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Professora autora/conteudista

MONICA FONSECA WEXELL SEVERO


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SUMÁRIO
1 - Revoluções científicas e filosofia, indutivismo e falsificacionismo . . . . . . . . . . . . 4

1. Introdução: Revoluções científicas e filosofia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4


1.1. Crenças de nossa época . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

2. O indutivismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12

3. O falsificacionismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20

2 - Progresso através de revoluções e conhecimento objetivo . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

4. Progresso através de revoluções: paradigmas de Kuhn . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

5. Conhecimento objetivo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42

3 - Tecnologia, tecnofilia, tecnofobia e neutralidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47

6. Tecnologia, tecnofilia, tecnofobia e neutralidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47

4 - Controle social, revolução microeletrônica e digital . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63

Controle social, revolução microeletrônica e digital . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63

Considerações finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73

Glossário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84
1 - REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS E FILOSOFIA, INDUTIVISMO E
FALSIFICACIONISMO

1. INTRODUÇÃO: REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS E FILOSOFIA


O título de nossa disciplina sugere uma questão polêmica e que muito nos interessa: saber se
existem revoluções – sinônimo de grandes rupturas –, ou se a ciência se desenvolve por meio do
acúmulo de conhecimentos, obtidos por meio da pesquisa realizada ao longo de gerações. Este
é o tipo de debate da filosofia da ciência, ramo de investigação sobre o qual nos debruçaremos.
Questionamentos sobre o que é a ciência, como ela se desenvolve, se é possível estabelecer critérios
para distinguir esta atividade de outras, qual o papel do método empregado na construção de seus
enunciados, entre outras, irão aparecer ao longo desta jornada. Salientamos que isso é bastante
diferente do que fazem os cientistas em seus laboratórios.

Os debates a respeito da natureza da ciência não se iniciam na atualidade. Como podemos


ver no pequeno excerto a seguir, o assunto está em pauta desde o mito de Prometeu, levado ao
palco em Atenas em V a.C. Prometeu é submetido a terrível sofrimento por ousar despertar na
humanidade a curiosidade sobre as coisas do mundo, a capacidade de formular perguntas e buscar
insistentemente respostas, de construir e utilizar conhecimento. Não podemos deixar de recordar que,
desde sempre, este herói sabe o que lhe aguarda, pois ele conhece o futuro. Dada esta capacidade
sobre-humana, podemos afirmar que sua escolha é muito mais consciente do que qualquer uma
das nossas, pois ele conhece a penalidade cruel que terá de enfrentar por ter despertado em nós
o amor ao conhecimento.

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FIGURA 1 – Prometeu

“A tortura de Prometeu” (1819), óleo sobre tela de Jean-Louis-Cesar Lair (1781-1828). Prometeu acorrentado
por Hefesto em rochedos situados nos extremos perdidos do mundo. “Aconteceu certo dia... Roubei a semente
do fogo e a escondi dentro do oco de uma árvore. Foi esse fogo que entreguei à espécie humana. O fogo serviu
para lhe despertar o espírito. Do fogo tiraram todas as artes e o conhecimento. Era o que Zeus não queria.
Queria mantê-los bestiais, analfabetos, grosseiros. [...] Graças a mim, os homens se apegaram à vida. Alguns,
pelo conhecimento, até mesmo perderam o medo da morte. E inventaram a dignidade, a liberdade e tantos
valores. Compreenderam o que isso significa em relação ao poder absoluto pretendido por Zeus? (ÉSQUILO,
2010, p. 25-28). Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:The-torture-of-prometheus-jean-louis-cesar-lair.jpg

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O tema reaparece, sob outra linguagem, também em Platão e Aristóteles.

Platão (427-347 a.C.) sustentava a existência de dois mundos: um que se apresenta aos sentidos
e que está em permanente mutação e outro, imutável e inacessível aos sentidos. Os objetos do
verdadeiro conhecimento habitariam o mundo abstrato, independente de tempo e espaço, acessível
somente ao intelecto. Coerentemente, Platão separa a razão e os sentidos, sendo estes últimos
fonte de equívoco que dificultam a tarefa da razão, que é a construção de conhecimento. Sua
concepção científica está fundamentada nesta visão hierarquizada: cabe à razão livrar-se dos
enganos causados pelos sentidos para que possa ascender à verdadeira contemplação das ideias.
Em outras palavras, trata-se de superar os conhecimentos da simples opinião (doxa) em busca do
conhecimento verdadeiro (episteme – ciência). A ferramenta para esta tarefa é a matemática, que
descreve as realidades não sensíveis e é capaz de dissociar-se da prática. Pensemos numa figura
geométrica qualquer, uma bola, um cone, o instrumento musical triângulo: irregulares na prática,
abstratos e perfeitos na geometria.

De Platão nos vem a distinção, fundamental até hoje, entre a ideia abstrata e a
realidade tangível. Para o pensamento platônico, os conceitos supremos, como
Perfeição, Beleza ou Verdade, só podem existir verdadeiramente num “mundo das

ideias”. Tais ideias, em si perfeitas, seriam as matrizes da realidade terrena, que


corresponderia a nada mais que um reflexo delas, com graus variados de erro.
Assim, toda realidade neste mundo teria necessariamente um nível de imperfeição.
Um círculo perfeito só existiria idealmente. Na prática, para Platão, o que mesmo
a mais aperfeiçoada tecnologia pode nos dar é uma aproximação da perfeição. A
existência de algo “no” mundo implica, obrigatoriamente, em distorção, desvio, erro.

É fácil ver como essa concepção se relaciona com a proposição, bem contemporânea,
de que a mera observação já altera o fenômeno. Não pode deixar de ser assim, diria
um tranquilo Platão a físicos contemporâneos, pois o erro está como que enraizado
em nosso sentidos. (ZINGANO, 2002, p. 58)

A abordagem de Aristóteles (384-322 a.C.) parte da observação e do experimento antes da


reflexão abstrata. Discípulo de Platão, sugere uma tese oposta ao de seu mestre: a de que existe
um só mundo, o que devemos investigar. Essas duas tendências, ou abordagens, permanecem em
debate desde então.

Aristóteles mapeou vários campos de investigação, dividindo-os e organizando-os por temas –


lógica, física, ciência política, meteorologia, retórica, ética, economia. O pensador de Estagira também
legou-nos termos técnicos que utilizamos, em seus equivalentes latinos, como energia, dinâmica,
indução, demonstração, atributo, propriedade, categoria, posposição, universal, entre outros.

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Muito sucintamente, para este pensador grego, a ciência pode exprimir-se numa linguagem
e ser ensinada, refere-se ao necessário e permite demonstração. O conhecimento científico é
verdadeiro, pois corresponde a propriedades inerentes e caracterizadoras de cada grupo de coisas.
Há diferença entre a investigação da natureza da episteme (ciência) em confronto com a techné
(arte em sentido amplo).

Aristóteles pode ser com justiça considerado como um dos pais do que costumamos
chamar de método científico. Não só por sua notória influência sobre a escolástica
e sobre Descartes, mas pela tendência, presente em sua obra, de se dedicar a o
mundo natural, físico, pragmático, para entender suas leis subjacentes. É de seu
pensamento que saem as exigências de lógica e coerência que vão marcar todo o
desenvolvimento do experimentalismo ocidental. A repetibilidade das experiências, a
concretude dos fenômenos, a convicção de que a razão tem habilidade para decifrar
as leis internas da natureza são ideias basilares da ciência que se encontram todas,
em germe, nos textos aristotélicos. (ZINGANO, 2002, p.58)

FIGURA 2 – Obra A escola de Atenas

Nas paredes do Vaticano, a obra “A escola de Atenas”, de Rafael (1509-1511), retrata Platão e Aristóteles. No
destaque, notamos que Platão (esquerda) aponta para o céu, para as coisas superiores e segura o Timeu, obra
de metafísica abstrata. Aristóteles, ao seu lado, carrega sua Ética e aponta para baixo, para a Terra, sugerindo
que devemos manter nossos pés no chão. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sanzio_01.jpg

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Embora a cosmologia aristotélica (geocentrista, de universo finito, terra imóvel, espaço qualitativo
e sem vácuo) tenha perdurado por dezoito séculos, somos herdeiros de uma outra tradição, que
remonta à Renascença e tem suas bases em Copérnico, Kepler, Galileu e Newton, para citar somente
alguns precursores.

As filosofias antigas morreram lentamente durante Renascença. À medida que


Copérnico, Tycho e Kepler gradualmente provaram que as teorias de Aristóteles e
Ptolomeu sobre o Universo estavam erradas, as pessoas perceberam que a Terra não
era o centro do Universo que ele a se move ao redor do Sol. Mas as forças da razão
defrontaram-se com as forças da política e do poder – desafiar os ensinamentos
rigorosamente aristotélicos da Igreja católica custou a Giordano Bruno a vida, e a
Galileu, a liberdade. (BRODY; BRODY, 1999, p. 27)

Também a tradição que nasce com o pensador francês Augusto Comte (1798-1857) fará parte de
nossas investigações. Resumidamente, podemos apresentar o projeto desta escola de pensamento,
o positivismo fundado por Comte, como o de extensão dos métodos científicos das ciências naturais
ao estudo da sociedade. Para ele, que tinha uma visão empirista e evolucionista, todos os ramos
do conhecimento passam por estágios históricos:

I. teológico;
II. metafísico; e
III. científico ou positivo.

No século XX, o “positivismo lógico” dos pensadores reunidos no Círculo de Viena teve grande
influência na sociedade e a tendência de estender os métodos das ciências naturais às ciências
humanas foi bastante recorrente. Em contrapartida, para pensadores como Habermas, pertencente
à Escola de Frankfurt, as formas mais poderosas da dominação humana baseiam-se no legado do
positivismo.

SAIBA MAIS

Não podemos nos esquecer que o legado da tradição do positivismo lógico é forte em nosso país.
Saiba mais assistindo o vídeo Positivismo – O Rio de Janeiro da Belle Époque disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=-yiVQTZrRfg

Estamos, de forma muito geral, descortinando o cenário onde iremos adentrar, um rico ambiente
polifônico – de muitas vozes. Não poderemos esgotar nem os aspectos relevantes, nem os temas
tratados ou as interpretações apresentadas num debate que se iniciou e fecunda há séculos. Nós
nos dedicaremos, nesta unidade, a analisar um recorte entre outras possibilidades.

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Por se tratar de ambiente polifônico, antes de mais nada é preciso esclarecer nosso método
de trabalho. Na apresentação das diversas teorias, buscaremos nos manter na mesma linha
argumentativa que seus proponentes, utilizando exemplos do mesmo segmento, transcrevendo partes
de seus trabalhos etc. Isso não deve conduzir o leitor a acreditar que iremos apresentar o método
para selecionar o que compõe a “categoria ciência”, um critério único para avaliar as realizações
humanas na esfera do conhecimento nas mais distintas áreas de investigação. Não objetivamos
fornecer uma “medida” do que é ciência. Nosso propósito, bem mais modesto, é oferecer ao estudante
uma visão geral desta arena de debates, proporcionando-lhe as ferramentas básicas para que
deles possa participar. Além disso, partimos do pressuposto que exista um mundo físico além de
nós, e um único mundo. Isso não quer dizer que, diante dele, todos tenhamos a mesma experiência
e perceptiva. Em contraposição temos a posição imaterialista, de Berkeley. O pensador irlandês
afirmava que a matéria não existe. Segundo o imaterialismo, a matéria, ou qualquer existência não
percebida, é impossível. Berkeley sustenta que não há matéria ou universo, que todos os corpos
que imaginamos existir são ideias nas mentes que pensam sobre eles. Nada têm existência quando
não é objeto de pensamento.

1.1. Crenças de nossa época


Observamos que, em nossos dias, parece haver uma crença bastante disseminada de que as
ciências sejam merecedoras de algum tipo especial de confiança. Podemos encontrar diversos
anúncios comerciais em que a superioridade do produto oferecido é garantida por comprovações
científicas ou por meio da palavra de especialistas – os cientistas. Com essa “certificação” sugere-
se que a questão em debate esteja fora de contestação. Numa rápida pesquisa pela rede mundial
de computadores encontramos um exemplo do que gostaríamos de salientar:

vendemos produtotal – benefícios para si cientificamente comprovados! Tem diversos benefícios,


como evitar enxaquecas, estresse, ansiedade e cansaço, baixa os níveis de colesterol, purifica o
sangue do fígado, cicatriza úlceras, trata as gastrites e regula o funcionamento dos intestinos, inibe
a dor, melhorando dores crônicas de artrites, artroses e reumáticas, ajuda a fortalecer, regenerar e
revitalizar o cabelo, regenera as células melhorando toda a pele, ativa toda a circulação do corpo,
desintoxica o organismo, elimina a retenção de líquidos, contribui para o combate da diabete,
hemorroidas, celulite e problemas da próstata, evita o cansaço das pernas, entre outros. Não é
nenhum milagre! (grifos nossos)

(fonte: http://maluconsultoradevendas.blogspot.com.br/)

O consumidor teria ao menos 25 patologias diferentes resolvidas com um só produto, tudo isso
com a garantia da “comprovação científica”. Notemos alguns aspectos interessantes:

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• Qual é a base de autoridade deste cientista, ou desta ciência?
• Por que este depoimento deve ter mais peso em nossas avaliações?
• Por que deve-se avisar ao consumidor de que não se trata de um milagre?
• Ser milagroso não vende bem ou não é bom?
• O status dos milagres sempre foi este?
• Questões como estas interessam ao debate em que nos inserimos.

Ao mesmo tempo, também em nosso cotidiano, podemos encontrar um grande grupo de


pessoas que acusam a ciência e os cientistas de uma série de danos à vida humana e ao planeta,
como a poluição, as bombas e armas em geral, o isolamento e distanciamento das pessoas em
frente às máquinas, a substituição do encontro verdadeiro pelo virtual etc. Confrontados com estas
duas posições contraditórias, podemos afirmar que as ciências são um bem ou que são um mal?
Estas categorias são adequadas para analisarmos os métodos ou resultados das ciências? Estes
questionamentos também fazem parte do que abordaremos.

FIGURA 3 – Questionamentos

Fontes: http://s2.glbimg.com/h0ium4rjJYKKwaXPiG7H1xWfTAxXYMxOp8FH5rvHq6BIoz-HdGixxa_8qOZvMp3w/s.
glbimg.com/jo/g1/f/original/2012/06/01/vietnam-napalm-girl-4_fran.jpg, http://1.bp.blogspot.com/_vk6eCNq9aQ8/
TFHVr_bi84I/AAAAAAAAACE/on9yb19_1xc/s1600/charge%2520tv%2520globo.jpg , http://www.fatosdesconhecidos.
com.br/wp-content/uploads/2015/05/lixo.gif, http://mediastorm.com/sites/default/files/images/projects/
p0007-chernobyl-legacy-poster-compressed.jpg , http://k31.kn3.net/taringa/2/4/5/0/1/2/08/marcjui/F52.
jpg?7043 , https://i.ytimg.com/vi/XN9QbkDKDmM/maxresdefault.jpg, Semnic / Shutterstock.com

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Para Francis Bacon, filósofo reconhecido como um dos primeiros a dedicar-se à articulação
do método de pesquisa científica no início do século XVII, a meta da ciência é o melhoramento da
vida humana na terra. O pensador afirmava que a coleta de dados, obtidos através de observação
cuidadosa, seria a base segura para a construção das teorias científicas que nos conduziriam ao
domínio da natureza, colocando-a a serviço da humanidade de forma a garantir-nos conforto. A
teoria de Bacon tem sido desafiada por alguns, recusada ou modificada por outros e será investigada
com mais profundidade em outra disciplina deste curso.

Iniciemos o primeiro ato.

SAIBA MAIS

Acesse o artigo “Efeitos negativos dos meios eletrônicos


em crianças, adolescentes e adultos” para saber mais sobre os temas trabalhados até este momento.

Disponível em: https://www.ime.usp.br/~vwsetzer/efeitos-negativos-meios.html

CURIOSIDADE

Leia o texto de Bacon, Nova Atlântida (texto em espanhol), relacionado com o que abordamos.

Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=5736

CURIOSIDADE

Assista o trecho de 4:25 até 8:37 do filme “O ponto de mutação”, o qual está relacionado com o que
abordamos.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tQlOIa80w5Y

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2. O INDUTIVISMO
Bacon (1561-1626) sugeria que, para compreender a natureza, é a ela que devemos consultar e
não aos tratados aristotélicos, a bíblia ou os escritos dos antigos. Os trabalhos de Galileu (1564-1642)
e de Newton (1643-1727) também sustentaram esta atitude científica que colocava a experiência
como fonte de conhecimento, lugar antes ocupado pelas obras dos antigos.

Desta grande mudança de postura nos restou uma visão do que seja o conhecimento científico.
“Conhecimento científico é conhecimento provado objetivamente”, “opiniões e preferências pessoais
não tem lugar na ciência” são algumas das máximas que podemos ouvir em nossos dias e que têm
sua origem nesta visão das ciências como “leitura” da natureza. Estas posições serão problematizadas
ao longo de nossa investigação.

O método proposto por Bacon como alternativa para a construção de conhecimento confiável
era o método indutivo, que parte da observação para a construção dos conhecimentos científicos.
O método indutivo pode ser sucintamente esquematizado:

2. Leis e teorias

indução dedução

1. Fatos observáveis 3. Previsões e explicações


Fonte: elaborado pela autora

Para o indutivista, a partir da observação de fatos particulares podemos apreender a regularidade


da natureza e enunciar as leis e teorias gerais que a regem. Esse processo, que sai de enunciados
particulares e conduz a enunciados gerais, é chamado de indução. O conhecimento científico, desta
forma, é construído através da base segura da observação, de forma crescente, estabelecido pela
experimentação. A tarefa de prever e explicar os fenômenos investigados seria cumprida a partir
desta leitura de mundo.

O fundamento para o enunciado de uma lei ou teoria seria composto de amplo número de
observações, efetuadas em situações e condições distintas. Um único caso não é base segura,

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não se constitui observação suficiente. É preciso observar muito para apreender a regularidade da
natureza. Além disso, a observação torna-se, ela mesma, cada vez mais precisa, com a criação de
instrumentos que continuamente a incrementam.

Ao mesmo tempo em que nossa capacidade de experimentação aumenta, torna-se possível


construir leis e teorias sempre de maior escopo, isto é, que nos informam cada vez mais sobre a
natureza. A cada conjunto de dados compilados sabemos mais e ampliamos nossa capacidade de
elaborar novas perguntas. Para respondê-las criamos mais instrumentos, e assim sucessivamente.
Desta forma, o conhecimento científico cresceria de forma contínua, em conformidade com os
dados de observação.

Além disso, a observação e o raciocínio indutivo podem ser experimentados por qualquer
observador, desde que faça uso normal dos sentidos ou tenha acesso aos instrumentos necessários
à tarefa. A fonte da verdade é a experiência, ao invés da lógica, dos livros sagrados ou a palavra
dos mestres.

Desta forma, o processo indutivo nos permite formular as leis gerais, os enunciados universais
que chamamos de científicos. Entretanto, é preciso passar novamente da regra geral para o particular
para que possamos aplicar nossa lei na previsão de futuro.

É a lógica clássica que nos permite compreender como, de uma lei geral, universal, podemos
passar para a previsão e explicação de um caso particular (por dedução). O processo dedutivo,
utilizado em nosso esquema para passar da aplicação da lei para a previsão da realidade, tem
suas limitações.

Um argumento logicamente válido não é necessariamente verdadeiro. Isso não é contraditório,


visto que a lógica estuda o encadeamento interno de nossos enunciados – a forma –, e não sua
conformidade com a realidade fora de nós – o conteúdo. Um argumento pode ser logicamente válido
e não corresponder a nada no mundo, basta que sua forma/estrutura interna esteja bem construída.

Utilizaremos exemplos bastante corriqueiros para ilustrar esta tese, embora saibamos que os
enunciados científicos sejam mais complexos. Passemos a eles:

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Exemplo A
Premissa 1. Todos os cursos de filosofia são chatos.
Premissa 2. Este curso é de filosofia.
Conclusão: Este curso é chato.

Caso as premissas 1 e 2 sejam verdadeiras, não é possível que a conclusão também não o seja.
Há uma contradição entre a verdade das premissas 1 e 2 e a negação da verdade da conclusão.
Esta é uma dedução válida (A) – construída solidamente. Desta forma, podemos estar seguros de
que, na hipótese de que as premissas sejam verdadeiras, a conclusão também o será. Todavia, não
nos esqueçamos de que a lógica não investiga a verdade, e sim a validade – a forma, a estrutura
do enunciado.

Vejamos agora o exemplo anterior ligeiramente modificado:

Exemplo B
Premissa 1. Muitos cursos de filosofia são chatos.
Premissa 2. Este curso é de filosofia.
Conclusão: Este curso é chato.

Agora temos um argumento inválido (B), pois a verdade das premissas não garante a verdade
da conclusão. Neste segundo exemplo (B) as premissas 1 e 2 podem ser verdadeiras e a conclusão
não, pois o curso em questão pode ser um dos “poucos” “não chatos”.

Para o indutivista, se as leis gerais forem estabelecidas por meio da observação e indução, então
pode-se deduzir delas a previsão de futuro, como no esquema já apresentado. Ou seja, a validade
do argumento garantiria sua verdade – no sentido de correspondência com a realidade. Do ponto
de vista da lógica, esta confusão é inaceitável: verdade e validade são coisas distintas e somente
a ultima delas esta no campo da lógica.

Em outras palavras, para o indutivista

as proposições de observação que formam a base da ciência são seguras e confiáveis


porque sua verdade pode ser averiguada pelo uso direto dos sentidos. Além disso, a
confiabilidade das proposições de observação será transmitida às leis e teorias delas
derivadas, desde que as condições para as induções legítimas estejam satisfeitas
(CHALMERS, 1993, p. 34)

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Para problematizar a posição indutivista que estamos a descrever, vamos utilizar um argumento
que se tornou célebre, exemplo um tanto jocoso criado por Bertrand Russell para apresentar um
dos limites da indução. Trata-se do relato das “pesquisas científicas” de um peru indutivista.

Russell, com a pequena historieta do peru indutivista, demonstra como a realização de muitas
observações não é suficiente para garantir a verdade da previsão de futuro, que é, ao fim e ao cabo,
o que esperamos da ciência.

Além disso, os argumentos indutivos não são logicamente válidos. A observação de muitos
casos não garante a verdade de nossas conclusões gerais, universais. Podemos observar muitos
corvos pretos, em diversas situações, distintas temperaturas, latitudes, épocas do ano, entre
outras variáveis. Isso não garante que todos os corvos existentes na natureza sejam pretos. Não
há nenhuma contradição em afirmar que existam corvos de outras cores embora os muitos corvos
observados tenham sido sempre pretos. Qualquer enunciado se dá a partir de um número finito de
proposições de observação, ao passo que uma afirmação universal – uma lei científica – reivindica
um número infinito delas.

A este tipo de crítica os indutivistas já responderam utilizando-se da história da ciência. As leis


da óptica, por exemplo, são derivadas por indução de experimentos de laboratório. Outro exemplo
utilizado para demonstrar a aplicabilidade das leis obtidas por meio do processo de indução é
o das leis do movimento planetário, obtidas por meio da observação de posições planetárias e
que tem sido utilizados com sucesso para prever a ocorrência de eclipses. Em outras palavras, o
indutivista alega que, como o princípio da indução foi bem-sucedido em certo número de casos,
ele está justificado.

No entanto, David Hume, no século XVIII, notou que a argumentação acima é inaceitável, pois
utiliza o princípio da indução para justificar a própria indução. É o que chamamos de argumento
circular: o processo indutivo foi eficaz em vários casos observados, logo ele é, por indução, elevado
à categoria de regra geral (reivindicando validade universal).

Podemos destacar ainda outra categoria de objeção, também bastante recorrente na história
da filosofia.

Notamos uma variabilidade dos sentidos entre os observadores. O mesmo café pode parecer
doce para um paladar e sem açúcar para outro sem que, por isso, exista qualquer contradição.
Dois observadores, diante da mesma obra colorida, podem perceber suas cores com nuances

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diferentes, dependendo de sua cultura, da constituição de seus olhos etc. Para os esquimós existem
várias cores diferentes naquilo que nós identificamos como “branco”. Diante do mesmo objeto,
observadores brasileiros chamariam de “branco” – agrupando num mesmo conjunto – o que para
aqueles representaria um conjunto de cores diferentes.

Estas objeções também foram respondidas. Os indutivistas alegam que, na atualidade, com o
desenvolvimento de um instrumental cada vez mais especializado, não utilizamos mais somente
nossos sentidos para caracterizar a natureza. Tomemos como exemplo as cores. As cores (luz
visível) podem ser medidas no espectro eletromagnético, entre aproximadamente 400nm e 700nm.
O nanômetro (nm) é uma unidade de medida utilizada para grandezas muito pequenas. Desta
forma, para definir qual é a cor do objeto, ao invés da variabilidade das sensações humanas, o que
o cientista utiliza é a medida obtida num espectro eletromagnético, que não é variável segundo a
constituição dos olhos, gostos ou padrões culturais dos cientistas.

Trataremos agora da exigência de que sejam efetuadas inúmeras e distintas observações de


casos particulares antes da elaboração do enunciado geral.

Qual é o número de observações necessárias para que possamos induzir uma lei? Um grande
número é constituído de dez, cem, mil ou um milhão de casos? Quais são as variedades de
circunstâncias em que devemos efetuar nossos experimentos?

Se pensarmos na experiência do lançamento das bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima


e Nagasaki, quantos casos são necessários para que possamos, de forma segura, concluir algo
a respeito dos eventos? Alguém poderia sugerir que experimentos como estes fossem repetidos
diversas vezes, que bombardeássemos outras cidades mais outras menos populosas, em diferentes
latitudes, na primavera e no outono? Quantas vezes um indutivista deverá queimar-se antes de
concluir que o fogo fere a pele?

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FIGURA 4 – Imagens da guerra

Fonte: http://putinliberator.com/wp-content/uploads/photo-gallery/hirosima-nagasaki/0_93b77_3a593dbd_orig.
jpg, https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/9d/ba/41/9dba419191dd11e1d2c3581b4a927d38.jpg

Como se isso não bastasse, no registro de uma observação precisamos excluir o que é irrelevante,
pois, de outra forma, nós nos poríamos a registrar um infinito número de dados. O problema que
se coloca, neste caso, é que em nossa escolha do que é relevante em nossos experimentos está
embutida uma teoria, algo que o indutivista não pode aceitar.

Analisaremos um exemplo retirado dos laboratórios, portanto diferentes dos exemplos um


tanto simplórios que utilizamos até aqui. Em 1888 Heinrich Hertz, físico alemão, testava a teoria
eletromagnética de Maxwell para ver se produzia as ondas de rádio previstas teoricamente. O
indutivista alegaria que o pesquisador deveria agir sem preconceitos, isto é, sem nenhuma interferência
de suas preferências, crenças, hábitos ou teoria. Desta forma, Hertz precisaria registrar, além dos
resultados de seus medidores e instrumentos, também suas cores e dimensões, sua textura, o
tamanho e a cor dos sapatos e cabelos do próprio pesquisador, sua altura e peso, o tipo de material
que compunha sua vestimenta, os dados meteorológicos de cada momento, o cardápio consumido
na refeição anterior a cada teste, a cor das paredes do laboratório, o número de janelas, enfim, uma
série infindável de elementos.

Na prática, como nem todos os dados pareciam relevantes para a comprovação da teoria de
Maxwell, não foi isso que fez Hertz, para não perder seu tempo. Ao final, o pesquisador deparou-se
com um problema que não podia resolver, pois as medições da velocidade de suas ondas de rádio
eram diferentes da velocidade da luz – ao contrário do que propunha a teoria de Maxwell. Somente
após a morte do pesquisador alemão o problema foi resolvido: as ondas de rádio emitidas em seu
aparelho refletiam nas paredes do laboratório e retornavam ao medidor, interferindo no resultado.

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As dimensões do laboratório eram absolutamente relevantes para aquele experimento específico
e foram descartadas como irrelevantes.

FIGURA 5 – Heinrich Hertz e seu oscilador

Heinrich Hertz, físico alemão, e o oscilador linear utilizado para testar a teoria
de ondas. Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/54/Heinrich_Hertz.
jpg, http://ethw.org/w/images/7/7e/Fig_2_-_Experimental_setup_by_Heinrich.jpg

Isso demonstra que, para escolher quais dados são relevantes em cada situação, somos
dependentes de uma teoria. No limite, além do fato de que o registro de uma infinidade de dados não
gera necessariamente conhecimento, sua prática é implausível, podendo inviabilizar o experimento.

O cientista, quando vai a campo, vai testar eventos previamente selecionados. Seus registros
estarão focados naquele aspecto específico que foi investigar. Escolher o que é relevante exige
alguma teoria. As teorias, incompletas e falíveis, várias vezes ofereceram orientações falsas.
Entretanto, o enfrentamento destas lacunas ocorreu por meio do aperfeiçoamento das teorias e
não pelo registro de uma infinidade de dados.

Podemos encontrar outras respostas que foram elaboradas para responder a estas objeções.
Uma delas é a opção cética de David Hume, apresentada por Chalmers:

Podemos aceitar que a ciência se baseia na indução e aceitar também a demonstração


de Hume de que a ciência não pode ser justificada por apelo à lógica ou à experiência,
e concluir que a ciência não pode ser justificada racionalmente. O próprio Hume
adotou uma posição deste tipo. Ele sustentava que crenças em leis e teorias nada
mais são que hábitos psicológicos que adquirimos como resultado de repetições
das observações relevantes. (CHALMERS, 1993, p. 43)

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Vimos que os indutivistas (que aqui caracterizamos de forma um tanto ingênua) sustentam
que o método indutivo pode garantir a certeza do conhecimento, validando-o como conhecimento
seguro. Em outras palavras, é como se o método indutivo nos permitisse descobrir os segredos
da natureza, verdades não sujeitas a correções. Além disso, o crescimento da ciência aconteceria
pela adição de novas descobertas ao corpo de certezas existentes.

Também vimos algumas críticas, que não pretendem demonizar o caminho indutivo, mas somente
despojar-lhe desta pretensão de ser uma ferramenta que permite a descoberta de verdades não
sujeitas a mudanças.

Passemos agora a outras teorias do conhecimento, distintas do indutivismo.

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3. O FALSIFICACIONISMO
FIGURA 6 – Ciência

Fonte: totojang1977/ shutterstock.com

Os falsificacionistas assumem, sem problemas, que toda observação pressupõe uma teoria e é
por ela orientada, e que não é possível estabelecer a verdade de uma teoria a partir de observações.
Além disso, reconhecem a ciência como criação, invenção humana construída para descrever a
realidade, elaborada para que possamos compreendê-la. Afirmam ainda que toda teoria é uma
conjectura virtualmente provisória, sempre sujeita a reformulações.

O falsificacionista vê a ciência como um conjunto de hipóteses que são


experimentalmente propostas com a finalidade de descrever ou explicar acuradamente
o comportamento de algum aspecto do mundo ou do universo. Todavia, nem toda
hipótese fará isto” (CHALMERS, 1993, p. 65)

Os falsificacionistas propõem um critério de demarcação entre o que é ciência e o que não é.


Para eles, “há uma condição fundamental que toda hipótese ou sistema de hipóteses deve satisfazer
para ter garantido o status de lei ou teoria científica. Para fazer parte da ciência, uma hipótese deve
ser falsificável” (CHALMERS, 1993, p. 66).

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Para compreendermos como funciona este critério vamos verificar o que é ser “uma hipótese
falsificável”. Vamos recorrer a alguns exemplos:

1. Sou alimentado todos os dias às 9 horas da manhã.


2. Nunca neva às sextas-feiras.
3. Sou alimentado às 9h ou não.
4. O triângulo é uma figura geométrica que ocupa o espaço interno limitado por três linhas
retas que concorrem, duas a duas, em três pontos diferentes, formando três lados e três
ângulos internos que somam 180°.

O enunciado 1 é uma clara lembrança de nosso peru indutivista, aquele que foi degolado na
véspera de Natal. Trata-se de um enunciado falsificável, pois o personagem em questão pode ser
alimentado em outro horário, não ser alimentado em nenhum horário e mesmo ser degolado. Ser
falsificável é ter a capacidade de mostrar-se falso ou verdadeiro. Em outras palavras, o enunciado
pode ser corroborado ou refutado. O primeiro enunciado atende a esta cláusula.

Pelas mesmas razões a afirmação 3 não é falsificável, pois em qualquer das hipóteses ela estaria
correta – o enunciado não pode ser refutado.

A segunda afirmação é falsificável: basta nevar numa sexta-feira para que a falsificação aconteça.

A proposição 4 não é falsificável pois trata-se da definição da figura geométrica, e definições


não são falsificáveis.

É falsificada a proposição que, confrontada com a observação ou a possibilidade dela, mostre-se


inconsistente, falsa. Por isso, teorias vagas e indefinidas não podem ser falsificadas, pois podem
ser tomadas como compatíveis quaisquer que sejam os resultados dos experimentos observados.

Karl Popper, filósofo de origem austríaca, naturalizado britânico, importante representante desta
escola de pensadores, não exige que

um sistema seja suscetível de ser dado como válido, de uma vez por todas em sentido
positivo; exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo
através de recurso a provas empíricas, em sentido negativo: deve ser possível refutar,
pela experiência, um sistema científico empírico. (Popper, 2001, p. 42. Grifos nossos)

Além disso, para um falsificacionista, quanto maior o estofo de uma teoria melhor ela é, pois
mais falsificável ela se torna. Em outras palavras, enunciados que são mais amplos e claros são
falsificáveis mais facilmente, e, por esta mesma razão, preferíveis. Enunciados mais restritos, que

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são menos informativos, são proporcionalmente menos falsificáveis. Por este motivo, enunciados
menos audaciosos são menos desejáveis.

Passemos a palavra a Popper, para ouvirmos de sua voz elementos importantes desta teoria
do conhecimento que sustenta que as chamadas teorias científicas não são verdades inalteráveis,
não são a revelação dos segredos da natureza, são produtos da mente humana.

FIGURA 7 – Karl Popper

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Karl_Popper.jpg

[...] se tentarmos considerar sua verdade (do princípio da indução) como decorrente da
experiência, surgirão de novo os mesmos problemas que levaram à sua formulação.
Para justificá-lo, teremos que recorrer a inferências indutivas e, para justificar estas,
teremos de admitir um princípio indutivo de ordem mais elevada, e assim por diante.
[...] A tentativa de alicerçar o princípio da indução na experiência malogra, pois conduz
a uma regressão ao infinito. (POPPER, 2001, p. 29)

Do ponto de vista lógico, não há justificativa ao inferir enunciados universais de


enunciados singulares, independentemente de quão numerosos sejam estes; com
efeito, qualquer conclusão colhida desse modo sempre pode revelar-se falsa. [...]
Independentemente de quantos cisnes brancos possamos observar, isso não justifica
a conclusão de que todos os cisnes são brancos. (POPPER, 2001, p. 27-28)

Já abordamos ambas as questões em nossas investigações. Trata-se do problema de utilizar a


indução para sustentar a indução e o problema da crença na regularidade da natureza.

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O falsificacionismo estabelece um critério que deve ser utilizado para definir se um campo é
científico – pode ser falsificado – ou não. Nas palavras de Popper

essa é uma concepção de ciência que considera a abordagem crítica sua característica
mais importante. Para avaliar uma teoria o cientista deve indagar se pode ser criticada,
se expõe a críticas de todos os tipos e, em caso afirmativo, se resiste a essas críticas
(POPPER, 1982, p. 284).

E sobre a possibilidade de construirmos um saber cabal, último, confiável por ser irretocável, ao
qual poderíamos adicionar outras certezas recém-descobertas, como pretendiam os indutivistas
ingênuos que caracterizamos anteriormente, Popper responde que

[...] iniciamos nossas investigações partindo de problemas. Sempre nos encontramos


numa situação problemática e escolhemos um problema que esperamos poder
solucionar. A solução, que sempre tem o caráter de tentativa, consiste numa teoria,
numa hipótese, numa conjectura. As várias teorias rivais são comparadas e discutidas
criticamente, a fim de se identificar suas deficiências; os resultados permanentemente
cambiantes, sempre inconcludentes, dessa discussão crítica, formam o que poderia
ser denominado a ciência do momento. (Popper, 1986, p. 94, grifos nossos)

Para Popper, a psicanálise e o marxismo não podem ser falsificáveis e, por esta razão, não
devem ser consideradas como teorias científicas. Vejamos como o autor apresenta sua crítica ao
que ele considera pseudociência:

Um marxista não era capaz de olhar para um jornal sem encontrar em todas as páginas,
desde os artigos de fundo até os anúncios, provas que consistiam em verificações
da luta de classes; e encontrá-las-ia sempre também (e em especial) naquilo que o
jornal não dizia. E um psicanalista, fosse ele freudiano ou adleriano, diria sem dúvida
que todos os dias, ou até de hora em hora, estava a ver as suas teorias verificadas
por observações clínicas (POPPER, 1987, p. 180).

Segundo este pensador, a ciência se desenvolve através da proposição de hipóteses altamente


falsificáveis, seguida do esforço em falsificá-las. Se a teoria persiste ao teste, perdura; se falha,
deverá ser substituída por outra. A ciência, desta forma, progrediria por meio deste exercício de
tentativa e erro.

Embora nunca se possa dizer que uma teoria seja verdadeira, pode-se afirmar que ela tem
resistido mais e melhor aos testes falsificacionistas que suas antecessoras, representando, por
esta razão, um progresso se comparada a elas. Quanto mais a ciência progride, mais falsificáveis
são suas teorias, pois a cada mudança estas devem dizer mais sobre os temas propostos.

Há ainda mais uma característica desta maneira de compreender a ciência que devemos ressaltar.

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Para Popper, se uma teoria que é amplamente aceita for falsificada, ganha-se muito, pois um
conhecimento tido como não problemático foi trazido à baila, mostrou suas limitações podendo, a
partir disso, ser superado. Da mesma forma, a falsificação de uma teoria muito audaciosa renderá
pouco conhecimento.

Analogamente, uma conjectura audaciosa, se confirmada, representará grande avanço do


desenvolvimento científico, pois falsificará conhecimentos estabelecidos como seguros até aquela
etapa, podendo sedimentar uma nova proposta explicativa. O método falsificacionista pode ser
entendido como o de uma comparação e competição entre teorias, todas elas concorrendo na
tentativa de explicar as coisas que existem de fato, as novas teorias contendo as anteriores.

Um problema se coloca diante de nossos olhos. Se a ciência se desenvolvesse segundo esta


proposta, as teorias que vigoram hoje teriam sido abandonadas há tempos, substituídas por hipóteses
diferentes. As teorias científicas têm sido, na prática, protegidas por seus adeptos – os cientistas
– de diferentes maneiras. Parece que a tese falsificacionista não passa pelo crivo da história da
ciência. Passemos a alguns exemplos:

“Nos primeiros anos de sua vida, a teoria gravitacional de Newton foi falsificada por observações
da órbita lunar. Levou quase cinquenta anos para que essa falsificação fosse desviada para outras
causas que não a teoria de Newton” (CHALMERS, 1993, p. 97) e, nem por isso, a teoria foi abandonada
ou substituída.

A teoria copernicana, anterior à de Newton, também foi falsificada de diversas formas. Tomemos
como exemplo as objeções apresentadas à teoria copernicana a partir de argumentos mecânicos,
todas elas fundamentadas numa visão aristotélica de movimento. Nem Copérnico, nem seus adeptos
podiam explicar estas objeções, pois eles também estavam mergulhados na mesma tradição
científica que seus opositores. Com isso queremos dizer que os copernicanos, na mecânica, não
possuíam outra teoria além da aristotélica.

A partir da teoria aristotélica do movimento, somando-se a teoria copernicana de uma Terra


móvel fora do centro do universo, girando ao redor do Sol, os copernicanos não podiam explicar
questões como: objetos soltos sobre a superfície da Terra que não “giravam” nem “caíam” do planeta;
a Terra girando ao redor do Sol e não deixando a Lua para trás; objetos sendo atirados do alto de
uma torre e não caindo longe da base da torre, entre outras. Todas estas objeções se amparavam
na teoria disponível para explicar o movimento dos corpos – aristotélica.

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Não vamos estudar detalhadamente nem a teoria aristotélica, nem cada uma destas objeções.
Basta-nos, nesta etapa de nossas investigações, saber que as objeções eram fortes, podiam
ser observadas e não foram respondidas. Nem por isso a teoria copernicana foi abandonada ou
substituída.

Foi necessário mais de um século até que Galileu, a partir dos resultados das observações
efetuadas através de seus telescópios, apresentasse uma nova mecânica, respondendo às falsificações
levantadas contra a teoria copernicana. A teoria falsificada (copernicana) perdurou por mais de cem
anos antes que uma nova mecânica pudesse explicar aquilo que não se poderia compreender à luz
de uma mecânica baseada nos pressupostos aceitos anteriormente.

E a resposta eterna se repete: “mas isto não é ciência...”

E eu pergunto:

– O que é ciência? Que fatos podem falsificar o seu conceito de ciência?

E descobrimos, para espanto, que não há fatos que o falsifiquem, porque sempre
que aparece um fato falsificante ele é declarado irrelevante. Não é um ganso, é
um fanso... não é ciência, é instituição... e o conceito fica tão nebuloso quanto os
conceitos metafísicos e teológicos que se pretendia exorcizar... (Alves, 1981, p. 164)

Qual era o atrativo da teoria copernicana em relação à aristotélica?

De forma bastante geral, podemos afirmar que a teoria copernicana transformava em eventos
naturais, previsíveis, movimentos que a teoria anterior não podia explicar, sendo forçada a recorrer
a diversos arranjos artificiais para adaptar-se aos casos observáveis. A teoria copernicana oferecia
simplicidade.

Pode parecer pouco, mas a teoria copernicana não foi descartada. Mesmo sendo falsificada,
foi acolhida pelos cientistas, perdurou e foi o solo de onde outros erigiram suas teses, garantindo
o progresso da ciência. O que não podia ser testado numa época, em razão da ausência de teorias
e de instrumentos para tal, pôde ser demonstrado posteriormente. Além de Galileu, Kepler também
contribuiu para sanar várias objeções a que Copérnico não pôde responder. Newton erigiu sua física
tendo como base as teorias de Copérnico, Galileu e Kepler. Além destes, outros muitos cientistas
trabalharam por esse longo período. Experimentando, cuidadosa e perseverantemente, estes
personagens foram completando as lacunas existentes – as falsificações.

Parece-nos que, neste caso, demonstramos que o desenvolvimento da ciência não foi pelo
caminho sugerido pelo falsificacionismo.

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Na época em que a ideia de Copérnico havia sido concretizada, a visão de um mundo
aristotélico fora substituída pela newtoniana. Os detalhes da história desta importante
mudança de teoria, uma mudança que ocorreu durante um século e meio, não dão
apoio às metodologias defendidas pelos indutivistas e falsificacionistas, e indicam
uma necessidade de explicação da ciência e de seu crescimento diferente, mais
complexamente estruturada. (CHALMERS, 1993, p. 99)

Vimos que, para Popper, é importante estabelecer um critério de demarcação entre o que é ciência
e o que não é. Como instrumento para efetuar esta tarefa, o autor oferece-nos o falsificacionismo,
com o qual sustenta que para ser ciência é preciso ser falsificável. Além disso, o conceito de
progresso na ciência é central nesta interpretação, isto é, a visão de que a ciência é o conjunto
de teorias, experimentos, métodos, acumulados gradativamente, que são reunidos, registrados e
transmitidos. Os cientistas seriam aqueles que se empenhariam na construção deste arcabouço,
com seus avanços e obstáculos. Este conceito de ciência se contrapõe ao de revoluções científicas,
como veremos a seguir.

SAIBA MAIS

Acesse o vídeo sobre Indutivismo e falsificacionismo, disponível em: https://www.youtube.com/


watch?v=e4h4ltAxre0

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2 - PROGRESSO ATRAVÉS DE REVOLUÇÕES
E CONHECIMENTO OBJETIVO

4. PROGRESSO ATRAVÉS DE REVOLUÇÕES: PARADIGMAS DE KUHN


Chegamos à polêmica anunciada já no título. A ciência se desenvolve por meio de um processo
contínuo, como propõem os falsificacionistas, ou por meio de rupturas, como propõe Thomas Kuhn?

FIGURA 8 – Thomas Kuhn

Fonte: http://www.hyperkommunikation.ch/images/kuhn.jpg

O próprio Kuhn nos apresenta o que ele chama de revolução científica:

Quando os membros da profissão não podem mais esquivar-se das anomalias


que subvertem a tradição existente da prática científica – então começam as
investigações extraordinárias que finalmente conduzem a profissão a um novo
conjunto de compromissos, a uma nova base para a prática da ciência [...] são
denominadas revoluções científicas os episódios extraordinários nos quais ocorre
essa alteração de compromissos profissionais. As revoluções científicas são os
complementos desintegradores da tradição a qual a atividade da ciência normal
está ligada (KUHN, 2001, p. 25)

Na obra A Estrutura das Revoluções Científicas, Kuhn nos apresenta uma descrição do
desenvolvimento científico com exemplos saídos dos laboratórios dos cientistas. Com isso, pretende

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demonstrar a desintegração e o abandono do anteriormente estabelecido e o fortalecimento de algo
diferente, o surgimento de outra base a partir da qual se desenvolverão as pesquisas científicas.

O autor afirma, referindo-se a Copérnico, Newton, Lavoisier e Einstein:

Cada um deles forçou a comunidade a rejeitar a teoria científica anteriormente aceita


em favor de uma outra incompatível com aquela. Como consequência, cada um
destes episódios produziu uma alteração nos problemas à disposição do escrutínio
científico e nos padrões pelos quais a profissão determinava o que deveria ser
considerado como um problema ou como uma solução de um problema legítimo.
(KUHN, 2001, p. 25)

Segundo Kuhn, “ciência normal significa a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais
realizações científicas passadas” (KUHN, 2001, p. 30), em outras palavras, os trabalhos científicos
tradicionalmente aceitos, numa determinada época, que estabelecem métodos e problemas
relevantes a serem escrutinados. Desta forma, a legitimidade de um problema ficaria ligada a uma
determinada etapa do desenvolvimento histórico da referida comunidade científica.

Os métodos e os temas propostos em A Física, de Aristóteles, o Almagesto, de Ptolomeu ou a


Química de Lavoisier, por exemplo, foram clássicos em determinadas épocas, estabelecendo como
prioritárias questões diferenciadas, com métodos e técnicas que lhes correspondiam, disponibilizados
em manuais para serem apreendidos pelos novos integrantes daquelas comunidades científicas.

Isso foi possível pois Aristóteles, Ptolomeu e Lavoisier propuseram algo que tinha potencial
para atrair adeptos – outros cientistas, afastando-os de outras linhas de pesquisa. Além disso,
suas teorias deixavam muitas questões em aberto, terreno para o labor dos novos associados. São
exemplos reais, que chamamos de tradição ptolomaica ou copernicana, e que Kuhn designará como
ciência normal. Isso inclui “lei, teoria, aplicação e instrumentação” (KUHN, 2001, p. 30), conjunto
que o autor irá designar como um paradigma.

Desta forma, para tornar-se um cientista, os homens estudariam um determinado paradigma,


oferecido pela comunidade científica para os estudantes. O acordo declarado está forjado entre os
que aprenderam a base de seu campo de atuação estabelecida sobre os mesmos pressupostos,
embora estes pressupostos tenham variado ao longo da história. Em outras palavras, as pesquisas
se desenvolvem a partir do que ensinam os manuais, a tradição. Kuhn esclarece: “Homens cuja
pesquisa está baseada em paradigmas compartilhados estão comprometidos com as mesmas
regras e padrões para a prática científica” (KUHN, 2001, p. 30).

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Segundo Kuhn, um paradigma se construiria paulatinamente, surgindo após o transcorrer de
determinadas etapas. Haveria um período antecedente à formação de um novo paradigma, chamado
de período pré-científico. Nesta fase, um bom número de escolas competiriam entre si, cada uma
amparada em uma metafísica diferente. Embora o campo de investigação destas escolas seja o
mesmo (por exemplo, a óptica ou a mecânica), cada uma delas enfatizaria um determinado conjunto
de fenômenos, escolhendo as observações e experiências em consonância com o que sua teoria
pode explicar melhor.

A história da pesquisa elétrica na primeira metade do século XVIII proporciona


um exemplo mais concreto e melhor conhecido da maneira como uma ciência se
desenvolve antes de adquirir seu primeiro paradigma universalmente aceito. Durante
aquele período houve quase tantas concepções sobre a natureza da eletricidade
como experimentadores importantes nesse campo, homens como Hauksbee, Gray,
Desaguliers, Du Fay, Nollet, Watson, Franklin e outros. Todos os seus numerosos
conceitos de eletricidade tinham algo em comum – eram parcialmente derivados
de uma ou outra teoria versão da filosofia mecânico-corpuscular que orientava
a pesquisa científica da época. Além disso, eram todos componentes de teorias
científicas reais, teorias que tinham sido parcialmente extraídas de experiências e
observações e que determinavam em parte a escolha e a interpretação de problemas
adicionais enfrentados pela pesquisa. (KUHN, 2001, p. 33)

Todos estes grupos diferentes, que se autodenominavam “eletricistas”, enfrentavam problemas


que não podiam resolver com a teoria de que dispunham. Todos eles conheciam os trabalhos dos
outros e, por esta razão, postergavam ao máximo o enfrentamento das questões que não podiam
solucionar a partir de sua escolha teórica. Cada um deles elegia como fundamental um fenômeno
entre os que eram observáveis. Num grupo o fenômeno elétrico fundamental a ser compreendido era
a atração e a geração por fricção, no outro a atração e repulsão, ou, ainda, os efeitos da condução
da eletricidade. Nenhum grupo conseguia avançar muito.

Este cenário permaneceu até a apresentação dos trabalhos de Franklin, que considerava a
eletricidade como fluido. Surge

uma teoria capaz de dar conta, com quase igual facilidade, de aproximadamente todos
esses efeitos. Em vista disso essa teoria podia e, de fato, realmente proporcionou
um paradigma comum para a pesquisa de uma geração subsequente de eletricistas
(KUHN, 2001, p. 35).

Lembremo-nos que este momento é o da pré-ciência. Antes da existência de um paradigma,


a própria coleta de dados apresenta-se de forma desordenada, casual, uma compilação de fatos
observáveis. Tudo pode parecer relevante, ou não. Sempre há pressupostos, algumas vezes teóricos,
noutras metafísicos. O mesmo fenômeno particular, visto por homens diferentes, é descrito de
formas também diferentes. Não há, nesta etapa, um modelo de conduta que possa uniformizar e

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hierarquizar as informações coletadas. O autor completa: “Quase nenhuma das primeiras histórias
da eletricidade mencionam que o farelo, atraído por um bastão de vidro coberto de borracha, é
repelido novamente. Esse efeito parecia mecânico e não elétrico” (KUHN, 2001, p. 37).

O triunfo de uma das escolas está relacionado à capacidade de sua teoria em oferecer melhores
respostas a uma gama maior de fenômenos, embora não possa explicar todos eles. Isto quer dizer
que a teoria não poderá explicar todos os fatos com os quais será confrontada mas, mesmo assim,
como se mostra melhor do que as outras, será aceita como um paradigma por toda a comunidade
científica.

Segundo Thomas Kuhn:

Pré-ciência: ausência de Ciência Normal: há


um paradigma - coleta paradigma aceito pela
de dados desordenada, comunidade científica -
muitas escolas suposições teóricas
compartilhando seus gerais, leis e técnicas
trabalhos. para sua aplicação.

fonte: elaborado pela autora

Os cientistas normais vão trabalhar, dentro do paradigma, para explicar aspectos importantes
observados na natureza. Os paradigmas oferecerão meios para solucionar problemas propostos em
seu interior, embora contendo anomalias. Além disso, os cientistas não irão questionar o paradigma
em que trabalham.

Com o paradigma, a comunidade científica não precisa mais justificar o uso dos conceitos, nem
enunciar a cada vez seus primeiros princípios. Tudo isso estará acordado pois são elementos que
compõem o paradigma, e, assim, cada um pode seguir a partir do ponto em que outros pararam.

Além de oferecer leis e suposições teóricas para orientar o trabalho dos pesquisadores da
comunidade, as maneiras de sua aplicação em variadas situações, os instrumentos e técnicas
para nortear as investigações futuras, um paradigma possui princípios metafísicos gerais. Em um
paradigma (cartesiano) nega-se a existência de vácuo, em outro (Maxwell) a eletricidade é composta
de corpúsculos mecânicos etc.

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Nesta etapa do desenvolvimento científico, as publicações dos resultados das pesquisas
apresentam-se cada vez mais restritas a especialistas, pois estes compartilham o mesmo paradigma.
Ao contrário, no período de pré-ciência, cada escola compartilhava seus trabalhos com as outras
e as publicações eram dirigidas a todos os possíveis interessados no assunto. Na ciência normal,
para Kuhn, as publicações científicas tornam-se, naturalmente, cada vez mais esotéricas.

FIGURA 9 – Nanotecnologia

Fonte: Lightspring / shutterstock e https://www.resumoescolar.com.br/wp-content/imagens/nanotecnologia.jpg

Dentro de um paradigma, os cientistas investigam a natureza com mais profundidade, cada vez
mais detalhada e minuciosamente.

Segundo Kuhn, a ciência normal constitui-se especialmente de três classes de problemas:

1. determinar o que é significativo, o que é especialmente revelador da natureza;


2. harmonizar os fatos com a teoria, articulando experimentos e paradigma;
3. articular a própria teoria.
FIGURA 10 – Quebra-cabeça

Fonte: beeboys/ shutterstock.com

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O autor sugere, ainda, que a ciência normal seja como a atividade de montar um quebra-cabeças
na busca de solucionar problemas conceituais, matemáticos, criar instrumentos para demonstrar
o fim previsto etc. Desta forma, a comunidade científica aumentaria o alcance e a precisão com
os quais o paradigma pode ser aplicado.

Para Kuhn, “o critério que estabelece a qualidade de um bom quebra-cabeça nada tem a ver com
o fato de seu resultado ser intrinsecamente interessante ou importante”, pois “o valor intrínseco não é
critério para um quebra-cabeça. Já a certeza de que este possui uma solução pode ser considerado
como tal” (KUHN, 2001, p. 59-60). A cura para as doenças ou a paz mundial, por exemplo, não são
considerados quebra-cabeças. Não temos a certeza de que possam ser solucionados, embora o
valor intrínseco de ambas as questões seja enorme. Segundo Kuhn, existe também a possibilidade
de que estas duas questões nem tenham solução. Mais ainda,

um paradigma pode até mesmo afastar uma comunidade daqueles problemas sociais
relevantes que não são redutíveis à forma de quebra-cabeça, pois não podem ser
enunciados nos termos compatíveis com os instrumentos e conceitos proporcionados
pelo paradigma. Tais problemas podem constituir-se numa distração para os cientistas
[...] uma das razões pelas quais a ciência normal parece progredir tão rapidamente é
a de que seus praticantes concentram-se em problemas que somente sua falta de
engenho pode impedir de resolver (KUHN, 2001, p. 60)

Isso não exclui a possibilidade de que o empreendimento científico seja útil para solucionar
problemas sociais. Kuhn destaca que esta não é a motivação da comunidade científica; “o que
incita” o cientista “é a convicção de que se for suficientemente habilidoso, conseguirá solucionar
um quebra-cabeça que ninguém até então resolveu ou, pelo menos, não resolveu tão bem” (KUHN,
2001, p.61).

Depois da assimilação de cada uma das descobertas, efetuadas dentro de um paradigma,


aumentam as possibilidades de previsão de futuro, solapando crenças estabelecidas, substituindo
procedimentos. Por essa razão, um paradigma tem, ao mesmo tempo, um caráter construtivo e um
destrutivo.

À medida que a ciência normal avança, surgem problemas cada vez mais extraordinários.
Orientado por um paradigma, os cientistas irão se empenhar em suas resoluções. Muitas vezes
estes problemas levam ao abandono dele mesmo, o que caracteriza um período pré-revolucionário.

Vejamos mais detalhadamente. Os cientistas trabalham numa determinada área dentro de


um paradigma. Eles o conheceram por meio de sua educação científica e nem estão conscientes

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da natureza precisa do paradigma em que trabalham, visto que se dedicam a resolver problemas
bastante esotéricos. Fracassos ocorrem, embora enigmas não resolvidos não conduzam de imediato
ao abandono do paradigma, como vimos.

Então, quando o número de anomalias sérias cresce, inicia-se um período de “insegurança


profissional”. Nas palavras do autor, “o fracasso das regras existentes é o prelúdio para uma busca
de novas regras” (KUHN, 2001, p. 95). Ao fracasso técnico, embora secundariamente, somam-se
outros fatores de origem social e históricos.

Quando o quebra-cabeça apresenta muitas peças que não podem ser encaixadas, questões
que não podem ser explicadas a partir do paradigma se acumulam. Rearranjos são elaborados para
salvar o paradigma até o momento em que o peso destes torna-se insustentável: as discrepâncias
corrigidas em um ponto retornam em outro.

Desta forma, muitas teorias se tornam necessárias para responder aos problemas, levando o
cenário a se assemelhar ao do período de pré-ciência. Neste cenário, a nova teoria surge a partir do
fracasso da anterior em solucionar os problemas que subsistem após várias tentativas de resolvê-
lo dentro do paradigma. As crises demonstram que chegou a hora de renovar os instrumentos
disponíveis até então. “Na manufatura – como na ciência – a produção de novos instrumentos é
uma extravagância reservada para as ocasiões que o exigem”, afirma o autor, pois “o significado
das crises consiste exatamente no fato que indicam que é chegada a ocasião para renovar os
instrumentos” (KUHN, 2001, p. 105).

Não poderíamos perder a provocação que Chalmers nos endereça, sobre este momento de
ruptura de um antigo paradigma e florescimento de outro:

Uma revolução científica corresponde ao abandono de um paradigma e adoção de um


novo, não por um único cientista somente, mas pela comunidade científica relevante
como um todo. [...] Para que a revolução seja bem sucedida, este deslocamento deverá,
então, difundir-se de modo a incluir a maioria da comunidade científica relevante,
deixando apenas uns poucos dissidentes que se refugiarão, talvez, no departamento de
filosofia. De qualquer forma, eles provavelmente morrerão. (CHALMERS, 1993, p. 133)

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Chegou a hora de ampliarmos o quadro da teoria de evolução científica segundo Thomas Kuhn:

Pré-ciência: ausência de Ciência normal: há


um paradigma – coleta paradigma aceito pela
de dados desordenada, comunidade científica –
muitas escolas suposições teóricas
compartilhando seus gerais, leis e técnicas
trabalhos. para sua aplicação.

Novo paradigma: Período de


ciência normal. crise-revolução: abandono
de um paradigma pelos
membros da comunidade
científica e sua
substituição por outro.
Crise-revolução

fonte: elaborado pela autora

E assim sucessivamente...

O progresso científico apresentado a partir deste modelo de revoluções é antagônico ao relato


de progresso cumulativo apresentado pelos indutivistas e falsificacionistas.

Para desenvolver a sua tese, o cientista americano propõe uma abordagem historicista, que
descreve uma estrutura de evolução científica, com base em cinco fases fundamentais que mostram
que a ciência evolui e progride não por acumulação de conhecimentos, mas por movimentos de
transformação revolucionária/destrutiva e construtiva ao mesmo tempo.

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FIGURA 11 – Estrutura de evolução científica

Estabelecimento de
um novo paradigma

5
4
Ciência extraordinária
e revolução científica

3 Acumulação de anomalias e crise

2 Ciência normal

Estabelecimento de
1 um paradigma

Fonte: https://image.slidesharecdn.com/kuhneaestructuradasrevoluoescientificas-141121130918-
conversion-gate01/95/kuhn-e-a-estructura-das-revoluoes-cientificas-3-638.jpg?cb=1416575445

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FIGURA 12 – A estrutura das revoluções científicas

Fase 1
“Pré-científica”

Aceitação de um
paradigma

Fase 2
“ciência normal”

Aparecimento de
anomalias

Novo paradigma

Fase 3
“ciência revolucionária”

Fonte: http://www.uruguaypiensa.org.uy/imgnoticias/688.pdf , https://encrypted-tbn2.gstatic.com/


images?q=tbn:ANd9GcT3gXg7tZz0W0DKruZK3rXU_-Kvx3-y0LXmvhn_8McYKEtmd_ks

Podemos perceber que paradigmas rivais irão destacar, como relevantes, questões diferenciadas.
Por isso implicarão em pesquisas e resultados distintos, muitas vezes incompatíveis. Isso ocorrerá
pelo fato de que a maneira que um cientista vê um aspecto da natureza estará ligada ao paradigma
em que ele foi formado, no qual desenvolve suas pesquisas.

Além disso, a adesão da comunidade científica a um ou outro paradigma, além destas questões
técnicas, envolve uma série de fatores: a simplicidade da resposta nas questões marcadas como
fulcrais, suas necessidades sociais, motivos religiosos etc. Não há uma prova lógica da superioridade
de um paradigma sobre outro, ainda mais porque cada um deve ser julgado a partir de suas próprias
premissas. Mesmo assim, o autor compara as revoluções científicas às revoluções políticas.

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As razões para esta metáfora serão apresentadas pelo próprio Thomas Kuhn:

[...] consideramos revoluções científicas aqueles episódios de desenvolvimento – não cumulativo,


nos quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível
com o anterior. Contudo, há muito mais a ser dito e uma parte essencial pode ser induzida através de
mais uma pergunta. Por que chamar de revolução uma mudança de paradigma? Face às grandes e
essenciais diferenças que separam o desenvolvimento político do científico, que paralelismo poderá
justificar a metáfora que encontra revoluções em ambos?
A esta altura um dos aspectos do paralelismo já deve ser visível. As revoluções políticas iniciam-
se com um sentimento crescente, com frequência restrito a um segmento da comunidade política,
de que as instituições existentes deixaram de responder adequadamente aos problemas postos
por um meio que ajudaram em parte a criar. De forma muito semelhante, as revoluções científicas
iniciam-se com um sentimento crescente, também seguidamente restrito a uma pequena subdivisão
da comunidade científica, de que o paradigma existente deixou de funcionar adequadamente na
exploração de um aspecto da natureza cuja a exploração fora anteriormente dirigida pelo paradigma.
Tanto no desenvolvimento político quanto no científico, o sentimento de funcionamento defeituoso,
que pode levar à crise, é um pré-requisito para a revolução. Além disso, embora este paralelismo
evidentemente force a metáfora, é válido não apenas para mudanças importantes de paradigma, tais
como as que podemos atribuir a Copérnico e Lavoisier, mas também para as bem menos importantes
associadas com a assimilação de um novo tipo de fenômeno, como o oxigênio ou os raios X.
[...]
Para observadores externos, podem parecer etapas normais de um processo de desenvolvimento,
tal como as revoluções balcânicas no começo do século XX. Os astrônomos, por exemplo, podiam
aceitar os raios X como uma simples adição ao conhecimento, pois seus paradigmas não foram
afetados pela existência de uma nova radiação. Mas para homens como Kelvin, Crookes e Roentgen,
cujas pesquisas tratavam da teoria da radiação ou dos tubos de raios catódicos, o surgimento
dos raios X violou inevitavelmente um paradigma ao criar outro. É por isso que tais raios somente
poderiam ter sido descobertos através da percepção de que algo não andava bem na pesquisa
normal.
Esse aspecto genético do paralelo entre o desenvolvimento científico e o político não deveria deixar
maiores dúvidas. Contudo, o paralelo possui um segundo aspecto, mais profundo, do qual depende
o significado do primeiro. As revoluções políticas visam realizar mudanças nas instituições políticas,
mudanças estas proibidas pelas mesmas instituições que se quer mudar. Consequentemente seu
êxito requer o abandono parcial de um conjunto de instituições em favor de outro. E, neste ínterim,
a sociedade não é integralmente governada por nenhuma instituição. De início, é somente a crise
que atenua o papel das instituições políticas, do mesmo modo que atenua o papel dos paradigmas.
Em números crescentes os indivíduos alheiam-se cada vez mais da vida política e comportam-se
sempre mais excentricamente no interior dela. Então, na medida em que a crise se aprofunda, muitos
destes indivíduos comprometem-se com algum projeto concreto para a reconstrução da sociedade
de acordo com uma nova estrutura institucional. A esta altura, a sociedade está dividida em campos
ou partidos em competição, um deles procurando defender a velha constelação institucional, o outro
tentando estabelecer uma nova. Quando ocorre esta polarização, os recursos de natureza política
fracassam. Por discordarem quanto à matriz institucional a partir da qual a mudança política deverá
ser atingida e avaliada, por não reconhecerem nenhuma estrutura suprainstitucional competente
para julgar diferenças revolucionárias, os partidos envolvidos em um conflito revolucionário devem
recorrer finalmente às técnicas de persuasão de massa, que seguidamente incluem a força. Embora
as revoluções tenham tido um papel vital da evolução das instituições políticas, esse papel depende
do fato de aquelas serem parcialmente eventos extra políticos e extra-institucionais.

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[...]

Tal como a escolha entre duas instituições políticas em competição, a escolha entre paradigmas
em competição demonstra ser uma escolha entre modos incompatíveis de vida comunitária. Por ter
este caráter, ela não é e não pode ser determinada simplesmente pelos procedimentos de avaliação
característico da ciência normal, pois estes dependem parcialmente de um paradigma determinado e
esse paradigma, por sua vez, está em questão. Quando os paradigmas participam – e devem fazê-lo
– de um debate sobre a escolha de um paradigma, seu papel é necessariamente circular. Cada grupo
utiliza seu próprio paradigma para argumentar em favor desse mesmo paradigma.

Naturalmente a circularidade resultante não torna esses argumentos errados ou mesmo ineficazes.
Colocar um paradigma como premissa numa discussão destinada a defendê-lo pode, não obstante,
fornecer uma mostra de como será a prática científica para todos aqueles que adotarem a nova
concepção da natureza. Essa mostra pode ser imensamente persuasiva, chegando muitas vezes a
compelir à sua aceitação. Contudo, seja qual for a sua força, o status, do argumento circular equivale
tão somente ao da persuasão. Para os que recusam entrar no círculo, esse argumento não pode
tornar-se impositivo, seja lógica, seja probabilisticamente. As premissas e os valores partilhados
pelas duas partes envolvidas em um debate sobre paradigmas não são suficientemente amplos para
permitir isso. Na escolha de um paradigma, – como nas revoluções políticas – não existe critério
superior ao consentimento da comunidade relevante. Para descobrir como as revoluções científicas
são produzidas, teremos, portanto, que examinar não apenas o impacto da natureza e da Lógica, mas
igualmente as técnicas de argumentação persuasiva que são eficazes no interior dos grupos muito
especiais que constituem a comunidade dos cientistas. (KUHN, 2001, p.125-128)

Não devemos imaginar, depois destas leituras, que o autor pretenda simplesmente descrever
as atividades dos cientistas. Trata-se de uma teoria da ciência e não de uma pesquisa histórica.

Kuhn inclui uma explicação da função das várias partes envolvidas no processo de desenvolvimento
científico: dos paradigmas, dos períodos de ciência normal e os de revolução, dos limites de um
paradigma para oferecer resposta a todos os problemas, entre outros. Trata-se de, ao mesmo tempo,
descrever – relatando o como foi – e apontar como deve ser. Em seu trabalho, o autor procura
apresentar

um ponto de vista ou uma teoria sobre a ciência da natureza e, como em outras


filosofias da ciência, a teoria tem consequências que tocam a maneira pela qual os
cientistas devem comportar-se para que seu empreendimento seja bem sucedido
(KUHN, 2001, p. 254).

Segundo Alves (1981, p. 139),

Já comparei o cientista descobridor ao trapezista que salta sobre o abismo, sem nada
nas mãos – em oposição ao calculista que não abandona o degrau da escada sem
antes testar o seguinte... [...] A visão nova carece de fundamentos. Os fundamentos
se encontram na velha ciência, que ainda não teve a visão, ciência das rotinas e
das repetições, ciência normal, como Kuhn a denominou. [...] E o cientista larga
atrás de si a segurança dos caminhos já trilhados... as esperanças podem ruir. As
pesquisas podem conduzir a nada. No final, só mãos vazias... E aí fica a ciência,

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nesta situação esquisita. De início, parecia que ela apresentava caminhos seguros,
metodologicamente definidos. E agora dizemos que não é bem assim, que não há
nenhum método para as construções de teorias, que não existem alicerces.

Kuhn nos oferece, como vimos, alguns critérios para avaliar se um paradigma é melhor que outro
– simplicidade na solução dos problemas, equilíbrio entre o objeto de estudo cotidiano e esotérico,
precisão e amplitude de estofo. Mas fica claro também que o assentimento da comunidade científica
tem grande peso na decisão e escolha de qual é, naquele momento, o melhor paradigma.

Uma das objeções apresentadas a este modelo relaciona-se a esta característica. No momento
da escolha de um paradigma, não é dada à comunidade científica o distanciamento histórico,
recurso que utilizamos para avaliar as escolhas efetuadas no passado. Toda comunidade científica é
composta de homens que, presos ao presente de um determinado contexto histórico, não conhecem
os resultados das pesquisas futuras.

Além disso, qualquer comunidade científica estará sujeita a preconceitos, preferências religiosas,
culturais, de classe, de gênero etc. É possível também que todos os indivíduos que formam uma
comunidade científica equivoquem-se e estabeleçam como o melhor paradigma o que, ao fim e
ao cabo, não ofereça a melhor solução aos problemas colocados, ou a mais simples, ou de maior
estofo que suas rivais, pois fazem sua escolha a partir de sua visão idiossincrática de mundo.
Além disso, como não há um critério que possibilite avaliar as decisões e escolhas da comunidade
científica, não há como criticá-las. Embora Kuhn negue ser um relativista, há vários autores que
apontam nele esta característica.

Um dos problemas apontados na posição relativista, ao longo de séculos de debates, refere-se


ao seu caráter autodestrutivo. Se não existe um parâmetro objetivo que possa conduzir a escolha
entre diferentes opções, se estas escolhas baseiam-se sempre em critério subjetivos – culturais,
religiosos, preferências pessoais de todo tipo – então não existe também nada que conduza a aceitar
esta abordagem metodológica, ela também sujeita ao mesmo critério. Contra ela nada podemos
afirmar, nem a seu favor, pois trata-se tão somente das preferências de um grupo determinado, que
são, naturalmente, diferentes das preferências de outro grupo. Além disso, na história da filosofia,
esta visão esteve sempre associada ao continuísmo, pois se não existem critérios para discernir qual
das opções é melhor, por que não ficar com a tradição? Neste caso, a falta de critérios objetivos para
conduzir a escolha entre posições que se contradizem é preenchida pelas vantagens da continuidade,
a segurança de que, ao menos, sabe-se onde se pisa, evitam-se as surpresas decorrentes das novas
experimentações. Kuhn responde diretamente a estas críticas:

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Uma consequência de posição recém-delineada irritou especialmente muitos de
meus críticos1. Eles consideram relativista minha perspectiva [...] Os defensores
de teorias diferentes são como membros de comunidades de cultura e linguagens
diferentes. Reconhecer este paralelismo sugere, em certo sentido, que ambos os
grupos podem estar certos. Esta posição é relativista, quando aplicada à cultura e seu
desenvolvimento. Mas, quando aplicada à ciência, ela pode simplesmente não sê-lo
e, de qualquer modo, está longe de um simples relativismo – num aspecto que meus
críticos não foram capazes de perceber. Argumentei que, tomados como um grupo
ou em grupos, os praticantes das ciências desenvolvidas são fundamentalmente
indivíduos capazes de resolver quebra-cabeças. Embora os valores aos quais se
apeguem e períodos de escolha de teoria derivam igualmente de outros aspectos
de seu trabalho, a habilidade demonstrada para formular e resolver quebra-cabeças
apresentados pela natureza é, no caso de um conflito de valores, o critério dominante
para muitos membros de um grupo científico. (KUHN, 2010, p. 252, grifos nossos)

Apresentamos o argumento para a apreciação de cada um. De nossa parte, não parece que o
pensador tenha se livrado da crítica ao registrar sua convicção de que a maioria dos cientistas que
compõem uma comunidade irá se comportar segundo sua previsão. Além disso, mesmo que sua
previsão se cumpra e a maioria desta hipotética comunidade opte pelo problema que suas habilidades
possam melhor solucionar, isso não diminui a validade da crítica. Comunidades diferentes, com
habilidades diferentes desenvolvidas, optam segundo critérios a estas características relacionadas,
sejam elas de origem ideológica ou técnica.

Em outras palavras, o autor nos oferece sua crença de que, diante de um paradigma que ofereça
melhor estofo, equilíbrio entre questões cotidianas e esotéricas, mais simplicidade e precisão que
um concorrente e, ao mesmo tempo, choque-se de maneira radical com as opções religiosas,
ideológicas, culturais, a maioria dos homens que compõe a referida comunidade científica o escolha
em detrimento de seus concorrentes. Isso diante de concorrentes que se conciliam com as crenças
religiosas, ideológicas, culturais da referida comunidade. Não encontramos razões sociológicas para
aceitar que a comunidade científica se comporte de maneira tão diferente de outras comunidades.
O peso de seu julgamento, tão humano como o de qualquer outro, fica deveras ampliado. Além
disso, os cientistas ocupam, ao mesmo tempo, o papel de juízes e protagonistas, atores e únicos
jurados de seu espetáculo.

Permanece sem resposta, a nosso ver, uma questão: é possível um julgamento sobre os métodos
de pesquisa empregados, os objetivos, as teorias, que possa partir de outros pressupostos que não
a avaliação da comunidade científica? Nós nos referimos a métodos mais objetivos, ou seja, que
se concentrem mais na natureza própria das ciências. Como método mais objetivo nos referimos

1 O autor refere-se a especialmente Shapere e Popper.

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àqueles que enfatizam itens do conhecimento em detrimento das crenças, cultura, hábitos e desejos
dos indivíduos que as desenvolvem ou avaliam.

Para finalizar esta etapa de nosso trabalho, gostaríamos de salientar que em nenhum momento
Kuhn afirma que as ciências da natureza sejam superiores a outros ramos de investigação. Como
professor de história da ciência, o físico relata que teve, ao longo de sua carreira acadêmica, a
oportunidade de conviver com cientistas sociais. A princípio, um estranhamento o acompanhou. É
que, nesta segunda comunidade, as divergências a respeito dos métodos e das questões relevantes
eram abertas, debatidas acaloradamente. Segundo Kuhn, entre os cientistas das ciências naturais, o
debate sobre estes temas não é tão presente. Entretanto, “tanto a História como meus conhecimentos
teóricos fizeram-me duvidar de que os praticantes das ciências naturais possuam respostas mais
firmes ou mais permanentes para tais questões de que seus colegas das ciências sociais”, mesmo
que “na prática da Astronomia, da Física, da Química ou da Biologia normalmente não evocam as
controvérsias sobre fundamentos que atualmente parecem endêmicas entre, por exemplo, psicólogos
ou sociólogos”. (KUHN, 2010, p. 13)

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5. CONHECIMENTO OBJETIVO
FIGURA 13 – Conhecimento

Fonte: VLADGRIN/ shutterstock.com

O ponto de partida para que possamos entender esta tese é a crença de que há um corpo de
conhecimento, dado historicamente, tenha o indivíduo consciência dele ou não. Analisaremos a
posição objetivista do professor Alan Chalmers (1939), postura em que “falando de forma imprecisa, o
conhecimento é tratado como algo exterior, antes que interior, às mentes ou cérebros dos indivíduos”
(CHALMERS, 1993, p. 154). Em outras palavras,

O labirinto de proposições que envolve um corpo de conhecimento em algum estágio


de seu desenvolvimento terá, semelhantemente, propriedades que os próprios
indivíduos que nele trabalham desconheçam. A estrutura teórica que constitui a física

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moderna é tão complexa que não pode ser identificada com as crenças de qualquer
físico ou grupo de físicos. Muitos cientistas contribuíram de maneiras separadas,
com suas habilidades separadas, para o crescimento e a articulação da física, do
mesmo modo que muitos trabalhadores combinam seus esforços na construção de
uma catedral. E da mesma forma que o alegre construtor de campanários pode estar
misericordiosamente ignorante das implicações de alguma descoberta de mau agouro
feita pelos que escavam próximo aos fundamentos da catedral, assim um teórico
elevado pode estar ignorante da relevância de alguma descoberta experimental para
a teoria em que trabalha. Em qualquer dos casos é possível que relações existam
objetivamente entre as partes da estrutura independentemente da consciência que
qualquer indivíduo tenha daquela relação.

Um ponto forte a favor da posição objetivista é que as teorias científicas podem ter
consequências que os proponentes originais das mesmas não previam e que, até,
ignoravam. (CHALMERS, 1993, p. 155)

FIGURA 14 – Capa do livro

Fonte: http://d3vdsoeghm4gc3.cloudfront.net/Custom/Content/Products/32/36/32361_que-e-ciencia-afinal-o-293854_L2.jpg

SAIBA MAIS

Acesse o livro O que é ciência afinal? de A. F. Chalmers em formato .pdf no link abaixo:

http://www.nelsonreyes.com.br/A.F.Chalmers_-_O_que_e_ciencia_afinal.pdf

Para demonstrar a tese, retomemos a descrição de um evento histórico que relatamos anteriormente.
Heinrich Hertz, físico alemão, propunha-se, inicialmente, a demonstrar experimentalmente a teoria
de seu professor, Helmholtz. Entretanto, no decorrer de sua atividade experimental, foi conduzido
a reconhecer que a teoria de Maxwell, e não a de seu mestre, explicava melhor os fenômenos
observados. Desta forma, em 1887, Hertz “estabelece a existência da propagação no ar (ou no vácuo)
de uma ondulação do fenômeno elétrico obtida pelo estouro periódico da fagulha de descarga
de uma bobina de indução” (GRANGER, 1994, p. 34). Anos depois, em 1892, quando questionado
sobre sua expectativa sobre a utilização das ondas que levam seu nome, Hertz respondeu que sua

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preocupação não era a da possível utilização da descoberta, mas sim comprovar pressupostos
teóricos. Suas descobertas, aplicadas posteriormente, deram origem ao telégrafo e ao rádio.

Será que esta característica é observada somente nas ciências da natureza? Para Chalmers,

Num certo sentido, o materialismo histórico, a teoria da sociedade e mudança social


iniciada por Karl Marx é uma teoria objetivista na qual a abordagem inicial objetivista
que descrevi em relação ao conhecimento está aplicada à sociedade como um todo. O
objetivismo de Marx está evidente em seu conhecido comentário “não é a consciência
dos homens que determina seu ser, mas, ao contrário, seu ser social que determina
sua consciência”. Do ponto de vista materialista os indivíduos nascem em alguma
parte de uma estrutura social preexistente que não escolhem e sua consciência é
formada por aquilo que eles fazem e experimentam naquela estrutura [...] Da mesma
forma que um físico que tenta contribuir para o desenvolvimento da física confronta-
se com uma situação objetiva, que delimita as possibilidades de escolha e ação e
que influencia o resultado de tal ação, também, um indivíduo que espera contribuir
para a mudança social se confronta com uma situação objetiva, que delimita as
possibilidades de escolha e ação e que influencia o resultado de tal escolha e ação.
Uma análise da situação objetiva é tão essencial para a compreensão da mudança
social quanto o é para a mudança científica. (CHALMERS, 1993, p. 162)

A tese de que exista um arcabouço de conhecimento à espera do conhecedor, precedendo-o, isto


é, um corpo de saberes dado social e historicamente a partir do qual cada geração de homens irá
continuar a empreitada, quer seja ela no caminho do continuísmo ou no de ruptura, está explicitada.
Não se trata de apontar a existência, a priori, de conhecimentos antes dos homens, constituídos
a despeito deles, como estava proposto no mito de Prometeu. Trata-se de conhecimentos social e
historicamente construídos, transmitidos geração após geração, que são antes do nascimento de
cada geração mas, ao mesmo tempo, só existem como fruto da ação de gerações humanas.

Poderia ter se dado, inclusive, que as ondas de Hertz, previstas na teoria de Maxwell mesmo que
este não percebesse o fato, não tivessem vindo à tona. Não está garantido que o desenvolvimento
ocorra, é necessário a ação incansável, perseverante e organizada dos homens que compõem a
comunidade científica. O potencial não se transforma por si mesmo, de forma independente ou
autogerada.

Nesta perspectiva, tanto nas pesquisas sobre a sociedade quanto nas pesquisas sobre a
natureza, a dotação de recursos, a pressão social, a disputa estabelecida ao redor de metafísicas, de
religiões, de visões de mundo e conjuntos díspares de valores influenciarão diretamente o trabalho
dos cientistas. De forma bastante grosseira, um programa de pesquisas pode ser insuflado para
além de seu potencial ou resultados, ou escamoteado a despeito deles, dependendo dos interesses
em jogo, da organização e ação dos agentes envolvidos nas disputas estabelecidas.

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Outros sim, cada área do conhecimento deve ser analisada segundo aquilo que se pretende
descobrir, os métodos propostos para a empreitada, o grau de sucesso obtido. Há critério, mas não
um único para todas as áreas. Desta forma, a matemática pode ser um instrumento importante
numa área de investigação e inadequado em outra. Isso não é sinônimo de falta de critérios, mas
da negação de critérios universais. Esta característica não impossibilita a crítica, mas modifica as
bases sobre as quais algumas delas, como vimos, foram lançadas.

Podemos tentar qualquer área do conhecimento criticando seus objetivos, criticando a propriedade
dos métodos usados para atingir esses objetivos, confrontando-a com meios alternativos e
superiores de atingir os mesmos objetivos e assim por diante. Desse ponto de vista não precisamos
de uma categoria “ciência”, em relação a qual alguma área do conhecimento pode ser aclamada
como ciência ou difamada como não sendo ciência [...] Especificamente, não há uma categoria geral,
a “ciência”, e nenhum conceito de verdade à altura da tarefa de caracterizar a ciência como busca
da verdade. Cada área do conhecimento deve ser julgada pelos próprios méritos, pela investigação
de seus objetivos, e, em que extensão é capaz de alcançá-los. Mais ainda, os próprios julgamentos
relativos aos objetivos serão relativos à situação social. Os julgamentos sobre algum ramo obscuro
da lógica matemática ou da filosofia analítica podem ter um peso considerável, em termos de prazer
estético que proporciona a seus participantes, para alguma classe privilegiada de uma sociedade
rica, mas um peso pequeno para uma classe oprimida de um país do terceiro Mundo. [...] O alcance
objetivista de minha postura enfatiza que os indivíduos em sociedade são confrontados por uma
situação social com certas características, estejam ou não cônscios disso, e tem à sua disposição
uma variedade de maneiras de mudar a situação, quer gostem ou não. Além disso, qualquer
ação executada para mudar a situação terá consequências que dependem do caráter objetivo da
situação e que podem diferir notadamente das intenções do ator. De forma semelhante, na área do
conhecimento, os indivíduos confrontam-se com uma situação objetiva e uma variedade de métodos
e matérias-prima teóricas à sua disposição para contribuir para uma mudança na situação. Uma
teoria pode, de fato, alcançar certos objetivos de maneira melhor que uma rival e os julgamentos
dos indivíduos e dos grupos podem estar errados sobre o assunto. [...] Sugiro, em retrospectiva,
que a função mais importante da minha investigação seja combater aquilo que pode ser chamado
de ideologia da ciência, tal como funciona em nossa sociedade. Essa ideologia envolve o uso do
conceito dúbio de ciência e o conceito igualmente dúbio de verdade, frequentemente associado a ele,
geralmente na defesa de posições conservadoras. Por exemplo, encontramos o tipo de psicologia
behaviorista que trata as pessoas como se fossem máquinas e o uso amplo de resultados de estudo
de Q.I. em nosso sistema educacional defendidos em nome da ciência. (CHALMERS, 1993, p. 211-214)

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FIGURA 15 – Capa do livro

Fonte: http://d19qz1cqidnnhq.cloudfront.net/imagens/capas/aa7a5323fd14bb34a13744829d7964e487241f17.jpg

Para Chalmers, nem o ataque nem a defesa do marxismo ou da psicologia, como exemplos,
podem ser efetuados a partir de conceitos universais, de uma medida fixa. Isso não corresponderia,
a seu ver, à inviabilidade de julgamentos. Sucintamente, exigiria dos investigadores a avaliação dos
métodos, das metas, a determinação dos interesses privilegiados, o grau de resultado obtido num
determinado ramo de investigação, a partir de critérios que não são sempre os mesmos. Ao mesmo
tempo, Chalmers esforça-se para que sua posição não pareça relativista, pois, para ele, “a política
do vale-tudo” “significa que na prática, tudo permanece” (CHALMERS, 1993, p. 216).

Fomos conduzidos, até aqui, em direção a outro grupo de questões envolvendo a ciência e que
iremos agora analisar.

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3 - TECNOLOGIA, TECNOFILIA, TECNOFOBIA E NEUTRALIDADE

6. TECNOLOGIA, TECNOFILIA, TECNOFOBIA E NEUTRALIDADE


FIGURA 16 – Tecnologia

Fonte: chanpipat/ shutterstock.com

Para iniciar esta etapa, vamos construir um vocabulário básico, que será incrementado no
decorrer de nossas investigações.

O primeiro ponto será apresentar uma distinção entre ciência e técnica, distinção que, na
atualidade, tem sido motivo de amplos debates.

Na Antiguidade e na Idade Média houve algumas poucas tentativas de aplicações técnicas das
ciências, e sempre da matemática. Isso se deve, em grande parte, ao estatuto de inferioridade que
os trabalhos manuais conferiam aos homens nas hierarquias sociais ocidentais.

Etimologicamente, o vocábulo trabalho origina-se do latino tripaliare. Este, por sua vez, deriva
do nome de um instrumento de tortura formado de três paus, no qual os condenados eram atados,

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o tripalium. A origem da palavra, desta forma, oferece-nos uma forte sugestão do valor recebido
pelos trabalhos manuais numa época.

Nossa jornada para elucidar este fato inicia-se na Grécia antiga, mais precisamente com
Aristóteles. Isso será necessário pois, tanto na Antiguidade como em grande parte do período
subsequente da história da humanidade, foi sob a influência da teoria aristotélica que se valorou
o trabalho – o fazer prático, que se liga às ferramentas e métodos utilizados nas modificações da
natureza.

Segundo Aristóteles, conhecer algo é conhecer sua causa e, por isso, “julgamos os teóricos mais
sábios do que os empíricos (de onde se conclui que em todos os homens a Sabedoria depende, antes
de mais nada, do conhecimento); isso porque os primeiros conhecem a causa, e os segundos não”
(ARISTÓTELES, 1969, p. 37). Ao mesmo tempo, como fica também expresso na mesma Metafísica,
não podemos conhecer as coisas sensíveis descartando a percepção sensível, utilizando somente
a inteligência, como propunha a teoria platônica. Sem descartar o valor da experiência sensível
na tentativa de construirmos nossa compreensão sobre os objetos sensíveis, Aristóteles reserva à
teoria (ou aos teóricos) papel mais importante do que aos práticos (os empíricos). Estamos diante
da famosa dicotomia entre teoria e prática.

Destas afirmações, encontradas na Metafísica, deriva a teoria aristotélica das quatro causas,
teoria que explica tudo que existe, como se alteram as coisas, quem opera e para que servem estas
alterações. A causa material corresponde à matéria de cada coisa; a causa eficiente, ou motriz,
corresponde ao agente da mudança; a formal corresponde à essência da coisa; e a causa final – a
finalidade – corresponde ao motivo da existência. Para Aristóteles, tudo tem uma finalidade, que
está contida na natureza própria de tudo o que existe. Por exemplo, a finalidade (causa final) de
uma espada é servir ao nobre; a causa formal é ser espada; a causa material é o ferro e a motriz
(ou eficiente) é o ferreiro.

A relação hierarquizada de valor entre estas causas, em correspondência com as teses já


expressas, é o que nos interessa ressaltar. Da causa superior a inferior, temos: causa final (para
quem ou para que), formal (o como), material (de quê) e causa eficiente (o quem ou, em outras
palavras, o trabalhador). Coerente com esta tese, em grande parte da história ocidental, desde
a Antiguidade grega até a ascensão da burguesia, o trabalho, bem como o trabalhador e suas
ferramentas, correspondia à causa pouco valorizada, mais próxima da matéria bruta do que da
finalidade das coisas.

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A ciência, como atividade de busca de conhecimento, desempenhada pelos mais nobres teóricos
(práxis – ética e política), estava, desta forma, distante da prática mecânica (poiésis – produção).
A metafísica aristotélica era, por isso, razão forte para a separação entre a teoria pura, os fazeres
e ferramentas utilizados pelos artesãos, marinheiros, ferreiros, enfim, os práticos em geral.

CURIOSIDADE

Somos incorrigivelmente vorazes. Queremos o máximo de informações no mínimo de tempo.


Desafiamos, a cada momento, as barreiras do espaço. Reduzimos as distâncias com telefones
celulares e operações digitais. Ainda que no trânsito ou no aeroporto, no trabalho ou no clube,
a “coleira eletrônica” impede que nos percam de vista. Entre uma marcha e outra, uma flexão
abdominal e outra, um opinião e outra no trabalho, controlamos os filhos, as aplicações financeiras,
os negócios geograficamente distantes. Como prometeu, queremos arrebatar o fogo dos deuses,
fazendo de conta que não somos frágeis e mortais.

Porque precisava pensar, Kant nunca saiu de Königsberg, onde construiu uma obra filosófica
monumental. Ora, para que livros se há milhares de vídeos interessantes? Basta saber que o
patrimônio cultural da humanidade se encontra armazenado nas bibliotecas. Relaxados, passamos
horas, dias, meses e anos de nossas vidas vendo um punhado de homens correrem atrás de uma bola
e carros velozes desafiando as curvas da morte.

Nossos heróis estão distantes da arte musical de Mozart, da física de Planck ou da literatura de
Machado de Assis. Veneramos aqueles que quebram limites. O Evangelho da “pós-modernidade”
são os índices do mercado financeiro. A Bíblia. O Guiness Book of the Records. Pelé fez 1.000 gols.
Michael Jackson coloriu de branco sua pele negra. Ayrton Senna andou mais depressa grudado no
solo que qualquer outro mamífero.

Só não descobrimos o elixir da felicidade. Por que nenhuma empresa vende o que mais procuramos,
o amor? Ora, talvez possamos deixar de pagar, com o sacrifício da própria vida, o preço letal dessa
busca, se abraçarmos os sonhos de Kepler: a vida campestre, a roda de amigos, o coro de anjos numa
igreja e a melodia das estrelas.

Para continuar com tal linha de pensamento, leia o artigo “Os sonhos de Kepler” de Frei Betto em:
http://amaivos.uol.com.br/amaivos2015/?pg=noticias&cod_canal=53&cod_noticia=17178

Vejamos o comentário da professora Marilena Chauí sobre a teoria aristotélica:

Esta teoria das quatro causas consolida-se no pensamento ocidental graças à filosofia
e à teologia medievais, pois o pensamento medieval interpreta e dá continuidade
à herança aristotélica. A primeira vista, a teoria aristotélica da causalidade é uma
pura concepção metafísica que serve para explicar de modo coerente e objetivo os
fenômenos naturais (física) e os fenômenos humanos (ética, política e trabalho). Nada
parece indicar a menor relação entre a explicação causal do universo e a realidade
social grega. Sabemos, porém, que a sociedade grega antiga é escravagista e que
a sociedade medieval baseia-se na servidão, isto é, são sociedades que distinguem
radicalmente os homens entre superiores – os homens livres, que são cidadãos, na
Grécia, e os senhores feudais, na Europa medieval – e inferiores – os escravos, na
Grécia, e os servos na gleba, na Idade Média [...] Não só nos planos da natureza e
do sobrenatural, mas também no plano humano ou social, o trabalho aparece como

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elemento secundário ou inferior, a fabricação sendo menos importante do que seu
fim. A causa eficiente é um simples meio ou instrumento para a satisfação da vontade
ou desejo de um outro, o usuário do produto final (CHAUÍ, 2008, p. 11-13).

Exemplos desse isolamento de cada uma das áreas de atuação – teoria e prática – podem
ser notados. Na construção e manobras dos navios, no século XVI, aconteceram disputas entre
marinheiros – práticos, empíricos – e os cientistas. As condições de estabilidade e regras de
manobras das embarcações foram estabelecidas cientificamente por Bouger (Tratado do Navio,
1746 e Da Manobra dos Navios, 1757), mas os armadores e marinheiros só passaram a fazer uso
deste arcabouço teórico a partir do século XIX.

Na grande Enciclopédia de Diderot, no século XVII, o movimento de apropriação dos progressos


da ciência pelos industriais é anunciado com entusiasmo como sendo uma mudança significativa,
representando um progresso. Em seu “Discurso preliminar” à obra, D’Alembert elogia as artes
mecânicas, ressalta as investigações desenvolvidas pelos artesãos de Paris e do Reino, e elogia
Diderot por seu empenho na parte mais importante da obra, a descrição das artes. Além disso, como
veremos no pequeno excerto, afirma ser evidente que ciência e técnica, teoria e prática, influenciam-
se mutuamente. A distância entre o cientista e o técnico diminui, a separação que antes era natural
aparece, agora, como um problema a ser superado.

A poco que se haya reflexionado sobre la relación que los descubrimientos tienen entre ellos, es
fácil advertir que las ciencias y las artes se prestan mutuamente ayuda, y que hay por consiguiente
una cadena que las une. Pero si suele ser difícil reducir a un corto número de reglas o de nociones
generales cada ciencia o cada arte en particular, no lo es menos encerrar en un sistema unitario las
ramas infinitamente variadas de la ciencia humana.

Disponível em: <http://www.scribd.com/doc/6750155/DAlembert-Discurso-Preliminar-de-La-Enciclopedia>.


Acesso em: 21.mar.2014.

Tradução livre: Mesmo que pouco se tenha refletido a respeito da relação que os descobrimentos
têm entre eles, é fácil perceber que as ciências e as artes ajudam-se mutuamente, e que há,
consequentemente, uma cadeia que as une. Porém, se é difícil reduzir a um pequeno número de
regras ou de conhecimentos gerais cada ciência ou cada arte em particular, não é menos complexo
reunir em um só sistema os ramos infinitamente variados da ciência humana.

Analisemos um último exemplo. Na Europa do século XVII, o movimento dos relógios era regido
por um mecanismo que realizava o bloqueio e a soltura de uma roda dentada, engenhosamente
construído pelos relojoeiros sem nada dever a conhecimentos científicos.

SAIBA MAIS

Sugere-se que se assista um trecho do filme Ponto de mutação: https://www.youtube.com/watch?v=Q4deTnqje6I

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FIGURA 17 – Gallileu

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Justus_Sustermans_-_Portrait_of_Galileo_Galilei,_1636.jpg

No início do século XVII, Galileu, com sua teoria do isocronismo das pequenas oscilações do
pêndulo, que depois foi aperfeiçoada pelo matemático Huygens, modifica a história da relojoaria.
Em 1673 Huygens publica seu O Relógio de Péndulo e encomenda do relojoeiro Salomon Coster a
feitura de um instrumento segundo suas orientações. Em 1657 surge o primeiro relógio de pêndulo.

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FIGURA 18 – Relógio de pêndulo

Fonte: http://www.relogioserelogios.com.br/images/mestres/3/Gravura-do-pendulo-cicloid-.jpg

A segunda invenção, também de Huygens, é a da mola espiral que funciona ao mesmo


tempo como motor e como regulador. A teoria científica em questão é, também neste
caso, a dos movimentos oscilatórios de um móbil submetida a uma força de retorno
proporcional a seu desvio do equilíbrio. A precisão destes novos instrumentos exigia,
então, que eles marcassem os minutos; foi um relojoeiro londrino, Daniel Quare,
que, por volta de 1690, teve a ideia do mostrador com dois ponteiros. É escusado
mencionar as imensas consequências que o emprego desses novos instrumentos
de medida do tempo puderam ter em todas as áreas (GRANGER, 1994, p. 30).

Agora a técnica é impregnada de ciência, as ciências misturam-se às artes mecânicas, técnica


e ciência seguem o modelo de interação proposto por D’Alembert.

Técnica ou tecnologia visam a construção de algo não existente, que chamaremos de “arte-fato”.
Esta capacidade humana de modificar o dado na criação de novos elementos representa o saber

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fazer característico de nossa espécie – homo faber. De qualquer modo, para realizar é necessário
algum planejamento que será perseguido na busca de concretizar o artefato. Quando os saberes
técnicos não estão impregnados de saberes científicos, a produção do artefato é artesanal; quando
penetrado pelos conhecimentos científicos, transforma-se.

Para poder aplicar os conhecimentos científicos, o como fazer adapta-se às características


da teoria científica estabelecida. Mas tecnologia não é somente técnica impregnada de teoria, ou
teoria aplicada. Uma simples adaptação dos conhecimentos científicos para fins tecnológicos não
é suficiente para conceituar tecnologia, pois esta implica também invenção, criação. Tecnologia é
mais que conhecimento científico agregado à técnica.

Tomemos o caso das teorias tecnológicas, como a hidráulica – hidrodinâmica transformada –,


que, do ponto de visita prático, é muito rica em suas aplicações, ao mesmo tempo em que, do ponto
de vista teórico, é mais “pobre” do que a hidrodinâmica – pois tem menos profundidade. Mesmo
que possa aplicar a ciência, a tecnologia não é exatamente o mesmo que ciência aplicada.

Os aspectos mais comumente abordados numa análise filosófica da tecnologia referem-se: ao


tipo de objeto – os artefatos; à classe específica do conhecimento – o saber tecnológico; ao conjunto
de atividades desenvolvidas na produção e relacionadas à utilização do artefato; à manifestação
de uma determinada vontade humana em relação ao mundo.

Para iniciarmos o debate a respeito do significado dos termos tecnofilia e tecnofobia, observaremos
os dois sufixos – filia e fobia. Etimologicamente, filia significa amizade, e fobia, inimizade e temor.
Muito caricaturalmente, a tecnofobia seria caracterizada pelo temor de que uma ou outra empreitada
tecnológica ou científica afetem a vida, a biosfera, no limite que possam mesmo comprometer a
vida no planeta. Tecnoilia, ao contrário, seria a marca daqueles que defendem que, com a própria
tecnologia futura, possamos reparar os prejuízos causados pela tecnologia na atualidade. Grosso
modo, é uma visão utópica em contraste com uma visão catastrofista. Em outras palavras, tecnofilia
seria uma característica associada àqueles indivíduos que acreditam que a ciência traz benefícios
à vida humana; mesmo os problemas apresentados por ela numa determinada etapa de seu
desenvolvimento serão sanados no momento seguinte pelos avanços científicos e tecnológicos. Em
oposição, a tecnofobia estaria associada àqueles que tem uma visão pessimista do desenvolvimento
científico, do uso que fazemos das conquistas deste instrumental, da possibilidade de resolução
dos problemas e/ou danos causados pelo seu uso.

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FIGURA 19 – O Homem Vitruviano

De Leonardo da Vinci, a obra Homem Vitruviano (1490) está cheia de símbolos.


Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Da_Vinci_Vitruve_Luc_Viatour.jpg

A questão da possibilidade de neutralidade da ciência coloca-nos algumas questões básicas.


A primeira delas diz respeito à possibilidade da neutralidade em relação aos valores sociais da
comunidade onde se desenvolvem as pesquisas, valores que comumente variam de cultura para

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cultura, de época para época. Desta forma, retorna ao palco uma posição que já conhecemos: se
a ciência está isenta de uma valoração contingente (o bem e o mal em cada época/cultura), então
ela não pode ser questionada nestes termos – está isenta de valores sociais. Outra face da mesma
moeda é que, por não ter vínculo com as idiossincrasias de uma época, apresenta-se como um
valor universal – o que pode nos conduzir a uma visão etnocêntrica.

Num segundo aspecto, a questão da neutralidade se relaciona com a seleção dos fenômenos que
serão investigados – na possibilidade de neutralidade não haveria escolha, mas sim a constatação
de um único dado natural a ser investigado. Do contrário, se há escolha, como já notamos, esta
determina, em grande parte, a direção em que caminha o desenvolvimento científico.

Além destes dois ângulos a serem observados, temos que nos deter no próprio conteúdo das
teorias, com seus desdobramentos, seus potenciais, os pressupostos que fortalecem e aqueles
que permanecem secundarizados. Se há mais de uma teoria concorrendo na tentativa de fornecer
explicação ao(s) fenômeno(s) investigado(s), a escolha de uma delas vai conduzir a métodos,
técnicas, procedimentos, experimentos, que não são, de forma alguma, universais.

Para demonstrar como se apresentam estes debates, passaremos a palavra ao professor Leblond,
pesquisador em física teórica e matemática que foi premiado e punido pela mesma academia. No
texto, o autor problematiza a possibilidade de neutralidade da ciência, trata da relação entre teoria
pura e sua aplicação prática, bem como questiona o que chamamos de tecnofilia.

FIGURA 20 – Jean Marc Lévy-Leblond

Fonte: http://www.villagillet.net/typo3temp/pics/7941c29e42.jpg

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DICA

Acesse e leia o texto “Sobre a neutralidade científica” disponível no Anexo 1.

“Sobre a neutralidade científica”, Jean Marc Lévy-Leblond

Publicado em Les Temps Modernes nº 288, Julho/1970

O discurso do professor Lévy-Leblond parece-nos bastante claro. Iremos apenas destacar


alguns pontos.

Em primeiro lugar, o cientista apresenta-nos suas questões filosóficas, mostra-se como cientista
e filósofo.

Ao se questionar sobre a finalidade (“para quê?”), a instrumentalização (“a quem serve


definitivamente minha atividade científica?”), a motivação pessoal dos indivíduos que compõem
a comunidade científica (“por que sou pesquisador? Quais são minhas motivações pessoais?”) e
a função social da pesquisa científica (“por que a sociedade organiza a investigação científica?”),
deixa claro sua posição de não-neutralidade.

FIGURA 21 – Questionamentos

Fonte: Panchenko Vladimir / Shutterstock

Ao recusar as respostas tradicionais para estas questões, acusa-as de serem uma interpretação
que favorece determinada classe, em um determinado contexto histórico. Como se não bastasse,
demonstra seu incômodo pelo caráter esotérico do discurso de que faz uso, bem como o fato de

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que a ciência “pura”, que ele caracteriza como “gratuita”, vise “provocar a curiosidade de uns 20
especialistas em todo o mundo”. Ora, essa finalidade não seria um problema na Antiguidade nem
em grande período histórico posterior, considerando a metafísica aristotélica. Questionar-se sobre
a relação entre o investimento social necessário para o desenvolvimento científico e distribuição
dos ganhos na sociedade são a marca da existência de outros valores, diferentes dos aristotélicos.

Numa crítica audaz, contrariando uma das teses defendidas por Kuhn, afirma que os cientistas
não escolhem suas questões como as peças de quebra-cabeça que melhor podem encaixar com
suas teorias, mas agem motivados por interesses menos nobres (cargos, recursos financeiros,
status social, vaidade...), muitas vezes inconfessáveis.

Para o filósofo Lévy-Leblond, o modelo vigente de ciência tem utilidade bem definida: “garantir
a perpetuação” do sistema capitalista. Contra esta tendência, felicita a resistência, ele mesmo se
inserindo num campo bem claro da contenda.

Irônico, critica o prêmio que recebe como coroamento para o cientista mais inconsciente, o que
menos faz uso de sua capacidade de criticar, de investigar a origem, finalidade e estrutura de seu
fazer técnico. Valendo-se das “sérias falhas” do “sistema de seleção dos laureados”, faz da tribuna
e do recurso do prêmio uma arma que se volta ao sistema que premia.

Se a ciência é neutra, não existe finalidade além da descrição da natureza; não há utilidade, no
sentido utilitarista do termo; não há outra motivação que o prazer pessoal em encontrar melhor
resposta ao “quebra-cabeça” e a pesquisa nem precisa ter função social – basta descobrir as leis
da natureza, trata-se do conhecimento pelo conhecimento.

Para o professor Hilton Japiassú,

O saber especializado desperta a admiração temerosa por parte daqueles que o


ignoram. Há todo um respeito admirativo em relação à linguagem científica, dotada
de uma universalidade de direito, habilmente restringida aos iniciados. Seu esoterismo
protege o segredo, sobretudo pela matematização e pela formalização. O poder de
dominar a matéria e de fazer coisas da ciência, acarreta, nos não iniciados, uma
atitude de submissão. É por isso que ela exerce sobre muitos um poder quase mágico,
um “poder dogmático”. E é por isso, igualmente, que muitos vêem nos cientistas os
detentores do “magistério da realidade”: só eles estão habilitados a dizer o sentido, a
propor a verdade para todos, como se fossem taumaturgos ou verdadeiros alquimistas.
[...] Os cientistas são vistos como se fossem os proprietários exclusivos do saber,
devendo fechar todas as “cicatrizes do não saber” e fornecer os bálsamos para as
angústias individuais e sociais.

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Essa imagem mítica do cientista ignora que ele faz parte e depende de uma estrutura
bem real do mundo que o cerca. O mundo científico nada tem de ideal, não é uma
terra de inocência, livre de todo conflito e submetida apenas à lei da verdade universal,
isto é, de uma verdade testável e verificável em toda parte, através do respeito aos
procedimentos de rigor e aos protocolos da experimentação. Como se o cientista
pudesse ser o detentor de uma verdade una que, uma vez formulada em sua coerência,
estaria isenta da discussão; e como se ele pudesse guardar para sempre a imagem
de um indivíduo sempre íntegro e rigoroso, jamais sujeito à incoerência das paixões.
(JAPIASSU, 1975, p.116, grifos nossos)

Seguindo esta linha de questionamentos filosóficos, em 1946 é lançado o livro Um mundo


ou nenhum. Os autores de 13 dos 15 ensaios que compõem a obra são cientistas envolvidos no
desenvolvimento da bomba atômica. Entre os autores estão Albert Einstein, Niels Bohr e Robert
Oppenheimer. “Em algumas de suas conclusões, esses cientistas foram proféticos” (RHODES, 2008,
p. 8), afirma Richard Rhodes no prefácio da obra. Segundo ele, o fato não se deve a capacidades
mágicas, mas é tão somente a aplicação de pressupostos teóricos que não são compartilhados
por toda a sociedade. Em outras palavras, o cientista, por possuir saber técnico específico, pode
efetuar análises e previsões que, sem este pressupostos, não são possíveis. A questão ética que se
coloca, desta forma, é sobre a utilização deste potencial de previsão de futuro – futuro que envolve
muito mais vidas do que as da comunidade científica.

Em outras palavras, os cientistas “entendiam, o que não ocorria com estadistas e generais, que
a energia nuclear representava uma vasta mudança de escala”, pois

Já em janeiro de 1939, os físicos Lise Meitner e Otto Frisch informaram que a energia
liberada em cada “fissão” – termo criado por eles – de um átomo é da ordem de
duzentos milhões de elétrons-volt. A queima química comum, ao contrário, libera cerca
de um elétron-volt por átomo. Para os físicos, essa imensa diferença de escala – de
duzentos milhões para um – significava que uma quantidade de matéria que cabia
na palma de uma mão, se transformada numa bomba, poderia destruir uma cidade
inteira com explosão e massa de fogo, uma escala de destruição que, em 1943, mal
poderia ser alcançada por uma esquadrilha de mil bombardeiros aliados carregados
de altos explosivos e bombas incendiárias convencionais. [...] Toda a complexa história
das armas nucleares estava prefixada nestes fatos físicos simples, conhecidos de
todos os bons físicos de qualquer país do mundo, um ano depois da descoberta da
fissão. (RHODES, 2008, p. 12)

A despeito das anomalias de todo tipo (incertezas) que podem se apresentar, este lugar na
sociedade torna-se bastante privilegiado se comparado com o poder de análise e previsão de que
dispõem os inúmeros outros membros dela.

Gérard Lebrun, no artigo Sobre a Tecnofobia, aborda os assuntos que discutimos nesta etapa.
Uma das ressalvas que o autor nos apresenta refere-se à expressão “crítica”, que na filosofia não é

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sinônimo de “demonizar”, significa analisar detalhadamente, investigar minuciosa e rigorosamente,
destrinchar, submeter a exame detalhado e preciso. Desta forma, os detratores da tecnologia como
a causadora dos males enfrentados pela humanidade em nada contribuiriam para sua superação
e, ao contrário, apenas nos afastariam deste caminho. Lebrun comenta o trabalho de Jean-Pierre
Séris, autor que afirma que os tecnófobos teriam subvertido as máximas kantianas “Que posso
saber? Que devo fazer? O que me é permitido esperar?” pelas inversões “Que devo ignorar? Que
devo me abster de fazer? De que devo ter medo?”.

Para Séris e Lebrun,

o que justificaria essa passagem ao temor e à desconfiança é o impacto, seguramente


inédito na história, que a expansão das técnicas produz a uma velocidade crescente
na existência humana engendrando com isso inquietudes sem precedentes (LEBRUN,
2006, p. 481).

Este medo não seria um elemento secundário na sustentação da tese tecnófoba. Em razão de
que, na atualidade, os saberes técnicos necessários para possibilitar a manipulação dos objetos
técnicos ou tecnológicos são bastante pequenos, isso nos conduziria a temer ainda mais estes
objetos.

Ao tecnófobo, segundo esta descrição, o medo “é o sentimento moral” (LEBRUN, 2006, p. 486),
o instrumento necessário para conter o desenvolvimento tecnológico que conduziria a destruição
da vida na terra, atualmente ameaçada pelos agrotóxicos, pelas armas químicas e nucleares,
pela poluição decorrente da queima de combustíveis fósseis etc. Caberia aos grupos especiais
de humanos delimitar os limites dentro dos quais o saber técnico poderia se desenvolver. Estes
personagens excluiriam todas as investigações que, potencialmente, poderiam conduzir a danos
futuros ao meio ambiente, à vida etc. Para Lebrun, as dificuldades na realização deste propósito são
de vários matizes: a) o detentor do poder de veto não possui melhores instrumentos de previsão de
futuro do que um “pressentimento”; b) não se pode saber, com certeza, se, no longo prazo, o efeito
alcançado será benéfico ou nocivo; c) o medo pode nos conduzir à abstenção, contra a inovação.
“Em suma”, afirma Lebrun,

não é difícil ver aporias lá onde os tecnófobos só apresentam boas intenções. É uma
boa intenção que leva os tecnófobos a lutar contra os fatores de risco (transporte de
hidrocarbonetos, o nuclear), mas é uma falta de prudência que os faz negligenciar os
efeitos possíveis da eliminação brutal destes últimos (para a produção de eletricidade,
para a indústria farmacêutica, os fertilizantes...)” (LEBRUN, 2006, p. 490)

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Herbert Marcuse, filósofo alemão que foi apontado como tecnófobo em mais de uma ocasião,
também aborda esta temática. Passemos a palavra a este convidado, enriquecendo ainda mais o
debate.

FIGURA 22 – Herbert Marcuse

Fonte: https://ceasefiremagazine.co.uk/wp-content/uploads/herbert-marcuse.jpg

DICA

Acesse e leia o texto “A responsabilidade da ciência” disponível no Anexo 2 e no link abaixo.

<http://www.scielo.br/pdf/ss/v7n1/v7n1a08.pdf>

Ressaltamos o papel de destaque atribuído aos cientistas na avaliação do uso que se faz de sua
produção, expresso desde o início do texto. Para Marcuse, parece que o lugar que estes indivíduos
ocupam na sociedade, no momento da definição das questões ligadas à ciência, volta a ser bastante
privilegiado. Talvez esta posição se confronte com outras possíveis, que mostraremos mais a seguir.

Contrariando a tese baconiana que ligava o desenvolvimento da ciência ao da sociedade, Marcuse


afirma que a ciência pode ser destrutiva e repressiva, ao invés de libertadora e progressiva. Para ele,
o uso que se faz dela é que irá determinar sua qualificação. Corroborando a crítica de Lévy-Leblond,
afirma que o “valor social das pesquisas” pode ser definido “a despeito da intenção dos cientistas”
e que a “ciência livre de valores”, ao fim e ao cabo, acaba por “promover cegamente certos valores
políticos e sociais”.

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FIGURA 23 – Ciência

Fonte: Matej Kastelic/ shutterstock.com

Marcuse apresenta uma crítica e aponta o que, a seu ver, deveria ser a ciência: substituição da
vontade de dominação da natureza pela de sua restauração. Para que isso pudesse acontecer, exige
a “transformação” do “ambiente social”, a superação do sistema de produção vigente na atualidade,
seus princípios e modus operandi.

O cientista, que “empresta suas mãos e seu cérebro para a perfeição da destruição”, é o primeiro
que deve renunciar e protestar contra este estado de coisas, assumindo as consequências políticas
e financeiras de seus atos subversivos, para, assim, angariar adeptos.

Parece-nos que este artigo seja bastante esclarecedor, referindo-se a uma posição sustentada
em argumentos bem construídos e não com apelo ao medo como instrumento de controle. Mas
também não é verdade que Lebrun tenha dirigido a Marcuse uma crítica com este conteúdo, nós
é que estamos forçando a argumentação, levando-a ao limite como método de apresentação da
arena de debates. Ao contrário, no mesmo Sobre a tecnofobia, Lebrun reconhece o “mérito” de
Marcuse em “ter sublinhado a originalidade do fenômeno” de transformação, nas sociedades de
consumo modernas, das invenções em ramos da produção. Assim, destaca Lebrun, Marcuse “forja

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seu conceito de tecnologia como sendo um processo social, forma de organização e perpetuação
(ou transformação) das relações sociais cuja aparelhagem técnica existente representa apenas um
fator entre outros” (LEBRUN, 2006, p. 497). No entanto, Lebrun considera este conceito “demasiado
abstrato” (LEBRUN, 2006, p. 499):

Parece inegável que assistimos a um declínio do ser humano enquanto centro de


decisão e a sua integração bastante rápida num sistema cada vez mais como um
objeto manipulável. Situação na qual Habermas encontra uma fórmula impressionante:
é como se o Homo faber, arrebatado por seu impulso, se torna-se Homo fabricatus.
É como se a humanidade tivesse montado uma armadilha que hoje se fecha sobre
ela... A espécie humana foi aquela que conseguiu adaptar culturalmente o meio
as suas necessidades, em vez de adaptar-se à natureza como as outras espécies
animais. Mas essa performance parece voltar-se contra ela: o comportamento humano
torna-se mais e mais incontrolável, a própria natureza humana está a caminho de
ser modificável – como se Prometeu tivesse trabalhado para Frankstein (LEBRUN,
2006, p. 501)

Não devemos concluir que Lebrun concorda com a análise de Marcuse, a quem atribui uma
“ultratecnofobia” (LEBRUN, 2006, p. 505). Para Lebrun, “é preciso ter cuidado e não se enganar
de adversário” pois isto conduziria, por exemplo, a “designar a informática como bode expiatório,
quando o que está em questão é uma vontade exacerbada de controle social” (LEBRUN, 2006, p.
505). Lebrun filia-se à tese aristotélica que estabelece a diferença entre produzir uma coisa e usá-
la bem. Para ele, é claro “que o técnico tem receitas para a produção, mas não para sua utilização
correta”, pois “o saber instrumental é de tal natureza que sua aplicação é sempre passível de um
coeficiente de incerteza – e é isso que torna imperfeita a competência do especialista”. (LEBRUN,
2006, p. 506 - 507).

Para Lebrun, os textos de Aristóteles “têm sobretudo o interesse de esclarecer a atividade técnica
fazendo-nos não esperar dela (ou fingir esperar dela) resultados tais como o saber do bom uso,
apenas exigíveis de um saber absoluto” (LEBRUN, 2006, p. 508). “Eis uma precaução útil para não
enveredarmos pela tecnofobia”, prossegue Lebrun, para quem esta “começa quando se atribuem
à técnica responsabilidades indevidas, que ela evidentemente não possui” (LEBRUN, 2006, p. 508).
Segundo ele, este cuidado pode deixar o medo de fora desta discussão tão significativa, o que é
um pré-requisito necessário para que o debate racional possa frutificar.

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4 - CONTROLE SOCIAL, REVOLUÇÃO MICROELETRÔNICA E
DIGITAL

CONTROLE SOCIAL, REVOLUÇÃO MICROELETRÔNICA E DIGITAL


FIGURA 24 – Imagem para reflexão

+ =?

Fonte: http://pipocamusical.com.br/wp-content/uploads/2013/04/o-grande-ditador-cena-globo-terrestre.jpg, http://


lounge.obviousmag.org/palavras_desconcertantes/assets_c/2014/11/11360455-thumb-800x605-82036.jpeg

O debate que desenvolvemos é bastante atual. Para o professor Sevcenko, precisamos juntar
três elementos para compreender nossa época:

a ascensão da cultura da imagem e do consumo, a desregulamentação dos mercados


e a retração dos estados, com a progressiva desmontagem de seus mecanismos de
distribuição e apoio social, promovidos pela era Reagan (1981-1989) e Thatcher (1979-
1990) – e, por trás disso, como seu elemento propulsor, a Revolução Microeletrônica
e digital. O resultado é uma situação na qual a imagens são mais importantes do que
os conteúdos, em que as pessoas são estimuladas a concorrer umas com as outras,
em detrimento de disposições de colaboração ou sentimentos de solidariedade e na
qual as relações ou comunicações mediadas pelos recursos tecnológicos predominam
sobre os contatos diretos e o calor humano. É um mundo sem dúvida vistoso, mas não
bonito; intenso, mas não agradável; potencializado por novas energias e recursos, mas
cada vez mais carente de laços afetivos e de coesão social. (SEVCENKO, 2001, p. 89)

Neste mundo “intenso” e “desagradável”, não seria possível negar o impacto das novas
tecnologias sobre o meio ambiente, seus desdobramentos sobre as condições de vida humana,
e o fato de que o debate já envolve diversos grupos sociais – conjunto muito mais amplo do que
a comunidade científica.

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FIGURA 25 – Impacto das novas tecnologias sobre o meio ambiente

Fonte: danylyukk1/ Dudarev Mikhail/ Rebius/ shutterstock.com

Desde o século XVIII, quando as pessoas se referiam à “Inglaterra verde” em contraste com
a “Inglaterra cinza”, por causa dos resíduos lançados pelas fábricas na atmosfera, a modificação
da paisagem ocorre de forma e numa velocidade que não poderiam ser imaginadas por gerações
passadas. A vida social e o meio ambiente passam a ser modificados num ritmo acelerado. Um
verdadeiro turbilhão nos arrebata pois

se somássemos todas as descobertas científicas, invenções e inovações técnicas


realizadas pelos seres humanos desde as origens da nossa espécie até hoje,
chegaríamos a espantosa conclusão de que mais de oitenta por cento delas se
deram nos últimos cem anos. Dessas, mais de dois terços ocorreram concentradas
após a Segunda Guerra. Verificaríamos também que cerca de setenta por cento de
todos os cientistas, engenheiros, técnicos e pesquisadores produzidos pela espécie
humana estão ainda vivos atualmente, ou seja, compõem o quadro das gerações
nascidas depois da Primeira Guerra [...] Essa situação transparece com clareza na
taxa de crescimento dos conhecimentos técnicos, que desde o começo do século

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XX é de treze por cento ao ano. O que significa que ela dobra a cada cinco anos e
meio. (SEVCENKO, 2001, p. 24).

Simultaneamente, os conhecimentos se multiplicam, aumentam as taxas de produtividade,


desenvolvem-se novos materiais. Com isso, as circunstâncias iniciais de cada projeto se transformam,
modificam-se sempre, conduzem a resultados que estão além do que seria possível prever num
primeiro momento. Um dos resultados desta velocidade que acompanha o desenvolvimento
tecnológico é a proporcional dificuldade de que as pessoas, sejam elas cientistas ou leigos, possam
compreender e refletir sobre os impactos futuros à vida, decorrentes das mudanças infligidas ao
meio ambiente no presente.

FIGURA 26 – Degradação da natureza

Fonte: http://www.coladaweb.com/wp-content/uploads/2014/12/Poluicao-da-Agua1.
png, http://correio.rac.com.br/_midias/jpg/2014/02/12/peixe1-1857531.jpg.

A partir destas características, surge o que Hans Jonas chama de “presentismo”, ou seja, a
escolha e decisão de algo, no presente, sem a necessária consideração de seus desdobramentos
futuros – desconhecidos, imprevisíveis. As gerações futuras é que terão de arcar com os resultados
de nossas escolhas presentes, terão de acertar a fatura herdada de nosso “presentismo”.

Vejamos um exemplo deste tipo de impasse:

Uma das características do grande salto tecnológico e de produtividade obtido após


a Segunda Guerra Mundial, foi o desenvolvimento de uma enorme gama de produtos
sintéticos. Atualmente existem mais de 100 mil desses produtos em circulação,
sendo que mais de mil fórmulas novas são introduzidas a cada ano que se passa.
Como são todos de criação relativamente recente, pouco se sabe sobre seu efeito
de longo prazo nos seres ou na natureza. (SEVCENKO, 2001, p. 96)

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Desta forma, por nossa decisão no presente, sem o conhecimento dos desdobramentos futuros,
estamos, todos, testando em nossos corpos, nos corpos de nossos filhos, os efeitos dos agrotóxicos,
dos alimentos geneticamente modificados, dos pesticidas, inseticidas e outros produtos.

SAIBA MAIS

Para aprofundar o tema, sugere-se o acesso aos vídeos abaixo:

Link para a animação MAN: https://www.youtube.com/watch?v=5XqfNmML_V4

Link para filme O veneno está na Mesa: https://www.youtube.com/watch?v=8RVAgD44AGg

Link para filme O Mundo segundo a Monsanto: https://www.youtube.com/watch?v=J22coHHotpw

Link para o vídeo Levante sua Voz: https://www.youtube.com/watch?v=KgCX2ONf6BU

Alguns estudos que têm sido empreendidos para avaliar os efeitos destes novos compostos
sintéticos nos organismos vivos, especialmente os mais comuns (DDT, PCBs e a dioxina) são, no
mínimo, pouco estimulantes:

Esses produtos estão por toda parte e são presenças banais no cotidiano das
pessoas: detergentes, desinfetantes e outros produtos de limpeza, plásticos, sprays e
assim por diante [...] Pois bem, os estudos se concentraram em três grandes grupos:
aves, lontras e peixes. Algumas conclusões, apenas como exemplo, revelaram que
as águias do Sudoeste dos Estados Unidos se tornaram maciçamente estéreis; as
lontras praticamente sumiram das ilhas britânicas, onde costumavam ser abundantes;
e as gaivotas que pescavam arenques na região do lago Ontário passaram a dar a
luz filhotes com deformações grotescas. Por toda parte onde pesquisaram, esses
biólogos constataram grupos de animais que apresentavam declínio acentuado
da taxa de fertilidade, apontando para a própria extinção da espécie, deformações
aberrantes sobretudo nos órgãos reprodutores e outras anomalias congêneres. Mas
o que é pior: eles desenvolveram também estudos sobre a relação de declínio do
esperma e o crescimento dos índices de câncer dos testículos dos seres humanos.
Sua constatação foi a de que entre 1938 e 1990, em populações ao redor do mundo,
os níveis de esperma caíram praticamente pela metade, equivalendo a um aumento
agudo de câncer testicular, afora um crescimento extraordinário de anomalias
genitais em meninos e adolescentes. Quanto de tudo isso se deve a quais agentes
químicos industriais e em que circunstâncias ocorre a contaminação, é algo difícil
precisar [...]. Mas o triste fato é que não foi possível encontrar em nenhum ponto da
Terra, por mais distante e remoto que fosse, mesmo entre os esquimós do Pólo Norte,
algum grupo que vivesse em algum ambiente ainda não contaminado por produtos
químicos industriais (SEVCENKO, 2001, p. 99).

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FIGURA 27 – A capital paulista e Cubatão, SP, Brasil

Fonte: https://i.ytimg.com/vi/pIxyhm1TQ5I/hqdefault.jpg, https://usercontent2.hubstatic.com/2942859_f260.jpg, http://i0.statig.


com.br/fw/8d/6c/e5/8d6ce5ip5ajbym1qbkd3v7np9.jpg, http://www.ciamatonense.com.br/uploads/polui__o-sp-tl-20100826.jpg

Este cenário pode ser contestado. A indústria química, farmacêutica, de alimentos, de armas,
enfim, as grandes corporações financiam e divulgam pesquisas científicas que apontam para o
sentido inverso.

Se algum cientista isolado ou um grupo independente revela que determinado


produto ou procedimento é nocivo para o ambiente ou os seres humanos, as grandes
corporações dispõem logo dos recursos necessários para financiar estudos na direção
oposta, desmoralizando os cientistas autônomos e desqualificando os resultados
de suas experiências. Além, é claro, de tirar todo o proveito de seu vultoso potencial
econômico para gastar generosamente em publicidade e negociar o apoio de setores
significativos da imprensa e das instituições políticas e científicas. Uma vez mais é
um duelo desigual, como sempre o será (SEVCENKO, 2001, p. 101)

A concentração da propriedade privada dos meios de comunicação social é uma importante


ferramenta na distribuição destas ideias. Poderá haver disputa entre os interesses das grandes
corporações, que garantem sua posição na sociedade por meio da reprodução deste modelo, e
valores mais humanistas, defendidos pela sociedade civil organizada, cientistas, partidos e/ou
governos. De qualquer modo, o embate não se dará em condições de igualdade.

CURIOSIDADE

Leia o artigo “Milho transgênico causa alteração em rato” que está relacionado com o que tem sido
abordado até este momento.

Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2305200501.htm

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Nesta conjuntura, com ou sem conhecimentos técnicos profundos, parece que somos lançados
na arena de debates, bem como na experimental. O ar que respiramos, a água que consumimos,
os alimentos, cosméticos, utensílios, os meios pelos quais nos locomovemos e nos comunicamos,
enfim, nossas existências não estão isoladas dos resultados da aplicação do avanço tecnológico
na modificação e manipulação da natureza, dos hábitos e costumes de cada sociedade. Ao mesmo
tempo, a ciência e as técnicas são instrumentos cada vez mais fundamentais na avaliação, diagnóstico
e busca de alternativas a um modelo de desenvolvimento que chamaremos de predatório.

FIGURA 28 – Consumismo

Fonte: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTMmsWiEhNhO7rMDFyCNeY1aYkkibaU9iqJv5uk93kQveH5tCL9Ug

Assim, mesmo sem os conhecimentos técnicos mais específicos, podemos investigar como
funcionam as políticas que influenciam, conduzem, fomentam, ou, no limite, determinam as pesquisas
científicas. Como resultado desta iniciativa, estaremos em melhor condição de participar destes
complexos debates.

Nesta linha de raciocínio, Sevcenko apresenta-nos ainda outra questão:

O maior obstáculo à formulação dessa ciência responsável é, uma vez mais, o modo
como no panorama atual as grandes corporações escaparam do controle de órgãos
reguladores e dos grupos de pressão social da sociedade civil. Conforme vimos,
na medida em que desfrutam de uma condição privilegiada, isentas de controle do
Estado e infensas às demandas da sociedade, elas se tornaram o principal agente
indutor das políticas de ciência e tecnologia. Dados os constantes e crescentes
cortes de financiamento para as universidades e institutos de pesquisa, a alternativa
deixada a essas instituições é buscar recursos junto às grandes corporações. A
prioridade das megaempresas, por sua vez, é a valorização de suas ações, o que
implica compromissos com grupos minúsculos de acionistas e com planilhas de
prazos muito curtos, completamente indiferentes a entidades tão amplas como a
humanidade e o planeta ou como o futuro distante. Assim, em vez de ser responsável,
a ciência é levada a ser rentável. (SEVCENKO, 2001, p.101)

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Somos lançados ao espaço público, à esfera da política, local onde se encontram as forças
organizadas da sociedade disputando a implementação dos projetos considerados como os mais
válidos, mais vantajosos ou melhores – segundo os critérios de cada agrupamento. O turbilhão de
nossa era nos arrebata.

Analisemos um exemplo. No site do Ministério da Agricultura, encontramos a seguinte declaração:


“A sustentabilidade envolve desenvolvimento econômico, social e respeito ao equilíbrio e às limitações
dos recursos naturais”. Esse princípio estaria de acordo com as diretrizes expressas no relatório da
Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pela ONU em 1983, que define
como finalidade do “desenvolvimento sustentável [...] o atendimento das necessidades do presente,
sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às próprias necessidades”. A
atitude que Jonas designa como “presentismo” foi debatida e repudiada nos fóruns internacionais,
e os instrumentos regulatórios estabelecidos oficialmente no Brasil acompanham e professam
conformidade com estas decisões.

A intenção expressa pela instituição nacional de regulação, fomento e organização da atividade


produtiva de alimentos, o Ministério da Agricultura, é essa. Podemos, no entanto, apontar a existência
de ações para inibir e mesmo impedir o desenvolvimento das atividades voltadas ao “desenvolvimento
sustentável”. Com ilustrações de Ziraldo, este Ministério produziu a cartilha O olho do consumidor,
dirigida ao grande público com o objetivo de orientar a escolha de alimentos mais saudáveis, livres
de agrotóxicos. A Monsanto, megaempresa que tem negócios neste ramo, por meio de uma ação
na justiça, conseguiu impedir a divulgação deste instrumento pelos órgãos oficiais de governo.

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ACONTECEU

Empresa de transgênicos impede publicação da cartilha “O Olho do Consumidor”

Adital – Uma cartilha produzida pelo Ministério da Agricultura sobre agroecologia teve sua
distribuição impedida. A cartilha “O Olho do Consumidor”, que conta com ilustrações de Ziraldo,
foi lançada para divulgar a criação do “Selo do SISORG” (Sistema Brasileiro de Avaliação de
Conformidade Orgânica) que pretende padronizar, identificar e valorizar produtos orgânicos,
orientando o consumidor.

O livreto, que teve tiragem de 620 mil cópias, foi objeto de uma liminar de mandado de segurança,
fruto de ação movida pela transnacional Monsanto, que impediu sua distribuição. Setores do
Ministério ligados ao agronegócio também não ficaram contentes com as informações contidas na
cartilha. O arquivo foi inclusive retirado do site do Ministério.

A proibição se deu por conta do item 5 da página 7 onde se lê: “O agricultor orgânico não cultiva
transgênicos porque não quer colocar em risco a diversidade de variedades que existem na natureza.
Transgênicos são plantas e animais onde o homem coloca genes tomados de outras espécies”.

Em autêntica desobediência civil e resistência pacífica à medida de força, o MST se junta a todos
aqueles que estão distribuindo eletronicamente a cartilha. Se você concorda com esta idéia, continue
a distribuição para seus amigos e conhecidos.

A cartilha está circulando na internet. Leia e divulgue.

ADITAL: Agência de Informação Frei Tito para América Latina.

CURIOSIDADE

Acesse a cartilha “O olho do consumidor” em:http://www.redezero.org/cartilha-produtos-organicos.pdf

Nesta arena desigual de embates surge o chamado “princípio da precaução”, gestado por
participantes de organizações sociais, cientistas e leigos, especialmente após os debates gerados
em torno da utilização dos alimentos geneticamente modificados. “O fundamento do princípio da
precaução”, esclarece o professor Sevcenko,

“é o de que quando uma tecnologia ou produto comporta alguma ameaça de dano


à saúde pública ou ao meio ambiente, garante-se que antes de serem liberados
eles sejam evitados ou postos de quarentena para maiores estudos e avaliações”
(SEVCENKO, 2001, p. 103).

Este “princípio de precaução” envolve alguns elementos:

1. reconhecimentos dos riscos potenciais decorrentes da utilização de determinada técnica


ou produto;
2. reconhecimento das incertezas científicas sobre os impactos, consequências diretas e
indiretas relacionadas à utilização da referida técnica ou produto;

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3. necessidade de ação preventiva em relação aos riscos latentes identificados.

“Assim definido, o princípio da precaução se tornou um item fundamental das reivindicações


das ONGs junto aos órgãos reguladores internacionais”, esclarece Sevcenko (SEVCENKO, 2001, p.
103). Trata-se de uma iniciativa fomentada a partir da reunião de leigos, cidadãos que não detêm
profundo saber técnico especializado mas que, por se sentirem envolvidos e ameaçados diretamente
pelo incremento do desenvolvimento tecnológico nos modelos atuais, unem suas vozes ao debate,
dividindo espaço com os cientistas.

Não nos parece, a despeito da validade ou desdobramentos práticos da iniciativa, que este
princípio da precaução seja um sólido instrumento na resolução destes complexos conflitos. A
ideia de seus formuladores é a de que, com estas diretrizes tão gerais, as comunidades passem
a avaliar as políticas de pesquisas científicas. Desta forma, a comunidade, leiga nos aspectos
técnicos, estaria envolvida na definição das perguntas, das técnicas e procedimentos, na escolha
das teorias que seriam investigadas pela comunidade científica. Os cientistas, como cidadãos, não
estariam excluídos destes debates. A intenção é clara, embora nem tão claros estejam os princípios
e mecanismos que garantirão sua realização.

Por trás dele [princípio da precaução] palpita a nítida intenção de rever o papel e
as condições que presidem as políticas de pesquisa científica, a disposição de
incrementar a participação pública nos debates relativos à saúde e ao meio ambiente
e de consolidar uma ética que repõe os seres humanos e a natureza antes dos
interesses econômicos. (SEVCENKO, 2001, p. 103)

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ATIVIDADE REFLEXIVA

Agronegócio e neoliberalismo: o aumento da fome no mundo

“O texto que abaixo apresentamos aos nossos leitores é o prefácio da História das Agriculturas no
Mundo, de Marcel Mazoyer e Laurence Roudart (tradução, do original em francês, de Cláudia F. Falluh
Balduino Ferreira, Ed. Unesp, 2010), escrito para a segunda edição do livro, em 2001. Trata-se de
uma obra colossal, nem tanto por suas mais de 550 páginas, mas pela profundidade e quantidade
de dados que abarcam as várias épocas do cultivo agrícola da Humanidade, desde o neolítico até os
tempos atuais.

Há, nesse último e mais recente estágio, um paradoxo: as mudanças na produção agrícola, desde a
década de 50 e 60 do século XX, e sobretudo após 1991, foram capazes de um estupendo aumento
de produtividade – com a consequência de que os preços internacionais das mercadorias agrícolas
tiveram uma imensa queda. Mas isso, ao invés de reduzir a fome no mundo, fez com que aumentasse
o número de pessoas na miséria, com desnutrição, aumentando a distância entre a agricultura mais
desenvolvida e a menos desenvolvida. Por consequência, aumentando, também, a distância entre os
países centrais e os países da periferia. (LOPES, C.)”

Leia o material completo, disponível em

<http://americadosol.art.br/asol02/agronegocio-e-neoliberalismo-o-aumento-da-fome-no-mundo/>

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vemos que é sugerida uma mudança social, com o fortalecimento de critérios de progresso que
levem em conta a realização humana e não os lucros. Trata-se da retomada da “tradição humanista”,
que prescreve que o progresso da sociedade ocorre na medida em que aumenta a capacidade
das pessoas para assumir responsabilidade política, em que se fomenta a universalidade do ser
humano (contra toda forma de discriminação) e se amplia a liberdade de pensamento respeitando
a individualidade e a criatividade. O desafio permanece: como realizar estes ideais a partir da
realidade prática estabelecida?

Em seu aspecto negativo, a crítica pretende apontar o que está errado no vigente. Pode-se, a partir
disso, assumir uma posição de negação do papel positivo que a técnica, a ciência e a tecnologia têm
em nosso cotidiano. Esse caminho não reconhece o potencial emancipável inscrito nas ferramentas
tecnológicas, quer seja na produção de alimentos, de energia, na substituição do trabalho humano
e criação de espaço para o desenvolvimento de outras atividades, no prolongamento da vida ou a
diminuição da dor...

Num caminho diferente, encontramos críticos que pretendem despertar nas pessoas a consciência
da necessidade de mudanças. Para estes, além dos membros da comunidade científica, este debate
pode e deve ser travado por todos. Os adeptos desta tese acreditam que podemos desenvolver
o lado positivo da crítica: a invenção e a prática de novas formas de ciência, com a utilização da
tecnologia, das construções teóricas e instrumentos práticos voltados para a realização de valores
de solidariedade e justiça, ao invés da acumulação de capital, substituindo a noção de dominação
da natureza pela de respeito ao meio ambiente. Para estes, outro mundo é possível.

Voltemos à controvérsia envolvendo os alimentos transgênicos, para exemplificar, mais uma


vez, como são desenvolvidos os debates pelo filósofo da ciência:

Considero que a posição pró-transgênicos defende, em primeiro lugar, a legitimidade


e a importância do desenvolvimento da interpretação imediata, da utilização intensiva
e da ampla difusão dos transgênicos o mais cedo possível nas práticas agrícolas que
produzem as maiores colheitas do mundo e, em segundo lugar, que os transgênicos
acabem por assumir um lugar central nas políticas agrícolas nacionais e internacionais.
Em oposição a isso, considero o lado contra, que nega que as conclusões pró tenham
sido estabelecidas adequadamente, argumentando que é necessário fazer mais
pesquisa antes que uma posição definitiva possa ser tomada; e, afirmativamente, que
devem priorizar alternativas que não usam transgênicos, tal como a agroecologia,
enfatizar a urgência e a prioridade da investigação de seus potenciais produtivos. [...]
Dedicarei grande atenção à inter-relação entre o ético e o científico. As soluções para
as questões éticas envolvendo transgênicos requerem o input da pesquisa científica,
por exemplo, no que concerne aos riscos e ao potencial produtivo das alternativas

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agrícolas; porém, as questões éticas não podem ser respondidas somente com
pesquisa científica; não podem ser reduzidas a questões científicas. Além disso, a
identificação de qual é a pesquisa científica relevante a ser conduzida implica por si
mesmo juízos éticos, mas de um modo que não deve abalar a objetividade da pesquisa
científica. A inter-relação entre o ético e o científico penetra em cada aspecto da
controvérsia sobre os transgênicos. Os modos comuns de entender a ciência e a
ética – os quais afirmam que os juízos factuais e de valor estão fundamentalmente
separados, que a ciência é “objetiva” e “livre de valores” e a ética “subjetiva” – tendem
a obscurecer esta inter-relação e, portanto, a tornar difícil que os grupos em oposição
aprendam os argumentos de seus oponentes. O entendimento do que está envolvido
na controvérsia acerca dos transgênicos – e o entendimento é um pré-requisito para
a resolução razoável desta disputa – repousa necessariamente sobre uma filosofia
da ciência adequada, que clarifique e forneça inteligibilidade exatamente ao modo
como a ciência e os valores interagem, incrementando a integridade e a credibilidade
de ambos. (LACEY, 2006, p. 9-10, grifos nossos)

Para nós, não se trata de apresentar respostas prontas, apontar o caminho da verdade, fornecer
soluções mágicas que se mantenham acima de qualquer suspeita. O filósofo, como amigo do
conhecimento, é aquele que busca, para além das aparências, da tradição e do consenso, a essência,
a origem, as causas e finalidades do objeto investigado, esteja ele dentro ou fora de nós. Como os
demais caminhantes, construímos o caminho nas passadas.

Outros motes são possíveis...

É importante lembrar, mais uma vez, que tivemos que fazer diversas escolhas na elaboração de
nosso material. Muitos autores importantes, muitos argumentos relevantes, muitos outros aspectos
da aplicação da técnica ficaram de fora de nossos estudos nesta unidade. Trata-se mais de apontar
possibilidades e caminhos que possam frutificar em mais pesquisa, em mais investigação e debate.

Ao invés de elegermos o alimento, como fizemos, poderíamos ter escolhido como nosso mote
os drones, por exemplo.

Este tema tem se mostrado muito fecundo em nossa área, visto que tudo o que disseram os
filósofos que nos antecederam pode ser questionado diante da utilização da teletecnologia como
arma de guerra. Debates sobre o que é a humanidade, a coragem e a covardia, os direitos, a verdade,
a justiça, estão sendo reinventados e aplicados diuturnamente por agentes que nem se dão conta
disso. Os mesmos temas foram discutidos por Aristóteles, Hegel, Kant, Platão, Rousseau, Walter
Benjamim e muitos outros pensadores da nossa tradição.

Vamos começar com dois éthos que se espelham, um sendo a antítese do outro, correspondentes
que representam duas concepções de horror. Estamos tratando de

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atentados suicidas contra atentados fantasmas. Essa polaridade é, antes de tudo,
econômica. Opõe aqueles que possuem o capital e a tecnologia aos que contam
somente com o corpo para combater. A esses dois regimes materiais e táticos
correspondem também dois regimes éticos – ética do sacrifício heroico de um lado,
ética da autopreservação do outro. [...] O que está em jogo, nessa diferença, ao menos
como aparece na superfície, é certa concepção da relação com a morte, a própria
e a de outrem, da relação com o sacrifício ou a preservação de si, com o perigo e a
coragem, com a vulnerabilidade e a destrutividade. Duas economias políticas e afetivas
da relação com a morte a que se provoca e aquela à qual se está exposto.[...] O que
é estranho, assustador, repugnante é estar disposto a morrer na luta e glorificar-se
com esse ato. O velho tema do sacrifício guerreiro, caído de seu pedestal diretamente
nas mãos do inimigo, tornou-se o pior dos atos, o cúmulo do horror moral [...] Horror
por horror, em que aspecto seria menos horrível matar sem expor a perder a própria
vida do que matar compartilhando a sorte de suas vítimas? Em que aspecto uma
arma que permite matar sem nenhum risco seria menos repugnante que o oposto?
(Chamayou, 2015, p. 100-101)

Trocando em miúdos, estamos falando do horror que sentimos diante de um atentado suicida,
ao mesmo tempo em que assistimos ao show de luzes e fogos de um bombardeio que acontece
num lugar distante do nosso sofá. Trata-se dos pressupostos ontológicos e metodológicos, da ética
e dos valores envolvidos na atualíssima guerra dos drones. Aristóteles tratou da ética do guerreiro,
Hegel tratou das armas como extensão dos corpos dos combatentes. Esses autores clássicos
podem nos ajudar a desvendar as contradições postas na atualidade?

Aqui também reaparece o debate a respeito da responsabilidade dos cientistas, a questão do


controle social, o problema da possibilidade de neutralidade, do financiamento das pesquisas, da
tese de desenvolvimento da ciência para o melhoramento da vida no planeta.

CURIOSIDADE

Leia a matéria “Pentágono testou com êxito ‘enxame de drones’”, que aborda o tema tratado até este
momento:

http://www.dn.pt/mundo/interior/pentagono-testou-com-exito-enxame-de-drones-5596350.html

No caso dos drones, pela técnica construímos “um poder não exposto”. Este tema não é novo
na filosofia. Grotius já abordou a questão quando discutia a legitimidade do uso de venenos na
guerra. A questão ética está centrada na impossibilidade de defesa da vítima. O tema ganha nova
vestimenta no momento em que a indústria bélica anuncia a criação de robôs insetos, com a
capacidade de transportar e inocular veneno em humanos previamente escolhidos.

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SAIBA MAIS

Leia a resenha do livro Teoria do drone, de Gregóire Chamayou, que aborda o tema da guerra com
drones, disponível em <seer.ufrgs.br/index.php/rbed/article/download/65376/37930>.

O papel dos cientistas que a desenvolvem, o dos operadores da teletecnologia, o daqueles que
tem o poder de selecionar quem deve ou não viver, saltam aos olhos e convidam ao debate.

Além disso, o uso que fazemos das máquinas, no caso dos drones, pode trazer consequências
para além dos territórios que identificamos como os de inimigos. O operador da teletecnologia é
um civil, que mata de forma impessoal, apertando um botão e vendo coordenadas num monitor,
sentado numa sala refrigerada. Não é a mesma relação imediata que o guerreiro da Antiguidade
tinha com a morte – cores, secreções, odores e sons. Agora, é uma relação mediada pela tecnologia,
tudo muito asseado, imaculado. Háq consequências indesejáveis, porém logicamente previsíveis: e
quando esse operador da mais moderna tecnologia, agora transformado num homicida de escritório,
entra em conflito com outros membros de sua sociedade?

Mas a teletecnologia só pode ser utilizada para a guerra? Parece que não. Na agricultura esta
ferramenta pode ajudar o produtor durante todo o processo de plantio, cultivo e colheita, na prevenção
de pragas e para analisar a qualidade do solo, para citar um exemplo. Podemos também acompanhar
os animais que correm risco de extinção, com a finalidade de protegê-los; ou fotografarmos e
filmarmos locais e situações em novas perspectivas.

Há também o debate sobre os softwares que estão sendo criados para que as próprias máquinas
passem a decidir quando e em quem irão lançar suas munições. Isso nos faz retomar aqueles casos
em que os soldados se recusam a seguir certas ordens, pois se “dessolidarizam do poder que os
comanda, não na forma de suas ordens, mas no nível do conteúdo, de sua significação política”
(CHAMAYOU, 2015, p. 282, nota 30). Para ilustrar, imaginemos robôs sem emoção nas mãos de um
ditador que precisa reprimir seu povo para fazer valer seu poder. Neste caso, haveria maior chance
de ocorrer uma insurgência dos soldados, que estariam sendo orientados a agredir os seus e não
um povo estrangeiro. O elo mais fraco – o homem – seria eliminado pelas máquinas no momento da
decisão final sobre quem deve morrer, quantas vidas civis compensam o abate de um alvo e todas
as demais questões relacionadas ao tema. A promessa dos envolvidos no desenvolvimento destas
ferramentas é a de que serão “robôs mais humanos que os humanos”. Vejamos o que diz Chamayou:

Nos Estados Unidos, o Departamento de Defesa prevê hoje “reduzir gradualmente a


parte do controle e da decisão humana” no funcionamento dos drones. [...] Os agentes
humanos não estariam mais, então, nem dentro, nem sobre, mas completamente fora

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do circuito. É a perspectiva de “robôs capazes de exercer a força letal sem controle
nem intervenção humana. O roboticista Ronald Arkin é hoje um dos mais ativos
promotores dessa “robótica letal autônoma”. Seu principal argumento é, mais uma
vez, de ordem “ética”: os guerreiros-robôs “vão se tornar potencialmente capazes de
agir no campo de batalha de forma mais ética que os soldados humanos”. Melhor:
vão poder “se comportar de forma mais humana que os seres humanos nessas
circunstâncias difíceis [...] Esses robôs estariam munidos do que ele chama de um
“governador moral, uma espécie de ‘consciência artificial’ ou de Super-Eu maquínico”.
[...] Os robôs, isentos de emoções e paixões para perturbar seu julgamento, aplicariam
as regras textualmente, como matadores de sangue-frio. (Chamayou, 2015, p. 229-230)

Isso questiona o conceito clássico de humanidade: uma palavra que designa a essência dos
entes que identificamos como os seres humanos (sentido ontológico) e, ao mesmo tempo, uma
certa norma de conduta, uma maneira de agir (sentido axiológico). Além disso, a própria dignidade
humana fica negada, visto agora igualar-se a mera coisa material – o homicídio igualado à destruição
de um objeto, uma máquina. As regras estabelecidas no direito dos conflitos armados também são
questionadas, visto não ser mais possível separar o humano – responsável pela decisão, um ser
ético, aquele que dá qualidade ao uso – das armas – meros objetos, coisas, ferramentas.

Diante deste tema é melhor assumirmos uma visão tecnofóbica, ou tecnofílica? Ou nenhuma
delas? A tecnologia é neutra? Podemos atribuir à técnica responsabilidades relativas ao uso das
ferramentas? E quando as decisões passam a ser tomadas por softwares, a quem ou ao que
devemos responsabilizar? Podemos, ou devemos, responsabilizar os cientistas? Ou isentá-los de
responsabilidade? Deve haver controle social destas ferramentas? Quem deve fazê-lo? Os técnicos
envolvidos na fabricação dos artefatos? Seus operadores? Toda a sociedade?

Desde setembro de 2009, um grupo de pessoas de diversos países, entre elas o físico Jurgen
Altmann e o filósofo Peter Asaro, fundaram o ICRAC (Comitee for Robot Arms Control, ou Comitê
Internacional para o Controle de Armas Robóticas). No site, o coletivo de intelectuais afirma que
a entidade, sem fins lucrativos, está “comprometida com o uso pacífico da robótica ao serviço da
humanidade e a regulamentação de armas robóticas”. Além disso, “os membros do ICRAC pesquisam,
publicam e envolvem o público e a comunidade internacional nesta questão relevante, trabalhando
para estimular esforços globais para a limitação efetiva da robótica militar” (tradução livre).

Estas são questões que permanecem em aberto, para nosso escrutínio, reflexão e debates.
Nosso objetivo foi o de mostrar como a filosofia pode se engajar no tema.

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CURIOSIDADE

Sugere-se a leitura dos artigos abaixo relacionados aos temas tratados até este momento:

Cientistas apontam novos usos para os drones e debatem privacidade

http://www1.folha.uol.com.br/tec/2013/06/1298981-cientistas-apontam-novos-usos-para-os-drones-e-ameaca-a-
privacidade.shtml

Grupo de cientistas nos EUA quer proibição de ‘robôs assassinos’

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/02/grupo-de-cientistas-nos-eua-quer-proibicao-de-robos-assassinos.html

Hora de banir as armas “inteligentes”

http://justificando.cartacapital.com.br/2015/08/04/hora-de-banir-as-armas-inteligentes/

Por fim, mas não menos importante, lembramos que não é só a filosofia que se detém nestas
provocações. As artes também o fazem, com suas distintas linguagens, mobilizando nossas emoções
e, por que não, nossa razão.

Parece-nos um bom momento para retomarmos uma das mais belas passagens da história do
cinema, prazer que não seria possível experimentar sem a mais moderna tecnologia. Trata-se do
memorável O grande ditador, mais especificamente o episódio em que o barbeiro (Chaplin), por ser
confundido com Hitler, é chamado para proferir um discurso.

FIGURA 29 – O grande ditador

Fonte: https://cineclubedetomar.files.wordpress.com/2015/04/chaplin-blog.jpg

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CURIOSIDADE

Link para o filme “O veneno está na mesa II”: https://www.youtube.com/watch?v=fyvoKljtvG4

O trecho do filme que mostra o discurso: https://www.youtube.com/watch?v=3OmQDzIi3v0

SAIBA MAIS

Discurso Final do Filme “O Grande Ditador” (1940)

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar
ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros...
brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para
a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos
outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas
necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou
a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo
de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos
enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos
conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em
demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que
de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo
será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo
eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós.
Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de
desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e
encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído
sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem
o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem
e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a
liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que
arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos!
Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos
tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é
que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem
amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

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Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São
Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo
de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar
máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela...
de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder,
unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo
de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não
cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo.
Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à
prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam
à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo
as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo
– um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os
olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz
da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Fonte: http://www.culturabrasil.org/discurso_grande_ditador_chaplin.htm

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GLOSSÁRIO
Alan Francis Chalmers: nasceu em Bristol (Inglaterra), em 1939. Formado em Física pela Universidade
de Bristol, fez mestrado pela Universidade de Manchester e doutorado pela Universidade de Londres.
Atualmente, é professor na Universidade de Sydney (Austrália).

Drone: é uma palavra inglesa que significa “zangão”, na tradução literal para a língua portuguesa. No
entanto, este termo ficou mundialmente popular para designar todo e qualquer tipo de aeronave que
não seja tripulada, mas comandada por seres humanos a distância. (Fonte: https://www.significados.
com.br/drone/)

Empirista: com este nome designa-se uma doutrina filosófica e em particular gnoseológica segundo
a qual o conhecimento se funda na experiência. Costuma contrapor-se o empirismo ao racionalismo,
para o qual o conhecimento se funda, pelo menos em grande parte, na razão. Contrapõe-se também
ao inatismo, segundo o qual o espírito, a alma e, em geral, o chamado “sujeito cognoscente” possui
ideias inatas, isto é, anteriores a toda a aquisição de dados. Para os empiristas, o sujeito cognoscente
é semelhante a uma tábua rasa na qual se inscrevem as impressões procedentes do mundo
exterior. Pode-se dizer que, em geral, há três tipos de empirismo: o psicológico, o gnoseológico e
o metafísico. Para o primeiro, o conhecimento tem integralmente a sua origem na experiência; o
segundo defende que a validade de todo o conhecimento radica na experiência; o último afirma
que a própria realidade é empírica, isto é, que não há outra realidade para além da que é acessível à
experiência e em particular à experiência sensível (Fonte: Dicionário de Filosofia José Ferrater Mora).

Esotérico: ensinamento ministrado a círculo restrito e fechado de ouvintes, compreensível apenas


para poucos, acessível somente aos especialistas (fonte: dicionário Houaiss).

Éthos: a palavra ética vem do grego éthos – os hábitos de uma comunidade, o que distingue um
grupo social e cultural dos outros. Também traduzida como caráter moral.

Evolucionista: conjunto de doutrinas que consideram o desenvolvimento inevitável do real em


direção a estados mais aperfeiçoados, um modelo explicativo fundamental para o incessante fluxo
de transformações do mundo natural, biológico espiritual (fonte: dicionário Houaiss).

Input: entrada, aquilo que é posto, aplicado (fonte: Houaiss Webster’s).

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Intrínseco: inerente, que é próprio de algo, que faz parte de ou que constitui a essência, a natureza
de algo (fonte: dicionário Houaiss).

Karl Popper: é mais conhecido como filósofo da ciência e por suas críticas das filosofias políticas
utópicas. Afirma que a ciência não avança fazendo generalizações a partir de observações, mas
fazendo conjecturas ousadas que devem ser testadas. É a verificabilidade que dá poder a uma teoria
científica. Popper concluiu seu Ph.D em Viena em 1929. Sua primeira obra, A lógica da descoberta
científica, esboçou suas ideias sobre o método científico, desenvolvidas depois em Conjecturas e
refutações. Em 1937, judeu diante da iminente anexação da Áustria pela Alemanha Nazista, Popper
emigrou para a Nova Zelândia. Durante a guerra escreveu A Sociedade aberta e seus inimigos, uma
defesa da democracia liberal através de uma crítica da filosofia de Platão, Hegel e Marx. Após o
conflito, lecionou na London School of Economics, tornando-se professor em 1949. Em O eu e seu
cérebro, escrito com John Eccles, defende uma forma de interacionismo mente-corpo. (fonte: http://
filsofos-vidaeobra.blogspot.com.br/2009/08/karl-popper.html)

Positivismo: designa a doutrina e a escola fundadas por August Comte. Esta doutrina compreende
não só uma teoria da ciência, mas também, e muito especialmente, uma reforma da sociedade e
uma religião. Como teoria do saber, o positivismo nega-se a admitir outra realidade que não sejam
os fatos e a investigar outra coisa que não sejam as relações entre os fatos. Pelo menos no que
se refere à explicação, o positivismo sublinha decididamente o como e evita responder ao quê, ao
porquê e ao para e ao para quê. Junta-se a isso, naturalmente, uma decidida aversão à metafísica
e isso a um extremo tal que, por vezes, se considerou que este traço caracteriza insuperavelmente
a tendência positivista.. Mas o positivismo rejeita não só o conhecimento metafísico e qualquer
conhecimento a priori, mas também qualquer pretensão a uma intuição direta do inteligível. O
positivismo pretende ao dado e nunca sair do dado. Disto derivam várias características: hostilidade
a qualquer construção e dedução; hostilidade à sistematização; redução da filosofia aos resultados
da ciência e, finalmente, naturalismo (fonte: Dicionário de Filosofia José Ferrater Mora).

Raison d’être: - “razão de ser” em francês.

Telos: objetivo, alvo, destino, fim, resultado, conclusão.

Thomas Kuhn: (1922-1996) foi um físico norte-americano e estudioso primordial no ramo da filosofia
da ciência. Foi importante na medida em que estabeleceu teorias que desconstruíam o paradigma
objetivista da ciência. Nasceu em Cincinnati, Ohio, Estados Unidos, no dia 18 de julho de 1922.
Ingressou na Universidade de Harvard, onde fez curso de física. Desta faculdade, recebeu o título de

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mestre e doutor. Os trabalhos acadêmicos de Kuhn resultaram no livro “A Revolução Copernicana”, de
1954. Mas foi no livro “Estruturas da Revolução Científica” (1962), que Kuhn estabeleceu suas ligações
com a filosofia e as ciências humanas. O livro foi reeditado em 1970 com algumas observações
adicionais.[...] O grande mérito de Thomas Kuhn foi apontar o caráter subjetivista da ciência,
normalmente vista como puramente objetiva. Segundo ele, as teorias científicas estão sujeitas às
questões e debates do meio social, dos interesses e das comunidades que as formulam. Por isso, Kuhn
desenvolveu suas teorias usando um enfoque historicista. Faleceu em Cambridge, Massachusetts,
Estados Unidos, no dia 17 de junho de 1996. (fonte: https://www.ebiografia.com/thomas_kuhn/)

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