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Introdução

O presente trabalho teve como objetivo realizar a análise institucional de um hospital a


partir de uma visita a instituição, servindo como forma de avaliação para a disciplina
Psicologia, Instituições e Saúde, ministrada pela professora Sônia Altoé.

A proposta da professora era que o grupo aprendesse a realizar uma análise


institucional em um hospital. Uma das integrantes do grupo possui uma irmã que é médica e
por praticidade, nós pedimos sua ajuda para conseguir acesso a um hospital, ela sugeriu que
fizéssemos a entrevista com uma colega sua que trabalha no Hospital Universitário Pedro
Ernesto (HUPE). O hospital pareceu uma escolha adequada, ele pertence a instituição onde
cursamos psicologia, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e algumas
integrantes do grupo já fizeram estágio na instituição, o que facilitou a elaboração do trabalho.

Entrevistamos, no dia dois de março de 2018, uma médica do setor da Unidade de


Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) e uma residente de psicologia que acaba de ser contratada
para um projeto no setor de cardiologia, o qual já fazia parte. Nas duas equipes, nós
encontramos um trabalho multidisciplinar, as equipes eram formadas por médicos,
psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais, etc. As duas
pessoas entrevistadas foram bastante solicitas e acessíveis, antes do encontro trocamos
algumas mensagens para explicar o trabalho e nos apresentar.

A metodologia utilizada para realizar o trabalho foi a análise institucional e os


instrumentos utilizados fora visita ao hospital, entrevistas com os profissionais e leitura de
textos. Os conceitos que embasaram a análise foram: instituído, instituinte,
institucionalização, transversalidade, analisador, implicação. Para falar sobre a origem da
medicina social e sobre o nascimento do hospital foi utilizado o texto “Microfísica do Poder”
de Michel Foucault; para falar sobre a origem da medicina social no Brasil foram utilizados
os seguintes textos: “Manual de Saúde Pública” de Thereza Maria Magalhães Moreira, Maria
Marlene Marques Ávila, Maria Salete Bessa Jorge e Ilse Maria Tigre de Arruda Leitão. Para
falar sobre o conceito de instituição foi utilizado o texto: “Compêndio de análise institucional
e outras correntes: teoria e prática” de Gregorio F. Baremblitt. Para falar sobre análise
institucional o artigo: “Movimento institucionalista: principais abordagens” de William Cesar
Castilho Pereira; para falar sobre Instituído, instituinte, analisador e implicação: “René
Lourau: analista institucional em tempo integral” coletânea dos textos de René Lourau
organizado por Sonia Altoé.

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O trabalho foi divido em três partes: a primeira parte consiste em história da
instituição, características do hospital e público alvo; a segunda parte trabalha-se a história e
explora-se os conceitos de medicina social, a medicina social no Brasil, origem dos hospitais,
instituições, análise institucional; a terceira parte relata a observação e análise da instituição.

1- Caracterização

O hospital foi fundado em 1950 e fazia parte da rede hospitalar da Secretária de Saúde
do Distrito Federal. Somente em 1962 que se torna um hospital-escola da Faculdade de
Ciências Médicas da Universidade do Estado da Guanabara (UEG) – mais tarde se tornou
Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Até então a faculdade se dedicava a estudar
raridades médicas e doenças em estagio final de evolução e era exclusivamente dedicado a
questões acadêmicas de ensino e pesquisa. A partir de 1975, quando firma-se um acordo com
o ministério da Educação e Previdência Social, o hospital sofre uma mudança e passa a
atender às necessidades mais carentes da população passando a ser um hospital de
atendimento geral.

A instituição é reconhecida pela sua excelência de profissionais e meios sofisticados


de diagnóstico e tratamento, assim aumentando sua procura, transformando-o em um dos
grandes complexos docentes-assistenciais na área de saúde e sendo referencia para uma série
de áreas médicas. (HUPE, 2018). Funcionam 525 leitos e mais de 60 especialidades e
subespecialidades.

Hoje o hospital atende geograficamente todo o Estado do Rio de Janeiro, e continua


atendendo a população de classe média baixa e classe baixa. Parte de sua estrutura esta
fragilizada por conta de má manutenção, apesar de terem áreas específicas que foram
reformadas recentemente e quando acessadas parecem outro hospital.

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2- Problematização da história

Medicina Social

Pela hipótese de Foucault (2004) desenvolvida no livro “Microfísica do poder”, a


medicina social se origina por uma necessidade do capitalismo. No sistema capitalista, não se
deu apenas um controle ideológico do indivíduo, o sistema transformou o corpo num objeto

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que representa a força de produção. Para administrar esta força, a sociedade capitalista
investiu no que Focault chamou de bio-política, controle do corpo, utilizando para isso como
estratégia a medicina social.
Na Europa, países como Alemanha, França e Inglaterra utilizaram a medicina como
técnica científica de controle do corpo. Na Alemanha, a medicina social se desenvolveu com
o apoio do estado, que incentivou o controle estatístico de nascimentos e mortes, normatizou
o saber médico e organizou mecanismo para controle administrativo da medicina pelo estado.
Na França, a medicina coletiva evoluiu a partir de medidas sanitaristas baseadas numa política
de urbanização e na Inglaterra, a medicina se desenvolveu a partir de políticas de assistência
social que visavam controlar a saúde dos pobres e para proteger as classes mais ricas do risco
das endemias (Foucault, 2004).

Medicina Social no Brasil.

No Brasil, a medicina social também nasceu atrelada aos interesses econômicos do


país. No início do século XX, na época das grandes imigrações, a economia brasileira iniciava
suas exportações, os portos eram locais de risco para proliferação de doenças endêmicas. Com
o objetivo de garantir exportações, o estado brasileiro inicia campanhas de vacinação massiva
da população, garantindo assim a salubridade local (Finkelman, 2002).
O crescimento da indústria brasileira favoreceu o desenvolvimento urbano criando um
conglomerado de pessoas nas grandes metrópoles. Então, o estado brasileiro organizou uma
saúde pública no início do século XX, com objetivos similares ao movimento sanitarista
francês, controlar a circulação nas cidades, utilizar técnicas de higienização, disciplinar as
cidades (Moreira et al, 2016).
Por outro lado, o desenvolvimento da economia brasileira trouxe para o país,
imigrantes europeus, que tinham experiência no movimento trabalhista, eles ajudaram a
mobilizar e organizar a classe operária brasileira. Por meio destes movimentos, os operários
começaram a conquistar alguns direitos sociais, como a Lei Eloi Chaves, a lei que instituiu as
Caixas de Aposentadoria e Pensão (CAP’s) (Moreira et al, 2016).
Na década de 30, o governo unificou as caixas e criou o instituto de aposentadoria e
pensões, mas a saúde era apenas garantida aos trabalhadores e suas famílias, demonstrando o
interesse do governo em manter a saúde da força de produção do estado (Moreira et al, 2016).
Em 1960, foi promulgada a Lei Orgânica da Previdência Social, que unificou o regime
da previdência social, destinado a abranger todos os trabalhadores sujeitos ao regime da CLT,

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excluindo os trabalhadores rurais, os empregados domésticos e os servidores públicos e de
autarquias e que tivessem regimes próprios de previdência (Moreira et al, 2016).
Em 1967, já na ditadura militar, o governo implanta o Instituto Nacional de
Previdência social (INPS) que reunia aposentadoria, pensões e assistência médica. Para
atender a toda a população, o governo militar direcionou recursos públicos para área de saúde
da iniciativa privada, para conseguir apoio de setores influentes da sociedade brasileira.
Durante quinze anos, o setor médico privado recebeu vultosos recursos do governo (Moreira
et al, 2016).
Em 1988, no final da ditadura, a partir de uma assembleia nacional constituinte uma
nova constituição foi promulgada, que tinha no seu texto a saúde como direito de todos e
dever do Estado. Dentro deste contexto social, nasce o Sistema Único de Saúde (SUS) com a
finalidade de alterar a situação de desigualdade na assistência à saúde da população, tornando
obrigatório o atendimento público a qualquer cidadão (Moreira et al, 2016).
Do SUS fazem parte os centros e postos de saúde, hospitais (inclusive universitários),
laboratórios, hemocentros (bancos de sangue), além de fundações e institutos de pesquisa. O
acesso da população à rede deve se dar através dos serviços de nível primário de atenção que
devem estar qualificados para atender e resolver os principais problemas que demandam
serviços de saúde. Os que não forem resolvidos a este nível deverão ser referenciados para os
serviços de maior complexidade tecnológica. No nível terciário de atenção à saúde estão os
hospitais de referência e resolvem os 5% restante dos problemas de saúde (Moreira et al,
2016).
O Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), objeto de estudo deste trabalho,
pertence ao SUS e está relacionado ao nível terciário de atenção à Saúde.

O nascimento do hospital

Em sua obra “Microfísica do poder”, Foucault (2014) apresenta uma tecnologia que
ele denominou: disciplina. Segundo sua teoria, os mecanismos disciplinares são antigos e já
tinham sido utilizados pelas religiões, pelas empresas escravistas, na legião Romana, mas foi
na modernidade que nasceu uma nova técnica de gestão de indivíduos para controlar suas
multiplicidades (Foucault, 2014).
A disciplina é antes da mais nada uma forma de organização espacial, para conseguir
controlar um grupo de indivíduos específico, de uma forma que eles possam ser classificados
e analisados. Outra regra básica para o controle disciplinar é a vigilância perpétua e constante

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(inspeção, revistas), o indivíduo precisa ser observado permanentemente para que possam ser
classificados, julgados, medidos, localizados (Focault, 2014).
A inserção dos mecanismos disciplinares nos hospitais foi fundamental para atingir as
necessidades da modernidade: redução de custo por paciente, controle de epidemias,
organização da medicalização. A distribuição interna dos hospitais foi cuidadosamente
estudada levando em consideração o doente, a doença e sua evolução, a arquitetura do
hospital deve ser fator e instrumento de cura (Focault, 2014).
Até meados de XVIII os hospitais eram administrados por religiosos, os médicos
apenas faziam visitas ao leito. A partir do momento que os hospitais se transformam em
instrumento de cura, o médico passa a ser o protagonista na cena do hospital, ele passa a ser
responsável pela organização hospitalar (Focault, 2014).
Surge então, a figura do grande médico de hospital, aquele que será mais sábio quanto
maior a experiência. O discurso da medicina alinhando ao científico que tudo domina, cria as
relações hierárquicas no hospital como, por exemplo, o ritual da visita, em que o médico vai
ao leito de cada doente seguido de toda a hierarquia do hospital: assistentes, alunos,
enfermeiras, etc.
Os hospitais não são apenas lugar de cura, eles são formadores de conhecimento, o
saber médico que o início do século XVIII localizado nos livros, começa a ter lugar no
hospital. Dentro do dia a dia do hospital existe um saber que está além dos livros, a partir
desta análise se normatiza que a formação médica deve ser feita dentro dos hospitais
(Foucault, 2014).

Instituições

As instituições são mecanismos de organização da sociedade que obedecem a uma


lógica de formação própria. A regulação de uma instituição pode ser formalizada por leis,
normas, códigos que estão escritos ou apenas aparecerem nos hábitos e comportamentos dos
indivíduos que a constituem (Baremblitt, 2002). A lógica de formação regula a atividade dos
indivíduos que constituem aquela instituição e se baseia no que está prescrito, normas, regras,
ordenado, mas também no que está proscrito proibido, banido, abolido.
As instituições estão em diversos campos da sociedade desde a educação, religião,
saúde até a própria língua e a regulação de parentesco nas famílias. Devido a sua própria
constituição que visa organizar e controlar, as instituições são organismos conservadores que
agem pela manutenção da estrutura vigente (Baremblitt, 2002).

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Análise Institucional

O movimento institucionalista se originou na década de 1960 na França, em meio a


um grande levante de contra cultura e de crítica às instituições francesas, o movimento era
formado por diversos pensadores de diferentes áreas de conhecimento, que desenvolveram
uma série de teorias, práticas e experiências que tinham como premissa: a autogestão e a
autoanálise. E tinham como objetivo impulsionar experiências coletivas criadoras de novos
saberes (Baremblitt, 2002).
A análise institucional ou socioanálise é uma das escolas que se originaram dentro do
movimento institucionalista, que tem como principais autores René Lourau e Georges
Lapassade. As instituições não são formadas apenas por objetos e normas visíveis, elas
possuem uma face escondida que se revela no não dito, que a análise institucional se propõe a
revelar. O oculto é produto de uma repressão, trazendo o conceito de inconsciente da
psicanálise, a repressão social produz o inconsciente social (Pereira, 2007). O trabalho da
análise institucional coloca em cheque duas forças da instituição: o instituinte e o instituído
(Lourau, 2004).
O instituído representa a ordem estabelecida, os comportamentos considerados
normais, os valores; já instituinte representa as forças que contestam a ordem estabelecida e
possui um grande poder de inovação. É do antagonismo entre instituído e instituinte que
nascem os analisadores, a não conformidade com as regras impostas pelo instituído, revelam a
natureza do instituído, são os analisadores. Numa instituição de cura chama-se analisador os
lugares onde se exerce a palavra ou certos dispositivos que revelam o que está escondido
(Lourau, 2004).
A partir da modernidade, a ciência se estabeleceu como a grande detentora de um
saber totalizante, a medicina passa então a absorver o discurso e a prática científica. Dentro do
hospital existe uma dificuldade em se questionar este saber médico científico, a dificuldade
não aparece apenas para os pacientes, mas também para os outros funcionários do ambiente.
De acordo com Lourau (2004), o poder do discurso médico especializado faz com que os
outros atores do ambiente hospitalar aceitem o discurso médico instituído como natural,
fabricando assim uma alienação. No caso do paciente uma alienação em relação ao seu
próprio corpo, no caso dos outros empregados do hospital uma submissão a um conhecimento
dito superior e inquestionável.

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O discurso positivista da modernidade trouxe uma visão de neutralidade e objetividade
para ciência, como se não existisse uma implicação de quem produz ciência, como se a
ciência não fosse influenciada por fatores políticos ou econômicos (Lourau, 2004).
Na análise institucional existe um processo de análise da implicação, que deriva ao
conceito de contratransferência freudiano, os sentimentos do analista pelo seu paciente. O
processo de implicação pressupõe a autoanálise por parte do analista institucional, para que
este possa compreender as suas motivações que o encaminharam para aquela pesquisa. A
análise de implicações traz para o campo da análise sentimentos, percepções, ações,
acontecimentos até então considerados negativos, estranhos, como desvios e erros que
impediriam uma pesquisa/intervenção de ser bem sucedida (Lourau, 2004).

3- Observação e análise institucional

Durante nossa vista ao hospital, observamos tudo o que acontecia já correlacionando


com a teoria aprendida durante aulas e leituras. Na análise institucional não se pressupõe uma
objetividade na intervenção; por isso, não existe um isolamento entre o ato de pesquisar e o
momento em que a pesquisa acontece (Lourau, 2004).

Ao chegar ao hospital podemos notar a existência de duas entradas no HUPE: uma


para os pacientes e outra para os funcionários – esta chamada pelos funcionários de entrada
vip. Nessa entrada vip existe uma recepção com catracas onde o acesso só é permitido para
quem tem uma identificação liberada pelas recepcionistas.

O público é constituído, em sua maioria, por usuários do SUS de baixa renda. Segundo
a psicóloga entrevistada, também há algumas pessoas com renda alta que são indicadas por
médicos particulares pela qualidade do serviço.

O hospital possui uma estrutura robusta, com corredores amplos, passando a


impressão de ter sido pensado para atender uma grande população. A manutenção do hospital
é segmentada. Algumas áreas do hospital (corredores, locais de espera) são mais antigas, não
têm pintura regular assim como uma boa iluminação. A maior parte da iluminação dos
corredores é feita por grandes janelas localizadas em pontos estratégicos.

Na Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP), onde entrevistamos a médica, a


situação da manutenção é totalmente diferente, parecendo outro lugar. As paredes são
forradas com material que dá aparência de novo, ar condicionado funcionando, leitos

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equipados. A organização da unidade é feita de forma que os leitos ficam de frente para uma
ilha, localizada próximo à porta. Da ilha, enfermeiros, médicos e residentes tem uma visão
geral dos pacientes, um meio de controle sobre a situação dos enfermos.

Segundo a psicóloga, o local de trabalho é sempre bem limpo. Sobre equipamentos


tecnológicos, a psicóloga diz que o hospital tem estrutura, tem equipamentos, mas ainda falta
muita coisa como medicamentos, ou quando quebra algum equipamento há a demora em
consertar. A médica diz que o local onde trabalha, UTIP, é bem estruturado considerando o
serviço público em geral, pois foi construído recentemente “Nem combina com o hospital,
você entra aqui e parece outro mundo”.

Há regras de vestimenta na instituição. Os terceirizados, que realizam atividades de


limpeza, ascensorista, usam uniforme da empresa contratante. A médica informa que a regra
de vestimenta é geral para Centro de Tratamento e Terapia Intensiva (CTI): não usar adornos
como relógios, anéis, brincos e o jaleco dentro do ambiente hospitalar.

Antes de entrar no hospital, esperávamos um ambiente menos amistoso. Como já


visitamos outro hospital universitário - Clementino Fraga Filho (UFRJ) -, que é bem precário
em sua estrutura e manutenção, entramos com essa imagem em mente. Ao chegar lá
percebemos que a estrutura é mais fluída e, apesar nossa visita ter se limitado a UTIP,
notamos que o hospital, levando em conta o contexto de hospitais do SUS que passam por um
processo de sucateamento, está em boa condição.

A distribuição dos corredores e a posição das janelas facilitam a corrente de ar; o


código de vestimentas de todos os profissionais, desde os profissionais de saúde até limpeza e
manutenção; a distribuição dos setores: todos esses fatores evidenciam uma disciplina
hospitalar descrita por Foucault (2004) como uma forma de controle. No caso do hospital o
controle para que o hospital exerça sua nova função: lugar de cura.

Após a entrevista com a psicóloga sentimos como é difícil trabalhar no hospital, local
do saber médico que, ao longo da história, alinhado ao discurso científico, cria relações
hierárquicas no hospital. A psicóloga relata um estranhamento por parte da equipe sobre o
fazer psicológico nessa instituição. Sua implicação na escolha da profissão vem do fato de
“ser bom ouvido para as amigas (...)”, mas, no decorrer da faculdade, notou que não sabia
onde estava se metendo. Esse desconhecimento da prática e do saber psicológico é notado não

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só nos graduandos, como também nos profissionais da equipe onde este psicólogo irá
trabalhar.

Ao se utilizar a análise de implicação como dispositivo para problematizar as práticas


de um profissional, se afirma o caráter político de toda e qualquer intervenção (Lourau).
Durante a entrevista da médica, percebe-se inicialmente a implicação desta na escolha da
profissão. Por ter uma madrinha médica, passa a “achar lindo ajudar as pessoas”, associando
mais tarde ao conhecimento da biologia aprendida no colégio, escolhe sua carreira. Esse
pensamento de “achar lindo ajudar as pessoas” já estaria associado ao nascimento do hospital
explorado por Foucault (2004), que passa a ser um lugar de cura, e a instauração do médico
como organizador do hospital, que através da experiência associada a sua formação, gera o
conhecimento.

O fato da instituição ser um hospital universitário, local para a formação e


especialização dos profissionais de saúde, sobretudo dos médicos, nos remete ao que Foucault
(2004) diz em “O nascimento do hospital” sobre a mudança quanto a organização da
instituição de saúde, que passando a ser um local de cura, tira os religiosos que até então
gerenciavam o local e traz os médicos. Nesse momento há a junção do hospital e da medicina
e o saber médico, anteriormente obtido através dos tratados médicos e por prescrições de
receitas, passa a ser conquistado através da experiência, esta adquirida no hospital, iniciando
com visitas até o momento onde o médico passa a residir no hospital (Foucault, 2004).

A partir dessa junção hospital e medicina, o médico mais sábio seria aquele que
tivesse mais experiência no campo e não mais aquele profissional atado aos manuais médicos
e transmissão de receitas (Foucault, 2004). Esse fator pode ser observado no discurso da
médica entrevistada quando se refere aos médicos mais antigos. Ela menciona um respeito
maior a estes, mesmo sendo todos concursados haveria, então, uma hierarquia, uma posição
de mais respeito pela experiência.

A fala da médica como um todo nos mostra o instituído: cadeia de regras, normas ao
definir sua rotina: “chego, olho os pacientes, interajo muito com os residentes, os oriento (...)
interajo muito com os residentes e o pessoal da enfermagem (...) participamos do round
diariamente - reunião da equipe sobre os casos clínicos - (...)”. Percebe-se também uma
alienação social nas suas atividades. Ao ser perguntada sobre como realiza seu trabalho e
onde fica ela responde com normalidade e de forma objetiva, sem questionar ou
problematizar: “eu fico aqui, aqui é arrumadinho, ótimo (...)” e “meu trabalho é assim: eu

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chego, verifico os pacientes, dou orientações...”. Sobre dificuldades: “de material de hospital
e dificuldades setoriais, chamar algum especialista”. Não é posto em seu diálogo, por
exemplo, dificuldades no seu trabalho com os pacientes, que são crianças, e com a família.
Esse assunto só vem à tona quando pedimos que citasse um caso difícil e um onde o
psicólogo tenha sido fundamental: “ainda não tive nenhum problema difícil aqui”; sobre a
atuação do psicólogo: “uma mãe que veio transferida com o bebê em clínica de morte
encefálica (...) a médica explicou e a psicóloga também conversou com ela (...) eu sabia que
ele morreria no meu plantão (...) mas quando aconteceu foi mais tranquilo, dentro do
possível”. Percebe-se uma naturalização das relações, das rotinas, como se fosse esperado o
pior ou o melhor e isso não a atingisse.

Em contrapartida, a fala da psicóloga demonstra forças instituintes. Em uma rotina


cristalizada no setor de cirurgia cardíaca, onde houve um estranhamento sobre sua função ali,
ela se questionou como poderia atuar em um espaço sem preparação, desamparo. Iniciou,
então, um procedimento de acompanhar os pacientes até o momento da cirurgia, segurando
sua mão até ele adormecer. Relata que no início houve um estranhamento dos outros
profissionais e dela própria, mas foi se acostumando.

A partir das duas entrevistas, podemos observar a psicologia como um analisador. Sua
entrada no hospital gera um estranhamento e faz emergir demandas como, conforme citado,
chamarem a psicóloga para ajudar a comunicar alguma informação difícil ou o caso inovador
de acompanhar o paciente até a cirurgia. Na fala da medica ela reconheceu que a intervenção
da psicóloga ajudou uma mãe a lidar da melhor maneira com a perda do filho. Apesar da
morte estar naturalizada para a médica, que alienada na sua função a continua exercendo sem
desvios, notamos um singelo intervalo nesse pensamento automatizado.

Outro ponto que pode ser levantado como um analisador é a situação da crise
financeira do Estado, que afetou o hospital e seus funcionários. Ao ser questionada sobre isso,
a médica diz que foi um momento muito difícil, pois afetou a ordem estabelecida. Houve uma
redução no quadro da equipe para se adaptar a situação de falta de salários, gerando uma
angústia geral. A médica relata também que havia acabado de comprar uma “quentinha” de
uma enfermeira concursada que precisou recorrer a outros meios para se manter
financeiramente. A médica também relata a angustia ao não ter condições para receber uma
criança que estava morrendo em outra cidade, pois o hospital não tinha leitos. A partir desse
analisador crise financeira, faz-se falar algo que incomodava e que não se sustentava mais,

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que seria a ordem estabelecida. Quando perguntamos para médica sobre a organização
sindical ela respondeu: a gente é nada organizado e até riu. A crise do estado chega ao
hospital e eles não possuem nem uma força organizada coletiva que possa fazer resistência ao
descaso dos governantes em relação à saúde pública. Eles estão alienados dentro da rotina de
trabalho, só resta aos funcionários do hospital, frente ao assombro do instituinte, a reação
individual inócua e o desamparo. ‘

A partir da fala da médica e da psicóloga, podemos ver claramente a noção de


transversalidade. A instituição é atravessada por vários níveis, várias questões que não se
limitam a seu objetivo, ser um local de cura. Podemos ver questões econômicas, psicológicas,
uma nova organização de grupo, equipe, perante a crise. Como diz Lourau (2004), a ilusão
institucional e o desconhecimento são necessários para que o sistema social se mantenha,
havendo assim uma estabilidade das relações dominantes.

No momento em que um analisador entra em cena, vê-se a ordem estabelecida tremer


e forças instituintes virem à tona, começando um novo ciclo, onde o instituinte torna-se
instituído. Ao colocar em xeque os lugares instituídos de saber/poder que é ocupado pelo
profissional de forma natural e a histórica se está afirmando a implicação política, dentre
tantas outras implicações que atravessam o sujeito (Lourau, 2004).

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Referências

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pesquisas em psicologia, Rio de Janeiro: UERJ, Ano 7, n. 1, 2007. Disponível em
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<https://praticasautogestionarias.files.wordpress.com/2013/11/textos-selecionados-
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