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FÁBIO KONDER COMPARATO

,
ASPECTOS JURIDICOS
A

DA MACRO~EMPRESA

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, EDITORA REVISTA DOS TRIBUNAIS LTDA.


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A memória da

APPES - Associação Panlista dos Professôres


do Ensino S1<perior,

e do selt f•mdador,
Professor ALBERTO MoNiz DA RocHA BARROS,

e:rpressífes saudosas da antenticidade democrática


tw 'meio 1miversitário.

© desta edição da

EDITORA
REVISTA 005
TRIBUNAIS

Rua Conde do Pinhal, 78 - São Paulo

Setembro de 1970

COMPOSTO E IMPRESSO NO ANO DE 1970 NAS OFICINAS DA


EM~R:G:SA GRÁFICA DA REVISTA DOS TRIBUNAIS S. A.,
RUA CONDE DE SARZEDAS, 38, SÃO PAULO, BRASIL.
-'

Uma sociedade sem sócios?

Da democracia parlamentar
ao despotismo esclarecido

6. O capitalismo liberal triunfante concebeu a orga-


nização da sociedade anônima em moldes análogos
à Constituição de um Estado democrático, segundo o
dogma político fundamental da Revolução Francesa:
todo poder emana dos acionistas, e em seu nome ~
exercido. 1
Os dirigentes sociais, segundo essa concepção,
nada mais são do que simples mandatários, nomeados
pelos acionistas dentro ou fora do quadro social, e
por êles demissíveis ad nutltm. O diretor de sociedade
anônima não possui, portanto, podêres próprios, mas
age sempre em nome e por conta dos acionistas, cuja
reunião em assembléia encarna a soberania societária.
Aliás, o exercício do poder social por intermédio
de mandatários fundava-se, segundo a teoria, mais
na conveniência do que na necessidade. A concepção
de uma democracia direta, no âmbito das sociedades
anônimas, não estava ausente do pensamento dos
redatores do Código de Comércio de Napoleão, em
1. A rt"speito da influência da ideologia política dominante em
cada época sôbre a organização da sociedade anônima, cf. ROBERTO
GoLDSCHMIDT~ Las Ideas Políticas y la Sociedad An6nima, apêndice a:
Problemas f11ridicos de la Sociedad An6ninw, Buenos Aires, 1946,
pág. 185 e segs.

.13
1807. A assembléia-geral de acionistas era lícito, a Na Convenção de Filadélfia de 1787, os repre-
qualquer tempo, praticar tal ou qual ato específico de sentantes dos Estados Unidos da América rejeitaram
administração, concluir um contrato, despedir empre- uma proposta de atribuição de poclêres ao gov'êrno da
gados, ou decidir do ajuizamento de uma ação. União para criar companhias, ou autorizar-lhes o fun-
A analogia com o regime parlamentar é saliente. cionamento. Entendeu-se que apenas os Estados fede-
Os diretores respondem de seus atos perante a as- rados poderiam fazê-lo, mas que êles só usariam dêsse
sembléia, como delegados para o exercício da admi-
nistração social, assim como o Gabinete de Ministros guintes acusações: não mandava navios na quantidade devida; apesar
responde perante o Parlamento, como delegado para o de cobradas taxas de seguro marítimo, não conseguiam indenização
em caso de dano os que as pagavam; nem sempre era efetivo
exercício do Poder Executivo. o socorro contra corsários; chegara a faltar vinho para missas no
Rio de Janeiro e na Bahia; no Espírito Santo faltara óleo para a
7. Para compreender o sentido dessa estreita apro- lâmpada do Santíssimo Sacramento; a quantidade de az~ite de oliveira
ximação entre o estatuto da sociedade anônima e a vinda do Reino era tão pequena que obrigava a utilização de azeite
Constituição da sociedade política, no Século XIX, é de peixe, inclusive para iluminação; bacalhau e farinha de trigo também
faltaram várias vêzes, no Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia,
preciso não perder de vista a grande animosidade dos sendo pior a carência dêsses artigos nas povoações menores e mais
revolucionários franceses e americanos, no século an- afastadas dos portos (cf. HÉLio VIANNA, História do Brasil, vol I,
terior, para com as antigas companhias regalistas. 2 6.a ed., pág, 309). Em carta de 1.0 de maio de 1654, escrevia a
Geralmente dotadas de monopólio, e exercendo impor- Câmara do Rio de Janeiro : '' Mas como a Companhia tem poder e
riqueza, não d~vem chegar os nossos clamores à sua mão (d'El-rei),
tantes atribuições do poder real - manter exército, e se chegam, não deve ser servido de dar-nos crédito" (cit., in VAlli~­
cunhar moeda, fazer justiça - as primitivas compa- HAGEN, História Geral do Brasil, 4.a ed., tomo 3. 0 , pág. 199, nota 34).
nhias privilegiadas eram manifestamente incompatíveis O almoxarife da Companhia na Bahia, Francisco Mourão, foi acusado
com os princípios políticos da filosofia iluminista. 3 de judeu, e como tal condenado pela Inquisição a cárcere l" hábito
perpétuo (V ARNHAGEN, ibidem, pág. 200).
Ademais, a má gestão financeira de algumas delas,.
originadora de escândalos famosos, reforçava a sua No Maranhão, as arbitrariedades e mazelas da Companhia do
Comércio do Estado suscitaram a revolta da Semana Santa de 1684,
condenação no espírito burguês. 4 com a prisão do Capitão-Mor de São Luís, a expulsão dos jesuítas, a
2. RIPERT lembra a objurgatória de CAMBAd:REs, em 1794: ~ç ll deposição do Governador e a declaração de extinção da Companhia.
faut tuer ces associations destructives du crédit public" (Aspects htri- Sôbre essa companhia escreveu JoÃo FRANCisco LISBOA: " O progresso
diques du Capitalisme Moderne, 2. 3 ed., 1951, pág. 58). das operações dêste funesto estabelecimento não desdisse dos auspícios
3. Como observou um autor, a palavra corporation tinha nos que presidiram à sua inauguração. Os administradores não só faltaram
Estados Unidos, no século da independência, um sentido pejorativo às div~rsas obrigaç·Ões a que se haviam sujeitado, como se demasiaram
em tudo semelhante ao do têrmo "truste" nos países latinos atualmente em tôda a casta de roubos c vexações. Os pesos e medidas de que
(H. LEPARGNNEUR, Les Sociétés Commerciales au.~ .Btats-Unü d'Améri- usavam eram falsificados, as fa:r:endas e comestíveis expostos à venda,
que.. leur régime juridique, Paris, 1951, pág. 89). da pior qualidade e até corruptos; e tudo em quantidade insuficiente
4. São conhecidos os abusos das companhias coloniais no Brasil. para abastecimento do mercado, e por preços superiores aos taxados.
Na "Representação que fizeram os povos de Portugal, juntos em Assim aconteceu logo com uma pequena carregação de escravos, que
Côrtes, contra a Companhia do Brasil", em 1651, figuravam as se.: se venderam a cento e dezj e cento e vinte mil réis1 à vista, quando o

14 15.
direito para a criação de companhias públicas. 5 Foi Da mesma forma, a legislação napoleônica pro-
somente em 1819 que a Suprema Côrte, seguindo o curou radicalizar a organização democrática da socie-
voto do Chief Jnstice MARSHALL, reconheceu ao Con- dade por ações. Dissipando antigos temores jacobinos,
gresso Federal o poder de autorizar a criação de com- a burguesia vitoriosa podia fàcilmente demonstrar
panhias, ao julgar o famoso caso Mac Culloch vs. no Código, que a vontade social dependia sempre da~
Maryland, no qual se discutiu a validade da incorpo- vontades individuais dos acionistas, em número ilimi-
ração federal do "Second Bank of the United tado.
States."'
8. Seguindo na esteira do Códio-o· francês o
maxtmo preço taxado era cem mil réis, e a prazos, sob pretexto de '
Código Comercial brasileiro de "' 1850 declarou
que pertenciam, não ao estanco, mas ao negócio particular de Pascoal
que as companhias ou sociedades anônimas seriam
Jansen. Contra o ajustado impedia-se ou dificultava-se aos moradores
a remessa das suas drogas 'Para o Reino, ou o retôrno do que elas lá "administradas por mandatários revogáveis, sócios ou
produziam, se alcançavam mandar algumas. O estanco só recebia em não sócios" (art. 295). Explicou ainda que "os
pagamento cravo e pano, recusando o açúcar, cacau, tabacos e couros j administradores ou diretores de uma companhia res-
e daí resulta que não podendo os moradores dar outras saídas a êstes pondem pessoal e solidàriamente a terceiros, que trata-
produtos, viam-se obrigados, para os não :Perderem de- todo, a sacri-
ficá-los por baixos preços, a mal disfarçados agentes do mesmo estanco,
rem com a mesma companhia, até o momento em que
dos seus Administradores, ou de outros potentados, que os compravam tiver lugar a inscrição do instrumento ou título de
a p·oder de barato. Os navios não vinham ao Estado com a regulari- sua instituição no Registro do Comércio; efetuado o
dade afiançada; e para que nenhum gênero de vexação faltasse na- registro, respondem só à companhia pela execução do
quela geral opressão, tinham os Administradores uma grande aldeia mandato" (art. 299).
de índios, ocupados em lavrar farinhas e outros gêneros que, postos
à venda em grande escala no estanco, faziam uma concorrência ruinosa Na verdade, os intérpretes dêsses dispositivos não
aos demais lavradores já extenuados" (APontamentos .para a Histá1·ia estavam longe de entender a expressão mandato no sen-
do Maranhão, 1858, cit., por HÉLIO VIANNA, op. cit., pág. 311).
tido com que ela é empregada no direito público.
5. Na verdade, a questão da competência para conceder a incor- Assim, o Aviso n. 598, de 16.12.1861, declarava
poração de uma sociedade - ato considerado tradicionalmente no Di-
reito inglês como um privilégio (franchise) - opunha, no Século
surpreendentemente que "nos têrmos da Lei (si c) são
XVIII, os governadores às assembléias locais. Aquêles, considerando-se proibidos votos por procuradores para eleição de di-
como herdeiros do poder do Parlamento e da Coroa britânica, e estas retores de companhias anônimas", fundando-se de-
fundando-se nas cartas políticas que lhes reconheciam o poder de legis- certo no mesmo princípio que veda, no direito eleitoral
o voto por procuração. Por sua vez, o Aviso n. 104,'
lar livremente (cf. LEPARGNEUR, cit., pág. 87).
6. A rumorosa decisão deu ensejo a qUt>. o Presidente da. Su-
de 24.3.1858, decidia que "da disposição do art.
prema Côrte, pela primeira e única vez na história daquele Tribunal,
defendesse o aresto 1Jela imprensa. Os nove artigos que MARSBALL
295 do Código Comercial, nas palavras - administra-
escreveu na época, sob pseudônimo, foram recentemente reeditados pela dos por mandatários revogáveis - se conclui, não só
Universidade de Stanford: u Jolm Marslwll's Defe11Se of Mac C1tlloclt que é inadmissível nas sociedades anônimas perpe-
vs. Maryland", 1969. tuidade dos Presidentes, e Diretoria; como que a
16 17,
revoqabilidade ou destituição é permitida à Assembléia- Na verdade, a pos1çao ela diretoria na macro-
-Geral dos Acionistas, quando haja para isso causa -companhia costuma ser onipotente. Uma elas conclu-
justificada." 7 A perpetuidade do mandato político é, sões ela famosa pesquisa ele BERLE e MEANS 10 sôbre as
com efeito, incompatível com um regime republicano. duzentas maiores sociedades anônimas não financeiras
Mas a idéia, afirmada em matéria de sociedade anôni- elos Estados Unidos, em 1930, foi a de que 44%
ma por um Govêrno monárquico, não deixa de ser dentre elas em número, e 58% em dimensão patri-
provocante ... monial, eram de fato dominadas sem contraste pelos
Na França, aliás, a Restauração bem compre- administradores.
endeu a heresia democrática contida nas disposições As investigações mais recentes só fizeram refor-
do Código de Comércio relativas à administração çar essa conclusão. 11
dêsse tipo de sociedade. Elaborando o modêlo de esta- Continua a ser comumente admitido, nos Estados
tutos que deveriam adotar doravante as companhias Unidos, que o detentor de um quarto ou mesmo um
para obter autorização elo Rei, o Conselho de Estado quinto das ações com direito ele voto, na grande com-
exigiu que os administradores fôssem nomeados irrevo- panhia de capital aberto, detém efetivamente o
gàvelmente por disposição estatutária. 8 poder. 12 Uma aplicação dêsse raciocínio pode ser
apontada no acórdão da Suprema Côrte, de maio de
9. O esquema democrático elo parlamentarismo cedo
1961, que fundado na legislação anti-monopolística
revelou-se, porém, uma piedosa ficção na grande
condenou a Du Pont de Nemours a desfazer-se de 63
companhia. O que se verificou com rigorosa cons-
milhões de ações da General Motors que possuía, re-
tância nesse tipo de sociedade anônima, em todos
os países, foi a definitiva transferência de poclêres 10. The .Modem Corporation and Private Property, Nova York,
da assembléia-geral para o órgão administrativo, em 1932. (Há tradução em italiano sob o título Societd per A:;ioni e
escala muito mais intensa do que a admitida em regi- Proprietà Pn'vafa, Turim, 1966).
me parlamentar. Como observou com a costumeira 11. Cf. The Corporation in 111odern Society, coletânea d~ estudos
discrição um autor inglês, 9 a posição elos diretores de editada sob a orientação de EoWARD S. MAsoN, Harvard University
Prcss, 1966; The Corpomtion Takc-Over, coletânea de estudos editada
uma sociedade anônima "é geralmente mais poderosa
sob a orientação de ANDREW HACKER, Harper & Row, 1964; JoBN
do que a do Govêrno perante o Parlamento em KENNETH GALBRAITH, O Nôvo Estado lndttsfrial, trad. de ALVARO
VIestminster ... " CABRAL, Rio de Janeiro, 1968.
12. O Investment Company Act norte-americano considera que a
7. TEIXEIRA DE FREITAS criticou severa.mente essa interpretação,
com sólidos argumentos (cf. Aditamentos ao Código do Comérâo, detenção de mais de 25% do capital acionário co.m direito de voto
1.0 vol., Rio de Jane-iro, 1878, pág. 861 e segs.). constitui uma posição de contrôle da companhia: "Any person who
owns beneficially, either directly or through one or more controlled
8. Cf. RJPERT, Aspects Juridiqucs, cit., pág. 59.
companies, more than 257o of the voting securities of a company shall
9. GoWER, op. cit., pág. 18: be presumed to control such company" (§§ 2 a 9).

18 19
li
li
li
I!
presentando 23% do capital desta última. 13 Mesmo crática, tanto mais elaborada quanto menos correspon-
essa crença, porém, tão distante da primitiva concepção dente à realidade do poder econômico, surge o
democrática, não corresponde mais à realidade. Os ~ovêrno "endocrático" como disse um autor america-
detentores de um quarto ou um quinto das ações de no, 16 ou o "despotismo esclarecido" como lembrou
contrôle de uma grande sociedade dominam efetiva- RIPERT. 17
mente a companhia, mas desde que contem com o apoio
dos administradores. 14 10. O verdadeiro fulcro do poder, na grande em-
Ninguém mais contesta hoje em dia que a as- prêsa, é a sua capacidade de investimento.
sembléia anual das grandes companhias tranformou- "Uma única companhia pode levar a cabo um progra-
-se num dos mais sofisticados exercícios de ilusão ma de investimentos importando no dispêndio de
popular do capitalismo. 15 Por trás da liturgia demo- vários bilhões de dólares em novas máquinas e produ-
tos. Uma decisão dessa ordem bem pode determinar o
13. A decisão foi obtida por 4 votos contra 3, com duas abs-
tenções. Embora a Côrte fixasse o prazo de dez anos para a venda
tipo de vida que levará doravante um segmento subs-
em Bôlsa dessas ações, temeu-se que o impressionante volume de tancial da sociedade: homens e materiais atravessarão
títulos a serem colocados no mercado provocasse sensível queda na continentes; antigas comunidades decairão e novas irão
sua cotação. Du Pont de Nemours obteve então do Congresso uma prosperar; hábitos e preferências serão alterados;
lei de encomenda, permitindo que a companhia distribuísse essas ações
novas técnicas serão exigidas e a educação de uma
aos seus próprios acionistas como se fôra uma partilha de capital, e
não uma distribuição de lucros, o que representou apreciável economia nação inteira deverá ajustar-se à exigência; os pró-
de impôsto para os acionistas. prios governos terão que se adaptar ao fato, provi-
14. Cf. A. A. BERLE~ Economic Power and the Free Society~ in denciando a implantação dos serviços públicos que o
The Corporation Ta.ke-Over~ cit., pág. 97. desenvolvimento da companhia tornar necessário". 18
15. '' Q.uando os acionistas estão (ou estiveram) no contrôle de Ora, o exercício do poder de investimento, na macro-
uma companhia, suas assembléias não s.ão ocasiões de grande çeri-
-companhia, pertence inquestionàvelmente à direção.
moma. O voto majoritário é aprovado, e rejeitado o minoritário,
com as concessões que possam parecer estratégicas, e todos compreen- A tecnologia invadiu de tal forma a gestão empresa-
dem o processo envolvido. Entretanto, quando os acionistas deixam rial que a direção da emprêsa, sobretudo nos setores
de ter influência, es.forços são envidados para disfarçar sua nulidade. mais avançados da economia contemporânea, só pode
Ao escolher o local da assembléia, leva-se em consideração a convt>-
niência dêles; são presenteados com relatórios elegantemente impressos, que dirigem nossa companhia", são recebidos pela administração com
cuja preparação é hoje um negócio especializado; os produtos e até uma gratidão bem simulada. Todos os presentes mostram uma severa
mesmo as fábricas são inspecionados. Durante as sessões, assim como desaprovação pelas críticas. Nenhum acionista importante está pre-
no relatório, há repetidas referências à sociedade dêles. Os funcio- sente. Nenhuma decisão é tomada" (GALDRAITH, cit., págs. 94 e 95).
nários escutam, com tôdas as mostras de atenção, as sugest·ões alta- 16. EuGENE V. RosTOW, To Whom and for What Enà.s is Cor-
mente irrelevantes de participantes inteiramente mal informados e asse- porate Management Responsible?~ in The Corporation in Modern Society,
guram-lhes que serão consideradas com o maior carinho. Votos de cit., pág. 303, nota 2.
congratulações, partidos de acionistas femininas vestidas com trajes 17. Aspects Juridiques~ cit., pág. 109.
floreados e possuidoras de dez ações, " pela grande competência com 18. HACKER, op. cit., pág. 10.

20 21
ser exercida por aquêles que detêm a soma de infor- grande companhia, a parcela ele capital efetivamente
mações, e a conseqüente capacidade de previsão, sôbre investida pelos acionistas pode ser amortizada com os
a evolução tecnológica do ramo ou setor onde atua a lucros ele alguns dias ele atividade, ou até ele algumas
emprêsa. E êsses predicados só se encontram no horas. 22
tecnocrata, e mais do que no tecnocrata isolado, no Fica, assim, seriamente abalada a justificativa
grupo de técnicos gerenciais constituidores daquilo teórica ela supremacia elos acionistas, na economia ela
que GALBRAITH denominou de "tecnoestrutura" da sociedade anônima. Se inexiste qualquer relação dire-
sociedade contemporânea. 19 ta entre o lucro ela macro-emprêsa e o capital acioná-
E de onde surgem os recursos para o investimento rio subscrito, não se pode deixar ele concluir pela
na grande emprêsa? inexistência ele qualquer relação entre o dividendo
Cada vez menos da subscrição acionária. A distribuído e o valor nominal das ações. 23 A prática
maior parte do ativo patrimonial da macro-companhia norte-americana, aliás, já havia chegado a esta con-
é, como disse BERLE, internally generated ou price clusão há muito, ao consagrar a emissão de ações sem
generated, isto é, deriva de uma posição de supremacia valor nominal (no-par value stocks). E com que
da emprêsa no mercado, que lhe permite impor preços direito podem, então, os acionistas se apropriar dos
calculados com uma margem de lucro não distribuída lucros ele uma emprêsa que não são mais, em sua
aos acionistas. São os chamados preços administra- maior parte, gerados pelo investimento acionário?
dos. 20 Nos Estados Unidos, estimava-se em 1965
que uma parcela correspondente a 60% do ativo da Da "affectio societatis" ao maqztinismo jurídico
grande emprêsa era formada dessa maneira; 20% era
produto ele empréstimo ele instituições financeiras, e 11 . Paralelamente a essa linha de evolução, nota-se
os outros 20% apenas obtidos elo grande público, uma acentuada despersonalização da vida social,
mas não diretamente, senão através elas intermediate na grande emprêsa. O empresário deixou de ser
savings-collecting institutions, como as companhias ele aquela personalidade prestigiosa, cujo nome as multi-
seguro ele viela, os fundos de investimento, e os fundos dões pronunciavam com ódio, temor ou admiração.
previdenciários ( pension f~znds). 21 Em qualquer
baixou para 40% em 1969, e para 30% no curso do primeiro semestre
19. Op. cit., págs. 66 e segs., 98 e 109. Trata-se da nova edição, de 1970. As emprêsas foram, portanto, a partir de 1965, obrigadas. a
revista e melhorada, da tese de JAMES BURNHAM sôbre a managerial recoiTer com mais freqüência e intensidade ao mercado de capitais.
revolution. Tal fato, coincidindo com uma diminuição dos meios de pagamento
(numerário e obrigações do Tesouro) e da rentabilidade, estaria na
20. Cf. PropcrfJ', Production aud Rcvolution, na u Columbia Law
origem da crise da Bôlsa de Nova York, em maio de 1970, quando
Reviewn, vol. I, 1965.
a média de cotação dos títulos caiu de 31% em poucos dias.
21. A situação, porém, parece haver mudado sensivelmente a partir
22. GALBRAITH, op. cit., pág. 83.
de 1965. Um relatório recente do Morgan Guaranty Trust estima
23. Cf. RIPERT1 Aspects Juridiques cit., pág. 293.
que a parcela de autofinanciamento das emprêsas norte-americanas 1

22 23
Em seu lugar, vão surgindo equipes gerenciais anom- de uma autêntica mecanização do organismo societário,
mas, titulares do efetivo poder de decisão, e alguns no qual o espaço reservado à decantada iniciativa indi-
"medalhões" encarregados de relações públicas, recru- vidual é pràticamente inexistente. No imediato após-
tados entre militares, políticos ou intelectuais aposen- -guerra, RrPERT não hesitou em descrever a sociedade
tados. anônima como uma máquina jttrídica, inteiramente
Por outro lado, a composição do corpo acionário independente da vontade dos acionistas. 25 A expres-
da grande emprêsa tem ainda mais acentuado o seu são fêz fortuna, mas os juristas a acolhêrem mais
anonimato. Nos Estados Unidos, país cuja evolução como mot d'esprit do que como autêntica tradução da
parece apontar o caminho a ser seguido por tôdas as realidade.
demais nações capitalistas, estima-se que cêrca de um
Atualmente, porém, os observadores norte-ameri-
têrço do capital acionário em circulação não permanece
canos consagraram a interpretação mecanicista, e já se
mais do que 6 meses nas mesmas mãos. Atualmente,
os grandes acionistas não são mais indivíduos, mas interrogam sôbre os formidáveis perigos que essa
26
sociedades, fundações, fundos de investimentos, fundos evolução comporta para a liberdade humana.
previdenciários.
25. Aspects Juridiques~ cit., pág. 109 e segs.
llstes últimos têm prosperado enormemente na-
26. "There remains in many American minds the bf'lief that
quele país, mercê da inexistência de um sistema previ-
power should be representative, that the ability to control resources
denciário estatal. Estima-se que o conjunto dêsses should act in the name of human beings if it is to be l~gitimate.
fundos se eleva hoje em dia à impressionante cifra de The corporation, howe-ver, is !JOwer - the ;power of productive
31 bilhões de dólares. 24 Os capitais assim recolhidos assets - without a human constituency. It has interests to promote
são aplicados em valôres mobiliários, sobretudo ações, and defend, but they are the interests of a machine more than those
o f the people who guide, and profit from, its workings" (HACKER,
cujo rendimento permite o pagamento de pensões e op. cit., pág. 6). When General Electric, American Telephone and
aposentadorias aos titulares do fundo. Telegraph, and Standard Oil of New Jersey enter thr pluralist arena
Muitos dêsses fundos nascem à sombra de uma we have elephants dancing atnong the chickens. For corporate institu-
grande emprêsa e destinam-se a pensionar seus em- tions are not voluntary associations with individual as members but
rather associations of assets, and no theory yrt propounded has declared
pregados. Costumam em geral aplicar seus recursos
that machines are entitled to a voice in the democratic process (idem,
na aquisição de ações da própria companhia empre-
ibidem, pág. 8).
gadora, chegando algumas vêzes a obter o seu
We are now, in fact, beginning to converge on a doctrine which
contrôle acionário, como ocorreu há pouco com a may well push right over the line when the ne."<.t case comes up. This
Sears-Roebuck. doctrine is that where a corporation has power to affect a great many
Quando se atenta para o sentido de tais fenô- lives ( differing from the little enterprise which can be balanced out
by the market) it should be subject to the same restraints under the
menos, é difícil evitar a sensação de que se está diante Constitution that apply to an agency of the federal government (BERLE,
24. Apud BERLE~ Economic Power and Free Society, cit., pág. 98. Economic fower~ cit., págs. 104 e 105).

25
24
3
12. Vale a pena reprodnzir aqui, para ilustração do os serviços de uma emprêsa de publicidade especiali-
que acaba de ser dito, o exercício de imaginação zada em campanhas de cunho político. Essa emprêsa
ao qual se entregou o professor ANDREW HACKER, recebe uma remuneração antecipada de um milhão de
idealizando a situação de uma dessas máquinas societá- dólares e programa a realização de gastos publicitá-
rias no futuro próximo. 27 rios no valor de 5 milhões.
Trata-se de uma companhia produtora de mate- Ao cabo de intensa campanha, que demonstrou o
riais elétricos: American Electric. Em 1972, ela perigo representado por geradores estrangeiros para
completa o seu processo de automação industrial, a segurança e a prosperidade nacionais, o projeto de
de forma a tornar desnecessários seus empregados. lei é apresentado, e logo em seguida aprovado por
As funções comerciais e financeiras podem ser exerci- ambas as Casas do Congresso. O Presidente sanciona
das por dez diretores com o auxílio ocasional de consul- e promulga o nôvo diploma legal. No ano seguinte os
tores e profissionais contratados para tarefas especí- lucros da AE aumentam conside!'àvelmente.
ficas. Entretanto, um grupo de senadores, alertado
Principiando em 1962, o fundo previdenciário dos sôbre os acontecimentos, resolve constituir uma comis-
empregados da companhia passou a adquirir as ações são de inquérito para apurar a verdade.
desta, tornando-se em 1968 o seu acionista único. 28 HACKER imagina o seguinte diálogo entre um se-
Com a despedida ou aposentadoria dos empregados, nador e um dos diretores da companhia, no curso do
antecipada pela automação, foi necessário liquidar as depoimento dêste:
ações do fundo para pagamento das pensões. Mas ao "Diretor: . .. E se nós encetamos essas atividades
invés de vender as ações da AE em Bôlsa, os educacionais e políticas, é que pensamos que elas eram
administradores do fundo preferiram vendê-las à pró- ditadas pelos melhores interêsses da companhia.
pria companhia. 29 Com o falecimento em 1981 do "Senador: Quando o Sr. declara que essas
último ex-empregado da companhia, o fundo previ- campanhas foram realizadas em prol dos interêsses da·
denciário é dissolvido. "companhia", eu não compreendo o que o Sr. quer
Em 1982, os dez diretores da AE decidem que a dizer. Os Srs. agiram no interêsse dos seus acionistas?
expansão dos negócios da companhia seria assegurada "Diretor: Sinto, Senador, não poder afirmar isso.
com a restrição, por via legislativa, das importações A American Electric não tem acionistas. A própria
de certos equipamentos elétricos. Contratam, então, companhia possui todo o seu capital acionário. Nós
Z7. Op. cit., págs. 3 a S. compramos as últimas ações há vários anos.
28. Seja-nos permitido lembrar que o direito norte-americano "Seuador: Bem, se não foi em favor dos acio-
reconhece a validade das one-man corporations. nistas, então os Srs. agiram como porta-vozes dos
29. Ao contrário do Direito inglês, o Direito americano admite empregados da American Electric, ou seja, daqueles
que a sociedade anônima adquira suas próprias ações, contanto que
cujos empregos poderiam perigar, se a concorrência
o faça com lucros acumulados (cf. LEPARGNEUR, cit., pág. 201).
estrangeira se tornasse muito séria?
26
27.