Você está na página 1de 183

CARNE VS.

BITS
Direção Editorial
Lucas Fontella Margoni

Comitê Científico

Prof. Dr. João de Fernandes Teixeira


Universidade Federal de São Carlos

Prof. Dr. Belarmino César Guimarães da Costa


Universidade Metodista de Piracicaba

Prof. Dr. Renato Kraide Soffner


Centro Universitário Salesiano de São Paulo

Prof. Dr. Fábio Botelho Josgrilberg


Universidade Metodista de São Paulo

Prof. Dr. César Romero A. Vieira


Universidade Metodista de Piracicaba
CARNE VS. BITS
PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE
HOMENS E MÁQUINAS

André Rehbein Sathler

φ
Diagramação e capa: Lucas Fontella Margoni
Arte de capa: Pintura rupestre chapada e lisa, em vermelho escuro. Antropomorfo
segurando lança serrilhada. Toca das corças.

A regra ortográfica usada foi prerrogativa do autor.

Todos os livros publicados pela Editora Fi


estão sob os direitos da Creative Commons 4.0
https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR

http://www.abecbrasil.org.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


SATHLER, André Rehbein.

Carne vs. Bits: paradigmas na disputa entre homens e máquinas. [recurso eletrônico] /
André Rehbein Sathler -- Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2017.

183 p.
ISBN - 978-85-5696-158-7
Disponível em: http://www.editorafi.org

1. Filosofia da mente, 2. Epistemologia, 3. Paradigma, 4. Corpe e mente, 5. Tecnologia,


I. Título.

CDD-100
Índices para catálogo sistemático:
1. Filosofia 100
SUMÁRIO
CAPÍTULO 1 9
INTRODUÇÃO ..........................................................................................................9
Panorama do livro .............................................................................................. 15
Uma nota sobre o método ................................................................................... 17

CAPÍTULO 2
O ESPAÇO EXPANDIDO ...........................................................................................21
O espaço sem fronteiras ...................................................................................... 21
Ciber-Lebenswelt: o ecossistema dos seres parabióticos .......................................... 23
Ciber-Lebenswelt: deslocamento e ansiedade ........................................................ 27
Espaços mentais ampliados: res cogitans in extensa .............................................. 30
Espaços purificados: o virtual ............................................................................... 32

CAPÍTULO 3
O CORPO EXPANDIDO.............................................................................................37
O corpo sem fronteiras ........................................................................................ 37
Artefatos e construção da corporeidade humana .................................................... 45
Sistemas Parabióticos ......................................................................................... 52
Uma nova etapa na evolução .............................................................................. 60
Pós-humano x Hiper-humano .............................................................................. 63

CAPÍTULO 4
A MENTE EXPANDIDA .............................................................................................73
A mente sem fronteiras ....................................................................................... 73
Processamento mental distribuído ........................................................................ 77
Mentes e máquinas: sistemas cognitivos híbridos .................................................. 81
Agentes Inteligentes (smart agents) – conceitos .................................................... 85
Agentes inteligentes – aplicações ........................................................................ 88
Agentes inteligentes como uma das camadas (drafts) no modelo de consciência de Dennett .. 93
Agentes inteligentes como um módulo no modelo de Fodor .................................... 98
Problemas com agentes inteligentes ................................................................... 103
CAPÍTULO 5
A INTELIGÊNCIA EXPANDIDA.................................................................................. 109
A inteligência sem fronteiras.............................................................................. 109
Agentes inteligentes e a noção de agente ........................................................... 113
Argumentos contrários ...................................................................................... 114
Argumentos favoráveis ...................................................................................... 125
Isodinamismo: a mão dupla da metáfora computacional...................................... 135
Estados objetais não objetiváveis ....................................................................... 142
Will machines beat us? Sobre progressões crescentes e decrescentes ...................... 150
A Inteligência Artificial como o Outro: o uncanny freudiano .................................. 157

CONCLUSÕES ...................................................................................................... 163

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................. 171


CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO
A técnica nos amplia. A pintura rupestre que abre o livro
apresenta uma figura de traços hominídeos, segurando uma lança,
tanto avantajada em tamanho em relação ao seu portador, quanto
a ele plasmada, pela indistinção com que a pintura retrata a junção
entre mão e lança, sujeito e objeto. Nos primórdios, a técnica
estava na natureza. Mas não era natural. Foi criada pelo homem1,
quando este descobriu que podia usar a natureza para alterar a
própria natureza, conformando melhor o mundo às suas
necessidades de sobrevivência. Não se trata simplesmente do uso
de artefatos2, mas da forma como o homem trabalha, entendido o
trabalho como o processo mediante o qual o homem extrai sua
subsistência do meio-ambiente. Como uma extensão do homem,
a técnica configura uma determinada forma de ser-no-mundo:
mudanças tecnológicas determinam mutações antropológicas.
A técnica não é neutra. Trouxe mudanças significativas na
vida humana, em todos os seus âmbitos. Postman alega que “as
novas tecnologias alteram a estrutura de nossos interesses: as
coisas sobre as quais pensamos. Alteram o caráter de nossos
símbolos: as coisas com que pensamos. E alteram a natureza da
comunidade: a arena na qual os pensamentos se desenvolvem”3.
A técnica implica mudanças materiais no meio em que vivemos –
do Umwelt produz o Lebenswelt. Este último é povoado por novos

1Ao longo do presente trabalho, utilizaremos o termo homem sempre em referência à


humanidade. Essa opção é motivada por uma preferência estilística e não por qualquer
questão de gênero.
2 Será utilizado, preferencialmente, o termo artefato, no sentido de “objeto apropriado
para atingir alguma finalidade que a pessoa tenciona que seja usado para atingir essa
finalidade. A mistura da mecânica e psicologia faz dos artefatos uma categoria estranha.
Os artefatos não podem ser definidos segundo sua forma ou constituição, mas pelo que
podem fazer e pelo que alguém, em algum lugar, deseja que eles façam” (PINKER,
1998, p. 348). Em alguns locais, com o intuito de evitar repetições e melhorar o fluxo
de texto, utiliza-se o termo “instrumento”, pretendendo-se que seja entendido com o
mesmo sentido de artefato. Em traduções de trechos nos quais os autores
expressamente utilizem o termo inglês tools, optou-se pelo termo “ferramentas”, embora
se discorde do uso do mesmo, no contexto em questão, dado o seu caráter restritivo.
3 POSTMAN, 1994, p. 29.
10 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

signos e símbolos, não mais adstritos aos elementos disponíveis


na natureza. Vivendo e convivendo nesse espaço ampliado, o
homem haure novos pensamentos e ascende a níveis
diferenciados de sociabilidade4. A técnica penetra na intimidade
ontológica do homem, transformando-o naquilo que ele tem de
mais privado – seu próprio processo de pensamento.
A técnica se tornou o ambiente que nos cerca e nos
constitui5. Nos primórdios do processo civilizatório, a técnica
tinha forte viés teleológico – um meio aplicado com o fim de
dominar a natureza hostil. Com o tempo, ao criar um ambiente
permeado de artefatos – um mundo com determinadas
características artificiais – a técnica se tornou o ambiente do
homem, aquilo que o rodeia e o constitui. Com isso,
parafraseando Nietzsche, o homem supostamente descansaria de
sua angústia existencial pois passaria a poder compreender
perfeitamente um universo criado por ele mesmo.
Uma compreensão global do fenômeno técnico é
fundamental para qualquer análise da cultura, sobretudo quando
se almejam interpretações da realidade atual. A sobrevivência do
homem requer o domínio da natureza e a técnica, como
instrumento desse domínio, incorpora-se à essência do homem e
torna-se um elemento imprescindível para sua existência. O
estado da técnica reflete o estado do homem.
As visões que defendem a neutralidade da técnica partem
de uma concepção exclusivamente instrumental, o que é,
paradoxalmente, um posicionar-se pré-tecnológico, remetendo ao
período em que o ser humano agia com vistas a objetivos
inscritos em um horizonte de sentido. Na atualidade, a técnica é
vista como autotélica, ou seja, se tornou seu próprio fim. Houve,

4 Mumford, historiador da tecnologia, concorda com essa posição quando afirma que
“através do hábito de usar a escrita e o papel, o pensamento perdeu algo de seu caráter
de fluxo, quadridimensional, orgânico, e se tornou abstrato, categórico, estereotipado,
seu conteúdo passou a ter formulações puramente verbais e soluções verbais para
problemas que nunca tinham se apresentado em seus inter-relacionamentos concretos”
(MUMFORD, 1963, p. 137).
5 Para Galimberti, “a técnica não é neutra, porque cria um mundo com determinadas
características com as quais não podemos deixar de conviver e, vivendo com elas,
contrair hábitos que nos transformam obrigatoriamente” (GALIMBERTI, 2006, p. 8).
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 11

particularmente a partir do séc. XIX (pós-Iluminismo e pós-


Revolução Industrial) uma mudança notável no tipo de
pensamento: do se algo devia ser inventado, poderia ser inventado, para o
se algo podia ser inventado, deveria ser inventado. Inovação virou uma
palavra-força. As conseqüências da primazia do fenômeno
técnico já são sentidas.
Procuramos chamar a atenção, com essas palavras
introdutórias, para a dimensão da profundidade qualitativa das
mudanças causadas no homem pelo fenômeno técnico.
Transformações que se reforçam em processos retro-alimentados,
as quais aceleraram-se sobremaneira nos últimos séculos, a partir
de dois grandes acontecimentos: a Revolução das Luzes e a
Revolução Industrial. O primado da Razão e o método científico,
princípios Iluministas, descortinaram a evolução exponencial da
ciência aplicada, posicionando os cientistas na vanguarda intelectual
da sociedade. Já a inserção plena da máquina nos processos
produtivos, fruto do industrialismo, significou uma alteração
radical nos processos de trabalho, nos meios de subsistência e
nos relacionamentos sociais da humanidade.
Muitas vezes, a presente época é qualificada como uma
terceira revolução industrial. O uso do termo revolução aponta
para mudanças rápidas e de grandes proporções. Indica aqueles
momentos na história em que eventos importantes ocorrem com
grande rapidez e contribuem para estabelecer uma nova era.
No modo agrário de desenvolvimento, a principal fonte
de ampliação da renda era o aumento da mão-de-obra disponível
e da terra (recursos naturais). Já no modo de desenvolvimento
industrial, a principal fonte de produtividade se originava do uso
de novas fontes de energia e na capacidade de descentralização
desse uso ao longo das cadeias produtivas e de circulação dos
produtos. A diferença, quando se alcança o modo informacional
de desenvolvimento, está no fato de que a fonte de produtividade
encontra-se na tecnologia de geração de conhecimentos, de
processamento da informação e de comunicação de símbolos. A
principal mudança, portanto, não foi o tipo de atividades em que
a humanidade está envolvida, mas sim sua capacidade tecnológica
12 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

de utilizar, como força produtiva direta, aquilo que distingue a


espécie humana: o fato de sermos analistas simbólicos.
A história dessa revolução já está devidamente narrada em
várias obras, tratando-se essencialmente do surgimento do
computador digital, baseado em chips de silício, com alto poder
de processamento e um aumento exponencial da capacidade, a
cada 18 meses, mantidos os custos constantes6. Outro elemento
dessa revolução, mais recente, foi a utilização desses
computadores de forma interconectada, em rede, o que veio a
propiciar, posteriormente, a Internet, uma rede de redes, conectando
centenas de milhares de computadores em todo o mundo e
disponibilizando um oceano de informações.
A revolução informática e a Internet estão alterando a
vida das pessoas em praticamente todas as suas dimensões,
inclusive na forma como trabalham, incorporando novos hábitos
e novas formas de executar antigas rotinas. Muitas das tarefas
foram transferidas para os computadores, automatizadas,
deixando mais tempo e possibilidades para o trabalho criativo do
ser humano.
Vive-se um período sem precedentes de mutações
aceleradas em praticamente todos os campos da existência.
Processos como a revolução nos transportes, na tecnologia e a
globalização transformaram absolutamente a vida cotidiana das
pessoas. De forma ilustrativa, o historiador Hobsbawm afirmou
que hoje se pode "levar a cada residência, todos os dias, a
qualquer hora, mais informações e diversão do que dispunham os
imperadores em 1914"7. Esse excesso de informação8 tem levado
a uma crescente preocupação com a overdose de informações – a

6 Processo que ficou conhecido como Lei de Moore, por ter sido primeiramente
postulado por Gordon Moore, então presidente da Intel, fabricante de processadores.
7 HOBSBAWN, 1995, p. 190.
8 Wurman (WURMAN, 1991, p. 36) afirma que “atualmente, a quantidade de
informação disponível dobra a cada cinco anos; em breve, estará duplicando a cada
quatro”. Esse tipo de aferição normalmente leva em consideração inventários de
conhecimento, arrolando livros editados, artigos científicos escritos, jornais, canais de
televisão, patentes, etc. Desses inventários, o que se tornou mais famoso encontra-se
publicado na obra The production and distribution of knowledge in the United States, de
MACHLUP, 1972.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 13

incapacidade do ser humano de lidar com essa massa descomunal


de informações e absorvê-las apropriadamente, transformando-as
em conhecimento.
Capacidade cria intenção. Cada nova melhoria no sistema
de transportes aumentou a área pela qual as pessoas se sentem
compelidas a viajar. Cada nova possibilidade desvendada pela
informática, traz novas possibilidades de ação aos indivíduos. A
sociedade informacional, configurada de modo a ter a informação
como seu eixo central, faz com que seu aparato técnico –
computador, internet – se tornem referências fixas para a inteira
vida psíquica da comunidade. Cada tecnologia acaba por impor
uma pré-disposição mental – uma forma de pensar sobre ela e
suas funções – que logo invade as pessoas que a utilizam. Quanto
mais bem-sucedida é uma tecnologia, maior é seu impacto nos
padrões de comportamento de seus utilizadores, e,
conseqüentemente, maior o impacto na sociedade.
Partimos dessa configuração dinâmica e integrada do
fenômeno técnico na atualidade para propor reflexões sobre as
formas e os efeitos da crescente interação do ser humano com
máquinas complexas, notadamente as informacionais. A mudança
seminal no processo evolutivo humano, ocorrida com o uso de
artefatos com propósitos de dominar a natureza – objetos com
finalidade técnica ou objetos-técnicos –, conforme estampado na
epígrafe da tese, alcançou novos patamares, verdadeiramente
revolucionários. Os ambientes técnicos – cavernas, aldeias, vilas,
cidades – deixaram de ser enclaves diante da natureza e,
inversamente, os ambientes naturais passaram a ser enclaves em
um mundo regido pela técnica. Dos objetos-técnicos, utilizados
como próteses que expandem as possibilidades motoras e
musculares do homem, passamos aos objetos-técnicos que
alteram e ampliam as suas capacidades cognitivas – as próteses
mentais.
Discutir as relações cognitivas entre mentes e máquinas é
um desafio instigante, ampliando a questão do uso dos artefatos
físicos para incorporar reflexões quanto à interação do homem
com o objeto-técnico, em suas múltiplas formas e instâncias.
Notadamente, percebemos, desde o início, que os softwares,
14 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

apesar de carregarem no próprio nome, como uma petição de


princípio, a característica da intangibilidade, são tratados, pelo
homem, como um objeto-técnico. O tipo de relação estabelecido
pelo homem com o software mimetiza o tipo de relação do
homem com o artefato. Essa constatação levou-nos a propor
uma reflexão, anterior à dos agentes inteligentes, sobre o
processo de apropriação e uso dos artefatos como objetos-
técnicos.
As reflexões sobre os agentes inteligentes também
descortinaram um olhar para a frente, na tentativa de
compreensão dos desdobramentos possíveis da eventual
literalização da denominação agentes inteligentes, hoje assim
reputados apenas a título metafórico. Essa percepção nos
aproximou do campo de estudos da Inteligência Artificial (IA). O
estado da arte dessa área de pesquisa é permeado por tensões
entre entusiastas e pessimistas, digladiando-se em torno de
assumir ou não a possibilidade de um objeto-técnico autônomo e
singular – a técnica finalmente desprendida do homem.
Presença recorrente ao longo das outras reflexões, o
ambiente aparece como catalisador das mudanças. Usamos a
técnica para modificar o ambiente e esse novo ambiente requer
novas técnicas para ser alterado. A lança do hominídeo não é
muito apropriada para abrir uma lata de sardinha. Longe de ser
um envoltório passivo, o ambiente é um professor ativo, exigindo
adaptações permanentes do homem. Essa percepção levou-nos a
propor, inicialmente, reflexões sobre o ambiente, a partir do
conceito de espaço e suas mudanças qualitativas.
Como pano de fundo da discussão, encontra-se uma
interrogação sobre os modos de apropriação (significação) e
expropriação (ressignificação) que o homem adota em relação ao
objeto técnico ao longo de sua evolução. Identificamos um
padrão nesse processo, seja quando ele se dá em relação a um
artefato físico, seja quando ocorre em relação a um objeto
imaterial. Percebemos, igualmente, que na medida em que ocorre
esse movimento de apropriação/expropriação, a relação dos seres
humanos com os objetos-técnicos muda de patamar, tornando-se
indiscerníveis as fronteiras entre homens e objetos, mentes e
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 15

máquinas. Com isso, estão lançadas as bases para pensarmos em


sistemas cognitivos híbridos – coletivos de sujeitos e objetos-
técnicos, em relações parabióticas, cujo resultado transcende em
muito a capacidade do homem tomado isoladamente.

Panorama do livro

No Capítulo 2, fazemos uma análise do espaço e suas


mudanças qualitativas na atualidade. Partimos de um conceito do
espaço como produção humana, baseado na obra de Lefebvre,
para analisar como as transformações em curso no ambiente
afetam nossas subjetividades e, reciprocamente, como afetamos
nossos ambientes. Discutimos as possibilidades de sobrevivência
do homem nu nesses novos espaços, sem que esteja devidamente
atualizado com as últimas novidades tecnológicas – próteses
sensoriais e motoras. Em uma transição de nível crescente de
abstração, passamos por uma discussão quanto ao pensamento
que se utiliza do espaço como elemento constituinte do próprio
pensamento (pensar sobre as coisas e com as coisas), e chegamos
a algumas reflexões sobre o espaço abstrato por excelência, os
mundos virtuais.
No Capítulo 3, situamos reflexões sobre o corpo que vai
se inserir nesses novos espaços. De uma noção rígida e fechada
de corpo (cartesiana), discutimos como se está trabalhando, na
atualidade, com noções permeáveis e intercambiáveis para os
corpos individuais. Nesse capítulo começa um tema importante e
recorrente na obra, em diversos planos, que é a questão da
apropriação de artefatos pelo homem e seus efeitos na
subjetividade humana. O corpo que se apropria crescentemente
dos objetos técnicos, corpo protético, estabelece novas relações
com a tecnologia, constituindo-se em um sistema parabiótico, que
surge como uma esperança (ou pretensão, talvez) de que o
homem assuma as rédeas de seu processo evolutivo, galgando,
por seus méritos, novos degraus na escada evolucionária.
O Capítulo 4 remete à questão originária do presente
trabalho, ao discutir os agentes inteligentes e seus efeitos sobre o
ser humano, a partir de uma análise das formas e mecanismos de
16 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

apropriação dos mesmos pelo sujeito, em muito similares às


formas de apropriação do objeto-técnico tangível. Reinserimos o
tema da espacialidade, em outro nível de abstração, quando
discutimos as formas de expansão do pensamento no espaço,
com o chamado processamento mental distribuído. Retomamos a
noção dos sistemas parabióticos, transcendendo, contudo, o
plano do físico e adentrando o nível do mental, com a análise dos
sistemas cognitivos híbridos que surgem das relações cognitivas
entre mentes e máquinas. No Capítulo 4 apresentamos duas
propostas conceituais inovadoras. A primeira é a de que os
agentes inteligentes, como entidades incorpóreas e autônomas, ao
serem apropriados pelo sujeito, podem se constituir como uma
das camadas da consciência, no âmbito do modelo dennettiano
de uma consciência com múltiplas camadas (multiple drafts model).
A segunda, similar na abordagem, postula que os agentes
inteligentes possam se configurar como módulos (faculdades
verticais) no âmbito do modelo de consciência de Fodor.
O Capítulo 5 traz reflexões sobre a possibilidade de
autonomização completa dos agentes inteligentes e a sua
instituição, ipso facto, como agentes – a chamada Inteligência
Artificial. Há, nesse capítulo, um elemento de inconclusividade,
uma vez que são apresentados argumentos favoráveis e contrários
à possibilidade de compreensão do termo agentes inteligentes de
forma literal e não somente metafórica. Também nesse capítulo,
apresentamos uma proposta conceitual original, que é a definição
de estados objetais não objetiváveis como, possivelmente, uma
primeira raiz para que se comece a discutir as possibilidades de
individualização das máquinas computacionais. Caso isso seja
possível, estaríamos, de fato, diante de um Outro, uma nova
entidade, ainda a ser devidamente definida e categorizada. Como
reflexão final, diante dessa assombrosa possibilidade, retomamos
uma discussão clássica de Freud sobre nosso estranhamento
diante de autônomos que parecem vivos.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 17

Uma nota sobre o método

Os capítulos, e os temas no interior dos capítulos, são


abordados de modo recursivo. A diferença entre a recursão e a
repetição é que no processo recursivo os elementos são
reiterados, porém incorporam os resultados do ciclo anterior, em
um processo de acumulação dinâmica. Em seu plano geral, o
livro se inicia com a inserção concreta de homens e máquinas,
que se dá, necessariamente, de forma situada (espacial). Vivemos
e encontramos o sentido para nossas vidas em um determinado
espaço, que é afetado por nós e nos afeta. Os artefatos e as
máquinas coabitam esse espaço, também exercendo sobre ele
transformações profundas.
No segundo momento, analisamos as ações humanas no
espaço e as nossas interações com tudo que nos é exterior – os
ob-jetos, mas ainda situados em uma concretude espacial e imersos
no universo material. Contudo, já nesse instante da pesquisa,
abre-se uma brecha para o terreno do imaterial, quando se analisa
as formas como os objetos-técnicos são apropriados pelo
humano.
A terceira etapa compreende um passo além no caminho
rumo à imaterialidade, ao se propor como tema as formas de
relação e apropriação que o humano mantém com artefatos
intangíveis – os softwares. Mais especificamente, os agentes
inteligentes. No momento seguinte, adentramos o mundo puro
da imaterialidade, ao discutirmos as possibilidades relacionadas ao
campo de pesquisa da Inteligência Artificial. A Inteligência
Artificial manifesta-se, em uma primeira aproximação, como
entidade incorpórea, tal qual a Máquina de Turing, como
conceitualmente proposta. Recursivamente, contudo, nesse
momento (Capítulo 5) avançamos para uma inserção da Máquina
de Turing, abstrata no plano da materialidade, analisando-se as
conseqüências de sua instanciação física. O Capítulo 5 culmina
com uma reflexão, inspirada em Freud, sobre os efeitos da
convivência do humano com autônomos inteligentes,
corporificados e identificados como o Outro. E assim
18 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

retornamos ao plano material e aos contextos espaciais nos quais


se dão as relações entre os homens e os artefatos.
No interior dos capítulos, há movimentos recursivos
similares. O Capítulo 2 é iniciado com uma discussão sobre os
significados atribuídos pelos seres humanos às suas
materialidades espaciais. Prossegue avaliando as mudanças nessas
materialidades e seus efeitos sobre os homens, bem como,
reciprocamente, os impactos do humano nos espaços. O capítulo
culmina com uma transcendência da materialidade espacial – a
realidade virtual – que, recursivamente, se fecha nas
possibilidades imaginadas pelo programador – explosão de
finitudes mascarada de abertura ao infinito.
O Capítulo 3 começa com análises de cunho
antropológico sobre a ação instrumental humana e as formas
peculiares da nossa espécie para a apropriação dos ob-jetos.
Continua com interpretações possíveis sobre o agir instrumental
humano e processos definidores de nossa relação com os
artefatos. Seu ápice se dá com a análise de como o artefato se
insere definitivamente no mapa mental do humano que, nesse
momento, passa até mesmo a prescindir do ob-jeto. Esse final nos
coloca novamente no ponto da relação entre o homem e os
artefatos, porém em um outro plano (reiteração recursiva do
argumento), que vai propiciar a passagem ao próximo capítulo.
No Capítulo 4, discutimos a apropriação do artefato
intangível – o software. Avançamos analisando aspectos
conceituais e técnicos sobre os agentes inteligentes, discutindo
ambos os pólos de sua denominação: em que medida são agentes
e em que medida são inteligentes. Essas reflexões levam às
conclusões do capítulo, que sinalizam para um novo estágio de
relação com os agentes inteligentes, com a necessidade de se
repensarem as formas de apropriação, à medida que os mesmos
forem ficando cada vez mais agentes e mais inteligentes.
Essa análise nos deixa no ponto de partida do Capítulo 5,
que é aberto com uma reflexão sobre a possibilidade de uma
Inteligência Artificial como entidade independente e autônoma.
O capítulo trata do campo de pesquisa, levantando diversas
interrogações e especulações a partir dos conceitos científicos.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 19

Seu ponto mais importante é a discussão sobre a possibilidade de


pensarmos em características físicas não-reprodutíveis que
possam servir como uma possível base para se definir a
individualidade maquínica. Se isso for possível, conforme já
exposto, o homem estará diante de uma nova entidade, à qual
precisará entender, categorizar e definir formas de convivência.
Essa convivência, por sua vez, se dará em um espaço situado – e
voltamos ao início do trabalho, abrindo-se para novo percurso, o
qual, contudo, ainda não é possível de ser vislumbrado.
A tese está circunstanciada no campo de estudos da
filosofia da mente. Se, em sua vertente positivista, a relação entre
o mundo-em-si e a filosofia é territorialista, com o primeiro
cedendo espaço diante dos avanços da última, no campo da
filosofia da mente ocorre uma interpenetração fecundante entre
ambos. Cada passo da filosofia da mente explode uma porção do
real, fazendo nascer, em cada fragmento, novos mundos-em-si.
Como reagentes químicos e nucleares dessa explosão interagem
as múltiplas perspectivas científicas que convergem ao diálogo
com a filosofia da mente: as ciências cognitivas, a psicologia, as
neurociências, etc. A filosofia da mente se constitui, atualmente,
um fértil terreno especulativo, que abre novos olhares e
perspectivas para as outras ciências.
Na preparação e elaboração do trabalho foi feita uma
vasta leitura que compôs, valendo-nos de uma metáfora
biológica, um substrato fungiforme com a união de diversos
pontos nodais, de múltiplas origens e fontes. Consideramos a
abordagem proposta – micelial ou rizomática – apropriada para
abarcar a complexidade de um tema fractalizado, disperso em
múltiplas disciplinas e permeado por tensões interpretativas. O
texto que resulta é tão versátil quanto escorregadio, mas
profundamente coeso em sua estrutura, desenvolvendo-se como
teia complexa e multiplicando-se em enésimas direções. Nesse
contexto rizomático, orientado pela complexidade,
constantemente ocorrem acoplamentos e retroalimentações. Os
pontos de inflexão acontecem nos cruzamentos em nódulos
dessa teia que atravessa territórios disciplinares, mas com tessitura
de rede multirreferencial, que se multiplica sem apontar o final,
20 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

mas indicando novos e instigantes desenvolvimentos para a


argumentação.
Diferentemente da filosofia tradicional, na qual se analisa
um texto clássico, ou a obra de um pensador, o presente trabalho
faz um comentário polifônico, buscando dialogar com múltiplas
vozes, de origens filosóficas e não-filosóficas. Sobretudo,
tentamos não esquecer a advertência de Wittgenstein: “o fim da
filosofia é o esclarecimento lógico dos pensamentos. A filosofia
não é uma teoria, mas uma atividade”9.

9 WITTGENSTEIN, 2001, p. 179.


CAPÍTULO 2
O ESPAÇO EXPANDIDO
O espaço sem fronteiras

Espaço é significado. A mente se vale de metáforas


espaciais para visualizar suas estruturas conceituais. Partimos de
uma proposição fundante de Lefebvre:

o organismo vivo não tem sentido nem existência quando


considerado isolado de suas extensões, do espaço que
alcança e produz (ie, seu ‘milieu’ – para usar um termo da
moda que tende a reduzir a atividade ao nível de uma
mera inserção passiva na esfera material do natural). Cada
organismo é refletido e refratado nas mudanças que ele
produz no seu ‘milieu’ ou ambiente – em outras palavras,
no seu espaço1.

A analítica do espaço de Lefebvre se resolve em uma


tríade complexa: o espaço material, percebido e praticado das
coisas, objetos, movimentos e atividades; o espaço abstrato,
conceituado, representado; o espaço vivido, as concepções de
realidade que condicionam as ações. Não se pretende uma
enumeração dos elementos constituintes do espaço, mas uma
estratificação, que resulta em uma descrição fenomenológica do
espaço em ato.
A partir das noções de concebido, percebido e vivido, o
conceito de espaço transcende a dimensão do geométrico (espaço
mental concebido pela matemática e pela filosofia) e a dimensão
do físico (prático-sensível, perceptual). O concreto é o particular,
o abstrato é o geral, campo dos planos e das ordenações.
Lefebvre trabalha com a premissa essencial de que relações
sociais somente se concretizam enquanto relações espaciais, o que
traz, como conseqüência, a noção de espaço como espaço social.
Pode-se afirmar que Lefebvre realiza uma sólida ontologia da

1 LEFEBVRE, 2005, p. 196.


22 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

complexidade do espaço, colocando essa categoria no centro das


construções sociais.
Instaura-se, na contemporaneidade, outra forma de
relação com o mundo, fundamentalmente indefinida e aberta,
processual e, portanto, imprecisa, turbulenta e oscilante,
fundadora de uma organização repleta de complexidades. Diante
desse quadro, Lefebvre postula que a arquitetura deveria
renunciar ao desenho de objetos arquitetônicos e se dedicar à
produção de interfaces. Em lugar de pré-determinar espaços, os
arquitetos deveriam criar instrumentos para que os usuários
possam determiná-los por si mesmos. São as ações e os
pensamentos humanos que dão sentido a uma porção qualquer
do espaço e a territorializam. A expressão humana da
territorialidade, portanto, nasce dos sentimentos de desejo e de
controle, posse e codificação, ou, no fundo, da delimitação do
espaço.
A partir dessas novas premissas, o espaço do modernismo
implodiu. Houve uma mutação no objeto, à qual ainda não se
seguiu uma mutação equivalente no sujeito. Espaço, como
significado, é processo. Processo que inclui os fluxos abstratos e
vai determinar todo um novo modo de pensamento. Os novos
espaços informacionais globais resultam da desterritorialização
mais fundamental, a do próprio território - a abstração da terra:
“como abstrações concretas, contudo, eles alcançam existência
‘real’ por meio de redes e caminhos, feixes ou aglomerados de
relacionamentos”2.
Jameson nos alerta que esse novo espaço, chamado por
ele de hiperespaço pós-moderno, transcende as capacidades do
corpo humano de se localizar, organizando perceptualmente o
seu entorno e mapeando cognitivamente a sua posição em um
mundo exterior mapeável. Segundo Jameson, “a esse novo
espaço total corresponde uma nova prática coletiva, um novo
modo no qual os indivíduos se movem e se reúnem, algo como a
prática de um novo tipo, historicamente original, de hipermassa”3.
Somos refletidos e refratados por esse espaço.
2 LEFEBVRE, 2005, p. 86.
3 JAMESON, 2006, p. 33.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 23

Há uma preocupação com a hipossuficiência do humano


para se realizar plenamente nessas novas condições, em virtude
do fato de que nossos hábitos perceptivos foram formados no
espaço anterior, moderno. A pós-modernidade estaria a reclamar
“o crescimento de novos órgãos, que expandam os nossos
sentidos e os nossos corpos até novas dimensões, ainda
inimagináveis, talvez até, em última instância, impossíveis”4. O
novo sujeito só pode ser representado em movimento5,
transformado em um campo passivo e móvel de informação.
Estamos diante de novas sensibilidades, novos problemas
de representação, novos conceitos estéticos e novas formas de
compreender o mundo. O ambiente está se tornando mais
impalpável, nebuloso, fantasmático, e quem nele quiser se
orientar terá de assumir como ponto de partida esse caráter
espectral. Como afirmou um dos pais da cibernética, Norbert
Wiener, “modificamos tão radicalmente nosso meio ambiente que
devemos agora modificar-nos a nós mesmos para poder viver
nesse novo meio ambiente”6.

Ciber-Lebenswelt: o ecossistema dos seres parabióticos

O mundo em que vivemos apresenta uma grande e


crescente intensificação dos estímulos nervosos, como um
resultado da alteração brusca e ininterrupta entre estímulos
exteriores e interiores. As novas tecnologias de informação e
comunicação têm gerado um padrão agudo de descontinuidade,
contido na necessidade de apreensão com uma única vista de
olhos e no inesperado das impressões súbitas. O ambiente
penetrantemente tecnológico da atualidade contrasta
profundamente com os ambientes anteriores

4 JAMESON, 2006, p. 31.


5 O indivíduo moderno encontra-se diante de um paradoxo. Para dispor plenamente de
si mesmo, não pode se apegar. Para Sennett, “hoje, como o desejo de livre locomoção
triunfou sobre os clamores sensoriais do espaço através do qual o corpo se move, o
indivíduo moderno sofre uma espécie de crise táctil: deslocar-se ajuda a dessensibilizar
o corpo” (SENNETT, 2006, p. 214).
6 WIENER, 2000, p. 46.
24 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

(selvático/agrário/industrial), no que diz respeito aos


fundamentos sensoriais da experiência humana. Esse novo
ambiente extrai do homem uma qualidade de consciência
diferente.
O espaço que vivenciamos é, na verdade, o significado
que atribuímos ao produto de complexos processos mentais, que
dimensionalizam o ambiente do pensamento e da experiência,
como uma estratégica cognitiva. Ordenamos a sensação e o
pensamento em uma matriz, na qual o espaço não é continente,
mas contido: ele próprio um artefato da cognição. Os processos
conscientes do humano precisam estar aptos a lidar com esse
novo ambiente, ao qual chamamos de ecossistema cognitivo, no
qual predomina a percepção da simultaneidade, da fragmentação
e do descontínuo.
Por ecossistema cognitivo entendemos o macroambiente,
com suas formas heterogêneas e caóticas de selecionar e acumular
memes, configurando, situadamente, determinados arranjos
vivenciais (Lebenswelt). As configurações do ecossistema cognitivo,
dadas as suas imbricações sóciotécnicas, restringem e
condicionam as formas coletivas de expressão societal. Porque
essas encontram seu substrato em uma rede “na qual neurônios,
módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas,
sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam,
transformam e traduzem as representações”7. Extrapolando
Wittgenstein, podemos afirmar que não é só a linguagem que
limita nosso mundo – a tecnologia também o faz. No novo
ecossistema cognitivo, há um “coletivo pensante de homens e
coisas, coletivo dinâmico, povoado por singularidades atuantes e
subjetividades mutantes”8, transgredindo as fronteiras tradicionais
entre espécies e reinos (mineral / animal). O ambiente repleto de
alavancas tecnológicas extrai do homem um estado consciente
diferente do que o de um ambiente de escassez dos objetos
técnicos, como o da vida campestre, na qual o ritmo dos
acontecimentos e do conjunto sensorial de imagens flui mais
lentamente.
7 LÉVY, 1993, p. 135.
8 LÉVY, 1993, p. 11.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 25

O paradigma desse novo ecossistema cognitivo é


informacional, em um contexto que a subjetividade depende
muito dos papéis sociais exercidos pelos indivíduos, levando-se a
novas territorializações, a partir da construção de relações sociais
materiais e imateriais. Nesse contexto, tudo o que for capaz de
produzir uma diferença (informação) candidata-se a ser uma
entidade atuante do ecossistema, definida pela própria diferença
que produz9. Sob essa ótica, podemos classificar simetricamente
homens e dispositivos técnicos como entidades do novo
ecossistema cognitivo. Essa perspectiva está em sintonia com o
pensamento de Lévy, o qual afirma que “os dispositivos técnicos
são, portanto, atores por completo em uma coletividade que já
não podemos dizer puramente humana, mas cuja fronteira está
em permanente redefinição”10. Como em uma avalanche,
despenca a antinomia inércia-objetiva versus ação-subjetiva.
É importante ressaltar o caráter de abertura desse novo
ecossistema cognitivo. O número de artefatos que podem ser
incorporados a essa construção de coletivos híbridos é indefinido,
gerando circuitos crescentes de complexidade. Nesse novo
ecossistema cognitivo, agrega-se uma quarta dimensão, noológica,
ao Lebenswelt, alterando-se o enclave tridimensional no qual
estamos perceptualmente situados, criando-se o que propomos
chamar de ciber-Lebenswelt. O ciberespaço, como elemento
complexificador do real, dilata a realidade, dotando-a de uma
camada virtual. O espaço euclidiano é apropriado para o corpo,
com seu apego às superfícies, à solidez, à resistência. O ciber-

9 Em suas origens, a Teoria da Informação surge como uma teoria estatística e


matemática, tendo-se originado nos campos da telegrafia e da telefonia, especialmente
com os trabalhos de Shannon e Weaver para a Bell Telephone Company. Quando, entre
dois eventos, sabemos qual irá se verificar, temos uma informação. A informação não é
tanto o que é dito, mas o que pode ser dito. “A informação representa a liberdade de
escolha que temos ao construir uma mensagem, e portanto deve ser considerada
propriedade estatística da nascente das mensagens. Em outros termos, a informação é
aquele valor de eqüiprobabilidade entre muitos elementos combináveis, valor que é
tanto maior quanto mais numerosas forem as escolhas possíveis” (ECO, 1976, pp. 101-
102). Ou seja, poderíamos considerar, em um sentido lato, a informação como dados
que fazem diferença (a tradução do sentido estrito de ser uma resolução de um
problema com múltiplas e equiprováveis soluções).
10 LÉVY, 1993, p. 12.
26 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

Lebenswelt é apropriado para a mente, com sua tendência para


conectividade, a complexidade, a incerteza e o caos.
O ciber-Lebenswelt abrange todos os fluxos informacionais,
codificados em qualquer tipo de mídia ou sistema semiótico, sem
limites de tamanho, tipologia ou estrutura lógica. É, efetivamente,
noosfera – uma instância que possibilitou, pela primeira vez, a
materialização da noosfera e sua disponibilização em nível
mundial. Desde então, a noosfera, assim ampliada, alterou o meio
no qual vivemos e passou a ser um elemento condicionante de
nossa cultura. Condicionante porque abre algumas possibilidades
de ação que não existiram sem sua presença. Vale a insistência na
função transformadora dos novos dispositivos informacionais e
comunicacionais, com as modificações técnicas inexoravelmente
acarretando modificações na coletividade cognitiva, em um meio
no qual se entrelaçam mentes e redes técnicas de armazenamento,
transformação e transmissão das representações. Lévy qualificou
esse novo ambiente, acrescido de uma camada virtual de
processamento de informações e expansão dos sentidos, como a
dimensão transcendental da informática: “tanto óculos como
espetáculo, a nova pele que rege nossas relações com o ambiente,
a vasta rede de processamento e circulação da informação que
brota e se ramifica a cada dia, esboça pouco a pouco a figura de
um real sem precedentes”11.
Com as novas tecnologias, as concepções ingênuas sobre
espaço foram definitivamente superadas. A dimensão
fundamental dessa mudança não se reduz ao caráter instrumental
das novas tecnologias (perspectiva da tecnologia como prótese)
nem tampouco à sua capacidade de atuar como um fator
condicionador das consciências (perspectiva antropológica).
Antes, tem um valor ontológico próprio, como princípio gerador
de um novo real.
A rapidez e a profundidade com que se instalou o ciber-
Lebenswelt trouxe, contudo, uma sensação de deslocamento e um
ansiamento basilar, tendo em vista que, conforme alerta Pinker,
“nossa mente é adaptada para os pequenos bandos coletores de

11 LÉVY, 1998, p. 16.


ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 27

alimentos nos quais nossa família passou 99% de sua existência, e


não para as desordenadas contingências por nós criadas desde as
revoluções agrícola e industrial”12. É o elemento da
hipossuficiência que se faz presente, pois são multiplicadas as
demandas sem que sejam igualmente ampliadas as capacidades
humanas de registro e reação inteligente a elas. Diante de um
mundo exterior sobrecarregado de demandas, frequentes e
imperativas, o mundo interior perde sua forma e se torna
miserável.

Ciber-Lebenswelt: deslocamento e ansiedade

Cada milha de terreno ganha pelo ciber-Lebenswelt


representa uma milha a mais de deserto no real. Efeitos físicos
(anulação da paisagem, desertificação do território, abolição das
distinções reais) alcançam seu ápice na esfera virtual (abolição das
distâncias mentais, compressão absoluta do tempo) e retroagem
sobre o físico, causando um curto-circuito entre o geográfico e o
noológico13. Cada novo agenciamento entre o orgânico e o
inorgânico complexifica essa cartografia, materializando um
espaço elástico no qual as extensões se recobrem, se deformam e
se conectam.
Sobre esse aspecto, Lévy afirma que

a velocidade (e o virtual é no fundo um modo de


velocidade) não faz com que o espaço desapareça, ela
metamorfoseia o sistema instável e complicado dos
espaços humanos. Cada novo veículo, cada nova
qualidade de aceleração inventam uma topologia e uma
qualidade de espaço que se acrescentam às precedentes,
articulam-se com elas e reorganizam a economia global
dos espaços14.

12 PINKER, 1998, p. 223.


13 Cf. BAUDRILLARD, 2002, p. 18.
14 LÉVY, 1999, p. 216.
28 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

McLuhan (1996) localiza como primeiro grande impacto dessa


natureza o domínio da eletricidade, que liquidou a seqüência e
instaurou a simultaneidade. Com a instantaneidade, as causas dos
fenômenos emergiriam na consciência, o que não acontecia com
as coisas em seqüência e em conseqüente concatenação. Para
McLuhan,

a ‘mensagem’ de qualquer meio ou tecnologia é a mudança


de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia
introduz nas coisas humanas. A estrada de ferro não
introduziu movimento, transporte, roda ou caminhos na
sociedade humana, mas acelerou e ampliou a escala das
funções humanas anteriores, criando tipos de cidades, de
trabalho e de lazer totalmente novos15.

Qualquer nova tecnologia, seja de comunicação ou não, afeta


inevitavelmente o meio ambiente humano e social. No complexo
perceptual do ciber-Lebenswelt, o indivíduo deixado aos seus
próprios meios é incapaz de atribuir significado a um espaço que
se tornou tão carregado de indícios que só a velocidade
instantânea das máquinas é capaz de interpretar. O ciber-
Lebenswelt causou uma erosão do próprio princípio de realidade,
apresentando como real o resultado do cruzamento de
representações e interpretações, em um processo de múltiplas
reconstruções.
Virilio16 se preocupa com as repercussões dessa realidade
acelerada:

cada vez que inauguramos uma aceleração, não apenas


reduzimos a extensão do mundo, mas esterilizamos
também os deslocamentos e a grandeza dos movimentos,
tornando inútil o gesto do corpo locomotor. Da mesma
forma, perdemos o valor mediador da ‘ação’ em proveito
da imediatez da ‘interação’17.

15 McLUHAN, 1996, p. 22.


16Virilio (1999) chega a afirmar que, na sociedade pós-industrial o parâmetro para se
determinar o que é útil e valorizado culturalmente é a dromologia.
17 VIRILIO, 1999, p. 119.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 29

O que provoca a preocupação de Virilio é o desencadeamento de


um processo de privação sensorial, devido à dissipação
tecnológica da nossa capacidade de percepção, causando uma
alienação da capacidade de agir em proveito da de reagir. O ciber-
Lebenswelt é um espaço sem distância, o que implica um eu sem
espaço.Está acontecendo a colisão entre o real (freqüência nula) e
o virtual (altíssima freqüência)18. Para sobreviver ao choque e
superar esse sentimento de deslocamento e ansiedade, o homem
precisa assumir as rédeas de sua evolução, criando formas de
imersão na pluralidade sensorial das urbanidades, da convivência
com multidões, da comunicação instantânea e da telepresença.
Serres argumenta que precisamos passar “de naturados, quero
dizer, mergulhados de modo passivo numa natureza que significa
o conjunto do que nasce ou do que vai nascer sem nós, a
naturantes, arquitetos e construtores ativos dessa natureza”19.
Segundo Serres, o processo de hominização é semelhante
a uma pro-dução – uma auto-construção, na qual as técnicas têm o
papel fundamental de defender nosso corpo, protegendo-o, cada
vez mais poderosamente, da seleção natural, acabando, como
resultante, por dela nos afastar. Conforme Morin, veremos a
possibilidade crescente de “introdução dos atributos do ser vivo
nas máquinas (ou seja, a auto-organização e a autoprodução), de
introdução dos atributos da inteligência humana na inteligência
artificial e dos atributos artificiais no organismo humano
(próteses, órgãos de síntese)”20.
Um processo no qual a técnica, ao invés de se beneficiar
de uma abstração da vida (objetivação), vai procurar cada vez
mais sua integração com ela (subjetivação). Vemos a
transcendência de duas falácias históricas: a de que o mecanismo
não teria nada a aprender com a vida e a de que a vida não teria
nada a aprender com o mecanismo. É o regime da parabiose, no
qual o cérebro vê, sente e responde a estímulos estando

18 Cf. BAUDRILLARD, 2002, p. 17.


19 SERRES, 2003, p. 49.
20 MORIN, 2005.
30 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

conectado a câmeras, instrumentos e aparelhos de controle. Seu


corpo é máquina, seu cérebro, a mente da máquina. A união entre
a mente e a máquina está a criar uma nova forma de existência,
melhor preparada para a vida no futuro do que o projeto original
do homem, esboçado para a vida nas savanas africanas.
O grande desafio para o futuro é integrar os
desenvolvimentos das novas tecnologias de informação e
comunicação ao modo de vida dos usuários e, principalmente,
propiciar uma interação com o agente orgânico. Tato e visão já
não serão suficientes para absorver a quantidade de informações
disponíveis e continuamente geradas, e os computadores pessoais
deverão se tornar cada vez mais ativos na interação com o ser
humano, agindo como uma extensão de suas faculdades naturais.
As tecnologias de informação e comunicação serão próteses
mentais, proporcionando mixagens cognitivas complexas e
cooperativas e imprescindíveis para a realização do cidadão do
futuro. As próteses alteram nossa corporeidade e,
conseqüentemente, nossos processos dialógicos21. As novas
linguagens que estão surgindo nas salas de chat e nas trocas de
SMS são apenas a ponta desse iceberg.

Espaços mentais ampliados: res cogitans in extensa

O pensar não se dá fora do lugar. Se espaço é significado,


pensamos no lugar e pensamos o lugar. O homem sobreviveu
atribuindo significado ao seu espaço e passou a existir (ex-sistere)22

21 Segundo Maturana, uma vez que nossas conversações se dão através de nossas
interações, e nossas interações são realizadas através de nossas corporeidades, então
“qualquer mudança em nossas corporalidades é passível de resultar numa mudança em
nossas conversações” (MATURANA, 1997, p. 306).
22 “A falta de especializações naturais não concede ao homem um ambiente específico,
como é a tendência da evolução natural, a qual adapta a toda especialização orgânica
um ambiente bem determinado. Por essa sua falta, por esse seu estar-fora, por esse seu
ex-sistere de qualquer mundo-ambiente-determinado (Um-welt), o homem está aberto ao
mundo (Welt) como um espaço não orientado, onde não existem sinais, horizontes,
revisões que se ofereçam imediatamente à sua não especializada percepção. Nessa
desarticulação não seria possível a sobrevivência se não interviesse o agir técnico, que,
na ausência de um mundo preordenado, constrói um mundo” (GALIMBERTI, 2006,
p. 83).
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 31

justamente quando se tornou capaz de exercer essa atividade


simbólica. Desprovido de um habitat que lhe seja próprio e, não
se sabe se causa ou conseqüência, privado de especializações
orgânicas que o acoplassem a determinada região, o homem
produz o seu ambiente, em um primeiro momento, para,
posteriormente, ser produzido por esse ambiente.
A rede de significados que atribui e espalha pelo ambiente
protege o homem, cria o seu Lebenswelt. A propósito, Dennett
escreve:

a fonte primária, quero sugerir, é nosso hábito de


descarregar tanto quanto possível de nossas tarefas
cognitivas no ambiente propriamente dito – extrudando
nossas mentes (que é, nossas atividades e projetos
mentais) no mundo circundante, onde uma rede de
dispositivos periféricos que construímos pode armazenar,
processar e representar nossos significados, enfaixando,
fortalecendo e protegendo o processo de transformação
que é nosso pensamento23.

Não faz diferença se os dados estão armazenados no organismo


ou no mundo externo. O que importa é a disponibilidade de
recuperação e uso dos mesmos quando necessários. Não
pensamos as coisas. Pensamos com as coisas. Mais do que nos
instrumentalizar (adjetivo), a técnica altera nossas ontologias
(substantivo). Os objetos técnicos, assim apropriados, são,
conforme a terminologia proposta por Clark24, mindware upgrades,
saltos cognitivos que transformam a efetiva arquitetura da mente
humana. A extensão ambiental de nossa mente enxerta novas
percepções em um construto prévio, o mapa mental de nosso
contexto. Quanto mais se expandem, mais essas extrusões se
mesclam àquilo que se compreende conscienciosamente por
espaço.
Se os seres humanos na atualidade são capazes de
processos cognitivos mais sofisticados do que os dos homens das

23 DENNETT, 1996, p. 134.


24 CLARK, 2003, p. 4.
32 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

cavernas, isso não se dá porque somos mais inteligentes, mas sim


porque construímos ambientes mais inteligentes. O res cogitans está
indissociadamente ligado a uma res extensa: só cogitamos no
extenso. Talvez isso de dê por uma necessidade inexorável e por
um limite orgânico. O ato de construir uma casa, por exemplo,
pode ser entendido como um esforço de redução do custo
cognitivo dos processos atencionais, quando aplicados a todo o
ambiente. O limite orgânico é dado pela estreiteza do consciente25
que determina uma redução de informação, o que se dá mediante
uma reprodução homomorfa de conteúdos (processamento
simbólico) e conduz a uma transposição do ato de pensar para
um operar externo.

Espaços purificados: o virtual

Na Antiguidade, os espaços produzidos pelo homem


(cidades) eram enclaves em um planeta dominado pela natureza.
Na atualidade, áreas naturais ainda virgens são pequenos enclaves
diante dos espaços produzidos pelo homem. O Lebenswelt
aproxima-se da destruição do Umwelt. É de Heisenberg a
afirmação de que “no mundo tecnicamente formalizado, nós nos
deparávamos, de certa forma, sempre conosco mesmos”26. O
homem aproxima-se de vencer a batalha contra a natureza,
apenas para se ver diante de um novo natural, permeado de suas
intervenções técnicas.
Vivemos e pensamos no lugar e para além dele, em um
universo que não tem endereço. A noção de espaço se torna
complexa, a partir do momento em que se abandona a dicotomia
mente-ambiente e se assume que uma infinidade de materiais e
imateriais está presente e constitui nosso cotidiano. A partir desse
ponto de vista, o espaço nunca é dado de antemão, mas
adquirido, produzido pelo desenvolvimento do homem. E, como
tal, está em constante transformação. Os modos de captar o
espaço variam ao ritmo da evolução antropo-tecnológica. Não se
25 Simultaneamente, no consciente de um adulto, só há cerca de 100 a 160 bits de
informação, conforme FRANK, 1970, p. 117.
26 HEISENBERG, 1956, p. 42.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 33

trata de simplesmente negar o conhecimento apriorístico do


espaço, kantista, como estrutura sobre a qual itens ordenados
espaço-temporalmente e interconectados por nexos causais vão
configurar a experiência. Mas sim de afirmar que a participação
ativa do ser humano no mundo (que se torna possível a partir do
quadro colocado por Kant) vai criar novos espaços, alterando
aquela estrutura e retroagindo sobre o ser, ditando como ele
percebe, ordena e unifica a sua experiência. Nos dizeres de
McLuhan, “os ambientes não são envoltórios passivos, mas
professores ativos”27.
Retomando a afirmação de Heisenberg de que no mundo
da técnica nós nos deparamos com nós mesmos, temos um
ambiente de domínio total. Porém, restam ainda algumas
cidadelas do natural, com suas imprevisibilidades desconcertantes,
bem como o regime randômico das intempéries e catástrofes
naturais – o homem ainda não calou a voz dos vulcões. Existe,
entretanto, um novo espaço, purificado desses resquícios
primitivos, totalmente abstrato e qualitativo: o virtual.
As operações algébricas das máquinas informacionais não
apenas abarcam camadas do real que são inacessíveis aos órgãos
sensitivos humanos, mas também criam e efetivam realidades não
experenciáveis – a realidade virtual. Ao passo que o espaço
euclidiano apela primariamente ao corpo físico, o espaço virtual
apela à mente. Os mundos virtuais são envolventes, imersivos,
diferentes da televisão. Entrar na realidade virtual traz a sensação
de uma mudança de dimensão. Mudança que nos muda. Sobre
esse aspecto, Santaella afirma que “a verdadeira natureza da
realidade virtual não está na mera produção de objetos, mas em
estender e expandir sujeitos”28. Temos que aprender a construir
buracos de minhoca29 entre lugares reais e virtuais, lidando com
corpos reais e telepresenças em um mesmo continuum: “nós

27 McLUHAN, 1996, p. 10.


28 SANTAELLA, 2003, p. 306.
29O termo “buracos de minhoca” (worm holes) refere-se a um construto teórico da física
– tubos de espaço-tempo que interligam diferentes regiões do espaço e do tempo. Foi
usado por Ascott (ASCOTT, 1997, p. 343), com sentido metafórico, para se referir a
passagens da realidade para a realidade virtual.
34 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

podemos estar em casa e itinerantes, no chão e deslocados, os


dois ao mesmo tempo”30. A telepresença, a imersão sensorial e a
conectividade imaterial, premissas da realidade virtual, mudam
nossa identidade, nossa conduta e os ambientes que desejamos
habitar. Estamos nos familiarizando com a noção de uma
presença distribuída – o self que existe em muitos mundos e
desempenha muitos papéis simultaneamente.
Alguns filmes atuais, como Beowulf e O Expresso Polar,
usam uma técnica em que as imagens capturadas dos atores, reais,
são submetidas a um tratamento que as distancia da impressão de
realidade, em um procedimento chamado tecnicamente de
performance capture, no qual os atores vestem uma malha que
permite capturar os movimentos de seus corpos. Reduzidos a
informação e transferidos para um computador, os movimentos
são reconstruídos por meio de computação gráfica. Acontece,
portanto, um processo de desrealização, ou uma virtualização da
figura original dos atores.
Os mundos virtuais instauram uma nova ordem
perceptiva e vivencial, criando paisagens artificiais e ambientes
imaginativos diferenciados, com efeitos subversivos, pois
confundem os limites que impomos sobre o mundo para
podermos tirar sentido dele. No virtual, acham-se ausentes a
fragilidade e a vulnerabilidade das identidades primárias31 e há
uma sensação de onipotência. Essa sensação, todavia, nasce de
um simulacro. Os ambientes virtuais apenas simulam um espaço
de liberdade, não oferecendo, de fato, mais do que um espaço
fragmentado, no qual o homem interage com códigos
instituídos32.
A realidade virtual apresenta-se como a própria idéia de
uma transformação infinita e da ubiqüidade tornada visível. É
30 ASCOTT, 1997, p. 343.
31 Cf. SANTAELLA, 2003, p. 306.
32 Há que se ressaltar que essa possibilidade se aplica à internet tradicional, na qual
todas as possibilidades estavam demarcadas pelo programador que escreveu o HTML e
por todo o código existente, que não é infinito, embora demasiadamente grande. Na
chamada Web 2.0, com seus mundos tridimensionais nos quais avatares se encontram,
os percursos podem voltar a se tornar infinitos, porém de uma forma apenas derivada,
posto que amparados nas ações de seus alter egos humanos.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 35

menos realidade e mais vestígio de realidade, onde os


movimentos geram o próprio espetáculo de seus resultados.
Imerso nesse ambiente de resultados fiéis, mas cuja operação lhe
é oculta, o indivíduo fica incapacitado de assumir o papel de
criador – ele não inventa esse mundo, é seu usuário. Baudrillard,
acerca dessa possibilidade, registra:

toda pergunta encontra-se atrelada a uma resposta


preestabelecida. Encarnamos, ao mesmo tempo, a
interrogação automática e a resposta automática da
máquina. Codificadores e decodificadores – nosso próprio
terminal, nosso próprio correspondente. Eis o êxtase da
comunicação. Não mais outro em face, e nada mais de
destino final. O sistema gira, desse modo, sem fim e sem
finalidade. Resta-lhe a reprodução e a involução ao
infinito. Daí a confortável vertigem dessa interação
eletrônica e informática como uma droga. Podemos passar
aí uma vida inteira, sem interrupção. A droga mesma
nunca é mais do que o exemplo perfeito da louca
interatividade em circuito fechado33.

Minha decisão não é tão livre se eu decidi nos limites do


programa. Parafraseando Adorno, a sensação de máxima
liberdade, propiciada pela vasta quantidade de escolhas
disponíveis, mascara a realidade de servidão. Preocupado com
essa perspectiva, Flusser afirmou que “é como se a sociedade do
futuro, imaterial, se dividisse em duas classes: a dos
programadores e a dos programados. A primeira seria daqueles
que produzem programas, e a segunda, daqueles que se
comportam conforme o programa”34. Essas abordagens
identificam um caráter pavloviano de condicionamento reacional
na realidade virtual. Com todas as reações já pré-programadas, o
mapa cobre todo o território.
A realidade virtual não tolera opacidade ou mistério. Não
há espaço para o transcendente. No momento em que se expande

33 BAUDRILLARD, 2002, p. 132.


34 FLUSSER, 2007, p. 64.
36 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

ao infinito (a expansão máxima do virtual), o espaço implode,


colapsando-se sobre si mesmo e dando origem a um novo
universo. O homem sofre, então, uma anestesia, causada pela
hiperparalaxe do movimento – tempo e espaço se anulam.
CAPÍTULO 3
O CORPO EXPANDIDO
O corpo sem fronteiras

O corpo morreu. O corpo vive. Viva o corpo!


Morreu o corpo cartesiano, definido por Descartes como
algo que está circunscrito em algum lugar e preenche um espaço do qual exclui
todo outro corpo1.
Vive um corpo que é um amálgama de componentes
heterogêneos, uma entidade material-informacional cujas
fronteiras são indefinidas, translúcidas e estão em permanente
redefinição. A inexistência de fronteiras é literal. O conteúdo
físico do que somos feitos muda completamente a cada sete
anos2. No nível atômico, mantemos um constante e dinâmico
diálogo com os outros corpos e com o mundo inanimado à nossa
volta: somos permeáveis. Essa permeabilidade – física – nos
torna seres oscilantes e algo enevoados, cujas fronteiras estão
sempre em movimento. Chomsky alertou para a impossibilidade
da resolução do problema da relação mente-corpo, seja por
termos uma compreensão muito limitada do que é a mente, seja
por não termos critérios adequados para definir o que se constitui
um corpo3.
Em um simples videogame doméstico, há um capacete
que lê os estados mentais e reconhece expressões, permitindo que
o jogador interaja com a máquina com a força de seus
pensamentos4. Em um experimento internacional, conduzido por

1 DESCARTES, 1642/2004, p. 47.


2 Estudos realizados por físicos comprovaram que em um intervalo de sete anos, um
ser humano normal tem todos os átomos que compõem seu corpo trocados, conforme
ZOHAR, 2005, p. 64.
3 Chomsky pretendeu mudar um pouco o foco das discussões tradicionais sobre o
problema mente-corpo, normalmente centradas nas imprecisões teóricas referentes à
mente, afirmando que nem mesmo o pólo “corpo” do problema estaria bem resolvido.
4 Informação sobre esse equipamento extraída de CORPO..., 2008, f4). O custo do
capacete é de apenas US$ 299, o que demonstra sua viabilidade de penetração junto ao
grande público consumidor.
38 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

um brasileiro, uma macaca nos Estados Unidos movimenta um


robô no Japão usando somente a força de seus pensamentos5.
Um jovem paraplégico com eletrodos implantados no cérebro
conseguiu movimentar uma seta na tela de um computador e
abrir e fechar uma mão mecânica6. A norte-americana Claudia
Mitchell foi a primeira humana a receber um braço biônico,
controlado pela sua mente. Os nervos que controlavam seu braço
amputado foram retirados do ombro e conectados a nervos na
musculatura peitoral. Após alguns meses, eles cresceram no
tecido muscular. Posteriormente, eletrodos conectados a uma
placa no ombro foram usados para detectar impulsos emitidos
dos nervos para o músculo e daí para o braço7. Segundo
Beiguelman, “impõe pensar em um dos mais desconcertantes
temas da contemporaneidade: os tênues limites que hoje se
colocam entre homens, objetos que incorporam qualidades e
seres vivos codificados por informações digitais”8.
Lidar com esse corpo como conjunto de bits –
escaneáveis e intercambiáveis – em detrimento do corpo
bioquímico, orgânico, mais afeito às tradições, é um novo desafio.
Bergson destacava que

a separação entre a coisa e seu ambiente não pode ser


absolutamente definida: passa-se, por gradações
insensíveis, de uma ao outro: à estrita solidariedade que
liga todos os objetos do universo material, a perpetuidade
de suas ações e reações recíprocas, demonstra
suficientemente que eles não têm os limites precisos que
lhes atribuímos9.

5 Informação sobre esse experimento extraída de MACACA..., 2008, a16). Interessante


como essa experiência demonstra a viabilidade, para breve, da realização de um dos
mais ousados experimentos mentais de Dennett – Quem sou eu?, descrito em seu livro
Brainstorms (1991), no qual seu cérebro é colocado em uma proveta de laboratório,
porém se mantém no controle de um outro corpo, por meio de um canal de rádio-
transmissão.
6 Informação sobre esse caso extraída de HOCHBERG et al., 2006, p. 164.
7 Informação sobre o caso extraída de AMERICANA..., 2006, a17.
8 BEIGUELMAN, 2005, p. 14.
9 BERGSON, 1999, p. 246.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 39

O corpo precisa ser repensado, a partir de sua localização em um


espaço semântico de interface e extensão, transcendendo os
limites do psíquico e do biológico, em um movimento que vai dos
limites genéticos para a extrusão eletrônica10. O ser humano é uma
produção, que se dá na intersecção de processos múltiplos,
heterogêneos e não necessariamente biológicos. A incompreensão
desses processos e sua lógica pode levar a uma disjunção
paralisante.
Como um ser orgânico deficitário, o corpo precisou se
libertar de suas condições iniciais, passando a se caracterizar por
uma “abertura para o mundo” (Weltoffenheit11). Ao passar por
mudanças em sua corporeidade, o ser humano é afetado em seu
modo de experenciar as dimensões do tempo e do espaço, bem
como nas formas em que utiliza o seu corpo. Esse nosso corpo é,
ao mesmo tempo, formado pela tecnologia e criador de
tecnologia, mediando entre a tecnologia e o discurso, por meio da
criação de novos referenciais de absorção da experiência imediata,
que, por sua vez, propiciam as marcas sígnicas para a criação de
sistemas discursivos correspondentes. Esse é um dos sentidos
quando afirmamos que a tecnologia é constitutiva do homem.
Sobre esse assunto, Lecourt afirma: “não, a técnica não é
exterior à vida humana. Saída da vida, ela encontra na vida o seu
lugar e aí se insere e compõe suas normas. E esse lugar é o do
indutor de individuação que correlativamente toca objetos e
sujeitos”12. A subjetividade é produção, cuja cartografia ultrapassa
os limites do corpo13. O corpo é fundo14 e, como tal, um dos
territórios sob o domínio da técnica moderna. Quanto a esse
aspecto, Da Costa afirma que:

10STERLAC, 1997, p. 52.


11 Cf. HABERMAS, 2003, p. 85.
12 LECOURT, 2005, p. 76.
13 Cf. DA COSTA, 1997, p. 64.
14 No pensamento de Heidegger, o fundamento da técnica moderna está na utilização
do real como fundo, ou seja, a transformação do simples objeto em um objeto para pro-
vocar com o fim de uso.
40 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

ele [o corpo] deve ser forçado segundo o uso ao qual o


destinamos: a engenharia genética tem ‘cuidado’ dele antes
mesmo que ele exista, e decide como ele deverá ser, a
inseminação e a gestação artificiais fazem-no existir lá
onde não poderia, as próteses tecnológicas e os
transplantes de órgãos fazem-no viver mesmo quando
gostaria de morrer, a cirurgia estética repara as suas falhas
e configura-o como o queremos: o corpo não é mais um
‘já-dado’, ou antes, o horizonte mesmo do ‘já-dado’
caminha para desaparecer15.

Desde o início, o processo evolutivo da humanidade esteve


marcado por um crescente poder de disposição técnica sobre as
condições ambientais. O homem supera as inadequações e
insuficiências de sua morfologia ao converter as contingências
perigosas da natureza em desafios para um agir contingente, o
que consegue “construindo um mundo objetivo de coisas e
acontecimentos perceptíveis e manipuláveis, que permita resolver
tais problemas de ação”16.
Nesses primórdios, estava presente a noção da técnica17,
concebida à maneira de uma utensilidade, um elemento exterior
que é então apropriado e assume papel decisivo nos êxitos do
homem no processo de integração dos diferentes meios de suas
atividades em um ambiente global que transcende a todos. Esse é
um dos fatores pelos quais se afirma a tecnologia como elemento
constitutivo do homem e condicionante da vida em sociedade,
presente em todas as fases do desenvolvimento civilizatório.
Flusser afirmou que

fabricar significa apoderar-se (entwqenden) de algo dado na


natureza, convertê-lo (umwenden) em algo manufaturado,
dar-lhe uma aplicabilidade (anwenden) e utilizá-lo
(verwenden). Esses quatro movimentos de transformação
(Wenden) – apropriação, conversão, aplicação e utilização –

15 DA COSTA, 1997, p. 309.


16 HABERMAS, 2003, p. 93.
17 Técnica na acepção do vocábulo grego tékhnè – arte, ou seja, aquilo que diferencia o
fazer humano do fazer da natureza – autopoiético.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 41

são realizados primeiro pelas mãos, depois por


ferramentas, em seguida pelas máquinas e, por fim, pelos
aparatos eletrônicos18.

Os aparatos eletrônicos, quando assumem essa função de


transformação, constroem versões alternativas da realidade,
múltiplas formas de experimentar o aqui e o agora, as quais
convencem, comovem e se tornam reais.
Prometeu, que capturou o fogo, tornou-se o mito
fundante da tecnologia e localiza-se no início da trajetória de
conquista da humanidade. O fogo exteriorizou, pela primeira vez,
uma função eminentemente orgânica (digestão), serviu para
afastar predadores e contribuiu para tornar possível a vida em
sociedade, mesmo diante dos rigores do inverno. Elemento
natural e externo, o fogo foi apropriado, passando a ser um fazer
humano, lançando uma cortina de névoa que confunde, ao olhar, a
distinção entre o que é natural e o que é artificial.
Ao olhar para o fogo, o homem recolhe informações
sobre o estado da realidade e sobre as propriedades dos corpos e
dos fenômenos, armazenando-as em seu centro intelectual
perceptivo. Aí já residia a semente de uma correlação que viria a
ser determinante da humanidade: o homem produz o fogo que,
por sua vez, passa a produzir o homem, ao lhe dar condições
mais convenientes de existência. Nesse momento, há uma
manifestação do processo evolutivo da espécie humana, pois o
homem, antes obrigado, como os demais animais, a realizar os
atos necessários à sua sobrevivência dispondo apenas do
emprego de seus membros e músculos, passa a discernir a
possibilidade de combinar elementos do mundo físico para a
produção de efeitos úteis. Com isso, perde sentido a dicotomia
natural/artificial, passando esses pólos de uma relação antagônica
à uma de correspondência e complementaridade. As mudanças
tecnológicas representam uma continuidade amplificada dessa
relação.
As novas tecnologias de informação e comunicação
reorganizam as camadas de sensibilidade do ser humano, ao

18 FLUSSER, 2007, p. 36.


42 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

ampliarem o seu campo perceptual. Os espaços do digital e do


eletrônico reestruturam a própria arquitetura do corpo e
multiplicam suas possibilidades operacionais. O sentido de ser
humano deixa de ser restrito à prisão de um corpo para se abrir
para um além da pele, extrusivo, reconfigurado no campo de um
“mundo cíbrido, pautado pela interconexão de redes e sistemas on
e off line”19.
É o corpo que acessa a internet, se pluga em dispositivos
portáteis de comunicação wireless, assumindo o nomadismo como
princípio. Dispositivos virtuais aceitam, transformam e
respondem às ações do corpo biológico, como corpos sintéticos,
capazes de manipular dados biológicos como calor, movimento,
sopro, sons. A pele já não funciona mais como fronteira para o
eu, nem como lócus do colapso do pessoal e do político. Sterlac,
ciberartista engajado, afirma que

esticada e penetrada por máquinas, a PELE NÃO É


MAIS A SUPERFÍCIE SUAVE E SENSUAL DE UM
LOCAL OU UMA TELA. A pele não significa mais
clausura.A ruptura da superfície e da pele significa o
apagamento do interno e do externo. Como interface, a
pele é inadequada [maiúsculas do autor]20.

Vivemos uma realidade cibernética, na qual nossos corpos e suas


superfícies são membranas pelas quais a informação flui. As redes
teleinformáticas e os dispositivos neotecnológicos estão
provocando uma alteração brusca na forma de vivência das
interioridades subjetivas, forçadas cada vez mais para fora do
claustro. O corpo permeável se dissolve e o senso de
individualidade física e mental declina. Chegamos a uma situação
em que, no pensamento de Domingues,

corpo e sistema entram em cópulas estruturais, onde as


respostas do sistema são incorporadas pelo corpo, numa
experiência encarnada dos tecnodados, enquanto os

19 BEIGUELMAN, 2005, p. 160.


20 STERLAC, 1997, p. 55.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 43

biodados, como informações do corpo, são processados e


transformados em paradigmas computacionais pelas
tecnologias que evoluem em suas respostas21.

As fronteiras do corpo passam a ser definidas mais pelos fluxos


informacionais e seus ciclos de feedback do que pela superfície
epidérmica: o corpo morreu. Morreu como representação –
objeto entre os objetos. Tornou-se um sistema, cujas partes
podem ser montadas e desmontadas, deixando de ser uma
entidade cuja completude orgânica possa ser assumida.
O corpo vive: vive como emergência de um novo tipo de
subjetividade, constituída no entrecruzamento do orgânico com a
materialidade da informática e a imaterialidade da informação.
Essa reconfiguração do corpo e seus limites instaura uma nova
forma de continuidade entre o ser pensante, entendido como o
conjunto de tecidos orgânicos nos quais o pensamento se
manifesta, e o mundo, no qual tanto os pensamentos quanto seu
substrato tecidural existem. A essa nova entidade, Santaella chama
de corpo biocibernético, o fruto da crescente ramificação do
corpo em múltiplos sistemas de extensões tecnológicas,
culminando em “perturbadoras previsões de sua simulação na
vida artificial”22 e de sua replicação, resultante da decifração do
genoma. É por essa razão que o corpo humano se tornou
problemático e o debate sobre o novo estatuto do corpo e uma
correspondente nova antropomorfia tem estado no âmago dos
questionamentos sobre o que é ser humano no séc. XXI.
Abandonar definitivamente o conceito cartesiano de
identidade-corporal, segundo o qual uma pessoa é definida pela
substância de seu corpo deixa, como possibilidade, a migração
para o conceito de identidade-padrão, no qual a essência de uma
pessoa é definida pelo padrão de processamento informacional
que acontece em seu complexo corpo-cérebro. O conceito de
identidade-padrão bebe diretamente da fonte do pensamento
cibernético, o qual já sinalizada para um corpo sem fronteiras,
poroso e permeável:
21 DOMINGUES, 2003, p. 96.
22 SANTAELLA, 2004, p. 98.
44 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

o padrão mantido por essa homeostase é que é a pedra de


toque de nossa identidade pessoal. Nossos tecidos se
alteram à medida que vivemos: o alimento que ingerimos e
o ar que respiramos tornam-se carne de nossa carne, osso
de nossos ossos, e os elementos momentâneos de nossa
carne e de nossos ossos são-nos eliminados diariamente
do corpo por meio dos excretos. Não passamos de
redemoinhos num rio de água sempre a correr. Não
somos material que subsista, mas padrões que se
perpetuam a si próprios23.

Assumir o conceito de identidade-padrão significa deixar em


aberto a possibilidade de preservação de um indivíduo via
preservação de seu padrão informacional correspondente, o que
leva alguns tecnoentusiastas24 a falarem em downloads completos
de mentes em substratos artificiais. Até mesmo pensadores mais
tradicionais, como Edgar Morin, falam em demortalidade.
Um corpo sem fronteiras pode vir a ser um corpo livre
das fragilidades (e concupiscências?) da carne. Para encerrar esse
tópico, escolhemos uma citação do historiador de tecnologia,
Mazlish, que sinaliza para as novas formas de relação entre
mentes, corpos e máquinas:

conectado a câmeras, instrumentos e máquinas de


controle, o cérebro vê, sente e responde aos estímulos.
Ele está no controle de seu próprio destino. A máquina é
o seu corpo; ele é a mente da máquina. A união de mentes
e máquinas tem criado uma nova forma de existência, tão
bem apropriada para a vida no futuro como o homem foi
concebido para a vida na savana africana25.

23 WIENER, 2000, p. 95.


24 Por exemplo Moravec, Kurzweil, Clark, Minsky.
25 MAZLISH, 1993, p. 220.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 45

Artefatos e construção da corporeidade humana

Tateando, o ser descobre o mundo. Em uma era da


primazia da visão, muitas vezes se esquece que a atividade
sensorial primitiva de todos os animais, e a mais necessária, é o
tato, conforme já ensinava Aristóteles26. É na sensação háptica
que se encontra o fundamento da catexia, o investimento de
libido em algum objeto externo. O tato é a gênese do desejo:
“basta por agora dizer que aqueles viventes que possuem tato
possuem também desejo”27. Ter desejo é ter um sentido de
propósito – e então estamos no início da vida: processos auto-
organizativos imbuídos do desejo de se perpetuarem.
Muitos optam por situar a gênese do humano no primeiro
uso de um artefato. A relação de apropriação do ambiente como
ajuda para a realização de alguma finalidade, porém, é mais antiga
e se mistura com a própria origem da vida – controlar o ambiente
é controlar a si mesmo. Um processo contínuo de aprendizado:
“se a vida é um processo de conhecimento, os seres vivos
constroem esse conhecimento não a partir de uma atitude passiva
e sim pela interação. Aprendem vivendo e vivem aprendendo”28.
Maturana e Varela afirmam, ainda, a indissociabilidade do ser e
do fazer, em unidades autopoiéticas. O que vai constituir o modo
específico de organização do vivo é o seu fazer.
A catexia primordial é vista, em termos freudianos, como
instinto sexual e instinto do ego, tensões entre o eu e o não eu, em
uma constante batalha entre o impulso de fundir-se e o impulso
igualmente forte de ficar separado. Ao longo desses jogos com o
ambiente, nasce a produção e o uso de artefatos, como um
resultado da aplicação de conhecimentos sobre causas e efeitos
entre objetos, buscando alcançar objetivos. De uma postura
estritamente física, adotada diante de objetos como pedras,
passou-se a uma postura de design, conforme postulado por

26 ARISTÓTELES, 1978, p. 174.


27 ARISTÓTELES, 1978, p. 176.
28 MATURANA & VARELA, 2001, p. 12.
46 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

Daniel Dennett, na qual se imputa uma intenção a um designer –


hipotético ou real29.
O artefato, concebido por um designer, tem que ser, por
definição, mais eficiente do que o homem na realização de uma
determinada tarefa. Do contrário, não valeria a pena sua
invenção, planejamento e construção. Para se útil – utensílio –
precisa funcionar como mediação transformadora da realidade,
concebida pela consciência e voluntariamente criada pelos
agentes que dele podem dispor. Essa capacidade de ter uma
postura de design – obedecer às qualidades das coisas e agir de
acordo com as leis dos fenômenos objetivos, de forma hábil – é
precisamente a essência da técnica. A técnica (tékhné) substituiu a
magia como uma imunização contra a sorte (tuché).
O artefato ampliou a rede de ligações do homem com a
natureza, modificando o seu sistema de relações produtivas, ao
propiciar-lhe condições de aumentar seu domínio sobre o meio
circunstante. Em decorrência, houve uma transferência de
propriedades inerentes ao orgânico, para os artefatos que o
homem começava a planejar, fabricar e utilizar, particularmente a
capacidade de transformar as condições da realidade de acordo
com finalidades concebidas. Há nisso uma dimensão sacrificial,
conforme colocado por Habermas:

a força do sacrifício consiste em intuir e objetivar o


entrelaçamento com o inorgânico – mediante tal intuição,
este entrelaçamento fica roto, o inorgânico fica separado
e, reconhecido como tal, é assim assumido na indiferença,
mas o vivente, ao entregar-lhe o que sabe que é uma parte
de si e ao sacrificá-la à morte, reconhece o seu direito ao
mesmo tempo que dele se purifica30.

Toda produção de artefatos contém a transferência da idéia de


uma ação para um dispositivo material interior que vai imitar ou
superar alguma das funções humanas. É a “continuação do

29A próxima etapa, no pensamento dennettiano, seria a postura intencional, adotada


em relação a mentes.
30 HABERMAS, 1968, p. 38.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 47

mesmo processo dialético iniciado quando os primeiros


neandertalenses perfuraram um sílex para raspar melhor as peles
dos animais abatidos, poupando-se assim da sensação
desagradável de fazê-lo com as unhas”31.
À sua maneira, o artefato estabelece uma mediação entre
o sujeito e o objeto que é o modelo básico da relação dialética do
processo de trabalho. Essa relação dialética de trabalho é uma das
categorias determinantes do espírito humano32. Por meio dos
artefatos que criamos, injetamos um significado humano no
material, o trazendo para um espaço teleológico e, assim, o
transformando. Mas, ao fazer isso, também nos transformamos.
Searle afirma que a pressuposição de funções ao artefato requer a
noção de propósito e, com isso, a atribuição origina mais do que
relações meramente causais:

a capacidade que têm os seres humanos e alguns animais


superiores de usar determinados objetos como
ferramentas é um fato extraordinário a seu respeito. Trata-
se de um aspecto da capacidade mais genérica de atribuir
funções a objetos, nos casos em que a função não é
intrínseca ao objeto, mas deve ser atribuída por algum
agente ou agentes externos33.

Os artefatos acompanham a condição humana. Eles colocam o


ser humano em uma situação de mais ajustamento ao ambiente,
não só porque propiciam que o homem o remodele, mas também
porque fazem o homem mais consciente dos limites de suas
capacidades. Todo artificial, portanto, prolonga, em certo sentido,
a natureza e, em outro sentido, opõe-se a ela.
Ao contribuírem para o processo de hominização, os
artefatos modificaram o homem. A capacidade de prolongar, em
formas inéditas, o movimento evolutivo da matéria, criando
modos diferenciados de produção para satisfação das suas

31 PINTO, 2005, p. 104.


32 Conforme HABERMAS, 1968, p. 12. As outras duas categorias seriam a
simbolização lingüística e a interação.
33 SEARLE, 2000, p. 114.
48 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

necessidades existenciais e seus desejos, é singular ao Homo


sapiens. Quando cria um artefato, o homem o insere em seu
próprio pensamento. Como objeto – exterior – o artefato elabora
tecnicamente a tarefa que o pensamento não mais necessita fazer,
pois descobriu a forma de delegá-la. Nessa linha de
argumentação, conflui o pensamento de Lemos: “a corticalização
que define o Homo sapiens se introduz nas primeiras armas e
ferramentas construídas a base de sílex talhado (...) Até a fase de
formação do córtex, nós podemos dizer que a evolução da
técnica é de cunho zoológico”34. O que Lemos buscou enfatizar
foi o modo como a técnica surge como um dos elementos
fundamentais no processo de constituição da espécie humana.
O artefato encontra seu valor maior justamente como
elemento constituinte da subjetividade, pois, quem o utiliza, o
incorpora ao seu ser e, doravante, conta com ele como uma parte
de seu organismo. É como se o ser humano instalasse parte de
seu cérebro fora de si e fizesse dessa emanação um objeto de
observação e de ensaio, interpretado pelo tecido cerebral ainda
dentro do corpo, do qual a parte exteriorizada nunca se
desprendeu. Foi uma solução altamente eficiente na trajetória da
espécie, como meio de melhorar suas possibilidades de
sobrevivência: o desenvolvimento da habilidade de representação
do mundo exterior em termos das modificações que produz no
corpo propriamente dito. A percepção do mundo é interiorizada
por via de uma modificação no espaço neural referente às
interações entre corpo e ambiente.
Há um intercâmbio de informações entre os artefatos e os
seus produtores, na forma dos resultados alcançados com a
utilização dos mesmos (feedback). Não fosse assim, o homem
restaria impossibilitado de criar instrumentos com os quais
pudesse trabalhar, pois não seria capaz de estabelecer uma relação
interpretativa que atribuísse significado aos efeitos produzidos
pelos artefatos. Dennett afirma o uso de artefatos como um sinal
de inteligência de mão dupla: “não apenas é preciso inteligência
para reconhecer e manter uma ferramenta (deixando de lado a

34 LEMOS, 2002, p. 31.


ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 49

fabricação), mas uma ferramenta confere inteligência àqueles com


sorte suficiente para receberem uma”35.
Tratando do tema, Habermas avaliou que “os
instrumentos fixam as regras segundo as quais se pode repetir,
sempre que se quiser, a sujeição dos processos naturais”36. Os
artefatos sedimentam as experiências generalizadas dos que os
conceberam e utilizaram anteriormente, permanecendo universais
frente aos momentos evanescentes dos desejos e do gozo37.
A mediação que ocorre por meio do emprego dos
artefatos é um processo contínuo de exteriorização do sujeito
(objetivação) e apropriação. Uma tesoura38, como um artefato
bem concebido, não é apenas um resultado de ação inteligente,
mas um portador/incorporador de inteligência – inteligência
externa potencial. Alguém diante de uma tesoura tem grande
probabilidade de adivinhar sua finalidade. Em certo sentido, o
artefato reduz o custo cognitivo de processamento de informação
ao se lidar com uma tarefa e representa o dispositivo que teria de
ser empregado para se alcançar um resultado idêntico, caso não
tivesse sido inventado. Quando o humano olha para um galho e o
imagina como um bastão, o galho passa a significar o bastão. Essa
virtualização do objeto e sua apreensão como um artefato é um
dos fundamentos da técnica: “toda técnica está fundada nessa
capacidade de torção, de desdobramento ou de heterogênese do
real”39. A função do objeto se torna sua dimensão semântica. Sua
resposta às necessidades do organismo o retira do estatuto
indiferente de coisa e o inscreve no horizonte do significado.
Os artefatos se tornam repositórios de conhecimento e,
quando feitos com materiais duráveis, seu conjunto acaba por vir
a representar mais do que um indivíduo pode saber. Por essa
razão, Lévy afirma que “mais que uma extensão do corpo, uma
ferramenta é uma virtualização da ação. O martelo pode dar a

35 DENNETT, 1996, p. 100.


36 HABERMAS, 1968, p. 25.
37 HABERMAS, 1968, p. 25.
38 Exemplo da tesoura extraído, com nossas palavras, de DENNETT, 1996, p. 99.
39 LÉVY, 1996, p. 92.
50 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

ilusão de um prolongamento do braço; a roda, em troca,


evidentemente não é um prolongamento da perna, mas sim a
virtualização do andar”40. Esse processo de virtualização alcança
as coisas, pois “antes que os seres humanos houvessem
aprendido a entrechocar pedras de sílex acima de uma pequena
acendalha, eles só conheciam o fogo ausente ou presente”41.
Bergson também chamou a atenção para o fato de que
saber servir-se de um artefato “é já esboçar os movimentos que
se adaptam a ele, é tomar certa atitude ou pelo menos tender a
isso em função daquilo que os alemães chamaram ‘impulsos
motores’ (Bewegungsantriebe)”42. O uso contínuo de um objeto, com
uma determinada finalidade, termina por organizar movimentos e
percepções. O que estava restrito à imediatidade subjetiva da
interioridade orgânica, passa, por inteiro ou em parte, ao exterior
– um objeto. Dialeticamente, contudo, a exterioridade técnica só
se torna eficaz quando novamente interiorizada. O uso de
artefatos requer o aprendizado de gestos, a aquisição de reflexos,
em certa recomposição da identidade física e mental. É um
movimento de expropriação/reapropriação. Quem utiliza um
artefato modifica seus músculos e seu sistema nervoso, de modo
a integrar o instrumento em uma espécie de corpo ampliado,
modificado, virtualizado43.
A percepção do mundo é interiorizada por via de uma
modificação no espaço neural referente às interações entre corpo
e ambiente. Portanto, o antagonismo cartesiano entre o corpo e o
ambiente não se verifica nem mesmo nos primórdios da espécie,
quando um reles pedaço de sílex talhado já representava uma
exteriorização-interiorizada da mente, constituindo-se como um
elemento ontologicamente associado à espécie humana. As
técnicas são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas durante seu

40 LÉVY, 1996, p. 75.


41 LÉVY, 1996, p. 75.
42 BERGSON, 1999, p. 106.
43 LÉVY, 1996, p. 74.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 51

uso, mas, de igual modo, o uso intensivo das técnicas modifica o


homem, passando a constituí-lo como tal44.
Assim, a técnica está imbricada na co-evolução zoológica
do Homo sapiens, uma vez que age como fator potencializador das
aptidões e do fazer humano. Santaella corrobora essa visão ao
afirmar que “a técnica é um caso específico da zoologia, na
medida em que o fenômeno técnico aparece como uma relação
artificializada, mediada por artefatos, entre a matéria orgânica viva
e a matéria inerte, deixada ao acaso na natureza”45. O ser humano
não é o único a utilizar instrumentos. Porém, é o único que aplica
conhecimentos acumulados à fabricação de instrumentos. No
neolítico, ocorreu um surto de desenvolvimento do cérebro,
comumente associado, pelos antropologistas, ao desenvolvimento
da manufatura de utensílios (surgimento do Homo habilis). Foram
necessários mais de dois milhões de anos para que os primeiros
utensílios de osso se transformassem em peças esculpidas46.
Antes, o homem teve que desenvolver a capacidade de guardar na
mente as qualidades de dois tipos contrastantes de matéria-prima,
como a pedra e a madeira, bem como compreender quais eram os
possíveis efeitos de uma sobre a outra. O ser humano é o único
que consegue se apoderar das conexões lógicas existentes entre os
objetos e os fatos da realidade e as transferir, por invenção e
construção, para outros objetos.
É o homem que inventa a técnica, fazendo com que essa
ingresse como fator na constituição de sua essência. Incorporada
à cultura existente em um determinado momento, ela vai se
tornar um legado para as outras gerações, contribuindo para
possibilitar diferentes relações de trabalho entre os homens. A
técnica é um modo de ser, está identificada com o movimento
pelo qual o homem realiza sua posição no mundo, transformando
este de acordo com o projeto que dele faz. A atividade
instrumental é voltada para a superação de desvantagens
morfológicas do humano, ao buscar converter as contingências
44 A técnica, como uma das categorias de que fala Habermas, juntamente com a
linguagem e os espaços de interação – instituições sociais complexas.
45 SANTAELLA, 2003, p. 217.
46 Cf. MITHEM, 2002, p. 43.
52 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

randômicas e potencialmente perigosas do ambiente em um


mundo objetivo de coisas e acontecimentos previsíveis e
controláveis. Para Morin,

desde as suas origens, a técnica procurou remediar as


carências humanas. O ser humano dispõe de mãos hábeis,
mas fracas em pressão e batida. Corre, mas a baixa
velocidade. Não sabe voar. Não dispõe da capacidade dos
pássaros para captar informações magnéticas e visuais
para os seus deslocamentos. É também a técnica que
realizará artificialmente as ambições e sonhos dele47.

Ao fazê-lo, a mudança técnica não altera apenas os


hábitos da vida, mas também as estruturas do pensamento e dos
valores humanos. O teólogo Hugo de Sant-Victor (séc. XII), em
sua obra Didascalion, colocou essa questão na dimensão de um
projeto de restituição do homem à sua semelhança original com
Deus:

perdida essa semelhança, arruinada pelo pecado original, o


homem pode, pelas artes mecânicas, recuperá-la,
restaurando suas forças físicas e reencontrando o caminho
do domínio da natureza, que lhe tinha sido prometido
desde o sexto dia da Criação48.

Sistemas Parabióticos

Em um conhecido Gedankenexperiment, pega-se um ser


humano e se substitui um neurônio por um chip e assim
sucessivamente. Ao final, chega-se a um ser humano com um
cérebro completamente composto de chips. A questão
tradicionalmente associada a esse experimento é: ainda se está
diante de um ser humano? Analisando por outro ângulo, fazemos
uma nova pergunta: em que momento dever-se-ia parar de
substituir neurônios por chips, de modo a se aproveitar ao

47 MORIN, 2005, p. 41.


48 Cf. LECOURT, 2005, p. 66.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 53

máximo a combinação das potencialidades desse amálgama


orgânico/inorgânico?49
O uso efetivo de um artefato envolve uma paradoxal
invisibilidade (manejo automático) associada à uma visibilidade
(estar disponível à observação e à reflexão consciente).
Idealmente, por exemplo, a maestria no uso de um martelo se dá
quando o sujeito consegue desprezar a existência do martelo
como um ob-jeto, durante a performance. Finda a ação, o martelo
permanece como objeto passível de ser perscrutado, inquirido,
aperfeiçoado. Esse contínuo processo de engajamento, separação
e re-engajamento é uma premissa inerente ao uso de artefatos por
pessoas com expertise50.
É esse movimento de interiorização do objeto técnico que
faz com que os artefatos transcendam seu papel de depositórios
exteriores de conhecimento. Eles se constituem como mindware
upgrades, ou “saltos cognitivos nos quais a arquitetura efetiva da
mente humana é alterada e transformada”51. Artefatos alteram
nosso senso de identidade. Ainda conforme o pensamento de
Clark, “impulsionado e pressionado pela sua plasticidade natural

49 É interessante que esse experimento mental tenha sido proposto em relação aos
neurônios e aceito com tranqüilidade, pelo menos com relação a esse aspecto, pela
comunidade da filosofia da mente. Os egípcios quando embalsamavam suas múmias só
não retiravam o coração. O cérebro era retirado pelo nariz, com o uso de uma pinça
fina. Até o séc. XVIII, os médicos cristãos travavam debates acalorados sobre a
localização da alma e se o contato entre ela e o corpo se daria no cérebro ou no
coração. Atualmente, o coração já se tornou substituível por um dispositivo mecânico
ou uma máquina, ou, ainda, por um órgão transplantado. Não há mais quem defenda
que ele tenha qualquer coisa a ver com a alma ou a consciência. Hoje, autores como
Kurzweil, defendem abertamente a possibilidade de substituição do cérebro por
dispositivos artificiais (essa nota foi inspirada em passagem de SENNETT, 2006, p.
216).
50 Exemplar dessa afirmação foi a resposta de Ayrton Senna, quando perguntado em
que pensava nas duas horas de duração de uma corrida: “não penso em nada. A cabeça
fica a mil por hora, mas absolutamente concentrada na corrida. O piloto fica
completamente amarrado dentro do carro, preso pelo abdômen, pernas e braços,
controlando a própria respiração. Quanto mais imóvel seu corpo, mais estabilidade
terá para dirigir. Na corrida chego ao limite da resistência física e psicológica.
Emoção, eu só sinto depois de passar a linha de chegada” (SENNA, 2008, p. 82, grifo
nosso).
51 CLARK, 2003, p. 4.
54 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

[o cérebro] é propício para profundas fusões com a rede


circundante de símbolos, cultura e tecnologia”52.
Os seres humanos portam identidades permeáveis e
abertas à mudanças. Os artefatos encarnam-se como uma das
dimensões objetais da subjetividade cognoscente53, trazendo ao viver uma
complexificação da função representativa e os automatismos
operatórios que os seguem. Para Lévy, “pensar é um devir
coletivo no qual misturam-se homens e coisas”54.
Essa concepção não soa estranha, se considerarmos as
retro-influências do artificial sobre o orgânico e a convivência
operativa de faculdades heterogêneas e heteróclitas no processo
mesmo de nascimento do pensamento: pensamos sobre as coisas e
com as coisas. Há uma parabiose entre o humano e o artefato.
Usamos o conceito de parabiose – união fisiológica e anatômica,
natural ou artificial, de dois organismos – e não o de simbiose,
por entendermos que a simbiose pressupõe um papel ativo e o
caráter espontâneo da iniciativa das partes envolvidas, o que não
ocorre de fato quando falamos de artefatos ou máquinas em seu
estágio atual55.
Há duas formas de se entender a relação com o artefato –
o ponto de vista pessoal (o impacto que o artefato causa no
indivíduo) e o ponto de vista sistêmico (em que medida o
conjunto artefato + indivíduo é diferente do que cada elemento
considerado isoladamente). Se considerarmos a questão na ótica
pessoal, os artefatos não nos fazem mais espertos, simplesmente
alteram as tarefas que realizamos. Essa é a opção dos que
insistem em dizer que os computadores são apenas máquinas que
fazem somente o que foram programadas para fazer. Na
perspectiva sistêmica, o conjunto [pessoa + artefato] apresenta
propriedades emergentes, que superam a soma das propriedades
específicas de cada elemento. O ser humano parabiótico,

52 CLARK, 2003, p. 197.


53 LÉVY, 1993, p. 160.
54 LÉVY, 1993, p. 169.
55Mais argumentos em favor da utilização do termo parabiose podem ser encontrados
em PINTO, 2005, p. 66.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 55

beneficiário desse processo, não é simplesmente mais inteligente,


mas sim capaz de apresentar mais formas de comportamento
inteligente do que seria o caso em suas condições naturais. É um
sistema de pensamento e raciocínio cuja mente está espalhada em
componentes orgânico (cerebrais) e inorgânicos. Por essa razão,
Lévy insiste na afirmação de que pensar tornou-se um devir
coletivo no qual se misturam homens e coisas: “da caneta ao
aeroporto, das ideografias à televisão, dos computadores aos
complexos de equipamentos urbanos, o sistema instável e
pululante das coisas participa integralmente da inteligência dos
grupos”56. Instituições, linguagem, técnicas de comunicação,
sistemas sígnicos, artefatos afetam direta e profundamente as
atividades cognitivas do humano.
A permeabilidade dos construtos identitários dos
humanos transcende quaisquer concepções rígidas e
determinísticas quanto às fronteiras da individualidade,
abrangendo a rede de dispositivos técnicos e cognitivos que por
acaso habitamos. Nessa linha, retomando a argumentação de
Clark, nossa relação com os instrumentos tecnológicos se tornará
tão íntima que “você finalmente se dará conta de ‘usar’ os agentes
artificiais apenas da mesma forma atenuada, e mesmo paradoxal,
de que você se dá conta de estar ‘usando’ seu córtex parietal
posterior”57.
Quando o corpo é integrado a um circuito de artefatos, de
efeitos cibernéticos, qualquer modificação no circuito significará
uma mudança na consciência. Conectado por ciclos múltiplos de
realimentação aos objetos que projeta, a mente é também um
objeto de design. Os vários tipos de parabiose entre homens e
artefatos expandem e alteram a forma dos processos psicológicos
que nos fazem ser o que somos.
Somos cyborgs58, não meramente de acordo com o senso
comum, construído graças à ficção científica, mas em uma

56 LÉVY, 1993, p. 169.


57 CLARK, 2003, p. 31.
58 Os cyborgs seriam seres compostos parcialmente por materiais orgânicos e
parcialmente por materiais inorgânicos. O termo andróide, do grego antigo, significa
homem, e os andróides são agentes biogeneticamente projetados, mas compostos
56 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

dimensão profunda, ao nos constituirmos como sistemas de


pensamento e razão cujas mentes e egos estão espalhados em
circuitos orgânicos e inorgânicos. Exemplo de ação cyborg o ato de
pilotar uma aeronave comercial moderna, tarefa na qual cérebros
e corpos interagem em uma matriz fluida, biotecnológica, de
resolução de problemas. Igualmente sintomático é o fato de
jovens finlandeses apelidarem seus aparelhos celulares de kanny, o
que significa extensão da mão. O celular é como um membro
protético sobre o qual se tem pleno controle e com o qual você
acaba por contar automaticamente, ao realizar suas tarefas diárias.
Médicos norte-americanos implantaram elétrodos no
cérebro de um paciente que ficou seis anos em estado de coma,
conseguindo que ele retomasse funções básicas, como
alimentação e esboço de alguns reflexos. Os elétrodos foram
ligados a um marca-passo, e atuam estimulando o tálamo
(estrutura cerebral que processa sinais sensoriais e é relacionada à
capacidade de reação)59. Trata-se de um exemplo notório das
possibilidades de parabiose, apesar de ser, no caso,
especificamente voltada para a solução de uma disfunção. Porém,
a possibilidade de funcionamento nos casos disfuncionais atesta a
possibilidade de uso em casos funcionais, com o propósito de
melhoria da performance. Por exemplo, receptores que agreguem
ao humano a capacidade de orientação em campos magnéticos
permitiriam novas formas de exterocepção.
Um cientista brasileiro, Miguel Nicolelis, tem
desenvolvido pesquisas na Duke University, na direção do
desenvolvimento de uma interface cérebro-máquina que restaure
funções motoras, na qual existam mecanismos de feedback
sinestésicos, somatossensoriais e visuais. Observou que há
alterações do cérebro, ao longo de todos os campos corticais, à
medida em que se operam máquinas a partir dessas interfaces.
Identificou, inclusive, células do córtex motor primário que
permaneciam sem relação a simples movimentos dos braços, mas

exclusivamente de substâncias orgânicas. O termo robô vem do checo robota, tendo


sido criado pelo escritor Kerel Capek, em um conto chamado “Opilec”, de 1917 –
significa trabalho obrigatório ou servidão.
59 Informação sobre esse caso extraída de SCHIFF, 2007, p. xiii.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 57

eram acionadas com o uso de um artefato. Esse reservatório celular


estaria na base de explicações fisiológico-neuronais para a
facilidade humana no uso de artefatos60.
Esse nível de amalgamento é facilitado pelo fato de que a
imagem corporal é um construto que se integra à identidade,
mantendo, contudo, sua plasticidade. Bergson afirma que “a
localização de uma sensação afetiva num lugar do corpo exige
uma verdadeira educação. Um certo tempo decorre antes que a
criança consiga tocar com o dedo o ponto preciso da pele onde
foi picada”61. Pensando-se em termos evolutivos, a imagem
espacial do corpo, produzida pelo córtex parietal posterior,
deveria mesmo ser plástica para permitir a adaptação a situações
inusitadas, como a perda de um membro. De fato, a imagem
corporal não só é construída como também é dinâmica e
negociada pelo cérebro em suas trocas com o ambiente. O
cérebro depende da percepção de correlações (por exemplo, uma
correlação entre ver um tamborilar na mesa e sentir as sensações
correspondentes) para continuamente construir a imagem dos
limites corporais. Um efeito associado a esse fenômeno é a
capacidade de projetar sensações e sentimentos para além dos
limites corporais, como no caso da bengala do cego, que se torna
uma genuína extensão do seu usuário. Segundo Clark,

a presença de algum tipo de processo local e circular, no


qual comandos neurais, ações motoras e feedback
sensório são íntima e continuamente correlacionados Com
certeza, é exatamente o que seríamos levados a esperar
segundo o princípio de Ramachandran (o qual define a
imagem corporal como um construto temporário baseado
em correlações sensoriais)62.

60 Interessante que Nicolelis não buscou correlatos neurais dos movimentos físicos
(acionamentos musculares), mas correlatos de padrões de ativação elétrica entre os
neurônios.
61 BERGSON, 1999, p. 61.
62 CLARK, 2003, p. 104.
58 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

O uso de artefatos como próteses altera tanto a


propriocepção (sensação articular e muscular) como a
interocepção (sensação visceral), que são os mapas um pouco
mais estáveis da estrutura geral do corpo e a base de nossa noção
de imagem corporal. Nas previsões dos tecnófilos, os sistemas
parabióticos serão uma solução adequada para a sobrevivência no
ciber-Lebenswelt, com o corpo energizado e amplificado em sua
mobilidade, bem como com a possibilidade de se enxertarem
partes do corpo em estruturas inorgânicas. O corpo percorre a
travessia de sujeito para se tornar cada vez mais objeto. Sterlac
diz que

o CIBERCORPO não é um sujeito, mas um objeto – não


um objeto de inveja, mas um objeto para a engenharia. O
cibercorpo fica eriçado com elétrodos e antenas,
ampliando suas capacidades e projetando sua presença
para locais remotos e para dentro de espaços virtuais
[maiúsculas do autor]63.

Nessa linha de pensamento, Habermas afirma que “o


homem não só pode já, como Homo faber, objetivar-se
integralmente pela primeira vez e enfrentar as realizações
autonomizadas nos seus produtos, mas pode igualmente,
enquanto Homo fabricatus, integrar-se nos seus dispositivos
técnicos”64. Essa integração cria uma zona de intervalo, na qual a
vida à base de carbono se funde ao silício, produzindo mídias
úmidas65. Nossas conexões à variedade de artefatos se tornam, a
cada dia, mais numerosas. Não se sabe mais onde o corpo acaba e
o mundo começa. Os sistemas parabióticos são regidos pela
lógica da comunicação e de intercâmbio de informações. É o
corpo em sua fase pós-moderna, um terço carne, um terço silício
e um terço ciberespaço.

63 STERLAC, 1997, p. 59.


64 HABERMAS, 1968, p. 75.
65 A expressão mídias úmidas é originalmente de ASCOTT, 2003, p. 273, e deriva do
termo inglês moist.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 59

A facilidade com que muitos humanos conseguem fundir


suas funções físicas e mentais com dispositivos técnicos
impressiona. Há vários exemplos simples de como, após alguns
poucos minutos, o cérebro ajusta sua imagem corporal e é
enganado. Experimentos conduzidos por uma equipe de médicos
do Hospital Universitário de Genebra mostraram ser possível
quebrar a ligação existente entre a autoconsciência e o corpo
físico, fazendo com que as pessoas reais achassem que eram os
seus avatares (representações virtuais)66. Essa mesma facilidade de
remapeamento da imagem corporal está presente no momento
em que se passa do uso consciente de um instrumento para um
amálgama subconsciente com os impulsos eletrônicos. Esse novo
status quo leva o humano a

práticas cíbridas por excelência, sempre mediadas por


dispositivos móveis e redes de diversas naturezas, on e off-
line, que nos colocam em um outro âmbito artístico,
cognitivo e epistemológico, no qual o diálogo é
estabelecido com seres multitarefas, que estão em
situações de trânsito e deslocamento, em estados
entrópicos e de aceleração contínua67.

O ser parabiótico por excelência é o cyborg, conforme


proposto pelo próprio criador dessa expressão, Manfred Clynes:

para o complexo estendido exogenamente... nós


propomos o termo ‘cyborg’. O Cyborg incorpora
deliberadamente componentes exógenos, ampliando a
função de controle auto-regulador do organismos de
forma a adaptá-lo a novos ambientes68.

66Informação sobre o experimento extraída de LENGGENHAGER ET AL., 2007, P.


1096.
67 BEIGUELMAN, 2005, p. 154.
68 CLYNES apud CLARK, 2003, p. 14.
60 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

Uma nova etapa na evolução

Há tanto tempo somos Homo sapiens que nos esquecemos


de um dos princípios básicos da teoria evolucionista de inspiração
darwiniana: evolução é movimento. A extrema grandeza temporal
dos ciclos evolutivos, todavia, diante da pequenez do intervalo de
uma geração, faz com que imaginemos que as forças motrizes da
evolução cessaram e que alcançamos o máximo que poderíamos
em termos de espécie.
Para Chardin, de forma alguma a evolução do homem
teria se detido no final do Quaternário. Antes, “a partir dessa
data, transbordou francamente por sobre suas modalidades
anatômicas, a fim de se estender, ou mesmo talvez emigrar pelo
essencial, de si própria, para as zonas individuais e coletivas, da
espontaneidade psíquica”69. Ao passo que a evolução foi,
inicialmente, um processo interativo e não mediado entre o ser
humano e o mundo natural, agora se tornou uma interação entre
o homem e seus artefatos. A introdução da possibilidade técnica
resultou em certo arrefecimento das transformações passivas e
somáticas do organismo e em uma aceleração das metamorfoses
conscientes e ativas do indivíduo. O homem passou a tomar as
rédeas de seu processo evolutivo.
Chardin aponta esse refreamento e destaca sua força em
um ambiente cultural e partilhado por artefatos. O artificial
revezando o natural. Estaríamos em um movimento de
continuação do trabalho ininterrupto da evolução biológica, em
um plano superior e com outros meios: “o pensamento
aperfeiçoando artificiosamente o próprio órgão de seu
pensamento”70. Esse movimento relaciona-se diretamente à
plasticidade do cérebro e suas capacidades de acoplamento
parabiótico. Dennett ressalta que essa plasticidade cerebral reflete-
se de volta no processo da evolução genética e o acelera, em um fenômeno
conhecido como Baldwin Effect71. O ato final da evolução seria a

69 CHARDIN, 1998, p. 222.


70 CHARDIN, 1998, p. 281.
71 DENNETT, 1991, p. 184.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 61

natureza tomar posse dela mesma através do ser humano, ao qual


ela deu o poder para essa tomada de posse. Hofstadter também
ressalta essa mudança de patamar no processo evolutivo:

as idéias causam idéias e ajuda a formação de novas idéias.


Elas interagem entre si e com outras forças mentais no
mesmo cérebro, em cérebros vizinhos e, graças à
comunicação global, com cérebros alheios e distantes.
Elas também interagem com o ambiente externo,
produzindo, no total, um salto na evolução que supera
qualquer outro aspecto do cenário evolutivo, inclusive o
surgimento da célula viva72.

Serres chamou esse fenômeno de exodarwinismo dos objetos


técnicos: “a invenção dos primeiros instrumentos fez-nos sair da
evolução para entrar na cultura (...) a técnica-lebre substitui a
velocidade da evolução-tartaruga”73.
A perspectiva é que os humanos gerenciam seu espaço
físico e circunvizinhanças de uma forma que altera
fundamentalmente as tarefas cerebrais de processamento da
informação. A sintonia entre essa proposta e o princípio
econômico da evolução se dá pela constatação de que as criaturas
não desenvolvem mecanismos custosos para armazenar ou
processar informações quando podem recorrer ao ambiente.
Milhares de anos foram necessários para o homem sair da
pedra lascada para a pedra polida. Poucas centenas de anos foram
necessárias para se sair da Revolução Industrial para a Revolução
Informacional. O homem usa os artefatos que cria para galgar
outros degraus, empregando a última tecnologia para desenvolver
a próxima. O artefato age como instrumento de imposição da
ordem cultural (artifício) sobre o ambiente natural, afastando o
homem de sua permanência simbólica no universo. A experiência
da realidade passa a ser tecnológica. Por essa razão, segundo
Lemos,

72 HOFSTADTER, 2001, p. 780.


73 SERRES, 2003, p. 51.
62 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

a técnica é, ao mesmo tempo, um instrumento profano


(transgressão da ordem da natureza) e potência mágica e
simbólica (transformação do mundo). Conseqüentemente,
o objeto técnico, preso a este esquema de transgressão
será, para sempre, depositário de um medo e de uma
fascinação que nos perseguem até os dias de hoje74.

Vivemos em sociedade e interagimos com nossos pares


por meio de nossas corporeidades. Mudanças nessa corporeidade
levam inexoravelmente a mudanças nas nossas relações. A
genética está amarrada à conservação de um determinado modo
de vida. Em algum momento, metamorfoses profundas do viver
podem desencadear mudanças no espaço epigenético75. O
processo de hibridização íntima do corpo com os artefatos
tecnológicos avançados parece nos conduzir a uma certa
desapropriação dos nossos hábitos mais interiorizados. O
percurso histórico, que vai da utilização manual dos artefatos até
a fabricação e manipulação sígnica dos artefatos, descreve um
processo complexo e coerente com aquele que vai da natureza ao
artifício. O artefato pensou fora de nós. Depois ele passou a
pensar em nós, comandado pela linguagem. Atualmente, com a
informática e a tecnociência, o artefato pensa em nosso lugar.
Santaella ressalta que as extensões tecnológicas do corpo
estão “aderindo à fisicalidade de nossos corpos e habitando seus
interiores, indicando uma tendência para se tornarem invisíveis e
mesmo imperceptíveis”76. Ainda segundo o pensamento de
Santaella, “o que se vivencia aí é uma biologia interativa que
mistura inextrincavelmente o biológico ao artificial”77. As
considerações de Santaella a levaram a falar em uma era pós-
biológica, úmida, nascida da parabiose organismo (molhado) e
silício (seco), com destaque para as nanotecnologias.

74 LEMOS, 2002, p. 43.


75Este parágrafo foi inspirado em entrevista concedida por Humberto Maturana
(MATURANA, 1997, p. 329).
76 SANTAELLA, 2004, p. 54.
77 SANTAELLA, 2004, p. 94.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 63

Do pó viemos, ao pó retornaremos? Trata-se, na verdade,


de uma interrogação sobre o limite em que o wetware (cérebro-
molhado) estará completamente imerso no complexo hardware-
sofware (seco) das máquinas informatizadas, rodando em
processadores à base de silício. A virtualização não seria a morte
do mundo, mas o devir-outro do humano, em uma forma
hiperdesenvolvida da subjetividade.
Os primeiros organismos eucariotas (unicelulares)
incorporaram outros organismos78 que passaram a fazer parte
integral de seu ser, da qual não podem mais se desprender. Ao
incorporar crescentemente os artefatos tecnológicos, o homem
coloca seu corpo sob interrogação: “de fato, hoje somos seres
híbridos, biomaquínicos, corpos e mentes híbridos entre a
máquina e o orgânico, entre o silício e o carbono”79. Os nossos
artefatos, os nossos pensamentos sobre eles, os hábitos que
interiorizamos com seu uso, se enredam na inteireza relacional do
Lebenswelt, em um processo similar ao da incorporação das
vitaminas e sais minerais por nossos corpos. Do mesmo modo
que o corpo muda e cresce em resposta ao seu ambiente, a
consciência precisa expandir-se para dar conta de
relacionamentos cada vez mais amplos e profundos com os dados
materiais do mundo.
Alguns autores falam em pós-humano. Entendemos,
contudo, que esse termo traz consigo um dilema pueril, ao ainda
postular uma espécie de dicotomia entre humanismo e tecnologia.

Pós-humano x Hiper-humano

Hayles está entre os pioneiros da visão do pós-humano.


Para essa autora, o enfoque pós-humano privilegia o padrão de
informação em detrimento da instanciação material. Nosso corpo
seria apenas uma das formas possíveis de expressão do nosso ego
e o substrato orgânico seria apenas um acidente da evolução e
não uma inexorabilidade da vida. Essa suposição visa suplantar o
78As mitocôndrias, por exemplo, atualmente organelas celulares, eram, originalmente,
organismos independentes.
79 SANTAELLA, 2003, p. 242.
64 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

caráter obviamente diferente das instanciações físicas do orgânico


e do inorgânico (carbono/silício), que leva, conseqüentemente, a
uma diferença qualitativa entre as formas de movimento da
matéria que ocorrem em um e outro meio. No artefato, há
moléculas simples. No orgânico, coloidal, moléculas protéicas –
grandes e complexas. Rosenblueth, Wiener e Bigelon destacam
esse aspecto:

do ponto de vista de sua energia, máquinas usualmente


exibem grandes diferenças de potencial, que permitem
uma rápida mobilização de energia; nos organismos, a
energia é mais uniformemente distribuída e não é tão
móvel. Assim, nas máquinas a condução é principalmente
eletrônica, enquanto que nos organismos as mudanças
elétricas são usualmente iônicas80.

A argumentação de Hayles prossegue na linha de que o


segundo pressuposto da visão do pós-humano é a consideração
da consciência como um epifenômeno: “um salto evolucionário
tentando requerer a condição de protagonista, quando na verdade
não passa de um coadjuvante”81. O terceiro pressuposto é o
corpo como uma prótese original, que todos aprendemos a
manipular, e a partir do qual damos continuidade ao processo,
ampliando ou recuperando funções com outras próteses. O
quarto e último pressuposto do manifesto pós-humano de Hayles
é que o ser humano pode ser articulado com máquinas
inteligentes sem fraturas: “no pós-humano, não há diferença
essencial ou uma demarcação absoluta entre existência e
simulação computacional, mecanismos cibernéticos e organismos
biológicos, teleologia de robôs e objetivos humanos”82.
Santaella entende o pós-humano não só como resultado
das transformações tecnológicas, mas,

80 ROSENBLUETH, WIENER e BIGELOW, 1943, p. 23.


81 HAYLES, 1999, p. 3.
82 HAYLES, 1999, p. 3.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 65

sobretudo, como desconstrução das certezas ontológicas e


metafísicas implicadas nas demais categorias, geralmente
dicotômicas, de sujeito, subjetividade e identidade
subjacentes às concepções humanistas que alimentaram a
filosofia e as ciências do homem nos últimos séculos83.

É preciso cuidado com a visão de que os objetos técnicos


são simplesmente próteses que alargam as faculdades sensoriais e
motrizes humanas. Segundo Parente,

a defesa que fez Galileu – Mensageiro Sideral – do


telescópio (perspicillum) diante dos aristotélicos e o elogio
que fez Leibniz do microscópio de Leeuwenkoek
mostram muito bem que, para eles, esses dispositivos
tecnológicos não são meras extensões do olhar, mas
próteses da razão corrigindo a visão, ou melhor, que
fundam uma nova visão, ensinando os olhos a ver84.

Além de serem modos de expansão de nossas capacidades


perceptivas e conceituais, os artefatos fundem-se em
complexidades ontológicas com nosso ser. A nota definidora da
posse da razão exterioriza-se na criação de artefatos como forma
de superação e multiplicação do orgânico, instaurando-se novos
prismas e perspectivas – pensamos sobre as coisas e pensamos com
as coisas.
Santaella identifica um primeiro grande movimento do
corpo para fora, no qual os artefatos “possibilitam ultrapassar os
limites espaciais, transportando a mente sem a necessidade de
deslocar o corpo”85. Essa capacidade residiria na gênese do cyborg,
o organismo tecnologicamente estendido – o corpo se torna uma
medida do excesso. Um segundo movimento, para Santaella, são
os “processos de ramificação do corpo no espaço externo – os
dispositivos tecnológicos, situados fora ou na superfície dos

83 SANTAELLA, 2004, p. 53.


84 PARENTE, 2004, p. 12.
85 SANTAELLA, 2004, p. 57.
66 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

corpos, multiplicam as suas capacidades de expressão, afecção e


conexão, para além da pele e dos limites territoriais”86.
O que está em jogo é a definição ontológica dos artefatos
como meros utensílios (um instrumento com alguma utilidade).
Pelo exposto, essa definição é incorreta, uma vez que os artefatos
moldam a reconstrução imaginativa da realidade e, dessa forma,
instruem o homem sobre sua própria identidade – o hiper-
humano. Os artefatos são símbolos – simbolizam a ação que
viabilizam, Um artefato é um modelo para sua própria
reprodução e um roteiro para a repetição da ação que simboliza.
Por isso, o artefato como um símbolo transcende seu papel de
utensílio (meio prático para se alcançar um objetivo) e se torna
um elemento constituinte da recriação simbólica que o homem
faz do mundo.
É o homem, com todos os valores existenciais e éticos,
que se realiza e engrandece com o incremento da tecnologia,
expandindo sua capacidade, humana, de criação da essência do
homem. Falar em pós-humano não deixa de representar uma
substantivação da técnica, indissociável de uma adjetivação do
homem. O homem é e continua sendo o autêntico sujeito. Sua
omissão deforma a compreensão dialética do artefato, porque
leva à uma consideração ingênua do mesmo como sujeito,
perspectiva que lhe dá sentido lúdico, figurando como puro
produto do poder gratuito de descoberta de que o homem é
dotado.
Ao liberar-se do trabalho braçal, via emprego de artefatos
e máquinas, o homem distancia-se da condição em que era ele
próprio a única máquina de que até então se dispunha e
multiplica enormemente a produção dos bens necessários à sua
sobrevivência. O que acontece, em última instância, é a ampliação
do valor humano, ou o homem sobre-humanizando-se em
realizações quantitativa e qualitativamente superiores. É relevante
destacar que na origem do termo cyborg, conforme já visto, havia
um desejo expresso de melhoria do ser humano para lidar com as
condições do ambiente.

86 SANTAELLA, 2004, p. 76.


ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 67

Inspirados em Chardin e seus prefixos, optamos por


propor uma qualificação da condição atual do homem como o
“hiper-humano”. Hiper indica um avanço evolutivo, com matizes
específicos. No hiper pode-se identificar, por um lado, uma
superioridade tão eminente que inclui a passagem de um limiar
decisivo. A agregação e incorporação dos artefatos,
crescentemente tecnológicos, não estaria nos transformando em
algo bioeletrônico e pós-humano, mas sim permitindo que a
mente tenha mais e mais recursos para perseguir seus próprios, e
humanos, propósitos, livre de alguns processos de controle
corporal. Flusser, argumentou que “esse é o design que está na
base de toda cultura: enganar a natureza por meio da técnica,
substituir o natural pelo artificial e construir máquinas de onde
surja um deus que somos nós mesmos”87.
O corpo 1.0, bípede, que respira, com visão binocular e um cérebro
de 1.400 cm3 encontra-se inadequado para lidar com a quantidade,
complexidade e qualidade de informações que acumulou88. Em
um primeiro momento, os artefatos reforçaram e substituíram as
funções do aparelho locomotor (mãos e pernas). Depois, a
produção de energia, seguida pelas funções dos aparelhos dos
sentidos (olhos, ouvidos, pele). Finalmente, reforçam-se as
funções do centro de controle – o cérebro.
No corpo 2.089, o homem já ampliou o natural por meio
do artificial: “drogas, suplementos, peças de reposição para
virtualmente todos os sistemas corporais e muitas outras
invenções”90. Para Kurzweil, estamos claramente nos dirigindo a
um redesign fundamental e radical da versão 1.0 – que é
extremamente ineficiente e de funcionabilidade limitada. Essas
possibilidades envolvem hibridizações profundas entre orgânico e
inorgânico, agudizando a problemática da definição de limites.
Implantes cerebrais, neuromórficos, modelados a partir da

87 FLUSSER, 2007, p. 184.


88 Trecho em itálico extraído de STERLAC, 1997, p. 54.
89As expressões “Corpo 1.0” e “Corpo 2.0” foram inspiradas em título de artigo de Ray
Kurzweil, “Ser humano versão 2.0”, publicado no Caderno Mais da Folha de São Paulo,
em 23/03/2003.
90 KURZWEIL, 2003, p. 5.
68 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

engenharia reversa do sistema nervoso, que se conectam


diretamente à células e processos cerebrais, serão ou não parte do
eu? Pacientes com mal de Parkinson, cujos tremores foram
controlados por implantes que se comunicam diretamente com as
regiões do núcleo ventral posterior e do núcleo subtalâmico do
cérebro são exemplos de sistemas parabióticos, nos quais as
fronteiras são indiscerníveis.
Embora os exemplos de utilização desses artefatos para
restauração de funções perdidas sejam hoje os mais abundantes,
não há nada a impedir que, uma vez inventados, sejam utilizados
para melhorar ou expandir o potencial humano. O corpo poderá
deixar de ser o território do ser para se transformar em um
acessório fashion. Ou poderá continuar a ser pólo da
resolutividade da vida humana (contradições orgânico-
individual/meio), apenas em um nível maior da complexidade
material. Tecnófilos agarram-se ao iminente advento da máquina
inteligente. Tecnófobos defendem com pedras e tacapes o que
consideram a última cidadela das ciências humanas: o homem.
Carne e bits em disputa: a máquina, que asceticamente
negou a carne, foi trespassada pela carne, que negou o processo
racional e ordenado de comportamento que adentrou à cultura. A
noção espúria de que a máquina não tinha nada a aprender com o
mecanismo foi substituída pela igualmente equivocada noção de
que a vida não tinha nada a aprender com a máquina. Morin
afirma que

o futuro admite, portanto, a possibilidade crescente de


introdução dos atributos do ser vivo nas máquinas (ou
seja, a auto-organização e a autoprodução), de introdução
dos atributos da inteligência humana na inteligência
artificial e dos atributos artificiais no organismo humano
(próteses, órgãos de síntese)91.

Carne e bits em diálogo: apenas a confirmação daquela


que é uma das características essenciais do humano, sua
capacidade de apropriar-se e incorporar o natural, em um

91 MORIN, 2005, P. 246.


ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 69

processo cíclico de transformação natural-artificial-natural.


Biológico e tecnológico estão profundamente plasmados na
epigênese do Homo sapiens. Para Lévy, “como os vagalhões do
Pacífico remetem ao dilúvio informacional, o hipercorpo ao
hipercórtex”92.
Para que a máquina o substitua, o homem não precisa
criá-la à sua imagem e semelhança, mas apenas fazer com que sua
forma seja adequada ao desempenho das funções que irá
substituir. Cientistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT)
criaram um computador que se aproxima com a maior precisão
do modelo humano de processamento visual. Seu sistema é
baseado em informações anatômicas e fisiológicas sobre o córtex
visual e simula o que ocorre no cérebro nos 100 milisegundos
depois que um objeto é visto. O resultado é um comportamento
bastante similar à visão humana. A máquina aprende com a
carne93.
A defesa do conceito de hiper-humano parte do
pressuposto de que, ao ceder funções aos artefatos, o homem não
realiza uma abdicação existencial. Não se trata de uma perda da
sua superioridade biológica enquanto ser cultural. Tanto que
sempre houve animais dotados de maior força ou capacidade na
execução de determinados atos corporais. O homem permanece
como único ser capaz de ampliar as possibilidades de imposição
da matéria viva ao meio. Por meio da reflexão consciente, fruto
da hipertrofia de seu tecido cerebral, o homem investiga a
realidade objetiva – seja no campo físico, seja no das relações
sociais – e intervêm, produzindo modificações historicamente
visíveis94. Ressalte-se que nem todos têm uma visão positiva desse
movimento evolutivo. Para Mazlish, o processo de substituição

92 LÉVY, 1996, p. 30.


93 Informação sobre a criação desse sistema foram extraídas de CIENTISTAS..., 2007.
94 A distinção entre o natural e o artificial, o humano e o tecnológico é tanto uma
questão semântica quanto uma questão de grau. Quando um joão-de-barro constrói um
ninho intrincado, ou quando um castor faz uma represa, ambos os empreendimentos
são vistos como parte do mundo natural. Quando o homem constrói uma casa,
contudo, é artificial.
70 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

das funções humanas acaba por tornar os humanos mais


pareados com as máquinas, “na cabeça, no coração e nas mãos”95.
Mazlish destaca que os primeiros autômatos foram
construídos para imitar, e não dominar, a natureza, visão que teria
prevalecido até a Renascença. Porém, imbuído do espírito
Iluminista, o desenvolvimento tecnológico assumiu sua própria
autoridade – “o homem veio a ser a sua civilização”96. Esse
processo agudiza-se com a encarnação de artefatos – marca-
passos, corações de plástico, chips, nanomecanismos – que fazem
com que o animal nu (naked animal) seja substituído pelo homem
máquina, parabiótico. Galimberti assim se manifestou sobre esse
processo: a humanidade, tal como historicamente a conhecemos, faz a
experiência da sua própria ultrapassagem97.
Ficamos com dois questionamentos importantes.
Primeiro, se o homem será capaz de sobreviver sem adotar um
novo regime biológico, a parabiose homem máquina. Segundo, se
essa nova configuração representa algo para além do humano – o
pós-humano – ou algo para dentro do próprio humano – o hiper-
humano.
Como reflexão de fundo, citamos as palavras do ciber-
artista Sterlac:

uma vez que a tecnologia oferecer a cada pessoa o


potencial de progredir individualmente, em seu
desenvolvimento, a coesão da espécie não é mais a
distinção corpo-mente, mas a divisão corpo-espécie.
Talvez a tecnologia seja importante porque culmina numa
consciência alternativa – que é PÓS-HISTÓRICA,
TRANS-HUMANA e até EXTRATERRESTRE. Os
primeiros sinais de uma inteligência alienígena podem
muito bem vir desse planeta [maiúsculas do autor]98.

95 MAZLISH, 1993, p. 76.


96 MAZLISH, 1993, p. 149.
97 GALIMBERTI, 2006, p. 8.
98 STERLAC, 1997, p. 55.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 71

Pelos motivos expostos ao longo do capítulo, perfilamo-


nos com a proposta do hiper-humano, compreendendo que, no
ser parabiótico, o objeto-técnico está ‘ao lado de’ e não
propriamente ‘no lugar de’. Contudo, a proposta do hiper-
humano não nos deixa livres de inquietações. Em sua origem
grega, o elemento de composição hypér carrega um duplo sentido:
‘em cima de’, apropriado, a nosso ver, para descrever o
agenciamento homem-objeto-técnico que ocorre na atualidade;
mas também ‘em posição superior’, remetendo a um tipo
diferente de preocupação: a possibilidade do surgimento de uma
nova eugenia, não mais com base em características étnicas, mas
sim em disponibilidades tecnológicas.
CAPÍTULO 4
A MENTE EXPANDIDA
A mente sem fronteiras

O corpo se dissolveu. A mente está livre. Livre para se


atualizar em personalidades diversas, corporificadas em entidades
virtuais, que desintegram e multiplicam a identidade. Esse
fenômeno, embora potencializado ao extremo pelas novas
tecnologias de informação e comunicação, não é novo. Antes,
remete aos primórdios da espécie humana.
O ser humano não produz feromônios e carece de
receptores para estímulos elétricos e magnéticos, que impedem
que se oriente em campos magnéticos, por exemplo. Dessa sua
pobreza inerente para fazer trilhas, pode ter surgido a necessidade
(ou então a solução evolutiva) de fazê-las exogenamente, com
aplicação de marcas às árvores e pedras. Esse pode ter sido um
embrião de nossa capacidade de interpretar símbolos. O
pensamento e a razão surgiriam desse ninho, no qual “cérebros e
corpos biológicos, atuando concertadamente com auxílios e
ferramentas não biológicas, construíram, se beneficiaram e então
reconstruíram uma sucessão sem fim de ambientes concebidos” 1.
A constância mente-mundo criou a oportunidade para
que armazenamentos cognitivos deixassem de se restringir ao
interior do organismo e fossem descarregados no ambiente.
Diante da configuração de uma relação causal constante, estável e
confiável no Umwelt, o homem deu um passo evolucionário,
passando a incorporar, como parte de sua mente, porções
externas do ambiente. Ao invés de codificar toda a estrutura do
mundo para então manipular esses códigos, o homem explorou a
constância por meio de uma representação exploratória. O
filósofo Robert A. Wilson chamou isso de wide computationalism.
Para ele,

1 CLARK, 2003, p. 197.


74 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

o cérebro mais partes da porção não-cerebral do mundo,


juntos, podem constituir um sistema computacional, um
sistema computacional de localização ampla, desde que
esse se apóie em um robusto e estruturado relacionamento
causal entre o que está na cabeça e o que está fora que
pode ser adequadamente capturado por regras de
transição2.

Se não há mais sentido em se falar de fronteiras do corpo


(Capítulo 2), não há porque se pensar que com o crânio seria
diferente. Como seres imersos em ambientes informacionalmente
ricos e complexos (Capítulo 1), assumimos que as computações
que ocorrem no cérebro são uma parte importante, mas não
exaustiva, do nosso sistema computacional.
Seja por meio do uso de artefatos, seja pelo uso de
símbolos (as duas principais formas de mediação homem-
ambiente), o fato do ser humano criar um campo semântico
exterior ao seu organismo, que funciona como uma memória
externa, marca uma transição crítica para a espécie. Por meio de
ambas as atividades (instrumental / simbólica), a mente se
estende para além das capacidades puramente internas do
cérebro, ao explorar e manipular partes de seu ambiente
estruturado.
A representação exploratória reduz a quantidade de
informação que os indivíduos têm de carregar, pois as constâncias
e regularidades do ambiente permitem que a mente crie
algoritmos de compressão, ou seja, fórmulas que a possibilitem
lembrar-se apenas do necessário, ao invés de ter que se lembrar
de tudo. O sistema representacional simbólico homem-ambiente
traz a capacidade de separação da cognição de suas origens
corporais. Para Wilson, “ele cria pensadores genuínos, criaturas
que podem usar representações para gerar outras representações
e, dessa forma, têm condições de tornar sua atividade cognitiva
autônoma em relação ao aqui e agora”3.

2 WILSON, 2004, p. 168.


3 WILSON, 2004, p. 186.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 75

É importante ressaltar que não estamos postulando uma


concepção coletivista ou panóptica da mente: “mentes não
flutuam livremente no ar ou pertencem a entidades vastas e
amorfas como grupos, sociedades, ou culturas”4. Mantemos o
paradigma do indivíduo, temporo-espacialmente limitado,
relativamente coeso, entidade unificada que é contínua ao longo
do tempo e do espaço. A discussão é sobre as fronteiras desse
indivíduo. De forma análoga aos modelos conexionistas da
cognição, nos quais as representações cognitivas podem estar
distribuídas em vários nós, o modelo do wide computationalism
assume que a cognição pode estar distribuída tanto entre agentes
como entre agentes e seus ambientes. No cerne dessa concepção
está também a noção de produção do espaço (Capítulo 1), pois
não se trata somente de entender o elemento externo como um
potencializador das capacidades cognitivas individuais, mas sim
de se compreender como ocorrem mudanças na natureza dos
espaços representacionais ou nas mídias em que as computações
são executadas.
Uma premissa do wide computationalism é oferecer uma
caracterização formal do ambiente de um organismo e de partes
do cérebro desse organismo, para que, juntos, possam constituir
um sistema computacional unificado. Outra premissa é aceitar
que o sistema computacional unificado (mente/ambiente) como
um todo é genuinamente cognitivo (e não apenas as partes
internas ao organismo5).
Podemos chegar, a partir dessas premissas, na visão de
Ascott, a uma situação em que “isso vai significar a difusão da
inteligência para todas as partes do ambiente, de forma casada
com o reconhecimento da inteligência que existe em cada parte
do planeta vivo”6. Ainda segundo esse autor, trata-se de um
fenômeno tecnoético, pois a tékhné e a gnosis se combinam em um
novo conhecimento do mundo, uma mente conectiva que está
difundindo novas realidades e novas definições da vida e da

4 WILSON, 2004, p. 3.
5 WILSON, 2004, p. 167.
6 ASCOTT, 2000, p. 2.
76 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

identidade do humano. Nossos cérebros participam


interativamente em uma potente rede de andaimes cognitivos e
tecnológicos. Clark chamou esse sistema de mente híbrida
biotecnológica, um sistema no qual recursos do ambiente –
transparentes, personalizados, robustos e imediatamente
acessíveis – possibilitam acúmulos de informação e
conhecimento:

elementos externos, não-biológicos, fornecem capacidades


adicionais e contribuem de outras maneiras para o senso
de quem nós somos, e para a tomada de decisão e a
escolha (...) nós somos softselves, continuamente abertos a
mudanças e levados a vazar dos limites da pele e do
crânio, anexando mais e mais elementos não-biológicos
como aspectos da própria maquinaria da mente7.

Outra característica importante do elemento externo


(tanto o simbólico quanto o instrumental) é a acumulação
progressiva e ilimitada, uma vez que não confinada às paredes
cranianas. Esse acúmulo se transmite ao longo das gerações e
resulta, para Chardin, em um aumento de consciência, “sendo a
consciência, por sua vez, nada menos que a substância e o sangue
da vida em evolução”8.
A mente seria um derivado desse conjunto estrutural e
funcional em interação com o ambiente. Cada elemento do
ambiente que utilizamos em nosso processamento cognitivo é
parte de nós. Cada nova interação é uma reconfiguração. Nossa
identidade-mente não é definida por nossa identidade-corpo. E
cada vez menos. Para as novas gerações, a tecnologia é uma
extensão do próprio cérebro, como registra uma manchete de
jornal: “Os www babies – quando eles nasceram, a internet já
existia; para a geração que começa a chegar à idade adulta, a
tecnologia é uma extensão do próprio cérebro”9. Nessa linha de

7 CLARK, 2003, p. 137.


8 CHARDIN, 1998, p. 194.
9 OS WWW BABIES..., 2006, c7. Essa reportagem traz uma interessante análise de
diferenças comportamentais na geração de pessoas que já nasceram em um ambiente
no qual proliferam as novas tecnologias de informação e comunicação. Os ‘nativos’,
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 77

argumentação, Lévy defende uma concepção de processamento


distribuído do pensamento, a partir da articulação de variados
dispositivos automáticos que operam sobre faculdades
heterogêneas:

o mecanismo, a inconsciência, a multiplicidade heteróclita,


em uma palavra, a exterioridade radical, encontram-se
alojados no próprio cerne da vida mental. A partir disso,
não há nenhum absurdo em conceber a participação, no
pensamento, de mecanismos ou processos não biológicos,
como dispositivos técnicos ou instituições sociais, elas
mesmas constituídas de coisas e de pessoas10.

Processamento mental distribuído

Na busca ocasional da pedra distintiva fundamental –


aquilo que nos faz humanos e nos distingue dos nossos ancestrais
primatas – uma das trilhas percorridas foi a da análise do cérebro.
Em princípio, analisou-se o tamanho absoluto, logo abandonado
pela evidência gritante de que elefantes e baleias têm cérebros
maiores do que o humano e, nem por isso, apresentam funções
cognitivas superiores. Houve os que buscaram explicação na
complexidade das circunvoluções do cérebro humano, porém
logo se descobriu que o cérebro dos golfinhos é mais dobrado
sobre si mesmo do que o nosso.
Uma abordagem diferente tentou achar no tamanho
relativo a causa da diferença. No meio do séc. XX surgiu a
hipótese do coeficiente de encefalização, segundo a qual o
cérebro do homem é cerca de 7,5 vezes maior do que seria
esperado em relação a outros mamíferos. Não foi possível obter
prova científica dessa hipótese, pelo contrário, análises da
complexidade comportamental em animais revelaram espécies
com coeficiente de encefalização menor porém com
comportamentos mais sofisticados do que outras de maior

assim chamados, não enxergam as novas tecnologias como ferramentas, mas como
parte de seus ambientes naturais.
10 LÉVY, 1993, p. 168.
78 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

coeficiente. Posteriormente, buscou-se associar o coeficiente de


encefalização ao tamanho relativo do córtex pré-frontal, também
sem sucesso, pois as técnicas modernas de imagem cerebral
revelaram que esse parâmetro é igual entre todos os grandes
primatas. Outras hipóteses mais exóticas, como uma suposta
abundância de células fusiformes no córtex cingulado anterior,
foram sucessivamente descartadas.
Estudos mais rigorosos, com base na avaliação das regras
celulares de construção dos cérebros nas diferentes ordens e
espécies, mostraram que o ser humano, em termos de tamanho
cerebral, pode ser classificado apenas como um grande primata,
nada mais do que isso. Essas evidências levam à conclusão de que
medidas cerebrais não podem representar, por si só, a razão da
diferença entre as capacidades cognitivas superiores do humano e
as de seus parentes na escala evolutiva.
Land afirma que a fonte de nossa diferenciação em
termos cognitivas deveria ser procurada em nosso “hábito de
espargir (off-loading) o máximo possível de nossas tarefas
cognitivas no nosso ambiente, fazendo literalmente uma espécie
de extrusão de nossas mentes no mundo”11. Essa prática ajudou,
ao longo do processo evolutivo, a superarmos nosso limitado
repertório de habilidades perceptivas e comportamentais para o
enfrentamento de um ambiente complexo. Nos primórdios da
evolução, essa extrusão mental se dava tão somente pela aplicação
de marcas no mundo, com o objetivo de ajudar no sentido de
orientação espacial (feitura de trilhas). Para Dennett, “estas
simples marcas deliberadas no mundo são os mais primitivos
precursores do escrever, uma etapa em direção à criação no
mundo externo de sistemas periféricos dedicados à estocagem de
informação”12.
Inicialmente, a utilização dessas marcas pelos seres
humanos deve ter ocorrido sem nenhum tipo de pensamento
reflexivo e sua continuidade levou a que esse uso fosse
incorporado como parte de nossos processos cognitivos. A tática

11 LAND, 2001, p. 16.


12 DENNETT, 1996, p. 137.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 79

de apropriação do ambiente externo aos processos cognitivos


aumenta as habilidades do ser humano. Uma vez absorvidos, os
recursos exteriores amalgamam-se à natureza do humano, em
uma relação de mútua influência. Um instrumento requer
inteligência para ser reconhecido e mantido como tal, porém, o
instrumento também confere inteligência ao seu possuidor. Com
o tempo, a mente humana deixou de estar limitada ao cérebro e
passou a incluir esses auxílios externos, a tal ponto que se esses
fossem removidos, ficaríamos severamente prejudicados13.
Conforme Dennett, “nossas mentes são fábricas complexas,
tecidas a partir de muitos fios diferentes e incorporando muitos
designs. Alguns desses elementos são tão velhos quanto a própria
vida, e outros são tão novos quanto as novas tecnologias”14.
A obra em que Dennett expõe sua concepção de
extrusões do mental – Kinds of Minds – data de 1996 e está em
harmonia com as proposições desse autor em suas obras
anteriores, particularmente Consciousness Explained, de 1991.
Nesta, Dennett apresentou seu modelo de consciência de
múltiplas camadas. Na perspectiva desse modelo, todas as formas
de atividade mental, inclusive o pensamento, “são realizadas no
cérebro por processos paralelos e multi-roteados de interpretação
e elaboração das entradas sensoriais”15.
A experiência consciente resulta desses múltiplos
processos de interpretação, no que Dennett chama de um
processo editorial. A combinação ordenada dessa coleção de
circuitos cerebrais especialistas conspira para criar a máquina
virtual que é a mente humana. Ainda em Consciousness Explained,
Dennett indicava a importância dos hábitos inculcados pela
cultura e outros auxílios externos, no mesmo nível de importância

13 Na obra Kinds of Minds, Dennett faz uma interessante argumentação contra a


internalização de idosos, com base no fato de que as suas casas estão repletas desses
tipos de auxílios exteriores para suas mentes, o que contribui para uma vida de mais
qualidade. Clark (2003), corroborando essa perspectiva, relata experiências com idosos
que sofrem do mal de Alzheimer, que tiveram mais qualidade de vida enquanto
permaneceram em seus ambientes familiares e o efeito destrutivo da remoção e
hospitalização dos mesmos.
14 DENNETT, 1996, p. viii.
15 DENNETT, 1991, p. 111.
80 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

dos processos individuais de auto-consciência16. Em Kinds of


Minds, Dennett amplia essa idéia e dá ênfase aos auxílios externos,
tratando-os como extrusões. Podemos entender que os artefatos
– e as novas tecnologias são candidatas perfeitas a esse papel –
atuam como uma das camadas entre as múltiplas camadas do
modelo de consciência dennettiano. O processamento mental
seria, então, distribuído entre processos internos e auxílios
externos, das mais distintas naturezas.
Para Dennett, uma mente desprovida desses auxílios
externos não estaria simplesmente fadada a se restringir à caixa
craniana, mas seria também severamente afetada por uma
incapacidade crônica. Por meio de algoritmos de compressão, nós
mantemos o máximo de dados no ambiente externo, confiantes
de que poderemos recuperá-los mediante o recurso aos índices e
indicadores em nossas cabeças. No início, esse processo era
inconsciente:

algumas criaturas começaram a refinar a parte do


ambiente que era mais fácil de controlar, colocando
marcas internas e externas – descarregando problemas no
mundo e em outras partes de seus cérebros. Eles
começaram a fazer e a usar representações, mas eles não
sabiam que estavam fazendo isso”17.

A continuidade dessa prática leva a um fenômeno duplo


de dependência / invisibilidade, semelhante ao verificado quando
se usa um artefato (Capítulo 3). Na medida em que descarrega
dados e dispositivos no mundo, o ser passa a se tornar
dependente de seu uso; contudo, quanto mais usa e se torna
proficiente, mais incapaz de agir sem esses periféricos. Consegue
isso ao reintrojetar os problemas e resolvê-los novamente, desta
vez com suas capacidades imaginativas ampliadas pela prática.
Habermas manifesta seu espanto diante do apagamento
das linhas fronteiriças que configuravam as coerências de nosso
agir cotidiano, até há pouco consideradas transcendentalmente

16 Cf. DENNETT, 1991, p. 228.


17 DENNETT, 1996, p. 154.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 81

necessárias: “de um lado, o ser orgânico que cresceu naturalmente


se funde com o ser produzido de forma técnica; de outro, a
produtividade do intelecto humano separa-se da subjetividade
vivenciada”18.

Mentes e máquinas: sistemas cognitivos híbridos

As reflexões sobre a possibilidade de extrusão do mental e


processamento cerebral distribuído nos remetem à perspectiva de
um modelo não antropomórfico de racionalidade, mais
relacionado ao componente procedural dos processos cognitivos,
ou seja, ganha preeminência o como se dá a razão em vez do o que
é a razão. Percebe-se, nesse tipo de abordagem, uma clara
inspiração funcionalista. A partir desse ponto de vista, o
complexo corpo-cérebro é visto como uma espécie de hardware,
que imprime alguns constrangimentos aos processos cognitivos
humanos – como, por exemplo, a ausência de eletroreceptores e
magnetoreceptores – os quais, portanto, são restritos pelas
configurações arbitrárias resultantes da evolução.
As interfaces orgânicas – órgãos dos sentidos – fornecem
informação que é utilizada pelos sistemas sensório-motores para
articulação e percepção. Áreas especializadas no complexo
cerebral processam informações que são utilizadas pelos sistemas
conceituais-intencionais para permitir que o agente se acople ao
mundo de diferentes maneiras. Essa capacidade plástica de
engajamento diversificado no mundo é definidora da
competência tipicamente humana de lidar com as “sempre novas,
mas nunca inteiramente novas, situações que flutuam
incessantemente até nós de um futuro sem fim”19.
O sistema cognitivo que se defronta com esse universo
aberto é um sistema híbrido, que mescla os elementos do
biológico ao maquínico e do mental ao software. O código-fonte
externo contribui tanto quanto as computações e cogitações
internas para produzir comportamento adaptativo. Essa mescla

18 HABERMAS, 2004, p. 58.


19 CHURCHLAND, 2000, p. 163.
82 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

parece ser facilitada por características ontológicas do sistema


nervoso humano, como já alertava Turing:

nós devemos nos preocupar principalmente com


máquinas de controle discreto. Como mencionamos, os
cérebros se aproximam muito dessa classe, e parece haver
todas as razões para se acreditar que eles podem ter sido
feitos para de fato serem desse tipo sem nenhuma
mudança em suas propriedades essenciais20.

A integração com a máquina se dá de forma intuitiva, em


agenciamentos imbricados aos sistemas de sensibilidade e
cognição humana. A interface move-se para dentro do cérebro e
os sensores eletrônicos passam a conviver naturalmente com os
elementos orgânicos, prefigurando-se uma conjunção entre as
redes neurais artificiais e as redes neurais biológicas. A máquina
não é somente um apêndice, mas um ambiente, um espaço a ser
explorado, uma percepção que remonta às propostas de Douglas
Engelbart, que já em 1968 falava em augmentation. Na obra de
Engelbart, augmentation é aumentar a capacidade humana de
abordar problemas complexos, adquirir compreensão que se
ajuste às suas necessidades particulares e, a partir dessa
competência ampliada, derivar soluções para novos problemas.
Ou, como afirmaria Kurzweil, “os computadores começaram
como extensões de nossas mentes e vão acabar estendendo
nossas mentes”21.
Uma nova configuração do real, na qual os sistemas
cognitivos híbridos se tornam a unidade-agente específica, por
meio de sua gênese artificial e orgânica autopoiética. Esses
agentes parabióticos editam o ambiente e, retroativamente,
editam a si mesmos, em um fluxo contínuo de exposição e
acoplamento a um campo sensório-perceptual profundamente
alterado. Ao virtualizar uma função cognitiva, o software
reorganiza a ecologia intelectual como um todo e, assim, acaba
por modificar a função cognitiva que supostamente apenas

20 TURING, 1948/2004, p. 413.


21 KURZWEIL, 2000, p. 130.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 83

reforçaria. Desfazendo e refazendo as ecologias cognitivas, o


software contribui para fazer derivar as fundações culturais que
determinam nossa apreensão do real. Tentar entender a mente
isolada, sem estar imersa em um sistema de indivíduos, artefatos e
cultura, é tanto atribuir às mentes um processo que elas não têm,
quanto falhar em entender quais são os processo mentais que
necessariamente precisam existir, de modo que o agente humano
possa manipular artefatos. Além disso, a capacidade de estender a
unidade cognitiva para além dos limites cranianos nos permite
descrever as propriedades cognitivas de sistemas sóciotécnicos
culturalmente construídos. Esses sistemas, por sua vez, são tanto
genuinamente cognitivos por seus próprios méritos, quanto
contextos nos quais se dá a cognição das pessoas que neles
participam. Talvez esse seja o segundo erro de Descartes: mente-
corpo-ambiente precisam ser entendidos como um complexo
sistema recursivo. O problema da dicotomia corpo-ambiente não
faz sentido.
Fundamento da relação entre os processos
computacionais e a cognição humana, os agentes parabióticos são
a infra-estrutura de uma nova e dinâmica consciência,
impulsionada pelo pensamento associativo, participando e co-
gerando a realidade que vai se estendendo no viver cotidiano.
Esse tipo de compreensão leva a afirmações como a de Dyens: “a
psique, o eu, o ego humano estão há muito tempo escondidos
tanto nas máquinas e na tecnologia quanto nos corpos, nos
órgãos e nos genes” (DYENS, 2003, p. 269). Nossos desejos,
vontades e percepções são fatiados em um sistema cognitivo
híbrido e distribuído, no qual as representações de nossos corpos
são unidas à corpos engajados, por meio de interfaces mutantes e
flexíveis.
Podemos remeter o fundamento teórico dessas novas
concepções ao paradigma da cibernética, que reuniu uma teoria
da informação (Shannon), um modelo de funcionamento neural
que revelava como os neurônios podiam ser descritos como
processadores de informação (McCulloch), computadores digitais
processando código binário (von Neumann), por meio da
articulação, em nível mais amplo, de Norbert Wiener. A partir do
84 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

paradigma da cibernética, os seres humanos passaram a ser vistos


como entidades processadoras de informação. Em uma
abordagem de cunho funcionalista, isso os torna essencialmente
similares às máquinas inteligentes. A cibernética proporcionou a
arena comum para a interação entre a subjetividade do humano e
as objetividades do artificial. Nesse circuito integrado, a
subjetividade é dispersa, a vocalização é não-localizada, os corpos
são adicionados a próteses e as fronteiras de todos os tipos ficam
desestabilizadas. Entender a relação mente e máquina como uma
transcendência das fronteiras tradicionais é superar a dicotomia
entre a solidez da vida real, por um lado, e a ilusão da realidade
virtual, por outro, a qual obscurece o real alcance das mudanças
iniciadas pelo desenvolvimento das tecnologias de comunicação e
informação. Somos, nos termos de Hutchins, “bricoleurs
cognitivos – montagens oportunistas de sistemas funcionais
compostos de estruturas internas e externas”22.
A subjetivação da exterioridade é o indício e o operador
de uma imitação antropológica de grande amplitude. Dispositivos
tecnológicos semióticos e sociais são implicados ao
funcionamento psíquico e somático do agente. Circuitos híbridos,
coletivos e de complexidade crescente, acionam porções cada vez
mais vastas do universo. Segundo Lévy,

as tecnologias intelectuais, ainda que pertençam ao mundo


sensível exterior, também participam de forma
fundamental no processo cognitivo. Encarnam uma das
dimensões objetais da subjetividade cognoscente. Os
processos intelectuais não envolvem apenas a mente,
colocam em jogo coisas e objetos técnicos, complexões de
função representativa e os automatismos operatórios que
os acompanham23.

22 HUTCHINS, 1999, p. 172.


23 LÉVY, 1993, p. 160.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 85

Agentes Inteligentes (smart agents) – conceitos

Em 1968, Licklider, um dos responsáveis pelo projeto da


ARPANet, que viria a ser o embrião da internet, já prenunciava,
em um artigo, o futuro uso de agentes inteligentes por seres
humanos, os quais ele propunha denominar OLIVER, acrônimo
em inglês para “Receptor e Emissor Vicário Interativo On-line”
(On-line Interactive Vicarious Expediter and Responder). Segundo ele,
esses agentes seriam “um complexo de programas de
computadores e dados residentes em uma rede que agem em
nome de seu proprietário, cuidando de muitos assuntos menores
que não requerem sua atenção pessoal, e o isolando das
demandas do mundo”24.
Inicialmente sob total comando do seu
usuário/proprietário, o OLIVER, durante sua performance,
registraria as suas atividades, acumulando seu perfil
comportamental. Com o tempo, esse perfil comportamental
permitiria que o OLIVER conhecesse intimamente a estrutura de
valores do usuário, tornando-se cada vez mais customizado.
O primeiro exemplo conhecido de agente inteligente foi o
Advice Taker, escrito em 1950 por John McCarthy, já contendo o
que seria a principal característica desse gênero de programa –
uma vez que obtém a delegação de um ser humano, passam a
executar tarefas de forma autônoma. Essa característica viria a se
consolidar na própria denominação agente inteligente, que remete ao
conceito aristotélico de agente25. Na Filosofia, o termo agente está
ligado à noção de eu. Mais do que simplesmente se mover, um
agente age autonomamente. Um agente age orientado por
propósitos e imerso em um ambiente dinâmico. Há, inclusive, o
argumento de que o senso de ego se desenvolve a partir da
interocorrência da ação proposital e do ambiente cambiante. A
apropriação que se pretende, no jargão técnico, ao se cunhar o
nome smart agents, referia-se, originariamente, à qualquer software
com alguma tarefa específica, ou seja, um tipo peculiar de

24 LICKLIDER, 1968, p. 38.


25 Poièsis, aquilo que inicia uma ação e produz um resultado.
86 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

algoritmo que codifica uma porção de conhecimento que o


capacita a realizar a tarefa. Segundo Stuart,

uma definição satisfatória de agente no sentido em que é


comumente utilizado na A-Life [vida artificial]26 e IA
Distribuída [Inteligência Artificial Distribuída] é
provavelmente ação por uma entidade distinta, persistente
e adaptativa, que realiza tarefas especializadas em tempo
real no âmbito de um mundo virtual de software27.

Para ser efetivo, o agente tem que ser capaz de sintetizar


suas representações internas, ou seja, representar a ordem das
diferentes aparências do seu mundo, em seu próprio ponto-de-
vista. Agentes inteligentes são situados – recebem e processam
informação em tempo real, tomando decisões com base na sua
posição no mundo e o estado do mundo no momento em que a
decisão é tomada. Stuart, complementando sua definição de
agente, diz que

se um sistema artificial é denominado, justificadamente,


um agente, ele não pode operar isoladamente: ele deve ser
parte de algum sistema maior. Ele deve desempenhar
algum papel distinto no sistema maior, mas, de alguma
forma, ainda ser separável do mesmo28.

Essa definição nos lembra os equipamentos coletivos de


subjetivação, de Guattari29 ou os coletivos pensantes de Lévy: novos
ecossistemas cognitivos no seio dos quais se constrói uma nova
subjetividade, cada vez mais dependente de uma infinidade de
elementos inorgânicos. A dinâmica complexa, caótica e

26 Vida Artificial é o estudo de sistemas feitos pelo homem que exibem


comportamentos característicos de sistemas vivos naturais. Complementa as ciências
biológicas tradicionais, que se ocupam da análise dos organismos vivos, ao propor a
síntese de comportamentos ‘como-se’ vivos em computadores e outras mídias
artificiais.
27 STUART, 2002, p. 97.
28 STUART, 2002, p. 96.
29 Cf. GUATTARI, 2004, p. 178.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 87

imprevisível desse sistema implica em uma subjetividade


emergente, e não dada; distribuída, e não restrita à consciência;
que surge a partir de e de forma integrada a um mundo caótico,
ao invés de ocupar uma posição de controle.
Lévy remete a questão do agente à teoria da informação,
postulando que

tudo que for capaz de produzir uma diferença em uma


rede será considerado como um ator, e todo ator definirá
a si mesmo pela diferença que ele produz. Esta concepção
do ator nos leva, em particular, a pensar de forma
simétrica os homens e os dispositivos técnicos30.

Partindo-se dessa acepção, um agente inteligente é um


ator genuíno, inserido em um ecossistema cognitivo efervescente,
no qual cada progresso técnico significa ipso facto uma
transformação da coletividade cognitiva. Os agentes inteligentes,
como uma tecnologia intelectual exterior ao sistema cerebral somam-
se a uma rede na qual se interligam neurônios, chips, instituições
educacionais, línguas, livros, etc31. Assumir essas concepções de
agente significa aceitar ação proposital, que causa mudanças no
mundo. Portanto, significa atribuir aos agentes uma instância
intencional (na concepção dennettiana). Atribuir intencionalidade
faz com que um comportamento seja apreciado como um
comportamento de agente racional. Também significa abandonar
a perspectiva estritamente procedural, pois tipicamente não se
sabe exatamente como o agente concebe uma tarefa. Segundo
Dennett, isso é uma “bênção, desde que a tarefa de expressar
exatamente como o agente concebe sua tarefa é mal-concebida, tão
sem utilidade como um exercício de ler poemas em um livro por
meio de um microscópio”32.

30 LÉVY, 1993, p. 137.


31 Vale ressaltar o alerta de Dennett, que considera um truque peculiar aos seres
humanos a capacidade de aplicar instâncias intencionais a outras entidades. Mas, ao
fazê-lo, “corremos o risco de importar claridade demais, particularidades demais e ainda
muita organização demais aos sistemas que estamos tentando compreender”,
DENNETT, 1996, p. 43.
32 DENNETT, 1996, p. 41.
88 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

De fato, como existem agentes capazes de se


reprogramarem (aprenderem) on-the-fly (durante o uso), nem
mesmo seus criadores (escritores de software) são capazes de
conhecer integralmente seu modus operandi (todas as linhas de
código). Essa tarefa é ainda mais complexa na atualidade, quando,
usualmente, os programas são escritos por múltiplos
programadores, e nenhum deles tem conhecimento integral do
software.
Sintetizando, ao falarmos de agentes inteligentes, estamos
tratando de entidades incorpóreas, digitais, situadas no
ciberespaço33, que são pró-ativas (podem tomar a iniciativa de
realizar tarefas quando necessário), sensíveis ao ambiente,
sociáveis (podem colaborar e negociar com outros agentes e
estruturar hierarquicamente suas tarefas) e autônomos (podem
desempenhar e controlar suas operações, sem qualquer
intervenção externa).

Agentes inteligentes – aplicações

Recuperando a noção do OLIVER, talvez a principal


aplicação dos agentes inteligentes seja a de criar uma teoria de
nossas mentes – “programas auto-organizáveis, fluidos, que
fazem um levantamento de nossos gostos e interesses e os
medem com relação ao comportamento de grandes
populações”34. Lidando com padrões puramente sintáticos,
extraídos de estatísticas dinâmicas e em tempo real do uso da
internet, um agente inteligente pode chegar a fazer distinções
sutis dos gostos e preferências de um indivíduo. Esse tipo de
aplicação pode ser um embrião do que virá a ser o procedimento
para se alcançar semântica (pensamento?) a partir de
poderosíssimas capacidades analíticas de sintaxe massiva.

33Ciberespaço em um sentido amplo, que pode ir desde o espaço no disco rígido de


uma máquina até o espaço global da internet.
34 JOHNSON, 2003, p. 153.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 89

Cegueira (sintática) e clarividência (semântica): não é possível ter


uma sem uma boa dose da outra35.
Outra aplicação é o uso dos agentes inteligentes como
interfaces para a relação homem-máquina, transformando uma
relação que, em princípio, era abstrata e desprovida de sentido
para o usuário, em um processo intuitivo, metafórico e sensório-
motor – “agenciamentos informáticos amáveis, imbricados e
integrados aos sistemas de sensibilidade e cognição humana”36.
Chama a atenção o fato de que o uso de agentes
inteligentes como interfaces faz com que a dimensão especial do
software – seu registro como áreas imantadas ou não (0s e 1s) no
disco rígido – se torne uma dimensão temperamental – o
computador adquirindo personalidade. Alguns agentes
inteligentes são misantropos e sicofantas: instalados em uma
determinada máquina, registram as transações, buscando delinear
perfis comportamentais. Outros são espectros que vagam pela
internet37, coletando informações. Esse tipo de agente vem sendo
chamado de knowbot, webbot ou simplesmente bot, por causa de sua
característica de ser software especializado em coletar
informações multimodais em bancos de dados variados,
apresentado-as automaticamente, de forma estruturada e
interativa, como hiperdocumentos compostos especialmente para
uma pessoa.
Alguns agentes inteligentes são escritos segundo as leis da
emergência, planejados para explorar as mesmas regras dos
sistemas autopoiéticos, encontradas na natureza. As
características da emergência são aplicadas a instrumentos de
aproveitamento da inteligência da coletividade, como no caso dos
sistemas de recomendação personalizada de produtos. Lemos
prevê um mundo em que cada indivíduo vai ter o seu agente de
informações customizado – “um homem que não mais recebe
informações homogêneas de um centro ‘editor-coletor-

35A última frase do parágrafo é uma paráfrase do autor a uma frase originalmente de
JOHNSON, 2001, p. 152.
36 SANTAELLA, 1996, p. 204.
37 Expressão de Santaella.
90 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

distribuidor’, mas de forma caótica, multidirecional, entrópica,


coletiva e ao mesmo tempo personalizada”38.
Os agentes inteligentes serão os protagonistas de uma
cartografia dinâmica dos espaços de dados, executando filtragens
cooperativas. As novas interfaces serão cada vez mais amigáveis
ao usuário (user friendly), hápticas, auditivas, interativas em três
dimensões, com os agentes inteligentes atuando como guias nos
mapas dinâmicos do fluxo de dados. Também poderão servir
como uma espécie de reserva digital de virtualidades sensoriais,
atualizadas a partir da interação com os mundos de software e
com os seres humanos.
A tendência sinaliza para interfaces que propiciem uma
interação homem-máquina mais intuitiva e sensório-motora,
dispensando o intermédio de códigos abstratos. As fronteiras
entre o natural e o artificial se dissolvem, com o aproveitamento
de variados recursos do corpo humano – voz, visão, respiração –
como transdutores de intenções, energias e vontade, sinalizando
um futuro amálgama das inteligências em uma perspectiva
sistêmica.
No pensamento de Santaella, encontramos a noção de
que vivemos uma transformação da consciência, tendo sido
adquirida a capacidade de ciberpercepção: “a ampliação e
enriquecimento tecnológico dos nossos poderes de cognição e
percepção”39. O ser humano estaria caminhando em direção a
uma radical reconfiguração das estruturas moleculares de seu
mundo, fundada no pensamento associativo, hipermediado,
hiperconectado em um cérebro global – o hipercórtex40.
Enquanto interfaces, são ainda mediadores, ou seja, estão
entre homem e máquina. Mas já se encontram sinais de que os
agentes inteligentes passarão a se constituir elementos integrantes
do sistema cognitivo humano, tanto em sua dimensão individual
quanto no plano coletivo. Os agentes inteligentes serão próteses

38 LEMOS, 2002, p. 85.


39 SANTAELLA, 1996, p. 13.
40 A expressão hipercórtex é de Ascott.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 91

mentais41. A partir do momento em que um agente inteligente


altera o modo como nós processamos informação, consciente e
inconscientemente, ele passa a fazer parte de nós. E se integra à
“máquina virtual que a maioria de nós rodamos a maior parte do
tempo em nossos cérebros”42 simplesmente porque as suas
demandas de memória e reconhecimento de padrões tornam
imprescindível que o cérebro descarregue algumas de suas
memórias em buffers ambientais. Os agentes inteligentes se tornam
operacionais. Essa visão é compartilhada por Lévy, quando esse
afirma que

para além da memória, os softwares são outros tantos


micro-módulos cognitivos automáticos que vêm se
imbricar ao dos humanos e que transformam ou
aumentam suas capacidades de cálculo, de raciocínio, de
imaginação, de criação, de comunicação, de aprendizagem
ou de navegação na informação43.

O uso dos agentes inteligentes expande os processos de


pensar, aumentando a capacidade de manipulação de enormes
bancos de dados e a realização de operações complexas, em
situações antes inalcançáveis. Por exemplo, o problema do
quilógono, formulado por Descartes, perde seu sentido, pois um
software é capaz de criá-lo e projetá-lo em uma tela.
Acontecimentos dos quais a humanidade só tinha uma
representação matemática e especulativa, como equações
produtoras de fractais e eventos interestelares, se tornam
possíveis de representação. Similarmente à forma como a
imprensa aumentou e fortaleceu a noosfera, o computador digital
a tornou eletronicamente modificável, ordenável, armazenável e
processável.

41Entender os agentes inteligentes como próteses mentais requer a aceitação do


conceito de informação como uma entidade incorpórea que pode flutuar entre
componentes eletrônicos baseados em silício e organelas celulares de matiz carbônica.
42(DENNETT, 1991, p. 220.
43 LÉVY, 1996, p. 116.
92 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

E se na tradição escrita a inserção de um alfabeto


melhorado tornou possível a expressão de distinções mais
apuradas e nuances de sentido, é de se esperar que a evolução dos
agentes inteligentes traga novas instâncias perceptuais e cognitivas
aos humanos. E exercerem também modificações no sistema das
proximidades práticas (Lebenswelt para ciber-Lebenswelt). Há uma
alteração qualitativa na noosfera, com os agentes inteligentes
recodificando antigos conteúdos e os inserido em novos circuitos
de processamento e comunicação, retroalimentadores, com a
herança civilizatória afetando a informática e com esta
influenciando os hábitos mentais e o relacionamento com o
mundo. Está em curso uma mutação antropológica44. O hiper-
humano, explorador dos vastíssimos bancos de dados, dotado de
próteses mentais que expandem suas competências lingüísticas,
sensoriais e calculatórias, inaugura novas práticas sociais e
culturais. Mais do que um objeto técnico, o agente inteligente é
um dispositivo mediador que afeta o modo como o social institui
as coisas e o seu uso, instaurando novas relações entre os
códigos, a matéria e o agir. Lévy chama a atenção para o fato de
que essa inserção do computador digital não ocorre apenas no
plano empírico (fenômenos apreendidos graças aos cálculos) mas
também no transcendental.
Os agentes inteligentes reorganizam a visão de mundo
dos indivíduos, modificando seus reflexos mentais. A
transferência para os smart agents de um novo tipo de funções
mentais está no coração da revolução informacional, pois tal
transferência tem como conseqüência deslocar o trabalho
humano da manipulação para o de tratamento da informação.
Elementos heterogêneos como o pensamento individual, as
instituições sociais e as técnicas de comunicação se articularão aos
agentes inteligentes em coletividades pensantes, nas quais os homens
e as coisas estarão unidos, ultrapassando as fronteiras tradicionais
entre as espécies e reinos. Uma estrutura virtual, transacional,
com comunicação de dupla via em tempo real, na qual ocorrem
intercâmbios entre indivíduos cognoscentes e alteridades digitais

44 Expressão de LÉVY, 1998, p. 37.


ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 93

inteligentes. O poder desses alter egos está nas regras e estruturas


que propõem – estruturas informacionais ou algoritmos.
A escrita não afeta realmente a memória, como receou
Platão em Fedro, mas alterou a tarefa de se lembrar de tudo para
a tarefa de escrever (extrudar um símbolo) e se lembrar somente
de onde escreveu (algoritmo de compressão). Portanto, essa
característica não é uma peculiaridade dos agentes inteligentes.
Em geral, os artefatos não alteram nossas habilidades cognitivas,
mas mudam as tarefas que fazemos, quando os consideramos no
plano individual e não sistêmico45 (Capítulo 2).
Com o advento dos agentes inteligentes e a capacidade de
projeção externa dos processos básicos de formação da
consciência (interação sensorial e mental) as distinções entre
objetividade e subjetividade, antigamente fáceis, tornam-se
complicadas e as fronteiras esmaecem. No extremo, as máquinas
de realidade virtual reconstituem uma consciência artificial que é
verdadeiramente exterior ao corpo46.

Agentes inteligentes como uma das camadas (drafts) no modelo de


consciência de Dennett

Dennett trabalhou a questão da consciência em uma


perspectiva deflacionária47, considerando um mito a noção do
teatro cartesiano – um intérprete central que daria ordem ao fluxo
de consciência – o contrapondo ao seu modelo de múltiplas
camadas (multiple drafts model). Para Teixeira

de acordo com esse modelo, nosso cérebro seria quase


como uma máquina híbrida ou de arquitetura

45Johnson dá um testemunho sobre como se sente diferente ao escrever usando papel


e lápis e um computador: Nos anos em que ainda escrevia com caneta e papel, ou
usando uma máquina de escrever, quase invariavelmente elaborava cada frase na minha
cabeça antes de começar a transcrevê-la para a página. Havia um claro antes e depois no
processo: eu planejava de antemão o sujeito e o verbo, os advérbios e as orações
subordinadas; ficava ajeitando o arranjo por um ou dois minutos; e quando a mistura
parecia correta, voltava para o bloco pautado amarelo (JOHNSON, 2001, p. 105).
46 Cf. KERCKHONE, 2004, p. 60.
47 TEIXEIRA, 2000, p. 160.
94 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

computacional mista: várias máquinas paralelas acopladas


a uma máquina serial. Contudo, essa última seria uma
máquina virtual produzida pela própria ação desse
paralelismo massivo48.

Não há espaço para o homúnculo (espectador no teatro


cartesiano) e o próprio Dennett afirmou que o exorcismo do
fantasma na máquina não deixa nenhum papel para algum tipo de
centro funcional do cérebro49. De acordo com o modelo de
múltiplas camadas, o cérebro opera um processo paralelo e
multifário de interpretação e elaboração dos dados sensoriais.
Esse processo assemelha-se a um procedimento de revisão
editorial, ao final do qual escolhe-se a versão final que irá a
público. O conjunto de camadas, processadas por circuitos
especializados do cérebro, cria uma máquina joyceana50. Interessante
observar que Dennett afirma que os circuitos cerebrais se tornam
especializados “graças a uma família de hábitos, inculcados parte
pela cultura e parte por auto-exploração individual”51.
A concepção de Dennett rompe profundamente com a
noção de sujeito como individual e impermeável e se abre para a
perspectiva do ego como o resultado da atuação e interação de
circuitos (agentes) autônomos – o “eu” vira “nós”52. A
consciência é um processo múltiplo, heterogêneo, distribuído,
cooperativo/competitivo e autopoiético. Os micro-módulos dos
circuitos cerebrais especializados juntam-se em uma rede
cognitiva. Se a pessoa pensa, é “porque uma megarrede

48 TEIXEIRA, 2000, p. 161.


49 DENNETT, 1991, p. 106.
50 DENNETT, 1991, p. 228.
51 DENNETT, 1991, p. 228.
52Hayles (1999, p. 211) remete essa concepção à noção budista de que a idéia de que
uma pessoa tem de ser eu é sustentada por meio de um monólogo interno, que nada
mais é do que a estória que o ego conta para se assegurar de sua própria existência.
Outro autor, Lecourt (LECOURT, 2005, p. 104), afirma que “o que chamamos de
nossa ‘individualidade’ – desde que Diderot criou essa palavra [em francês] – nosso ‘si
mesmo’, nosso ‘ego’... não passa nunca de uma construção singular, e sempre precária.
Um ser humano – por ser humano – pode ‘se quebrar’. E todos nós conhecemos
‘mortos-vivos’ que não são mais do que os fantasmas de si próprios”.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 95

cosmopolita pensa dentro dela, cidades e neurônios, escola


pública e neurotransmissores, sistemas de signos e reflexos”53.
O que costumava ser visto como um movimento para
dentro – a construção da subjetividade e a emergência do
pensamento em algum palco no interior do cérebro – passa a ser
visto como um movimento para fora – uma gradual propagação
de propriedades funcionais organizadas através de um conjunto
maleável de mídia. O uso do termo mídia, quando se deveria
esperar algo como substrato orgânico-cerebral é proposital. A noção
de movimento para fora, implícita à concepção dennettiana,
conforme argumentado anteriormente, pode estar no centro
explicativo da pré-disposição natural do ser humano a se
relacionar com artefatos.
Outra possibilidade que se infere do modelo de múltiplas
camadas é a sua independência em relação às bases materiais do
pensamento. Ao propor a decomposição dos processos
cognitivos superiores em sistemas menores, o modelo
implicitamente assume que não importa de que é feito o sistema,
mas o que ele faz54. Portanto, um mesmo processo mental
poderia ocorrer tanto em um chip quanto em um neurônio. Ou
em um agente inteligente. Na visão de Clark, que compartilha o
modelo de consciência de Dennett, o self é uma coalizão de
processos, sendo alguns neurais, alguns corporais e alguns
tecnológicos55.
Os agentes inteligentes podem ser mais uma camada
(draft). A visão orgânica, linear e mecanicista do ser humano cede
lugar à uma perspectiva acêntrica e rizomática – aliás, a mesma
perspectiva que se aplica às novas tecnologias de informação e
comunicação. Estaríamos diante de novas subjetividades
máquinicas56, capazes de operar com a temporalidade introduzida
pelos microprocessadores e de manipular quantidades enormes
de dados. Santaella alerta que

53 LÉVY, 1993, p. 173.


54 Em uma interpretação francamente funcionalista da obra de Dennett.
55 CLARK, 2003, p. 138.
56 Conforme GUATTARI, 2004, p. 189.
96 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

na medida em que sistemas cibernéticos vão se integrando


a sistemas psíquicos, na medida em que redes neurais
artificiais vão se ligando a redes neurais biológicas, é um
conjunto cognitivo inaudito que se configura, é a
dimensão do cérebro e mente que se move na direção de
uma cultura bioeletrônica57.

Os agentes inteligentes, como uma camada, convivem na


rede instável e randômica dos fluxos de pensamento, podendo,
de quando em quando, aspirar aos seus 15 minutos de fama58.
Nesses momentos de celebridade, os agentes inteligentes
adquirem saliência e se inserem na sucessão do pensamento
consciente, não interferindo com a sensação de coerência
experimentada pelo ego.
Santaella nos traz a interrogação sobre o “que acontece
dentro da mente quando uma parte mecânica exótica, refletindo
um sistema tecnológico invisível, inteiramente estranho a todos
os processos precedentes do corpo, junta-se (seja de modo
integrado, seja como apêndice) ao corpo”59. A autora remete
parte de sua resposta ao processo evolutivo da espécie, ao longo
do qual viria ocorrendo uma gradual fusão do corpo aos
artefatos, uma condição ontológica do sistema nervoso central do
Homo sapiens que o levou, irresistivelmente, a “habitar a biosfera
nos interstícios dos signos e da sua resultante direta, a cultura”60.
A autora argumenta, ainda, que há várias possibilidades de
descorporificação, recorporificação e novas expansões não
carnais da mente, formando-se o sujeito da virtualidade como
produção das interfaces dinâmicas com o computador. Outra
parte de sua resposta nos remete à noção de sujeito freudiano (o
sujeito descentrado do inconsciente) – um ego subvertido e

57 SANTAELLA, 1996, p. 204.


58 Teixeira (TEIXEIRA, 2003, p. 161) lembra que Dennett nos diz que a consciência é
similar à fama, aludindo à frase famosa de Andy Warhol de que cada ser humano teria o
direito a ser famoso por quinze minutos.
59 SANTAELLA, 2003, p. 227.
60 SANTAELLA, 2003, p. 211.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 97

disperso pelo espaço social. Na performance do pensamento,


“ser humano e máquina estão tão interligados que a natureza de
cada um não é mais discernível”61.
Land62 chama a atenção para o fato de que o modelo de
consciência de Dennett aplaca suas verves libertárias por
configurar um indeterminismo endógeno. A cada instante, o
cérebro geraria aleatoriamente uma variedade imensa de
possibilidades de ação, diante da qual se daria a decisão. Essa
seria, para Dennett, o momento privilegiado de nascimento do
pensamento: “o pensamento começa no que pode ser
apropriadamente chamado de uma encruzilhada [forked-road
situation], uma situação ambígua, que apresenta um dilema, o qual
propõe alternativas”63. Tomar uma decisão é fazer uma seleção
naquela variegada produção cerebral.
É a partir dessa noção que Dennett tenta compreender a
consciência como um espaço semântico. Em princípio, o cérebro
e suas produções aleatórias (camadas) é um engenho puramente
sintático (manipulador de signos). Como órgão físico, reage a
alterações de ordem física (estímulos), obedecendo propriedades
estruturais e formais. A extração da consciência (semântica) de
um substrato puramente sintático seria como distinguir entre um
comportamento ditado pela razão ou movido pela razão64.
A perspectiva dos agentes inteligentes como uma das
camadas no modelo de consciência de Dennett harmoniza-se
com os pressupostos de sua teoria cognitiva: a percepção é maior
do que a experiência; o conteúdo da experiência singular inclui
tudo o que entre pelos órgãos sensoriais e chegue à memória; a
experiência, a qualquer momento, transcende a capacidade
verbal-descritiva do sujeito; a experiência transcende o foco de
atenção do sujeito65.

61 SANTAELLA, 2004, p. 129.


62 Land, 2001.
63 DENNETT, 1991, p. 11.
64 A argumentação do parágrafo é inspirada em LAND, 2001, p. 146.
65 Cf. DENNETT, 1998, pp. 169-170.
98 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

Agentes inteligentes como um módulo no modelo de Fodor

Fodor introduziu a noção de processos psicológicos


verticais e modulares, como base para comportamentos
biológicos coerentes, a partir de uma compreensão de que a
organização do comportamento é um fator derivado da estrutura
mental e não o contrário. Fodor assume os processos mentais
como computacionais, além de cognitivos, ou seja, todo processo
cognitivo é um processo computacional, com base na premissa de
que uma função típica dos mecanismos cognitivos é realizar a
transformação de representações mentais. Para esse autor, há
“sistemas cognitivos distintos funcionalmente, cujas operações
cruzam domínios de conteúdo”66 que seriam faculdades mentais
horizontais (ie memória, julgamento). E haveria faculdades
verticais67, domínio-específicas, determinadas geneticamente,
associadas à estruturas neurais distintas e computacionalmente
autônomas. O fato das faculdades verticais serem domínio-
específicas faz com que sua aplicação seja restrita a um
determinado tipo de situação. O ser geneticamente determinadas
significa que as faculdades verticais são independentes de um
processo de aprendizado. São hardwired, associando-se
diretamente a circuitos neurais específicos, localizados e
estruturalmente elaborados. E são computacionalmente
autônomas68.
Os principais candidatos a módulos (como Fodor viria a
batizar as faculdades verticais) são os sistemas perceptuais. As
células da retina que transformam a luz que as atravessa não
computam, por si mesmas, a freqüência espacial ou a imagem

66 FODOR, 1996, p. 13.


67 Fodor indica e dá o devido crédito ao trabalho de Franz Joseph Gall, como fonte
inspiradora de seu conceito de faculdades verticais. Gall foi o fundador da frenologia e
acabou sendo desacreditado quando a própria frenologia caiu em descrédito. Hoje se
reconhecer que, apesar de suas imperfeições, o trabalho de Gall foi importante por ter
mudado a abordagem às questões do cérebro.
68Pesquisas neurocientíficas da topologia neuronal de fato identificaram dois espaços
computacionais no cérebro: processadores especializados, modulares, encapsulados e
automáticos; e espaços globais, com neurônios dotados de axônios muito compridos,
que difundem sinais para múltiplas áreas, fomentando a experiência subjetiva.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 99

resultante. Mas há um processo causal cujas entradas (luz) e


saídas (imagem resultante) podem ser caracterizadas formalmente
(em termos de freqüência espacial). As células retinóides são
mecanismos causais mediadores que contribuem para o processo
cognitivo superior de representação de um objeto no mundo.
Uma visão do mental que contemple a questão dos
módulos, na perspectiva apresentada por Fodor, assemelha-se a
visão de um canivete suíço, com o cérebro apresentando lâminas
específicas para tarefas diversas, cada uma das lâminas sendo um
resultado do processo evolutivo específico da espécie.
Curiosamente, há uma grande sintonia entre a proposição de
modularidade de Fodor e as propostas de um pioneiro da
computação, Alan Turing:

muitas partes de um cérebro humano são circuitos neurais


definidos, necessários para propósitos bem específicos.
Exemplos desses circuitos são os ‘centros’ que controlam
a respiração, espirros, seguir objetos em movimento com
os olhos, etc.: todos os reflexos nativos (não
condicionados) são devidos a atividades dessas estruturas
definidas no cérebro69.

Como implicação, temos que a cognição pode ser


modelada por meio de agentes discretos e autônomos, rodando
um programa escrito para a realização de uma tarefa específica e
operando de forma relativamente independente. Os processos
cognitivos gerados por esses módulos, que se apresentam no
plano consciente como seqüenciados e centralizados, são a
resultante das interações paralelas e descentralizadas dessas
unidades básicas e bem definidas. Essa base, inata segundo
Fodor, seria o alicerce de nossa capacidade universal de exercer
funções cognitivas.
Fodor propõe que nosso modo de conceber estados
psicológicos como atitudes proposicionais encontra um substrato
real na forma como o cérebro opera as manipulações das
representações codificadas em linguagem do pensamento, por

69 TURING, 1948/2004, p. 423.


100 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

meio do mecanismo computacional. A ação ocorre como


resultante de uma operação computacional sobre as
representações de conteúdos proposicionais codificados e
encapsulados em algum circuito cerebral. Nos dizeres de Land,
“Fodor acredita que exista uma linguagem do pensamento
cerebral, através de cujos termos nos é permitido pensar e,
ocasionalmente, expor publicamente através de palavras e ações
os resultados dos processos computacionais sobre esta
linguagem”70.
A mente é um computador neural, dotado de algoritmos
combinatórios para o raciocínio causal e probabilístico, gerados
pelo processo evolutivo. A metáfora computacional, aqui,
direciona para uma possível independência entre processos
cognitivos e bases materiais, o que deixa espaço para se conceber
a existência de módulos (faculdades verticais) exteriores – os
agentes inteligentes. Essa perspectiva está em consonância com
pensamento de Lévy, quando esse afirma que

As tecnologias intelectuais não se conectam sobre a mente


ou o pensamento em geral, mas sobre certos segmentos
do sistema cognitivo humano. Elas formam, com estes
módulos, agenciamentos transpessoais, transversais, cuja
coerência pode ser mais forte do que algumas conexões
intrapessoais71.

O Quadro 1 traz uma tentativa sintética de comparação


entre os conceitos de módulos e os de agentes inteligentes.

70 LAND, 2001, p. 49.


71 LÉVY, 1993, p. 173.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 101

Quadro 1. Agentes Inteligentes x Módulos


Agentes Inteligentes Módulos
Situados Localizados
Sensíveis a variações no ambiente Respondem a estímulos
Colaborativos Colaborativos
Autônomos Autônomos
Encapsulados Geneticamente determinados
Programação orientada a objeto Domínio-específicos
Orientados para tarefas (task-driven) Orientados para tarefas (task-driven)

Quando um homem inclui um agente inteligente no


computador, está, na verdade, incluindo a máquina computadora
em si, no seu pensamento. O fato de o agente inteligente ser
fisicamente exterior ao homem constitui uma diferenciação
desejada, prevista e calculada: o smart agent vai elaborar
tecnicamente a tarefa que o pensamento não precisará mais fazer:

o computador tornou possível que a saturação da


hipercomplexidade simbólica estourasse na irrupção do
ícone. Tradução intersemiótica instantânea do inteligível
(equações numéricas) em sensível (dinâmica da forma
multiluzcor na sua mais pura nudez qualitativa). Conexão
imediata da abstração inteligente com as turbulências
sensórias na percepção72.

Não coincidentemente, Fodor apontou os sistemas


perceptuais como candidatos naturais a módulos – são justamente
os sentidos que crescem mais rapidamente para fora do corpo.
Alterações nos processos mentais e sensório-perceptivo-corporais
causam a formação de um novo tipo de sensibilidade. Para
compreendê-lo, não se trata mais de olhar para o que está no
cérebro, mas para em que o cérebro está. Essa predisposição
cerebral à incorporação de módulos (internos ou externos) pode
estar na base da afirmação de Clark: “finalmente, você se dá conta
de usar os agentes inteligentes apenas da mesma forma, atenuada

72 SANTAELLA, 1996, p. 251.


102 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

e paradoxal, com que você se dá conta de usar seu córtex parietal


posterior”73.
Os processos cognitivos superiores (faculdades
horizontais) seriam uma propriedade emergente das interações
entre elementos naturais e artificiais, das informações ambientais
e da estrutura cerebral, herdada da evolução. A fusão entre
agentes inteligentes e o organismo biológico rompe a distinção
homem-máquina, tanto quanto a explicação do comportamento
por meio de teorias cibernéticas (feedback), estruturas hierárquicas
e controle dissipa a distância entre animado e inanimado.
A fraqueza da abordagem de Fodor está no momento em
que o autor passa a tratar das faculdades horizontais. Essas seriam
não-modulares, desencapsuladas informacionalmente e
representariam o local de interface das representações oriundas
dos diversos módulos. No argumento de Fodor, a existência
desses processos cognitivos desencapsulados é importante por
que

a domínio-especificidade tem a ver com o leque de


questões para as quais um dispositivo fornece respostas (o
leque de entradas para os quais ele computa análises),
enquanto que o encapsulamento tem a ver com o leque de
informações que o dispositivo consulta ao decidir quais
respostas fornecer74.

Isso seria um explicador para a infinita variabilidade de


respostas que o ser humano é capaz de dar às variações
contingenciais.
As faculdades horizontais (chamadas por Fodor de
sistemas centrais) analisam os dados dos módulos, comparam
com o que existe na memória, e então usam essa informação para
restringir a computação às melhores hipóteses sobre a realidade.
Na verdade, as explicações de Fodor para os sistemas centrais
permanecem inconclusivas e lembram o teatro cartesiano. Fodor
assume explicitamente essa fraqueza: “quanto mais global um

73 CLARK, 2003, p. 31.


74 FODOR, 1996, p. 103.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 103

processo cognitivo é, menos se consegue entendê-lo. Processos


muito globais, como o raciocínio analógico, não são
compreensíveis de nenhuma maneira”75.
Contudo, esse autor prevê progressos na compreensão
científica das faculdades verticais (módulos, sistemas
subsidiários), inclusive com a possibilidade de identificação de
correlatos neurais a essas funções (token-identity). Nas palavras de
Fodor, “o fantasma foi caçado mais para o fundo da máquina,
mas ainda não foi exorcizado”76.

Problemas com agentes inteligentes

Em 9 de abril de 2006, o jornal The New York Times


apresentou uma bizarra manchete auto-referente: This Boring
Headline is Written for Google. A reportagem discutiu o crescente
peso dos webbots na definição da formulação dos títulos das
reportagens, uma vez que 30% do tráfego em um site de notícias
é canalizado pelos agentes inteligentes. Para o autor da
reportagem, os agentes inteligentes são

resplandencemente rápidos, ainda que estupidamente


literais. Não há algoritmos capazes de lidar com
sagacidade, ironia, humor, ou estilo. O software é um
leitor lógico, seqüencial e que usa o lado esquerdo do
cérebro, enquanto os humanos geralmente usam o lado
direito77.

O fato é que a difícil arte de compor manchetes atrativas


vem cedendo espaço para expressões mais literais, factuais e que,
de preferência, indiquem duas ou três palavras-chave muito
expressivas.

75 FODOR, 1996, p. 107.


76 FODOR, 1996, p. 127.
77 LOHR, 2006.
104 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

Para Jaron Lanier, “os agentes fazem com que as pessoas


se redefinam em seres menores”78. Um modelo das preferências
do sujeito definido por uma algoritmo de agente inteligente é uma
caricatura do sujeito, que, por sua vez, passa a enxergar o mundo
por meio da versão caricaturizada apresentada pelo agente, em
um ciclo recursivo de feedback positivo. Lanier insiste na sua
argumentação, afirmando que “nós, como o resto da natureza,
estamos sempre um passo a frente de nossas melhores
interpretações”79.
A suposta humanização da máquina se torna, na verdade,
uma desumanização do homem. Para Johnson, “não é que a
tecnologia escrava fique mais forte do que nós e aprenda a
desobedecer nossas ordens – mas sim que nós deterioremos ao
nível das máquinas. A tecnologia inteligente nos torna mais
estúpidos”80. Podemos encontrar essa preocupação também em
Mumford, quando esse afirma que “a mecanização do trabalho
humano foi, com efeito, o primeiro passo rumo à humanização
da máquina – humanização no sentido de dar ao autômato alguns
dos equivalentes mecânicos da aparência de vida”81.
Shirky82 apresenta alguns argumentos contra o uso de
agentes, começando pela afirmação de que o desempenho dos
agentes degrada com o crescimento da rede. Por sua natureza, os
algoritmos dos agentes inteligentes são concebidos para operar
no limite máximo da performance, o que significa, em um
ambiente web, consultar todas as fontes disponíveis de
informação. A tarefa dos agentes inteligentes é bem mais
complexa do que a dos sicofantas atenienses. Seu tempo de
execução, dependente de progressos movidos à velocidade
mooreana (que dobra aproximadamente a cada dezoito meses),
perde a corrida para a velocidade de crescimento do ciberespaço

78 LANIER, 1995, p. 76.


79 LANIER, 1995, p. 77.
80 JOHNSON, 2003, p. 92.
81 MUMFORD, 1963, p. 146.
82 Shirky (2006).
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 105

(que dobra a cada quatro meses83). Shirky também alega que “os
agentes são solicitados a fazer aquilo no que os homens são bons
(pensar) e os homens a fazer aquilo no que as máquinas são boas
(esperar)”84.
Os programadores precisam definir o problema em
termos rigorosos o suficiente para que possam ser tratáveis pelas
máquinas, o que significa ter predisposição para esperar enquanto
a máquina executa o algoritmo. Ou seja, estaríamos próximos de
realizar o sonho central dos programas de Inteligência Artificial,
com a relegação do homem a um papel de checagem depois que
as máquinas tenham feito todo o processamento.
Uma consideração importante relativa aos smart agents é
que os dados não são estáticos nem insensíveis às demandas do
agente. Um agente, ao executar suas buscas, não fornece somente
informações sobre oferta, mas também sobre demanda, afetando
assim as condições do mercado informacional. Os agentes
inteligentes podem esterilizar a diversidade, ao promoverem uma
exacerbação da percepção seletiva, propiciando sempre mais do
mesmo85. Um site muito visitado atrai muitas abelhas, que
produzem muito mel, que atrai mais abelhas, como ocorre
caracteristicamente nos processos recursivos de orientação
positiva. O uso recorrente de agentes pode levar ao efeito de
tunelização, ou restrição severa dos dados admitidos como
válidos pelos sistemas perceptuais – uma percepção estreita.

83 Mooreana é uma referência à Lei de Moore, que constata a duplicação do poder de


processamento dos chips a cada dezoito meses. A referência à velocidade de
crescimento do ciberespaço foi extraída de SHIRKY, 2006.
84 SHIRKY, 2006.
85 Sobre percepção seletiva e seus malefícios, vale lembrar uma passagem de Leibniz:
“todavia, não se deve dissimular que por ações voluntárias contribuímos muitas vezes
indiretamente para outras ações voluntárias, e embora não possamos querer o que
quisermos, como não se pode nem mesmo julgar o que quisermos, podemos, todavia,
fazer, com antecedência, com que julguemos ou queiramos com o tempo o que
gostaríamos de poder querer ou julgar hoje. Agarramo-nos às pessoas, às leituras e às
considerações favoráveis, a um certo partido, e não se dispensa atenção ao que vem do
partido contrário, e por este meio e mil outros que utilizamos o mais das vezes sem
deliberação e sem pensar nisso, conseguimos enganar-nos ou pelo menos mudar-nos e
converter-nos ou perverter-nos conforme aquilo que encontramos” (LEIBNIZ,
1765/2004, p. 164).
106 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

Um leitor de jornais que não goste de esportes pode ter


seu interesse casualmente despertado por um evento aleatório
(como um acidente com um esportista famoso). No âmbito de
um agente inteligente programado para fornecer notícias de
acordo com o perfil definido pelo usuário, esse leitor não
receberia as matérias esportivas – não leio porque não li, e não li
porque não leio. Segundo Lemos,

se os agentes podem ser reais instrumentos de tele-ação


aberta no mundo, eles também podem tornar-se
instrumentos de nossa própria prisão, na medida em que o
acaso, os encontros inesperados, estão, de certa maneira,
descartados pela certeza utilitária do programa86.

O uso crescente dos agentes inteligentes pode significar


uma tomada de poder do cálculo sobre a linguagem, que fica
dominada à operatividade do formal. O ser dotado de linguagem,
por sua vez, fica relegado à forma do mecanicismo. Enquanto
que nos humanos é possível se conviver com a indecidibilidade –
ser ou não ser – nos agentes inteligentes uma decisão é sempre
necessária. Uma negociação entre dois agentes inteligentes é uma
discussão sintática, com acordo automático no mínimo
denominador comum, não existindo espaço para resultados
imperfeitos.
O marketing do futuro será a arte de controlar os agentes
inteligentes: “contra-agências vão conseguir informação sobre as
entranhas dos agentes, com o objetivo de atraí-los como flores
fascinam abelhas. Os cidadãos comuns da internet não terão essa
informação, por isso não atrairão abelha alguma e se tornarão
invisíveis”87.
Outra dimensão importante quanto ao uso dos agentes
inteligentes é a da responsabilidade. Um dos pontos mais
fundamentais para a atribuição de responsabilidade é a definição
sobre o que é um agente capaz. Há fundos de investimento
operados exclusivamente por agentes inteligentes – quando as

86 LEMOS, 2002, p. 18.


87 JOHNSON, 2001, p. 136.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 107

decisões derem errado, de quem será a culpa? Para Johnson, os


agentes inteligentes contrariam a tendência de dotar o usuário de
poder, ao darem às máquinas autoridade para tomar decisões por
nós: “é essa nova autoridade que dota o agente inteligente de sua
inteligência”88.

88 JOHNSON, 2001, p. 132.


CAPÍTULO 5
A INTELIGÊNCIA EXPANDIDA
A inteligência sem fronteiras

A pretensão de simular a inteligência humana é antiga e


suas origens não são possíveis de serem rastreadas na história. Há
indícios de preocupação com autômatos já no pensamento grego.
Porém, a Inteligência Artificial como um campo de pesquisa
delineou-se a partir do final da década de 1950, quando também
surgiam e estavam em franco desenvolvimento os primeiros
computadores digitais.
Por suas peculiaridades, os computadores digitais, como
máquinas de finalidades gerais, baseados na Máquina de Turing,
representavam, pela primeira vez, a possibilidade real de
materialização da inteligência humana em outro tipo de mídia,
que não o tecido cerebral humano.
Em seu início, a Inteligência Artificial mesclava a
abordagem da então incipiente ciência cognitiva com a ciência da
computação e tinha como propósito a criação de modelos
computacionais para a compreensão da cognição humana. Nas
duas décadas iniciais de seu desenvolvimento, a Inteligência
Artificial assumiu como projeto a construção de softwares que
teriam a capacidade de igualar o comportamento humano
inteligente. Posteriormente, essa linha inicial de pesquisa veio a
ser chamada de GOFAI – Good Old-fashioned Artificial Intelligence1.
Em seu fundamento filosófico, a GOFAI assumiu um
controverso posicionamento entre o cartesianismo dualista e o
materialismo monista, que Floridi chamou de materialismo
computacional. Para Floridi, essa posição estabelece que a
inteligência é “biologicamente independente do corpo e a-social,
mas também completamente independente da mente e, portanto,

1 A sigla foi criada em 1981 pelo filósofo J. Haugeland e significa, em uma tradução
literal, a boa e velha inteligência artificial.
110 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

implementável por um (sem cérebro, sem mente e sem vida)


sistema lógico-simbólico de finalidades gerais”2.
Considerada como algo independente do corpo e
essencialmente individual, a concepção de inteligência mantém
uma perspectiva dualista, fortemente criticada pelas posições mais
recentes das ciências cognitivas. Como independente da mente e
passível de ser implementada em outros dispositivos, que
alcancem os mesmos resultados, por meio de processos
inteiramente diversos, a inteligência é compreendida de forma
materialista. A combinação das duas perspectivas, originariamente
almejada pelo chamado materialismo computacional, revela-se
uma impossibilidade teórica e prática.
Sustentar o materialismo computacional, portanto,
significava aceitar uma vertente funcionalista combinada a um
reducionismo, que iguala a inteligência à computabilidade. Essa
redução se torna possível mediante a igualdade primeira entre
inteligência e raciocínio, e entre o raciocínio e o processamento
de símbolos, em um segundo momento. Uma das grandes
dificuldades dos pesquisadores da GOFAI foi deixar de entender
que [inteligência = raciocínio = processamento de símbolos =
computação] era um reducionismo e não uma equação a ser
entendida literalmente. Teixeira corrobora essa visão, ao
argumentar que “por trás da GOFAI está o paradigma simbólico,
ou seja, a noção de que a mente é um sistema formal que
manipula símbolos (representações) através de programas
computacionais que resolvem problemas”3.
Apesar dessas dificuldades conceituais, a GOFAI foi
aplicada com êxito em diversas áreas, como demonstração e
prova de teoremas, jogos, planejamento comportamental de
robôs por meio de análises de meios e fins, sistemas especialistas,
percepção acústica e visual e reconhecimento de padrões. Todas
essas áreas apresentam alguns pontos em comum: são
computáveis, independentes em relação à experiência, ao corpo e
ao contexto. Esses pontos em comum não são devidos ao acaso,

2 FLORIDI, 1999, p. 133.


3 TEIXEIRA, 2005, p. 35.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 111

mas decorrem do fato de que um computador é capaz de realizar


tarefas inteligentes desde que seja capaz de internalizar todos os
dados relevantes. Por essa razão, as aplicações da GOFAI são
limitadas à domínios muito restritos, a partir dos quais os
programadores criam micromundos. Esses, por sua vez,
representam uma combinação “dos compromissos ontológicos
que os programadores assumem quando concebem o sistema e
que desejam que o sistema adote”4.
Essa forte restrição de domínio leva a GOFAI a um
paradoxo: quanto mais restrito o domínio e, portanto, mais
passível de formalização, mais viável é o desenvolvimento de
aplicações, porém menos inteligentes parecerão as mesmas5. Ou
seja, na verdade não há uma inteligentificação das máquinas, mas sim
uma estupidificação da inteligência. Uma não-restrição do domínio,
contudo, leva a problemas insuperáveis para a Inteligência
Artificial, tais como a explosão combinatorial e a rigidez de
estrutura6.
Com o tempo, surgiu uma nova abordagem no campo de
pesquisa, que veio a ser conhecida como Light Artificial Intelligence
– LAI. Ao invés de se propor a construir hardwares e softwares
para igualar a inteligência, a LAI busca se orientar para a
consecução das tarefas e a resolução dos problemas. Assim, a
pesquisa em Inteligência Artificial tenta se desvencilhar dos
resquícios do dualismo cartesiano, por meio de uma abordagem
mais estritamente funcionalista, a qual abrange a compreensão de
que diferentes tarefas podem ser realizadas de modos muito
distintos. No nascedouro da LAI estava a concepção de que
“tarefas inteligentes poderiam ser realizadas por dispositivos que
não teriam a mesma arquitetura nem a mesma composição
biológica e físico-química do cérebro humano”7. A questão
essencial, então, passa a ser se existe uma forma computacional

4 FLORIDI, 1999, p. 146.


5 Uma das grandes queixas dos defensores da Inteligência Artificial é justamente que a
cada nova conquista da mesma, seus antagonistas reagem dizendo que o que se
conseguiu, na verdade, não tem a ver com inteligência.
6 Cf. TEIXEIRA, 2004, p. 40.
7 TEIXEIRA, 2004, p. 60.
112 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

de resolver uma determinada tarefa. Ao invés de estupidificar a


inteligência, trata-se de estupidificar o processo por meio do qual se
resolve o problema.
A nova abordagem representou um grande avanço,
permitindo o desenvolvimento de aplicações de Inteligência
Artificial ainda mais bem-sucedidas e utilizadas em uma variedade
maior de problemas. No entanto, para alcançarem sucesso, as
aplicações de Inteligência Artificial continuaram restritas a lidar
com problemas claramente definidos, tarefas que sejam redutíveis
a seqüências de procedimentos heurísticos com propósitos
específicos e instruções repetitivas. Na visão de Floridi, isso de
deve à própria natureza dos computadores, que operam
basicamente por meio de sua capacidade de detectar e processar
uma relação diferencial, usualmente binária, e proceder
inferencialmente a partir dessa base. Segundo esse autor, “nós
precisamos não esquecer que apenas sob condições especialmente
determinadas uma coleção de relações diferenciais detectadas,
concernentes a algum aspecto empírico da realidade, pode
substituir o conhecimento experiencial direto desse”8.
Nem toda situação experiencial – nem todo o
conhecimento gerado pelas mesmas – é passível de ser traduzida
em relações diferenciais binárias, que são ordinariamente
empregadas pelos computadores digitais em seus processos
inferenciais. A questão essencial e relevante, conforme
Churchland, torna-se, então: “se as atividades que constituem a
inteligência consciente são, todas elas, algum tipo de
procedimento computacional”9.
Existe um limite na computabilidade, relacionado
diretamente à possibilidade de desenvolvimento de um algoritmo
para a resolução dos problemas, uma vez que há problemas que
não podem ser homogeneizados por estados definidos e, por
conseguinte, não são tratáveis algoritmicamente. Segundo o
pensamento de Teixeira, “estamos a anos-luz de distância de
replicar a inteligência, seja em computadores, seja em robôs. Os

8 FLORIDI, 1999, p. 215.


9 CHURCHLAND, 2004, p. 171.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 113

problemas a serem enfrentados ainda são gigantescos e, em sua


grande maioria, mais conceituais do que propriamente
técnicos”10.
O próprio conceito de inteligência permanece,
assumidamente, vago, o que torna ainda mais difícil a tarefa de
reconhecer uma inteligência artificial. Porém, caso se adote uma
linha funcionalista, de buscar as três características mais
comumente associadas à inteligência (compreensão, capacidade
de solução de problemas e aprendizagem), qualquer entidade que
apresente esses três atributos pode reivindicar o status de
inteligente. Essa é a vereda que vem sendo percorrida pelos
pesquisadores de IA. Ao invés de se engalfinharem na
controvérsia sobre a natureza da inteligência humana, definem
suas metas em termos empíricos e operacionais. Nessa
perspectiva, funcionalista, uma definição de inteligência é
desnecessária.

Agentes inteligentes e a noção de agente

No sentido aristotélico, agente é o que faz a ação.


Interessante observar que Aristóteles, em sua Poética, admitia a
possibilidade de uma peça sem personagens, mas não a de uma
peça sem ação, o que significa que o papel de agente não
precisaria necessariamente ser incorporado por um personagem.
Aristóteles delineou quatro critérios para personagens dramáticas,
que podem ser aplicados a softwares11. O primeiro critério é ser
bom, ou virtuoso, no sentido de completar com êxito sua função.
Bons personagens fazem o que seus criadores desejam que eles
façam, no contexto do drama que se desenrola. O segundo
critério é ser apropriado às ações que realiza. O terceiro critério é
que os agentes sejam como reais, no sentido de que existam
conexões causais entre seus traços e suas ações. O quarto critério
é que o agente seja consistente, ou seja, não apresente mudanças
arbitrárias em seu comportamento.

10 TEIXEIRA, 2004, p. 64.


11 Essa possibilidade foi levantada por LAUREL, 1993.
114 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

Adotando-se essa perspectiva, qualquer programa de


computador que execute uma ação pode ser considerado um
agente. No cotidiano, em sua relação com os computadores, as
pessoas já se acostumaram a lhes atribuir pressupostos de agência
– “eu fiz isso e o computador travou” ou “o processador de
textos perdeu toda a formatação do documento”. Esse
comportamento pode ser explicado nos moldes colocados por
Dennett, quando esse afirma que em relação a máquinas
complexas a melhor postura a ser adotada é a postura intencional.
Em termos sociais e legais, um agente é algo ou alguém
que tem o poder de agir no lugar de outrem. Essa perspectiva
levanta a questão da responsabilidade. E já começa a trazer
discussões inusitadas. A Coréia do Sul, em um projeto liderado
pelo governo (Ministério do Comércio), decidiu elaborar um
código de ética para as máquinas, despudoradamente inspirado
nas três leis da robótica propostas por Isaac Asimov, em seu
conto de ficção científica Runaround. Na verdade, o termo
roboética (roboethic) já tinha sido criado pelo cientista italiano
Gianmarco Veruggio (então líder do departamento de Robótica
do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália), em 200212.
A seguir, apresentamos argumentos favoráveis e
contrários à possibilidade de que a denominação agente
inteligentes deixe de ser considerada uma metáfora, oriunda de
nossa tendência à antropomorfização dos objetos, e passe a ser
aceita em sua literalidade.

Argumentos contrários

Dennett apresenta três posturas possíveis perante o


mundo e as coisas. A postura objetal, a postura de design e a
postura intencional. Para esse autor, deve-se tratar como agente
“de fato um agente racional, cujas crenças básicas, desejos e
outros estados mentais que exibem intencionalidade ou ‘aboutness’
e cujas ações possam ser explicadas (ou previstas) com base no

12Informação sobre a discussão do código de ética para robôs extraída de CORÉIA...,


2007, f4.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 115

conteúdo desses estados”13. Os agentes inteligentes, por sua


natureza, candidatam-se quase que naturalmente a serem tratados
pela postura intencional.
Boden argumenta que a postura intencional decorre de
uma analogia profunda entre a forma de funcionamento do
organismo humano e a da máquina14. As intenções, no orgânico,
teriam a função de controlar as operações corporais executadas
para atender aos propósitos valorizados pelo agente. Uma teoria
de cunho psicológico para entender a intencionalidade precisaria
iniciar pela especificação das micro-operações corporais básicas a
partir das quais surgem os macro-efeitos intencionais. As
unidades corporais responsáveis pela execução dessas micro-
ações são simples e procedurais, e as realizam de forma
automática. Tanto o orgânico quanto o inorgânico seriam capazes
de ser palco para a emergência de comportamento complexo a
partir da interação de uma multiplicidade de micro-agentes,
seguindo regras muito simples.
Na linha do pensamento de Boden,

por analogia, uma instrução de computador de alto nível


(em uma linguagem de programação) pode ser analisada
em uma série de instruções em código de máquina, mas se
alguém perguntar como qualquer uma dessas é efetivada, a
única resposta possível se dará em termos eletrônicos (e
não programáticos)15.

Há quem enxergue nos processos emergentes uma via


para o surgimento da semântica a partir da sintática, uma
tendência de inspiração antiga. Descartes, analisando a formação
de sentido das palavras, percorre um caminho que vai de
mecanismos puramente sintáticos (excitações da glândula pineal)
ao semântico:

13 DENNETT, 1991, p. 76.


14 BODEN, 1981, pp. 145-146.
15 BODEN, 1981, p. 146.
116 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

as palavras, que excitam na glândula movimentos, os quais


segundo a instituição da natureza, representam para a alma
somente o som delas, quando são proferidas com a voz,
ou com a figura de suas letras, quando são escritas, e que
no entanto, pelo hábito que adquirimos pensando no que
elas significam quando ouvimos seu som ou então quando
vemos suas letras, costumam levar a conceber esse
significado e não a figura de suas letras ou o som de suas
sílabas16.

Os programas podem servir para explicar como as


intenções surgem, com como a forma pela qual os efeitos
complexos da intencionalidade se compõem a partir das
operações de nível mais baixo, mas somente o hardware pode
explicar satisfatoriamente a base causal das intenções.
A questão da intencionalidade está no centro da discussão
quanto à adequação de se atribuir ou não status de agente aos
computadores e programas. Os argumentos dos que são
contrários a essa heresia fundamentam-se no fato de que os
computadores são construídos deliberadamente para funcionar
como incorporações de programas (sistemas representacionais)
cujo sentido é atribuído pelos seres humanos. Portanto, qualquer
eventual interesse do computador não seria intrínseco à sua
natureza, mas sempre um interesse parasitário do interesse
humano. Apesar de apresentar comportamento inteligente, como
não tem uma inteligência genuína subjacente, o computador seria
um produtor de efeitos sem causas.
Muitos dos defensores da Inteligência Artificial escolhem
ignorar a questão da (falta de) intencionalidade, que remete à
existência de um sujeito consciente, vivo, que pensa, calcula,
escolhe, age e persegue objetivos porque tem necessidades,
desejos, temores, esperanças, prazeres. Na base do humano há
um sentimento profundamente enraizado, de falta, “sentimento
de incompletude, está sempre a vir para ele, incapaz de coincidir
com o si na plenitude imóvel do ser que é o que é”17.

16 DESCARTES, 1649/1998, p. 65.


17 GORZ, 2005, p. 92.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 117

O computador seria um dispositivo exclusivamente


procedural, que executa suas tarefas apenas quando disparado
pelo usuário, cujo comando gera uma série estável de alterações
em impulsos elétricos, que são então traduzidos pelo software.
Turing já sinalizava para o problema:

quando um computador humano está trabalhando em um


problema ele pode usualmente aplicar uma dose de senso
comum para ter uma idéia de quão apuradas são suas
respostas. Com um computador digital, nós não podemos
mais contar com o senso comum, e os limites dos erros
precisam ser baseados em algumas desigualdades
provadas18.

A abordagem computacional tenderia a se apegar ao


formalismo, às representações simbólicas e às referências lógicas,
buscando a certeza, a correção, a completude e o detalhe, ao
mesmo tempo em que elimina a ambigüidade. Por causa desse
alto grau de formalização e abstração, “o âmbito de
intermediação entre idéia e resultado é completamente
compreendido no interior da dimensão simbólico-racional, na
qual devem ser utilizadas uma operatividade lógico-
matemática”19.
O computador executa operações sobre sinais sem evocar
as idéias correspondentes, uma espécie de pensamento cego. Nos
dizeres de Gorz,

trata-se de um ‘pensar sem pensamento’, ou seja, de um


pensamento que não precisa ser penado nem entendido
por nenhum sujeito, pois funciona como uma ‘máquina
simbólica’, cujos modos de operação simbolicamente
cifráveis, realmente, provocam, sem rodeios por
consciências, efeitos diretos no real20.

18 TURING, 1947/2004, p. 391.


19 CAPUCCI, 1997, p. 131.
20 GORZ, 2005, p. 83.
118 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

No suposto pensamento da máquina estariam ausentes o


sujeito, a percepção, a referência a objetos exteriores passíveis de
representação ou presentificação. É um pensamento livre das
amarras – internas e externas – da experiência, operando apenas
com signos e suas relações. A máquina computacional, operando
às cegas, é incapaz de recuar para fora da tarefa em execução e
examinar o que já foi feito, restando impossibilitada de notar
mesmo os fatos mais óbvios a respeito do que está fazendo.
Segundo Hofstadter, “a diferença, portanto, é a de que é possível
para uma máquina agir sem observar; e é impossível para um ser
humano agir sem observar”21.
Quando o autômato cego executa o algoritmo, a potência
operatória passa ao primeiro plano. Norman defende que os
processos de pensamento dos humanos não são como a lógica
matemática das máquinas: “na verdade, se os processos de
pensamento dos humanos fossem como os da lógica, nós não
teríamos precisado inventar a lógica como uma ajuda ao
pensamento. A lógica é importante porque ela é diferente”22.
Os processos da lógica formal ignoram conteúdo e
contexto (pensamento cego que opera sobre representações
simbólicas), enquanto que o pensamento humano trabalha
juntamente o contexto e o conteúdo dos problemas. De fato, a
lógica, em uma acepção técnica, não se refere à racionalidade em
geral, mas à inferência da verdade de uma afirmação a partir da
verdade de outras afirmações com base apenas na forma destas e
não no conteúdo. Leibniz, no Accessio ad arithmeticam infinitorum,
aplica uma situação análoga em pessoas, quando exemplifica que
quando alguém diz um milhão, não consegue imaginar todas as
unidades daquele número, porém é capaz de fazer cálculos exatos
com base nessa cifra.
Essa perspectiva encontra-se também na objeção de
Heidegger à proposta da lógica de inspiração booleana de
conectar proposições ignorando sua dimensão semântica. Os
métodos matemáticos, para Heidegger, permitiram a construção

21 HOFSTADTER, 2001, p. 42.


22 NORMAN, 1993, p. 228.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 119

de um sistema de ligação de enunciados, razão pela qual se


denominou essa lógica de lógica matemática. Heidegger afirma que
os propósitos da lógica matemática são possíveis e legítimos,
porém essa deve ser entendida como “uma coisa de
completamente diferente de uma lógica, quer dizer, de uma
reflexão sobre o λόγος”23. Ainda segundo o pensamento de
Heidegger,

a própria logística é antes e somente uma matemática


aplicada a proposições e a formas de proposição. Toda a
lógica matemática e a logística se colocam necessariamente
no exterior desse domínio da lógica porque, de acordo
com os seus próprios fins, a logística deve utilizar o λόγος,
o enunciado, como mera ligação de representações, quer
dizer, de uma forma fundamentalmente insuficiente24.

A única centelha de inteligência que é atribuída de forma


unânime ao computador é sua capacidade de discriminar entre
diferenças binárias e ser capaz de se comportar logicamente com
base nessa distinção. No nível mais básico, o sistema é físico, sem
qualquer tipo de representação explícita, apenas fenômenos
físicos. Esses vão adquirir um significado apenas no nível mais
alto do sistema lógico, no qual se encontram, por exemplo, as
portas OR, ou a interpretação de uma presença/ausência de
voltagem como 1/0. O sistema lógico é uma primeira abstração
derivada do sistema físico e tornará possível, em outro nível, o
sistema conceitual, representado pelas aplicações de software e
linguagens de programação.
As descrições de um mesmo processo, em níveis
diferentes, são muito distintas entre si e apenas os níveis mais
elevados encontram-se aptos a serem compreensíveis por
humanos. Lévy afirma que

é preciso insistir no fato de que os processamentos em


questão são sempre operações físicas elementares sobre os

23 HEIDEGGER, 1987, p. 154.


24 HEIDEGGER, 1987, p. 154.
120 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

representantes físicos dos 0 e 1; apagamento, substituição,


separação, ordenação, desvio para determinado endereço
de gravação ou canal de transmissão25.

A natureza dos processos computacionais é sintática, o


que faz com que os dispositivos que disponibilizam informação
para esses processos sejam responsáveis tanto por seu formato
quanto por sua qualidade. O Deep Blue ganhou de Kasparov não
por ser mais inteligente, mas por ter sido milhões de vezes mais
rápido26. Essa natureza sintática está presente também nos
mecanismos de armazenagem dos computadores. A máquina
acumula registros de bytes, copiados com fidelidade total. Um
processo inteiramente formalizável e reprodutível ao infinito. Mas
uma ínfima discrepância na cópia digital pode inviabilizar sua
reprodução. A memória humana é mais voltada para manter as
relações importantes no mundo (padrões), independentemente
dos detalhes. O sistema de memória do humano armazena
seqüências de padrões, os quais são recuperados de modo auto-
associativo. Os padrões são armazenados no cérebro em formato
invariante e em uma hierarquia. O modo auto-associativo de
recuperação está na base da competência do sistema nervoso
central para recuperar padrões completos, mesmo quando diante
de dados sensoriais parciais ou distorcidos. Um computador não
armazena, normalmente, seqüências de padrões, embora alguns
recursos de softwares atuais permitam uma simulação desse
comportamento. Mesmo assim, todavia, memórias auto-
associativas artificiais falham em reconhecer padrões caso eles
sejam movidos, rotacionados, sofram mudanças de escala ou
qualquer outra transformação.
Ainda que a máquina computacional tenha capacidades
autopoiéticas, funcione com processamento em paralelo, de
modo randômico e sem distinção exata entre hardware e
software, os processos por ela executados são cálculos. Cálculo

25 LÉVY, 1999, p. 51.


26O poder de processamento por trás de Deep Blue incluiu 32 processadores em paralelo
e 512 ASICs especializadas para xadrez, o que permitiu a análise de 200 milhões de
posições de xadrez por segundo, cf. DENNETT, 1998, p. 8.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 121

implica manipulação e recombinação de símbolos atômicos, por


meio de operações discretas e descontínuas, sem que haja a
possibilidade de se determinar um estado intermediário entre o
estado atual e o imediatamente posterior. Dado ainda que o
alfabeto de símbolos atômicos sobre os quais são executadas
operações é necessariamente finito, a máquina digital é
determinista por construção. Os computadores operam
procedimentos efetivos, os algoritmos. Maner 27 levanta que um
algoritmo vai infalivelmente gerar o resultado desejado após um
número finito de passos, se receber entradas válidas suficientes.
Nisso, o procedimento algorítmico é diferente do heurístico, que
opera pulando procedimentos, que tendem a produzir o resultado
desejado quando obtém a entrada certa.
Lévy chama a atenção para a necessidade de se distinguir
entre determinismo e previsibilidade28. O formalismo algorítmico
define implicitamente suas relações computacionais por meio da
totalidade de suas relações computacionais com todos os outros
estados do sistema em questão (por exemplo, relações de
sucessão). Determinismo refere-se ao postulado de que dado o
estado de um sistema em um determinado instante, o estado
desse sistema em todo momento ulterior é determinado pelo
movimento de suas partes. Previsibilidade refere-se à
possibilidade de se prever efetivamente qual será a evolução de
um sistema qualquer. Lévy argumenta, contudo, que isso não
significa que processos biológicos, de padrão contínuo, não
possam ser simulados por algoritmos apropriados, embora deixe
uma ressalva: “mas admitir a possibilidade de representar um
processo através de um cálculo é uma coisa; pretender que é um
cálculo é outra”29.
Argumenta-se, ainda, a constrição das máquinas
computacionais aos compromissos ontológicos assumidos pelos
programadores, tanto aqueles implícitos que assumem quando
escrevendo um programa, quanto aqueles que desejam permitir

27 MANER, 2002, p. 247.


28 LÉVY, 1998, p. 123.
29 LÉVY, 199, p. 126.
122 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

que o sistema adote livremente. Essa restrição das máquinas


computacionais aos micro-mundos criados por seus
programadores seria uma das causas da limitação na quantidade
de respostas possíveis a serem dadas pelos sistemas, diante de
variações do ambiente. A inteligência humana, por sua vez, é
notória por sua capacidade de equilibrar respostas criativas a
mudanças no ambiente com a possibilidade de se desligar do
mesmo (transcendência).
Beavers entende que essa restrição das máquinas
computacionais tem raízes mais profundas, brotando a partir da
própria limitação da lógica binária. Para esse autor, apenas em
condições muito especiais a detecção de relações diferenciais
(binárias, por exemplo) com relação a algum aspecto empírico da
realidade pode substituir o conhecimento experencial e direto
sobre o mesmo. Por isso, “os computadores podem ser infalíveis
para ler um código de barras, mas não podem explicar a diferença
entre uma pintura de Monet e uma de Pissarro”30. Há um diálogo
quase lendário, atribuído a Picasso – quando questionado por
oficiais franquistas sobre a obra Guernica – “Você fez isso?”,
teria respondido – “Não, vocês fizeram”. Um computador jamais
seria capaz de entender o sentido desse diálogo, porque há uma
natureza cumulativa e irreversível no conhecimento, na
experiência e no engajamento corporal.
Pollock desenvolveu uma crítica a partir das características
inerentes à inteligência humana. Para esse autor, nossa
inteligência é sincronicamente defensável, pois uma proposição
pode ser garantida em relação a um conjunto de entradas
perceptuais e não garantida em relação a um conjunto mais amplo
de entradas. E é diacronicamente defensável, pois uma
proposição pode ser justificada em um estágio de raciocínio e
injustificada em outro estágio posterior, sem o acréscimo de
nenhuma entrada perceptual. O que Pollock tentou demonstrar
foi a capacidade humana de lidar com paradoxos e contradições,
que não seria aplicável a sistemas exclusivamente baseados em
lógica formal31.
30 BEAVERS, 2002, p. 69.
31 Pollock (2000).
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 123

A adaptabilidade é uma característica fundamental dos


organismos vivos. A capacidade de responder apropriadamente,
em uma variedade indefinida de formas, à imprevisível variedade
de contingências32. Ser capaz de lidar com as contingências
envolve procedimentos pelos quais uma situação nova é mapeada
em uma estrutura representacional pré-existente, causando
mudanças na mesma. Essas mudanças comportamentais ocorrem
não somente em função de mudanças no ambiente, mas também
em decorrência da compreensão daquilo que outros esperam de
nós, a interpretação da intencionalidade de terceiros, ou uma
intencionalidade de segundo grau (em relação ao indivíduo).
Dreyfus usa o exemplo da linguagem para embasar esse tipo de
argumentação contra os agentes informatizados – “aprender uma
linguagem não é apenas aprender um conjunto fixo de palavras e
construções gramaticais, mas usar esse equipamento lingüístico
em situações sempre novas”33. A linguagem, nessa acepção, é uma
computação ao infinito. O que parece ser uma tradução possível
da argumentação de Dreyfus é que se não houvesse limite de
tempo no teste de Turing [tempo = ∞], os computadores nunca
passariam no teste.
Um agente com capacidades adaptativas precisa ser um
agente auto-dirigido. Embora existam regras que governam os
processos de transformação dos dados sensoriais em estados
conscientes – as quais ensejariam descrições e reproduções
algorítmicas – uma das tarefas mais difíceis da robótica atual é
especificar uma tarefa para execução diante da imprevisibilidade
do ambiente. Na raiz desse problema estaria uma diferença na
orientação primária de organismos biológicos, os quais, ao invés
de serem orientados para a tarefa (task specified), são orientados
para o comportamento (behavior specified). Uma orientação para a
tarefa requer uma especificação procedural rígida (o o que e o
como), enquanto que na orientação para comportamento sabe-se o
que, mas resolve-se o como em tempo real, no momento em que o

32 Pelo menos do ponto de vista do organismo.


33 DREYFUS, 2000, p. 203.
124 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

organismo interage com o ambiente. Fundamental para essa


performance em tempo real é o sentido da propriocepção.
Há os que argumentam que o caráter funcionalista da
teoria computacional da mente lhe daria uma condição de
meramente substitutiva, não explicativa. As máquinas
computacionais são construídas não para explicar o pensamento,
mas para substituí-lo, quando o esforço de empregá-lo é penoso.
Conforme Pinto, o extraordinário valor prático dos
computadores decorre justamente de sua absoluta inutilidade
teórica: “se um computador imita algum comportamento racional
inteligente de um homem, no máximo, tem o valor da
substituição de um segundo homem no primeiro”34.
Dreyfus também contesta esse suposto isodinamismo
entre humanos e máquinas computacionais:

não tenho nada contra a idéia de que o computador possa


ser inteligente, contesto somente a hipótese dos ‘sistemas
de símbolos físicos’, ou seja, a teoria segundo a qual nós,
humanos e computadores, somos duas ‘espécies’ da
mesma ‘raça’, em especial daquela que utiliza ‘símbolos’
para representar o mundo exterior35.

Igualdade de comportamento não é igualdade de essência. Pinto


corrobora a negação do isodinamismo, com termos fortes: “a
ironia, noção filosófica, converte-se em estelionato, figura
jurídica, quando se pretende impingir por equivalente o simulacro
artificial de um ato biológico executado pela matéria viva por
força de uma necessidade imperiosa e intransferível”36. Essas
necessidades surgem do confronto do organismo com o
ambiente, ao longo do qual são gerados os problemas. O
computador é desprovido de problemas, porquanto sua própria
existência é a solução para um problema humano – a
intencionalidade maquínica é de terceira pessoa.

34 PINTO, 2005, p. 23.


35 DREYFUS, 1993, p. 210.
36 PINTO, 2005, p. 59.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 125

Diante dos problemas, o homem cria representações


mentais das possíveis opções, dentre as quais, em uma operação
mental subseqüente, escolhe alguma. Essa escolha se pauta por
uma finalidade auto-impingida pelo ser humano, com sua ideação
abstrata. A essência do comportamento inteligente está nessa
capacidade de auto-definição do propósito, e não tanto na criação
das opções. A máquina computacional ingressa no plano de
resolução de problemas apenas pela mão de seu construtor,
humano, que age em função dos interesses de sua existência em
um determinado momento do processo histórico. A capacidade
da máquina fazer escolhas, tomar iniciativas e fazer outras
imitações do comportamento inteligente resume-se a uma
transferência de poderes, na qual o cérebro humano, único órgão
capaz de elaborar projetos, concebe um projeto especial, o de
uma máquina elaboradora de projetos.

Argumentos favoráveis

Turing formulou a seguinte pergunta: “não podem acaso


as máquinas realizar algo que deveria ser descrito como
pensamento, mas que é muito diferente do que um homem
faz?”37. Estava lançada a semente para a teoria computacional da
mente, claramente funcionalista, assumindo como pressuposto
ser desnecessário saber como o cérebro funciona para saber
como a mente funciona. Os processos mentais são processos
computacionais sobre elementos formais, podendo ser realizados
por meio de diferentes acionamentos cerebrais, da mesma forma
que um software pode ser rodado em diferentes hardwares.
Boden argumenta que o computador pode ter uma
intencionalidade de primeira pessoa, recorrendo ao exemplo
simples do jogo da velha: “há, claramente, um conhecimento
considerável da estratégia e das táticas – não apenas as ‘regras’ –
envolvido, gerando as escolhas do programa não apenas em
relação ao ‘o que’ dizer, mas também ao ‘como dizer’”38. Um

37 TURING, 1996, p. 24.


38 BODEN, 1981, p. 186.
126 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

aspecto central da ação intencional é ser guiada por uma idéia do


objetivo de uma forma flexível e inteligente. Boden prossegue
afirmando que “entre os primeiros programas de Inteligência
Artificial havia alguns que resolviam problemas mantendo uma
idéia do objetivo firme na mente e raciocinando de volta sobre si
mesmos”39.
Contra a possibilidade de uma intencionalidade de
primeira pessoa aplicada a máquinas computacionais usualmente
se levanta o Teorema de Gödel, referindo-se à Proposição VI do
referido autor: “Proposition VI: To every ω-consistent recursive class c of
formulae there correspond recursive class-signs r, such that neither υ Gen r nor
Neg (υ Gen r) belongs to Flg (c) (where υ is the free variable of r)”40. O
próprio Gödel, explicando o que buscou provar, afirma que se
trata do fato de que problemas relativamente simples na teoria
dos números ordinais inteiros não podem ser decididos a partir
de seus axiomas41. Ou seja, existem proposições que não podem
ser provadas ou descomprovadas dentro do sistema. A prova
gödeliana, portanto, não se relaciona diretamente à questão de se
os computadores poderão ou não pensar. Sua relevância consiste
no fato de apontar para a existência de limites nos sistemas
formais (inclusive para a lógica formal).
Como a programação de computadores opera
basicamente com a lógica booleana, a prova de Gödel coloca
limites intransponíveis para aquilo que um computador poderá
fazer, inclusive quanto à sua suposta capacidade cognitiva.
Porém, a réplica dos fundadores da Inteligência Artificial, como
Turing, consiste em afirmar a irrelevância desse elemento, uma
vez que também existiriam limites para a capacidade cognitiva
humana42:

39 BODEN, 1981, p. 269.


40 GÖDEL, 1992, p. 57.
41 Cf. GÖDEL, 1992, p. 38.
42A discussão em torno desse assunto terminou por ficar mais conhecida pelo seu
nome em inglês – the bouding problem – que, literalmente, seria traduzido como um
problema de limites, ou um problema de fronteiras. Aqueles que defendem a existência
desses limites partem da configuração característica do humano, em seus aspectos
ontológicos, biológicos e morfológicos, explicitando que esse conjunto teria limites aos
quais não conseguiria ultrapassar. Afina-se com essa idéia Noam Chomsky, quando diz
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 127

a resposta mais simples a esse argumento é a de que,


embora esteja estabelecido que há limitações aos poderes
de qualquer máquina específica, enunciou-se apenas, sem
qualquer espécie de prova, que nenhuma limitação desse
tipo se aplica ao intelecto humano43.

Aqui vale recuperar também uma argumentação de Hofstadter:

ocorre que nenhum método algoritmo pode dizer como


aplicar método de Gödel a todos os tipos possíveis de
sistemas formais. E, a menos que se tenha inclinações algo
místicas, tem-se de concluir, portanto, que qualquer ser
humano simplesmente alcançará os limites de sua própria
capacidade de gödelização em algum ponto44.

Outra linha de argumentação é a de que os computadores


não são previsivelmente determinísticos, associada à uma
contrapartida de que a imprevisibilidade da ação humana é
geralmente exagerada45. Ainda que se concorde com o fato de que
tudo que a máquina faz é feito segundo instruções especificadas a
priori, não se pode afirmar que o programador seja capaz de
antever tudo o que a máquina vá fazer, nem que o programa vá
fazer tudo e apenas aquilo que o programador pretendia que ele
fizesse. Hofstadter argumenta que a complexidade introduz

que “quanto à questão do alcance cognitivo, se os humanos são parte do mundo natural
e não seres sobrenaturais, então a inteligência humana tem seu escopo e seus limites
determinados pelo design inicial” (CHOMSKY, 2005). Ou seja, certos fatos não estarão
ao alcance do sistema cognitivo peculiar ao ser humano. Isso se repetiria com outros
animais, em outros níveis. Chomsky se refere, também, à prova experimental de que
ratos são incapazes de atravessar labirintos com propriedades numéricas para afirmar
que isso ocorre pela ausência nesses roedores de conceitos apropriados. Haveria,
portanto, ainda segundo Chomsky, “mistérios para ratos”, bem como “mistérios para
humanos”.
43 TURING, 1996, p. 38.
44 HOFSTADTER, 2001, p. 21.
45 Para Boole, pai da lógica binária, “as contradições com as quais nos deparamos são
geralmente mais verbais do que reais” (BOOLE, 1854/1954, p. 400) - that the
contradictions which are met with are more often verbal than real, tradução do autor.
128 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

diferenças qualitativas, acarretando que, a partir de certo nível de


complexidade, a máquina deixa de ser previsível46:

ela começaria a ter uma mente própria quando já não


fosse totalmente previsível e inteiramente dócil, mas fosse
capaz de fazer coisas que reconhecêssemos como
inteligentes – não apenas cometer erros e atuar a esmo – e
que não tivessem sido programadas nela47.

Sem a pretensão de ir tão longe quanto Hofstadter,


Floridi identifica modos de fazer com que um agente artificial lide
com a incerteza e aprenda a partir de suas observações:

representando o estado de conhecimento de um robô


como uma distribuição probabilística sobre um conjunto
de proposições atômicas, nós podemos representar a
incerteza, e ao atualizarmos essas distribuições em
resposta à evidências, usando o famoso teorema de Baye,
nós podemos modelar o aprendizado de um agente
racional48.

Outra resposta possível à questão da imprevisibilidade


originária do comportamento humano e a suposta previsibilidade
total das máquinas computacionais segue a linha dos pioneiros da
Inteligência Artificial: reconhecer o problema, mas devolvê-lo
como um problema igualmente comum ao gênero humano. Uma
percepção determinista (previsibilidade máxima) implica que os
processos conscientes de vontade excluem qualquer adaptação a
uma novidade genuína. Como são baseados em conhecimento
causal, eles se adaptam a situações em que a ação necessária pode
ser deduzida do que se passou anteriormente. Com isso, o futuro
está, de certa maneira, incluído no passado, restando
impossibilitado de ser totalmente novo ou imprevisto. Aceita essa
linha de argumentação, os sistemas autopoiéticos, do tipo dos
46Contra esse argumento, diz-se que nesse momento, ela deixaria de ser uma máquina,
nos limites do significado do ato.
47 HOFSTADTER, 2001, p. 394.
48 FLORIDI, 2002, p. 161.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 129

descritos por Floridi, saem em vantagem. As suas propriedades


auto-organizativas se fundam sobre o processo de utilização da
desordem e do aleatório, estando, portanto, perfeitamente
adaptados à verdadeira novidade, pois o aleatório é, por
definição, a própria novidade. A autopoiese seria um processo de
criação e estabilização da novidade e, como tal, não seria passível
de predição, tampouco poderia resultar da consciência.
Computadores podem ter interesses conflitantes:
“ARGUS, por exemplo, é um sistema em que vários objetivos
‘competem’ pelos recursos computacionais disponíveis, dando
prioridade àquele que, na situação corrente, é o mais fortemente
ativado”49. A possibilidade de ter interesses conflitantes é
imprescindível para se pensar no desenvolvimento de bases para
julgamentos morais. Boden também sinaliza que interesses
conflitantes podem ser importantes para o desenvolvimento do
sentido de propriocepção, quando identifica casos de paralisia
histérica em robôs, causados por conflitos entre programas que
comandam o início do movimento do membro robótico e
programas centrais de controle geral do robô50.
Computadores são capazes de mudar sua programação
aleatoriamente, como no caso de alguns algoritmos genéticos, que
geram estruturas que não poderiam ter sido geradas por versões
prévias do programa. O comportamento adaptativo em sistemas
informacionais, por exemplo, revela como uma comunidade de
processos concorrentes se comporta como um sistema ecológico,
com suas interações, estratégias e competição por recursos. Um
robô desenvolvido recentemente apresentou a capacidade de
aprender a mancar sozinho, após uma de suas pernas ser
encurtada pelos pesquisadores. A máquina, de quatro pernas, foi
equipada com vários tipos de sensores, que conseguiram criar um
modelo corpóreo e, por meio de um algoritmo, corrigir o
movimento com base na informação da perna encurtada51. Turing
já apresentava, em termos teóricos, a possibilidade de alteração
49 BODEN, 1981, p. 283.
50 BODEN, 1981, p. 70.
51Informação sobre o robô extraída de BONGARD, ZYKOV e LIPSON, 2006, p.
1118.
130 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

endógena52 da programação de um computador, ao tratar da


discriminação, que, tecnicamente, é a decisão que a máquina toma
sobre o que fazer a seguir. Turing argumentou que essa decisão é
tomada apenas parcialmente com base nos dados disponibilizados
pelo programador, incorporando, para além desses, os próprios
resultados da máquina. Turing exemplificou esse ponto do
seguinte modo:

Outra idéia importante é a de construir uma instrução e


então obedecê-la. Isso pode ser usado, entre outras coisas,
para discriminação. No exemplo que acabei de apresentar,
nós podemos calcular uma quantidade que era 1 se |1 -
au| fosse menor que 2-31 ou 0. Adicionando essa
quantidade à instrução que é obedecida no ponto de
decisão, aquela instrução pode ser completamente alterada
em seus efeitos quando 1 – au for finalmente reduzido a
dimensões suficientemente pequenas53.

O fato de que ter um funcionamento baseado em


algoritmos – regras explícitas que determinam o próximo passo
da máquina a cada rodada – não impede que se possa ter
heurística. Depende da forma como o resultado desejado for
especificado. Os sistemas formais podem ter duas vidas:
sintáticas, nas quais são marcadores desprovidos de significado
que se movem de acordo com as regras de algum jogo auto-
contido; ou semânticas, quando o sistema é interpretado e seus
símbolos passam a ter relações significativas com o mundo
externo. Esse ponto de vista é compartilhado por Haugeland,

Um sistema formal automático com uma interpretação tal


que a semântica tome conta de si mesma é o que Daniel
Dennett (1981) chamou de um engenho semântico. A
descoberta de que engenhos semânticos são possíveis –
que com o tipo correto de sistema formal e interpretação,

52 A partir da própria programação.


53 TURING, 1947/2004, p. 389.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 131

uma máquina pode lidar com significados – é a inspiração


básica das ciências cognitivas e da inteligência artificial54.

Aplicações de redes neurais e sistemas computacionais


com características autopoiéticas emulam a capacidade humana
de reconhecimento de padrões, sendo efetivamente utilizadas
para analisar problemas complexos. As características
autopoiéticas relacionam-se à capacidade do sistema de se auto-
ajustar, independentemente de seus artífices. Esse auto-
ajustamento representa uma atitude de controle de segunda
ordem, um passo fundamental para a superação da sintática e a
obtenção de engenhos semânticos genuínos. Maturana é um dos
que enxergam essa possibilidade:

poderemos na verdade projetar sistemas artificiais que


experenciam a autoconsciência e a consciência, se nós os
construirmos com uma estrutura plástica e um domínio de
interações no qual eles possam penetrar em coordenações
recursivas de coordenações de conduta55.

Babbage já falava no seu Engenho Analítico como um


engenho comendo a própria cauda56, ao demonstrar que os resultados
em uma tábua podiam afetar outras colunas, alterando, dessa
forma, as condições sob as quais a máquina estava operando.
Com base em suas reflexões57, Babbage reivindicava que sua
máquina detinha a capacidade de operar segundo instruções que
não tinham sido pré-programadas. O Engenho Analítico de
Babbage era puramente mecânico, ou restrito ao nível do
hardware. Contemporaneamente, algumas experiências
interessantes demonstram a possibilidade de evolução no nível
mecânico dos computadores, um campo de pesquisa que recebeu
a designação de hardwares evolucionários. Novas tecnologias, como
as FPGAs – Field Programmable Gate Arrays permitem que se

54 HAUGELAND, 2000, p. 45.


55 MATURANA, 1997, p. 240.
56 Referência à fala de Babbage extraída de MAZLISH, 1993, p. 136.
57 Babbage não chegou a construir sua máquina.
132 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

obtenha evolução de circuitos no computador. As FPGAs são


capazes de se reconfigurarem para agir como qualquer circuito
por meio da aplicação de sinais elétricos, o que permite que, ao
invés de se fabricar um novo chip, um FPGA seja
instantaneamente reconfigurado para se transformar nesse novo
chip. Em um experimento que se tornou notório, um pesquisador
determinou ao computador: “eu quero um chip que faça X” e
deixou a FPGA se reconfigurar livremente. O resultado foi que a
FPGA passou a usar minúsculos componentes para controlar o
fluxo da eletricidade dentro dos circuitos, com um período de
tempo inimaginavelmente pequeno em que o componente está
passando de ligado para desligado ou vice-versa. O FPGA operou
com estágios intermediários entre 0 e 1, algo que os engenheiros
eletrônicos humanos ainda não descobriram como realizar58.
Um sistema inteligente tem de ser dotado de uma lista de
verdades essenciais e um conjunto de regras para deduzir suas
implicações. Em sua dinâmica de funcionamento, precisa situar
os objetos em categorias, de modo a poder aplicar ao novo objeto
que tiver diante de si o conhecimento que adquiriu sobre objetos
semelhantes no passado. Do contrário, caso tratasse cada novo
objeto como uma entidade única, o sistema teria de ser entupido
com os infinitos fatos/objetos do universo.
Ao ser feita, no presente, a programação se liga aos
conhecimentos atualmente existentes. Sua gradativa realização
introduz variações entre os elementos da realidade que, por serem
infinitos, não podem estar contidos em nenhum projeto
específico. Ao se cumprir, a programação se converte em fator

58 Experimento com FPGA relatado em Bentley (BENTLEY, 2002, pp. 63-64). Na


mesma obra, “Biologia Digital”, Bentley destaca a pauta de uma conferência
internacional sobre hardwares evolucionários: “evoluindo sistemas de hardwares,
metodologias de criação de hardwares evolucionários, projetos evolucionários de
circuitos eletrônicos, coevolução de sistemas híbridos, evolução on-line e intrínseca,
coevolução de hardware/software, implementação de algoritmos evolucionários em
hardwares, hardwares reconfiguráveis, hardwares que se auto-replicam, hardwares que
se auto-reparam, hardwares neurais, plataformas adaptativas de hardwares, bio-robótica,
aplicações de nanotecnologia, sistemas biológicos e químicos, computação DNA,
evoluindo controladores, aplicações para o mundo real de hardwares evolucionários”. A
simples enunciação dos temas nos demonstra o surpreendente estado da arte nesse
campo de pesquisa.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 133

perturbador dela mesma. Vale concluir essa linha de


argumentação com uma citação de Turing:

vamos supor que tenhamos programado uma máquina


com algumas tábuas de instruções iniciais, construídas de
tal forma que essas tabelas possam, ocasionalmente, se
aparecer uma boa razão, modificarem aquelas tabelas.
Alguém pode imaginar que, após a máquina operar por
algum tempo, as instruções teriam se alterado tanto que
não seriam reconhecíveis, mas, apesar disso esse alguém
teria de admitir ainda ser aquela máquina que ainda estava
fazendo cálculos muito significativos. Possivelmente, a
máquina pode estar ainda gerando resultados do tipo
desejado quando foi inicialmente programada, mas de
uma forma muito mais eficiente. Em tal situação, esse
alguém teria de admitir que o progresso da máquina não
foi antevisto quando suas instruções originais foram
alimentadas59.

No âmbito dessa discussão, há os que chamam a atenção


para o fato de que se está em tela a possibilidade de existência de
uma inteligência artificial e não de um ser humano artificial. Ser
humano e ser inteligente são coisas distintas e não faz sentido
entender que uma máquina, para ser inteligente, precisa ter
necessidades sexuais, fome, pulso, emoções ou, ainda, um corpo
com conformação humana. Parte desse problema é devido à
tradição cultural, fortemente enraizada, de considerar que o que
nos distingue das demais espécies é nossa capacidade de
raciocinar. Com essa perspectiva, Hofstadter postula:

talvez estejamos inconscientemente assoberbados com um


chauvinismo semelhante com respeito à inteligência e, em
conseqüência, com respeito ao significado. Em nosso
chauvinismo, consideraríamos ‘inteligente’ qualquer ser
com um cérebro suficientemente parecido com o nosso e

59 TURING, 1947/2004, p. 393.


134 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

recusar-nos-íamos a reconhecer como inteligente outros


tipos de objetos60.

O que está em jogo é a definição de quais seriam os


predicados que estamos dispostos a atribuir às máquinas, sem que
essa atribuição resulte em uma ontologia ingênua e eticamente
inerte. Complementando o argumento, fazemos uso do
pensamento de Teixeira:

a noção de uma inteligência artificial como realização das


tarefas inteligentes, ou seja, a possibilidade de replicação
mecânica de segmentos da atividade mental humana – por
dispositivos que não têm a mesma arquitetura nem a
mesma composição biológica e físico-química do cérebro
foi a grande motivação para o aparecimento das teorias
funcionalistas61.

A aceitação da equivalência entre o ser o fazer dos


funcionalistas obstrui a argumentação de que algo que se
comporta conscientemente não seja consciente62. Adversamente,
ainda que se repila a equivalência ser/fazer, há que se reconhecer
seus iso-resultados. Nos dizeres de Wittgenstein,

que haja uma regra geral por meio da qual o músico pode
extrair a sinfonia da partitura, uma por meio da qual se
pode derivar a sinfonia dos sulcos do disco e, segundo a

60 HOFSTADTER, 2001, p. 186.


61 TEIXEIRA, 2000, p. 125.
62 Teixeira revela sua preocupação com a aceitação integral da perspectiva funcionalista:
“esse salto corresponderia também a alguma quintessência que, segundo Descartes,
ficaria faltando na forma de um autômato, pois, na medida em que ser consciente não
seria uma propriedade física, a replicação física integral de um cérebro não implicaria,
necessariamente, na replicação do caráter consciente dos estados mentais que esse
autômato poderia vir a ter” (TEIXEIRA, 2000, p. 77). Teixeira parece se referir à
afirmação cartesiana sobre os autômatos: “primeiro, eles não podem jamais usar
palavras ou outros sinais construídos, como nós usamos para declarar nossos
pensamentos aos outros (...) segundo, enquanto eles podem fazer muitas coisas tão bem
quanto qualquer um de nós ou até melhor, eles vão infalivelmente falhar em outras,
revelando que eles não agem com base em conhecimento mas apenas com base na
disposição de seus órgãos” (DESCARTES, 1614/2000, p. 20).
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 135

primeira regra, derivar novamente a partitura, é


precisamente nisso que consiste a semelhança interna
dessas configurações, que parecem tão completamente
diferentes63.

Como seres humanos, podemos aprender a imitar as


Máquinas de Turing. Logo, por definição, somos no mínimo
Máquinas de Turing.

Isodinamismo: a mão dupla da metáfora computacional

Dennett presumiu que há uma tendência inata aos


humanos de considerar todas as coisas que mudam como
detentoras de uma alma64. Quando, em 1642, Pascal inventou a
Pascaline – um engenho que somava e subtraia com engrenagens
semelhantes às do hodômetro de um automóvel – sua irmã,
Gilberte, disse que pela primeira vez se tinha reduzido “a uma
máquina uma ciência que até então residira exclusivamente no
espírito”65. É antiga, portanto, a “melodiosamente citarizada
écloga da antropomorfização da máquina”66. Tão antiga que pode
ser encontrada no pensamento de Descartes, conforme afirma
Hadot: “Descartes e os mecanicistas rejeitam assim a distinção
tradicional entre os procedimentos da arte humana, agindo a
partir do exterior, e os processos naturais”67.
Ao tratar do assunto, Descartes se interrogava sobre
“como alcançar o conhecimento das figuras, grandezas e
movimentos dos corpos insensíveis?”. Reconhecia que as
menores partes dos corpos são insensíveis e não podiam ser
percebidas com a ajuda dos sentidos. Para tanto, afirmou:

serviu-me bastante o exemplo de muitos corpos


compostos pelo artifício dos homens: porque não vejo

63 WITTGENSTEIN, 2001, p. 167.


64 DENNETT, 1991, p. 33.
65 SIEGFRIED, 2000, p. 52.
66 PINTO, 2005, p. 565.
67 HADOT, 2006, p. 147.
136 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

diferença entre as máquinas feitas pelos artesãos e os


diversos corpos que somente a natureza compõem, senão
que os efeitos das máquinas não dependem da disposição
de certos tubos ou molas ou outros instrumentos que,
devendo ter alguma proporção com as mãos daqueles que
os fazem, sempre são tão grandes que suas figuras e
movimentos podem ser vistos, enquanto os tubos ou
molas que causam os efeitos dos corpos naturais são
ordinariamente pequenos demais para ser percebidos por
nossos sentidos68.

Boole deu o nome de “An investigation of the Laws of Thought


on which are founded the mathematical theories of logic and probabilites”
(“Uma investigação sobre as leis do pensamento nas quais estão
fundadas as teorias matemáticas da lógica e das probabilidades”) à
sua obra seminal, que lançou as bases para a lógica binária e a
programação de computadores digitais. Seus objetivos eram:

investigar as leis fundamentais das operações da mente


por meio das quais o raciocínio é realizado; dar expressão
às mesmas na linguagem simbólica de um Cálculo, e sobre
esse fundamento estabelecer a ciência da Lógica e
construir o seu método; tornar o próprio método a base
de uma doutrina geral das Probabilidades; e, finalmente,
recolher dos vários elementos de verdade trazidos à vista
no curso dessas pesquisas algumas intimações prováveis
concernentes à natureza e à constituição da mente
humana [grifos nossos]69.

Ainda segundo Boole, “é desnecessário entrar aqui com


argumentos para provar que as operações da mente são, em um
sentido real, sujeitas a leis, e que uma ciência da mente é, desta
forma, possível”70. No cerne da argumentação de Boole está a
noção de que o pensamento pode ser representado
matematicamente por meio da atribuição de símbolos algébricos

68 DESCARTES, 1973, p. 520.


69 BOOLE, 1854/1954, p. 1.
70 BOOLE, 1854/1954, p. 3.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 137

– como x, y ou z – a conceitos. A partir dessa transformação,


seria possível exercer operações matemáticas sobre os símbolos,
chegando-se a conclusões lógicas. Sua obra consiste na
formulação de uma série de regras para essas manipulações. Ao se
defrontar com a regra de que o produto de dois símbolos está
associado a todos os seres que satisfazem às definições dos dois
símbolos, Boole percebeu que existe a possibilidade de que
símbolos sejam multiplicados por si mesmos. Ou seja, se x =
mulheres, xx (x2) continua sendo igual a mulheres (x2 = x). A
genialidade de Boole foi perceber que, apesar de aparentemente
se estar diante de uma conclusão ilógica, a regra mantinha sua
validade para x = 0 e para x = 1, tendo então deduzido que a
redução da lógica a equações é possível se, e somente se, trabalhe
somente com os valores (0,1).
Leibniz tinha antecipado a linguagem com que o
programador dita instruções ao computador – ou seja, a
linguagem com base na qual a máquina computacional ‘pensa’,
sem ‘saber’ o que significam as instruções que recebe – ao
reconhecer que o valor da sua linguagem filosófica estava em sua
estrutura formal e não nos seus termos. A sintática71 era mais
importante do que a semântica: “veja-se, portanto, que apesar de
os caracteres serem assumidos arbitrariamente, todos os
resultados correspondem sempre entre si, contato que se observe
uma certa ordem e uma certa regra no uso deles”72.
A lógica de Boole foi uma primeira e significativa
abordagem sintática ao pensamento, ao tratar pensamentos como
proposições (declarações sobre o mundo que podem ser
representadas simbolicamente). As proposições, representadas
como símbolos, podem formar outras proposições. A lógica de
Boole também permite que se concebam modelos visualizáveis da
lógica de proposições, fazendo com que uma conjunção lógica
pudesse ser descrita como um modelo físico de uma molécula
logística.

71 Leibniz chamava a sintática de habitudo ou estrutura da proposição.


72 LEIBNIZ apud ECO, 2002, p. 343.
138 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

É uma propriedade essencial das linguagens formais que


todas as suas regras de transformação sejam puramente sintáticas,
ou seja, permitam rearranjos de cadeias de símbolos na
linguagem, inclusive recolocações e introdução de novos
símbolos, independentemente da interpretação que esses
símbolos possam ter fora do contexto da linguagem
propriamente dita. A força do sistema puramente sintático reside
no critério de composicionalidade dos seus traços atômicos, do
qual se deriva um isomorfismo completo entre expressão e
conteúdo. Ironicamente, essa é também a grande fraqueza dos
sistemas puramente sintáticos, pois qualquer incidência, por
mínima que seja, de variação tipográfica ou fonética, vai produzir
inevitavelmente um equívoco semântico.
ECO (2002) traz esses assuntos à baila, argumentando
que os projetos de IA e as pesquisas das ciências cognitivas
nasceram como efeitos colaterais de uma pesquisa em torno da
língua perfeita73. A pretensão à perfeição (universalização) se faz
acompanhar por uma inevitável desestetização74, conforme
captado por Leopardi:

uma língua estritamente universal, seja ela qual for, deverá


certamente ser por necessidade e pela sua natureza, a
língua mais escrava, pobre, tímida, monótona, uniforme,
árida e feia, bem como a mais incapaz de qualquer espécie
de beleza, a mais imprópria à imaginação, e a menos
dependente dela, aliás, a mais divergente dela em qualquer
aspecto, a mais exangue e inanimada e morta, que jamais
se possa conceber75.

Uma importante complementação ao insight original de


Boole foi o trabalho de Shannon (teoria da informação), que veio
a demonstrar que, a partir da tradução da lógica proposicional
(com seus dois valores aléticos – V ou F, suas tabelas de verdade
e sistema de provas) na álgebra booleana, seria possível

73 ECO (2002).
74 Poderíamos igualmente dizer ‘por uma eliminação da semântica’.
75 LEOPARDI apud ECO, 2002, p. 364.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 139

implementá-la eletronicamente por meio de impulsos de alta e


baixa voltagem, passando através de circuitos de
desvio/interrupção (switching), capazes de discriminar entre
estados ligados e desligados. Estavam lançadas as bases para a
computação digital. Segundo Lévy, “toda a informática apóia-se
na descoberta de que processos físicos podem ser exatamente
isomorfos com operações lógicas”76.
Turing se perguntava: “pode alguém fazer uma máquina
que tenha sentimentos, como você e eu?”. Ao que respondia: “eu
devo nunca saber, não mais do que eu nunca deverei ter certeza
de que você sente como eu sinto”77. Com esse tipo de
abordagem, Turing lançava uma linha de argumentação que se
tornou clássica aos defensores da Inteligência Artificial. Diante de
argumentos do tipo o computador não pode fazer isso, contra-
argumenta-se concordo, mas o homem também não.
A metáfora computacional é uma via de mão dupla, na
qual, por um lado seguem as tentativas de reduzir o humano ao
computacional, e, por outro, vão as propostas de humanizar o
computacional. A roda dialética homem x objeto gira novamente.
Turing afirma que “a idéia subjacente aos computadores
digitais pode ser explicada afirmando-se que essas máquinas são
planejadas para realizar quaisquer operações passíveis de serem
feitas por um computador humano”78. Planejar uma máquina para
atuar como se fosse um cérebro humano requer, evidentemente,
que se parta de alguma hipótese sobre o funcionamento cerebral.
Essa hipótese básica, no âmbito da metáfora computacional, é a
Tese Church-Turing, segundo a qual qualquer processo mental
pode ser descrito por uma função geral recorrente que gere os
mesmos resultados. Sob a égide da Tese Church-Turing, temos
que:

76 LÉVY, 1998, p. 67.


77 TURING, 1953, p. 569.
78 TURING, 1996, p. 26. Na época em que Turing escreveu On computable numbers, um
computador não era uma máquina, mas um ser humano. Um computador era um
matemático-assistente, que calculava por rotina, de acordo com algum método
sistemático.
140 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

a) a Máquina de Turing universal pode realizar qualquer


cálculo que um computador humano fizer;
b) qualquer método sistemático (algoritmo) pode ser
realizado por uma Máquina de Turing universal.

A metáfora computacional altera a questão chave da


pesquisa no campo da Inteligência Artificial. Não se trata mais de
perguntar se um computador (Máquina de Turing universal79)
poderá simular os processos de funcionamento cerebral. Mas sim
de se saber se todos os processos conscientes humanos são
algoritmizáveis, ou seja, redutíveis a alguma espécie de
procedimento computacional. Na perspectiva de compreender a
possibilidade de equiparações entre processos conscientes e
processos computacionais, Von Neumann afirma que “a
observação mais imediata no que concerne ao sistema nervoso é a
de que o seu funcionamento é, prima facie, digital”80. Para Von
Neumann, apesar do impulso gerado pelo/no neurônio abranger
aspectos variados, de ordem elétrica, química e mecânica, o
processo de sua geração é invariável ou idêntico sob todas as
condições, representando uma resposta unitária e essencialmente
reprodutível para uma variedade imensa de estímulos.
Para Turing, apesar do pensamento ser claramente uma
atividade motora das células cerebrais, a resposta a essa questão
não estava clara: “os processos da máquina são mosaicos de
partes muito simples e padronizadas, mas os designs podem ter
grande complexidade, e não está óbvio onde estão os limites
quanto aos padrões de pensamento que eles podem imitar”81. A
redução algorítmica, com seus requisitos de precisão, sempre traz
o dilema de como prever formas de lidar com as exceções e o
imprevisto. Até o momento, a insistência dos defensores da IA
vai na direção de que o obstáculo é de natureza tecnológica, e não
filosófica. Conforme Teixeira, “a idéia do conhecimento como

79 Para Dennett (DENNETT, 1991, p. 212), a Máquina de Turing universal é uma


idealização brilhante e uma simplificação de um fenômeno hiperracional – um
matemático realizando um cálculo rigoroso.
80 VON NEUMANN, 2005, p. 74.
81 TURING, 1952/2004, p. 500.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 141

representação parece estar na raiz das dificuldades tecnológicas


aparentes envolvidas na construção desses sistemas: explosão
combinatorial, rigidez de estrutura e assim por diante”82.
Um algoritmo efetivamente computável precisa atender
aos seguintes requisitos:

1 – ser finito (em tempo e extensão);


2 – ser completamente explícito e livre de ambigüidades;
3 – ser infalível;
4 – poder ser realizado por um idiot savant.

Ou seja, mesmo que teoricamente, um ser humano


paciente e meticuloso deve ser capaz, sem a ajuda de qualquer
instrumento e sem a necessidade de insights, de chegar ao fim do
procedimento, com o uso apenas de uma quantidade
potencialmente ilimitada de papel, tinta e tempo. A Máquina de
Turing universal é capaz de realizar qualquer algoritmo, mas isso
não se deve à uma impressionante capacidade proto-cognitiva.
Ela o faz por meio de funções recursivas, ou seja, uma função f
que seja definida em termos da aplicação repetida de um número
de funções simples aos seus próprios valores, com a especificação
de uma fórmula recursiva e uma cláusula base. Para Fodor,

se, como muitos de nós supõem, mentes são


essencialmente dispositivos de manipulação de símbolos,
deve ser útil pensar em mentes pelo modelo da Máquina
de Turing, uma vez que as Máquinas de Turing são tão
genéricas quanto qualquer dispositivo manipulador de
símbolos possa ser83.

Essa generalidade decorre de sua simplicidade. Máquinas


de Turing são sistemas computacionais fechados, cujas
computações são determinadas somente pelo estado atual da
máquina, pela configuração da fita e pelo programa.

82 TEIXEIRA, 2004, p. 40.


83 FODOR, 1996, p. 39.
142 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

McCulloch e Pitts mostraram que uma rede neural pode


calcular qualquer número84 que possa ser calculado por uma
Máquina de Turing. Essa demonstração foi importante porque
uniu um modelo do funcionamento neuronal humano à teoria
dos autômatos. Ao provar que as operações de uma rede neural e
uma Máquina de Turing formalmente convergem, McCulloch e
Pitts confirmaram seu insight de que “cérebros não secretam
pensamentos como o fígado secreta a bile, mas eles computam o
pensamento da forma como os computadores eletrônicos
calculam números”85.
A aproximação com o funcionamento cerebral passa pela
noção de que todos os aspectos do pensamento podem ser vistos
como descrições de nível alto de um sistema que, em um nível
baixo, é governado por regras simples e formais. A ruptura
decisiva reside na adoção da idéia do computador como um
sistema simbólico e não como um dispositivo causal-físico
ordinário, como outras máquinas. Pois há uma noção fortemente
enraizada de que o elemento distintivo da espécie humana é sua
capacidade de processar símbolos. Aceitas ambas as premissas,
resta estabelecido o isodinamismo entre mentes e máquinas
computacionais.

Estados objetais não objetiváveis

Há uma diferença entre software como performance e


software como texto. A programação de um computador não é
uma ciência exata, sendo impossível, a priori, deduzir todas as
conseqüências da execução de um programa, seja qual for o
ambiente. Fetzer distingue “programas-como-textos (não
carregados) e programas-como-causas (carregados), onde a
verificação (humana) envolve a aplicação de métodos dedutivos a
programas-como-textos”86. Prosseguindo em sua argumentação,
Fetzer afirma que

84 No contexto da lógica booleana, isso equivale a dizer qualquer proposição.


85 McCULLOCH-PITTS, 2000, p. 351.
86 FETZER, 2000, p. 267.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 143

provas matemáticas, teorias científicas e programas de


computador qualificam-se como entidades sintáticas, mas
teorias científicas e programas de computador têm uma
significância semântica (para o mundo físico) que provas
(na matemática pura) não possuem87.

No centro de sua argumentação está a premissa de que


existe uma diferença entre algoritmos como uma solução efetiva
de uma tarefa e programas de computador como modelos causais
desses algoritmos. Os algoritmos, logicamente especificados e
formalizados, são independentes de contextos, podendo ser
aplicados para a derivação de conclusões a partir de premissas
sem qualquer preocupação com o propósito dos argumentos
relacionados. Os programas em execução exercem influências
causais sobre computadores, perdendo sua isenção relativa a
contextos. As máquinas informacionais, quando operam
propriamente, não são apenas circunscritas às suas instruções (law
abiding). Elas são incorporações das instruções88. Na percepção de
Weizenbaum, “uma teoria escrita na forma de um programa de
computador é tanto uma teoria quanto um modelo ao qual a
teoria se aplica, quando colocada em um computador em
execução”89.
Esse fenômeno se torna mais evidente pelo fato de que os
programas atuais são escritos em linguagens de nível mais alto
(como Pascal, LISP, etc.), nas quais existe uma relação do tipo
um-para-muitos entre os comandos do programa e as instruções
executadas pela máquina. Na linguagem de máquina,
diferentemente, há algo próximo a uma relação um-para-um entre
comandos e instruções executadas. Os programas atuais são
escritos para máquinas virtuais, que podem ter ou não
contrapartes físicas. Clark fala em programas parciais,

87 FETZER, 2000, p. 268.


88 Cf. WEIZENBAUM, 1976, p. 40.
89 WEIZENBAUM, 1976, p. 145.
144 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

uma especificação genuína que, apesar disso, cede uma


boa parte do trabalho e do processo decisório a outras
partes da matriz causal. Nesse sentido, é muito como um
programa ordinário de computador (escrito, por exemplo,
em LISP) que não especifica como ou quando alcançar
certos sub-objetivos, deixando essas tarefas para
dispositivos previamente incorporados ao sistema
operacional90.

Em um programa complexo, há várias sub-rotinas, que


podem ter acesso diferencial às operações umas das outras, tanto
em termos de informação sobre as ações e os efeitos dessas
operações, quanto em termos de interferências possíveis nas
ações de outras sub-rotinas, seja para ajudar, seja para
interromper. Como um dispositivo informacional (processador
simbólico), o computador transcende sua natureza originária de
autômato de estados finitos.
Ao definir a máquina que veio a ter seu nome, Turing
afirmou que

o comportamento possível da máquina em qualquer


momento é determinado pela m-configuração, qn e o
símbolo escaneado s(r). Esse par qn,s(r) vai ser chamado
‘configuração’: assim a configuração determina o
comportamento possível da máquina91.

Definida teoricamente, a Máquina de Turing pode ser


instanciada tanto fisicamente quanto virtualmente. O que a
Máquina de Turing fará depende do seu estoque de
representações (inclusive a de si mesma e suas competências) e da
forma com que as distintas representações são comparadas ou
transformadas umas nas outras. Enquanto software (máquina
virtual), a Máquina de Turing tem apenas representações e
inferências. Instanciada em um hardware, produz causas físicas:

90 CLARK, 1998, p. 157.


91 TURING, 1936/2004, p. 59.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 145

um programa em execução é uma máquina de um certo


tipo, uma máquina informacional. O texto do programa – as
palavras e os símbolos que o programador compõe, que
‘dizem ao computador o que fazer’ – é uma máquina
informacional incorpórea. O seu computador provê um
corpo92.

A tradução entre os comandos (semântica?) para


instruções (sintáticas?) gera causas físicas (oscilações de corrente,
por exemplo) no hardware. Por analogia, a semântica cerebral
(vontade consciente de levantar o braço) se traduz em sintática
neuro-muscular (impulsos neurais enviados às fibras musculares).
Resultados de alto nível (semânticos) podem ser obtidos a partir
de sintáticas diversas. As estruturas físicas, entretanto, restringem
as ações e interpretações. Dada a complexidade de um
computador digital atual, as dificuldades para se identificar os
correlatos neurais aos estados mentais, em humanos, não são
menos complicadas do que aquelas para se identificar as relações
entre os estados abstratos de uma Máquina de Turing e os
estados estruturais do dispositivo que os estejam implementando.
A descrição lógica de uma Máquina de Turing não inclui
qualquer especificação quanto à sua natureza física, nem quanto a
de seus estados. A Máquina de Turing é uma máquina abstrata,
que pode ser fisicamente realizada em praticamente qualquer tipo
de substância. Conforme argumentado por Teixeira, Máquinas de
Turing “podem ser construídas com qualquer tipo de material, até
com pedacinhos de papel e latas de cerveja vazias. O que importa
é a realização de uma função seja por que meio for”93. Porém,
instanciar uma Máquina de Turing com esses materiais e
instanciar em hardware de computador apropriado causa
resultados diferentes. A instância é a atualização do programa. O
programa é para a instância o que a língua é para o ato de fala.
No primeiro computador digital, ENIAC, a programação
era física e um programa típico envolvia milhares de cabos,
conectados à mão, ponto a ponto, em grandes tábuas de

92 GELERNTER, 1992, p. 39.


93 TEIXEIRA, 2004, p. 88.
146 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

programação. Por analogia, essa primeira versão digital da


Máquina de Turing universal não era muito diferente dos
pedacinhos de papel e latas de cerveja. Até os dias atuais, as
operações mais comuns – adição, subtração, multiplicação – já
estão inscritas na máquina, ou seja, os circuitos impressos são
arranjados de tal forma que efetuam automaticamente a operação
desejada. Notoriamente, os avanços mais retumbantes da IA,
como os programas vencedores de xadrez, envolvem utilização
de hardware especializado. Quanto mais especializada a máquina,
mas sua arquitetura física reflete a estrutura de suas computações.
Em uma máquina de finalidades gerais, a correspondência entre
forma e função é mais fraca, e a estrutura instantânea da
computação é determinada pelos detalhes do programa em
execução. No nível do ENIAC, comando era igual a instrução. Em
níveis superiores, o máximo que se pode afirmar é que há uma
token identity entre comandos e instruções, similar à token identity
entre qualia e assembléias de neurônios.
Correndo o risco de empobrecer a argumentação,
exemplificamos o que pretendemos com dois computadores
similares, rodando o mesmo programa, um tem uma interrupção,
o outro não. O que queremos afirmar é que, quando instanciadas
em uma base física, os estados possíveis da máquina passam a ser
determinados por [qn,s(r) + base física]. E que essa base física,
quando tratamos dos modernos computadores digitais, pode
gerar resultados iguais a partir de entradas (inputs) diferentes. Ou
seja, um processador de texto em execução em máquinas
similares pode gerar o mesmo resultado, apesar de seu conjunto
de circuitos integrados estarem em situações físicas diferentes.
A situação física real dos computadores é inacessível a
outra máquina, de modo análogo à forma como os qualia de um
homem são inacessíveis aos outros homens. Destaque-se a vasta
quantidade de fenômenos paralelos intercorrentes em um
computador em funcionamento, como, por exemplo, o fato de
que a produção de calor em resistências ôhmicas de
computadores digitais faz com que essas resistências mudem, em
uma percentagem mínima, seu valor. Portanto, para acessar a
exata situação física da outra máquina, um computador teria que
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 147

ser a outra máquina. Pretendemos aqui uma argumentação similar


à de Thomas Nagel, em seu artigo clássico What is like to be a bat?,
embora não compartilhemos de suas pretensões dualistas.
O que se afirma é que uma Máquina de Turing
instanciada em uma base física qualquer passa a ser determinada
por [qn,s(r) + base física] e esse estado é único (momentum) e
irreprodutível – um estado objetal não passível de objetivação.
Esses estados estariam na base uma possível derivação de traços
de singularidade (talvez até personalidade) em máquinas.
Argumenta-se que uma Máquina de Turing é
determinística porque cada novo estado é exclusivamente
determinado por um único evento de entrada. Porém, o mesmo
pode ser alegado para os componentes mais básicos dos seres
vivos, como as células, cujo comportamento pode ser calculado
por uma função recorrente geral, em qualquer grau de precisão
desejado, desde que exista uma descrição suficientemente precisa
do estado interno da célula e do meio circundante. Em um nível
ainda mais elementar, o das moléculas de DNA, essa precisão de
comportamento é ainda mais absoluta e determinística94.
O que está no cerne da argumentação que propugna o
nível inultrapassável de determinismo da máquina é, na verdade, a
defesa de que essa nunca poderá experimentar Empfindungen –
sentimentos e experiências em estado bruto – ou, para usar uma
terminologia mais comum no campo da filosofia da mente, os
computadores nunca poderão ter qualia. Contudo, não existem
argumentos que defendam que uma célula tenha qualia, muito
menos uma molécula de DNA. Do mesmo modo que os
processos conscientes de alto nível (entre eles os qualia) são
experimentados de forma independente de um conhecimento
funcional dos processos de nível mais baixo nos quais se
sustentam (transações neuronais), um programa de computador
incorpora inúmeros subprogramas. O resultado de alto nível com

94 Essa linha de argumentação encontra sustentação em outros autores. Norbert Wiener


afirmou que “os seres vivos não são vivos além do nível das moléculas” (WIENER,
1979, p. 52). Teixeira postulou que “as relações entre o vivo e o não-vivo são cada vez
mais promíscuas, o que põe em risco o argumento que Leibniz usava para nos separar
dos autônomos” (TEIXEIRA, 2006).
148 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

o qual se interage (a tela que se vê quando se trabalha com um


processador de textos, por exemplo) independe de um
conhecimento preciso sobre como as sub-rotinas de nível mais
baixo estão realizando seu trabalho.
Pode-se argumentar, ainda, que a camada digital é aplicada
sobre uma camada estritamente física e que a partir dessa
aplicação acaba-se o espaço para qualquer possibilidade de qualia.
No nível elétrico do microprocessador, voltagens superiores a
3,8V são traduzidas como uns e voltagens inferiores como zeros e,
a partir daí, o comportamento da máquina digital seria
completamente determinístico. Ocorre que a máquina não se
reduz ao microprocessador e os computadores modernos são
verdadeiros complexos de componentes, interagindo de maneira
dinâmica, e gerando possibilidades para resultados diferentes. A
última versão do Windows, sistema operacional da Microsoft,
chamada de Windows Vista, traz uma função que calcula o
Windows Experience Index, ou, vasculhada toda a máquina e
verificado o desempenho de seus múltiplos componentes em
interação sistêmica, chega-se a um indicador da performance
daquela máquina específica.
Uma perspectiva que se aproxima um pouco do que se
pretende afirmar com esse ponto é a abordagem de Brooks para a
consecução de IA. Brooks prevê que a simulação de
comportamento inteligente deve ter como ponto de partida os
comportamentos simples, rotineiros, que não carecem da
existência prévia de representações. Seria uma entidade situada
fisicamente (o que significa abrir mão de construir um modelo
completo do meio-ambiente para então agir sobre ele) e
corporificada (capaz de distinguir verbos e substantivos). A
inteligência surgiria nas interações dessa entidade com o mundo,
na medida em que tiver de resolver problemas (como, segundo a
perspectiva evolucionista, acontece na natureza). Dada essa
característica emergente da inteligência, ela não precisa ser pré-
programada. Essa perspectiva vem sendo desenvolvida em um
projeto no MIT, o COG, que é um robô do qual se espera que
um dia chegue a apresentar comportamento inteligente – uma IA
corporificada. No presente, o COG já é capaz de reconhecer
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 149

elementos que fazem parte do seu corpo e elementos que não


fazem parte de seu corpo, e tem a noção de que deve proteger os
primeiros, o que pode ser considerado uma auto-consciência
prototípica95. Outro caminho foi seguido por cientistas da Georgia
Tech, que desenvolveram o robô El-E, capaz de pegar, com
autonomia, objetos com pesos variados de superfícies em um
ambiente não mapeado. O El-E pode atuar em novos ambientes
sem um mapa e interagir com objetos deslocados, utilizando um
sistema sensorial de lasers embutidos96.
Os estados objetais não objetiváveis poderiam também
justificar a falibilidade das máquinas computacionais e, portanto,
seu passo decisivo rumo à inteligência. Turing parece ter
antevisto essa possibilidade ao afirmar que “o argumento de
Gödel e outros teoremas se apóiam essencialmente na condição
de que a máquina não cometa erros. Mas isso não é um requisito
para a inteligência”97. No entender de Turing, o que o teorema de
Gödel e outros resultados correlatos (como a própria Tese
Church-Turing) demonstram é que se forem utilizadas Máquinas
de Turing Universais para propósitos como o de determinar a
verdade ou a falsidade de teoremas matemáticos, e não houver
tolerância para a eventualidade de um resultado errado, nenhuma
máquina será capaz, em alguns casos, de chegar a uma resposta.
Essa incapacidade de se chegar a uma resposta não significa,
necessariamente, que se está diante de uma situação de não-
algoritmicidade ou de incomputabilidade98. Pode-se estar diante
de um problema transcomputável: “um problema
transcomputável é um problema intratável cujo procedimento
algorítmico de solução não pode ser obtido em tempo eficiente a

95 Interessante notar que essa distinção entre externo e interno é também uma das
primeiras tarefas que a criança consciente faz, tema estudado por Freud ao tratar do
fenômeno da percepção oceânica, estágio em que essa diferenciação ainda não existe na
criança, em seus primeiros anos de vida.
96 Informações sobre o El-E extraídas de ROBÔ..., 2008, f3.
97 TURING, 1948/2004, p. 411.
98Teixeira (TEIXEIRA, 2004, p. 92) registra que “se pudermos saber se existe ou não
uma outra máquina de Turing que nos permita saber se uma máquina de Turing pára ou
não, teremos encontrado o procedimento mecânico (algorítmico) cuja possibilidade de
existência Hilbert questionava”.
150 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

despeito de qualquer aperfeiçoamento do hardware do


computador utilizado”99.
Continuando sua linha de argumentação, Turing afirma
que

se se espera que uma máquina seja infalível, ela não pode


ser inteligente. Há vários teoremas matemáticos que dizem
exatamente isto. Mas esses teoremas não dizem nada a
respeito de quanta inteligência pode ser demonstrada se
uma máquina não tiver qualquer pretensão de
infalibilidade100.

Curiosamente, na revanche em que derrotou Deep Blue,


Kasparov afirmou ter feito lances ruins de propósito e ter jogado
aquém de suas capacidades. A inteligência estaria na capacidade
de errar? Ou seria o erro a forma de burlar a sintática formal dos
programas-como-texto e ingressar no mundo da semântica?

Will machines beat us? Sobre progressões crescentes e decrescentes

Turing sinalizou para a possibilidade de que as máquinas


viessem a superar os humanos: “uma vez que o método de
pensamento das máquinas comece, não vai demorar muito para
que elas arranquem nossos frágeis poderes”101.
O cérebro humano tem cerca de 100 bilhões de células
nervosas e mais de cinqüenta substâncias neurotransmissoras.
Estima-se que o potencial de conexões entre os neurônios chegue
a 500 trilhões. Trata-se, sem dúvida, de um substrato formidável
para o processamento cognitivo. Contudo, é um limite superior
fixado, a partir do qual se revela uma função decrescente,
tendendo a zero. Changeux chama o estado do cérebro infantil de
estado exuberante, no qual é possível uma máxima variabilidade.
Segue-se a descrição de Changeux ao processo:

99 TEIXEIRA, 2004, p. 99.


100 TURING, 1947/2004, p. 394.
101 TURING, 1945/2004, p. 475.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 151

durante o desenvolvimento, uma vez atingida a última


divisão dos neurônios, as arborizações axônicas e
dendríticas formam gomos e abrem-se de maneira
exuberante. Neste estágio ‘crucial’, a conectividade da rede
atinge o máximo. Atinge também um máximo o número
de combinações possíveis de neurônios. Ao nível celular,
observam-se sinapses supranumerárias ou ‘redundantes’,
mas trata-se de uma redundância transitória. Intervêm
rapidamente fenômenos regressivos. Há neurônios que
morrem. A seguir ocorre a eliminação de uma fração
importante das ramificações axônicas e dendríticas.
Desaparecem sinapses ativas102.

Pode parecer surpreendente a idéia de fenômenos


regressivos que acompanham o conjunto celular em
desenvolvimento. Mas a morte celular verifica-se de forma
sistemática no decurso da formação do sistema nervoso103. Em
Changeux, aprender é eliminar conexões, ou seja, estabilizam-se
apenas as conexões que têm uso efetivo. De uma forma
metafórica, aprender é esquecer. Serres argumentou que

ao esculpir o embrião e dele eliminar as células supérfluas,


a apoptose tanto destrói como constrói o corpo (...) Com
certeza, ela provoca nosso desaparecimento, embora
modele nossa formação, nossos músculos e nervos e, além
disso, determina nossas performances sensoriais e
motoras104.

Trata-se de tema de inspiração darwiniana. Darwin


formulou um modelo genérico explicativo da complexidade da
natureza que não precisava levar em consideração o fator Deus.
Na prática, Darwin descobriu uma família de algoritmos
evolutivos (seleção natural, seleção sexual, derivação). Um
102 CHANGEUX, 1999, p. 299.
103 A neurogênese pode ser definida pela seguinte equação: [(ploriferação celular +
diferenciação celular + formação de conexões) – retração de conexões – morte celular].
É uma equação não linear, porque cada um de seus elementos tem relações entre si e
com outros elementos, cujos resultados são incorporados recursivamente ao processo.
104 SERRES, 2003, p. 14.
152 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

darwinismo neural consistiria na teorização e formulação


matemática da rede neuronal humana. Semelhante algoritmo
deveria se iniciar com as leis que regem a dispersão neuronal
(essencialmente físicas), as conexões inerentes/intrínsecas e as
formas em que a rede é esculpida. Nesse processo, a exposição ao
ambiente é fator fundamental de estímulo/inibição de algumas
vias.
O estado de máxima conexão seria, por conseguinte, um
estado de máximo aprendizado. Pode-se especular que esse seria
o limite físico (gödeliano?) do conhecimento humano. Quando
nascemos, temos todas as conexões, o que nos leva uma condição
de percepção oceânica (freudiana), na qual somos incapazes de
estabelecer uma diferenciação de nosso ser em relação ao mundo.
É a informação total ou a forma plena. Com o processo reiterado
de exposição ao ambiente, aprendemos (eliminamos conexões) e
gradativamente vamos nos individualizando. Ao longo da vida, a
continuidade da apoptose105 nos leva à condição de apercepção,
quando a percepção não será mais possível em função da
ausência de forma (informação nula). A perspectiva bio-orgânica
nos remete à perspectiva informacional – viver é o percurso da
informação total para a informação nula. O núcleo do argumento,
entretanto, é o fato comprovado de que perdemos células neurais
ao longo da vida. Ou seja, essa é uma progressão inexoravelmente
decrescente.
Do lado dos computadores, há um esforço contínuo pelo
aumento da capacidade. Trata-se de uma função crescente, com
limite tendendo ao infinito. Quantitativamente, ao menos, é
inexorável que as máquinas venham a dispor de uma capacidade
de processamento maior do que a dos humanos. Retomando a
preocupação de Turing, a grande questão é que, se um dia as
máquinas lograrem alcançar espaços semânticos similares aos
processos conscientes dos humanos, elas inexoravelmente nos
vencerão em termos cognitivos, dado seu ilimitado substrato
material. Pesquisadores da Universidade de Lausanne, na Suíça,
estão desenvolvendo um projeto de construção de um

105Respeitadas as descobertas de geração de novas células cerebrais em indivíduos


adultos.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 153

computador capaz de realizar 23 trilhões de cálculos por segundo,


com o objetivo básico de construir uma réplica digital do cérebro
humano. Essa máquina será capaz de reproduzir, de forma
artificial, os mecanismos cerebrais da inteligência. Atualmente, a
máquina já contempla 10 mil neurônios digitais, interconectados,
que correspondem a uma coluna neocortical – um emaranhado
de células do tamanho de uma cabeça de alfinete que existe no
cérebro de todos os mamíferos. Ainda muito distante dos 100
bilhões de neurônios de um cérebro humano completo, mas em
um caminho inexoravelmente progressivo.
Essa perspectiva ganha mais força com as abordagens
conexionistas. Enquanto a IA buscou modelos seriais
especificados top-down (de cima para baixo), havia a necessidade
de um controle centralizado, que tomasse decisões com base no
acesso a todos os aspectos do estado global. E as decisões do
controle central tinham potencial para afetar diretamente
qualquer aspecto do sistema. Era a versão informatizada do teatro
cartesiano, ou a tentativa informatizada de se gerar o ghost para a
máquina106. As abordagens conexionistas, ou redes de
processamento paralelo e distribuído, abdicam da figura do
controlador central, com cada nó (agente) da rede atuando com
base apenas nas informações sobre sua situação local e cujas
decisões também afetam somente sua situação local. A interação
dos agentes locais gera comportamentos globais coerentes,
mediante as regras dos fenômenos emergentes.
A abordagem conexionista inspira-se no modelo de
funcionamento do cérebro humano. Von Neumann afirmava,
comparativamente:

os mesmos fatores mostram que os componentes naturais


são mais eficazes nos autômatos com mais órgãos,
embora mais lentos, ao passo que os artificiais são-no com
a organização inversa: órgãos mais rápidos, mas em menor
quantidade. Daqui resulta que seja de esperar que uma

106 Trocadilho com a expressão ryleana “o fantasma na máquina”, em referência a todas


as tentativas de se interpretar o funcionamento da consciência a partir de algum tipo de
homúnculo, ou algum espectador diante de um palco (teatro cartesiano), encontrada na
obra seminal de RYLE (2000), The concept of mind.
154 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

grande automação natural, eficientemente organizada


(como o sistema nervoso humano), tenha tendência para
recolher tantos itens lógicos (ou informacionais) quantos
forem possíveis em simultâneo e a processá-los também
em simultâneo107.

Vale abordar aqui a expectativa de que um ser inteligente


deverá ser igual ao homem. Parafraseando Wittgenstein, mesmo
se um dia os computadores vierem a pensar, nós não seremos
capazes de compreender os seus pensamentos. Por trás dessa
paráfrase está a noção de que computadores e cérebros são
instanciações materiais radicalmente diferentes (inorgânico /
orgânico) e, portanto, sempre haverá uma diferença qualitativa
nas formas de movimento da matéria que ocorrem em um e no
outro. Turing também estava atento a esse fato, dizendo que
“haveria muito a fazer na tentativa de entender o que as máquinas
estivessem tentando dizer”108.
Segundo a compreensão de Hawkins, as máquinas
inteligentes não se parecerão em nada com os robôs da ficção
científica: “pelo contrário, as máquinas inteligentes vão surgir de
um novo conjunto de princípios sobre a natureza da
inteligência”109. Ainda nessa linha, Hofstadter afirma que “se a
inteligência envolve aprender, criatividade, respostas emocionais,
um sentido de beleza, um sentido de si próprio, então o caminho
adiante é longo e pode ser que isso somente seja atingido quando
tivermos duplicado totalmente um cérebro humano”110.
A perspectiva de criar máquinas inteligentes que não
sejam réplicas dos humanos traz consigo a possibilidade de que
não sejamos capazes de perceber quando estivermos diante de
uma Inteligência Artificial. Isso faz com que Hofstadter afirme
que

107 VON NEUMANN, 2005, p. 85.


108 TURING, 1945/2004, p. 475.
109 HAWKINS, 2004, p. 2.
110 HOFSTADTER, 2001, p. 627.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 155

minha percepção é de que qualquer programa de


Inteligência Artificial pareceria, se nos fosse
compreensível, bastante estranho. Por essa razão, teremos
muita dificuldade para decidir quando e se estamos
realmente lidando com um programa de Inteligência
Artificial ou simplesmente com um programa
‘esquisito’111.

Pinker afirma que o que faz um sistema ser inteligente

não é o tipo de material de que ele é feito ou o tipo de


energia que flui através dele, mas o que as partes da
máquina representam e como os padrões de mudanças
dentro dela são projetados para espelhar relações
preservadoras da verdade (inclusive verdades
probabilísticas e nebulosas112.

Pinto faz uma crítica ao argumento da possibilidade da


superação dos homens pelas máquinas, a qual, contudo, baseia-se
na premissa da impossibilidade de experiências qualitativas pelas
máquinas:

os autômatos superinteligentes poderiam talvez fazer


coisas extraordinárias, mas não teriam inteligência que os
levassem a saber que existem. Constituiriam o fenômeno
análogo ao verificado com certos animais, possuidores de
funções perceptivas ou potência muscular
incomparavelmente mais eficientes que as do homem, e
nem por isso julgados seres biológica ou culturalmente
superiores113.

Esse saber que existem está no centro das discussões sobre


os paradoxos da consciência. Dispondo da capacidade de saber o
que acontece em si, e ciente de que essa experiência é indivisível,
o ser consciente teria condições de lidar com questões gödelianas:

111 HOFSTADTER, 2001, p. 746.


112 PINKER, 1998, p. 88.
113 PINTO, 2005, p. 566.
156 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

“ele pode conceber seu próprio desempenho e ao mesmo tempo


algo externo a esse desempenho, sem que para isso tenha de se
dividir em partes”114.
A resposta de Turing às alegações referentes à questões da
consciência tem um perfil tipicamente funcionalista:

não quero dar a impressão de que penso não existir


nenhum mistério no que diz respeito à consciência.
Existe, por exemplo, algo assim como um paradoxo
vinculado às tentativas de localizá-la. Mas não acredito que
tais mistérios tenham de ser necessariamente resolvidos
antes de podermos responder a pergunta que nos
preocupa neste artigo115.

Ora, os mecanismos da consciência ainda são um mistério


para o homem e mesmo assim o homem é um ser consciente.
Por analogia funcionalista, poder-se-ia desenvolver uma máquina
consciente sem se saber como funciona essa consciência. Uma
questão mais válida, talvez, seja a levantada por Kurzweil: “pode
uma inteligência criar outra inteligência mais inteligente do que si
mesma?”116.
Segundo Hawkins, há pelo menos quatro atributos nos
quais os computadores superarão a nossa capacidade117:

• velocidade: neurônios operam com velocidades na ordem


de milissegundos, enquanto que os processadores operam
na ordem dos nanosegundos;
• capacidade: apesar da impressionante capacidade de
memória do cérebro, as máquinas inteligentes poderão
superá-la facilmente118;

114 TEIXEIRA, 2004, p. 95.


115 TURING, 1996, p. 41.
116 KURZWEIL, 2000, p. 40.
117 Hawkins (2004).
118 Hawkins (HAWKINS, 2004, p. 223) também ressalta o baixo desempenho
energético do cérebro (representa 2% do peso corporal mas consome 20% do
oxigênio).
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 157

• replicabilidade: cada novo cérebro precisa crescer e ser


treinado novamente, um processo que leva décadas;
• sistemas sensoriais – as máquinas inteligentes poderão
perceber o mundo segundo qualquer tipo de sentido
encontrado na natureza, bem como novos sentidos
concebidos exclusivamente pelo homem.

Não deixa de ter uma conotação engraçada o fato de que


um estudioso dos símbolos e da mitologia deixe registrada uma
previsão do sucesso da máquina. Joseph Campbell diz que:

os homens têm uma imaginação de outro tipo, a


imaginação ilógica e brilhante que vê o resultado futuro
vagamente, sem saber o porque, nem o como, uma
imaginação que desbanca a máquina em sua precisão. O
homem pode alcançar a conclusão mais rapidamente, mas
as máquinas sempre a alcançarão, e sempre a conclusão
certa. Por saltos e pulos o homem avança. Por passos
constantes, irresistíveis, a máquina marcha adiante119.

A Inteligência Artificial como o Outro: o uncanny freudiano

Uma das inquietações metafísicas do ser humano sempre


foi o sentimento de estar sozinho no universo. A dúvida quanto a
sermos ou não os únicos seres dotados de pensamento
consciente nos acompanha há milênios, quiçá desde a primeira
manifestação da consciência.
A criação de deuses, seres superiores dotados de
consciência, pode ser atribuída, em parte, à tentativa de encontrar
companheiros de pensamento. Atribuir consciência e buscá-la
nos animais, ao longo da história, também foi uma estratégia para
superar essa solidão milenar. Outra linha, igualmente antiga, vem
sendo a tentativa de encontrar consciência em autômatos. Na
contemporaneidade, essa perspectiva ganhou força e virou campo
de pesquisa – a IA.

119 CAMPBELL apud MINSKY, 1985, p. 185.


158 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

Freud, em uma obra supostamente de caráter mais crítico-


literário – The Uncanny, 1925 – analisou o conto “The Sandman”,
de Ernst T. W. Hoffmann (1817)120. O sentimento de
“estranheza” (uncanny)121, para Freud, vem da dúvida quanto a um
ser aparentemente inanimado poder estar vivo, que ocorre às
vezes, como quando nos deparamos com estátuas de cera,
algumas bonecas muito bem construídas e, também, os
autômatos. Segundo Johnson,

A atração sinistra que a boneca mecânica exerce na


história de Hoffmann, a dúvida sobre si mesmos dos
replicantes das réplicas de ‘Blade Runner’ – são todos
temas imaginários que residem também no epicentro do
projeto de interface contemporâneo. Hoffmann escreveu
na aurora da idade industrial, numa época em que a
Europa parecia sitiada por uma nova espécie de inventos
mecânicos – mais dinâmicos, mais animados que tudo que
houvera antes. Era quase impossível não ver algo de
demoníaco naquele movimento automatizado, e
igualmente impossível não ser mesmerizado por ele, e é
por isso que tantos dos primeiros visitantes de Manchester
voltavam com uma incômoda mistura de repugnância e
admiração122.

No pensamento de Freud, “esses temas são todos


relacionados ao fenômeno do duplo, o qual aparece em cada
forma e em cada degrau do desenvolvimento. Assim, nós temos
caracteres que devem ser considerados idênticos porque se
parecem”123. A questão do duplo aparece, de certa forma, na
relação do homem com o objeto técnico e faz parte, inclusive, da
crítica tradicional de que o homem se torna escravo de suas ferramentas.
McLuhan afirma que

120 "'O homem da areia' é a primeira grande expressão literária de um tema que
atravessa a narrativa do século XX: o perigo – e a sedução – de confundir máquinas
com seres humanos" (JOHNSON, 2001, p. 128).
121 Possíveis traduções para uncanny: estranho, misterioso, incomum, fantástico, sinistro.
122 JOHNSON, 2001, p. 128.
123 FREUD, 1925.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 159

a palavra narciso vem da palavra grega narcosis,


entorpecimento. O jovem Narciso tomou seu próprio
reflexo na água por outra pessoa. A extensão de si mesmo
pelo espelho embotou suas percepções até que ele se
tornou o servomecanismo de sua própria imagem
prolongada ou repetida124.

O tema do embotamento das faculdades ampliadas ou


substituídas pelas ferramentas é uma tônica contínua no
pensamento de McLuhan. Baudrillard analisa essa questão,
afirmando que

Toda reprodução implica assim um malefício, do fato de


ser seduzido por sua própria imagem na água como
Narciso até a assombração pelo duplo, e, quem sabe, até a
reversão mortal dessa vasta aparelhagem técnica secretada
hoje pelo homem como sua própria imagem (a miragem
narcísica da técnica, McLuhan) e que depois a reenvia a
ele, reprimida e distorcida – reprodução sem fim dele
mesmo e de seu poder até os limites do mundo125.

Na visão de Freud, o tema do duplo era “originariamente


um seguro contra a destruição do ego, uma ‘negação enérgica do
poder da morte’”126, razão pela qual possivelmente a alma imortal
tenha sido concebida pelo homem como o primeiro duplo do
corpo. Concluindo seu artigo, Freud registra:

essas idéias, contudo, brotam do solo do sem limites, do


amor-próprio, do narcisismo primário que domina a
mente da criança e do homem primitivo. Mas quando esse
estágio é ultrapassado, o ‘duplo’ reverte seu aspecto. De
um seguro para a imortalidade, ele se torna o misterioso
arauto da morte127.

124 McLUHAN, 1996, p. 59.


125 BAUDRILLARD, 1996, p. 70.
126 FREUD, (1925)
127 FREUD, (1925)
160 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

A questão envolve preconceitos ancestrais com relação à


usurpação do direito divino de soprar o fôlego de vida nos
viventes. Talvez as origens semíticas de Freud tenham estado na
base de sua inquietação. Apenas Jeová poderia ter o direito de
demarcar a fronteira entre o ser e o não ser, a vida e a não vida.
Talvez, ainda, Freud estivesse assombrado pela antiga lenda do
Golem, um ser tosco, de aparência humana, criado a partir da
terra e que recebe vida em meio a um ritual128. O Golem
materializa a vitória do homem em sua competição com o divino
pela primazia na concessão da vida. No âmbito judaico, a idéia de
que a criação poderia ser reproduzida por meio de rituais mágicos
se tornou uma questão de suma importância. Talvez o autômato
inteligente, a materialização física da Inteligência Artificial, seja o
último personagem dessa história. Assim parece pensar
Baudrillard, quando afirma que

às quais [nossas criaturas cibernéticas] oferecemos a


oportunidade de nos derrotar. Mais: sonhamos que nos
ultrapassam. Isto claro como signo de nossa potência, mas
não o suportamos tampouco. O homem encontra-se dessa
forma preso à utopia de um duplo superior de si mesmo,
que é preciso, contudo, vencer para salvar a face129.

Mumford, que escreveu uma longa obra sobre a história


da tecnologia, concluiu que “o autômato é o último passo em um
processo que começa com o uso de uma parte ou outra do corpo
humano como ferramenta”130. Em seguida, Mumford afirma:
“nós ainda estamos, eu devo enfatizar, provavelmente apenas no
início desse processo reverso, no qual a técnica, ao invés de se
beneficiar com uma abstração da vida, vai se beneficiar ainda

128No ritual, o nome de Deus é soprado ao Golem pelo rabino Low, de Praga, que teria
convencido o Imperador Rodolfo da possibilidade de dar vida a um novo Adão, a partir
do barro. Elementos similares estão na origem de inúmeras outras histórias de criação,
como o Aprendiz de Feiticeiro, de Goethe e o Frankenstein, de Mary Shelley.
129 BAUDRILLARD, 2002, p. 118.
130 MUMFORD, 1963, p. 10.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 161

mais grandiosamente por meio de sua integração com ela”131. Ao


construir máquinas que aprendem e o simulam, o homem assume
o papel de criador. Voltamos ao início da tese, com o homem se
digladiando com um ambiente hostil e utilizando intensivamente
a técnica e os artefatos (objetos técnicos) como forma de superar
suas carências filogenéticas.

131 MUMFORD, 1963, p. 254.


CONCLUSÕES
O espaço nos afeta e afetamos o espaço, em um processo
recursivo-interativo, que se acelerou sobremaneira a partir da
descoberta, pelos hominídeos, da possibilidade de utilização de
artefatos como objetos-técnicos, que ampliaram sua capacidade
de intervenção. A partir do espaço natural (Welt), o homem
produziu (e foi produzido) por novos espaços (Umwelt –
Lebenswelt – ciber-Lebenswelt). Aquilo que anteriormente
apresentava-se como imutável transformou-se em espaço aberto
e dinâmico, requerendo dos seres humanos outros parâmetros
para a compreensão de si mesmos e do ambiente em que vivem.
Nossa convivência em espaços produzidos e
reproduzidos, cada vez mais complexos, exige uma monumental
reestruturação de concepções, que possam satisfazer as
necessidades contextuais dos seres vivos e do seu entorno, cada
vez mais fluidas e fugidias. Parafraseando Maturana & Varela,
podemos dizer que não vemos o espaço, vivemos o espaço1. Esse
espaço, vivido, é condicionador de nossas ações. A partir da
viagem do Sputnik, o espaço Terra foi completamente subjugado
pelo homem e a natureza perdeu seus últimos enclaves2.
Sintomaticamente, as novas aspirações colonialistas se voltam
para Marte, para o extraterrestre. Alcançamos, finalmente, a
desterritorialização mais fundamental, a do próprio território – a
abstração da Terra. Passamos a nos mover em um campo de
significados, abstrações concretas que alcançam existência real –
o real sempre está presente, em potência, no virtual.
Essa nova concepção do espaço choca-se frontalmente
com o positivismo mecanicista, que se prestou a referendar um
esquema representacional da realidade, simplificador e
reducionista. Simplificador por não dar conta da complexidade da

1 MATURANA, H.; VARELA, F., 2001.


2 Sobre esse assunto, vale a pena pensar sobre uma citação de McLuhan: “Quando o
planeta se viu subitamente envolvido por um artefato fabricado pelo homem, a
Natureza converteu-se em forma de arte. O momento do Sputnik foi o momento da
criação da espaçonave Terra e/ou do teatro global. Shakespeare, no Globo, via o
mundo todo como um palco, mas com o Sputnik o mundo literário tornou-se um
teatro global sem platéias, povoado unicamente por atores” (McLUHAN, 2005, p. 134).
164 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

vida e suas possibilidades auto-organizativas. Reducionista por se


apegar a um mentalismo racionalista, incapaz de compreender o
incomensurável leque de diversidades e a multiplicidade de
opções do sistema complexo e dinâmico do ciber-Lebenswelt.
A partir dessa compreensão do espaço, avançamos para
qualificações diferenciadas do mundo, que nos permitam novas
ferramentas interpretativas para a realidade, como a proposta
conceitual do ciber-Lebenswelt. No ciber-Lebenswelt, o espaço não é
um limite, dentro do qual tudo o mais está contido. Antes, o
espaço é também continente, ele próprio um artefato à disposição
dos processos cognitivos. O ciber-Lebenswelt reúne materialidades,
como neurônios, chips, livros, artefatos; e imaterialidades, como
instituições, línguas, signos. Seu paradigma é o informacional, no
qual tudo o que for capaz de produzir uma diferença (uma
escolha entre múltiplas e eqüiprováveis soluções) pode ser
considerado uma entidade atuante.
A inserção nessa nova concepção de espaço da vida,
contudo, não se dá isenta de resistências e paradoxos. As
diferenças de freqüência do espaço natural e do ciber-Lebenswelt
provocam curtos-circuitos, causando choques, deslocamento e
ansiedade no homem, que passa a depender de novas formas de
imersão nessa pluralidade sensorial. Essa percepção nos levou a
refletir sobre o estatuto atual do corpo humano, uma vez que esse
ainda permanece fortemente associado à nossa identidade e
individualização. Ainda é a partir do corpo que nos inserimos no
mundo-da-vida.
Encontramos um corpo evanescente, diluído em sistemas
mais amplos, em uma complexa e dinâmica estrutura interativa e
interdependente com seu entorno. O novo referencial modelar
do corpo é o cyborg, um sistema humano-maquinal formando
unidade, deixando de fazer sentido as linhas fronteiriças
tradicionais entre homens e máquinas. A plasticidade original do
sistema nervoso central, importante recurso evolutivo para
adaptações à circunstâncias inusitadas, como a perda de um
membro, resultou em uma facilidade incomum para o uso de
artefatos, em geral, e, particularmente, suas aplicações como
objetos-técnicos. Essas aplicações ampliaram a rede de conexões
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 165

do homem com o espaço natural, alterando o seu sistema de


relações produtivas e propiciando-lhe melhores condições para
dominar o ambiente. O objeto-técnico extrai seu principal sentido
quando passa a ser um elemento constituinte da subjetividade – o
homem, ao utilizá-lo, incorpora-o ao seu ser e passa a contar com
ele como parte de seu organismo. Esse sentido, portando,
transcende a idéia de que as máquinas são extensões sensoriais,
uma vez que as mesmas respondem pela objetivação da mente
humana no mundo-da-vida e o que se deriva dessa intervenção é
incalculável, pois se está diante de uma ressignificação da noção
de espaço.
Por essa razão, o conceito proposto para abarcar esse
novo sistema “corpo-objetos-técnicos” é o de sistemas
parabióticos. Vocábulo de origem grega, composto pelo elemento
par(a) – “ao lado de”, “da parte de” – e bíōs - “vida”3. A
intimidade e, sobretudo, a dependência visceral do homem para
com seus objetos-técnicos faz com que assumamos a parabiose, o
viver ao lado e com algo que nos é exterior. Nossa inserção e
sobrevivência no ciber-Lebenswelt é assegurada pelo processo de
hibridização íntima do corpo com objetos-técnicos cada vez mais
sofisticados.
Essa sofisticação crescente levou-nos ao campo dos
objetos-técnicos imateriais, os softwares, textos que se instanciam
fisicamente e produzem ações. Enquanto os objetos-técnicos
tradicionais, físicos, funcionavam como próteses motoras e
musculares, os novos objetos-técnicos assumem o papel de
próteses mentais. Mesclando elementos do biológico ao
maquínico e do mental ao software, surge um sistema cognitivo
híbrido, no qual os agenciamentos entre o orgânico e o
inorgânico acontecem de modo intuitivo. O circuito “agente
altera ambiente” – “ambiente altera agente” permanece válido,
mas as correntes que por ele circulam mudaram de voltagem. Os
sistemas cognitivos híbridos editam o ambiente e se auto-editam,
em um fluxo permanente de exposição e acoplamento a um
campo sensório-perceptual profundamente alterado.

3 Referências aos sentidos do termo extraídas de CUNHA, 2007, p. 579.


166 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

O referencial teórico que articula essas concepções, em


um nível mais amplo, é o da cibernética, que reuniu a teoria
matemática da informação; um modelo de funcionamento neural
que prescrevia neurônios como processadores de informação;
computadores digitais operando com base em código binário.
Permanecendo ainda no campo da parabiose como tema
aglutinador dos agenciamentos sistêmicos entre sujeitos e
objetos-técnicos, sejam eles materiais ou imateriais, surge a
discussão em torno de um tipo específico de software que,
provocativamente, recebeu a denominação de agente inteligente4.
Esses softwares seriam marcados pela capacidade de
reprogramação durante o uso. Agentes inteligentes são candidatos
natos à entidades atuantes no ciber-Lebenswelt: eles produzem
diferenças. Porém, propõe-se que eles transcenderão esse nível,
autonomizando-se, sendo pró-ativos, sensíveis ao ambiente e
sociáveis. Deixando um pouco de lado a discussão quanto à
possibilidade de literalização da denominação agentes inteligentes
(ou seja, a interrogação quanto à chance de um dia os agentes
serão realmente agentes e realmente inteligentes), é importante
notarmos que existe uma identidade entre o padrão de
apropriação e uso dos objetos-técnicos materiais e dos objetos-
técnicos imateriais.
Recursivamente, contudo, esse padrão de apropriação se
dá em um nível diferenciado de hibridização. De forma similar à
bengala que passa a fazer parte do corpo do cego, o software passa
a fazer parte do sistema cognitivo das pessoas. Exploramos essa
argumentação a partir de dois modelos distintos de consciência: o
modelo de múltiplas camadas de Dennett e o modelo modular de
Fodor.
Retomando a discussão quanto à evolução dos agentes
inteligentes, fomos levados ao campo de pesquisa da IA, no qual

4 A antropomorfização da terminologia começa com sentido metafórico e,


estarrecedoramente, caminha para uma literalização. Como quando se diz que um
computador tem ‘memória’, quando na verdade tem ‘registros magnéticos de séries de
0s e 1s’. Mas experiências recentes com implantação de chips em cérebros de
indivíduos, como tratamentos alternativos para casos de problemas de memória,
demonstram como as metáforas de fato têm um poder fecundante muito grande sobre
a realidade.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 167

residem as expectativas de termos uma nova entidade, capaz de


comportamentos autônomos e inteligentes. Procuramos
demonstrar a efervescência do campo, apresentando
argumentações favoráveis e contrárias, deixando, contudo, a
questão inconclusa, a partir de nossa proposta original de manter
um equilíbrio entre o tecnoentusiasmo e o tecnocatastrofismo.
Abrimos, entretanto, uma argumentação sobre possibilidades de
singularização das máquinas digitais, a partir da discussão dos
estados objetais não objetiváveis. A instanciação material da
Máquina de Turing (conceito abstrato) traria a possibilidade,
teórica, de construtos identitários singulares à máquinas digitais.
A existência dessa possibilidade deixa aberto o caminho para que
as máquinas digitais se tornem autônomas e inteligentes, embora
isso não signifique que venham a se tornar humanas. É provável
que se essa máquina um dia vier a pensar, ao tentarmos ler esses
pensamentos, estejamos como que diante do leão de
Wittgenstein.
Fazendo um paralelo, persiste até os nossos dias o dilema
mente-cérebro, para alguns o último mistério verdadeiramente
filosófico. Mas a insolubilidade do problema mente-cérebro não
nos impediu de existirmos e de termos pensamentos e ações
autônomas. O fato de não conseguirmos formular um modelo
científico para que ocorra o surgimento de um computador
‘pensante’ não deve ser considerado um óbice definitivo a essa
possibilidade. Trazendo o argumento a planos mais modestos, o
que pretendemos sinalizar é que a ‘singularidade’ e ‘autonomia’
podem vir a ser contrafacções maquínicas de ‘individualidade’ e
‘inteligência’.
Nas partes finais de cada capítulo, buscamos levar os
argumentos às suas últimas instâncias, fazendo com que eles
colapsassem sobre si mesmos, deixando a discussão em um novo
ponto de partida. O apelo ao método recursivo tem também o
papel de relevar inquietações quanto aos potenciais
desdobramentos dessa nova configuração do mundo-da-vida.
A imersão em um espaço crescentemente povoado por
elementos imateriais remete à realidade virtual, que se apresenta
como promessa de liberdade absoluta, espaço de domínio total,
168 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

quase mágico, no qual uma palavra ou um gesto podem mudar


tudo. Qualquer coisa semioticamente construível pode acontecer
na realidade virtual. Purificado das mazelas do espaço natural, o
espaço virtual será tudo aquilo que o homem pretenda fazer com
ele – espaço aberto às pretendidas extensões de nossas
capacidades de percepção e ação. Mas, por trás dessa máxima
liberdade, encontra-se o indivíduo castrado, não mais produtor de
seu espaço, apenas usuário de um mundo programado por
terceiros.
As múltiplas possibilidades abertas pelos sistemas
parabióticos e suas conseqüentes redefinições da corporeidade
humana deixam em aberto a perspectiva de uma nova eugenia,
não mais baseada em características étnicas, mas em
disponibilidades tecnológicas. Já convivemos bem como o homem
de seis milhões de dólares como seriado de televisão, resta saber como
será nossa convivência com ele como nosso vizinho.
O desenvolvimento dos agentes inteligentes traz ao
cenário uma possibilidade angustiante: que de vicários – agem em
nosso lugar – passem a vampiros – suguem nossas energias. Todo
objeto-técnico gera dependência (apropriamo-nos deles e
passamos a os considerar como parte de nossos organismos). E
dependência sempre gera vulnerabilidade. Quanto mais ‘agentes’
os smart agents forem em nosso lugar, menos ‘agentes’ seremos
nós mesmos, restando passivos e obseqüentes.
A possibilidade das máquinas adquirirem autonomia e
singularidade desperta a atenção para o fato de que existe uma
tendência inexorável a que as mesmas suplantem os humanos em
termos de capacidade de processamento. Considerando-se a
presença de um quatrilhões de sinapses no cérebro humano, a
capacidade cerebral de processamento de informações fica na
escala dos petaflops (1015 operações por segundo). Em junho de
2008, foi ligado nos Estados Unidos um supercomputador, o
Roadrunner, com a capacidade de realizar 1015 operações por
segundo. Por enquanto, essa capacidade se restringe à
transformações sintáticas. Se um dia a máquina digital transpuser
a fronteira da semântica, sua capacidade material de
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 169

desenvolvimento é ilimitada, enquanto a dos humanos tende, ao


longo da vida, a diminuir.
Essa última inquietação levou-nos à reflexão final da tese,
na qual pensamos, de forma ainda muito embrionária, sobre os
efeitos existenciais e psicológicos da possibilidade de virmos a
conviver com novas entidades autônomas e singulares, criadas
por nós mesmos, mas capazes de nos superar. Possibilidade que
se afigura assustadora. Por outro lado, um ambiente povoado por
tais entidades será um ambiente distinto, exercendo
condicionamentos diferentes sobre nós. E assim retornamos,
recursivamente, à discussão do espaço produzido-produtor do
início da tese.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMERICANA é primeira a receber braço biônico. Folha de São
Paulo, São Paulo, 16/09/2006, p. A17.

ARISTÓTELES. Acerca del alma. Madrid: Editorial Gredos, 1978.

ASCOTT, Roy (Org.). Art, technology, consciousnes. Oregon, USA:


Intellect Books: 2000.

ASCOTT, Roy. Cultivando o hipercórtex. In: DOMINGUES, Diana


(Org.). A arte no século XXI: a humanização das tecnologias.
São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. 20p.

______. Quando a onça se deita com a ovelha: a arte com mídias


úmidas e a cultura pós-biológica. In: DOMINGUES, Diana
(Org.). Arte e vida no século XXI: tecnologia, ciência e
criatividade. São Paulo: Editora UNESP, 2003. 15p.

BAUDRILLARD, Jean. A troca simbólica e a morte. São Paulo:


Edições Loyola, 1996.

______. Tela Total: mito-ironias da era do virtual e da imagem. Porto


Alegre: Sulina, 2002.

BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997.

BEAVERS, Anthony F. Phenomenology and artificial intelligence. In:


MOOR, James H.; BYNUM, Terrell Ward (Org.).
Cyberphilosophy: the intersection of computing and
philosophy. Blackwell Publishing Ltd., Oxford, UK, 2002. 14p.

BEIGUELMAN, Giselle. Link-se: arte/mídia/política/cibercultura.


São Paulo: Peirópolis, 2005.

BENTLEY, Peter. Biologia Digital: como a natureza está


transformando nossa tecnologia e nossas vidas. São Paulo:
Berkeley Brasil, 2002.

BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do


corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
172 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

BODEN, Margaret A. Minds and mechanisms: philosophical


psychology and computational models. New York: Cornell
University Press, 1981.

BONGARD, Josh; ZYKOV, Victor; LIPSON, Hod. Resilient


machines through continuous self-modeling. Science, v.314,
n.5802, p. 1118-1122, nov. 2006.

BOOLE, George. An investigation of the laws of thought on which


are founded the mathematical theories of logic and
probabilities. New York: Dover Publications Inc., 1854/1954.

CAPUCCI, Píer Luigi. Por uma arte do futuro. In: DOMINGUES,


Diana (Org.). A arte no século XXI: a humanização das
tecnologias. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. 16p.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: a era da informação –


economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999, v. 1.

CHANGEUX, Jean-Pierre. O homem neuronal. Lisboa: Publicações


Dom Quixote, 1999.

CHARDIN, Teilhard de. O fenômeno humano. São Paulo: Cultrix,


1998.

CHOMSKY, Noam. Novos horizontes no estudo da linguagem e


da mente. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

CHURCHLAND, Paul M. Cognitive Activity in Artificial Neural


Networks. In: CUMMINS, Robert; CUMMINS, Denise
Dellarosa (Org.). Minds, Brains and Computers – the
foundations of cognitive science, an anthology. Malden, USA:
Blackwell Publishers Inc., 2000. 21p.

CHURCHLAND, Paul M. Matéria e consciência: uma introdução


contemporânea à filosofia da mente. São Paulo: Editora UNESP,
2004.

CIENTISTAS criam computador capaz de enxergar como os seres


humanos. IDGNow. Disponível em:
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 173

<http://idgnow.uol.com.br/mercado/2007/04/02/idgnotícia.2
007-04-02.3733829233>. Acesso em: 11 abr. 2007.

CLARK, Andy. Being there: putting brain, body, and world together
again. Cambridge, Massachusetts: The MIT Press, 1998.

______. Natural-born cyborgs: minds, technologies and the future of


human intelligence. Oxford: Oxford University Press, 2003.

CORÉIA do Sul debate ética para robôs. Folha de São Paulo, São
Paulo, 23/05/2007, p. F4.

CORPO, pés e até mente viram controles de partidas em casa. Folha


de São Paulo, São Paulo, 27/02/2008, p. F4.

CUNHA, Antonio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua


portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon Editora Digital, 2007.

DA COSTA, Rogério. Do tecnocosmos à tecno-arte. In:


DOMINGUES, Diana (Org.). A arte no século XXI: a
humanização das tecnologias. São Paulo: Fundação Editora da
UNESP, 1997. 13p.

DAMÁSIO, Antonio R. O erro de Descartes: emoção, razão e o


cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

DENNETT, Daniel C. Consciousness explained. New York: Back


Bay Books, 1991.

______. Kinds of minds. New York: BasicBooks, 1996.

______. Brainstorms. Cambridge, EUA: The MIT Press, 1998.

DESCARTES, René. Discurso sobre o método: para bem dirigir a


própria razão e procurar a verdade nas ciências. Curitiba: Hemus,
1614/2000.
DESCARTES, René. Meditações sobre filosofia primeira.
Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1642/2004.

______. As paixões da alma. São Paulo: Martins Fontes, 1649/1998.


174 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

______. Les principes de la philosophie. In : Descartes, Ouvres


philosophiques.. Paris : Ed. F. Alquié, 1973, t.3.

DOMINGUES, Diana (Org.). A arte no século XXI: a humanização


das tecnologias. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.

______. Arte e vida no século XXI: tecnologia, ciência e criatividade.


São Paulo: Editora da UNESP, 2003.

DREYFUS, Hubert L. Desmistificador da inteligência artificial, ante


Edward Feigenbaum, especialista em sistemas especializados. In:
PESSIS-PASTERNAK, Guitta. Do caos à inteligência
artificial: quando os cientistas se interrogam. São Paulo: Editora
da Universidade Estadual Paulista, 1993. 8p.

DREYFUS, Hubert L. Response to my critics. In: BYNUM, Terrell


Ward; MOOR, James H. (Org.). The digital phoenix: how
computers are changing philosophy. Blackwell Publishers:
Oxford, UK, 2000. 32p.

DYENS, Olivier. A arte da rede. In: DOMINGUES, Diana (Org.).


Arte e vida no século XXI: tecnologia, ciência e criatividade.
São Paulo: Editora UNESP, 2003. 8p.

ECO, Umberto. Obra aberta. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976.

______. A busca da lingua perfeita na cultura européia. Bauru, SP:


EDUSC, 2002.

ENGELBART, Douglas C. Augmenting human intellect: a


conceptual framework. Summary Report, Stanford Research
Institute, 1962.

FETZER, James H. Philosophy and computer science: reflections on


the program verification debate. In: BYNUM, Terrell Ward;
MOOR, James H. (Org.). The digital phoenix: how computers
are changing philosophy. Blackwell Publishers: Oxford, UK,
2000. 20p.

FILME altera a idéia de realidade na tela. Folha de São Paulo, São


Paulo, 30/11/2007, p. E4.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 175

FLORIDI, Luciano. Philosophy and computing: an introduction.


New York: Routledge, 1999.

______. What is the philosophy of information? In: MOOR, James H.;


BYNUM, Terrell Ward. Cyberphilosophy: the intersection of
computing and philosophy. Blackwell Publishing Ltd., Oxford,
UK, 2002. 32p.

FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design


e da comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

FODOR, Jerry A. The modularity of mind. Cambridge, USA: A


Bradford Book, 1996.

FRANK, Helmar G. Cibernética e filosofia. Rio de Janeiro: Tempo


Brasileiro, 1970.

FREUD, Sigmund. The uncanny. (1925) Disponível em:


<http://www-rohan.sdsu.edu/~amtower/uncanny.html>.
Acesso em: 16 out. 2007.

GALIMBERTI, Umberto. Psiche e techne: o homem na idade da


técnica. São Paulo: Paulus, 2006.

GELERNTER, David. Mirror worlds or the day software puts the


universe in a shoebox...how it will happen and what it will
mean. New York: Oxford University Press, 1992.

GÖDEL, Kurt. On formally undecidable propositions of Principia


Mathematica and related systems. New York: Dover
Publications Inc., 1992.

GORZ, André. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo:


Annablume, 2005.

GUATTARI, Félix. Da produção de subjetividade. In: PARENTE,


André (Org.). Imagem máquina: a era das tecnologias do
virtual. São Paulo: Editora 34, 2004. 9p.
176 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como ideologia. Lisboa:


Edições 70, 1968.

______. Era das transições. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.

______. O futuro da natureza humana: a caminho de uma eugenia


liberal? São Paulo: Martins Fontes, 2004.

HADOT, Pierre. O véu de Ísis: ensaio sobre a história da idéia de


natureza. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

HAUGELAND, J. Semantic engines: an introduction to mind design.


In: CUMMINS, Robert; CUMMINS, Denise Dellarosa (Org.).
Minds, Brains and Computers: the foundations of cognitive
science, an anthology. Malden, USA: Blackwell Publishers Inc.,
2000. 21p.

HAWKINS, Jeff. On intelligence. Nova Iorque: Times Books, 2004.

HAYLES, N. Katherine. How we became posthuman: virtual bodies


in cybernetics, literature, and informatics. Chicago, USA: The
University of Chicago Press, 1999.

HEIDEGGER, Martin. Que é uma coisa? Doutrina de Kant dos


princípios transcendentais. Lisboa: Edições 70, 1987.

HEISENBERG, Werner. Das Naturbild der heutigen Physik. In:


Die Künste in technischen Zeitalter. München: R. Oldenbourg,
1956.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-


1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

HOCHBERG, Leigh R. et al. Neuronal ensemble control of prosthetic


devices by a human with tetraplegia. Nature, v.442, n. 4970, p.
164-172, jul. 2006.
HOFSTADTER, Douglas R. Gödel, Escher, Bach: um
entrelaçamento de gênios brilhantes. Brasília: Editora
Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado,
2001.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 177

HUTCHINS, Edwin. Cognition in the wild. Cambridge, USA: The


MIT Press, 1994.

INNIS, Harold A. The bias of communication. Toronto: University


of Toronto Press, 1991.

JAMESON, Friedric. A virada cultural: reflexões sobre o pós-


modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

JOHNSON, Steven. Cultura da interface: como o computador


transforma nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 2001.

______. Emergência: a vida integrada de formigas, cérebros, cidades e


softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

KERCKHOVE, Derrick de. O senso comum, antigo e novo. In:


PARENTE, André (Org.). Imagem máquina: a era das
tecnologias do virtual. São Paulo: Editora 34, 2004. 19p.

KURZWEIL, Ray. Ser humano versão 2.0. Folha de São Paulo, São
Paulo, 23/03/2003, p. 6-9.

KURZWEIL, Ray. The age of spiritual machines: when computers


exceed human intelligence. New York: Penguin Books, 2000.

LAND, Marcelo. A mente externa: a ética naturalista de Daniel


Dennett. Rio de Janeiro: Garamond, 2001.

LANIER, Jaron. Agents of alienation. Journal of Consciousness


Studies, v.2, p. 76-81, ago. 1995.

LAUREL, Brenda. Computers as theatre. Berkeley: Addison-Wesley,


1993.

LECOURT, Dominique. Humano pós-humano: a técnica e a vida.


São Paulo: Edições Loyola, 2005.

LEFEBVRE, Henri. The production of space. Malden, USA:


Blackwell Publishing, 2005.
178 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Novos ensaios sobre o entendimento


humano. São Paulo: Nova Cultural, 1765/2004.

LEMOS, André. Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura


contemporânea. Porto Alegre: Sulinas, 2002.

LENGGENHAGER, Bigna et al. Video ergo sum: manipulating bodily


self-consciousness. Science, v. 317, n..5841, p. 1096-1102, ago.
2007.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro: Ed. 34,


1993.

______. O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 1996.

______. A máquina universo: criação, cognição e cultura informática.


Porto Alegre: Artmed, 1998.

______. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

LICKLIDER, Joseph Carl Robnett. The computer as a communicator


device. Science Technology, abr. 1968.

LOHR, Steve. This boring headline is written for Google. The New
York Times. Disponível em:
<http://www.nytimes.com/2006/04/09/weekinreview/09lohr.
html> . Acesso em: 11 abr. 2006.

MACACA nos EUA faz robô andar no Japão usando só a força do


pensamento. Folha de São Paulo, São Paulo, 16/01/2008, p.
A16.

MACHLUP, Fritz. The production and distribution of knowledge


in the United States. New Jersey: Princeton University Press,
1972.

MACIEL, Kátia. A última imagem. In: PARENTE, André (Org.).


Imagem máquina: a era das tecnologias do virtual. São Paulo:
Editora 34, 2004. 17p.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 179

MANER, Walter. Heuristic methods for computer ethics. In: MOOR,


James H.; BYNUM, Terrell Ward. Cyberphilosophy: the
intersection of computing and philosophy. Blackwell Publishing
Ltd., Oxford, UK, 2002. 22p.

MATURANA, Humberto. A ontologia da realidade. Belo Horizonte:


Ed. UFMG, 1997.

MATURANA, Umberto R.; VARELA, Francisco J. A árvore do


conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana.
São Paulo: Palas Athena, 2001.

MAZLISH, Bruce. The fourth discontinuity: the co-evolution of


humans and machines. Londres: Yale University Press, 1993.

McCULLOCH, Warren S.; PITTS, Walter. A logical calculus of the


ideas immanent in nervous activity. In: CUMMINS, Robert;
CUMMINS, Denise Dellarosa (Org.). Minds, Brains and
Computers: the foundations of cognitive science, an anthology.
Malden, USA: Blackwell Publishers Inc., 2000. 19p.

McLUHAN, Marshal. McLuhan por McLuhan: conferências e


entrevistas. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões


do homem (Understanding Media). São Paulo: Cultrix, 1996.

MINSKY, Marvin. The society of mind. New York: Touchstone


Book, Simon & Chuster Inc., 1985.

MITHEN, Steven J. A pré-história da mente: uma busca das origens


da arte, da religião e da ciência. São Paulo: Editora UNESP,
2002.

MOLES, Abraham A. Teoria dos objetos. Rio de Janeiro: Edições


Tempo Brasileiro, 1981.

MORIN, Edgar. O método 5: a humanidade da humanidade. Porto


Alegre: Sulina, 2005.
180 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

MUMFORD, Lewis. Technics and Civilization. New York: A


Harvest/HBJ Book, 1963.

NORMAN, Donald A. Things that make us smart: defending


human attributes in the age of the machine. New York: Addison-
Wesley Publishing Company, 1993.

OS WWW babies. Folha de São Paulo, São Paulo, 5/02/2006, p. C7.

PARENTE, André (Org.). Imagem máquina: a era das tecnologias do


virtual. São Paulo: Editora 34, 2004.

PINKER, Steven. Como a mente funciona. São Paulo: Companhia


das Letras, 1998.

PINTO, Álvaro Vieira. O conceito de tecnologia, Rio de Janeiro:


Contraponto, 2005. v. 2.

POLLOCK, John L. Procedural epistemology. In: BYNUM, Terrell


Ward; MOOR, James H. (Org.). The digital phoenix: how
computers are changing philosophy. Blackwell Publishers:
Oxford, UK, 2000. 17p.

POSTMAN, Neil. Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia. São


Paulo: Nobel, 1994.

ROBÔ se movimenta em ambiente desconhecido. Folha de São


Paulo, São Paulo, 9/04/2008, p. F3.

ROBÔS alimentam sites de busca e organizam notícias. Folha de São


Paulo, São Paulo, 19/07/2006, p. F3.

ROSENBLUETH, Arturo; WIENER, Norbert; BIGELOW, Julian.


Behavior, purpose and teleology. Philosophy of Science, v. 10,
n. 1, p. 18-24, jan. 1943.

RYLE, Gilbert. The concept of mind. Chicago: The University of


Chicago Press, 2000.

SANTAELLA, Lúcia. Cultura das mídias. São Paulo: Experimento,


1996.
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 181

______. Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à


cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.

______. Corpo e Comunicação: sintonia da cultura. São Paulo:


Paulus, 2004.

SCHIFF, Nicholas. Electrical stimulation improves brain function after


severe injury. Nature, v. 448, n. 7153, p. xiii, ago. 2007.

SEARLE, John R. Mente, linguagem e sociedade: filosofia no


mundo real. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

SENNA, Ayrton. 1951 entrevistas em 39 anos. Revista Veja, n. 2077,


p.79-86, set. 2008.

SENNETT, Richard. Carne e Pedra: o corpo e a cidade na civilização


ocidental. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

SERRES, Michel. Hominescências: o começo de uma outra


humanidade? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

SHIRKY, Clay. Why smart agents are a dumb idea. Disponível em:
<www.shirky.com/writings/bots.html0,>. Acesso em: 25 abr.
2006.

SIEGFRIED, Tom. O bit e o pêndulo: a nova física da informação.


Rio de Janeiro: Campus, 2000.

STERLAC. Das estratégias psicológicas às ciberestratégias: a protética,


a robótica e a existência remota. In: DOMINGUES, Diana
(Org.). A arte no século XXI: a humanização das tecnologias.
São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. 16p.

STUART, Susan. A radical notion of embeddedness: a logically


necessary precondition for agency and self-awareness. In:
MOOR, James H.; BYNUM, Terrell Ward. Cyberphilosophy:
the intersection of computing and philosophy. Blackwell
Publishing Ltd., Oxford, UK, 2002. 15p.
182 | CARNE VS. BITS: PARADIGMAS NA DISPUTA ENTRE HOMENS E MÁQUINAS

TEIXEIRA, João de Fernandes. Mente cérebro e cognição.


Petrópolis,RJ: Vozes, 2000.

______. Filosofia e ciência cognitiva. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

______. Filosofia da mente: neurociência, cognição e


comportamento. São Carlos, SP: Claraluz, 2005.

______. Os robôs não têm rosto. Disponível em:


<www.redepsi.com.br> . Acesso em: 17/04/2006.

TOFFLER, Alvin. Powershift: as mudanças do poder. Rio de Janeiro:


Record, 2003.

TURING, Alan. Computação e inteligência. In: TEIXEIRA, João de


Fernandes. Cérebros, máquinas e consciência: uma
introdução à filosofia da mente. São Carlos, SP: EDUFSCar,
1996. 16p.

TURING, Alan. On computable numbers, with an application to the


Entscheidungsproblem (1936). In: COPELAND, B. Jack (Org.).
The essential Turing: the ideas that gave birth to the computer
age. Oxford: Clarendon Press, 2004. 32p.

______. Intelligent Machinery, a Heretical Theory (1945). In:


COPELAND, B. Jack. (Org.). The essential Turing: the ideas
that gave birth to the computer age. Oxford: Clarendon Press,
2004. 34p.

______. Lecture on the Automatic Computing Engine (1947). In:


COPELAND, B. Jack. (Org.). The essential Turing: the ideas
that gave birth to the computer age. Oxford: Clarendon Press,
2004. 28p.

TURING, Alan. Intelligent Machinery: a report (1948). In:


COPELAND, B. Jack. (Org.). The essential Turing: the ideas
that gave birth to the computer age. Oxford: Clarendon Press,
2004. 27p.

______. Can automatic calculating machines be said to think? (1952).


In: COPELAND, B. Jack. (Org.). The essential Turing: the
ANDRÉ REHBEIN SATHLER | 183

ideas that gave birth to the computer age. Oxford: Clarendon


Press, 2004. 17p.

______. Chess (1953). In: COPELAND, B. Jack. (Org.). The essential


Turing: the ideas that gave birth to the computer age. Oxford:
Clarendon Press, 2004. 18p.

VIRILIO, Paul. A bomba informática. São Paulo: Estação Liberdade,


1999.

VON NEUMANN, John. O computador e o cérebro. Lisboa:


Relógio d’Água Editores, 2005.

WEIZENBAUM, Joseph. Computer power and human reason:


from judgment to calculation. San Francisco: W.H.Freeman and
Company, 1976.

WIENER, Norbert. Deus, Golem & Cia. São Paulo: Cultrix, 1979.

______. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos.


São Paulo: Cultrix, 2000.

WILSON, Robert A. Boundaries of the mind: the individual in the


fragile sciences. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Lógico-Philosophicus. São


Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.

WURMAN, Richard Saul. Ansiedade de informação: como


transformar informação em compreensão. São Paulo: Cultura
Editores Associados, 1991.

ZOHAR, Danah. O ser quântico. Rio de Janeiro: Best Seller, 2005.