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C APÍTULO 3

CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE


FILOSOFIA

A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes


objetivos de aprendizagem:

 Conhecer Matthew Lipman enquanto filósofo e educador do Programa Filosofia


para crianças.

 Compreender a Infância, adolescência e juventude como objeto filosófico.

 Conhecer a história, os objetivos e a metodologia do Centro de Filosofia


Educação para o Pensar.

 Compreender a Filosofia como parâmetro que auxilia no entendimento da


realidade pessoal e social constituída.
Metodologia do Ensino de Filosofia

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Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

CONTEXTUALIZAÇÃO
Apresenta-se como desafio social e institucional para a Filosofia e a
Educação a construção de novos significados e referências desde a infância
até a juventude.

É necessário envolver a reflexão e a pesquisa levando em consideração a


condição da criança, do adolescente e jovem na tradição política progressista
e no pensamento pedagógico vanguardista. A Filosofia é um agente de
transformação educacional.

Nos últimos anos, notamos avanços na metodologia de ensino de Filosofia


nas escolas brasileiras (pública e particular). Uma destas metodologias é o
Sistema de Ensino Reflexivo que tem sido uma referência na educação para
o pensar, no Brasil, nos últimos anos. Essa metodologia tem como base o
pensamento do filósofo Matthew Lipman. Então, vamos conhecer um pouco
da vida deste pensador.

QUEM É MATTHEW LIPMAN?


De origem modesta e de ascendência judeu-russa, Matthew Lipman
nasceu em 24 de agosto de 1922, na cidade de Vineland, New Jersey -
EUA. Filósofo e educador norte-americano participou da 2ª Guerra Mundial
servindo no batalhão de infantaria na França, Áustria e Alemanha. Relatos
de pessoas que lhe são íntimas mostram que ele é uma pessoa humilde,
inteligente, serena, vivaz, espirituosa, com uma marcante preocupação social,
especialmente no tocante à situação da infância.

Em sua formação acadêmica, fez doutorado na Universidade de


Columbia (Nova lorque). Defendeu tese em 1950, com o tema “Problemas de
investigação Artística”. Publicada em 1967 sob o título: O que Acontece na
Arte. Sua primeira preocupação filosófica relacionada à estética e à metafísica.
Para Lipman a Arte
Para Lipman a Arte é uma expressão da inteligência e do pensamento, é uma expressão
portanto, cognitiva. Desta forma, seu interesse passava por analogia da Arte da inteligência e do
com a Filosofia. Seus estudos foram sobre Estética, Filosofia (norte-americana) pensamento, portanto,
e John Dewey, com quem manteve contato e por quem nutria admiração. cognitiva.

Esteve na Universidade de Sorbonne, França, realizando estudos de


pós-graduação e conheceu melhor a ideia de Maurice Merleau-Ponty, Gaston
Bachelard e de outros fenomenólogos e existencialistas. Durante esta fase,
nas suas obras e no decorrer de sua vida, podemos ver o filósofo Lipman

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Metodologia do Ensino de Filosofia

interessado em aprofundar seus estudos em estética, metafísica, pragmatismo,


fenomenologia, existencialismo e filosofia da linguagem.

Fenomenologia: trata sobre a intencionalidade da consciência humana,


trata de descrever, compreender e interpretar os fenômenos que se apresentam
à percepção.

Existencialismo: corrente filosófica e literária que destaca a liberdade


individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano. O
existencialismo considera cada homem como um ser único que é mestre dos
seus atos e do seu destino.

Como professor de Filosofia na Universidade de Columbia, da cadeira


de Lógica, e com filhos em idade escolar, começou a realizar as primeiras
experiências de traduzir, para o entendimento infantil os conteúdos
filosóficos acadêmicos. Com ênfase nos primeiros procedimentos de
uma investigação lógica e da ideia de que, ao entender os passos do
processo de investigação científica, as crianças aprenderiam a pensar
melhor os conteúdos das outras disciplinas escolares. Portanto, visava
ao desenvolvimento da investigação filosófica com o objetivo de ampliar a
aprendizagem e o entendimento dos demais saberes.

Deste início com crianças, Lipman, em 1972, foi para o Departamento de


Filosofia do Montclair State College, em New Jersey. Lecionou Filosofia para
os acadêmicos e lá aplicou o Programa de Filosofia para Crianças, criando
o IAPC (Institute for the Advancement of Philosophy for Children). Fundado
oficialmente em 1974, com o objetivo de organizar e ampliar a preparação,
difusão e desenvolvimento do Programa de Filosofia para Crianças nos EUA;
e também, junto à pessoas e instituições de outros países.

Lipman acreditava que a escola não estava desenvolvendo adequadamente


as habilidades cognitivas das crianças. O caminho seguido por ele foi via Lógica e
Filosofia, favorecer o desenvolvimento das habilidades de raciocínio, do bom e
do bem pensar.

Quando deparado com críticos de seu programa que o acusam de ser


uma vulgarização da Filosofia e, que é impossível ensinar Filosofia às crianças,
Lipman costuma responder:

As crianças podem Estão cometendo um erro. Não estamos tentando fazer com
ler, discutir, raciocinar. que memorizem Aristóteles. Não estamos querendo que
Podem falar das coisas aprendam Filosofia, mas que façam Filosofia. Isto envolve
sobre as quais falam deliberação, diálogo, raciocínio. As crianças podem ler,
discutir, raciocinar. Podem falar das coisas sobre as quais
os filósofos, sobre a falam os filósofos, sobre a verdade, a justiça, etc. Podem
verdade, a justiça, etc. dizer que as crianças não são capazes de fazer isso, mas o
fato é que elas o fazem. (FOLHA DE S. PAULO, 1994, p. 6.5).
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Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

Se você quiser saber mais sobre o pensamento de Lipman leia a entrevista


concedida a Bernardo de Carvalho e publicada pelo Jornal Folha de S. Paulo
no dia 1 de maio 1994, p. 6.5. Esta entrevista está disponível no site:

www.almanaque.folha.uol.com.br/entrevista_filosofia_matthew_lipman.htm

Há críticas contra Lipman, quanto a sua afirmação de que os jovens


do final dos anos 60 tinham o desejo de mudanças (referindo-se ao
movimento estudantil de 1968) e que, a partir de tal posição política,
cometiam irracionalidades. É necessário entender aqui, a constatação feita,
primeiramente, junto aos seus filhos e aos seus alunos universitários; a
juventude estava em uma escola que não prezava pela investigação de
nenhuma espécie. Imperava um despreparo em analisar, julgar, agir diante
das ideias colocadas e, pouco hábito de discuti-las, perceber as ideologias,
deixar-se conduzir. Caberia à Filosofia, desde os primeiros anos escolares,
em comunidade de investigação auxiliada por professores com condutas
“racionais”, ajudar os alunos a serem críticos, criativos e criteriosos, para que
suas ações pudessem ser duradouras, dentro da racionalidade.

As motivações de Lipman são políticas e contêm o desejo de que a


aprendizagem passe a ser significativa participativa e transformadora.
Assim, como qualquer mudança sócial exige tais elementos e uma boa dose
de racionalidade; aqui, não se pode querer ver nenhum papel conservador
atribuído à prática da Filosofia na escola. Ao contrário, esta proposta de
ação mostra a racionalidade que o programa busca junto às crianças e
aos professores: é um apelo filosófico racional, como deve ser qualquer
reflexão filosófica.

Com a organização IAPC, Lipman e seus colaboradores começam a


produzir textos, material didático e livros que foram traduzidos para diversas
línguas. Aqui no Brasil são comercializados por um curso nacional de inglês
junto ao CBFC (Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças). A aplicação e a
expansão organizada pelo IAPC culminaram com sua internacionalização a
partir de 1985, quando criou-se o Conselho Internacional para Investigação
Filosófica com Crianças – ICPIC (InternationaL Council for Philosophical
Inquiry with Children), conta com participantes de várias partes do mundo e,
é responsável pelo debate e pelas resoluções dos principais problemas que
envolvem o aplicar do programa nos diferentes países.

O próprio Lipman diz que quando percebeu o seu interesse pelo bem
pensar das crianças por intermédio da Filosofia, sabia muito pouco de
Educação, e complementa argumentando que seus estudos são de Filosofia e
não de Pedagogia. Sobre Lipman, vale destacar que:

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Metodologia do Ensino de Filosofia

A criança ou o jovem Ele via que nos Estados Unidos, dedica-se muito tempo
não sabem pensar, à escrita, à leitura e à matemática, mas o resultado muito
escasso. Por quê? As escolas são meras repetidoras de
não sabem detectar as informações. Se, pelo contrário, se colocasse ênfase não
articulações internas no ato de os alunos memorizarem, mas no de buscarem as
das coisas ou da respostas para suas interrogações através do diálogo, da
linguagem escrita, leitura compreensiva e do questionamento, os resultados
significa que a escola seriam bem mais significativos, tanto em curto como em
não lhes ensinou a longo prazo. Em outras palavras se a criança ou o jovem não
sabem pensar, não sabem detectar as articulações internas
pensar. das coisas ou da linguagem escrita, significa que a escola
não lhes ensinou a pensar. (SOUZA, 2001, p. 38).

Pertence a ele a afirmação de que a demora em se utilizar a Filosofia


em todos os momentos da vida escolar deve-se, principalmente aos próprios
filósofos, pois encaram o ato de filosofar como privilégio de alguns, e entendem
que a apreensão filosófica do mundo, do outro e de si mesmo está muito
longe do alcance dos simples mortais, das crianças ou daqueles que estão no
caminho da reflexão.

Atividade de Estudo

1) Quando Mattew Lipman manifesta seu primeiro interesse por estética?


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2) O que é a Arte para Lipman?


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3) O que Lipman tomou por base para iniciar seu Programa de Filosofia para
Crianças?
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Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

4) Por que e o que motiva o Prof. Dr. Lipman a desenvolver o Programa


Filosofia para Crianças?
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5) Qual deve ser a atitude do educador em seu programa?


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A FILOSOFIA EM ESCOLAS A PARTIR DA DÉCADA


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A responsabilidade pela chegada e início da proposta Filosofia para


crianças, do Dr. Lipman, no Brasil, foi de Catherine Young Silva, em 1984.
Grande entusiasta e incentivadora, não mediu esforços para ver crianças de
escolas públicas e particulares beneficiarem-se do filosofar. Veio a falecer
em 1993, mas conseguiu vislumbrar parte de seus esforços para introduzir e
ampliar o trabalho filosófico nas escolas brasileiras.

Em 1984 a Profª. Catherine promovia reuniões com um grupo de colegas


para divulgar o material e a metodologia que ela conhecera. Com este grupo
foi realizada a tradução da novela escrita por Lipman para o trabalho com
adolescentes da 6º e 7º anos - A Descoberta de Ari dos Telles.

Em 1985 o programa efetivamente começou a ser aplicado em algumas


escolas da cidade de São Paulo. Contava com um grupo de reflexão, uma
divulgação, o material impresso, a infraestrutura de uma escola de inglês e os
cursos de capacitação para professores.

Para que um maior número de professores conhecesse e aplicasse


o programa e, um maior número de crianças o utilizasse nas escolas,
foi necessário organizar uma estrutura que respondesse pelo programa
Filosofia para Crianças no Brasil. A entidade responderia juridicamente pela

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Metodologia do Ensino de Filosofia

marca, pelos produtos (material didático), pela capacitação de professores,


CBFC – Centro
estabeleceria convênios com instituições públicas e privadas, responsabilizar-
Brasileiro de Filosofia
se-ia pelos trabalhos e pelos projetos.
para Crianças – que
foi oficializado em 30
de janeiro de 1985, Surgiu então a instituição CBFC – Centro Brasileiro de Filosofia para
constituiu-se uma Crianças – que foi oficializado em 30 de janeiro de 1985. Por seu estatuto,
sociedade civil, sem constituiu-se uma sociedade civil, sem fins lucrativos, de caráter científico
fins lucrativos, de e cultural.
caráter científico
e cultural. Em discussões com pessoas interessadas (professores envolvidos com o
programa), a partir de sua estruturação legal, foi percebida a necessidade de
estratégias diferentes de organização dos trabalhos para as diferentes regiões
do País. E, devido ao fato de o Centro Brasileiro querer estruturar ‘franquias’ da
marca (Filosofia para Crianças), que representava com exclusividade no Brasil
e, assim, poder atrelar iniciativas a uma organização centralizada, surgiram os
Centros Regionais de Filosofia para Crianças.

Tal forma de representação conferia certa organização ao trabalho de


Filosofia nas diversas regiões; porém, tolhia iniciativas regionais, delimitando
os trabalhos a um território; impedia assim, que Centros Regionais mais
atuantes ampliassem suas ações. Ao tornarem-se representantes regionais,
os Centros estavam submetidos a uma série de itens contratuados: fidelidade
à condição pedagógica e as diretrizes da estrutura representante da
Filosofia para Crianças (financeira, pedagógica, mercadológica). Assumiam
a utilização exclusiva do material didático traduzido do Prof. Lipman, cuja
venda exclusiva era feita pela escola de inglês Yázigi às escolas treinadas
e aos Centros Regionais estabelecidos. Respeito ao controle rígido da
comercialização dos livros e do seu uso, somente podendo utilizá-los as
pessoas que passassem por cursos de treinamento dentro da metodologia
e entendimento parcial da proposta teórica.

Se você quiser aprofunda seus estudos sobre o ensino da Filosofia nas


escolas brasileiras, sugerimos que você leia o artigo “Notas para uma história
do movimento filosofia para crianças no Brasil” de Ana Míriam Wuensch. Este
artigo está disponível no site:

http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/histbrasil.html

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Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

Atividade de Estudo

1) De quem foi a responsabilidade pela chegada e início da proposta Filosofia


para Crianças no Brasil?
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2) Em 1985 Catherine organizou uma estrutura de Centro de Filosofia, com


que intuito?
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3) Quando foi oficializada a estrutura do CBFC?


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4) Qual seria a função desta entidade?


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O FILOSOFAR E AS CRIANÇAS, ADOLESCENTES E


JOVENS
Analisar a infância como um objeto da Filosofia é dizer que não se
trata apenas de uma possibilidade, mas sim, de uma urgência em colocar o
problema antropológico no centro das reflexões filosóficas. Porém, histórica e
culturalmente, é difícil vencer as razões que sustentam a pretensa crença na
superioridade do pensamento adulto sobre o infantil.

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Metodologia do Ensino de Filosofia

Na Grécia Antiga, a criança devia permanecer no espaço privado ou


doméstico pois, era considerada incapaz racionalmente. Esta concepção
filosófica que define a natureza e a posição social da criança, considerando-a
incapaz de fazer uso público de sua razão (argumentar, discursar, sustentar
logicamente seus pensamentos), não a aceita como cidadã. Era considerado
cidadão tão somente, aquele que exercia sua racionalidade (pensar, discursar)
na Ágora, o espaço público, a praça central, lugar de exercício da cidadania.

Temos na Idade Média, uma maneira muito próxima de existir das crianças
e dos adultos. O modo de ser, de vestir-se, de representar e de educar adultos
e crianças eram semelhantes. Neste período, tinha-se a mesma concepção
filosófico-pedagógica a respeito da infância e do adulto. O modelo perfeito de
ser humano era o adulto, o qual a criança deveria imitar. A criança era uma
cópia do adulto.

Na Idade Moderna, o entendimento a respeito da infância já é outro, e


referia-se àqueles que eram capazes de falar em seu próprio nome. Por isso, a
criança precisava ser educada tendo-se em vista as atividades, as atribuições
e as responsabilidades dos adultos. Portanto, a infância era a preparação
para a vida adulta. A necessidade de se aprender a pensar de modo lógico
sequencial fez surgir a educação escolar. Para Descartes a infância era o
lugar do erro filosófico, da ação e da força enganadora da tradição sobre a
consciência. Só será filósofo aquele que deixar de ser criança, nunca poderá
ser concomitante. O cogito é uma possibilidade do homem adulto, capaz de
fazer pleno uso da razão.

Somente com Locke, Rousseau e outros pensadores modernos é que o


tema da infância se transformou num problema filosófico. Para Rousseau, a
infância é o período em que a criança é entendida como criança e não como
adulto em miniatura. Passou esta etapa a ser pensada como um período
específico da vida, em que os sentidos precisam ser desenvolvidos antes
Dewey, na perspectiva da razão. Por isso, dizia-se ser um erro pedagógico irreparável, considerar a
do pragmatismo criança como um ser capaz de pensar racional- mente. Esta visão romântica
educacional, sobre a criança carrega um equívoco pedagógico, pois, querendo protegê-la,
aponta três pontos devido à sua inocência e pureza, pretendia-se produzir um novo homem, uma
importantes nova sociedade. Assim, querer uma educação filosófica junto às crianças é um
que devem ser absurdo pedagógico na visão de Rousseau.
considerados: a
‘desadultização’ da
Na Filosofia contemporânea, voltou à tona a preocupação do pensar a
infância; a ligação
Filosofia e a infância. Ao colocar o tema em debate, o filósofo norte-americano
entre vida e educação
Dewey, na perspectiva do pragmatismo educacional, aponta três pontos
e a educação para a
democracia. importantes que devem ser considerados:

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Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

a) a ‘desadultização’ da infância: os interesses da criança estão enraizados


no presente, não no futuro, como ocorre com o adulto;

b) a ligação entre vida (experiência) e educação, entre teoria e prática, entre


homem e natureza, entre pensar e agir, entendendo que o aprendizado só
se dá quando há uma ação correspondente e, na experiência encontra-
se a possibilidade educativa. Portanto, a educação das crianças deve
oportunizar teoria e prática, um processo socializante, gerando a co-
responsabilidade pelo destino político da sociedade;

c) a educação para a democracia, porque todo o ser humano é racional,


incluindo-se as crianças. Por isso, a importância do exercício da racionalidade
discursiva e deliberativa, elemento decisivo na educação e na participação
política. As crianças ao poderem pensar corretamente, e ao emitirem
enunciados ou juízos racionais, serão também, capazes de fazer julgamentos
éticos, tornando-se agentes morais, porque só assim, demonstrarão a
capacidade de agir visando ao bem comum, à justiça e à liberdade.

A discussão atual sobre a relação adulto/criança guarda fortes ecos


pedagógicos da tradição. Ainda permanece latente o domínio, muitas
vezes autoritário, do adulto sobre a criança. Por outro lado, há um grupo de
educadores, filósofos e outros profissionais que estão trabalhando no sentido
de mostrar que não é suficiente explicar as formas de pensar das crianças e as
formas de viver nas diferentes sociedades, mas se deve, urgentemente, introduzir
uma Filosofia da infância; uma Filosofia que investigue as representações
inerentes à condição e ao lugar da infância, hoje. É necessária a investigação
dos pressupostos metodológicos, dos valores, dos conceitos, das pesquisas
científicas sobre a infância, bem como, da condição sócio-econômica.

COMO FILOSOFAR COM CRIANÇAS,


ADOLESCENTES E JOVENS?
O Filosofar pode ser visto como uma forma de entender, de apresentar
modos alternativos no fazer, no expressar e no agir. O filosofar é comparado A Filosofia é uma
à ação de um artista que, analisando as diferentes maneiras de se expressar, forma de arte;
comportamento
de fazer e de agir, busca dar significado àquele que se aproxima de sua obra,
filosófico é, portanto,
suas ideias. Sobre Filosofia e criatividade. Lipman (1988, p. 73) afirma que:
comportamento
artístico, e o
A Filosofia é uma forma de arte; comportamento filosófico
é, portanto, comportamento artístico, e o comportamento comportamento
artístico produz obras de arte que revelam criatividade; as artístico produz obras
crianças podem comportar-se filosoficamente e, quando de arte que revelam
assim o fazem, segue-se que o produto de tal comportamento criatividade.
revelará criatividade.

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Metodologia do Ensino de Filosofia

Ao defender e propor um caminho para que as crianças filosofem,


Lipman formulou uma crítica aos pressupostos teóricos da tradição filosófico-
pedagógica ocidental. Sua crítica contém três aspectos importantes:

• coloca-se contra o modelo de (ir)racionalidade filosófica adulta;

• questiona as concepções filosóficas instrumentalistas da infância; e

• consegue colocar sua objeção às pedagogias tradicionais.

O caminho que Lipman propõe é o de reconhecer o estatuto filosófico do


pensamento infantil por parte da Filosofia. Portanto, ao pensar com e contra
a tradição filosófica, apresenta o seu forte imperativo desse empreendimento
crítico, pois não há Filosofia sem negação de ideias, sem contraposições e
rupturas com o estabelecido. A atitude filosófica manifesta-se sempre como
resistência, questionamento e oposição ao estabelecido.

Tendo trabalhado longos anos com Filosofia para crianças, Lipman


constata que elas são capazes de manifestar os comportamentos cognitivos
que são reconhecidos como filosóficos que são: fazer pressuposições,
classificar conceitos, elaborar argumentos; fazer implicações, definir, solicitar
razões, dar razões, avaliá-las; procurar determinar a validade das inferências,
classificar, formular hipóteses. Temos então, crianças vivenciando e praticando
essa capacidade inerente ao ser humano, que é a de filosofar. Para Lipman
(1994, p. 87) crianças e filósofos apresentam muitos aspectos em comum:

É um engano supor que a razão pudesse ser datada, que


pudéssemos identificar o instante exato do nascimento do
pensamento racional no ser humano. A criança começa a
pensar filosoficamente desde quando é capaz de falar e
perguntar.

Sim! Crianças e filósofos têm muito em comum. Tanto quanto a criança


que está no início de sua vida, livre de preconceitos; os filósofos também
desejam estar nessa condição, libertando-se das falsas crenças, das falsas
ideias e das ilusões. Tais e quais os filósofos que estão sempre indagando e
questionando, as crianças possuem uma curiosidade que lhes é inerente.

Se você quiser aprofundar seus estudos sobre o Ensino de Filosofia leia


a tese de doutorado de Silvio Wonsovicz que tem como título: O Ensino de
Filosofia na escola fundamental: O projeto de educação para o Pensar em
Santa Catarina (1989-2003) – A proposta, a crítica, contradições e perspectivas.
Campinas, 2004. Tese (doutorado).

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Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

Atividade de Estudo

1) O que significa analisar a criança a partir da Filosofia?


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2) Como a criança é concebida histórica e culturalmente pelo pensamento adulto?


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3) Quem era reconhecido como cidadão na antiga Grécia?


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4) E como era considerada a figura da criança na Antiga Grécia?


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5) Como o filósofo Dewey aborda a infância no período contemporâneo da


Filosofia?
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Metodologia do Ensino de Filosofia

6) Como é visto o filosofar por Lipman?


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7) Destaque as críticas que Lipman discorre sobre a educação:


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8) Qual é o caminho proposto por Lipman para a educação?


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9) O que o prof. Dr. Lipman constata a partir de seus trabalhos com crianças?
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10) Qual a afinidade que as crianças possuem com os filósofos?


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Apresentamos até então algumas ideias de Lipman sobre a Filosofia na


escola. Não podemos deixar de considerar que este pensamento sofre um
conjunto de críticas e avaliações. A seguir apresentamos algumas reflexões e
orientações para o filosofar vivo na sala de aula.

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Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

DIRETRIZES FILOSÓFICO-METODOLÓGICAS
Filosofia não é pura abstração, pelo contrário, ela pensa profundamente
a realidade e tudo o que acontece concretamente. O filósofo é visto como um
curioso, um pesquisador, um indagador, um admirado-admirador que questiona
constantemente o mundo e a si mesmo. Nesta mesma perspectiva da tradição
filosófica, a Filosofia não consistia somente em formular teorias, mas também,
era uma postura prática, uma ação em favor da transformação da realidade. A
Filosofia sempre se preocupou com a política, com a justiça, com as leis e com
a felicidade humana.

Filosofar, para Marx, não consistia somente em pensar a realidade,


mas também em transformá-la. Até então, a Filosofia tinha pensado apenas
a realidade, e a partir daí, passou-se a dar grande importância à sua ação
transformadora.

Filosofar é pensar profunda e sistematicamente a realidade, é partir do


pressuposto de que não se pode agir sem se compreender, como não se pode
compreender sem agir. Por isso, filosofar é captar a realidade e agir a partir
dela, trabalhar e transformá-la de tal forma que a torne habitável.

Filosofar exige também, o estudo da história da Filosofia, a produção


sistemática de trabalhos com viés acadêmico, a análise e a interpretação de
textos filosóficos, tudo isso deve ocorrer, respeitando-se as faixas etárias e
os momentos propícios. Deve-se ter presente a ideia de processo filosófico,
ao qual, cada indivíduo está sendo submetido, considerando-se a idade
e a realidade de cada um. Filosofar começa por uma opção ética, tomada
consciente ou inconsciente, diante da realidade em que se vive.

O filosofar começa com crianças, adolescentes e jovens que são


concretos, de carne e osso, com suas capacidades e limitações psicológicas
de entendimentos, relacionamentos, maturidade. Eles vivem uma determinada
circunstância existencial e filosofarão conforme a opção ética já feita, por
exemplo, em favor do capitalismo ou do socialismo. Tais escolhas influenciarão
o filosofar, a temática escolhida, as leituras, os enfoques, as defesas, os
desejos e sonhos.

A metodologia filosófica distingue-se de um manual de técnicas


pedagógicas válidas para esta ou aquela situação escolar. Portanto, o método
deve suprir uma necessidade interna, e não um simples capricho vindo
de fora. Seria inútil querer que os alunos dominassem técnicas, sem que
compreendessem a razão de ser que é implícita no modo de pensar filosófico.
Porque assim, a metodologia filosófica não tem existência em si, nem autonomia
em relação à disciplina. Ao manifestar esta preocupação metodológica,

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Metodologia do Ensino de Filosofia

superamos a ambição utilitarista e pragmática, pois o movimento pelo qual, a


reflexão espontânea ocorre, num primeiro momento, precisa ser transformada
considerando-se o processo dentro de um pensamento filosófico. Alunos que
têm oportunidades de refletirem sobre suas experiências, suas vidas, desde os
primeiros anos escolares; que fazem exercícios filosóficos, que compartilham
suas reflexões na Comunidade de Aprendizagem Investigativa; que estão em
contado com professores atentos e preparados para coordenarem o trabalho,
estarão impregnando-se de Filosofia e de um melhor filosofar.

Ao defender que os alunos podem e devem filosofar, justifica-se um


programa filosófico-pedagógico para a realidade escolar. Afirmamos que
o filosofar começa quando a criança é capaz de formular perguntas do tipo:
Como é isso? Porquê? ou quando a criança faz questionamentos existenciais,
colocando problemas a partir de sua experiência. Uma estrutura escolar que
não valoriza nem prioriza a pergunta, a investigação, o tempo de maturação das
ideias faz com que os alunos deixem de lado as dúvidas e os questionamentos.

Buscar um ensino filosófico impõe suas dificuldades específicas, que


podem, muitas vezes, levar ao desânimo ou à ilusão; mas pode também,
oferecer agradáveis surpresas tanto aos estudantes, quanto aos professores,
pois à medida que começa a haver uma formação filosófica, mesmo sendo
a Filosofia, uma disciplina que exige abstração, vão se respondendo às
interrogações e aos interesses existenciais, envolvendo convicções e valores
pessoais. Porém, a Filosofia, desde sua origem, apresentou-se como uma
atividade do espírito que exige que nos abstraiamos das opiniões imediatas,
que nos afastemos das discussões espontâneas, pois elas, muitas vezes, são
a expressão de nossos preconceitos e de nossas crenças irrefletidas.

Tanto numa educação filosófica reflexiva, esta que buscamos por meio
Aprender a filosofar da Filosofia com crianças, adolescentes e jovens como na aprendizagem das
é conseguir, ciências teóricas ou aplicadas é essencial adotarem-se métodos que não sejam
progressivamente confundidos com meras técnicas pragmáticas, aplicáveis a todos os problemas;
apoderar-se da arte de mas, que conduzam ao pensar ao raciocinar e ao refletir melhor sobre as
desenvolver aptidões questões da vida. Aprender a filosofar não é apoderar-se e servir-se de um
de nosso próprio instrumento para aumentar seu poder sobre as coisas ou sobre o outrem, mas
espírito, a julgar e a é conseguir, progressivamente apoderar-se da arte de desenvolver aptidões
raciocinar em geral, de nosso próprio espírito, a julgar e a raciocinar em geral, ou seja, aprender a
ou seja, aprender a pensar por si mesmo. Todo este processo deve ocorrer dentro de uma sala de
pensar por si mesmo. aula transformada em uma Comunidade de Aprendizagem Investigativa.

102
Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

Atividade de Estudo

1) A Filosofia não é pura abstração, pelo contrário, ela pensa profundamente


a realidade e tudo o que acontece concretamente. Como é vista a figura do
filósofo por esta concepção?
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2) Nesta mesma perspectiva da tradição filosófica em que consiste a Filosofia?


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3) Qual o significado do filosofar para Marx?


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4) Dentro da concepção Educar para o Pensar, em que consiste o filosofar?


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5) Como Inicia o filosofar?


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Metodologia do Ensino de Filosofia

PRÉ-REQUISITOS PARA UM FILOSOFAR VIVO


Fazer com que alunos, junto com professores, transpirem a cultura
do pensar em sala de aula na escola, exige uma nova visão diante do
conhecimento e uma postura socializante. Assim, busca-se:

• a igualdade de possibilidades diante do conhecimento (entre professores e


alunos), ainda que dispostos em sala de aula. Pois, só assim se constrói a
Comunidade de Aprendizagem Investigativa;

• a interiorização da prática do buscar as razões para aquilo que se afirma;

• a priorização do raciocínio;

• a descoberta das relações (causa/efeito, meio/fim, parte/todo, etc.) após


cada tema investigado, assim como o tecelão procura os pontos por trás
do tecido. Pensar é estabelecer relações;

• a apreciação das considerações dos outros e a criação de um ambiente


em que não se veja o outro como adversário, mas sim, como colaborador
do processo de enriquecimento do seu raciocínio. Deve-se ter a clareza de
que as certezas também podem ser frutos da investigação em comunidade;

• o conhecimento básico da Filosofia naquilo que ela pode colaborar com o


bom raciocínio e o bem agir, dentro de uma proposta emancipatória.
Por meio do diálogo
promovido pela Tanto os alunos, quanto o(s) professor(es), por meio do diálogo promovido
reflexão filosófica pela reflexão filosófica em comunidade, percebem a importância do outro, no
em comunidade, conhecimento de si próprio e do mundo. Por isso, transformar a sala de aula
percebem a em uma Comunidade de Aprendizagem Investigativa tem consequências para
importância do outro, todos os participantes:
no conhecimento de si
próprio e do mundo.
• ganham confiança em sua habilidade de pensar por conta própria, por
participarem de discussões ponderadas e reflexivas;

• dá-se uma consideração mais cuidadosa àquilo que dizem os outros, assim
como as suas próprias;

• progridem rapidamente na construção de um pensamento filosófico. À


medida que se dá o progresso, esses procedimentos são reforçados;

• atingem um padrão de desenvolvimento que lhes permite pensar por si


mesmos, auxiliados uns pelos outros.

104
Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

Atividade de Estudo

1) O que se busca para Fazer com que alunos, junto com seus professores,
transpirem a cultura do pensar em sala de aula e na escola?
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2) Em que consiste tornar a sala de aula e a escola em Comunidade de


Aprendizagem investigativa?
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3) Qual a conseqüência desta transformação de sala de aula em Comunidade


de Aprendizagem Investigativa?
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Metodologia do Ensino de Filosofia

UM FIO CONDUTOR NA METODOLOGIA DE ENSINO


DE FILOSOFIA

A Filosofia que defendemos junto aos educadores e educandos considera


a realidade na qual estamos inseridos. A Filosofia da emancipação que
buscamos com nossos alunos é produzida por pensadores, educadores e
cidadãos que nutrem os mais elevados sentimentos e têm alto padrão ético.
Defendemos que o papel da Filosofia é produzir cidadania, consciência
histórica, responsabilidade moral, elevação ética, participação política
e sensibilização estética na geração atual e futura, bem como junto aos
educadores das escolas.

a) Estratégias Utilizadas

• Valorizar, no educador e no educando, a atitude primeira do filósofo diante


do mundo e de si mesmo, que é a de maravilhamento, de admiração, de
questionamento, de intriga e espanto.

• Levar o educador e o educando a diferenciar os termos sinônimos como


forma de fazer Filosofia elementar.

• Levar o educador e o educando a conhecer os grandes conteúdos


filosóficos: Teoria do Conhecimento, Lógica, Ética, Política e Estética.

• Levar ao educador e ao educando o conhecimento das habilidades de


raciocínio para que se aprimorem no seu uso.

• Valorizar a atitude criativa, levando educador e educando a buscarem


alternativas – “se não fosse assim, como seria?”, e a recombinar os dados
visando a novas possibilidades – “como eu poderia fazer diferente?”.

• Desencadear nos educadores e educandos uma postura crítica,


desenvolvendo a fluência na expressão, o entendimento da leitura
filosófica, a audácia diante do real, a luta pelas novas possibilidades e o
rever e modificar atitudes.

b) Considerações na Hora de Planejar Aulas

• Esteja atento às datas comemorativas de grande relevância educativa e


proponha atividades especiais.

106
Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

• Observar aulas para trabalhar os momentos de avaliação.

• Organizar no início do ano, na metade ou no final um grande evento em


sua classe ou na escola (sugestão: aproveite o dia da Filosofia [3ª quinta-
feira de novembro] para realizar esse evento).

• Usar materiais didáticos diversos como jogos, brincadeiras, histórias


infantis, sucatas, músicas, vídeos, teatro, fantoches, dinâmicas, entre outros.

• O material pedagógico é um pretexto e um pré-texto, portanto, fundamental


como caminho a ser percorrido e para que dele outras criações possam surgir.

• Trabalhar com os alunos dando ênfase ao PROCESSO e não buscando


um PRODUTO. Portanto, precisamos respeitar o ritmo de cada um e saber
que há um momento de maturação.
A criatividade é
• Lembre-se que a criatividade é fundamental para a elaboração dos seus fundamental para a
planos de aulas, portanto dê asas para suas criações e ideias observando elaboração dos seus
no mundo a sua volta, não apenas dentro da sala de aula, mas em todos os planos de aulas,
portanto dê asas
lugares e momentos, novas formas de tornar prazerosa a aprendizagem.
para suas criações e
Aproveite para fazer, junto com uma reflexão séria, um espaço de
ideias observando no
inovações. Comunique e partilhe suas descobertas e acertos.
mundo a sua volta,
não apenas dentro
• Aprenda a ouvir sempre (em todos os momentos) os seus alunos. da sala de aula,
mas em todos os
• Exerça a plasticidade nas discussões e investigações, dentro e fora de sala lugares e momentos,
de aula. novas formas de
tornar prazerosa a
• Seja pedagogicamente enérgico e filosoficamente maleável (pensando no aprendizagem.
Ensino Fundamental – 1º ao 7º ano).

• Seja filosoficamente enérgico e pedagogicamente maleável (pensando no


Ensino Fundamental – 8º / 9º ano e Ensino Médio).

• O texto filosófico a ser discutido são pretextos e um pré-texto. Portanto, são


fundamentais como caminho para ser percorrido e, deste caminho outras
criações e entendimentos possam surgir.

• Usar os livros como instrumentos de registro das investigações, reflexões,


buscas e criações.

• O ensino do filosofar quer contribuir com uma educação para a autonomia


e para o autoconhecimento, portanto é necessário estar atento para a
interdisciplinaridade, evitando a fragmentação e o reducionismo disciplinar.

107
Metodologia do Ensino de Filosofia

• Procure fazer um registro ao final de suas aulas relatando situações que


lhe desafiaram, ideias relevantes de seus alunos, enfim, comentários
de experiências que poderão ser compartilhadas e, que certamente,
contribuirão para o enriquecimento dos trabalhos e que poderão ser
acrescentados nos planejamentos dos anos subsequentes.

Atividade de Estudo

1) Qual o papel defendido pelo programa filosófico Educar para o Pensar?


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2) Destaque três ideias que você considera essencial na hora de planejar as


aulas de Filosofia.
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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Ao longo deste caderno de estudos procuramos apresentar a nossa
experiência de ensino de Filosofia baseada no ‘Educar para o Pensar:
Filosofia com Crianças, adolescentes e Jovens’.

Nossa proposta foi de capacitá-los para o debate, o confronto de ideias;


para a dúvida, para o não-conformismo diante dos fatos, portanto, para a
negação; buscar uma participação no processo de criação do indivíduo, de
uma nova relação entre as pessoas, das instituições e os seus porquês.
Desenvolver o ensino de Filosofia nessa perspectiva é ir ao encontro de uma
Filosofia viva, cativante, de um ensino filosófico que questione as certezas,
o instituído; que capacite para a reflexão e para as mais diversas leituras e
posicionamentos tomados diante dos fatos – tudo isso vindo a despertar para
uma instrumentalização da crítica, da ampliação do universo experiencial e
visão de mundo (WONSOVICZ, 2004).

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Capítulo 3 CAMINHOS E METODOLOGIA DE ENSINO DE FILOSOFIA

Atualmente, presenciamos o ‘ressurgir’ do ensino da Filosofia nas escolas


públicas e particulares. Muitos caminhos teóricos e práticos precisam ser
trilhados; mas, a paideia é o grande ideal de formação filosófico-pedagógico.
Por fim, a “Filosofia precisa perguntar à educação como ela deve ser para
atingir a reflexão das crianças. Por isso, sem Filosofia não há Educação, como
também, sem Educação não há Filosofia.” (WONSOVICZ, 2004, p. 244).

REFERÊNCIAS
FOLHA DE S. PAULO. Entrevista de Lipman concedida a Bernardo de
Carvalho. 1º de maio de 1994, p.6.5.

LIPMAN, Mathew et al. A filosofia na sala-de-aula. São Paulo: Nova


Alexandria, 1994.

LIPMAN, Mathew. A filosofia vai à escola. São Paulo: Summus, 1988.

SOUZA, Nivaldo A.de. A Criança como pessoa: na visão de Tomás de


Aquino e de Matthew Lipman. Florianópolis: Sophos, 2001.

WONSOVICZ, Silvio. O Ensino de Filosofia na escola fundamental: O


projeto de educação para o Pensar em Santa Catarina (1989-2003) – A
proposta, a crítica, contradições e perspectivas. 313 f. Tese (Doutorado)
- Curso de Educação, Departamento de Filosofia e História da Educação,
Unicamp, Campinas, 2004.

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