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Como já foi dito, a Introdução é um só texto.

Então, eliminam-se as divisões


que vinham separando as etapas do projeto, no momento em que nos
aproveitamos de várias destas etapas em nossa primeira versão do texto da
Introdução. Será ela um texto só, discursivo, em prosa, em que se observa a
norma padrão da língua, além de cuidados especiais com a clareza da
exposição, com a coerência e a coesão textuais.
Concluímos esta seção aproveitando os dois exemplos que demos, de objetivos
transformados em primeiro parágrafo de uma Introdução, para juntar agora a
cada um seu correspondente parágrafo em que se trabalha uma questão
norteadora. Note que entre estes dois parágrafos se desenrola todo o corpo da
Introdução. Mas vamos a eles:

Exemplo 1:
“Este ensaio tem o propósito de demonstrar a presença de variados
perfis humanos em ‘O cortiço’, de Aluízio de Azevedo, como parte
central de um projeto de usar o romance como um espaço de
reflexão sobre a sociedade carioca do final do século XIX”.
(...)

“Diante do que foi exposto até aqui, é possível levantar como tópico
para reflexão a seguinte pergunta: haverá algum projeto de
sociedade mais feliz que fique sugerido na maneira como o romance
apresenta seus personagens? Haveria a possibilidade de se pensar, na
época, num Rio de Janeiro livre das contradições sociais que então
vivia?”

Note que o parágrafo final consta de dois questionamentos, mas que no fundo
não passam de um só, que se desdobra com o intuito de deixar mais clara a
apresentação do texto. A proposta do trabalho é questionar se não havia, por
parte de Aluísio de Azevedo ou de outros intelectuais da época, um projeto
alternativo de sociedade. Tal questão norteadora abre caminho para
interessantes desdobramentos do trabalho, como a emergência de tendências
socialistas em nosso Realismo/Naturalismo, a permanência da mentalidade
escravista, apesar da abolição, entre outros. A variada galeria de personagens
do romance oferece rico material para se trabalhar esses temas.

Exemplo 2:
“A presente pesquisa se destina a enfatizar a vitalidade do uso do
gerúndio na variante coloquial das camadas populares do Rio de
Janeiro na primeira década do século XXI”.
...
“Tendo em vista o que foi abordado até o momento, torna-se
possível questionar: não estará a variante popular carioca da língua
conferindo ao gerúndio novo valor, na medida em que expressões
“estou indo”, ou “já estou chegando” se revestem de mero teor
protelativo, que nada tem em comum com os usos consagrados pelas
gramáticas para esta modalidade nominal de flexão verbal?”

Neste caso, deixamos no ar somente uma pergunta, o que não quer dizer que,
neste caso, há menos trabalho pela frente. O pesquisador precisará ter o
cuidado de reunir farto material oriundo de pesquisas de campo, se possível
gravando conversas, ou recorrendo a expedientes que o valham, como coletar
ocorrências do gerúndio em jornais populares, como “Meia Hora”, bem como
em canções populares recentes. Afinal, a questão norteadora, neste caso, já
deixa latente o ponto de vista de que existem, sim, novos valores para o
gerúndio, demarcando inclusive um deles, que seria o protelativo. Cabe,
então, ao pesquisador, valer-se do desenvolvimento de seu trabalho para
embasar esse ponto de vista.
Na verdade, não é muito raro que a questão norteadora deixe latente a
resposta, que frequentemente possui estreita ligação com o ponto de vista
central a ser defendido. Portanto, o procedimento utilizado de modo bem
explícito neste exemplo é comum, e não há problema algum em se valer dele.
Mesmo nosso outro exemplo também é um pouco assim, ainda que de modo
menos explícito.

Em busca da objetividade
Antes de encerrar a presente aula, falta chamar a atenção para um último
ponto. Trata-se de um assunto que provoca intermináveis debates no meio
acadêmico, que é o uso de primeira pessoa no discurso. Em princípio, o
discurso acadêmico deve primar pela objetividade, o que implica em se evitar
qualquer procedimento que traia a presença da subjetividade.
Em outras palavras, aquilo que estudamos deve ser tratado como objeto. Tudo
que possa ameaçar isso não será bem-vindo. Na prática, isso implica em
tratarmos o tema do nosso de estudo como algo do qual não fazemos parte.
Sabemos o quanto essa pretensão é relativa no campo das Ciências Humanas,
em geral, incluindo os Linguísticos e Literários, porém são procedimentos
normatizados em nível internacional, adotados no Brasil pela ABNT.
É fato que textos com tratamento em primeira pessoa geram uma
aproximação entre o autor e o tema, quando não um convite para que o leitor
também se aproxime. Não é à toa que tal procedimento é tão comum na prosa
de ficção. Bem, mas justamente aí vai um aspecto da questão: textos
literários tendem à subjetividade. São textos que, por sua própria natureza,
implicam na presença do sujeito.
Já no discurso acadêmico, há toda uma tradição cultural que recomenda o uso
da terceira pessoa e demais recursos capazes de garantir a objetividade. No
máximo, admite-se o emprego da primeira pessoa no plural, que é um recurso
de que estamos nos utilizando em nossas aulas, para que a distância entre nós
não fique tão grande. Mas, mesmo para esse tipo de tratamento, recomenda-
se cuidado. Já a primeira pessoa do singular não é admitida, simplesmente.
Trata-se de uma preocupação que se fará presente ao longo de todo o
trabalho, mas é especialmente relevante no que diz respeito à parte da
justificativa. Tudo porque nela você teve a oportunidade de explicar a
importância do tema escolhido na sua vida pessoal. O que pode levar a um
texto elaborado em primeira pessoa. Bem, a despeito de trabalhar um tema
que lhe diga respeito, você terá que buscar recursos que tornem o texto mais
objetivo, ou para usar uma metáfora em voga para tais casos, um recurso para
esfriar o texto.
Alguns exemplos rápidos serão suficientes para mostrar que não se trata de
algo assim tão difícil. Imagine se você tiver que dizer algo como: “Creio que a
Segunda Guerra Mundial foi o acontecimento mais cruel da história”.
O mesmo pode ser dito sem que o autor se faça presente do ato de
interlocução, ou seja, sem o emprego da primeira pessoa. Basta dizer:
“Acredita-se que a Segunda Guerra Mundial foi o acontecimento mais cruel da
história”, ou então: “É certo que Segunda Guerra Mundial foi o acontecimento
mais cruel da história”. Note que as soluções encontradas não são duas
frases iguais. Na segunda, coloca-se mais ênfase, afirma-se com ares de
certeza, enquanto na primeira a sugestão fica no campo do “pode ser”, do
“acho que”. Claro que a primeira frase é mais parecida com a original, mas a
segunda tem muito mais força. Tudo depende do objetivo a ser alcançado em
cada circunstância.
Outros recursos são recomendados para tais situações, como o emprego de
“Não se pode negar que”, “A lógica aponta que”, “Muita gente acredita”, “Os
mais renomados cientistas afirmam que”, entre muitos outros. Claro que cada
uma dessas opções implica em cuidados específicos. Com a devida cautela,
você pode se valer delas no texto, de modo a adequá-lo aos padrões exigidos.
O importante é fazer com que a frase fique flexionada na terceira pessoa,
recurso indispensável para garantir a objetividade do texto.

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