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D’ARAÚJO, Maria Celina.

Estado, classe trabalhadora e políticas sociais


Consciente da sensibilidade do tema sobre direitos trabalhistas e políticas públicas tão associado ao
Estado Novo e, portanto, à Vargas no Brasil, a autora visa analisar um processo maior de
transformação que estava em voga, qual seja: a transição de uma economia tipicamente rural para
a urbano-industrial, que ocorreu dentro de uma perspectiva de desenvolvimento econômico
orientada por um Estado de recorte corporativista.
Esse período marcado também pelo autoritarismo político é caracterizado como um momento em que
se produziu de maneira hábil e convincente uma ideologia de que a democracia política era
incompatível com a resolução dos problemas sociais e de que apenas o Estado estaria apto a dar
as soluções cabíveis. Nasce assim, uma doutrina que associa autoritarismo a direitos, e esses
direitos se reduzem à condição de trabalhador formal e sindicalizado, pois o Estado se equipou
institucionalmente para formular e implementar as políticas sociais que introduziram e viabilizaram
esses direitos.
Os estudos sobre os sindicatos no período são a tônica e apontam diversas perspectivas que
denunciam a dependência dos sindicatos em relação ao Estado; a autonomia ou heteronomia da classe
trabalhadora; controle e repressão sobre os trabalhadores ou sua iniciativa política; ascendência do
partido comunista ou dos comunistas sobre o trabalho organizado; efeitos deletérios sobre o
populismo; mazelas ou benefícios do peleguismo; influencias do corporativismo, etc.
Para o bem ou para o mal, o Estado novo marca a novidade política e institucional no mundo do
trabalho e na relação capital – trabalho, que passa a ser regulado e controlado pelo Estado apoiado
em ampla propaganda positiva, que marca esses direitos até hoje.
SINDICATOS E ESTRUTURA CORPORATIVA
O setor urbano trabalhista no Brasil no período era composto por apenas 3% da população e a
estrutura sindical montada destinava-se não apenas à essa parcela de indivíduos, mas também visava
enquadrar e regular a representação das atividades vinculadas a capital e a trabalho, ou seja, das
relações entre o mundo das empresas e dos empresários e o dos trabalhadores.
O modelo corporativista no qual Vargas se embasava, entendia-se como uma saída alternativa
intermediária e viável para o capitalismo e suas desigualdades geradora de luta entre classes e
problemas sociais, bem como ao socialismo, que representava uma falsa igualdade e desrespeitava
valores sociais e religiosos dos países.
Sendo assim, a proposta era manter as hierarquias reduzindo as desigualdades sociais; evitar o conflito
e banir a luta de classes; gerar harmonia social, progresso, desenvolvimento e paz. Para tanto, o Estado
precisaria ser investido de mais poder e os partidos e organizações políticas tipicamente liberais,
deviam ser substituído por novas organizações que produzissem consenso. Nessa proposta, caberia
ao Estado, através de uma elite dirigente, definir novas formas de organização e de participação, pois
julgava-se que as sociedades deveriam ser organizadas a partir de grandes ramos da produção
econômica, que definiria no plano macro, os interesses mais amplos da sociedade, e não através de
ideologias.
Para a doutrina corporativa a população deveria colaborar com o governo, e a melhor forma de se
expressar essa colaboração seria através de atividades cívicas e econômicas, e não através de ações
político-partidárias, devendo as divergências ideológicas serem banidas.
Nesse perspectiva- que retoma a ideia de corporações medievais-, os sindicatos cumpririam o papel
organizador das grandes áreas de atividade, conciliando capital e trabalho. Por isso, no Brasil cada
área tinha apenas um sindicato para os trabalhadores e, para os empresários havia uma série de
sindicatos que reuniam interesses afins de várias empresas de determinado ramo. A proposta de
organização unia-se também a produção de apenas um canal de expressão, os sindicatos, que eram
considerados órgãos privados com funções públicas, e ficavam diretamente subordinados ao governo
através do Ministério do Trabalho – agente regulador de toda essa rede organizativa caracterizada
pela verticalidade.
A legislação sindical que visava criar um país pacífico e harmonioso através da organização e
regulamentação feita pelo Estado, visava também, atrair trabalhadores do campo para as cidades, pois
criava direitos apenas para trabalhadores urbanos e sindicalizados. Através dos sindicatos, o governo
tinha instrumentos poderosos para controlar as atividades desses trabalhadores, evitar greves e até
silenciar o movimento operário, ou seja, ao mesmo tempo em que os reconhecia como instrumentos
de organização, criava por outro lado, restrições para que os sindicatos pudessem ser usados pelos
trabalhadores como instrumentos de reivindicação e de mobilização.
AS LEIS SINDICAIS DE 1930 A 1945
As atividades sindicais surgem no Brasil no século XIX com tendências políticas como o socialismo
e o anarquismo e é da virada do século que datam medidas que vão gradativamente inserindo leis
sociais e sindicais que, em geral, beneficiam funcionários públicos e depois se estendem aos
funcionários privados.
Em 1917 foi criada a Comissão de Legislação Social na Câmara dos Deputados com a finalidade de
examinar o que deveria ser feito em termos de legislação trabalhista. Em 1923 criou-se a Caixa de
Aposentadoria para ferroviários, que se expandiram para outras categorias profissionais. Nesse
mesmo ano, foi criado o Conselho Nacional do Trabalho com diferentes funções e vinculado ao
Ministérios da Agricultura, Indústria e Comércio, tendo ainda, funções jurídicas e servindo como
instancia de recurso para resolução de inquéritos administrativos com relação a faltas graves de
funcionários das empresas ferroviárias
Em 1930 algumas categorias profissionais começaram a ser beneficiados com leis de proteção a
acidentes de trabalho e a lei de férias foi se expandindo para várias categorias e o Código de Menores,
surgido em 1927 foi regulamentado a partir de 1933.
Isso mostra o quanto a preocupação com leis sociais e trabalhista já era uma questão latente antes de
Vargas, reconhecida através da ação dos trabalhadores, e o estudo sobre o período deixa claro que,
apesar da extensão de benefícios, havia dificuldades de fiscalizar a efetivação nas fábricas.
Para a autora, é proposital excluir a memória dos direitos trabalhistas dos movimentos dos
trabalhadores e creditá-las ao Estado Novo, pois a tradição organizativa e reivindicativa do
sindicalismo brasileiro são marcadas pela influência de trabalhadores estrangeiros que trouxeram
ideias socialistas, comunistas e anarquistas. A contenção da influência do trabalhador nas fábricas e
a valorização do trabalho nacional ficam explícitas na lei de 1930, que impedia que cada empresa
tivesse mais de um terço de trabalhadores estrangeiros, bem como, evitar que empresas de
proprietários estrangeiros preterissem o trabalho nacional.
No início do Estado Novo é criado o Ministério do Trabalho que, dotado do poder executivo
formulava e executava diretamente as políticas trabalhistas. Daí saiu um decreto estipulando que os
sindicatos fossem reconhecidos pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, e que deveria
haver monopólio regional de representação para toda uma categoria de trabalhadores.
O decreto se notabilizava em quatro aspectos – organização sindical regulada pelo Estado;
neutralidade política; autonomia limitada e unicidade sindical – e marcou a intervenção direta do
Estado nas questões vinculadas ao mundo do trabalho, fazendo com que os sindicatos fossem órgãos
de colaboração do Estado, proibindo qualquer manifestação política ou ideológica, bem como o
impedimento do patrão à sindicalização dos funcionários.
Havia um esforço para promover a sindicalização, mas como forma de expurgar as ideologias que
marcavam as antigas organizações trabalhistas, elas teriam agora, que se adaptar ao novo formato
corporativo, defendendo junto ao governo os interesses econômicos, sociais e legais de uma categoria
de profissionais, elaborar contratos, manter cooperativas e prestar serviços sociais.
Para formar uma federação sindical, no plano estadual era preciso a união de três sindicatos e para a
confederação nacional, no mínimo cinco. Eles não podiam ter maioria de estrangeiros representados
e dificultava-se aos estrangeiros o acesso a cargos de chefia e a propaganda política/ideológica era
expressamente proibida.
A esse novo formato e imposições surgiram resistências como o levante comunista de 1935, que foi
fortemente reprimido com violência policial.
O código Eleitoral de 1932 fomentou a densidade sindical ao permitir representação de trabalhadores
e empregados (classista) na Constituinte, mas foi alterada em 1934, pela pluralidade sindical limitada,
onde poderia haver um sindicato desde que acomodasse 1/3 da categoria profissional, mantendo a
prerrogativa de reconhecimento sindical. Esse novo decreto também limitava a intervenção do Estado
nos sindicatos durante os seis primeiros meses.
Com a ditadura do Estado Novo em 1937 há a restauração da unicidade sindical e o monopólio da
representação através do sindicato único por categoria profissional. A instituição sindical continuava
servindo ao Estado e não a classe que representava.
A Carta de 1937 constrói uma pirâmide corporativa, com atividades econômicas reunidas de duas em
duas - empregadores e trabalhadores de uma mesma área - de forma simétrica. Esse decreto também
proibia as greves e dava ao Estado controle sobre as contas, as eleições e as atividades administrativas
sindicais e dura até 1988!
Em 1940 foi criada a contribuição compulsória do imposto sindical que teve defensores e opositores.
Para os trabalhadores e para as alas mais a esquerda, ele era a garantia de melhor organização para a
classe trabalhadora e para os conservadores, o controle pelo Estado e o sindicato único eram vistos
como garantia de paz social. Para os críticos, o controle estatal ostensivo impediria a capacidade de
iniciativa dos sindicatos, acomodaria os dirigentes e tiraria dos trabalhadores a possibilidade de criar
organizações alternativas mais representativas para a defesa de seus direitos.
Em 1943 a Consolidação das Leis do Trabalho, sintetiza esse modelo corporativo, burocrático e
estatizado lhe dando sistematicidade. Ela objetiva evitar a solidariedade e a horizontalidade entre
classes ao impor o sindicato único, a criação de bases distintas para cada categoria, a proibição
reivindicação sindical, limitando o diálogo apenas com o patronato e com o governo e evitando a luta
de classes ao dar ao trabalhador voz no próprio Estado.
FORMAS DE CONTROLE SINDICAL, DE FINANCIAMENTE E “PELEGO”
A partir de 1939 a dependência definida na legislação é operacionalizada:
1. Apenas associações profissionais registradas através de carta de reconhecimento sindical
expedida pelo Ministério do Trabalho poderiam ser reconhecidas como sindicatos. Havia proibição
de ligação com organização sindical no exterior;
2. Estatutos sindicais eram padronizados, definindo seu funcionamento, finalidades e os direitos
dos filiados e dirigentes. Havia obrigatoriedade de participação em atos cívicos organizados
oficialmente pelo governo;
3. Controle econômico: estatuto padrão definia as formas de investimento em bens e rendas. Uma
vez por ano o orçamento precisava ser submetido ao ministério, o desequilibro nas contas, dava
motivo legal para a intervenção do governo. Cabia ao ministro rubricar as parcelas do orçamento a
serem usada para finalidades como assistência social, contratos coletivos, etc;
4. O dissídio ou alteração no funcionamento institucional dava margem à intervenção, podendo
destituir a direção, multas, suspensão dos diretores, fechamento de até seis meses ou cassação do
registro sindical;
5. Chapas que concorressem a eleição da diretoria tinha que ser aprovada pelo ministério assim
como a própria eleição. Só eram eleitos diretores aqueles que o Estado quisesse;
6. O sindicato devia ter registro com o nome de todos os associados. Através desses dados era
possível a tutela sindical
Em síntese, a partir de 1930 os sindicatos regulados passam a ser figura jurídica de colaboração com
o Estado, a repressão não se faz mais via polícia. Redefinem-se as funções, adequando-os ao novo
formato do Estado corporativo emergente e ao processo de mudança econômica que o país vivia.
O que dava sustentação material e financeira a vasta rede sindical era o Imposto Sindical. Com as
despesas básicas asseguradas os dirigentes não precisavam mobilizar os trabalhadores para
sobreviver. Graças a esse arranjo muitos dirigentes se acomodaram e se perpetuaram nos cargos de
direção, para o qual era necessário apenas o atendimento à minoria sindicalizada – como os serviços
médicos, dentistas, clubes de recreação, - e não desagradar o governo.
O atendimento a esses serviços não era obrigatório a todos os sindicalizados. O sindicato limitava o
número de sindicalizados não permitindo mais filiações depois de certo número, que fosse
considerado ideal para sua contabilidade. Os filiados bem assistidos, graças ao dinheiro de todos os
trabalhadores, garantiam a reeleição dos dirigentes.
O imposto era obrigatório, mas não o era a filiação sindical. Isso criava uma situação injusta, criando
um pequeno número de privilegiados e a perpetuação no cargo por parte de dirigentes que tinham
como função amenizar os conflitos e negociar soluções conciliatórias, por isso, ficou conhecido como
pelego – peça usada no gado para amaciar o atrito – nome usado em referência a amenização de
conflitos entre patrão e empregado que ficou conhecido posteriormente como líder ou representante
sindical do trabalhadores produzido dentro da estrutura burocrática e corporativa do Estado.
O pelego é um agente com duplo papel: negociava com o patronato e com o governo aumentos e
vantagens para os trabalhadores, mas de forma a não contrariar os interesses do capital e do governo,
além de impedir greve e manifestações enérgicas e representar os interesses dos trabalhadores
conciliando-os com o dos patrões.
Essa figura, que não nasceu com Vargas, acabou sendo prestigiada dentro da estrutura estatal e
ganhou reconhecimento do governo e dos empresários e aos poucos foram se incrustando na estrutura
do Estado e ocupando cargos da burocracia do Ministério do Trabalho, das federações e
confederações e dentro da Justiça do Trabalho. Foram esses agentes que acabaram constituindo os
quadros do PTB, criado por Vargas em 1945, quando o Estado Novo se esgotava
O peleguismo, não lesava materialmente o trabalhador, mas o impedia de de se expressar de forma
espontânea e direta. Esse modelo foi transformado na corrente sindical legítima e conhecida pelo
Estado e a legislação produzida, permitiu que o modelo fosse adaptado em diversos momentos em
nossa história, como em 1964, quando sua flexibilidade foi utilizada como justificativa para atos
violentos contra os trabalhadores e os sindicatos, pois a ação desses indivíduos e instituições só era
reconhecida enquanto fossem coincidentes aos interesses do Estado.
JUSTIÇA, PREVIDÊNCIA E SEGURANÇA SOCIAL PARA O TRABALHO
Havia desde 1932 comissões mistas de conciliação, integradas por três representantes de empregados
e de empregadores, sob a coordenação de um bacharel em direito. Elas tinham função conciliatória
em dissídios coletivos para evitar conflitos graves.
Também foram criadas nesse ano as juntas de conciliação e julgamento, integradas por um
representante de cada um dos lados, sob a presidência de um bacharel em direito, para tratar de
dissídios individuais, com poderes de conciliação e julgamento.
Em 1946, essas juntas são incorporadas a Justiça do Trabalho e ao Judiciário, e reportavam-se por
meio do minisitro do Trabalho. A Justiça do Trabalho tinha o poder de criar normas e regras para
regular as relações e a organização do trabalho, além de zelar e aplicar as leis.
Para os críticos, o papel intermediador ou conciliador teria impedido a classe trabalhadora de negociar
diretamente com os patrões e até mesmo, que os sindicatos fizessem essa negociação, devido a
mediação do bacherel em direito e dos juízes – que não necessariamente precisavam ser advogados,
eram muitas vezes juízes classistas que tinham trabalhado na direção de sindicatos e que eram
indicados pelos pares.
Quando criada a figura do juiz não togado, foi apresentado como conquista dos trabalhadores, que
poderiam contar, no tribunal com um representante que não teria diploma, mas experiência prática.
Para os defensores, trata-se de um avanço à histórica desproteção da classe trabalhadora brasileira,
além de trazer agilidade se comparado à justiça comum, que não atende a urgência das questões
trabalhistas.
A carteira de trabalho, documento de 1932 considerado mais importante para os brasileiros, era onde
se registrava a vida profissional das pessoas, os seus empregos, cargos e salários, servindo como
prova documental para acesso a direitos como aposentadoria e licenças. Ela trouxe até 1980, uma
apresentação feita pelo ministério do trabalho, mostrando o quanto o documento servia ao
empresariado para identificar bons ou maus trabalhadores, isto é, que não se envolviam em greves,
que tinham registros duradouros e em profissões específicas, etc.
A partir de 1932, há velocidade na criação de direitos via Estado e na regulamentação do trabalho,
como o estabelecimento de 8h de trabalho, proibição do trabalho a menores de 14 anos, regulação do
trabalho feminino, garantindo a igualdade salarial e alguma proteção à gestante, reconhecimento de
profissões para que trabalhadores nelas enquadrados tivessem acesso a direitos; criação dos Institutos
de Aposentadorias e Pensões (IAPs) – que substituíram as caixas de Aposentadorias e Pensões
(CAP’s) e se espalharam para diversos setores para servidores públicos e privados; criação do salário
mínimo em 1940; rede de refeitórios populares.
É importante lembrar que no processo de elaboração de direitos a maioria da população estava
excluída e os direitos ficavam reservados apenas aos trabalhadores urbanos, de profissões
reconhecidas e regulamentadas, com carteira de trabalho, empregados e sindicalizados, portanto, não
se pode afirmar que estava surgindo uma cidadania para todos e sim uma cidadania regulada.
Somente na década de 1960 é regulamentado a assistência à saúde deixando de fora os trabalhadores
rurais e empregados domésticos.
Ao fazer esse reconhecimento do trabalho e do trabalhador através de uma legislação urbana, Vargas
fortaleceu um projeto político e introduzia a cultura dos direitos via Estado. A eficiência para impor
essas novas regras frente às resistências do empresariado também deve ser ressaltada, pois criou uma
cultura de valorização dos direitos.
Contudo, foi responsável também pela criação de uma elite sindical acomodada e palaciana, que
coadunava trabalhismo e peleguismo, criando de forma perversa várias categorias de brasileiros que
gerou privilégios e exclusões, além de não amparar os trabalhadores rurais e domésticos deixando
também, uma rede burocrática para gerenciar os direitos, que acabou na verdade, consumindo grande
parte dos recursos que deveriam chegar às mãos dos trabalhadores.
Vargas reconheceu e limitou os trabalhadores através dos sindicatos, mas não deu a ele liberdades
políticas e sem elas, os direitos trabalhistas e quaisquer outros, nunca serão completos.