendimento as mulheres
nas delegacias especializadas, de plantão no território estadual e lançada a
campanha “Violência contra a Mulher é Coisa de Outra Cultura3”. Dessa forma, no
mesmo ano em maio é implementado o plano Estadual de combate à violência
contra as mulheres, o plano faz parte do Pacto pela Vida – com objetivo de prevenir,
punir e erradicar, no prazo de oito anos a violência em Pernambuco.

Entretanto, ainda com esses “avanços” em termos serviços e políticas de


enfrentamento para as mulheres adotadas com propósito de intervir nessa realidade,
Pernambuco retrata um alto índice de violência praticado contra a mulher. Os dados
revelam que “de 2006 a 2012 houve uma redução no índice de violência contra a
mulher de 40%. No entanto, de 2012 a 2013, houve um aumento de 24%. No
ranking dos estados, Pernambuco está entre é o 5° mais violento e Recife é a 6°
capital mais violenta4.” (DIÁRIO DE PERNAMBUCO).
Outra pesquisa, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada –
IPEA5, entre maio e junho de 2013 com objetivo de saber opiniões de brasileiros
quanto à violência contra a mulher, os dados apresentam uma “sociedade com

2
Disponível em <
http://www.senado.gov.br/comissoes/documentos/SSCEPI/DOC%20VCM%20034.pdf> . Acesso em:
04. Junho. 2014.
3 A Campanha Violência Contra a Mulher é Coisa de Outra Cultura é coordenada pela Secretaria

Especial da Mulher e integra as ações do Plano Estadual para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência
Contra as Mulheres e do Pacto pela Vida. Ver site: <http://www2.secmulher.pe.gov.br/web/secretaria-
da-mulher/campanhas>

4Disponível em: <http://blogs.diariodepernambuco.com.br/segurancapublica/?tag=violencia-contra-


mulher >. Acesso em 01. Junho. 2014.
5
Disponível em: <http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/03/b-culpa-e-delasb-e-o-que-pensam-
os-brasileiros-sobre-violencia-contra-mulher.html> >. Acesso em: 19. Junho. 2014.
cultura patriarcal, e opressora, que busca controlar o corpo feminino e que culpa a
mulher pelas agressões sofridas”.

Entre os entrevistados, 58,5% acham que, se as mulheres soubessem se


comportar haveria menos estrupo; 26% dos brasileiros concordam com a
ideia de que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser
atacadas e 25% dos entrevistados concordavam total ou parcialmente com
essa afirmação. (IPEA, 2014)

Podemos observar como é predominante o pensamento machista na


sociedade brasileira, mesmo com a criação da Lei Maria da Penha em 2006 é
preciso ainda ter avanços no combate à violência de gênero.

Esses dados nos mostram que apesar de políticas sociais de enfrentamento


voltadas para esse segmento da população há uma fragilidade alarmante para
combater tais expressões da questão social, seja pela fragmentação de tal política
ou da falta de denúncia por parte das mulheres. Concordamos com a autora.

Não é fácil para as mulheres recorrerem à polícia para denunciar a violência


perpetrada por um parceiro íntimo, ao qual ela está de alguma forma
vinculada; alguém com quem ela compartilha a casa, a cama e, muitas
vezes, os filhos. O medo, a vergonha e mesmo um sentimento de culpa
fazem com que a mulher se cale diante da violência sofrida. (OLIVEIRA,
2005, p. 235)

Considerando a particularidade do fenômeno e a diversidade de demandas


frente à questão da mulher em situação de violência, tem se verificado a
necessidade de que o prestação de atendimento se efetue na possibilidade de
caráter multisetorial, com condições de apresentar respostas mais eficientes. Porém,
é essencial que estas ações possam se dar de forma articulada, para que os
diferentes serviços possam ser de fato ofertados na garantia dos direitos violados, e
que as necessidades das mulheres sejam atendidas. A Lei Maria da Penha rege
que,
A política pública que visa coibir a violência doméstica e familiar contra a
mulher far-se-á por meio de um conjunto articulado de ações da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e de ações não-
governamentais. (ARTIGO, 8°)

As Políticas Públicas para às mulheres em situação de violência é composta


por ações e serviços de diferentes setores, tais como, da assistência social, da
justiça, da segurança pública, da educação, da cultura e da saúde. Deste modo,
conhecida como rede6 de atendimento á mulher em situação de violência. Também
ofertados nos.

 Centros de Referência de Atendimento à Mulher


 Núcleos de Atendimento à Mulher
 Casas-Abrigo
 Casas de Acolhimento Provisório
 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs)
 Núcleos ou Postos de Atendimento à Mulher nas
 Delegacias Comuns
 Polícia Civil e Militar
 Instituto Médico Legal
 Defensorias da Mulher
 Juizados de Violência Doméstica e Familiar
 Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180
 Ouvidorias
 Ouvidoria da Mulher da Secretaria de Políticas para as Mulheres
 Serviços de Saúde voltados para o atendimento dos casos de
violência sexual e doméstica
 Posto de Atendimento Humanizado nos Aeroportos Núcleo da
Mulher da Casa do Migrante. (POLÍTICA NACIONAL, 2011 p.30)

É relevante mencionar que no caso de acolhimento em casa-a brigo como é


previsto na Lei Maria da Penha, as mulheres em situação de violência doméstica,
familiar e sexista bem como seus filhos e filhas menores de 18 anos, o Ministério
Público deverá ser comunicado para que as crianças tenham seus direitos
reservados e continuidade da vida escolar.

6O conceito de Rede de atendimento refere-se à atuação articulada entre as instituições/serviços


governamentais, não-governamentais e a comunidade, visando à ampliação e melhoria da qualidade
do atendimento; identificação e encaminhamento adequado das mulheres em situação de violência; e
ao desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção. (POLÍTICA NACIONAL, 2011, p.29.)
Apesar dos serviços referenciados para as mulheres em situação de violência
em nível Nacional, ainda são insuficiente, pois é necessário questionar a maneira
como são construídas e a quem beneficiam, além do mais é preciso observar a
lógica do Estado o qual possuí ações fragmentadas. “Caminhar para políticas
integradas de gênero é uma aspiração ainda distante para a maioria”. [...]
(SILVEIRA, 2003)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARAÚJO, Clara. Marxismo, feminismo e o enfoque de gênero. Revista Crítica


Marxista, São Paulo, n. 10, 2000.
ARRAZOLA, Laura Suzana Duque. O sujeito Feminino nas políticas de assistência
social. In: MOTA, Ana Elizabete (Org.) O mito da assistência social: ensaios
sobre Estado, política e sociedade. São Paulo: Cortez, 4 ed. 2010.

BRASIL. Convenção interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência


contra a mulher. Adotada em Belém do Pará, Brasil, em 9 de junho de 1994, no
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