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INSTITUTO FEDERAL SUL-RIO-GRANDENSE

Campus Pelotas
Curso Superior de Bacharelado em Design

UMA PERSPECTIVA DO DESIGN AUTORAL:


A CRIAÇÃO DE UMA SÉRIE DE ILUSTRAÇÕES PARA TATUAGEM

ARIANE DA SILVA BEHLING

PELOTAS
2018
2

ARIANE DA SILVA BEHLING

UMA PERSPECTIVA DO DESIGN AUTORAL:


A CRIAÇÃO DE UMA SÉRIE DE ILUSTRAÇÕES PARA TATUAGEM

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


como requisito parcial à obtenção do título de
Bacharel em Design pelo Instituto Federal
Sul-rio-grandense. Câmpus Pelotas.
Área de concentração: Design
Orientador(a): Prof. Me. Renan Humberto
Lunardello Fonseca (Mestre em Artes Visuais
pela Universidade Federal de Pelotas)
Coorientador(a): Profª. Jéssica Esteves
(Mestranda em Educação e Tecnologias pelo
Instituto Federal Sul-rio-grandense)

PELOTAS
2018
3

ARIANE DA SILVA BEHLING

UMA PERSPECTIVA DO DESIGN AUTORAL:


A CRIAÇÃO DE UMA SÉRIE DE ILUSTRAÇÕES PARA TATUAGEM

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


como requisito parcial à obtenção do título de
Bacharel em Design pelo Instituto Federal
Sul-rio-grandense. Câmpus Pelotas.
Área de concentração: Design
Orientador(a): Prof. Me. Renan Humberto
Lunardello Fonseca (Mestre em Artes Visuais
pela Universidade Federal de Pelotas)
Coorientador(a): Profª. Bel. Jéssica Esteves
(Mestranda em Educação e Tecnologias pelo
Instituto Federal Sul-rio-grandense)

Aprovada pela banca examinadora em ___/___/____

___________________________________________________________________
Prof. Drª. Ana Paula Penkala
Universidade Federal de Pelotas

____________________________________________________________________
Prof. M.a Ana Paula Freitas Margarites
Instituto Federal Sul-rio-grandense

____________________________________________________________________
Prof. M.e Renan Humberto Lunardello Fonseca
4

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho a todos que


contribuíram para que eu chegasse
até aqui.
5

AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente à minha mãe, Giovana, que me deu todo suporte


necessário para chegar até a faculdade. Ao meu irmão, Felipe, por ser o melhor
irmão do mundo. Aos meus avós, Jorge e Elizete que foram imprescindíveis na
minha educação. Essa conquista é de vocês.
Agradeço de forma muito especial ao Mike, meu namorado e maior incentivador que
sempre acreditou que eu poderia ser uma ilustradora/tatuadora. Obrigada por estar
sempre ao meu lado! Estendo o agradecimento ao meu sogro, Francisco, que me
acolheu com tanto zelo.
À Jéssica, que esteve presente nos bons e maus momentos apoiando e sendo uma
amiga incrível. Obrigada por tudo, Jazz!
Ao meu orientador, Renan Humberto Lunardello Fonseca que me guiou com tanta
competência e não mediu esforços para me ajudar nessa trajetória. À minha co-
orientadora Jéssica Esteves pela colaboração tão enriquecedora a este trabalho.
À Prof. Drª. Ana Paula Penkala e a Prof. M.a Ana Paula Freitas Margarites por
aceitarem o convite para compor a banca avaliadora e por suas contribuições que
foram fundamentais para nortear este trabalho.
Aos amigos/voluntários que se dispuseram a colaborar enviando ideias para as
tatuagens de co-autoria.
À Margarete, Bruna, Lucas, Alexandre, Sheila, Tais, Daiane e todos os amigos que
me direcionaram palavras de apoio. E por fim, a todos aqυеles que direta оυ
indiretamente contribuíram para minha formação, muito obrigada.
6

EPÍGRAFE

“Poder para as pessoas. O jogo só pode


acontecer quando as pessoas sentem que
elas tem controle sobre suas vidas. Nós não
podemos ser agentes da liberdade se não
somos livres.”
(Bruce Mau)
7

RESUMO

BEHLING, Ariane. Uma perspectiva do design autoral: A criação de uma série de


ilustrações para tatuagem. 2018. 74f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado
em Design) - Instituto Federal Sul-rio-grandense, Campus Pelotas, Pelotas, 2018.

O presente trabalho de conclusão de curso investiga como o Design pode contribuir


na produção de ilustrações para tatuagens. Sua relevância se dá através da
escassez de trabalhos sobre tatuagem com o viés do Design. A pesquisa tem como
objetivo analisar a relação entre o Design autoral e a tatuagem, para isto foi
realizado um levantamento bibliográfico acerca do tema e foram entrevistados
tatuadores para compreender seus processos de criação autoral e de co-autoria. A
metodologia projetual adotada para o desenvolvimento das ilustrações foi elaborada
a partir do “Manifesto Incompleto para o crescimento” de Bruce Mau (1998) que traz
estratégias para estimular o processo criativo. O projeto prático deste trabalho
consiste na criação de cinco ilustrações desenvolvidas a partir de motivações
pessoais e cinco ilustrações que foram criadas de acordo com ideias enviadas por
voluntários selecionados.

Palavras-chave: Design autoral, Ilustração e Tatuagem


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ABSTRACT

BEHLING, Ariane. Una perspectiva del diseño autoral: La creación de una serie
de ilustraciones para el tatuaje. 2018. 74p. Proyecto final de curso (Bacharelado en
Diseño) - Instituto Federal Sul-rio-grandense, Campus Pelotas, Pelotas, 2018.

El presente trabajo de conclusión de curso investiga cómo el diseño puede contribuir


en la producción de ilustraciones para tatuajes. Su relevancia se da a través de la
escasez de trabajos sobre tatuaje con el sesgo del Diseño. La investigación tiene
como objetivo analizar la relación entre el diseño autoral y el tatuaje, para esto se
realizó un levantamiento bibliográfico acerca del tema y fueron entrevistados
tatuadores para comprender sus procesos de creación autoral y de coautoría. La
metodología proyectual adoptada para el desarrollo de las ilustraciones fue
elaborada a partir del "Manifiesto Incompleto para el crecimiento" de Bruce Mau
(1998) que trae estrategias para estimular el proceso creativo. El proyecto práctico
de este trabajo consiste en la creación de cinco ilustraciones desarrolladas a partir
de motivaciones personales y cinco ilustraciones que fueron creadas de acuerdo con
ideas enviadas por voluntarios seleccionados.

Key words: Diseño Autoral, Ilustración y Tatuaje


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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 - Tattoos de caneta..................................................... 12


Figura 2 - Perguntas questionário............................................. 16
Figura 3 - Metodologia Projetual............................................... 17
Figura 4 - Tatuagens de James Duarte..................................... 25
Figura 5 - Tatuagens de Samanta Flôor.................................... 26
Figura 6 - Tatuagens Ötzi - O Homem do Gelo......................... 29
Figura 7 - Múmia Gebelein Man A............................................. 30
Figura 8 - Retrato de um chefe Maori........................................ 31
Figura 9 - Samuel O’Reilly tatuando.......................................... 32
Figura 10 - Exposição A Parede é a Pele.................................. 36
Figura 11 - Moodboard Jéssica Carvalho.................................. 39
Figura 12 - Moodboard Alexandre Gonçalves........................... 40
Figura 13 - Moodboard Cassio Lilge.......................................... 41
Figura 14 - Moodboard Giuliano Ximendes............................... 42
Figura 15 - Moodboard Mike Pires............................................ 43
Figura 16 - Geração de alternativas 1....................................... 44
Figura 17 - Geração de alternativas 2....................................... 45
Figura 18 - Geração de alternativas 3....................................... 46
Figura 19 - Geração de alternativas 4....................................... 47
Figura 20 - Ilustração música.................................................... 48
Figura 21 - Ilustração feminismo............................................... 49
Figura 22 - Ilustração avós........................................................ 50
Figura 23 - Ilustração morte...................................................... 51
Figura 24 - Ilustração autoaceitação......................................... 52
Figura 25 - Ilustração para Jéssica........................................... 53
Figura 26 - Ilustração para o Alexandre.................................... 54
Figura 27 - Ilustração para o Cassio......................................... 55
Figura 28 - Ilustração para o Giuliano....................................... 56
Figura 29 - Ilustração para o Mike............................................. 57
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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 11

2 METODOLOGIA 15

3 AUTORIA 19

3.1 AUTORIA NO DESIGN 20


3.1.1 Autoria na tatuagem 23
4 UM OLHAR SOBRE A HISTÓRIA DA TATUAGEM 26

4.1 FRONTEIRAS ENTRE TATUAGEM, ARTE E DESIGN 32

5 PROJETO PRÁTICO 35

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 56

REFERÊNCIAS 57

ANEXOS 61
11

1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho de conclusão de curso “Uma perspectiva do design
autoral: a criação de uma série de ilustrações para tatuagem”, vinculado ao curso de
Bacharelado em Design do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul - Câmpus
Pelotas), consiste em uma pesquisa de cunho teórico e prático em que busquei1
analisar a relação entre o design e a tatuagem e assim compreender de que forma o
design pode contribuir na produção de tatuagens autorais.
Deste modo, a pesquisa se situa num campo interdisciplinar entre saberes e
práticas que viabiliza a elaboração de trabalhos autorais, área que se evidencia
neste TCC, visto que as tatuagens são o objeto prático desta monografia e em
muitos casos são trabalhos autorais. Este trabalho torna-se relevante pela escassez
de materiais relacionados a tatuagem com o viés no design autoral.
Neste estudo procurei responder como o Design, mais especificamente o
design autoral, pode contribuir na produção de ilustrações para tatuagens. Para isto
fez-se necessário: analisar a relação entre o design, a arte e a tatuagem; identificar
os procedimentos de autoria e co-autoria presentes no processo de criação das
tatuagens; criar uma série de ilustrações experimentais para aplicação em
tatuagens.
A pesquisa possui caráter exploratório, utilizando como procedimento
metodológico o levantamento bibliográfico e entrevistas via questionário com
tatuadores profissionais para uma melhor compreensão acerca da prática da
tatuagem. Na metodologia projetual foram elaboradas cinco etapas fundamentadas
em aforismos extraídos do “Manifesto Incompleto para o Crescimento” de Bruce Mau
(1998) que auxiliou no processo de criação das ilustrações.
Ao longo do desenvolvimento fez-se necessário analisar os conceitos de
autoria e identificar como esta discussão repercute no Design e na tatuagem para
uma melhor compreensão do tema. Também contextualizar brevemente a história da
tatuagem e refletir sobre como a tatuagem se relaciona com a Arte e o Design. As
ilustrações autorais e de co-autoria foram projetadas a partir das informações
coletadas com os voluntários e dos conhecimentos obtidos no decorrer da pesquisa.

1 Neste trabalho de conclusão de curso será utilizado o tempo verbal na primeira pessoa do singular
quando à autora estiver se referindo à sua produção e trajetória.
12

1.1 JUSTIFICATIVA PESSOAL


Desde muito cedo tive o interesse por desenho. Minha mãe teve um papel
fundamental nesse despertar, pois sempre disponibilizou os aparatos necessários
(lápis, canetinhas e livros de colorir) para que pudesse desenvolver esse interesse.
No decorrer da infância, tive outros interesses como a fase do roller, a fase da bike,
a fase do desenho animado na tv, interesses comuns das crianças de minha época.
Na pré-adolescência o desenho voltou com força na minha vida. A escola não
era um lugar amigável, então busquei fazer com que aquele lugar fosse atrativo de
alguma forma. O desenho entrou na rotina como forma de matar aula estando na
sala de aula. Chegando no ensino médio comecei a desenhar em outra superfície,
parti para a pele dos meus colegas, que eram sempre muito entusiasmados para o
voluntariado.
Nós queríamos ser tatuados como nossos ídolos, mas não tínhamos idade e
nem dinheiro para isso. Comecei a juntar dinheiro das tarefas remuneradas que
minha mãe me passava e todo mês comprava uma revista de tatuagem. Neste
momento não restavam mais dúvidas, eu seria uma tatuadora. Envolvia um estilo de
vida que sempre sonhei, a música, o desenho, a liberdade e o faça você mesmo.
O ensino médio chegou ao fim, tinha vários desenhos no meu portfólio de
tattoos de caneta e estava tudo encaminhado para o vestibular de Artes Visuais na
Universidade Federal de Pelotas - UFPel.

Figura 1: Tattoos de caneta


Fonte: A autora (2009)
13

Passei no vestibular e meu mundo caiu já no primeiro semestre, não me


adaptei a universidade, não fazia os trabalhos e odiava ir para o Capão do Leão ter
aula de Desenho Técnico. A única disciplina que me interessava era Desenho I com
a professora Alice. O semestre estava acabando, eu estava aprovada em duas
disciplinas, infrequente em outras duas e rodada em duas. O saldo não era positivo.
Resolvi fazer o vestibular de inverno do IFSul e fui aprovada para o curso
técnico em Comunicação Visual. Fui estudar na tão sonhada (pela minha família)
“escola técnica”. Cheguei no curso e encontrei colegas que me conectei
imediatamente, além de professores excelentes que estavam sempre à disposição
para qualquer dúvida.
Nos primeiros semestres do curso técnico continuei desenhando, mas quanto
mais disciplinas com softwares eu tinha, menos eu desenhava. O foco era outro,
precisava ser boa em identidade visual, editorial, web e o desenho virou coadjuvante
na história. Ser tatuadora se tornou aquele sonho bobo da adolescência que não
cabia mais na realidade em que estava vivendo.
No segundo semestre de Comunicação Visual abriu o curso de Bacharelado
em Design no IFSul. No terceiro semestre fiz a prova do Enem e fui aprovada para o
Bacharelado num edital que não deveria ter aberto já que a entrada era anual.
Tivemos que esperar um semestre para as aulas começarem. A vida não poderia
estar melhor, estava me formando em Comunicação Visual, havia sido aprovada no
vestibular para Bacharelado em Design, poderia trabalhar como designer de dia e
estudar a noite.
As aulas na faculdade começaram e surgiu a oportunidade de ser monitora de
Computação Gráfica para os cursos técnicos, sem pensar duas vezes, saí do
estágio numa empresa de desenvolvimento web e fiquei exclusivamente na
monitoria. Assim começou minha trajetória profissional dentro do IFSul: fui monitora
de Computação Gráfica, estagiária na Coordenadoria de Produção de Tecnologias
Educacionais - CPTE e designer terceirizada nesta mesma Coordenadoria.
Estava convicta da trajetória que gostaria de seguir dentro do design,
acreditava que através do design educacional estaria fazendo algo “útil” para o
mundo. No 7º semestre da faculdade elaborei um projeto de TCC que seria incrível
(na minha cabeça) e que ia de encontro com o desejo de usar o design para o bem
comum. Comecei a cursar o último semestre, no qual deveria desenvolver o projeto,
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mas travei. Minha vida pessoal e saúde emocional estavam abaladas demais para
conseguir finalizar o que havia dado início no semestre anterior.
Desisti do TCC e segui minha vida esperando o ano seguinte para tentar
novamente com mais saúde e força. Nesse intervalo cursei uma disciplina optativa,
fui monitora novamente, trabalhei com edição de vídeo num curso pré-vestibular e
com produção de materiais promocionais numa empresa de marketing.
Tudo melhorava de certa forma, mas a minha satisfação com o Design
diminuía a cada dia. Sabendo do meu descontentamento, meu namorado (que
sempre foi um incentivador da possível carreira de tatuadora), sugeriu que
considerasse a possibilidade de retomar esse sonho adolescente. Nesse momento
avaliei todos os aspectos que envolviam a nova profissão, comprei minha primeira
máquina de tatuar e decidi me permitir buscar essa experiência.
Desenvolver este trabalho de conclusão de curso implica em retomar parte da
minha história pessoal e abre um novo ciclo na minha vida, é meu reencontro com o
Design, através da tatuagem. Meu (re)descobrimento enquanto designer.
15

2 METODOLOGIA
Neste capítulo serão apresentados os procedimentos metodológicos que
utilizei para o desenvolvimento do trabalho de conclusão de curso. A pesquisa
possui abordagem qualitativa e se caracteriza como uma pesquisa exploratória, pois
tem como finalidade aprofundar a compreensão sobre o design autoral e a
tatuagem, sendo áreas que tangenciam através da ilustração.
Gerhardt e Silveira (2009 apud GIL, p. 35) explica que “pesquisas
exploratórias envolvem levantamento bibliográfico; entrevistas com pessoas que
tiveram experiências práticas com o problema pesquisado; e análise de exemplos
que estimulem a compreensão.” Deste modo, empreguei como procedimento
metodológico a pesquisa bibliográfica para verificação do que fora estudado a
respeito do tema proposto e entrevistei por meio de um questionário online os
tatuadores.
No levantamento bibliográfico feito a partir da ferramenta Google Scholar,
utilizando as palavras “design” e “tatuagem/tattoo” juntas, encontrei apenas um
artigo científico intitulado “Design à flor da pele: tatuagem como linguagem gráfica,
estética e simbólica” publicado no 12º P&D (Congresso Pesquisa e Desenvolvimento
em Design) que apresenta relação com o Design, onde aborda as características
visuais levadas em consideração na escolha de uma tatuagem. Os demais trabalhos
encontrados eram associados a área das Artes Visuais, da Comunicação, do Direito,
da Antropologia e da Psicologia.
Após essa etapa, para uma melhor compreensão sobre a profissão do
tatuador e sobre autoria nas ilustrações para tatuagens apliquei um questionário 2 a
dez profissionais que possuem como direcionamento o fazer autoral com as
seguintes perguntas:

2 As respostas dos profissionais podem ser visualizadas no apêndice A deste trabalho.


16

Figura 2: Perguntas questionário


Fonte: A autora (2018)

As respostas foram importantes para identificar as metodologias projetuais


adotadas por cada tatuador e assim analisar os processos de autoria e co-autoria. O
projeto prático neste trabalho consiste numa série com dez ilustrações, em que cinco
foram criadas a partir de motivações pessoais e cinco são de co-autoria juntamente
com os voluntários selecionados.
Para criação da metodologia projetual desta monografia utilizei cinco
aforismos extraídos do “Manifesto Incompleto para o Crescimento” 3 de Bruce Mau
(1998), onde o autor traz reflexões sobre a sua filosofia pessoal e estratégias para
estimular o processo criativo.

3 Os aforismos do “Manifesto Incompleto para o Crescimento” de Bruce Mau (1998) podem ser
visualizados no apêndice B deste trabalho.
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Figura 3: Metodologia Projetual


Fonte: A autora (2018)

O primeiro aforismo refere-se a fase inicial do projeto:


Permita que os acontecimentos mudem você. Você tem que estar disposto a
crescer. Crescimento é diferente de algo que acontece a você. Você produz
isso. Você o vive. Pré-requisitos para o crescimento: a abertura para
experimentar acontecimentos e a vontade de ser mudado por eles. (MAU,
1998, n.p.)

Esse aforismo expressa o início do projeto quando optei por estudar a


tatuagem, sobre me permitir viver essa nova experiência, mesmo com dúvidas e
inseguranças em relação ao resultado do projeto.
O segundo aforismo consiste no período de pesquisa de referências, onde
Mau (1998, n.p.) aconselha “Suba nos ombros dos outros. Você pode viajar mais
longe carregado pelas conquistas dos que vieram antes de você. E a vista é muito
18

melhor.” Nesta etapa procurei por autores que falam de tatuagens e design,
tatuadores que desenvolvem ilustrações autorais e busquei analisar através do
questionário como esses profissionais atuam no seu processo criativo e na relação
de co-autoria com o cliente.
O terceiro aforismo escolhido aborda o fato de precisarmos de outros
indivíduos para o crescimento e compartilhamento de saberes.
Escute cuidadosamente. Cada colaborador que entra em nossa órbita traz
com ele ou ela um mundo mais estranho e complexo do que qualquer um
poderia jamais imaginar. Ao escutar os detalhes e a sutileza de suas
necessidades, desejos, ou ambições, nós juntamos o mundo dele ao nosso.
Nenhuma das partes jamais será o mesma. (Mau, 1998, n.p.)

Esse aforismo reflete no processo de criação das ilustrações co-autorais


onde cinco voluntários foram convidados a enviar ideias e referências de ilustrações
que gostariam de tatuar em seus corpos.
O quarto aforismo corresponde a valorização do processo dentro da
metodologia projetual. De acordo com Mau (1998, n.p.) “Processo é mais importante
do que resultado. Quando o resultado direciona o processo nós apenas iremos onde
já estivemos. Se o processo direciona o resultado nós podemos não saber onde
estamos indo, mas nós sabemos que vamos querer estar lá.” Esse aforismo remete
a fase de criação esboços e geração de alternativas.
O quinto e último aforismo incentiva a experimentação. Para Mau (1998, n.p.)
o erro faz parte do processo de crescimento pessoal e profissional, “Ame seus
experimentos (como você amaria uma criança feia). Alegria é o motor do
crescimento. Explore a liberdade de moldar seu trabalho com belos experimentos,
iterações, tentativas, provas e erros. Pense a longo prazo e permita-se ao prazer de
falhar todos os dias.” Esse aforismo corresponde a etapa de finalização das
ilustrações e execução das tatuagens nos voluntários, tendo em vista que sou uma
aspirante a tatuadora e estou exercitando/experimentando a partir deste trabalho
prático.
Os aforismos foram selecionados a partir da minha identificação com as
ideias propostas pelo autor e os documentos desenvolvidos nas etapas de
metodologia projetual citadas acima são apresentados no capítulo cinco “PROJETO
PRÁTICO”, onde encontram-se os esboços, o memorial justificativo e as ilustrações.
19

3 AUTORIA
No presente capítulo analiso a autoria a partir dos autores Rolland Barthes e
Michel Foucault que promoveram o debate acerca do tema. Identifico como esta
discussão repercutiu no campo do Design e levanto a reflexão no contexto das
tatuagens.

A autoria se trata da “condição da pessoa que compõe ou é responsável pela


criação de alguma coisa;”. (AUTORIA, 2018) Historicamente a discussão sobre
autoria teve seu ápice na França em 1968 com o ensaio “A morte do Autor” de
Rolland Barthes publicado na 5ª edição da revista Manteia. Neste momento o país
estava se recuperando da Segunda Guerra Mundial e vivia momentos de revolta
popular. (PIRES, 2015, p. 2)

Nesse cenário, Barthes (2004) traz a sua reflexão, mais especificamente para
o campo da literatura, desmistificando a posição do Autor como “gênio” ou “autor-
deus”.
O autor reina ainda nos manuais de história literária, nas biografias de
escritores, nas entrevistas das revistas, e na própria consciência dos
literatos, preocupados em juntar, graças ao seu diário íntimo, a sua pessoa e
a sua obra; a imagem da literatura que podemos encontrar na cultura
corrente é tiranicamente centrada no autor, na sua pessoa, na sua história,
nos seus gostos, nas suas paixões; (Barthes, 2004, p. 1)

A escrita, segundo Barthes (2004), é a destruição da voz, a começar pela voz


do corpo que a escreve. É necessário que o autor morra para o que leitor possa
nascer e o único poder do autor seria o de misturar as escritas. Desta forma, a
unidade de um texto não estaria na sua origem, mas no seu destino, visto que cada
leitor terá uma interpretação diferente, tendo então em um único texto múltiplos
sentidos.

No ano seguinte, Michel Foucault renova o significado de autoria com “O que


é um autor?”, onde descreve as características e funções do autor e os problemas
associados às ideias convencionais de autoria. Foucault (2001) faz uma análise
histórica sobre as mudanças na relação entre texto e autor e rebate “A morte do
autor” de Barthes questionando “Que diferença faz quem está falando?”.

Para Foucault (2001) existem locais onde a função do autor é exercida, “a


função-autor é, portanto, característica do modo de existência, de circulação e de
funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade”, sendo estes: o
20

nome do autor; a relação de apropriação; a relação de atribuição; a posição do autor.


O nome do autor corresponde a inviabilidade de tratar o autor com uma descrição
definida, mas ao mesmo tempo tratá-lo como um nome próprio comum também não
seria possível. A relação de apropriação expressa que o autor não é o proprietário,
responsável, produtor ou inventor de seus textos e questiona qual a natureza do ato
de fala que permite atribuir a existência de uma obra.

A morte do autor então vai além da desmistificação da figura do autor na sua


concepção moderna, ela suscita que o autor retire a sua individualidade do texto.
Essa relação da escrita com a morte também se manifesta no
desaparecimento das características individuais do sujeito que escreve;
através de todas as chicanas que ele estabelece entre ele e o que ele
escreve, o sujeito que escreve despista todos os signos de sua
individualidade particular; a marca do escritor não é mais do que a
singularidade de sua ausência; é preciso que ele faça o papel do morto no
jogo da escrita. (Foucault, 2001, p. 7)

A discussão sobre autoria e o papel do autor que Barthes (2004) e Foucault


(2001) propuseram na literatura refletiram no Design, de modo que ambos, escritor e
designer, comunicam o receptor e são influenciados pelo meio em que se origina. De
acordo com Assis (2011, p. 56) “assim como os escritores buscaram afastar-se da
obra, para que suas características não pudessem ser identificadas no texto, muitos
designers defendem a neutralidade no design comercial.” Poynor (2010) acredita
que a criação no Design não é um processo neutro, pois seria impossível o designer
se desvincular completamente do seu gosto pessoal, entendimento cultural, crenças
sociais e políticas e preferências estéticas. No subcapítulo a seguir, veremos como a
questão da autoria repercutiu no âmbito do Design.

3.1 AUTORIA NO DESIGN


A discussão sobre autoria no Design se dá principalmente no meio acadêmico
e em discussões sobre as fronteiras da Arte e do Design. O conceito de “designer
como autor” se tornou popular nos anos 90 e permanece polêmico pela concepção
do autor como forma de validação autoritária, ultrapassada e reacionária. (POYNOR,
2010, p. 118) De fato, devemos ter cautela com as teorias de autoria, como alerta
Rock (2004, n.p.) “as aspirações autoritárias podem realmente acabar reforçando
certas noções conservadoras de produção e subjetividade do design - ideias que
21

vão contra as recentes tentativas críticas de derrubar a percepção do design


baseada no brilhantismo individual”.
No entanto, Poynor (2010) esclarece que desde o princípio da arte comercial
existiam designers que inevitavelmente se destacavam como autores tendo seus
trabalhos reconhecidos em revistas especializadas, exposições e monografias.
Completa que o designer-autor é reflexo do pós-modernismo no Design, pois os
designers estavam em sincronismo com a teoria pós-moderna e as suas expressões
populares, onde o leitor ou espectador era convidado por meio de ideias e termos
semelhantes. Havia o entendimento de não impor uma única leitura ao que estava
sendo apresentado, entretanto, apesar de incentivar a participação e interpretação
do público não existia o desejo de se desvincular da obra.
Para Beccari (2014) a autoria no Design não depende de uma ideia nunca
antes vista, ela se situa no representar em si, na linguagem utilizada e no estilo
desenvolvido. Com o propósito de tentar descrever a atividade e prever como ela
pode evoluir, Rock (2004) propõe três modelos alternativos de autoria no Design. Se
trata do designer como tradutor, designer como intérprete e designer como diretor. O
designer como tradutor consiste na função de intermediário, onde o profissional
remodela o conteúdo, transformando não somente o significado dos elementos, mas
também o espírito. De acordo com Rock (2004, n.p.) “isso se baseia no pressuposto
de que o ato de projetar é, em essência, o esclarecimento de material ou a
remodelação de conteúdo de uma forma para outra. O objetivo final é a expressão
de um determinado conteúdo processado em um formato que alcance um novo
público”.
O designer como intérprete compreende na manifestação física do conteúdo,
o designer transforma e expressa o conteúdo através de dispositivos gráficos. Nesse
caso possui o papel de performer, dando vida ao conteúdo, o contextualizando e
trazendo para o quadro do presente. Neste modelo Rock (2004) traz o exemplo do
intérprete na arte.
A metáfora do artista é baseada no teatro e na música. O ator não é o autor
do roteiro, o músico não é o compositor da partitura, mas sem ator ou
músico, a arte não pode ser realizada. O ator é a expressão física do
trabalho; todo trabalho tem um número infinito de expressões físicas. Todo
desempenho recontextualiza o trabalho original. (Rock, 2004, n.p.)

O designer como diretor se caracteriza pela grandeza do projeto, em


trabalhos desse tipo o designer atua como um diretor de cinema, onde deve estar
22

inteirado de cada parte do processo. Deste modo, Rock (2004, n.p.) salienta que
“somente em instalações de larga escala, campanhas publicitárias, revistas de
distribuição em massa e livros muito grandes vemos evidências desse paradigma”.
Na visão de Rock (2004) a autoria no contexto do Design pode sugerir novas
abordagens para entender o processo de design. Desta forma, aponta três critérios
para que o designer possa ser considerado um designer-autor: sua experiência
técnica; ter uma assinatura estilística visível; mostrar consistência de visão e sentido
interior no seu trabalho. Poynor (2010) cita alguns exemplos de designers que se
destacam como designers-autores, como Neville Brody, David Carson, Bruce Mau e
Ellen Lupton.
De acordo com Rock (2004) há algumas práticas no design que possibilitam a
experimentação do autor e o exercício dos critérios citados acima, entre elas estão o
livro de artista, a poesia concreta, o ativismo político, a publicação e a ilustração.
Nesta pesquisa a área de interesse é a ilustração, que é definida como a gravura,
desenho, imagem ou reprodução que acompanha um texto; a parte artística de um
texto. (ILUSTRAÇÃO, 2018, n.p.). Esta definição está diretamente associada ao
Design, sendo entendida como a imagem que ilustra o conteúdo. Contudo, ainda há
o entendimento da ilustração pertencer a Arte. Segundo Nunes (2009 apud
MOREIRA, p.23) “os artistas pertencem ao mundo da arte, e ilustradores e
designers ao mundo da comunicação.”, visto que na ilustração o ilustrador precisa
traduzir em linguagem visual o texto do autor, enquanto na arte o artista expressa
seus próprios sentimentos, vivências e conflitos.
Deste modo, o ilustrador/designer atende a um cliente e o artista a suas
próprias convicções. Quando deslocamos o conceito de ilustração para tatuagem
podemos defini-la como a linguagem visual que traduz uma idéia e corresponde a
expectativa de um cliente. Em vista disso, Martins (2012) identifica o corpo como
meio e a tatuagem como mensagem. Sendo o corpo uma plataforma de
comunicação que usa a pele para transmitir uma mensagem. No subitem a seguir
proponho a reflexão sobre a autoria na tatuagem a partir das respostas que obtive
no questionário aplicado a profissionais da área.
23

3.1.1 Autoria na tatuagem

Na tatuagem o processo de criação de ilustrações se dá normalmente de


duas formas: na primeira temos a ilustração do tatuador a partir de motivações
pessoais que configura-se como tatuagens autorais; na segunda e mais utilizada, o
cliente apresenta a ideia e/ou referências visuais e o tatuador interpreta essa ideia
de acordo com seu estilo, sendo estas tatuagens um processo de co-autoria. Neste
subcapítulo trago algumas respostas do questionário aplicado aos tatuadores com o
intuito de analisar o modo de atuação e à relação de autoria dos profissionais.

O tatuador James Duarte é formado em Comunicação Visual pelo IFSul e


comenta as etapas do seu processo com os clientes.
Começo o processo num primeiro contato virtual onde busco colher (através
de um formulário) algumas informações básicas como local do corpo a ser
tatuado, tamanho do desenho e uma breve noção da temática. Dessa forma
posso passar uma média de orçamento e logo marco uma reunião
presencial para conhecer o cliente (pois sentir a energia do outro é
fundamental nesse ritual), nos casos onde não há nada definido, havendo
apenas a vontade de tatuar, a conversa é fundamental para entender a
pessoa e buscar elementos visuais/conceituais no formato de um
brainstorm. Logo desenvolvo e apresento um esboço como proposta e se
aprovado o finalizo no papel e logo tatuo. (Tatuador James Duarte)

Tendo formação na área, James, acrescenta “penso que há muitas relações


entre design e tatuagem, seja pela questão projetual, pela forma e função
(estética/psicológica), seja pelo aspecto do consumo, e por aí vai…”. Podemos
observar que seu processo é muito semelhante ao utilizado nos projetos de design,
onde é feito o briefing e brainstorm, a análise do suporte, os esboços e a aprovação
do cliente para execução. É possível notar nas suas tatuagens (figura 4) o uso
recorrente do pontilhismo, muitas linhas e o uso do preto o que podem configurar
uma assinatura estilística, uma das práticas que segundo Rock (2004) possibilitam a
experimentação da autoria.
24

Figura 4: Tatuagens de James Duarte


Fonte: <https://goo.gl/pxGc5k>; Acessado: 11/06/2018.

No trabalho da tatuadora Samanta Flôor (figura 5), suas composições são


constituídas de traços cartoon e o uso recorrente do preto, outra forma de assinatura
estilística. Ao responder o questionário a tatuadora explica que atende com hora
marcada e tem uma série de desenhos disponíveis, mas que o cliente também pode
enviar ideias e referências para a criação da tatuagem que levarão seu traço
característico.
25

Figura 5: Tatuagens de Samanta Flôor


Fonte: <https://goo.gl/59GbPs>; Acessado: 11/06/2018

Nas tatuagens dos dois tatuadores citados acima podemos identificar então,
diferentes formas de assinatura estilística, como Rock (2004) classifica no design
autoral. O tatuador Rogger Bandeira conta que alguns clientes o procuram com
ideias prontas, mas que é importante apresentar algo exclusivo e se colocar no
trabalho.
É comum alguém já vir com alguma ideia pronta. Existe esse
comprometimento com o que vai ser feito já que se trata do corpo de alguém,
a vitrine. Então trabalho em conjunto com esse desejo por algo, sempre
busco surpreender a partir do que é me dado, não perdendo a essência do
previsto. Apresento algo novo, com o meu olhar e meu estilo permeando a
vontade do cliente, expandindo a possibilidade de novas visualidades.
(Tatuador Rogger Bandeira)

O processo de criação autoral de Henrique Agabe, tatuador há um ano e sete


meses, acontece através de inspirações cotidianas, logo após essas ilustrações são
divulgadas em redes sociais e no estúdio para que os clientes possam conhecer o
trabalho e eventualmente tatuar essas ilustrações autorais. Quanto às tatuagens de
co-autoria, Agabe conta que “o cliente tem uma ideia, ou uma foto de referência, eu
procuro conversar com o cliente a respeito do porquê da ideia, e tento criar a minha
visão, sobre a ideia ou referência que o cliente me trouxe.”

A partir do questionário pude constatar que seis dos dez tatuadores


entrevistados, direcionam a sua produção a tatuagens autorais e de co-autoria, três
trabalham com tatuagens autorais, de co-autoria e tatuagens comerciais e um
trabalha com tatuagem autoral e comercial que são aquelas de autoria de outros
ilustradores/tatuadores. Com isto, percebe-se a valorização da produção autoral e o
26

cuidado em entregar uma tatuagem exclusiva para o cliente. Os relatos foram


importantes para compreensão do processo de criação de tatuadores profissionais,
tendo em vista que busco o conhecimento sobre as especificidades da profissão e
proponho nesta pesquisa à criação de ilustrações para aplicação em tatuagens.
27

4 UM OLHAR SOBRE A HISTÓRIA DA TATUAGEM


Neste capítulo apresento uma breve contextualização histórica sobre a
prática da tatuagem e proponho a discussão acerca das fronteiras entre a tatuagem,
a Arte e o Design. A tatuagem segundo Curimbaba (2015) é uma realidade desde os
primórdios da humanidade, acredita-se que nossos ancestrais começaram a adquirir
involuntariamente o apreço pelas marcas corporais a partir de cicatrizes resultante
das guerras tribais, lutas corporais ou durante a caça. As cicatrizes eram motivo de
orgulho e podiam ser reverenciadas pelos demais membros de suas comunidades
por representar vigor e vitória. Essa admiração pelas cicatrizes evoluiu a ponto de
despertar o desejo de produzir suas próprias marcas corporais a partir de espinhos e
tintas vegetais.
De acordo com Curimbaba et al. apud Marques (2015), os povos primitivos
buscavam a tatuagem como forma de expressão. As marcas contavam sobre
aspectos da sua vida, como a passagem pela puberdade, o casamento, a
reprodução, as guerras que lutou, entre outros acontecimentos. Há descobertas que
comprovam o uso da tatuagem há mais de 5.000 anos, como o caso de Ötzi - O
Homem do Gelo, múmia encontrada na cordilheira dos Alpes em 1991. Suas
tatuagens são compostas de pontos e traços (figura 6), que acredita-se terem sido
feitas com função terapêutica, pois situam-se em partes do corpo propícias a lesões
e dor (VASCONCELOS, 2014, p.30).
28

Figura 6: Tatuagens Ötzi - O Homem do Gelo (2018)


Fonte: <https://goo.gl/SJ1WpZ>; Acessado: 29/03/2018.

O corpo com tatuagem figurativa mais antiga que se tem notícia foi
descoberto no início de 2018, datando de 3351 a 3017 AC. A múmia egípcia
pertence ao acervo do Museu Britânico em Londres, no Reino Unido. O desenho
representa um touro selvagem e um carneiro-da-barbária, que de acordo com a sua
popularidade na arte egípcia pré-dinástica simbolizavam poder e virilidade
(ROMANZOTI, 2018).
29

Figura 7: Múmia Gebelein Man A (2018)


Fonte: <https://goo.gl/tcD6DF>; Acessado: 29/03/2018.

Conforme afirma Lustosa et al. (2015), a prática da tatuagem desde


antigamente se estendia a todos continentes e apresentavam objetivos distintos,
incluindo a singela ornamentação do corpo. O uso da tatuagem entrou em declínio
no Ocidente com a ascensão do cristianismo que em Levítico 4 proíbe as incisões no
corpo, voltando ao Ocidente somente depois das explorações marítimas à Polinésia
no século XVIII.
Em 1769, o capitão James Cook e sua tripulação desembarcaram no Taiti e
tiveram contato com os indígenas da região. Os nativos possuíam figuras
espalhadas pelo corpo, as figuras eram feitas com um instrumento de madeira e
ossos que funcionava com o batimento de um pequeno pedaço de pau permitindo
que a tinta fosse inserida na pele. O procedimento gerava um som (tá-tá, tá-tá), que
fez com que os nativos chamassem a prática de “tatau”. O capitão Cook registrou a
prática em seu diário como “tattaw”, que posteriormente se tornou o termo “tattoo”.
(CARVALHO; 2010, p. 39)

4 Levítico é o terceiro livro da Bíblia hebraica e do Antigo Testamento cristão.


30

Figura 8: Retrato de um chefe Maori


Fonte: <https://goo.gl/Fhj1WC>; Acessado: 07/06/2018.

Segundo Soares (2011 apud GILBERT, p. 18), a tripulação de Cook aprendeu


a técnica com os índios e levou a prática da tatuagem para os portos, tornando-se
moda entre os marinheiros. No século XIX e XX, muitos ex-marinheiros viraram
tatuadores, atuando nas cidades portuárias. Em 1891 o tatuador Samuel O’Reilly
patenteou a primeira máquina de tatuar elétrica (figura 9), possibilitando que o
procedimento se tornasse mais fácil e menos doloroso.
31

Figura 9: Samuel O’Reilly tatuando


Fonte: <https://goo.gl/8u2wLN>; Acessado: 07/06/2018.

No início do século XX os tatuadores começaram a profissionalizar-se e


montar suas lojas em bairros periféricos, onde a clientela era composta na sua
maioria por marinheiros, prostitutas, ex-presidiários, membros de gangs,
delinquentes juvenis, etc. (FERREIRA, 2008, p. 71) Conforme comenta Marques
(1997), na década de 20 na América do Norte houve a proibição da tatuagem por
razões de saúde pública, tendo como objetivo conter a hepatite e a sífilis. Neste
momento, a tatuagem que já era associada a indivíduos marginalizados se tornou
uma prática ilegal.
Para Carvalho (2010) a contracultura e o movimento hippie na década de 60
se apropriaram do uso da tatuagem, que até então estava associada à
marginalidade e a transformou num símbolo de rebeldia. A partir deste momento a
tatuagem alcança o estigma de manifestação associada à vadiagem. De acordo com
Pierrat (2000), conforme citado por Pérez (2006), no final da década de 60 as tribos
urbanas, como roqueiros, motoqueiros, hippies, punks e skins apoderaram-se do
imaginário da tatuagem como prática marginal para romper com as regras sociais
vigentes e se situar intencionalmente à margem da sociedade.
32

Este cenário se transforma novamente na década de 80 quando a tatuagem


começa a ser re-significada como ornamento corporal. De acordo com Le Breton
(2004) neste momento se iniciou a popularização das tatuagens, onde a sociedade
começou gradativamente a aceitar os corpos tatuados. Havia um forte apelo à
experimentação do novo e a ruptura com o que era padronizado e estabelecido.
Deste modo, “os novos modelos de corpo ganhavam seu respectivo espaço, ainda
que causasse desconforto, estranhamento e resistência”. (Soares, 2011, p. 8)

Segundo Pérez (2006) a partir da década de 90 os estúdios de tatuagem


começaram a se estabelecer utilizando instrumentos com tecnologias inovadoras,
materiais descartáveis e catálogos de tatuagem que transmitiam maior
profissionalismo, higiene e segurança em relação ao serviço prestado. Este cenário
com elementos do ambiente clínico, como luvas cirúrgicas e máscara auxiliaram na
evolução da profissão e propiciaram uma mudança gradual de visão da tatuagem
como algo sujo, podre, perigoso, proibido e contaminado. Os tatuadores que
surgiram nesta época se depararam com a necessidade de lutar pelo
reconhecimento social da tatuagem.

No século XXI a tatuagem ganhou espaço nos meios de comunicação, sendo


divulgada em livros, revistas e programas de televisão. Foram criados reality shows
mostrando o dia a dia de tatuadores e do trabalho nos estúdios de tatuagem. Alguns
exemplos foram: Miami Ink (2005), LA Ink (2007), Rio Ink (2008) e NY Ink (2011).
Esta propaganda da mídia juntamente com a crescente valorização e exploração do
corpo, contribuíram para diminuição do preconceito acerca da tatuagem, ampliando
o seu uso para os mais diversos fins. De acordo com Gomes (2013) é possível notar
mudanças no contexto da tatuagem, no olhar sobre a mesma e nos seus sentidos e
significados desde à época do auge de sua discriminação até à contemporaneidade,
sendo vista atualmente como uma técnica embelezadora esteticamente aceita.

Para Pérez (2006, n.p.) “É cada vez mais frequente e corriqueiro ver corpos
tatuados em distintos setores sociais, sem restrições (ou poucas existindo) de
gênero, idade ou status.” As Redes sociais como facebook e instagram também
favoreceram a divulgação de tatuadores e a popularização de conteúdos referentes
à prática. (SAD, 2016, p. 14) Esta breve retomada histórica fez-se necessária para
conhecer um pouco da origem da tatuagem e compreender melhor o objeto prático
desta pesquisa.
33

4.1.1 Fronteiras entre tatuagem, Arte e Design

Neste subcapítulo abordo a relação da tatuagem com a Arte e o Design, onde


proponho à reflexão sobre as tangentes que permeiam estas áreas. O entendimento
da tatuagem como arte se tornou muito popular, tanto no mercado como no meio
acadêmico, no entanto é complexo afirmar que a tatuagem é arte, tendo em vista
que depende do conceito e da definição conferida à arte. (GUSSO, 2016, p 10)

A partir da minha formação como designer e da recente aproximação com a


prática da tatuagem, me questionei sobre as semelhanças entre as duas áreas no
âmbito do processo de criação e na relação comercial envolvida. Segundo Seles et
al. (2016), “a tatuagem é uma peça única, exclusiva, quase artesanal mas que ainda
tem características estéticas padronizadas que variam de acordo com regionalismos
e modismos. Nesse sentido, ela emprega elementos comuns ao design gráfico,
como tipografia, cor, forma, hierarquia visual, alinhamentos etc”.

O tatuador contemporâneo é comumente considerado um artista, Pérez


(2006) explica como se deu este reconhecimento:
Assim como vêm ocorrendo mudanças nos ambientes onde se efetua
a tatuagem e no próprio conceito da prática, um novo status é
alcançado pelo tatuador. Ele não é mais um simples "marcador da
pele", mas um profissional e um artista com reconhecimento social,
enquadrado em uma categoria que poderia ser a de expert,
verdadeiro especialista na matéria. (Pérez, 2006, n.p.)

Nas civilizações primitivas o papel do marcador corporal era reservado à


figuras religiosas, atualmente os tatuadores surgem das mais diversas áreas, sendo
estes roqueiros, rappers, ilustradores, grafiteiros, designers e artistas plásticos.
(GUSSO, 2016, p 11) Deste modo é possível observar a relação dos indivíduos com
o universo da expressão e linguagem artística.

De acordo com Sad (2016) a relação com o cliente se configura como uma
prestação de serviço, pois o cliente compra à ilustração que será tatuada em sua
pele e está diretamente interessado na reprodução fiel da ilustração escolhida. Sob
esta perspectiva a tatuagem está inclinada ao Design, já que na Arte a
comercialização não é um fator determinante na concepção da obra.
34

Por outro lado, Pérez (2006) esclarece que apesar da prática parecer apenas
uma prestação de serviço, com uma observação mais profunda podemos perceber
que existem trocas, trânsitos de sentido e afetividades que ocorrem no momento da
feitura da tatuagem, tornando-se um ritual de forte descarga emotiva.

Segundo Marques (1997) à linguagem estética da tatuagem tem sido utilizado


em outros suportes como telas, paredes, carros e salas de museus. Alguns
profissionais direcionam sua prática para além da pele, como podemos observar na
exposição “A parede é a pele”, onde tatuadores trocaram a pele pelas paredes da
Divisão de Artes Plásticas da Casa da Cultura da UEL em Londrina. A exposição
tinha como objetivo criar um diálogo entre o trabalho dos tatuadores e a galeria de
arte. (BOTELHO, 2011, n.p.)

Figura 10: Exposição “A Parede é a Pele”


Fonte: <https://goo.gl/fLkgxi>; Acessado: 17/06/2018.

Para Seles et al. (2016, p. 9) sob a ótica design gráfico ou informacional, as


mensagens visuais que à tatuagem transmite vão muito além da personalidade do
indivíduo, elas “podem comunicar afetos, inclusão ou exclusão em grupos sociais,
vertentes ideológicas e as mais diferentes formas de se expressar.” Deste modo, os
métodos de análise do design gráfico poderiam ser uma alternativa para
compreender as relações entre o espectador, o indivíduo e à tatuagem, mostrando-
se um “produto de atuação do design informacional de amplo interesse social”.
35

Sad (2016) explica que a tatuagem é associada ao campo da cultura, mesmo


havendo especificidades que estão relacionadas a prática artística, através do
desenho, cores, pintura e composição. Desta forma podemos observar que a
tatuagem é uma prática híbrida e cultural que circula entre a Arte e o Design e suas
semelhanças com os dois campos alternam de acordo com a abordagem que o
tatuador expressa na sua produção.
36

5 PROJETO PRÁTICO
Este capítulo apresenta o desenvolvimento do projeto prático do trabalho de
conclusão de curso, que tem como propósito a aplicação de conhecimentos obtidos
no decorrer do curso de Bacharelado em Design. A partir da minha aproximação
com a tatuagem, me questionei sobre como a minha trajetória acadêmica poderia se
conectar ao desejo de me tornar uma tatuadora. Coincidentemente havia chegado o
momento deveria definir o tema para o trabalho de conclusão de curso na disciplina
de Seminário de TCC II e pude propor este projeto prático/experimental.
O projeto consiste na elaboração de uma série com dez ilustrações para
aplicação em tatuagens. Destas dez ilustrações, cinco foram criadas a partir de
motivações pessoais, tratando-se de ilustrações/tatuagens autorais, e as outras
cinco ilustrações foram criadas de acordo com a temática definida por voluntários,
que neste caso são as ilustrações/tatuagens de co-autoria.
A metodologia projetual para o desenvolvimento das ilustrações foi baseada
em cinco aforismos extraídos do “Manifesto Incompleto para o Crescimento” de
Bruce Mau (1998), conforme explicitado no capítulo dois “METODOLOGIA” deste
trabalho. Os passos estão ordenados em cinco etapas, entretanto elas aconteceram
de forma concomitante no decorrer do processo. A primeira etapa está relacionada
ao crescimento pessoal, que refletiu em todo o desenvolvimento projeto, mas
especialmente ao início do onde me permiti explorar minhas habilidades como
ilustradora. Deste modo, para as ilustrações autorais busquei por temáticas que
estão associadas a minha personalidade e as vivências que me constituem, optei
por representar graficamente minha relação com a música, com o feminismo, com
minhas avós, com a morte e com minha auto aceitação.
O segundo passo da metodologia é um aforismo que aconselha que você
suba nos ombros dos que vieram antes. Nesta etapa utilizei as respostas do
questionário que apliquei à dez tatuadores profissionais e analisei seus processos
criativos de co-autoria para utilizar nas ilustrações com os voluntários.
O terceiro passo está associado à riqueza existente nas trocas com outros
colaboradores para o crescimento e compartilhamento de saberes. Esta etapa está
diretamente associada à colaboração dos voluntários para o desenvolvimento das
cincos ilustrações de co-autoria. Os voluntários selecionados haviam expressado
previamente à vontade em ser cobaias no meu processo de aprendizagem como
37

tatuadora. À partir de uma conversa informal os cinco voluntários apresentaram as


temáticas e referências visuais relacionadas a suas ideias para o desenvolvimento
das ilustrações. Este processo foi baseado nas respostas que obtive no questionário
da maioria dos tatuadores que trabalham com tatuagens de co-autoria. A seguir
apresento os moodboards referentes a cada voluntário.

Figura 11: Moodboard Jéssica Carvalho


Fonte: A autora (2018)
38

Figura 12: Moodboard Alexandre Gonçalves


Fonte: A autora (2018)
39

Figura 13: Moodboard Cassio Lilge


Fonte: A autora (2018)
40

Figura 14: Moodboard Giuliano Ximendes


Fonte: A autora (2018)
41

Figura 15: Moodboard Mike Pires


Fonte: A autora (2018)

O quarto passo da metodologia projetual se refere à valorização do processo,


nesta fase criei rascunhos das ideias e num segundo momento utilizei papel vegetal
para refinar o traçado das alternativas que tinham os melhores resultados.
42

Figura 16: Geração de alternativas 1


Fonte: A autora (2018)
43

Figura 17: Geração de alternativas 2


Fonte: A autora (2018)
44

Figura 18: Geração de alternativas 3


Fonte: A autora (2018)
45

Figura 19: Geração de alternativas 4


Fonte: A autora (2018)

O quinto passo da metodologia projetual incentiva a experimentação e a


liberdade em permitir-se explorar e moldar o trabalho. Após à geração de
alternativas, optei por finalizar as ilustrações no software vetorial Adobe Illustrator
que me possibilitou testar brushes variados para um melhor acabamento das
ilustrações. Mantive as ilustrações sem preenchimento pensando em sua aplicação
posterior como tatuagem, pois até o momento tenho trabalhado na tatuagem
somente com o traçado.
46

A seguir apresento as ilustrações autorais que tem como direcionamento


motivações pessoais. A primeira ilustração representa minha relação com a música
que possui um papel muito importante na minha vida. Minha trajetória musical
começou aos 14 anos quando ganhei meu primeiro violão, no entanto a relação com
o contrabaixo só aconteceu quatro anos depois quando toquei pela primeira vez em
uma banda. Logo após surgiu a oportunidade de tocar contrabaixo numa banda
punk feminina que me inseriu no universo feminista e atualmente sou baixista numa
banda underground de rock alternativo chamada Badhoneys. Escolhi representar
este modelo de contrabaixo por ter sido o primeiro contrabaixo que adquiri.

Figura 20: Ilustração música


Fonte: A autora (2018)

Conforme citei acima, a música me levou ao feminismo e este foi um dos


grandes presentes que a música me proporcionou. A partir dos ideais feministas
47

pude me libertar de conceitos equivocados e gerar transformações significativas no


modo como me enxergo e me posiciono no mundo. Para ilustração deste tema
busquei inspiração na música “Triste, louca ou má” da banda Francisco, El hombre
que traz em seu refrão à seguinte afirmação “Que um homem não te define / Sua
casa não te define / Sua carne não te define / Você é seu próprio lar”. Optei pela
representação do corpo feminino do qual deveria ser respeitado seus direitos e sua
autonomia.

Figura 21: Ilustração feminismo


Fonte: A autora (2018)

A ilustração seguinte está relacionada à convivência com minhas avós, trata-


se de uma homenagem a essas mulheres que me ensinaram o sentido da palavra
“amor”. À minha avó paterna, “Leleca”, que pude conviver na infância e me cuidou
com tanto carinho. E a minha avó materna, Elizete, que é uma segunda mãe e
sempre me apoiou incondicionalmente. As duas sempre cuidaram do jardim e
possuíam uma forte ligação com o cultivo de flores e frutos. Meu apreço pelas flores
se dá através do convívio diário com minhas avós.
48

Figura 22: Ilustração avós


Fonte: A autora (2018)

A escolha da morte como temática está associada às “pequenas mortes” que


nos constituem. Se refere à efemeridade das relações e das vivências, servindo
como lembrete do quanto é valioso o momento presente. Optei pela caveira, símbolo
recorrente de representação da morte e adicionei elementos que brotam fazendo
alusão ao renascimento e a vida.
49

Figura 23: Ilustração morte


Fonte: A autora (2018)

A última ilustração autoral apresentada está relacionada ao modo como me


enxerguei por muito tempo. Sentia que não me encaixava no padrão de feminilidade
e me considerava uma pessoa estranha, feia e desinteressante. A partir da minha
aproximação com o feminismo entendi que esse sentimento é muito comum entre as
mulheres, pois à sociedade nos impõe padrões de beleza e de comportamento
desde à infância. Quando não nos identificamos com estes padrões somos levadas
a acreditar que tem algo errado conosco. Nesta ilustração criei um pássaro com
corpo de peixe, optei pelo pássaro por sua relação com a liberdade. Deste modo, à
junção de dois animais que vivem em ambientes opostos causa o estranhamento
que buscava nesta representação.
50

Figura 24: Ilustração auto aceitação


Fonte: A autora (2018)

As ilustrações que mostrarei a seguir são resultado do processo de


colaboração com os voluntários. A primeira voluntária se chama Jéssica Carvalho e
enviou como tema para ilustração a cultura africana. Se trata de uma tatuagem para
homenagear seus ancestrais e demonstrar orgulho pela sua negritude. Levando em
consideração a personalidade da voluntária considerei que a melhor representação
para este tema, seria uma mulher africana com os acessórios característicos, como
o turbante, à pintura facial e os colares.
51

Figura 25: Ilustração para Jéssica


Fonte: A autora (2018)

O segundo voluntário se chama Alexandre Gonçalves e optou por uma


tatuagem abstrata com elementos geométricos, comentou que gostaria de uma
composição com muitas pontas e linhas. Para isto, criei uma sobreposição de
formas que atendesse ao pedido do voluntário.
52

Figura 26: Ilustração para o Alexandre


Fonte: A autora (2018)

O terceiro voluntário se chama Cassio Lilge e optou por tatuar um cactus


juntamente com o texto “Bloody your hands on a cactus tree”, trecho da música
“Cactus” da banda Pixies. Neste caso optei por utilizar uma fonte já existente para a
parte textual, a fonte escolhida foi à “cookies&milk-regular” por possuir característica
de fonte manuscrita que harmoniza com o traço da ilustração.
53

Figura 27: Ilustração para o Cassio


Fonte: A autora (2018)

O quarto voluntário se chama Giuliano Ximendes e gostaria que sua tatuagem


tivesse relação com barulho, música, instrumentos e ferramentas. Esta tatuagem
está intimamente ligada a profissão do voluntário que atua como luthier. Nesta
ilustração juntei o pedal de guitarra big muff, um dos preferidos do voluntário que
possui uma vasta coleção de pedais, com o coração anatômico. Os dois estão
“plugados” através dos cabos, tendo como objetivo representar a paixão pela
música.
54

Figura 28: Ilustração para o Giuliano


Fonte: A autora (2018)

O quinto voluntário se chama Mike Pires e gostaria de tatuar uma abóbora de


halloween que remete a um evento que esteve presente há 11 anos atrás. A partir da
ideia do voluntário procurei por elementos do halloween que pudesse incorporar na
ilustração, deste modo utilizei os morcegos, a teia de aranha e acrescentei a folha
da abóbora.
55

Figura 29: Ilustração para o Mike


Fonte: A autora (2018)

Para Le Breton (2004), através das modificações corporais os sujeitos


revelam sua presença no mundo. Seriam como assinaturas de si para afirmar sua
singularidade. De acordo com Pérez (2006), o tatuador tem o papel de mediador
entre à ideia do cliente e o resultado final, deste modo:
[...] "trabalhar nas idéias da pessoa" representa a busca da sua
interioridade através de um processo de interação por meio do qual a
pessoa a ser tatuada abre seu mundo, e o tatuador colabora na
busca e na tradução dessas "idéias" em imagens. Seguindo tal linha
de pensamento, poder-se-ia afirmar que a imagem, como
representação da "idéia", é relevante não exatamente por seu
conteúdo particular, mas pelo que ela é capaz de dizer do sujeito, do
seu interior. Ao mesmo tempo, o papel do tatuador é o de mediador
na interpretação dessa subjetividade que se exterioriza na
iconografia da tatuagem. (Pérez, 2006, n.p).
56

Este projeto de abordagem experimental me propiciou a simulação dessa


relação e o exercício como ilustradora tendo autonomia para criação das ilustrações
autorais. O objetivo inicial do projeto seria tatuar as ilustrações nos voluntários, mas
devido ao tempo disponível não foi possível efetuar as tatuagens até a data da
entrega do trabalho de conclusão de curso a banca, entretanto o plano segue com
os voluntários mesmo após a entrega desta monografia.
57

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste capítulo retomo os principais tópicos elencados neste trabalho de


conclusão de curso, relato os métodos utilizados em seu desenvolvimento e discorro
sobre as implicações referidas ao estudo. Procurei investigar nesta pesquisa, em
linhas gerais de que forma o Design poderia contribuir na produção de ilustrações
para tatuagens. Para responder a esta indagação procurei por bibliografias que
abordassem às áreas de interesse, entrevistei tatuadores profissionais e desenvolvi
uma metodologia projetual a partir do “Manifesto Incompleto para o Crescimento” de
Bruce Mau (1998) que me auxiliou na criação das ilustrações/tatuagens. As
entrevistas foram de suma importância para conhecer os processos de autoria e co-
autoria que estão presentes na atuação dos tatuadores e para basear a minha
prática nas ilustrações de co-autoria

A resposta para o problema de pesquisa veio através do design autoral, tendo


em vista que Rock (2004) classifica a ilustração como um tipo de produto do design
autoral. Outra característica oriunda do design autoral é o caráter experimental dos
projetos, que corresponde a esta pesquisa, tendo em vista que é a primeira vez que
me proponho a ilustrar uma série de tatuagens. A partir do conhecimento acerca da
autoria e do design autoral pude me permitir explorar o fazer autoral que até então
tinha passado despercebido no decorrer da graduação. A ilustração teve um papel
coadjuvante na minha trajetória dentro do curso de Design, mas a partir do momento
que me coloco como autora e que compreendo que o processo é mais importante
que o resultado (Mau, 1998), o experimento se torna um grande aprendizado.

Com este trabalho aprendi sobre assinatura estilística e pude identificar


alguns sinais que até então desconhecia no meu modo de ilustrar, como por
exemplo o uso de muitas linhas e o gosto pelo junção de elementos nas
composições visuais. O estudo se mostrou relevante devido a carência de trabalhos
referentes ao estudo da tatuagem pelo viés do design, deste modo a pesquisa
poderá contribuir na produção de conhecimento e saberes relacionados ao tema.
Este é apenas um dos recortes possíveis para relacionar o Design e a tatuagem não
havendo a pretensão de apresentar respostas absolutas ao problema de pesquisa.
58

REFERÊNCIAS

ASSIS, Simone Pereira de. Práticas criativas no design gráfico contemporâneo.


Dissertação (Mestrado em Design) - Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo.São
Paulo / SP. 2011. 124p. Disponível em: <https://goo.gl/pVmqav>. Acesso em: 12 mai.
2018.

AUTORIA. Dicio Dicionário Online de Português, 01 abr. 2018. Disponível em


<https://www.dicio.com.br/autoria/>. Acesso em 01 abr. 2018.

BARTHES, Roland. O Rumor da Língua. Trad. Mário Laranjeira. 2. ed. São


Paulo: Martins Fontes, 2004.

BOTELHO, Beatriz. Exposição “A parede é a pele” inova com tatuagens feitas


na parede. Disponível em: <https://goo.gl/LWyF2J> Acesso em: 10 jun 2018.

CARVALHO, Eric de. Tattoo. Incorporações de produtos midiáticos por meio de


tatuagens. 2010. 187p. Dissertação (Mestrado em Comunicação) Faculdade Cásper
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VASCONCELOS, Yuri. A história da tatuagem. Revista Mundo Estranho.Ed.151. –


São Paulo. Abril/2014
62

ANEXOS
63

Apêndice A – Respostas do questionário no Google Forms

Nome: Rogger Bandeira

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Sempre gostei de desenhar,


adentrando no curso de artes visuais na modalidade bacharelado pude ver o quanto
o desenho está relacionado com o gesto de algum corpo, desse modo passei a
desenhar sobre a própria superfície do mesmo.

Tatua a quanto tempo? 4 anos

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)
Tatuagens de co-autoria (criação de desenhos exclusivos a partir da ideia inicial do
cliente)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes? É comum


alguém já vir com alguma ideia pronta. Existe esse comprometimento com o que vai
ser feito já que se trata do corpo de alguém, a vitrine. Então trabalho em conjunto
com esse desejo por algo, sempre busco surpreender a partir do que é me dado,
não perdendo a essência do previsto. Apresento algo novo, com o meu olhar e meu
estilo permeando a vontade do cliente, expandindo a possibilidade de novas
visualidades.

Nome: Ricardo Bios

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Para qualquer tipo de


profissional que seja autônomo na cidade de Pelotas, a aprendizagem é bastante
limitada, quem sabe não quer ensinar e quem quer ensinar quer dinheiro. Então
minha trajetória nessa profissão foi lenta com muitos altos e baixos. Aprendendo
com erros e mais erros. Hoje em dia não sou o profissional que eu realmente quero
ser, mas acredito que um dia chego lá. E hoje em dia tenho colegas de trabalho com
pensamentos e iniciativas boas. Que ajudam muito!
64

Tatua a quanto tempo? 6 anos

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)
Tatuagens de co-autoria (criação de desenhos exclusivos a partir da ideia inicial do
cliente)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes?


Primeiramente tenho que saber o local e o tamanho que o cliente quer, e se a
pessoa quer que tenha algo que se destaque na tatuagem, algo específico. Algum
objeto nome etc… O segundo passo é descobrir como a pessoa imagina a
tatuagem, e se ela aceita que eu tenha total liberdade de adicionar ou remover algo
da ideia dela. O terceiro passo é esboçar alguns modelos para que a pessoa possa
ter em mãos algo já mais concreto, e se estiver tudo certo, passamos para a arte
mais completa e depois para pele. Eu trabalho com neo traditional, os clientes que
me procuram já sabem que trabalho nesse estilo então sabem a base de todas
minhas tatuagem. a criação da arte fica somente pela ideia, porque o visual sempre
será em neo tradicional.

Nome: Henrique Agabe

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Trabalho com ilustração e graffiti
a uns 4 anos, e dps de um tempo, comecei a me interessar e pesquisar sobre o
campo da tatuagem, pelo qual tive muito interesse e comecei a atuar..

Tatua a quanto tempo? 1 ano e 7 meses

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)
Tatuagens de co-autoria (criação de desenhos exclusivos a partir da ideia inicial do
cliente)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes? Muitas


65

vezes tenho trabalhos autorais, no qual crio à partir de ideias que vou tendo,
inspirada por coisas do dia-a-dia (ou não), no qual eu sempre procuro ir
disponibilizando nas redes, ou no estúdio para os clientes que frequentam.
Ou também quando o cliente tem uma ideia, ou uma foto de referência, eu procuro
conversar com o cliente a respeito do porquê da ideia, e tento criar a minha visão,
sobre a ideia ou referência que o cliente me trouxe.

Nome: Douglas Veiga

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Desenho desde criança com
quadrinhos, na adolescência comecei a fazer ilustrações para cartazes de shows e
logos para bandas. Entrei para a faculdade de artes com meus 23 anos e a partir daí
comecei a focar meu desenho na gravura e foi nesta época que surgiu um emprego
num estúdio de tattoo. Acabei largando o curso para focar todo meu tempo na
tatuagem e desde então tenho trabalhado com isto e ilustração em geral.

Tatua a quanto tempo? 5 anos

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)
Tatuagens de co-autoria (criação de desenhos exclusivos a partir da ideia inicial do
cliente)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes? Recebo


diversas imagens como referência e crio um esboço baseado em conversa prévia
com o cliente, depois de aprovado o esboço rio um desenho final.

Nome: Samanta Flôor

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Comecei como ilustradora e


cartunista, no começo do ano passado fiz um curso no verani, tatuei vários amigos
em casa até achar um estúdio que me acolheu. trabalho com hora marcada.

Tatua a quanto tempo? 1 ano e meio


66

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes? Eu tenho


uma série de desenhos disponíveis, mas se ele quiser algo que não está lá, me
manda a ideia, umas referências, tamanho e local a ser tatuado. eu passo um
orçamento e assim que o sinal é pago eu começo o rascunho.
Nome: Matheus Daldon

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Iniciei na tatuagem quando me


mudei para Pelotas/RS e comecei a trabalhar em um stúdio, como atendente
durante o horário comercial e depois do horário estava começando a tatuar, agora
fazem poucos meses que mudei de stúdio.

Tatua a quanto tempo? 4 anos

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)
Tatuagens comerciais (desenhos de autoria de outros tatuadores/ilustradores)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes? Assim


que o cliente vem conversar comigo e mostra uma outra tatuagem ou desenho "de
internet", eu mostro alguns artistas tatuadores que gosto, para a pessoa ter uma
idéia melhor do que da pra fazer com a arte, e mostrar o outro lado além das
"tatuagens comerciais". Sempre faço o cliente pensar bem na decisão, mostro que
vale a pena pensar melhor e fazer algo mais exclusivo e com maior significância,
depois disso, cobro 40 reais para a criação da arte, modificando se necessário, até o
agendamento e procedimento da tatuagem.

Nome: Robson Santos

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Comecei a tatuagem em


67

cachoeira do Sul, tendo minha formação em artes visuais pela UFSM, Com alguns
workshops, prêmios e júris na bagagem profissional.

Tatua a quanto tempo? 15 anos

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de
motivações pessoais)
Tatuagens de co-autoria (criação de desenhos exclusivos a partir da ideia inicial do
cliente)
Tatuagens comerciais (desenhos de autoria de outros tatuadores/ilustradores)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes? Tenha


vários processos de criação, que vão desde a Livre associação (psicologia) até a
interpretação de tatuagens comerciais.

Nome: Sheron Duarte Bermudez

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Formado em Artes Visuais pela
UFPel, trabalhei 8 anos como professor no SENAC Pelotas, fotógrafo e tatuador.

Tatua a quanto tempo? 18 anos

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de
motivações pessoais)
Tatuagens de co-autoria (criação de desenhos exclusivos a partir da ideia inicial do
cliente)
Tatuagens comerciais (desenhos de autoria de outros tatuadores/ilustradores)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes? Os


clientes trazem idéias/referências do que gostam e é trabalhado em cima disso até
chegar no gosto deles,tudo é feito no computador através de programas, pra ter uma
qualidade melhor no desenho final, até as tatuagens comerciais são redesenhadas
68

quando necessário, muitas vezes o cliente chega com uma foto totalmente torta
sendo impossível ter um bom resultado a partir disso.

Nome: Daniela Suave

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Formada em Artes pela


Faculdade de Belas Artes de São Paulo e tatuadora profissional.

Tatua a quanto tempo? 9 anos

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)
Tatuagens de co-autoria (criação de desenhos exclusivos a partir da ideia inicial do
cliente)
Tatuagens comerciais (desenhos de autoria de outros tatuadores/ilustradores)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes?


Usamos ref. verbais e através de desenhos e outro tipo de arte para explicitar o
desejo do cliente.

Nome: James Schwantz Duarte

Fale brevemente sobre a sua trajetória profissional: Ainda durante o período de


formação técnica em Comunicação Visual, trabalhei com edição de imagens num
estúdio de fotografia, já em 2012 inicio meus primeiros trabalhos como ilustrador de
forma autônoma aqui em Pelotas, desenvolvendo também trabalhos de identidade
visual. Em 2015 morei em Fortaleza - CE, onde passei por duas agências de
publicidade e também inicio meu contato com a tatuagem que logo mais em 2017, já
de volta a Pelotas, direciono meu foco exclusivamente para a tatuagem de forma
profissional.

Tatua a quanto tempo? 2 anos


69

Você trabalha com: Tatuagens autorais (criação de desenhos exclusivos a partir de


motivações pessoais)
Tatuagens de co-autoria (criação de desenhos exclusivos a partir da ideia inicial do
cliente)

Como funciona o processo de criação de tatuagens para os seus clientes? Começo


o processo num primeiro contato virtual onde busco colher (através de um
formulário) algumas informações básicas como local do corpo a ser tatuado,
tamanho do desenho e uma breve noção da temática. Dessa forma posso passar
uma média de orçamento e logo marco uma reunião presencial para conhecer o
cliente (pois sentir a energia do outro é fundamental nesse ritual), nos casos onde
não há nada definido, havendo apenas a vontade de tatuar, a conversa é
fundamental para entender a pessoa e buscar elementos visuais/conceituais no
formato de um brainstorm. Logo desenvolvo e apresento um esboço como proposta
e se aprovado o finalizo no papel e logo tatuo. E penso que há muitas relações entre
design e tatuagem, seja pela questão projetual, pela forma e função
(estética/psicológica), seja pelo aspecto do consumo, e por ai vai… Espero ter
contribuido e fico a disposição para trocar uma ideia...
Att, James.

Apêndice B – Manifesto Incompleto para o Crescimento de Bruce Mau

1.Permita que os acontecimentos mudem você.


Você tem que estar disposto a crescer. Crescimento é diferente de algo que
acontece a você. Você produz isso. Você o vive. Pré-requisitos para o crescimento: a
abertura para experimentar acontecimentos e a vontade de ser mudado por eles.

2.Esqueça o bom
Bom é uma qualidade conhecida. Bom é o que todos nós concordamos.
Crescimento não é necessariamente bom. Crescimento é uma exploração de
recantos obscuros que podem ou não agregar a nossa pesquisa. Enquanto você se
prender ao bom, você nunca vai ter real crescimento.

3. Processo é mais importante do que resultado


70

Quando o resultado direciona o processo nós apenas iremos onde já estivemos. Se


o processo direciona o resultado nós podemos não saber onde estamos indo, mas
nós sabemos que vamos querer estar lá.

4. Ame seus experimentos (como você amaria uma criança feia)


Alegria é o motor do crescimento. Explore a liberdade de moldar seu trabalho como
belos experimentos, iterações, tentativas, provas e erros. Pense a longo prazo e
permita-se ao prazer de falhar todos os dias.

5. Vá fundo.
Quanto mais fundo você vai, mais chances você tem para descobrir algo valioso.

6. Capture acidentes
A resposta errada é a resposta certa na busca por uma questão diferente. Colecione
respostas erradas como parte do processo. Faça perguntas diferentes.

7. Estude.
Um estúdio é um lugar para estudos. Use a necessidade de produzir como uma
desculpa para estudar. Todo mundo vai se beneficiar com isso

8. Fique à deriva.
Permita-se divagar sem rumo. Explore adjacências. Abandone o juízo. Adie o
criticismo.

9. Comece em qualquer lugar.


John Cage nos ensina que não saber onde começar é uma forma comum de
paralisia. O conselho dele: comece em qualquer lugar.

10. Todo mundo é um líder


O crescimento acontece. E quando isso acontecer, o deixe emergir. Aprenda a
seguir quando isso faz sentido. Deixe qualquer um liderar.

11. Cultive ideias


71

Edite aplicações. Ideias precisam de um generoso ambiente dinâmico, fluido para


sustentar vida. Aplicações, por outro lado, se beneficiam de rigor crítico. Produza
uma alta proporção de ideias para aplicações.

12. Continue se movimentando.


O mercado e suas operações têm uma tendência a reforçar sucesso. Resista a isso.
Permita que a falha e a migração sejam parte da sua prática.

13. Diminua a velocidade


Dessincronize-se dos cronogramas normais e oportunidades surpreendentes podem
se apresentar.

14. Não seja cool.


Cool é o medo conservativo vestido em preto. Se liberte de limites desse tipo.

15. Faça perguntas estúpidas.


Crescimento é abastecido por desejo e inocência. Avalie as respostas, não as
questões. Imagine aprender na sua vida no ritmo de uma criança.

16. Colabore.
O espaço entre pessoas trabalhos juntas é cheio de conflito, fricção, briga, alegria,
prazer e muito potencial criativo.

17. ____________________.
Deixado em branco de propósito. Reserve espaço para as ideias que você não teve
ainda, e para as ideias dos outros.

18. Fique acordado até tarde.


Coisas estranhas acontecem quando você foi longe demais, ficou acordado muito
tempo, trabalhou arduamente, e você está separado do resto do mundo.

19. Trabalhe a metáfora.


Cada objeto tem a possibilidade de servir para algo além do que aparenta. Trabalhe
no que ele representa.
72

20. Seja cuidadoso ao assumir riscos.


Tempo é genética. Hoje é a criança do ontem e o pai do amanhã. O trabalho que
você produz hoje vai criar o seu futuro.

21. Repita-se
Se você gosta disso, faça de novo. Se você não gosta, faça de novo.

22. Faça suas próprias ferramentas.


Crie ferramentas híbridas como uma maneira de construir coisas únicas. Até coisas
simples que você já possui podem render novos caminhos inteiros para exploração.
Lembre-se, ferramentas ampliam suas capacidades, então mesmo uma ferramenta
pequena pode criar uma grande diferença.

23. Suba nos ombros dos outros.


Você pode viajar mais longe carregado pelas conquistas dos que vieram antes de
você. E a vista é muito melhor. .

24. Evite software.


O problem dos softwares é que todo mundo os têm.

25. Não limpe sua mesa.


Você pode achar algo de manhã que você não podia ver durante a noite.

26. Não entre em competições.


Apenas não faça isso. Não é bom pra você.

27. Apenas leia as páginas do lado esquerdo.


Marshall McLuhan fazia isso. Ao diminuir a quantidade de informação, nós deixamos
espaços para o que ele chamava de nosso “noodle” (nossa massa, nosso molho).

28. Crie novas palavras


Aumente o léxico. As novas condições demandam novas formas de pensamento. O
73

pensamento demanda novas formas de expressão. A expressão gera novas


condições.

29. Pense com sua mente.


Esqueça tecnologia. Criatividade não depende de aparelhos.

30. Organização = Liberdade


Inovação real em design, ou em qualquer outra área, acontece com contexto. Esse
contexto é normalmente alguma forma de iniciativa gerenciada cooperativamente.
Frank Gehry, por exemplo, só é capaz de criar Bilbao porque seu estúdio é capaz de
entregar isso dentro do orçamento. O mito divisório entre “criativos” e “executivos” é
o que Leonard Cohen chama de um “charmoso artefato do passado”.

31. Não pegue dinheiro emprestado


Novamente, conselho de Frank Gehry. Ao manter o controle financeiro, nós
mantemos controle criativo. Não é nenhuma ciência espacial, mas é surpreendente
o quão difícil é manter essa disciplina, e quantos já falharam.

32. Escute cuidadosamente


Casa colaborador que entra em nossa órbita traz com ele ou ela um mundo mais
estranho e complexo do que qualquer um poderia jamais imaginar. Ao escutar os
detalhes e a sutileza de suas necessidades, desejos, ou ambições, nós juntamos o
mundo dele ao nosso. Nenhuma das partes jamais será o mesma.

33. Faça viagens de passeio


O mundo é maior do que seu aparelho de TV, ou a Internet, ou mesmo um ambiente
totalmente imersivo, interativo, renderizado dinamicamente, orientado por objetos,
em tempo real, simulado por um computador.

34. Erre mais rápido.


Essa ideia não é minha — eu peguei ela emprestado. Eu acho que pertence a Andy
Grove.

35. Imite.
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Não seja tímido sobre isso. Tente chegar tão perto quanto você conseguir. Você
nunca vai ir até o final, e a separação pode ser realmente memorável. Nós apenas
temos que olhar para Richar Hamilton e sua versão do vaso grande de Marchel
Duchamp para ver como quão rica, desacreditada, e sub-utilizada a imitação é como
técnica.

36. Scat.
Quando você esquecer as palavras, faça o que Ella fazia: invente algo diferente…
mas não palavras.

37. Quebre, estique, torça, esmague, dobre.


38. Explore o outro canto.
Grande liberdade existe quando evitamos tentar correr com o pacote tecnológico.
Nós não conseguimos encontrar a outra ponta porque está embaixo de nossos pés.
Tente utilizar equipamentos antigos com tecnologias feitas obsoletas em virtude do
ciclo econômico mas que ainda são ricas em potencial.

39. Coffe breaks, passeios de táxi, salas verdes.


Grande crescimento normalmente acontece fora do mundo que desejamos que isso
aconteça, nos nos espaços intersticiais — o que Dr. Seuss chama de “o lugar de
espera.” Hans Ulrich Obrist uma vez organizou uma conferência de arte e ciência
com toda a infra-estrutura de uma conferência — as festas, conversas, chegadas de
aeroporto — mas sem uma conferência real. Aparentemente foi um grande sucesso e
fez surgirem muitas colaborações duradouras.

40. Evite campos.


Pule cercas. Fronteiras disciplinares e regimes regulatórios são tentativas de
controlar a selvageria da vida criativa. Elas são esforços compreensíveis para
ordenar o que é um múltiplo, complexo, processo evolucionário. Nosso trabalho é
pular cercas e cruzar campos.

41. Ria
Pessoas visitando o estúdio normalmente comentam sobre quanto nós rimos. Desde
75

que eu fiquei ciente disso, eu uso isso como um barômetro para demonstrar quão
confortável nós estamos para nos expressar.

42. Lembre.
Crescimento só é possível como produto da história. Sem memória, inovação é mera
novidade. História fornece uma direção ao crescimento. Mas uma memória nunca é
perfeita. cada memória é desgastada ou uma imagem composta de um momento ou
evento anterior. Isso é o que nos faz cientes de suas qualidades passadas e não
como algo presente. Isso significa que cada memória é nova, uma construção
parcial diferente de sua fonte, e, como tal, um potencial para crescimento em si
mesmo.

43. Poder para as pessoas.


O jogo só pode acontecer quando as pessoas sentem que elas tem controle sobre
suas vidas. Nós não podemos ser agentes da liberdade se não somos livres.