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O trabalho do professor no acompanhamento aos

alunos em dificuldade

Joaquim Liberal
1º Ciclo do Ensino Básico

venho discutindo com outros colegas do


Invoco para tema deste artigo um aspecto
MEM, através do debate surgido na
da minha prática docente relacionado com
plataforma moodle e em consequência do
as questões da diferenciação pedagógica.
projecto de investigação/formação que
Pretendo analisar e reflectir sobre a minha
integrei desde o início deste ano lectivo.
acção enquanto profissional que se
Espero com isso contribuir para a
preocupa com o acesso de todos os alunos
melhoria da minha prática profissional e,
a estratégias educativas que visem o seu
consequentemente, para o
sucesso global e integral, tendo em vista a
aperfeiçoamento do modelo pedagógico
sua integração plena na escola, bem como
que utilizo.
o reconhecimento e respeito por todas as
crianças como cidadãos activos em Deste modo, tendo como referência
crescimento. o registo do Apoio Individualizado,
pretendo analisar a quantidade e a
Escolhi como ponto de partida para
qualidade do trabalho interactivo prestado
esta reflexão e análise um momento
aos alunos em dificuldade, num momento
específico do Tempo de Estudo Autónomo,
específico do Tempo de Estudo Autónomo
no qual me disponibilizo para acompanhar
(T.E.A.), através da leitura das anotações
e apoiar individualmente, de modo
que fiz durante o 1º período deste ano
rotativo e em interacção constante, os
lectivo e verificar se esses momentos
alunos da minha turma que apresentam
potenciam uma efectiva diferenciação das
dificuldades a diferentes níveis.
aprendizagens e quais os resultados e
efeitos que produziram.
O registo que utilizo para anotação
das diferentes ocorrências, verificadas
No fundo esta problemática remete-
durante o tempo de trabalho interactivo
nos para as seguintes questões:
com os alunos em dificuldade, servirá de
Que apoio prestei?
base às questões que nos últimos tempos

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Para que serviu? Produziu os efeitos O conceito de diferenciação


desejados? pedagógica decorre dos estudos liderados
A criança evoluiu com a minha pelos sociólogos franceses da educação,
ajuda? empenhados na compreensão e busca de
Compreendi a suas necessida- novas soluções para as questões do
des/dificuldades e mobilizei estratégias insucesso escolar e da discriminação
para a ajudar de forma adequada? social e cultural, do abandono e da
exclusão social dos que sofrem, como o
O Modelo Pedagógico do MEM e a refere Sérgio Niza no seu artigo sobre a
diferenciação pedagógica Cooperação Educativa na Diferenciação do
Trabalho de Aprendizagem.
Falar de diferenciação pedagógica Para Perrenoud, “diferenciar é
implica antes de mais um breve olhar aos romper com a pedagogia magistral – a
compromissos históricos que assumimos mesma lição e os mesmos exercícios para
ao longo dos tempos, os quais são muitas todos e ao mesmo tempo”, no fundo
vezes esquecidos como referenciais de diferenciar é responder pedagogicamente
valor na nossa prática docente. Falo em à diversidade dos alunos de uma turma,
primeiro lugar da Lei de Bases do nosso programando um conjunto de apoios
Sistema Educativo, em vigor desde 1986, didácticos e organizacionais que visem
a qual reconhece a cada cidadão o direito garantir as aprendizagens curriculares de
e o acesso à escolaridade básica e ao cada criança que integra essa turma.
sucesso escolar. Retomo a tónica Num contexto educativo em que os
essencial do Acordo de Jomtiem, datado docentes assumem e reconhecem as
de 1990, e que defende uma educação potencialidades educativas da
básica para todos numa escola para todos. diferenciação pedagógica, são mobilizadas
Relembro ainda a Declaração de para esse efeito um conjunto de atitudes
Salamanca, assinada por vários países, que visam tornar operacional esta
entre eles Portugal, em 1994, onde se estratégia de intervenção educativa,
reconhece que cada criança possui reconhecendo e valorizando, em primeiro
características, interesses, capacidades e plano, a heterogeneidade da turma como
necessidades de aprendizagem próprias a um importante recurso a ter em conta no
que a escola deve responder de forma sistema de apoios que se organiza com o
inclusiva. grupo. É na riqueza dessa
heterogeneidade que surgem as diversas

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estruturas cooperativas de aprendizagem centrais para o desenvolvimento mental e


como o trabalho a pares, em pequeno para a formação social da criança.
grupo ou de modo colectivo, cabendo ao Numa breve abordagem aos
professor operacionalizá-las na turma da princípios orientadores deste modelo
forma mais vantajosa. pedagógico constatamos, logo no primeiro
O uso exclusivo do modo princípio, que a acção educativa dos
simultâneo numa dinâmica de docentes, em parceria com os seus
diferenciação pedagógica esvazia-se de alunos, centra-se no trabalho de
sentido, visto que o professor aposta mais diferenciação das aprendizagens e não no
em estratégias que permitam apoiar ensino em simultâneo dos professores o
individualmente, em ensino interactivo, as que reforça muitas das atitudes
crianças que revelem maiores dificuldades anteriormente descritas.
em qualquer domínio do currículo e não Outro dos princípios deste modelo
só, destinando-se os momentos colectivos pedagógico refere “A gestão dos
à apresentação de conceitos que levem o conteúdos programáticos, a organização
grupo a avançar no currículo. dos meios didácticos, dos tempos e dos
O docente assume assim um papel espaços faz-se em cooperação formativa e
de orientador na organização sistemática reguladora”, ou seja, os alunos assumem
de tempos de trabalho autónomo na sala um papel activo no desenvolvimento das
de aula para que os alunos possam, suas aprendizagens e em cooperação
através de redes de inter-ajuda, permanente.
consolidar e desenvolver as suas
aprendizagens, enquanto o professor Tempo de Estudo Autónomo (TEA):
realiza em rotação permanente o apoio Da avaliação cooperada ao trabalho
individual aos alunos que mais precisam com o professor
da sua ajuda.
No modelo pedagógico do Nesta parte do artigo pretendo
Movimento da Escola Moderna, o qual realizar uma breve descrição da forma
procuro colocar em prática no trabalho como organizo o trabalho com os alunos
que desenvolvo com meus alunos, a de modo a operacionalizar o TEA, módulo
diferenciação pedagógica, a par da do Modelo Pedagógico do MEM, através do
comunicação, das estruturas de qual se desenrola uma das estratégias de
cooperação educativa e da participação diferenciação pedagógica que permite ao
democrática directa são os mecanismos professor desenvolver, em colaboração

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permanente com os alunos e outros A disposição da sala e a forma


parceiros pedagógicos, o trabalho de como se encontra organizada permite aos
apoio aos alunos em dificuldades. alunos circularem livremente pelo espaço
O cenário pedagógico encontra-se cumprindo de forma autónoma e
organizado por áreas temáticas, de acordo responsável os trabalhos que são
com o estabelecido no Currículo do Ensino planeados a nível individual, em pequeno
Básico para os anos que integram esta grupo ou colectivamente.
turma. Assim, as paredes da sala De entre os registos colectivos
encontram-se divididas em cinco áreas, destaco a importância que assume a
devidamente identificadas, que servem de Agenda Semanal, na efectiva
apoio geral ao trabalho desenvolvido pelos diferenciação das actividades curriculares,
alunos. Estas são compostas por um tendo em vista e para a diferenciação das
armário de materiais colectivos, três aprendizagens e do trabalho desenvolvido
bancadas de ficheiros para o trabalho pelo grupo a diferentes níveis. Neste
autónomo, referentes às diferentes áreas instrumento estão presentes os principais
do currículo, com os respectivos mapas de módulos de Actividades Curriculares de
registo. Num outro espaço da sala diferenciação pedagógica, que constituem
encontra-se o Diário de Turma, assim a sintaxe do modelo pedagógico do
como os mapas de registos colectivos Movimento da Escola Moderna, os quais
referentes à gestão e evolução do passo a descrever.
trabalho dos alunos. As reuniões de Conselho de
Cooperação constituem o mecanismo
central do modelo, através das quais se
realiza o planeamento do trabalho e
respectiva avaliação diária e semanal.
Estas reuniões permitem também a
análise de ocorrências significativas e
consequente reflexão ética para
clarificação e construção de regras de
vida, tendo em vista o desenvolvimento
sócio-moral do grupo. O Conselho baseia-
se na análise dos instrumentos de
Figura 1 – Bancada de Ficheiros de Matemática planificação/avaliação e na leitura do
Diário de Turma.

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A aprendizagem curricular através treino e à realização de diversos produtos


de projectos cooperativos é outro dos culturais, orientado por um Plano
módulos presentes no trabalho deste Individual de Trabalho (PIT) semanal. Este
modelo pedagógico. Este momento de momento de trabalho autónomo e
diferenciação destina-se ao acompanhamento individual dos alunos
desenvolvimento de projectos temáticos, constitui um dos principais mecanismos de
no domínio artístico, pesquisa científica ou diferenciação pedagógica, pois permite ao
intervenção social, através dos quais os professor apoiar rotativamente os alunos
alunos vão adquirindo diferentes apren- em dificuldade.
dizagens, sendo sistematicamente apoia- Semanalmente, em Conselho de
dos pelo professor em sistema rotativo. Cooperação Educativa, os alunos
Na Agenda Semanal constam elaboram a avaliação dos seus Planos
também tempos lectivos destinados ao Individuais de Trabalho, a partir da qual é
trabalho curricular comparticipado pela feito o levantamento das dificuldades
turma. Neste momento colectivo, em individuais de cada criança, ao nível das
colaboração activa com professor, são diferentes áreas curriculares disciplinares
construídos ou reconstruídos os conceitos e não disciplinares. É também neste
e saberes das diferentes áreas momento da semana, em consequência
curriculares, assim como é feita a revisão da avaliação dos respectivos planos, que é
ou a reescrita de textos. preenchido o registo das parcerias
Outro dos módulos desde Modelo constituídas entre os alunos da turma que
Pedagógico destina-se a estabelecer na se disponibilizam para ajudar os colegas
turma diferentes circuitos de comunicação em dificuldade. Após o levantamento das
que permitam que os diferentes produtos dificuldades e o estabelecimento das
culturais, elaborados pelas crianças nos parcerias, definimos quais as crianças que
diversos momentos de trabalho, sejam precisam e querem o apoio do professor e
submetidos à reflexão colectiva, tendo acordamos o momento em que se
como objectivo principal a sua apropriação realizará.
individual ou a sua utilização social. Durante os diferentes momentos de
Por último, destaco o módulo onde trabalho autónomo, o professor empenha-
se enquadra a temática em análise neste se no acompanhamento exclusivo dessas
artigo, o Tempo de Estudo Autónomo. crianças, enquanto os restantes elementos
Este destina-se ao estudo e aprofun- do grupo cumprem o estabelecido
damento de conteúdos disciplinares, ao também nas parcerias, desenvolvendo

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trabalho cooperativo com os colegas e Digamos que a principal funcionalidade


cumprindo os compromissos presentes seria a memória do trabalho realizado,
nos seus Planos Individuais de Trabalho. mas também pode contribuir com
indicações para o trabalho a realizar
O apoio do professor aos alunos em permitindo aos professores conhecer
dificuldade melhor cada criança e deste modo traçar
estratégias que visem o aperfeiçoamento
O instrumento que serve de apoio das suas aprendizagens.
ao registo do trabalho interactivo do No momento de trabalho autónomo
professor com os alunos em dificuldades é os alunos podem ser apoiados por mim,
uma tabela de dupla entrada constituída pela professora de apoio sócio-educativo
por cinco colunas. A primeira destina-se à ou por outro colega mais capaz em
data da sessão de apoio, na segunda determinado conteúdo. Os dados
inscreve-se o nome do aluno que vai ser quantitativos presentes nos gráficos
apoiado, a terceira assinala que é o seguintes referem-se exclusivamente aos
professor que vai apoiar essa criança, a apoios prestados por mim e pela
quarta destina-se à enunciação dos professora de apoio.
conteúdos que o aluno definiu como No início do ano lectivo a professora
fazendo parte das suas dificuldades, a do apoio sócio-educativo foi colocada na
quinta refere-se à avaliação da sessão de escola para apoio aos alunos em
apoio, na qual o professor descreve dificuldade. Como a minha turma recebeu
algumas das actividades realizadas com o alunos de 4º ano com retenções e
aluno, as dificuldades detectadas ou os respectivos planos de acompanhamento, a
avanços verificados em termos de professora veio para a turma com a
aprendizagem ou comportamentos. função de acompanhar esses alunos em
Este registo de apoio surgiu da concreto, sendo-lhe atribuídas três horas
necessidade que sentia para fazer o e meia de apoio semanal. Contudo, ficou
registo escrito das observações realizadas combinado entre nós que ela poderia
durante o período de apoio a cada aluno, apoiar outras crianças que viessem a
de modo a compreender melhor todo o necessitar da sua ajuda, colaborar e
trabalho realizado durante um período de integrar-se nos trabalhos da sala da forma
tempo, bem como os progressos ou mais vantajosa. Assumimos sempre uma
retrocessos que cada criança possa ter postura dialogante e o trabalho foi
atingido num determinado momento. desenvolvido com base nas necessidades

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e no desenvolvimento de cada criança e Ao observarmos ainda a tabela 1,


da turma na sua globalidade. constatamos que o meu apoio é
Como se pode observar na tabela 1, distribuído quase exclusivamente pelos
os alunos mais apoiados foram os alunos alunos de segundo ano. Tal ocorrência
do quarto ano, em particular aqueles que deve-se ao facto de estas crianças terem
apresentavam retenções em anos sido meus alunos no ano anterior o que
transactos e cujos diagnósticos efectuados me facultava uma maior quantidade de
evidenciavam dificuldades graves a dados sobre as suas aprendizagens, sendo

Número de vezes que o Áreas em que os alunos foram


aluno foi apoiado apoiados
Alunos Pelo Pela Língua Matemá Estudo Outras
professor professora Portugue tica do dificulda
da turma do apoio sa Meio des
sócio-
educativo
Sónia 9 2 7 7 2
Patrícia 10 9 6
Alunos do 2º ano

Paula 6 7 4 1
Jorge 9 8 2
Ricardo 3 1 3
Rodrigo 10 1 9 3
Márcia 3 3 2
Pedro 2 2
Maria 8 7 2
Sandra 2 2 2
Elsa 2 2
Carlos 1 5 2 5 1
Alunos do 4º ano

Filipa 2 6 3 6
António 20 15 13 8
Carlota 20 9 16 2 8
Ana 1 20 13 15 3 1
Isabel 3 2 4 1
Daniel 2 7 5 7 3
Gonçalo 2 2 1 3 1
Total 65 87 112 101 19 12

Tabela 1- Leitura global dos dados analisados

diferentes níveis. Durante este primeiro mais fácil ir de encontro às suas


período, o trabalho de acompanhamento necessidades. Neste sentido, em relação
dessas crianças foi sempre desenvolvido ao grupo de segundo ano, as minhas
pela professora do apoio sócio-educativo. preocupações durante o primeiro período

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centraram-se em perceber quais as que estes se distribuem por quase todas


crianças que ainda precisavam do meu as crianças de uma forma equitativa,
apoio e, ao mesmo tempo, verificar o sendo as áreas mais apoiadas, em
estado das suas aprendizagens, de modo primeiro plano, a Língua Portuguesa, logo
a podermos no futuro canalizar os nossos seguida da abordagem feita aos
esforços para aqueles que se encontravam conteúdos de Matemática. Através do
com mais dificuldades. Daí o facto de se gráfico constatamos também que o apoio
verificar na tabela 1 que algumas crianças à área de Estudo do Meio assumiu menos
beneficiam de um apoio regular, enquanto relevância, sendo que só algumas crianças
outras são apoiadas pontualmente e em manifestaram necessidade de serem
menor número de vezes. ajudadas pelos professores nesta área e
Refira-se ainda que a generalidade num número de vezes muito reduzido.
das constatações sobre as aprendizagens Ao analisarmos o gráfico 1,
dos alunos, neste período de tempo, e a verificamos ainda que alguns alunos da
distribuição dos apoios foram turma foram apoiados em outras áreas ou
sistematicamente negociadas com a dificuldades. Essas dificuldades referem-se
turma nos momentos de trabalho que não a conteúdos programáticos mas a
dispomos para esse efeito. questões relacionadas com uma certa
Em relação aos dados presentes no predisposição para a aprendizagem que se
gráfico número 1, referentes às áreas em manifestam em algumas crianças. Dentro

20

15

10

5 Apoio do professor da
turma
0
Jorge

Ana

Pedro
António

Rodrigo
Márca
Sónia

Sandra
Gonçal
Ricardo
Patrícia
Paula

Carlota

Maria

Elsa
Carlos

Daneil
Filipa

Isabel

Apoio da professora de
apoio socioeducativo

Gráfico 1 – Apoio aos alunos durante o TEA

que os alunos foram apoiados, verificamos deste conceito de predisposição para as

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aprendizagens estão enquadradas as que, no início do ano lectivo, lhes tinham


dificuldades de atenção e concentração sido diagnosticadas maiores dificuldades
nos trabalhos a realizar, o ritmo lento de nesta área. Desta leitura saliente-se ainda
concretização das propostas, a necessi- uma tendência no apoio aos alunos de
dade de cumprimento dos compromissos 2ºano no que se refere aos conteúdos
assumidos com a turma ao nível do curriculares desta área e ao compararmos
trabalho planificado de forma colectiva e as tabelas 2 e 3 concluímos mesmo que
individual. No fundo estas dificuldades estas crianças foram mais apoiadas na
referem-se a uma certa prontidão para área de Língua Portuguesa do que na
aprendizagem e daí as necessidades que Matemática, precisamente o contrário do
estas crianças sentem em ter, ao seu que acontece com os seus colegas de 4º
lado, alguém mais capaz para conse- ano.
guirem realizar o trabalho e evoluírem Outra das inferências que emerge
satisfatoriamente. da análise dos dados desta tabela, em
Em relação aos dados presentes no consequência do que afirmei no parágrafo
gráfico 2, relacionado com os conteúdos anterior, refere-se aos conteúdos destas
que foram apoiados em Língua Portuguesa áreas que foram mais trabalhados com as
verifica-se, numa primeira análise, que as crianças. Da leitura dos dados verificamos
crianças mais apoiadas foram aquelas que, em primeiro plano, existe uma

16

14

12

10
Língua Portuguesa
8
Matemática
6
Estudo do Meio
4 Outro
2

0
Pedro
Ana

Sandra
Carlos

Sónia

Paula

Maria
Ricardo
António
Jorge

Isabel
Patrícia

Márca
Filipa

Daneil
Carlota

Rodrigo

Elsa
Gonçalo

Gráfico 2 – Conteúdos de Língua Portuguesa em que os alunos foram apoiados


durante o TEA

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preocupação em trabalhar com os alunos como já salientei anteriormente, uma


as questões relacionadas com a produção maior tendência para apoiar as crianças
escrita, assumindo também as questões do 4º ano o que também vai de encontro
relacionadas com a leitura uma relevância ao diagnóstico que elaborámos no inicio
significativa. Os conteúdos referentes à do ano lectivo.
análise gramatical da língua são os menos
apoiados e logicamente só se referem a
alunos do 4º ano.

Produção Leitura Ortografia Funcionamento Total


escrita da língua
Sónia 5 3 2 10
Patrícia 6 5 3 14
Paula 4 5 1 10
Alunos do 2º ano

Jorge 5 5 3 13
Ricardo 1 1
Rodrigo 7 5 6 18
2 2 4
Márcia
Pedro 1 1
Maria 6 4 2 12
1 1 2
Sandra
Elsa 0
Carlos 1 1 2
Alunos do 4º ano

Filipa 2 1 3
António 9 7 11 5 32
Carlota 1 3 7 11
Ana 6 7 13
Isabel 1 1
Daniel 2 2 3 7
Gonçalo 1 1
Total 48 37 38 26

Tabela 2 - Conteúdos de Língua Portuguesa em que os alunos foram apoiados durante o TEA

Na tabela número 3 estão presentes Os conteúdos em que os alunos foram


os dados sobre o apoio prestado aos mais apoiados nesta área referem-se, em
alunos no âmbito dos conteúdos da área primeiro lugar, à leitura e escrita de
de Matemática, neles se pode verificar, números e o treino dos diferentes

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algoritmos foi o segundo conteúdo em que Evolução de um grupo de alunos


as crianças manifestaram maiores durante o primeiro período
dificuldades. O terceiro conteúdo em que
os alunos demonstraram precisar de mais Pretendo agora, tendo ainda como
ajuda dos adultos relaciona-se com a referencial a análise dos dados recolhidos
resolução de problemas. O estudo das durante este primeiro período, relatar a
tabuadas, os conteúdos sobre grandezas e evolução de três crianças ao nível das
medidas, bem como os referentes às suas aprendizagens, mobilizando para isso
questões da forma e espaço foram os as questões que serviram de ponto de
menos trabalhados. partida para a redacção deste escrito.

Leitura e
Forma e
escrita de
Grandezas espaço
números Operações Tabuadas Problemas Total
e medidas
Sónia 5 5
Patrícia 1 3 4
Paula 2 5 7
Jorge 3 1 4
Alunos do 2º ano

Ricardo 1 1 1 3
Rodrigo 1 3 1 4
Márcia 1 1 2
Pedro 1 2 2
Maria 3 1 4
Sandra 1 1 1 3
Elsa 2 2 4
Carlos 4 1 1 6
Filipa 2 4 3 2 11
Alunos de 4º ano

António 6 2 3 1 3 3 18
Carlota 6 10 2 5 23
Ana 9 3 2 6 20
Isabel 2 2 2
Daniel 4 2 1 1 8
Gonçalo 1 1
Total 44 53 11 1 21 5

Tabela 3 - Conteúdos de Matemática em que os alunos foram apoiados durante o TEA

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No diagnóstico da turma, efectuado Tentarei, seguidamente, caracterizá-las


no início do ano lectivo, verifiquei em sucintamente para que se possa perceber
melhor a sua evolução e a
20 forma como foram
mobilizados esforços no
15
Apoi o do profes s or ti tul a r sentido da superação dos
10 problemas e lacunas que
Apoi o da profes s ora de
5 a poi o s oc i oeduc a ti va evidenciavam.
O Jorge era um
0
Pa tríci a Jorge Ca rl ota aluno que manifestava um
excelente desempenho ao

Gráfico 3 – Apoio aos alunos em dificuldade nível das questões da


Matemática. Contudo,
quanto à Língua Portuguesa demonstrava
relação aos alunos de 2º ano que era
dificuldades em acompanhar o restante
ainda necessário trabalhar e aprofundar
grupo. Observei várias vezes que o
as questões de aperfeiçoamento da escrita
trabalho desta área lhe despertava pouco
e leitura, uma vez que algumas crianças
interesse e as suas intervenções, nos
evidenciavam dificuldades a este nível.
diferentes momentos de trabalho, eram
Para ilustrar melhor o que menciono
descontextualizadas e revelavam, para
no parágrafo anterior escolhi, a título de
além de uma certa insegurança e medo de
exemplo, dois alunos da turma que
falhar, pouca compreensão do trabalho
manifestavam dificuldades a esse nível.
que estava a ser

16
desenvolvido e dos efeitos
14 que se pretendiam
12
alcançar.
10 Língua Portuguesa
8 Matemática
A produção escrita
6 Estudo do Meio deste menino caracte-
4 rizava-se pelo recurso a
Outras dificuldases
2
palavras ou textos que já
0
Patrícia Jorge Carlota conhecia, revelando pouca
autonomia neste domínio.
Gráfico 4 – Áreas em que os alunos foram mais apoiados Consequentemente, o seu

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desempenho no plano da leitura No diagnóstico inicial da Carlota


encontrava-se pouco desenvolvido. O consta o facto de esta aluna integrar um
aluno conseguia ler pouquíssimos registos grupo de alunos que já tinham sido
escritos, limitando-se esta actividade à sujeitos a uma retenção em anos
leitura de textos ou palavras que tinha anteriores. As dificuldades desta criança
memorizado. manifestavam-se nas diferentes áreas
Em relação ao diagnóstico da curriculares, sendo que se verificava uma
Patrícia verificava-se um quadro necessidade de aperfeiçoamento a nível
semelhante ao do aluno anterior, da produção de textos e da consequente
acrescido do facto que esta criança análise e compreensão dos mesmos. Na
revelava também dificuldades em realizar área da Matemática, para além das
os trabalhos com que se comprometia no questões relacionadas com a leitura e
seu Plano Individual e em orientar-se, de escrita de números, verificava-se também
forma responsável e autónoma, na que esta menina precisava de ser ajudada
dinâmica da sala, uma vez que tinha no treino dos diferentes algoritmos e das
dificuldades em escolher e efectuar os estratégias para resolução de problemas.
trabalhos que mais precisava, do mesmo Acrescido aos problemas obser-
modo que não conseguia fazer as vados nas diferentes áreas, a aluna
anotações do trabalho desenvolvido nos manifestava ainda outras dificuldades que
registos colectivos que servem de apoio. a impediam de obter maiores níveis de
sucesso nas diferentes áreas. Estas
lacunas estão amplamente

7 relacionadas com o que já


6 Produção escrita referi no decorrer deste
5 artigo sobre uma certa
Leitura
4 prontidão para aprender
3 que se observa em alguns
Ortografia
2 dos alunos da turma. No
1 Funcinamento da caso específico desta aluna
0 Língua
refiro a constante necessi-
Patrícia Jorge Carlota
dade que tem de ter a seu
lado um adulto para conse-
Gráfico 5 – Conteúdos de Língua Portuguesa em que
guir realizar o trabalho. Na
os alunos foram apoiados

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maioria das vezes não se trata de não nesse sentido. Daqui decorre a
saber realizar uma actividade ou tarefa, necessidade de nos organizarmos de
mas sim da necessidade ter a ajuda e modo a que os professores possam de
orientação do professor para se facto realizar um trabalho de diferenciação
concentrar nela e a concretizar com das aprendizagens, planeando momentos
sucesso. A título de exemplo menciono através dos quais se possa sentar ao lado
que os diferentes ficheiros disponíveis na das crianças em dificuldade de modo a
sala só foram realizados porque a compreendê-las melhor, ajudando-as a
professora de apoio sócio-educativo lhe tomar consciência dos problemas que têm
deu orientações frequentes no sentido e da forma como podem ser resolvidos, o
deste trabalho ser realizado para que a que julgo ter acontecido durante este
aluna conseguisse evoluir nas período.
aprendizagens. Os dois alunos de 2º ano foram
Após o processo de conscien- apoiados por mim cerca de dez vezes
cialização das dificuldades das crianças, cada um em momentos distintos e, como
tornou-se evidente para a turma que o se pode verificar na leitura das diferentes
trabalho a ser desenvolvido junto destes tabelas e gráficos, o trabalho desenvolvido
alunos teria que assumir como objectivos incidiu particularmente sobre a área onde
primordiais a superação desses problemas estas crianças revelavam maiores
e que todas as estratégias desenvolvidas dificuldades, a Língua Portuguesa. O apoio
teriam que dar um contributo efectivo prestado nesta área, como também o
revelam os dados,
10
relacionou-se am-
9
Leituras e escrita de
8 plamente com as
números
7
Operações questões da produ-
6
5 ção escrita, leitura e
4 Tabuadas
ortografia. O objec-
3
2 Problemas tivo principal deste
1
trabalho foi de-
0
Patrícia Jorge Carlota senvolver estra-
tégias que visassem

Gráfico 6 – Conteúdos de Matemática em que os alunos a compreensão dos

foram mais apoiados processos de escrita

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e leitura em contextos significativos para - Quais as áreas em que os alunos


as crianças e nos quais elas fossem revelaram mais dificuldades.
agentes activos nesses processos, de - Verificar quais os conteúdos em que os
modo a que se conseguissem tornar cada alunos foram mais apoiados.
vez mais autónomas nas tarefas destes - A leitura da coluna da avaliação pode
domínios e ultrapassar as dificuldades fornecer dados sobre a evolução dos
detectadas. alunos a diferentes níveis.
Após a leitura e análise deste
Reflexões finais registo de trabalho, tanto em termos
quantitativos como qualitativos, julgo
Considero que o uso deste registo poder concluir que ele nos permite:
pode constituir de facto uma mais-valia - Conhecer melhor o aluno numa
para o trabalho do professor com os perspectiva de avaliação permanente.
alunos em dificuldades, no sentido de o - Planificar melhor as actividades a
ajudar a compreender melhor o trabalho desenvolver com cada aluno.
desenvolvido com cada criança. No - Observar o perfil evolutivo do aluno.
entanto, as vantagens da sua utilização - Avaliar de forma dinâmica a evolução do
ficarão esvaziadas de sentido se não for aluno em termos de aprendizagem.
feita uma leitura e análise sistemática dos - Contribuir para a avaliação global, uma
dados e informações que ele nos fornece, vez que nos ajuda na síntese de todo o
pois reconheço que é esse trabalho que trabalho realizado.
nos permite tomar uma maior Outro dos aspectos que considero
consciencialização do percurso desen- relevante focar nesta breve conclusão é o
volvido por cada aluno e compreender facto de as colegas do apoio sócio-
melhor qual o rumo a seguir em termos educativo reconhecerem imensas vanta-
de estratégias que vão ajudar a resolver gens na utilização deste instrumento de
os problemas detectados. trabalho, facto que contribuiu para
Com a leitura e análise do registo à começarem também a utilizá-lo com
posteriori podemos concluir que este nos crianças de outras turmas.
permite observar os seguintes elementos: No fundo o trabalho que vamos
- Número de vezes que cada aluno é desenvolvendo com cada criança, em
apoiado pelo professor, fornecendo um particular aquelas que se encontram em
retrato exacto do tempo que se dificuldades de algum tipo.
despendeu com cada criança.

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O trabalho do professor no acompanhamento aos alunos em dificuldade 16
Joaquim Liberal

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