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Tradução e Revisão Inicial: Faby, Rezinha, Ma.

K, Drika,
Naty, Thay, Juzita, Ane

Revisão Final: Faby

Leitura Final: Eva


ELE ME ACOLHEU EM SUA CASA QUANDO EU NÃO TINHA OUTRO LUGAR PARA IR.

Ele não me usa, não me magoa ou se esquece de mim. Ele não me trata
como se eu fosse nada, não me subestima ou faz com que me sinta insegura.

Ele se lembra de mim, ri comigo e olha por mim. Ele me escuta, me


protege e me enxerga. Posso sentir seus olhos sobre mim na mesa do café da
manhã e meu coração bate com força quando ouço que ele está entrando na
garagem depois do trabalho.

EU TENHO QUE PARAR. ISSO NÃO PODE ACONTECER.


Uma vez minha irmã me disse que não existem homens bons, e que se você
encontrar um por aí, ele provavelmente não estará disponível.

Só que Pike Lawson não é a pessoa indisponível.

EU SOU.

EU A ACOLHI PORQUE PENSEI QUE ESTARIA AJUDANDO.


Ela cozinhava algumas refeições e limpava um pouco. Foi um arranjo simples.

No entanto, à medida que os dias passam, isso está se tornando tudo, menos
simples. Preciso impedir que minha mente flutue para ela e parar de prender a respiração
toda vez que a encontro pela casa. Não posso tocá-la e não deveria desejar uma coisa
destas.

Quanto mais meu caminho cruza com o dela, mais ela está se tornando uma parte
de mim.

Mas não somos livres para ceder a isso. Ela tem dezenove anos e eu tenho trinta e
oito.

E sou o pai do namorado dela.

INFELIZMENTE, OS DOIS ACABARAM DE SE MUDAR PARA MINHA CASA.

*BIRTHDAY GIRL é um romance contemporâneo e


único, apropriado para maiores de 18 anos.
PLAYLIST

Addicted to Love — Robert Palmer

All She Wants to Do Is Dance — Don Henley

Bad Medicine — Bon Jovi

Glory Days — Bruce Springsteen

Guys My Age — Hey, Violet

Hurts So Good — John Mellencamp

I Love Rock ‘n Roll — Joan Jett & The Blackhearts

I’m on Fire — Bruce Springsteen

Jessie’s Girl — Rick Springfield

Pity Party — Melanie Martinez

Poison — Alice Cooper

Pour Some Sugar on Me — Def Leppard

Run to You — Bryan Adams

The Girl Gets Around — Sammy Hagar

The Distance — Cake


“Quando você cresce, seu coração morre.”

- Allison Reynolds, The Breakfast Club


Capítulo 1

Jordan

Ele não responde. Em quinze minutos, esta é a segunda vez


que ligo e também já enviei mensagens de texto, sem receber
qualquer retorno. Será que ele vai se lembrar de estar aqui às
duas?

Encerro a ligação, olho para o relógio acima do bar e vejo


que é quase meia-noite agora. Ainda faltam duas horas para meu
namorado pensar que estou livre no trabalho e que já pode vir me
buscar.

E eu que pensei que nós teríamos uma surpresa feliz esta


noite, já que estou saindo mais cedo.

Merda.

Preciso pegar meu carro logo. Não posso continuar


contando com as caronas dele.

A música preenche o ar a minha volta, clientes riem à


minha direita e um dos outros bartenders enche o cooler com gelo
à minha esquerda.

Desconforto arrepia a parte de trás do meu pescoço. Se ele


não responder, está dormindo ou saiu. O que pode significar que
ele só se lembrará de mim depois que já for tarde demais. Ele
nem sempre é confiável, mas essa não seria a primeira vez, de
qualquer forma.

Esse é o problema de transformar um amigo em namorado,


eu acho. Ele ainda pensa que pode escapar dando qualquer
desculpa.

Pego minha camisa e bolsa de escola do armário debaixo


das torneiras e coloco meu telefone no bolso. Visto a camisa de
flanela sobre minha regata, abotoo-a e ajeito sua frente no cós do
meu jeans, cobrindo-me. Eu me vesti de forma um pouco mais
sexy para conseguir mais gorjetas, mas não sairei daqui assim.

“Onde você vai?” Shel pergunta, olhando para mim


enquanto bebe uma cerveja.

Olho para minha chefe, seu cabelo preto com mechas loiras
está preso no alto de sua cabeça e ela tem um cordão de
minúsculos corações tatuados em volta do seu braço.

“Há uma sessão da meia-noite de A morte do demônio no


Grand Theatre”, digo a ela enquanto fecho o armário e deslizo a
alça da minha bolsa de couro por cima da cabeça. “Vou matar
tempo e esperar por Cole lá.”

Ela termina sua cerveja e olha para mim como se houvesse


um milhão de coisas que quer dizer, mas não sabe nem por onde
começar.

Sim, sim, eu sei.

Gostaria que ela parasse de me olhar assim. Há uma boa


possibilidade de Cole não estar aqui às duas da manhã,
considerando que não está atendendo ao seu telefone agora. Eu
sei disso. Ele pode estar bêbado na casa de algum amigo.

Ou pode estar em casa, dormindo e com o seu alarme


programado para vir me buscar daqui duas horas e seu telefone
ficou em outra sala. Não é provável, mas é possível. Cole tem
duas horas. Vou dar a ele estas duas horas.

Além disso, minha irmã também está no trabalho e


ninguém que está aqui pode sair para me levar para casa. O
trabalho está devagar esta noite e eu fui liberada mais cedo
porque sou a única que não tem um filho para sustentar.

Apesar de estar precisando desesperadamente do dinheiro,


de qualquer forma.

Seguro a alça da bolsa sobre meu peito, sentindo-me como


se tivesse mais de dezoito anos.

Bem, dezenove agora, quase me esqueci de que dia é hoje.

Respiro fundo, empurrando a preocupação para longe esta


noite. Um monte de gente da minha idade luta por dinheiro, não
pode pagar suas contas e precisa pegar caronas. Sei que é demais
esperar que eu já tivesse tudo resolvido a esta altura da vida, mas
ainda é embaraçoso. Eu odeio parecer desamparada.

E não posso culpar Cole, também. Foi decisão minha usar


o que restava do meu dinheiro do empréstimo estudantil para
ajudá-lo a consertar seu carro. Ele também já esteve lá por mim.
Houve um tempo em que éramos tudo um para o outro.

Virando-se, Shel deposita a cerveja no balcão em frente ao


Grady — um dos clientes regulares —, pega seu dinheiro e lança
outro olhar em minha direção quando dá entrada na venda na
caixa registradora.

“Você não tem um carro que esteja funcionando”, afirma


ela. “E está escuro lá fora. Você não pode ir andando até o teatro.
Traficantes sexuais sempre estão procurando adolescentes sexys
com cabelo loiro e outras merdas.”
Eu bufo. “Você precisa parar de assistir aos filmes do
Lifetime1.”

Podemos estar próximos a algumas cidades maiores e


Chicago fica a apenas a algumas horas de distância, mas ainda
assim, estamos no meio do nada.

Levanto a divisória e saio de trás do balcão. “O teatro fica


logo ali, dobrando o quarteirão”, digo a ela. “Chegarei lá em dez
segundos, se eu correr como se tivesse em uma prova de
velocidade.”

Dou um tapinha nas costas de Grady quando saio, o cabelo


grisalho do seu rabo de cavalo balança quando ele se vira para
piscar para mim. “Tchau, garota”, diz ele.

“Noite.”

“Jordan, espere” Shel grita acima do som do jukebox, e eu


viro a cabeça para olhar para ela.

Vejo quando ela puxa uma caixa de dentro do refrigerador


juntamente com uma embalagem de vinho em caixa e a empurra
por todo o balcão do bar, para mim.

“Feliz aniversário” diz ela, sorrindo para mim como se


soubesse que eu estava achando que ela havia esquecido.

Começo a sorrir e abro a pequena caixa da Krispy Kreme,


encontrando meia dúzia de donuts lá dentro.

“Isso foi tudo o que consegui às pressas” Shel explica.

Ei, é bolo. Mais ou menos. Eu não vou reclamar.

Fecho a caixa e levanto a aba da bolsa de couro,


escondendo meu tesouro, o vinho e tudo o mais lá dentro. Eu não
esperava que alguém me desse algo, é claro, mas ainda assim, é

1
Lifetime – Canal de TV a cabo, conhecido por sua programação voltada para as mulheres.
bom ser lembrada. Cam, minha irmã, sem dúvida me
surpreenderá com uma blusa bonita ou um par de brincos sexys
amanhã de manhã quando a vir, e meu pai provavelmente ligará
para mim ainda esta semana.

Shel sabe como me fazer rir, no entanto. Tenho idade


suficiente para trabalhar em um bar, mas não tenho idade para
beber. Esgueirar-me com um vinho para que eu possa desfrutar
fora do bar será a minha pequena aventura hoje à noite.

“Obrigada” eu digo e subo no balcão, dando um beijo em


sua bochecha.

“Cuide-se.” Shel diz.

Aceno em concordância com a cabeça uma vez, giro ao


redor indo em direção à porta de madeira e saio para a calçada.

A porta se fecha atrás de mim, a música lá dentro agora é


uma batida fraca e o meu peito desinfla, soltando a respiração
que nem sabia que estava prendendo.

Eu a amo, mas gostaria que ela não se preocupasse


comigo. Ela olha para mim como se fosse minha mãe e quisesse
consertar tudo.

Acho que deveria ter tido a sorte de ter uma mãe como ela.

O agradável ar fresco se derrama sobre mim, o frio noturno


causa arrepios em meus braços e o aroma perfumado das flores
de maio penetra em minhas narinas. Inclino a cabeça para trás,
fecho os olhos e respiro profundamente enquanto minha longa
franja faz cócegas na bochecha devido à brisa leve.

As noites quentes de verão estão chegando.

Abro os olhos, olho para a esquerda e depois para a direita


e vejo que as calçadas estão vazias, mas os carros ainda estão
alinhados em ambos os lados da rua. O estacionamento também
está cheio. A noite de bingo geralmente se transforma em uma
cena de bar mais tarde, e parece que os veteranos ainda
continuam firmes e fortes.

Virando à esquerda, solto o elástico do meu cabelo, deixo


os cachos caírem e deslizo o elástico no meu pulso enquanto
começo a andar.

A noite está agradável, mesmo que ainda esteja um


pouquinho frio. Há bebidas demais em cada espaço lá dentro,
infiltrando-se em meu nariz toda a noite.

Muito barulho e muitos olhos, também.

Pego o ritmo, animada para desaparecer no teatro escuro


por algum tempo. Normalmente não vou sozinha, mas quando
estão exibindo filmes dos anos 80 como A morte do demônio, eu
tenho que ir. Cole adora efeitos especiais e não gosta de filmes
rodados antes de 1995.

Eu sorrio, pensando sobre suas peculiaridades. Ele não


sabe o que está perdendo. Os anos 80 foram fantásticos. Foi uma
década inteira de apenas boa diversão. Nem tudo precisava de um
significado ou tinha que ser profundo.

É uma fuga bem-vinda, especialmente esta noite.

Virando a esquina eu caminho até a bilheteria e vejo que


estou alguns minutos adiantada, o que é ótimo. Odeio perder os
trailers no início.

“Uma, por favor” digo ao caixa.

Pego do meu bolso o maço de gorjetas que fiz esta noite e


entrego sete dólares para a entrada. Não que eu tenha dinheiro
para gastar, com o aluguel vencendo e uma pequena pilha de
contas que ainda não podemos pagar sobre nossa mesa lá no
apartamento que Cole e eu dividimos, mas não é como se sete
dólares fossem me levar à falência.
E é meu aniversário, então...

Enquanto entro, desvio da bilheteria e caminho direto para


o próximo conjunto de portas duplas. Há apenas uma sala e
surpreendentemente este lugar tem conseguido sobreviver por
sessenta anos, mesmo concorrendo com cinemas construídos nas
cidades vizinhas e que possuem doze grandes salas. O Grand teve
de ser criativo com exibições de filmes clássicos à meia-noite,
como hoje, mas também com festas à fantasia e festas privadas.
Eu não venho muito aqui por causa da universidade e do meu
horário de trabalho, mas é um bom lugar escuro quando você
quer se perder por um tempo. Privado e tranquilo.

Passo pelas portas e verifico meu telefone mais uma vez


apenas para ver que Cole ainda não ligou ou mandou uma
mensagem. Desligo o som e o deslizo novamente no bolso.

Alguns anúncios aparecem na tela, mas as luzes do


ambiente ainda estão ligadas e eu rapidamente faço uma
varredura da sala, vejo alguns solitários se espalharem. Há
também um casal sentado na fileira de trás à minha direita e um
pequeno grupo de rapazes, provavelmente adolescentes pelo som
de suas risadas consideravelmente altas. De cerca de trezentos
lugares, duzentos e oitenta e cinco ainda estão disponíveis e eu
praticamente já tenho a minha escolha.

Desço cinco ou seis fileiras, encontro um lugar vazio e me


sento bem no assento do corredor. Pego minha bolsa e
calmamente retiro a caixa roxa de vinho, lendo o rótulo sob a luz
fraca.

Merlot. Torcia para que fosse vinho branco, mas tenho


certeza que Shel precisa dar um fim nestes aqui. Nós só os
servimos quando há um evento ao ar livre e não queremos vidro
lá fora.
Desenrosco a tampa e aspiro o cheiro forte, mas não sinto
qualquer um dos aromas extravagantes que os sommeliers
parecem encontrar no vinho. Nenhum indício de carvalho com
um ‘aroma arrojado de cerejas doces’ ou qualquer coisa assim.
Deslizo uma bandeja na minha frente, e aproveito a fila de
assentos vazios em frente e dobro meus joelhos, encaixando meus
Allstar entre os assentos e sobre o descanso de braço.

Coloco a caixa sobre a bandeja e puxo meu telefone para


fora do bolso de trás, apenas no caso de Cole ligar, e o coloco na
bandeja ao lado do vinho.

Mas em vez disso, ele derrama sobre a bandeja. E cai entre


minhas pernas e no chão, então levanto os meus joelhos para o
alto, tentando segurar tudo, mas eles se chocam contra a bandeja
e jogam a caixa de vinho no chão.

Minha boca se abre e eu suspiro. “Merda!”, deixo escapar


em um sussurro.

Que diabos?

Plantando meus pés no chão novamente, empurro a


bandeja para o lado e me abaixo, procurando meu telefone. Meus
dedos mergulham no vinho derramado e eu recuo pela bagunça.
Olhando para cima ao longo dos assentos, vejo o grupo de três
rapazes algumas fileiras a baixo, diretamente à minha frente e
diretamente no caminho do vinho derramado que está
escorrendo.

Eu gemo. Ótimo.

Uma leve camada de suor esfria minha testa, e eu fico de


pé puxando o cachecol da bolsa para secar meus dedos. Odeio
sujá-lo, mas não tenho nenhum guardanapo aqui.

Que bagunça.

Tudo isso apenas para escapar por duas horas.


Olho em volta procurando um funcionário com uma
lanterna, mas tenho quase certeza que este teatro não tem esse
tipo de empregado, especialmente a esta hora da noite e a única
lanterna que eu tenho fica no meu telefone, e o chão está escuro.

Não vendo ninguém, pego meu cachecol e bolsa e vou até a


próxima fileira, me abaixo e olho sob os assentos para ver se
consigo localizar meu celular. Quando não encontro nada, eu me
movo para a fileira seguinte e, depois para a próxima, pois tenho
certeza que o ouvi deslizando. Uma vez que as fileiras de assentos
são inclinadas, o celular poder ter ido para bem longe. Droga.

Seguindo para a próxima fileira, coloco minhas coisas no


chão e fico de joelhos, olhando sob os bancos à minha esquerda e
direita, tocando o chão com as mãos. Um par de pernas longas,
vestidas de jeans está sentado à frente e eu olho para cima, vendo
um homem acomodado com os dedos cheios de pipoca. Ele olha
para mim com as sobrancelhas levantadas.

“Sinto muito”, sussurro, colocando meu cabelo atrás da


orelha. “Deixei minha bebida cair e meu telefone escorregou aqui
em algum lugar. Você se importa…?”

Ele hesita um momento e, em seguida, pisca, sentando-se.


“Sim, tudo bem.” Ele move a bandeja de lado e se levanta,
buscando algo em seu bolso. “Aqui.”

O homem liga a lanterna do seu telefone e se agacha,


iluminando sob os assentos.

Imediatamente, encontro meu telefone debaixo do assento


ao lado dele e o recupero. Obrigada Senhor. Nós dois ficamos em
pé e meus ombros relaxam. Eu não poderia pagar por um celular
novo agora. Passo os dedos sobre a tela, querendo me certificar
que não há nenhuma rachadura.

“Achou?”, ele pergunta.


“Sim, obrigada.”

Ele desliga a lanterna e se aproxima, passa os dedos sobre


a parte inferior do meu celular e os leva ao nariz, sentindo o
cheiro.

“Isso é...”, ele estremece, “...vinho?”

Olho para o chão, e vejo que ele está de pé sobre a bebida


que derramei três fileiras acima.

“Oh, caramba.” Olho para ele. “Sinto muito. Está em todos


os lugares?”

“Não, não, está tudo bem.” Ele deixa escapar uma risada,
seus lábios se curvam mais de um dos lados enquanto ele se
afasta da bagunça. “Eu não sabia que vendiam álcool aqui.”

Pego meu cachecol e limpo o celular. “Oh, não”, digo-lhe em


voz baixa para não incomodar os demais no teatro. “Eu acabei de
sair do trabalho. Minha chefe me deu o vinho para uma... hum”
balanço a cabeça, procurando a palavra. “Para, uh... comemorar.”

“Comemorar?”

“Shhh”, alguém sussurra.

Nós olhamos para o cara uma fileira atrás que está


lançando-nos um olhar de soslaio. Nem os trailers e nem filme
começaram ainda, e nós não estamos em sua linha de visão, mas
acho que o estamos perturbando. Eu me afasto, voltando para
minha bolsa.

O homem que estava me ajudando pega sua bebida e


pipoca e me segue, o cheiro suave de seu perfume me alcança.
“Eu vou sair dessa confusão” diz ele.

Ele se senta algumas cadeiras abaixo, olha para mim e eu


volto para onde estava sentada quando meu telefone e vinho
caíram. “Você é bem-vinda a se sentar aqui.” Ele aponta para o
assento ao lado dele, provavelmente imaginando que estou
sozinha esta noite, também.

“Obrigada”, eu digo a ele. “Eu só vou...”

Não termino. Afasto-me e pego minha bolsa, virando a


cabeça para o meu próprio assento quando vejo um cara e uma
menina entrarem no teatro. Eu congelo, observando-os virarem à
esquerda para a fileira dos fundos do outro lado da sala e
sentarem-se nos assentos.

Merda.

Jay McCabe. O único outro namorado que tive, além de


Cole, e ele faz Cole parecer um príncipe. Infelizmente, ele ainda
ama me chatear sempre que tem chance e não há nenhuma
maneira no inferno de eu lidar com ele esta noite.

“Você está bem?”, o cara da lanterna no celular pergunta


quando eu não me mexo. “Juro que não estou dando em cima de
você. Você é muito velha para mim.”

Eu o encaro, esquecendo-me de Jay e da menina por um


momento. Muito velha para ele? O quê? Observo os seus mais de
um metro e oitenta de altura, o contorno dos músculos visíveis
através da sua camisa e seu antebraço coberto de tatuagens que
desaparecem debaixo de sua camisa. Já vi muita gente no bar e
ele não se parece com nenhum garoto de 19 anos que eu já vi. Ele
deve ter pelo menos o quê? Uns trinta?

Ele bufa. “Estou brincando”, diz ele, com a boca se abrindo


em um largo sorriso que me deixa meio chocada. “Se você não
quiser assistir sozinha ao filme, você é bem-vinda a se sentar.
Isso é tudo que eu quis dizer.”

Olho novamente para Jay e para quem quer que esteja com
ele, mas, em seguida, um grupo de rapazes passa de repente
pelas portas duplas, fazendo muito barulho enquanto entram no
teatro. Eu vejo Jay desviar o olhar da menina e em direção ao
tumulto e por instinto eu me sento ao lado do cara, não querendo
que ele me veja.

“Obrigada”, digo ao cara perto de mim.

Sinto a presença do meu ex no teatro e velhas memórias


vêm à tona, lembrando-me de quão impotente deixei que ele
fizesse eu me sentir no passado. Só queria uma noite na qual não
tivesse que pensar sobre tudo.

Sento-me e tento relaxar, mas então espio com o canto do


olho. Estar sentada perto de um cara que não conheço, de
repente, é como uma fogueira ardente e impossível de ignorar.

Viro a cabeça, olhando-o com apreensão. “Você não é um


assassino em série, certo?”

Ele franze as sobrancelhas e olha para mim. “Você é?”

“Geralmente eles são homens caucasianos e antissociais.”

Um homem bonito aqui e sozinho? Hmmm...

Ele arqueia a sobrancelha. “E parecem como qualquer


outra pessoa” acrescenta, com suspeita em sua voz enquanto me
olha de cima a baixo.

A luz dos anúncios na tela brilha em seus olhos, nenhum


de nós vacila, mas não aguento mais. Solto uma risada
silenciosa.

Finalmente estendo minha mão para ele. “Sou Jordan.


Desculpe-me sobre o vinho.”

“Jordan?”, ele repete, pegando a minha mão e sacudindo-a.


“Nome incomum para uma menina.”

“Não, não realmente.” Eu relaxo no assento e dobro os


braços sobre o peito, levantando os joelhos e colocando meus
sapatos na fenda entre os dois assentos vazios à minha frente.
“Era o nome da parceira romântica de Tom Cruise no filme
Cocktail, lembra?”

Suas sobrancelhas levantam em questionamento.

“Cocktail?, repito. “Filme de 1988 sobre um bartender


talentoso?”

“Oh, certo.” Mas ele está com um olhar inseguro nos olhos
e eu não tenho certeza que ele sabe sobre o que diabos estou
falando.

“Você gosta de filmes dos anos 80?”, pergunto, apontando


para o filme que estamos prestes a assistir.

“Eu gosto de filmes de terror”, ele esclarece e oferece sua


pipoca. “Este é um clássico. E você?”

“Eu amo os anos 80.” Aceito a pipoca e coloco um pouco


em minha boca. “Meu namorado odeia meu gosto para filmes e
música, mas eu não consigo resistir. Estou aqui sempre que
exibem algo daquela década.”

Sinto-me estranha por conversar aleatoriamente sobre meu


namorado, mas não quero passar a impressão errada aqui.
Rapidamente olho para sua mão esquerda e felizmente não vejo
um anel de casamento. Seria errado estar aqui sentada com um
cara casado.

Mas ele apenas olha para mim com conhecimento de


causa. “O Clube dos Cinco é o seu favorito, certo?”, ele diz. “E
todas as outras criações de John Hughes2?”

“Você tem algo contra O Clube dos Cinco?”

“Não tinha nas primeiras dez vezes que o assisti, não.”

2
John Hughes Jr. foi um aclamado diretor, produtor e roteirista do cinema americano, famoso por ter
escrito e dirigido filmes que se tornaram clássicos da década de 80 e início dos anos de 90.
Um sorriso curva meus lábios. Está reprisando muito na
TV, eu acho.

Ele se inclina. “Os anos 80 foram a era dos heróis de ação”,


ele aponta, sua voz profunda se aproxima, sussurrando. “As
pessoas se esquecem disso. Máquina Mortífera, Duro de Matar, O
Exterminador do Futuro, Rambo...”

“Jean-Claude Van Damme”, acrescento.

“Exatamente.”

Mordo o canto da minha boca, então não sorrio, mas meu


estômago estremece de qualquer maneira e deixo escapar um
suspiro.

Ele franze a testa. “Do que você está rindo?”

“Nada”, respondo rapidamente, balançando a cabeça. “Van


Damme. Ótimo ator. Filmes muito relevantes.”

Não posso tirar o riso do rosto, embora, e ele franze a testa


sabendo que estou sendo sarcástica.

Só então ouço uma risadinha em algum lugar atrás de


mim, então viro minha cabeça sobre o ombro, e vejo Jay deixar de
olhar a tela e inclinar-se para a menina. Os dois estão se
agarrando agora.

“Você os conhece?”, o homem ao meu lado pergunta.

Balanço minha cabeça. Ele não precisa saber das minhas


coisas.

Caímos em silêncio e eu termino as pipocas na minha mão,


deixando minha cabeça cair para trás enquanto olho para o teto
alto e os antigos arcos dourados no alto. Ele continua sentado ao
meu lado, e eu inspiro e expiro lentamente, apesar do martelar no
meu peito.
Por que estou nervosa? É por causa de Jay?

Não, eu não estou nem pensando sobre ele agora.

Pessoas conversam em torno de nós, esperando o filme


começar, mas não posso ouvir o que estão dizendo e realmente
não me importo. Minha pele está quente.

“Então, o que você está estudando na Doral State?”, ele


pergunta.

Eu lanço-lhe um olhar surpreso. Como sabe onde eu


estudo?

Assassino em série.

Mas então ele aponta para minha bolsa que está no chão, e
vejo o chaveiro pendurado com o emblema da universidade
estampado.

Oh, dã.

Sento-me ereta. “Paisagismo”, digo a ele. “Quero fazer


espaços exteriores bonitos.”

“Isso é bom. Eu trabalho na construção.”

Eu lhe dou um meio sorriso. “Então, você faz espaços


internos bonitos também.”

“Não, não realmente.”

Sorrio do seu tom desesperado como se ele estivesse muito


entediado com o que faz.

“Eu os deixo funcionais”, ele me corrige.

Ele vira seus olhos castanhos para mim, quentes e


penetrantes, mas então seu olhar cai para minha boca por um
momento e uma vibração atinge meu estômago. Ele rapidamente
olha para o lado e eu abaixo meus olhos, tendo dificuldade para
recuperar meu fôlego.

Limpando a garganta, eu me curvo e puxo a caixa de


donuts da bolsa, coloco-a na bandeja, balanço a pequena mesa
na minha frente e abro a tampa.

O doce aroma imediatamente atinge meu nariz e meu


estômago ronca.

Olho para trás, para a janela de projeção e me pergunto se


o filme começará em breve, porque eu estava guardando os
donuts para isso, mas agora estou morrendo de fome.

Sinto os olhos do cara em mim, então olho para ele e


explico os donuts, “É meu aniversário. Além do vinho, minha
chefe me deu o único tipo bolo que conseguiu pegar em um drive-
thru.”

Eu pego um e me reclino, colocando meus pés novamente


no braço do assento na minha frente.

“Você vai comer todos os seis donuts?”, ele questiona.

Eu paro o doce a alguns centímetros de minha boca e olho


para ele. “Será que isso o deixaria enojado ou algo assim?”

“Não, só estou querendo saber se vou poder comer um.”

Sorrio e aceno para a caixa, dizendo-lhe para se servir.

Ele pega um donut com cobertura açucarada e eu não


tenho certeza se ele é do tipo sem frescuras ou se está apenas
tentando deixar os melhores donuts para mim, mas de qualquer
forma, eu meio que gosto disso. Nós nos sentamos e comemos,
mas não consigo deixar de espiar para ele de vez em quando.

Seu cabelo castanho é suave e seus olhos parecem ser


azuis, verdes ou cor de avelã, dependendo do tipo de luz que
pisca na tela. Ele tem um pouco de barba em seu rosto oval, nariz
reto e meu olhar é atraído para a forma como seu maxilar flexiona
quando ele mastiga. Há algumas pequenas linhas finas ao redor
dos seus olhos, então ele pode ter mais de trinta anos, mas pode
ser por causa de todo o seu tempo trabalhando sob o sol,
também. Ele é alto, forte, em forma, bronzeado, e seus olhos de
repente se voltam para o lado como se sentisse que estou o
analisando. Volto a olhar para frente.

Droga.

Tudo bem, certo? É normal achar que outras pessoas são


atraentes. Acontece. Quer dizer, Scarlett Johansson é atraente.
Isso não significa que estou interessada nela.

Dou outra mordida em meu donut e meu olhar corre para o


lado novamente, observando seus braços e as várias tatuagens.
Engrenagens pretas e parafusos, como um esqueleto robótico,
alguma imagem tribal que definitivamente diz que ele foi um
garoto dos anos 90, e algo que só posso compreender como sendo
um relógio de bolso que parece tentar se libertar da sua pele. É
como uma mistura sem qualquer tema único, mas é um trabalho
bonito. Pergunto-me qual é a história por trás delas.

Dou mais uma mordida, os confeitos rosas e coloridos dão


pequenos choques no fundo da minha mandíbula e fazem com
que eu deseje colocar a coisa inteira na minha boca ao mesmo
tempo.

“Sabe, eu realmente meio que quero ter um abdômen


definido”, digo enquanto mastigo, “mas estes donuts são bons
demais.”

Ele começa a rir, olha para mim e ri mais.

“O quê?”

“Nada. Você apenas...” Ele olha para o lado como se


procurasse palavras. “Você é apenas uma espécie interessante
ou... alguma coisa?” Ele balança a cabeça. “Sinto muito, não sei
como explicar” e então ele deixa escapar, “fofa” como se tivesse se
lembrado. “Você é fofa, eu quero dizer.”

Meu estômago gira e calor aquece meu rosto como se eu


estivesse na quinta série novamente quando você recebe um
elogio de um cara que gosta e ele diz que você é fofa. Eu sei que
ele está falando da minha personalidade e não sobre minha
aparência, mas eu meio que gosto disso.

Ele termina seu donut e toma um gole de refrigerante.


“Então, quantos anos?” Ele pergunta. “Vinte e três, vinte e
quatro?”

“Claro, eventualmente.”

Ele solta uma risada.

“Dezenove” finalmente respondo.

Ele respira fundo e suspira, há algo distante em seu olhar.

“O quê?”, dou a última mordida e limpo minhas mãos,


curvando-me e inclinando a cabeça para trás na cadeira.

“Ser tão jovem novamente” ele brinca. “Parece que foi


ontem.”

Bem, quantos anos ele pode ter? Dezenove não pode ter
sido há muito tempo para ele. Dez anos? Talvez doze?

“Então, você faria algumas coisas de forma diferente se


pudesse voltar atrás?”, pergunto.

Ele esboça um sorriso tenso e olha para mim, seus olhos


estão sérios. “Deixe eu lhe dizer uma coisa. Um pequeno
conselho, ok?”

Escuto, levanto meus olhos e fixo o meu olhar no dele.

“Quando atingir o chão, já saia correndo”, ele me diz.


Hã?

Ele deve ver a confusão no meu rosto, porque continua.

“O tempo passa por você como uma bala”, diz ele, “e o


medo lhe dá as desculpas para justificar que você não deseja
fazer as coisas que sabe que deveria fazer. Não duvide de si
mesma, não pense duas vezes, não deixe o medo impedi-la, não
tenha preguiça e não baseie suas decisões em quão feliz você fará
os outros. Basta seguir em frente, ok?”

Olho para ele, e, infelizmente, isso é tudo o que consigo


fazer. Eu quero sorrir, porque meu coração está transbordando, e
isso é bom, mas eu também estou cheia de algo que não posso
definir. É como uma dúzia de diferentes emoções me inundando
de uma só vez, e tudo o que posso gerenciar são respirações
curtas e superficiais.

“Ok” sussurro para ele.

Não tenho certeza se o que ele disse é o que eu queria ou


precisava ouvir, mas sinto meus ombros um pouco mais eretos e
meu queixo mais firme. Seja por quanto tempo isso durar, estou
um pouco mais corajosa e ele é meu novo herói.

Vejo quando ele puxa uma pequena caixa e começa a


acender um fósforo, a pequena chama queima brilhante. Ele o
enfia em um dos donuts, toda a cobertura rosa com confeitos
coloridos que Shel pediu porque sabe que é minha cor favorita,
brilha na luz. Sinto meu coração aquecido com o gesto.

Desço meus pés, inclino-me para frente, fecho meus olhos e


em minha mente o que desejo e então apago a chama.

Eu não desejo o que costumo desejar, no entanto. Minha


mente está de repente em branco e não lembro de todas as coisas
que preciso e quero agora além deste teatro. Apenas a única coisa
que consigo pensar.
Nós dois sentamos e nos acomodamos, cada um come
outro donut quando as luzes finalmente diminuem e o som
surround nos atinge de ambos os lados do teatro.

Ao longo dos próximos noventa minutos, comemos e rimos,


e escondo meu rosto algumas vezes quando sei que algo está por
vir. Eu o empurro aqui e ali e também sorrio quando ele o faz,
porque ele parece embaraçado. Depois de um tempo, percebo que
minha cabeça se inclinou em direção a ele, e que ele está com o
pé em cima da cadeira vazia à nossa frente e tem a cabeça
inclinada também, bem, e estamos completamente confortáveis. E
nem sequer me ocorreu de manter certa distância.

Não assisti a muitos filmes com outras pessoas. Não estou


acostumada a apenas sentar em silêncio com outra pessoa. Os
horários de Cole e os meus nem sempre coincidem, minha irmã,
Cam, não tem mais qualquer tempo livre e a maioria das minhas
amizades do ensino médio não durou depois da graduação, cerca
de um ano atrás. É bom sair.

No momento em que os créditos começam a rolar não tenho


certeza se me lembro muito do filme. Mas há muito tempo não me
sentia tão relaxada. Eu ri, sorri e brinquei, esqueci-me de tudo
que está acontecendo lá fora e eu precisava disso. Realmente não
quero ir para casa ainda.

As luzes começam a se acender e eu lentamente me sento,


coloco os pés no chão enquanto engulo o caroço na minha
garganta e olho para ele. Ele se senta também, mas mal encontra
meus olhos.

Levantando-me, coloco a alça da bolsa sobre a minha


cabeça e recolho meu lixo.

“Bem, vão exibir Poltergeist em poucas semanas”, ele diz


atrás de mim, enquanto se levanta e traz seu lixo junto. “Se eu
ver você, vou me certificar de sentar nas fileiras mais altas.”
Sorrio baixinho, lembrando do vinho. Ambos saímos da fila,
caminhamos para as portas e noto que Jay e sua companheira
não estão mais em seus lugares. Eles já devem ter saído, mas
verdade seja dita, faz tempo que eu esqueci que estavam aqui.

Poltergeist. Isso significa que ele estará aqui, não é? É este


seu modo tranquilo de me avisar, caso eu queira vir também?

Mas não, ele sabe que tenho um namorado.

No entanto, não posso deixar de pensar que se por algum


motivo Cole e eu não estivermos junto daqui um mês, eu viria ao
cinema, sabendo que ele estaria aqui?

Pisco rápido e forte, a culpa se derramando sobre mim


enquanto caminho até o corredor. Provavelmente eu estaria aqui.
Não há muitos ‘bons partidos’ nesta cidade, e eu me diverti hoje.
Esse cara é interessante.

E tem boa aparência.

E está empregado.

Eu deveria arranjá-lo com minha irmã mais velha. Como


ele passou despercebido sob o radar dela por todo esse tempo é
um mistério para mim.

Nós empurramos a porta, somos os últimos a saírem do


teatro e parar no hall de entrada, então jogamos fora todo o nosso
lixo.

Eu olho para ele, meu coração parando por um instante ao


vê-lo na luz mais clara e de pé na minha frente. Olhos cor de
avelã. Definitivamente avelã. Mas, esverdeados nas bordas da íris.

Seu cabelo está penteado com um mínimo de produto e


apenas pelo tempo suficiente para passar seus dedos através
dele, e eu olho para o seu suave pescoço bronzeado. Não posso
ver se há uma linha de bronzeamento sob a gola de sua camiseta,
no entanto. Ele é assim por inteiro? Uma imagem espontânea
dele sem camisa, martelando e transportando madeira serrada
aparece na minha mente e eu...

Fecho meus olhos, balançando a cabeça. Sim, ei, tudo bem.

“Hum, é melhor eu voltar”, digo a ele, segurando a alça da


minha bolsa. “Espero que meu namorado esteja esperando por
mim no bar para me pegar por agora.”

“Bar?”

“O Grounders?”, respondo, pensando que ele


provavelmente deve conhecer o lugar. É um dos únicos três bares
na cidade, embora muitos prefiram o Poor Red’s ou o clube de
strip que fica mais para cima na rua do local onde trabalho. “Eu
saí um pouco mais cedo esta noite — inesperadamente — mas ele
é minha carona, e não consegui avisá-lo. Cole deve estar lá agora,
no entanto.”

Ele abre a porta, segurando-a para mim quando saio do


teatro, e me segue.

“Bom, espero que você tenha um feliz aniversário, apesar


de ter de trabalhado”, ele diz.

Eu me movo para a direita, na direção de onde Grounders


fica e ele vira à esquerda.

“E obrigada por me fazer companhia”, digo a ele. “Espero


não ter estragado o filme para você.”

Ele olha para mim por um momento, sua respiração fica


mais pesada enquanto um olhar desapontado cruza seu rosto.
Finalmente, ele balança a cabeça, desviando os olhos. “Nem um
pouco”, diz ele.

Um momento de silêncio se passa, e, lentamente, nós dois


nos afastamos, mas nenhum de nós vira as costas para o outro.
O silêncio fica maior, a distância mais longa, e, finalmente,
ele levanta a mão, dando-me um pequeno aceno antes de enfiar
as duas mãos nos bolsos traseiros. “Boa noite”, diz ele.

Eu só olho para ele. Sim, boa noite.

E então me viro, meu estômago se retorce em um nó


apertado.

Nem sequer consegui seu nome. Seria bom para dizer ‘oi’ se
eu o encontrar novamente.

Mas não tenho tempo para pensar nisso, embora, porque


meu telefone toca, e eu o retiro do meu bolso e então vejo o nome
de Cole na tela.

Eu paro na calçada e atendo. “Ei, você está no


Grounders?”, pergunto a ele. “Estou quase lá.”

Ele não diz nada, embora, e eu paro, chamando seu nome.


“Cole? Ei você está aí?”

Nada.

“Cole?, pergunto mais alto.

Mas a linha está muda. Vou ligar de volta, mas ouço uma
voz atrás de mim.

“O nome do seu namorado é Cole?”, o homem do teatro


pergunta. “Cole Lawson?”

Eu me viro e o vejo caminhando lentamente para mim.

“Sim” digo. “Você o conhece?”

Ele hesita por um momento, como se precisasse assimilar


alguma coisa, e então estende a mão, finalmente, apresentando-
se. “Sou Pike. Pike Lawson.”

Lawson?
Ele faz uma pausa momentânea e, em seguida, acrescenta:
“Pai dele.”

Meus pulmões travam. “O quê?” Eu deixo escapar.

Pai dele?

Minha boca se abre, mas eu a fecho novamente, olho para


este homem com novos olhos quando a compreensão me atinge.

Cole falou pouco sobre seu pai — eu sabia que ele vivia na
área — mas os dois não são próximos, pelo que entendi. A
impressão que eu tinha do pai de Cole, pelas breves menções, não
combina com o cara com quem conversei no teatro hoje à noite.
Ele é legal.

E fácil de conversar.

E ele quase não parece velho o suficiente para ter um filho


de dezenove anos de idade, pelo amor de Deus.

“Pai dele?”, digo em voz alta.

Ele me dá um sorriso curto e eu sei que esta é uma


sucessão de eventos que ele não esperava, tampouco.

Ouço o celular vibrar em seu bolso, ele o pega e verifica a


tela.

“Se ele está me ligando agora, provavelmente deve estar em


apuros” ele diz, olhando para o telefone. “Precisa de ajuda?”

“Ajuda para quê?”

“Para chegar à Delegacia, eu suponho.” Ele suspira, atende


ao telefone e lidera o caminho. “Vamos.”
Capítulo 2

Jordan

“Não acho que seja uma boa ideia”, digo a Cole, enquanto
tiro minhas caixas de leite empilhadas na parte de trás do carro
dele. “Eu me sinto como uma aproveitadora.”

Meu namorado curva os lábios de uma maneira peculiar,


onde você só vê o lado esquerdo dos dentes. “Então, o que você
faria?” Ele olha para mim, deslizando minha mesa de desenho
desmontável em sua direção e levantando-a. “Ficar com seus
pais?”

Seus olhos azuis estão semicerrados, provavelmente pela


falta de sono, enquanto nós dois caminhamos e colocamos o que
carregamos nos degraus da varanda da casa de Pike Lawson.

Nosso novo lar.

Os últimos dias foram loucos e eu não posso acreditar que


esse cara é pai dele. Quais as chances? Eu gostaria que
tivéssemos nos conhecido de forma um pouco diferente. Não
dirigindo até a delegacia às duas horas da manhã para soltar seu
filho — meu namorado — da cadeia.

“Qual é, eu disse a você”, diz Cole, voltando para o carro


para buscar outras coisas. “Foi meu pai que ofereceu para nos
deixar ficar aqui. Nós apenas fazemos as tarefas domésticas e isso
nos dá a chance de economizar para um novo lugar. Um lugar
melhor.”

Certo. E quantos filhos voltam para casa dos pais deste


jeito e acabam ficando por mais três anos em vez disso? Seu pai
deve saber o que estava oferecendo.

Farei todos os esforços para sair o mais rápido possível


daqui, mas Cole não economiza muito dinheiro. Encontrar um
novo local, com um caução — que perdemos no apartamento
anterior devido a pequenos danos aos tapetes — e com acesso aos
serviços públicos consumirá muito dinheiro. Assim que
conseguirmos um lugar, Cole pode ajudar a pagar por ele, mas,
na verdade, entrar lá e montar tudo, isso será comigo.

Passou três dias desde o teatro e desde que conheci Pike


Lawson. Assim que pegamos Cole, eu voltei para casa e encontrei
nosso apartamento completamente destruído. Aparentemente, ele
estava tentando fazer uma festa de aniversário atrasada para
mim em nossa casa, mas nossos amigos — amigos dele — não
esperaram para começar a festa. Às onze horas, todos estavam
bêbados, a pizza havia desaparecido, mas, eles guardaram um
pedaço do bolo para mim.

Eu tive que ir ao banheiro para não chorar na frente deles


quando vi o lugar.

Aparentemente, uma briga começou durante a festa, os


vizinhos reclamaram do barulho, Cole começou a berrar e ele e
outro amigo dele foram levados à delegacia para se acalmarem.
Mel, o senhorio, declarou em termos inequívocos que estava cheio
e Cole deveria ir embora. Fui convidada para ficar, mas não havia
como pagar sozinha por tudo. Não depois de já ter esgotado
minhas economias ajudando a consertar o carro de Cole no mês
passado.
E graças a Deus, os policiais os deixaram ir sem fiança
desta vez, porque eu não tinha cem dólares para tirá-lo de
qualquer lugar, muito menos dois mil e quinhentos.

“Você é filho dele”, eu lembro a Cole, pegando meu abajur


de chão — uma das únicas grandes coisas que não colocamos no
depósito, já que o pai de Cole já tinha um dos quartos de visita
mobiliado. “Mas eu também estou aqui e ele pagará todas as
contas? Não é certo.”

“Bem, também não acho que seja certo que eu tenha que
ficar sem isso todos os dias”, ele brinca com um sorriso arrogante
quando me puxa para si e envolve seus braços em meu corpo.
Solto o abajur e sorrio, aceitando sua brincadeira, embora esteja
me sentindo mal. Faz muito tempo desde que me senti à vontade
por tempo suficiente para esquecer o estresse que nos vem
atingindo a todo o momento. Nós não sorrimos juntos há algum
tempo e isso não vem mais tão naturalmente.

Mas agora, Cole tem aquele brilho juvenil em seus olhos


como se ele fosse o furacão mais adorável e “você não me ama?”

Ele encosta sua testa na minha e passo meus dedos pela


parte de trás do seu cabelo loiro, olho em seus olhos azuis
escuros, que sempre dão a impressão de que ele acabou de se
lembrar que há uma torta inteira esperando na geladeira.

Segurando minha mão direita na dele, Cole as levanta entre


nós, e eu aperto a sua na minha, pois já sei o que ele está
fazendo. Nossos dedos se envolvem, nossos polegares lado a lado,
e ele prende meus olhos, as mesmas memórias passando entre
nós.

Para qualquer outra pessoa, parece uma luta de polegares,


mas quando olhamos para baixo, vemos nossos polegares lado a
lado e a pequena cicatriz do tamanho de uma ervilha que
compartilhamos com apenas outra pessoa. É bobagem quando
contamos às pessoas a história — a arma de brinquedo do
irmãozinho de um amigo era pequena demais para nossas mãos e
nós acabamos esfolados quando tentamos usá-la, nós três rimos
quando percebemos que acabamos com a mesma cicatriz em
nossos dedos.

Agora somos apenas Cole e eu. Só nós dois. Duas


cicatrizes, não mais três.

“Fique comigo, ok?”, ele sussurra. “Preciso de você.”

E por um raro momento, vejo vulnerabilidade.

Eu também precisei dele uma vez, e ele esteve lá. Nós


passamos por muita coisa e Cole é provavelmente meu melhor
amigo.

É por isso que sempre o perdoo. Não quero que ele se


machuque.

E é por isso que o deixo me convencer disso. Eu realmente


não quero morar com meu pai e madrasta, e é apenas até o final
do verão. Uma vez que meus empréstimos estudantis chegarem
no outono e assim que eu tiver conseguido economizar
trabalhando neste verão, então poderei pagar meu próprio lugar
novamente. Eu acho.

Cole me abraça e fica quieto. Sabe que ainda estou brava


por ele ter sido preso e pelos danos ao apartamento, mas também
sabe que eu me importo. Estou começando a me perguntar se é
um dos meus defeitos. Definitivamente é minha fraqueza.

Ele se abaixa e segura minha bunda, mergulhando em meu


pescoço e me beijando. Suspiro quando ele se aperta contra mim
e sorrio, contorcendo-me para fora de seus braços.

“Pare!”, repreendo-o com um sussurro enquanto olho


nervosamente para a casa de dois andares atrás de mim. “Não
temos mais privacidade.”
Ele sorri. “Meu pai ainda está no trabalho, querida. Ele não
estará em casa até por volta das cinco.”

Oh. Bem, pelo menos isso é bom. Olho de um lado para o


outro na rua do bairro, porém, vendo casa após casa, cortinas
abertas e crianças brincando aqui e ali. Não é como os
apartamentos em que todos veem o que você faz, mas não se
importam, porque você é transitório e não vai ficar por perto
tempo suficiente para que alguém pense que você merece sua
atenção. Aqui, em um bairro de verdade, as pessoas investem seu
tempo em quem mora ao lado.

Respiro fundo, absorvendo o cheiro de grelhados e o som


dos cortadores de grama. É um bairro muito legal. Pergunto-me
se isso poderia ser meu algum dia. Vou encontrar um ótimo
emprego? Terei uma casa legal? Serei feliz?

Cole inclina a testa contra a minha novamente. “Eu sinto


muito, sabe.” Ele não olha para mim, olha para o chão. “Eu
continuo estragando tudo e não sei por quê. Estou tão inquieto.
Eu simplesmente não posso...”

Mas Cole não termina. Ele apenas balança a cabeça e eu


sei. Sempre sei.

Cole não é um perdedor. Ele tem dezenove anos. É


impulsivo, irritado e confuso.

Mas ao contrário de mim, Cole nunca teve que crescer.


Sempre tem alguém cuidando dele.

“Você sabe quem você pode vir a ser”, digo a ele.


“Comprometer-se com isso é um processo diferente para todos,
mas você chegará lá.”

Cole levanta os olhos e um momento de hesitação cruza


seu olhar como se fosse dizer alguma coisa, mas depois passa.
Ele exibe seu pequeno sorriso arrogante em vez disso. “Eu não
mereço você”, diz, e então me dá um tapa na bunda.

Eu o empurro, guardando meu aborrecimento enquanto


nos soltamos. Não, você não merece. Mas você é fofo e faz boas
massagens.

Terminamos de descarregar o carro e fazemos várias


viagens de ida e volta, levando tudo para dentro da casa. Largo os
poucos mantimentos que comprei mais cedo na cozinha e, em
seguida, levo uma última caixa pela sala de estar e subo as
escadas até o nosso quarto, a primeira porta à esquerda.

Eu respiro profundamente pelo meu nariz enquanto


atravesso a porta para nosso novo quarto, incapaz de esconder
meu sorriso com o cheiro de tinta fresca. Pela aparência da casa
para onde estamos nos mudando, o pai de Cole está reformando.
Embora pareça que a maior parte do trabalho principal já foi
feito. Há o chão de madeira reluzente no andar de baixo,
combinando com as molduras de gesso em todos os cômodos,
bancadas de granito na cozinha com todos os eletrodomésticos
cromados e com cara de serem novos e armários pretos e de vidro
que fizeram meu coração palpitar um pouco. Eu nunca morei em
um lugar nem remotamente tão bonito. Para um trabalhador da
construção civil, Pike Lawson não é um designer ruim.

É definitivamente uma boa casa. Um lugar muito legal, na


verdade. Não que seja uma mansão — é apenas uma simples
casa de estilo americana, com dois andares e um pequeno
alpendre que leva até a porta da frente — mas está reformada,
bonita, bem cuidada e as áreas da frente e o quintal estão verdes.

Coloco a caixa no chão e caminho até a janela, espiando


entre as persianas. Um quintal de verdade. A situação de vida da
mãe de Cole nem sempre foi boa, então é bom saber que ele tem
um bairro limpo e seguro aqui sempre que precisar. Eu me
pergunto por que ele sempre fez parecer que precisava de alguém
para cuidar dele quando tinha isso aqui quando quisesse. O que
há entre ele e Pike Lawson?

Algum dia eu terei um lugar assim também. Meu pai,


infelizmente, morrerá naquele trailer em que cresci.

Cole entra, joga algumas malas na cama e imediatamente


sai de novo, pegando seu telefone no processo.

“Você acha que seu pai vai se importar se eu usar a


cozinha?”, pergunto, seguindo-o para fora do quarto. “Eu tenho
os ingredientes para fazer hambúrguer.”

Ele continua andando, mas ouço sua risada ofegante. “Não


posso imaginar qualquer cara, até mesmo meu pai, dizer que uma
mulher não pode usar sua cozinha para preparar uma refeição,
querida.”

Ok, certo. Dou uma olhada em suas costas enquanto ele


entra na sala e vai para fora. Eu sigo indo direto para a cozinha.

Costumava gostar de fazer coisas para Cole. Cuidar dele


melhor do que minha mãe fazia para meu pai. Manter a casa
limpa — ou apartamento — e vê-lo sorrir quando eu tornava sua
vida um pouco mais fácil ou tivesse certeza de que ele tinha tudo
que precisava. Isso se tornou unilateral nos últimos meses, no
entanto.

Seu pai está fazendo muito por nós e cozinhar algumas


noites por semana faz parte do acordo, então não tenho nenhum
problema em manter minha parte neste negócio. Bem, nossa
parte, mas Cole não vai cozinhar, então deixarei o trabalho do
quintal com ele, o que seu pai também estipulou ser sua
responsabilidade manter.

Pike Lawson. Eu tenho que me esforçar para não pensar no


teatro na outra noite. Ainda é difícil compreender toda
aleatoriedade da situação.
Eu continuo pensando sobre o palito de fósforo no donut e
o discurso motivacional que ele me deu sobre ir atrás do que eu
quero. Parte de mim, no entanto, sente que ele também estava
dizendo essas coisas para si mesmo. Experiência e talvez um
pouco de decepção entremeavam seu tom, e eu quero saber mais
sobre ele. Tipo, como ele se tornou pai tão jovem.

E então pensei que ele era fofo. E daí? Também acho que
Chris Hemsworth é fofo. E Ryan Gosling, Tom Hardy, Henry
Cavill, Jason Momoa, os irmãos Winchester... não é como se eu
estivesse tendo pensamentos sexuais, ora bolas! Não precisa ser
algo estranho.

Não pode ser. Estou com o filho dele.

Caminho até uma das cadeiras na mesa da cozinha, tiro


meu celular da bolsa e clico no aplicativo de música, Jessie’s Girl
imediatamente começa a tocar de onde parou depois da minha
corrida matinal. Observo bem a cozinha, bem como dou uma
olhada rápida pela sala de estar, certificando-me de que
nenhuma das nossas coisas está por perto. Eu não quero que o
pai dele se incomode mais do que já está.

Vou até a geladeira e arrasto a mão sobre a bancada da


ilha ao passar. Enquanto os outros balcões são de granito
castanho com toques de preto, o topo da ilha é de madeira
maciça. A madeira lisa é quente sob meus dedos e eu não sinto
nenhuma ranhura na superfície. A cozinha inteira parece
reformada recentemente, então talvez ele ainda não tenha usado
muito o bloco de madeira. Ou talvez ele não seja um grande
cozinheiro.

Uma prática luminária de metal bronze paira sobre a ilha e


eu dou um pequeno giro antes de chegar à geladeira, rindo
baixinho. É legal poder se mexer sem esbarrar em algo. A única
coisa que essa cozinha precisa que me faria de ir de um aceno de
cabeça a realmente ficar impressionada é um revestimento atrás
da pia e do fogão. Revestimento pode ser algo bem sexy.

Abro a geladeira, pego a carne moída, a manteiga e a


mussarela, chuto a porta com o pé enquanto me viro e coloco
tudo na ilha. Pego as duas cebolas que deixei no balcão mais cedo
e balanço minha cabeça acompanhando a música, deslizando e
balançando, enquanto pego uma faca do faqueiro e começo a
cortar fatias finas.

A música nos meus ouvidos aumenta, os cabelos nos meus


braços se eriçam e sinto uma explosão de energia nas minhas
pernas, porque eu quero dançar, mas não me permito. Espero
que Pike Lawson esteja bem com música dos anos 80 em sua
casa de vez em quando. No teatro ele não disse nada sobre não
gostar, mas também não nos convenceu a morar com ele.

Mantenho-me cantando baixinho e balançando a cabeça


enquanto modelo cinco grandes hambúrgueres em minhas mãos
e começo a coloca-los em uma frigideira limpa, já aquecida e
coberta com manteiga derretida.

Meus quadris estão girando de um lado para o outro


quando sinto uma cócega percorrer minha cintura. Eu pulo, meu
coração salta no meu peito quando um suspiro fica atravessado
na minha garganta.

Girando ao redor, vejo minha irmã atrás de mim. “Cam!”,


eu gemo.

“Peguei você”, ela brinca, sorrindo de orelha a orelha e me


cutucando nas costelas novamente.

Paro a música no meu celular. “Como você entrou? Eu não


ouvi a campainha.”

Ela caminha ao redor da ilha e se senta em um banquinho,


descansando os cotovelos na madeira e pegando um anel de
cebola. “Passei por Cole lá fora”, ela explica. “Ele me disse para
entrar.”

Estico meu pescoço, espio pela janela e vejo Cole e alguns


de seus amigos circulando o velho VW da minha avó que o pai de
Cole pagou para ser rebocado até aqui, já que não está
funcionando agora. Eu não podia deixa-lo no apartamento e Cole
parece estar finalmente cumprindo sua promessa de consertá-lo,
para que eu possa ter um carro.

O chiar da carne fritando na frigideira bate nos meus


ouvidos e eu me volto para virar os hambúrgueres. Uma gota de
manteiga quente acerta meu antebraço e eu estremeço com a
picada.

Sei que Cam está aqui para ver se está tudo bem comigo.
Velhos hábitos e tal.

Minha irmã é apenas quatro anos mais velha, mas já é


mãe, já que nossa mãe não ficou por perto para ser. Fiquei
naquele parque de trailers até me formar no ensino médio, mas
Cam saiu quando tinha dezesseis anos e está sozinha desde
então. Apenas ela e seu filho.

Olho para o relógio, vendo que é um pouco depois das


cinco. Meu sobrinho deve estar com a babá agora e Cam deve
estar a caminho do trabalho.

“Então, onde está o pai?”, ela me pergunta.

“Ainda no trabalho, suponho.”

Ele estará em casa em breve, no entanto. Transfiro os


hambúrgueres da frigideira para o prato e abro o pacote dos pães.

“Ele é legal?”, Cam finalmente pergunta, parecendo hesitar.

Estou de costas, então ela não pode ver o meu


aborrecimento. Minha irmã é uma mulher que não mede
palavras. O fato de Cam segurar seu tom diz que ela
provavelmente tem pensamentos que não quero ouvir. Como por
exemplo, por que diabos eu simplesmente não aceito o emprego
mais bem pago que o chefe dela me ofereceu no ano passado,
para então poder continuar no meu apartamento?

“Ele parece legal.” Digo, lançando-lhe um olhar. “Meio


quieto, eu acho.”

“Você está quieta.”

Atiro um sorriso e a corrijo. “Estou falando sério. Há uma


diferença.”

Ela ri e senta-se ereta, puxando para baixo a bainha de sua


blusa branca, o sutiã de renda vermelho por baixo ficando bem
visível. “Alguém tinha que ser sério em nossa casa, eu acho.”

‘Crescendo em nossa casa’, ela quer dizer.

Cam joga o cabelo castanho para trás do ombro e vejo os


longos brincos de prata que ela usa e que combinam com a
maquiagem cintilante, os olhos esfumaçados e lábios brilhantes.

“Como está Killian?”, pergunto, lembrando-me do meu


sobrinho.

“Um pirralho, como de costume”, Cam responde. Mas então


para como se lembrasse de algo. “Não, espere. Hoje ele me disse
que quando vou buscá-lo na creche fala aos amigos que sou sua
irmã mais velha.” Ela zomba. “Ele está envergonhado. Mas ainda
assim, eu fiquei tipo ‘Uau, as pessoas realmente acreditam
nisso’?” E então ela joga o cabelo de novo, fazendo um show.
“Quero dizer, eu ainda pareço bem, não é?”

“Você tem apenas vinte e três anos.” Cubro um


hambúrguer com mussarela ralada, acrescento outro
hambúrguer e tampo isso também. “Claro que você está bem.”
“Mmm-hmm.” Ela estala os dedos. “Tenho que fazer
dinheiro enquanto puder.”

Encontro seus olhos e é só por um momento, mas é longo o


suficiente para ver o vacilar em seu humor. A forma como seu
sorriso confuso se parece com um pedido de desculpas e como ela
pisca, preenchendo o silêncio enquanto suas palavras estranhas
pairam no ar.

E como ela puxa a bainha para cobrir tanto quanto possível


de sua barriga na presença de sua irmãzinha.

Minha irmã odeia o que faz para ganhar a vida, mas ela
gosta mais do dinheiro.

Cam finalmente volta sua atenção para mim, seu tom soa
quase acusador. “Então, o que você está fazendo, a propósito?”

“O jantar.”

Ela sacode a cabeça, revirando os olhos. “Então, você não


apenas não terminou com o macho com quem está, mas agora
está de quatro por outro?”

Coloco um par de anéis de cebola no primeiro cheeseburger


duplo e em cima um pão. “Eu não estou.”

“Sim você está.”

Olho para ela. “Estamos aqui — neste fabuloso bairro, não


se esqueça — sem precisar pagar aluguel. O mínimo que posso
fazer é garantir que estejamos cumprindo nossa parte no trato.
Nós limpamos e compartilhamos alguns dos deveres da cozinha.
Isso é tudo.”

Sua sobrancelha direita arqueia severamente e ela cruza os


braços sobre o peito, sem acreditar. Oh, pelo amor de Deus. Na
verdade, acho que nesse acordo quem está ganhando somos nós,
afinal. Ar condicionado, TV à cabo e Wi-Fi, um closet…
Alcanço o balcão e puxo as persianas para o alto, tentando
fazer com que ela saia de cima de mim. “Ele tem uma piscina,
Cam! Quero dizer, vamos lá.”

Seus olhos se arregalam. “Não brinca?”

Ela levanta da cadeira, sai correndo e olha para o quintal. A


piscina é perfeita. Tem a forma de uma ampulheta, os azulejos
multicoloridos no deck são de estilo mediterrâneo e tem uma
entrada walk-in3 com um piso de mosaico. O pai de Cole ainda
deve estar trabalhando nela, porque há um display na
extremidade da piscina com canteiros para flores, ainda sem
flores e bicos para mini cascatas que ainda não estão em
funcionamento. Há uma mesa e cadeiras colocadas ao acaso em
volta da área e o resto do quintal gramado tem vários móveis de
jardim ainda não instalados de maneira discernível. Um guarda-
sol de mesa fica à direita, ao lado da mangueira e uma
churrasqueira coberta com uma lona à esquerda.

Minha irmã acena com aprovação. “Isso é legal. Você


sempre foi destinada a viver em uma casa como esta.”

“Quem não é?”, atiro de volta. Todos deveriam ter tanta


sorte.

Embora ainda pareça errado estar aqui. Eu me importo


muito com Cole e prefiro ficar com ele a ir morar com meu pai.

Termino os hambúrgueres, enquanto ela se vira e


permanece segurando o balcão ao seu lado e me encarando. “Tem
certeza de que tudo o que ele quer é um pouco de limpeza e
refeições?” Ela pressiona. “Homens, não importa a idade, são
todos iguais. Eu sei disso.”

3
Entrada Walk-in — Entrada rebaixada de uma das bordas da piscina, por onde o banhista ‘caminha’ direto
para a água.
Sim, você pode calar a boca agora. Posso cuidar de mim
mesma. Se namorados do ensino médio e trabalhar em um bar
não me ensinaram isso até agora...

Mas ela fala de novo, entrando no meu espaço e me


interrompendo. “Apenas me escute por um segundo.” Seu tom se
torna firme. “É uma boa casa, um bairro seguro e, sim, você pode
economizar um pouco de dinheiro. Mas você não precisa ficar
aqui.”

“Ou é ficar com papai e Corinne, ou então é isso”,


argumento de volta. “E eu não posso ficar com você. Agradeço a
oferta, mas não posso ficar no seu sofá e no caminho de todo
mundo e ainda estudar com uma criança de quatro anos
tentando ser criança em sua própria casa.”

Eu tenho uma aula de verão às quintas-feiras, então


preciso de algum espaço para estudar.

“Não é isso que eu quis dizer”, ela responde rapidamente.


“Você poderia ter ficado naquele apartamento. Você conseguiria.”

Abro a boca, mas fecho novamente, virando-me para


colocar os hambúrgueres no forno por alguns minutos.

Isso de novo não. Quando ela vai desistir?

“Não posso, ok?”, digo a ela. “Eu não quero. Gosto do meu
trabalho e não trabalharia onde você trabalha.”

“Claro que você não trabalharia lá.” Ela me dá um olhar


entediado. “Está muito abaixo de você, certo?”

“Não foi isso que eu disse.”

Eu não penso mal de minha irmã por causa do trabalho


dela. Ela alimenta e veste seu filho. Engoliu seu orgulho e fez o
que foi necessário, e eu a amo por isso. Mas — e nunca diria isso
na cara dela — mas essa não é uma carreira que ela teria
escolhido para si mesma se tivesse outras opções.

E não estou sem opções ainda.

Cam dança no The Hook desde os dezoito anos. No início,


era apenas um trabalho temporário para ajudá-la a sustentar o
filho quando seu namorado a deixou. Mas fazer malabarismo com
os estudos e filho tornou-se demais e, eventualmente, ela
abandonou a universidade. Era seu plano voltar aos trilhos uma
vez que Killian começasse no jardim de infância, mas isso já
aconteceu e eu não acho que ela tenha planos imediatos para
sair. Cam se acostumou com o dinheiro.

E quase um ano atrás, o chefe dela me ofereceu um


emprego de garçonete lá e ela quer que eu aceite isso desde então.
Eu poderia fazer mais do que o suficiente para me sustentar,
afinal, e talvez não precisasse pegar tantos empréstimos
estudantis também. Alguns anos e só, ela disse. Eu estaria fora.

Mas sei que ser garçonete é apenas o trabalho que seu


chefe oferece para as garotas até convencê-las a dançar no palco.

E eu não farei isso. E não verei minha irmã fazer isso todas
as noites também.

Meu corpo é privado. É pessoal para mim e para quem eu


quiser exibi-lo. Vou ficar no Grounders, obrigada.

“Estou bem onde estou”, digo a ela. “Está tudo bem.”

Ela suspira. “Ok”, diz ela, desistindo por agora. “Só esteja
preparada se isso não der certo, ok?”

Isso significa Cole e eu morando na casa do pai dele.

Movo-me ao redor dela para tirar uma limonada da


geladeira e de repente ouço o ronco baixo de um motor se
aproximando. Paro, olhando em direção à janela e vejo uma
caminhonete preta estacionar na entrada da garagem. O mesmo
Chevy Cheyenne 71 que entrei para pegar Cole na delegacia
depois do filme na outra noite.

Meu coração bate em meu peito, mas ignoro e fecho


rapidamente a geladeira.

“A casa é do pai dele”, digo a ela, pegando sua bolsa no


balcão e empurrando-a para ela. “Você precisa ir.”

“Por quê?”

“Porque aqui não é minha casa” resmungo, empurrando-a


para a lavanderia e pela porta dos fundos. “Pelo menos me dê
uma semana antes de se impor em seu espaço com todos os
meus amigos.”

“Eu sou sua irmã.”

Ouço uma porta de carro bater.

Continuo empurrando-a para trás, mas ela está com os pés


fincados no chão. “E é melhor você me manter informada”, ela
diz. “Não vou permitir que você deixe um pervertido de meia-
idade, que ficou muito feliz em deixar um par de coxas
adolescentes entrar em sua casa, começar a exigir um pouco
mais de sua nova inquilina.”

“Cale a boca.” Mas não posso deixar de rir um pouco.

Então, ele não é barrigudo, não está na meia-idade ou é


pervertido. Eu não acho isso, de qualquer maneira.

Cam se vira, me cutuca no estômago de brincadeira e


abaixa a voz para um tom profundo e rouco. “Vamos lá, querida”,
ela se contorce contra mim, tentando passar seus braços a minha
volta sedutoramente. “É hora de trabalhar pelo seu aluguel,
baby.”
“Cale a boca!”, sussurro, rindo e tentando empurrá-la para
fora da cozinha. “Deus, você é embaraçosa. Saia!”

“Não tenha medo”, ela continua, fingindo que é um cara


meio esquisito enquanto lambe os lábios e tenta me beijar.
“Garotinhas cuidam de seus papais.”

E ela zomba de mim, projetando a barriga de cerveja que


ela mal consegue imitar com sua cintura de vinte e cinco
centímetros.

“Pare com isso!”, eu imploro, ruborizada de vergonha.

Ela se empurra subindo e descendo em meus quadris,


sorrindo enquanto tento empurrá-la para fora da cozinha.

Mas então ela para de repente, seu rosto fica estático e


seus olhos focam em algo — ou alguém — atrás de mim.

Fecho meus olhos por um momento. Ótimo.

Virando-me, vejo o pai de Cole parado na entrada entre a


sala de estar e a cozinha, estático e olhando para nós. Calor sobe
pelo meu pescoço ao vê-lo novamente.

Ouço minha irmã inspirar fundo e me afasto dela,


limpando a garganta. Eu não acho que ele ouviu algo. Pelo
menos, espero que não.

Seus olhos se movem entre nós e finalmente descansam em


mim. Seu cabelo curto está um pouco bagunçado, e posso ver o
suor do dia de trabalho ainda em sua testa e a barba por fazer
marcando sua mandíbula. Marcas pretas se arrastam em seus
antebraços e os tendões de suas mãos bronzeadas se flexionam
enquanto ele agarra seu cinto de ferramentas e a vasilha do seu
almoço.
Ele inspira profundamente e avança, colocando suas coisas
na ilha. “Já se mudaram?”, ele me pergunta, passando a mão
pelo cabelo.

Concordo. “Yep”, deixo escapar. “Quero dizer, sim.”

Meu coração está fazendo aquela coisa de novo, onde


parece que está flutuando em ondas do oceano dentro do meu
peito e não consigo lembrar o que eu deveria fazer. Então apenas
aceno novamente, piscando até que minha irmã aparece ao meu
lado e eu finalmente lembro o que está acontecendo.

“Pike. Sr. Lawson”, eu me corrijo. “Desculpe. Esta é minha


irmã, Cam.” Gesticulo para ela. “E ela já estava saindo.”

Pike olha para ela. “Oi.”

E então, para minha surpresa, seu olhar se volta para mim


por um momento antes de ver a correspondência no balcão e
começar a folhear como se não estivéssemos aqui.

Eu pisco, levemente confusa.

Cam está extasiada. Ela pode ser mais jovem do que ele,
mas certamente é uma mulher e a maioria dos homens percorre
seus olhos sobre ela, suas longas pernas e seus belos e preciosos
seios que guarda sob a regata. Ele não faz isso.

“Sim, prazer em conhecê-lo”, ela diz de volta. “Obrigada por


aceita-la aqui.”

Ele nos dá um rápido olhar e um meio sorriso antes de


pegar todos os envelopes e colocá-los em um suporte de
correspondência.

Cam começa a sair da cozinha e eu a sigo quando entra na


lavanderia.
Uma vez que Pike está fora de sua linha de visão, ela gira
ao redor, boquiaberta para mim e diz ‘Oh, meu Deus’ com um
brilho travesso em seus olhos arregalados.

Aperto meus dentes e aponto com meu queixo para mantê-


la em movimento. Ela estará aqui todos os dias, flertando com ele
agora.

Ouço Pike atrás de mim, abrindo um dos fornos e me viro.

“Eu estava fazendo o jantar”, digo a ele. “Para nós três.


Tudo bem?”

Ele fecha o forno e vejo uma pontada de alívio em seu


rosto. “Sim, isso é ótimo, na verdade.” Ele suspira. “Obrigado.
Estou faminto.”

“Só mais quinze minutos.”

Ele chega à geladeira e pega uma Corona, enfiando a


garrafa sob um abridor pregado debaixo da ilha e puxa a tampa,
que cai no lixo. “Tempo suficiente para um banho”, Pike responde
e olha para nós. “Com licença.”

E então sai da cozinha, com a garrafa pendendo de seus


dedos enquanto atravessa a entrada com apenas um passo. Eu
paro, e me dou conta de quão alto ele é novamente. Esta é uma
casa de bom tamanho também, mas é impossível não o notar em
uma sala.

“Agora eu entendo”, minha irmã sussurra uma provocação


no meu ouvido. “E aqui estava eu, preocupada que você poderia
sofrer avanços indesejados de um suado, velho e gordo
flatulento.”

“Cale a boca.” Fecho meus olhos com irritação.

Ouço a porta de trás se abrir e o humor continua em sua


voz enquanto ela brinca: “Você cuida de seus homens agora.”
Giro ao redor para fechar a porta em seu rosto, mas ela
grita, fechando-a antes que eu tenha uma chance.

“Ah, eu não gosto de cebolas.”

Paro com as palavras de Pike e olho para o molho de


churrasco que está cobrindo as obras-primas de anéis de cebola
que fiz. São uma postagem no Instagram apenas esperando para
acontecer. Se eu tirar as lindas cebolas douradas, será apenas
uma falha enorme.

“Experimente uma mordida?”, eu me arrisco, com um


sorriso tímido. “Você vai gostar disso. Eu prometo.”

Na minha experiência, os homens comerão o que está na


frente deles.

Ele parece pensar por um momento e depois fecha a


geladeira e encontra o meu olhar. Sua expressão suaviza. “Ok.”

Pike provavelmente sente que me deve uma mordida, desde


que eu fiz o jantar, então vou aceitar isso. Cubro o hambúrguer,
entrego-lhe o prato e ele o leva para um banquinho, dando uma
mordida antes mesmo de se sentar. Dou um olhar por cima do
meu ombro. Sua mandíbula para de se mover e ele pisca algumas
vezes, os músculos das bochechas se flexionam. E então ouço um
gemido.

Volto para o fogão para que ele não possa ver meu sorriso.

“Isso é bom, na verdade”, diz ele. “Muito bom.”

Eu apenas aceno, mas sinto uma pequena pontada de


orgulho.
“Quando se cresce comendo coisas baratas”, eu digo a ele,
“você encontra suas próprias maneiras de adicionar um toque
gourmet nisso.”

Ele não diz nada por alguns segundos, mas diz um


silencioso, “Sim.”

Não tenho certeza se isso significa que ele está apenas


ouvindo atentamente ou concordando comigo. Se Pike descobriu
meu sobrenome, ele deve saber quem é meu pai. Todos na cidade
conhecem Chip Hadley, então ele tem uma ideia de como
vivíamos.

Eu não sei muito sobre a família de Cole, ou se eles sempre


viveram nesta cidade. Pike Lawson não é rico, mas certamente
não é pobre pela aparência de sua casa.

“É realmente bom. Estou falando sério”, ele diz novamente.

“Obrigada”, viro-me e coloco um prato na ilha para Cole e


outro prato para mim no banquinho do outro lado.

Ficamos em silêncio e me pergunto se ele também se sente


estranho. Nós conversamos tão facilmente na outra noite quando
não sabíamos quem era o outro, mas agora isso mudou.

Ouço um movimento na sala de estar e olho em volta para


ver Cole vindo para a cozinha. Eu sorrio. Ele tem graxa por toda a
camisa e uma marca sob o lábio. Ele pode se comportar mal como
se isso fosse seu trabalho, mas também pode exibir algum
charme de menino como ninguém.

Ele pega o hambúrguer do prato em uma das mãos e enfia


uma peça suja e enferrujada debaixo do braço, inclinando o
queixo para mim. “Ei querida. Estamos trabalhando no seu VW.
Você não se importa se eu comer lá fora, não é?”

Olho para ele.


Ele está falando sério? Eu atiro meus olhos entre ele e seu
pai. “Sim”, respondo baixinho, tentando dizer mais com os meus
olhos. Eu não quero comer sozinha com o pai dele.

“Qual é”, Cole inclina a cabeça, tentando trabalhar com sua


expressão brincalhona. “Eu não posso simplesmente deixá-los lá
fora. Você pode vir e sentar lá com a gente.”

Caramba, valeu. Franzo meus lábios e volto para a


geladeira, então puxo a jarra de limonada. É rude sair
simplesmente. O pai dele não é nosso ticket refeição. Eu devo
fazer algum esforço para conhecê-lo.

Mas antes que eu possa dizer a Cole para ir comer lá fora,


seu pai fala. “Por que você não senta por dez minutos? Eu não
vejo você há algum tempo.”

Alívio me atinge e agradeço pelo apoio. Finalmente ouço


Cole soltar um suspiro e as pernas de um dos bancos da ilha
raspam o piso enquanto ele se senta em frente ao seu prato.

Certifico-me de que o forno esteja desligado, pego minha


bebida e sigo o pai de Cole enquanto ele se senta, deixando o
assento entre ele e Cole vazio. Eu o pego, chegando até a ilha e
puxando meu prato para mim.

“Então, como vai o trabalho?”, Sr. Lawson pergunta e eu


suponho que ele está falando com Cole.

A mão direita de Cole encontra minha coxa enquanto ele


usa a esquerda para levar o hambúrguer até a boca, e eu olho
para seu pai, vendo seus olhos baixos olhando para a mão de
Cole em mim. Sua mandíbula flexiona quando ele olha para cima.

“É trabalho.” Cole encolhe os ombros. “É muito mais fácil


agora que o tempo melhorou.”
Cole está fazendo construção de estradas desde que
começamos a morar juntos, nove meses atrás. Ele passou por
muitos trabalhos desde que o conheço, mas este está durando.

“Pensando mais sobre a faculdade?”, seu pai investiga.

Mas Cole apenas zomba. “Levou tudo que eu tinha para


terminar o ensino médio. Você sabe disso.”

Levo a limonada aos meus lábios e tomo um gole, mas meu


estômago aperta e não quero mais comida no momento. O pai de
Cole mastiga, coloca seu hambúrguer no prato e levanta a garrafa
em seguida.

“O tempo se move muito mais rápido do que você pensa”,


ele responde baixinho, quase para si mesmo. “Eu quase me juntei
à Marinha quando descobri...” mas ele para, terminando em vez
disso, “quando tinha dezoito anos.”

Mas acho que sei o que ele ia dizer. Quando descobri que
seria pai. Pike Lawson não parece ter idade suficiente para ser pai
de um filho adulto, então ele devia ser bem jovem quando Cole
nasceu. Ele tinha não mais do que dezoito ou dezenove. O que o
deixaria com uns trinta e oito? Mais ou menos?

“Eu simplesmente não conseguia entender o fato de que


estaria desistindo de sete anos da minha vida”, ele continua.
“Mas sete anos vieram e se foram bem rapidamente. Garantir um
bom futuro exige um investimento e compromisso, Cole, mas vale
a pena.”

“Foi assim para você?”, o filho responde em seguida,


arrancando uma mordida do hambúrguer, a mão apertando
levemente o interior da minha coxa. É um gesto sutil que eu
realmente amo, apesar da tensão crescente na sala. É a maneira
dele de me deixar saber que pode estar com raiva, mas não está
com raiva de mim e Cole odeia que eu provavelmente esteja
desconfortável agora.
O pai de Cole toma um gole de sua garrafa e calmamente a
coloca de volta, seu tom agora mais forte. “Bem, eu tive dinheiro
para tirá-lo da cadeia”, ressalta. “Da última vez. E na vez anterior
também.”

A mão de Cole aperta minha coxa e meu pescoço está tão


quente que de repente gostaria de ter um elástico de cabelo. Mil
perguntas rodopiam em minha cabeça. Por que eles não se dão
bem? O que aconteceu? O pai de Cole parece bom, pelo pouco
que sei sobre ele, mas Cole ergueu um muro entre os dois e seu
pai tem um pavio quase tão curto quanto seu filho.

Com o cheeseburger na mão, Cole empurra o prato para


longe e a cadeira para trás, levantando-se. “Eu vou comer lá
fora”, ele diz, soltando minha perna. “Venha se juntar a nós se
você quiser, querida. E deixe os pratos. Limpo daqui a pouco.”

Abro minha boca para falar, mas me seguro e travo meus


dentes em vez disso. Bem, isso será divertido.

Cole se vira e sai da sala, e momentos depois ouço a porta


da frente se fechar. Vozes abafadas chegam de fora e uma buzina
soa na rua, mas de repente está tão quieto na cozinha que paro
de respirar. Espero que Pike Lawson esqueça que eu estou aqui.

Como diabos vou morar aqui? Eu não posso tomar partido


se eles fizerem isso.

Mas Pike fala, suavizando sua voz. “Tudo bem”, ele diz e o
vejo virar a cabeça para mim com o canto do olho. “Você pode se
juntar a ele, se quiser.”

Viro minha cabeça, encontro seus olhos e nego com um


sorriso de boca fechada enquanto dou de ombros. “Está quente lá
fora”, digo a ele.

Eu já estou queimando com a tensão aqui.


Além disso, os amigos de Cole não são meus amigos e lá
fora não será melhor.

“Sinto muito sobre isso”, ele diz, enquanto pega seu


hambúrguer novamente. “Não acontecerá muitas vezes. Cole é
bom em evitar qualquer lugar que eu esteja.”

Aceno, sem saber o que mais dizer. Tenho a sensação de


que não estarei aqui por muito tempo. Já sinto que estou em uma
corda bamba.

Forço-me a comer, porque isso não ficará tão bom como


sobra, amanhã. A música flutua do lado de fora, o estrondo de
um cortador de grama ganha vida à distância, e o cheiro de
grama bate na parte de trás da minha garganta enquanto flutua
pelas janelas abertas, as cortinas simples da casa de Pike
ondulando na brisa que sopra. Calafrios se espalham pelos meus
braços.

Verão.

Um telefone toca e vejo Pike se aproximar e pegar seu


celular no balcão. “Oi”, ele diz.

Uma voz masculina resmunga do outro lado, mas não


consigo ouvir o que está dizendo.

Pike se levanta, carrega seu prato para a pia com uma mão
e segura o telefone com a outra, e eu roubo olhares enquanto ele
está distraído. A provocação de Cam sobre a aparência dele
continua voltando para mim, aquecendo minhas bochechas, mas
não é assim.

Pike é meio que um mistério.

Vi fotos de Cole na sala de estar — quando bebê e criança


—, mas, além disso, a casa não tem muito do seu pai. Sei que ele
é um cara solteiro, mas não há livros de mesa mostrando seus
interesses, nem lembranças de férias, nem animais de estimação,
nem arte, bugigangas, revistas ou parafernália, indicando seus
hobbies como esportes, jogos ou música. É uma bela casa, mas é
como uma casa de vitrine onde não mora uma família realmente.

“Não, preciso de outro escavador e pelo menos mais uma


centena de sacos de cimento”, ele diz ao cara, enfia o telefone
entre o ombro e a orelha e puxa as mangas da camisa para cima
quando liga a água.

Sorrio para mim mesma. Ele está lavando a louça. Sem que
eu peça? Suspiro e levanto do meu lugar. Acho que ele realmente
mora sozinho, afinal. Quem mais faria isso?

Ele ri de algo que o cara diz e balança a cabeça enquanto


raspo meu prato no lixo.

“Diga a esse idiota que eu sei que ele não está doente”, ele
diz ao telefone, “e se ele não vier amanhã de manhã, vou buscá-lo
pessoalmente. Quero ficar adiantado no cronograma.”

Aproximo-me dele e silenciosamente coloco os pratos no


balcão antes de colocar a limonada e os condimentos de volta na
geladeira.

“Sim, sim...” Eu o ouço quando ele enxágua os pratos e os


coloca na lava-louças. “Ok, vejo você amanhã.”

Pike desliga e abaixa o telefone, eu o olho rapidamente


outra vez. “Trabalho?”, pergunto.

Ele balança a cabeça, jogando água em um copo e


despejando-a. “Sempre. Estamos construindo um prédio
comercial de vinte dois andares, logo antes do parque estadual.”
Ele olha para mim. “Não importa o quanto você planeje e faça um
orçamento, sempre há surpresas que tentam tirar seu controle,
sabe?”
A rodovia 22. A mesma rodovia que eu pego para ir às
aulas em Doral. Devo ter passado pelo seu local de trabalho
muitas vezes.

“Nada nunca vai de acordo com o plano”, eu penso. “Mesmo


na minha idade, já sei disso.”

Ele ri, os cantos de sua boca se curvam em um sorriso


quando ele olha para mim. “Exatamente.”

De repente eu vacilo, um déjà vu me atinge. Por um


momento, vejo o cara do teatro de novo.

Pisco, tentando desviar o olhar. Seus olhos cor de avelã


parecem mais verdes sob a luminária pendurada no alto, seu
cabelo secou após o banho e, de repente, ele se parece mais com
um irmão mais velho de Cole do que com seu pai. Tiro meus
olhos de seu sorriso, apenas pegando um vislumbre das veias em
seu braço que estão flexionando enquanto ele trabalha na pia.

Puxo meu telefone do balcão e me viro para sair, mas


depois me lembro de algo.

“Posso ter seu número de telefone?” Eu complemento a


pergunta. “Caso haja algum problema aqui ou eu perca minha
chave ou algo assim?”

Ele olha para mim por cima do ombro, suas mãos ainda na
água. “Oh, certo.” Ele desliga a torneira e pega uma toalha,
secando-se. “Boa ideia. Aqui.”

Pike pega seu telefone e abre a tela, entregando-a para


mim. “Coloque o seu no meu também, também.”

Dou a ele meu telefone e pego o dele, inserindo meu


primeiro nome e meu número de celular. Ainda bem que me
lembro. Qualquer coisa poderia dar errado com a casa. O porão
pode inundar, pacotes que não são meus podem ser entregues,
posso não ser capaz de lidar com o jantar em uma das minhas
noites com Cole e precisarei avisá-lo… este não é o meu lugar,
aqui eu não tomo todas as decisões.

Viro de costas e ele me entrega o meu, mas uma música


começa a tocar no celular, e Pike olha duas vezes para a minha
tela. Meu aplicativo de música deve ter sido ativado ou ele
acidentalmente tocou alguma coisa.

Merda.

A música Father Figure de George Michael começa a tocar,


e suas sobrancelhas se erguem quando o refrão sugestivo
começa.

Minha boca fica seca, a letra sugestiva.

Pego o telefone de volta e o desligo.

Ele solta uma risada.

Impressionante.

Então Pike se endireita e limpa a garganta. “Música dos


anos 80, hein?”

Corro os dedos pelo meu cabelo, então deslizo o telefone no


bolso traseiro. “Sim, eu não estava brincando.”

Depois de um momento, olho para trás e o pego olhando


para mim, com uma pitada de sorriso em seus olhos.

Seu olhar se desvia e ele se inclina, pegando uma das


revistas de casa e jardim que eu nem sabia que haviam caído da
minha bolsa na mesa da cozinha.

“E é Pike”, ele diz, entregando-me a revista. “Não Sr.


Lawson, ok?”

Ele está tão perto, e meu estômago se revira, incapaz de


encará-lo.
Pego a revista e aceno, incapaz de encontrar seus olhos.

Ele volta para sua tarefa, e me viro para ir embora, mas


paro e olho para ele.

“Você não tem que fazer isso, sabe?”, digo a ele, referindo-
me aos pratos. “Cole disse que faria.”

Vejo seu corpo tremer com uma risada e então ele se abaixa
para jogar alguns talheres na máquina de lavar louça antes de
olhar para mim. “Eu já tive dezenove anos também”, ele
responde. “‘Daqui a pouco’ significa eventualmente e,
eventualmente, não significa hoje à noite.”

Eu bufo, meus ombros relaxando um pouco. É verdade.

Não sei quantas vezes já acordei na manhã seguinte com


uma pia cheia de pratos. É claro que eu não ficaria feliz com Cole
se o seu pai tivesse que fazer a parte dele nas tarefas domésticas,
mas desconsidero o pensamento com ‘isso não é problema meu’.

Contanto que eu não tenha que fazer.

“Obrigada”, digo, rapidamente corro para a geladeira e pego


uma garrafa de água para levar comigo.

Mas então um pensamento me ocorre.

“Você tem outros filhos?”, pergunto. Acho que preciso saber


se haverá outras pessoas entrando ou saindo na casa.

Mas quando olho, vejo seu queixo tenso e a testa franzida,


parecendo sério demais.

“Eu acho que Cole teria lhe contado se ele tivesse irmãos,
não é?”

Contra a minha vontade, minha espinha se endireita


instantaneamente. Seu tom é repreensivo. Claro, Cole me diria se
ele tivesse irmãos. Eu o conheço a tempo suficiente.
“Certo”, respondo com pressa, balançando a cabeça como
se estivesse em um nevoeiro e por isso que fiz uma pergunta tão
idiota.

“Além disso, nunca fui casado”, ele acrescenta, com o pomo


de adão subindo e descendo. “Ter vários filhos com várias
mulheres diferentes não foi um erro que eu quis continuar
cometendo.”

Permaneço imóvel, observando-o e me sentindo mal. Cole


foi completamente não planejado e, até certo grau, indesejado por
seus pais adolescentes. Uma fração do mistério sobre o
relacionamento ruim entre os dois começa a entrar em foco.

Mas também aprecio seu pragmatismo. Não demorou muito


para um jovem Pike Lawson descobrir que fazer bebês com
qualquer uma não era o certo para si. Essa foi uma consequência
que nunca desejei experimentar, nem mesmo uma vez.

Pike parece perceber o que disse e como provavelmente


soou, porque ele para e olha para mim, cerrando os olhos em um
pedido de desculpas. “Eu não quis dizer isso... dessa forma. Eu...”

“Eu sei o que você quis dizer. Está tudo bem.”

Aponto meu polegar para trás e me afasto. “Vou estudar.


Estou fazendo alguns créditos extras neste verão, então... noite.”

Ele se vira para trás, enquanto carrega a máquina de lavar


louça com sabão e a liga.

“Obrigada novamente por nos deixar ficar aqui”, digo.

Ele olha para mim. “Obrigado pelo jantar.”

E antes de sair, vou até a mesa onde deixei uma vela


perfumada queimando. Eu deveria ter perguntado sobre isso. Ele
pode não gostar de perfumes adocicados em sua casa.
Inclino-me sobre a mesa, fecho os olhos, inspiro e faço meu
desejo habitual. Que amanhã seja melhor que hoje. E eu sopro,
quase instantaneamente cheirando no ar a fumaça saindo do
pavio apagado.

É sempre o mesmo desejo. Toda vela. Toda vez. Desejo uma


vida da qual eu nunca queira tirar férias. Esse é meu objetivo.

Exceto pelo fósforo, que apaguei no teatro. Fiz um desejo


diferente naquela noite.

Quando abro os olhos, vejo Pike me observando. Ele


rapidamente se endireita e se afasta.

E quando saio da cozinha e vou em direção às escadas na


sala de estar, deixo minha revista na mesinha ao lado do sofá.

Agora alguém mora aqui.


Capítulo 3

Pike

Eu pisco quando acordo, minhas pálpebras pesadas e


lentas enquanto o quarto entra na minha visão.

Ainda está escuro. Normalmente não acordo antes das


cinco e meia. Porque estou…

Não, espere. Solto um gemido, abro meus olhos um pouco


mais e percebo o brilho fraco dançando na parede do meu quarto.

Pingos de chuva. Ah, merda. Não está escuro. Está


nublado.

Rolo de costas e olho para o teto enquanto espero um


momento e ouço. E então, quase imediatamente, ouço de verdade.
O tamborilar de pequenos dings saltando pelas calhas da chuva
lá fora.

Solto um suspiro. Droga. Nada bom. Cubro meus olhos


com as mãos e esfrego o sono antes de olhar para o relógio na
minha mesa de cabeceira. 05h29 da madrugada.

Sim. Como um reloginho.

Parei de precisar de um despertador anos atrás, meu corpo


apenas se acostumou a acordar na mesma hora todos os dias. Eu
ainda o deixo programado, no entanto, apenas por precaução.
Estendendo a mão, sinto o interruptor do lado e o desloco por
dois pontos, desligando o alarme antes que toque.

A chuva pode realmente nos atrapalhar hoje. Eu não


preciso estar na obra por mais uma hora e meia, mas metade dos
caras provavelmente tentará ligar, achando que de qualquer
maneira não seremos capazes de concretizar um dia inteiro, então
também acham que podem ficar na cama.

Não vai acontecer, no entanto. Nós trabalharemos em algo


hoje — qualquer coisa — porque não me sinto com vontade de
tolerar o mau humor do meu filho e nem quero que ele fique de
cara feia o dia todo se eu estiver nesta casa. Prefiro ir para o
trabalho.

Quando ele era mais novo, era diferente. Ele era meu. Nós
fazíamos coisas juntos, conversávamos e ele queria estar perto de
mim, mas agora...

Ela o alcançou. Meu filho é a única pessoa que alguém


poderia usar contra mim, e cara, a mãe dele soube como usar
isso. Ela o usou como uma peça de xadrez até que ele acreditasse
em tudo que saia de sua boca. Que ela era a vítima em todas as
situações, e que eu era o inimigo. Ela não fazia nada de errado, e
eu não fazia nada certo.

Depois de um tempo, decidi estar lá para ele.


Eventualmente Cole ficará mais sábio e nós passaremos por isso.
Ele será capaz de enxergar as mentiras dela, e eu só preciso
aguentar. Não importa quanta paciência seja necessária ou
quantas discussões teremos nesse meio tempo.

Pelo menos, Jordan é ótima. Ela será um amortecedor bem-


vindo entre nós.

Mesmo que eu tenha sido nocauteado quando descobri


quem ela é.
Fecho meus olhos, descansando as costas da minha mão
sobre eles e pensando naquela noite.

Eu me diverti com ela no cinema. Suas respostas, seu


humor, como foi fácil falar com ela... O jeito que ela apenas
relaxou ao meu lado durante o filme, tudo tão confortável e
natural pra caralho.

O jeito que senti o seu sorriso em mim...

Eu não teria a chamado para sair comigo. Jordan é muito


jovem e eu sabia que ela tinha um namorado.

Mas foi difícil não pensar na ideia por um tempo. Ela é


legal.

E então, quando descobri quem ela é, eu quase fiquei com


raiva.

Lembro-me de ouvi-la naquele telefonema e cerrei os dentes


com tanta força que meu queixo doeu quando compreendi.
Estava com raiva, porque naquele momento senti ciúmes do meu
filho. Eu estaria com ciúmes de qualquer cara de dezenove anos
que tivesse a chance de estar com ela.

Sua pele impecável e nariz empinado. Seu lindo lábio


inferior, que acho que ela me pegou olhando.

O jeito como ela inclinou a cabeça para trás, colocou os pés


para cima e apenas relaxou ao meu lado.

Tudo pareceu fácil.

Mas a garota dos meus sonhos está fora dos limites. Ela é
de Cole e tem apenas dezenove anos. Não tem jeito.

Ela é uma criança e meus pensamentos breves e sórdidos


ficarão escondidos na minha cabeça.
Meu celular vibra na mesa de cabeceira, eu o pego, olhando
para a tela.

E solto um gemido. Agora não.

Mas deslizo o botão verde de qualquer maneira e fecho


meus olhos, segurando o aparelho no meu ouvido. “Um pouco
cedo para você, não?”

Lindsay, minha ex, ri baixinho, o som abafado de sua voz


sexy bem afiada agora. A mulher está acostumada a conseguir o
que quer de qualquer um.

Quase qualquer um.

“Não quando você ainda não foi para a cama”, ela ironiza.

Mantenho meu riso para mim mesmo. Algumas mulheres


que se tornam mães jovens, mais tarde, sentem como se tivessem
perdido sua juventude ao adotar a maternidade tão cedo. Lindsay
Kenmont, mãe do meu filho, não perdeu nada. Ela não deixou a
gravidez de nove meses segurá-la mais do que deixou Cole
prendê-la quando era criança.

“Como ele está?”, ela pergunta.

Puxo minhas cobertas e me sento, balanço as pernas sobre


a cama e bocejo. “Quentinho, bem alimentado e seguro.” Esfrego
o meu couro cabeludo. “Isso é tudo o que sei agora.” Mas depois
acrescento: “Estou surpreso que você esteja bem com isso, a
propósito.”

“Então é por isso que você se ofereceu para deixá-los ficar


com você? Porque você não achou que isso realmente acabaria
acontecendo?” Ela pressiona. “Por mim, tudo bem se ele ficar com
você. Já é hora de você assumir alguma responsabilidade com
Cole.”
Já é hora de eu... Jesus. Sorrio baixinho e balanço a
cabeça, enquanto me levanto. “Não é assim que eu gosto de
começar o meu dia, Lin. Você sabe disso. Agora o que você quer?”

Ela fica quieta por um momento e então ouço a voz suave


retornar ao seu tom provocante. “Oh, você sabe o que eu quero.”

E apesar do desdém que sinto por ela agora, o sangue


ainda corre para a minha virilha, para meu desgosto. Nós nos
divertimos um pouco, afinal. Antigamente.

E meu corpo se lembra.

Além disso, não tenho transado há um tempo.

Mas não estou desesperado o suficiente para ser usado.


Ainda não.

“Então é isso?”, coloco meu telefone entre o ombro e a


orelha enquanto puxo meu jeans do banco aos pés da cama,
vestindo-o. “Você acha que eu vou estar pronto para ir atrás de
você toda vez que você terminar com um cara, ficar bêbada e
quiser transar?”

“Por que não?”, ela dispara de volta. “Não importa quem


entra na sua vida ou sai da minha, teve uma coisa que sempre
fizemos muito bem juntos, certo?”

“Claro, Lindsay.” Eu não me incomodo em esconder o


sarcasmo no meu tom.

“Bem, você não está saindo com ninguém, não é?”, ela
pergunta, mas já sabe que não estou. “E não é como se nós não
tivéssemos pulado na cama juntos, de tempos em tempos, ao
longo dos anos para gastar um pouco de suor. Não me lembro de
você não ter gostado disso.”

“Sim”, solto um suspiro duro. “Isso se chama de falta de


opções. Cidade pequena e tudo mais?”
“Idiota.”

Sorrio apesar de tudo. Tenho que admitir. A mulher pode


listar qualquer insulto.

A verdade é que ela está certa. Após nossa separação,


quando Cole tinha dois anos, ainda nos ligávamos de vez em
quando, mas o que eu disse também é verdade. O sexo foi bom,
ela ainda tem um corpo ótimo e a cama foi o único lugar onde
nunca nos odiamos, mas eu só continuei voltando porque era
fácil. Todas as outras mulheres desta cidade são irmãs ou filhas
de alguém e você não pode simplesmente brincar com elas sem
que esperem um anel em determinado momento. E eu não estava
pronto para isso. Não depois da bagunça que encontrei ao me
tornar pai com dezenove anos. Se eu engravidar outra mulher, ela
será minha esposa, e minha esposa será alguém de quem nunca
vou enjoar.

Eu quero mais filhos. Sempre quis mais. Mas aos trinta e


oito, a dois anos de completar quarenta, é provável que Cole seja
meu único filho agora. Estou ficando velho demais para começar
de novo.

“Vamos”, ela cutuca. “O que você tem a perder? Eu sei que


você se lembra e também sei que você gosta de tudo o que se
lembra, Pike. Aquele verão, quando eu tinha dezessete anos?
Ainda são as melhores lembranças da minha vida.”

Sim, mas nem tudo que veio depois disso.

“Você e eu indo para debaixo de um cobertor no sofá com


meus pais dormindo no andar de cima?”, ela diz como se eu não
me lembrasse. “Eu sei que você ainda tem um apetite muito
saudável.”

O calor sobe na minha pele e eu paro.

“Então venha aqui e me foda”, diz ela.


Hesito por apenas um momento, mas depois sacudo a
cabeça. É tentador. Meu corpo quer isso. E admitindo apenas
para mim mesmo, eu meio que me sinto solitário quando
desacelero por tempo suficiente para me deixar sentir alguma
coisa. Há tantas manhãs em que odeio acordar sozinho.

Mas não. Meu orgulho está cansado de levar um tiro toda


vez que ela acha que estarei pronto para ir ao seu encontro.

“Tenho que começar a trabalhar.” Desligo o telefone antes


que eu tenha uma chance de pensar sobre isso, ou pior,
reconsiderar. Deslizo meu celular no bolso de trás e caminho até
a cômoda para pegar uma camiseta. Meu telefone vibra
novamente.

“Ela é implacável pra caralho” resmungo e puxo para fora


do meu bolso.

Mas desta vez, vejo o nome de Dutch na tela.

Atendo, segurando o telefone no meu ouvido. “O quê?”

“Está chovendo.”

“Mesmo? Não brinca?” Sorrio e puxo uma camisa sobre a


minha cabeça. “Você é um gênio.”

“Olhe para fora.”

Eu paro, cada músculo instantaneamente se contraindo.


Droga. Pelo seu tom, sei o que verei, mas, mesmo assim, vou até
a janela e abro uma das cortinas, olhando para a tempestade
matinal.

“Merda.”

A rua do lado de fora está ladeada por corredeiras de água


da chuva, todas correndo para os bueiros, o cal desliza pelo meio-
fio antes de afundar nos esgotos. A rua em si é uma orquestra de
ruído branco, as gotas saltando no chão ou nos capôs de carros,
a chuva tão espessa que mal posso ver as casas à minha frente.

“Estou indo encontrar os caras lá na loja”, Dutch diz.


“Vamos carregar lonas e sacos de areia e encontraremos você na
obra.”

“Estarei lá em vinte”, eu digo e nós dois desligamos.

Pego algumas meias da minha gaveta, coloco meu celular


de volta no bolso e entro no banheiro, fazendo uma rápida
limpeza com a escova de dente antes de sair do quarto. Eu ando
pelo corredor, passando pelo quarto vazio, pelo banheiro principal
e então por uma porta fechada, o outro quarto de hóspedes,
lembrando-me rapidamente que não está mais vazio.

Mas quando chego ao topo da escada, um cheiro doce e


inebriante atinge meu nariz, fazendo minha pele zumbir e eu paro
para inspirar. Uma ligeira sensação de fome atinge meu estômago
e eu recuo. A garota apagou uma vela ontem. Ela deixou outra
queimando a noite toda? Talvez tenhamos que ter uma conversa.
Isso não apenas é inseguro, mas eu realmente não gosto dessa
coisa toda de aromaterapia em que seu corpo é levado a pensar
que há bolinhos de mirtilo em casa quando não há realmente
nada.

Desço as escadas, a casa range sob meu peso, mas quando


chego lá embaixo, olho em volta, percebendo que as luzes da sala
estão acesas e que há música suave vindo da cozinha.

Ao entrar, vejo Jordan no escuro sentada na ilha. Seu


laptop está aberto à sua frente enquanto ela aquece as mãos em
volta de uma xícara de café.

Hesito por uma fração de segundo, sou levado de volta por


quão diferente ela parece no momento. A luz da tela faz seus
olhos brilharem enquanto o vapor sobe da caneca na frente de
seu rosto. Então ela franze os lábios e sopra, tentando esfriar a
bebida, enquanto mechas de seu cabelo loiro caem em volta do
rosto, soltando-se do coque bagunçado no topo da cabeça.

A estreita inclinação de sua mandíbula, os longos cílios, a


ponta macia de seu pequeno nariz e... Meus olhos descem antes
que eu possa detê-los, e vejo as suas pernas perfeitas, lisas e
bronzeadas, visíveis porque ela ainda está usando seus shorts de
dormir. Calor agita baixo no meu estômago e eu me afasto,
franzindo minhas sobrancelhas.

Eles não podem ter a mesma idade. Meu filho é uma


criança e ela é...

Uma criança também, eu acho.

É estranho, porque a última vez que conheci uma de suas


namoradas, a garota usava aparelhos. É desanimador pensar
nele agora namorando garotas que eram o meu tipo no passado.

“Bom dia”, digo quando passo por ela e vou até a cafeteira.

Vejo-a virar a cabeça enquanto me olha com o canto do


olho. “Oh, ei. Dia.”

Sua voz é baixa e trêmula e ouço o laptop fechar enquanto


coloco um sachê de café na cafeteira e uma caneca de viagem de
metal debaixo do bico. Olho por cima do meu ombro para vê-la
deslizar silenciosamente do banco e recolher seu computador e
caderno.

“Você não tem que sair”, digo a ela. “Eu estou saindo de
qualquer forma.”

Ela dá um pequeno sorriso apertado, mas não olha para


mim enquanto coloca as coisas para o lado e pega o café de novo.

“Você está acordada há algum tempo?”, pergunto.

“Tenho sono leve.” Ela finalmente levanta os olhos e ri de si


mesma. “Tempestades são difíceis para mim.”
Eu aceno, pois compreendo. O calor é assim para mim. O
ar-condicionado precisa ser ajustado em 17 graus a cada noite
para eu conseguir dormir. Está na ponta da minha língua
perguntar se a temperatura a incomodou na noite passada, mas
realmente não faz sentido. Eu preciso dormir, não vou alterar a
temperatura e ela sabe onde estão os cobertores extras, se
precisar de alguns.

Ficamos em silêncio por um momento e então ela


finalmente pisca e gesticula para o fogão atrás de mim. “Tem...
bolinhos de mirtilo se você estiver com fome”, ela diz. “Saíram de
uma caixa, mas estão muito bons.”

Viro minha cabeça e uma assadeira de muffins que eu com


certeza não tenho, está em cima do fogão, cada forminha
transbordando com um muffin dourado. Eu me aproximo e pego
um, escondendo meu sorriso. Então, nada de velas perfumadas e
nem falsas esperanças, afinal. Acho que gosto dela.

Jordan se vira e começa a sair do cômodo, mas eu grito.


“Você acha que poderia acordar Cole rapidamente, por favor? A
chuva realmente ferrou com meu cronograma no trabalho e ainda
estamos fazendo as fundações, então preciso de ajuda para
construir uma barricada de areia hoje.”

Ela olha para mim por cima do ombro, curiosa.


“Fundações?”

“Na obra que fui contratado para construir,” esclareço.


“Não podemos trabalhar hoje com este tempo, mas precisamos
garantir que o subsolo não seja inundado. Eu poderia usar a
ajuda de Cole.”

Entendimento a atinge e a confusão em seu rosto


desaparece. “Oh, certo. Claro.” Ela assente e sai rapidamente da
cozinha, seus passos batem nas escadas com um propósito.
Se ela já não estivesse acordada, eu provavelmente não
teria pensado em pedir a Cole para vir ajudar, mas a
oportunidade de passar isso a ela era boa demais. Se eu
perguntasse, isso o irritaria. Se ela perguntar, pode dar certo.

E, além disso, Cole sabe que isso faz parte do acordo. Ele e
Jordan limpam suas coisas, ajudam na cozinha, fazem o trabalho
de jardinagem e ajudam com qualquer outra atividade que eu
possa precisar, e eu pagarei as contas enquanto eles economizam
o suficiente para conseguirem se recuperar. Não é pedir demais.

Encaixo a tampa na minha caneca de viagem e coloco mais


dois sachês para encher minha garrafa térmica antes de levar os
dois para a porta da frente onde ficam minhas botas de trabalho.
Sentado no banco ao lado da porta, coloco minhas coisas para
baixo e pego as botas, as chaves e minha jaqueta de chuva preta
do armário da entrada.

Pego minha caneca e garrafa térmica. “Cole!” Eu grito,


pronto para sair.

O teto acima de mim range e ouço passos rápidos. Então


há um baque antes que uma porta se feche e posso dizer que ele
finalmente está descendo as escadas.

Aperto a maçaneta da porta e olho por cima do meu ombro.


“Eu tenho café extra. Podemos pegar um drive-thru se você quiser
algo rápido para comer.”

Mas não é ele quem aparece dobrando o canto. Jordan está


vestida com um jeans apertado azul escuro, enrolado na parte
inferior, um all star e está puxando o cabelo para cima em um
rabo de cavalo enquanto tenta segurar um casaco de chuva
amarelo debaixo do braço.

Estreito meus olhos nela. “Onde está o Cole?”


“Ele está... não está se sentindo bem” ela me diz, puxando
a jaqueta. “Eu vou ajudá-lo, no entanto.”

Não está se sentindo bem. Código para ressaca?

“Não, tudo bem” digo a ela. “Fique aqui. É... mais seguro.
Obrigado, apesar de tudo.”

Seus olhos se erguem, concentram-se em mim e depois se


estreitam. “Mais seguro?”, ela pergunta como se eu tivesse
acabado de sair para fazer pedicure. “Ou você está apenas
preocupado em acabar gastando mais tempo segurando minha
mão do que fazendo qualquer trabalho?”

Tento manter uma cara séria. Ela é muito inteligente.

Ok, sim, desculpe-me querida, mas sim. Pelo menos Cole


tem alguma experiência — pouca, lembro a mim mesmo, mas
alguma — ajudando-me durante os verões e fins de semana. Eu
não preciso ter que explicar minhas ordens hoje, ao invés de
simplesmente dá-las.

“Vou lhe dizer que...” Ela abotoa a capa de chuva, seu


comportamento doce e tímido lentamente substituído por um par
de ombros eretos. “Se a mocinha não consegue aguentar um
pouco de chuva no cabelo ou lama embaixo das unhas, ela
voltará para a caminhonete e esperará por você. Onde é seguro.
Ok?”

E então ela arqueia uma sobrancelha para mim como se eu


não devesse questioná-la.

Nem sei como responder, de qualquer forma, porque meu


cérebro agora está em branco e estou meio que esquecendo do
porquê tenho uma garrafa térmica na minha mão.

Balanço minha cabeça para clareá-la e abro a porta. “Bem.


Entre na caminhonete.”
Essa maldita tempestade surgiu do nada.

Eu sempre verifico a previsão do tempo porque às vezes


isso determina se poderemos trabalhar o dia todo, então é bem
importante. Especialmente no verão.

Entretanto, pensei que essa chuva acabaria se desviando


para o norte. Desligo o motor e puxo o zíper da minha jaqueta,
olhando para fora do para-brisa dianteiro. O aguaceiro está
borrando tudo além do vidro, mas vejo um flash de laranja e um
capacete amarelo flutuando alguns metros à frente e sei que
alguns dos caras já estão aqui.

Jordan puxa o capuz e se aproxima de mim, mas eu não


olho para ela ou a instruo sobre o que fazer. Ela pode seguir meu
exemplo se quiser ficar aqui.

Pulo para fora, gotas de chuva duras batem


instantaneamente no topo da minha cabeça e ombros, fazendo-
me instintivamente me abaixar enquanto bato a porta e corro
para o prédio. Minhas botas espirram através de pequenas poças
e eu corro até a carroceria de um caminhão da empresa,
imediatamente puxando para baixo a tampa da carroceria e
acumulando tantos sacos de areia quanto posso carregar em
meus braços. Algo amarelo brilhante aparece ao meu lado e, sem
uma palavra, Jordan faz o mesmo, rapidamente carregando mais
sacos em seus braços e me seguindo ao redor da lateral do prédio
até onde os caras estão esperando.

Largo os sacos e olho através da armação de aço da


estrutura, observando o estrado de cimento descoberto no nível
inferior. Filho da puta. Nove homens, incluindo meu melhor
amigo, olham para mim, esperando por instruções. O vento sopra
a chuva na parte de trás do meu jeans, encharcando o material
na minha pele. “Eu quero esses sacos em todo o perímetro!”, grito
sobre a tempestade. “Três níveis! Entenderam?”

Rápidos acenos seguem.

“E cubram esse cimento, droga!”

Eu empurro meu queixo para o palete descoberto que está


ficando arruinado por baixo. Com chuva ou não, sempre precisa
estar coberto, por precaução, e alguém o deixou descoberto no
último turno.

Dutch, meu melhor amigo desde o ensino médio, lança


seus olhos castanhos para o meu lado, sua expressão suavizando
instantaneamente. Olho para ver Jordan, com o cabelo enfiado no
capuz de sua capa de chuva, mas felizmente ela não fica por
perto para ser apresentada. Voltando para o caminhão, Jordan
puxa mais sacos de areia para fora da carroceria e eu me volto
para Dutch, que me olha com curiosidade.

Apenas balanço minha cabeça. Agora não. Não é estranho


que a namorada do meu filho queira ajudar e ser útil, mas é
estranho que ele não esteja aqui também. Cole sabe que Jordan
assumiu o seu lugar, ajudando esta manhã? Que tipo de homem
ficaria bem com isso? Eu o ensinei a cumprir suas obrigações,
droga.

Ou talvez ele simplesmente não quisesse vir comigo.

Eu preciso fazer algo sobre Cole, mas não sei o quê. Toda
essa tática de ‘esperar e ver’ não está funcionando. Cole precisa
de um chute na bunda.

Os homens começam a trabalhar, carregando pilhas de três


sacos e colocando-os ao longo das laterais do prédio, enquanto
pego minha faca da caixa de ferramentas na caminhonete e corto
retângulos de lona azul para grampear uma cobertura no
primeiro andar. Antes que eu perceba, uma hora se passou, as
lonas estão levantadas, os sacos de areia estão fazendo seu
trabalho e, além de mim, todos parecem ter desaparecido.

Jogo minha faca e a pistola de grampos de volta na caixa de


ferramentas, bato a porta da caminhonete e procuro Jordan ao
redor do local.

Não a vejo há algum tempo. O arrependimento começa a se


contorcer no meu estômago. Eu deveria ter dado a ela algum tipo
de orientação aqui. Ela provavelmente não sabe o que fazer. É
fácil as pessoas se machucarem se não tiverem treinamento.

Andando pela lateral, vejo todos os sacos alinhados como


deveriam, as lonas ainda intactas, mesmo com o vento e o palete
de cimento cuidadosamente coberto. Ouço vozes e faço uma volta
por trás, instantaneamente vendo que Jordan está ajudando a
carregar molduras de janelas para o trailer, e um dos caras
também se certificando de que elas estão cobertas.

Ela está sorrindo. Loucamente.

Seus olhos brilham de animação e ela está prestes a saltar


nas pontas dos pés, e gritar de excitação.

Ela está se divertindo?

Seu capuz cai e seu rabo de cavalo está encharcado


enquanto fios de cabelo grudam em seu rosto. Seus sapatos estão
encharcados, seu jeans está lamacento e, graças a Deus, Jordan
não está vestindo uma camiseta branca, porque a capa de chuva
está fazendo muito pouco para manter os olhos dos caras longe
dela.

Eu olho para Dale, Bryan e Donny que estão carregando


equipamentos para o trailer enquanto olham em direção a ela, e
sorriem, então se voltam um para o outro, rindo de algo que não
consigo ouvir.
“Apressem-se”, eu grito e eles se voltam com atenção,
seguindo em frente.

Jordan caminha até onde estou ao lado do prédio e se


agacha, prendendo a lona sob uma viga.

“Então, você é o chefe, hein?”, ela olha para mim


inquisitivamente. Algo em sua expressão parece mais suave do
que ontem de manhã. Mais feliz. Mais à vontade.

Cole não disse a ela que eu sou o dono de uma empresa de


construção? Ele fala sobre mim?

Sinto dor em meu íntimo.

“Bem, ele tenta ser”, Dutch brinca, respondendo à pergunta


dela.

Dou uma olhada a ele, mas estou tentado a sorrir.


Brincadeira é uma coisa nossa, mas eu gostaria que o idiota não
fizesse isso no trabalho. Isso me enfraquece, caramba.

“Merda!”, Jordan de repente exclama.

Olho para ela e vejo a água da chuva caindo em sua cabeça


como uma cachoeira. A lona rasgou no topo da armação e
derramou em cima dela toda a água que havia acumulado.
Jordan corre, escapando do aguaceiro, e alcança a lona, tentando
colocá-la de volta no lugar.

Mas ela não consegue alcançá-la.

Chegando por trás, eu alcanço a lona na frente dela e a


seguro, mantendo-a no lugar enquanto viro minha cabeça e
aponto meu queixo para Dutch. Ele balança a cabeça e sai para
pegar a pistola de grampos novamente.

Jordan solta a lona e desliza para fora dos meus braços,


dando um passo para o lado e rindo para si mesma.
“Você está bem?”, pergunto.

Ela balança a cabeça, limpando o rosto e sacudindo a capa.


“Pois é. Eu acho que a capa de chuva foi inútil, né?”

Meu olhar recai sobre sua blusa, vendo a camiseta azul-


marinho encharcada em seu corpo, apertada e moldada em cada
centímetro de seu peito e estômago. Um pedacinho de seus
quadris e barriga espreita logo abaixo de onde a camiseta está
colada. Sua pele é impecável, suas curvas são lindas. Engulo o nó
na garganta e me viro rapidamente.

Jordan definitivamente tem um corpo que eu não me


lembro de meninas de dezenove anos terem quando eu tinha essa
idade, mas ela ainda tem apenas dezenove anos.

E ela é de Cole. Não é minha. Não a examine novamente.

Dutch chega e me entrega a pistola de grampos, então


começo a prender a lona. Jordan sobe de volta sob meus braços
estendidos, colocando as mãos por baixo das minhas e
avançando para assumir o controle enquanto eu grampeio.

Algo quente corre sob minha pele, e eu me arrepio. “Eu,


uh... preciso te levar para casa?”, pergunto. “Você não tem aula
ou nada hoje?”

“Férias de verão”, ela responde, olhando para mim. “Eu só


tenho uma aula nesse semestre, mas é amanhã. Tenho que
trabalhar no bar mais tarde, no entanto.”

Pergunto-me como ela vai e volta para o trabalho — ou


para a faculdade, já que Cole começa o dia às dez e não sai do
trabalho antes das seis. Ela não está usando seu carro. O que me
lembra... Antes de sair, vou pegar algumas ferramentas que não
tenho em casa. Talvez eu possa ajudar Cole a trabalhar no VW
dela hoje.
Depois de mais uma hora, tudo está tão preso quanto
possível, nosso equipamento está protegido e guardado e todo
mundo está encharcado até os ossos. Eu deixei os caras irem
embora. Odeio perder tempo, mas os verões são chuvosos, e nós
fizemos o que podíamos.

Inferno, nem a metade deles apareceu, de qualquer


maneira.

Volto para a caminhonete com Jordan e tiro minha jaqueta


molhada, enquanto ela coloca o cinto de segurança ao meu lado.
Ligo o motor e espero a área clarear um pouco antes de
finalmente sair, então nós dois ficamos em silêncio.

Está tão quieto de repente e percebo que a chuva havia sido


tão constante nas últimas horas que não pude ouvir uma voz a
menos que fosse gritada. Ou um movimento, a menos que fosse
meu. Agora, meus ouvidos instintivamente procuram por algo
para prestarem atenção.

A chuva bate na minha caminhonete como balas de


borracha. O couro do volante mói contra meu punho. O barulho
da chuva sob os pneus enquanto eu corro pela estrada, meu
motor roncando como uma canção de ninar.

Mas ainda assim, está tão quieto.

Jordan inspira profundamente pelo nariz.

Sua capa de chuva range enquanto ela desliza as mãos por


baixo das coxas.

Eu ouço uma batida suave e olho para o chão, onde ela


está gentilmente batendo seus all stars um no outro.

Ela lambe os lábios e eu estremeço. Jesus.

Estendendo a mão, ligo o rádio. Qualquer coisa para me


distrair.
Não sei por que estou tão irritado hoje. Não, eu sei. Acordei
com Lindsay ao telefone. Ela é a última pessoa com quem quero
lidar logo de manhã.

Não é difícil sentir o quanto eu era feliz na idade de Cole e


Jordan, divertindo-me com o que eu conseguia colocar em
minhas mãos e não me forçando a pensar muito sobre qualquer
decisão que precisasse tomar. Mas não muito tempo depois que
conheci Lindsay, a conta por toda aquela diversão veio em dobro.
Fiz uma criança com uma garota que mal conhecia. Uma
mentirosa patológica e alguém que manipula as pessoas como se
fosse um esporte do caralho.

E quando fui embora, deixei-o com ela. Cole nunca teve


uma chance.

Levei-a ao tribunal, é claro, tentando conseguir a custódia,


mas os juízes naquela época viam a mãe como melhor opção, e
ela sabia como ganhar simpatia. Ela queria Cole, porque ele
significava pensão alimentícia. E ela certamente arrancou isso de
mim.

Foi como estar na prisão, ter que levá-lo de volta para ela
depois dos meus fins de semana com ele. Lindsay torce as coisas
em nós, e é isso o que ela fez com ele. Quando tinha dez anos,
Cole já se colocava na frente se eu precisasse dizer algumas
coisas para ela, e eu sempre estava errado.

Quando tinha catorze anos, Cole parou de querer me visitar


todos os fins de semana e agora mal nos conhecemos. Ele nem
liga se não precisa de dinheiro.

Balanço minha cabeça, clareando-a. “Quer colocar uma


fita?”, sugiro a Jordan.

Não encontro seus olhos, mas posso ver a cabeça dela girar
em minha direção. “Uma fita? Tipo uma fita cassete?”
Seu olhar de repente dispara para o som do meu carro e
seus olhos se arregalam, surpresa ilumina seu rosto. Eu quase
sorrio.

Ela não percebeu isso quando viemos para cá?

“Isso é um toca-fitas de verdade?”, Jordan deixa escapar.

El estende a mão e toca o rádio antigo do carro como se


fosse um vaso precioso e pressiona o botão Eject. Quando abre
aparece uma fita cassete com letras brancas que nunca ouvi.

Jordan a remove, segurando-a na mão e lendo o título.


“Guns N' Roses.” Sua mão vai à boca, parecendo que ela está
prestes a chorar. “Meu Deus.”

Jogando-se para o porta-luvas, ela o abre e olha para a


linha cuidadosamente arrumada de fitas.

“Deep Purple”, Jordan lê, “Rolling Stones, Bruce


Springsteen, John Mellencamp, ZZ Top…”

Então ela parece encontrar algo que realmente a excita,


porque enfia sua mão lá dentro e volta com o case preto do Def
Leppard. “Hysteria?”, Jordan exclama, lendo o título do álbum.
“Eles não fazem mais esse álbum. Você só consegue achar a
versão ao vivo!”

Levanto minhas sobrancelhas, não tendo certeza de porque


isso tudo é tão excitante. “Vou acreditar em você quanto a isso”,
digo um pouco divertido com sua excitação. “Esta caminhonete
era do meu pai. Essas são as fitas dele. Eu nunca cheguei a tirá-
las daí depois que ele... faleceu há alguns anos.”

Ocorre-me que ela é a primeira a tocar a fita do Guns N


'Roses desde que ele a colocou no aparelho.

Jordan olha de volta para a coleção. “Bem, isso é bom, eu


acho”, ela murmura. “Você claramente não sabe o que tem aqui e
isso teria acabado no fundo de uma lata de lixo, pelo amor de
Deus. Seu pai era um cara legal.”

Eu sorrio, concordando. Ela cuidadosamente coloca a fita


do Guns de volta no estojo e remove a fita do Def Leppard.

“Posso?”, ela pergunta, apontando para o toca-fitas.

Sorrio baixinho e mudo para a marcha mais alta enquanto


nós descemos a estrada. “Vá em frente.”

Ouvimos duas músicas a caminho de casa, entramos na


cidade e pegamos um atalho pela ponte ferroviária no rio à nossa
direita.

“Uau, olhe para isso”, ela diz.

Diminuo a velocidade da caminhonete e sigo seu olhar para


a direita, para fora da janela do lado do passageiro e vejo o rio
subindo consideravelmente. Em vez dos seis metros normais de
folga entre a ponte e a água, a água corre agora
ameaçadoramente logo abaixo do fundo da ponte. Felizmente, a
chuva diminuiu, por isso não deve continuar subindo.

Piso no acelerador novamente, levando-nos para casa.

“Isso foi divertido”, Jordan diz. “Hoje, eu quero dizer.”

Levanto minhas sobrancelhas e olho para ela.

“Quero dizer...” Ela pisca, corrigindo-se. “Eu não quero


dizer que foi divertido. Quero dizer, espero que você não tenha
ficado para trás ou perdido algum dinheiro, mas...” ela inspira e
expira, virando os olhos para trás pela janela. “Algumas vezes
senti que minha vida estava quase em perigo.”

Jordan parece muito feliz com isso também, e posso dizer


pelo seu tom que ela está sorrindo.

“E isso é divertido?”, eu questiono.


Ela vira os olhos para fora do para-brisa dianteiro e encolhe
os ombros, diversão curva o canto da sua boca.

Sorrio. “Sim, foi divertido. Obrigado por ajudar. Terei a


certeza de que você seja avisada quando a próxima tempestade
estiver prestes a chegar, para que possa entrar em ação.”

“Legal.”

Continuo dirigindo pela estrada e entro em nossa tranquila


cidade, virando para a esquerda e depois para a direita, na minha
vizinhança, feliz pela primeira vez no dia de hoje. Ela é uma boa
menina. Espero que Cole não estrague tudo, porque eu já posso
dizer que ela é o tipo de garota que seria uma boa mãe e
trabalharia ao seu lado, construindo uma vida ao invés de apenas
tentar drená-lo.

E por alguma razão, fico feliz que ela tenha se divertido


hoje. Ninguém na minha família nunca teve muito interesse — ou
orgulho — pelo que faço para ganhar a vida. Minha mãe me ama,
é claro, assim como meu pai antes de morrer, mas eles me
pressionaram muito para ir para a faculdade, e esse era o plano
até que Cole apareceu.

Ter ficado nesta cidade e trabalhar em algo que eles acham


que precisa de mais força do que cérebro sempre foi uma
decepção.

Quando comecei a Lawson Construction — meu próprio


negócio — e construí minha própria casa, eles sempre olhavam
para mim como se quisessem mais, mas sabiam que seria inútil
dizer qualquer coisa. Eles desistiram.

Não é que eles odiassem o que eu faço ou que estivessem


infelizes com o homem que me tornei. Eles apenas lamentam
minhas oportunidades perdidas e ainda se preocupam com a
felicidade de seus filhos. O que eles não perceberam, porém, é
que eu tenho meu próprio filho agora e a felicidade dele vem em
primeiro lugar.

E eu realmente amo muitas coisas sobre o que faço. Tenho


horas ao ar livre todos os dias, o sol, o exercício… é uma boa
vida. Durmo bem à noite. É bom ver outra pessoa se divertindo
como eu.

“Meu dia está arruinado agora”, diz Jordan. “Nada vai bater
isso.”

“Bater o quê?”, pergunto. “Ficar mergulhada na chuva?”

“E brincar na lama.”

Sorrio, balançando a cabeça enquanto entro na garagem.


“Isso não foi como brincar na lama.”

Jordan se vira para mim. “Oh, você quer dizer tomar banho
de lama? É por isso que sua caminhonete está toda suja?”

Sorrio e desligo o carro, lançando-lhe um olhar. “Garota, se


você puder dizer de que cor é este carro, então não estou usando
minha caminhonete corretamente. Entendeu?”

Jordan revira os olhos e abre a porta. Nós dois pulamos


para fora e seguimos para a varanda.

Pensando bem, se ela não se importou de ficar molhada e


suja hoje, ela provavelmente vai amar se jogar nas poças de lama.
Não faço isso há muito tempo. Minha caminhonete só parece tão
suja porque eu nunca a lavo. Isso não é natural.

“Você já levou Cole?”, ela pergunta, subindo os degraus.

“Algumas vezes enquanto ele estava crescendo, sim.”

Eu chego antes que ela alcance a porta, abro-a para ela


entrar primeiro.
Mas Jordan se vira, olhando para mim antes. “Talvez você
possa nos levar na próxima vez que precisar”, ela sugere. “Desde
que eu possa dirigir. Você não é super possessivo com a sua
caminhonete, é?”

“Não. Uma caminhonete é feita para ser abusada. Pode


dirigir. Vou usar meu cinto de segurança.”

Jordan sorri suavemente e olha para mim por um


momento, algo que não consigo decifrar cruza seu rosto. Eu disse
alguma coisa?

Olho de volta por um momento, percebendo como seus


olhos quase se parecem com uma aquarela. Azul da meia-noite,
mas cada vez mais claros quanto mais perto da pupila. Eu olho
para longe, limpando minha garganta.

“Jordan!”, Cole de repente grita do andar de cima. “Baby,


você está em casa? Venha cá!”

Encontro seu olhar novamente, e ela se afasta, oferecendo-


me um sorriso de desculpas. “Tenho que me preparar para o
trabalho. Obrigada por me deixar ajudar hoje.”

Eu aceno, mas permaneço na porta, observando-a


atravessar a sala e desaparecer pelas escadas. Um sentimento
estranho se derrama sobre mim enquanto olho para ela. Como ela
é com Cole? Como ele é com ela? Ele é bom para ela?

Fico na porta da frente, ouvindo a porta do quarto fechar


no andar de cima e sabendo que ela está no quarto com ele. A
casa de repente parece pesada. Abafada e espessa, não consigo
respirar. Não quero entrar, não importa se preciso de roupas
secas ou não.

Coloco minhas chaves na mesa à esquerda e vejo a chave


do VW ali. Eu a agarro e dou um passo para fora, fechando a
porta antes de descer os degraus da varanda para a garagem à
direita da casa.

“Tem alguns convidados em casa, hein?”, ouço alguém


chamando.

Olho e vejo Kyle Cramer em pé na varanda da frente com


uma xícara de café na mão, protegido da chuva que agora é
apenas uma garoa.

Aceno com meu queixo, reconhecendo-o, mas não


respondo. Nunca gostei do cara e jamais me importei em ser
amigável. O que ele já deve ter percebido.

Não me importo, no entanto. Apenas olhar para ele me


irrita. E não odeio nada específico nele. Apenas pequenas coisas
que se somaram ao longo dos anos. Como ele tratava sua esposa.
Como ele a enganou e nunca estava em casa. Como ele manteve a
casa para si depois do divórcio e mandou ela e seus filhos
morarem em um apartamento. Como ele constantemente contrata
babás quando seus filhos deveriam passar o tempo com ele no
fim de semana.

E quem sabe? Talvez ele tentou obter a custódia e talvez ela


tenha traído ele primeiro. Você nunca sabe o que acontece na
casa de alguém. Olhe para mim e como meu filho foi criado,
afinal. Quem sou eu para julgar?

Mas ainda não gosto do cara. Ele acha que sua carreira de
colarinho branco e triatlos fazem dele um herói.

E agora eu estou soando como alguém invejoso. Ótimo.

Socando o código de acesso no painel ao lado da porta da


garagem, recuo e a deixo abrir. Não guardo nenhum carro aqui,
então o espaço serve como uma oficina.

Há ferramentas, um compressor de ar, uma geladeira extra,


um par de mesas de trabalho e uma bancada inteira cheia de
peças de carros que simplesmente foram despejadas aqui ao
longo dos anos. O carro de Jordan está na entrada da garagem,
mas sei que precisarei entrar aqui para pegar algumas coisas
depois que abrir o capô. Cole não é ruim com carros, mas sei que
vai precisar de dinheiro para fazer aquela coisa funcionar de novo
e dinheiro eles não têm. Vou, pelo menos, dar uma olhada para
ver quão ruim está.

“E aí cara.”

Olho por cima do meu ombro e vejo o Dutch andando pela


calçada. Ele está em roupas secas e com uma cerveja na mão.
Não é incomum. Dutch mantém um cooler na parte de trás de
sua caminhonete.

“Hey.” Eu puxo minha camiseta ainda úmida sobre a


cabeça e jogo-a sobre uma bancada de trabalho. Puxo um macaco
hidráulico debaixo de uma mesa, saio da garagem, indo em
direção ao VW verde desbotado. Dutch pega uma cadeira de
jardim e a leva para a grama ao lado do carro de Jordan.

“Cinco horas amanhã?”, pergunta ele.

“Sim.”

Uma vez que perdemos tempo hoje, ele sabe que vou querer
começar cedo amanhã.

“Então os caras estavam pensando em ir ao Grounders


daqui a pouco. Beber algumas cervejas, escutar um pouco de
música...”, ele me diz. “Não há mais nada a fazer neste clima.”

Torço a chave inglesa, mas olho para ele. “Grounders?


Desde quando você vai lá? O Poor Red’s fechou as portas?”

“Não”, ele responde, encolhendo os ombros. “Mas,


acabaram de descobrir que há um colírio bem atraente no
Grounders agora.”
Eu olho para ele, e ele está sorrindo e apontando a cabeça
em direção à casa e quem está dentro dela.

“Ah, cale a boca.” Aperto a chave. “Essa é a garota do meu


filho. Vocês a deixem em paz.”

“Eu não vou fazer nada!”, ele levanta as mãos em defesa.


“Eu sou casado.”

“Eu não quero vocês olhando”, afirmo, então fico de pé e


jogo a ferramenta para baixo.

Assumo: também estive olhando para ela, mas não sabia


quem ela era quando nos conhecemos.

Limpo minhas mãos com um pano velho. “Você entendeu?


Deixem a garota em paz.”

Ele apenas zomba, curvando-se em seu assento e


colocando a cabeça para trás. “A garota que, tenho certeza, já
lidou com muita atenção masculina, trabalhando naquele bar. E
tenho certeza também que ela não se importaria de fazer algum
trabalho extra hoje à noite.”

Isso soa como se ela fosse uma prostituta. Mas acho que
ele está certo. Afastar atenção indesejada deve ser uma
habilidade de Jordan agora, especialmente ao trabalhar em um
buraco como aquele.

Ainda não consigo entender. A garota tem uma boca


grande, mas ela é bem inocente e doce também. Imaginá-la
naquele ambiente é impossível.

“Oi”, uma voz feminina soa.

Inclino-me e olho em volta do capô, vendo a mesma jovem


que esteve aqui na noite passada. Qual é mesmo o nome dela?

“Pike, certo?”, ela diz, colocando a mão no peito. “Cam,


lembra? Eu sou irmã da Jordan.”
Dutch está olhando para ela, sua boca ligeiramente aberta.

“Estou aqui apenas para dar a ela uma carona até o


trabalho”, Cam diz e então seus olhos descem pelo meu peito e
braços. “E que tatuagem legal, cara.”

Seus olhos se iluminam quando ela acena em aprovação.


Percebo que Cam também tem algumas no braço e uma fênix na
lateral do torso. Que eu só posso ver, porque ela está quase sem
roupas, vestida com uma minissaia preta e uma blusa preta
cortada logo abaixo dos seios.

Onde diabos está seu pai? Sério…

Atrás dela, um Mustang branco conversível novo está


estacionado no meio-fio, o carro está lotado com outras duas
mulheres, todas parecendo estarem vestidas do mesmo jeito, pelo
que posso dizer. Elas têm cabelos longos e eu posso sentir a brisa
provocada pelas piscadas de seus cílios quando elas piscam.

Mas então algo me ocorre e eu olho em volta do capô


novamente. “Vocês todas trabalham juntas? Com a Jordan?”

“Não, nós trabalhamos no The Hook.”

Dutch faz um som rouco, e percebo que ele está


engasgando com a cerveja dele. Ele tosse e ri ao mesmo tempo em
que pigarreia.

Cam acena e brinca: “Sim, você conhece o The Hook.”

Ele ri e eu juro que o vejo corar. “Eu posso estar


familiarizado com o lugar.”

O The Hook é um clube de strip-tease no centro da cidade,


não muito longe do Grounders, onde Jordan trabalha.

“Jordan não trabalha lá também, não é?”, pergunto. Quer


dizer, ela poderia ter dois empregos, suponho, mas se não posso
imaginá-la atrás do bar no Grounders, eu realmente não quero
nem pensar nela no The Hook.

Mas, felizmente, Cam responde rapidamente. “Ah, não, mas


meu chefe ofereceu-lhe um emprego de garçonete”, ela diz. “Ele
está tentando contratá-la há um ano. Ela é tímida, no entanto.”

Ela diz a última parte com uma piscadela e eu não tenho


certeza do que isso significa. Tímida sobre o quê? Ela teria que
usar algo parecido como as dançarinas para trabalhar atrás do
bar?

É, não. Imaginá-la no The Hook, lidando com os caras que


entram ali querendo apenas uma coisa, vai me estressar. Cole
sabe sobre a oferta de emprego? Não posso imaginar que ele
queira Jordan trabalhando lá.

Eu não tenho tempo para pensar mais sobre isso, porque


Jordan desce a varanda da frente e atravessa o gramado até a
irmã.

“Pare de falar sobre mim”, ela avisa, apertando a alça de


sua bolsa sobre o peito, mas Cam apenas lança um olhar
brincalhão.

Jordan responde com um rolar de olhos, mas eu mal noto


isso. Meu coração está batendo dolorosamente, absorvendo sua
roupa.

Então olho para longe.

Por alguma razão, o julgamento que eu dei a Cam pelas


roupas dela não é transferido para Jordan, apesar dela ser alguns
anos mais nova. Vestindo short jeans escuro, baixo no quadril e
alto nas coxas, ele não é desfiado, mas com a barra enrolada e
uma camiseta preta solta, mostrando sua barriga e pendurada
sobre um dos ombros. O cabelo dela está pendendo nas costas
em cachos grandes e soltos e seus olhos estão cobertos por
delineador e sombra escura, fazendo o azul da meia-noite em
seus olhos estalar como uma corrente de água em um mar
noturno.

Eu me pergunto se ela está usando o seu All star


novamente, mas isso significaria ter que olhar as pernas dela e
estou tendo dificuldades em fazer isso, então mantenho meu
olhar afastado e continuo trabalhando no carro.

A culpa me rasga. Ela é de Cole. Ele a beija. Ele a abraça.


Ele a faz sorrir. Não posso ter opiniões sobre ela, especialmente
do tipo territorial, sobre onde ela trabalha ou como se veste. Eu
ainda continuo me sentindo do mesmo jeito que me senti no
teatro. Ela é uma jovem que conheci e com quem me diverti
conversando, e ninguém mais tem nada a ver com isso. Parte de
mim continua se sentindo como se eu a tivesse conhecido
primeiro, embora saiba que não.

“Eu tenho um turno duplo hoje”, ela diz e acho que ela está
falando comigo, “então sairei tarde, mas tenho a minha chave.”

Eu aceno e fecho uma tampa de proteção, sem olhar para


ninguém.

Há um breve silêncio antes que Jordan comece a se afastar.


“Ok, vejo vocês mais tarde”, ela diz.

“Obrigado pela ajuda hoje, docinho”, Dutch diz para ela.

Ele levanta o braço e acena para as garotas, e ouço


algumas risadinhas antes do carro partir. Continuo com o que
estou fazendo, não pensando em quão insegura a cidade é a
noite, ou a vantagem de trabalhar atrás de um bar aonde clientes
não conseguem colocar suas mãos nela, o que é legal. Seu
trabalho é ótimo, na verdade. É mais dinheiro do que ela
ganharia no Burger King ou como operadora de telemarketing.
Ela e Cole sairão de casa em pouco tempo.
Mas não me admira que o imbecil do Mick esteja tentando
fazer com que ela trabalhe no The Hook. Pelo amor de Deus. Olha
a aparência dela esta noite? Homens pagam muito dinheiro por
jovens gostosas, mas pagariam ainda mais pela filha jovem e sexy
do fazendeiro.

Estou desparafusando, limpando e reabastecendo o motor


quando percebo que minha mão está doendo e os músculos estão
cansados. Eu paro e fico em pé, estalando meus dedos.

Mas então vejo Dutch me observando com o canto do olho,


e olho para ele, encarando-o.

“O quê?”, pergunto.

Por que ele está me encarando?

Mas ele me dá apenas um pequeno sorriso e balança a


cabeça. “Nada.”
Capítulo 4

Jordan

“Posso ter um Fuzzy Navel?”

Eu olho e vejo April Lester de pé no bar entre Grady Jones


e Rich Hensburg, encarando-me com expectativa. Eu aceno e
acabo de empilhar os copos de uísque que acabei de lavar e em
seguida, estico e agarro a garrafa de Schnapps.

“Então, você ainda vai para casa comigo?”, Rich pergunta a


April, dando-lhe uma carranca cética.

Grady ri baixinho, enquanto sorrio para mim mesma. April


apenas se afasta, parecendo aborrecida.

Todas essas pessoas são clientes regulares. April


geralmente não vai para casa sozinha e todo mundo sabe disso.
Rich está apenas meio que brincando, para se proteger, já que ela
constantemente dá o fora nele, no entanto. Velhos, ao que parece,
são o único limite rígido para ela. Qualquer outra pessoa pode
estar no jogo. Para ele, acho que não faz mal continuar tentando.
Talvez tenha sorte uma dessas noites.

Não que eu a inveje. O que sei? Ela é uma boa cliente e, no


final das contas, ela dá boas gorjetas. Eu não posso deixar de
ficar de olho nela quando Cole está por perto. Já a vi indo atrás
de homens casados, então o namorado de alguém certamente não
a impediria.

Eu termino de servir o suco de laranja e coloco um


guardanapo no balcão antes de colocar o drink em cima dele. Ela
pega um canudo e segura o copo. “Obrigada”, ela cantarola e
imediatamente se vira, tomando um gole enquanto caminha de
volta até sua mesa no restaurante.

Eu a observo se afastar e deslizar pelo banco da mesa com


dois outros homens que já vi por aqui antes.

Às vezes ela me lembra minha mãe. Não sei por que, elas
não são nada parecidas. Minha mãe era loira - é loira - e April é
morena. Cabelo tão escuro que quase parece preto.

Mas elas teriam a mesma idade. April deve estar nos


quarenta e se veste como eu me lembro da minha mãe se vestir.
Saias curtas, esvoaçantes, tops de seda, joias e saltos de quinze
centímetros.

Como Cam. Minha irmã herdou o estilo sexy da minha


mãe.

Eu me pergunto se minha mãe se estabeleceu com alguém


ou se ainda precisa dessa liberdade que tanto ansiava quando eu
tinha sete anos. Não sinto falta dela. Mal me lembro dela. Mas
ainda me pergunto sobre ela.

Alcançando atrás de mim, faço uma anotação do drink na


comanda de April e pego uma toalha para terminar de secar os
copos.

Mas então a porta da frente se abre e uma voz explode:


“Merda, isso aqui está morto.”

Eu olho para cima e os pelos dos meus braços


imediatamente ficam em pé. Meu namorado entra com alguns de
seus amigos, mas a voz que lidera a matilha e que é familiar
demais é a responsável pelos arrepios em minha pele.

Jay McCabe, meu ex-namorado, entra devagar e curtindo


seu tempo, entrando no lugar como o quarterback que ele foi no
colegial e como se ainda estivesse esperando por um maldito
aplauso. É engraçado como ele ficou menos bonito quanto mais
eu o conheci. Minha espinha fica reta como aço e a consciência
faz o calor se espalhar pelo meu pescoço.

Cole caminha atrás dele, com alguns caras e Elena Barros


o seguindo e eu vejo sua sobrancelha arqueada e a ligeira
carranca em seu rosto enquanto ele olha para Jay e depois para
mim.

Eles não saem juntos, mas acabam se encontrando nas


mesmas festas às vezes. Meu palpite é que Jay veio para cá com
sua matilha e Cole o seguiu apenas para ter certeza de que estou
bem.

Jay examina a sala e então seus olhos se focam em mim,


um pequeno sorriso curvando o canto de sua boca.
Imediatamente desvio meu olhar, meu estômago se revirando.

Tento fingir que Jay não tem mais importância, mas acho
que ele sabe que venceu. O cara deveria estar na merda de uma
prisão depois do que fez comigo, e ele não está, porque há dois
anos, eu fiquei amedrontada e agi de forma patética.

Eu gostaria que alguém o machucasse.

E melhor ainda, gostaria que esse alguém fosse eu.

Cole desliza para dentro do bar com mais dois amigos,


conversando com pessoas que reconhecem. Ele levanta a divisória
do balcão e vem para trás do bar, um olhar de desculpas em seu
rosto quando chega atrás de mim, envolvendo os braços na
minha cintura.
“O que você está fazendo?”, pergunto, meu punho enrolado
em uma toalha e limpando o interior de um copo.

Eu sinto ele dar de ombros. “Não vi você. Só senti sua


falta.”

Solto uma risada, tentando relaxar meu corpo rígido.


“Estou bem. Você não precisa se preocupar comigo no trabalho.”

Ele acaricia meu pescoço e nós dois sabemos que Cole está
apenas preocupado com Jay estando aqui.

Coloco a mão sobre a dele, sentindo a pequena cicatriz no


polegar e inspiro seu aroma de limpeza. Ele parece fresco e
bonito, muito melhor do que naquela manhã. Ninguém se livra de
uma ressaca como ele.

“Sabe, é ruim para os negócios se o namorado dela estiver


por perto”, Shel adverte, andando na frente do balcão e
depositando ali uma bandeja de copos.

Shel se imagina como a dona do bar no filme Coyote Ugly


[Sow Bar]. “A coisa é: você deve parecer disponível, mas nunca
estar realmente disponível.” O problema é que isso aqui é um bar
sujo em uma cidade pequena, então, de qualquer forma, as
gorjetas não vão bater nenhum recorde. Meu namorado estando
aqui ou não.

Cole se aconchega no meu pescoço e eu sorrio, sentindo-me


segura contra a parede do corpo dele. As vozes de seus amigos
são carregadas conforme o nível de barulho aumenta no ambiente
e eu olho para o relógio, vendo que é quase meia-noite.

E é quarta-feira à noite. Cole tem trabalho de manhã.

Eu respiro, virando a cabeça para olhar para ele. “Você


sabe, nós não poderíamos realmente nos dar ao luxo que você
perdesse essas horas hoje”, digo a ele.
E se ele sair esta noite é provável que amanhã ligue dizendo
que não vai e perca mais do seu salário.

Ainda temos as contas do antigo apartamento que precisam


ser pagas e eu farei minha parte, mas ele poderia estar ajudando
muito bem. Se ele perder outro dia, eu vou ficar estressada.

Mas ele apenas olha para mim pensativamente. “Eu não


sou estúpido, querida”, me garante. “Eu já sei tudo o que você
gostaria de dizer para mim, ok?”

“E você sabe que tem muita sorte por ainda ter sua licença,
certo?” Eu o pressiono mais um pouco. Uma acusação por dirigir
embriagado em seu registro é a última coisa que precisamos, e ele
se arrisca constantemente.

Especialmente depois de tudo o que aconteceu. Como ele


pode ser tão descuidado?

Eu olho para nossas cicatrizes novamente, relembrando.

“O que eu faria sem você?”, ele diz, sua respiração fazendo


cócegas na minha orelha.

Eu me afasto. “Lavaria suas próprias roupas,


provavelmente.”

Mas ele apenas ri, apertando seu abraço. “Desculpe-me,


sou um perdedor.”

“Você não foi sempre assim.”

Ele ergue uma sobrancelha para minha observação e me


leva de volta para o bar, um sorriso brincando em seus lábios.
“Eu sou bom em algumas coisas, no entanto, não sou?”

Ele inclina meu queixo para trás e mergulha no meu


pescoço, sua boca quente beijando e mordendo.
Calafrios espalham-se em meus braços e eu suspiro.
“Cole...”

Ok, sim, você não é um completo perdedor em tudo.

Ele sempre me fez sorrir e é um bom beijador. Só queria


que ele fizesse isso mais em casa. Ele não tem me tocado muito
ultimamente.

E agora ele vai sair de novo esta noite.

Eu viro minha cabeça, beijando-o e com fome de uma


conexão, mas então rapidamente me afasto, empurrando-o com
um sorriso. “Não aqui”, repreendo.

Eu me viro e tiro algumas garrafas de cerveja do bar,


afastando-as para longe.

“Eu realmente sinto muito, você sabe?”, ele diz no meu


ouvido. “Eu não pretendia nos fazer ser expulsos de lá para
acabarmos nessa situação com meu pai.”

Eu aceno com a cabeça, tendo certeza que ele quer dizer


isso. Ele é bom e eu o vi no seu melhor. Neste momento, está em
uma rotina, mas ele ficou ao meu lado quando ninguém mais o
fez, então quero acreditar que vai acabar no caminho certo.

Eu olho para Jay, lembrando como Cole foi meu único


amigo depois que terminei com aquele idiota. Todo mundo ficou
do lado de Jay.

“Então, meu pai é legal com você?”, ele pergunta,


afastando-se e me liberando.

“Claro. Por que ele não seria?”

Ele encolhe os ombros. “Apenas certificando-me. Ele


costumava ser um idiota no passado. Traiu muito minha mãe e é
por isso que não nos damos bem.” Ele faz uma pausa e
acrescenta: “Só para explicar a tensão que você provavelmente
está sentindo entre nós.”

Traiu? Por que ele não me disse isso antes? Jesus.

Isso não parece com Pike, no entanto. Ele não me parece


tão superficial.

Mas as pessoas crescem e mudam. Talvez ele fosse um cara


diferente vinte anos atrás.

Mas espere…

“Achei que você tivesse me dito que seus pais se separaram


quando você tinha dois anos”, eu pergunto.

Se ele era tão jovem, como poderia se lembrar disso?

“Sim.” Ele começa a andar de volta para o final do bar. “Eu


só sei o que ela me disse. Não foi bonito, aparentemente, então
não tome nenhuma merda dele. Ele gosta de empurrar mulheres
ao redor, o que provavelmente explica porque ainda está solteiro.”

Bem, o pai dele pareceu perplexo hoje cedo quando tentou


me dizer para ficar em casa, e eu contra argumentei. Acho que ele
está acostumado a ter pessoas seguindo suas ordens. A última
afirmação de Cole parece verdadeira.

“Nós vamos até o Cue”, diz Cole, abrindo a divisória e


caminhando para o outro lado do bar. “Vejo você em casa.”

“Não chegue tarde demais”, eu digo baixinho.

Seu turno só começa amanhã às dez da manhã, mas quero


vê-lo quando chegar em casa. Nós não tivemos muito tempo
juntos hoje.

Ele e seus amigos saem pela porta da frente, indo para The
Cue para jogar sinuca, mas Jay olha para mim enquanto sai pela
porta também, passando o braço em volta de Shawna Abbot.
Seus olhos descem para meu peito e depois voltam para cima,
olhando para mim com uma parte de desejo e três partes de
ameaça.

E por dois anos tem sido apenas isso. Eu aceitando


quaisquer olhares grosseiros que ele lança no meu caminho, por
medo de impulsioná-lo à ação novamente. Ele me deixa sozinha,
de outra forma, então eu o evito e finjo que não está lá.

Os dois grupos saem, decidindo encontrar sua diversão em


outro lugar, mas antes que a porta da frente tenha a chance de
fechar, minha irmã passa por ali, algumas de suas colegas de
trabalho seguindo atrás dela. Todos os olhos da sala se voltam
para elas, observando as mulheres atraentes em seus minúsculos
tops e saltos altos.

The Girl Gets Around, de Sammy Hagar, toca no jukebox, e


Cam se dirige para o bar, segurando-se na beirada do balcão e
dançando um pouco enquanto seus lábios cantam baixinho a
música para mim.

Ela é uma figura.

“Já terminaram?”, eu pergunto sobre a música, olhando


para o relógio na parede. “Eu não estarei livre por pelo menos
mais uma hora.”

“Tudo bem.” Cam acena quando alcança e pega o rum do


balcão e os copos de vidro limpos na minha frente. “Precisamos
relaxar antes de irmos para casa para dormir de qualquer
maneira.”

Ela serve uma dose, devolve a garrafa e pega a pistola de


refrigerante, enchendo seu copo com Diet Coke.

Pego a pá do recipiente de gelo e coloco alguns cubos em


seu copo antes de descer no bar e verificar os clientes.
Eu substituo as cervejas de Grady e Rich, sirvo uma dose
para o marido de Shel jogando videopôquer e preparo três
Cosmos para algumas senhoras que deixaram suas edições do
livro The Gift de Deepak Chopra, para trás sobre o banco da
mesa, embora o tragam todas as semanas para que seus maridos
realmente pensem que estão em uma reunião do clube do livro.

“Você pode dar um pulo aqui atrás?”, Shel grita para Cam.
“Eu preciso reabastecer cerveja.”

Ela lança um olhar para Shel, mas se levanta e vem para


trás do bar. Shel anda pelo corredor onde o refrigerador e a
cerveja estão armazenados.

“Esvazie o jarro de gorjetas e recoloque-o no lugar”, eu


chamo a minha irmã do outro lado. “Você não vai ficar com uma
parte das minhas.”

Ela ri, olhando para mim presunçosamente enquanto


coloca as mãos nos quadris. Eu me viro para preparar um
Screwdriver para outro cliente, e a próxima coisa que sei é que há
um monte de dinheiro na minha cara.

“Como se eu precisasse de suas moedas e centavos,


querida”, ela responde presunçosamente.

Meus olhos se arregalam e minha boca se abre quando vejo


o maço de dinheiro. “Que diabos?” Agarro aquilo da mão dela e
abro as notas em forma de leque, vendo muitas de um dólar, mas
uma quantidade impressionante de dez e vinte também.

“É assim que se parece quando você consegue lucrar o


valor do seu aluguel em apenas uma noite, querida.” Ela pega de
volta da minha mão. “Tivemos uma despedida de solteiro.”

Muitos caras bêbados regando dinheiro. Eu a vejo deslizar


tudo de volta no bolso de trás e franzo a testa para o brilho em
seus olhos. Faz sentido que ela ganhe muito mais do que eu. Eu
trabalho em um bar. Ela trabalha em um clube. Ela diverte o
público. Eu sirvo bebidas.

Deve ser bom, porém, ir para casa hoje à noite, sabendo


que você será capaz de pagar suas contas amanhã. Que você
pode ir ao supermercado e colocar o que quiser no carrinho.

Eu olho para cima e encontro seus olhos, e posso dizer que


ela está pensando exatamente a mesma coisa. Poderia ser mais
fácil para mim também se eu aceitasse a oferta de emprego do
chefe dela.

Sendo bartender lá, eu não receberia tanto quanto minha


irmã, mas eu faria mais do que aqui.

Mas enquanto o The Hook pode oferecer dinheiro rápido,


nada sobre aquele lugar é fácil. Homens olham para Cam como se
ela fosse uma refeição grátis, e ela aguenta muita merda.

Ainda assim... estou cansada de me preocupar com


dinheiro todos os dias.

Volto ao trabalho, mas sinto seus olhos em mim. Ela acha


que eu sou um hamster em uma roda.

“Apenas cale a boca”, murmuro.

Ela bufa. “Eu não disse nada. Nadinha.”

“Obrigada”, digo, saindo do Mustang de Cam pouco mais de


uma hora depois. Inclino-me no banco da frente e pego minha
bolsa lá atrás, rapidamente olhando por cima do ombro para ver
se o carro de Cole está na garagem.

Não está. Apenas a caminhonete de Pike.


Eu sacudo minha cabeça.

“Você não trabalha amanhã, certo?”, Cam pergunta.

Eu me volto para ela. “Não, mas trabalho no sábado à


noite. Depois eu te mando minha programação.”

“Ok.”

Eu bato a porta e cavo meu bolso em busca da chave da


casa. “Amo você. Tchau”, eu digo.

“Oh, eu comprei algo para você, a propósito!”, Cam grita


pela janela do lado do passageiro aberto. “Olhe na sua mochila
quando entrar no seu quarto. Experimente isso. Veja como se
sente.”

Eu paro, viro-me pela metade e fixo meus olhos nela. “Não


é outro vibrador...”, choramingo.

Ela joga a cabeça para trás e ri do presente que me deu no


meu décimo oitavo aniversário, ano passado. Não teria sido tão
ruim se ela não tivesse deixado eu abri-lo na frente de uma festa
cheia de pessoas.

“Não é isso”, diz ela. “Mas definitivamente é algo que você e


Cole podem desfrutar juntos.” E então empurra o queixo em
direção à casa escura atrás de mim. “Ou, hum… talvez o homem
da casa também goste. O outro homem da casa, quero dizer.”

Ela remexe as sobrancelhas para mim e eu atiro um olhar


irritado para ela. “Nem quero abrir o pacote agora.”

“'Noite!”, ela zomba e se afasta do meio-fio.

Idiota. Eu amo minha irmã, mas ela sabe como me


envergonhar.

Depois de destrancar a porta da frente, eu entro, fecho-a


atrás de mim e torço a fechadura novamente, olhando ao redor da
sala escura. Está arrumado e eu passo pela entrada da cozinha,
observando a pequena luz de fogão deixada acesa do jeito que
aprecio. A pia está vazia de pratos pelo que eu posso ver, e solto o
ar, amando a sensação de chegar em casa e encontrar uma casa
limpa.

Subo as escadas, a casa está em um estranho silêncio ao


meu redor. Andando pelo corredor escuro, levanto a cabeça e vejo
a porta do quarto de Pike à minha frente. Está fechada e
nenhuma luz brilha debaixo da porta.

Abro a primeira porta à esquerda e ligo o interruptor,


descobrindo o que já suspeitava. A cama está vazia. Cole ainda
não chegou.

Largo a bolsa, fechando a porta silenciosamente e tirando o


celular do bolso de trás.

Estou em casa. Onde você está?, digito e espero os três


pontinhos aparecerem, mostrando que ele está respondendo.

Mas depois de alguns momentos, nada acontece e eu jogo


meu telefone na cama.

Ele tem que estar no trabalho em oito horas, e é melhor


que ele vá mesmo. Caso contrário, ele não virá morar comigo
quando eu economizar o suficiente para sair daqui.

Chuto meus sapatos e vou em direção à cama, pronta para


deitar e descansar os meus pés, mas paro, lembrando da “coisa”
que minha irmã disse ter colocado na minha bolsa. Virando-me,
pego minha bolsa e abro, colocando-a na cama. E lá, bem em
cima, há uma sacola de compras com listras cor-de-rosa que não
coloquei ali. É da Victoria's Secret.

Abrindo o pacote, alcanço o interior e imediatamente encho


minha mão com tecido. Suprimo um gemido, meu desejo é de
morrer. Puxo a calcinha de renda creme e uma camisola
combinando que não parece grande o suficiente para cobrir muita
coisa. O decote é baixo e o topo nem é comprido o suficiente para
cobrir meu estômago.

É definitivamente lindo. E sexy. Mas é pequeno demais.


Cole teria uma noite de ação se viesse dormir e me encontrasse
vestindo isso.

Sem preliminares. Ele estaria em cima de mim em um


segundo.

Mas por que ela me comprou isso? Não é como se eu não


usasse roupa íntima sexy. Não preciso de aulas sobre como
manter um cara interessado, obrigada.

Mas então eu noto um pedaço de papel caído na cama que


devia estar com as roupas. Pego a meia folha e leio o panfleto.

Noite das novatas!

Fique molhada! (Sua camiseta, pelo menos)

27 de maio às 21h.

The Hook, na Jamison Lane

Grande Prêmio de $ 300!!

"Ótimo." Sorrio baixinho e solto o panfleto e as roupas,


balançando a cabeça. Minha própria irmã está tentando me
converter. Qual é o problema dela, afinal?

Eu não vou mostrar meus peitos para todos os velhotes


sacanas da cidade por uma chance de ganhar trezentos dólares.
Posso trabalhar no Grounders, porque gosto de algumas pessoas,
ouvindo música e tendo um trabalho onde ganho gorjetas e tenho
sempre algum dinheiro vivo depois de cada turno, mas não há
nada sobre um concurso de camiseta molhada que eu só
apreciaria se estivesse bêbada. Talvez.

Verifico se as persianas estão mesmo fechadas, tiro minha


camiseta e desabotoo meu short jeans. Deixando tudo cair no
chão, eu alcanço minhas costas e tiro meu sutiã e, em seguida,
chego até a cômoda para pegar uma camiseta.

Paro, porém, e olho a nova lingerie caída na cama. Cole


pode lamentar ter ficado fora de casa quando chegar em casa e
vir o que perdeu.

Puxando minha calcinha, pego a nova e gentilmente visto o


conjunto todo. Minha caneca de café com canetas e lápis está em
cima da cômoda e eu me aproximo e pego a tesoura, cortando as
etiquetas de tudo.

De pé na frente do espelho, eu afofo meu cabelo e passo


minhas mãos através dele, ajustando o tecido em meus quadris e
meus seios dentro dos bojos da camisola. Eu me viro, olhando no
espelho por cima do meu ombro.

Não posso segurar o sorriso que espreita. Cam não é idiota,


né? É a cor perfeita para mim, meu bronzeado básico está
destacado ao máximo. A calcinha fica perfeitamente em meus
quadris e mesmo sem muito suporte no topo, meus seios estão
empinados e convidativos. Corro minha mão pelo estômago liso e
subo as curvas da minha cintura, desejando que alguém
estivesse aqui para apreciar a vista e me fazer sorrir.

Uma piscina de calor se instala entre minhas coxas e não


posso deixar de pensar em como uma simples troca de roupa
pode fazer você se sentir tão diferente. Escovo uma das alças do
meu ombro, amando o quão sexy me sinto. O pulsar no meu
clitóris começa a latejar e eu estou definitivamente no clima
agora.
Prendendo a alça no meu ombro, pego meu telefone e envio
outra mensagem a Cole, percebendo que ele ainda não
respondeu.

Eu meio que preciso de você agora mesmo, baby.


*Piscadela piscadela*

Espero, mas os três pontos ainda não aparecem. Inicio o


aplicativo do Spotify no meu celular, tocando Run to You da
Whitney Houston, com cuidado para manter o volume baixo
enquanto caio na cama.

Estou bem acordada agora.

E excitada.

Fechando os olhos, eu deixo a música percorrer sob minha


pele e lentamente deslocar-se através das pontas dos meus
dedos, pelas minhas coxas e de volta para o interior da minha
perna, fazendo cócegas na carne até que arrepios se levantam.
Suavemente coloco meus dedos entre as pernas, rolo meus
quadris e esfrego, meu sangue começando a esquentar e meu
coração bombeando mais rápido enquanto meu clitóris formiga.

Gemo, sentindo meus mamilos endurecidos tocando a


renda. Minha outra mão segura um seio e o aperta enquanto giro
minha cabeça para o lado, meu cabelo caindo sobre meu rosto.

Às vezes me pergunto se eu poderia fazer o que minha irmã


faz. Quando vejo todo o dinheiro que ela traz para casa, e estou
cansada da preocupação e do estresse, me pergunto: posso fazer
isso?

Eu me viro e fico de joelhos enquanto me inclino com as


mãos na cama entre as minhas coxas. Pressiono meus braços em
meus seios, forçando-os juntos, cheios e prestes a saltar para fora
do decote. Rolando minha cabeça, meu cabelo acaricia as costas
enquanto mantenho meus olhos fechados e começo a rebolar no
ritmo da música.

Não, eu não posso fazer o que ela faz. Eu não quero muitos
homens me observando.

Mas um homem? Um namorado? Um homem que anseia


por mim e que estará me assistindo com olhos possessivos
enquanto danço para ele...

Ele está me observando. Estou em uma sala escura, um


brilhante palco branco embaixo de mim e uma suave luz roxa
sobre meu corpo. Eu me movo de quatro, rastejando e mordendo
meu lábio inferior quando me inclino para frente, abrindo minhas
coxas e meus joelhos, pressionando no chão enquanto me arqueio
no palco.

Ele está lá atrás, tão longe, mas ele está lá. Ele é o único
ali. Eu sou tudo para ele. Ele se esconde nas sombras e encosta o
ombro na parede enquanto me observa. Rolo meus quadris
lentamente, provocando e provocando-o, e então volto a ficar de
joelhos, agarrando a cabeceira da cama para me segurar
enquanto danço e remexo.

A alça do meu top cai pelo meu braço, e eu seguro meu


peito nu, olhando por cima do meu ombro para ele. O cigarro —
ou charuto — na mão está ao lado dele, queimando e deixando
uma nuvem de fumaça no ar. Mas ele parece ter se esquecido
disso, enquanto olha para mim.

Ocorre-me que Cole não fuma, mas o pensamento


desaparece tão rapidamente quanto surge.

Eu quero que ele me observe. Quero que ele me queira.


Sinto que ele me deseja e eu gosto disso. Deus, como gosto disso.
Continue me observando. Eu me pergunto que gosto tem sua
boca. Como são seus dentes? Meus mamilos endurecem e ficam
em picos, almejando uma boca.

Vou deixar você muito excitado. Continue me observando.

Eu me inclino para trás sobre minhas mãos, rolando meus


quadris mais rapidamente e com mais força, e posso sentir minha
pele molhada de suor enquanto esfrego minha buceta e mexo
minha bunda para ele.

Só para ele.

“Oh, Deus”, choramingo, sentindo meu orgasmo. “Estou


quase lá, vou gozar...”

Mas então uma batida alta ecoa pela casa, e levanto minha
cabeça e abro meus olhos. Merda!

Eu congelo, escutando. As tábuas do assoalho rangerem no


corredor, e alguém se move e depois desce as escadas. Eu pulo da
cama com pressa, no caso de ser Cole.

Eu não teria acordado o pai dele, teria? Isso foi tão idiota! E
se a cama estivesse rangendo?

Vergonha arde como fogo no meu rosto e vou em direção à


porta do quarto, abrindo-a para dar uma espiada. O corredor
ainda está escuro, mas posso ouvir conversa e então uma porta
bate fechada no andar de baixo.

Franzo a testa. Atravessando o corredor, rapidamente me


escondo no banheiro e fecho a porta. Mantendo a luz apagada,
vou até a janela e abro uma das venezianas.

“Sim, não se preocupe com isso. Eu não me importo de ser


acordado por isso”, ouço Pike dizer, e espio para fora e o vejo de
pé ao lado da piscina, falando em seu telefone. “Bebês são
imprevisíveis. Tome o tempo que você precisar. Nós ficaremos
bem nos próximos dias.”
Ele está vestido com calças cinza, mas sem camisa, e eu o
vejo esfregar a mão no couro cabeludo enquanto boceja. Meus
ombros relaxam um pouco. A ligação provavelmente o acordou.

Ele concorda com a cabeça para quem está falando ao


telefone. “Mande-nos uma mensagem quando a criança nascer.
Parabéns, cara.”

Então ele ri e meus músculos relaxam, muito agradecidos.


Teria sido embaraçoso se ele tivesse me ouvido.

Eu me movo para fechar a janela novamente, mas vejo


quando ele pega alguma coisa de um prato na mesa do jardim e
coloca aquilo em sua boca enquanto continua ouvindo quem está
no telefone.

Eu paro, meus olhos se arregalam enquanto o vejo acender


um cigarro. O cabelo no meu pescoço fica em pé e meu pulso
dispara. Eu fecho a janela, sem me importar se ele vai ouvir.

Que diabos? Nunca o vi fumar. Por que isso teria surgido


na minha…?

Volto rapidamente para meu quarto, fecho a porta e tiro a


lingerie. Vestindo uma camiseta e shorts, desligo a música, a luz
e subo na cama.

Cam e suas estúpidas e malditas mensagens subliminares


de merda. Muito obrigada.

“Ei, Corinne. Meu pai está em casa?”, pergunto ao telefone.


Eu ouço minha madrasta se mover do outro lado, uma
porta de tela se abrindo. “Chip!”, ela grita, com sua voz rouca por
fumar há anos. “É a Jordan!”

A porta range de novo e acho que ouço a fritadeira


funcionando na cozinha. Eu quase posso sentir daqui o linóleo
granulado sob meus pés. Estou muito feliz por estar fora desse
trailer, mesmo que isso signifique estar acampada na casa do pai
de Cole.

“Você precisa de dinheiro?”, ela diz enquanto espero meu


pai vir ao telefone. “Porque nós não temos nenhum. Seu pai
machucou suas costas e perdeu um pouco de trabalho algumas
semanas atrás, então as coisas estão apertadas agora.”

Eu pisco. “Não, eu...”, gaguejo, indignada por sua pergunta.


“Eu não preciso de dinheiro.”

E eles seriam as últimas pessoas a quem eu pediria se


precisasse. Meu pai nunca tem dinheiro por mais de um dia
antes de queimar um buraco no bolso. Uma das muitas razões
pelas quais minha mãe fugiu.

Mas pelo menos meu pai ficou.

“Chip?!”, ela chama de novo, mas depois rosna para os


cachorros. “Saiam do caminho, vocês dois.”

Balanço minha cabeça, a suspeita anterior de que um texto


teria sido melhor agora se solidificando. Se meu pai chegar ao
telefone, vou acabar a ligação brava e sentindo que ele é tão
caloroso quanto essa mulher. Graças a Deus ela não foi minha
madrasta por muito tempo sob aquele telhado. Eu saí assim que
pude.

“Eu só queria que vocês soubessem que me mudei”, digo a


ela. “Caso você precise do meu novo endereço.”
“Oh, certo, certo.” Eu a ouço chupar e sei que está
fumando. “Você foi morar com Cole na casa do pai dele. Sim, nós
ouvimos.”

“Sim eu...”

“Chip!”, ela grita novamente, me interrompendo.

Eu cubro meus olhos, exasperada. “Tudo bem”, digo a ela.


“Isso é tudo que eu tinha a dizer, então não se preocupe com
papai, se ele já sabe. Eu vou... falar com vocês depois.”

“Ok.” Ela sopra a fumaça. “Bem, cuide-se e vou ligar daqui


a uma semana. Você vem para jantar ou algo assim?”

Meu corpo treme com uma risada amarga, mas me


contenho. Não é engraçado. É triste mesmo. Mas ela desliga sem
esperar que eu diga “adeus”, e eu deixo escapar um suspiro,
jogando meu telefone na cama.

Nem meu pai nem minha madrasta são pessoas más,


embora ninguém tenha ligado no meu aniversário.

Nunca me bateram, nem passei fome ou fui verbalmente


abusada. Apenas meia que esquecida, eu acho. Eles brigavam por
qualquer coisa boa na vida, então seria pedir demais para deixar
a responsabilidade ou a preocupação por seus filhos interferir no
pequeno prazer que eles conseguiam reunir em suas noites de
cerveja e bingo.

Depois que Cam foi embora e conseguiu seu próprio lugar,


não tinha ninguém com quem conversar. Eu não era ninguém
naquele trailer, e nunca mais quero sentir isso de novo.

Pego meu caderno da cama e retomo o dever de casa da


minha aula de verão naquele dia. Meu livro se abre à minha
frente e eu clico na minha lapiseira para obter mais grafite.
Uma batida soa na porta do quarto e levanto minha cabeça,
ficando tensa.

“Entre?”, digo, mas parece uma pergunta. Cole não bateria.


Deve ser o pai dele. Eu deixei a roupa na secadora? O fogão está
ligado? Eu repasso minha lista mental.

A porta se abre e Pike está parado, segurando a maçaneta,


mas mantendo-se plantado no corredor.

“Vou pedir pizza para o jantar”, ele me diz. “Cole vai estar
em casa em breve?”

Remexo o lápis nas mãos. “Um de seus amigos foi


promovido na empresa de TV a cabo”, explico, “então estão
fazendo uma festa na fazenda do pai dele. Tenho certeza que ele
vai chegar bem tarde.”

Ele fica lá por um momento, sua grande estrutura


preenchendo toda a porta. Meus olhos continuam correndo para
as tatuagens em seus braços, então apenas olho para baixo,
fingindo estar absorta em meu trabalho.

“Você não vai?”, ele pressiona.

Eu estendo minhas mãos, gesticulando para o dever de


casa na minha frente.

Ele concorda, entendendo. “Bem...”, ele me olha por um


momento, parecendo incerto e depois continua, “você tem que
comer também, certo? Que tipo de pizza você gosta?”

“Não, tudo bem.” Digo a ele, balançando a cabeça. “Eu já


comi.”

Seus olhos caem para o prato com o sanduíche de


manteiga de amendoim meio comido em cima da cama e eu sei o
que ele está pensando. “Ok.”
Ele se move para fechar a porta, mas depois para. “Você
sabe que não precisa se esconder aqui, certo?”

Eu olho para cima, endireitando minha espinha. “Não estou


me escondendo.” Sorrio um pouco, mas acho que ele me
entendeu.

“Você está fazendo suas tarefas”, ele afirma. “Você está


pagando pelo seu direito de estar nesta casa. Então, se você
quiser usar a piscina ou trazer um amigo ou sair deste quarto,
está tudo bem.”

Eu lambo meus lábios secos. “Sim, eu sei.”

“Ok”, ele finalmente diz. “Eu acho que vou comer a pizza
sozinho. Vou ter sobras por dias, como de costume.”

Ele suspira, soando patético.

“Não peça uma grande então”, murmuro, olhando para o


meu caderno novamente.

Mas sua risada é silenciosa antes dele fechar a porta me


dizendo que ouviu meu comentário espertinho.

Tenho certeza de que ele já pediu muitas pizzas em todos


os anos morando aqui sozinho. Ele está apenas tentando ser legal
e fazer com que eu me sinta bem-vinda. O que é ótimo para ele, e
eu agradeço, mas ainda não deixo de me sentir como uma
aproveitadora. Não posso deixar que ele compre pizza para mim
também.

E penso em como eu me sentia sozinha crescendo no trailer


do meu pai e até mesmo em como me sinto sozinha com Cole às
vezes. Talvez Pike Lawson esteja cansado de ficar sozinho, comer
sozinho e assistir TV sozinho. E como sou uma convidada em sua
casa, talvez ele gostasse de conhecer as pessoas que moram sob
seu teto, certo? Seria apenas razoável.
E talvez eu esteja cansada de ficar muito sozinha também,
e talvez eu ainda esteja com fome e a pizza, na verdade, pareça
uma ideia muito boa.

Solto um suspiro e empurro o caderno do meu colo antes


de me levantar. Correndo para a porta do quarto, abro e olho
para fora.

“Joe's Pizza?”, pergunto, vendo-o antes de descer as


escadas.

Ele para e vira a cabeça para olhar para mim. “Claro.”

É a melhor pizza da cidade, por isso é uma decisão fácil.


Saio do quarto e fecho a porta. “Meio a meio?”
Capítulo 5

Pike

De jeito nenhum ela vai pagar pela metade da pizza, pelo


amor de Deus. Eu a convidei, não é? E o ponto deles ficarem aqui
é economizar dinheiro, não é? Eu passo por ela, ignorando o
dinheiro em sua mão enquanto carrego a pizza para a ilha da
cozinha.

Ela suspira, deixando escapar um pequeno resmungo.


Sorrio. “Olha, eu paguei a pizza, ok? Apenas certifique-se de que
eu não tenha alface na minha metade.”

“Haha.” Ela caminha até a geladeira e pega dois


refrigerantes.

Eu sou um homem simples, que gosta de pepperoni, posso


encarar uma pizza sabor taco, mas não aquela alface picada e
quente que vem com ela. Ela pode comer aquilo sozinha.

Dividimos as fatias em dois pratos, mas antes de irmos


para a sala, ela deixa cair uma pilha de verduras no meu prato
com uma pinça.

“Uh, obrigado.”
“Se você comer os vegetais primeiro”, ela aponta, “você terá
menos espaço para pizza. Um pequeno truque que peguei no
Pinterest.”

Pinter-o que?

“Você comerá menos pizza então”, continua ela, “consumirá


menos calorias e se sentirá melhor depois da refeição.”

Sim, tudo bem. Se eu me importasse em consumir menos


calorias, eu acho.

Bem. Foda-se. Tanto faz. Eu vou até a geladeira e pego o


molho Ranch no interior da porta.

“Não”, ela deixa escapar, me parando. “Já está com molho


de salada. Vinagrete de framboesa.”

Eu fico ereto e lanço um olhar.

Ela apenas sorri e se afasta.

Eu pego dois garfos, passo-lhe um e levo meu prato e


refrigerante para a sala de estar com ela atrás.

Uma vez sentado, pego meu garfo e solto um suspiro antes


de cavar a salada. Eu lembro o que minha mãe disse sobre os
vegetais enquanto eu crescia. Eles têm um gosto melhor se você
os comer quando estiver com fome. Vou acabar com isso e comê-
los primeiro como Jordan sugeriu então.

Encho a boca com uma garfada, o gosto amargo das folhas


entorpecido apenas um pouco pelo molho doce.

“Gostoso, certo?”, ela diz.

“Não.” Balanço minha cabeça. “Você está me matando.”

Ela ri. “Bem, obrigada por dar uma chance. Você pode
parar se quiser.”
Mas persevero mesmo assim. Não é como se eu não
pudesse aproveitar uma dose de verduras, certo?

E não é como se eu odiasse legumes. Eu gosto de milho na


espiga e como... batatas e outras coisas. Isso tecnicamente é
vegetal, certo?

“Então, o que você está assistindo?”, ela pergunta.

Eu olho para a TV e percebo que o volume está baixo


demais. Alcanço o controle remoto e aumento o som. “Clube da
luta”, digo a ela.

“Oh, ei. Nasci no ano em que isso foi gravado.”

Eu arqueio uma sobrancelha, mas mantenho minha boca


fechada.

Eu faço as contas na minha cabeça, lembrando que vi o


filme no meu último ano do ensino médio. Então, sim, isso está
certo.

Merda, estou ficando velho. Só de pensar em tudo o que se


passou na minha vida que ela não estava por perto ou com idade
suficiente para lembrar. Olho para ela, observando sua pele
jovem e olhos esperançosos.

Ela esteve no ensino médio há apenas um ano.

Nós comemos em silêncio pelas próximas duas horas,


absortos em um dos meus filmes favoritos. Não tenho ideia se ela
já o assistiu, mas depois de um tempo, ela deixa seu prato meio
comido e esquecido na mesa de café, e se senta na outra
extremidade do sofá, abraçando as pernas e observando
atentamente.

“Eles fazem o cigarro parecer tão apetitoso”, ela finalmente


diz, observando Marla Singer na tela.

“Apetitoso?”
Ela limpa a garganta e se senta melhor. “Bem, é como
Bruce Willis”, explica ela. “Eu seria capaz de vê-lo fumando por
dias. É como se ele estivesse comendo. Comendo um bom
suculento...”

“Bife”, termino por ela, entendendo.

“Exatamente.” Ela pisca para mim exibindo um sorriso


suave. “Eles dominam isso totalmente. É parte do guarda-roupa
deles.”

“Bem”, eu suspiro, juntando nossos pratos e me


levantando. “Não comece a fumar.”

“Você fuma.”

Eu paro, olhando para ela. Eu só fumei uma vez desde que


eles se mudaram e nunca fumo dentro de casa. Eu acho que nem
Cole sabe que eu fumo.

Ela esclarece, provavelmente vendo a confusão no meu


rosto. “Eu notei a ponta do cigarro no cinzeiro do lado de fora”,
diz ela.

Ah. Continuo em direção à cozinha, levando os pratos ao


redor da mesa de café. “Em raras ocasiões, sim. Eu gosto do
cheiro.”

“Por quê?” Ela se levanta do sofá, pegando as latas de


refrigerante vazias e os guardanapos, vindo atrás de mim.

“Eu apenas fumo.” Limpo os pratos e os coloco na lava-


louças. “Meu avô, ele fumou, então...”

Pereceu natural começar a compartilhar, mas de repente


soava estúpido.

“Então…?”, ela pressiona.


Mas eu apenas balanço minha cabeça, fecho a porta da
máquina de lavar louça e ligo o equipamento. “Eu só gosto do
cheiro, é tudo”, termino bruscamente.

Não sei por que estou tendo problemas em conversar com


ela. Não há mistério aqui. Meu avô foi incrível e eu tive uma
grande infância, mas quanto mais crescia, mais longe me sentia
desse sentimento de quando eu tinha oito anos. A sensação de
estar em algum lugar que eu amava e sentir o que sentia.

Felicidade.

Fumo um cigarro de vez em quando para me levar de volta


para lá.

Não é o tipo de coisa que me sinto à vontade em


compartilhar com qualquer um, no entanto.

Mas é engraçado o quão perto cheguei de fazer exatamente


isso com ela há um minuto.

Posso sentir seus olhos em mim e o constrangimento


rasteja sob minha pele.

“Você quer uma cerveja?”, pergunto, abrindo a geladeira e


pegando duas. Qualquer coisa para mudar de assunto.

“Hum ... claro.”

Abro as tampas e entrego a ela uma Corona, finalmente


encontrando seus olhos. Seus olhos muito jovens, muito azuis e
muito com jeito de dezenove anos. Merda. Esqueci outra vez que
ela é menor de idade.

Tanto faz. Eu tomo um gole e saio da cozinha. Ela trabalha


em um bar, não é? Tenho certeza de que os clientes já
compraram bebidas para ela antes.

Coloco minha bunda de volta no sofá, pendurando meu


braço ao redor do encosto e tomando outro gole. O filme ainda
tem alguns minutos e ela senta do outro lado para terminar de
assistir, mas parece que não consigo me concentrar mais.

E não acho que ela esteja assistindo também.

Algo mudou. A conversa foi fácil e depois não foi mais. E é


minha culpa. Sou frio. Em algum lugar depois de Lindsay e do
caos, parei de conseguir me abrir. Também me acostumei a ficar
sozinho.

Franzo a testa. Eu não quero que ela me evite, porque não


posso continuar uma conversa. Ela é namorada do Cole, e não
quero mais paredes entre ele e mim. Ela poderia me ajudar com
isso.

“Você está planejando ficar na cidade depois de terminar a


faculdade?”, pergunto.

Ela olha e encolhe os ombros um pouco. “Não tenho


certeza. Ainda faltam alguns anos”, diz ela. “Eu realmente não me
importo com isso aqui, desde que possa pagar por algumas férias
de vez em quando.” Ela ri um pouco. “Eu só não quero estar
trabalhando em um emprego sem futuro para sempre, sabe? Se
puder encontrar um trabalho na área, então pode ser bom ficar
por perto da minha irmã e do meu sobrinho por um tempo.”

Há muita construção acontecendo aqui e nas cidades e


subúrbios vizinhos. É por isso que achei fácil ficar todos esses
anos. Se ela está se interessando por paisagismo, é bem possível
que tenha boas perspectivas se permanecer na área.

“Você já viajou?”, pergunto, olhando para ela.

Mas então paro, de repente, esquecendo o que eu estava


dizendo. Deixo meus olhos descerem sobre sua bunda, seu corpo
agora se contorce enquanto ela se inclina sobre o braço do sofá
para colocar a cerveja no chão. Seus pequenos shorts abraçam
cada curva, seus joelhos estão um pouco abertos e, por um
momento, sou atraído a mergulhar profundamente entre suas
coxas.

Calor inunda minha virilha e meu pau lateja.

Merda. Olho para longe

Eu luto por ar e suor explode no meu pescoço. Que porra é


essa?

Ela pode não parecer jovem, mas é. É uma criança. O que


diabos estou fazendo?

Ela se senta para trás e eu levanto minha garrafa, tomando


outro gole para encobrir meu nervosismo.

“Não realmente”, ela responde.

O que perguntei a ela mesmo? Oh, certo. Viagens.

“Eu fui à Nova Orleans com minha irmã quando tinha


quinze anos e ganhei uma bolsa de estudos para um
acampamento de verão na Virgínia aos doze”, ela me diz. “Foi
isso.”

“New Orleans aos quinze anos?”, brinco. Deve ter sido


interessante.

Um sorriso pensativo cruza seu rosto, mas desaparece


rapidamente. “É onde minha mãe mora”, diz ela.

Ah, sim, isso mesmo. Seu pai é Chip Hadley. Não presto
muita atenção a fofocas, mas sei que ele foi casado algumas
vezes.

Jordan limpa a garganta, sentando-se. “Ela foi embora


quando eu tinha quatro anos.”

Quatro? Que tipo de pessoa a deixaria assim?


Ela se senta em silêncio, parecendo estar pensando, e um
desejo me acomete, querendo tê-la em meus braços.

Agora mesmo.

“Quando minha irmã se formou no ensino médio, nós a


rastreamos”, explica ela, “e fizemos uma viagem de carro naquele
verão para visitá-la.”

“Como foi?”

Ela encolhe os ombros um pouco. “Bem eu acho. Ela


trabalhava como garçonete, tinha um pequeno apartamento e
vivia sua vida. Ela ficou feliz em nos ver. Agora que estamos
crescidas e não precisamos de muito cuidado, suponho”,
acrescenta ela.

Ela finalmente olha para mim, dando um sorriso triste.

“Você perguntou por que ela foi embora?”, pergunto.

Mas ela apenas balança a cabeça. “Não, eu costumava


querer saber, mas quando a conheci, realmente não fazia mais
diferença.” Ela faz uma pausa e acrescenta: “Não gostei dela.”

Eu a observo, permanecendo quieto. Cole tem esses


pensamentos sobre mim?

“Então, você já foi casado?” Sua voz é leve e eu posso dizer


que ela está tentando mudar de assunto.

Eu me sento, respirando fundo e revirando os olhos para


mim mesmo. “A mãe de Cole e eu não duramos muito tempo
juntos depois que ele nasceu”, digo a ela, “e eu não sei... fui pego
tentando construir um meio de vida — um futuro. Acostumei a
ficar sozinho.”

Corro meus dedos sobre meu couro cabeludo, finalmente


descansando minha cabeça na mão e olhando para ela. Mas ela
parece cética, estudando-me com algo cauteloso em seus olhos.
Como se não acreditasse que é por isso que ainda sou solteiro.

“Houve chances de casar”, eu digo, confirmando a ela, “mas


acho que mesmo no colégio eu nunca quis ser um dos números e
fazer o que eu deveria fazer, sabe? Formar, arrumar um emprego,
casar, ter filhos... morrer.”

Eu solto uma risada, mas surpreendentemente, as palavras


estão se tornando fáceis agora.

“Meu avô, aquele que também fumava cigarro”, esclareço,


“faleceu quando eu tinha nove anos, mas ainda me lembro de
uma festa na casa que meus pais tinham quando meu pai
terminou a faculdade. Ele tinha trinta e poucos anos, o primeiro
da família a obter um diploma universitário, então foi um grande
acontecimento.”

Ela se senta no banco, segurando a garrafa com as duas


mãos e ouvindo.

“Eu acho que tinha seis anos na época”, digo a ela. “Meus
avós estavam lá, e todos falavam e riam, mas o que mais me
lembro é do meu avô, com seus sessenta anos, mais de um metro
e oitenta de altura e cento e treze quilos sacudindo as fundações
da casa, porque estava dançando por aí e pulando a música Jump
das Pinter Sisters.”

Ela abre um sorriso. Sim, você pode imaginar isso.

“Minha avó assistia da mesa, rindo com todo mundo com


aquele olhar de alegria.” Engulo, lembrando o enorme sorriso em
seu rosto. “Todo mundo estava tão feliz, e mesmo com sua idade,
eles continuavam crescendo, se divertindo, sendo bobos...” Eu
paro. “Não sei. Gostei daquilo, eu acho.”

“Você quer isso”, diz Jordan em voz baixa.


Penso em meus avós, constantemente fazendo um ao outro
sorrir e em todas as mulheres com quem estive e como eu nunca
senti isso. Nem mesmo com Lindsay. Eu provavelmente sou
incapaz.

“Só não parecia forçado, sabe?” Eu continuo, voltando-me


para ela. “Eles me fizeram estabelecer um padrão bem alto. É
difícil encontrar uma pessoa que fale a mesma língua.”

Ela deixa seus olhos baixarem, parecendo estar


profundamente em pensamentos.

Eu continuo, mudando de assunto. “E você?”, brinco.


“Alguma ideia de como quer que sua vida seja algum dia? Seu
matrimônio, o casamento, o dia perfeito, o vestido perfeito...?”

Ela apenas suspira e toma um gole da garrafa. “Eu


realmente não me importo com o casamento”, diz ela, olhando
para a televisão. “Eu só quero a vida.”

A vida.

Essas palavras me acertam com força e não sei por quê.

Talvez eu ainda esteja esperando pela mesma coisa.

Mais de uma semana depois, e a casa se estabeleceu em


uma rotina, graças à nossa noite de pizza e cinema.

Jordan geralmente já está acordada quando desço as


escadas de manhã, e noto que há um brilho nas mesas e
bancadas que não estava lá na noite anterior. O chão está limpo,
a geladeira está magicamente sem comida estragada e sobras de
três dias, e os eletrodomésticos brilham.
Tudo cheira gostoso também, e às vezes é porque ela fez
bolinhos ou panquecas, e às vezes é por causa das velas
perfumadas que não me importo mais que ela queime pela casa.
Ela usa uma cafeteira francesa para fazer café e parei de usar
minha máquina de café em favor dela.

Qualquer coisa que Cole tenha deixado na sala de estar,


como sapatos ou latas de refrigerante, na noite anterior,
desaparecem de repente, e não consigo me lembrar da última vez
que tive que descarregar a lava-louças.

E nem por um momento acredito que seja graças ao meu


filho. Ele se tornou muito preguiçoso, parece, e não percebi como
ele mudou.

Quanto mais ele crescia, menos tempo queria passar


comigo, e eu vejo lembretes de quando sua mãe estava comigo em
como ele trata Jordan agora. Ele é negligente e me vejo rangendo
os dentes para manter minha boca fechada e minhas opiniões
para mim.

Amo meu filho, mas é difícil compreender por que ele a


merece.

Ele quase nunca está em casa, exceto para dormir, e


quando está, Jordan está no trabalho até as duas da manhã. Eu
estava preocupado em vê-los fazendo sexo no sofá ou algo assim
quando ofereci para deixá-los morar aqui, mas, graças a Deus, os
horários deles não combinam bem, então dificilmente estão aqui
ao mesmo tempo. E se estiverem, estou no trabalho e não tenho
que ouvir ou ver nada.

Ainda assim, ela está muito sozinha. Ele nem fica em casa
em suas noites de folga, e me pergunto por que diabos ela
aguenta isso. Ela parece capaz e com força de vontade. Uma
garota que consegue lidar sozinha com as coisas. O que os uniu?
Ela não parece ter ninguém além de Cole e essa irmã dela, na
verdade. Nenhum amigo ou outro membro da família apareceu
aqui para vê-la pelo que posso dizer.

De qualquer maneira, no entanto, estou gostando de tê-la


por perto, mesmo que desejando que Cole estivesse mais em casa.
Eu começo a sorrir assim que passo pela porta todas as tardes,
ao ouvir sua música dos anos 80 preenchendo a casa e de
alguma forma fazendo com que pareça ainda mais com a hora de
verão aqui. É bom não voltar para uma casa vazia, e eu me vejo
deixando o trabalho no horário certo todos os dias, porque
realmente gosto de estar em casa agora.

Ela e eu conversamos mais nos últimos dias, perguntando


sobre como o trabalho está ou como a faculdade está indo para
ela, e a garota tem uma habilidade incomum para me fazer
conversar. Ela gosta de remexer nas histórias e é boa em provocar
ou fazer piadas para me deixar à vontade.

Eu poderia passar bem sem sua lasanha de berinjela, com


certeza, mas se ela não estivesse aqui, Cole estaria me evitando
ainda mais do que está fazendo agora, e eu não estaria segurando
minha língua com ele tão bem quanto estou. Estou feliz que ela
esteja aqui.

Segurando o saco de roupa suja por cima do ombro, desço


as escadas, dou a volta no corrimão e entro na lavanderia.

Depois de tirar minhas roupas da secadora, removo o


material da máquina de lavar e coloco uma nova carga, ligando as
duas máquinas novamente. Vejo sinal de poeira na frente da
minha camiseta por ter trabalhado na garagem esta manhã e
retiro-a, deixando-a cair na água corrente antes de fechar a
tampa.

Depositando o saco em cima da secadora, pego a cesta e


volto para o andar de cima. No meu quarto, despejo as roupas
secas sobre a cama e vasculho a pilha, procurando outra
camiseta.

Mas eu paro, roçando meus dedos sobre um pedacinho de


tecido vermelho que não reconheço. Está aninhado em meus
jeans e não preciso pensar duas vezes para saber o que é.

Fico em pé, endireitando minha espinha.

Merda.

Enganchando meu dedo através do pequeno elástico, olho o


fio dental vermelho transparente pendurado no meu dedo.

“Que diabos?”, digo baixinho, olhando para as roupas que


trouxe para cima e tendo certeza que são minhas mesmo. “Como
isso entrou nas minhas coisas?”

“Jord...” Eu chamo, mas paro, percebendo o quão estranho


vai parecer se eu estiver com a calcinha dela. Vou parecer uma
aberração, ao ser pego com a calcinha dela. Jesus.

Eu deixo cair a peça como se fosse uma panela quente.

Ela cai sobre a cama e eu esfrego a nuca, sentindo o leve


suor em minha pele. Minha mente vagueia.

Já faz muito tempo desde que a calcinha de qualquer


mulher esteve em minha cama. Ou sobre minha cama.

E certamente não foi nenhum fio-dental também. Uma


imagem da inocente namorada do meu filho usando isso pisca na
minha cabeça, e eu olho em volta, recuando um pouco. “Porra.
Vou acabar no inferno.”

Recolho toda a roupa de novo, enterrando a peça no meio


das minhas para escondê-la, pensando em levar a cesta de volta
ao andar de baixo. Vou apenas jogar a calcinha em cima da
secadora ou algo assim e deixar que Jordan a encontre.
Pegando a cesta, porém, registro o barulho suave do
cortador de grama sendo ligado do lado de fora e coloco a roupa
de volta, andando até a janela.

Jordan está no quintal, marchando de um lado para o


outro na grama e empurrando meu cortador de grama. O que há
com ela?

Eu travo minha mandíbula, ficando irritado. Pedi a Cole


para cortar a maldita grama. Ajudar com o trabalho no quintal é
responsabilidade dele.

Vejo quando ela balança a cabeça, e é quando percebo o


zumbido agudo de guitarras e as batidas de um tambor. Ela deve
estar ouvindo música.

Deixo escapar um sorriso. Que banda de cabeludo horrível


dos anos 80 ela está ouvindo hoje?

O suor escurece sua camiseta cinza no meio das costas e,


mesmo daqui, posso ver o cabelo dela, alguns fios tendo se
soltado de seu rabo de cavalo e grudado em seu pescoço. Seus
shorts curtos e brancos mostram os músculos de suas coxas e
panturrilhas sendo flexionadas enquanto ela empurra a máquina.
Sua pele brilha com o suor e eu fico focado na parte baixa de
suas costas, vendo sua pele úmida brilhar sob a luz do sol.

Ondas de calor descem no meu estômago e meu sorriso


desaparece enquanto eu a assisto.

Estou congelado. Não quero desviar o olhar.

Mas finalmente, pisco, impedindo meus olhos e engolindo


através da secura na minha boca.

Ela não tem algum projeto ou alguma coisa para trabalhar


em sua aula de verão? Ela mencionou isso há alguns dias atrás.
Cole pode cuidar do maldito gramado.
Estendendo minha mão, levanto a janela e enfio a cabeça
para fora, abrindo a boca para chamá-la, mas de repente ela solta
a máquina, balança a cabeça para trás e para frente, e entra no
modo de guitarra ao ar.

Eu paro e a observo, franzindo minha testa, mas quase


soltando uma gargalhada também.

“Pour some sugar on me!”, Grita o alto-falante Bluetooth.


“Ooooh, in the name of love!”

Ela sincroniza os lábios, dobrando-se para trás e, em


seguida, requebra-se em outros movimentos, dançando e
deixando-se levar pela música.

Agarrando a máquina novamente, ela a usa como apoio


enquanto joga a cabeça de um lado para o outro, sacudindo o
cabelo e balançando os quadris. O elástico de seu rabo de cavalo
se solta e as mechas balançam ao redor, os belos fios ondulados
caindo em seu rosto e fazendo-a parecer absolutamente linda.
Meus pulmões doem por ar enquanto o desejo me rasga,
observando-a se mover. Deus, se ela é sua, como você pode não
estar tocando nela o tempo todo?

Paro o pensamento, porém, e começo a puxar minha


cabeça de volta, mas vejo Kyle Cramer ao lado, de pé na varanda
do seu quarto.

Ele olha para Jordan, observando-a dançar.

Meus dedos se apertam ao redor da moldura da janela.

Idiota. Seus filhos provavelmente estão dentro de casa e ele


está olhando para Jordan como um maldito pervertido.

Tento não pensar sobre como estou praticamente fazendo a


mesma coisa, mas sinto uma necessidade protetora de pegar uma
maldita espingarda ou algo assim. Esta aqui não vai servir de
babá para você, seu idiota.
O cortador de grama morre de repente e eu volto para
Jordan bem a tempo de vê-la caminhar até a beira da piscina,
respirando pesadamente e molhada de suor. Ela empurra o
cabelo para fora do rosto, inspira profundamente e então dá um
passo, caindo no fundo da piscina e afundando com roupa e
tudo.

Eu paro de respirar.

Está muito quente hoje. Perto dos trinta e três graus e ela
precisa se refrescar. Levanto meus olhos e vejo Kyle ainda
observando enquanto ela reaparece na superfície, suas roupas
coladas ao corpo como uma segunda pele. Dois pequenos pontos
eretos ficam bem visíveis debaixo da camiseta molhada de Jordan
e eu vejo um sorriso curvar o rosto dele.

“Mas que porra é essa?”, resmungo baixinho. Puxando


minha cabeça de volta para dentro do quarto, bato a janela
fechada.

Deixando o quarto, corro pelo corredor e desço pelas


escadas. Movendo-me pela cozinha, atravesso a lavanderia e saio
pela porta dos fundos. Jordan está nadando para a borda da
piscina novamente, saindo.

Levanto meus olhos para cima e vejo Kyle ainda


observando enquanto ela sobe, suas roupas coladas ao corpo e a
água escorrendo por cada centímetro de pele disponível.

Seus olhos piscam para mim e eu mostro meu dedo do


meio para ele. Ele apenas ri e balança a cabeça, voltando para
dentro de casa.

Jordan agarra o cabelo, trazendo-o por cima do ombro e


torcendo. Meu olhar desce por suas pernas, a água escorrendo
por suas coxas tonificadas e seu short marcando o contorno de
sua bunda.
Eu me endireito, colocando uma expressão severa.
“Jordan”, eu chamo.

Ela se vira, vendo-me e hesita apenas um momento antes


de se dirigir a mim. Ela deve ter alguma noção de que não está
muito apropriada agora, porque cruza os braços sobre o peito.

“Eu pensei que havia pedido a Cole para cortar a grama.”


Eu tento esconder o gemido em meu peito.

Ela balança a cabeça e pega a água gelada de cima da mesa


do gramado. “Contando que o serviço seja feito, certo?” E então
ela olha para mim, perguntando: “Estou fazendo um trabalho
ruim?”

“Claro, que n-não”, respondo rapidamente, odiando a


facilidade com que ela faz com que me sinta como um idiota
ingrato. “Parece bom, mas você já faz o suficiente. Mais do que o
suficiente. Ele deve lidar com o trabalho no quintal. Ele pode
encontrar um maldito tempo.”

“Tudo bem.” Ela me afasta e coloca a água para baixo,


voltando-se para o cortador de grama. “Eu preciso de sol e
exercício de qualquer maneira.”

“Vou terminar.” Eu a impeço de continuar, seguindo para o


cortador.

Mas ela me pega pelo braço. “Eu entendi”, ela afirma, raiva
crescendo em seus olhos. “É sério. Nós não estamos aqui em um
passeio de graça. Eu posso lidar com algumas tarefas.

“Não vestida deste jeito.”

Suas sobrancelhas se juntam. “Como é que é?”

Eu avanço, liberando minha voz enquanto falo com ela.


“Meu vizinho está bem ali na varanda assistindo todos os seus
movimentos aqui fora”, eu ladro. “Deus sabe o que ele está
pensando.”

“Isso não é problema meu”, ela argumenta. “Eu estava com


calor. Pulei na piscina. Não tirei as roupas.”

“Sim, suas roupas parecem uma segunda pele”, termino


por ela, com meus dentes à mostra. “Você não pode usar essa
merda aqui. É um bairro familiar. Não é o clube de striptease da
sua irmã.”

“Eu estou no quintal!” Ela resmunga, com o rosto tenso.


“Quem se importa como estou vestida?”

“As esposas do bairro vão se importar!”

Ela arqueia uma sobrancelha e seu peito infla com


respirações raivosas.

Eu olho para ela, acalmando minha voz. “As esposas neste


bairro não apreciam provocações ao redor e insinuações aos seus
maridos, ok?” Eu declaro em inglês claro e então ela entende.

Mas ela apenas solta uma risada amarga como se não


pudesse acreditar que eu estou dizendo a verdade. “Uh... sim,
uau.” Ela balança a cabeça e toma uma respiração profunda,
levantando o queixo e olhando para mim de frente. “Hum, ok,
aqui está... Eu sei que as coisas provavelmente eram um pouco
diferentes quando você era jovem —OITENTA E NOVE ANOS
ATRÁS!”, ela dispara de volta.

“Foi há vinte anos, obrigado.”

“Mas hoje em dia”, continua ela, “não consideramos uma


mulher responsável pelo comportamento de um homem.” Seus
olhos perfuram e há uma pequena carranca em seus lábios. “Se
ele quiser olhar, eu não posso impedir ninguém. Se ele quer ir
para algum lugar privado e fazer um pouco de amor-por-conta-
própria, ei, eu nunca vou saber. Não é problema meu!”
Eu cerro meus punhos. Maldita pirralha.

Não consigo recuperar o fôlego, mas não quebramos


contato visual.

Ela está certa.

Eu sei que ela está certa. Ela não está fazendo nada de
errado. Eu apenas…

Não gosto dele olhando.

Para ela.

Depois de alguns segundos, recomponho-me e fico ereto,


sentindo prazer em ser pelo menos trinta centímetros mais alto.
“Cole faz o trabalho no quintal. Ou eu faço”, digo a ela, dando a
volta nela e indo em direção ao cortador de grama. “Entendeu?”

Eu não espero por uma resposta enquanto giro e chego ao


cortador de grama.

Mas ouço sua voz baixa e doce atrás de mim. “Sim, Papai.”

Pisco longa e duramente, minha mão formigando com o


desejo de dar uma surra em alguém, pela primeira vez na minha
vida.
Capítulo 6

Jordan

Não falo com Pike desde a discussão de ontem. Eu me


recuso a chamar aquilo de briga. Nós mal nos conhecemos. Como
podemos estar brigando?

Eu também não falo com Cole desde ontem, mas por


alguma razão, isso não está me incomodando. É como nós dois
funcionamos. Ele foi embora ontem, ajudar um amigo com seu
carro e quando chegou em casa eu já estava no bar. Nesta manhã
fiquei dormindo, mais como um esforço para evitar Pike pela
casa, e só acordei uma vez, quando Cole me deu um beijo de
adeus na bochecha antes de sair para o trabalho.

Meu estômago está se revirando a manhã toda. Por que


diabos Pike estava tão zangado? Pensei que estivéssemos nos
dando bem. Eu não fiz nada de errado. Na verdade, estava
cortando a porra da grama, e quando dei por mim, ele estava me
dando uma bronca — como se eu estivesse fazendo topless no
gramado da frente, enquanto crianças de seis anos apostavam
corrida de bicicleta pela rua.

Ele é tão volátil. Muito diferente de seu filho, que nunca


leva nada a sério.
Desço do carro de Cole, que pegou uma carona com um de
seus amigos esta manhã para que eu pudesse ir à biblioteca.
Pego a lancheira de Pike — que ele deixou em casa — e dou uma
olhada ao redor do local de trabalho. Está mais movimentado do
que da última vez que estive aqui.

Trabalhadores se movimentam vestidos com capacetes e


faixas de couro marrom com ferramentas penduradas em seus
quadris, a poeira levanta atrás dos caminhões que estão entrando
e saindo do local. Martelos batem em aço e homens com botas
sujas e calças jeans surradas erguem vigas altas pelo ar
enquanto fazem seu trabalho de transformar materiais em um
edifício. Não são muitos que conseguem ter esta visão do
esqueleto nu. Eu me pergunto por que Cole não trabalha para
seu pai. Este trabalho deve pagar bem. Eu conheço alguns desses
caras, afinal de contas. Eles sustentam suas famílias com este
emprego.

Meu olhar vagueia, à procura de alguém disponível com


quem deixar a lancheira, mas também estou meio em alerta, à
procura das tatuagens de Pike. Eu não quero encontrar com ele,
sério. Meu plano quando vi que ele havia deixado seu almoço em
casa esta manhã foi o de fazer uma boa ação, entregando-o aqui e
passando para ele a bola com a oportunidade de superar nossa
discussão ao me procurar para agradecer o gesto. Eu quero
acabar com todo o constrangimento que há entre nós.

Pisando por cima da sujeira e dos detritos que estão em


volta, caminho até a estrutura e localizo o amigo dele, Dutch,
curvando-se para pegar alguma coisa que está lá dentro. Ele
percebe que estou ali e se levanta.

“Oi, Dutch.” Eu sorrio. “Pike está por aqui?”

Seus olhos se voltam para o saco térmico preto na minha


mão. “Almoço dele?”
“Ele o deixou sobre a mesa da cozinha.” Eu estendo a
embalagem. “Pensei em trazer até aqui enquanto estava na rua
fazendo algumas tarefas.”

“Legal de sua parte.” Mas ele não pega a lancheira. Em vez


disso, ele joga uma ferramenta para baixo dentro de uma caixa e
faz um gesto para mim. “Vamos, vou levá-la para cima.”

“Oh, não, tudo bem”, eu digo a ele. “Não quero incomodá-


lo. Vou deixar isso aqui com você.”

“Se você deixar isso comigo, eu vou comer tudo. Ou vou


acabar perdendo.” Ele ri e me leva por algumas escadas.

Meus ombros se encolhem. Maravilha.

Subimos até o terceiro andar, pegando o que eu assumo


que virá a ser a escada de emergência, uma vez que os elevadores
forem instalados, e chegamos a um patamar que tem apenas as
molduras de onde ficarão as paredes, mostrando como os
escritórios e áreas de trabalho serão divididos uma vez que tudo
estiver pronto.

Pike é o único naquele andar, afastado no lado esquerdo e


pairando sobre uma prancheta.

Ele ouve nossa aproximação e levanta o olhar de sua


papelada, virando a cabeça.

Seus olhos se estreitam em mim, e eu pisco longamente e


com força, sentindo-me estúpida.

Ele está vestindo uma camiseta azul marinho, e esta cor


nele traz calor para minhas bochechas. Eu amo como fica bem
contra seus braços bronzeados e contra as curvas de seus bíceps.

“O que você está fazendo aqui?”, ele pergunta.

Ele não soa irritado como eu temia, no entanto. Apenas


intrigado.
Eu levanto o saco. “Você deixou seu almoço em cima da
mesa.”

Sua expressão relaxa e a tensão em seu corpo abranda.


“Oh, obrigado.” Ele caminha até mim e eu o entrego a ele. “Estava
tudo bem, apesar disso”, ele me diz. “Eu poderia ter comprado
alguma coisa no food truck. Você não precisava ter se
incomodado.”

Food truck? “Bem, eu não podia deixar que você comesse


as porcarias de um food truck”, eu digo.

E, para meu alívio, ele sorri um pouco. “É basicamente a


mesma coisa que tem aí dentro”, ele aponta, colocando a
embalagem do almoço sobre uma mesa de trabalho.

Mas estou à frente dele. “Bem, eu incluí aí um wrap4 de


pepino, peru e queijo, apenas no caso de você querer algo
diferente.”

Seu rosto demonstra surpresa.

“Não se preocupe” brinco. “O seu almoço ainda está aí. Eu


só fiz comida demais e precisava de ajuda para terminar com os
wraps.”

O ligeiro medo em seus olhos se dissipa, e ele inspira. “Você


não vai ficar feliz enquanto eu não estiver comendo homus não
é?”

Tento não rir. “Vou convencendo você aos poucos.”

Ele revira os olhos, e eu finalmente tomo uma inspiração


profunda. Acho que superamos a discussão.

4
Fico ali de pé, sentindo seus olhos sobre mim, os sons de
martelos batendo e a brisa soprando através da estrutura e
lentamente enfraquecendo.

Então eu percebo que Dutch ainda está ali.

Nós dois olhamos para ele, que está alternando seu olhar
entre nós.

“Eu vou...” ele engole em seco e limpa sua garganta. “Fazer


alguma coisa”, diz ele e vai embora, deixando-nos a sós.

Olho para trás, para Pike, e acho que devo partir também e
deixá-lo, mas em vez disso, enfio minhas mãos nos bolsos e dou
uma olhada em volta. “A serragem cheira bem” digo a ele.

Um sorriso cruza seus olhos e ele balança a cabeça,


olhando ao redor. “Sim. É muito familiar para mim.”

Quando nossos olhares se encontram novamente, ondas de


calor descem para minha barriga e eu me esqueço de respirar por
um momento. Rapidamente desvio o olhar.

“Peço desculpas por descarregar em você ontem”, diz ele.


“Você não fez nada de errado. Cramer estava olhando de soslaio,
e foi assustador. Eu fiquei incomodado.” E então ele esclarece,
“Incomodado com ele, quero dizer. Desculpe-me, acabei
descontando em você.”

“Eu trabalho em um bar”, aponto. “Estou acostumada com


um pouco de malícia. Dou conta disso.”

Realmente, posso me posicionar e lutar pela minha honra


por conta própria. E Cole também. Se alguma vez isso lhe ocorrer.
Pike não precisa se sentir responsável por mim. Eu não sou nada
dele e ele não precisa cuidar de mim.

“Bem, vou indo”, digo a ele e começo a recuar.


Mas ele me para. “Quer ver?”, ele oferece. “Um pequeno
tour?”

Já vi bastante do lugar, já que estive construindo


barricadas de areia na semana passada, mas concordo de
qualquer maneira. “Sim, é claro.”

Ele me leva para a parte trás do edifício e me pergunto se


deveria estar usando um capacete, mas como ele não está usando
um, então, não pergunto nada.

“Aqui ficarão os escritórios daquele navio cassino que está


vindo para esta região”, explica ele. “Haverá um pavilhão na doca
com restaurantes e espaço para eventos, mas tudo será
comandado a partir daqui. Contratação, finanças, publicidade...”

Ele me lança um sorriso, e eu olho para longe de novo.

“É como um esqueleto”, comento. “Quando as paredes vão


subir?”

“Uma vez que os encanadores e eletricistas terminarem


suas partes”, ele responde. “Eu instalo o isolamento térmico e, em
seguida, começamos a subir paredes. Então você verá cômodos
em vez de estruturas.”

Entramos em um grande espaço no canto mais afastado do


edifício e ao contrário dos outros cômodos, há uma parede inteira
sem vigas. Como se ali fosse abrigar apenas uma enorme janela
panorâmica. Entro no pequeno espaço adjacente e espio sobre a
viga em frente ao meu rosto.

“O que é esse espaço?”

Ele olha para mim. “É um banheiro privativo para este


escritório.”
Deve ser legal. Caminho de volta para o escritório com ele e
vou até a borda, admirando a vista do terreno pouco explorado e
verde ao longe.

“Bela vista.” Sorrio e balanço meu cabelo, girando pelo


escritório e fingindo que sou a dona do lugar. “Sim, Christopher,
você poderia me colocar em contato com o Japão? Precisamos
discutir a linha de produção na Malásia”, eu brinco.

Ele ri. “Você tem um secretário?”

“Um homem pode ser qualquer coisa”, retruco. “Não deixe


que o seu sexo o impeça.”

Ele balança a cabeça para mim, a diversão fazendo seus


lábios se curvarem.

Nós recuperamos a tranquilidade que tivemos na outra


noite quando assistimos TV e comemos pizza, e eu o sigo ao redor
do prédio, deixando que ele me explique o tempo e os processos
necessários para levantar um edifício a partir do zero. Ele
começou a fazer este tipo de trabalho antes que Cole nascesse e,
eventualmente, acabou abrindo sua própria empresa, sendo
então capaz de fazer suas próprias regras e ter mais controle
sobre os projetos que assume. Deve ser uma grande
responsabilidade, embora, saber que você está no comando de
duas dezenas de trabalhadores, cujos salários sustentam suas
famílias.

Mas ainda... Ele está ajudando a nossa cidade a crescer,


trazendo empregos para outros e para si mesmo.

“Você deve ter muito orgulho de construir coisas que vai


continuar vendo todos os dias”, eu digo a ele quando estamos de
volta ao primeiro andar. “Lugares onde as pessoas vão dispender
suas vidas e ganhar seu sustento.”
“Eu realmente nunca pensei sobre isso deste jeito.” Ele
para na parte de trás do edifício, olhando para os quilômetros de
espaço vazio. “É meu sustento, também, eu acho.”

Olho para fora e percebo um espaço ao ar livre conectado à


parte dos fundos do edifício. É grande, e já posso imaginar uma
fonte de mármore colocada a esmo para decorar o lugar mais
tarde.

“Será que isso vai ser um pátio?” Eu pergunto, notando que


não há telhado. “Essa é uma boa ideia. Você vai construir isso
também?”

“Oh, não”, ele responde. “Uma empresa de paisagismo virá


quando o edifício estiver quase pronto e cuidará do plantio da
grama, árvores e das instalações decorativas.”

Bem ali naquela viela. Eu amo o antes e depois, ver a


transformação de um espaço ao ar livre.

“Vou avisá-la quando começar”, ele oferece como se


estivesse lendo minha mente. “Você pode aparecer aqui agora e
mais tarde também, para ver o progresso.”

Dou um sorriso. “Obrigada.”

Eu gostaria disso, na verdade. Além de meus professores,


ninguém que eu conheço realmente gosta de coisas assim. Nossos
olhos se encontram e eu percebo que senti falta disso. Não tenho
muito em comum com as outras pessoas que estão na minha
vida, não é?

Estamos concentrados um no outro apenas por um


momento. Um trabalhador passa, carregando madeira por cima
do ombro, e Pike de repente se endireita, quebrando o contato e
acenando com um 'Olá' para o cara.

“Bem, eu preciso...” Aponto meu polegar para trás de mim,


“ir, eu acho.”
“Sim”, ele responde. “Eu também.”

Eu recuo. “Vejo você em casa. O jantar estará pronto às


cinco.”

Ele apenas balança a cabeça e se vira para seu trabalho.

Lar. Não é mais apenas uma casa. Mas não é minha casa,
apesar de tudo.

Volto para o carro e entro, sentindo-me mais infeliz do que


quando cheguei aqui. Jantar às cinco? Cole só sai do trabalho às
seis. Por que de repente eu simplesmente me esqueci de que ele
existe?

Enrolo a toalha em volta do meu corpo e recolho minhas


roupas sujas, o banheiro ainda cerrado de vapor. Abrindo a porta,
espreito o corredor para me certificar de que está vazio e
atravesso correndo até meu quarto, fechando a porta atrás de
mim.

Eu continuo me esquecendo de levar roupas limpas comigo


para poder me vestir logo após a chuveirada. Estava acostumada
a ter meu próprio lugar e não precisava me preocupar se cruzava
o corredor só de toalha. Pelo menos tenho me lembrado de vestir
um short de pijama, quando desço para tomar uma água no meio
da noite. Sem dúvida, eu morreria de vergonha se o pai de Cole
me pagasse só de calcinha e camiseta.

Pegando minha escova, penteio meu cabelo molhado e


escolho algo para vestir e ir dormir. Vejo um brilho lá fora e
caminho até as cortinas, espiando por uma fresta. Agora já está
escuro do lado de fora — são mais de nove — mas Pike ainda está
lá, na garagem, trabalhando em meu VW.

Ele é bem impressionante. Cole tem se ocupado com o


carro de qualquer pessoa, exceto o meu, embora eu suspeite que
esta seja apenas uma desculpa para ele sair de casa.

Uma lâmpada de trabalho brilhante está pendurada na


tampa aberta do meu capô e Pike dá a volta no VW e se inclina,
desparafusando alguma coisa. Ele está lá fora desde o jantar.
Pediu a ajuda de Cole, mas, naturalmente, ele saiu outra vez.
Acho que Pike está esperando por ele.

Duas mulheres andam na calçada, vestidas em roupas de


ginástica, e param, sorrindo e gritando algo para Pike.

A morena corre parada no mesmo lugar, mesmo que


estivesse apenas caminhando rapidamente apenas um momento
atrás, enquanto a ruiva coloca as mãos nos quadris e lança para
ele um sorriso sedutor.

“Sério?”, murmuro. Quem diabos sai para uma caminhada


a esta hora da noite? “Devagar aí, senhoras. Acalmem-se.”

Como se elas não tivessem visto pela janela de suas


cozinhas que Pike está aqui trabalhando sem camisa e com seus
músculos flexionando contra a pele bronzeada, ainda parecendo
totalmente aquele bad boy gostoso por quem elas provavelmente
babavam na escola. Em seguida, uma ligou para a outra e
combinaram de vestir suas roupas de ginástica e ‘acabaram de
passar correndo por ali’, certo? Quer dizer, seria rude, afinal, não
dar uma paradinha para dizer oi, não é mesmo?

Reviro meus olhos. Donas de casa suburbanas, entediadas


com seus maridos, querendo usar Pike como um pit stop para
deixá-las excitadas.

Solto as cortinas e me afasto.


Estou sendo tão mesquinha.

E daí se elas estão flertando. Qual o problema?

Sempre me orgulhei de ser uma pessoa de sangue-frio,


calma, mas meu comportamento tem sido errático recentemente.
A mudança, as contas, Cole... tenho estado irrequieta, incerta
para todo lado. Não gosto disso.

Seleciono uma playlist no meu telefone e coloco para tocar,


completando a Festa de Piedade chata que muito combina com
meu humor negro, quando ouço o clique da porta do quarto se
fechando atrás de mim. Paro de escovar meu cabelo, virando a
cabeça.

Cole está subitamente de pé no quarto, encostado na porta


e olhando para mim com um olhar que eu conheço muito bem.
Quando ele chegou em casa?

Calor sobe pela minha pele, e eu agarro minha toalha, mas


não sei bem o porquê.

Ele cruza os braços sobre o peito enquanto seus olhos


descem pelo meu corpo e voltam a subir.

“O quê?”, pergunto quando ele não diz nada.

“Solte a toalha.”

Agora? Mas seu pai ainda está acordado, e...

“Ah, poxa”, eu protesto, mas tento manter meu tom leve e


calmo. “Está ficando tarde, e estou exausta.”

“Vou deixar você no clima.” Ele se afasta da porta e vem na


minha direção, seus mais de um metro e oitenta facilmente
deixando o pequeno quarto lotado. “Eu não vejo mais você. Sinto
sua falta.”
Ele se aproxima e envolve seus braços na minha cintura,
olhando para mim. Eu não posso deixar de sorrir um pouco.

Mordo meu lábio inferior de brincadeira e agarro seu cabelo


loiro suave no alto de sua cabeça, puxando-o para um beijo
rápido. “Eu estava em casa na noite passada”, respondo. “Você
não.”

Afasto-me dele e aperto a toalha à minha volta.

“Eu convidei você para sair”, ressalta ele.

“Eu estava cansada”, digo, mas posso sentir que tudo que
venho guardando dentro de mim há dias está crescendo e
querendo jorrar para fora. “E eu tive que fazer suas tarefas
domésticas, então...”

“Eu não pedi para você fazer isso.”

“Precisava ser feito.”

O desejo que eu sentia por ele há pouco desaparece e uma


parede está se formando entre nós agora.

Mas ele tenta deixar isso de lado, de qualquer maneira.


“Meu pai não vai me expulsar de casa se eu me atrasar em alguns
dias no corte da grama, Jordan”, diz ele, tentando colocar os
braços em volta de mim novamente. “Você leva as coisas muito a
sério.”

“Não, você não cortou a grama porque sabia que eu faria.”


Afasto-me dele. “Como sempre. Você precisa amadurecer e parar
de fazer apenas o mínimo.”

Ele deixa escapar um suspiro e me solta, voltando-se para


a porta.

“Onde você vai?”


“Eu não posso ouvir isso agora”, ele lança. “Você sabe por
que sempre estou na rua? Por causa disso.” Ele aponta para o
meu rosto. “A maneira como você olha para mim. Estou cansado
de me sentir como se não fosse bom o suficiente.”

“Oh, isso é incrível”, devolvo sarcasticamente, pegando uma


das cuecas boxer dele de dentro de uma gaveta e uma de suas
camisas de flanela jogadas sobre a cadeira. “Só estou aqui para
ficar com você, e você sempre está fora. Sabe, eu passo mais
tempo com seu pai! Você não acha que isso é um pouco estranho
para ele?”

“Se você tem outro lugar para ir, então vá já que se sente
tão desconfortável.”

A respiração fica presa na minha garganta, e eu olho para


ele. “Você está falando sério? Você realmente está me dizendo isso
agora?”

Eu já me sinto como uma sanguessuga patética quando


não fui eu a responsável por nós termos sido despejados. Eu
sempre estive lá por ele. Nós somos amigos, caramba. Nós sempre
cuidamos um do outro. Eu nunca o faria se sentir... Filho da
puta.

Visto a boxer e jogo para longe a toalha, puxando a camisa


de flanela vermelha e marrom sobre meu corpo e abotoando-a.
Lágrimas brotam em meus olhos.

Minha irmã estava certa. Eu poderia ter engolido tudo por


algumas semanas, trabalhando no The Hook, e teria sido capaz
de continuar no meu canto. Pelo menos não estaria me sentindo
como um estorvo.

Ele se move na minha direção novamente, sua voz mais


suave. “Só estou dizendo que seria bom deixar todo o estresse
para trás de vez em quando e demonstrar um pouco de atenção
um com o outro. Não me lembro quando foi a última vez que nós
transamos.”

E depois do sexo? Tudo o que está errado ainda continuaria


errado.

“Talvez se eu não estivesse fazendo toda sua merda por


aqui e trabalhando até as duas da madrugada, eu não estivesse
tão cansada o tempo todo”, digo a ele. “E talvez se você estivesse
me ajudando a economizar dinheiro para que pudéssemos
conseguir nosso próprio canto novamente em vez de beber seu
contracheque inteiro a cada maldita noite, eu não estaria tão
preocupada e estressada com a grana. Sinto-me sozinha pra
caralho. Onde você está?”

Ele apenas balança a cabeça, e não posso evitar as


lágrimas que começam a jorrar. Mas me recuso a chorar.
Precisamos conversar e ele não quer. Ele não vai me dar a única
coisa que pode corrigir isso.

Ele vem até mim, tomando meu rosto entre as mãos.


“Simplesmente cale-se por um tempo e foda comigo.”

Ele me beija e aperto meus olhos bem fechados, as


lágrimas agora transbordando e escorrendo pelo meu rosto.
Maldito seja. Ele rouba minha respiração, cobrindo minha boca e
movendo-se sobre meus lábios com força e duramente e quero
ceder. O estresse e a preocupação estão me consumindo por
tanto tempo e tudo tem sido demais e se puder esquecer por um
tempo, seria tão bom.

Agarrando minha bunda com as duas mãos, ele me


levanta, forçando minhas pernas em volta de sua cintura e
caímos de volta na cama, ele ficando em cima de mim.

Algo me impede, no entanto. Como se eu estivesse de volta


ao parque de trailers com meu pai e madrasta. Eles não me
enxergam.
Cole não me enxerga. Eu poderia ser qualquer uma neste
momento.

Afasto minha boca e o empurro. “Saia de cima de mim.”

“Baby, por favor.” Ele beija meu pescoço e eu o conheço


bem o suficiente para reconhecer aquele tom em sua voz. Ele
também está chateado. “Aja como minha namorada esta noite.
Costumávamos nos divertir. Vamos apenas nos divertir.”

“Não.” Balanço minha cabeça, enrijecendo. “Estou chateada


com você. Preciso de ar.”

E vou me sentir pior quando isso acabar.

Ele continua a me beijar, e eu resmungo, empurrando-o.


Ele finalmente me solta e cai ao meu lado na cama. Ele mal
hesita e então está de pé, abrindo com força a porta do quarto,
saindo dali como um relâmpago.

Em poucos momentos, ouço a partida no motor, pneus


derrapando e então ele se foi.

Idiota.

Mas parte de mim respira com mais facilidade agora.

Sinto-me melhor aqui quando ele não está.

Ele não costumava me tratar assim. Lágrimas brotam nos


meus olhos, mas eu pisco, empurrando-as para longe.

Levantando-me da cama, vou até o suporte de TV e pego a


pilha de contas a pagar, que está em cima. A conta de água do
antigo apartamento, uma conta médica ainda não totalmente
liquidada, da época que pensei ter quebrado meu tornozelo no
verão passado, uma conta de telefone e duas faturas de cartão de
crédito de Cole prestes a irem para cobrança ativa. Eu não tenho
seguro médico e todo dia tenho medo de que algo possa acontecer
que acabe me levando ao hospital, resultando em uma conta de
vinte mil dólares por uma visita à emergência.

Não tenho um carro que funcione e mesmo que tivesse, mal


consigo pagar o seguro de qualquer maneira e qualquer dinheiro
extra do empréstimo estudantil que receberei depois que minhas
mensalidades estiverem pagas no início do outono, será
necessário para o custo de vida. Eu poderia fazer outro
empréstimo, mas não quero ter que carregar esta dívida pelo
resto da minha vida, então tento não pedir grandes somas.

E cada vez que verifico as correspondências, há uma nova e


infeliz surpresa.

Abrindo a gaveta de cima da cômoda, retiro as gorjetas da


última semana que eu ainda não depositei e espalho as contas
amassadas em minhas mãos.

Cento e quarenta e dois dólares. Estou me enfiando em um


buraco cada vez mais fundo porque não estou conseguindo o
suficiente para sair dele.

Enfio o dinheiro de volta na gaveta e pego o panfleto do


Concurso da Camiseta Molhada que eu havia escondido lá dentro
também e olho para ele. Trezentos dólares não é o suficiente para
fazer isso valer a pena, mas continuar atendendo no The Hook
ou... fazer o que minha irmã faz e trazer para casa aquela quantia
de dinheiro talvez seja.

Por um momento, cogito a ideia. Ser capaz de ter dinheiro


no meu bolso que não esteja gasto já no momento em que eu o
recebo. Ter coisas boas. Ter um carro.

Mas então penso em Cole, Jay e os caras com quem fui


para a escola entrando lá e me observando, e enfio o papel de
volta na gaveta, querendo vomitar. Estranhos podem não ser
insuportáveis, mas não vou dançar para os caras que
frequentaram a escola comigo.
E atender no bar de lá seria quase tão ruim. As roupas que
eu teria que usar, os clientes que eu estaria servindo...

Deixando o quarto, desço as escadas, dando a volta no


corrimão e continuando pela cozinha, lavanderia e saio pela porta
dos fundos.

O ar me atinge e de repente, sou capaz de respirar


novamente. As árvores perfumadas e grama recém-cortada
enchem minhas narinas, e além da luz que ilumina a piscina por
debaixo da água, está completamente escuro aqui.

Eu ando até a parte mais funda da piscina e sento-me na


borda, submergindo minhas pernas na água até as panturrilhas.
A água fria cobre minha pele como um abraço, acalmando
instantaneamente meus nervos acalorados.

Cole estará de volta mais tarde. Até lá, nós dois estaremos
um pouco mais calmos, ele vai subir na cama, vou acolhê-lo e
vamos nos dar as mãos — nosso sinal de que tudo vai ficar bem.

Eu preciso relaxar. Estou com dezenove anos e tenho


preocupações financeiras e problemas de relacionamento. Quem
não tem na minha idade? Sou muito dura comigo mesma. Pike
parece ok com o fato de eu estar aqui, por isso vou continuar
fazendo minha parte no trabalho doméstico e ele não terá motivos
para reclamar.

E se o pior acontecer, meu pai nunca fecharia suas portas


para mim. Tudo vai ficar bem. Pode não estar agora, mas vai dar
certo.

Sorrio um pouco, quase convencida. Olhando para baixo na


superfície azul da água e para a luz branca que ilumina o fundo
limpo da piscina, eu sinto uma vontade súbita de experimentar
aquilo.

Eu posso fazer isso.


Tudo vai ficar bem.

E respiro fundo, fecho meus olhos, e salto, impulsionando-


me para fora da borda e para dentro da água. Bolhas escapam
pela minha boca enquanto libero o ar e desço para o fundo da
piscina. Meu cabelo flutua em torno de mim, a água acariciando
meu couro cabeludo e a flanela ondulando enquanto cruzo as
pernas e sento no chão da piscina.

Não sei quando foi que comecei a fazer isso. Eu não cresci
com uma piscina em casa, é claro, mas talvez tenha sido no
acampamento de verão quando eu tinha doze anos ou quando
Cam me levava na piscina pública quando eu ainda era uma
criança e percebi quão assustada eu poderia ficar com algo
desconhecido. Gosto de desafiar essa parte de mim, porque
aumenta minha confiança quando tenho sucesso.

Sozinha, levar minhas roupas para lavar no porão


decadente do antigo apartamento. Dormir no escuro, sem nem
mesmo a luz do corredor. Dirigir para casa às duas horas da
manhã depois do expediente e não verificar o banco de trás para
ter certeza de que estou sozinha no carro.

Olho em volta, girando a cabeça e vendo nada além de


água, mas minha visão é limitada e logo minha vista é um
nevoeiro. Qualquer coisa poderia vir nadando em minha direção,
saindo dali. Qualquer coisa poderia estar atrás de mim. Qualquer
coisa poderia vir do dreno ou mergulhar a partir da superfície.

Eu fecho meus olhos.

Se puder fazer isso, Cole e eu ficaremos bem. Tudo vai dar


certo e só precisarei continuar seguindo em frente.

Meus pulmões começam a doer, mas mantenho meus olhos


fechados e permaneço imóvel. Algo está olhando para mim. E há
algo se esgueirando através da água, vindo diretamente para
mim. Eu sinto. Ele está vindo para mim.
Eu sei que é meu medo, então mantenho meus olhos
cerrados, com força. Eu sei que tudo vai ficar bem. É apenas
imaginação minha.

Eu posso fazer isso. Eu posso fazer isso. Meus pulmões se


expandem dolorosamente e minha garganta queima, mas eu
aperto meus punhos. Só mais um segundo. Só mais um segundo.

Mas, de repente, a água se agita em torno de mim, e abro


meus olhos, sabendo que não é minha imaginação neste
momento. Olho para cima e vejo Pike no exato momento em que
chega até mim. Ele me agarra por debaixo dos braços, e eu bato
nele, balançando a cabeça.

Meus pulmões estão no limite, embora, e não aguento


mais. Empurrando-o através da água, planto meus pés no fundo
da piscina e impulsiono meu corpo para a superfície.

Emergindo, começo a tossir com o cabelo grudado em meu


rosto. Posso ouvi-lo cuspir água para fora ao meu lado.

“Que diabos você está fazendo?”, resmungo.

“Eu pensei que você estivesse se afogando! Que diabos? O


que você estava fazendo?”

Tusso outra vez, arquejando quando tomo uma lufada de


ar. “Encarando meus medos. Droga”, resmungo nadando para a
borda.

“Você está bem?”

“Estou bem.” Jogo o braço para cima, sobre a borda, os


meus músculos fracos do susto que ele acabou de me dar.

“Você tem certeza?”

Ele se puxa para cima e sobe para fora da piscina,


estendendo a mão para mim.
Ignoro sua mão e a pergunta, empurrando-me para sentar
na borda novamente.

Se ele me viu entrar na água, então acho que


provavelmente ficou se perguntando o que eu estava fazendo lá,
mas ainda assim...

Eu quase venci o desafio.

A camisa está grudada em mim, pesada e molhada, mas


não posso tirá-la. Não estou com nada por baixo. Tusso
novamente, limpando a garganta e recuperando o fôlego. Ele fica
de pé ao meu lado, quieto.

“Eu ouvi você e Cole discutindo”, finalmente diz.

Deu para ouvir aqui fora? Ótimo.

Ele se agacha ao meu lado, de frente para a água, também.


Não posso imaginar o que ele deve estar pensando. Num
momento estou brigando com seu filho, e em seguida, mergulho
completamente vestida em uma piscina. Sim…

Respiro fundo, certificando-me de acalmar meu tom para


confortá-lo. “Eu crio desafios para mim mesma”, digo a ele, mas
não olho nos seus olhos. “Se eu for capaz de fazer algo que não
quero fazer, então tudo vai ficar bem. Se consigo fazer algo que
me assusta, então posso enfrentar qualquer outra coisa que
venha pela frente.” Dou um meio sorriso. “Não gosto de nadar
sozinha. Isso me assusta. Especialmente à noite.”

Eu finalmente volto meu olhar para ele. Ele está encarando


a piscina, ouvindo.

“É um jogo que faço comigo mesma”, conto a ele.

Ele balança a cabeça, compreensivo.


“Cole não me quer aqui”, explico, baixando meus olhos
enquanto sinto picadas em minha garganta. “Eu acho que ele não
me quer mais de jeito nenhum.”

Não sei por que estou contando isso, mas ele me ouve. Nas
raras ocasiões em que temos conversado, ele parece querer ouvir.
É sempre tão fácil com ele.

“Ele é jovem”, explica ele. “Nós todos fazemos e dizemos


coisas egoístas quando achamos que somos os donos do mundo.”

“Eu faço isso?” Atiro de volta.

Quero dizer, não sou nenhum anjinho, mas sei que trato
Cole melhor do que ele me trata.

Pike não diz nada, mas posso vê-lo olhando para mim.

Sou uma pessoa maleável. Eu larguei meu ex e meus pais,


mas nunca discuti com eles. Nunca briguei. Eu fugi.

Além de minha irmã, Cole é tudo que tenho e deixei que as


coisas chegassem a este ponto porque ele sempre foi mais para
mim do que apenas um namorado.

“Posso lhe fazer uma pergunta?”, diz Pike.

Olho para ele, meu coração pulando uma batida ao ver


seus olhos baixos e fixos em mim. O reflexo da água faz com que
pareçam azuis como as nuvens.

“Como você e Cole se conheceram?”, ele pergunta.

E apesar da minha irritação, sorrio um pouco.

Meus olhos descem para a cicatriz em meu polegar, e


lambo meus lábios. “Quando eu tinha dezesseis anos, trabalhava
em um lava-rápido”, digo a ele. “Não havia outras meninas
trabalhando lá, mas foi tudo que eu consegui arranjar então
precisei me virar junto a uma equipe cheia de caras.”
Sinto o calor de seu corpo ao meu lado, e cronometro a
subida e descida do peito dele, sincronizando minha respiração.

“Ouvia um monte de porcaria”, continuo, lembrando-me


dos comentários sarcásticos cada vez que eu me inclinava em um
carro. “Garotos adolescentes podem ser...”

“Sim”, Pike termina por mim com conhecimento e humor


em sua voz. Trocamos um sorriso.

Ele já foi um adolescente, também, afinal de contas, eu


acho.

“Havia um cara lá, chamado Nick, que sempre me


defendia”, continuo, relembrando. “Ele era legal comigo e
conversava comigo. Não agia de forma maliciosa ou imatura.”

Distraidamente esfrego o dedo sobre a cicatriz.

“Um dia ele me convidou para sair e trouxe Cole junto.”


Olho para Pike, a raiva de mais cedo tendo repentinamente
desaparecido agora. “Nós todos acabamos virando amigos, nos
divertíamos juntos e acho que acabei me aproximando deles mais
do que de qualquer outra pessoa em minha vida. Exceto por
minha irmã.”

Ele balança a cabeça, parece estar pensando. E então


pergunta: “E você e Cole começaram a namorar? O que Nick
achou disso?”

Volto meus olhos para a piscina e inspiro profundamente.


“Ele nunca soube”, digo em voz baixa.

Pike permanece quieto, a tensão deixando o ar carregado


agora. Eu disse que ele nunca soube. Não que ele não sabe.

Limpo minha garganta. “Uma noite, alguns anos atrás,


antes de Cole e eu ficarmos juntos”, conto. “Ele e Nick saíram
juntos. Cole bebeu muito e desmaiou. Nick pegou uma carona
para casa com outra pessoa.”

Lágrimas picam o fundo dos meus olhos e minha boca fica


seca.

“O motorista perdeu o controle da caminhonete e capotou e


todos os garotos que estavam na parte de trás foram jogados para
fora.”

“Oh, meu Deus”, diz ele em voz baixa, baixando a cabeça.

Eu termino. “Nick ficou preso debaixo do veículo. Morreu


alguns dias depois.”

Aperto minhas mãos com força, tentando não chorar. Ele é


a única pessoa que eu conhecia que morreu. Não foi como
quando minha mãe foi embora. Nick não queria partir. Ele vivia
para os jogos de videogame, seu cabelo estava sempre encobrindo
seus óculos, e sinto falta de seus caprichos.

Às vezes me pergunto o que aconteceu com a arma Nerf do


seu irmãozinho — que todos nós usávamos e que deixava nossos
polegares esfolados.

“Jesus Cristo”, Pike murmura. “Como é que eu não soube


disso? Vagamente me lembro de ter ouvido alguma coisa, mas
nunca soube que Cole era amigo de alguém envolvido nesse
acidente.”

Sento-me ereta e aceno. “Sim, Cole...” Faço uma pausa,


tentando encontrar as palavras. “Foi difícil para ele superar isso.”

Os olhos de Pike estreitam em minha direção.

“Ele deveria ter dado uma carona para Nick naquela noite”,
explico.
Compreensão cruza seu rosto e tenho certeza que ele sente
que deveria ter sabido de tudo isso, mas faz sentido Cole não
contar a muitas pessoas. Ele ficou envergonhado.

“Nós não ficamos fora da vista um do outro depois disso”,


digo a ele.

Eu estava sofrendo, Cole estava sofrendo e eu era a única


que sabia o motivo dele se sentir responsável, então era a única
com quem ele podia falar.

E depois de um tempo, acabou virando um hábito. Nós


dois, lado a lado. Nós dois, voltando-nos um para o outro.
Buscando o familiar, constante e seguro.

Ambos nos agarrando a Nick e nos agarrando um ao outro.


Encontrando-nos desesperados por um amigo de verdade. Ele e
eu sofrendo por Nick, mas também, eu querendo apenas ficar
longe do meu ex-namorado. Foi tão fácil mergulhar um no outro e
escapar. Tão fácil.

“Eu sinto muito, Jordan”, diz Pike. “Você está bem?”

Dou uma espiada nele.

“Desculpe.” Ele hesita, olhando para longe. “É estúpido


perguntar isso agora, eu acho.”

Não, não é estúpido de maneira nenhuma. É bom ter


alguém com quem conversar.

“Está tudo bem. Ou vai ficar”, respondo. “Tem que ficar.”

Ele lança seu olhar para mim de novo e eu aponto para a


piscina.

“Eu estava sentada no fundo de uma piscina escura com os


olhos fechados até que não conseguisse mais prender minha
respiração. Precisa ficar tudo bem agora, certo?”, pergunto.
Ele solta o ar e sua boca começa a se curvar em um
sorriso.

Ele se levanta e estende a mão novamente, e desta vez a


tomo. Puxando-me para cima, dirigimo-nos para a casa e eu
percebo a vela ainda queimando sobre a mesa de madeira.

Rapidamente me inclino, fecho os olhos e assopro,


apagando a chama. Girando, volto a segui-lo subindo os degraus.

“Posso fazer outra pergunta?”, ele indaga.

“Manda.”

“Por que você faz isso?”, ele olha para mim.

“O que?”

“A coisa de fechar os olhos e apagar a vela”, explica ele. “Eu


vi você fazer isso algumas vezes já.”

Dou de ombros, não percebendo que ele havia notado.


Achei que estivesse escondendo muito bem e passando
despercebida.

“Apenas um capricho.” Sigo atrás dele pela porta de tela.


“Desejos de aniversário nem sempre se tornam realidade, então
não perco nenhuma chance sempre que apago uma vela.”
Capítulo 7

Jordan

“Ei, você pode me pegar às duas?”, prendo o telefone entre


a orelha e meu ombro, enquanto conto o dinheiro que recebi e o
coloco na registradora. “Ash não veio. Seu bebê está doente, e não
tenho outra carona.”

“Sim, sim”, diz Cole. “Claro. Estarei aí.”

Depois da nossa última discussão, a calmaria progrediu


exatamente como eu previa. Ele voltou para casa meio
embriagado e descontraído, arrastando-se para a cama e nós nos
aconchegamos. As coisas estão quase de volta ao normal — ou ao
que é o nosso normal, de qualquer maneira — tanto que não me
importei quando ele tentou me puxar para o chuveiro esta
manhã. No entanto, quando chegamos ao nosso banheiro,
descobrimos que seu pai havia arrancado a pia e começado a
remoção dos azulejos, já que nosso banheiro é o próximo item de
sua lista de reformas. Como não ouvimos isso enquanto
estávamos dormindo? E a que horas ele se levantou esta manhã?

“Estarei pronta às duas”, afirmo novamente, fechando a


gaveta da caixa registradora.

“Sim, entendi. Amo você.”

“Eu também amo você”, respondo e desligo.


Pike vem trabalhando em meu carro e em um esforço para
acalmar as coisas, tenho certeza, Cole realmente ajudou hoje. Eu
não sei como vou pagar seu pai, de qualquer jeito, porque sei que
ele está gastando dinheiro comprando novas peças, embora esteja
agindo como se simplesmente tivesse encontrado um novo
escapamento muito barato e se casualmente tivesse trombado em
alguns pneus novos no caminho. Eu tenho tentado fazer mais
tarefas na casa, fazendo coisas como preparar o café da manhã
para todos e fazer uma limpeza melhor, como debaixo das
almofadas do sofá. Eu até mesmo plantei algumas flores no
quintal, ao redor do terreno, para ajudar na estética, coisa que
Pike concordou desde que eu não traga flores para dentro da
casa. Sorrio, pensando em quão mal-humorado ele consegue ser
às vezes. Chega a ser engraçado.

Horas mais tarde, exausta e com meus pés doendo dentro


dos meus tênis, mal posso esperar para voltar para casa,
também. Casa e cama. Estou tão cansada.

Amarro meu cabelo em um rabo de cavalo, conto o dinheiro


das gorjetas, coloco o pote de volta sobre o balcão e deslizo a
bandeja para dentro do cofre. Depois de fechar as garrafas de
bebidas, terminar a louça e desligar as luzes, olho pela janela
vendo o carro de Cole no meio-fio. Eu sorrio, encantada por ele
estar no horário.

Apago as velas restantes no bar, fechando os olhos e


inspirando bem forte a cada vez. Espero que amanhã seja melhor
do que hoje. É meu desejo padrão quando não tenho mais nada
em mente e cada dia que passa tento fazer isso algo mais próximo
da realidade.

Pego minha mochila, enfiando minhas gorjetas no bolso e


saio pela porta, trancando-a atrás de mim. O ar fresco traz uma
boa sensação para meus pulmões, e jogo minha bolsa pela janela
traseira aberta antes de abrir a porta do lado do passageiro.
Deslizo no banco da frente, voltando meu sorriso cansado, mas
grato para Cole.

“Oi...”, paro, meu sorriso imediatamente se desfazendo.

Jay, meu ex, está sentado no banco do motorista. Olho por


cima do ombro, certificando-me de que não estou ignorando um
Cole apagado no banco de trás, mas está vazio.

Minhas mãos tremem. “Onde está o Cole?”

Jay inclina a cabeça, parecendo se desculpar. “Ele está


chapado, querida. Os caras não quiseram deixá-lo dirigir.” Seu
braço repousa sobre o encosto do meu assento, sua mão a poucos
centímetros do meu cabelo e pescoço. “Ele está dormindo na casa
do Bentley. Disseram a ele que alguém se certificaria de fazer com
que você chegasse em casa. Eu me ofereci para isso.”

Não. Não. Sem chance.

Não hesito. Puxando a maçaneta, abro minha porta com


força e salto para fora, enfiando meu braço no banco de trás e
recuperando minha bolsa. “Está tudo bem”, digo a ele. “Eu posso
pegar uma carona com Shel. Ela ainda está lá dentro.”

“Não, ela não está. Você acabou de trancar tudo.”

Eu sabia que ele me desafiaria. Nada o atinge.

Uma calma estranha toma conta de sua voz, mas eu sei


que é apenas superficial. “Ah, vamos lá. Já estou aqui”, ele
pressiona. “Você não vai me dizer que vim até aqui para nada,
não é?”

Eu me inclino, olhando em seus olhos castanhos escuros


enquanto simultaneamente pesco as chaves do bar de volta para
fora do meu bolso de trás. “Eu não pedi que você viesse. E como
disse, tenho outra carona.”
Virando-me, corro para a entrada do Grounders e
rapidamente destranco a porta.

“Jordan!” Ouço quando ele grita.

Escancaro a porta e entro, lançando um olhar severo para


ele que continua plantado no carro. “Vá para casa.”

E bato a porta fechada novamente, girando a trava e me


afastando dela como se ele fosse tentar derrubá-la. Fico ali,
respirando com dificuldade e nervosismo.

Ele não vai deixar isso de lado. Não vai fazer nada esta
noite, porque, se quisesse, ele poderia ter saído do carro mais
rápido do que eu conseguiria chegar à porta do bar. Mas ele vai
ficar puto o suficiente para não se esquecer disso.

Ele foi um erro que durou seis meses durante a escola, mas
não serei tão estúpida novamente. Minhas defesas estão em
alerta agora.

Jay não veio esta noite para me dar uma carona para casa.
Não imediatamente, pelo menos. Talvez depois que tivesse
terminado comigo.

Fecho meus olhos, tentando abafar a memória dele batendo


na janela do meu carro uma noite enquanto eu tentava
freneticamente enfiar minha chave na ignição. Ainda sou capaz
de sentir a ardência no meu couro cabeludo, no local que ele
puxou meu cabelo.

Viro para o outro lado e abro os olhos, afastando aqueles


pensamentos. Depois de um momento, ouço o ronco do motor
passando pelo bar e o guincho dos pneus na rua.

Ele se foi.

Coloco minha bolsa sobre o bar e corro pelo corredor,


passando pelos banheiros e verificando as fechaduras da porta
dos fundos, destrancando e voltando a trancar, testando e
verificando que realmente não abrem e então corro de volta para
frente e checo a porta de entrada de novo, bem como as janelas.

Pegando o telefone da minha bolsa, sento em um


banquinho do bar, apertando-o em meu punho. Quem posso
chamar?

Jay provavelmente está dizendo a verdade. Cole está


bêbado outra vez. Por que ele faria isso? Sabia que eu contava
com ele. Tenho certeza que não sabe que foi Jay quem veio em
vez disso, mas ainda assim... Eu poderia matá-lo neste momento.

Engulo o enjoo que sobe pela minha garganta.

Ligo para minha irmã, mas como suspeitava, vai para o


correio de voz. Ela provavelmente está saindo do trabalho ou já
está em casa dormindo.

Meu pai? Minha madrasta?

Eles nem sequer me ligaram de volta desde que falei com


eles uma semana atrás. Não conseguem fazer nada sem agir
como se tudo fosse uma enorme imposição. Pedir qualquer coisa
a eles é ficar em débito. É um fardo.

Eu sou um fardo.

Pike passa pela minha mente. Não tenho dúvidas de que ele
viria.

Mas Cole ficaria muito irritado se seu pai descobrisse que


ele vacilou esta noite, e eu não quero que Pike saiba, acima de
qualquer outra pessoa. É embaraçoso. Nós somos adultos e
devemos ser responsáveis. Ele está cuidando de mim o suficiente
e não vou acordá-lo agora quando sei que ele tem trabalho na
parte da manhã. Isso faria de mim em fardo.
A única pessoa que eu posso chamar é Shel e sua casa fica
do outro lado da cidade.

Eu não quero ligar para Cole, porque, é claro, ele não está
em condições de dirigir, mas talvez pudesse enviar outro amigo.

Mas não. Não vou ligar para ele. Estou muito chateada
agora.

E esta cidade não tem táxis, também.

Olho a mesa de bilhar, os cinzeiros transbordando em suas


bordas e os arranhões por todo o feltro imundo.

Bem, foda-se. Estará claro em poucas horas. Posso ir para


casa então. É hora de aceitar os fatos. Não vou implorar nada a
ninguém.

Pulando para fora da banqueta, ando até os fundos do bar


novamente e pego duas pilhas de toalhas de bar brancas e limpas
e carrego-as para a mesa de bilhar. Uma por uma, sacudo-as e
recubro a superfície suja.

Desliguei o ar condicionado horas atrás, por isso está uns


confortáveis vinte e três graus por agora, mas retiro meu casaco
de dentro da bolsa no caso de eu querer me cobrir mais tarde.
Agarrando meu telefone, deixo a luz do corredor acesa e subo na
mesa de bilhar, escorregando sobre ela o suficiente para ter um
bom espaço para me deitar. Colocando o braço debaixo da minha
cabeça, bocejo e verifico o volume e a bateria do meu telefone,
certificando-me que tenho carga suficiente no caso de algo dar
errado enquanto estou sozinha aqui a noite toda.

Como Jay voltar.

Encontro o aplicativo que faz o som de um ventilador e


aciono-o na esperança de que eu possa dormir um pouco, mas
não acredito muito nisso. Não me sinto segura, então não consigo
relaxar.
Fechando os olhos, sinto o peso da fadiga em minhas
pálpebras e a agradável sensação de exaustão. É do tipo que você
sabe que merece, porque trabalhou muito naquele dia.

Mas depois de vinte minutos, minha mente ainda está


agitada. Meu corpo está esgotado, mas meu cérebro, não.

Quando meu celular toca, tenho certeza que é um sinal de


que eu não estou destinada a dormir esta noite.

Trago o aparelho para perto do rosto, apertando os olhos


para a luz brilhante.

Pike.

Enrugo minha sobrancelha. “Alô?” Eu trago até minha


orelha, bocejando novamente.

“Hey”, diz ele, como se não tivesse esperanças de conseguir


falar comigo. “Eu ... hum ... Eu só vi que já são mais de três e
ninguém está em casa, então queria ver se... Certificar-me de que
está tudo bem.”

Viro de lado, ainda usando meu braço como um travesseiro


e seguro o telefone no meu ouvido com a outra mão.

“Estou bem.” Sorrio para sua preocupação e faço uma


brincadeira: “Tenho um toque de recolher ou algo assim?”

“Não”, ele responde, e posso ouvir o humor em sua voz.


“Vocês jovens, saiam e divirtam-se. Podem fazer suas coisas. Eu
apenas...” Ele faz uma pausa por um longo momento e depois
continua, “Sabe, você não se preocupa com coisas que
desconhece. Quando Cole não morava comigo, eu nem sempre
sabia onde ele estava ou o que estava fazendo, então não pensava
sobre isso o tempo todo. Com vocês dois vivendo sob meu teto
agora, parece que me preocupo constantemente.” Ele solta uma
risada. “Aquele bar é sombrio. Eu só queria ter certeza de que
você saiu do trabalho de forma segura e que está tudo bem. Eu
estava apenas... checando.”

Eu não tomo como ofensa a sua observação. Não é meu


bar, afinal de contas, e sim, é um lixo mesmo.

Estou tentada a ver se ele quer vir até aqui me buscar,


afinal de contas, uma vez que já está acordado, mas meu orgulho
não deixa. Eu não quero ser um problema. E definitivamente não
quero ser responsável por trazer discórdia entre ele e Cole. Sou
capaz de lutar minhas próprias batalhas.

“Sim. Está tudo bem”, eu minto, adicionando um pouco de


provocação à minha voz. “Eu não sou uma criança, sabe?”

“Você meio que é.”

Sorrio. Bem, criança ou não, é bom ter alguém cuidando de


mim.

“Você ligou para Cole, também?”, pergunto.

Mas ele não responde. Em vez disso ouço um estrondo alto


e uma certa bagunça. “Merda”, ele deixa escapar.

Meus olhos se abrem em alerta. “Qual é o problema?”

“A droga do micro-ondas não está funcionando direito”, ele


resmunga. “Sabia que não deveria ter substituído o antigo apenas
para combinar com os outros eletrodomésticos novos, caramba.
Ele não estoura toda a pipoca.”

Estreito meus olhos, mas quero muito rir. Ele fica tão
irritado. “Tem um botão de pipoca”, eu lembro a ele.

“Eu já apertei!”

“Duas vezes?”

“Por que tenho que pressionar duas vezes?”, ele retruca


como se eu fosse estúpida.
“Porque o tamanho do saco de pipoca que você usa leva
três minutos e meio para ficar pronto”, eu aponto.

“Eu sei disso.”

“Bem, em seu novo micro-ondas, se você pressionar o botão


apenas uma vez, vai ficar ligado por apenas dois minutos. É para
os sacos menores”, esclareço. “Você precisa apertar duas vezes
para selecionar o tempo certo.”

Há um silêncio e então ouço um murmúrio, “Oh.”

Aperto meus lábios para não rir. Sua impotência aleatória é


bastante engraçada. Eu queria estar lá.

“Bem”, diz ele depois de um breve silêncio, “Acho que vou


deixar você ir.”

“Ei, espere”, digo, parando-o.

Faço uma pausa, sem saber como dizer isso.

“Você se importa se eu lhe perguntar uma coisa?”,


finalmente solto.

“Não, acho que não.”

Molho meus lábios, hesitando. Não quero ofendê-lo, mas


estou curiosa.

“Onde estão todas as suas coisas nesta casa?”, pergunto.

“Hã?”

Puxo uma respiração profunda, seguindo adiante. “Há


móveis, mas não tem muito mais coisa. Não parece que você mora
aí. Por quê?”

A outra extremidade do telefone está em silêncio e eu


prendo minha respiração com medo de perder sua resposta.
Será que a pergunta foi indelicada? Eu não queria que
fosse. Apenas percebi que ele sabe tanto sobre mim, e quase não
sei nada sobre ele. Ele sabe quem são meus pais, o que aconteceu
com Cole e meu amigo, que eu amo coisas dos anos oitenta, que
cresci sem uma mãe, o que eu estudo na faculdade...

Mas ele ainda é um mistério para mim.

“Desculpe-me se isso não soou muito bem”, digo quando


ele não responde. “É uma bela casa. É que Cole mencionou que
você e a mãe dele se conheceram no colégio onde você era uma
espécie de astro do beisebol. Você deve amar o esporte. Estou
apenas curiosa sobre porque não vejo troféus ou fotos ou
qualquer coisa assim na casa. Não há fotos recentes de você e
Cole também, nem música, nem livros... nada que identifique
você ou o que você gosta.”

Ele inspira, limpa a garganta e um suor frio desce pelo meu


pescoço.

“Está tudo embalado no porão”, ele me diz. “Acho que eu


apenas nunca desencaixotei nada depois que me mudei para a
casa.”

“Quanto tempo você mora naquela casa?”

“Uh...” Ele se interrompe como se estivesse pensando.


“Acho que a comprei há dez anos.”

Dez anos?

“Pike...” Digo, tentando não rir silenciosamente.

Ele solta uma risada no meu ouvido, e eu sorrio,


balançando a cabeça.

“Acho que isso soa estranho, hein?”, ele pergunta.

Que você ainda não tenha desencaixotado tudo? Sim.


Rolo de costas, mantendo meu braço enfiado debaixo da
cabeça. “Eu entendo que vamos nos desfazendo de certas coisas à
medida que envelhecemos”, digo a ele. “Mas você teve uma vida
desde que se mudou para aquele lugar, não é? Eu não vejo nada
de sua personalidade. Lugares que você visitou, bugigangas que
você tenha escolhido ao longo dos anos...”

“É, eu sei...”

Ele hesita novamente, deixando escapar um suspiro e o


som de sua respiração vibra por toda minha orelha, enviando
arrepios pela espinha.

Eu gostaria de poder ver seu rosto. É tão difícil fazer uma


leitura dele por telefone. Tudo o que posso imaginar é a maneira
como ele deixa seus olhos voltados para baixo às vezes, como se
não quisesse que ninguém soubesse o que está sentindo, ou o
jeito como balança a cabeça como se talvez estivesse com medo
do que vai sair de sua boca se a abrir.

Ele finalmente continua. “Cole tornou-se mais importante”,


ele admite. “Em algum lugar ao longo do caminho, quem eu era e
o que eu queria acabou se tornando irrelevante.”

Eu meio que entendo. Quando você tem filhos, suas


esperanças são transferidas para eles. Sua vida fica em segundo
plano e você prioriza o que eles precisam. Entendo.

Mas Cole é um adulto agora e Pike morou sozinho por


algum tempo. O que ele faz quando não está no trabalho?

“Eu adoraria ver algumas das coisas”, abordo. “Se você


quiser desencaixotar, posso ajudar.”

“Nah, tudo bem.”

Minha testa se enruga com a rapidez com que ele descarta


a ideia.
“Quer dizer que eu não posso nem ver seus anuários
antigos para saber se Cole é muito parecido com você quando
mais jovem?”, provoco.

Ele deixa escapar uma risada silenciosa. “Deus, não. Voltar


no tempo para quando a única coisa importante que eu tinha que
fazer era arrumar meu cabelo?”

Sorrio, mas é claro que ele não pode ver. Será que ele era
do tipo que ficava com apenas uma só garota na época do colegial
ou será que teve inúmeras namoradas como Cole, antes de ficar
comigo?

Lembro-me que Cole contou que seu pai traiu sua mãe,
mas por algum motivo isso não soa verdadeiro.

“A verdade é, Jordan”, diz ele, “que quando você é jovem,


você pode realmente ser muito estúpido. Eu não gostaria de
lembrar aquele tempo da minha vida. Quero seguir em frente.”

Mas você não está fazendo isso, pelo que parece.

“Você precisa de um pouco de tempero em sua vida!” Eu o


provoco. “Você deveria arranjar uma mulher.”

“Sim e você deveria voltar para seus amigos agora”, ele


retruca.

Dou risada. “Oh, vamos lá.”

“O que faz você pensar que eu realmente não tenho uma


mulher, Jordan?”

Sua voz me provoca e posso sentir isso pelo meu corpo


inteiro.

Minha boca fica seca. “Você tem?”, pergunto.

Quer dizer, eu estava apenas brincando. Não seria estranho


ter duas mulheres andando pela casa? Já tenho minhas tarefas
bem organizadas e cozinho a maioria das refeições. Aquela ilha de
madeira e eu já temos um relacionamento agora. Talvez eu até
sinta um pouco de ciúmes se outra mulher a tocar.

“Você não me conhece há muito tempo”, ele lança. “Minhas


necessidades precisam ser supridas de vez em quando. Sou
humano, afinal de contas.”

Meu estômago se revira, e arqueio minhas sobrancelhas.


Suas necessidades?

Uma imagem de como ele fica quando precisa satisfazer


estas necessidades passa pela minha mente. Empurro isso para
longe.

Humm, sim. Ok.

De repente, ele ri. “Estou brincando”, diz ele. “Sim, eu saio


de vez em quando, mas não estou ficando com ninguém agora.
Você não precisa se preocupar em esbarrar pela casa com alguma
mulher que você não conhece.”

“Ou mulheres”, digo. “Certo?”

Ele zomba e posso apenas imaginar o seu rosto. “Você


honestamente consegue me imaginar sendo capaz de manejar
mais de uma fêmea? Sério?”

“Não, você gosta de ter um tempo só para si.”

“Exatamente.”

Meu coração se aquece, e sei que eu estava certa. A mãe de


Cole contava mentiras para jogar seu filho contra o pai.

Está na ponta da língua dizer a ele algo sobre Cole, mas se


Pike o confrontar sobre as mentiras que sua mãe lhe contava,
Cole vai achar que eu traí a confiança dele. E isso pode
constranger Pike. Eles não são minha família. Não cabe a mim.
Um bocejo toma conta de mim e eu deixo escapar um
pequeno gemido, meus olhos ficando mais pesados.

“Bem, acho que vou deixar você ir”, diz Pike. “Vocês dois se
divirtam, ok? Fique segura.”

“Nós vamos.” Minhas pálpebras se fecham, sua voz


persistindo em minha orelha. “E lembre-se”, digo a ele. “Aperte o
botão do micro-ondas duas vezes.”

Ele arqueja. “Sim, senhora.”

“Até mais tarde”, digo.

Ele faz uma pausa por um momento antes de responder.


“Boa noite, Jordan.”

Ele desliga, e eu largo meu telefone, bocejando novamente e


nem me preocupo em ativar o aplicativo do ventilador novamente.

Um sorriso ainda perdura em meus lábios. Como pode um


homem de trinta e oito anos de idade não saber fazer pipoca de
micro-ondas? Isso é literalmente à prova de idiotas.

Sorrio, minhas pálpebras cada vez mais pesadas e


sonolentas enquanto esqueço-me de Jay e Cole, de quão
desconfortável esta mesa de bilhar é e de quão exausta eu
provavelmente estarei amanhã. Pike flutua através minha mente,
tudo o que ele me disse, quão profunda soou sua voz quando me
disse “boa noite Jordan” e como fez arrepios espalharem-se pelos
meus braços.

E esta é a terceira noite esta semana em que ele foi a


última pessoa com quem falei antes de adormecer à noite.
Capítulo 8

Pike

Na manhã seguinte, estou surpreso de ver que eu sou o


primeiro a estar em pé. Jordan geralmente já está se
movimentando, tomando banho ou trabalhando em seu laptop
antes mesmo de eu descer ao andar de baixo, mas a casa parece
vazia. Abro a porta da frente e noto que o carro de Cole não está
na garagem também.

É domingo de manhã. Ele não teria se levantado a esta


hora. Será que eles não voltaram para casa, então?

Vou atrás de minhas coisas e dou andamento à minha


manhã, mas quando o relógio marca dez horas, quero ir para o
banheiro principal, arrancar a banheira velha e continuar com a
remoção dos azulejos do chão, mas isso vai fazer muito ruído.
Bato na porta de Jordan e Cole para verificar se realmente não
estão lá.

Ninguém responde e abro a porta e vejo a cama ainda


arrumada e o quarto vazio. Acho que eles acabaram dormindo na
casa de algum amigo ontem à noite. Fecho-a novamente e começo
a trabalhar.

“Oi”, Cole diz entrando na cozinha uma hora mais tarde.


Fecho a geladeira, segurando um refrigerante, e me viro na
direção dele que está jogando suas chaves sobre o balcão. Ele
parece abatido, seu cabelo emaranhado e os olhos vermelhos.

“Oi.” Gesticulo para o armário à esquerda. “A aspirina fica


ali. Tome um pouco de água e uma chuveirada. Você pode me
ajudar com o banheiro.”

Ele concorda com a cabeça, mas parece estar a dois


segundos de vomitar. Sua pele está esverdeada e pálida, e eu
realmente sinto pena dele. Não ignoro esse sentimento.

“Você está bebendo bastante”, digo.

Ele me ignora, arrastando-se em direção ao armário e


pegando uma aspirina.

Eu pressiono ainda mais. “Você está bebendo demais.”

Ele ainda não diz nada, mas sua mandíbula tensiona, o


que quer dizer que me ouviu.

Eu gostaria que ele falasse comigo. Até mesmo que brigasse


comigo, porque seria melhor do que nada. Quero ouvir sobre seu
trabalho e sua vida. Sobre o amigo que ele perdeu. Eu não
deveria ter sabido disso pela Jordan.

Eu deveria ter pressionado mais quando ele começou a se


calar. Muito mais.

Mas sei que realmente não tenho culpa do abismo que se


formou entre nós.

“Eu era bom com sua mãe”, digo a ele.

Ele funga, toma outro grande gole de água e ainda não olha
para mim.

Ele vai acreditar nela. Ainda não está pronto para me ouvir.
Mas ainda assim, vou dizer isso.
“Eu trabalhei duro, sustentei vocês dois e fui fiel.” Levanto-
me da cadeira e olho para ele. “Você pode me fazer perguntas.
Não vou mentir.”

Mas ele apenas balança a cabeça, terminando o copo


d´água e colocando-o de lado. “Eu tenho que tomar um banho.”

Ele se vira para ir embora, mas não estou pronto ainda.

“Alguma vez eu não fiz algo que você me pediu para fazer?”,
pergunto a ele.

Ele para, mas não se vira.

Sempre que precisou de dinheiro, eu dei. Sempre que


precisou de uma carona, eu estive lá. Sempre que quis ir a algum
lugar, ver alguma coisa ou fazer uma aula de caratê ou apenas
estar comigo, eu estive sempre lá para ele. A dor cresce dentro do
meu peito enquanto olho para suas costas.

Eu fui um bom pai. Sempre que ele me quis por perto.

“Você já me pegou em uma mentira?”, continuo.

Uma mentira que ela não tenha colocado dentro da cabeça


dele?

Ele olha por cima do ombro para mim, e posso ver o


conflito em seus olhos. Ele quer estar com raiva de algo ou
alguém e eu fui seu alvo por um longo tempo, mas agora ele não
tem mais certeza disso. Tem que começar a ver quem é sua mãe e
o que ela faz com as pessoas. Ele precisa parar de permitir que
ela faça isso com ele.

“Eu estou aqui”, digo. “Ok?”

Ouço sua respiração, vejo quando seu peito sobe e cai


pesadamente, e, finalmente, ele acena com a cabeça, ainda
parecendo hesitante, mas já é alguma coisa.
Então ele se vira e sai em direção à escada, mas de repente
olho para a porta da frente de novo e algo me ocorre.

“Onde está Jordan?”, chamo, entrando na sala de estar.

Ele está no meio da escada, mas olha para mim novamente


e balança a cabeça, ainda sem falar.

“Você não foi pegá-la no trabalho na noite passada?”,


questiono. “Vocês dois não estavam juntos?”

“Não.” Ele boceja e esfrega a mão pelo cabelo. “Eu bebi


demais, então mandei um dos meus amigos buscá-la e trazê-la
para casa. Ela provavelmente saiu para correr e você não
encontrou com ela.”

Eu fico lá, tentando relembrar minha conversa com ela na


noite passada enquanto Cole vai para o andar de cima.

Então, quando falei com ela ontem à noite, ela não estava
com Cole. Não estava com ele de jeito nenhum.

E ela não veio para casa. Sua cama ainda está arrumada.

Cole sobe as escadas, e eu grito atrás dele apenas para


lembrá-lo. “Use meu banheiro!”

Vou trabalhar no deles por mais algum tempo ainda, e o


banheiro da suíte tem o único outro chuveiro na casa.

Volto para a cozinha, ainda pensando.

Por que ela mentiria sobre isso? Se ela tivesse ficado com
um amigo, com sua irmã, o que quer que fosse... tudo bem. Mas
ela me deixou acreditar que os dois estavam juntos e é por isso
que eu liguei para ela — para ter certeza que ambos estavam
bem.

Mandei um dos meus amigos buscá-la e trazê-la para casa.


Sim, seu amigo não a trouxe para casa. Eu fico intrigado
com isso — ela mentiu por alguma razão.

E, apesar do tanto que gosto de Jordan, não consigo evitar


os velhos sentimentos que tomam conta do meu íntimo e que eu
já não sentia há muito tempo. Não gosto de ser enganado.

Especialmente por mulheres.

Uma hora mais tarde, entro no Grounders e já vejo uma


multidão lá para o almoço ocupando as mesas altas e o balcão do
bar. Um casal de atendentes, vestidos em jeans, camisas
apertadas e pequenos aventais carregam os pratos de
motociclistas que fizeram aqui uma parada em seus passeios
dominicais e de caçadores que estão voltando de suas expedições
matinais. O bar está repleto de veteranos que parecem terem
dormido dentro de suas roupas na noite passada e a iluminação
fluorescente faz tudo parecer sujo, apesar do cheiro de
desinfetante que incomoda minhas narinas.

As solas das minhas botas de trabalho carimbam o chão a


cada passo que dou em direção ao outro lado da sala. Nunca
entendi o apelo deste lugar ou por que ele sobrevive há tanto
tempo.

Localizo Jordan na outra extremidade do bar, seu punho


coberto com uma toalha branca e enterrado dentro de um copo
enquanto o seca. Não tinha certeza se ela estaria aqui, mas
quando não está em casa, é aqui que sempre está.

Ela ainda está com as mesmas roupas que vi usando ao


sair de casa na noite passada, e um bocejo toma conta de todo
seu rosto. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo alto, e
seus lábios estão rosados com um toque de batom.

Ela estava bonita ontem. Esta manhã, minha suspeita


deixa tudo borrado. De repente, tenho vinte anos de novo e estou
querendo saber onde a mãe de Cole passou a noite toda.

Mas Jordan não é assim. Ela é uma boa menina.

Apenas não faz qualquer sentido que ela tenha dito que
estava com Cole quando não estava.

A menos que estivesse fazendo algo que não deveria.

Eu não quero que Cole passe por isso com Jordan. Não
como passei com a mãe dele. E se ela ficar grávida e ele acabar
preso com uma pessoa assim? Não quero que ele fique sozinho
para sempre, porque acha que não foi o suficiente para ela.

Obrigo-me a acalmar minha respiração. Não vou tirar


conclusões precipitadas. Relaxe.

Ela vê minha aproximação e seus olhos se iluminam um


pouco. Abre a boca para dizer alguma coisa, mas eu falo primeiro.

“Você está bem?”, pergunto. “Você teve uma boa noite?”

Ela ergue a cabeça, vacilando um pouco. “Hum, sim, eu


acho.”

Portanto, nada de ruim aconteceu então. Ela está inteira e


parece relativamente feliz.

“Você e Cole se divertiram?”, pressiono, meu pulso


começando a acelerar.

Ela baixa sua cabeça, evitando meus olhos enquanto


guarda o copo debaixo do balcão. “Sim.” Ela balança a cabeça.

E eu levanto meu queixo, meu temperamento querendo dar


as caras. Ela acabou de mentir novamente.
“Sim, mas Cole parece acreditar que nunca veio buscar
você.” Planto minhas mãos no balcão e me inclino. “Ele disse que
mandou um dos amigos buscar você, mas não a viu pelo resto da
noite e você não voltou para casa.”

Ela olha para mim, seu rosto ficando corado. “Hum... Sim,
é... eu... eu estava...”

Ela gagueja, perturbada e fico lá esperando uma explicação


fácil, simples que sei que vai vir, mas...

Isso não acontece.

Ela abre a boca para dizer algo de novo, mas, em seguida,


fecha e, um leve estremecimento em seus olhos demonstra que
sabe que foi descoberta.

Controlo meu tom, tentando soar calmo. “Onde você esteve


durante toda a noite, Jordan?”

Seu olhar vai para todos os lugares, menos para mim, os


ombros tensos e sua respiração fica mais pesada. Ela pode
responder à pergunta. Ela simplesmente não quer.

“Jordan?”

“Cole está em casa agora?”, ela pergunta.

“Sim.”

“Então nós dois estamos bem. O resto não é da sua conta”,


ela afirma.

Eu estreito meu olhar sobre ela. “E minha casa não é um


hotel, menina.”

Ela poderia ter ficado com sua irmã ou um amigo, mas por
que mentiria sobre isso? Ela está escondendo alguma coisa.

Ela levanta o queixo, continuando, “Onde dormi na noite


passada é algo a ser resolvido entre Cole e eu.”
Mantenho minha cara séria, mas minha cabeça é inundada
por imagens de um Pike muito jovem e estúpido, pegando sua
namorada enroscada com um cara em um carro na frente do
nosso apartamento, às três da manhã. Se algo parece com um
pato e anda como um pato...

Sim.

Solto o balcão do bar e cruzo os braços sobre meu peito.


“Eu honestamente não me importo o que você faz, Jordan”, digo a
ela, meu coração lentamente congelando, “mas não sou estúpido,
também. Cole pode ser distraído, mas eu não sou. Quem quer
que tenha vindo buscar você ontem à noite, não a levou para
casa. Por isso, se você está colocando chifres no meu filho, vou
tomar partido nesta briga”, aviso a ela. “E então, vou ter que lhe
pedir para deixar a minha casa, porra. Não vou gastar dinheiro
para dar apoio a alguém assim. Você entendeu? Nunca mais
minta para mim novamente.”

Sua mandíbula fica apertada como se ela estivesse tão


irritada quanto eu estou. Espero sua língua afiada vir voando de
volta para mim, e por um momento acho que isso vai acontecer,
mas então, nada. Em vez disso, seus olhos se enchem de
lágrimas e o queixo treme enquanto ela inspira rápida e
superficialmente. Ela olha para longe, piscando.

“Sim, entendi”, ela diz baixinho. E então, coloca a toalha de


lado e levanta parte do balcão e sai, deixando o bar. “Com licença,
por favor.”

Ela vai embora pelo corredor e sai da minha vista. Eu olho


atrás dela.

Posso estar errado. Eu poderia estar errado.

Mas ignorei meus instintos tantas vezes, agora já estou


mais atento. Pensei que ela fosse uma boa pessoa, mas não vou
ser feito de bobo outra vez. Se ela não estava fazendo nada
errado, poderia ter respondido à pergunta.

Virando-me, afasto-me do balcão e vou em direção à porta.


Mas uma voz me para.

“Colocando chifres no seu filho...”, uma voz feminina zomba


de minhas palavras. “Seu precioso filho.”

Paro e encaro Shel Foley, a proprietária, que está atrás do


bar, um cigarro na mão e muita fumaça na frente de seu rosto.

“Você tem algo a dizer?”

Ela empurra e fecha a registradora, dá outra tragada antes


de apagar o cigarro no cinzeiro e plantar suas mãos sobre o
balcão. Ela olha para mim. “Seu filho idiota deveria buscá-la no
trabalho ontem à noite, depois que ela terminasse um turno de
dez horas”, ela me diz. “Ele ficou bêbado em uma festa, e
adivinha quem apareceu aqui para levá-la para casa? Jay
McCabe — o ex dela — que na época de escola, achava muito
divertido bater na namorada depois de perder algum jogo.”

O que?

“Ela se recusou a ficar no carro com ele”, Shel resmunga


para mim. “Em vez disso, esta manhã encontrei Jordan
encolhida, dormindo sobre a mesa de bilhar imunda, porque não
tinha mais ninguém para quem ligar ontem à noite.” E então ela
estreita os olhos. “Ela não queria que você descobrisse que merda
seu filho é.”

Eu ainda continuo congelado, incapaz de me mexer.

Não respiro e nem pisco, a raiva ameaçando transbordar.

Ele bateu nela. Porra, ele bateu nela? Meus punhos se


fecham, meus pulmões ardem. Cada músculo queima.

Filho da puta.
E Cole estava na mesma festa que este cara? Será que ele
mandou este cara vir buscá-la? Que porra é essa? Como ele pode
estar no mesmo ambiente com um merdinha destes?

Tenho uma visão de um idiotinha qualquer, covarde


agarrando Jordan, machucando-a, fazendo-a chorar... eu ...

Fecho meus olhos.

Eu acabei de fazê-la chorar.

“Ela é uma boa menina, com um coração muito bom”, Shel


continua. “E merece muito mais do que um destes idiotas desta
cidade — incluindo o seu filho. Espero que ela deixe vocês todos e
nunca olhe para trás.”

Jesus Cristo. O que eu estava pensando?

Giro e sigo para o corredor por onde Jordan desapareceu.


Eu tenho que falar com ela agora. Tudo que fazia sentido para
mim há alguns minutos, agora parece ridículo. Por que tirei
conclusões precipitadas se não havia qualquer prova?

Droga, Cole! Não posso acreditar!

Desço pelo corredor, vejo os banheiros, um escritório e


outro quarto com a porta entreaberta. Ela provavelmente está no
banheiro, mas antes de decidir esperar, eu abro um pedacinho a
mais da outra porta para checar ali dentro primeiro.

Ela está no centro da pequena sala, de costas para mim,


mas posso dizer que está limpando os olhos. Prateleiras do chão
ao teto revestem as paredes, estocando garrafas de bebidas,
misturadores, sucos e outros suprimentos, como guardanapos,
canudos e velas.

Fico parado na porta e ouço uma fungada.

“Jordan?”, digo hesitante.


Ela instantaneamente se endireita, virando-se apenas o
suficiente para que eu veja um lado de seu rosto. “Sério?”, diz ela,
tentando endurecer sua voz. “Apenas saia. Você quer que eu vá
embora? Você conseguiu, ok? Estou fora.”

Dou um passo silencioso para frente. “Jordan, eu


realmente sinto muito. Não sei o que eu estava pensando.”

“Apenas saia daqui.”

“Você deveria ter ligado para mim”, eu digo a ela, dando


mais um passo para frente. “Eu estaria aqui em um piscar de
olhos. Sinto muito. Eu apenas...”

Mas de repente ela se vira, olhando para mim. “Sabe qual é


o problema dos homens?”, pergunta ela, enxugando os olhos com
sua mandíbula enrijecida. “Vocês acham que podem nos tratar
mal, porque vamos simplesmente aceitar isso. Mas nós vencemos
quando não permitimos que isso aconteça novamente.” Ela dá um
passo na minha direção, acrescentando, “Você pode ir se ferrar.”

E então, ela dá a volta em torno de mim e sai da sala.

Eu me encolho. Quero segui-la. Quero esclarecer as coisas


e dizer a ela que eu estava errado. Quero colocar tudo para fora e
esclarecer as coisas, mas...

Eu não sei.

Esta é a segunda vez que discutimos e nas duas vezes a


culpa foi minha. Não deveríamos estar brigando. Isso é o que uma
mulher faz com seu namorado, não com o pai dele.

E é isso que eu sou. O pai do namorado.

Nada mais.

Mas no fundo do meu coração, a pequena brasa que vem


crescendo mais e mais a cada dia sabe que isso é uma mentira.
É mais. Eu não perdi minha cabeça por causa de Cole. Foi
por mim.

Ela se tornou importante, e pela primeira vez em muito


tempo, eu me encontrei realmente curtindo a conversa com
alguém. Comecei a baixar a guarda.

É bom ter ela por perto.

E eu acabei de mandar que ela faça as malas.


Capítulo 9

Jordan

Shel tenta me mandar para casa cedo durante meu turno


duplo, mas depois do episódio com Pike, o último lugar que quero
estar agora é na casa dele. Não tenho outro lugar para ir, sem
mencionar que preciso do dinheiro.

Como ele pôde fazer isso esta manhã? Aparecer no meu


trabalho como se soubesse de alguma coisa? Eu não pertenço a
ele.

E se ele tem alguma preocupação, por que não conversar


sobre isso de forma tranquila? Nem toda mentira tem a intenção
de ferir alguém. Eu estava acobertando o traseiro de Cole.

Sim, entendo suas suspeitas. Entendo mesmo. Ele não me


conhece direito e está preocupado com seu filho, mas como
podem todos os homens da família Lawson serem tão ruins na
arte de conversar de forma madura e adulta?

Esfrego meus olhos, minha mente voltando para o


momento em que ele me disse que não apoiaria alguém assim e
que eu deveria sair de sua casa. Nesse momento, senti-me
indesejada. Novamente. Indesejada em outro lugar. Por outra
pessoa. Eu me senti como um fardo. Como com os meus pais e
até mesmo com Cole e Cam às vezes.
Por que sempre permito me sentir como se não merecesse
nada melhor? Achei que ele fosse alguém legal. Pensei que
fôssemos amigos e comecei a relaxar.

Solto um gemido, tentando conter as lágrimas. Odeio o fato


de ter chorado na frente dele.

Trabalho até que o pessoal do turno da noite chega, às seis,


e ainda fico por ali por tempo suficiente para comer meu jantar —
a outra metade do meu sanduíche de almoço —, guardo minhas
gorjetas e fecho meu caixa antes de vestir um agasalho e pegar
minha bolsa. Não tomo banho há mais de vinte e quatro horas e
uma dor de cabeça lateja entre meus olhos devido à falta de sono.
Eu só quero me sentar debaixo de um chuveiro quente e deixar
todo resto para trás.

Meu estômago se revira um pouco, lembrando que não


tenho para onde ir para essa chuveirada. Não vou aceitar nem
mais uma coisinha de Pike Lawson, nunca mais. Sem mencionar
que ainda estou chateada com Cole. Ele mandou uma mensagem
para verificar se eu estava bem e se desculpar novamente, mas
não respondi nada.

Eu aceno um adeus para Shel e para as outras meninas e


deixo o bar, saindo para o ar noturno muito bem vindo. O sol já
se pôs, mas ainda há um pouco de luz, quando coloco as alças da
minha mochila nas costas e sigo para a esquerda, para a rua.

Preciso do meu próprio lugar. Meu apenas e de mais


ninguém. Preciso da minha própria casa, que seja só minha.
Onde possa ser eu mesma, sem nunca ser colocada para fora ou
ser indesejada. Onde eu me sinta segura.

E isso significa que preciso de dinheiro.

Sem pensar, minhas pernas me levam em frente, descendo


a Rua Cornell e na direção da Lambert, o céu escurecendo e os
vaga-lumes brilhando nas árvores acima. O tráfego diminui, mas
depois se torna mais pesado durante a hora seguinte, enquanto
me arrasto mais e mais para o lado de fora da cidade. As casas se
alinham pelas ruas, assim como algumas lojas de canto e postos
de gasolina, mas há menos luz aqui, então fico na calçada, onde
há luzes das varandas à esquerda e à direita.

Depois de menos de uma hora, vejo a iluminação do The


Hook à frente e o estacionamento lotado e constantemente
enchendo. Já estive aqui antes, mas odeio entrar em um lugar
lotado vestindo roupas do dia anterior e com o cabelo cheirando à
fumaça.

Eu examino o estacionamento e localizo o Mustang da


minha irmã ao lado do edifício. Todas as noites, um dos
seguranças leva todas as meninas para fora até seus carros,
apenas no caso de algum fã maluco decidir tentar pegar uma
delas quando estão sozinhas.

Entrando no clube, estou, de repente, envolta em


escuridão, as pesadas batidas da música vibrando o chão sob
meus pés. É quente e cheira a neblina e perfume. Ao contrário do
Grounders, não é permitido fumar aqui e em vez de antigos pisos
de madeira com sujeira emaranhada em todas as frestas, um
reluzente piso preto range sob meu tênis.

“Ei, doçura!” Uma mulher chama. “O que você está


fazendo?”

Viro-me e vejo Malena através da janela do pequeno


escritório. Ela nunca me cobra entrada, é claro. Eu não venho
aqui para isso.

“Cam está por aí?”, pergunto.

“Ela acabou de terminar no palco”, a mulher responde.


“Provavelmente está na pista em algum lugar agora. Vá em
frente.”
“Obrigada.” Dou-lhe um sorriso e caminho para o clube, o
pequeno nó no estômago apertando mais. Nunca vim atrás de
Cam aqui a menos que fosse muito necessário. Algumas das
irmãs ou amigas das moças sentam-se atrás do palco e jogam
conversa fora com as outras dançarinas, rindo e socializando,
mas isso é difícil para mim. Eu posso ver minha irmã nua, mas
tenho um problema com o fato dos outros a verem nua. Pais de
amigos da escola, algum antigo namorado... até mesmo as
mulheres da cidade que vêm em grupos para uma noite só de
garotas para 'fazer algo diferente'. Sei que no dia seguinte estarão
lá fora falando merda sobre os bailarinos para quem quiser ouvir.
Olhar para fora por detrás da cortina e ver o motorista de ônibus
da minha escola primária ou alguém assim, seria um susto
grande demais. Não sei como ela consegue fazer isso.

A sala tem muitas luzes estroboscópicas, girando acima e


abaixo e em círculos, enquanto outras luzes estão alinhadas nas
bordas do palco que se projeta para fora no meio da multidão e é
cercado por mesas de ambos os lados. Não é um lugar grande,
mas há dois pedestais separados com seus próprios mastros e
suas próprias luzes onde os dançarinos podem chegar mais perto
do público.

Parando no bar que fica perto da entrada, olho em volta,


procurando pelo cabelo castanho de Cam, provavelmente
arrumado em um penteado tão extravagante que deixaria
qualquer mulher do Texas com inveja. Há uma boa quantidade de
clientes esta noite. Solitários, alguns casais, cabines cheias de
homens que parecem ter acabado de sair de seus escritórios e
agora estão devorando carnes e hambúrgueres e uma grande
festa de jovens rapazes que eu não reconheço.

Gwen, uma das amigas de Cam, coloca as mãos nos braços


da cadeira e se abaixa de volta para o assento.

E no colo do homem já sentado lá.


Apoiando-se nos braços, ela se move e rebola, revirando os
quadris e colocando a cabeça para trás sobre o ombro dele.
Minha pele se aquece e minha respiração se torna superficial. Já
vi Gwen ou qualquer uma das outras meninas fazendo isso uma
dúzia de vezes. É ele que me fascina, no entanto.

Seu cliente parece estar em seus vinte e tantos anos, um


jovem vestindo jeans e camiseta, mas é bonito e em forma. Seus
olhos estão semicerrados, olhando por cima do ombro e para
baixo, pela frente do corpo dela que se move sobre ele. Suas
mãos, impedidas de tocá-la, apertam os braços da cadeira e eu
vejo a mandíbula dele se apertando.

Provocando, brincando, cativando a atenção dele,


balançando algo que ele quer bem na frente dele e, em seguida,
afastando-se, porque ele não pode tê-la...

Neste breve momento, eu me pergunto se eu seria tão boa.

“Já posso ver alguns olhos vidrados em você.”

Viro a cabeça, vendo Mick Chan, proprietário do Hook, em


pé ao virar da esquina do bar. Mick é um ex-lutador de meia-
idade que se casou com uma stripper e decidiu que queria passar
o resto de sua vida em um bar. Assim, ele e sua esposa abriram
este lugar e viveram felizes para sempre desde então.

Ele sorri para mim, sua camiseta preta esticada sobre o


peito ainda musculoso. “O dinheiro que poderíamos fazer
juntos...”, diz ele com uma piscadela.

Eu viro meus olhos de volta para a sala, segurando o meu


riso. Este cara deveria seriamente pensar em colocar um estande
na feira de profissões do ensino médio, para poder abocanhar
mulheres assim que atingem a maioridade aos dezoito anos, em
vez de continuar tentando me recrutar.
“Sua irmã diz que você não tem cabeça para isso, e que eu
devo parar de tentar convencê-la, mas Jordan...”

“Eu não vim aqui para isso”, interrompo. “Eu vim para falar
com Cam.”

Termino de escanear a sala e estou prestes a ir para os


fundos, mas de repente ele se move em direção a mim, seu tom
calmo, mas sério.

“Você vê esses mesmos clientes no Grounders, também,


certo?” Ele olha para a multidão e se volta para mim. “São os
mesmos caras que você serve lá, não é?”

Eu levanto meu olhar de volta para as mesas e cabines,


reconhecendo alguns. É uma cidade pequena. E daí?

“Por que você acha que eles vão lá afinal?”, pergunta ele,
estreitando os olhos para mim. “Eu tenho um chef de cozinha e
um cardápio muito melhor aqui. Bartenders treinados. Banheiros
limpos. Por que não gastar todo o tempo de bar aqui?”

“Porque o Grounders é mais barato.”

“Porque Grounders também vende sexo”, ele dispara de


volta. “Esses meninos vão ao Grounders por você, Shel, Ashley,
Ellie... não por causa da cerveja barata e das cascas de
amendoim espalhadas pelo chão. Porque você acha que não há
homens trabalhando lá, afinal? Shel contratou você, por causa da
sua aparência.”

Não digo nada, apenas me concentro de volta no palco onde


vejo minha irmã saindo de trás da cortina. Mick continua me
olhando e eu quase posso sentir sua respiração no meu pescoço
mesmo que ele esteja parado a alguns metros de distância.

“Não se engane”, ele me diz. “Eles ainda estão olhando para


você como um pedaço de bunda, mesmo com todas as suas
roupas no lugar.” E então ele olha para o palco e para minha
irmã que está se balançando em torno do poste. “Ela apenas
consegue fazer muito mais dinheiro que você.”

No dia seguinte, minha irmã não pergunta por que dormi


no seu sofá. Ela leva seu filho e eu para tomarmos café fora e
depois vamos ao Farmer´s Market para comprar alguns produtos.
Falamos sobre a feira do condado que está chegando, o que há de
novo nos cinemas e que tipo de festa Killian quer ter no seu
aniversário em setembro.

Minha irmã gosta de encher meu saco, mas ela é muito boa
em saber quando estou sofrendo também. Ela sabe quando
recuar.

Depois de sua performance na noite passada, eu a segui até


a parte de trás do clube e peguei suas chaves, para que assim
pudesse pegar o carro dela e entrar em sua casa. Não sabia o que
dizer a ela sobre por que precisava dormir lá, então não expliquei
nada. Por onde começar? Cole me dando um cano e não vindo me
buscar na noite anterior? Eu sozinha com Jay em um carro, em
uma rua deserta no meio da noite, pela primeira vez em dois
anos? Eu passando a noite em uma mesa de bilhar? Pike
acusando-me de estar traindo seu filho e aproveitando-me de sua
generosidade?

O chefe dela colocando a pressão sobre mim novamente,


para que eu venha trabalhar para ele?

Cole agindo como se eu mal existisse?

Sinto um soluço em minha garganta. Eu não posso voltar


para lá. Prefiro dormir dentro do meu carro. A criança de três
anos de idade dentro de mim com um orgulho do tamanho do
Pacífico vai mostrar a ele, não vai? Vou morar dentro do meu
carro quebrado, sem ar condicionado e com as maçanetas que
não funcionam, porque não preciso de ninguém, certo?

Por entre meus olhos lacrimejantes, sorrio um pouco


enquanto dirijo o carro da minha irmã para a pista. Não é tão
ruim assim, de verdade. Tenho a casa de meu pai. Minha
madrasta pode não me querer lá, mas eles não vão me jogar para
fora.

Não vai ser sempre assim.

Viro para entrar no bairro de Pike, diminuindo a marcha do


Mustang da minha irmã e chegando a casa dele.

Minha irmã não precisa trabalhar hoje, então ela me deixou


usar seu carro para buscar minhas coisas da casa de Pike.

Quando a casa dele entra no meu campo de visão, focalizo


sua caminhonete na garagem e meu estômago dá um nó.

Eu não quero vê-lo agora.

Deveria voltar mais tarde.

Mas não, preciso de minhas roupas e meus livros para a


faculdade. Posso pegar o resto outra vez, mas preciso de algumas
coisas agora.

Estaciono e desço do carro, levo a maleta que peguei


emprestada com minha irmã e atravesso o gramado para subir as
escadas. Tirando minha chave, tento destrancar a porta, mas vejo
que ela já está aberta. Dou um passo cauteloso para dentro.

A sala está vazia, passo pela cozinha, vendo que ele não
está lá, também. Meus ombros relaxam um pouco. Ando para as
escadas e seguro o corrimão.

“Jordan.”
Eu congelo, consciência e nervosismo fazem os cabelinhos
no meu pescoço se levantarem. Merda.

Virando-me, eu endureço minha expressão e levanto o


queixo quando enfrento Pike. Ele está entre a sala de estar e a
cozinha, limpando as mãos com uma toalha suja, os braços e os
dedos cobertos de sujeira. Ele está molhado, encharcado de suor
que molha partes de sua camiseta cinza e seu rosto está mais
bronzeado que da última vez que o vi. Como se ele tivesse ficado
no lado externo pelas últimas vinte e quatro horas.

“Eu só preciso pegar minhas coisas”, digo e volto para as


escadas.

Mas ele me para novamente. “Jordan.”

“Olha, não importa, ok?” Eu o interrompo, virando-me para


ele de novo. “Eu não deveria estar aqui de qualquer maneira e
não é como se Cole ficasse aqui metade do tempo, também,
então, apenas me deixe pegar minhas coisas e paramos por aqui.”

Ele dá um passo para frente. “Para onde você vai?”

Quase quero chorar. “Para a casa do meu pai. Em Meadow


Lakes”, digo a ele. “Não sou um problema seu, ok?”

Pronto. Está feito. Não há necessidade de fingir que não


tenho outras opções. Estou indo embora. Odeio a ideia de voltar
àquele trailer de merda, mas não vai ser para sempre. Eu vou
sobreviver.

Volto-me para as escadas novamente, mas ele fala rápido,


quase correndo.

“Por favor”, ele deixa escapar, parando-me. “Venha aqui por


um minuto. Eu tenho algo para mostrar a você.”
Ele deve ver a suspeita em meus olhos, porque pede de
novo, mais firme e resoluto agora. “Por favor”, diz ele. “Só um
minuto.”

Ele se vira e volta para a cozinha e hesito por um momento


antes de segui-lo. Não quero estar curiosa, mas estou.

Eu entro na cozinha e vejo quando ele anda pela lavanderia


adjacente e sai pela porta dos fundos. O que há no quintal que eu
gostaria de ver?

As abas da porta de tela batem fechadas. Tomo uma


respiração profunda e endireito meu corpo antes de segui-lo.

Ele fica parado ao lado de um trecho retangular de terra


que era simplesmente parte do quintal há vinte e quatro horas
atrás. Agora, a grama desapareceu e há uma borda que define o
perímetro, e um solo rico e preto apareceu no quadrado. Há uma
mangueira ligada a alguns tubos de PVC, que está incorporada no
solo com bicos de sprinklers em vários intervalos.

Ele olha para mim, quase como se estivesse nervoso com


minha reação.

“O que é isso?”, pergunto.

Ele olha para trás de si e se volta para mim novamente. “É


um jardim”, ele responde. “Eu estava esperando que você
quisesse me ajudar com ele ou algo assim.”

Estou sem palavras. Meu coração está batendo tão forte e o


sol está tão quente. Como pode...? Mas então me lembro. Ele sabe
que eu amo paisagismo. Ele sabe que li todas essas revistas. Ele
sabe o que eu gosto.

Uma dor atinge meu coração. Ele fez isso tudo isso em um
dia?
Mas não vou me derreter por ele. Endureço minha voz.
“Desde quando você quer um jardim?”

Ele se aproxima de mim e cruzo meus braços sobre o peito,


preparando minha armadura.

“Jordan, fui um idiota”, diz ele. “Cheguei a uma conclusão,


porque eu estava errado e porque estou velho e cansado. Sempre
espero o pior comportamento das pessoas.” Ele faz uma pausa e
franze a testa. “Mas fui eu que me comportei mal. Você é diferente
e realmente ferrei com tudo. Isso não vai mais acontecer. Não
posso acreditar que disse aquelas coisas.”

Ele está ficando embaçado e não consigo evitar as lágrimas


que se derramam por mais forte que eu pressione meus dentes.

“Eu quero que você fique”, ele continua. “Gosto de ter você
aqui. É bom chegar e ver vida na casa. Ter pessoas para
conversar. É bom ter ajuda, e...” sua mandíbula flexiona,
parecendo com raiva. “E você não deveria ter dormido em uma
mesa de bilhar, porra. Você pode ficar aqui pelo tempo que
precisar, entendeu? Eu não quero que você vá embora.”

Meu queixo treme e não consigo evitar. As lágrimas


transbordam e baixo minha cabeça em uma tentativa de
esconder.

“Por favor, não chore de novo”, ele implora, “ou eu vou ter
que desmanchar a piscina e construir um gazebo ou algo assim.”

Solto uma risada, fungando e limpando os olhos. “Não, não


acabe com a piscina. Eu gosto da piscina.”

Vagando para o novo jardim, eu observo como é grande e


quanto trabalho deve ter sido necessário. Isso não faz com que o
comportamento dele esteja ok, mas ajuda saber que trabalhou
muito em algo que pensou que me faria feliz. Ninguém nunca fez
algo assim por mim.
Quero dizer, minha irmã já comprou roupas para mim e me
levou para passear, mas Pike fez algo que sabia que eu adoraria.
Algo que é bem a minha cara.

“Isso é incrível”, digo, colocando para fora meus


sentimentos. “Mas realmente acho que é melhor se eu apenas me
mudar daqui.”

“Esta é sua casa”, ele me responde. “Este lugar é seu por


tanto tempo quanto quiser ficar. Você e Cole podem convidar seus
amigos, ouvir suas músicas, acender velas...”

“Colocar capas nas tampas dos vasos sanitários?”, eu


provoco.

“Porra, isso não.”

Trocamos uma risada, e olho para trás, para o solo.


Podemos plantar tantos legumes aqui.

“Eu comprei um monte de sementes”, diz ele, agarrando


um saco e pegando uns punhados lá de dentro. “Mas não tenho
certeza de onde devem ser plantadas ou a quantidade de espaço
necessária para cada vegetal, então pensei que você talvez
quisesse planejar isso.”

Encontro seus olhos e nós nos encaramos por um


momento. Acho que talvez ele me queira por aqui ainda mais do
que está dizendo. Como se talvez eu fosse um elo entre ele e Cole,
e como disse, é como se estivesse gostando de ter pessoas na
casa.

Ele me entrega os sacos de sementes e, lentamente, pega a


mala da minha mão. “Eu vou colocar isso na garagem”, diz ele.
“Vou tomar um banho. Talvez possamos começar o plantio
amanhã de manhã?”

Seus olhos parecem investigar os meus e minha respiração


cessa por um momento com aquele olhar.
Eu finalmente concordo, virando-me.

Ele caminha em direção à casa de novo e então ouço sua


voz atrás de mim. “E se precisarmos de mais suprimentos, basta
me avisar. Eu tenho que dar uma passada na Home Depot
amanhã de qualquer jeito.”

“Ok”, eu sussurro.

E então olho para ele por cima do meu ombro. “E você não
é velho, sabe?”, eu grito.

Ele olha para mim, diversão brincando em seus olhos.


“Velho o suficiente para estar apegado a meus pontos de vista. E
isso foi errado da minha parte.”

“Obrigada.”

Os músculos de seu braço se flexionam enquanto ele


segura minha mala e eu não consigo deixar de olhar para as
tatuagens que correm ao longo dele. Parecem um pouco
desbotadas, como se ele as tivesse feito quando ainda era um
adolescente.

Como ele era quando tinha a idade de Cole? É difícil


imaginá-lo como um... bem, como um rapaz, eu acho. Ele é tão
sério. Quase demais.

Mas ele é sincero.

“Da próxima vez que você precisar de uma carona — ou de


qualquer outra coisa”, ele me diz, “prometa-me que vai ligar para
mim?”

Concordo com a cabeça novamente e volto para as minhas


sementes, animada com o verão que vem pela frente.
Capítulo 10

Pike

“Duas”, digo ao Dutch e jogo as cartas que não quero de


volta para ele.

Tirando os olhos de suas próprias cartas, ele empurra mais


duas para mim, e eu as encaixo na minha mão e examino a nova
mão. É uma merda, mas tenho dois setes, por isso não é uma
perda total.

Não que eu me importe. Não sou um homem competitivo —


pelo menos não quando se trata de pôquer — mas ser o anfitrião
desses encontros uma vez por mês na minha casa nos dá algo
para fazer enquanto falamos. Dou uma olhada em Dutch e em
seguida, pisco os olhos ao redor da mesa, vendo Todd, um dos
meus capatazes, assim como Eddie, John e Schuster trocando ou
reorganizando cartas. Todo mundo coloca alguns dólares no meio
da mesa e Todd nos eleva para mais três. Todo mundo aceita o
blefe... esperando que seja um blefe.

“Eu não estou animado com as minhas meninas crescendo,


vou te dizer”, Dutch diz, dando-me um olhar divertido.

“Por que?”

Ele apenas balança a cabeça, suspirando. “O barulho me


deixa louco. Por enquanto, tudo que tenho que suportar é uma
festa do pijama ocasional com um bando de risadas das garotas
de oito anos de idade.”

Dou risada, as batidas do andar de cima começando a


parecer paredes desmoronando. Eu estremeço. É apenas nove e
meia. Se ainda estiver alto assim em uma hora, vou dizer a Cole
para abaixar a música ou o bairro todo virá atrás de mim. Não
era para ser uma festa, mas encorajei Jordan e ele a chamar
alguns amigos, então é minha culpa, eu acho.

“Não há muito tempo atrás, gostávamos de muito barulho”,


menciono, lançando-lhe um sorriso.

Os caras riem, murmurando em acordo. Nós todos nos


formamos juntos e foi uma virada feliz de eventos que alguns de
nós agora trabalhemos juntos, embora John e Schuster não o
façam, sendo um policial e outro um reparador de telhados,
respectivamente.

Não faz muito tempo que éramos muito parecidos com Cole
— fazendo bagunça e nos divertindo muito com nossos erros. Fui
o primeiro a ser jogado na vida adulta, mas ainda nos
mantivemos próximos ao longo dos anos. Casamentos, crianças,
um divórcio — estávamos todos sob pressão, e foi como um
chamado, um dia, quando percebi que estava esperando minha
vida começar — minha verdadeira vida — para perceber que ela
já tinha acontecido quando eu não estava prestando atenção.

Aquele trem que eu estava esperando para pegar passou


por mim sem parar. Provavelmente não haveria uma esposa e eu
nunca saberia como é ter meus filhos crescendo e vendo-me
todos os dias. Neste ponto, estou muito habituado a estar sozinho
como estou e com um filho único.

E um filho único que não sabe compartilhar suas coisas.


Todd levanta outro dólar, e estou fora, seguido por Lin,
Dutch e Eddie. Todd recolhe a grana que conseguiu e Dutch
embaralha as cartas, distribuindo novamente.

A música abafada do andar de cima, de repente fica mais


alta e mais clara e eu ouço passos na escada, seguidos por uma
batida de porta. Pés descalços aparecem na escada, as pernas
aparecendo quanto mais elas descem.

Jordan se abaixa, espreitando para nós sob o teto do porão.


“Ei, vocês se importam se eu pegar os geladinhos5 no
congelador?”

Todo mundo olha para ela, virando a cabeça, e eu faço um


gesto, mal tirando o olhar das minhas cartas. “Ok, vá em frente”,
respondo rapidamente.

Calor líquido percorre meus braços, e eu olho para o meu


lado, lutando para me concentrar, porque ela é tudo o que estou
ciente agora.

Ela corre descendo o resto da escada, seus passos leves e


rápidos como se estivesse tentando não ser vista ou ouvida
enquanto corre até a parede à minha direita e levanta a tampa do
freezer.

A sala fica quieta, e eu não tenho certeza se os caras têm


medo de falar normalmente, porque há uma mulher na sala ou se
eles estão distraídos. Olho para minhas cartas e procuro no meu
cérebro. Do que estávamos falando um minuto atrás?

Ah, crianças. Certo.

Ouço coisas sendo mexidas no congelador e olho para


cima, meu olhar imediatamente indo para seus pés. Ela está na
ponta dos pés e inclina-se, segurando a tampa com uma mão
enquanto escava dentro do enorme container. Ela parece estar
5
Saquinho com suco de fruta, colocados no freezer. Conhecidos também como: chup-chup, sacolé, gelinho.
consciente do seu short e do fato de estar curvando-se na frente
de uma mesa cheia de homens, porque fica esticando a cada
poucos segundos e puxando seu short para baixo tanto quanto
pode.

Os dedos dos pés estão pintados de um rosa suave, e posso


dizer que ela está vestindo a parte de cima de um biquíni sob a
camiseta cinza. As tiras são visíveis amarradas atrás do seu
pescoço, e posso ver mais dele através das laterais de sua
camiseta recortada sem mangas, mostrando a pele cheia de
curvas, queimada de sol da sua cintura. Os músculos flexionam
em suas coxas, e meu estômago se contorce.

Eu começo a olhar de volta para as minhas cartas, mas a


pego colocando o cabelo atrás das orelhas, e é quando eu noto os
pequenos buracos na camiseta. No ombro, perto da costura.

Aquela é…?

“Não é a sua camisa?”, Dutch se inclina, sussurrando.

Eu estreito os olhos um pouco, e então noto o número de


beisebol desbotado, verde por trás do seu cabelo. Sabia que
estava reconhecendo aqueles buracos.

Eu desvio o olhar. Devo ter deixado no móvel no outro dia e


ela a pegou, pensando que era do Cole talvez? Ele jogou beisebol,
também, eu acho.

E ela cortou as laterais dela? Eu meio que quero estar


irritado com a perda. Tenho essa camisa desde o colegial, mas ...

Estava gasta demais para usar em público, de qualquer


maneira. E ela parece melhor nela do que jamais ficou em mim.
Eu olho para ela de novo, vendo a camisa cair sobre sua pele
suave, beijada de sol, e uma onda sutil de prazer se arrasta sobre
mim. Ela está vestindo algo meu sobre seu corpo.
Eu me mexo na cadeira, piscando para minhas cartas e
tentando afastar as estrelas da minha visão.

“Precisa de uma mão?”, Eddie oferece a ela.

Piscando meu olhar para Jordan, eu a vejo curvar-se no


freezer e franzo a testa.

Mas Todd comenta, um humor astuto no seu tom. “Oh,


deixe-a sozinha. Ela está indo muito bem por conta própria.”

Os caras riem, inequivocamente apreciando a vista e


Jordan volta para a posição vertical, levantando a caixa de
geladinhos na dobra do braço. Ela levanta uma sobrancelha para
Todd, deixando a tampa se fechar.

Eu me preparo para sua boca inteligente, mas em vez


disso, ela anda até a mesa e olha por cima do ombro dele e para
baixo em sua mão. “Oh, olhe isso”, diz ela, seus olhos brilhando e
sua voz afiada. “Você tem todos os reis do baralho. Que sorte,
hein?”

Dutch bufa e eu não posso evitar, mas estouro de rir


enquanto todo mundo se junta à diversão. Todos, exceto Todd,
que joga suas cartas para baixo, desistindo da mão.

Ela coloca um sorriso de satisfação no rosto e vai para as


escadas novamente. Estou meio tentado a dizer-lhe para ter
certeza que ninguém leve os geladinhos para a piscina, mas estou
tentando não micro-gerenciar o que ela e Cole fazem, como se
fossem crianças.

“Oh, ei, posso lhe fazer uma pergunta?”, diz ela, parando
no meio do caminho até as escadas.

Eu encontro seus olhos.

“Há um pequeno bolo na geladeira”, ela continua. “Cole


está implorando para comer, mas eu não comprei e não tenho
certeza de onde veio. Só queria verificar com você antes que ele
ataque.”

Porra. Eu mantenho a minha cara séria, apesar da minha


irritação. Posso sentir os olhos dos homens em mim.

“Ah, uh, é um...” murmuro, balançando a cabeça e fingindo


estudar minhas cartas novamente. “Eu, uh... eu comprei para
vocês... hoje, na loja... para vocês dois.”

Ela não diz nada, e depois de um momento de completo


silêncio desconfortável, olho para cima. Ela inclina a cabeça,
parecendo confusa.

Eu lanço três cartas para Dutch para ele me passar mais


três, embora não tenha certeza de quais acabei de descartar.

Ela ainda está olhando para mim. Posso sentir isso.

Corro para dar mais informações, esperando que ela diga


alguma coisa e saia daqui. “Eu estava apenas passando na
Etienne e lembrei que você não teve qualquer bolo no seu
aniversário”, eu digo a ela, agindo indiferente, “ou uma chance
para realmente comemorar. Eu só pensei que vocês pudessem
gostar.” Eu pego três cartas novas da pilha quando Dutch não me
passa nenhuma. “Estava passando por lá de qualquer forma.
Nada demais.”

Se não fosse grande coisa, eu não teria me sentido


subitamente estranho sobre isso quando cheguei em casa. Foi
estúpido comprar em primeiro lugar. Ela não é minha filha.

Mas por alguma razão, passando pela vitrine e vendo o bolo


de três camadas com rosas cor de rosa cobrindo cada centímetro,
eu pensei nela. Acho que ainda estava tentando me redimir sobre
ter agido como um idiota no outro dia.

E na outra noite ela mencionou soprar as velas, fazer


desejos... ela não conseguiu fazer isso corretamente no seu
aniversário — donuts não contam — de modo que me senti mal,
mesmo que não tenha sido culpa minha. Comprar o bolo pareceu
uma boa ideia naquele momento.

Trazer para casa pareceu sentimental, no entanto.


Sentimental demais. Eu o guardei na geladeira, escondido na
caixa-de-rosa, esperando ver se aquele sentimento todo me
atacaria novamente antes de eu apenas jogar tudo fora.

“Mas sim, é de vocês, então pode deixar Cole ataca-lo”, digo


finalmente, dando-lhe um rápido olhar antes de voltar para
minhas cartas.

“Você não ia me dizer que estava lá?”

Dou de ombros. “Eu esqueci disso, acho.”

A mentira não soa convincente, mas sua voz animada me


salva dos olhares quentes de todos em mim.

“Bem, nesse caso, então não”, ela declara com firmeza. “Ele
não pode comer. É meu.”

Meu coração se aquece, e não posso evitar. Olho para cima


lentamente. Ela está sorrindo para mim enquanto sobe o resto
das escadas.

“Obrigada!”, ela grita, e então ouço a porta abrir e o dilúvio


de música entrar antes que se feche novamente.

Rosa. Comprei-lhe a porra de um bolo rosa como se ela


tivesse sete anos. Com rosas em cima. Ela viu o bolo? Parece um
bolo de menina? Ou pior, algo romântico? Tinham bolos com
balões. Tinham bolos simples. Foda-se, sou um idiota. Nem
sequer pensei direito.

Jogo minhas cartas, fechando os olhos, e correndo a mão


pelo cabelo.
“Só um minuto, rapazes”, eu digo, empurrando minha
cadeira e dando a volta na mesa, em direção às escadas.

Algumas risadinhas e gargalhadas explodem atrás de mim


quando saio do porão e corro atrás da garota.

Sabe, não há muito tempo atrás eu conseguia pensar


claramente. Eu não estava constantemente duvidando de cada
movimento que fazia, não estava listando cada resultado possível
para uma única ação e como Jordan responderia a isso. Há muito
tempo eu não ficava confuso sobre qualquer coisa.

Empurrando a porta no topo da escada, ouço o estrondo de


I Love Rock ´n Roll vindo do quintal e o barulho de alguém
pulando na piscina. Encarreguei Jordan de recolher as chaves de
qualquer um que estivesse bebendo, mas se os vizinhos decidirem
chamar a polícia por causa do barulho, minha medida de
segurança para evitar que crianças embriagadas dirijam não vai
me salvar da ilegalidade de deixar os menores beberem aqui de
qualquer forma.

No entanto, tenho um policial lá embaixo, então suponho


que as probabilidades estão do meu lado.

Entro na cozinha, dando uma olhada nos festeiros lá fora e


vejo Jordan perto da geladeira, retirando a caixa rosa com o bolo.

Ela se vira e o coloca na ilha, olhando para cima e


encontrando meus olhos. “Eu não vou comê-lo ainda”, diz ela.
“Senão, terei que dividir com todos. Eu só quero ver.”

Apreensão toma conta de mim enquanto ela levanta a


tampa, e há um pedido de desculpas em meus lábios conforme
vejo um sorriso animado se abrindo em seu rosto.

Eu ando até a geladeira e pego um refrigerante. Finjo que


vim aqui para isso. “Desculpe se é infantil”, digo a ela. “Não sei o
que eu estava pensando.”
Ela cruza os braços e segura seu sorriso entre os dentes,
como se estivesse tentando se conter, mas não está funcionando.
Posso ver o rubor nas suas bochechas na cozinha escura e a
forma como sua respiração está falhando.

Ela vira a cabeça para mim. “Eu acho que nunca tive um
bolo tão bonito assim”, diz ela. “Obrigada por pensar em mim. É
uma agradável surpresa.”

Ela olha para o bolo, um olhar lunático em seus olhos.

Ótimo. Agora eu me sinto pior. Ela faz parecer que isso é a


melhor coisa que alguém já fez por ela e isso não seria triste pra
caralho?

É um bolo bem bonito, no entanto. A cobertura é


desenhada com rosas e começa na parte inferior em branco e
lentamente fica mais rosa a cada linha que sobe em direção ao
topo, onde finalmente chega a um rosa escuro.

Veja, não foi estúpido. Eu sabia que ela gosta de rosa.

“É rosa dentro, também”, digo a ela. “Bolo rosa, quero


dizer.”

O sorriso dela fica maior.

E não é feito para crianças, agora que eu me lembro. O bolo


é feito com champanhe, disse a senhora vendedora.

Ok, eu agi bem. Minha cabeça finalmente volta para a


perspectiva que tive quando comprei e me sinto menos torturado.

Ela mergulha o dedo em uma rosa e traz para sua boca,


chupando o glacê. Meu olhar congela, observando a forma como
seus lábios chupam e sua língua mergulha para lamber o
pouquinho de cobertura que ficou na ponta.

Eu gemo por dentro, incapaz de me impedir de querer


saber o quão quente aquela boca é.
Limpo a garganta. “Uh, eu esqueci completamente das
velas”, admito, indo para a gaveta atrás de mim, “mas sei que
você tem que fazer isso, então...”

Pego uma caixa de fósforos ao lado dos pegadores de panela


e acendo um, indo colocá-lo no centro do bolo, mas paro.
“Devemos chamar Cole?”

Ela olha pela janela e, em seguida, acena negativamente


para mim. Eu enfio o palito no bolo.

Observo conforme ela fecha os olhos, solta uma expiração e


relaxa os ombros, e depois, lentamente, um pequeno sorriso
aparece. Instintivamente, sorrio também, como se eu não
soubesse no que ela está pensando, mas acho que sei o que ela
está sentindo nesse momento.

Ela assopra o palito de fósforo e abre os olhos, o fluxo de


fumaça branca subindo a sua frente.

Eu fico ao seu lado por um momento, não querendo me


mexer.

Alguém deveria estar segurando-a agora. Alguém deveria


estar na frente dela, colocando as duas mãos sobre o balcão ao
lado do corpo dela e sentindo sua respiração contra o rosto.

Respiro um pouco mais rápido, imaginando o gosto que ela


tem.

E então, pego a lata de refrigerante que coloquei sobre o


balcão e aperto até que o alumínio estala.

Isso não é bom. Esses pensamentos não são bons.

Afasto-me, engolindo três vezes para umedecer minha


garganta e pego a caixa de fitas cassete do meu carro de cima do
balcão e deslizo-a por toda a ilha até ela.
“E isso é para você, Birthday Girl6” digo para distrair
qualquer vibração que eu possa estar enviando. “De nada.”

Seus olhos vão para a caixa preta, reconhecendo-a, e ficam


arregalados, seu queixo cai. “O que?!”, ela exclama. “Você está —
de jeito nenhum!”, ela sorri brilhante. “Eu não posso aceitar isso!
Foram do seu pai.”

Eu concordo, agora me sentindo mais seguro com a ilha


entre nós. “Meu pai gostaria que alguém que as amasse ficasse
com elas. Você vai amá-las, certo?”

E não é como se algum dia eu já tivesse ouvido estas


malditas coisas. Só ouço o que toca no rádio. Ela pareceu
encantada por elas, então foi a única coisa que consegui pensar
em dar-lhe e que ela pudesse querer.

Ela levanta as mãos animada e faz uma cara como se não


soubesse o que fazer comigo. “Mas...” ela para de falar,
brincando. “Pike, eu...”

“Você quer as fitas, certo?”, pergunto.

Ela ri de novo, fazendo uma careta. Eu posso ver a luta em


seus olhos. Para ela, é um presente valioso e se sente como se
não tivesse direito a elas. Mas ela também está morrendo de
vontade de aceitar.

“Você está falando sério?”, ela pergunta, segurando o rosto


entre as mãos.

Eu não posso evitar rir. É divertido deixá-la feliz.

Ela pegas as fitas da ilha e as abraça. “Eu tenho fitas. Eu


tenho uma coleção de fitas. Caramba!”, ela explode. “Eu me sinto
mal, mas... também quero ficar com elas. Então, vou aceitá-las.”

6
Garota Aniversariante.
Ela finge um olhar de desculpas, mas ri — o que me diverte
ainda mais.

“Bom”, eu digo.

E me sinto melhor agora, também. Pelo menos consertei


meu comportamento do início da semana. Com isso e o jardim,
ela parece eufórica.

Eu me afasto do balcão para ir embora, mas ela me para.


“Oh espere.”

Girando, ela tira uma bandeja da geladeira e caminha até


mim, colocando um saco de doritos em cima e entregando-me
tudo. “Eu fiz um molho de taco extra para você e os rapazes.”

Olho para isso, meu estômago imediatamente roncando.


“Oh, você não precisava fazer isso.” Nós geralmente
encomendamos asas de frango e pizza. Mas isso parece realmente
bom. “Obrigado. Eles vão adorar.”

Ela sorri e durante três longos segundos ficamos


conectados ali, um no olhar do outro. Quase como se o ar
estivesse pesado com alguma coisa que não nos deixa
movimentar.

Finalmente, inspiro profundamente e recuo. “Certifique-se


deles limparem tudo quando acabarem, ok?” Não faça tudo você
mesma, quero acrescentar, mas não faço.

Ela só revira os olhos para mim e se volta para suas fitas.

Um barulho alto me desperta e pulo acordado, piscando os


olhos na escuridão. Que porra é essa? Eu posso jurar que a cama
vibrou, também. Leva um momento para compreender todos os
sons do lado de fora e então eu ouço a batida de música abafada
pelas janelas fechadas.

Jesus, eles ainda estão acordados? Olho para o relógio e


vejo que já passa de uma hora da manhã. Jogo o lençol para o
lado e bocejo, correndo os dedos sobre o meu cabelo.

Está quente pra porra aqui.

Sento-me, balançando as pernas na beirada da cama e


levanto.

Atravesso o quarto, abro a porta e sigo pelo corredor até a


escada. No fim dela, verifico o termostato e chuto o ar
condicionado. Vinte e seis graus aqui. Penso em ajustar, mas isso
é inaceitável. Não ajuda que eu tenha que dormir com calça de
pijama agora que há mais pessoas na casa, mas tenho medo de
acordar de repente e esquecer que estou nu.

Entro na cozinha, mantendo as luzes apagadas e paro na


pia, olhando para fora da janela para o quintal. Estou surpreso
que os policiais não foram chamados. Está menos barulhento do
que estava antes, mas ainda está muito alto para esse horário.

Olho em volta do quintal para encontrar o que causou o


barulho e meus olhos imediatamente se arregalam, e eu me
afasto. Sério, Cole. Que tipo de amigos trazem essa merda para a
casa de outra pessoa?

Pelo menos duas meninas estão sem a parte de cima de


seus biquínis, uma delas sendo fortemente apalpada por um cara
que eu só posso supor que seja um dos amigos de Cole, enquanto
se agarram na piscina. A outra menina está deitada em uma
espreguiçadeira, um braço dobrado atrás de sua cabeça e de
óculos de sol, apesar do fato de estar escuro.
Eu me viro, procurando meu telefone na minha calça. Ele
precisa tirar esses merdas da minha casa agora, mas não posso ir
lá fora. Não tenho certeza se seria estranho para eles, mas com
certeza seria estranho para mim. É bom que eu conheço seus
pais, provavelmente.

Onde diabos está Jordan? Eu não sei por que esse


pensamento passa na minha cabeça, mas por alguma razão, é
instinto suspeitar que ela tenha um problema com isso, também.
Onde está meu telefone?

Lembro que está conectado ao carregador do lado da minha


cama e subo a escada e passo pelo corredor, entrando no meu
quarto e puxando-o da tomada.

Pelo menos a maior parte da festa já foi embora, pelo que


parece. Não deve ser muito difícil se livrar dos últimos oito ou
nove. Mas o quintal está uma bagunça e já fui mais do que
tolerante sobre isso. É melhor ele não me pedir para ter outra
maldita festa por um longo tempo.

Descendo a escada novamente, ligo para Cole no meu


celular quando paro dentro da cozinha. Segurando-o ao meu
ouvido, escuto conforme chama.

Mas logo ouço um tilintar vindo de algum lugar na sala de


estar e olho para trás e vejo a luz que vem do braço do sofá. É o
telefone de Cole iluminado com a minha ligação. Droga.

Desligando, bato meu polegar e clico no nome de Jordan,


ligando para ela. Mas quando estou prestes a teclar enviar, olho
para cima e de repente paro.

Ela está lá. Em pé na parte rasa da piscina, as coxas


dentro, com os braços presos na frente do corpo, tentando manter
sua parte de cima enquanto Cole puxa o laço na parte de trás de
seu pescoço. Ele fica na frente dela, olhando para baixo, conforme
ela balança a cabeça, tentando resistir, mas sorrindo ao mesmo
tempo. Eu posso ver sua vergonha daqui.

Uma inundação de sentimentos me bate e tantos


pensamentos correm pela minha cabeça enquanto tento desviar o
olhar, mas não consigo.

Não olhe para ela, eu digo a mim mesmo.

E meu punho se fecha em volta do telefone, querendo que


Cole a deixe sozinha, também. Ela, obviamente não está gostando
disso.

E eu não estou gostando disso.

Mas não posso tirar meus olhos dela novamente, vendo o


biquíni rosa de concha que ela está usando e as tiras finas
lentamente escorregando por sua pele.

Deus, ela é linda.

Sinto um nó dolorosamente retorcendo dentro de mim,


observando seu cabelo comprido caindo contra o corpo nu e seus
braços, a única coisa que cobre o que sobra dela.

Corro minha mão sobre o rosto, tentando esfregar a


vergonha, porque se eu fosse Cole estaria fazendo o mesmo, mas
de forma muito mais privada. Eu não iria querer mais ninguém
vendo o que eu vejo.

Soltando uma respiração, abaixo meus olhos. Esta noite


precisa acabar. Talvez eu deva cortar a eletricidade, assim todo
mundo vai embora.

Mas antes que eu tenha a chance de me mexer, vejo que


Jordan está fora da piscina e se movendo em direção à janela. Ela
mantém a parte de cima com uma mão e desliza dentro de minha
camiseta velha novamente com a outra, conseguindo amarrar as
tiras do biquíni uma vez que a camiseta está no lugar.
Suas sobrancelhas estão franzidas, como se estivesse
irritada e eu inclino minha cabeça, olhando atrás dela e vendo
que Cole seguiu adiante, rindo e jogando uma bola para alguém.

Ela anda ao redor da casa, em direção à porta dos fundos e


eu me endireito quando ela entra na cozinha. Conecto meu
telefone ao carregador no balcão para fazer parecer que estou
fazendo algo.

“Oh, oi”, diz ela, fazendo uma pausa quando me vê.

Olho para cima, limpando a garganta. “Ei, tudo bem?”

“Sim, eu estava apenas indo...” ela hesita, como se à


procura de uma resposta. “Cortar a melancia.”

Concordo com a cabeça uma vez e ando até a geladeira e


pego a fruta para ela.

Ela pega uma tábua de cortar e uma faca, e me esqueço de


pedir para ela acabar com a festa. Ela não parece querer estar lá
fora nesse momento.

Puxando a outra tábua do lado da geladeira, eu a coloco no


balcão ao lado dela e corto a melancia ao meio para ela.

Uma parte fica na minha tábua e passo a outra metade


para a dela e ambos começamos a cortar.

Os remanescentes da festa correm pelo quintal, um garoto


pegando uma menina seminua que está gritando e eu abaixo os
olhos de novo, sentindo-me estúpido como se esta não fosse a
minha casa e eu fosse um pervertido de setenta anos de idade
espionando adolescentes que estão correndo em volta do meu
próprio maldito quintal.

Observo o olhar dela através da janela a nossa frente e


então rapidamente para mim, provavelmente avaliando minha
irritação. Existem mulheres de topless no meu quintal, afinal de
contas, e eu perdi a cabeça com a camiseta molhada que ela
vestia ao cortar a grama no outro dia.

Mas em vez disso, eu recorro ao sarcasmo desta vez. “Você


acha que o Cramer ao lado está apreciando a vista?”

Ela bufa, vacilando seu corte e dá uma risada.

Depois de um momento, porém, ouço sua voz insultante. “E


você?” Ela responde.

Abro um pouco mais meus olhos, surpreso, e olho para ela.


Ela me lança um pequeno sorriso arrogante.

“Você ainda é jovem”, ela ressalta, brincando comigo.


“Ainda parece cheio de energia. Por que você não sai mais?”

Quem disse que não saio? Meus dias de bar acabaram, mas
eu recebi amigos esta noite, também. Admito que não é bem um
'sair', mas não sou um eremita.

“Você não é gay, é?”

Dou-lhe um olhar do tipo Desculpa? Nós não falamos sobre


meus hábitos de namoro na outra noite?

Mas ela balança a cabeça imediatamente, limpando-a.


“Sim, não importa. Não achei que fosse.”

Jesus.

Concordo que não tenho uma vida social tão ativa. Sei
disso. Eu nem tenho quarenta ainda e meu tempo ocioso parece a
aposentadoria do meu avô.

Faço uma pausa por um momento, procurando as palavras


mais fáceis para explicar isso a ela. “Eu gosto da minha vida
chata”, digo a ela, minha voz meio que soando como um pedido
de desculpas. “A maioria das mulheres não gosta.”
“Talvez garotas não gostem”, ela responde, com um leve
humor em sua voz que eu aprecio. “Eu acho que você está longe
de ser chato. Você deve sair mais. Há uma escassez de homens
nesta cidade. Há muitos meninos.”

Sorrio para mim mesmo. Ela me vê como um homem, não


apenas como o pai de alguém. Eu não deveria gostar disso tanto
quanto gosto.

E sim, pode haver um monte de meninos, mas também há


muitas mulheres, e nenhuma delas é para mim. Acredite em mim,
se a minha futura esposa vivesse nesta cidade, já a teria
encontrado por agora.

Ela corta uma de suas partes no meio e a posiciona de lado


para cortar os triângulos em dois. Sigo seu exemplo.

Lá fora, uma mulher jovem com um rabo de cavalo marrom


comprido corre pelo deck da piscina, seu biquíni laranja fazendo
sua pele bronzeada parecer mais escura.

Levanto meu queixo. “Devo ir atrás dela?”

Jordan olha para a menina e abaixa os olhos de novo,


continuando a cortar a fruta. “Ela é muito sexy para você.”

“Você acha que não posso dar conta?”, brinco, cortando


mais dois triângulos. “Eu já transei muito na mesma noite,
sabia?”

“Várias vezes pela sua idade, tenho certeza. Precisa de uma


soneca ainda?”

Por que, sua pequena...

Corto a fruta e a faca desce, a ponta espetando direto a


parte de dentro do dedo médio da minha mão esquerda.
“Merda!” Deixo a faca cair e puxo minha mão, a dor
afundando até o osso. Inspiro o ar através dos meus dentes.
Merda.

“Oh”, Jordan suspira e solta a faca, também, limpando as


mãos. “Sinto muito.” Ela dá uma risadinha arrependida. “Aqui,
venha aqui.”

Eu chupo o sangue do meu dedo, mal notando que ela me


empurrou para um banco da ilha enquanto pega as ataduras no
armário.

Eu as coloquei ali? Não coloquei aquilo ali.

Correndo para mim, ela abre um pacote e vejo que é um


lenço umedecido, provavelmente algo ‘antibacteriano’.

“Posso fazer isso.” Eu estendo minha mão.

Mas ela continua de qualquer maneira, inspecionando a


gota de sangue do tamanho de uma ervilha no meu dedo
novamente. “Eu sei”, ela diz. “Eu só me sinto mal. Não queria
chatear você e acabar distraindo-o. Estava só brincando.”

Eu assobio quando o lenço toca minha ferida aberta. “Você


não me irritou”, digo a ela, mas sai como um resmungo. “Bem,
você irritou, eu acho. Você sempre faz, mas de uma maneira boa.”

“De uma maneira boa?” Suas sobrancelhas se franzem.

Sim, tipo, divertida. Você é divertida. E engraçada. E muito


interessante. Eu não sei como ela faz meu humor melhorar tão
rapidamente, e mais estúpido, merda, não posso explicar por que,
mas eu gosto.

Eu não sei como dizer isso a ela, no entanto. Parece


estranho.
Quando não respondo à pergunta, ela continua, sua voz
calma e séria. “Sabe”, diz ela, sem olhar para mim. “Se você está
interessado nela, eu posso trazê-la mais vezes. Se você quiser.”

A menina do biquíni laranja?

“Trazê-la?”

Ela balança a cabeça, limpando meu dedo. “Uma festa do


pijama ou algo assim. Você não terá que fazer nenhum
movimento. Ela vai saltar em cima de você.”

Ela não olha para mim, mas eu olho para ela, no entanto.
Ela quer me arranjar com alguém?

Sinto um suor quente e leve cobrindo minha espinha


enquanto fico consciente do calor de seu corpo em pé entre as
minhas pernas. Observo-a soprar o cabelo para fora do seu rosto
apenas para ele cair de volta no mesmo lugar de novo.

A de biquini laranja não é quem eu quero pulando em cima


de mim.

Distraidamente, levanto a mão e tiro o cabelo do seu olho,


tocando em sua testa conforme o coloco atrás da orelha. Seu
olhar levanta, encontrando o meu enquanto deixo minha mão
descer pelos fios do seu cabelo liso e meu coração pula uma
batida quando nós dois ficamos ali, travados.

Quase consigo sentir seu rosto em minhas mãos. O desejo


de saber como seria segurar apenas uma parte dela é muito forte.

Jesus Cristo. Solto a minha mão, olhando para a pequena


ferida no dedo do meio.

“Então você quer que eu faça isso?”, ela pergunta baixinho,


quase como se estivesse com medo do que estou prestes a dizer.

Eu balanço a cabeça. “Não”, finalmente digo a ela. “Ela não


é ruim, mas não é o que eu gosto.”
Ela abre um Band-Aid e coloca no meu dedo, alisando
devagar sobre o curativo várias e várias vezes.

Meus dedos formigam onde ela os segura, e observo seu


rosto, seu foco ainda não deixando minha mão.

E, de repente, ela quase sussurra, “Bem, do que você gosta


então?”

Olho conforme ela lambe os lábios, sua respiração fraca e o


latejar do meu pau me deixa pronto para rasgar algo com os
dentes.

O que ela está fazendo comigo?

“Mulheres com idade suficiente para beber, para começar”,


retruco, puxando minha mão.

Ela ergue uma sobrancelha. “Sim, como se você fosse um


grande frequentador de bar.”

Sim, ela está certa. Eu bebo em casa.

“Mas, ok.” Ela suspira, indo para trás e colocando as mãos


na cintura. “Eu realmente não queria colocar vocês dois juntos.”

“Por que?”

“Não acho que ela seja o seu tipo.” Ela joga fora as
embalagens, relaxando seus olhos agora. “Além do mais, eu
ficaria com ciúmes. Gosto de ser a única mulher na casa.”

“E se eu tivesse dito sim?”

Ela dá de ombros, fingindo um olhar de desculpas. “Bem,


simplesmente você não teria mais seu novo hambúrguer favorito
do jeito que você gosta.”

Sorrio, balançando a cabeça. Tão presunçosa.


Mas sim, na verdade, eu amo seu jeito de fazer
hambúrgueres.

Ela pega minha mão, dando uma boa olhada na minha


pequena ferida.

“Está tudo bem. Obrigado.” Eu me levanto, forçando-a um


pouco para trás. “Vá em frente com seus amigos.”

Ela vira a cabeça sobre o ombro, olhando para fora, mas


não parece com vontade de continuar na festa.

“O que você vai fazer?” Ela pergunta, caminhando de volta


para a melancia e carregando a grande tigela com os pedaços.

“Tentar voltar a dormir, eu acho”, digo a ela.

Tomara que ela não mexa no ar condicionado e eu possa


dormir.

Caminhando para fora da cozinha, esfrego meu dedo,


sentindo a dor do corte a faca.

Olho para ela e vejo os olhos dela em mim por cima do


ombro. Ela rapidamente volta para seu trabalho, e eu só quero
ficar.

Depois de um longo momento, engulo. “Boa noite”, digo.

Mas antes de chegar à sala, ouço sua voz atrás de mim. “O


que você quis dizer com, 'de uma maneira boa’?

Seus olhos estão em mim novamente e curvo o canto da


boca em um pequeno sorriso. Eu não sei o que dizer para não
soar completamente inadequado.

Finalmente, eu simplesmente decido soltar a resposta mais


fácil, virando e indo para as escadas. “Eu gosto de conversar com
você”, respondo sobre meu ombro.
Capítulo 11

Jordan

Eu gosto de conversar com você? O que eu já disse antes


que tenha sido tão fascinante? Solto uma risada, balançando a
cabeça conforme descasco as batatas para o jantar.

Talvez seja a falta de opções. Ele viveu sozinho por tanto


tempo que qualquer conversa parece interessante para ele? Não
temos absolutamente nada em comum.

Mas, a verdade é... Adorei ouvir isso. Por que eu quero


tanto que ele goste de mim? E por que a festa era o último lugar
em que eu queria estar ontem à noite quando percebi que ele não
estaria lá fora também?

Olho para cima e vejo-o no quintal através da janela na


minha frente. Ele trabalha em aparar a árvore perto da cerca que
separa o seu quintal do de Cramer, segurando um aparelho
comprido, portátil, que se estende até os galhos altos. Eu
mencionei que não tinha luz do sol o bastante atingindo o jardim,
então ele decidiu resolver o problema. Sem nem mesmo eu ter
que pedir.

Eu amo o jardim mais do que admito para ele. É como ter


meu próprio espaço e ele ainda estará aqui depois que eu for
embora. É reconfortante.
As sementes estão plantadas e os irrigadores regam o solo
por alguns minutos toda manhã e à noite como um relógio. Passei
a gostar de ouvi-los funcionar nas primeiras horas, quando ainda
está escuro e sou a única pessoa acordada e na cozinha com meu
café.

Tudo está começando a parecer familiar e aconchegante


aqui. Como uma casa.

Eu escavo na pele da batata, áspera e rispidamente. Típico.


Eu sempre me ligo a coisas que não são para sempre. A ideia da
minha mãe voltando quando eu era pequena, Nick, Jay, meu
apartamento e o desejo de ter uma casa própria... eu me
surpreendo com o quão absolutamente patética continuo sendo.
Eu espeto a faca na tábua de corte e tiro mais algumas batatas
do saco.

E para piorar as coisas, não consigo parar de pensar sobre


a noite passada durante todo o dia e a festa é o de menos.

O bolo de aniversário, as fitas, brincar com ele... A maneira


como ele lembrou que eu tinha que apagar uma vela e fazer um
desejo. Uma vibração bate no meu coração e eu sorrio e então
faço uma careta, confusa e não querendo esses sentimentos.

Assoprei o palito na noite passada, desejando a mesma


coisa que desejei no cinema naquela noite. Eu amei como me
senti naquele momento e esperava que pudesse me sentir assim
todos os dias. Isso é tudo o que eu quero.

Não pedi para que algo fosse diferente ou algo que eu não
tenho, mas que eu me sentisse exatamente do mesmo jeito no dia
seguinte. E no próximo.

Especial, lembrada, feliz.

Ele me deixa feliz.


Feliz de uma maneira que meu namorado deveria fazer eu
me sentir.

Descascando outra batata, vejo com o canto do olho ele se


movimentar do lado de fora e tento me parar, mas olho para cima
de qualquer maneira.

Erguendo os braços, ele puxa a camiseta azul marinho pela


cabeça e a enfia no bolso de trás, estendendo a mão para pegar o
cortador novamente.

Por um momento, congelo. Minhas mãos param na tarefa e


os sons do aparador, do cortador de grama do outro lado da rua e
da música tocando na cozinha desaparecem lentamente.

Sua pele — dourada e tonificada — parece quente e lisa, os


músculos de seu estômago e as veias que descem por seus
antebraços pressionando contra a sua pele, exibindo quanto
tempo e quão duro ele trabalhou em sua vida. Suor brilha no seu
pescoço e coluna, e eu posso ver as ondulações dos músculos nas
costas. Mesmo através das tatuagens.

Pernas compridas em jeans gastos com a camiseta


pendurada no bolso de trás e cobrindo parte do seu... molho
meus lábios enquanto tiro os olhos das suas costas e olho a
forma como o jeans está pendurado no seu quadril.

Cada músculo flexiona quando ele corta ramo após ramo e


tudo que posso fazer é inspirar de forma curta e superficial
conforme admiro a maneira como as pernas da calça caem sobre
as botas de construção.

O Sr. Lawson é sexy. Ele é capaz, forte fisicamente e eu me


pergunto como seria senti-lo. Como ele é com uma mulher?

Abaixo meus olhos novamente.

“Oh, isso é sexy”, ouço uma voz.


Eu pisco e sacudo a cabeça, olhando atrás de mim. Cam.

Ela para ao lado da ilha, vindo pela porta da frente, sem


que eu ouvisse. Ela coloca um antebraço no granito, apoiando-se
casualmente com um olhar divertido no rosto.

Eu volto para a minha tarefa, meu coração batendo nos


meus ouvidos.

É ruim o suficiente cobiçar alguém que não seja Cole, mas


precisava mesmo que ela me pegasse também?

“Eu nunca vi você olhar para Cole deste jeito”, diz ela.

Quanto tempo ela ficou ali?

Eu decido cortar o mal pela raiz. “Assim como?”, digo


rapidamente. “Pare de tentar começar qualquer merda.”

Eu a ouço caminhar enquanto vem ficar em pé ao meu lado


na pia. Dou uma olhada em Pike para ver que ele ainda está
trabalhando, alheio a nós na casa.

“Vocês dois estão ficando muito confortáveis aqui”, ela


brinca, enxaguando as batatas descascadas e colocando-as na
panela. “Ele está trabalhando no jardim. Você está cozinhando. É
como se vocês fossem um casal.”

“Cala a boca. Eu tenho idade suficiente para ser filha dele.”

“Mas você não é sua filha”, ela atira de volta, virando-se


para mim e inclinando-se. “Você é um pedaço de buceta sexy e
jovem, vivendo sob o teto dele e você sabe que ele já pensou sobre
isso. Ele pode ser o pai de Cole, mas também é homem.” Ela vira
de volta, olhando para fora da janela e checando-o. “E um que
tem uma aparência saudável e legal também.”

“Eu tenho um namorado. O filho dele.”


É isso mesmo, Jordan. Isso é exatamente o que você deveria
ter dito a si mesma enquanto estava olhando para ele um minuto
atrás.

Mas minha irmã apenas dá de ombros. “Ainda mais sexy.”

Deixo escapar um riso amargo. “Se você gosta dele, vá lá.”

“Não-não.” Seus lábios curvam brincando. “Já estou toda


trabalhada na fantasia agora. Quero o pai do meu próprio
namorado.”

Uggggghhhh... meu rosto se aquece novamente.

“Você é sórdida. E você não tem um namorado”, eu falo.

“Bem, devo arrumar um. Um que tenha um pai sexy.”

Eu balanço a cabeça. Não vou falar mais sobre isso. Ela


está convencida de que eu estava cobiçando Pike e continua na
maldade. Não vou alimentá-la.

“Além do mais, você é minha irmã”, ela afirma. “Eu não


quero deixar você com ciúmes ao ficar com ele.”

“Por que eu ficaria com ciúmes?”, deixo escapar,


terminando a última batata. “Sério. Eu tenho um namorado. Com
quem Pike Lawson transa não traz nenhuma consequência para
mim. Vá em frente.”

Afastando-me, limpo as mãos, dou a volta nela e pego a


panela de água com as batatas e coloco no fogão, acendendo o
queimador. As costeletas de porco estão marinando. A massa dos
biscoitos está descansando. Repasso minha lista mental tão
rapidamente quanto possível para manter minha mente ocupada.
E longe dele.

Ele pode ver quem quiser. Esta é sua casa.


“Bom”, ouço Cam dizer. “Se você está bem com isso,
então...”

Permaneço no fogão, fingindo verificar o queimador, mas


minha mão aperta o botão, o medo torcendo minhas entranhas.

A próxima coisa que ouço é a porta de trás acertando


contra o batente e pulo, vendo que ela saiu da cozinha.

Filha de uma…

Caminhando de volta para a pia, olho pela janela e vejo


Cam atravessando o gramado até onde Pike está trabalhando. Ela
joga um olhar por cima do ombro para mim, sabendo que estou
assistindo. Ela sorri e eu faço uma carranca.

Eu não estava falando sério. O pensamento das mãos dela


sobre ele... os braços dele em volta dela... eu não quero ver isso.
Ela é minha irmã.

Ele sente sua aproximação e olha para ela, desligando a


ferramenta, e vejo quando ele escuta, provavelmente se
perguntando por que ela está o incomodando.

Talvez ele esteja se perguntando, é isso.

Minha irmã é sexy e não são muitos os homens que a


recusariam se ela resolver dar em cima deles. Talvez Pike esteja
atraído por ela? Ele é um homem, como ela disse.

E ela é mais velha, tem seu próprio lugar para morar, um


carro e está enraizada nesta cidade por enquanto. Ela ainda é
significativamente mais jovem do que ele, mas não é uma criança.

Ela não é uma 'menininha'.

Ela cruza os braços sobre o peito, arrastando os pés um


pouco, dando a impressão de modéstia e eu balanço a cabeça,
porque Cam não é modesta. Em absoluto.
Apenas muito boa em ler as pessoas. Ela sabe que se for
com tudo, vai assustá-lo.

Depois de um momento, ela toca o braço dele e eu mal


consigo respirar conforme ela dobra o pescoço, inspecionando a
tatuagem dele. Então, rapidamente, endireita-se e levanta o
braço, mostrando-lhe a enorme Phoenix preta na lateral do seu
torso.

Ele observa enquanto ela abaixa as alças de seu top branco


e do sutiã, e meu estômago se contorce, esperando que ele fique
corado ou pareça desconfortável, porque desconfortável é a coisa
de Pike, mas ele não parece. Em vez disso, ele a observa animado
enquanto ela fala animadamente, e, de repente, ele sorri, seu
corpo tremendo com uma risada do que quer que ela esteja
dizendo.

Algo para na minha garganta e eu não me sinto bem. Ele


continua olhando para ela. Seus olhos quase não a deixam desde
que ela andou lá para fora. Ele a deseja? Ela o excita?

Quer dizer, quero que ele goste dela, só não quero que
queira ela. Não está certo. Não quero ouvi-la gemendo e ofegando
pelo corredor a noite toda.

Além disso, ela não vai gostar dele. Ele é muito tenso. Bem
chato, na verdade.

Mas ela definitivamente o faria se sentir bem por algum


tempo.

Eu fecho os olhos, um peso de cinco toneladas sobre meus


ombros.

Ela se vira e começa a pegar galhos do chão e ele volta a


cortar, ambos trabalhando felizes juntos em uníssono. Mas eu
vejo quando ela se vira e fala algo para mim com um pequeno
sorriso arrogante.
Leva um momento para registrar o que ela disse.

Já com ciúmes?

Eu não posso evitar o gemido que escapa conforme lhe


mostro o dedo e, em seguida, viro, afastando-me da janela.
Maldita. Ela não vai fazer nada. Ela acha que eu gosto dele. Está
apenas tentando me irritar.

Eu puxo a gola da minha camiseta longe do meu corpo,


cada centímetro da minha pele irritada. Preciso de ar.

Andando até o fogão, desligo o queimador e saio da


cozinha, correndo pelas escadas. Entro no meu quarto e do Cole,
tiro algumas roupas limpas das gavetas e saio, atravessando o
corredor para o nosso banheiro.

Mas assim que entro, paro, vendo a confusão que Pike fez.
A banheira foi arrancada, as válvulas desligadas da pia, e há
entulho por todo o chão de azulejos brancos.

Ele ainda está reformando. Esqueci.

A porta do quarto dele está aberta e posso ver sua cama em


frente, a cabeceira contra a parede oposta, conforme ando em
direção ao seu quarto. Toda vez que passei por aqui para tomar
banho na semana passada, foi estranho. Estar sozinha em seu
quarto.

Eu não espio nada, mas é tentador.

Sua cama está sempre feita. Um pouco ao acaso, o cobertor


apenas jogado de volta com pressa, mas eu não posso evitar me
surpreender. Se não fosse pela minha madrasta, a cama do meu
pai nunca estaria arrumada.

Indo para o banheiro, vejo as fotos de Cole desde o


nascimento até o porta-retrato do último ano da escola, alinhados
na moldura do seu espelho da penteadeira. Uma TV de tela plana
está pendurada na parede, o cabo de força está pendendo
desconectado. Uma miniatura de escuna está na mesa com
apenas uma leve camada de pó sobre as velas brancas.

E um relógio antigo com uma pulseira de couro desgastada


que eu nunca o vi usando está em um prato sobre sua cômoda.
Não há nenhuma outra joia em qualquer lugar.

Além da cama, os dois armários, a TV e as mesas de


cabeceira, o quarto é pequeno. Nada nas paredes, é claro, uma
luminária preta com uma cúpula cinza, e uma luz forte da tarde
passando através das brechas nas persianas parcialmente
abertas.

Eu odeio que ele tenha vivido aqui sozinho por tanto tempo.
Alguém precisa apimentar este lugar. Não minha irmã.

Fechando a porta do banheiro atrás de mim, eu a tranco e


vou até o chuveiro, ligando a água. Coloco minha troca de roupa
no balcão da pia e tiro a roupa, puxando uma toalha da prateleira
e pendurando-a no gancho do lado de fora do chuveiro.

Já com ciúmes? Balanço a cabeça, minha ira crescendo


novamente conforme entro no chuveiro e fecho a porta de vidro.

Eu não estou com ciúmes. Só não quero vê-la


manipulando-o como sei que pode fazer. É um jogo para minha
irmã e ela esconde suas inseguranças atrás do comportamento
volúvel e do sarcasmo.

Pike não é assim. Ele precisa de alguém calmo. Alguém que


sabe como mantê-lo calmo.

Alguém que possa envolver os braços em seu pescoço e


fazer o resto do mundo desaparecer.

Inclinando minha cabeça para trás, molho meu cabelo e


fecho os olhos, sentindo o calor da água batendo nos meus
ombros e pescoço. Arrepios espalham-se pelos meus braços e
minha cabeça de repente nada com o prazer do calor.

Virando-me, coloco as mãos na parede e viro minha cabeça


sob o jato, finalmente me levantando e inclinando-me contra a
parede atrás de mim enquanto puxo o cabelo para trás.

Meu estômago se contorce. Se Cole não estivesse envolvido


e Pike entrasse no bar uma noite e se sentasse em um banquinho
e falasse comigo... eu gostaria dele. Eu realmente gostaria dele.

Iria querê-lo.

Aperto os olhos fechados. Deus, minha irmã está certa.


Algo está acontecendo. Vem acontecendo, na verdade. Todo
mundo percebe, também? Ele percebe?

Merda.

Abrindo os olhos, imediatamente foco no gel de banho dele


que está à minha frente no suporte. Cole geralmente usa Axe,
mas ele não trouxe suas coisas do outro banheiro ainda,
provavelmente, apenas usando o Irish Spring do pai.

Dou um olhar rápido no vidro, certificando-me que estou


sozinha, tiro o vidro do suporte e abro a tampa.

Pequenas bolhas de espuma estão em volta da abertura,


por causa dos banhos dos homens esta manhã e eu fecho os
olhos, trazendo o vidro de Pike até meu nariz. A fragrância
inebriante enche minha cabeça e um comichão percorre toda a
minha pele. É sabonete barato, mas é sem frescuras, faz o
trabalho e me lembra de jeans, madeira e das cerdas de uma
barba curta de final de tarde na mandíbula de um homem.

É ele.
Minha garganta incha como se estivesse tomando um gole
de água e eu engulo, sentindo-me desapontada que não tem nada
lá. Eu molho os lábios, respirando com dificuldade.

Penduro a realidade em algum lugar no fundo da minha


mente e distraidamente coloco uma gota do sabão na minha mão.
Levo a mão até o nariz, cheiro de novo, minha respiração mais
forte, meus olhos se fechando e meu clitóris instantaneamente
latejando.

Devo ir atrás dela? Lembro-me do seu sorriso raro,


convencido, que me deixou excitada na noite passada. Eu não
queria que ele fosse atrás de ninguém, mas Deus, estou
desesperada para ver como é. Como ele seria com uma garota?

Você acha que eu não posso lidar com ela? Já transei muito.

A mão com sabão desce pelo meu pescoço, desliza pela


clavícula e desce para o meu seio e mamilo. Lidar com ela? “Não
ela”, falo para mim mesma.

Meus dedos passam pela barriga enquanto recosto na


parede e deslizo minha mão entre as pernas, mordendo meu lábio
e estremecendo ao toque.

Lentamente começo a me esfregar, meus dedos fazendo


pequenos círculos no clitóris endurecido.

“Não”, eu sussurro, abrindo os olhos. “Para, para, para…”

Eu forço Cole para dentro da minha cabeça. Suas mãos no


meu corpo. Seus lábios em meu ouvido. A maneira como ele
enterra seu rosto no meu pescoço, para eu nunca poder ver seus
olhos.

Oh baby.

Porra, baby, porra.

Você é tão gostosa. Tão gostosa.


Suas mãos apertam minha bunda e eu esfrego a saliência
com mais força. Mais rápido. Perseguindo o momento que acabei
de ter. O orgasmo me provoca embaixo na minha barriga e quero
muito gozar.

“Cole”, eu digo, fechando os olhos novamente. “Vai mais


forte.”

Eu giro, de frente para a parede, pressionando-me contra


ela com a mão ainda enterrada entre minhas pernas. Ele está
atrás de mim, exigindo. Ele quer foder.

Eu deslizo um dedo para dentro e começo a me movimentar


sobre ele. Coloco minha bochecha contra a parede, tentando ir
mais rápido, então não posso pensar. Talvez se for apenas uma
foda, eu consiga gozar.

Meu dedo está molhado, e deslizo-o para fora e esfrego meu


clitóris novamente. Eu quero gozar. Está logo ali. Mas não
consigo. Os músculos do meu braço se esticam e meus pulmões
pedem ar.

Por favor.

Mas ele não vem. Meus dedos desaceleram e eu exalo, as


lágrimas ardendo no fundo dos meus olhos.

Mordo meu lábio novamente, desejando tanto. Estou tão


molhada.

E então, com minha mente enevoada e minha vontade


desaparecida, rastejo dentro da minha cabeça onde ninguém
mais pode ver além de mim.

Eu me escondo e desisto, porque ninguém além de mim


tem que saber. Nesse momento. Ninguém precisa saber meus
pensamentos sujos e a pequena fantasia tórrida, que eu o quero.
Eu quero ser dele. Nosso segredinho.
Escondido.

“Que boa menina”, uma nova voz sussurra em meu ouvido.

A voz de Pike.

Seu corpo está por trás de mim agora, maior e mais alto,
prendendo-me contra a parede. Sua mão segura a parte de trás
do meu cabelo, e ele puxa minha cabeça para trás lentamente,
inclinando-se para pressionar meu lábio com a língua. Eu
choramingo.

“Cuidando da casa do jeito que gosto”, ele provoca e dentro


da minha cabeça, minha mão se torna a mão dele conforme Pike
assume o controle de enfiar os dedos em mim. “Preparando
minhas refeições do jeito que gosto. Coisinha linda para eu olhar.
Você está indo tão bem, Jordan.”

Eu mantenho meus olhos fechados, procurando por seus


lábios, todo o meu corpo pulsando com uma corrente elétrica com
o sabor de sua boca quente e a água do chuveiro caindo sobre
sua pele quente. Eu posso sentir seu pau duro e pronto atrás de
mim.

“Eu preciso que você faça tudo o que uma mulher faz
agora”, ele instrui. “Tudo o que uma boa menina faz para um
homem. Você pode fazer isso?”

Eu concordo, ofegante. “Sim.”

Meu orgasmo está vindo novamente, meus mamilos estão


pressionados dolorosamente contra a parede de azulejos, e é tão
bom entre as minhas pernas. Eu o quero. Eu o quero em mim.
Quero saber como ele é.

Alcançando atrás de mim, não penso. Pego uma esponja e


deslizo-a entre as minhas pernas. O material irrita meu clitóris de
uma forma que me leva ao limite. Retorço meu quadril contra ela,
querendo sentir qualquer coisa, porque na minha cabeça é ele
quem está ali e isso é o suficiente. Seu cheiro me rodeia, sua boca
suga meu pescoço, e ele está me levantando, para que possa
deslizar dentro de mim. É áspero e duro, suas mãos sobre meus
seios num minuto e sua boca roubando minha respiração em
seguida. Deus, sua língua tem um gosto bom.

O orgasmo formiga profundamente, crescendo cada vez


mais, e o pai de Cole está me fodendo tão bem.

Eu gozo, a onda se derramando sobre mim, e grito em


silêncio, respirando com dificuldade, mas não fazendo nenhum
som. Deus. Caio contra a parede, quase em ruínas, conforme me
arrepio, o orgasmo descendo pelas minhas pernas e deixando
meus joelhos fracos. Aperto meus olhos fechados e me balanço
até que ele se esvai, deixando-me tonta.

Quando o chuveiro para de girar e minha respiração volta


ao normal, eu abro os olhos, uma enxurrada de emoções
correndo dentro de mim.

Meu Deus. Quero chorar.

O que diabos há de errado comigo? Porque eu faria isso? E


com o pai dele? Eu…

Estou confusa e cansada e buscando conforto em um cara,


porque ele foi bom para mim algumas vezes. Jesus.

Não importa o que aconteça entre Cole e eu, Pike Lawson


está fora dos limites. Não se esqueça disso. Há centenas de
homens lá fora como ele. Ele não é especial.

Não pode ser ele. Nunca.

Eu me endireito, puxando uma inspiração profunda.


Olhando para baixo, no entanto, vejo que a bucha na minha mão
não é a minha rosa. É a cinza de Pike.

“Merda.”
Ainda tem um pouco de espuma nela do seu banho desta
manhã.

E eu a usei para alcançar o orgasmo. Maravilhoso.

Gemo por dentro.

Saindo do chuveiro, enterro-a debaixo dos lenços de papel


na lata de lixo e faço uma nota mental para comprar uma nova
para ele da próxima vez que eu sair.

E algum gel de banho diferente, penso, também.


Capítulo 12

Pike

“Jordan?”

Olho para a esquerda e direita, conforme passo em cada


corredor, depois de tê-la perdido há quase dez minutos. Onde
diabos ela foi parar?

Os caras e eu terminamos mais cedo hoje e com um pouco


de luz do dia ainda, cheguei em casa do trabalho e encontrei
Jordan trabalhando no jardim. Ela queria dar uma olhada em
umas telas de galinheiro ou algo para as plantações de tomate e
eu pensei em adicionar uma borda de pedra ao redor da árvore no
quintal, então entramos no carro e fomos para a Home Depot.

Depois de fazer o pedido da pedra, porém, a perdi.

Eu finalmente a encontro no final de um corredor cavando


em uma caixa em uma prateleira. Endireitando-se de novo, ela
puxa uma folha de pastilhas e a levanta na frente de si,
estudando-a. Carregando as duas ferramentas novas de jardim
que escolhi, eu ando até ela, ficando mais ereto.

Ela está linda hoje e continua acontecendo merda com meu


corpo a cada vez que olho para ela. Como se houvesse fios vivos
debaixo da minha maldita pele. Camiseta preta, shorts branco,
cabelo solto e livre, o mínimo de maquiagem — ela é sem
frescuras, e isso funciona. Parece a filha de um fazendeiro e
exatamente o meu tipo tempos atrás.

Balanço a cabeça, clareando-a.

“O que é isso?”, pergunto, aproximando-me.

Ela olha para mim, ainda segurando a folha quadrada de


pastilhas. “São pastilhas.”

Eu estendo a mão livre, correndo meu polegar sobre as


tiras de pedra coladas no papel. “Pastilhas?”

“Você está no ramo de construção”, ela corta, dando-me um


olhar punitivo. “Você nunca assistiu aos programas de reforma e
decoração na TV? Pastilha é tudo na decoração de uma casa.”

“Sim, eu já vi isso”, asseguro a ela, soltando minha mão.


“Eu só... não sei. Parece meio florzinha demais.”

Ela revira os olhos, seu olhar descansando sobre as pedras


novamente. “São as pequenas coisas que acrescentam
personalidade a uma casa”, ela me diz. “Um lustre artístico, o
tapete certo e pastilhas na parede atrás da pia e do fogão.” Ela
vira a folha de frente para mim e me mostra. “Isso é você. Ficaria
lindo com o que você já fez na cozinha.”

“Eu, hã?” Deixo escapar uma risada, encontrando seus


olhos. “E o que eu sou?”

Seu sorriso cai e um olhar de surpresa cruza seus olhos.

Pisco. “Não quis dizer isso... assim”, digo a ela.

Não é o que disse, mas como eu disse. De uma maneira


insinuante demais.

Ela parece ignorar, no entanto, virando a folha de volta e


olhando para ela novamente de forma apreciativa. “Isso me
lembra uma caverna”, ela finalmente diz. “Você é como uma
caverna. Você não desiste de todos os seus segredos de uma só
vez. Quem sabe o quão profundo você é, certo?”

Minhas sobrancelhas se arqueiam. O que?

Quão profundo eu sou? Ela acabou de...

Seus olhos de repente giram e ela vira o olhar para mim,


parecendo mortificada. “Quero dizer”, ela se apressa, “como...
por... por dentro. Sua personalidade.” Um rubor aparece em suas
bochechas. “Eu não quis dizer isso assim... ugh.” Seus ombros
afundam e ela guarda as pastilhas de volta na caixa, desistindo.
“Vou babar nas louças sanitárias agora. Tchau.”

E se afasta de mim rapidamente, desaparecendo por um


corredor.

Minha boca se curva em um sorriso e dou uma risada


tranquila, olhando atrás ela.

“Então, o que você acha?” Um jovem de avental laranja se


aproxima pelo canto do meu olho.

Nem olho para ele, no entanto, ainda encarando o corredor


por onde ela simplesmente desapareceu. “Vamos começar com
três caixas disso.” Eu aponto para as pastilhas na prateleira. “Ver
como fica...”

Ele se move e começa a descarregar as caixas. “Escolha


sábia. Esposa feliz, vida feliz, certo?”

Esposa feliz, vida...

Eu o observo puxar uma caixa e levá-la embora, a pulsação


no meu pescoço de repente latejante.

Ele pensa que ela é minha esposa?


Um sorriso curva o canto da minha boca e não sei
exatamente que emoção está preenchendo meu peito agora, mas é
boa e há um monte dela.

Mais tarde naquela noite, deito no sofá com o braço


dobrado atrás da cabeça e uma cerveja na mão, assistindo TV
enquanto entro em um transe lúcido e um programa se
transforma em cinco.

Coloco a cerveja na mesa e pego o controle remoto,


finalmente desligando o canal de reformas e decoração e
piscando, acho que, pela primeira vez em três horas. “Ela está
certa”, murmuro. “Eles estão obcecados com pastilhas na parede
da cozinha.”

Em um momento de curiosidade, cliquei no canal depois de


chegarmos em casa da Home Depot e é como se eu tivesse
apagado depois disso, apenas momentaneamente parando para
fazer um sanduíche e tentar falar com Cole.

Ele está fora novamente agora, tomou um banho e saiu


rapidamente depois de chegar do trabalho e perceber que Jordan
não estava aqui. Pensei que pudéssemos pedir um jantar ou algo
assim, mas, aparentemente, seus planos não poderiam ser
quebrados novamente.

Ou ele está com medo de ficar sozinho comigo. Não é que


eu queira brigar, também. Até mesmo simplesmente assistir a um
programa juntos seria ótimo. Quero dizer, nós conseguimos não
nos matar no passado. Ele costumava gostar de mim.

E onde é que ele consegue todo esse dinheiro para festejar?


Deve estar gastando tudo o que está ganhando.
Não que eu esteja com pressa para que ele economize
dinheiro e vá embora, mas acho que agora eu posso me julgar tão
duramente como julguei Jordan. Quanto mais você faz para
alguém, menos eles fazem para si mesmos. Sou tão culpado
quanto ela. Cole não vai crescer até que seja forçado a isso.

Eu tomo o resto da minha cerveja e levanto, levando a


garrafa vazia para a cozinha.

Meu telefone toca no bolso e o pego.

Dutch.

“Oi”, atendo, jogando a garrafa no lixo.

“Oi. Você tem que vir ao Grounders agora.”

Hã?

“Tipo agora mesmo”, acrescenta ele antes que eu tenha a


chance de dizer qualquer coisa.

“Por que?”

“Porque...”, ele faz uma pausa e ouço uma risadinha


ofegante. “A Jordan está, um... comportando-se mal, acho que
posso dizer.”

Eu me endireito, minhas sobrancelhas franzindo.


“Comportando-se mal?”, repito. “O que isso significa? E por que
você acha que eu me importo. Eu não sou pai dela.”

A música toca em segundo plano e posso ouvir uma


multidão conversando e rindo. Um dos meus rapazes vai se casar
em algumas semanas, então a equipe o levou para sair esta noite.
Precisamos de pelo menos uma pessoa sem ressaca amanhã,
então fiquei em casa.

“Se você diz isso, cara”, ele retruca como se não acreditasse
que não me importo. “Mas o seu filho pode não gostar do que
estou vendo agora. O que todo mundo está começando a ver
agora.”

“Do que você está falando?”, desafio.

“Você vai ter que vir até aqui para descobrir. Eu só espero
que você não chegue tarde demais.”

Há um clique e acho que ele desligou.

“Dutch”, berro para o telefone. “Dutch!”

Solto um suspiro e tiro o telefone da orelha, fechando a


tampa da lixeira com força.

Mas eu paro, dando uma segunda olhada em algo que está


no topo. Levantando a tampa novamente, puxo uma meia folha
rosa, a menina no folheto chamando minha atenção. Estudando-
a, deixo a tampa cair e leio.

Noite das novatas!

Fique molhada! (Sua camiseta, pelo menos)

27 de maio às 21h.

The Hook, na Jamison Lane

Grande Prêmio de $ 300!!

Endireito minha coluna, atentando para a data e, em


seguida, relaxo um pouco. É daqui a duas semanas, então Dutch
não estava falando disso. Isso não está acontecendo esta noite, e
não é no Grounders.

É provavelmente um panfleto de Cole, de qualquer maneira.


Mas em um reflexo, viro o panfleto e vejo o que está escrito
na parte de trás.

Ganhe essa $, garota!!

Levanto uma sobrancelha.

Isso é da Jordan? É do The Hook. A irmã dela deu isso a


ela? Jesus, o que há de errado com aquela garota? Quem
incentivaria sua irmã mais nova a participar de um concurso de
camiseta molhada, pelo amor de Cristo?

Novamente, porém, não é hoje à noite, e ela jogou o papel


fora, então isso é uma coisa boa.

Mas agora estou ansioso.

Eu gosto da menina. Não quero que ela se sinta como se


precisasse fazer uma merda destas para ganhar dinheiro. Não
estou colocando nenhum deles para fora da minha casa, estou?

Arremesso o papel e esfrego meu couro cabeludo,


exasperado. Dutch gosta de mexer com as pessoas, especialmente
comigo, mas ela realmente dormiu sobre uma mesa de bilhar,
porque era orgulhosa demais para pedir ajuda. Jordan não faz as
melhores escolhas.

Eu gemo, sabendo que agora não vou relaxar. Deslizando


meu telefone no bolso, pego minhas chaves e apago as luzes
antes de sair de casa.

Entrando no carro, ligo o motor e aumento o rádio tão alto


quanto posso suportar para me distrair da preocupação no meu
estômago. Ele tem que começar a merda, não é?
Dutch realmente parecia mais divertido do que angustiado,
porém, então provavelmente está sacaneando comigo. Ele só quer
que eu saia de casa.

Leva menos de dez minutos para eu chegar ao Grounders e


encontro um lugar para estacionar virando a esquina, não muito
longe. Posso ouvir a música daqui de fora e me pergunto se as
ligas locais têm algum jogo de beisebol hoje à noite e se todo
mundo ainda está comemorando.

Comportando-se mal. Balanço a cabeça, abrindo a porta. A


menina não sabe o significado dessa palavra. Ela é boa como
ouro.

Respirando fundo, abro a porta e quase estremeço com o


barulho. Difícil de acreditar que isso era exatamente a minha
cara uma vez.

Addicted to Love toca nos péssimos alto-falantes e mesas


redondas altas estão lotadas de clientes. O bar está cheio, nem
um único assento vago e eu olho em volta, vendo que as cabines
estão todas cheias também. Algumas mulheres estão na fila do
banheiro, a mesa de bilhar está cercada por espectadores e o ar
está carregado e cheio de fumaça. Eu já posso sentir os olhos em
mim.

Aceno para Calista Mankin conforme seus olhos brilham e


ela acena de volta, e localizo James Lowry com o canto dos meus
olhos. Provavelmente só vi estas pessoas umas cinco vezes desde
o colégio e já me sinto desconfortável.

Meu olhar finalmente recai sobre Jordan que está em pé no


jukebox, as páginas virando na sua frente enquanto ela passa a
lista através do vidro. A multidão é grande, mas vejo a parte de
trás de sua cabeça. Eu reconheceria seu cabelo em qualquer
lugar.
Meus ombros relaxam um pouco. Sabia que era apenas
alguma trama estúpida para eu vir até aqui. Ela está bem.

Ando através das pessoas, tentando encontrar Dutch e os


caras, mas então vejo Jordan deixar a máquina de música e ir de
volta para o bar e é aí que consigo vê-la por inteiro através da
multidão de pessoas e consigo focar no que ela está vestindo.

Meus olhos incendeiam. Jordan, Jesus...

Seu jeans a envolve tão confortavelmente como sempre, as


curvas de seu traseiro perfeito em forma de coração, mas os
malditos seios estão ameaçando saltar para fora do... Espartilho.
Por que diabos ela está vestindo lingerie?

É um top branco, cintilante e amarrado na frente em um


corpete em forma de coração com pequenos babados nas pontas.
Meus olhos vão para o decote, minha cabeça girando com
imagens do que vai pular para fora quando ela desamarrar aquele
top esta noite.

O espartilho nem sequer alcança seu jeans, ao invés disso


para bem acima do seu quadril, sua cintura fina e barriga
chamando a atenção de cada homem por onde ela passa. Os
laços parecem bem apertados, dando a ela uma aparência de
ampulheta que está implorando pelas mãos de um homem. Eu
fecho as minhas.

A pele dos seus ombros nus, seu cabelo caindo pelas


costas, o balanço de seu quadril quando ela anda.... tiro os olhos
antes que fique grudado. Ela caminha para trás do bar
novamente e eu ignoro alguns dos sorrisos de satisfação dos
homens conforme a seguem com os olhos e tento não pensar o
que seus sussurros estão dizendo uns aos outros.

Uma mão acena no canto da minha visão e levanto meu


olhar para Dutch que está sentado com os caras em uma mesa.
Ando até lá.
“O que diabos ela está vestindo?”, resmungo, deslizando
para a mesa.

Dutch vira a cabeça em minha direção, sua bebida a


centímetros de seus lábios. “É o show de lingerie”, ele me diz.
“Eles têm isso toda quinta-feira. Os garçons e garçonetes vestem
camisolas ou espartilhos e servem bebidas e comida. É divertido.”

Não, nem um pouco.

Mas eu olho em volta e vejo algumas outras mulheres


servindo aperitivos e trazendo bebidas, algumas em trajes muito
finos. Pelo menos o espartilho de Jordan parece tão fino quanto
uma armadura.

“Mas Jordan nunca fez isso antes”, ele continua. “Isso é


que me chocou. Pensei que você deveria saber.”

“Por que diabos eu iria querer saber?”, puxo uma cerveja do


balde de gelo sobre a mesa.

“Sim, desculpe.” Ele vira de lado, murmurando no copo:


“Você parece que não poderia se importar menos.”

Eu lhe dou um olhar de lado, ouvindo a risada em suas


palavras.

Enfiando a cerveja intocada de volta no balde, levanto-me e


vou para o bar. Ouço um resmungo atrás de mim, mas não me
importo. Ela é meio que minha responsabilidade e não a quero
fazendo essas coisas, porque acha que precisa do dinheiro.

Há apenas uma bartender além de Jordan. A proprietária,


Shel. Tenho certeza que ela não se esqueceu de mim, então viro
para o lado oposto e chamo a atenção de Jordan enquanto ela
abre as tampas de uma fileira de seis garrafas de cerveja.

“Que diabos você está vestindo?”, inclino-me, falando tão


baixo quanto posso.
Ela inclina a cabeça para mim, encontra meus olhos e
rapidamente se afasta novamente como se eu fosse a última
pessoa com quem ela quisesse lidar agora.

Ela entrega as cervejas, recolhe o dinheiro e vira, batendo


na tela à sua frente. “Está tudo bem” ela me assegura. “É apenas
um espartilho, Pike.”

“Estão todos olhando para você.”

Ela concorda com a cabeça, sorrindo sarcasticamente.


“Essa é a ideia.”

“Jordan”, suspiro, tentando sussurrar conforme espremo


algum cara velho no bar. “Esta é uma cidade pequena. E se seu
pai entrasse?”

“Ele não vem aqui”, diz ela, fechando a gaveta da


registradora e finalmente olhando para mim. “E nem você,
normalmente.” Um rubor cruza seu rosto. “Além disso, não sou
estúpida. Não participaria de algo que eu achasse que poderia me
humilhar.”

Ela se vira e entrega o troco para o cliente, mas ele acena


para ela, deixando-a ficar com ele. Ela sorri e se vira, deixando as
notas em uma vasilha que já está transbordando.

“O que você está fazendo aqui?”, diz ela, começando a


misturar outra bebida. “Eu achei que você ficaria de fora da
despedida de solteiro, porque...”, ela abaixa a garrafa e faz aspas
no ar enquanto imita minha voz rouca, “‘é preciso haver pelo
menos uma pessoa sóbria no trabalho amanhã’.”

Levanto uma sobrancelha para ela. Eu não falo assim.

Alcançando dentro do meu bolso, puxo o folheto e o


empurro sobre o bar para ela.
Ela para e seu rosto fica pálido. “Onde você encontrou
isso?”

Ela segura o folheto e joga fora em algum lugar. Em uma


lata de lixo, provavelmente.

Pegando um guardanapo, ela o coloca na frente de um


cliente e lhe entrega a bebida que acabou de preparar.

“Se você precisa de dinheiro”, digo conforme ela se vira


para marcar um pedaço de papel. “Eu empresto o que você
precisar, ok?”

E ela para, virando lentamente os olhos para mim. Seu


olhar fica aguçado, irritado e ela parece querer gritar comigo, mas
não o faz. Em vez disso, Jordan passa pelo bar e pela divisória,
virando com rapidez suficiente para mostrar um dedo para mim
antes de girar e seguir para o corredor.

Meu estômago afunda. Eu realmente não quero irritá-la


tanto quanto estou fazendo. O que eu disse agora?

Desviando pelo meio da multidão, sigo o caminho para o


corredor vazio, finalmente chegando à mesma sala onde ela
estava chorando quando a irritei da última vez.

Entrando pela porta aberta, vejo-a de pé com as mãos na


cintura e a cabeça inclinada para mim.

“Eu prefiro comer de uma caçamba de lixo antes de pegar


dinheiro com você”, ela grita.

Eu deveria calar a boca. Mas Deus me ajude, não posso.


“Odeio decepcionar você, mas você já faz isso”, digo a ela. “Você
vive em uma casa onde não paga aluguel ou serviços, mocinha.”

“Eu cozinho e limpo para você!”, ela grita, mas duvido que
alguém possa nos ouvir aqui com a música neste volume. “Eu
pago por isso, seu idiota arrogante!”
“Certo, certo”, digo, piscando longa e fortemente. “Você está
certa, ok? Mas, Jordan, os homens vão ter ideias. Eles pensam
que têm um passe livre e que podem tocar o que pertence ao meu
filho. Você está envergonhando Cole.”

“Seu filho?”, ela zomba, rindo. “Bem, você acabou de se


desencontrar dele, na verdade. Ele já me viu, e não se importa,
Pike. Ele achou que eu estava bem, e, em seguida, saiu com seus
amigos. Ele não se importa!”

“Bem, eu me importo!”

As palavras saem de minha boca antes que consiga detê-


las, e eu congelo, quase com medo de respirar.

Ah Merda. O que acabei de dizer?

Sua boca se abre um pouco, mas ela fica calada,


provavelmente chocada em silêncio com minha explosão. Seus
olhos ficam trancados nos meus, sem piscar, com uma mistura
de confusão e surpresa sobre todo seu rosto bonito.

Mas em vez de arrependimento, o meu temperamento


rapidamente volta a se aquecer. Como diabos ele pode não se
importar?

E por que eu me importo?

Jesus, porra.

Ela é crescida, não é? E se o namorado dela não se


importa, então quem sou eu ou qualquer outra pessoa para pesar
suas decisões. Não cabe a mim.

Não, não há nada de errado com o que sua irmã faz para se
sustentar ou como Jordan está vestida esta noite. Ela está linda
pra caralho.

Eu só não... quero seu corpo exposto para todos.


“Você é especial, Jordan.” Dou um passo mais perto dela.
“Você sabe disso, certo?”

Seus olhos começam a brilhar, seu olhar vacila e ela desvia


o olhar.

Deus, ela sabe o quão incrível é?

Permito-me assimilar sua pele lisa e brilhante e a curva de


sua cintura na minha frente — perfeita para agarrar. Um homem
deveria vê-la vestida assim e este homem deveria ser aquele que
apreciaria o que tem.

“Não faça coisas que não são de sua natureza por causa de
dinheiro”, digo a ela. “Você é perfeita do jeito que é. Não mude.”

Eu não quero que você mude.

“É apenas um espartilho, Pike.”

“Sim e então vai ser apenas um concurso de camiseta


molhada e um emprego no The Hook, certo?”, devolvo.

Ela revira os olhos e se vira, pegando uma caixa de Bud


Light e levantando-a para meus braços. Eu seguro na hora certa.
Em seguida, ela pega uma caixa de Budweiser e caminha para
fora da sala, encerrando nossa conversa.

Mas eu sigo, levantando a caixa sobre meu ombro. “Você


não vai trabalhar no The Hook”, digo a ela.

“E você não é meu pai.”

Quase dou um olhar irritado atrás das suas costas, mas


isso seria imaturo. Por que estragar o excelente exemplar de um
adulto equilibrado, responsável que tenho sido desde que ela
entrou na minha casa?

Ela abaixa sua caixa no bar e se vira, pegando a que está


comigo também.
Abro a boca para tentar dizer alguma coisa — qualquer
coisa — para abrandar qualquer dano que possa ter feito
novamente e levá-la a colocar alguma maldita roupa.

Mas ela me corta antes que eu consiga dizer qualquer


coisa. “Eu preciso de mais uma caixa de Bud Light”, ela me
ordena por cima do ombro.

Concordo com a cabeça. Maldição.

Eu me viro e caminho de volta para o depósito de bebidas,


pegando outra caixa de cerveja. Depois de colocá-la no bar, sigo
para a mesa onde os caras ainda estão reunidos e tiro a mesma
garrafa de Bud Light que eu tinha pegado antes.

“Vai ficar?, pergunta Dutch.

Dou de ombros, olhando para qualquer lugar, menos para


o bar. “Um pouco, acho.”

Viro a garrafa em um minuto e não é a minha cerveja


favorita, mas estou de repente muito envergonhado de ir até o bar
e pedir a Jordan por uma Corona agora. Eu deveria ter pedido
uma quando estava lá.

Uma garçonete se aproxima, no entanto, e estou prestes a


para-la, mas noto que ela já está vindo com uma bandeja de
shots. Ela está bonita em sua minissaia preta e colete preto, mas
ela não parece mais velha do que Jordan.

Ela sorri. “Ei, pessoal.” E então começa a descarregar a


bandeja, colocando uma rodada de shots à nossa frente. Eles são
rosa ou laranja na parte de baixo com algum tipo de líquido
amarelo em cima.

“O que é isso?”, Jason Bryant, um dos meus rapazes,


pergunta.
“Chama-se Pineapple Upside Down Cake”, diz ela. “É por
conta da casa. Jordan diz que é a bebida favorita de Pike.”

Uma rodada de riso explode ao redor da mesa com o shot


de menininha que todo mundo agora acha que eu bebo e atiro um
olhar para ela no bar.

Ela sorri, dando-me seu maior sorriso orgulhoso.

E agora nós não estamos mais bravos um com o outro.

Pegando o shot, bebo, o álcool descendo como um pedaço


de doce e ao mesmo tempo em que o gosto é bom, eu não tenho
certeza de qual é o ponto. Não pode haver álcool suficiente nele
para sentir qualquer coisa.

Tenho certeza de que vai ser uma piada se eu decidir me


juntar com os caras para uma bebida novamente, no entanto.

Após cerca de uma hora e outra cerveja, a multidão


diminuiu um pouco e estou cheio da música dos anos 80. Jordan
parece bem e não sei por que pensei que ela precisasse de
proteção.

Eu deveria simplesmente pegar a estrada.

Mas então, uma Corona aparece na minha frente e olho


para cima, vendo Jordan de pé acima de mim.

“Ei”, diz ela, sua expressão suave e gentil.

Tenho certeza que seria assim o tempo todo se eu parasse


de foder com isso.

“Você está bem, querida?”, Dutch pergunta a ela.

Ela olha para ele e sorri e depois olha de volta para mim.
“Eu ia ligar para você, na verdade”, ela me diz, baixando a voz.
“Eu não sei se você vai ficar até tarde, mas queria saber se há
alguma possibilidade de você poder me levar para casa esta noite.
Eu não saio antes das duas. É muito tarde?”

Seu olhar é de desculpas, como se ela estivesse com medo


de estar sendo inconveniente, mas é claro, disse-lhe para me ligar
se precisasse de uma carona para casa. Estou feliz em fazer isso.

“Sem problemas. Estarei aqui.”

Mas Dutch cutuca meu cotovelo. “Temos que estar na obra


às cinco da manhã, só para lembrar.”

“Está tudo bem”, digo bruscamente, mal olhando para ele.

Claro, eu adoraria ter mais do que um par de horas de


sono, mas isso não é uma escolha.

Jordan dá um passo atrás. “Tem certeza?” Ela pergunta


novamente. “Eu posso pedir para Shel. É um pouco fora de seu
caminho, mas não quero que você perca o sono.”

“Está tudo bem”, eu lhe asseguro. “Estarei aqui.”

“Bem, por que você simplesmente não dá suas chaves para


ela?”, Dutch fala. “Eu deixo você em casa e ela pode ficar com sua
caminhonete. Vou embora daqui logo de qualquer maneira.”

Céus — Qual é o maldito problema dele?

Mas Jordan se apressa, desculpando-se. “Não, não, está


tudo bem. Eu posso...”

“Porra, eu disse que estava tudo bem”, solto, calando todos.


Então encaro Dutch. “Você poderia calar sua boca?”

Ele se afasta, franzindo os lábios, porque quer rir como se


soubesse de alguma coisa.

Todo mundo fica parado por um momento e eu balanço a


cabeça, puxando minhas chaves do bolso. Não há nenhuma razão
lógica para esperar por ela se Dutch está me oferecendo uma
carona agora.

Entrego as chaves a Jordan. “Aqui está. Isso resolve


perfeitamente.”

“Você tem...”

“Sim, eu tenho certeza”, digo a ela. “Está tudo bem.”

Ela desliza as chaves no bolso. “Obrigada.”

“A caminhonete está estacionada virando a esquina.”

Ela balança a cabeça e volta para o bar, olhando de volta


para mim uma vez mais. Verifico meu telefone, vendo que é quase
meia-noite e se Dutch vai me dar uma carona, então prefiro
acabar com isso agora.

Dou um longo gole na Corona, bebendo cerca de metade


dela. Não me escapou que ela se lembrou de qual cerveja eu
gosto, também. Tirando algum dinheiro, atiro algumas notas
sobre a mesa pelo que eu bebi e digo a Dutch: “Vamos.”

Ele se arrasta para fora da cabine, seu corte de cabelo


desalinhado todo despenteado enquanto boceja. Nós seguimos em
direção à porta, e eu passo no bar, jogando algumas notas na
frente de Jordan.

Ela me dá um olhar compreensivo. “Nós já não falamos


sobre isso?”

“Sou apenas um cliente.”

O olhar dela diz que não está comprando minha razão para
deixar a gorjeta, mas o humor em seu olhar diz que vai deixar
passar. Desta vez.

Nós saímos e atravessamos a rua para o Tahoe de Dutch e


entramos.
“Você realmente não iria querer esperar até as duas, não
é?”, ele pergunta conforme apertamos nossos cintos de
segurança.

Na verdade…

“Não”, digo a ele, decidindo que não tenho energia para


entrar nessa. “Obrigado pela carona.”

Ele se afasta da calçada e fico mais relaxado, movendo o


banco para trás para ter mais espaço para minhas pernas. Sua
esposa normalmente usa o assento. Deito minha cabeça para
trás, na minha mão, fechando os olhos.

Sinto o carro fazer um retorno e então ele acelera para a


rua, indo para casa. Está tudo quieto por alguns minutos,
conforme ele encontra uma estação de rádio via satélite e o brilho
das luzes da rua ilumina através das minhas pálpebras fechadas.
É uma viagem curta para casa, mas ainda assim, teria ficado feliz
em trazê-la. Quem sabe se aquele merda de ex não vai acabar
aparecendo na próxima hora? Ela vai caminhar para o carro com
alguém?

Não estou preocupado só com a segurança dela, no


entanto. Eu tenho essa necessidade de me certificar que Jordan
está bem e cuidada, e por mais que tente transformar isso em um
tipo de responsabilidade “paterna”, não é.

Nunca será.

Eu gosto do que sinto quando a vejo, falo com ela e penso


nela. Mesmo quando brigamos. E tenho que admitir para mim
mesmo — estou atraído por ela.

Odeio isso, mas não posso mais ignorar e fingir que não
está lá. Eu preciso lidar com isso.

Não tem que ser grande coisa, no entanto. Nós passamos a


vida nos deparando com pessoas por quem somos atraídos o
tempo todo. Acontece, e você não pode evitar. Isso não significa
que vou tentar qualquer coisa. Eu me sinto culpado com o que
aconteceu com ela.

E o fato de que ela está na minha casa torna tudo mais


difícil.

Cole realmente não se deu bem em se tratando de pais.


Que porra de pai que sou eu.

Não posso evitar isso, mas posso ter certeza de que não vou
agir sobre isso.

Ela não facilita, no entanto, desafiando-me tão facilmente


como faz. Ela sabe como me pressionar. Quase como se fosse
feita para isso.

“Ela parece uma boa garota”, Dutch interrompe o silêncio.

Abro os olhos, as pálpebras pesadas depois do dia longo.


“Sim”, suspiro. “Ela é tranquila. Limpa. Eu mal sei que ela está
em casa.”

“Isso é ótimo.” Posso vê-lo olhando para mim de vez em


quando. “Estão se relacionando bem?”

“Sim, por quê?”

Vejo seu encolher de ombros. “Ela parece nervosa perto de


você.”

Sorrio. Ele poderia dizer o mesmo de mim se estivesse


olhando perto o suficiente.

“Bem, posso ser intimidante”, brinco.

“Sim, ela parecia querer montar seu pau intimidante ali


mesmo no bar.”

Meus olhos se abrem completamente e eu olho para ele.


“Você está brincando comigo? Que porra é essa?”
“Ah, por favor”, ele atira de volta. “Você está me dizendo
que você não viu a inquietação dela, mordendo o lábio só com sua
visão quando trouxe sua cerveja favorita?”

Ela estava?

“Ela parecia um filhote de cachorro com a língua


pendurada para fora da boca”, ele acrescenta.

Ela parecia?

Eu limpo minha cabeça e olho de volta para fora da janela,


a perplexidade estampada no meu rosto.

Que seja.

“Não fale assim sobre ela”, digo a ele. “Ela é a namorada do


meu filho, cara. Porra.”

Montar meu... eu balanço a cabeça. Inacreditável.

“Então, ela está fora dos limites para você?”

“Sim!”

“Então por que você estava olhando para ela como se


estivesse adorando o que ela vestia e como se quisesse vê-lo no
chão do seu quarto esta noite?”

“Eu não estava olhando para ela assim”, falo entre dentes.

Mas ele apenas ri baixinho.

Idiota.

“Ei, não estou...”

“Cale a boca”, eu digo.

Droga. Não está certo. Já é ruim o suficiente que estou


olhando para ela como se ela fosse uma mulher real e não a
garota do meu filho, mas serei destruído se alguém descobrir
sobre isso.

“Tudo o que estou dizendo é que ela é exatamente o seu


tipo”, ele me diz, abaixando a voz. “Você notou isso? Você sempre
foi atrás de garotas como ela na escola. Antes de Lindsay, a
descompensada, de qualquer maneira.”

“Apenas cale a boca.”

Mas ele não o faz. “Eu não estou dizendo que você deva
fazer alguma coisa. E é por isso que entrei em cena e não deixei
você levá-la para casa.”

Seu tom fica sério.

“Brincadeiras à parte, Pike”, ele continua, “Ela é


exatamente o seu tipo. Você não deve ficar sozinho com ela.”

Sim.

Eu sei.

Só espero que ele seja a única pessoa que tenha percebido.

“Obrigado pela intervenção”, digo-lhe, “mas mesmo se eu


estivesse atraído por ela, ainda seria capaz de me controlar.”

“Você não está se vendo pela minha perspectiva.” Ele olha


para fora do para-brisa dianteiro, solene. “Vocês olham um para o
outro como...”

“Como?”

Ele engole, uma ruga incomum aparecendo em sua testa.


“Como se vocês dois tivessem seu próprio idioma.”
Capítulo 13

Jordan

Viro para a entrada, meu corpo balançando de lado a lado,


enquanto os faróis refletem na garagem fechada à frente.
Pressionando a embreagem, aciono o freio e estaciono, desligando
o motor.

O bar esvaziou cedo e Shel e um par de outras meninas


ficaram para fechar, então saí bem antes das duas esta noite.
Pike saiu apenas uma hora atrás, mas ele está, sem dúvida, na
cama por agora. Ele não é uma coruja.

Examino, vendo o Challenger de Cole estacionado perto


dali. Ele está em casa.

Aperto minha testa, apreensão de repente me batendo.

A distância entre nós está crescendo e sinto que ele está a


quilômetros de distância nesses dias. A necessidade que ele
parecia ter por mim há algumas semanas é quase inexistente
agora e me pergunto por que ainda estou aqui.

Mas tenho uma ideia.

Culpa enreda seu caminho através do meu íntimo


enquanto me lembro do que aconteceu no chuveiro no outro dia,
e como meu cérebro tomou um rumo completamente diferente do
que eu queria. Ou não sabia que queria.

Era apenas estresse. O momento se afastou de mim e Pike


foi um ponto focal. Ele tem sido bom e carinhoso, e estive faminta
por um pouco de atenção e acabei focando nele. Foi isso aí.

Neste ponto, porém, quase não tenho nenhuma razão para


ficar aqui, mas ainda assim, mesmo com Cole e meus problemas,
odeio a ideia de partir. Esta casa se tornou familiar e acolhedora.
Um lar. E apesar de Pike certamente ser um idiota invasivo às
vezes, eu gosto dele. Ele se importa. Não expressa suas
preocupações de forma muito eloquente, é claro, mas sei que
suas intenções são boas. É bom ter alguém cuidando de mim e
dando alguma importância para o que eu faço.

E odeio admitir isso, mas gosto da maneira como ele me faz


sentir. A forma como seus olhos me veem — como se eu fosse a
única coisa no mundo.

Escalando para fora da caminhonete, pego minha bolsa


com o espartilho nela. Vesti uma camiseta antes de deixar o bar,
e enquanto me senti muito exposta durante toda a noite com
mais alguns pares de olhos sobre mim do que estou acostumada,
agora dou um sorriso para mim mesma, pensando no maço de
gorjetas no meu bolso. Não é o que Cam consegue ou o que eu
poderia fazer sendo barman no The Hook, mas é mais do que
normalmente ganho em uma semana, então...

E não posso mentir. Meio que gostei da atenção. Eu senti o


momento em que os olhos dele caíram em mim esta noite, quando
ele entrou e eu estava na jukebox. Eu podia vê-lo com o canto do
meu olho quando entrei no bar, também, e reconheço aquilo.
Possessivo.

Tranco a porta da caminhonete, meu coração batendo


novamente conforme sigo para casa.
Preciso falar com Cole. Preciso olhar em seus olhos e tomar
sua mão na minha, olhar para nossas pequenas cicatrizes iguais
e ver se ainda sinto que esta relação vai a lugar algum. Há alguns
meses atrás, ele sempre tinha o braço em volta de mim. Agora
não me lembro de quando foi a última vez que me tocou.

Entrando na casa, fecho a porta, solto minha bolsa, e


escorrego para fora de minhas sapatilhas. Enrolo os dedos, a dor
em meus pés subindo pelas minhas panturrilhas.

A sala está envolta em sombras e caminho até a escada


escura e paro, ouvindo. Nenhum ruído vem do andar de cima,
então Pike e Cole estão, provavelmente, ambos dormindo.
Tentando ser a mais silenciosa possível, vou na ponta dos pés
para a cozinha e pego um copo do armário, pressionando-o sob o
dispensador de água na geladeira.

Mas quando olho para cima, vejo Cole no quintal e congelo.

Derrubo minha mão do dispensador, o copo virando e a


água nele respingando por todo o chão de madeira. Calor percorre
meu pescoço, meus pulmões se esvaziam e não consigo desviar o
olhar. Tudo me acerta de uma só vez e sinto que estou fora de
mim, observando-me vê-lo.

Cole.

Engulo duas vezes, mal sendo capaz de molhar minha


garganta. Elena Barros está na piscina com ele, os cotovelos dele
estão apoiados atrás dela na borda, enquanto se inclina sobre ela,
sua testa pressionando a dela como ele faz comigo. Seu corpo nu
brilha com a água e move-se em uma onda, igualando seu ritmo
enquanto ele agarra a bunda dela e a fode, os seios dela roçando
no peito dele de novo e de novo.

Distraidamente, dou um passo, chegando até a pia, e


continuo tentando processar o que estou vendo. Cole nunca faria
isso comigo. Ele não é meu ex. Ele não é igual aos meus pais.
Meu peito dói, muito pesado para tomar mais ar. Náuseas
rolam através do meu estômago e bile sobe pela minha garganta.

Ele segura o rosto dela, beijando-a, seu corpo se movendo


firme e forte, e eles prendem os olhos um do outro enquanto ele
entra nela de novo e de novo. Não posso ouvir seus gemidos, mas
sei que ela está aproveitando.

Lágrimas enchem meus olhos, aperto meu punho ao redor


do copo, e cerro meus dentes. Estou com raiva. Mais de mim do
que dele. Eu deveria ter sido a única a acabar com isso quando
fomos expulsos do nosso apartamento. Sabia que ele só estava
comigo porque não queria ficar sozinho. Senti isso então.

Mas agora aqui estamos, e ele teve a última palavra, não é?

Meu queixo treme, e as lágrimas rolam. Minha mãe, Jay,


Cole... sempre sou a mais patética fodida pessoa que conheço.
Continuo desejando que as pessoas mais desprezíveis me
queiram. Por quê?

“Ei”, diz alguém, mas a voz soa distante. “Chegou em casa


cedo, hein? Ainda bem que você não está usando o espartilho.
Você o queimou por mim?”

A geladeira é aberta, e a luz derrama enquanto alguém cava


e tira algo lá de dentro, mas eu continuo olhando pela janela, algo
frio e grosso lentamente cobrindo meu estômago como xarope.

Posso mudar no momento que eu decidir.

“Jordan?”, ouço Pike dizer. “Você está bem?”

Finalmente percebo que ele está de pé ao meu lado. A porta


da geladeira fecha e me viro para olhar para ele, as lágrimas
ainda molhadas no meu rosto.
Seus olhos castanhos, parecendo âmbar agora,
imediatamente se estreitam, preocupados. Mas então seu olhar
recai para a janela, e toda cor drena de seu rosto.

“Oh, Jesus.” Ele rosna e agarra meu braço, puxando-me


para longe.

Perco minha compostura e começo a ofegar, puxando


respirações rasas, pesadas conforme ele dá a volta em torno de
mim e sai pela porta dos fundos. Enxugo as lágrimas do meu
rosto, porque estou chateada e ferida, mas na maior parte apenas
irritada. E não inteiramente com Cole, também. Eu fiz isso para
mim mesma. Sempre faço isso comigo mesma.

“Que diabos você está fazendo?”, ouço Pike gritar.

Ouço um chapinhar de água, vozes surpresas e um


suspiro.

“Merda!”, Cole exclama. “Pensei que você estivesse


dormindo.”

“Ninguém está dormindo, porra!”

“O quê?”, Cole diz.

Ninguém. Acho que ele percebeu que estou em casa,


também.

Secando meus olhos, atravesso a cozinha e deixo que


minhas pernas façam a parte de pensar.

Empurrando através da porta traseira, desço as escadas de


madeira e vejo Elena esconder seu corpo nu atrás de Cole, que
ainda está até a cintura na água.

“Qual é o problema com você?, Pike se aproxima, pegando


as toalhas e jogando-as para o filho.
Ele as pega e Elena agarra uma, cobrindo-se rapidamente
enquanto metade da toalha atinge a água ao seu redor. Ela me
lança olhares assustados.

“Pensei que ela estivesse no trabalho até as duas.” Cole diz


a ele, soando culpado e falando com seu pai como se eu não
estivesse aqui. Sua cabeça está inclinada e ele não está olhando
nos olhos de ninguém.

“Então fazer isso pelas costas dela está bem?”

“Não, eu só...”

“Eu posso lidar com isso.” Interrompo ambos, avançando.

Eu me surpreendo por quão calmo é o meu tom e por não


estar chorando. Não me importo de chorar na frente de Cole, mas
não vou me rasgar na frente dela.

Pike olha para mim, hesitante por alguns segundos.


Finalmente, ele se vira e ouço a porta de tela bater fechada.

Assim que ele se vai, Elena sai rapidamente da piscina,


apertando a toalha ao redor do corpo enquanto pega suas roupas
da cadeira do gramado.

“Estou indo”, ela diz, um pedido de desculpas em seu rosto


enquanto seus olhos dardejam entre Cole e eu. “Eu realmente
sinto muito, Jordan.”

Ela abaixa a cabeça e corre atrás de mim, em direção à


casa e, provavelmente, direto para o banheiro, para que possa se
vestir.

Viro meus olhos de volta para Cole. Seu cabelo loiro está
penteado para trás e ele olha para mim com o mesmo olhar que
tinha no rosto quando me disse que Nick não resistiu.

Eu gostaria de estar mais irritada com ele.


Mas estou, principalmente, apenas decepcionada.

“Isso vem acontecendo há muito tempo?”, pergunto.

Seus olhos baixam e ele assente solenemente. “Desde a sua


festa de aniversário.”

Ele quer dizer aquela que eu não compareci?

Ele respira fundo e endireita seus ombros, saindo da


piscina e envolvendo a toalha ao redor da cintura.

“Eu conheço você há muito tempo”, ele diz. “E ambos


precisávamos muito um do outro quando isso começou, mas você
está sempre seguindo em frente. Você sabe disso.”

“Então, por que eu vim para cá em primeiro lugar?”,


pergunto a ele. “Por que me manter ao redor?”

Eu poderia me fazer as mesmas perguntas. Nós dois somos


fracos, pendurados na única coisa boa que cada um tinha. E
ignoramos como arruinamos isso quando resolvemos ficar juntos.

Eu o amo. Ele é meu amigo. Como ele pode me humilhar


assim?

“Você não deveria ser como ele”, digo, lágrimas surgindo


novamente.

Ele olha para cima, sabendo exatamente de quem estou


falando. Jay é um pedaço de merda. Não Cole. Cole sabe o que eu
passei. Ele estava tentando me ferir?

“Você foi meu primeiro amigo”, continuo. Teoricamente, um


amigo deve ser bom para você.

Mas ele não diz nada. Não há nada a dizer. Não é culpa
dele que isso chegou ao fim. Apenas é culpa dele que terminou
tão mal.
“Em nossa cama, também?”, pergunto a ele. “Nas noites em
que eu estava trabalhando?”

Seu silêncio me diz que estou certa e uma onda de raiva de


repente me atinge. Pike sabia que Cole estava com ela? Ou talvez
outras meninas?

Mas não, eu me paro, os nós em meu estômago


desenrolando um pouco. Ele pareceu tão chocado quanto eu
agora.

Assinto, também percebendo que Cole não encontrou Elena


a sós, também. Ele encontrou-se com ela nas festas, sem dúvida.
“E todos os seus amigos sabiam”, constato, a traição tornando-se
perfeitamente clara.

Estou sozinha agora. Além de Cam e das senhoras no bar,


perdi o meu último amigo.

Ele se aproxima, parando na minha frente. “Ficarei na casa


de Elena por um tempo”, ele diz. “Você fica aqui até que possa...”

“Vá se foder”, levanto meus olhos, dizendo isso com a


mesma indiferença de um “de nada.”

Voltando para casa, não paro para ver se Elena se foi ou se


está esperando ao lado do carro de Cole. Pego minha bolsa e sigo
para o quarto, tirando meu celular e escorregando para o chão
contra a porta fechada.

Eu disco, a ligação é atendida no quarto toque e limpo uma


lágrima silenciosa conforme endureço minha voz. “Ei, pai.”
No dia seguinte, olho para o quarto que dividi com Cole,
suas coisas descartadas onde ele as deixou e cada último item
das minhas finalmente embaladas e dentro do carro.

Acho que estou feliz por não ter trazido muito. A maioria
das minhas roupas se encaixaram nas duas malas que tenho,
uma pertencente à Cam que eu trouxe quando pensei que partiria
um par de semanas atrás.

Mas então Pike Lawson construiu um jardim para mim, e


isso só mostra, que nenhum homem teve que fazer muito para me
fazer voltar correndo.

Sorrio de mim mesma baixinho. Sentirei falta do jardim, no


entanto.

Carrego a última caixa através da sala de estar, resistindo à


vontade de dar uma última olhada no jardim através da janela da
cozinha, e saio pela porta da frente, vendo a caminhonete de Pike
chegando do trabalho.

Meu coração começa a bater com mais força. Maldição.


Queria ter saído daqui antes que ele chegasse em casa. Nem
sequer são cinco horas ainda. Larguei o turno do almoço mais
cedo, para que eu pudesse pegar as malas e sair daqui a tempo,
também. O que ele já está fazendo em casa?

“O que você está fazendo?”, ele me segue ao redor da


caminhonete.

Enfio a caixa no meu banco traseiro, em cima da outra e o


carro é grande o suficiente para segurar tudo o que eu trouxe.
Tudo cabe dentro de duas malas e três caixas. Todo o resto está
no armazém. Não me vejo pegando aquelas coisas em breve,
também. A “casa” do meu pai não tem espaço para uma mesa de
desenho mais do que meu quarto aqui.
“Obrigada por tudo.” Digo a ele, sabendo que ele sabe
exatamente o que estou fazendo. “Você foi realmente incrível.”

“Você está indo embora?, ele parece confuso.

Fecho a porta do carro e viro para ele, meu estômago


revirando conforme engulo o caroço na minha garganta.

“Com Cole indo embora, e nós dois separados, não é certo


eu ficar aqui”, digo. “Você nunca teve qualquer obrigação de me
ajudar, mas você ajudou e não posso lhe agradecer o suficiente.
Eu realmente aprecio tudo.” E então, não posso deixar de forçar
um sorriso para o nosso bem. “Especialmente pelas minhas fitas
cassete.”

Olho seus olhos conturbados, o verde na íris parecendo


ficar mais escuro e uma dor atinge meu peito. Eu me afasto,
fingindo me certificar que as portas estão fechadas para ter um
segundo para me recompor.

“Meu pai me deixou voltar para casa dele por um tempo.”


Viro e digo a ele. “Ficarei bem.”

“Mas…”

“Oh, esqueci minha bolsa.” Passo meus dedos através do


topo do meu cabelo e me apresso para a casa, não deixando Pike
terminar.

Não quero discutir com ele e tenho medo que se ele disser
alguma coisa, começarei a chorar.

Não quero ir embora, mas sei que não tenho mais o direito
de estar aqui e talvez ele possa vir ao bar de vez em quando para
me visitar, certo? Talvez o veja mais ao redor agora que o
conheço, e o reconheceria.

Claro, estou chateada com Cole, também. Falei com ele


praticamente todos os dias nos últimos três anos.
Mas quero ficar longe dele. Realmente não gosto de deixar
Pike.

Quem vai obriga-lo a conversar com as pessoas, e quem vai


esgueirar o extrato de baunilha e canela que ele não percebe que
gosta em seu café agora?

Pisco longe a ardência em meus olhos, resmungando para


mim mesma. Ele vai ficar bem. Ele sobreviveu durante trinta e
oito anos sem mim, não é?

Arrancando minha bolsa do sofá, abro-a, fazendo um


inventário visual: cartões, chaves, carteira, telefone... fecho-a,
fazendo uma verificação mental e me certificando que peguei meu
carregador de telefone, minha lâmina e o xampu do chuveiro e
qualquer roupa restante na máquina de lavar e secar roupa.

Merda. Esqueci de substituir sua bucha, não é? Ah, bem…

Finalmente respiro fundo, percebendo que tenho tudo, eu


acho.

Caminhando de volta para fora, fixo um meio sorriso no


rosto e endireito minha coluna. À esquerda, Kyle Cramer entra
em sua casa com um casal de crianças que suponho serem seus
filhos, mas não faço contato visual. Não quero os vizinhos
curiosos.

“Jordan...”, Pike começa a dizer.

Mas o interrompo. “Muito obrigada novamente. Por tudo.”

Sigo para o lado do motorista e abro a porta, meu estômago


amarrado em mil pequenas bolas, cada uma ficando mais e mais
apertada.

“Jordan”, ele chama novamente. “Esse carro não está


pronto para andar. Ele vai pifar cada vez que você parar.”
Dou-lhe um sorriso trêmulo. “Vou dar um jeito. É sério.
Meu pânico se esgotou. Não acho que alguma coisa vá me chatear
mais. Ficarei bem.”

Retirando minhas chaves, entro. “Obrigada por todo o


trabalho que você fez neste carro. Você definitivamente não
precisava fazer tudo isso.”

“Espere”, ele deixa escapar, parecendo urgente.

Paro, incapaz de olhar para ele, mas o sinto dar um passo


adiante. Ele hesita como se estivesse procurando as palavras.

Olho para cima.

“Apenas...”, ele balança a cabeça, parecendo exasperado.


“Mova estas coisas para a parte traseira da minha caminhonete.
Eu levo você.”

Abro minha boca para discutir, mas ele me corta.

“Preciso terminar o VW”, diz ele. “Ele precisa ficar aqui por
mais alguns dias. E não me venha com argumentos sobre isso.
Você pode de repente pagar um mecânico?”
Capítulo 14

Pike

Meadow Lakes. Quero rir. Não há prados ou lagos e sem


dúvida, nenhum lago em um prado. É um parque de trailers com
sessenta anos de idade, cheio de lixeiras apoiadas em blocos de
concreto.

Ela realmente cresceu aqui?

Estou começando a pensar que Cole não teve uma infância


tão ruim, afinal. Olho em volta, assimilando os trailers prata
antigos misturados com alguns duplos dos anos 80, persianas
quebradas mal visíveis atrás das janelas enlameadas, e exteriores
apodrecidos por cupins, verdes com ferrugem e isolamento
exposto. Toda essa porra de lugar é um risco de incêndio à espera
de acontecer. Não a quero aqui. Ela não tem que ficar na minha
casa, mas... não aqui.

Jordan senta no banco ao meu lado, lentamente esfregando


as palmas das mãos uma na outra e olhando fixamente, perdida
em pensamentos. Não posso afastar a sensação de que ela está
tentando adiar o momento olhando pela janela o maior tempo
possível.
Não está escuro ainda, mas o sol já se pôs, e um par de
crianças corre do lado de fora entre duas casas sobre rodas, atrás
de uma bola. Desacelero no caso delas correrem para a rua.

“Bem ali”, Jordan diz.

Olho por cima, vendo seu gesto à minha esquerda e sigo


seu olhar para um trailer sujo, com um tapume verde, e cerro
meus dentes.

Uma unidade de ar condicionado se projeta da janela da


frente, uma cerca de madeira velha raquítica envolve a parte
inferior — partes dela caídas quebradas no chão ou seções
simplesmente desaparecidas — e a varanda está cheia de
tranqueiras variadas, roupas e um par de sacos de lixo cheios.
Três caras jovens estão na varanda, fumando e conversando.

“Aqui?”, viro-me e pergunto a ela.

Mas ela apenas desata o cinto de segurança, preparando-se


para sair.

“Quem são aqueles caras?”, digo.

Ela olha para cima por apenas um momento antes de


desviar os olhos de novo, pegando sua bolsa. “Provavelmente é
meu meio irmão adotivo e alguns de seus amigos.”

Estaciono na frente do trailer, uma vez que a pequena


entrada está lotada e desligo o motor.

“Você tem um irmão adotivo?”, ela não o havia mencionado.

Ela simplesmente dá de ombros. “No sentido técnico.” Ela


diz, erguendo um sorriso. “Não falo muito com ele.”

“Mas ele vive aqui”, aponto, tentando conseguir mais


esclarecimentos.
Ela assente e antes que eu possa dizer mais alguma coisa,
desce da caminhonete, levando sua bolsa.

Bem, quantos quartos este lugar pode ter se há outro


garoto vivendo aqui? Será que há sequer uma cama?

Ela puxa uma mala para fora da parte traseira, balança a


bolsa sobre a cabeça e lidera o caminho. Agarro uma caixa e sigo,
rangendo os dentes para manter a porra da minha boca calada.
Não sei se eu estou bravo ou preocupado ou o quê, e não sei se
tenho o direito de sentir essas coisas ou se qualquer preocupação
é justificada. Ela provavelmente ficará bem. Esta é sua família.
Eu só…

Sinto que vou explodir a qualquer segundo.

Subimos os poucos degraus até a porta da frente e Jordan


mal olha para seu irmão adotivo e seus amigos enquanto abre a
porta.

“Ryan, este é o pai de Cole”, ela murmura. “Pike, este é


meu irmão adotivo, Ryan.”

Viro para o garoto, e ele se endireita, estendendo a mão.


“Ei, cara.”

Mudo a caixa nos braços e dou um jeito de apertar sua


mão. “Oi.”

Ele é robusto e baixo para um cara, mais ou menos a


altura de Jordan, mas ele tenta compensar isso com uma
tatuagem no pescoço e uma jaqueta de couro preta.

No verão.

“Então, você está em casa agora?”, ele diz a ela, tomando


um gole de sua cerveja.

“Sim.”
Um dos amigos de Ryan o cutuca. “Esta é aquela que é
stripper?”

Aperto meus dedos ao redor da caixa.

Ele bufa, quase cuspindo sua cerveja. “Não, cara. Essa é a


outra.” Mas então seus olhos checam Jordan, movendo-se com
um sorriso. “Embora esta também pudesse dançar um pouco.”

Todos riem e sinto um caroço subindo pela minha garganta


como um gemido. Endurecendo, viro e empurro a porta aberta
para a Jordan, forçando-a para dentro.

Eu deveria ser mais indulgente. Não é como se eu não


tivesse sido um pequeno idiota ocasionalmente enquanto crescia.

Como diabos ele sabe como ela dança?

Eu me dou uma sacudida mental e respiro fundo. Solte as


merdas dela e vá para casa. Ela não é responsabilidade minha.
Esta é a escolha dela. E se eu fosse ela, faria a mesma coisa.

Estou realmente orgulhoso de mim mesmo. Ela não é


estranha para minhas explosões ou demandas insistentes e estou
mantendo-me surpreendentemente tranquilo dado o fato de que
odeio este bairro, e toda esta situação está fazendo minhas
engrenagens rangerem. Posso aguentar por mais cinco minutos,
certo?

E se fizer isso, então talvez eu possa me dar ao luxo de


passar no Dairy Queen a caminho de casa para manter minha
boca fechada de uma vez.

Seu pai, Chip, está desmaiado em uma cadeira à esquerda,


a TV passando algum seriado em um volume entorpecido,
enquanto algumas senhoras estão sentadas à mesa da cozinha à
direita. Elas fumam cigarros com latas de cerveja na frente delas.
Um som de carro estoura na distância, e alguns fogos de artifício
são disparados do lado de fora.
“Precisa de ajuda?”, uma senhora com cabelo escuro
pergunta da mesa. Ela levanta sua cerveja, toma uma bebida e
mal percebe que estou ali.

Jordan balança a cabeça e vira para a cozinha, em torno


das senhoras à mesa. Ela não nos apresenta, e eu certamente
não me importo com isso. Sua filha, ou enteada, chega em casa
com um cara que você nunca viu, e você não faz qualquer
pergunta, pelo menos?

Suponho que ela seja madrasta de Jordan, de qualquer


maneira, já que tem os mesmos pequenos olhos castanhos do
cara do lado de fora.

Inspiro o cheiro de Lysol misturado com um toque de


burritos e terra úmida, como se tivesse chovido lá dentro ou como
se houvesse podridão em algum lugar. Nós caminhamos pelo
corredor, nossos passos criando um baque oco conforme
chegamos à primeira porta à esquerda.

“Pode haver alguma roupa jogada lá dentro.” A mulher na


mesa chama de volta. “Junte tudo e jogue na máquina de lavar,
sim?”

Respiro fundo. Ela vai ficar bem.

Ela abre a porta e olho para seu antigo quarto. Minha


mandíbula tensiona.

“Onde está minha cama?”, Jordan grita, suspirando.

Mas ninguém responde.

O quarto está cheio de lixo, porra. Tem um armário com


gavetas faltando, uma toalha de praia pendurada na janela e
teias de aranha no canto do teto. Posso sentir o cheiro da pilha de
roupa suja que seu quarto agora abriga e estreito meus olhos
para o buraco na parede.
Não.

Jordan baixa sua mala e se vira para mim, agarrando a


caixa. “Não se preocupe”, ela diz, sorrindo para qualquer olhar
que tenho no rosto. “Ficarei bem. Você me conhece. Vou deixar
esse lugar novo em folha até amanhã.”

Mas não a deixo pegar a caixa, mantendo-a segura em


meus braços.

Retiro meu olhar da ratoeira colocada ao lado do


respiradouro de aquecimento que está sem a grelha que deveria
manter afastados os roedores e me volto para ela. “Claro que
não”, rosno. “Terminei esta conversa. Vamos sair agora.”

Segurando a caixa na dobra de um braço, alcanço e agarro


sua mala com a outra mão e imediatamente me viro apressado de
volta para fora da casa.

“Como é que é?”, ela explode atrás de mim, pasma.

Mas eu já fui. Ignoro as mulheres na cozinha e nem sequer


volto para ver se seu pai acordou antes de sair pela porta da
frente e passar pelos caras ainda vadiando na varanda.

“Pike!”, ela grita atrás de mim.

Eu a ignoro. Sei que me seguirá. Estou com todas as coisas


dela.

Derrubando a caixa e a mala de viagem de volta na


caminhonete, desenterro minhas chaves e subo para o assento do
motorista. Ela se apressa ao redor da frente da caminhonete e
abre a porta do lado do passageiro.

Ela olha para mim. “Que diabos você está fazendo?”

“Você não vai ficar aqui.” Ligo o motor.

“Qual é o seu problema, porra?”, ela deixa escapar.


Olho pela minha janela, vendo que os caras na varanda
estão olhando para nós com curiosidade. “Aquele irmão adotivo já
tentou alguma coisa com você?”, pergunto a ela.

“Nada que eu não possa lidar.”

“E os amigos dele?”

Ela puxa uma respiração, e posso dizer que está tentando


manter a calma. Ela está impaciente com minhas preocupações.
“Vou ficar bem”, ela reafirma. “Não sou sua filha. Meu pai está
aqui.”

“Seu pai não é...”, começo a dizer, mas paro.

Insultá-la não vai nos levar a lugar nenhum.

Pressiono minhas costas no assento e bato meu punho


sobre o volante.

Seu pai não é um cara ruim. Pelo que sei dele de qualquer
maneira. Nós até mesmo conversamos algumas vezes, de
passagem.

Mas ele é fraco.

É um bêbado, um perdedor. É do tipo que faz o mínimo na


vida e acomoda-se com migalhas, porque é preguiçoso demais
para lutar por algo melhor. Ele não vai estar lá por ela.

“Isso é estúpido”, digo. “Você não vai trocar uma casa


perfeitamente boa, em um bairro agradável e seguro, por isso.
Engula seu orgulho, Jordan.”

“Eu não pertenço a sua casa!” Fúria queima em seus olhos.


“E este é o lugar de onde venho, obrigada. Cole eventualmente vai
voltar, e ele é seu filho. Como você acha que será a dinâmica com
nós dois lá? Não tenho nenhum direito.”

“Nós lidaremos com isso.”


“Não”, ela dispara de volta. “Isso não é da sua conta. Esta é
minha casa.”

“Não é uma casa! Você não...”

Abro a boca para terminar, mas meu coração está batendo


tão forte que estou com medo do que diria.

Respiro rápida e superficialmente, virando os olhos para


frente novamente e longe dela. Abaixo minha voz. “Você não tem
ninguém que se importa com você aqui nesta merda.”

“E na sua casa, eu tenho?”

Atiro meus olhos para ela, a resposta a essa pergunta vem


tão facilmente e tão pesada na ponta da minha língua que quero
dizer a ela.

Mas não digo.

E ela me encara, a minha resposta não dita pendurada


entre nós. Ela vacila, compreensão suavizando seus olhos.

“Apenas entre na caminhonete”, largo. “E vamos para


casa.”

“Mas...”

“Agora, Jordan!” Bato no volante com a palma da mão.

Ela suga uma respiração, olhos queimando. Não sei se a


assustei, ou se ela está preocupada em fazer uma cena, mas
rapidamente puxa-se para a caminhonete e bate à porta. Ela está
tensa e irritada e provavelmente pensa que lidará comigo longe de
olhares indiscretos mais tarde, mas não me importo. Eu a tenho,
e nós vamos dar o fora daqui.

Coloco a caminhonete em marcha e dirijo em frente,


balançando ao redor e, em seguida, viro e troco de marcha.
Finalmente enfrentando o caminho que vim, pressiono o
acelerador e nos tiro de lá, dirigindo de volta para a pista e
entrando na estrada que leva para a cidade.

Não tenho nenhuma ideia do que o irmão adotivo dela ou


madrasta provavelmente pensaram e realmente não me importo
com isso também. Deixe-os pensar o que quiserem pelos
próximos cinco minutos, porque este é exatamente o tempo que
vão precisar para esquecer que ela existe novamente.

Não me admira que ela tenha se mudado de lá para


começar. Não acho que ela tenha sofrido abuso ou qualquer
coisa, nunca ouvi falar uma coisa destas sobre seu pai, mas ela
foi definitivamente negligenciada. Ela merece coisa melhor.

As árvores se elevam em ambos os lados da estrada escura


e desço minha janela buscando algum ar fresco tão necessário.

Ela não diz nada, apenas fica lá sentada, congelada, e


quero me chutar, porque deveria apenas ter conversado com ela
em casa — em vez de passar por tudo isso. Sabia como isso
acabaria. Não havia nenhuma maneira dela ficar em Meadow
Lakes. Realmente eu não estava ajudando-a de verdade com sua
mudança esta noite. Eu estava apenas tentando encontrar minha
coragem.

Mas e se ela quisesse morar com sua irmã? Ou ficar com


um amigo? Ainda lutaria com ela. Sei que o faria.

Não é que ela não possa cuidar de si mesma. Sei muito


bem que pode.

Apenas não quero que ela precise fazer isso. Em algum


lugar ao longo do caminho eu fui tocado.

Em sua vida, ninguém mais pode dar-lhe o que ela merece


e até que Jordan possa se manter por si mesma, estou tomando
essa responsabilidade para mim. Dane-se. Ela merece o melhor.
Ela vai receber o melhor.
Olho em frente e inclino o cotovelo na porta, correndo a
mão pelo meu cabelo. Não é uma decisão minha, no entanto. É?
Pressionar Jordan deste jeito não faz de mim uma pessoa melhor
do que qualquer outra em sua vida.

E não quero ser alguém que a sufoca. Ela vai acabar se


ressentindo de mim também. Se há uma coisa que aprendi sobre
relacionamentos, qualquer relacionamento, é que ninguém deve
forçar ninguém a nada. Você precisa saber quando entrar forte e
quando recuar. Os dois precisam.

Dar e receber. Compartilhar o poder.

Reduzo a velocidade e lentamente viro para o lado direito


da estrada, parando conforme um carro acelera me passando.

Seus olhos se alternam, mas ela ainda não olha para mim.

Deus, o que Jordan deve estar pensando.

“Sinto muito”, digo, meu tom mais tranquilo e calmo agora.


“Não tive a intenção de dar ordens a você deste jeito.” Deixo cair
minhas mãos do volante e tento acalmar um pouco meu coração.

“Cole está ficando na casa de...” paro, sabendo que ela sabe
com quem ele está ficando. “Por enquanto”, termino. “Você terá
espaço e você pode ficar com o outro quarto extra. É o seu
espaço. Você gosta da minha casa, certo?”

Ela toma uma respiração, procurando as palavras. “Sim,


mas…”

“Eu gosto de ter ajuda ao redor do lugar”, explico. “E é bom


voltar para casa e não ter que fazer o jantar todas as noites. Nós
podemos manter o mesmo arranjo.”

Ela faz uma pausa, e medo se arrasta pela minha espinha.


Talvez eu a tenha interpretado erroneamente, afinal. Talvez ela
esteja apenas tentando encontrar uma maneira de se livrar de
mim. Talvez, realmente não queira ficar na minha casa.

“Você vai ser feliz? Na minha casa? Honestamente?”,


pergunto. “Mais feliz do que se voltar para lá?”

O silêncio se estende entre nós, e estou começando a me


sentir estúpido. Como se eu tivesse descaracterizado tudo e ela
estivesse confortável sob o meu teto.

Mas todas as vezes que a vislumbrei durante essa semana,


acendendo suas velas, trabalhando no jardim, dando um
mergulho matinal ou cozinhando na cozinha e balançando a
cabeça no ritmo de qualquer uma das bandas horríveis que ela
estivesse ouvindo esta semana, ela me pareceu como se estivesse
se sentindo em casa, sabe? Estava sorrindo tanto, nós tínhamos
ficado confortáveis o suficiente para brincar e ela estava até
mesmo ficando travessa comigo, acrescentando brotos estúpidos
e abacate ao sanduíche de peru do meu almoço no outro dia.

Sorrio um pouco, pensando nisso.

Não quero que ela recuse porque acha que é indesejada na


minha casa ou que esteja se impondo. Quero ter certeza que ela
saiba que não precisa ir embora.

Pisco longamente e com força, de repente cansado. E odeio


a ideia dela naquele buraco de merda, onde ninguém vai apreciar
qualquer coisa que ela faça.

Deixo meus olhos baixarem e minha voz também. “Por


favor, não me faça deixá-la lá.”

Vejo sua cabeça virar em minha direção e sei como devo


estar soando.

“Por favor”, sussurro novamente.


Ela está olhando para mim, mas me recuso a olhar para
ela, porque tenho medo do que meus olhos dirão ou de ceder a
algo que está oscilando à beira do meu cérebro e que ainda não
quero enfrentar.

Ela está feliz na minha casa, está segura lá, tem uma cama
e não temos ratos. É simples assim.

Sim. É simples assim.

Depois de um momento, ouço Jordan inspirar calmamente


enquanto alcança o cinto de segurança, fixando-o.

Eu engulo em seco.

“Hora do Espanto está passando na Netflix”, diz ela. “Meia


pepperoni e meia taco?”

Eu quebro em um sorriso. Virando-me para ela, vejo seus


olhos azuis olhando para mim com o mesmo humor fácil que
tinha quando cortávamos melancia na outra noite.

Coloco o carro em marcha novamente e assinto. “Pode


pedir”, respondo. “Podemos retirar no caminho para casa.”
Capítulo 15

Jordan

Nós chegamos a novos termos.

Sou uma inquilina agora, essencialmente, e enquanto o


objetivo final é viver aqui para economizar dinheiro para meu
próprio lugar eventualmente, não posso viver à custa dele como
antes. Talvez eu pudesse usar desculpas quando era namorada
de Cole, mas agora, isso precisa ser justo. Não importa o quanto
ele hesita.

“Eu não preciso de seus quarenta dólares por mês para a


conta do gás, Jordan.”

“Então me deixe pagar a conta de energia elétrica.”

“Por que eu iria dizer-lhe para ficar aqui para economizar


dinheiro e, em seguida, pedir para você gastar mais dinheiro?”

“Estou economizando dinheiro. E posso continuar a poupar


dinheiro mesmo pagando pelo menos uma conta, Pike.”

“Ou você poderia não pagar conta nenhuma, economizar


ainda mais dinheiro e apenas sair daqui mais rápido.”

E, então, isso me irritou, como se talvez ele realmente não


me quisesse aqui, afinal de contas.
“Não, espere.” Ele se encolhe. “Não quis dizer isso deste
jeito. Apenas... não preciso do seu dinheiro, ok? Vamos parar de
falar agora. Por favor?”

Mas não paramos. Continuamos brigando até que ele


finalmente cedeu e me deixou ficar com a conta do gás e a conta
do supermercado, embora tenha feito com que eu prometesse não
substituir seus lanches por algo orgânico ou livre de gordura —
coisa que concordei. Se ele me pega esgueirando nas prateleiras
do café com selo de garantia e procedência e do leite de
amêndoas, vou apenas dizer que me esqueci do nosso trato.

Levando a vassoura para a varanda da frente, levanto o


tapete de boas vindas e o agito bem antes de pendurá-lo sobre o
corrimão. Chuva cai lá fora como uma torrente, e a rua parece
coberta com a espuma das ondas do mar conforme as gotas de
chuva caem e respingam contra o chão.

Imagino se Pike será capaz de ter uma boa visão das


estradas a caminho de casa. Embora ainda seja por volta de uma
hora da tarde, porém, e ainda há luz, mesmo que o dia esteja
consideravelmente cinzento, então pode ser que pare de chover
antes que ele esteja livre no trabalho.

Passo a vassoura em toda a varanda de madeira, a aba


protegendo-a de molhar. O ar é agradável e grosso, minha pele
está úmida mesmo que a chuva não esteja me atingindo sob o
toldo. Minha camiseta gruda um pouco em minha barriga e enfio
meu cabelo atrás da orelha porque está fazendo cócegas nos
meus braços. Olhando para cima, vejo Kyle Cramer entra com
sua BMW em sua garagem e cobre a cabeça com sua pasta
enquanto corre para sua varanda.

Ele me nota e abre um sorriso. Dou um pequeno aceno.

Imagino por que ele e Pike não são amigáveis.


Ele desaparece dentro de sua casa e termino de limpar a
pequena quantidade de sujeira e folhas secas da varanda antes
de colocar o tapete de boas vindas de volta ao seu lugar.

Além da conta de gás e supermercado, tomei como


responsabilidade no andar de baixo da casa: tirar o pó, aspirar,
varrer, esfregar, manter a cozinha arrumada, embora ele tenha
que limpar a louça quando eu cozinho e só tenho que fazer isso
quando ele cozinha. O que, na verdade, ele não tem feito nos três
dias desde que voltei a ficar aqui. Meio que percebi em algum
ponto ao longo das últimas semanas, que ele realmente só
prepara refeições da seção de alimentos congelados do
supermercado ou sopa enlatada e guisados, então simplesmente
assumi completamente a tarefa de fazer as refeições e ele limpa a
louça, e estou bem com isso.

Também faço a jardinagem, enquanto ele lida com o


gramado, piscina e irrigação. Os nossos quartos são nossas
próprias responsabilidades, mas limpo meu banheiro e ele
mantém o porão em ordem.

Este arranjo de tarefas domésticas é quase bom demais


para ser verdade. Eu tinha certeza de que ele se cansaria e eu
acabaria limpando todas as porcarias que ele acabaria deixando
nas áreas que fui encarregada de manter arrumadas.

Mas isso não aconteceu. Ele joga suas botas no armário


depois do trabalho, recolhe as camisetas que descarta se fica com
muito calor, e eu nunca tenho que incomodá-lo para tirar suas
roupas da secadora. Percebo que nunca antes vivi com um
homem que já tivesse morado sozinho.

Até agora, está dando certo. Pike está acostumado a cuidar


de si mesmo e de suas coisas, porque não há mais ninguém para
fazer isso por ele. É como um mundo totalmente novo.
Caminhando de volta para casa, enfio a vassoura no
armário e subo as escadas para organizar minhas roupas sujas.
O velho quarto de Cole, nosso velho quarto, está vago, já que ele
não voltou desde que partiu. Não tenho certeza do que ele está
vestindo nos últimos dias, e não sei se ele falou com seu pai, mas
uma coisa é certa. Eventualmente, ele voltará.

Aturei tanto porque Cole era um amigo e não apenas um


namorado. A maioria das meninas — se são mais espertas do que
eu, e isso não é muito difícil — teriam se cansado de um parasita
realmente rápido. Saber que ele e Elena provavelmente não darão
certo é o único consolo para minha dor. Ele saltou direto da
minha cama para a dela, não é?

Mas talvez ele tenha feito um favor a mim. Se quero voltar


com ele? Não. Não quero odiá-lo e sei que ele é melhor do que
isso, mas nós forçamos esta situação, porque, há algum tempo,
nós dois precisávamos nos agarrar a alguma coisa. Forçamos o
que não existia, não porque precisávamos um do outro, mas
porque precisávamos de alguém. Nós sempre fomos melhores
amigos.

Sinto que agora posso respirar. E se ele tem um problema


por eu estar morando aqui, deixarei seu pai lidar com isso.

Do outro lado do quarto de Cole, abro a porta do segundo


quarto extra — meu quarto novo — e puxo meu cesto de roupas
dobrável do canto.

Amo meu novo quarto. Já havia uma cama sobressalente


aqui, então saí e comprei um novo jogo de lençóis. Eu poderia ter
movido a minha antiga cama do quarto de Cole, uma vez que ela
é minha de qualquer maneira, mas eu queria começar de novo.
Não queria nada para me lembrar de quem eu era quando estava
com ele. Transferi o resto das minhas coisas para cá, fechei a
porta dele e não voltei mais.
Pike e eu fomos à IKEA e escolhemos uma cômoda — que
eu paguei, mas precisávamos de sua caminhonete para trazê-la
—, uma mesa de cabeceira e uma cadeira almofadada. Comprei
mais alguns itens de decoração engraçadinhos, já que eu não
precisava levar em consideração o gosto de mais ninguém além de
mim. Há luzinhas brilhantes presas na armação da cama de ferro
forjado, algumas almofadas divertidas e uma luminária, e uma
pintura que comprei de um vendedor de rua em Nova Orleans
quando estive lá com minha irmã. O amigo de Pike, Dutch, ainda
trouxe para mim seu velho rádio cassete vintage Panasonic — que
encontrou limpando a garagem de seus pais alguns dias atrás.
Acho que Pike contou a ele sobre as fitas.

“Jordan!”, um berro vem do andar de baixo.

Derrubo a camisa branca que estava dobrando e sacudo a


cabeça, ouvindo a porta de tela bater contra a moldura lá baixo.

Meu coração bate um pouco mais forte.

Saindo do quarto, corro pelas escadas. Pike está ao lado da


porta da frente, tirando seu casaco do armário. Água escorre pelo
seu rosto e pela pele dourada de seus braços tatuados, e seu
cabelo está grudado ao couro cabeludo. Ele puxa o casaco sobre a
cabeça e sua camiseta está encharcada.

Caminho até ele. “O que há de errado?”

“A margem do rio está inundada”, ele diz, apressando-se


para a cozinha e para a geladeira. “Eles estão chamando qualquer
um que seja capaz de vir ajudar com sacos de areia antes que a
água atinja as ruas.”

Entendi. Tiro meus tênis do armário, pulando em um pé só


conforme escorrego dentro de cada um. “Você ligou para o Cole?”

“Sim, mas ele não está atendendo.” Ele pega uma braçada
de garrafas de água. “Por que você não tenta?”
Arranco minha capa de chuva do cabide e fecho o armário,
agarrando meu boné de beisebol do gancho do lado de fora. “Se
ele não atende você, definitivamente não vai atender a minha
ligação.”

Pike entra na sala de estar novamente, suas cinco garrafas


apertadas entre os dedos. Ele levanta as sobrancelhas,
silenciosamente me pedindo para tentar novamente, e rolo meus
olhos.

“Mas vou tentar do carro”, digo a ele, abrindo a porta.


“Vamos.”

Rapidamente, chegamos a enseada, Pike já havia carregado


muitos sacos de areia na traseira de sua caminhonete. A cidade
tem um grande estoque deles, embora, e também já estão aqui
com seus caminhões.

Com a chuva tão forte neste verão e cada último centímetro


de neve finalmente derretendo mais ao norte, o rio tem sido uma
bomba-relógio. Lembro-me dele inundando as casas no lado oeste
há alguns anos, mas a cidade foi preparada depois disso.
Policiais, bombeiros, equipes municipais e muitos cidadãos agora
estão espalhados entre as rochas da barreira contra cheias que já
está montada. Pilhas de sacos de areia estão colocadas por todo o
caminho da água, acima da inclinação das pedras, e até a terra e
grama aqui em cima. Há pouco mais de noventa metros de ervas
daninhas, árvores e ferrovia antes que a água atinja as casas em
ruínas do velho oeste que foram a primeira parte de Northridge a
se estabelecer. A água continua subindo, mas lentamente, por
isso espero que se a barreira contra inundação não for suficiente,
os sacos de areia serão. As pessoas neste bairro não podem se
dar ao luxo de irem embora, muito menos de perderem suas
casas.

O rio corre para o sul, crescendo em velocidade, e tremo


um pouco, cada centímetro do meu corpo está encharcado. Gotas
de água caem da ponta do meu boné e chuva corre pelas minhas
pernas.

“Água?”

Pike estende uma garrafa para mim e espio para ele por
debaixo da aba do meu boné, sorrindo e agarrando-a. “Obrigada.”

Ele se movimenta ao meu redor sem dizer mais nada,


agarrando um saco de areia e jogando-o para um cara mais
abaixo da fila. Estamos aqui há três horas agora e não ainda não
conseguimos falar com Cole, embora não possa dizer que tentei
com muito afinco. Não quero vê-lo agora, então deixei tocar três
vezes e depois desliguei.

Olho para a garrafa de água na minha mão. Minha boca


está parecendo um deserto.

Desenroscando a tampa, engulo metade da água, tomo um


fôlego e tomo mais dois goles. Há apenas cerca de dois
centímetros restantes, então a coloco no bolso do casaco para
guardar para mais tarde.

“Ei, Jordan”, uma voz alegre chama, de passagem.

Olho para ver April Lester calçando um par de luvas de


trabalho e descendo as rochas em direção a Pike, vestindo jeans
que abraça cada centímetro de suas pernas, uma bonita camiseta
de camuflagem e boné. Um rabo de cavalo preto sai pelo buraco
na parte de trás do acessório.

Ela parece meio fofa. Estou tão acostumada a vê-la em


suas roupas “de sair” no bar.
Pego um saco de areia da caminhonete e lanço o peso de
dezoito quilos para o próximo cara na fila e me viro novamente,
repetindo a tarefa. Cada saco faz seu caminho de um conjunto de
mãos para outro, até chegar em seu lugar na margem do rio.

Noto April em outra fileira, logo à frente de Pike e ela está


conversando com ele.

Tento manter meus olhos longe, porque não é da minha


conta, mas me pego espiando e não sei porquê.

Calor líquido corre através do meu peito e sinto um suor


frio brotar na testa.

Ele a conhece? Eles alguma vez já conversaram? Não acho


que já tenham saído juntos. Não devem. Pike é como um padre.
Ele é tão tenso, e aquela a mulher ataca mais forte do que um
martelo na cabeça. Ela o assustaria.

Molho meus lábios, entregando outro saco, e incapaz de me


impedir de observá-los. Ela sorri brilhantemente, dizendo alguma
coisa, e ele olha para ela ouvindo com diversão. Um de seus
raros, excepcionais e lindos sorrisos pisca para ela — para ela —,
e meu coração para por um instante.

Faço uma carranca e pego outro saco.

Ele está corando, puxa vida? Realmente parece meio


tímido, mas ele não parece dispensar o flerte dela.

Solto um gemido.

Supere isso. Ele é homem. Um homem ainda jovem e, tenho


certeza, muito saudável, também. Ele teve relações sexuais com
mulheres — Cole é prova disso. É irrealista pensar que ele fica
sem transar. Qualquer hora ele vai trazer uma mulher para casa.
Todo mundo tem necessidades.
Deixo meus olhos descerem para seu peito, uma fina
jaqueta de chuva preta está moldada ao seu corpo como uma
segunda pele. As mangas estão puxadas para cima, exibindo seus
antebraços e juro que posso ver a chuva descendo pelo pescoço
dele daqui. Ele é alto e largo, e amo a maneira como suas
camisetas servem perfeitamente e como ele usa seu jeans.

Quando um homem tem uma aparência assim tão boa


vestindo suas roupas, você sabe que ele será espetacular sem
elas.

E se ele tinha pelo menos metade desta aparência na


escola, todas as garotas o desejavam. Estou curiosa para saber
como ele se parecia então, mas, em compensação, há algumas
coisas que não quero saber, também.

April passa um saco para ele, mas se atrapalha e Pike se


lança para baixo para agarrá-lo antes de cair dos braços dela.

Eles estão sorrindo e se inclinando perto um do outro, e


meus pulmões doem.

E, como se ele pudesse sentir que o estou observando, seus


olhos de repente dardejam para cima, encontrando os meus, e
por um momento todo mundo desaparece.

Eu paro de respirar. Merda.

Olho para longe, rapidamente agarrando outro saco.

Não olho mais para trás, mesmo que possa sentir Pike me
observando.

Uma vez que a caminhonete está vazia, pego minha garrafa


de água e bebo o restante, andando até a caminhonete de Pike e
jogando-a na parte de trás.

“Pronta?”, ouço ele me perguntar.


Giro ao redor e vejo que ele está vindo e tirando sua jaqueta
encharcada. Sua camiseta se ergue com o movimento e puxo meu
olhar para longe de seu estômago.

“Nós... nós terminamos tudo?”, pergunto.

Ele joga o casaco na parte de trás e busca outra água para


fora do cooler. “Isso é tudo que podemos fazer, eu acho. Apenas
temos que torcer para que seja suficiente e consiga segurar.”

Dou uma última olhada em volta, notando que todos se


moveram para uma coisa ou outra. Alguns estão subindo em
seus carros e alguns ainda estão posicionando sacos ou
conversando.

Tiro minha jaqueta, também, atirando-a na caminhonete e


subindo no banco do passageiro.

Fecho a porta e ele liga o motor, os limpadores


imediatamente retomando sua atividade de onde pararam na
vinda.

Olho pela janela.

“Oh, merda”, deixo escapar, olhando para fora ao longe. Ele


segue o meu olhar.

A caminhonete está mais no alto e nós temos uma visão


completa do rio, todo o caminho até o outro lado. Um pequeno
conjunto de ilhas que ficam no meio agora está quase coberto de
água e as casas na margem oposta estão ameaçadas conforme o
rio cresce no meio de suas palafitas.

Ainda há um longo caminho a percorrer e a chuva já


abrandou um pouco. Vamos torcer para que todos fiquem bem.

“Não posso acreditar em quão alto o rio está”, digo. “É


surreal.”

Ele se vira para mim. “Você está sorrindo de novo.”


Encontro seus olhos, meu rosto relaxando. Eu estava
sorrindo? “Bem, estou tentando não sorrir”, digo-lhe, abrindo
outro em meu rosto. “Quer dizer, espero que ninguém se
machuque e ninguém fique inundado, mas...”

“Mas?”

Dou de ombros, sentindo-me um pouco culpada. “Eu meio


que gostei de ajudar hoje, eu acho. É divertido ficar suja.”

Ele ri baixinho e coloca a caminhonete em marcha. “Você


não ficou suja ainda”, ele provoca. “Aperte seu cinto de
segurança.”

Meia hora depois, estou gritando e segurando a alça acima


da porta enquanto ele acelera para dentro do canal lamacento.
Ele empurra a roda, então saltamos por cima meio de lado e de
volta para o terreno elevado. Dou risada, saltando no meu lugar.

Oh, meu Deus, isso é divertido. Sinto que vou morrer. Meus
olhos lacrimejam, estou rindo tanto.

“Não posso acreditar que você nunca fez isso antes”, ele diz,
olhando para mim como se eu precisasse renunciar ao meu
cartão de Garota de Cidade Pequena. “Na minha época, este era o
lugar para se levar uma menina e mostrar quão fodão você era em
sua caminhonete.”

Eu tombo à esquerda e depois à direita conforme a


caminhonete navega por todos os buracos enlameadas e poças.
Ele me deixa ter o reinado completo do aparelho de som e Glory
Days de Bruce Springsteen está tocando. Aumento o volume e
agarro o painel procurando apoio. “Ainda é”, eu o informo.
“Porém, nos dias atuais, está ficando cada vez mais difícil
encontrar um cara que consiga manter sua licença de motorista
válida.”

Ele ri. “Eu acredito nisso.”

Chuva e lama voam em torno de nós e posso ver respingos


de ambos atingindo a manga da minha capa de chuva mais perto
da porta e minha coxa nua. Pike insistiu em abrir as janelas, não
se importando nem um pouco que o interior da caminhonete
possa ficar sujo. Ele disse que iria elevar a experiência.

“Você trouxe seus encontros aqui?”, pergunto.

“De tempos em tempos.”

Curvo o canto da minha boca em um sorriso. “E então você


as levou para Hammond Lock para transar depois?”

Ele lança o olhar para mim, parecendo surpreso. “O que


você sabe sobre Hammond Lock?”

Dou de ombros. “Oh, ouvi dizer que é onde os velhos


levavam seus encontros, naquele tempo, só isso.”

Ele finge uma carranca e acelera mais, nos rolando abaixo


em outra vala. Meu estômago cai aos meus pés, e grito
novamente, rindo.

“Pare!”, apelo. “Você vai nos capotar!”

O para-choque dianteiro se choca contra o fundo,


levantando uma onda de lama e água na nossa frente. Meu corpo
é lançado para frente no cinto de segurança e grito de excitação,
fechando bem meus olhos.

Merda!

Mas não consigo parar de rir. Ele está certo. Como é que
nunca fiz isso antes? Estive perdendo.
Chuva fria cai levemente através da janela, molhando
minha perna, e abro meus olhos novamente e limpo meu rosto,
vendo manchas de lama na minha mão.

Virando para ele, vejo seus olhos encontrarem os meus,


ambos nossos corpos tremendo com o riso silencioso.

“Ok, é a minha vez!”, solto animadamente.

Desato o cinto de segurança, puxo a maçaneta da porta


para sair.

“Não, apenas escorregue para cá”, ele me diz. “Vou sair e


dar a volta.”

Eu paro e viro, vendo-o abrir a porta, e em vez de descer,


ele simplesmente se puxa para cima, dando a volta pela parte de
trás da caminhonete. Eu deslizo rapidamente pelo assento e fico
de frente ao volante. A vantagem de sua caminhonete ser tão
velha é que ela tem um banco contínuo. Não precisei saltar por
cima de um console central.

Aperto meu cinto e olho para fora do para-brisa, uma onda


de calor cobrindo meu estômago enquanto sorrio.

“Cuidado com a lama!”, grito para fora da janela para ele.

Não tenho ideia de quão profundo é do lado de fora da


porta do passageiro.

Mas espero enquanto a caminhonete balança com seus


movimentos lá atrás, e então a porta do lado do passageiro se
abre, sua mão aparece na maçaneta e ele pula para dentro, sem
nunca tocar o chão.

Deslizando para o assento ao meu lado, ele bate à porta e


passa a mão sobre o cabelo, agora encharcado.
Meus olhos caem sobre sua camiseta moldada ao seu peito,
definindo a clavícula e os músculos de seus peitorais e ombros
largos.

Ele se vira para mim. “O que?”

Pisco e limpo minha garganta, tentando me recuperar.


“Nada. Você apenas ainda é bastante ágil para a sua idade, hein?”

Seus olhos incendeiam. Passando a mão do lado de fora da


porta da caminhonete, ele a traz de volta e a chicoteia para mim,
lama acertando meu rosto.

Arfo, fechando os olhos por reflexo e virando para longe.


“Pare!”, rio, estendendo minhas mãos conforme mais lama vem
voando. “Estou apenas brincando!”

“Desde quando trinta e oito se tornou idade de idoso?”, ele


resmunga, mas posso ouvir a diversão em sua voz.

Mais lama voa em minha direção e eu encolho de costas


para ele, tentando me proteger. “Sinto muito! Não quis dizer isso!”

Mas não posso parar de rir.

Duas horas depois, o céu está escuro e estou felizmente


relaxada. Não posso pensar agora, mesmo se tentasse. As minhas
contas e as de Cole estão no meu quarto, a taxa de matrícula que
preciso pagar vai além das minhas dívidas com empréstimos
estudantis que vencem em um par de meses, e a cutucada que
sinto nas minhas costas, sabendo que posso ganhar mais
dinheiro se eu apenas tivesse a coragem de... tudo está muito
longe agora. Estive sorrindo sem parar a tarde toda.
“Isso foi divertido”, digo a Pike, quando estamos dando a
volta em torno de sua casa para o quintal.

Estamos enlameados e não queremos deixar rastros pela


sala de estar, então sugeri nos limparmos um pouco com a
mangueira no quintal primeiro.

Olhando para Pike, vejo lama em seu pescoço e seus olhos


olhando fixamente, sem foco, como se ele estivesse perdido em
pensamentos. Um pequeno sorriso brinca em seus lábios.

“O quê?” Pergunto a ele.

Ele finalmente pisca, tomando uma respiração profunda e


balançando a cabeça. “Apenas acabei de perceber que nunca faço
nada”, ele diz, empurrando a porta da cerca de madeira e
mantendo-a aberta para mim. “Eu não ria assim desde... nem me
lembro quando.”

Meu coração salta. Estou feliz por não ser a única que
curtiu. Fico feliz que ele tenha gostado de passar tempo comigo,
porque...

Porque estou me acostumando a ele.

Encontro-me olhando para o relógio e ficando mais


animada a cada dia quanto mais perto chega das cinco. Estou
ansiosa por ele, e desejo que não estivesse. Vou embora,
eventualmente. Não quero me apegar.

O chuveiro lampeja em minha mente, e me lembro de sua


bucha e minhas bochechas esquentam.

Sinto-me bem com ele, e estou feliz que ele se sinta bem
comigo. Eu apenas não posso me sentir assim tão bem.

Chegamos na parte de trás da casa, em direção à porta dos


fundos e me curvo para abrir a torneira. Água derrama para fora
da mangueira e a pego do chão.
Ficando em pé, passo minha mão debaixo da mangueira,
grata pela água ainda estar quente do sol do dia.

Eu a entrego para ele, que a pega.

“Obrigado por vir hoje”, ele diz em voz baixa. “Nós


precisávamos de ajuda.”

Assinto, tirando meu tênis e boné. “É minha cidade,


também.”

Ele enxágua o rosto, braços e botas de construção e noto a


água escorrendo em suas roupas e ainda vazando lama.

Estamos apenas piorando isso.

“Há algumas toalhas na secadora”, digo distraidamente. Ele


pode ir para dentro e enrolar-se em uma toalha, enquanto fico
aqui fora e me lavo.

Ele puxa a camisa sobre a cabeça, e a seguro, torcendo-a


em meus punhos para forçar a saída da água, enquanto ele corre
a mangueira por cima do ombro e pelas costas.

“Toda a lama se foi?”, ele pergunta.

Ele vira, ainda segurando a mangueira e me mostrando


suas costas, e, de repente, posso sentir o calor do seu corpo ao
meu lado. Meu sangue começa a se aquecer sob a pele e estou
com medo de olhar para ele.

“Sim”, digo, quase inaudível.

Arranco um dos meus elásticos e começo a desmanchar


uma trança, minha pele queimando. Ele está olhando para mim.

Fecho meus olhos por um momento, absorvendo-o.

Eu quero que ele olhe para mim.


Eu o ouço rir, embora, e abro meus olhos para vê-lo
alcançar e pegar minha outra trança em sua mão. Ele levanta a
mangueira e enxagua o penteado.

Oh, a lama...

“Sim, obrigada por isso, a propósito”, forço um tom


sarcástico.

“Você pediu por isso.”

Sim. Pedi. É divertido provoca-lo.

Meu couro cabeludo sente cócegas ao seu toque, e embora


não esteja mais relaxada, estou sorrindo novamente. Ele está
apenas tocando as pontas de alguns cabelos e estou tonta.

Engulo o caroço na minha garganta e viro lentamente,


sussurrando: “Você checa minhas costas?”

Espero um momento, meu pulso acelerado nos meus


ouvidos e o som da água derramando da mangueira no chão.

Mas então posso senti-lo. O suave roçar de seus dedos em


minha camisa e a água fresca escorrendo através do tecido
enquanto ele limpa a lama.

Ele está tão quieto, e o som da pulsação em meus ouvidos é


tão alo.

A princípio, ele é rápido. Cruzo os braços na frente do meu


corpo, nervosa como se esta fosse a primeira vez que alguém me
toca.

Mas então o ritmo fica mais lento, sua mão fica no meu
ombro mais tempo e a pressão aumenta conforme ele pressiona
minhas curvas e passa os dedos descendo pelo meu pescoço,
espinha e depois, quadris.
O pulsar entre minhas pernas começa a latejar e minhas
pálpebras vibram.

Sua mão atinge a pele nua no meu quadril, demorando-se


por um momento e solto uma respiração, tão nervosa agora, mas
excitada.

Não estou imaginando isso. Não estou imaginando a forma


como seu toque é bom.

Engolindo, lentamente olho para o lado, vendo sua forma


por cima do meu ombro, e alcanço para baixo, agarrando a barra
da minha camisa, hesitando apenas um momento antes de puxá-
la sobre a cabeça. Então, rapidamente alcanço e pego uma toalha
limpa nas escadas, abraçando-a na frente do meu corpo.

Eu quero que ele olhe para mim, mas estou com tanto
medo que ele me afaste.

Derrubo minha camisa encharcada e fico ali, medo e desejo


comendo qualquer pensamento racional. Por um tempo, o fluxo
constante de água só cai, escavando um buraco na grama abaixo.

E então, cai sobre mim. Cascateando sobre meu ombro,


descendo pelas ondulações das minhas costas, enquanto sua
mão segue o fluxo, limpando toda a sujeira ainda remanescente.
Fecho meus olhos, tonta.

Está quente em minhas costas, e percebo que ele está mais


próximo agora, elevando-se sobre mim por trás.

Ouço-o engolir. “A toalha vai molhar”, diz, com a voz rouca.

Um sorriso curva meus lábios, mas não o deixo sair.

Abrindo os olhos, afasto a toalha do corpo e a lanço de


volta para a escada, excitação corre como uma corrente elétrica
sob cada centímetro da minha pele. Não me lembro de jamais
querer algo tanto assim.
Ele limpa minhas costas, meus braços e inclina a cabeça
para mim de um lado para o outro para se certificar de que não
há sujeira lá, também. Termino de destrançar meu cabelo e
penteio meus dedos por ele, sentindo alguns fios molhados
misturados com os secos.

Quero olhar para ele e saber o que está pensando, mas


tenho medo de quebrar o feitiço. E se eu olhar para ele, nós dois
poderemos ficar assustados.

E isso é tão bom.

“Minhas pernas estão limpas?”, pergunto sobre meu ombro.

Sei que estou sendo perversa, mas ainda não quero que ele
pare.

Leva apenas um momento, mas então sinto a água atingir a


parte de trás das minhas pernas, e, lentamente, ele toma um
joelho, tentando conseguir um melhor ponto de observação.

Fecho meus olhos novamente, mergulhando


profundamente na minha cabeça onde tudo que quero neste
momento, mas estou com muito medo de vocalizar, é seguro. Não
é apenas o toque dele. É como ele faz isso. As longas carícias
lânguidas pelas minhas coxas e a forma como as pontas dos seus
dedos trilham apenas um centímetro mais alto do que
provavelmente deveriam. E como ele tenta evitar o interior das
minhas pernas, mas continua flertando próximo dali, como se ele
quisesse ir até lá e estivesse lutando para se segurar.

Ele termina minhas panturrilhas e os meus pés, e eu


finalmente olho por cima do ombro e para ele.

“Minha vez”, digo.

Ele levanta o olhar, seu peito subindo e descendo em


respirações rasas. Seus lábios estão separados e há uma centena
de emoções diferentes em seus olhos. Mas reconheço as mesmas
que estou sentindo. Medo e saudade, tumulto e necessidade.

Nós queremos isso, mas sabemos que não deveríamos.

Viro e pego a mangueira dele, e seu olhar recai sobre meus


seios bem ali para ele e apenas cobertos por meu fino sutiã de
renda cor de rosa.

Sou uma garota feminina no coração e acho que ele gosta


disso.

Sem uma palavra, ele se levanta e olha para mim, inflexível


conforme levanto a mangueira e começo a lavá-lo outra vez.
Nenhum de nós tinha muita lama sobre si em primeiro lugar.
Poderíamos facilmente ir para a casa e para o chuveiro e nós dois
sabemos disso.

Corro minha mão sobre a pele lisa do seu peito, traçando o


mural que ele pintou em seu ombro, peitorais e descendo pelo
braço.

Não olho em seus olhos, mas sei que ele está focado em
meu rosto.

“Você fez todas estas tatuagens quando era mais jovem?”,


pergunto baixinho.

“A maioria delas”, ele diz, rouco. “Quando não tinha outras


coisas onde gastar meu dinheiro.”

“Você se arrepende de alguma delas?” Vejo lama sob sua


orelha e fico na ponta dos pés, colocando-nos peito a peito.

“Não, eu...”, ele para, sua respiração pesada caindo sobre


minha bochecha enquanto pairo tão perto.

“Você tem um pouco de lama”, explico, olhando para ele


com o meu corpo pressionando o dele.
Caio de volta para os meus pés e continuo. “Você estava
dizendo?”

Ele limpa a garganta. “Uh, sim. Estou um... Estou um


pouco cansado de algumas delas agora, eu acho, mas ao mesmo
tempo, elas eram exatamente quem eu era e o que precisava dizer
sobre mim mesmo”, ele me diz.

Assinto, compreendendo. Trilho ao redor de suas costas e


lavo seu pescoço, ombros, deixando meus dedos descerem por
sua coluna vertebral. Ele se mexe sob o meu toque, e calor infiltra
através da minha mão, levantando meu braço, e estou tão
excitada. Não quero parar de tocá-lo, mas usar minhas mãos não
parece mais ser suficiente. Quero sentir as dele novamente.

Como é Pike Lawson quando assume o comando?

Ele vira a cabeça, perguntando suavemente. “Você não vai


me perguntar o que as tatuagens significam?”

Eu me afasto ao redor de sua frente, observando meus


dedos enquanto eles roçam o braço musculoso. “Algum dia”,
sussurro de volta.

Eu quero saber. Quero saber tudo sobre ele. Mas talvez,


acho, vamos continuar a ter uma razão para encontrar um ao
outro se nós guardarmos algumas coisas para mais tarde.

E agora, estou desesperada para ver o que sua boca pode


fazer além de falar.

Toque-me. Por favor.

Beije-me.

Derrubo a mangueira ao meu lado e arrasto os dedos da


minha mão esquerda em seus abdominais, meu coração batendo
tão forte que chega a doer. Eles enrijecem conforme minhas
unhas deslizam através dos músculos e tenho tanto medo de
olhar para ele.

Isto é errado. Eu sei que é errado.

Mas Deus, ele é gostoso. Posso sentir seus olhos em mim, e


cada fio do meu sutiã está esfregando minha pele, e apenas quero
ficar nua agora. Quero que ele me veja.

Fecho meus olhos. Oh, Deus.

“Jordan...”, ele agarra minha mão e posso ouvi-lo respirar


com dificuldade.

Assinto, abrindo os olhos, mas ainda incapaz de encontrar


os dele. “Eu sei”, solto uma respiração. “Sinto muito.”

Estou desidratada, meus olhos ardem com lágrimas e não


sei por que, e há uma necessidade entre minhas coxas que é
quase dolorosa.

Lentamente, ele inclina meu queixo para cima. Finalmente


levanto meu olhar, mas Pike não está olhando para mim,
também. Seus olhos estão abatidos, e sua expressão esta atada
em dor. “Você está apenas desestabilizada”, ele diz baixinho.
“Você sente falta de Cole e só acontece de eu estar aqui. Está
tudo bem.”

Permaneço imóvel, meus dedos ainda em seu abdômen e


sua mão ainda no meu queixo. Seu peito se move subindo e
descendo e por um momento, acho que vou virar as costas e
correr. Ele está dando desculpas por mim. Uma fácil de se
utilizar. Faria sentido se eu estivesse me sentindo perdida e se
precisasse de alguém para servir de escape.

Mas qual é a desculpa dele. Sei que ele olha para mim. Sei
que ele faz isso quando pensa que não estou observando, mas eu
vejo.
Meus olhos ardem, enchendo-se de lágrimas. “Não é por
isso que eu sinto muito”, digo a ele.

Levanto os meus olhos, encontrando os dele, e mesmo


estando com muito medo, tenho que mergulhar. Não posso
segurar.

“Sinto muito, porque...”, sussurro trêmula, “esta não é a


primeira vez que eu queria que você me tocasse.”

E seu olhar congela em mim.

Ele mantém seu olhar fixo no meu, imóvel, exceto pela


subida e descida do seu peito e não tenho ideia do que está
passando por sua cabeça agora, mas não acho que seja um ‘sinto
muito’. Não há mais desculpas sobre eu estar perturbada com
Cole.

A atração já estava lá.

Ele lentamente deixa seus dedos caírem do meu queixo,


ambas as mãos cerrando em punhos e aperta a mandíbula, de
repente, parecendo com raiva.

Em reflexo, dou um passo atrás, mas não chego mais


longe. Agarrando minha cintura, ele me puxa para si,
serpenteando um braço ao meu redor e segurando meu queixo
em sua mão entre o polegar e quatro dedos. Suspiro, amando a
sensação de seu corpo duro contra o meu, mas com medo,
também, porque ele parece tão zangado.

“Não”, ele resmunga, arreganhando os dentes e olhando


para mim com fúria em seus olhos. “Você entende? Isso não irá
acontecer. Você não conseguirá isso de mim.”

Lágrimas enchem meus olhos e mal posso vê-lo enquanto


meu corpo treme com um soluço silencioso.
Seu braço é como aço ao meu redor e posso sentir o calor
de sua raiva saindo de sua pele.

Ele me sacode. “Se você quer ficar com alguém, então pode
ir caçar em outro lugar.”

Puxo ar e giro para longe dele, empurrando seu corpo.

Ele está certo. O que estou fazendo? Porque faria isso? Eu


me sinto tão estúpida, e me agacho, recolhendo rapidamente
minha camisa e sapatos.

Mas não estou imaginando isso, não é? Há algo entre nós, e


isso vem tanto dele quanto de mim. Apenas vi o que eu queria
ver?

Eu quero gritar. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, e ele


ainda fica parado, olhando para mim.

“Vá para o seu quarto”, ele ordena.

Quebro em uma gargalhada, o som amargo gotejando com


descrença. “Vá se foder!”, eu me levanto, endurecendo a minha
voz. “Vou encontrar outra cama esta noite, obrigada. Qualquer
um deve servir para uma puta como eu, certo?”

Chicoteio ao redor e corro para a porta dos fundos, mas ele


agarra o meu cotovelo e me puxa de volta para a parede que é seu
peito. Deixo minha camisa e sapatos caírem e ele nos força contra
a parede da casa. Abro minhas mãos, batendo no tapume.

Jesus.

Balanço, puxando respirações curtas e superficiais


enquanto meu coração acelera e meu sangue corre quente sob
minha pele.

O que…
Ele alcança ao redor, tomando meu rosto em sua mão e seu
hálito quente no meu ouvido. “Não me ameace com merdas
assim. Se você quer agir como uma pirralha, então talvez deva ser
tratada como uma, hein?”

Quase sorrio através das lágrimas secando no meu rosto.


“Por todos os meios”, insulto, “estou morrendo para ver você
tentar assumir o controle sobre mim. Você não conseguiu nem
mesmo fazer com que Cole assumisse sua parte nas tarefas, e
quando foi a última vez que uma mulher esquentou sua cama?
Você nem sequer é homem.”

Ele rosna e bate a palma da mão contra a casa a minha


frente.

Eu pulo.

E a próxima coisa que sei é que sua mão está no meu


cabelo e minha cabeça está sendo torcida de lado enquanto seus
lábios colidem nos meus.

Eu choramingo, a sensação e o gosto dele me inundando


com tanta força que meu clitóris pulsa entre minhas pernas. Ah,
merda. Minhas pálpebras vibram fechadas, o calor e a adrenalina
mergulham do meu peito para minha virilha no espaço de um
segundo.

Ele se afasta. “Porra”, e seu punho aperta meu cabelo.

Mas ele volta, sua boca cobrindo a minha, exigindo mais, e


mal consigo recuperar o fôlego. Estou toda quente.

Ele tem um gosto tão bom. Sinto-me tão bem. Leva apenas
um momento, mas meu cérebro finalmente entra em ação e
alcanço ao redor, tomando a parte de trás do seu pescoço e
beijando-o também.

Sua mão aperta minha cintura e posso sentir os dedos


deslizando sob o elástico de seda vermelha da minha calcinha
que está aparecendo um pouquinho, enrolando a mão uma vez no
tecido como se estivesse se preparando para arrancá-lo.

Minha buceta pulsa com o pensamento. Sua língua é


quente e exigente, sacudindo-se na minha boca e brincando com
ela, e quando ele se afasta apenas um fio de cabelo para
mordiscar meu lábio inferior, eu fico na ponta dos pés, sentindo a
dor quente e úmida entre minhas pernas.

Oh, Deus.

Ele alterna de meus lábios para minhas bochechas,


depositando beijos ao longo da minha mandíbula e de volta para
o meu pescoço. Só posso arqueá-lo para lhe dar livre acesso.

E sorrio por dentro. Ele quer isso. Ele me quer.

Minha pele vibra, os pelos do meu braço ficam de pé e


quebro em arrepios com a sensação de suas mãos começando a
explorar tanto quanto sua boca.

Pressiono minha bunda em sua virilha e sinto o cume de


seu pênis, duro e tentador. Ele puxa sua boca para longe,
gemendo com minha cutucada.

“Jordan”, ele suspira, os olhos fechados e as sobrancelhas


marcadas por dor. “Porra, não podemos fazer isso.”

Eu me viro, arqueando na ponta dos pés e grudando minha


testa na dele com minhas mãos em sua cintura. “Eu sei”, digo.
“Eu sei.”

Deus, por que isso tinha que acontecer?

Pairo sobre seus lábios, enquanto seu hálito quente me faz


querer derreter dentro dele. “Eu sei”, sussurro novamente. “Eu
arruinei isso, não foi?”

Nós somos vítimas das circunstâncias. Pelo menos posso


me sentir confiante de que eu teria gostado dele, não importa o
quê. Se ele fosse qualquer outro cara que entrasse no meu bar,
sentasse e falasse comigo, eu o desejaria. Ele pode ser áspero, e
não tem nenhuma prática em lidar com as pessoas, mas estou
feliz ao redor dele e gosto que a única coisa que ele parece
precisar de mim é minha presença. Pike é mais feliz quando estou
aqui.

“Você precisa não brigar comigo, ok?”, digo a ele. “Irei para
a casa da minha irmã amanhã e ficarei mais do que bem. Você
não tem que se preocupar comigo. Eu nunca deveria ter ficado...”

De repente, porém, ele pega a parte de trás das minhas


coxas e me levanta, forçando minhas pernas a se enrolarem a sua
volta. Plantando-me contra a parede, ele nivela comigo e balança
a cabeça. “Você não vai a lugar nenhum.”

E então ele se lança, capturando o lado de baixo do meu


queixo em sua boca. Arquejo, minha cabeça caindo para trás e
minhas pálpebras se fechando, enquanto ele morde e beija,
enviando arrepios por meus braços.

Agarro seus ombros e desisto, contorcendo-me contra ele e


ansiando o atrito do corpo dele entre as minhas pernas.

Um de seus braços me segura para o alto enquanto o outro


trilha até meu sutiã, puxando-o para baixo, para que ele possa
beijar a pele do meu ombro.

Arfo, desesperada. “Tire. Por favor.”

Sua mão vai para minhas costas, mas em vez de soltar o


gancho, ele puxa o elástico para baixo. Eu só estou nua por um
momento, no entanto, quando ouvimos uma porta bater dentro
da casa, o que nos surpreende.

“Pai?, Cole chama. “Você está acordado?”

“Merda”, Pike assobia baixinho.


“Oh, Deus”, eu me contorço para fora dos seus braços e ele
me solta. Abaixo-me, recolhendo minha camisa e sapatos
novamente, segurando-os para me cobrir. Vejo a luz da cozinha
ser acesa pela porta de trás e giro em torno da lateral da casa,
escondendo-me para ficar fora da vista.

Meu coração está batendo forte e não consigo engolir. Espio


para Pike ao virar no canto da casa e ele está olhando em volta
como se não tivesse certeza do que fazer, mas finalmente pega a
mangueira que ainda está correndo água, e continua lavando os
braços e mãos já limpos.

“Sim, aqui fora!”, ele chama, seu pomo de Adão subindo e


descendo.

Ouço a porta de tela ranger e ser aberta, e escapo de volta,


me certificando de ficar fora de vista.

“Ei, o que você está fazendo?”, ouço Cole perguntar.

Eu apressadamente reorganizo meu sutiã e coloco minha


camiseta molhada novamente.

“Apenas me limpando”, Pike responde. “O rio quase


inundou o porto hoje. Tentei ligar para você.”

“Sim, desculpe.”

Há um momento de silêncio e tudo que posso ouvir é a


água corrente derramar sobre a grama agora inundada.

“Onde está Jordan?”, Cole diz.

“Eu não sei... lá dentro?”

Meus olhos se baixam e a culpa me atinge como uma


facada. Ele precisou mentir para Cole.
Quero dizer, é claro que Pike faria isso. Eu faria, também.
Mas a realidade me atinge: posso deixar Cole, ir embora e a vida
vai continuar. Pike não pode fazer isso. Cole é seu filho.

“Você vai ficar?”, Pike pergunta a ele.

“Só vim pegar algumas coisas”, Cole explica, parecendo


solene. “Não acho que ela vá querer ficar perto de mim por um
tempo ainda. Obrigado por deixá-la ficar aqui.”

A voz de Pike é quase um sussurro. “Isso não é problema.”

Há mais silêncio e então ouço a água ser desligada e algum


farfalhar.

“Ela realmente cuidou de mim quando...”, Cole para e, em


seguida, continua. “Quando eu não podia suportar ter ninguém a
minha volta. Eu nunca quis que ela ficasse ferida.”

Agulhas picam minha garganta. Tudo está tão bagunçado,


porque não sei quão irritada estou autorizado a estar.

Ele fez isso bem debaixo do meu nariz. Durante semanas.

Mas no meu coração, eu tampouco fui fiel a ele.

Em algum lugar lá no fundo, sempre soube que isso era


uma coisa com prazo de validade.

“Você pode voltar para casa”, Pike diz em voz baixa, quase
suplicante.

Mas Cole não responde, e eu gostaria de poder ver seu


rosto. Ele está olhando para o pai? Ele não consegue encarar as
pessoas quando está chateado ou triste.

“O que você está fazendo?”, Pike pergunta, com muita


tristeza em sua voz. “O que você está fazendo com você mesmo,
hein?”
Ouço um suspiro e depois Cole diz, “Falarei com ela.
Eventualmente.”

E então a porta de tela é fechada, batendo contra a


moldura, e eu lentamente espio pelo canto, vendo Pike sozinho no
local onde o deixei.

Sua expressão está marcada por dor, e ele está olhando


para o chão. Sua cabeça gira um pouco para mim, no entanto.

“Ele não está tratando você direito, mas deveria”, Pike diz,
seu rosto tomado por culpa. “Mas isso não pode acontecer,
Jordan.”

Pressiono meus dentes juntos, lágrimas estão alojadas no


fundo da minha garganta.

Eu sei.

Eu sei.
Capítulo 16

Pike

Eu posso senti-la. Suas pernas quentes serpenteando


através e sobre as minhas entre os lençóis, e ela está quente e
úmida entre as pernas enquanto rebola em cima de mim. Agarro-
a pelos quadris e nos viro, baixando sua calcinha e mergulho,
tomando-a com minha boca.

Deus, seus gemidos são tão doces e não quero deixar esta
cama nunca. Não quero fazer nada além de senti-la, saboreá-la,
cheirá-la e fazê-la sorrir, suar e gozar. Ela é minha.

Mas, de repente, meus olhos se abrem, piscando na luz


fraca do início da manhã.

Estou sozinho, e inspiro pelo nariz, perseguindo seu cheiro


no sonho.

Fecho meus olhos. “Jesus”, arfo, lambendo meus lábios


secos.

Fecho minhas mãos em punhos, ainda sentindo sua


bunda, e preciso dela. Preciso tanto do mesmo corpo suave que
tive em meus braços ontem à noite que meus maxilares doem de
apertá-los.
Esfregando o suor do meu pescoço, espio e vejo meu pau
formando uma tenda no lençol.

Porra.

Eu preciso transar. Está tudo ali para isso. Jordan não é


especial.

Ela não é.

Ela é apenas uma jovem atraente que está vivendo em


minha casa e constantemente na minha frente, andando por aí
em seu short curto com suas longas pernas, bunda alegre e
lábios que tem o gosto de pêssegos. É como colocar um bife na
frente de um pit bull faminto e dizer para ele: “não toque.”

Gemo enquanto meu pau se enche de sangue, ficando


ainda mais duro.

Deus, se eu a chamasse aqui agora, ela viria? Estou


tentado a voltar atrás no que eu disse ontem à noite, de tanto que
quero de volta o que tive em minhas mãos.

Mas não.

Já estou sendo corroído com a culpa e perder o controle e ir


mais longe com ela traria um mundo de dor. A noite passada foi
simplesmente o resultado de não ter me alimentado em muito
tempo. Nada mais.

Cristo, ela é uma criança. Se ela fosse dois anos mais nova,
eu poderia ir para a prisão pelo que quase fiz com ela ontem à
noite.

Preciso tirar isso do meu sistema.

Jogando o lençol de lado, saio da cama e puxo uma cueca


boxer e jeans. Depois de jogar um pouco de água fria no meu
rosto, escovar os dentes e passar um pouco de gel no meu cabelo,
meu pau está mais calmo, o suficiente para deixar meu quarto.
Puxo uma camiseta e o resto das minhas coisas que precisarei
para o trabalho e saio do quarto.

Se Cole não tivesse voltado para casa naquele momento...

Desço correndo as escadas, empurrando isso para fora da


minha cabeça. Eu só espero que ela não ache que precisa ir
embora por conta disso. Provavelmente seria o melhor, mas não
quero ser outra pessoa com quem ela não pode contar.

Na cozinha, eu me sirvo uma xícara de café e abro a


geladeira, procurando o leite.

Aperto minhas sobrancelhas juntas, deslocando as caixas


ao redor e só encontro leite de amêndoa. Eu o pego e enrugo meu
nariz, estudando-o. Amêndoas produzem leite?

Jordan. Rolo meus olhos e abro a caixa, cheirando seu


conteúdo. “Hum...” Não tem cheiro ruim.

Dou de ombros e despejo aquilo no café.

Pegando a caneca, deslizo minha outra mão no bolso e


encosto contra o balcão, soprando o café.

Ouço os passos de Jordan nas escadas, e meu estômago se


retorce enquanto pisco forte e demoradamente para me preparar.

Ela se apressa para a cozinha, erguendo os olhos e


encontrando os meus por tempo suficiente para me dar um
rápido meio sorriso sucinto antes de se arrastar ao redor da mesa
e puxar sua mochila de uma cadeira.

Ela parece com pressa.

Forço as palavras para fora. Quanto mais cedo nós


lidarmos com isso, mais cedo voltaremos ao normal. “Sinto muito
sobre ontem à noite”, digo a ela. “Foi minha culpa e isso não
deveria ter acontecido. OK?”
Suas mãos desaceleram, e vejo seus olhos mudarem
conforme ela revira sua mochila, mas não olha para mim.

Ela fecha o zíper e se endireita, seguindo na minha direção


e abrindo a geladeira.

“Tenho que ir”, ela diz.

Eu a observo com cautela. Não parece zangada. Apenas


nervosa. Talvez ela estivesse esperando minha liderança para ver
como lidar com isso.

Ou talvez ela queira agir como se absolutamente nada


tivesse acontecido. Talvez ela esteja arrependida.

Eu me arrependo?

Sim. Sim, é claro que sim.

Mas gostei, também. A necessidade de levá-la até a minha


cama e saborear cada segundo e cada centímetro dela era como
ansiar o céu na noite passada. Eu queria isso. Mal podia esperar.

E não teria parado. Meus músculos doem só de pensar que


colocaria meu corpo sobre o dela para desfrutar cada momento.

Mas, mesmo sem considerar Cole, ela ainda tem metade da


minha idade. Nada sobre isso é certo.

“Você é uma menina bonita, Jordan”, digo em um quase


sussurro. “Mas você é apenas uma menina.”

Ela faz uma pausa na geladeira ao meu lado e posso vê-la


engolir. Ela é tão bonita. Cabelo limpo e fluido, maquiagem sutil,
com apenas um toque de rosa nos lábios...

“Minha cabeça não estava no lugar”, explico. “Nós dois


estamos solitários e estou tão contente em ter você aqui que os
limites ficaram turvos. Isso não acontecerá novamente.”
Ela assente e seu olhar abaixa. Gostaria de saber o que ela
está pensando. Não é como se ela fosse tão quieta. Ela me odeia?

“Está tudo bem”, ela diz suavemente.

Mas balanço minha cabeça. “Não está. Não é algo que eu


espero de você. Quero que você saiba disso.”

Deus sabe que ela já tem o suficiente dessa merda no


trabalho.

Pegando uma maçã e uma garrafa de água, ela se vira e vai


para a mesa e agarra sua bolsa. Ela não deve ter aula tão cedo,
mas não estou prestes a interrogá-la como se isso fosse da minha
conta. Já fiz o suficiente por ela nas últimas vinte e quatro horas.

Observo conforme ela sai da cozinha e entra no vestíbulo,


puxando as chaves da casa para fora do gancho. Ela estende a
mão para a porta, mas para, fazendo uma pausa.

“Minhas mãos também estiveram em você”, ela diz.

E então abre a porta e sai, fechando-a suavemente atrás de


si.

Olho atrás dela, o espaço vazio fazendo-me de repente


querer que ela volte.

“Não diga coisas assim”, murmuro para uma casa vazia.

Se eu souber que você também quer isso, como serei capaz


de resistir a você?

“Você tem certeza que não quer vir?”, Dutch pergunta.


Balanço a cabeça, jogando o meu equipamento na traseira
da caminhonete. “Nada soa pior do que um bar cheio de gente e
palitos de mozzarella pré-congelados agora”, digo a ele. “Tenho
um encontro com algumas sobras de calzone na geladeira.”

Todd passa, rindo. “Aposto que calzones tem sabor ainda


melhor com uma certa loira descalça os preparando.”

Meu pescoço aquece com a provocação. Não acho que


ninguém sabe que Cole não está morando lá em casa agora, mas
Jordan e minhas interações não passaram despercebidas. Na
noite de pôquer, a exibição de lingerie, ela trazendo meu almoço...
os caras estão tirando suas próprias conclusões, tenho certeza.

E, na verdade, os calzones são um pedido de comida pronta


de algumas noites atrás, mas sim, Jordan não estará trabalhando
hoje à noite e estou ansioso para ver como ela está. E, tenho
esperanças de voltar ao normal com ela.

Não ansioso demais, embora. Mantive os caras aqui por


uma hora a mais hoje, de propósito, porque enquanto estou
morrendo de vontade de vê-la, não quero estar morrendo de
vontade de vê-la, e preciso provar que tenho algum controle sobre
mim mesmo.

Dutch puxa seu boné de beisebol, atirando-me um meio


sorriso como se concordasse com Todd, mas apenas faço uma
careta e subo em minha caminhonete. Não preciso da imagem
mental de Jordan caminhando em volta da minha cozinha em
seus pés descalços, curvando-se nos balcões para pegar as
coisas, e fazendo aquela coisa linda de soprar o cabelo de seu
rosto, mas ele apenas cai de volta para o mesmo local novamente.

Podemos viver lá e nossas vidas continuarão em frente até


que ela consiga seu próprio lugar. Ela irá à escola, além de
continuar trabalhando e de vez em quando um cara pode apenas
aparecer para buscá-la, e eu vou seguir em frente, também. Sou
um homem solteiro. Ela tem que esperar que aqui e ali sairei com
uma mulher. Está tudo bem e é assim que deve ser.

Se ela fosse dez anos mais velha, embora...

Sorrio para mim mesmo, finalmente sentindo como se


tivesse a minha cabeça de volta ao lugar. Viro a chave, ligando o
motor e saio do estacionamento, indo para casa.

Estou feliz que não tentei sair do local imediatamente às


cinco. E apesar de tudo, fiz bem. Fui eu quem parei as coisas
ontem à noite, certo? Duas vezes? Tenho uma bússola moral, e
mesmo que ela tenha vacilado, acabou encontrando o norte
verdadeiro. Eventualmente.

E sou apenas humano. Alguém poderia não perceber como


ela é bonita?

Solto uma respiração, ligando o rádio conforme desço para


a cidade e sigo através das ruas da vizinhança.

Eu preciso sair com alguém. Vou apenas torcer, girar e


retorcer o que aconteceu com a Jordan na noite passada como
um lapso sob a lua cheia e voltar a ser... tipo... o cara mais velho.
Apenas um adulto responsável que ela pode consultar em busca
de orientação. É isso aí.

Ela não é uma mulher, não é experiente no mundo, e não


sou o homem que vai se casar com ela ou lhe dar filhos. Não
tenho o direito de ficar com ela.

Respiro fundo, sentindo-me pronto e entro na minha rua


seguindo até minha garagem. É apenas pouco depois das seis, o
VW de Jordan está aqui, mas isso não significa que ela esteja. Eu
disse a ela para não o dirigir ainda, mas ela poderia estar com
sua irmã.

Estaciono e pego minha bolsa de almoço antes de sair da


cabine. Alcançando na parte traseira, retiro meu cinto de
ferramentas e o balanço sobre o ombro, andando pelo gramado
até as escadas da varanda.

Mas vejo algo pelo canto do meu olho e viro a cabeça,


observando a casa de Kyle Cramer. Jordan está saindo de sua
porta da frente, seguida por Kyle que entrega a ela um pedaço de
papel e sorri.

Ela continua a centímetros de distância, mas sorri de volta


e empurra o polegar em direção a minha casa, e ambos trocam
algumas palavras e acenam. Afastando-se dele, ela caminha em
minha direção e meu olhar se volta para ele, ainda de pé atrás
dela, e vejo os olhos dele analisando bem o traseiro de Jordan.

Meus pulmões se enchem de calor e o instinto começa a


chutar. Nem sequer tente, idiota.

Ela se aproxima, olhando para cima e desacelerando por


apenas um segundo, quando me vê.

Empurro meu queixo, mantendo meu tom uniforme. “Do


que se trata tudo isso?”

Ela pisca, subindo os degraus da varanda. “Oh, ele, hum...


ele está com seus filhos esta noite”, ela diz. “Mas esqueceu que
tinha um jogo de beisebol, então me pediu para cuidar deles. Eu
disse sim. Ele estava apenas me mostrando sua casa e explicando
o que preciso fazer.”

“Por que você?”, eu a sigo.

Ela olha para mim e percebo que soei rude.

“Quero dizer, ele já deve ter outras babás alinhadas”,


acrescento. “Apenas fiquei curioso por ele pedir isso a você.”

“Eu não sei”, ela dá de ombros e pega sua bolsa,


verificando se tem o que precisa. “Provavelmente porque estou
aqui do lado, e ele acha que ainda estou com pouco dinheiro”, ela
brinca. “Está bem. Sério. Não tenho mais nada para fazer.
Voltarei tarde, ok?”

Tarde? Os jogos acabam por volta das dez.

Ele deve se juntar à equipe no bar depois.

E então o degenerado vai chegar em casa bêbado, e vai


encontrar uma babá sexy que mal chegou à maioridade.

Não, foda-se.

Ela se move para a porta, jogando a bolsa sobre o ombro, e


dou um passo.

“Espere...”, digo.

Ela se vira, mas seus olhos apenas derivam sobre mim,


nunca ficando muito tempo.

Ela está tentando me evitar.

“Se você quiser”, abordo gentilmente. “Você pode trazer as


crianças para cá. Elas podem nadar.”

Ela finalmente me olha nos olhos, e noto que os dela estão


vermelhos. Ela está triste, mas está tentando esconder isso.
Jesus.

Ela balança a cabeça, parecendo arrependida. “Você


acabou de sair do trabalho. Quer relaxar, e eles serão
barulhentos.”

Ela baixa seus olhos de novo, parecendo nervosa.

Sou eu ou é outra coisa? Eu fiz a coisa certa noite passada.


Não quero que ela se sinta rejeitada, porque esta mulher poderia
fazer de qualquer cara o homem mais sortudo do mundo.

Algum dia.
Talvez ela não esteja com raiva de eu ter parado, no
entanto. Talvez ela esteja chateada com tudo que aconteceu.

Dou mais um passo, baixando minha voz como se estivesse


com medo de que os vizinhos pudessem nos ouvir. “Você está
brava comigo?”, pergunto a ela.

Ela estala seus olhos para cima, respondendo rapidamente.


“Não.” E então ela procura palavras. “Eu só estou tentando
resolver algumas... coisas na minha cabeça.”

Posso ver lágrimas em seus olhos, e sinto dor em todos os


lugares. Por que sempre quero abraçá-la?

Jordan inclina a cabeça, tentando esconder as lágrimas


que não consegue segurar. Avanço até ela e só hesito um instante
antes de colocar minha mão no lado de seu rosto. Meus dedos
envolvem em torno da parte de trás de sua cabeça e ela não me
afasta.

“Estou aqui, ok?”, sussurro. “Nada mudou. Eu ainda amo o


cheiro de suas velas e o som de sua música pela casa.” Faço uma
pausa e então acrescento: “Embora não seja um grande fã do
wrap de pepino que você esgueirou no meu almoço de ontem.”

Ela dá uma risada silenciosa, seus ombros sacudindo.

Esfrego sua bochecha com meu polegar. “Não vou a lugar


nenhum.”

E a puxo, abraçando-a junto ao meu peito e apenas


querendo nada mais do que protegê-la e dar-lhe tudo que ela não
tem.

Envolvo meu braço livre ao redor dela, e depois de um


momento, ela cede e serpenteia os braços a minha volta também,
derretendo-se contra mim. Abraçamo-nos tão apertado que não
sei se eu a estou segurando ou se ela está me segurando, mas por
um momento, tenho medo de cair se soltá-la.
“Traga-os para cá”, digo a ela. “Isso vai tirar a pressão de
você ter que entretê-los. Vou deixar as boias prontas e
encomendar uma pizza.”

Ela se afasta, fungando, mas não há mais lágrimas


escorrendo de seus olhos e ela torce um meio sorriso.

“As crianças gostam apenas de queijo”, ela diz, um ar de


paz estabelecendo-se em sua expressão.

“Sim, eu me lembro.” Acho que Cole ainda gosta apenas de


pizza de queijo, na verdade.

Ela deixa sua bolsa cair ao lado da porta onde estava antes
e me lança um olhar antes de sair, uma compreensão se
estabelece entre nós. Eu não estou aqui para feri-la.

E não vou, desde que eu consiga ficar longe dela,


diferentemente do que aconteceu ontem, não vou.

“Eu não posso fazer isso!”, Jensen grita com água pingando
de seus lábios.

O de sete anos de idade anda na água, os óculos enormes


no rosto. Abaixo dele, três anéis de mergulho estão de pé no
fundo da piscina, e depois que o deixei corajoso o suficiente para
se agarrar ao meu pescoço enquanto eu mergulhava para
recuperá-los, pensei que já seria hora dele tentar.

Cramer é um idiota, mas seus filhos não são ruins.

“Tente ir em pé primeiro então”, digo a ele. “Aqui, coloque


seu rosto na água e me observe.”

A piscina só tem um metro e oitenta, mas eu sei nadar de


qualquer maneira, colocando-me acima dos anéis. Jordan está na
parte rasa com Ava, que tem apenas dois anos e mostra a ela
como soprar bolinhas na água. Fiquei aliviado ao vê-la sair com
um biquíni mais conservador do que aquele maldito de conchas
do mar, mas não estou achando que este top sem decote seja
mais fácil de aceitar, infelizmente.

“Pronto?”, pergunto, arrancando os olhos do cabelo


encharcado grudado nas costas dela e olhando para Jensen.

Ele assente, como se sua cabeça fosse muito pesada para


seu corpo, e puxo uma inspiração e me lanço, caindo primeiro
com os pés no fundo da piscina, liberando ar conforme desço e
empurro a água para cima com as mãos.

Meus pés tocam o chão, agarro um anel, e me empurro de


volta até a superfície, tomando outra respiração profunda. Ele
coloca a cabeça para fora da água, cuspindo um pouco de água.

“Você viu?”, pergunto, limpando meu olho. “Deixei escapar


bolhas e empurrei a água para cima, e isso me ajudou a
mergulhar mais para o fundo.”

Ele assente novamente.

“Quer tentar?”

Ele balança a cabeça.

Sorrio, alisando meu cabelo para trás. “Ok. Outra vez


então.”

Só então, um jato de água golpeia minhas costas, e olho


por cima do ombro, vendo Jordan atirando em mim com uma
pistola de água. A garotinha em seu quadril ri e Jordan enruga o
nariz, fazendo uma cara de que está pronta para a batalha e mira
a água na minha cabeça. Empurro para longe, ouvindo a menina
rir ainda mais atrás de mim.
“Eu quero uma!”, Jensen corre para a borda da piscina e
agarra uma das pistolas de água que Dutch deixou aqui quando
trouxe seus filhos para passar o dia, no verão passado. Agarro a
outra e todos nós começamos a encher as nossas armas, Jordan
dando a dela para a menina e pegando outra para si mesma.

Pelos próximos dez minutos, nós mal paramos para tomar


fôlego enquanto rimos, nos atacamos e pulamos ao redor da
piscina para escapar das investidas. Todo mundo gira em torno
de si, o bebê atirando bem no olho de Jordan e Jensen me
atingindo na cabeça.

Pego a pequena, usando-a como cobertura simulada, e


Jordan grita, mergulhando na água para escapar dos tiros vindos
de Jensen, Ava, e eu.

O menino, eventualmente, empurra-se sobre um degrau


para sentar, e ambos, Jordan e eu, estamos respirando com
dificuldade por causa do esforço. Baixo a bebê para o deck, e ela
caminha até a mesa de piquenique e começa a mastigar um
pedaço de melancia. Jensen se junta a ela, pegando outra fatia de
sobras de pizza.

Sinto um déjà vu. Estou surpreso que ainda tenho energia


para isso. Parece que já se passou tanto tempo desde que eu
estava tentando ensinar Cole a nadar e deixando-o trazer para cá
sua primeira namorada no ensino médio, enquanto eu
secretamente mantive um olho sobre eles de dentro da casa. Isso
não foi tão estressante como me lembro de ser, no entanto. Talvez
porque agora sou mais velho.

Ou talvez porque é mais fácil quando há dois adultos


brincando com as crianças em vez de um só. Realmente me
diverti hoje.

Observo Jordan conforme ela pula para cima no deck da


piscina e se senta com as pernas ainda balançando dentro da
água. Pegando cada uma das armas de água, ela as esvazia e
sacode, colocando-as de lado.

A dualidade de seu maiô faz as engrenagens do meu


cérebro girarem mais e mais, e estou tão confuso. Ela veste preto
na parte inferior. Adulto, sexy, e bonito contra sua pele
bronzeada. E rosa na parte superior. Inocente, doce, e
inteiramente Jordan, porque ela pode ser uma garota tão
feminina.

Suas coxas, tonificadas e lisas, e a expressão bonita,


estudiosa em seu rosto enquanto franze a testa e se concentra em
sua tarefa. Tudo nela é jovem.

Exceto seus olhos.

Olhos que podem ser tão pacientes, porque ela teve anos de
prática em ser decepcionada, mas olhos que também podem
demonstrar raiva, porque você sabe que a merda vem batendo no
ventilador durante toda sua vida, desde o primeiro dia e não
aliviou nem um pouco.

Você pode ver seu cérebro trabalhando para cada tomada


de decisão e cada interação, porque ela é tão boa em avaliar as
consequências e o perigo agora, que isso já se tornou sua
segunda natureza.

Ela sabe que o tempo sempre passa e que seu dia vai
chegar. Basta acreditar.

Ela tem a pele lisa e o corpo de uma jovem mulher, mas os


olhos de alguém que já viveu por décadas.

Meus olhos descem para sua boca, lembrando-me da


sensação de seus beijos, e outra onda de calor cobre meu peito
apenas sob a minha pele. Viro, correndo a mão pelo meu cabelo
molhado.

Não foi um acaso. Eu a desejo.


Amo o cheiro dela pela casa, o jeito como ela se senta ao
meu lado, seja aqui ou no cinema naquela primeira noite, de
modo fácil e confortável como se fôssemos duas ervilhas em uma
fodida vagem, e como estou animado para acordar todos os dias,
sabendo que vou encontrá-la.

“Jesus Cristo”, digo baixinho.

Estou me apaixonando pela primeira vez em vinte anos.

“O quê?”, eu a ouço perguntar.

Levanto a minha cabeça, virando para ela. Eu disse isso em


voz alta?

“Nada”, respondo.

Ela me espia enquanto esvazia a última arma, e tiro o


macarrão da piscina e o jogo no deck para escapar de seu olhar.

Quero mais do que aconteceu ontem à noite, e não sei o


que farei.

Um telefone começa a tocar na mesa de piquenique de novo


e olho para ela.

“Seu está telefone tocando novamente.”

Ela assente, uma leve careta cruzando seu rosto. “Sim, eu


sei quem é.”

Minhas sobrancelhas sobem um pouco. Quem ela está


tentando evitar?

O telefone tocou várias vezes desde que estou em casa, e


pelo que sei, ela não o atendeu.

Jordan olha para mim, vendo-me meu olhar interrogativo,


sem dúvida.
Ela apenas ri para si mesma, explicando: “Caras da cidade
pensam que sou fácil de pegar agora que Cole e eu terminamos.”
Ela passa os dedos pelo cabelo, afofando os fios molhados. “Eles
estão usando a tática de tentar me confortar.”

Ela diz a última parte fazendo aspas no ar, e minha


armadura endurece instantaneamente. Confortá-la?

Mas me forço a recuar. Na verdade, é exatamente isso que


preciso para colocar as coisas na perspectiva correta. Ela deveria
sair com seus amigos.

“Bem, talvez você devesse dar uma chance”, argumento,


forçando as palavras. “Quero que você e Cole se reconciliem e
sejam amigos de novo, mas você deveria sair e se divertir um
pouco.”

As palavras têm gosto de merda na minha boca, mas me


sinto bem ao saber que fiz a coisa certa. Ela vai namorar com
alguém. Eu poderia começar a ver alguém. Nós dois vamos ficar
distraídos e investiremos em novas pessoas.

“Eu vou”, ela responde, cortando minha linha de


pensamento. “Carter Hewitt me convidou para ir descer o rio de
boia neste fim de semana e eu disse que iria.”

Meu rosto despenca. Não conheço Carter Hewitt, mas...

“Andar de boia?”, pergunto, tentando manter a calma.

Eu me aproximo dela na borda da piscina. “Hum... não”,


digo a ela, balançando a cabeça. “Não.”

“Hein?”, suas sobrancelhas se franzem em confusão.

“Seis horas em um rio, à deriva, com mais nada para fazer,


além de beber até cair?”, deixo escapar. “No momento em que
você voltar para a caminhonete dele, você vai estar acabada e
então será uma presa fácil”, deixo escapar um riso amargo.
“Absolutamente não.”

Seus olhos se arregalam, e sua mandíbula aperta com


raiva.

Ah, merda.

“Você é tão...”, ela sussurra-grita, para que as crianças não


ouçam. “Antiquado!”, ela faz uma carranca para mim, seus lábios
apertados. “Esta coisa alfa, possessiva, mantenha-sua-filha-
trancada-com-uma-arma é um insulto! Eu não sou idiota, e
você...”, ela descobre seus dentes. “Não é meu pai.”

Arqueio uma sobrancelha conforme ela tira as pernas da


água e se levanta, bufando. Caio para trás, flutuando na água.
Sim, acredite em mim, eu sei disso. Os pensamentos que tenho
sobre você não são nem um pouco paternais.

“Envolva a pizza em papel alumínio antes de colocá-la na


geladeira”, ela me ordena. “Não apenas a coloque em um prato.”

Eu tranco meu queixo para esconder a diversão em suas


ordens. Como se eu não tivesse embrulhado sobras antes em
minha vida adulta.

Agarrando as bolsas das crianças e toalhas, ela pega a mão


de Ava e leva Jensen para o portão de trás. “Estou indo levá-los
para casa e vou colocá-los na cama”, ela me diz e então se vira
para eles. “O que vocês dizem ao Sr. Lawson?”

“Obrigado!”, as crianças articulam em suas vozes


arrastadas com boca cheia de comida.

Saio da piscina e pego uma toalha, secando meu cabelo.

“O Sr. Cramer disse que estaria em casa por volta das


onze”, Jordan informa. “Mas sei que a equipe geralmente vai
tomar umas cervejas no pub depois do jogo, então eu posso me
atrasar. Tenho minha chave se você quiser trancar tudo.”

“Estarei acordado”, respondo baixinho. Eu confiaria em um


viciado para segurar minha carteira mais do que poderia confiar
em Kyle Cramer.

Ouço a porta de madeira ser aberta e as crianças


atravessarem.

Então ouço sua voz. “Oh, e você é um idiota”, ela diz.

Espio para ela. “Você vai me agradecer quando não for


estuprada num encontro.”

Ela faz uma careta e fecha o portão, batendo com força.

Olho atrás dela, rindo baixinho. Ela é adorável pra caralho.

E então o sorrisinho despenca, percebendo que estou quase


frívolo. Eu não sou um cara sorridente, e já ultrapassei muito a
minha quota de sorrisos desde que ela entrou nesta casa.

Termino de limpar o quintal enquanto o céu lentamente


escurece, e me certifico de embrulhar a pizza com papel alumínio,
como instruído. A piscina está limpa, os brinquedos e boias
guardados e mesa de piquenique está limpa. Tirando as toalhas
úmidas do deck, arrasto-me para dentro da casa e tranco a porta
dos fundos, desligo a luz da piscina, também.

Jogando as toalhas na máquina de lavar, deixo a tampa


aberta, para que eu possa colocar mais coisas ali depois do meu
banho.

Enquanto vou para as escadas, porém, a campainha toca.

Atravessando a sala de estar, abro a porta da frente e vejo


um jovem através da tela. Minha guarda se eleva um pouco, mas
a abro, forçando-o a recuar.
“Ei”, ele diz.

Eu aceno, absorvendo o aspirante a menino de fraternidade


que me parece vagamente familiar, embora eu não consiga me
lembrar de onde o conheço.

“Lembra de mim?”, ele diz, estendendo a mão. “Eu sou Jay


McCabe. Amigo de Cole.”

Aperto a mão dele, estudando-o. Jay...

“Jordan está?”, ele pergunta. “Disseram-me que ela ainda


está hospedada aqui.”

Jordan? O que ele quer com...

E então eu compreendo.

“Jay”, digo, conforme minha espinha se endireita e


endurece. “O ex-namorado dela?”

O canto da boca dele se inclina em um sorriso e uma luz


atinge seus olhos. “Sim, nós saímos antes.”

Mas eu não estou nem mais ouvindo. Corro os dedos sobre


o polegar, coçando para fechar minhas mãos em punhos,
conforme meu peito começa a subir e descer com a respiração
pesada.

Saio da casa e ando direto para ele, que é apenas uns dois
centímetros mais alto que eu, mas tenho certeza que ele sabe
disso.

Seu sorriso se esvai quando eu não paro, e ele tropeça para


trás para tentar evitar que eu ande por cima dele.

“Ei”, ele protesta.

Mas, eu continuo indo. Ando até que ele é forçado para


trás, descendo as escadas e para a porra da grama.
Alarme toma conta dos seus olhos. “Jesus, que diabos?”

Avanço até ele e cruzo meus braços sobre o peito. “Eu


normalmente não banco o machão para cima de um garoto como
você, mas quero deixar uma coisa bem clara”, disparo. “Você pode
ter o seu próprio pequeno bando de seguidores que são
apaixonados por você ou que tem medo de você, mas eu...”, faço
uma pausa para o efeito. “Eu não tenho medo. Sei quem você é e
o que quer fazer. Mantenha distancia de Jordan, e eu realmente
apreciaria se você saísse de perto do meu filho também, porra.”
Começo a andar na direção dele de novo, forçando-o para fora do
meu gramado. “Não pise na minha propriedade outra vez, ou
acabarei colocando você dentro de um buraco sob algum cimento
molhado, servindo de fundação para a próxima casa que eu
construir, para que você nunca mais seja visto novamente. Agora,
vá embora.”

E gesticulo com o queixo para ele sair.

“O q...”

“Eu gaguejei?”, interrompo-o.

Ele está respirando com dificuldade, seu pomo de Adão


subindo e descendo, e ele procura por suas chaves no bolso, eu
assumo.

“Jesus”, ele diz e sobe em seu carro.

Mas tudo que posso ver é vermelho. Quero acabar com ele.
Como meu filho pode chamar esse cara de amigo?

Ele procurou por isso quando colocou suas mãos nela. Ele
nunca vai sequer colocar seus malditos olhos sobre Jordan
novamente se eu puder evitar.

Observo conforme ele acelera para longe da calçada e pela


rua abaixo, dando o fora o mais rápido que pode. Em um
momento, qualquer medo que ele poderia estar sentindo vai se
transformar em raiva, e ele vai tentar se convencer que eu não
sou capaz de cumprir minha ameaça.

E parte de mim espera que ele tente sua sorte novamente


apenas para me dar uma desculpa.

Olho para a casa de Cramer, vendo todas as luzes acesas,


mas nenhum movimento nas cortinas, por isso espero que ela
não o tenha visto aqui.

Caminhando de volta para dentro, tranco a porta, mas


então penso melhor e destranco novamente. Sabe, apenas no
caso dela estar lá fora e precisar entrar na casa rapidamente ou
algo assim.

Reviro meus olhos. Jesus.

Subindo as escadas, viro para o banheiro principal e abro a


porta do chuveiro, ligando a água. Rapidamente o ambiente se
enche com vapor, e eu tiro meu short e entro, fechando a porta.

A água quente atinge minha pele como mil agulhas, mas


rapidamente isso é substituído pelo calor que é tão bom que
quase me deixa tonto.

Plantando minhas mãos na parede, mergulho minha


cabeça sob o jato, deixando a cascata de água descer sobre a
parte de trás da minha cabeça, meu pescoço e minhas costas.

Que desastre.

Não posso chegar ao meu filho, e quando consigo, ele não


quer falar comigo. E certamente não ajuda em nada o fato de eu
estar babando sobre sua mais recente namorada de um jeito que
nunca fiquei por qualquer outra mulher em minha vida.

E pior ainda, agora que ela está solteira, terei cada pequeno
idiota na cidade farejando minha porta da frente, morrendo de
vontade de colocar suas mãos nela.
Sei que não posso ficar com ela, mas isso ainda não vai
parar. O desejo.

Fecho meus olhos, esvaziando os pulmões e sentindo-a em


todos os lugares. “Jordan”, sussurro.

Meu pau incha imediatamente, e sinto quando ele fica duro


apenas com o som de seu nome. Ela me beijou de volta ontem à
noite. Ela está atraída por mim, também. Ela fantasia sobre mim?

Endureço ainda mais com o pensamento dela na cama,


pensando em mim. Desejando-me.

Pego meu pau, porque está doendo muito, mas acabo


acariciando-o acidentalmente e gemo porque a sensação é boa
demais.

Ela enche minha cabeça, e juro que posso sentir seu


cheiro. Ela está tão perto.

Eu me acaricio, cedendo a fantasia.

Estou na cama e o quarto está escuro como breu. Uma


batida soa na minha porta, e me mexo, sentando.

“Sim?”, digo, dobrando uma perna sobre o joelho e


descansando um braço sobre ela.

Jordan abre a porta, e só posso saber que é ela pelo


vislumbre de seu cabelo dourado.

“O que há de errado?”, pergunto suavemente.

Estou nu debaixo do lençol, mas ela não pode ver nada.

“Tempestade”, ela diz, demorando-se parada na porta.


“Posso dormir com você?”

Relâmpagos iluminam através das janelas, clareando seu


corpo e vislumbro suas pernas nuas e seu rosto doce. A água
continua derramando em cima de mim, e meu pau fica mais
comprido em minha mão. A realidade escapa conforme mergulho,
perseguindo a única coisa que serei capaz de ter com ela.

O que quer que seja, será apenas nos meus sonhos.

“Venha até aqui”, digo baixinho.

Jordan corre para o lado da cama, e tiro as cobertas para


ela.

Deslizando, ela se aconchega perto de mim e coloco meu


braço em volta dela, sentindo sua perna descansar sobre a
minha. Minhas mãos vagueiam, e tudo que sinto é sua barriga
nua e coxas. Ela mal está vestindo alguma coisa.

“Jordan...”, ofego.

Deus, sua pele é tão suave e é tão gostoso tocá-la.

“Estou com frio”, ela diz, sua respiração acariciando meu


queixo. “Está tudo bem?”

Minha coxa fica entre suas pernas e posso sentir o calor do


corpo dela. Eu a puxo mais perto. “Venha aqui.”

Esfrego suas coxas e quadris, até chegar às costas e


mantenho seu nariz enterrado em meu pescoço. Cada centímetro
dela é como uma corrente elétrica ligada diretamente no meu
pau.

Acaricio-me mais lentamente, mas o seguro mais apertado,


enquanto a imagino.

“Está melhor agora?”, pergunto a ela.

Ela assente, seus lábios a centímetros dos meus.

“Sua boca é ainda mais quente, embora”, ela me diz,


sentindo minha respiração sobre ela. “É a parte mais quente de
você.”
Luto para esconder meu sorriso. Quem sou eu para não
dar a minha menina o que ela precisa?

Virando-a de costas, continuo correndo minhas mãos pelo


seu corpo, mas começo a pairar minha boca sobre sua pele
também. Expirando sopros quentes em todo seu pescoço e
através de sua camiseta preta, seus seios e mamilos duros me
chamando através do tecido, mas resisto. Trilho descendo em seu
estômago, correndo os lábios sobre o umbigo e por um momento,
meus dentes se mostram, morrendo de vontade de ter um pedaço
dela em minha boca, mas ela geme e olho para cima, vendo o
contorno de seus seios espreitando para fora sob a parte de baixo
de sua pequena camiseta.

O chuveiro derrama água no meu rosto e flui do meu


queixo e quero que isso seja real. Eu a quero na minha cama.

“Melhor?, pergunto a ela.

Ela assente, os olhos ainda fechados. “Mmm-hmmm”, diz.


“Você pode continuar fazendo isso? Ainda estou com frio.”

Inferno sim. Pego suas coxas conforme rolo sobre minhas


costas, trazendo-a para cima de mim.

“Venha aqui, baby.”

Não posso ter tudo dela, mas vou tomar isso.

Esfrego suas coxas e deslizo minhas mãos mais para o alto


em seu corpo, apenas provocando-a sob a camisa.

Ela usa uma camiseta e calcinha preta e brinco: “Pensei


que você gostasse de rosa.”

Não posso vê-la sorrir, mas ouço isso em sua voz. “Você
quer rosa?”, ela provoca.
E então ela puxa para cima sua camiseta curta, deixando-a
acima dos belos seios. Ela roça seus mamilos, mostrando-me
onde está o rosa.

Levanto-me rapidamente, envolvo meu braço em sua


cintura, e tomo um deles em minha boca, puxando-o e, em
seguida, sugando-o.

Sinto o sangue correndo para meu pau e já estou tão perto.


Abro a boca, como se pudesse realmente sentir sua pele macia
entre meus dentes.

Jesus, quero saber qual é o gosto que ela tem.

“Mais quente?”, pergunto, sabendo perfeitamente bem que


sua pele está pegando fogo agora.

Sinto-a concordar e sei que tenho que parar com isso.


Deixei isso continuar longe demais.

“Jordan, nós temos que parar.”

Mas posso sentir que ela está encharcada.

Ela começa a moer contra mim, rolando aquela sua bunda


conforme suas palavras caem na minha testa. “Está tudo bem”,
ela sussurra. “Ninguém tem que saber.”

Ela começa a se esfregar em mim mais rápido, seus


gemidos cada vez mais altos e mais pesados, e nós estamos
sozinhos aqui, está escuro e ninguém tem de saber.

“Jordan”, suspiro, o mundo ficando de lado, com a porra do


prazer. “Baby, nós não podemos. O que você está fazendo?”

“Eu o estou deixando duro.”

Sim, merda.

Eu me empurro mais forte, calor inundando minha virilha e


fogo se espalhando entre meu estômago e coxas.
Ela arrasta suas unhas pelos meus ombros, e aperto seus
quadris enquanto ela continua rebolando em cima de mim.

“Baby, você tem que parar” imploro. Deus, vou gozar.

“Mas é tão gostoso quando está duro.”

Balanço a cabeça, sussurrando contra seus lábios. “Eu não


sou para você. Algum outro homem será... nós não podemos.”

“Eu não posso parar”, ela choraminga. “Por favor, não me


faça parar.”

Os seios dela estão empinados para mim e seus quadris


rolam dentro e fora, e ela é a coisa mais sexy que já vi.

Porra, sim.

“Ótimo”, finalmente rosno e caio de volta na cama, ainda


segurando seus quadris enquanto a ponta do meu pau esfrega
contra ela. “Dê a sua buceta o que ela quer.”

Ela geme, fecha os olhos, e plantas suas mãos atrás de


meus joelhos e toma o que quer de mim.

Aperto meu pau como se minha vida dependesse disso,


sentindo seus quadris salientes em minhas mãos, e me lanço,
empurrando cada vez mais forte conforme começo a gozar.

“Ah, porra. Porra!”, grito. “Merda!”

Oh, meu Deus. Derrubo minha cabeça na parede do


chuveiro e gozo jorrando e desacelero minha mão, meus
músculos ardendo conforme libero tudo.

Vejo pontos atrás dos meus olhos, mas ainda posso sentir o
cheiro de seu suor, e não quero que isso termine. Eu quero mais.

“Maldição”, murmuro, lambendo meus lábios e forçando-


me engolir. “Merda.”
Eu quero mais.

Não lembro quando foi a última vez que gozei assim, mas
ainda... não foi o suficiente.

Tiro a mão do meu pau e fecho meus dedos em punhos,


exasperado. Isso deveria me ajudar, maldição. Isso deveria tirá-la
do meu sistema.

Sinto meu pau começar a se aquecer de novo, e empurro a


parede, gemendo. Bato com força contra o registro,
transformando a água quente em gelada e enxaguando meu
corpo.

Eu só preciso foder de verdade. Não Jordan. Apenas outra


pessoa. Vou me trancar em um quarto de motel com uma caixa
de preservativos e tirar essa menina da minha cabeça.

Sim. É isso que vou fazer.

Esta semana. Farei isso.

Alcanço a prateleira e coloco a mão no gancho que sempre


uso, tentando pegar o que preciso para terminar de me lavar, mas
não há nada lá.

Está desaparecida há dias, na verdade, e franzo a testa,


olhando ao redor. “Onde diabos foi parar minha bucha?”
CAPÍTULO 17

Jordan

“Você fez o molho para taco, certo?”

Aceno, enquanto verifico meu Instagram no banco do


passageiro. “Sim.”

“E as pimentas jalapeño com bacon?” Pike pergunta.

“Sim,” resmungo. “Você só me perguntou isso dez vezes.”

Ele fica quieto por um momento, dirigindo por um bairro


não muito longe do nosso.

Quer dizer, do seu.

Nosso.

“Eu só gosto disso, é tudo,” ele diz.

Um sorriso preguiçoso curva meus lábios, e sinto uma


ponta de orgulho. Amo que ele não é apenas agradável sobre as
coisas. Na verdade, ele realmente gosta que eu ajude. Quer se
trate de uma refeição, um lanche no balcão para ele depois do
trabalho ou o caminho de pedras que fiz no quintal ontem, ele
ama tudo.

Tive a ideia depois de ver a lama e perceber como a


mangueira piorou a bagunça, então decidi que seria divertido
colocar pedras ao redor, então agora podemos nos molhar e
manter os pés limpos ao mesmo tempo. Ela também drena a água
excepcionalmente bem, e será útil. Quando tivermos outro banho.

Faz uma semana desde aquela noite e seis dias desde a


aula de natação com as crianças de Kyle, e tento transformar o
que aconteceu entre nós em apenas um acidente por eu estar
triste e carente por atenção ou algo assim, mas não impede de
crescer o que comecei a sentir por ele. É paixão. Estamos
sozinhos, e é compreensível formarmos uma ligação.

Espero que a festa no bairro, sair da casa e estar perto de


outras pessoas, retorne as coisas ao normal.

“E não é bacon de peru, certo?” Pike de repente deixa


escapar.

Hã?

“Na pimenta jalapeño?” Ele esclarece, e posso vê-lo olhando


para mim pelo canto dos olhos.

Jesus, ele ainda está pensando sobre a comida?


“E não colocou qualquer coisa estranha como gérmen de
trigo ou usou couve-flor em vez de batatas na salada de batata
como algumas daquelas dietas idiotas Low carb orientam, certo?”
Ele continua.

Caio na gargalhada, deixando minha cabeça cair para trás,


o telefone escorrega do meu colo, e meus olhos se fecham. Meu
Deus.

“Jordan, estou falando sério,” ele me repreende. “Esperei


por isso a semana toda.”

Meu corpo convulsiona quando balanço a cabeça para ele e


sorrio. Ele é tão estranho.

E me divirto que ele esteja desejando coisas que fiz tão


veementemente.

Termino rindo em silêncio e afundo meu nariz no telefone


novamente. “Tudo é gorduroso, salgado e delicioso,” digo a ele.
“Não se preocupe. Deixarei que tenha um dia de lixo. Pode
entupir suas artérias até uma vaca voar.”

Sinto-o assentir. “Bom.” Há uma breve pausa e depois ele


fala de novo. “Se se sentir desconfortável, porém, me avise. Posso
te levar para casa.”

“Ficarei bem,” respondo. “Falo com pessoas o tempo todo


no trabalho. Sei como fazer isso.”

Dutch e sua esposa convidaram Pike, Cole, e eu, mas Cole


disse que tinha que fazer um turno extra hoje e não poderá ir.
Mas enquanto percorro meu feed de notícias, vejo algo da
Patrick’s Last Ditch, a loja de conveniência super fora da cidade, e
reconheço o carro de Cole na bomba. É um post seu.

Totalmente fora da cidade pelo diaaaaa! Whoooppp!

Trabalhando, minha bunda. Mas parece


extraordinariamente egoísta. Fazer uma viagem em seu dia de
folga. Surpreendentemente, não procuro Elena ou quaisquer
outras meninas que possam estar com ele, mas sinto uma
pontada de ressentimento que Cole está apenas continuando
como se eu nunca tivesse existido. Quer dizer, não é como se eu
fosse atender ao telefone de qualquer maneira, mas seria bom
saber que ele tentou ligar. Saber que ele pelo menos se importou
sobre o que estou fazendo. Acho que namorarmos arruinou
qualquer que seja a amizade que tínhamos, também.

Não sei por que me importo. Meu pai, minha mãe, meus ex-
namorados... há algo a ser dito sobre manter seu círculo
pequeno, acho. Tenho Cam e Shel.

Viro para Owens e vejo imediatamente a rua em frente


bloqueada com algumas barreiras. Pike desvia para a direita e
segue ao longo do meio-fio. É apenas pouco depois das duas da
tarde, e embora a festa tenha começado horas atrás, a mulher de
Dutch disse que iria até a noite, assim as crianças podem se
divertir com os fogos.

Saímos e lentamente empilhamos a comida nos braços,


Pike pega as preciosas bandejas de pimentas e tacos, enquanto
rolo o pequeno cooler com bebidas e a salada de batata apoiada
em cima dele.
“Ei, cara,” Dutch diz, indo para Pike com uma cerveja na
mão, que está dentro de um suporte que se lê FAÇO XIXI NAS
PISCINAS.

“Hey, Pike!” Algumas pessoas chamam de dentro das


barreiras.

Pike acena para quem quer que seja, e paro ao lado deles,
Dutch dá-me um sorriso. Deus sabe que conclusões ele está
tirando a respeito de porque estou aqui com Pike. Por que sempre
estou com Pike. Não tenho certeza se ele sabe que Cole e eu
terminamos.

Uma mulher bonita de cabelo castanho escuro surge e


toma as bandejas de Pike, inclinando-se para beijá-lo na
bochecha.

“Como você está?” Ela pergunta, sorrindo para ele.

Ele se abaixa e pega a salada de batata. “Bem. E você?”

“Oh, estamos fazendo isso agora,” ela brinca, abrindo


caminho para a festa. “Embora, desta vez,” ela aponta para
Dutch. “Ele quis uma cerveja a cada vez que foi obrigado a mover
uma mesa de piquenique, esta manhã.”

Pike ri, e assumo que essa seja a esposa de Dutch.

“Esta é Jordan,” Pike me apresenta. “Uma... amiga de Cole.


Ele não conseguiu vir.”
Sorrio com sua gagueira. Acho que é uma explicação
melhor do que ‘Esta é a ex-namorada de Cole que ainda mora
comigo, constantemente discutimos, e realmente odeio a música
dela, mas veja... molho de taco!’

“Sou Teresa,” ela diz, olhando por cima do ombro com um


sorriso. Teresa aponta para minhas bandejas. “É creme de
queijo?”

“Oh sim.”

“Uhuu,” ela cantarola, levando-nos para as mesas de


alimentos.

Tudo está montado como um Buffet, três longas mesas


alinhadas juntas e cheias de comida. Existem vários
refrigeradores no final, e o cheiro de hambúrguer assado atinge
minhas narinas, e minha boca saliva. Grupos de pessoas sentam
em cadeiras em seus quintais ou na rua bloqueada, e crianças
correm por todo o lugar, brincando ou escorregando em alguns
dos gramados. Alguns adolescentes, não muito mais jovem do
que eu, sentam ao redor, jogando em seus telefones, enquanto os
adultos riem e conversam, ocasionalmente parando para brigar
com um dos seus filhos. Pode não ser tecnicamente verão ainda,
mas o sol está alto e só diminui pela cobertura de nuvens
esporádicas. É um lindo dia.

“Vamos,” Dutch diz, cutucando Pike.

Pike me olha, provavelmente para se certificar de que estou


bem, e, finalmente, coloca a salada para baixo antes de se
afastar. Ele anda, apertando as mãos de alguns amigos e girando
a tampa da cerveja que alguém lhe entrega.
Fico ao lado de Teresa enquanto ela coloca tudo na mesa.
“Há quanto tempo você e Dutch estão casados?” Pergunto.

Teresa suspira. “Quatorze anos.” Ela me encara. “E três


filhos mais tarde, ainda quero matá-lo todos os dias, mas ele faz
um espaguete tão bom que...”

Sorrio. Tenho certeza que ela está apenas tentando ser


engraçada, porque duvido que eles briguem. Ela é linda,
enquanto ele usa camisa de flanela e botas.

“Isso parece tão bom,” Teresa diz, removendo o plástico que


cobre a tigela. “Obrigada por trazer tanto. Não vai durar muito.”

Só então, um braço vem entre nós, uma mão pega quatro


bolinhos de pimentas e os rouba. Reconheço a tatuagem no braço
direito de longe.

“Ei,” brigo com Pike, mas não consigo afastar o sorriso.

Ele me olha com seus olhos semi cerrados que acho


completamente sexy. “Desculpe,” ele sussurra e recua, voltando
para seus amigos. Pike me olha, sorrindo, e levanto uma
sobrancelha o questionando. Deveria saber que ele teria medo
que comessem tudo antes dele ter a chance.

“Ouvi que você e Cole estão ficando com Pike por um


tempo,” diz Teresa.

“Sim.” Levo nosso cooler até os outros e pego uma garrafa


de água. “Parece que pagar nosso próprio apartamento é adulto
demais para nós,” brinco.
Ela acena com conhecimento de causa. “Não tenha pressa.
Quis demais ficar longe de meus pais, e então quando descobri
que não tinha dinheiro, porque as contas foram uma
responsabilidade maior do que esperava, eu voltei para casa.” Ela
pega seu copo e o leva aos lábios, olhando os caras. “Estou feliz
que Pike tenha companhia, no entanto. Aquela casa é grande
demais para uma pessoa.”

Tomo um gole da minha água, seguindo seu olhar. Odeio


pensar em Pike morando sozinho naquela casa depois que eu
sair. Ele realmente deve dividir sua vida com alguém.

“Sei de algumas mulheres solteiras que não se importarão


em se mudar se tiverem a chance,” comento, pensando em April,
minha irmã, e metade das mães em nosso quarteirão flertam com
ele quando passam em sua casa após suas corridas.

“Sim, mas ele é um solitário,” ela responde.

Aceno, sorrindo de acordo. “Sim, estou começando a


entender isso.”

“Ele não foi sempre assim.” Ela olha para mim, tomando
um gole de sua bebida. “Ele era muito parecido com Cole.
Festejava, sorria, quebrava as regras... até mesmo passou uma
noite na cadeia uma vez.”

Minhas sobrancelhas sobem. “Sério?”

Viro meus olhos para ele, vendo-o de costas puxando o


boné de beisebol do bolso de trás e colocando-o sobre seu cabelo
castanho claro, os músculos do braço tatuado tensionando contra
a camisa.
“Mas então Cole nasceu,” digo, adivinhando a história.

“Sim,” Teresa suspira, balançando com a música vindo de


alguns alto-falantes em uma das casas. “Alguém tinha que ser o
adulto, e Lindsay...” ela para e, em seguida, se endireita,
limpando a garganta. “Sinto muito. Não quero fazer fofoca.”

“Está tudo bem,” digo a ela. “Ele certamente não perdeu


muita coisa.”

Vi a mãe de Cole aqui e ali, e é difícil imaginá-la com Pike.


Ela é bastante ostensiva, e sei que Pike se enforcaria tentando
continuar com ela.

Pelo menos, sei por Cole que não durou muito entre seus
pais, e se ele não tivesse alguns dos mesmos trejeitos que seu pai,
me perguntaria se Pike tem certeza que Cole é seu filho. Ela teve
pelo menos quatro namorados que eu tenha visto nos últimos
dois anos.

Teresa solta um suspiro e abaixa a voz. “Pike é prova de


que aprendemos quando somos forçados e a maturidade é mais
resultado da experiência do que da idade,” ela me diz. “Ele tinha
apenas vinte anos, trabalhava em dois empregos, sem pensar
duas vezes em todos os amigos que perdia por nunca poder sair.”

Olho-a, de repente, querendo saber tudo. Quero qualquer


visão sobre quem ele era antes de eu o conhecer.

“Todos os seus amigos compravam carros sexys,” ela


continua, “Mas ele dirigia a velha caminhonete de seu pai desde
que nos conhecemos. Isso nunca foi um sacrifício para ele, e
nunca teve qualquer dúvida sobre como cuidar de Cole. É preciso
convicção para fazer o que sabe ser certo, independentemente do
que se quer.”

Suas palavras me atingem, e deixo meu olhar cair. Convicção


para fazer o que sabe ser certo, independentemente do que se
quer...

E de repente me sinto uma merda.

Ele me quis na outra noite. E se não fosse por Cole, não


tenho nenhuma dúvida que teríamos dormido juntos.

Mas Cole está lá, entre nós, e não podemos mudar isso.
Nunca. É errado, e não importa quanto o desejo, ele só vai odiar a
si mesmo depois. Seu filho será sempre mais importante do que
qualquer outra coisa.

“Ele é um bom homem,” ela diz.

Em seguida, vira para colocar uma colher de servir na


salada e pegar o molho de taco, e fico ali, sentindo como se um
caminhão viesse em minha direção e eu não pudesse me mover.

Ele é um bom homem.

Não posso estragar isso.

De repente sinto que preciso sair daqui. Pike não é minha


família, e tão natural como é estar onde ele está, é temporário.

Durante o próximo par de horas, mantenho distância de


Pike. Teresa me mostra sua casa, sento com ela e com outras
pessoas, comendo e conversando, apesar de não falar muito, e
um dos filhos de Dutch me chama para brincar de queimada na
garagem de alguém. Ajudo as crianças a montar os fogos, embora
ainda não esteja escuro, e ajudo Teresa a levar latas vazias para o
lixo e recolher latas de refrigerante e garrafas de água.

Não tenho certeza se Pike está próximo, porque não olho


para verificar seu paradeiro, mas de vez em quando, sinto a parte
de trás do meu pescoço esquentar ou um formigamento se
espalhar pela minha espinha.

“Oh, ei, Jordan,” alguém diz, pulando sobre as minhas


pernas. “Não te vi por aqui.”

Ele ri, e levanto o olhar de onde estou deitada na grama


para ver Carter Hewitt sorrindo por cima do ombro para mim.
Outro cara e uma menina estão perto dele, mas não lembro seus
nomes, embora tenhamos nos formado juntos.

Carter e eu íamos descer a corredeira hoje, mas ele


cancelou devido a esta festa que seus pediram para ele participar.
Felizmente, também, porque tive um momento difícil me forçando
a não cancelar. Não quis deixar Pike ganhar a discussão, mas ele
tinha razão. A corredeira é uma desculpa para ficar bêbada, e não
estou de bom humor.

Sento-me e poeira e grama caem dos meus braços que eu


usei como travesseiro para ver as estrelas começando a surgir.
“Ei, o que estão fazendo?” Pergunto.

“Qualquer coisa, menos isso.” Ele suspira. “Há muita gente


no A & W. Quer vir? Vou comprar-lhe uma boia.”
Sorrio e me levanto. Isso realmente parece muito bom.

“Não estive lá faz um tempo,” comento. “Então, por que


não? Deixe-me apenas avisar minha carona.”

Ele e seus amigos vão para seus carros na rua, e eu corro


até as cadeiras cheias de caras no centro da rua. Pike está de
costas para mim, enquanto Dutch fica ao lado dele com sua
esposa no colo, e outros ao redor, reconheço alguns dos jogos de
pôquer de Pike.

“Ei,” digo, parando ao lado de Pike. “Alguns amigos vão ao


A & W. Root beer floats 7 e essa merda. Eles me convidaram para
ir.”

Não estou pedindo permissão, mas meio que parece isso.

Ele não me olha, apenas levanta sua garrafa de cerveja e


toma um gole. “Root beer floats?” Ele repete com firmeza. “Você
tem... cinco anos?”

Droga.

“Nãoooo,” digo, “mas isso é como você gosta de me tratar,


às vezes.”

Dutch ri silenciosamente ao lado, mas vem em minha


defesa, “Ei, eu ainda amo carros alegóricos, cara.”

Reviro os olhos para Pike e olho Teresa que sorri. “Muito


obrigada por me receber,” digo a ela. “Tudo foi muito bom.”
7
Root beer floats ou Vaca preta — é uma bebida de refrigerante caseiro fermentado e sorvete de baunilha.
“Obrigada por ter vindo, querida. E pela comida.”

“Como você vai para casa?” Pike questiona, ainda evitando


meus olhos.

“Eu vou levá-la.”

Olho para ver Carter vindo para nosso lado, e Pike vira a
cabeça apenas um pouco para vê-lo antes de se afastar
novamente.

Sinto o canto da minha boca formar um pequeno sorriso e


me inclino, falando a centímetros de sua orelha. “Tenho um toque
de recolher?”

Dutch bufa, e ouço um pequeno gemido na boca de Pike


antes que desapareça.

“Divirta-se,” ele diz com firmeza.

Levanto e viro, seguindo Carter para sua caminhonete e


com o meu humor se iluminando.

Pike é ciumento.

E embora não queira pensar sobre ele, realmente gosto de


saber que ele está tentando não pensar sobre mim.

Quanto de seu desejo ele está escondendo ou tentando


suprimir? O que fará quando não conseguir se controlar mais?
“Oh, meu Deus, ouviu sobre Jillian?” Selena Gardner
gesticula para outra menina, enquanto mastiga a ponta do seu
canudo. “Ela disse a Dean e Matt que um deles é o pai, eles foram
fazer os testes, e nenhum deles é o pai!” Ela ri.

“Oh, meu Deus!” Os olhos da outra menina se arregalam.


“Merda, ela sequer sabe quem é?”

“Quem se importa?” Selena franze a testa, inclinando-se no


carro novamente. “Eu ficaria mais preocupada em pegar algo
diferente de um bebê. Não saio de casa sem preservativos mais.
Nunca se sabe quando vamos precisar deles. Tipo realmente...”

Todos riem, e finjo um meio sorriso num esforço para não


ser desagradável, mas tenho certeza que sou, desde que quase
não disse duas palavras nos últimos dez minutos.

Chegamos ao A & W uma hora atrás, e como esperado, o


lugar está cheio de adolescentes e famílias cheias de crianças. O
luar e os grilos competem com todos os faróis e aparelhos de som
dos carros, e o cheiro de hambúrgueres e asfalto quente enche o
ar enquanto motores soam e as portas dos carros batem.

Não há uma única pessoa aqui que eu tenha visto mais de


duas vezes desde que me formei há um ano.

“Eu amei,” alguém diz para Selena, inclinando-se e


mexendo na pequena bolsa Louis Vuitton. “Onde conseguiu isso?”
“Não é linda?” Selena levanta à alça sobre a cabeça,
mostrando a bolsa. “Sinto-me um pouco mal. Devo a meu pai
tanto dinheiro, mas tinha que tê-la.”

Deixo cair meus olhos para a bolsa, metade com inveja e


metade incomodada. Claro, eu adoraria ter uma bolsa como essa,
e adoraria ter seus problemas onde ela pode simplesmente
recorrer à família, porque é isso que a família faz quando se tem
dezenove anos.

Parte de mim deseja poder ser assim.

Mas mesmo depois de terminar a escola, estou tão presa


com empréstimos estudantis que frivolidades, como bolsas de
grife, ainda são um tiro no escuro. E por incrível que pareça,
estou bem com isso. Prefiro ter um carro decente. Uma casa. A
capacidade de pagar minhas contas no prazo.

Selena e eu estamos vivendo problemas completamente


diferentes, e temos ainda menos em comum do que na escola.
Tenho certeza que o sentimento é mútuo.

Sem inventar desculpa para escapar, só me viro e vou para


o lado do edifício, enquanto pego meu celular.

“Ei, Jordan. Você está bem?” Ouço Carter me chamar.

Viro a cabeça, vendo-o com outros caras, e aceno.

Uma vez que chego em um lugar um pouco mais quieto,


ligo para Cam e seguro o telefone no ouvido, jogando o copo vazio
na lata de lixo.
“Ei,” ela atende, sabendo que sou eu.

“Ei,” digo, sua voz instantaneamente me acalma. “Está


trabalhando? Pode vir e me pegar?”

“Estou trabalhando,” ela diz, “Mas posso sair por meia


hora. Onde você está? Está tudo bem?”

Noto música de fundo e percebo que ela está no trabalho.

“Sim, está tudo bem.” Coloco meu cabelo atrás da orelha.


“Estou no A & W. Só quero ir para casa.”

Casa.

Faço uma pausa cada vez que digo isso, sabendo muito
bem que não é realmente minha casa, mas parece estranho dizer,
‘a casa de Pike’ ou ‘a casa do pai de Cole’.

Depois que desligo, vou ao banheiro e depois aviso Carter


que tenho uma carona para ir para casa. Há uma momentânea
decepção, mas tenho certeza que é porque ele perdeu sua jogada
da noite. Embora, não sei como ele pensou que eu seria isso de
qualquer forma, especialmente depois de ignorar-me para falar de
carros e, em seguida, ficar feliz demais por me deixar
‘recuperando o tempo perdido’ com um grupo de meninas que
nunca fiz questão de me aproximar antes, mesmo na escola.

Não é que tenha realmente algo errado com Carter, Selena


ou qualquer pessoa aqui. Mas quando eles falam, pode-se dizer
que eles têm coisas agradáveis, como dinheiro em seus bolsos. E
suas mães. Eles têm a leveza na voz, onde fica claro que não
foram expulsos de um apartamento antes ou estão tentando
decidir se devem trocar seus smartphones por um descartável por
ser mais barato.

Sou diferente deles, e sempre fui. Estar aqui esta noite só


traz esses sentimentos de volta, os sentimentos que eu odiava ter
na escola, e quando estou perto de Pike...

Franzo a testa, pensando.

Quando estou perto dele, estou no meu elemento, eu acho.

E mais do que qualquer coisa agora, só quero ir para casa.


Ou onde quer que ele esteja.

Cam chega em menos de quinze minutos, e entro no carro,


não protestando quando ela acelera pela cidade na direção do
bairro de Pike. Seu chefe é tranquilo, mas quanto mais tempo ela
está longe, mais dinheiro ela perde, por isso a deixo correr.

“Obrigada,” digo. “Desculpe por te tirar do trabalho.”

Ela usa um casaco preto, amarrado na cintura, e tenho


certeza que não está vestida com muito por baixo, apenas colocou
algo para poder atravessar o estacionamento sem ser molestada.

“Tem certeza que está bem?” Ela pergunta novamente.

Agarro a porta com uma mão quando ela faz uma curva
acentuada à direita. “Sim.”
“Tudo está bem com o pai?” Ela me olha. “Sabe que pode
vir para minha casa a qualquer momento. É bem-vinda para
ficar.”

“Eu sei.”

Nada está errado. Na verdade, agora percebo que tudo está


certo, e não é no A & W. Sei o que quero, e sei por que não pode
ser com Pike. Só preciso encontrar alguém exatamente como ele.

Aperto a Root beer floats que comprei para ele como uma
mordaça enquanto minha irmã percorre as ruas e, finalmente,
para na frente da casa de Pike.

Gemo, e o meu estômago ainda dá cambalhotas.


“Obrigada.”

Saio do carro, pego minha carteira e fecho a porta.

“Que carro é esse? Não é de April Lester?” Cam diz através


da janela aberta.

Viro a cabeça, vendo um Mazda Miata conversível vermelho


estacionado atrás da caminhonete de Pike, e meu estômago
despenca.

Que porra é essa? Já é tarde.

Viro meus olhos para a casa e vejo que está escura, sem
luzes em qualquer lugar. O que eles estão fazendo lá sem as luzes
acesas?
Um nó surge na minha garganta, e sinto que vou vomitar.

“Ela provavelmente está vendendo biscoitos,” brinca Cam.

Mas estou com raiva. “Não é época de cookies.”

“Oh, querida, para alguns de nós, é sempre época de


cookies.”

Viro para minha irmã, que faz um V com os dedos na frente


de sua boca e coloca a língua entre eles.

Fecho a porta, resmungando, “Foda-se.”

Mas ela apenas ri, colocando seu carro em marcha.


“Boooaa Sorrrteeee.”

Leva duas tentativas para eu conseguir engolir enquanto


olho para a casa. O que ela está fazendo aqui? O que ele está
fazendo lá?

Sim, é sua casa, e é do meu conhecimento que ele não ficou


com ninguém desde que cheguei aqui semanas atrás. Ele é jovem,
solteiro, tem todo o direito de trazer mulheres para casa.

Mas isso não impede meu coração de bater a mil por hora
ou meu estômago de revirar. Estou aqui. Ele não poderia ir para a
casa dela em vez disso? Ou para um motel?

Subo os degraus da varanda da frente, meu coração


pulsando nos ouvidos, e giro a maçaneta, mas está trancada. Pike
quase sempre deixa a porta aberta para mim. Mesmo se estou no
trabalho até às duas da manhã.

Tento manter a Root beer floats na minha mão esquerda


quando procuro no meu short pela chave. Pegando-a, abro a
porta, temor me invadindo. Se os ver fazendo algo, não tenho
certeza que não vou explodir em lágrimas ou começar a gritar.

Por favor, não, Pike. Por favor, não faça isso.

Dou um passo para dentro da casa, suavemente fechando a


porta atrás de mim e trancando-a. Olho ao redor da sala escura, e
meus ouvidos se animam com o silêncio, porque ouvir qualquer
coisa confirmará meus piores medos.

Lentamente, vou para a cozinha, e vejo minha vela de maçã


acesa sobre a mesa, seu brilho suave iluminando a escuridão.
Não a acendi, no entanto.

Cerro os dentes. Ele quis criar um clima ou algo assim?

Olho para fora da janela sobre a pia e para o quintal, vendo


a piscina iluminada, mas ninguém lá fora.

Caminhando de volta para a sala de estar, vou em direção


às escadas, mas então ouço um riso abafado, e paro. Indo para a
porta do porão, gentilmente giro a maçaneta e calmamente abro a
porta, imediatamente ouvindo suas vozes.

“Quero bater na preta,” lamenta April.


“A bola preta é a última,” Pike explica, com a voz mais
profunda e divertida que o habitual. “Se encaçapar agora, você
perde o jogo.”

“O que recebo se eu ganhar?”

“O que você quer?”

Ela ri baixinho, e ouço um ruído. Não posso vê-los já que


estão no canto da mesa de bilhar, mas ela está fazendo alguma
coisa, e aperto a maçaneta com frustração.

E então ouço sua voz baixa. “Acho que quero isso se eu


ganhar,” ele responde a tudo o que April está fazendo, e posso
ouvir o sorriso em sua voz.

“Mmm-hmm,” April geme, e meus olhos arregalam, não


tenho certeza se ela está fazendo algo com ele ou ele faz algo com
ela.

Que diabos? Sério? Há quanto tempo eles estão aqui? Ele


sabia que eu chegaria em casa a qualquer hora.

Sou uma criança se sair chorando. Como farei meus


trabalhos e dormirei, se eles ficarão lá a noite toda?

E isso é o que ele planejou, tenho certeza. Se quisessem


jogar bilhar, poderiam ter ido ao The Cue. Ele a trouxe aqui para
transar.

Volto para a cozinha e pela lavanderia, abro a porta da


máquina, e jogo a Root beer floats no lixo, copo de papel e tudo.
Fecho a tampa novamente e ligo a máquina e, em seguida, abro a
porta da secadora, tiro suas porcarias e bato a porta, também. Se
ele quer me tratar como criança, então aqui vamos nós.

Corro as escadas e entro no meu quarto, ligo meu som


portátil e Bad Medicine soa enquanto tiro minhas roupas e coloco
o short do pijama e uma camiseta.

Agarro a alça do som, desço para a mesa da cozinha e


sento numa cadeira de frente para o mais recente modelo de
paisagismo que estou trabalhando para a escola com a música
ainda soando ao meu lado.

Passam quase dez segundos antes de eu ouvir os passos


pesados de Pike nas escadas do porão, e levanto o queixo, me
preparando.

Ele entra na cozinha e vem até a mesa, e aperta o botão


Stop no meu som. A casa imediatamente fica em silêncio, e eu
levanto a cabeça, fingindo um olhar inocente no rosto.

“Oh, sinto muito,” digo. “Não achei que estava aqui.”

Pike levanta, prendendo-me com um olhar que diz que sou


uma péssima mentirosa.

“Ei, Jordan.” April entra na cozinha atrás dele. “Como


está?”

Dou um sorriso tenso. “Bem.” E volto à atenção para meu


modelo, mexendo na grama sintética.
Pike ainda está me olhando, e há um longo e constrangedor
silêncio com April que provavelmente, tenta descobrir o que está
acontecendo agora.

“Eu vou... embora,” ela finalmente diz.

Pike hesita por um momento, e posso ver seu punho


apertar em torno da cadeira do outro lado da mesa, mas não
encontro seus olhos.

Sei que apenas agi como uma pirralha, e estou um pouco


envergonhada, especialmente desde que não o enganei, mas...

Ele poderia ter ido a outro lugar. Ele a trouxe para cá na


esperança de que eu os visse.

Ele caminha, e não posso ouvir as poucas palavras


abafadas que trocam, mas assim que a porta fecha, e ouço o
bloqueio clicar, eu suspiro.

April se foi.

Ele caminha de volta para a cozinha vai até a geladeira, e


noto que ainda está usando a camisa azul marinho e calças de
brim de mais cedo com suas botas de trabalho. Ele não está nem
um pouco despido, de modo que é um bom sinal.

“Desculpe se isso foi estranho,” ele diz, enquanto pega um


refrigerante. “Realmente acabamos de chegar. Ela parou por
que...”
“A casa é sua. Não me importo,” digo, fingindo
concentração na minha tarefa. “Faça o que quiser.”

“Tem certeza?” Pergunta ele com diversão em seu tom.


“Você bateu a lavadora e a secadora e está ouvindo música às dez
da noite. Você parece... irritada.”

Balanço a cabeça, dando de ombros. “Claro que não. Não


espero que você mude seu estilo de vida só porque estou aqui. Vá
em frente.”

Ele fica em silêncio, e posso vê-lo pelo canto do olho por


um momento. Sinto-me mal por estar relaxada que ele vai para a
cama sozinho. Quero que ele tenha alguém. Alguém para amá-lo
e fazê-lo se sentir bem.

Mas…

Não ela.

E nem qualquer outra pessoa, na verdade.

Estou me apaixonando por ele. Quero que ele tenha a mim.

E Pike é tão teimoso, que teve esta noite só para provar o


quanto não me quer.

“Mas acho que você tem algum gosto horrível, pelo amor de
Deus,” comento, colando mais grama sob a árvore falsa.

“Desculpe?”
Olho para cima. “Sabe que ela terminou o casamento com
Marcus Weathers?” Pergunto. “Ela paira em torno do bar,
esperando para ver quem vai levá-la para casa em qualquer noite,
e não é exigente. Casado, namorando, o que quer...”

“Então ainda bem que não namoro,” ele responde. “Sem


problemas.”

Abaixo meus olhos e coloco mais cola, percebendo que


perdi a rodada.

“Você pode encontrar algo melhor.” Finalmente murmuro.

Não é que odeio a April. Não ligo para o que ela faz depois
do seu divórcio. É preciso dois para dançar um tango, não é, e
Marcus Weathers teve culpa também.

Mas me importo agora que ela está muito perto de casa.


Pike tem dona.

“Qual é a sua?” Ele desafia, caminhando de volta para a


mesa. “Sou um homem crescido que transa desde antes de você
nascer. Estou habituado a fazer isso sempre que quero, e não
respondo a você, ouviu?” Suas palavras doem, e sinto-me
pequena. “Vou continuar fazendo o que quiser, independente das
opiniões de uma criança vivendo sob meu teto.”

A palavra ‘criança’ me atinge como um martelo e meu


coração afunda. Cerro os dentes, convertendo a dor em raiva.

“Entendi.” Olho para ele. “Vou para meu quarto, então.”


Levanto da cadeira, e seus olhos vêm imediatamente para a
minha barriga nua. A camiseta termina acima do meu umbigo, e
deleito-me com a maneira como seu corpo congela e ele tem que
afastar os olhos.

Circulo ao redor da mesa, em direção à sala de estar, mas


lembro da vela. Virando, faço um show ao me inclinar sobre a
mesa oval, arqueando as costas e sentindo meu short subir mais
para expor a faixa vermelha da tanga que usei quando quase
transamos no quintal uma semana atrás.

“Esqueceu-se da vela,” digo, levantando os olhos para ele.


“Mas posso deixá-la queimar, se quiser. Sei que vermelha é sua
cor favorita.”

Vela vermelha ou tanga vermelha? Não leva mais de um


palpite para dizer onde sua atenção está.

Ele engole, seus olhos tímidos na seda vermelha que


espreita. Dou um sorriso, e seus olhos encontram os meus.

“Você está me irritando mais a cada segundo.” Seu tom


estridente soa perigoso. “Arruinou minha noite, e ainda tenho
muita tensão para liberar, então pise com cuidado.”

Fecho os olhos, obedecendo sua ordem, e apagando a vela


antes de me levantar.

“Esta 'criança' é a razão por você ter tanta tensão para


liberar, não é?” Provoco. “Você é um mentiroso.”
Pike endireita os ombros, respirando com dificuldade. “Vá
para seu quarto, Jordan.”

“Com prazer.” Recuo, provocando-o. “Tenho um vibrador lá


em cima com bolas maiores do que as suas.”

Ele corre e me levanta, me joga por cima do ombro, e eu


gemo quando o ar é forçado a sair de mim e seu ombro afunda
em meu estômago.

Que diabos?

Ele vai até as escadas, e sinto que vou cair.

“Pike, pare com isso!” Grito.

“Então pare de me forçar!” Ele resmunga, e dá um tapa na


minha bunda.

Grito, a queimadura se espalha pela minha nádega


esquerda. Filho de uma… Tento girar e cobrir meu traseiro no
caso dele me bater novamente.

Parece que ele chuta para abrir a porta do quarto, e a


próxima coisa que sei é que estou voando de seu ombro e caindo
na minha cama.

Meus cotovelos afundam no colchão, e minha cabeça bate e


volta, meu cabelo cobre meu rosto.

“Agora vá para a cama!” Ele ordena.


Afasto o cabelo dos olhos e vejo-o sair. “Vai me cobrir?”

Observo-o balançar a cabeça e respirar fundo, como se


estivesse quase sem energia. Ele vira, acalmando a voz apenas
um pouco. “Que diabos deu em você hoje à noite?”

Ele está brincando?

Desço da cama e fico na frente dele. “Você a trouxe aqui,


isso é o que me deu.”

“É a minha casa!”

Balanço a cabeça. “Ela não vai satisfazê-lo,” digo. “Ela não


é o que quer.”

“Então, você está com ciúmes?”

Abaixo a voz, aproximando-se dele. “Você tem tudo que


precisa nesta casa. Não há nenhuma razão para procurar em
outro lugar...” balanço a cabeça, de repente, um pouco
envergonhada, “qualquer coisa que precisar.” Digo a ele.

Eu sou tudo que ele precisa.

Seu peito sobe e desce na frente dos meus olhos, e inalo


seu cheiro que é exclusivo e apenas dele. Sol, madeira, o aroma
fraco de seu sabonete e roupas limpas. Ele tem cheiro de uma
noite quente de verão e como gostaria que já tivéssemos tido a
nossa primeira vez, para aproveitar enquanto posso, porque a
qualquer minuto, uma tempestade surgirá.
“Então, você fez uma pequena birra de propósito?” Diz ele,
não realmente perguntando. “Porque queria ser a única na minha
cama esta noite?”

Estreito os olhos. “Porque a convidou para me machucar,


mas sei o seu jogo e você será o único a perder,” retruco.

Fecho a distância entre nós, minha camisa roçando a dele.


Seu queixo cai quando ele me olha, e meu coração acelera no
peito.

“Porque mesmo que ela ficasse e te montasse toda a noite,”


digo, “você ainda acordaria pensando em mim antes mesmo de
lembrar que ela estava na cama ao seu lado,”

Sua respiração fica mais pesada, e posso vê-lo


enfraquecendo.

Continuo. “Vai se perguntar o que estou fazendo na cama


sozinha, se estou acordada e nua, ou,” fico na ponta dos pés e
pairo a boca sobre sua mandíbula enquanto sussurro, “se estou
me tocando e sonhando com você entrando e me fodendo através
da calcinha.”

Ele perde a respiração, fechando os olhos, e posso senti-lo


ficar duro através do jeans. “Jordan, por favor,” ele implora,
soando desesperado. “Porra.”

Tento segurar o sorriso, mas estou tão feliz. Sei que ele me
quer.
Envolvo os dedos na cintura da sua calça jeans, levantando
o queixo para ameaçá-lo. “Sei que me quer,” sussurro novamente.
“Você quer me agarrar.”

Fico ali, em cima dele, mas afasto minhas mãos e deslizo os


dedos no meu quadril em vez disso, suave e lentamente desço
meu short. Eles caem aos meus pés, e fecho os punhos, meu
corpo aceso com medo, desejo e necessidade.

Olhe para mim.

Toque-me.

“Estou morrendo de vontade de te provar,” digo a ele. “E te


sentir. Cada dia está ficando mais e mais difícil ignorar o que
meu corpo quer. Acordo tão molhada, Pike.” Movo minha boca
sobre a dele, roçando nossos lábios. "Quero que me queira. Quero
ver você me desejar e enlouquecer comigo.”

Posso sentir a umidade entre minhas pernas, e sua


respiração quente. Abaixo-me, mas mantenho os olhos nos dele.

“Amo que se preocupa comigo e quer me proteger,” digo.


“Mas uma garota tem necessidades, também, e, eventualmente,
terei que encontrar um homem que possa fazer melhor seu
trabalho.”

Raiva queima por seu olhar congelado, mas ele não pisca.

“Outro homem vai me beijar,” respiro fundo “Vai tirar


minha roupa e me foder em sua cama, em seu chuveiro, ter-me
como café da manhã na sua mesa da cozinha...”
Os lábios de Pike estão quase torcidos num gemido, e ele
respira com dificuldade, dentro e fora, dentro e fora enquanto me
encara.

Aí está. Posso senti-lo. É como se estivéssemos presos


juntos, o calor é quase sufocante, e tudo o que tem a fazer é
puxar-me para seus braços.

Levar-me.

Eu espero.

Sou sua. Apenas venha e me tome.

Mas ele não faz.

Ele só fica lá, e lágrimas ardem em meus olhos enquanto


ele paira imóvel.

Relutante.

Meu coração está quebrando.

Balanço a cabeça. “Não tem ideia do que fazer comigo, não


é?”

Zombo e me afasto, mas, de repente, ele agarra meus


braços e me puxa de volta. Suspiro quando ele coloca as mãos
debaixo dos meus braços e me levanta do chão, deixando-me cara
a cara com ele como se eu tivesse cinco anos de idade.
“Oh, posso estar sem prática, menina,” ele diz num tom
ameaçador, “mas acho que posso descobrir.”

E Pike me toma, beija-me e rouba minha respiração tão


forte que tudo o que posso fazer é envolver as pernas ao redor
dele e me segurar.

Porra, sim.
CAPÍTULO 18

Pike

Deus.

Droga. Não vou parar. Foda-se. Eu não posso.

Ela simplesmente continua forçando e forçando, apertando


todos os meus botões, tudo o que sabe que vai me levar a isto, e
eu a quero. No fundo da minha mente, sempre soube que não
poderia não a ter.

Seguro sua bunda com minhas mãos e nos deixo cair em


sua cama. Ela abre as pernas e me envolve, nossos lábios nunca
quebrando o contato. Amo sua boca. Quente e doce, e ela me
provoca com a língua de uma maneira que me deixa louco.

“Odeio me sentir assim,” ela diz.

“Assim como?” Corro as mãos em cima dela, segurando e


apertando enquanto ela suspira na minha boca e roça contra
mim, deixando-me dolorosamente duro.

“Ciumenta,” ela responde.


Leva-me um momento para lembrar que estamos
discutindo sobre April estar aqui. Deslizo a mão por cima da sua
camiseta, tomo um seio na mão, e ela deixa escapar um pequeno
suspiro. Gemo por finalmente tê-lo em minha mão.

“Eu sei,” digo. “Quando deixou a festa com aquele


merdinha hoje à noite, fiquei muito irritado.” Mordo seu lábio
inferior entre beijos. “Como se tivesse fodidos dezessete anos
novamente e alguém tomou o que é meu.”

Meu pau incha, e Deus, não consigo parar de tocá-la. Ela é


tão linda. Sua pele lisa e cabelo despenteado. O pequeno
triângulo de tecido vermelho entre as pernas onde já posso ver
que ela não mentiu sobre estar excitada. Ela está molhada, e
estou morrendo de fome para prová-la.

Outro homem para fazer melhor meu trabalho... Besteira.

Afasto o cabelo de seu rosto enquanto ela roça em mim, e


mantemos os olhos um no outro. Eles dizem tudo o que estou
sentindo, que nós dois estamos caindo.

Droga.

“O que você vê em mim, menina?” Pergunto, balançando a


cabeça. Não pude manter uma mulher de dezenove anos feliz nem
quando eu tinha dezenove. Será que ela acha que posso fazê-lo
agora?

“Não tem ideia, não é?” Ela segura meu rosto, e me beija.
“Quando nos conhecemos e vimos aquele filme juntos no teatro,
senti-me tão culpada,” ela me beija de novo, “porque quando
mencionou a exibição de Poltergeist, eu... eu fiquei tentada
porque queria vê-lo novamente,” ela confessa. “Houve algo ali
mesmo.”

Perco-me em sua boca, beijo-a longa e profundamente,


enquanto envolvo um braço em seu corpo e a aperto contra mim.
Enrolando meus dedos em torno da seda em seu quadril, sinto
um desejo de me enterrar nela agora.

Mas não. Para ela, acabarei sendo uma aventura, mas serei
amaldiçoado se não for a melhor aventura que ela já teve.

Beijo seu pescoço, sugando e mordiscando até o queixo e


aperto meus polegares sobre os mamilos duros.

“Pike...” ela implora. “Por favor, me diga que tem


preservativos.”

Aceno, voltando para sua boca. “No meu quarto.”

“Mais de um, certo?”

Sorrio. “Sim.”

“Vá pegá-los.”

Envolvo os braços em torno dela e fico de pé, levando-a


comigo. "Tenho uma ideia melhor.”

Jordan trava os tornozelos atrás das minhas costas, e levo-


a para fora de seu quarto e pelo corredor até o meu. Precisamos
de uma cama maior.
Ela não para de beijar-me o tempo todo, e quase fecho os
olhos de prazer, porque não acho que já tive algo tão bom antes.
Jordan vai estragar-me tanto que ninguém mais servirá.

Entramos no meu quarto, e chuto a porta atrás de nós,


baixando-a na cama. Mas quando me afasto, ela protesta. “Não…”

Fecho a porta, observo-a — finalmente em minha cama — e


me sinto como se tivesse acabado de ganhar na porra da loteria.

Alcançando atrás de mim, tranco a porta e a olho, o luar


entrando pela janela e a iluminando. Ela está sentada com os
joelhos dobrados e as mãos atrás dela, apoiando-se. Seus lábios
estão inchados dos beijos, e já estou imaginando-a nua entre
meus lençóis.

“Deus, você é tão doce,” murmuro.

Um sorriso tímido surge em seus lábios. “Realmente não


sou.”

Levanto uma sobrancelha em desafio. “Então, do que você


gosta?”

“O que você faz?”

Talvez umas merdas que você nem imagina.

Voltando para a cama, inclino-me sobre ela e puxo sua


calcinha. “Você disse que me queria comendo alguma coisa.”
Lembro-a. “Onde quer minha boca?”
Ela abaixa o olhar, e encara meus lábios. “Hum...” engole e
acaricia sua coxa, movendo a mão para entre as pernas. “Bem
aqui.”

“E o que está aí embaixo?” Brinco, ficando fora de alcance


cada vez que ela se move para um beijo. “Use palavras adultas,
Jordan. O que quer que eu beije?”

“Hum,” Jordan gagueja, excitada e morrendo por isso.


“Hum, minha ...”

Minha…?

Ela vem para minha boca novamente, mas me afasto,


deixando-a nua e irritada na cama.

“Minha...”

“Sim?”

“Minha, hum... minha buceta,” ela sussurra.

Minhas sobrancelhas sobem, surpreso. Não esperava essa


palavra, na verdade, mas tudo bem.

“Quero que beije e me chupe,” ela diz, implorando. “Vai me


fazer gozar?”

Fecho meus olhos por um momento, meu pau lutando


contra o jeans para ter espaço para crescer.
Porra.

Qualquer coisa que quiser.

Apertando a mão em torno de sua calcinha, rasgo-a. Afasto


o tecido e jogo-o por todo o quarto enquanto ela prende a
respiração.

E então tiro minha camisa e me abaixo, tomando sua


buceta na minha boca.

“Pike,” ela choraminga, agarrando minha cabeça e caindo


de costas na cama.

Jesus, estou na porra das alturas. Quis isso por tanto


tempo, e finalmente tê-la, de pernas abertas na minha cama, o
corpo implorando por mim.

Chupo seu clitóris primeiro, esticando-o em minha boca de


novo e de novo, fazendo-a se contorcer e se desesperar para
gozar. Lambo-a de cima para baixo, girando a língua em torno da
saliência e ficando bêbado em seu aroma e sabor. Depois de um
minuto, perco o controle, e estou beijando e mordiscando-a em
todos os lugares. Curvo meu braço, envolvo sua coxa e a prendo
enquanto me alimento, fazendo-o tanto por mim quanto por ela.
Seu corpo arqueia para fora da cama quando a fodo com minha
língua, e ela geme.

Continuo fazendo isso até que ela está respirando tão


rápido que sei que gozará em breve. Aperto um de seus seios,
mantenho a minha cabeça entre suas pernas até sentir sua
barriga começar a tremer e, em seguida, Jordan prende a
respiração e congela quando o orgasmo toma conta.
Ela grita, deixando-o ir, e movo a língua, não parando até
ela voltar a se acalmar.

“Jordan,” sussurro contra sua pele. Não sei por que digo
seu nome, mas acho que sinto a porra do medo dela não estar
realmente aqui e isso ser um sonho.

Seus dedos passam pelo meu cabelo, e olho para cima,


pairando sobre ela. Afastando uma mecha da sua testa, a
observo, vendo as bochechas rosadas e olhos brilhantes, sua
pequena camiseta em torno do pescoço, expondo os belos seios e
mamilos duros.

Abaixo novamente, tendo um na minha boca, sugando


como fiz em seu clitóris. Ela choraminga, as mãos envolvem a
parte de trás do meu pescoço. Vou para o outro, arrastando uma
mão por seu corpo, e tento absorver o máximo dela que puder.

Sei que tudo o que fazemos é errado, e não sei como vou
explicar a alguém, mas aqui e agora — não quero estar em outro
lugar. Morreria feliz nesse momento. Aqui, na calada da noite,
neste quarto escuro, atrás de uma porta trancada, onde não
preciso explicar nada a ninguém.

Porque este momento é nosso.

Afasto-me da cama e levanto, soltando o cinto e abrindo


meu jeans. Alcanço a mesa de cabeceira e tiro um preservativo da
caixa, então olho para ela. Suas pernas estão fechadas, um joelho
ligeiramente arqueado para cima, e as mãos nos lados, apertando
o edredom enquanto me observa.

“Tem certeza disso?” Pergunto.


Ela balança a cabeça.

Chuto minhas botas e tiro o resto da roupa. Abro a


embalagem, ainda a encarando, mas seus olhos baixam para
outra coisa, sua respiração ficando superficial. Sinto um sorriso
nos cantos da minha boca, me perguntando quantas outras
palavras sacanas ela conhece.

Mas não tenho a chance de perguntar. Jordan senta,


balançando as pernas sobre a borda da cama, e vem para meu
pau, levando-o na boca.

Gemo e suspiro ao mesmo tempo, sua língua molhada e


quente enquanto ela recua e suga a ponta.

“Jordan, por favor,” Seguro parte de seu cabelo,


gentilmente tentando afastá-la. “Isso vai me deixar no limite, e
quero que goze novamente.”

Empurrando-a de volta para a cama, fico por cima e a beijo


profundamente. Ela se aninha entre minhas pernas, e dobra os
joelhos enquanto afunda as unhas em minhas costas.

Deslizando a mão sob ela, aperto sua bunda e pressiono


nossos corpos juntos, o mundo gira atrás dos meus olhos
fechados. Tê-la debaixo de mim, pele contra pele... meu pau está
tão duro, não posso aguentar.

Isso é meu.

Inclinando-me para trás, rolo o preservativo, sem tirar os


olhos dela.
“Estou com um pouco de medo,” Jordan diz, com
preocupação vincando sua testa.

Paro, tentando não apertar o punho em torno do meu pau


muito duro.

Medo?

“E se eu fizer muito barulho?” Ela sussurra.

Suspiro, aliviado que ela não esteja com segundos


pensamentos. Acaricio meu pau e caio sobre ela novamente. “Tire
a camisa, Jordan,” sussurro. “Quero ver seus peitos enquanto te
fodo.”

Sua respiração oscila e um sorriso animado toma seus


lábios, mas ela tira a camisa para mim, e de forma rápida
abocanho um mamilo novamente.

Ela engasga, abre mais as pernas, e a ponta do meu pau


encontra o calor úmido de sua buceta apertada como um ímã do
caralho.

Endireito-me, apoiando em um braço, e mordisco seus


lábios. “Tente ficar quieta, ok?” Sussurro, provocando-a. “Você
não quer ter Cramer descobrindo o que estou fazendo com sua
babá?”

Ela ri, beijando-me de volta. “Sim, Sr. Lawson.”


Descendo, mantenho os olhos nela enquanto me encaixo
em sua entrada, e então agarro seu quadril e empurro para
dentro, imediatamente perdido na sensação e meu corpo treme.

Ela arqueia o pescoço para trás e fecha os olhos, gemendo,


e os seios saltam com o movimento

“Oh, porra, porra...” ela geme. “Pike…”

“Eu sei, baby.” Você é tão gostosa.

Empurro novamente e ela agarra minha cintura enquanto


lentamente pego o ritmo, indo cada vez mais fundo, hipnotizado
por seu corpo debaixo de mim. Mergulho para baixo, sugando seu
peito enquanto ela geme e choraminga.

Voltando, beijo sua boca, e ela faz aquela coisa onde lambe
minha língua e estou perdido.

“Jordan, porra,” suspiro, empurrando mais rápido e mais


forte até que a única coisa que ouço é o som dos nossos corpos se
unindo.

Seus gemidos enchem o quarto, cada vez mais alto, e a


beijo, abafando o som quando ela goza de novo, sua buceta
apertando meu pau.

Olho para cima e nos observo no espelho da cômoda,


excitado pela visão de suas pernas ao meu redor. Ela segue meu
olhar, mal piscando.
Jordan se inclina, sussurrando em meu ouvido: “Eu quero
ver.”

Envolvo o braço em sua cintura e nos viro, então ela está


por cima. Sua camiseta cai nos seios de novo, e o cabelo está
uma bela desordem. Seguro seus quadris só assim posso sentir
seu corpo se mover enquanto ela me toma. Ela olha em meus
olhos, seus quadris rolando, o estômago tremendo, e seu traseiro
subindo e descendo enquanto ela me monta.

Então ela me olha, sorrindo, dizendo-me que gosta do que


vê no espelho.

“Você é tão apertada,” gemo.

Ela coloca as mãos no meu peito e arranha, cerrando os


dentes e respirando com dificuldade enquanto me fode mais
rápido.

“Sim,” ela suspira, seus olhos fechando. “Sim, Deus, por


favor...”

Seguro sua bunda e me levanto, tomando um mamilo na


boca, sugando e puxando e, em seguida, movendo-me para o
próximo em um frenesi. Jordan se inclina, não perdendo o ritmo,
e posso sentir o suor deslizar por suas costas.

Puxo o ar através dos dentes, meus músculos tensos, e


estou perto. Viro-a de costas, com fome de estar no controle de
novo, e sua cabeça vai para o lado da cama, muito perto da mesa
de cabeceira. Pego a borda da mesma e empurro, derrubando,
lâmpada e tudo mais no chão.
Ela choraminga e me beija, pega na loucura do momento,
também.

“Não pare,” ela pede. “Não pare. Eu vou gozar.”

Pressiono a testa na dela, nós dois muito perto de


hiperventilar enquanto empurro uma e outra vez, tentando
pensar em qualquer coisa que possa me fazer não gozar, mas ela
é tão gostosa, e estou perdido.

“Oh, Pike,” ela geme. “Isso. Sim…”

Meus músculos estão queimando, minha cabeça está


girando, mas não quebro o ritmo, porque se morrer agora, é
assim que quero partir.

“Ah,” ela geme, seu corpo tensionando e a respiração


falhando.

Ela fica em silêncio e então... joga a cabeça para trás e


grita. “Oh Deus!”

Beijo-a forte, vê-la gozar de novo é o suficiente para me


enviar ao limite. Empurro forte, aperto meus olhos bem fechados
e gozo, mergulhando profundamente uma e outra vez quando o
orgasmo dilacera meu corpo e exaustão e euforia me dominam ao
mesmo tempo.

Calor inunda minhas coxas, meu pau pulsa, e tudo sobre


ela é o céu. Tudo parece ser a primeira vez.
Afasto-me, apoiado nos cotovelos em ambos os lados de
sua cabeça e afastando o cabelo de seu rosto.

Ela me olha, o rosto corado e brilhante com uma leve


camada de suor. “Você não a beijou, não é?” Ela pergunta
baixinho.

Sorrio silenciosamente. “E isso é o que está pensando


agora?”

Ela torce seus lábios em constrangimento, mas pressiona


de qualquer maneira, “Você não fez isso, não é?”

“Não,” digo a ela. “E ela não teria passado a noite. Estava


tentando esquecer você e o quanto quero isso, mas não teria
rolado. Você está certa. Quero você.”

Beijo-a, surpreso que mesmo após gozar, não terminei com


ela. Posso ficar aqui a noite toda.

“E na merda da festa?” Questiono. “Nada aconteceu, certo?”

Suas covinhas ficam mais fundas.

“Jordan,” aviso, franzindo a testa.

Ela ri. “Não,” ela finalmente responde. “Ele não tem seu
corpo,” ela dá um beijinho na minha bochecha, “ou suas
tatuagens,” ela beija meu queixo, “ou a sua boca,” ela beija meus
lábios e cada palavra que sai fica sob minha pele e me deixa louco
de todas as melhores formas.
Afundo dentro dela, beijando-a longo e forte. O fodido dano
já está feito. Amanhã me sentirei culpado.

“Uma coisa, porém,” diz ela, afastando a boca da minha


para deixar um rastro de beijos por minha bochecha. “Sei que
tem trabalho amanhã, e provavelmente vai querer pegar no sono,
mas estou faminta. Podemos pegar sorvete no andar de baixo e,
em seguida, transar novamente antes de dormir?”

Deixo cair a minha cabeça em seu ombro, tremendo de


tanto rir.

Qualquer coisa que quiser, baby.

Rolo o pescoço sob o jato quente, cada músculo do meu


corpo tenso e dolorido. Realmente não me exercito, mas nunca
estou parado, então pensei estar em boa forma. Jordan arruinou
essa ideia na noite passada, no entanto. Não posso me impedir,
mas a fantasia de tê-la aqui todos os dias e foder muitas vezes
por dia como quero, só pelo bem da minha saúde muscular, é
claro.

Mas sei que não posso. Transamos de novo ontem à noite e,


em seguida, dormimos, e tanto quanto a quero ainda mais esta
manhã, agora que sei o que estava perdendo, não podemos deixar
que isso se torne normal. Será doloroso o suficiente quando
terminar.

Fecho a água e saio do chuveiro, puxando a toalha do


gancho e secando meu cabelo. O banheiro está escuro, porque
quero me enganar que a noite ainda não acabou, mas é apenas
após as cinco horas da manhã, e tenho que estar no trabalho em
uma hora. Quando a ver novamente, será na luz do dia, e terei
que enfrentar que fiz algo tão fodido na noite passada.

Termino de me secar e envolvo a toalha em volta da cintura


antes de caminhar até a pia e escovar os dentes. E tento não
pensar sobre a sexy jovem ainda dormindo na minha cama no
outro quarto.

Quero dizer, quão errado é o que estamos fazendo? Ela é


solteira, eu sou solteiro. Nós dois somos adultos. Sim, há a
diferença de idade, mas não é inédito.

E, porra, eu gostei dela antes de saber quem era. Ninguém


mais era um fator nisso. Não estamos fazendo mal a ninguém.

Recuando para o quarto, olho-a na cama. Adormecida de


barriga para baixo, abraçando um dos travesseiros sob a cabeça,
e seu cabelo espalhado atrás dela. Ela usa uma das minhas
camisas, e apesar de amá-la nua, não posso reclamar. Eu amo
quando ela usa minha roupa, também.

Ando até seu lado da cama, pego meu relógio da mesa de


cabeceira – a que não tombou — e prendo-o ao meu pulso, e
ainda a observo.

Nós nos conhecemos há menos de um mês, mas sinto que


ela sempre esteve lá. Como se guardasse esse lado da cama só
para ela.

Não sei se a amo, mas nunca quis nada nem ninguém


tanto assim.
Seu pé espreita para fora do lençol, e sorrio para as unhas
rosa. Sim, muito Jordan.

Ela geme e vira a cabeça, e levanto os olhos, vendo-a se


mover em seu sono, descansando a mão sobre o travesseiro ao
lado do rosto.

O lençol está abaixo de sua cintura, e a camisa subiu,


mostrando um pouco sua barriga, e deixo o instinto assumir.
Ainda está escuro lá fora.

A noite não tem que terminar ainda.

Afastando o lençol, vejo sua calcinha rosa sexy, e não me


importo que ela não durma nua. Isso significa que posso despi-la.

Puxando para baixo a calcinha, passo por cima dela,


colocando um joelho entre suas pernas e deslizando sua camisa
com uma das mãos.

Toco-a e beijo suavemente, movendo-me através de sua


bochecha para o ouvido e de volta para a boca.

“Bom dia,” sussurro, mordendo-a.

Ela geme novamente, arqueando-se para encontrar meus


lábios que se arrastam pelo seu corpo, percorrendo sua barriga,
quadris e seios.

“Não é?” Diz ela, brincando.

Sorrio.
Estendo a mão para minha mesa de cabeceira, pego outro
preservativo e puxo a toalha. “Só uma rapidinha, ok?” Provoco.
“Para me fazer aguentar o dia.”

Ela geme novamente, esticando os braços acima da cabeça.


“Certo.”

E eu entro.

Vários minutos mais tarde, nós dois estamos ofegantes e


suados de novo, e preciso de outro banho, mas não tenho tempo.

Foda-se, isso é bom. Quem deve se sentir melhor pela


manhã? Eu ou ela?

Olho o relógio. “Tenho que ir.”

Não quero, no entanto. Quão terrível seria se o patrão


ficasse doente, então poderá ficar em casa e foder sua sexy
menina o dia todo?

Relutantemente, saio de cima dela e vou até meu armário,


tirando um jeans e uma camisa. “Tem que trabalhar esta noite?”
Pergunto.

Ela puxa o lençol e olha para mim, sonolenta. “Talvez.”

Balanço a cabeça. Sempre fazendo jogos.

“Talvez eu esteja em casa,” ela explica, “ou talvez terá que


me encontrar.”
Fecho a gaveta da cômoda e abro outra, pegando meias.

Viro para ela, tendo um olhar severo no rosto. “Estarei em


casa às cinco. Esteja aqui,” ordeno. E então começo a ir em
direção à porta, mas paro e suavizo a voz, acrescentando: “Por
favor?”

Ela sorri e vira de lado, abraçando meu travesseiro


novamente e me olhando com os olhos mais doces. “Sinta minha
falta.”

Eu já sinto.

Saio, fechando a porta atrás de mim e trancando-a


também. Apenas no caso de Cole chegar em casa, ver a cama dela
vazia e começar a se perguntar onde Jordan está.

Descendo as escadas, sinto uma vontade de sorrir, mesmo


quando a culpa corrói meu estômago. Sinto-me quase normal.

Tenho mais sorte do que qualquer cara que conheço. A


menina dos meus sonhos está na minha cama agora, e tenho que
voltar para casa para ela, também. Jordan está certa. Tenho tudo
que preciso sob este teto.

Exceto meu filho. Esta é sua casa, e ele não está aqui, e
Jordan me faz esquecê-lo.

Por dezenove anos, foi sempre ele. Sacrifiquei tudo para


construir meu negócio e ser capaz de dar-lhe um bom lar e
educação, e fiquei com medo de relacionamentos depois do que
passei com Lindsay, porque outras mulheres não querem ter de
lidar com a mãe do meu filho pelo resto de nossas vidas. Minha
vida girou em torno dele, mas não importa o que fiz, tudo ainda
era uma merda. Ela o torceu e usou contra mim, e Cole não sabe
em quem confiar.

Deixar-me ser feliz com uma mulher não é errado, mas a


mulher ser Jordan é o que pode quebrar qualquer fé que ele tem
em seus pais. Por que não posso parar? Por que meu coração dói
tanto cada vez que ela sorri? Ou morde o lábio ou fica na ponta
dos pés para alcançar algo na cozinha ou, porra, somente respira,
pelo amor de Cristo?

Entro na cozinha e sirvo café na minha caneca de viagem.


Aperto a tampa e tiro meu almoço da geladeira, pego algumas
coisas extras, desde que não tenho tempo para um café da
manhã.

A campainha toca de repente, e viro-me, carrancudo. Quem


aparece a essa hora da manhã?

Deixando tudo em cima do balcão, vou até a porta da frente


e inclino-me, olhando pela janela da frente.

E falando no diabo ...

Minha ex está lá vestindo uma calça de treino de nylon e


um top combinando. Seu cabelo está bagunçado, mas ela tem o
rosto cheio de maquiagem. Ela é a única pessoa que conheço que
se maquia para ir à academia.

Claro, ela provavelmente só vai lá ver os caras.


Abro a porta, tentando ficar quieto, então Jordan não
ouvirá.

“O que você quer?” Pergunto, segurando a porta.

“Bem, você é legal,” ela zomba, mantendo os braços


cruzados sobre o peito. “Sempre idiota, né?”

E sem esperar por um convite, ela entra, empurrando meu


braço.

“Se está aparecendo na minha porta às cinco da manhã,


não pode ser bom,” digo, fechando a porta. “Está bêbada?”

Ela caminha até a cozinha, joga as chaves no meu balcão, e


gira, de frente para mim. “Por que meu filho está morando na
casa de alguma garota aleatória e não com você?”

Luto contra a vontade de revirar os olhos por ela fingir


preocupação e ter apenas uma desculpa para ser invasiva. “Ele é
bem-vindo para vir para casa a qualquer momento,” explico,
enquanto vou ao banco e agarro minha camisa. “Ele é que decidiu
sair.”

“Porque está permitindo que Jordan fique? Por quê?”

Coloco a roupa sobre a cabeça. “Se quer saber o que está


acontecendo com Cole, pergunte a Cole. Quanto a quem alugo um
quarto, porra, isso não é da sua conta.”
Corro os dedos por meu cabelo, depois de ter esquecido de
penteá-lo. Ela fica quieta por um momento, e não a olho
enquanto tiro o telefone do carregador e coloco no bolso.

Ela dá um passo para meu lado e segura meu queixo,


obrigando-me a encará-la.

Eu me afasto. “O quê?”

“Você está suado.”

“É o calor”, respondo.

Mas debaixo da minha pele, meu sangue aquece e meu


coração bate mais forte. Pego meu café, tomando um gole para
esconder o nervosismo. A mulher é um tubarão. Ela pode sentir o
cheiro de sangue através do oceano.

“Sei como parece depois de gozar,” ela diz. “Então, a


pergunta é... É a doce adolescente no andar de cima ou alguém
novo?”

Bato minha caneca para baixo, olhando-a. “É o suficiente.”

Droga. Esqueci quão inteligente ela é. Nem sequer sai de


casa ainda, e não posso esconder o que estou sentindo da única
pessoa que preciso fazê-lo. Impressionante.

Indo para a mesa, sento e coloco minhas meias e botas,


pegando tudo o que preciso para o dia.
“Cole deixou seu emprego na fábrica,” ela finalmente me
diz. “Há três dias.”

Olho para cima, parando o que estou fazendo. Três dias?

“Deixe-me dar uma dica,” ela diz. “O parentesco não acaba


quando ele completa dezoito anos e já não tem que pagar pensão.
Ele ainda precisa de você.”

“Perdoe-me se não tomei aulas de parentalidade de uma


mulher que ficou grávida para ter um ticket refeição pelo resto da
vida.” Viro para ela, prendendo-a com o olhar. “Talvez ele saiu
porque não tem que trabalhar por nada, desde que usa a culpa
para receber metade de seus contracheques.”

Ela me dá um tapa no rosto, e minha cabeça cai para o


lado.

Mas eu apenas sorrio.

Claro, estou preocupado. Ele saiu do trabalho e não foi


para casa, mas não receberei um sermão dela. Ela o usou, e já
tive o suficiente de sua besteira.

“Essa é a razão que não o deixa vir trabalhar para mim,


não é?” Pergunto, não recuando. “Porque, em troca, vou pagar
suas contas e dar-lhe uma bolsa para se certificar de que você
não tenha as mãos em seu maldito salário. Você só se preocupa
com ele quando tem dinheiro.” Recolho minhas coisas e vou para
a porta, abrindo-a. “Sabe de quem realmente tenho inveja? De
todos os homens que escaparam de você sem uma criança. Não
lamento ter Cole, mas lamento ter sido com você. Saia.”
Estou orgulhoso, mantenho a voz baixa e sou capaz de
reunir algum controle, mas estou fervendo por dentro. Ela vem
até minha casa, acusando-me de ser um pai ruim, e depois me
bate. Lindsay não é minha esposa e nunca foi. Tenho que aturá-
la, mas não em tudo.

Ela fica lá, parecendo quase divertida, e, finalmente,


caminha até mim. “Sim,” diz ela, prestes a sair, mas volta e me
insulta por cima do ombro, “porque sua casa é a única área de
sua vida que pode me expulsar.”

E, em seguida, seus olhos vão para os degraus e de volta


para mim, um sorriso doente em seus lábios.

Ela sai, e ainda fico, tudo o que senti minutos atrás


completamente desaparecido. Cole está caindo, e precisa de mim
mais do que nunca.

E Lindsay sabe sobre Jordan. Ela pode não saber com


certeza, mas suas suspeitas serão suficientes.

Ela vai rasgar Jordan. Não há maneira que eu a coloque


nisso.

Só desejo poder tê-la tido por mais que sete horas.


CAPÍTULO 19

Jordan

Aperto as pedras no modelo e pego a cola, colocando-a na


fenda para prender as peças. Sinto vontade de olhar para o
relógio do micro-ondas novo, mas me controlo, sabendo que não
faz nem dois minutos desde a última vez que verifiquei.

É depois das seis, e Pike está atrasado. Ele quase nunca se


atrasa.

À medida que os minutos passam, porém, sinto meu


temperamento aparecer, porque ele não ligou, e especificamente
me pediu para estar em casa. Isto não é típico dele, mas é a cara
de qualquer outro cara que conheço. Sou a garota que ele pode
tratar como lixo e fazer esperar, porque eu aceito.

Por um tempo, de qualquer maneira.

A pizza que pedi, metade pepperoni e metade taco, foi


entregue uma hora atrás e está sendo mantida quente no forno,
enquanto minha salada está na geladeira, ficando gelada. Garotos
perdidos, continuando na nossa maratona de filmes de terror dos
anos 80, na TV, pronto para começar, e estou sozinha.
Novamente.

OK. Ele pode estar no meio de algo, ainda no trabalho.


Compreensível, e sou adulta. Não preciso me estressar. Ele pode
ter tido um acidente, mas isso é extremo, e não quero ser a garota
que liga, também. Ele vai pensar que estou... apegando-me ou
algo assim.

Colo as bolas de vidro em cima da cama do que em breve


será o riacho, deixando-as longe para poder me distrair enquanto
sento lá, e espero, ficando mais irritada.

O dia foi ótimo. Acordei dolorida, mas nem sequer percebi,


porque as memórias da noite passada me fazem corar
constantemente. Ele não está fora da prática em tudo, e não
consegui parar de sorrir enquanto limpava a lâmpada quebrada e
arrumava o criado-mudo no lugar.

E limpei os restos do copo da A & W da máquina de lavar


roupa, de quando joguei tudo lá na noite passada. Graças a Deus
ele não sabe sobre isso ou mudaria de opinião sobre se sou ou
não adulta.

Depois de arrumar a casa, realmente não queria lavar seu


cheiro, mas precisava desesperadamente de um banho. Depois de
limpa, liguei para Cam e peguei emprestado seu carro para ir
buscar meu salário no Grounders e dar alguns recados. Recebi
olhares de minha irmã e Shel, ambas provavelmente se
perguntando por que estou praticamente pulando por toda parte,
mas não me importo.

Porque em poucas horas, seus olhos estarão em mim


novamente, e realmente adoro quando seus olhos estão em mim.
Talvez possamos nadar esta noite ou jogar alguns travesseiros e
cobertores na parte de trás da caminhonete e ir para algum lugar.
Ou talvez tenhamos uma briga, então ele me curvará sobre a
mesa da cozinha para outra surra.

Estúpida. Fantasias e expectativas que não se comparam a


realidade. Eu deveria ser mais esperta. Aqui estou eu, sentada,
esperando ele aparecer, pronta para saltar ao seu comando.

Depois de um tempo, pego meu telefone novamente, vendo


se tenho quaisquer mensagens.

Nada ainda.

Olho o horário, e são quase sete agora. Duas horas de


atraso.

Pike sabe que estou esperando. Se não ligou, então talvez


algo aconteceu.

Ligo, a ponto de me sentir realmente patética, se ele não


estiver trabalhando agora ficarei mal com todas as minhas
dúvidas.

A chamada vai para a caixa postal, embora, e desligo,


hesitando apenas um momento antes de levantar e caminhar até
a geladeira, buscando o nome de Pike na lista de contatos. Vejo o
número de Dutch e disco, pensando em algo para dizer que não
vá me fazer parecer desesperada.

A linha soa três vezes antes dele responder.


“Alô?”

“Hey, Dutch,” digo rapidamente, adicionando vitalidade a


minha voz. “É Jordan. Desculpe incomodá-lo. Sei que Pike nem
sempre fica com o telefone e acho que pode estar sem ele. Estou
prestes a sair para o trabalho, e perdi a chave da casa.” Lambo os
lábios secos, meu coração acelerando. “Vocês já estão saindo?
Não sei quando Pike estará em casa e não quero deixar a porta
destrancada.”

“Oh, nós fechamos a loja duas horas atrás, querida,” ele me


diz. “Estou em casa, e ele saiu com os caras para uma cerveja.
Tenho certeza que se ligar ele vai correr para casa e trancá-la.”

Minha garganta contrai e lágrimas surgem.

Ele saiu.

Forço um sorriso, esperando que disfarce a raiva em mim.


“Sim. Vou ligar. Obrigada.”

Desligo e fecho os olhos, forçando-me a acalmar. Ele saiu.


Sem sequer me avisar. Só me deixou aqui sentada.

Pisco para afastar as lágrimas, recusando-me a ficar


machucada. Preocupei-me com ele, e transei com ele. Mas não o
amo, e Pike claramente não dá a mínima. Ele conseguiu o que
queria.

Toda a possessividade e necessidade de cuidar de mim e


me proteger. Tudo só para me manter aqui, para que pudesse me
foder. Pike resistiu por se sentir mal, mas estava simplesmente
passando o tempo. Levar-me para cama sempre foi o plano. Agora
que ele teve o que queria, ei, talvez April seja a escolha da noite, e
eles podem continuar de onde pararam.

Resmungo é chuto uma perna da mesa.

Isso não acontecerá comigo. Não mais. Termina agora.

Pego meu telefone e ligo para Cam, lembrando que dia é


hoje.

“Ei, o que foi?” Ela atende.

Franzo os lábios, sentindo-me subitamente sem energia.


“Sinto que quero ver meu primeiro concurso de camiseta
molhada.”

Ela suspira e depois grita ao telefone. “Sim!”


Capítulo 20

Pike

Paro na garagem um pouco depois das nove e olho para a


casa. Jordan não estará dormindo ainda, e estou em melhor
condição para lidar com ela do que há quatro horas quando o
trabalho terminou. Mas não posso adiar mais. Nós precisamos
conversar.

Vejo uma pequena luz na cozinha que sei que é


provavelmente sobre o fogão, mas o resto da casa está escura, e
parte de mim espera que ela realmente esteja na cama, porque
não quero fazer isso.

Saindo da caminhonete, bato a porta e caminho para casa.


Deslizo a chave na fechadura, giro e abro a porta, entrando na
sala escura. Não há luz alguma e não ouço música. Sei que
minha demora não passou despercebida. Ela ligou horas atrás,
mas não deixou mensagem. Jordan está, sem dúvida, com raiva.

Respiro fundo e imediatamente sinto o cheiro de queijo


quente e carne picante. Pizza.
Entrando na cozinha, abro o forno e vejo a grande caixa do
Joe e a pego, colocando-o em cima do fogão.

Abro a tampa. Cada parte está na caixa, intocada.

Meu estômago afunda, e me sinto como merda. Claro, eu


sabia que ela teria algo para o jantar. Volto para a sala, pego o
controle remoto e ligo a TV, vejo a tela escura ganhar vida e a
capa do filme Garotos perdidos aparece na Netflix. Ela tinha tudo
pronto para uma noite comigo.

Indo para o andar de cima, paro na porta do quarto dela, e


não vejo luz por baixo da porta.

Bato duas vezes e espero. Quando não há resposta, giro a


maçaneta e abro a porta.

Através do luar entrando pela janela, vejo sua cama feita e


um cômodo vazio.

Meu pulso acelera. Jordan não tem um carro funcionando


ainda. Onde foi?

Será que teve que trabalhar, afinal? Verifico meu telefone


novamente por mensagens, mas não encontro nada.

Talvez sua irmã lhe deu uma carona.

Mas ela me disse que não tinha que trabalhar.

Ligo para Jordan, desço as escadas enquanto seu telefone


toca e desligo a televisão novamente.
Quando a linha atende, uma explosão de música acerta
meu ouvido e recuo apenas um pouco.

“Ei,” ela diz, e estou surpreso que soe tão... Calma.

“Onde está?”

“Fora,” ela responde. “Estarei em casa mais tarde.”

“Está trabalhando?”

Jordan ri, e ouço a voz de outra mulher e uma série de


conversas em segundo plano. “Uh, não,” ela finalmente responde.

Então ouço um grito do que soa como homens de quarenta


anos ao fundo, me endireito, tentando descobrir o que diabos está
acontecendo.

“Jordan, sinto muito que estou atrasado,” digo a ela.

“Hã?”

“Desculpe por estar atrasado!” Grito para o telefone. “Um


trabalho precisava ser feito, e tive que ficar.”

“Então por que não ligou?” Ela pergunta, a voz cada vez
mais alta. “Você não estava no trabalho. Estava no Red, e eu não
esperei. Não mais. Estou com meus amigos, e estou me
divertindo. Estarei em casa mais tarde.”
E, em seguida, música soa no meu ouvido e a voz do DJ ao
fundo some e a linha corta quando ela desliga.

Desliga na minha cara.

Abaixo o telefone e olho para a chamada encerrada. Ok,


então ela está brava. Eu acho. Jordan não parecia irritada,
embora. Ou bêbada. Ela apenas parece indiferente, e por alguma
razão, isso é pior. Posso lidar com a raiva, mas não com uma
menina que soa como se estivesse perfeitamente contente com o
que suas conclusões apontam. Merda.

Em seguida, ocorre-me o que o DJ ao fundo anunciou.

Noite da camisa molhada no The Hook.

Meus olhos se arregalam. Ela não seria tão estúpida, seria?

Droga. O que diabos devo fazer? Ela está fora se divertindo


como disse ou está me provocando? Jordan está tentando me
seduzir para ir buscá-la, ameaçando fazer algo que não gosto, ou
posso ficar onde estou, chamar o blefe, e ver o que acontece? É
por isso que mulheres e eu não nos damos bem e meus
relacionamentos não duram. Não tenho cabeça para esta
besteira.

Mas o fato é que Jordan saiu por minha causa. Se tivesse


voltado para casa quando disse que faria, ela estaria enrolada ao
meu lado no sofá agora, provocando-me com seus olhos, suas
mãos, seu cheiro, e seu traseiro sexy roçando em mim quando se
movesse.
Suspiro e balanço a cabeça.

Desejo-a tanto.

Coloco o telefone no bolso, pego minhas chaves e vou para


a porta. Assim que a abro, porém, vejo Cole ali com a mão
estendida como se estivesse prestes a bater.

Paro, minhas sobrancelhas subindo.

“Ei,” ele diz, com a voz extraordinariamente agradável.

Abro a boca para falar, mas levo um minuto para encontrar


minha voz. “E-ei,” gaguejo, um pouco abalado por vê-lo de
repente. “Tentei te encontrar todo o dia. Até fui em vários lugares
que frequenta durante minha hora de almoço. Onde diabos você
estava?”

“Sim, eu sei, desculpe.” Ele caminha e vai para a cozinha.


“Tive algumas coisas para resolver.”

Ele vai para a geladeira e pega um refrigerante, então se


vira e inclina-se contra a pia como se fosse normal ele aparecer.

“Então, o que está acontecendo com você?” Sigo para a


cozinha. “Sua mãe apareceu esta manhã, dizendo que saiu do
trabalho.”

Ele me dá um olhar divertido como se eu estivesse


exagerando.
“Se me mantivesse informado, eu não teria que perguntar,”
explodo, mas tento fazê-lo soar como brincadeira.

Ele olha pela janela, vendo alguma coisa, e se empurra


para fora do balcão, em direção a lavanderia e para o quintal. Eu
o sigo.

“Estou bem,” ele diz por cima do ombro. “Na verdade, tenho
um novo emprego. É por isso que parei.”

Ele caminha até a piscina e começa a puxar o tubo de


vácuo para cima. Esqueci completamente sobre isso. Isso vem
acontecendo desde ontem à tarde.

“Um novo emprego?” Pergunto, ajudando-o a puxar.


“Onde?”

“É uma surpresa.”

“Não gosto de surpresas. Onde é o trabalho?”

Ele começa a rir, e faço uma careta.

“Por que está rindo?” Exijo. Será que Cole sabe o quão
preocupado todos estamos com ele, e agora age como se todos
soubessem e não devessem fazer perguntas?

“Porque estou animado,” ele diz. “Vou contar em breve.


Prometo."

“É legal?” Puxo o tubo, sentindo o peso do vácuo quando


começa a sugar a água da piscina.
Suas costas tremem com outra risada.

Levanto uma sobrancelha.

“Eu prometo, este trabalho é tão legal quanto o seu,” ele


responde, uma piada privada em suas palavras que não entendo.
“Tenho um salário fixo, assistência médica e odontológica,
aposentadoria, toda a merda.” Ele me olha. “Não estou nas
drogas, e nem em apuros. Estou absolutamente bem. Desculpe,
não estive por perto. Só não quero que seja difícil para Jordan.”

Deixo cair o tubo, depois de ter atingido quase o fim.

“Então, você está bem?” Pergunto, para esclarecer.

“Sim.”

“Vai voltar para casa?”

Cole mal reage, parecendo inseguro. “Seria desconfortável,


acho. Quero que Jordan fique o tempo que precisa.”

Aproximo-me dele. Ainda sou alguns centímetros mais alto


do que Cole, mas estou sempre surpreso com quão maior ele
parece a cada vez que o vejo.

Hesito em falar, porque não quero que vá a qualquer lugar,


mas sei que o lugar de Cole é aqui. “Posso encontrar algo para
ela,” digo a ele.

Posso pensar em alguma coisa para me certificar de que


ambos sejam cuidados.
Cole parece não precisar pensar sobre isso, no entanto.
“Não.” Ele balança a cabeça, endireitando os ombros. “Não
precisa. Terei meu próprio lugar de qualquer maneira.”

“Sério?” Agora estou preocupado. Este novo trabalho parece


um pouco bom demais para ser verdade. “Está me deixando
nervoso de novo,” digo a ele.

Mas ele só começa a rir novamente, e, em seguida, volta a


atenção para o vácuo, e sigo seu olhar.

“Ouça,” ele diz, “Quero fazer minha primeira tatuagem


antes deste trabalho começar. Estava pensando que poderíamos
fazer juntos. Será que aceita?” Ele me dá um olhar nervoso, e
posso dizer que é difícil para ele pedir. “No próximo fim de
semana?”

Uma tatuagem?

A última que fiz, ele tinha dois anos, acho. Não é realmente
no que estou mais, mas definitivamente farei por ele. Sou grato
por Cole sequer pedir para fazer algo comigo.

“Sim.” Aceno. “Parece bom.”

Até sei o que quero fazer, a ideia aparece na minha cabeça


rapidamente.

“Vamos lá,” ele cutuca, puxando a vácuo. “Vou te ajudar


com isso, e então encontrarei uns amigos, ok?”

“Sim.” Puxo o último tubo, a água rapidamente some.


Tenho coisas para fazer também, na verdade.

Não acho que qualquer pessoa com menos de vinte e um é


permitida neste lugar a menos que sejam funcionários, e para
Jordan é melhor não ser. Tenho um pensamento fugaz no
caminho sobre ligar e denunciar Mick Chan por deixar uma
garota de dezenove anos de idade entrar em seu clube de strip,
mas não é como se não tivesse tirado proveito de bares quando
tinha dezenove, também. Além disso, isso só a irritaria mais.
Posso ouvi-la agora. Oh, sou velha o suficiente para você foder,
mas não tenho idade suficiente para tomar uma bebida?

Bem, sim, legalmente falando. Se ela quiser ser técnica


sobre isso, de qualquer maneira.

Deslizando minhas chaves no bolso, avanço no


estacionamento e abro a porta para o The Hook. A música explode
nas paredes e vibra sob meus pés, e inalo o cheiro familiar do
xampu com aroma de orquídea que Mick usa nos tapetes. Cheira
como a inundação de perfume ao andar por um cassino que está
tentando encobrir o odor de cigarros. Faz um longo tempo desde
que estive aqui, mas, de repente, tenho dezenove novamente.

Pago a entrada e paro, antes de seguir para o bar e encarar


a multidão de pessoas. Indivíduos novos, homens mais velhos,
algumas mulheres e casais, luzes roxas sob o palco branco e
correntes de fumaça saindo das extremidades laranja dos
cigarros.

Apreensão me domina. Não deveria ter vindo aqui.


Deveria sair antes que ela me veja. Jordan é adulta, tem
cuidado bem de si mesma por um longo tempo, e a voz na minha
cabeça está certa. Se eu posso levá-la para a cama e fodê-la
durante a metade da noite, então ela tem idade suficiente para
fazer as próprias escolhas. Jordan deve ser capaz de sair com
seus amigos. Quero que ela saia com seus amigos.

Só não a quero aqui, porque sei que Mick a quer, e ela


precisa de dinheiro, e fiz sua situação em minha casa parecer
instável. Ela está chateada, e se começar a pensar que precisa se
mudar? E se tomar algumas bebidas e decidir que precisa de
dinheiro extra?

Corro a mão pelo cabelo, sentindo o gel que passei nele e


lembrando que me arrumei para ela. Até mesmo troquei de roupa.

Olho o terno azul marinho que comprei ano passado para a


graduação do Cole, mas uso esta noite. Apenas a camisa branca,
aberta no colarinho, e sapatos pretos. Não sei por que os
coloquei, porque estou me sentindo estúpido agora, mas acho que
só quero que ela saiba que não sou um livro aberto. Posso ser
diferente. Ainda posso surpreendê-la.

Viro para sair, rezando para que ela não me veja, mas a
multidão aplaude e minha atenção é atraída para o palco onde
um grupo de meninas está alinhado.

Estão vestidas com tudo, desde jeans até saias, parecendo


nervosas, mas rindo e brincando. Algumas mulheres já
começaram a competição, e parece que a vontade de ganhar
trezentos dólares pede medidas mais extremas do que imaginei.
Duas mulheres já estão molhadas, uma mais velha circula e
derruba jarros de água sobre elas à medida que as encontra
molhando as camisas e sacudindo os seios e depois vira,
rebolando enquanto mostram as bundas para a multidão
enlouquecida. Mais água é despejada em suas costas. Mechas de
cabelo voam, e elas poderiam muito bem estarem nuas, porra. É
a mesma coisa.

Alguns dos caras têm seus telefones com a câmera aberta,


e tenho certeza que isso não é permitido, mas ninguém se
importa. Essas mulheres não são amadoras, certo? Jordan não
pode fazer essa merda.

Ou pode?

Só então, um grupo de mulheres puxa uma jovem loira


para o palco, e vejo Jordan resistir, rindo, mas balançando a
cabeça nervosamente.

O que...

Não posso ouvi-la, mas vejo seus lábios articularem uma e


outra vez enquanto resiste e tenta afastar os braços da irmã.

Alguém por trás fica na frente dela e puxa seus braços


expondo a camisa branca, e avanço para frente, mas, em seguida,
um jarro de água é despejado em seu peito, e fico
momentaneamente congelado.

Seus olhos arregalam, a boca abre, e ela parece estar em


choque pela água, sem dúvida, fria, enquanto ela só fica lá com
as mãos estendidas na frente e sua camisa agora ensopada.
As pontas dos cabelos molhados, mas as madeixas longas e
sensuais envolvem seu rosto, e a água flui por seu estômago,
fazendo a pele reluzir.

De onde ela tirou essa lingerie? É cor creme e rendada,


tiras finas sobre os ombros, e maldição, perto de ser
transparente. Seus mamilos escuros são visíveis daqui, assim
como as curvas de seus seios agarrando o tecido molhado.

E meus olhos ardem enquanto correm ao redor da sala


para cada indivíduo assistindo e babando nela. Ela deve usar isso
na minha cama, porra. Não num palco maldito. Cerro meus
punhos.

Jordan parece sair do choque, porque de repente envolve os


braços no corpo e desce do palco, deixando todos para trás. Ela
desce os degraus e corre ao longo da parede, para o corredor onde
os banheiros ficam. Algumas meninas numa mesa a param,
chamando seu nome, mas Jordan continua em frente, sorrindo
para elas e corando para suas amigas. Ou amigas de sua irmã.

De repente, ela olha para cima e me encontra, chegando a


um impasse. As meninas na mesa a veem parar e seguem seu
olhar, olhando entre nós dois.

Dois riscos de água descem por seu estômago em ambos os


lados do umbigo, e a visão faz meu pau se encher de sangue.

Ela usa isso. Propositadamente colocou essa lingerie, o que


significa que ela pensava em ir lá em cima. Levanto os meus
olhos de seu corpo e a encaro, dando um passo à frente.

Minha.
Ela recua um passo.

Movo-me novamente. E o mesmo acontece com ela.

“Foi um acidente,” Jordan diz, suas sobrancelhas formando


uma carranca. “Ela estava apenas brincando. Não preciso de
qualquer porcaria sobre algo que não é o meu —”

Corro até ela e envolvo um braço em sua cintura, tomando


seu rosto na mão e puxando sua boca para a minha.

Jordan choraminga, surpresa, e não me importo com quem


nos vê neste momento. Sem quebrar o beijo, levo-a para trás,
para o corredor e viro.

Ela afasta a boca. “O que está fazendo?"

Mas Deus, estou com tanta fome. Alcanço seus lábios


novamente, provando sua língua e enfiando a mão em seu cabelo
macio.

“Não.” Ela se afasta de mim.

Deixo cair os braços, meu coração acelerado e meus dedos


ainda zumbindo com a sensação de sua pele.

“Não vou lutar com você,” digo a ela, respirando com


dificuldade, “e não vou pedir-lhe para voltar para casa. Só quero
dizer que sinto muito.”

Ela levanta o queixo, fingindo ignorância. “Pelo quê?”


“A pizza, o filme...”

“Esquecer de mim,” ela acrescenta.

Aproximo-me, tentando manter a calma e as mãos longe


dela. “Não te esqueci. Eu não posso... te esquecer.”

Ela está tranquila, encarando meus olhos, e não tenho


certeza do que está passando por sua cabeça, mas só precisava
dizer isso olhando-a nos olhos. Não quero que se descontrole
porque acha que fui negligente.

Sem outra palavra, ela gira em direção ao corredor, direto


para a saída.

“Aonde vai?” Eu a sigo.

“Minha irmã tem uma troca de roupa no carro,” ela


responde, ainda soando impaciente comigo. “Estou bem, e estarei
em casa mais tarde, ok?”

Ela se aproxima do Mustang branco de Cam no


estacionamento lotado e até o lado do motorista.

“Pare.” Venho por trás dela, colocando a mão na porta.


“Apenas deixe-me explicar.”

Ela gira, um olhar de simpatia no rosto. “Oh, tenho certeza


que tem uma desculpa. Uma realmente boa. Não se preocupe.”

Ela vira e pega a maçaneta, mas preciso que ela me ouça.


Só por um segundo.
“Pare. Por favor.” Respiro forte, olhando a parte de trás de
sua cabeça. “Jordan, eu...”

Engulo, apenas querendo que ela se vire e me olhe


novamente com seu sorriso doce e olhos suaves.

Baixo minha voz para um sussurro. “Não posso perdê-lo,”


digo.

Jordan se acalma, e tudo que posso ouvir é sua respiração.


Será que ela se arrependeu quando acordou esta manhã?

Ela finalmente vira e me olha, assentindo com calma. “Eu


sei,” ela diz baixinho. “Então tem que me perder. Entendo. Eu
não quero feri-lo, também.”

Jordan gira novamente para abrir a porta, mas apoio


minha cabeça na dela, e meus olhos fecham. Ela é como água
deslizando através dos meus dedos, e estou morrendo.

“Estou apaixonado por você,” sussurro.

Lentamente ela vira novamente, e não sei se deveria ter


falado, mas levanto os olhos cansados, vendo sua expressão
tranquila. Seus olhos parecem igualmente calmos e algo preso
entre desejo e luta.

“Sabia que você estava lá fora em algum lugar,” digo a ela,


com um sorriso triste. “As namoradas, mulheres que sai, a mãe
de Cole... Nunca quis casar com ninguém, porque não eram o que
eu procurava. Comecei a pensar que sonhava muito alto, e que
você não existia.” Envolvo a mão em seu pescoço e corro os
polegares por sua garganta. “Acontece que meu sonho de mulher
pertence a única pessoa que me mataria ferir.”

Lágrimas enchem seus olhos, e as afasto, meus lábios


encontram sua testa.

“Não quero assustá-la,” continuo. “Mas você meio que me


assusta, porque quero que me deseje tanto quanto eu preciso de
ar, e...”

Jordan balança a cabeça. “E há complicações,” e termina


por mim.

Afastando-se, ela olha para longe, e nenhum de nós tem


certeza do que fazer. O problema veio para ficar.

“Eu precisava de tempo para pensar esta noite,” explico.


“Desculpe, tentei...”

“E o que descobriu?” Ela deixa cair os olhos, quebrando a


porra do meu coração. “Com todos esses pensamentos?”

Não hesito, porque sei que não posso parar. “Que posso
adiar me sentir culpado até amanhã.”

Alcanço seus lábios e a beijo com força, sentindo-a


lentamente derreter contra mim e pressionar o corpo no meu.
Calor me enche, e fico duro, movendo as mãos por suas costas,
agarrando sua bunda e tirando sua perna no chão. Espalho
beijos pelo seu rosto e pescoço, e ela deixa a cabeça cair para
trás, dando-me acesso enquanto a pressiono no carro e mordisco
sua garganta e clavícula.
“Pike, alguém vai nos ver,” Jordan implora.

Mas estou tão faminto por isso. A alça de seu sutiã desce, e
tomo seu seio na boca, provando seu sabor.

Jordan engasga. “Pike. Oh Deus...”

Ela geme enquanto beijo e chupo-a, mordiscando seu


mamilo.

“Jesus, temos que chegar em casa,” gemo. “Ou te foderei


bem aqui.”

“Ei, Pike,” alguém chama.

Beijo-a novamente e Jordan geme, envolvo-a nos braços,


tentando esconder seu corpo mal vestido.

“Merda,” rosno e viro a cabeça, vendo Ben Lovell em seu


carro de polícia, parando ao nosso lado. Como não o ouvimos
chegar?

“Bem,” digo, respirando com dificuldade. “Que diabos


aconteceu?”

Ele faz um péssimo trabalho em esconder sua diversão


quando responde: “Apenas fazendo minhas rondas, homem,” diz
ele. “É a garota do Chip Hadley que tem aí?”

“Não é da sua conta.” Movo-me, tentando me certificar que


Jordan fique fora de sua vista.
Mas ele continua tentando espiar. “Você está bem,
querida?” Pergunta, ainda sorrindo.

Ela envolve os braços ao meu redor, cobrindo sua nudez


quando diz por entre os dentes. “Hum, sim, senhor.”

Ele ri e balança a cabeça. “Bom Deus,” ele murmura


baixinho, movendo a viatura e seguindo em frente.

Espero-o sair do estacionamento antes de virar para


Jordan. “Não se preocupe. Ele ficará quieto.”

Lovell não é de fofocar.

Ela rapidamente puxa a alça e cruza os braços sobre o


peito, olhando em volta, nervosa.

“Vamos.” Pego sua mão, levando-a para minha


caminhonete. “Vamos para casa dar um mergulho.”

“Nus?” Ela provoca.

Abro a porta para ela, balançando a cabeça. “Não,”


respondo. “Use a lingerie. Estou morrendo por uma chance de te
despir."

Jordan sorri e sobe no banco, eu contorno o carro e abro a


porta. Ela pega o celular, provavelmente, avisando sua irmã que
está saindo, e ligo o motor, colocando-o em marcha.

Antes de estarmos fora do estacionamento, Jordan vira


para meu lado e começa a mordiscar meu pescoço.
“Falando de roupas...” ela diz, deslizando a mão dentro da
minha jaqueta e acariciando meu peito. “Posso me acostumar
com você vestido assim.”

“Não,” advirto. “É apenas para ocasiões especiais.”

“E sou uma ocasião especial?”

“Acho que sabe que é,” provoco. “Não saio da minha zona
de conforto por qualquer um.”

Dou um sorriso, nem um pouco irritado que ela virou meu


inteiro e cuidadosamente mundo chato de cabeça para baixo.
Estou fazendo coisas que normalmente não faria só para agradá-
la, mas Jordan também está me fazendo sentir coisas que não
sinto há muito tempo. Algumas delas, nunca senti. Na verdade,
hoje pela manhã me peguei criando uma lista na cabeça de todas
as coisas que quero fazer com ela. Leva-la a jogos de beisebol e
viagens, e realmente vasculhei a porra do eBay buscando fitas
cassetes dos anos 80 para surpreendê-la já que ainda estarei por
perto nos feriados e seu aniversário no próximo ano.

Jordan me enche de expectativa com o futuro. Seja lá o que


for.

Viro para ela, tentando manter um olho na estrada e beijá-


la, ao mesmo tempo, mas simplesmente acabo rindo.

“Comporte-se. Você vai me causar problemas.”

Ela recua e se senta, colocando o cinto de segurança.


“Oh,” digo, encarando-a, “e eu sei que Mick quer contratá-
la. Você não vai trabalhar lá. Entendeu?”

Ela repousa a cabeça no assento, olhando pelo para-brisa.


“Oh, você está mandando agora?”

“Não gosto de me preocupar. Isso fica decidido agora.”

Realmente não acho que ela considerou essa opção, mas


gosto das coisas resolvidas.

Jordan simplesmente dá de ombros. “Minha irmã faz um


bom dinheiro. Não prejudica ninguém, e não vou deixar ninguém
me tocar.” Ela faz uma pausa e, em seguida, continua. “Acho que
farei o que tiver que fazer. Realmente não preciso de sua
permissão, sabe?”

Ergo as sobrancelhas, minha irritação aumenta por esta


situação.

Mas então lembro quão forte ela teve que ser puxada para o
palco esta noite, obviamente, decidindo que um concurso de
camiseta molhada não é para ela, não importa se está vestida
para isso ou não.

Deixo escapar um bufo, lembrando a maneira como ela


protestou. “Nem sei por que estou preocupado,” digo com a minha
voz cheia de humor. “Você é uma boa menina. Não tem o que é
preciso para trabalhar lá.”

“Não sou uma menina.”


Pressiono os lábios juntos para parar de sorrir, mas é
difícil. Eu sei, eu sei, ela é uma mulher.

“E se Dutch, Jay ou qualquer um dos caras que trabalham


para mim forem lá?” Pressiono. “Será capaz de usar um biquíni
por trás do bar e servir bebidas, ou pior ainda, tirar a roupa e
dançar para eles? Deixá-los te tocar? Sentar em seu colo e se
esfregar neles por quarenta dólares?”

Não posso deixar de rir silenciosamente com a noção do


ridículo. Se ela realmente pensar sobre isso e mentalmente se
colocar nessa situação, saberá que é um absurdo.

Jordan vira a cabeça em minha direção. “Está rindo de


mim?”

“Estou dizendo que te conheço,” digo, amenizando meu


tom. “Você e eu sabemos que não tem coragem, então vamos
parar de perder tempo discutindo sobre algo que nunca
acontecerá.”

Ela encara a frente e fica em silêncio, mas vejo sua


mandíbula tensa enquanto olha pelo para-brisa. Supondo que
conheço sua mente mais do que ela, provavelmente, está sendo
infantil. Ela tem mais bom senso do que isso, e não gosto de
jogos. Jordan sabe que nunca será capaz de lidar com os clientes,
e ela definitivamente não pode se despir e dançar nua.
Provavelmente ficará tão envergonhada de ser olhada que
acabaria chorando.

Sete minutos depois, porém, paro na entrada, e ela desce


antes que eu sequer desligue o motor.
“Jordan?” Chamo, abrindo minha porta.

Que diabos? Não estamos brigando de novo, não é?

Mas ela olha por cima do ombro enquanto caminha em


direção a varanda. “Só vou colocar meu maiô.”

Fico lá, girando o chaveiro no dedo. Oooook.

Tenho uma sensação estranha na parte de trás do meu


pescoço, e viro a cabeça, procurando o carro de Cole ou da sua
mãe. Então olho as janelas das casas próximas procurando por
cortinas abertas ou movimento.

Tenho certeza que ainda não há fofocas no quarteirão.

As pessoas percebem as coisas, e Cole raramente está aqui,


enquanto sua namorada e eu estamos constantemente juntos.
Não vai demorar muito para as pessoas chegarem a suas próprias
conclusões.

Quando entro em casa, Jordan está longe de ser vista. Indo


para o andar de cima, passo pela porta fechada do quarto e vou
para meu quarto pegar uma sunga. Ela ainda está em seu quarto
quando saio e vou lá embaixo pegar algumas garrafas de água e
acender as luzes do quintal. A piscina se ilumina, então ligo o
rádio debaixo do armário, uma garota canta sobre caras e
considero trocar a estação que Jordan ouvia antes.

Meu telefone toca, e ando até a ilha para pegá-lo.

Jordan. Por que ela está me chamando no FaceTime?


Atendendo, vejo-a aparecer na tela, Jordan está me
olhando com o telefone apoiado em algo menor do que ela. Como
sua mesa. Seu cabelo está solto, e realmente não posso ver
qualquer outra coisa que não seja o brilho da luz do teto.

“O que está fazendo?” Pergunto, levando o telefone para a


sala de estar.

Mas ela permanece em silêncio.

Sento no sofá, inclinando os cotovelos sobre os joelhos e a


olho. Um pequeno sorriso atinge seus lábios, e ela move a cabeça
para a esquerda e depois à direita, e posso dizer que está
brincando comigo. Jordan se levanta, e perco de vista o rosto,
mas seu corpo bonito surge, e vejo que ela está vestindo o biquíni
minúsculo.

Meu coração perde uma batida, e tenho que lutar contra


um sorriso. Seus seios aparecem pelo pequeno tecido rosa, e as
cordas finas são delicadas em sua pele bronzeada. Quero pedir-
lhe para virar, mas prefiro tê-la aqui.

A tela oscila, e vejo que ela está reposicionando o telefone


mais para trás, e quando aparece de novo, posso ver parte da
mesa, seu corpo e rosto. Ela se inclina na mesa, dando-me um
olhar sedutor, com os braços pressionando no corpo e,
coincidentemente, sobre os seios.

Meu sorriso aumenta. “Então, Jordan?”

“Não sou uma criança,” diz ela, com um sorriso sacana.


Um sentimento de ansiedade me domina, e sei que isso é
bom demais para ser verdade. Ela está me provocando, e não vai
parar agora.

Suspiro e me reclino no sofá. “Então pare de agir como


uma,” respondo.

Jordan olha para baixo, prendendo-me com os olhos


desafiadores. “Não sou uma criança,” ela repete.

E vejo quando leva uma mão para trás de seu pescoço e a


outra para trás das costas e puxa ambas as cordas, as peças
patéticas de tecido caem do seu corpo direto para o chão.

Engulo em seco com a visão. Ela faria isso, porra.

Seus mamilos duros se destacam, e a pele em minhas


palmas repuxa com a memória dela em minhas mãos. Meu
estômago vira, e meu pau incha com necessidade.

Por favor, não faça isso comigo.

Mas não consigo desviar o olhar.

Não posso ouvir a música em seu quarto, ou talvez ela


esteja abafada pelo som na piscina, mas Jordan começa a
balançar os quadris, fechando os olhos e passando as mãos
subindo, descendo, por todo o corpo, rosto e cabelo. Ela parece
com uma sobremesa.
Mordendo o lábio inferior, ela brinca comigo, acariciando
seus seios e deslizando as mãos pelo estômago e brincando com o
biquíni, ameaçando tirá-lo.

Ela me provoca com os olhos e a promessa de ver algo bom.


Como uma stripper.

Finalmente entendo, e sei o que ela está fazendo.

Balanço a cabeça, meu corpo ardendo por ela. “Não pode


fazer isso,” brinco.

Ela não pode tirar a roupa e dançar.

“Você está certo,” ela diz, virando e me olhando por cima do


ombro. “Não posso fazê-lo. Sou apenas uma menina, certo? Uma
menina boba.”

Ela me encara novamente, dando-me um sorriso tímido


enquanto inclina a tela para baixo, e percebo que ela está
ocupando o canto arredondado da mesa. Ainda de pé, ela coloca
uma mão na mesa e outra na parede, eu acho, com o canto da
mesa descansando entre as pernas.

E vejo como ela lentamente começa a foder com ele. Seus


quadris se movem e sua barriga acompanha os movimentos,
posso ouvir o atrito do tecido enquanto ela roça sua buceta
contra a madeira.

Jesus. Meu peito sobe e desce mais rápido quando a vejo


fazer a coisa mais linda que acho que já vi. Deus, adoro vê-la.
Seus seios balançam com o movimento, saltando um pouco
quando ela começa a se mover mais rápido, e minha boca está
tão seca que não consigo engolir.

“Quer me ver fazer isso?” Ela brinca, os grandes olhos me


dizendo que ela sabe muito bem que gosto do que estou vendo.

“Pare de brincadeira e desça aqui.”

Jordan deixa cair a cabeça para trás em vez disso, correndo


os dedos pelo rosto e corpo, pegando um seio e apertando-o antes
de arrastar a mão pela barriga.

“Disse que tenho um vibrador,” ela diz, olhando para mim


de novo. “Não vou usá-lo, no entanto.” Ela aumenta a velocidade,
e posso ouvir que o atrito se intensifica. “Gosto de estar no
controle. Gosto de perseguir o prazer, como se estivesse
transando com um pau de verdade.”

Lambo meus lábios. “Jordan…”

“Shhh...”

Ela abre a boca, gemendo, e então levanta um joelho,


colocando-o sobre a mesa para afastar as pernas. Suor reveste
minha testa, e sento, inclinando-me novamente.

“Gosto de você me observando,” diz ela. “Você sempre me


observa, não é? Sempre quis ter sua diversão comigo.”

Vacilo, sabendo que o que ela diz é verdade. Desejo-a desde


a primeira vez que a vi.
“Está tudo bem,” ela sussurra. “Eu sempre soube, e gostei.
Continue assistindo-me, Sr. Lawson.”

Engulo, minha boca ainda seca. “Eu estou,” consigo ofegar.

“Oh, Deus,” ela geme.

Meus olhos ardem, e estou desesperado para piscar, mas


não posso afastar o olhar dela. Quase posso sentir. Como se o
canto da mesa fosse meus dedos, ela me usa, sua carne macia
roçando contra minha mão. Ou a porra da minha boca, não me
importo. Nunca estive tão ciumento de um objeto inanimado.

“Mova o telefone para a cama,” digo a ela. “Quero vê-la por


trás.”

Ela retarda os movimentos, tremendo e respirando com


dificuldade, e posso dizer que interrompi seu prazer.

Oh, bem, ela terá que trabalhar mais para chegar perto
novamente.

Movendo o telefone para a cama, Jordan o apoia contra


algo e rapidamente olha para trás e para frente entre a tela e a
mesa para se certificar de que tenho visão, e, em seguida,
caminha de volta para a mesa de canto.

Passando os dedos pelo cabelo, ela me olha por cima do


ombro, sorrindo. Aperto meu punho, ansioso para tocá-la.

Mas antes que levante o joelho de novo, Jordan desliza os


dedos sob o biquíni e o abaixa. E os deixa lá. Apoiando as mãos
na mesa, ela se inclina, levanta o joelho, e me olha, projetando a
bunda para cima enquanto volta a foder com a madeira.

De costas, seu cabelo caindo pelas costas, sua maneira de


se mover, provocando... ajusto meu pau, agora dolorosamente
duro e pronto. Com essa visão, estou morrendo.

“Mmmm, isso é o que gosto,” ela geme, encontrando meus


olhos por cima do ombro. “Olhe-me. Veja eu me foder para você.
Vou fazer o que diz. É tudo para você.”

Ela se move, mais forte e mais rápido, e não tenho certeza


se quero sua buceta na minha boca ou no meu pau primeiro. Vou
levá-la por trás esta noite. Tenho que tê-la assim.

“Jordan...” O telefone treme na minha mão.

“Você gosta?” Ela provoca. “Gosta quando brinco comigo


mesmo por você?”

“Baby.” Levanto do sofá.

Preciso dela.

“Mmmm, gosto de você observando,” ela geme. “Estou


sendo boa agora?”

Não tiro os olhos dela enquanto subo as escadas.

“Gostaria que houvesse mais de você me observando,” diz


ela, “Desejando-me.”
Se houvesse mais de mim, ela teria um grande problema
hoje à noite.

“Pike, estou tão molhada. Pode entrar direto em mim."

Meu pau pulsa, e encontro sua porta, girando a maçaneta.

“Você gostou?” Ela se move mais rápido. “Estou tão quente


e molhada para você.”

A porta está trancada, e giro novamente, morrendo de


vontade de entrar.

“Jordan?” Digo, minha paciência inexistente. “Abra a


porta.”

“Oh, Pike. Oh Deus."

Olho a tela novamente, vendo seu cabelo perto de tocar a


bunda, enquanto ela joga a cabeça para trás e fode com a mesa.
Deus, sua bunda...

“Mais, mais, mais, mais...” ela choraminga. “Estou perto.


Oh Deus. Sim!”

“Jordan, merda...” Fico próximo a porta, pronto para


derrubá-la. “Abra a porta.”

Não goze sem mim.


“Foda-me!” Ela grita, gemendo e choramingando. “Sim!
Sim! Sim! Sim!”

Sua voz fica mais baixa e calma enquanto se move, gozando


do outro lado da porta e sem mim.

“Jordan?”

Maldição, não quero que esteja satisfeita ainda.

Mas a porta não abre, e quando olho o telefone, seus


movimentos pararam, apenas um leve roçar e pequenos suspiros
saem dela. Vou dobrá-la sobre a porra da mesa agora.

“Jordan, Jesus, abra a porta,” ordeno.

Ela se endireita, colocando o pé de volta no chão e


arrumando o biquíni. Caminhando para a cama, ela se inclina e
encontra meus olhos, um olhar sonhador no rosto.

“Eu adoro ver o quanto gosta disso,” ela diz, um olhar doce
de contentamento no rosto. “Adoro ver que posso prender sua
atenção. E não só posso fazer isso, Pike, mas acho que gosto
também.”

Seus lábios formam um pequeno sorriso.

Giro a maçaneta novamente. “Jordan, abra a porta.”

Ela só nega com a cabeça. “Eu gostaria, baby, mas...” Ela


suspira. “A dança foi longa, e não tem permissão para tocar nas
meninas.” E então ela pisca para mim. “Boa noite, querido.”
A luz na tela some quando ela encerra a chamada, e todo o
corredor de repente fica escuro. Fico ali, tentando descobrir se ela
está realmente fazendo o que acho que está, quando a luz debaixo
da porta some, bem, e percebo que ela apagou as luzes.

Ela vai para a cama?

Forço a porta. “Jordan,” resmungo. “Que porra é essa?”

Ouço uma gaveta abrir e fechar e, em seguida, o ranger da


cama recebendo peso. Depois de alguns momentos, não há sons,
e meus piores temores se tornam realidade. Tenho uma furiosa
ereção. O que ela fará se eu arrombar a porta? Merda!

Deixo minha testa cair contra porta, e estou a ponto de


foder minha pose de macho alfa e chorar.

“Quando eu te pegar, não vai ser bonito,” advirto. “Isso é


uma promessa. Pode acreditar.”

Meu telefone toca, olho para baixo e vejo a tela.

Vá para a cama, o texto diz.

Meu estômago torce, e estou a meio caminho entre descer e


colocar música tão alto que ela não poderá dormir enquanto
desconto parte da frustação na piscina ou ter outra briga para
tirá-la da cama.

É tarde, porém, e se brigarmos agora, durará horas. Tenho


minha mão e Internet, não é? Embora não precise de pornô
quando apenas a memória dela me deixa duro.
Vou para meu quarto, fecho a porta e caio na cama,
esfregando minha virilha dolorida.

Outro texto soa.

Cerro os dentes e jogo o telefone de lado, ouvindo-o bater


no armário e cair no chão.

É melhor eu acordar e encontrá-la no meu pau na parte da


manhã ou ninguém estará seguro.
Capítulo 21

Jordan

Não demorou tanto tempo para cair no sono na noite


passada como eu pensava. Momentos depois que enviei minha
última mensagem, ouvi algo bater na parede no quarto de Pike, e
eu meio que me senti um pouco mal, mas também sorri,
sentindo-me um pouco poderosa. Fazer joguinhos com ele não
era meu objetivo, embora eu amo que nós somos bons em irritar
um ao outro.

Eu simplesmente queria mostrar a ele que sou capaz de


mais do que ele pensa de mim, e não aprecio pessoas me dizendo
o que está na minha própria cabeça.

Então, quando ele tentou entrar no quarto, eu o queria


muito — suas mãos, sua boca, suas palavras — mas sempre
perdoo facilmente, e eu não quero ser essa garota mais. Mesmo
que Pike seja um dos bons — e tenho certeza que ele é — eu
precisava provar para mim mesma que valho a pena o trabalho e
a espera. Era necessário elevar meus padrões de qualidade e não
dar a todos o que eles querem de mim tão facilmente. Sou uma
tarefa simples já faz muito tempo. Jay, Cole, meus pais...

E eu adormeci, orgulhosa por ser mais forte.


Agora, hoje, por outro lado... Ele pode me dominar tanto
quanto quiser, porque eu não posso esperar mais também.
Depois de dizer-lhe para manter as suas mãos longe na noite
passada, eu me forcei a fazer o mesmo hoje, e a primeira coisa
que farei quando o ver é retirar sua camisa, porque eu amo o jeito
que ele parece apenas usando o jeans.

O clima está quente hoje, mas há uma leve cobertura de


nuvens, mantendo o calor preso, e eu deito de bruços aqui fora
na grama, ouvindo Don Henley no leitor de cassetes enquanto
folheio o catálogo dos cursos de outono na minha universidade.
Eu já me registrei para o próximo semestre, mas estou pensando
em adicionar outro curso.

Minhas pernas, cruzadas nos tornozelos, balançam para


trás e para frente no ar atrás de mim, mas então meu telefone
toca, e o pego da grama. Olhando para a tela, eu franzo a testa.

O que Dutch quer?

Atendo e aproximo o telefone do meu ouvido. “Alô,” eu digo.


“Tudo certo?”

Minha mente suspeita é imediatamente atraída para Pike e


algum acidente horrível com qualquer uma das máquinas com
que ele trabalha.

“Uh, sim, desculpe incomodá-la,” ele me diz. “Você sabe o


que há de errado com Pike hoje?”

“O que você quer dizer?”

“Bem, ele está no pior humor,” ele lamenta. “Todo mundo


tem medo de chegar perto dele. Ele está gritando com todos, já
enfiou cerca de oitenta grampos em cada placa que ele pregou, e
então acidentalmente aceitou o carregamento de madeira errado,
o que provocou um chilique realmente interessante que me fez
lembrar da minha filha de doze anos. Está estranho.”
Eu bufo, mas então pressiono minha mão sobre a boca
para sufocá-lo.

“Humm...” procuro as palavras, minha garganta grossa


com o riso. “Não faço ideia, na verdade.”

Na verdade, eu tenho uma ideia muito boa.

“Bem, esconda-se, querida,” diz ele. “Ele está a caminho de


casa, e não sei que diabos é o problema dele.”

Meu corpo treme com a risada silenciosa, e então, eu vejo a


caminhonete de Pike rugindo pela rua. Até mesmo o motor soa
irritado.

“Ok,” digo a Dutch. “Tenho que ir.”

Eu desligo, sem esperar por seu 'adeus', e vejo quando Pike


vem rapidamente subindo na calçada em frente a garagem,
parando com uma freada brusca. Olhando para o meu telefone,
eu vejo que é apenas quatro horas da tarde. Ele chegou cedo.

Pike olha para mim na grama, e seus olhos se concentram


nessa direção, a raiva e intensidade flui deles como se eu
estivesse prestes a levar a grande surra que mereço.

Mantenho um olhar tímido no rosto e arqueio as costas,


empurrando para cima a minha bunda, e depois diminuo o
balanço das minhas pernas de maneira que chame sua atenção
para o meu corpo.

Pike sai da caminhonete e fecha a porta, e não posso


esconder meu sorriso de satisfação quando ele se aproxima,
nenhum de nós capaz de desviar o olhar.

“Eu não estou rindo,” ele aponta severamente. “Agora entre


e tire suas roupas. Eu tive um dia inteiro para sonhar com o
parque temático que farei do seu corpo esta noite, garota.”
A onda de excitação se aloja em meus pulmões, e eu não
posso respirar. Posso ver todas as promessas do que está por vir
em seus olhos, e não posso mentir ou brincar mais com ele. Eu
quero também.

Segurando seu olhar, eu me levanto, e seus olhos derivam


pelo meu corpo enquanto lentamente volto para a casa.

E ele se move, me seguindo.

Mas então uma voz ultrapassa seus ombros,


interrompendo-nos. “Pike, oi!” Uma mulher chama.

Nós dois paramos, e eu vejo a Sra. Taft, umas das vizinhas,


de pé atrás dele.

“Como tem passado?” Ela pergunta.

Pike exibe uma reação irritada, fechando os olhos, e ele


parece perto de bater em algo. Meu estômago treme com diversão
que eu não posso revelar.

Ele rapidamente se vira, mostrando um sorriso falso.


“Constance, oi,” ele diz, quase soando animado. “Eu estou bem.
Apenas... ocupado.”

Ela balança a cabeça e olha sobre o ombro dele. “Ei,


Jordan.”

“Oi, Sra. Taft.”

Ando até o lado de Pike, deslizando minhas mãos nos


bolsos.

Ela passa a mão pelo seu rabo de cavalo marrom,


segurando a coleira do cão da raça King Charles que ela levou
para passear desde que saí para deitar na grama meia hora atrás.
Ela olha para Pike. “Então, não vi muito o seu filho por aí.”
“Oh sim. Ele está... um... ocupado também,” gagueja Pike,
tentando inventar alguma desculpa. “Está tudo bem?”

“Bem, eu fiquei sabendo que Jordan pode trabalhar como


babá.” Ela olha para mim. “Algum interesse? Há uma festa de
inauguração no outro lado do rio na casa do Kuhl,” ela diz a Pike.
“Você devia vir comigo. Relaxar. Eu só preciso de alguém para
cuidar das crianças.”

“Hoje à noite?” Ele deixa escapar.

Mas ela não lhe responde, apenas olha para mim


novamente. “Jordan, o que acha? Eu sei que você não tem quinze
anos mais, mas achei que valia a pena tentar.”

“Sim claro —”

“Não,” Pike interrompe.

Fecho meus olhos por um momento. Jesus, Pike. Isso foi


realmente suave e totalmente não óbvio.

Constance olha para ele surpresa.

“Ela tem aula na parte da manhã,” ele rapidamente explica.

Sim, eu tenho aula em um domingo.

“E, uh, tarefas para fazer em casa,” ele acrescenta,


lançando-me um olhar severo, “que ela foi muito má e não fez.”

Sim, Sra. Tate. Depois de lavar os pratos, eu preciso transar


com o Sr. Lawson, então...

“Desculpe,” ele diz a ela.

Ela olha entre nós, e sabe que algo está acontecendo,


porque Pike está sendo estranho agora, mas ela lida com isso com
classe.

“Oh, não se preocupe,” ela diz. “Talvez outra hora.”


Dou-lhe um sorriso e aceno, tentando me recuperar do meu
embaraço e agradecida quando ela finalmente se afasta.

Pike e eu ficamos ali por um momento, e estou tentando


avaliar, se eles não estão falando de nós ainda, no entanto,
estarão depois disso.

“Sr. Lawson...” eu repreendo, balançando a cabeça.

Viro-me e começo a andar para casa, e quando olho para


trás, ele está me seguindo, seus olhos presos em mim.

“As pessoas estão observando,” eu digo. “É melhor você não


me seguir para dentro. Isso vai parecer estranho.”

Vejo seus olhos seguirem para esquerda e direita,


observando os vários vizinhos que trabalham em seus quintais,
brincando com seus filhos do lado de fora, ou sentado em suas
varandas. Eu realmente não me importo, mas sei que ele sim.

Com seu longo passo, ele está logo atrás de mim


rapidamente, e já sinto o formigamento em todo meu corpo
quando apressadamente abro a porta e entro. Seu corpo me força
para dentro, a porta se fecha atrás de nós, nos protegendo do
mundo exterior, e Pike me gira e me puxa para seus braços. Eu
tenho apenas um momento para tomar fôlego antes da sua boca
encontrar a minha, uma de suas mãos segurando a parte de trás
da minha cabeça, e o outro braço em volta da minha cintura,
pressionando-me contra ele com tanta força que eu mal posso
respirar.

Mas Deus, eu não me importo. Estou quente e cercada por


seu cheiro, e Pike parece tão irracional que está me levando com
ele. Envolvo meus braços no seu pescoço, abro minhas pernas
enquanto ele me levanta e prendo meus tornozelos atrás das suas
costas.
“Merda, baby, estou sujo,” ele diz, ainda devorando meus
lábios. “Eu deveria tomar um banho.”

“Vamos tomar um depois,” eu gemo, afastando-me apenas


um pouco.

Ele me leva para a cozinha e me põe sobre a mesa. Puxo


sua camisa para cima passando por sua cabeça, interrompendo o
beijo por apenas um momento antes de nossos braços voltarem
para onde estavam. Ele se inclina para mim, forçando-me um
pouco para trás quando ele aprofunda o beijo.

“Eu não podia esperar para chegar em casa,” ele sussurra.


“Você não sabe o quanto eu tentei me controlar hoje.”

“Quanto?” Cuido do seu cinto, com pressa de tirá-lo.

“Estive no pior humor fodido,” ele resmunga. “Não


conseguia tirar você da minha cabeça. Tudo que eu queria era
isso.” E suas mãos descem sobre minhas costelas, e ele me
empurra para trás e força minha camisa e sutiã por cima meus
seios. Eu deito na mesa, e ele avança, mordendo e lambendo
meus mamilos.

Fecho meus olhos e gemo, contorcendo-me sob ele e


arqueando as costas, não tenho certeza se estou tentando chegar
mais perto da sua boca, ou se é demais para aceitar. Posso sentir
seus lábios por todo meu corpo até os dedos dos pés.

Calor enche minha buceta molhada, e eu observo os


movimentos da sua língua quente sobre meu mamilo endurecido,
meu clitóris pulsa tão forte que não posso respirar. Eu oscilo,
uma explosão de prazer rompe meu corpo e aquece meu interior.
Meus olhos reviram, e eu grito.

Merda! Merda, merda, merda...

Eu tremo, abrindo os olhos, um pouco em choque.


Olho para Pike, que está olhando para mim. “Você acabou
de gozar?” Ele pergunta, seus olhos arregalados de surpresa.

Engulo com dificuldade, minha boca de repente seca, e


aceno. “Sim. Eu acho que sim.”

Suas sobrancelhas levantam. “Você gosta de beijos nos


seios, hein?”

“Gosto quando você beija qualquer lugar em mim.”

Pike se levanta e me puxa para ficar de pé, segurando meu


olhar enquanto desabotoa meu short. “Você estava tão incrível na
noite passada.”

Meus olhos se iluminam. “Então, eu fui bem, hein?” Talvez


eu tenha uma artista em mim afinal de contas.

Mas Pike ergue apenas uma sobrancelha. “Não tenha


ideias. Não será assim com qualquer outra pessoa.”

Meu short cai no chão, ele me gira rapidamente, então


coloco minhas mãos sobre a mesa para me sustentar. Eu ouço
uma embalagem sendo rasgada, em seguida, o barulho de seu
cinto quando ele abre sua calça jeans. Minhas coxas tremem, tão
excitada com o que está por vir. Graças a Deus as cortinas estão
fechadas.

Arqueando as costas, eu abro as minhas pernas para ele e


olho por cima do meu ombro. “Desculpe-me por fazer aquilo com
você ontem à noite,” digo.

Pike puxa o pau para fora da calça jeans e coloca o


preservativo, e depois aproxima, envolvendo uma mão ao redor do
meu pescoço e me beijando com força.

“Bem, realmente não sinto muito, eu acho,” ofego contra


seus lábios. “Isto faz valer a pena.”
Claro que sim. Ele está tão sexy agora. Bem, ele sempre é,
mas...

Puxando minha calcinha para baixo, ele me agarra, onde


minha coxa encontra o meu quadril e orienta seu pau para a
minha entrada. Uma vez que está posicionado, ele puxa meus
quadris contra ele, e eu sou quase partida em duas, ofegando e
estremecendo enquanto seu pau desliza dentro de mim.

“Oh, meu Deus,” choramingo, minha cabeça abaixa, porque


estou tremendo muito.

Pike não me dá tempo para me recuperar, e tudo o que


posso fazer é agarrar a mesa enquanto ele segura firme e me fode.
Eu levanto o meu joelho direito sobre o tampo da mesa e inclino
para frente um pouco mais, seu pau deslizando mais profundo e
fazendo-me gemer.

Ele ofega forte, grunhindo no meu ouvido, e suas mãos


estão por todo o lugar que ele consegue alcançar, uma mão
aperta meu peito e a outra entre as minhas pernas para esfregar
meu clitóris.

“Você pode gozar novamente mais tarde, certo?” Pergunto


sobre meu ombro.

“Você está me insultando,” ele resmunga em minha orelha.


“Você acha que eu não posso continuar com você?”

“Eu realmente quero...”

“Quer o quê?”

Abro a boca, sussurrando contra seus lábios enquanto


nossos corpos se encontram repetidamente. “Eu quero te
chupar.” Esfrego meus lábios nos dele, provocando-o. “Eu quero
sentir você na minha boca.”
Pike exala forte, mostrando irritação e fechando os olhos.
“Jordan...” ele balança a cabeça quase como um aviso.

Eu o beijo, nossos lábios pairando um sobre o outro


enquanto o suor desliza pelas minhas costas. “Você quer seu pau
em minha boca?” Sussurro.

Ele morde meu lábio inferior suavemente e solta. “Diga isso


de novo.”

“Quero chupar seu pau,” digo novamente.

Seu pau me bate como um martelo, e eu contraio os dedos


dos pés, sentindo meu orgasmo surgir.

“Quero lambê-lo,” eu sussurro, “provar você e fazê-lo


gozar.”

Seus dedos afundam na minha carne e minhas coxas doem


onde continuam a bater na mesa, mas Pike está me fazendo gozar
novamente, e nada no mundo jamais pareceu tão bom. Estou
quase lá.

Deslizo minha língua sobre seu lábio, sentindo o fogo


espalhar por minhas coxas e agitar meu interior. “Por favor?” Eu
sussurro, afastando-me do seu pau e perseguindo-o, também.
“Foda minha boca hoje à noite?”

“Jordan, Jesus!” Ele grita, e agarra meu ombro perto do


pescoço e me bate tão forte, que eu não posso falar, mesmo se
quisesse.

Nós dois gozamos, meus dedos ficam brancos enquanto eu


afundo minhas unhas na mesa de madeira, tensionando, e
contraindo todos os músculos do meu corpo.

“Pike!” Eu grito. “Oh, Deus.”

Solto-me sobre mesa, envolvendo meus braços sob minha


cabeça, fecho os olhos e sinto-o pulsar dentro de mim. Sua mão
está apoiada ao lado da minha cabeça, e ele paira acima,
respirando com dificuldade e empurrando em mim mais algumas
vezes.

Quero que ele goze dentro de mim. Eu quero que ele se


derrame em mim, e quero sentir isso. Estou tomando pílula, e
sou saudável. Assim que descobrir que ele é saudável também,
vou dizer a ele que os malditos preservativos podem ir para a
porra do lixo.

Posso ameaçá-lo através de vídeo novamente se sua


frustração reprimida me fizer gozar assim.

Alguns momentos depois, minha respiração volta ao


normal, e estou esgotada.

“Você sabe que estou brincando, certo?” Digo a ele. “Eu


sempre atuarei para você.”

Sua mão desliza pelas minhas costas úmidas, e eu o ouço


inalar como se estivesse prestes a falar, mas então há uma batida
na porta.

“Jordan!” Uma voz grita. “Jordan, você está aqui ou não?”

Nós dois saltamos, o meu coração acelera. Cam.

Pike sai de mim, e eu deslizo minha calcinha para cima,


apressadamente lutando com meu sutiã e camisa. Ouço a lata de
lixo sendo fechada, e depois Pike está ao meu lado quando ele se
apressa para colocar sua camiseta no lugar e eu arrumo minhas
roupas.

Mas então a porta da frente abre, e eu ouço a voz de Cam.


“Jordan!” Ela chama dentro da casa.

“Que porra?” Pike resmunga baixinho, me jogando um


olhar assustado assim que Cam entra na cozinha.
Pike dá alguns passos longe de mim, passando a mão pelo
cabelo enquanto eu fecho meu short.

Cam olha para nós, seus olhos seguindo entre Pike e mim e
claramente visualizando nossa desordem.

“Oi,” diz ela, um tom de suspeita em sua voz.

Lambo os lábios secos, tentando recuperar o fôlego. “Oi,” eu


digo também. “Então, você simplesmente entra nas casas das
pessoas agora?”

“Eu estava batendo na porta e tocando a campainha,” ela


explica, o choque desaparece e agora substituído por diversão. “Vi
os dois carros lá fora, então eu sabia que estava em casa.”

Um silêncio desconfortável segue enquanto ela olha para


Pike com um sorriso em seus olhos e para mim com as
sobrancelhas levantadas.

Pike parece que quer escapar. Ele endireita sua postura,


apontando o polegar para o quintal. “Eu vou jogar algumas
salsichas na grelha para o jantar.”

E rapidamente pega um pacote da geladeira e segue para o


quintal.

Assim que ele sai, a boca de Cam cai aberta, arregalando os


olhos em mim. “Oh, meu Deus!” Ela fala.

“Shhh...” digo a ela, lançando um olhar preocupado na


direção onde Pike saiu.

“Você está falando sério? Como foi?” Ela vem até mim e
desliza seu polegar sobre a minha testa úmida. “Bom, hein?”

Não posso evitar, mas deixo escapar uma risada tímida,


porque não sei mais o que fazer. Eu não consigo pensar direito
agora.
Tenho certeza que estou corando.

“Ah.” Ela olha para mim com amor, esfregando meu braço.
“Estou feliz por você. É surpreendente, não é? Transar com
alguém que é realmente bom no que faz.”

Sim. Não que Cole era ruim, por si. É apenas diferente com
Pike. Ele está na minha cabeça mais do que ninguém jamais
esteve.

“Bem, divirta-se,” ela me diz, enquanto caminha até a


geladeira e pega um refrigerante. “Só não fique grávida, ok?”

“Por quê?” Deixo escapar, mas então percebo como isso


soou. “Quero dizer, não que eu esteja planejando. Tenho dezenove
anos.” Eu passo por ela. “Mas você não disse isso com qualquer
um dos meus outros namorados. Porque Pike?”

“Porque você está se divertindo,” ela diz, fechando a


geladeira e virando-se para mim. “E isso pode ser tudo o que ele
está fazendo também. Apenas tenha cuidado.”

As palavras são um golpe. Ela está certa? É tudo o que


estamos fazendo?

“Você pode desfrutar de um macho estável que tem uma


carteira de motorista ativa ao mesmo tempo,” explica ela. “E ele
consegue ter uma garota sexy e jovem em sua cama. Aproveite
enquanto durar. Até que a vaca tussa.” Ela cutuca meu queixo
como se eu tivesse cinco anos. “Só não tenha muitas esperanças.
Fique alerta.”

Não aumentar minhas esperanças.

Mas acho que elas já aumentaram quando eu não estava


prestando atenção.

Sinto o cheiro da churrasqueira no quintal, mas não estou


mais com fome.
Capítulo 22

Jordan

Na quinta-feira seguinte eu tenho meu curso de verão, e


Pike me permite usar sua caminhonete. Ele está indo para o
trabalho de carona com Dutch durante toda a semana, então eu
tenho um veículo confiável para me locomover, e ele até mesmo
mencionou a compra de outro carro para si mesmo sob o pretexto
de que ele deve ter algo mais agradável para ‘sair’, mas eu sei que
é apenas a sua desculpa para me colocar dentro de alguma coisa
melhor do que o VW.

Eu recusei. Pike quase terminou de concertar meu carro,


então eu sobreviverei muito mais tempo do que o carro irá durar
e resolverei quando isso realmente acontecer.

Aproximo-me do meio-fio e estaciono a caminhonete fora do


caminho, pois vejo Dutch e Pike na garagem, trabalhando no meu
carro. Na verdade, Pike está trabalhando, e Dutch está acampado
em uma cadeira de gramado nas proximidades, com uma cerveja
na mão.

Pego minha mochila e atravesso a rua e até a nossa calçada

“Ei, pessoal,” eu falo feliz. “Como está indo?”

Pike olha por cima do ombro para mim, os olhos


arrastando-se pelo meu corpo de cima a baixo. Seguro meu
sorriso e ele também quando rapidamente se volta para trabalhar
sob o capô.

Acordei com sua boca se arrastando sobre minha barriga


às duas horas da manhã, terminando entre as minhas pernas e
permanecendo lá até que eu gozei duas vezes.

E então nós não voltamos a dormir até as quatro. O homem


tem mais energia do que posso suportar, e eu estou tão cansada
hoje, mas da melhor maneira possível. Cada centímetro do meu
corpo está sendo bem utilizado, e é difícil se concentrar em
qualquer outra coisa a não ser a necessidade de estar com ele
quando não estou com ele. Não quero me apaixonar.

Quer dizer, eu quero, mas não até que eu saiba exatamente


o que está acontecendo aqui. Cam pode estar certa e isso é
apenas uma aventura.

“Nós estamos bem, querida,” responde Dutch, a lata da sua


cerveja descansando em cima de seu joelho. “Você chegou bem na
hora de testar.”

Passo pelo carro e os caras, e vejo Pike apertar ou soltar


algo com uma chave.

“Sério?” Minhas sobrancelhas juntam. “Está quase


pronto?”

Pike olha para cima. “Em breve.”

Bem, sim. Será bom não precisar pegar carona. Por um


tempo, pelo menos.

“Obrigada,” digo a eles e depois olho para Dutch. “O que


posso fazer para você? Sanduíche? Cerveja? Serviço de babá
gratuito?”
Ele apenas ri. “Ah, tudo bem. Eu vi o quanto a casa está
bem cuidada, por isso Pike deve estar dando muito trabalho para
você já.”

“Oh, você não tem ideia,” eu brinco. “Estou trabalhando


além da minha hora de dormir ultimamente.”

A chave na mão de Pike vacila, e ele perde o controle sobre


o parafuso, atirando-me um olhar.

Prendo meu sorriso entre os dentes e viro, subo os degraus


e desapareço dentro da casa.

Carrego minha bolsa até a cozinha e coloco ao lado do meu


modelo sobre a mesa, e então pego uma garrafa de água da
geladeira e subo para o segundo andar. Pego uma toalha do
armário do corredor, vou até o quarto de Pike e entro em seu
banheiro. O banheiro principal já está reformado, mas eu ainda
não retirei minhas coisas deste, e eu não tenho nenhum plano de
fazer isso.

Fecho a porta e tiro a roupa ficando apenas de calcinha e


sutiã, inicio o aplicativo no meu telefone para tocar Hurts So
Good, e molho minha escova de dente antes de passar creme
dental sobre ela.

A porta se abre, e eu fico ereta, momentaneamente


assustada até eu ver que é Pike.

Ele fecha a porta atrás dele. “Aquilo não foi engraçado,” ele
diz, olhando para mim com severidade.

“Eu não estava tentando fazer você rir,” murmuro com a


escova dentes dentro da boca.

Seus lábios curvam com diversão leve quando ele vem atrás
de mim, me vira e me pressiona contra a pia. “Tentando me jogar
fora da minha zona de conforto, então?”
Eu sorrio.

“Você faz muito isso,” ele acusa, mas sei que ele não está
com raiva.

Encolho os ombros e me viro, cuspindo a pasta de dentes e


enxaguo a boca.

“Eu não posso evitar,” digo, secando minha boca com a


toalha de mão na pia e olho para ele através do espelho. “Não
gosto de sua zona de conforto. É muito apertada lá para nós
dois.”

Suas mãos deslizam ao redor da minha cintura, e ele me


abraça contra seu peito nu enquanto beija meu pescoço. “Mas eu
gosto de lugares apertados,” ele sussurra.

Eu giro e mantenho seu olhar enquanto eu solto seu cinto.


“Você precisa de um banho,” digo a ele. “Ele ainda está aqui?”

Pike pega minhas mãos, me parando. “Sim, infelizmente…”

Vou até o chuveiro, abro a porta e ligo a água.

“Você sabe,” digo a ele, “se sou um problema, eu posso


parar de incomodar. April me ligou hoje. Fez-me uma oferta.”

Ele se vira e cruza os braços sobre o peito, recostando-se


na pia. “April?” Ele repete. “Como ela conseguiu o seu número? E
que tipo de oferta?”

Solto o sutiã, deixando-o cair no chão, e empurro minha


calcinha pelas minhas pernas. Seus olhos percorrem pelo meu
corpo, descansando sobre meus seios – a sua parte favorita – e eu
continuo.

“O irmão dela é dono de uma casa que ele não teve sorte de
alugar,” eu explico. “Ela pensou que seria ótimo me mudar. O
aluguel é barato, em troca apenas de limpar o lugar. Uma casa
inteira só para mim.”
Entro no chuveiro, mas quando tento puxar a porta para
fechar, Pike a segura aberta.

“Bem, isso foi legal da parte dela,” ele diz, sem parecer
realmente feliz.

Pike então começa a desabotoar sua calça jeans, de repente


decidiu se juntar a mim, eu acho.

Concordo com a cabeça inocentemente. “Mmm-hmm,” digo.


“Ela é um anjo. Tão altruísta.”

“Certo.” Ele arqueia uma sobrancelha e entra também,


fechando a porta.

Nós dois sabemos muito bem que eu arruinei a noite dela


quando ela esteve aqui na última vez, então April pode ser ‘útil’ o
quanto quiser, mas o que ela está fazendo realmente é ajudar a si
mesma me tirando do seu caminho.

“E o que foi que você disse?” Pike pergunta, inclinando a


cabeça para trás sob o jato de água e molhando o cabelo.

“Eu disse que pensaria nisso.”

“Mas você pode economizar mais dinheiro ficando aqui por


um tempo,” ressalta. “Eu acho que é melhor. Você não acha?”

Sorrio para mim mesma, ensaboando minha bucha. Seus


motivos não são exatamente altruístas, também.

“Ela estava preocupada que eu pudesse estar


desconfortável,” eu explico. “Nós dois aqui sozinhos...”

Pike me empurra contra a parede, e eu respiro, deixando


cair a bucha. Sua mão mergulha entre as minhas pernas, e ele
levanta meu joelho, abrindo-me para ele. Ele suave e lentamente
esfrega meu clitóris em círculos, fazendo-me pulsar e meus
joelhos ficam fracos.
“Você está desconfortável?” Pike pergunta, com a voz baixa
e rouca.

“Não.” Meu corpo treme. “Mas talvez você sinta falta de ter
o lugar para si mesmo? Talvez ela pensou que eu estava
incomodando.”

Seus olhos aquecidos perfuram os meus, e ele balança a


cabeça lentamente. “Se você sair, eu não tenho tudo que preciso
nesta casa.”

Ele aumenta sua velocidade, pairando a boca sobre a


minha, e então ele desliza um dedo dentro de mim.

Eu suspiro, fechando os olhos, e seus lábios afundam nos


meus, beijando-me suave e lentamente enquanto ele entra no
meu corpo várias vezes.

Sua língua desliza no meu lábio superior, e então ele


sussurra, “Como eu posso não querer voltar para casa e
encontrar isso todos os dias? Tão doce, porra.”

Ele retira seu dedo, então desliza de volta com dois desta
vez, lentos e suaves, enquanto ele me prende contra a parede. Eu
deixo minha cabeça cair para trás, choramingando enquanto ele
observa meu rosto.

Deus, ele é bom. Alcanço entre nós e acaricio seu pau.

“Ela está certa por cuidar de você, Jordan,” Pike diz


mordendo meu lábio inferior. “Você é muito jovem para todas as
coisas fodidas que eu quero fazer com você.”

“Eu não sou tão jovem,” eu provoco. “Sou velha o


suficiente, de fato.”

“Mesmo?” Ele geme, ficando grande e duro na minha mão.


“Calma, baby.”
Pike puxa os dedos para fora, agarra as costas das minhas
coxas e me levanta, pressionando-me contra a parede. Seu pau
está longo, duro e pronto, e eu o sinto provocando minha
entrada.

Sim.

“Ei, Pike!” Dutch grita.

Nós dois levantamos a cabeça, Pike me solta no chão, e ele


vira a cabeça, olhando para fora do vidro fosco.

“Estou no chuveiro!” Ele responde irritado, protegendo meu


corpo de vista.

“Sim, claro,” seu amigo brinca. “Seu telefone tocou algumas


vezes. Parece que é Lindsay. Vou deixa-lo aqui no balcão.”

Pike pressiona seu corpo em mim, então Dutch só vê um só


corpo aqui se ele olhar para o vidro. “Sim, obrigado,” diz ele
secamente.

Mordo meu lábio inferior, sentindo-me impertinente. Eu me


inclino para ele, beijando sua mandíbula e acariciando seu pau.

“Jordan...” ele resmunga por entre os dentes.

Sorrio baixinho.

“Shhh...” Ouço ele me repreender.

“Vou ligar o jogo,” Dutch grita. “Esperarei por você lá


embaixo.”

“Tudo bem.”

Há uma pausa e depois Dutch fala novamente. “Então,


uh... onde Jordan foi? Eu não a vi lá em baixo.”

“Como vou saber?” Pike dispara, perdendo a paciência.


“Quer sair daqui?”
“Ok, tudo bem,” ele diz. Mas então ele acrescenta, “Apenas
diga a ela para não se esquecer de pegar todas as roupas dela do
chão quando sair do chuveiro com você, ok?”

Meus olhos arregalam, minha boca cai aberta, e eu enterro


meu rosto no corpo de Pike bem a tempo de abafar o meu riso.
Ah, merda.

A porta do banheiro fecha, a cabeça de Pike cai para meu


ombro, e o calor do momento deixou de aumentar quando
constrangimento aquece meu rosto.

Obrigada, Dutch.

Eu acordo tarde, sendo empurrada para fora do meu sono e


sinto como se estivesse prestes a cair. Abro os olhos, e vejo que
estou nos braços de Pike. Ele me levanta, um braço sob minhas
costas e um em meus joelhos.

“O que você está fazendo?” Pergunto, fechando os olhos


novamente e aconchegando-me nele.

“Dorme comigo?” Ele pergunta.

Dormir com ele? Pike ainda precisa perguntar? Algumas


noites eu durmo com ele, mas a maior parte, tento passar minhas
noites na minha própria cama no caso de Cole chegar em casa e
ir me ver. Ou pior, entrar no quarto do seu pai e me encontrar lá.
Quero que Cole saiba — não quero esconder isso de ninguém —
mas nós dois concordamos que ele não precisa descobrir assim.

Pike me coloca em sua cama, e eu puxo o lençol sobre


minha calcinha e camiseta.
“Você quer que eu fique nua?” Eu provoco.

“Não, por favor, não.” Ele tranca a porta e, em seguida,


caminha ao redor da cama e sobe no outro lado. “Eu realmente
preciso dormir, e já será difícil o suficiente não ficar duro agora
sem você nua, também.”

Ele levanta o braço, indicando para eu me aproximar, e


então me aconchego ao seu lado, descansando minha cabeça em
seu ombro.

Uma onda de paz cai sobre mim. Isso é tão bom.

Passo os dedos no seu peito e abdômen e depois envolvo


meu braço em torno dele, olhando-o no escuro.

Pike e eu estamos em dois lugares completamente


diferentes em nossas vidas. Ele perguntou-me uma vez o que vejo
nele. Eu poderia perguntar-lhe a mesma coisa.

“O que você está olhando?” Ele pergunta.

Inclino minha cabeça para baixo, esfregando meus lábios


sobre sua pele e pensando. “Eu invejo você.”

“Por quê?”

Encolho meus ombros. “Você acabou por se descobrir, e eu


não,” digo a ele. “Eu me preocupo com tudo. Vou conseguir
sobreviver a universidade? Será que serei quem quero ser? Será
que vou ter amigos e contribuir para o mundo ou simplesmente
acabarei fazendo um trabalho que eu odeio como a minha irmã e
meu pai e todos os outros que conheço?” Olho de volta para ele.
“Todos, exceto você, na verdade. Você dá a impressão de que está
bem onde você quer estar consigo mesmo, e não arrepende de
nada. Eu lamento tudo.”

Eu solto uma leve risada. “Bem, nem tudo,” eu me corrijo.


“Muitas vezes me sinto estúpida, no entanto. Sobre palavras que
eu falo assim que saem da minha boca. Coisas que faço. Decisões
que tomo. Eu sempre duvido de mim mesma. Como talvez eu só
estaria mais feliz se ficasse quieta e mantivesse minha maldita
boca fechada e evitasse conflitos.”

Seu braço aperta em torno de mim. “Mais feliz ou mais


segura?”

Essas não são as mesmas coisas?

Mas não, eu sei o que Pike está dizendo. Um navio no porto é


seguro, mas não é para isso que os navios são feitos.

“Eu acho que você está com medo, porque as pessoas têm
se esforçado muito para fazer você pensar que não é digna da
atenção deles, Jordan,” ele diz. “Seus pais, aquele ex do colégio...
até mesmo Cole. Você deu às pessoas uma chance, e eles
abusaram dela. Isso é culpa deles, não sua.” Pike inclina meu
queixo para cima então meus olhos encontram os dele. “Não acho
que tenha algo a ver com quem você é. E não deixe ninguém fazer
você ter medo de si mesma. Você é incrível."

Meu sorriso aparece, e apesar das milhares de dúvidas


sobre onde ele e eu estamos indo, aceitarei isso esta noite. Eu
precisava ouvir aquilo. A única outra pessoa que conversava
comigo assim é minha irmã.

Mas Pike é melhor, porque eu posso beijá-lo também.

“E eu me tornei quem sou, porque não tive escolha,” ele


ressalta. “Se as coisas fossem diferentes, teria gostado de ir para
a universidade. Viajar. Talvez usar um terno para trabalhar.” Seu
corpo fica rígido. “Eu invejo você. Você ainda está crescendo, e
ainda pode ser quem quiser. Você tem todas as escolhas do
mundo a sua frente.”

Eu não tinha pensado nisso. Quão diferente sua vida seria


se Cole não tivesse aparecido.
“A memória de você naquele terno,” eu comento. “Você
devia me levar para sair. Você nunca me viu usando um vestido.”

Ele fica silencioso, esfregando o polegar sobre meu braço, e


eu sei o que ele não está dizendo. Pike não pode me levar para
sair a menos que formos a algum lugar fora da cidade.

Eu respiro profundamente, afastando essa preocupação da


minha mente.

“Quando a vi pela primeira vez, eu senti como se tivesse


levado um soco,” ele sussurra. “Você tem um corpo que me faz
sentir como se eu estivesse em uma montanha-russa quando toco
você.”

Eu sorrio e retiro minha calcinha antes de jogar a perna


por cima dele, montando-o.

Ele exala, segurando meus quadris. “Mas, realmente, não


foi até o acúmulo de cada coisa simples que você me fez — levar o
almoço, servir minha bunda naquela sala de abastecimento do
bar por duas vezes, e até mesmo me dizer para colocar aquele
revestimento e me fazer rir com a sua insinuação sobre como eu
sou como uma caverna.” Ele ri. “Você faz meu coração bater tão
forte que dói, Jordan. Você, sua boca, e quem você é, tudo isso
me faz querer te tocar. Isso me faz não querer parar com isso.”

Ele encontra meus olhos e enfia meu cabelo atrás da orelha


esquerda. “Você se arrepende das coisas comigo?” Ele pergunta.

Balanço minha cabeça.

“Está tudo bem,” ele anuncia. “Você pode ser honesta,


mesmo que seja apenas uma pequena parte de você. Eu
entenderei.”

Inclino-me, apoiando uma mão ao lado de sua cabeça.


“Lamento a maneira que eu não conseguia parar de olhar para
você no dia que me mudei quando você carregou algumas das
minhas caixas para dentro de casa,” digo a ele. “Como eu amo o
jeito que você não fala muito e como você gosta de assistir filmes
comigo. Lamento a forma como o meu estômago revira quando o
ouço se movendo no seu quarto pela manhã, e eu sei que o verei
em breve.” Eu esfrego minha mão em seu peito e sobre o seu
pescoço. “E eu lamento que olho para você quando entro em uma
sala e como, depois que sai para o trabalho na parte da manhã,
eu tenho que voltar para o chuveiro, porque não posso parar de
fantasiar sobre você e fico muito excitada para esperar você voltar
para casa.”

Seu abdômen flexiona enquanto ele arqueia um pouco,


pressionando seu pau contra mim.

“E lamento que não faria nada diferente,” continuo. “Eu


não podia deixar de sentir isso.”

Jogo minha perna por cima, viro e subo em cima dele


novamente, desta vez em posição inversa, de costas para ele. Eu
levanto minha camiseta sobre a minha cabeça, deixando meu
cabelo cair nas minhas costas nuas, e lanço o meu olhar por cima
do ombro, flertando com ele.

Seu pau incha debaixo de mim, e eu começo a rolar meus


quadris, esfregando-me nele.

“Você está tentando me matar,” ele geme.

Passo os dedos pelo meu cabelo, sentindo suas mãos correr


por todo o meu corpo e alcançando meus seios.

“Com quantas mulheres você já dormiu?” Pergunto a ele.

“Com quantos homens você já dormiu?” Ele pergunta


também. “Não, não importa, não responda a isso.”

Sorrio, respondendo ele de qualquer maneira. “Antes de


você? Dois.”
“Mais do que duas,” ele retruca com a sua resposta.

“Há algo que eu não estou fazendo que você tem vontade?”
Continuo movendo-me em cima dele, seus olhos congelados na
minha bunda enquanto ela se move.

“Porque está perguntando isso?”

“Eu só quero saber como ser igual a um homem com muito


mais experiência,” explico.

Pike encontra meus olhos. “Primeiro de tudo, não é muito


mais experiência. E em segundo lugar, há muitas coisas que nós
ainda não fizemos, que tenho toda a intenção de fazer com você
uma vez que pudermos nos acalmar e parar de arrancar as
roupas um do outro no segundo que eu entro nessa maldita casa
depois do trabalho todos os dias,” ele resmunga brincando.

Deito sobre ele, minha cabeça ao lado da dele e uma de


suas mãos desce entre as minhas coxas.

“Pare de parecer tão gostoso, e eu vou me controlar,” digo.

Ele me beija e depois encontra meus olhos, algo sério nos


seus. “Não pense sobre as outras mulheres,” ele me diz. “Eu não
penso.”

Meu peito cede enquanto olho para ele, e eu estou cheia de


coisas que não posso dizer. Eu...

Abro a boca. Eu...

Eu o beijo, sentindo a barba ao redor de sua boca, seu


cheiro familiar. Não posso te amar. Eu não te amo, não é? É um
impulso. Isso é o que ele dirá. Ele dirá que sou uma criança. Ele
dirá que não é real.

Eu te amo.
“Jordan, Deus,” ele suspira, beijando-me mais forte. “O que
você está fazendo comigo?"

A mesma coisa que você está fazendo comigo.

Seu telefone começa a tocar, e nós tentamos manter o beijo


e ignorá-lo, mas com relutância, ele finalmente suspira e se
afasta.

Pega o telefone e olha para a tela.

“Merda,” ele sibila.

Beijo sua bochecha e mordisco sua mandíbula.

“Baby, apenas um minuto.” Ele se senta, e eu saio de cima


dele, deixando-o atender a chamada.

Ele move as pernas para o lado da cama e atende o


telefone. Puxo o lençol, cobrindo-me.

“Alo.” Eu o ouço dizer.

Ouço uma alta voz masculina na outra extremidade, e eu


acho que é Cole.

“Sim,” Pike responde, endireitando as costas e passando a


mão pelo cabelo. “Sim, desculpe, eu estive sobrecarregado. Não
percebi que era urgente.”

Cole fala novamente, e eu não acho que Pike está


respirando.

“Cole, eu —”

Cole interrompe e Pike fica imóvel enquanto ele ouve.

“Não, eu não acho que isso é uma boa —”

Ele interrompe novamente enquanto Cole fala.


Depois de um momento, vejo-o soltar um suspiro e acenar.
“Sim,” diz ele. “Ok... sim. Tudo bem. Vejo você amanhã.”

Ele desliga o telefone e joga-o na cama, caindo de costas e


esfregando as mãos sobre seu rosto.

“O que há de errado?” Pergunto.

“Você quer dizer mais do que estar no telefone com meu


filho, enquanto sua ex-namorada está nua na cama ao meu
lado?”

Eu franzo a testa.

Pike inclina a cabeça para trás e me olha. “Nós temos um


problema maior do que isso, na verdade. Esteja preparada.”
Capítulo 23

Pike

“Eu coloquei lençóis e cobertores no sofá,” digo, enquanto


entro na cozinha. “A geladeira está cheia. Fique à vontade.”

Cole e sua mãe me seguem, a porta da frente fechando e


nada exceto hospitalidade derrama da minha voz. Cole é mais do
que bem-vindo, mas eu gostaria de colocá-la em um hotel se
pudesse.

No entanto sinto-me culpado.

“Eu não vou dormir no sofá,” Lindsay me informa,


estatelando sua bolsa no meu balcão. “Eu preciso de privacidade.
Sou uma mulher adulta.”

Jordan caminha atrás deles em silêncio, cruzando os


braços e inclinando-se contra a porta. Seus olhos estão baixos, e
eu não acho que ela tenha olhado para mim desde a noite
passada, quando Cole ligou. Eu precisei trabalhar hoje, e ela
pegou o turno do dia no bar, e entre mover todos os seus
produtos de higiene pessoal de volta para seu próprio banheiro e
ficar escondida em seu quarto fazendo sabe-se lá o que hoje à
noite e eu trabalhando nos toques finais em seu carro, nós não
conversamos muito. Eu acho que não sei o que dizer mais do que
ela.
Olho para Lindsay, seu batom vermelho grosso combinando
com o sutiã de renda vermelha que espreita da sua blusa de seda
preta, e por cerca de cinco minutos lembro-me que vinte anos
atrás eu achava que ela era sexy e confiante. Agora, não é
atraente, porque sei o que há lá dentro.

Felizmente, eu só preciso ignorar ela por uma noite ou


duas. Cole se mudou de volta com ela nos últimos dois dias, mas
eles estão substituindo as janelas em seu apartamento, então
precisavam de um lugar para ficar enquanto os trabalhadores
terminam.

“Você pode ter toda a privacidade que precisa em um


hotel,” comento. “Eu me ofereci para pagar.”

“Pai, vamos lá,” Cole murmura, caminhando até a geladeira


para pegar um refrigerante.

Ele olha para Jordan, mas ela não encontra os olhos de


ninguém.

O ambiente fica em silêncio, e é tão desconfortável.

Limpo minha garganta. “Bem, a menos que você deseje


compartilhar um quarto com Cole,” eu digo a Lindsay, “não há
outro lugar, exceto o porão.”

“E o quarto de hospedes?” Ela pergunta.

“Esse é o quarto de Jordan.”

“Jordan não devia nem estar vivendo aqui,” ela diz, quase
um silvo. E então se vira para Jordan. “Você pode por favor
compartilhar um quarto com meu filho por algumas noites então
eu posso ficar no quarto de hospedes?”

“Não é um quarto de hospedes mais,” falo irritado, meu


coração de repente acelerado. “É o quarto dela.”

Não há nenhuma possibilidade do caralho...


“Isso é ridículo.” Lindsay me olha. “Sou a mãe do seu filho,
e eu preciso de um quarto.” Ela olha para Jordan novamente.
“Você passou muito tempo em uma cama com Cole. Outra noite
ou duas não vai matá-la, certo?”

Avanço, apoiando minhas mãos na ilha. “Ela não vai


dormir com Cole. Eles não estão mais juntos. É injusto.”

“É uma cama,” Cole finalmente fala, suspirando. “É apenas


dormir. Podemos lidar com isso.”

Olho para Jordan, esperando por ela recusar e me ajudar


aqui, mas tudo o que ela faz é levantar os olhos, encontrando os
meus sem dizer nada. Como se eu fosse a pessoa deixando isso
acontecer, e ela está esperando que eu faça alguma coisa.

Se Jordan não me apoiar, então parecerei estúpido, lutando


por sua honra. Ela é uma garota adulta. Eles não entenderão por
que eu sou o único a protestar.

E estou com medo agora.

Quero que ela e Cole se reconciliem e sejam amigos


novamente, eventualmente, mas não os quero juntos, sozinhos,
durante a noite toda. Eles foram um casal, caramba. Cole
conhece o corpo dela, bem como eu. E se começarem a sentir o
que sentiram quando ficaram juntos pela primeira vez e tudo era
bom? E se Jordan começar a pensar que precisa de alguém...
mais jovem? Eles têm uma história.

Não ficarei com ciúmes do meu filho. Nós não estamos


competindo. Mas ele a conhece há muito mais tempo. E se eles
conversarem e se reconectarem?

Está na ponta da minha língua apenas deixar escapar. Jordan


é minha, e ela não vai compartilhar uma cama com outro homem.

Mas eu olho para Lindsay e o fracasso que ela tem sido, e


como, nos últimos seis anos, Cole ficou repetidamente ao seu
lado. Ela sempre agiu como vítima e o fez se sentir obrigado a
ficar ao seu lado, e Cole ficará do lado dela de novo, porque ele
sabe que eu posso me defender sozinho. Seria gratificante para
Lindsay descobrir que eu estou trepando com Jordan atrás das
costas dele. Ela está apenas procurando algo para odiar, e eu não
colocarei Jordan no meio disso.

Abaixo meus olhos, mal capaz de abrir minha mandíbula.


“Jordan, há cobertores no sofá,” digo em voz baixa. “Avise-me se
você ficar com frio.”

Começo a caminhar para sair da cozinha, mas então ouço


Jordan finalmente falar. “Não, Cole está certo,” ela responde. “É
uma cama, é dormir, e é apenas por uma ou duas noites. Estou
bem com isso.”

Eu paro e olho para ela, mas Jordan está focada em frente,


tão calma quanto pode estar. Aperto o meu punho direito e saio
da cozinha, subindo para o segundo andar. É quase sete em uma
sexta-feira à noite, mas se eu não conseguir espaço, certamente
farei algo estúpido.

Como eu quero tão desesperadamente brigar com ela agora


na frente de todos.

Algum tempo depois da meia-noite eu adormeço. Estive à


beira de nos revelar meia dúzia de vezes esta noite, mas o risco de
lamentar sobre a confissão era muito grande. Agora não. Não na
frente da minha ex.

Esta é uma aventura. Um tipo sujo e sórdido, certo? Pelo


menos isso é o que todo mundo vai pensar.
E isso quebraria o coração de Cole. Tenho certeza que ele
espera que Jordan siga em frente em algum momento. Ele não
parece muito preocupado com ela desde que a deixou afinal de
contas.

Mas saber que eu corri, brinquei com um de seus


brinquedos, e saber que há uma chance que eu poderia fazê-la
mais feliz... sim, falando da experiência, há sempre uma parte de
você que parece ter mais direito sobre uma ex-namorada que
qualquer outra pessoa, mesmo após a separação. Cole verá isso
como uma traição. Enquanto eu ficar do lado dela e tentar fazer
melhor onde ele não pode.

E Cole estaria certo. Todo sentimento que ele teria eu


entenderia.

Eu serei sincero. Eventualmente. Jordan vai perceber que


sou muito velho – muito acomodado – e ela desejará mais. Não vai
durar.

Saber disso, no entanto, não me impede de querê-la. De


sentir falta e precisar dela.

A cama afunda atrás de mim, e eu abro os olhos,


percebendo que alguém está no quarto. Preciso de um momento
para entender, mas então o alívio me domina, e eu alcanço minha
mão para trás, puxando-a para mim.

Jordan.

Mas então eu franzo a testa, meu coração como uma


britadeira quando Heavenly da Victoria Secret deriva até minhas
narinas, e eu sinto uma perna que não tem as mesmas curvas e
tom que aprendi a desejar todos os dias.

Levantando a cabeça, viro-me e vejo um esboço familiar ao


meu lado, mas não o que eu quero. “Que diabos?”
Salto para fora das cobertas e acendo o abajur, sento e olho
para Lindsay. Ela está usando uma camisola de seda vermelha.

Que diabos ela pensa que está fazendo?

“Você está falando sério?” Ela me prende com um olhar


surpreso como se essa não fosse a reação que ela esperava. “Não
finja que você não se lembra o que fazer. Pike. Quando uma coisa
aparece seminua e com tesão em sua cama, você não a recusa.”

Lindsay se inclina, pressionando seu corpo contra o meu e


vem para o meu pescoço com a boca.

“Pare.” Levanto da cama e pego meu jeans da cadeira,


vestindo-os. “Eu não estou desesperado.”

“Não precisa ser assim. Pike.” Ela suspira, aproximando-se


e ficando de joelhos enquanto enfia o cabelo escuro atrás da
orelha. “Eu era jovem. Fui estúpida. E fui egoísta,” ela implora.
“Eu não vi o homem bom que você é. Que sorte eu tive de ter
alguém ambicioso, responsável e estável. Quero você.” Ela inclina
a cabeça, tentando me atrair com os olhos. “Nem tudo foi ruim.
Você se lembra, certo? Você se lembra quão atraídos éramos um
pelo outro.”

Alcanço a gaveta da minha mesa de cabeceira, vendo a


nova caixa de preservativos que eu precisei comprar, porque
Jordan e eu gastamos a última mais rápido do que eu esperava.
Rapidamente pego um charuto da caixa e meu isqueiro e fecho a
gaveta, de modo que Lindsay não a veja e comece a ser
intrometida.

“Eu não tinha muita referência naquela época,” respondo.


“Mas tenho agora.”

“Você está sozinho,” ela afirma. “Eu quero tentar


novamente. Pelo bem de Cole. Você sabe o quanto ele gostaria de
nos ver juntos? Ele era muito jovem para se lembrar.”
Deixo escapar um riso amargo. E graças a Deus por isso.
Chegar em casa de um turno duplo e pagar sessenta dólares para
uma babá antes de passar o resto da noite dormindo uma hora
entre Cole acordar para se alimentar enquanto Lindsay estava se
divertindo.

“Você não está cansado de ficar sozinho?” Ela desce da


cama e caminha em minha direção. “Ver todos os nossos amigos
com suas famílias, casas e férias? Nós podemos ser isso. Eu
cresci. Posso estar aqui para você, cuidar de você, e cuidar dessa
casa.”

Dessa casa. Ela quis dizer nossa casa. Ela quer viver aqui.

A ideia de Lindsay em minha casa, andando por aí como se


o lugar fosse dela, me deixa enjoado. Esta não é sua casa. Nunca
será dela. É…

Eu mesmo me interrompo, sem necessidade de colocar o


pensamento em palavras. Há apenas uma mulher que vejo
vivendo nesta casa.

Caminho para a porta. “E, deixe-me adivinhar... em troca,


eu financeiramente apoio você nesse arranjo, certo?”

“Eu poderia fazer você feliz,” ela me diz. “Já o fiz antes.”

Abaixo meus olhos, nem mesmo precisando refletir sobre


essa afirmação. Um mês atrás, eu poderia ter concordado com
ela. Uma vez, por um curto período, ficamos felizes. Dias aqui,
horas ali.

Mas agora eu sei, sequer chegava perto. Ela nem sequer se


compara com o que eu tive nas últimas semanas.

“Volte para o seu quarto.” Saio do quarto, deixando a porta


aberta e, em seguida, adiciono por cima do meu ombro. “Quarto
da Jordan, quero dizer.”
Sigo pelo corredor, desacelerando quando passo a porta do
quarto de Cole e estou muito tentado em abri-la. Aquilo lá é meu.
Que tipo de homem coloca sua mulher nessa situação? Que tipo
de homem não confessa e pega o que é seu?

Preciso pensar. Desço as escadas rapidamente e passo pela


cozinha e então a lavanderia, cada momento eu espero me
convencer de não ser capaz de aceitar isso. Eu sei que ela não
deixará que algo aconteça, mas eu preciso tirá-la de lá.

Mas assim que eu saio, vejo que o problema já está


resolvido. No momento, de qualquer maneira. Ela está sentada na
borda da piscina, com as pernas balançando na água, e olha para
mim quando eu saio.

Faço uma pausa momentaneamente, seus olhos azuis frios


e distantes. Consciência atormenta minhas costas, sabendo que o
quarto de Lindsay — o quarto de Jordan — fica de frente para o
quintal, e ela poderia estar assistindo.

Casualmente, caminho até a mesa do gramado, ascendo


meu charuto, e abaixo o isqueiro, fumando e inalando até o final
ficar laranja brilhante. O doce aroma enche meu nariz, e eu sopro
a fumaça, imediatamente sentindo um formigamento na minha
cabeça. Vou para o lado oposto da piscina e olho para Jordan,
vendo que ela está vestida com um short do pijama e uma
camiseta preta sem sutiã.

Os picos duros de seus mamilos são visíveis daqui.

Contraio meu queixo. “Você vai dormir assim?” Eu


murmuro, mal movendo os lábios e mantendo a minha voz tão
baixa quanto possível.

“Ele me viu com menos.”

Seguro o charuto e prendo o final com o meu dedo médio.


“E?”
“E o quê?”

Arqueio uma sobrancelha. “Ele tocou em você?”

Eu ouço uma risada leve. “Talvez.” E então ela olha em


mim. “E talvez eu deixei. Ele parece muito com o pai dele, afinal
de contas.”

Meu queixo dói, e ela balança a cabeça, se afastando de


mim.

Sei que Jordan está com raiva. E sei por que ela está com
raiva. E também sei que todos nós fazemos coisas estúpidas
quando estamos com raiva. Jordan está me afastando, e eu só
preciso de tempo para pensar. Apenas um pouco de tempo.

“Não faça isso,” digo a ela.

“Então não me faça perguntas estúpidas.”

Seu peito sobe e desce com respirações superficiais, e ela


parece miserável. Não sei o que fazer.

“Isso está me matando,” eu sussurro, olhando para a janela


dela para verificar que Lindsay não está assistindo. “Mata-me
saber que você está na cama dele.”

“Então você deveria ter contado a verdade,” ela fala. “Que


Lindsay poderia usar meu quarto e tudo o que quisesse, porque
eu durmo na sua cama agora.”

Jordan fica de pé, tirando a poeira de sua bunda, e eu não


posso olhar em seus olhos mais. Jordan dorme na minha cama
agora. Sim, ela dorme.

E eu quero ela lá mais do que qualquer coisa agora.

“Se você me quer, nós precisaremos enfrentá-lo mais cedo


ou mais tarde,” ela diz. “Você não pode me confinar aqui, Pike. Eu
quero fazer coisas com você, sair com você, ir jantar, beijá-lo, e
não precisar me preocupar em fechar as portas quando faço isso.”

Estou quieto por um momento, e Jordan não espera pela


minha resposta. Ela caminha para a casa, e eu freneticamente
olho para sua janela novamente antes de correr para alcança-la.
Agarro sua mão, então a puxo para o canto do corredor na lateral
da casa e a apoio contra a parede.

“Não podemos,” respondo, olhando para ela. “Ainda não. O


que estamos fazendo não é certo. Todo mundo vai falar. Cole não
vai entender.”

Seus olhos brilham com lágrimas quando ela olha para


mim, mas sua mandíbula fica tensa com a raiva.

Eu recuo um passo, passando a mão pelo meu cabelo. “E


se isso acabar em duas semanas, e eu destruir o relacionamento
que tenho com o meu filho, porque eu não pude manter meu pau
em minhas calças?” Digo a ela. “Eu deveria apenar ficar com
minhas mãos longe de você! Por que eu não pude resistir? Hã?”

É uma pergunta retórica, mas é a verdade. Eu deveria ter


mantido minhas mãos longe. Quem diabos sabe como Cole
aceitará isso? Quanto mais profundo Lindsay pode afundar suas
garras nele por causa disso? Tudo o que fiz na minha vida foi
para ele. Eu não fui para a faculdade, porque ela não queria
trabalhar, e nós precisávamos de dinheiro. Trabalhei pra
caramba, para que pudesse pagar tudo o que ele precisasse. Cole
está finalmente mudando, e isso pode estragar tudo.

Jordan fica calma por um tempo, e eu odeio isso. Quero


saber o que ela está pensando, e quando está com raiva, pelo
menos eu sei que ela quer brigar. Neste momento, sua respiração
é lenta e constante, e ela só olha para mim, muito calma.
Ela balança a cabeça para si mesma. “Não vale a pena,”
Jordan anuncia. E então começa a se afastar. “Eu sei que você
está certo.”

“Jordan…”

“Não, está tudo bem.” Ela para. “Entendi. Eu sabia que


minha irmã estava certa. Isso nunca vai acontecer.”

Isso não é…

Mas é o que eu quis dizer, não é? Se não posso dizer a ele


agora, quando eu planejava contar? Quando seria mais fácil?
Depois de passar anos do rompimento deles?

Quando não respondo, Jordan olha para mim. “Vejo você


de manhã.”

Ela caminha para a porta dos fundos, e eu sinto como se


fui expulso. Sinto que eu nunca a verei novamente.

Corro atrás dela, pego sua mão impedindo-a de seguir.


“Não,” imploro. “Jesus, eu não quis dizer isso. Jordan, eu... você
vale a pena. Eu só...” balanço minha cabeça. “Eu não sei.”

“Está tudo bem,” ela diz, soando tão calma que me faz
sentir medo. “De verdade. Gostaria de agradecer a você, na
verdade. Eu tento há anos, ao que parece, ser o tipo de mulher
que admiro, e, de repente, eu sinto que sou essa mulher agora.
Eu sei que valho a pena. Simplesmente você não vale.”

Jordan move-se para ir embora, e eu a impeço novamente.


“Jordan.”

Desta vez, ela se vira, mantendo a cabeça erguida e afasta


sua mão do meu alcance. “Diga a ele agora, então,” ela exige.

O ar escapa dos meus pulmões com o ultimato.


“Diga a ele comigo agora,” ela diz, “então eu posso ir para
nossa cama, e nós poderemos ir dormir e amanhã poderemos
seguir em frente, porque tudo estará no lugar, e você não terá que
se preocupar mais.” Seus olhos me desafiam. “Diga a ele agora.”

Abro minha boca para falar. Para dizer a ela que eu vou.
Subirei lá agora e direi ao meu filho a verdade. Que eu acho que a
amo, e que sinto muito, pois eu não queria machucá-lo.

Mas sei que estou certo. Ela voltará para a universidade em


tempo integral em dois meses, conhecerá alguns caras que são
educados e têm suas vidas inteiras pela frente. Não vou perturbar
minha família quando não sei o que é isso ainda. Jordan não tem
o direito de pedir isso de mim.

Ela começa a se afastar, o azul em seus olhos é como gelo.

“É tão incrível o quão rápido pode acontecer, não é?” Ela


diz enquanto lentamente me deixa. “Como eu sinto
absolutamente nada por você agora.”
Capítulo 24

Jordan

“Você não parece muito bem, querida.”

Desvio meu olhar da geladeira onde estou carregando


garrafas de cerveja de uma caixa e sorrio timidamente para
Grady. “Nada que uma caixa de Thin Mints8 não possa resolver,”
digo a ele.

Ou um tanque de sorvete ou Pike entrando aqui agora,


pegando-me em seus braços na frente de todos, e dizendo que me
ama.

Deus, eu estou tão cansada. E exausta. Não pude olhar


para ele ontem à noite, e não quis nada mais do que estar longe
dele e sair de sua vida.

Eu peguei meu VW recém consertado e fui para minha


irmã, e depois vim trabalhar às dez, para me preparar para o
turno do almoço, e eu já estou aqui por doze horas, ficando muito
tempo depois do horário combinado.

Minha raiva e determinação ainda estão aqui, mas também


está a tristeza agora. Sinto falta dele.

Mas eu me odeio mais.


8
Biscoitos de chocolate com cobertura de chocolate.
Eu o amo e o quero, mas...

Não posso ficar perto dele.

Pike me faz rir, e quando estou com ele, eu estou em casa.


Como se ele fosse a única coisa na minha vida que eu entendo.

Mas não me entendo mais. Alguém precisa lutar por mim


pelo menos uma vez.

Não vou voltar.

“Você encerrou seu horário sem fechar a guia antes de sair


da última vez,” Grady diz, pegando dinheiro de sua carteira. “Aqui
está sua gorjeta.”

Ele desliza duas notas de vinte sobre o bar, e eu fecho a


geladeira e solto uma risada baixa, meus olhos estão cansados.

“Grady, nem sequer lembrei disso,” digo a ele. “Não se


preocupe com coisas assim. Estou feliz que você está aqui.”

Essa é a verdade. Ele me poupa de forçar conversa com


qualquer um enquanto estou trabalhando. Ele não flerta ou faz
comentários grosseiros, e gosta da minha música na jukebox.

Deixo o dinheiro e pego sua garrafa vazia, abrindo uma


nova e colocando-a na frente dele.

“Ei, posso pedir duas Buds9?” Alguém chama, mostrando o


dinheiro sobre o bar.

Sigo para pegar o pedido, ouvindo o telefone tocar e vejo


Shel atendê-lo.

Abro a geladeira e pego duas Buds.

“Jordan?” Shel repete no telefone.

9
Buds — Diminutivo de Budweiser
Olho para ela, colocando as duas cervejas sobre o bar na
frente do cara.

“Quem está falando?” Ela pergunta.

Mantenho meus olhos sobre ela, minha respiração fica


superficial enquanto pego o dinheiro do cara e registro no caixa
as bebidas.

“Pike?” Ela diz.

Shel me lança um olhar, e eu balanço minha cabeça. É


tarde, estive fora desde a noite passada, e eu estou realmente
surpresa que ele não veio me procurar, dando suas ordens
insistentes como de costume.

“Sim, ela não está aqui,” Shel mente. “Seu turno terminou.
Tente seu telefone celular.”

Shel desliga, provavelmente não esperava que ele dissesse


qualquer outra coisa e, definitivamente, não sabendo que Pike já
ligou no meu celular algumas vezes hoje. Ele não deixou
mensagens, embora, e não mandou mensagens.

Ela se aproxima de mim. “O que está acontecendo?”

“Nada.”

Shel ergue a cabeça, não acreditando em mim. “Você


parece exausta.” Ela gentilmente empurra o meu cabelo atrás da
minha orelha enquanto eu limpo o bar. “Você já comeu hoje?”

“Estou bem,” digo a ela. “Só cansada.”

“Cole está causando mais problemas?”

Eu suspiro, sentindo meu estômago revirar. Quero falar


com alguém, mas estou cansada de ser a garota com problemas
com os caras. Estou cansada de Shel se preocupar comigo, e eu
não quero que ela saiba. Ela já pensa que Pike é um idiota, e por
alguma razão, odeio isso. Não quero dar-lhe mais munição.

“Por que o pai dele ligou para você?” Shel me pressiona.

Evito seu olhar, solto o pano de prato no balde de água


quente, e pego um limpo, limpando as mesmas garrafas de
uísque que eu já limpei esta tarde.

Sinto os olhos dela em mim. “Jordan, no que você se


meteu?”

Meu queixo treme, e as lágrimas ameaçam escapar dos


meus olhos. “Nada,” respondo, ainda não olhando para ela. “Eu
vou ficar bem.”

Um garçom sai da cozinha com comida, e eu desvio de um


dos outros bartenders voltando com uma nova garrafa de Captain
do armário de bebidas. Eu penso por um momento, tento
descobrir o que posso fazer em seguida, e, finalmente, abaixo
para pegar um pacote de guardanapos de um armário. Abro o
pacote e começo a encher um dos recipientes no bar.

“Vá para casa,” Shel diz, colocando a mão sobre o


recipiente. “Durma um pouco.”

“Estou bem. Prefiro ficar aqui.”

“Se você não vai para casa então vá para a sua irmã,” ela
sugere. “Só por favor, descanse um pouco. Você trabalhou horas
demais hoje, e não será capaz de dirigir sozinha para casa esta
noite. Vejo você amanhã.”

Abro minha boca para argumentar, mas Shel apenas


balança a cabeça para mim, sabendo o que estou prestes a dizer.

“Eu não sou sua mãe,” ela aponta, “mas sou tão boa
quanto uma. Você precisa dormir. Pegue algo para comer na
cozinha e vá embora. Por favor.”
Faço como Shel disse, preparo um sanduíche, mas não
sinto vontade de comer, entro no meu carro e ligo o motor. Uma
música de Alice Cooper está tocando na estação dos anos 80 que
estou sintonizada, mas eu desligo, sem humor para a fuga que
geralmente desejo.

Casa. Gasto uns bons vinte minutos dirigindo sem rumo


pela cidade, perdida em minha cabeça, antes de focar para a casa
de quem eu irei. Eu preciso de roupas e meus livros escolares, e
mesmo que não desejo ver Pike, Cole, ou a sua mãe, eu não posso
usar a maquiagem da minha irmã de novo. Tudo tem brilho.

Quando entro na avenida Windy Park Place, eu avisto o


fluxo de carros e caminhões que se alinham em ambos os lados
da rua, bem como a calçada ocupada em frente a garagem de
Pike. Alguns veículos eu reconheço, alguns não, mas entro em
uma vaga entre dois carros na frente da casa de Cramer,
avistando as luzes provenientes do outro lado da cerca do quintal
de Pike.

Cole deve estar fazendo uma festa. Incrível.

Deixando minha bolsa no carro, eu pego minhas chaves,


tranco e caminho em direção à casa, querendo estar em qualquer
lugar exceto aqui, mas sabendo que preciso fazer isso. Minha pele
vibra com consciência, e o cabelo em meus braços levantam à
medida que a música inunda meus ouvidos. Mas subo os degraus
até a varanda, ainda vestida com a blusa com as costas nuas do
trabalho. Prendo novamente meu rabo de cavalo e espero que
com todas as pessoas aqui, Pike e Cole não percebam que eu
estou aqui.

Entro na casa e olho ao redor, vendo a porta dos fundos


oscilar quando fecha depois de alguém sair, e então ouço a porta
do banheiro próximo na lavanderia. A luz sob a porta para o
porão está ligada, e a conversa lá fora é quase tão alta quanto a
música. Pelo menos Cole está mantendo as pessoas fora de casa,
em sua maior parte. Pike provavelmente não está dormindo por
isso.

Suavemente pisando em cada degrau da escada, eu sigo


tranquilamente pelo corredor, vendo a porta do quarto de Pike
fechada e a luz interior desligada. A porta de Cole também está
fechada, e eu abro a minha, espreitando para dentro e vejo que
está vazio. Minha cama está desfeita porque a mãe de Cole
dormiu nela ontem à noite, e eu olho em volta, usando a luz para
espreitar o exterior. Nenhuma das coisas de Lindsay estão aqui,
então talvez seu apartamento esteja pronto agora. Deixando a luz
apagada, eu pego minha mochila de couro e outras coisas como
livros e cadernos da minha mesa e começo a colocar na mochila,
roupas e qualquer outra coisa que vou precisar imediatamente.

“Pensei ter ouvido alguém entrar,” uma voz vem atrás de


mim diz.

Meu coração para, e eu hesito, reconhecendo


instantaneamente a voz. Fecho meus olhos, desejando que ele vá
embora.

Cole não deve tê-lo convidado. Ele deve estar de penetra na


festa.

Uma tesoura está sobre a mesa na minha frente, e eu a


olho, o instinto me domina.

“Cole terminou com Elena,” Jay me diz. “Você vai ficar com
ele novamente?”

Terminou? Eles realmente estavam juntos? Olho para o meu


polegar, vendo a pequena cicatriz na escuridão e quase sentindo
nada mais. Como ele podia afetar meu coração sempre, mas
agora, parece que há séculos Cole me ignorou. Hoje à noite não
posso nem mesmo reunir uma grama de desejo pela conexão que
já tivemos.

O modo de sobrevivência domina. Meu cérebro está no


controle agora e não me dará as chaves do meu coração até que
saiba que posso aguentar.

“Você quer uma vingança primeiro?” Provoca Jay, e eu


posso ouvir sua voz cada vez mais perto. “Vamos, Jordan. Vou te
dar uma boa foda agora, aqui mesmo.”

“Ao contrário da terrível trepada que você sempre foi?”


Respondo.

Ele não diz nada, mas posso apenas imaginar o pequeno


gemido em seus lábios e o formigamento que ele está sentindo em
suas mãos que estão implorando-lhe para me fazer pagar por
essa observação.

Pego a tesoura na minha mão, viro e giro-a em torno de


meus dedos, brincando com ela enquanto o encaro.

Jay está de pé logo após o batente da porta, dentro do


quarto, vestido com calça jeans e camiseta e com seus olhos frios
me encarando sob sobrancelhas escuras.

“O que você deve ter dito a si mesmo para convencer esse


cérebro de ervilha dentro de sua cabeça que você me fez gozar tão
bem,” digo friamente. “As três vezes que fizemos isso foi tão ruim,
eu estava lá confusa e então divertida, antes de finalmente liberar
as lágrimas porque não havia nada sobre você que não era
absolutamente patético.”

Seu lábio superior contrai, e agora, ele está avaliando qual


a probabilidade dele fugir com o que quer fazer comigo com um
quintal cheio de testemunhas do lado de fora da minha janela.

“Agora estou simplesmente apavorada por cada mulher que


vejo com você,” eu continuo, “mas também secretamente
sorrindo, porque eu sei que depois de terem fingido o quanto
amam seu pau na cama, elas vão para o banheiro, e se
masturbam com uma imagem mental de qualquer cara na cidade
que não seja você.”

Ele dá um passo à frente, e eu fico em posição, abaixando


minhas mãos e apertando o punho em torno da tesoura. Seus
olhos encontram a tesoura, e ele para.

“Saia do meu quarto,” digo-lhe, meu tom calmo e estável, “e


nunca mais fale comigo.”

Jay hesita um momento.

“Agora,” afirmo.

Seu peito oscila com a respiração pesada, e eu posso ouvir


a raiva furiosa dentro dele.

Ele quer avançar sobre mim.

Mas não estou com medo. Eu não sinto nada.

Isso domina seu orgulho por um momento, perceber que


ele não chegará longe se eu decidir gritar, mas depois de um
momento, ele se afasta e, finalmente, vira-se desaparecendo pelo
corredor. Seus passos atingem as escadas, e eu espero ouvir a
batida da porta dos fundos ao fechar antes arriscar me mover
novamente.

Jay não pode ficar fora do meu caminho, mas ele tem um
histórico de decidir que eu valho o mínimo de esforço antes de
seguir para outra pessoa. Vamos esperar que ele continue
fazendo isso.

Termino de empacotar minhas roupas e vou para o


banheiro, coletando minha escova de dente, navalha, e xampu,
coloco tudo em minha bolsa e a fecho. Jogo as duas bolsas no
meu ombro, saio do quarto, resistindo ao impulso de olhar para
trás, desço as escadas e entro na sala de estar.

Pike está bem ali na porta da frente, embora, e eu paro, nós


dois nos olhamos.

Merda. Eu estava quase fora daqui.

“Eu estava procurando por você,” diz ele. “Só queria ter
certeza de que você está bem.”

Seu olhar segue para minhas bolsas, e seu punho aperta


ao redor de suas chaves. Sua voz se transforma em um sussurro.
“Não faça isso. Por favor.”

“Não fazer o quê?” Dou um passo à frente. “Não ir embora


ou não contar ao Cole?”

A festa enfurece lá fora, e nós estamos na sala escura,


trancados em uma batalha sem vencedores. É simplesmente uma
questão de quem se machuca, e é uma escolha que ele ainda
acha que pode escapar de fazer.

Pike me quer, mas é um covarde.

“Isso precisava acabar, certo?” Ele diz, falando apenas alto


o suficiente para eu ouvir. “Em dez anos, eu estarei quase perto
dos cinquenta. Não vou ocupa-la com isso. Isso acabaria. Você
sempre soube.”

Eu sei agora. Meus olhos ardem, com lágrimas, mas é


estranho. Não tenho certeza se estou triste. O que ele diz é quase
um consolo, porque eu conheço essa história. Estou acostumada
com isso.

Ando para a porta.

“Eu não estou pronto para deixá-la ir,” ele diz, dando um
passo na minha frente. “Simplesmente ainda não. Eu não consigo
ficar sem...” Ele procura as palavras. “Conversar com você e...
fazer amor com você.” Ele pega meus ombros, movendo-nos atrás
da porta da frente, minhas costas contra o armário. “Vamos a
algum lugar. Só nós. Há um cinema noturno ao ar livre esta
noite. Vamos. Sair daqui e ficar fora algumas horas, e vamos
conversar.”

Estreito meus olhos para ele. “Em algum lugar escuro,


certo?”

Em um cinema onde não seremos visto?

Pike olha para mim como se isso é exatamente o que ele


estava pensando, e está arrependido por isso, mas é a maneira
que é. “Nós vamos resolver isso.” Ele coloca as mãos em ambos os
lados da minha cabeça na porta atrás de mim e se inclina. “Só
ainda não. Não vá embora ainda.”

A dormência que senti desde a última noite vacila, e eu o


ouço na minha cabeça. Não irei a lugar nenhum. Eu não irei a
lugar nenhum…

Não tenho dúvidas de que isso é verdade. E será sempre


verdade. Pike não foge de suas responsabilidades. Ele sempre
cuidará de mim.

E não consigo pensar em qualquer coisa que eu prefira do


que ser menos para ele do que uma obrigação. Não posso ser
como Cole ou seu emprego, sua casa ou suas contas. Eu não sou
um dever.

Eu sou todo o resto.

“Você me ama?” Pergunto. “Você está apaixonado por


mim?”

Ele segura meu olhar, e até mesmo no escuro, posso ver


que seus olhos estão vermelhos, cansados e feridos. Mas quando
ele abre a boca, as palavras não saem.
Balanço minha cabeça. “Não importa, eu acho.” Desisto.
“Você não tem coragem, então você não será para sempre.”
Endireito minha postura, apertando a minha mão em torno das
alças das minhas bolsas. “E no final, você acabará sendo nada
mais do que um desperdício do meu tempo.”

Seu rosto demonstra tristeza, e ele parece completamente


desaminado. Pike não tem a convicção de fazer qualquer coisa.
Tudo o que sabe é que ele não quer que eu vá.

“Oh, isso é muito bom,” diz alguém. “Então essa é sua


perversão, hein, Jordan?”

Pike e eu viramos a cabeça abruptamente para ver Jay


saindo da cozinha e entrando na sala de estar. Pike solta suas
mãos e endireita sua postura, fixando Jay com um olhar severo.

“Vamos lá, baby,” Jay me provoca, e eu posso sentir o


cheiro da cerveja em seu hálito daqui. “Eu serei seu papai e você
pode abrir as pernas para mim também, por um pouco de
dinheiro do aluguel.”

Pike avança sobre Jay, e eu suspiro. Ele agarra Jay pelo


colarinho e gira-o bruscamente, jogando-o pela porta. Jay mal
recua, provavelmente porque ele sabia o que estava fazendo.

Meu coração para, vendo-o tropeçar na varanda e Pike


avança atrás dele.

Ambos rolam pelas escadas, algumas pessoas espalhadas


ao redor do gramado enquanto eles deixam a festa pelo portão
dos fundos e seguem para seus carros.

Jay empurra Pike longe, mas Pike agarra seu braço, levanta
seu punho para trás, e solta como um martelo, batendo Jay no
rosto e jogando ele para o chão. Eu ando para a varanda, vendo
os transeuntes pararem e assistir, enquanto outros gritam.

“Que diabos está acontecendo?” Ouço a voz de Cole.


Olhando por cima, vejo-o aparecer da lateral da casa. Eu
caminho até a grade e assisto Pike, puxando Jay do chão e o
jogando em um carro.

“Pai!” Cole grita, correndo até lá.

Mas ninguém parece notá-lo.

“Não se preocupe.” Jay ri de Pike, sangue escorrendo de


seu lábio. “Podemos compartilhar a pequena prostituta.”

Cole se vira para mim. “Jay machucou você?”

Acho que não era difícil para ele descobrir quem é a


‘prostituta’ que Jay estava se referindo. Não digo nada.

Jay olha para mim, gritando, “Por que você não diz a Cole
quão aconchegados você e o pai dele estavam aqui sem ele?”

“O quê?” Cole olha entre nós, a confusão em seu rosto.

“Eu verei você novamente, Jordan!” Jay grita, empurrando


a mão de Pike longe e pegando as chaves do carro. “Você estará
trabalhando no The Hook assim como sua irmã, e eu entrarei lá e
comprarei o seu rabo. Isso é uma prome —”

Outro punho acerta seu rosto, mas não de Pike desta vez.
Cole corre para ele e o faz tropeçar para trás na calçada.

Jay rosna, cuspindo no chão e colocando sua mão nos


lábios então as puxa e inspeciona.

“Você arrancou um dos meus dentes!” Ele grita.

“Saia daqui!” Cole grita, levantado os braços. “Vá!”

Suor brilha na testa de Pike, e ele olha para mim com os


mesmos olhos que olhou para mim na primeira vez que dormimos
juntos. Quando o montei na minha cama, e ele olhou para mim,
aceitando e me dando tudo o que tinha.
Todo o resto que nos rodeia desaparece. Ele aperta os
punhos ao seu lado, e seu corpo está rígido, como se estivesse
prestes a avançar em mim, pegar-me em seus braços e me levar
embora.

“Vocês dois?” Ouço Cole questionar.

Eu pisco, Pike abaixa seu olhar, e o feitiço está quebrado.


Cole está entre nós, olhando entre nós enquanto as pessoas se
dispersam lentamente, e o vejo começar a ligar os pontos com a
forma como estávamos olhando um para o outro.

“Jordan?” Cole indica para que eu diga alguma coisa, mas


eu simplesmente abaixo meu olhar, incapaz de olhá-lo.

Pike engole com dificuldade, sua respiração é superficial.


“Cole —”

“Oh, foda-se,” Cole diz para ele, interrompendo-o e se


afastando.

Pike dá um passo, mas Cole gira ao redor e sai apressado


do quintal indo para a rua.

Pike não o segue. Ele conhece seu filho pelo menos tão bem
quanto eu, e Cole não ouvirá nada esta noite. E o que Pike diria
para tornar isso melhor, afinal? O dano está feito.

Pike fica lá, olhando atrás de Cole e parecendo como se a


vida foi sugada dele. O que ele tem agora?

Pego minhas chaves, desço as escadas da varanda e


caminho para o meu carro, não parando ou hesitando quando
passo por Pike Lawson.

E ele não me segue também.

Agora eu sei o que ele quis dizer e deixou implícito a noite


passada. Eu não valho a pena.
Eu sei que tudo está uma bagunça, eu digito no meu
telefone. Por favor, saiba que não era sobre vingança.
Simplesmente aconteceu, e eu sinto muito.

Estive olhando para o meu telefone durante vinte minutos,


tentando descobrir o que dizer a Cole. Estou fora das redes
sociais e só falo com a minha irmã e seleciono alguns outros por
um tempo. Preciso de espaço e tranquilidade. Só não quero ficar
em silêncio, sem alguma coisa.

Eu não estou triste, isso aconteceu, mas sinto muito que


isso o machucou. Raciocinei comigo mesma que ele me enganou,
e eu não lhe devo nada.

Mas não quero que isso acabe assim. Eu estou bem em ir


embora. Estou bem em não o ver agora.

Eu só precisava que ele soubesse... não foi culpa dele.

Você o ama? Sua resposta aparece.

Agulhas picam o fundo da minha garganta, e eu pressiono


o botão na lateral do meu telefone para desligá-lo.

Engulo com dificuldade o caroço na minha garganta e enfio


o telefone no bolso lateral da minha mochila e fecho-a, fechando
meus olhos para impedir as lágrimas.

Shel entra na sala de bebidas onde estou de pé na frente de


uma pilha de caixas de cerveja, e em vez de entregar meu salário
que ela foi buscar, ela pega um maço de dinheiro e desliza-o na
minha bolsa sem me deixar vê-lo.

Depois que fui novamente na última noite para a casa da


minha irmã, eu vim aqui hoje para receber meu pagamento antes
de sair. Mas a julgar pela pilha de notas que ela simplesmente
escondeu na minha bolsa, Shel, sem dúvida, me pagou muito
mais do que ganhei.

Se eu brigar com ela, seria apenas um desperdício de


energia. Faço uma nota mental para trabalhar horas extras
quando eu voltar. Qualquer hora que seja.

“O que você vai fazer?” Ela pergunta, descansando a mão


no quadril e olhando para mim.

“Eu não sei.”

“Onde você vai?”

“Eu não sei.”

Ela suspira, e eu puxo minha mochila, jogando-a por cima


do meu ombro.

“Normalmente, isso me assustaria, mas...” Eu paro,


pensando. “Não quero continuar fazendo qualquer coisa que eu
tenho feito. Só quero acordar amanhã e não reconhecer nada
sobre a minha vida.” Eu levanto os meus olhos, olhando para ela.
“E por favor não me dê nenhum sermão sobre como estou
fugindo, debatendo, deixando os outros controlarem o que
sinto...”

Shel pega meus ombros, falando com firmeza. “Fuja,” ela


diz, sem rodeios. “Fuja para longe. Apenas vá. Ligue se você
precisar de alguma coisa, ok?”

Eu aceno, grata que ela entende. “Você pode dizer a Cam


para não se preocupar? Eu estou bem, e vou ligar para ela.”

“Você não vai vê-la?”

Lágrimas ameaçam, e eu afasto-me de Shel e das suas


mãos, enquanto saio do deposito. “Eu não posso.”
Se eu pensar muito tempo, ou olhar para o rosto dela, eu
desistirei. Pike me disse uma vez 'aproveite a oportunidade e
comece a toda velocidade’. Tenho certeza que isso não é o que ele
queria dizer, mas vou pensar que sim.

Jordan Hadley não deixaria seu emprego. Ela não entraria


em um carro precário e não confiável e pegaria a estrada sem ter
para onde ir. E ela tem certamente muito medo de ficar sozinha.

Se pensar, eu não farei isso. Eu vou. Sem volta. Talvez


voltarei amanhã, no dia seguinte, ou na próxima semana, mas
quanto mais eu mantiver o meu pé no acelerador, mais longe
estarei de quem eu era.

Paro no bar e pego meu casaco que deixei em um


banquinho.

“Eu sei que dói,” Shel diz, vindo atrás de mim. “Você estava
feliz.”

“Vou ficar bem.” Eu prendo o casaco na minha mochila,


evitando seus olhos. “Ele não foi o meu primeiro.”

“Sim, ele foi.”

Eu paro e olho para ela, os nós em meu estômago apertam.

“Você não precisa dizer nada, mas você sabe...” ela


continua, “você não sentiu isso com Cole ou Jay ou qualquer
outra pessoa.”

Olho para longe novamente, mordendo o canto da minha


boca para manter os meus sentimentos sob controle.

Irei superá-lo. E muito em breve, toda a memória vai


desaparecer, todas as suas palavras e cada toque. Tudo vai
desaparecer.

“Mas vou dizer-lhe uma coisa, garota,” ela continua,


falando baixo e discretamente para os poucos clientes no local. “O
que você sente por ele ou qualquer outra pessoa não é o que você
precisa. Isso —” ela bate no meu peito por cima do meu coração,
“o que você está sentindo agora — é a melhor coisa que pode
acontecer com você. Porque quando todas as peças do seu
coração se reunirem novamente, e elas vão, elas serão mais
fortes. E muito mais difíceis para alguém ultrapassar.” Shel
empurra o meu cabelo atrás da minha orelha do jeito que ela
sempre faz. “Então você pode ter certeza que quando alguém
finalmente o fizer, ele terá trabalhado por isso. Nós não
precisamos de comida para sobreviver a esta vida, tanto quanto
precisamos de nossos corações quebrados pelo menos uma vez.
Mas a melhor parte é, a primeira ruptura é sempre a pior. Isso
nunca vai parecer tão ruim novamente.”
E por isso, estou feliz. Mas também me faz pensar... se o
meu coração nunca quebrar tão ruim novamente, então eu nunca
amarei alguém como eu amei Pike Lawson?
Capítulo 25

Pike

Eu estaciono na casa de Lindsay, verificando o


estacionamento ao meu redor procurando o Challenger de Cole.
Não o vejo, mas eu mal posso ver alguma coisa através da chuva
agora. Liguei para ele e Jordan sem parar durante as últimas
vinte e quatro horas, mas eu não aguento mais. Se Cole quer
tempo, eu posso fazer isso. Se ele precisa de espaço, darei isso a
ele.

Mas eu preciso pedir desculpas pessoalmente. Preciso que


ele saiba que eu o amo, e não queria que isso acontecesse.

Não que ele ouvirá ou provavelmente até mesmo me ouvirá


através de sua raiva, mas não posso ficar sem fazer nada.

Saindo da minha caminhonete, eu corro para a porta de


Lindsay, sob a varanda coberta e bato com meu punho. Tem
chovido durante todo o dia, e enquanto dei o dia de folga para os
caras, eu ainda fui ao local e cuidei de algumas coisas apenas
para matar o tempo até Cole sair do trabalho hoje. Se ele já
começou seu novo trabalho, é claro.

Lin abre a porta, ainda usando sua saia lápis de seu


trabalho de escritório, mas com os pés descalços e sua camisa
para fora. Ela me vê e cruza os braços sobre o peito, prendendo-
me com um olhar presunçoso.

“Eu quero falar com ele,” digo a ela.

“Você já fez o suficiente,” ela zomba, puxando seu rabo de


cavalo mais firme. “Jesus, eu pensei que eu era a mãe ruim. O
que você estava pensando? Pegando a sobra dele como se não
houvesse qualquer outra mulher nesta cidade que você pudesse
foder?”

“Não foi assim.”

“Poupe-me os detalhes.” Ela alcança a uma mesa próxima e


agarra um copo com o que é mais provável vodca e suco de
laranja. “Ela não é diferente do que você pensou que eu era. Ela
usou você, Pike. Usou por um lugar para viver e serviços, e oh, o
que mais você fez? Consertou o carro dela também?” Lindsay
balança a cabeça, sorrindo amargamente. “Ela teve sorte com
você, e tudo o que tinha que fazer era abrir as pernas. Cristo, os
homens realmente são estúpidos quando se trata de um rosto
bonito.”

Meu queixo contrai. Jordan não é assim. Ela não é nada como
você.

Mas não estou aqui para falar sobre ela de qualquer


maneira.

“Você não sabe de nada,” falo entre os dentes.

“Ah, vocês dois estavam apaixonados?”

Meu coração bate duas vezes mais forte, e sinto tristeza,


uma imagem surge na minha mente dela de pé à beira da piscina
apenas três noites atrás, pedindo-me para dizer a Cole e então
levá-la para a cama — nossa cama.

Sinto-me ansioso. Tenho tanta saudade dela.


“Oh, meu Deus, você a ama,” Lindsay diz, olhando para
minha cara e parecendo que está prestes a rir.

Mas antes que ela possa dizer qualquer outra coisa, eu


reúno minha coragem. “Onde ele está?”

“Foi embora,” ela diz, inclinando-se na porta e tomando um


gole de sua bebida. “Pelas próximas oito semanas.”

“O quê?”

“Bem, talvez se você estivesse dando mais atenção ao seu


filho do que ao pedaço de lixo descartado dele, você saberia que
ele foi ao MEPS10 há mais de uma semana para seus testes físicos
e outros,” ela me diz, muito contente por esfregar tudo o que eu
não sei na minha cara. “Ele se alistou na Marinha, Pike. Parece
que ele estava desesperado por orientação, o que claramente não
conseguiu de você. Ele embarcou esta manhã.”

Minhas sobrancelhas se juntam. “O quê?” Eu grito desta


vez.

A Marinha? Você não pode simplesmente entrar para a


Marinha. Leva meses para se alistar. Eu deveria saber. Eu quase
fiz isso quando tinha a idade dele.

Como se sentindo minhas perguntas, ela continua. “Cole


esteve planejando isso por um tempo. Ele está perdido, mas quer
alguma direção,” ela diz, como se recitando sua lista de compras.
“Cole estava com medo de contar a alguém, porque tem o hábito
de não seguir com as coisas. Ele queria surpreender-nos quando
estivesse certo. Depois que ele foi para o MEPS e fez teste,
conseguiu a parte física, e se comprometeu, no entanto, ele ia
dizer a você, mas acho que nunca teve a chance.”

Solto uma longa respiração, e abaixo minha cabeça.

10
MEPS — Military Entrance Processing Station (Estação de entrada e processamento militar).
Sinto pontadas na minha garganta e meus olhos ardem.
Isso não está certo. Ele não teria feito algo assim. Cole não é...
disciplinado. Será que ele voluntariamente entrou nisso? O que
estava pensando?

“Ele está na Naval Station Great Lakes,” ela diz. “Ele voltará
em alguns meses. Verifique seu Instagram se você não acredita
em mim. Ele fez um post final esta manhã.”

Instagram? Eu não…

Jesus Cristo.

Lindsay bate à porta, e eu imediatamente ouço o bloqueio.

Eu fico lá, do lado de fora de sua porta, a chuva ao meu


redor com os últimos dias passando pela minha cabeça enquanto
eu tento ligar quaisquer pistas que Cole deixou sobre seus
planos. Deixar o seu trabalho, dizer-me todas as vantagens do
novo... Ele queria uma tatuagem.

Este novo trabalho secreto era um grande negócio.

Será que ele realmente entrou para a Marinha?

Voltando para minha caminhonete, eu entro e fecho a porta


contra o aguaceiro, e verifico meu telefone por quaisquer
mensagens ou ligações novamente.

Mas nada ainda. Nem de Cole ou Jordan.

Será que ela sabia sobre isso?

Não, ela teria me contado.

Lembrando o que Lin disse, eu digito Cole Lawson


Instagram na barra de pesquisa, e vejo imediatamente algumas
contas diferentes aparecer. Clicando nelas, eu encontro um com a
foto dele e percebo que a primeira mensagem é a mais recente. É
apenas uma imagem das portas abertas de um ônibus que parece
que ele está prestes a embarcar com uma legenda Eu deveria ter
tomado a pílula azul.

O que isso significa? Então eu me lembro do filme Matrix.


Um de seus filmes favoritos quando ele era pequeno.

Passo a mão pelo meu cabelo, pronto para estourar. Como


Cole não pode pelo menos me enviar uma mensagem? Eu
entendo que ele não quer falar comigo, mas ele precisava saber
que estou preocupado. Deixar-me durante meses com todas essas
perguntas...

Fico na caminhonete e passo a meia hora seguinte


pesquisando sites e blogs de pais, tentando descobrir como posso
falar com ele. Cole não tem permissão de usar telefone celular
durante o treinamento, e eu não posso ligar a menos que haja
uma situação de emergência, e mesmo assim eu preciso tentar
através da Cruz Vermelha para alcançá-lo.

Porra. Sinto que estou em um estado de surrealismo agora.


Cole se foi. Não há nenhuma maneira de alcançá-lo
imediatamente por oito semanas.

Nós não passamos muito tempo juntos nos últimos anos,


mas ele ainda estava há apenas um telefonema de distância. Não
posso deixar que as coisas fiquem assim durante dois meses.

Pesquiso a estação de recrutamento local na área e ligo


para o escritório. Eu poderia ser capaz de conseguir seu endereço
através deles uma vez que ele receber sua atribuição.

Não há resposta, por isso vou segui-lo e descobrirei como


farei para ele falar comigo.

Maldição. "Merda!"

Sinto-me tão impotente.


Sabendo que seu telefone celular provavelmente já foi
confiscado, eu disco de qualquer maneira e seguro o telefone no
meu ouvido. Vai imediatamente para a caixa postal.

“Cole,” eu digo, engolindo algumas vezes para molhar a


garganta. “Eu... eu...”

Balanço a cabeça, fechando os olhos.

“Eu te amo,” digo a ele. “E estou sempre aqui para você. Eu


sei que... eu sei que não tem desculpa. Eu só...” Lágrimas surgem
nos meus olhos, e não sei mais o que dizer exceto a verdade. “Eu
tentei não me apaixonar por ela. Eu tentei. Sinto muito.”

Desligo e jogo o telefone sobre o banco, sentindo-me vazio.


Não quero qualquer um deles lá fora sem que saibam que eu os
amo.

Estou sozinho de novo, e eu só os quero de volta. Eles são


tudo.

Jordan estava certa. Eu deveria simplesmente ter contado a


ele, superado isso, e o deixado seguir em frente aceitando isso.
Eu nunca desistiria dela de boa vontade. Quanto tempo pensei
em continuar mentindo para ele? Mesmo que ela e eu não
terminássemos, eu precisava dizer a ele em algum momento.

Ligo o motor e dou marcha à ré, recuando para fora da


vaga no estacionamento e acelerando para fora dali. Volto para a
estrada e sigo para cidade, verificando periodicamente o meu
telefone por quaisquer mensagens.

Jordan deixou quase tudo na minha casa. Ela pegou


algumas roupas, seus livros, e alguns itens pessoais, mas seus
modelos, sua cama e móveis, e a pintura ainda estão lá. Ela
voltará por aquelas coisas, né? Toda a esperança ainda não está
perdida. Eu a verei novamente.
Mas não a vi na cidade em qualquer lugar, ela não foi ao
trabalho, e também não vi o carro dela. Onde ela está?

Jordan estava tão calma na outra noite. Estranhamente


calma, na verdade. Como se não se importasse mais.

Eu me odiarei para sempre se a arruinei. Minha garota


linda, feliz e sexy que me mata com seus sorrisos e piadas.

Entrando no estacionamento do The Hook, eu pulo fora da


caminhonete e caminho através da chuva até o clube.

Não há ninguém na porta montando guarda, mas duvido


que eu pararia de qualquer maneira. Entro e paro de repente, um
déjà vu me inunda. A mesma música de dança do FaceTime da
Jordan está tocando enquanto duas mulheres giram em torno dos
pole dance no palco. A imagem de seu belo corpo dançando me
atinge, e eu estou quase enjoado sobre como fui estúpido pelo
que perdi.

Avistando Cam a esquerda, eu caminho até lá, sem me


importar que ela está em cima de um cara agora. Ela o monta,
com seus braços apoiados sobre os ombros dele.

“Onde ela está?” Eu exijo.

Cam olha para mim, arqueando uma sobrancelha enquanto


se movimenta sobre o cara, não perdendo o ritmo.

“Olha, eu só quero falar com ela, ok?”

Cam termina com o cara, sussurrando algo em seu ouvido,


e se levanta da cadeira, passando por mim.

Eu sigo-a. “Posso pelo menos saber se ela está bem?”


Pergunto, com meu tom firme. “Já passou vários dias. Ela está
ficando em algum lugar seguro? Jordan deixou quase tudo para
trás, então eu sei que ela ainda não tem um lugar próprio.”
Cam continua andando, e eu estou um pouco
desconfortável com a meia arrastão envolvendo sua bunda
vestida com tanga, mas continuo atrás dela. Cam aponta para o
barman que alcança uma geladeira e pega uma garrafa de água
para ela, deslizando-a sobre o bar.

Mas em vez de parar, ela pega a água, se vira e continua


andando para longe de mim.

“Cam, Jesus!” Deixo escapar, pegando minha carteira e


puxando o dinheiro. “Aqui está uma centena de dólares por cinco
minutos do seu tempo!” Então jogo sobre o bar. “Eu não quero
uma dança. Tudo que eu quero —”

Ela gira ao redor, e eu não tenho nenhum tempo para


reagir antes do joelho atingir diretamente entre minhas pernas,
fazendo-me cair para frente.

Resmungo, ofegando quando ondas de dor percorrem


minha virilha, coxas e estômago. Eu aperto meus olhos fechados,
caindo sobre um joelho e uma camada fresca de suor domina
todo meu corpo.

Ouço fracamente sua voz no meu ouvido. “Eu não dançaria


para você mesmo se você valesse um bilhão de dólares e seu pau
tivesse sabor de cereja,” ela fala. “Fique longe de mim e da minha
irmã. Esqueça que ela existe.”

Ondas de enjoo percorrem meu corpo, e leva um tempo


antes que eu possa respirar normalmente novamente. Quando
consigo endireitar minha postura e minhas pernas trêmulas, Cam
já foi embora.

E também meus cem dólares.


“Você não a ama, não é?” Dutch pergunta.

Termino de empilhar as caixas na garagem, meu quarto


projeto na semana passada para me manter ocupado quando não
estou no trabalho.

Dutch senta em uma cadeira de gramado do lado de fora,


inclinando-se para frente, os cotovelos sobre os joelhos e olhando
para mim como se eu fosse um touro em uma loja de porcelana
chinesa, prestes a quebrar tudo a qualquer segundo.

Já passaram nove dias desde a última vez que vi meu filho


ou a Jordan, e cada dia que passa parece que eles ficam cada vez
mais longe de mim. Como se ele se mudou e como se eu nunca
existi para ela.

Qualquer esperança que eu tinha está rapidamente se


esgotando.

Eu liguei, mandei mensagem, deixei mensagens de voz para


os dois, e a única pista que tenho é um endereço para escrever a
Cole, que eu assediei seu recrutador para conseguir para mim.
Enviei minha primeira carta ontem.

Quanto à Jordan, a única garantia que eu fui capaz de


conseguir que ela está bem é de Dutch que ouviu de sua esposa,
que ouviu de Shel que a Jordan está fora da cidade visitando
amigos, e ela está bem.

Ela vai voltar?

Parei de ligar depois de alguns dias, porque ela claramente


não quer falar, e eu estou tentando respeitar seus desejos, mas...
Se Jordan ligasse agora, eu a buscaria em qualquer lugar que ela
estivesse e lhe daria qualquer coisa que quisesse. Para o resto da
minha vida, ela pode ter tudo o que quer.
“Pike, você não pode se casar com ela,” Dutch afirma como
se soubesse onde minha cabeça está. “Você sabe disso, certo?”

Mantenho as minhas costas para ele, arrumando as


ferramentas que estavam na bancada e lentamente limpo a mesa.

Nove dias atrás eu teria concordado. Eu teria dito que ele


estava certo.

As pessoas falarão. Provavelmente já estão falando.


Tornarão isso sujo e errado, e seus amigos da universidade
brincarão com ela, e ninguém nos levaria a sério. Tudo o que eles
veem é a sua idade e como ela mudou do filho para o pai, e seria
o assunto da cidade.

Mas agora eu não tenho tanta certeza. Quem se importa


com o que eles pensam? Nós passaríamos por isso, e o círculo de
amigos da Jordan é tão pequeno quanto o meu. Ela não dará a
mínima para sobre o que estranhos têm a dizer sobre isso.

Seríamos felizes e eventualmente, as pessoas seguiriam em


frente.

Ela me queria. Ela queria me amar.

Ela estava pronta para nós.

Balanço a cabeça, argumentando, “Ela é diferente.”

“Não, ela não é,” Dutch responde. “Ela é jovem e cheia de


esperança. Como nós costumávamos ser.”

Viro lentamente e olho para ele. Não é como se Dutch


ficasse contra mim.

Mas eu escuto quando ele fala.

“Tudo é novo e lindo para ela,” ele diz. “Jordan está


animada sobre a vida, e ela o faz se lembrar como era. Antes de
nós crescermos e percebermos que não seríamos pilotos de caça
para salvar o mundo ou os reis de Wall Street andando por aí em
limusines.” Ele ri baixinho, sentando-se para trás na cadeira.
“Antes que houvesse contas a pagar e responsabilidades
aumentando enquanto os anos passam.”

Seus olhos abaixam, e eu posso ver tudo o que estou


sentindo no seu rosto. Ele não odeia a sua vida, e adora sua
esposa e filhos, mas se pudéssemos voltar atrás e fazer pelo
menos uma coisa diferente, eu sei que nós dois faríamos.

Aqui nós nos acomodamos, e não temos certeza do que


precisamos mais desejar.

“Olha, cara,” Ele levanta os olhos para mim. “Você se


divertiu com ela. Não estou dizendo que fez alguma coisa errada.
Se o sexo é bom então aproveite um ao outro. Mas você precisa
pensar no futuro, e você sabe que nem sempre parecerá assim.”
Ele faz uma pausa, sua testa franze. “Ela acordará em dez anos e
verá a foto online de um amigo da escola que está fazendo trilhas
pelo Nepal, ou algo assim, e ela olhará para sua própria vida e
pensará sobre como está sobrecarregada com duas crianças
nesta cidade pequena e casada com um homem de quase
cinquenta anos cuja vida já passou da metade.”

Permaneço em silêncio, o peso de suas palavras caindo no


meu interior como tijolos.

“Você acha que ela não se arrependerá de escolher você,


sabendo que seus melhores anos estão quase acabados?” Dutch
pergunta.

Mas eu não preciso responder. Ele sabe que está certo.

Em dez anos, ela ainda será jovem e bonita, e eu a


merecerei ainda menos do que mereço agora. Não posso dar a
Jordan tudo o que ela quer, não importa quanto o meu ego pensa
o contrário.
Jordan nasceu para coisas grandes. Ela é inteligente e
forte, e merece o mundo. E merece uma vida que passou por mim
há muito tempo.

Outro homem será tudo o que eu não sou e nunca serei


para ela, e mesmo que essa ideia seja como ácido na minha boca,
Jordan estará mais feliz por isso. E acima de tudo, é o que eu
quero. Jordan crescerá com outra pessoa, e essa é a vida que ela
merece.

Dutch sai, e eu fecho a garagem, seguindo para a casa e


imediatamente subo as escadas. Eu paro no quarto de Jordan, a
porta aberta e a brisa leve vindo da janela soprando as folhas da
árvore no quintal.

Seu leve cheiro permanece, e a marca que seu corpo fez


ainda está gravada no travesseiro apoiado em sua cadeira.

Não entro, no entanto. Não é o meu quarto, não é mais a


minha garota, e ela está lá fora em algum lugar, seguindo em
frente com sua vida, e eu preciso fazer o mesmo.

É o suficiente. Fazer a coisa certa.

Alcançando a maçaneta, eu inalo seu perfume pela última


vez.

E fecho a porta.
Capítulo 26

Pike

Dois meses depois

Passando a corda fina e branca em volta da roda, eu a puxo


e vejo que se movimenta em minha direção através da polia. Vou
para o outro poste de madeira que cimentei no quintal e puxo a
corda, testando-a.

Eu não tenho ideia do porque estou instalando varais.

Tudo que sei é que estou ficando sem ideias. Já construí


uma mesa de piquenique de madeira que tem um compartimento
para gelar cerveja embutido no meio dela, envernizei-a e
acrescentei bancos. Também já montei um fire-pit11, construí um
caminho de pedras do portão dos fundos até a porta, fiz uma
cobertura para os canteiros de flores, coloquei tochas ao redor da
piscina, uma pérgola, uma rede e um pequeno lago com um
jardim de rochas. Continuo me movendo de um projeto para
outro, então não tenho tempo para pensar sobre o fato de eu não
fazer uso de nada disso. Vou desfrutar quando terminar, eu acho.

“Parece diferente aí atrás,” eu ouço alguém gritar.

11
Fire pit é uma espécie de lareira/fogueira para áreas externas.
Olho para cima e vejo Kyle Cramer de pé na varanda do seu
quarto e olhando para baixo, para o meu quintal.

Será que esse cara sente tesão por mim ou algo assim? Por
que ele está sempre tentando falar comigo?

“Está com tempo livre, não é?” Ele sonda. “Eu notei que
tem estado muito mais silencioso por aqui nas últimas semanas.”

Lanço a ele outro olhar, dando um sorriso silencioso. Talvez


se eu manifestar algum apreço ele me deixe em paz.

E sim, tem sido mais silencioso. Até agora.

“Então, hum,” ele começa, e eu silenciosamente solto um


gemido. “Eu vi você e Jordan uma noite destas.”

Paro o que estou fazendo e jogo meus olhos para cima


novamente, olhando para ele. Calor sobe pelo meu pescoço ao
ouvir o nome dela. Não falei sobre ela com ninguém por meses
agora.

“Minha cozinha fica de frente para sua,” ele explica. “Já era
tarde e vocês dois estavam na pia.”

Meu corpo se aquece, lembrando do momento. A lembrança


dela andando nua para a cozinha uma noite e como não a deixei
fazer um lanchinho noturno até que eu tivesse feito o meu. Ela
estava tão linda.

Fico ereto, cerrando os dentes. “Você ficou assistindo?”

“Não,” ele solta como se nunca fosse fazer uma coisa


destas. E então ele dá de ombros. “Quero dizer, eu poderia ter
assistido se vocês dois não tivessem, eventualmente, ido parar no
chão, fora do alcance da minha visão.”

Ele termina a frase com uma risada, e se eu pudesse voar,


porra, estaria agora por cima deste muro, estrangulando-o.
Kyle parece notar minha raiva e tenta me acalmar. “Escute,
eu não queria ver nada, ok? Você pode tentar ficar longe das
janelas, sabe?” Ele balança a cabeça. “Só estou dizendo, que acho
que foi a primeira vez que vi você sorrir. Ela certamente parece
que o faz feliz. Na verdade, não posso nem imaginar um homem
que ela não faria feliz.”

“Cale a boca,” murmuro, curvo-me e pego as ferramentas,


guardando-as na pequena caixa.

Sério mesmo? Como podemos ter sido tão descuidados? Ele


é a última pessoa cujo os olhos quero em cima dela.

“Então, para onde ela foi?” Ele pergunta. “Não deu certo
entre vocês dois?”

Ignoro-o, recolhendo minhas coisas, para poder escapar


para dentro.

“Como você conseguiu ferrar tudo, cara?” Ele ri alto,


tomando um gole de sua cerveja. “Se você consegue uma mulher
daquelas — novinha e gostosa, com um corpo tão em forma —
você não a deixa escapar.”

Jogo a chave de fenda para baixo, virando-me para frente


sem ter para onde ir. “Eu vou chutar seu traseiro. Cale a boca.”

“Então, ela está disponível agora, certo?”

“Seu filho da puta,” resmungo.

Ele apenas dá outra risadinha. Devo ser muito divertido.

“Você definitivamente está triste,” ele diz. “Mulheres não


são seres tão difíceis de fazer feliz, se você colocar apenas metade
da sua razão nisso.”

“Não sou incapaz,” eu devolvo. “Mas esse não é o ponto.


Mulheres adolescentes devem ficar com rapazes adolescentes, e
não se esqueça disso da próxima vez que você der de cara com
uma delas. Ela merece alguém da idade dela.”

Kyle balança a cabeça, pensando. E então ele me alfineta


com o olhar. “Então, seu filho tem a idade dela, certo? Será que
ele a tratou melhor do que você?”

Inspiro com força, mas fico em silêncio. Ele me dá um meio


sorriso presunçoso e se afasta, caminhando de volta para sua
casa.

Esse não é o ponto, imbecil.

Sim, posso dizer com segurança que os relacionamentos


dela com rapazes de sua idade não foram um sucesso também,
mas...

Mas o quê? Eu não serei capaz de dar tudo o que ela quer?
Não vou amadurecer com ela? Não começarei tudo de novo e
construirei uma família outra vez na minha idade?

Há dois meses, todos estes pareciam ser argumentos


viáveis, mas com o tempo, já não parecem mais tão convincentes.
Como se talvez quem eu sou e onde estou na minha vida não é
algo esculpido em pedra. Como se pudesse ser sujeito a
alterações.

Balanço minha cabeça. Eu não sei.

Não, fiz a coisa certa. Já se passaram meses, e eu não


tenho notícias dela. Jordan claramente seguiu em frente.

Mas Deus, eu sinto falta dela, porra. É como se estivesse


doente constantemente, com fome, mas nenhuma comida é capaz
de me satisfazer. Há um vazio dentro de mim que não posso
preencher sozinho.
Pego a caixa de ferramentas e viro-me para entrar na casa,
mas quando olho para cima, vejo Cole de pé na porta dos fundos
que está aberta.

Paro. Jesus. Há quanto tempo ele está ali parado?

A caixa oscila de meus dedos enquanto nós dois


sustentamos nossos olhares e estou completamente chocado ao
vê-lo aqui.

“Eu vi você na formatura,” ele diz, uma mão sua está em


seu bolso.

Sua formatura no campo de treinamento foi ontem, e eu


escrevi para ele e persegui seu recrutador durante todo o verão,
tentando algum contato. Eu precisava vê-lo, no entanto. Não
podia perder isso. É uma grande realização.

Lentamente, movimento-me em direção a ele, incapaz de


desviar meu olhar. Cole parece muito bem. Mais alto e maior, um
longo verão no campo de treino o deixou com a pele mais
bronzeada e com os cabelos loiros agora quase raspados, mais
iluminados. Ele usa seu uniforme camuflado verde e segura na
mão o chapéu enquanto se inclina contra o batente da porta.

“Eu só queria te ver,” digo a ele. “Não tinha certeza se você


havia me colocado na lista ou se o seu recrutador o fez. Como
você não respondeu a nenhuma das minhas cartas, então não
tinha certeza se você me queria lá.”

Assim que a cerimônia terminou, eu queria falar com ele,


mas sua mãe estava lá com o namorado mais recente, e ele estava
acompanhado de um casal de amigos que tinha dirigido até lá
para vê-lo. Eu não quis estragar isso, então fui embora. Agora ele
receberia seu celular de volta e então veria todas as chamadas,
mensagens de texto e de voz. Cole me avisaria quando estivesse
pronto.
Ele baixa sua cabeça, examinando o chão à frente. “Eu
recebi todas as suas cartas. Obrigado pelos cartões de telefone.”

Você fala daqueles que não usou para me ligar? Minha


boca se retorce em um sorriso, sem culpa-lo. Foi um tiro no
escuro, mas estou feliz que ele tenha recebido tudo. Contanto que
soubesse que eu pensava nele...

“Como você está?” Subo as escadas e coloco a caixa de


ferramentas no chão, puxando um pano do meu bolso de trás e
limpando as mãos.

Ele está calmo e respira fundo. Finalmente, levanta seus


olhos azuis para mim. “Podemos tomar uma cerveja?”

Concordo suavemente com a cabeça e lidero o caminho


para dentro, entrando na cozinha. O ar condicionado me acerta,
resfriando o suor em minhas costas e meu nervosismo faz com
que seja difícil respirar, mas estou menos agitado do que pensei
que estaria quando este momento chegasse. Cole ainda não está
gritando, então isso é um bom sinal.

Retiro as tampas de duas Coronas, a luz do sol do fim de


tarde desaparece sobre a mesa da cozinha, uma vez que
mergulha atrás de algumas nuvens.

Ele se senta em uma cadeira e eu faço o mesmo. Quando


Cole permanece calado, porém, percebo a bola está no meu lado.

“Então, você está feliz?” Pergunto a ele. “Nas forças


armadas?”

Tive tempo para me acostumar com a ideia, especialmente


depois de conseguir algumas garantias com seu recrutador, mas
preciso ouvir isso dele.

“Sim.” Cole deposita sua cerveja sobre a mesa, mantendo o


punho em torno da garrafa. “Eu não sei, acho que é o que eu
precisava. Ser descontruído e recomeçar melhor.”
Espero que ele continue em frente.

“Eu não posso dormir em serviço,” ele diz, “não posso me


apresentar embriagado, não posso ligar e dizer que estou doente,
porque estou com preguiça naquele dia... É chato, mas também
tenho um emprego e dinheiro no banco. Uma carreira. Que
parece bem promissora.” Ele finalmente levanta os olhos para
mim. “Eu tenho um futuro e para alguém que nunca soube onde
diabos é o seu lugar no mundo, é meio que uma boa coisa deixar
o serviço militar decidir por você e mostrar uma direção.”

“Tem certeza?” Levanto a garrafa e tomo um gole.

Eu amo o que ele está fazendo consigo, mas também quero


ter certeza de que está trilhando seu próprio caminho.

Cole continua. “É aí que Jordan e eu nunca combinamos.


Ela sabia o que queria e eu me ressentia quando estava com ela,
porque nunca soube.” Ele solta um suspiro. “Eu não era igual a
ela, nunca fui bom o suficiente para ela. Eu nunca seria assim
tão forte de espírito. Alguns de nós apenas não é.”

Meu coração pula uma batida ao ouvir novamente o som do


nome dela, mas eu ignoro. Não estou confiante de que a adesão
ao serviço militar seja realmente o que ele quer fazer com sua
vida, mas estou certo de que Cole não encontraria respostas
nesta cidade. Pelo menos ele sabe disso também.

Ele foi suficientemente forte de espírito para dar esse salto.

“Você conseguiu, não é?” Pergunto. “Você conseguiu chegar


à formatura. Estou orgulhoso de você.”

Vejo seu pomo-de-adão subir e descer e os músculos de


sua mandíbula flexionarem. Ele toma outra bebida, ainda não
olhando para mim.
“Então, onde ela está?” Ele pergunta, lançando olhares
para trás, espiando na sala como se Jordan ainda estivesse na
casa.

“Eu não sei.” Balanço minha cabeça. “Ela saiu depois de


você. Não a vejo há dois meses.”

Seu olhar fica no meu, suas sobrancelhas franzidas com


preocupação.

“Eu falei com a irmã dela,” asseguro-lhe. “Ela está bem.


Onde quer que esteja.”

Cole parece aceitar essa resposta, porque toma mais um


gole. Mas agora estou um pouco mais nervoso do que estava há
um momento atrás. É claro que Jordan não manteve contato com
Cole, também. Não porque pensei que eles ficariam em contato
depois de tudo, mas eles foram amigos. Foram a corda salva-
vidas um do outro em determinado ponto. Quanto mais laços ela
cortar, menos razões terá para voltar.

“Você está vendo alguém?” Ele pergunta.

“Nah, não agora.” Tomo outro gole. “Apenas concentrado na


casa e no trabalho.”

“Sim, esbarrei em Dutch enquanto eu vinha para a cidade,


e ele me disse que vocês estão quase dois anos adiantados em
seu cronograma.”

Sorrio. “Nem tanto…”

Embora, estejamos indo muito bem. Você consegue


terminar um monte de trabalho quando não está correndo para
casa todos os dias para uma mulher que deixa seu corpo em
chamas.

“Então, foi ela que terminou com você ou o contrário?” Cole


pergunta, voltando a falar de Jordan.
Fico olhando para ele. Não quero falar sobre isso. Só quero
que ele esteja bem. Quero que ele converse sobre qualquer outra
coisa comigo.

Mas, principalmente, não sinto orgulho de minha resposta.


Se Jordan não tivesse ido embora, eu teria ficado com ela
enquanto ela quisesse ficar. Eu deveria ter aberto mão dela, mas
não o fiz. E não tenho certeza se teria feito se a escolha
dependesse de mim.

“Sinto muito,” digo a ele, em vez disso. “Você nunca vai


saber o quanto eu sinto.”

Seus olhos estão fixos nos meus, uma enxurrada de


emoções que não tenho certeza se quero enfrentar cruzam seu
olhar. Dor, decepção, confusão, solidão... Mas também, calma,
resolução e aceitação.

“Quando eu vi você na formatura ontem, queria ainda


sentir raiva de você,” Cole diz. “E fiquei irritado quando não
senti.”

Ele deixa seus olhos para baixo, as rodas girando dentro de


sua cabeça.

“Falam alguma coisa sobre tempo e distância, eu acho.” Ele


dá um sorriso triste. “Você tem outra perspectiva. Um monte de
tempo para pensar sobre as coisas.”

Sim.

“Quando eu tinha seis anos,” ele continua, “você perdeu


um contrato porque veio para o meu jogo da liga infantil naquele
dia. Em meu décimo aniversário, você mudou minha festa e
pagou para que todos pudessem ir ao kart, porque minha mãe e
um de seus namorados começaram a brigar dentro de casa e eu
estava envergonhado demais por aquilo estar acontecendo ali na
frente de todos. Quando terminei o ensino médio, você fez uma
segunda hipoteca para pagar minha faculdade — que eu
simplesmente joguei pelo ralo.”

Minha garganta incha. Ele se lembra de tudo isso?

“Você fez o que pode para me fazer feliz, não importa o


sacrifício, nunca pareceu ser uma decisão difícil para você.” Ele
olha para mim, sua voz cheia de emoção. “Então, eu acho que,
fazer algo que você sabia que poderia me ferir, definitivamente
não foi uma escolha fácil,” ele diz. “Eu sei que você me ama.”

Ranjo meus dentes para manter minha respiração e alívio


se derrama sobre mim.

“Não sei se realmente estou ok com tudo isso, mas...” ele


balança a cabeça. “Eu sei que você me ama.”

Estou sem palavras. É um pouco doloroso olhar para o seu


filho e tentar descobrir se você teve alguma coisa a ver com a
pessoa boa que ele se transformou. Não posso acreditar que Cole
está sentado aqui, quando não tinha nem certeza se um dia ele
me olharia novamente.

“Você ainda a ama?” Ele pergunta.

Eu hesito por um momento, procurando as palavras. Sim,


eu ainda a amo, mas... “Ela está melhor,” digo a ele.

Cole deixa assim por isso mesmo, não pressionando mais.


“Eu tenho que voltar amanhã à noite. Está tudo bem se eu passar
a noite aqui?”

“Claro.”

Ele se levanta, carregando sua cerveja em direção à sala de


estar. “O Twins está jogando contra o Cubs esta noite,” diz ele.
“Você quer assistir?”
Inspiro profundamente e expiro, sentindo como se meu
corpo estivesse relaxando pela primeira vez em meses. “Parece
bom. Vou pedir uma pizza.”

“Queijo,” ele especifica.

Sorrio baixinho. “Sim, eu me lembro.”

Puxo meu telefone do bolso e começo a discar para o Joe´s,


mas então ouço sua voz.

“E pai?” Diz ele.

Eu olho para cima.

“Eu te amo,” ele fala para mim. “Mas ninguém está melhor
quando está sem você.”

Naquela noite, eu acordo com o trovão que ressoa em


algum lugar distante. Não abro os olhos, o peso dos vários longos
dias de trabalho pesam sobre minhas pálpebras. Deito de lado,
sabendo que voltarei a dormir em um minuto.

O interior do meu braço direito queima com a tatuagem que


fiz mais cedo esta noite. Cole e eu decidimos ir para Rockford
após a pizza e fizemos essas tatuagens que ele havia mencionado.
Ele escolheu uma âncora no meio das costas, acompanhado por
uma bússola e um nó de pescador com o lema ‘Forjado pelo Mar’
em torno dele. Está apenas delineado, no entanto. Ele disse que
vai colori-la em depois que merecer ficar com ela.

Eu suponho que isso significa depois de seus primeiros seis


meses no mar.
A vela gravada na minha pele parece que está realmente
acesa, a fumaça do pavio subindo pelo interior do meu braço até
meu cotovelo. Desde que Cole mencionou pela primeira vez estas
tatuagens, há uns dois meses, eu sabia que algo que
representasse Jordan seria a única coisa que eu desejaria ter
gravado em mim para o resto da minha vida. A menina do
aniversário e seus desejos. Ela sempre será uma parte de mim.

Solto um longo suspiro, e embora eu tenha lavado os


lençóis várias vezes desde que ela foi embora, ainda posso cheirar
seu cabelo nos travesseiros.

E se eu me concentrar bastante e mantiver os olhos


fechados, ela ainda estará lá ao meu lado.

Serpenteio um braço ao redor de seu corpo, e a puxo para


perto de mim, enterrando meu nariz em seu cabelo fresco.

“Eu estava roncando?” Ela sussurra.

Eu sorrio, tentando não rir. “Não.”

Jordan é tão autoconsciente e adorável. Abraço-a contra mim,


sentindo-me tão completo, porque tudo que preciso está em meus
braços agora. Suas curvas se encaixam em cada centímetro de
mim e eu estou inteiro. Meu peito se enche de algo que é quase
grande demais para ser contido.

Ela respira calmamente e eu passo a mão sobre sua barriga


nua, meu corpo ganhando vida por ela. Tão facilmente, como
sempre.

De repente, sua voz baixinha perfura o quarto silencioso


novamente.

“Você me deixou grávida,” ela sussurra.

Eu congelo. O que ela disse?


Não, isso não pode estar certo. Nós sempre tomamos cuidado.

Quando não digo nada, ela se vira e me encara, seus olhos


cautelosos fixos nos meus. “Meu período deveria ter vindo à
semana passada,” diz ela timidamente. “Peguei alguns testes hoje
mais cedo. O melhor que posso imaginar é que estou com cerca de
um mês.”

Fecho meus olhos. Meu Deus. Um bebê?

Meu bebê.

“Espero que o bebê tenha meus olhos,” ela me diz.

Abro os meus. “Seus olhos?”

“Bem, ela vai ser uma mistura de nós dois, afinal,” Jordan
explica, “e eu quero que ela tenha o seu sorriso. Isso deixa as
coisas equilibradas, certo?”

Eu toco seu rosto. “Você tem certeza? Um bebê?”

Jordan balança a cabeça. “Tenho certeza.” Ela olha para mim


com cautela e pergunta: “Está tudo bem?”

Abro a boca, mas as palavras não saem. Um bebê? Imagino-me


acordando com um bebê no meio da noite, assentos de carro,
desenhos animados e estou sobrecarregado, mas estranhamente,
sinto-me... muito apaixonado por ela, pela ideia de seu corpo
crescendo com a minha criança.

Mas eu queria que Jordan tivesse opções. Será que ela


realmente quer isso?

A única coisa que eu sei é que quero ficar com ela. Eu quero
tudo com ela, e desejo, por causa dela, que se isso ainda não
aconteceu agora, viesse a acontecer eventualmente.

“Eu te amo,” sussurro. “Eu te amo muito.”


Jordan solta o ar, sorri como se estivesse segurando a
respiração durante aquele tempo todo, e sobe em cima de mim,
uma perna de cada lado do meu corpo.

“Eu também te amo.” Ela me beija, seu corpo nu se moldando


ao meu. “Eu estava tão nervosa. Não sabia se você queria mais
filhos, ou...”

“Shh, querida,” digo, beijando-a e segurando seu rosto. “Eu te


amo. Eu só...” Faço uma pausa e depois continuo, olhando em seus
olhos. “Você está presa a mim agora, não é?”

Ela me dá um pequeno sorriso, e eu seguro sua bunda em


minhas mãos.

“Já vi amor ruim demais, Pike,” diz ela. “Nós dois já vimos, não
é?” E então ela começa a rebolar seu quadril em cima de mim, o
encontra, e o mantêm. “Nada é mais importante.”

Fico duro enquanto ela se move contra mim, e seguro seu rosto,
olhando-a nos olhos.

“Você me ama?” Ela pergunta.

“Eu nunca vou parar de te amar.”

Jordan mergulha, beijando-me e pairando seus lábios sobre os


meus. “Então eu tenho tanta sorte,” ela sussurra. “Somos os dois
muito sortudos.”

Cavo minhas mãos e tento puxá-la para mais perto, mas


não há nada ali e de repente abro meus olhos, vendo que meus
braços estão vazios. Foi um sonho e eu não consigo diminuir o
ritmo da minha respiração. Jogando de lado o lençol, sento-me e
balanço minhas pernas para o lado, enterrando a cabeça entre as
mãos.

“Que se foda,” digo, minha testa coberta de suor.


Ainda estou duro, o sangue pulsando no meu pau, porque
ainda posso senti-la agora do mesmo jeito que sentia há dois
meses. Eu daria qualquer coisa para tê-la em meus braços agora.

Levantando-me, puxo minha calça jeans e ando para fora


do quarto. Passo pelo quarto de Cole, onde ele está dormindo e
silenciosamente abro a porta do quarto que era de Jordan. Seu
quarto está fechado há oito semanas, e eu sou afetado assim que
inspiro. Ela está em todos os lugares, eu fecho a porta e ligo a
luz.

Suas revistas Casa e Jardim estão nos pés da cama, e eu


olho para a mesa, meus olhos descendo para o canto e
lembrando-me de como ela estava bonita naquela noite. A caixa
de som que Dutch deu a ela está sobre a mesa, e vou até lá,
abaixo o volume e pressiono o Play. Reconheço Bruce
Springsteen’s I’m On Fire saindo do alto-falante e ajusto o volume,
novamente, não querendo acordar Cole.

Caminhando para a cama, sento ali e ouço a música,


olhando ao redor.

Não quero ficar longe dela, e nunca quis. Uma vez pensei
que estivesse apaixonado por Lindsay, mas não estava. Não era
assim.

E eu nunca disse a Jordan. Ela não sabe que a amo.

Nunca pensei que diria isso, mas Cramer está certo. Eu a


teria amado com tudo dentro de mim. Ela é tudo para mim. Faria
qualquer coisa para mantê-la feliz pelo o resto de sua vida.

Mas estraguei tudo.

Olhando para o lado, vejo um frasco sobre sua mesa de


cabeceira, a etiqueta frontal dizendo Sonhos. Aproximo-me e pego
o frasco, estudando as dezenas de papeizinhos enrolados, de
todas as cores diferentes e amarrados com um cordão dourado,
estocados ali dentro.

Meu coração ecoa dentro dos meus ouvidos, não querendo


invadir a privacidade dela, mas preciso saber. Preciso saber se
seus sonhos não me incluem ou não incluem as coisas que posso
oferecer a ela. Seu amor obscurece minha mente. O que ela
escreveu aqui será a verdade.

Solto a tampa, despejo os pergaminhos na cama e escolho


um deles. Removo o cordão, meu estômago se revirando de
nervosismo enquanto abro a primeira mensagem.

Inventar minha própria tradição de Natal.

Sorrio fracamente, algo assim é a cara dela. Jordan é


criativa e eu adoraria ver o que ela inventaria.

Solto o papel e pego outro para ler.

Dirigir um conversível com a capota abaixada na chuva.

Sim, posso vê-la arrastando-me para fora para fazer algo


assim, tentando fazer com que eu tenha um pouco de
divertimento.

Pegando outro rolinho, meu sorriso desaparece e minha


boca fica seca, preparando-me novamente para ver algo que
posso não gostar. A pulsação forte em meu pescoço enquanto o
desenrolo.
Ter uma biblioteca em minha casa algum dia. Com estantes,
folhas voando ao vento lá fora e uma chaise confortável com
cobertores aconchegantes.

Arqueio minhas sobrancelhas e solto o papel, rapidamente


pegando outro.

Eu me pergunto se conseguiria manter Pike na cama o dia todo


em um dia chuvoso, assistindo filmes.

Garanto a você, menina, que assistir filmes não será tudo o


que faríamos se ficarmos na cama o dia todo.

Desenrolo mais um. Passeio em um balão de ar quente.

Minha respiração se acelera enquanto continuo a abrir os


papéis, um após o outro.

Adotar um cão

Como fazer sua própria cerveja? Gostaria de tentar isso.

Levar meus filhos para viagens ao lago no verão.

Instalar um varal de cordas no quintal da minha futura casa.


Ninguém mais tem um destes!
Eu pisco. Acabei de instalar um varal destes. Ela tem isso
agora.

Eu continuo.

Correr uma maratona.

Manter um cobertor no porta-malas para piqueniques


espontâneos.

Ver um desfile.

Aprender a fazer chili.

Andar de quadriciclo.

Nadar no oceano.

Encher a caminhonete de Pike com cobertores e travesseiros e


sair para ver as estrelas.

Continuo lendo rolinho atrás de rolinho e, finalmente,


incapaz de continuar, empurro-os para longe.

“Foda-se,” solto com os olhos ardendo.


Posso dar-lhe tudo isso. Cada uma dessas coisas — seus
sonhos, a vida que ela quer — eu posso lhe proporcionar. Tudo.

O que eu estava pensando? Que ela queria riqueza, poder e


fama? O que ela disse em uma de suas primeiras noites aqui?

Eu não me importo com casamento. Eu só quero a vida.

Ela quer uma casa. Quer que as pessoas a amem.

Ela queria que eu a quisesse. Era só isso que ela desejava.

Lágrimas que não quero deixar cair escorrem dos meus


olhos. “Mas que porra foi essa que eu fiz?”
Capítulo 27

Pike

Respiro fundo e seguro enquanto agarro a maçaneta da


porta do Grounders. Tentei ligar para Cam, e até fui ao The Hook
novamente, mas não consigo encontrá-la. Então, precisa ser Shel.
Tenho certeza que isso é um desperdício de tempo — a mulher
me odeia desde que me conheceu — mas estou desesperado.

Abro a porta, e entro, a música e o cheiro de fritura me


invadem instantaneamente. Shel está atrás do balcão com apenas
três clientes à sua frente, olho em volta e vejo algumas mesas
ocupadas, mas a maioria está vazia. É uma noite de segunda-
feira bem tranquila.

Estalo meu pescoço, me preparando enquanto sigo para o


bar.

Ela me vê de imediato e para de secar o copo enquanto


suas costas endurecem. “Cam, você pode servir esse cara?” Ela
diz.

Olho para o outro lado e observo a irmã de Jordan


debruçada sobre o balcão. Deve estar cobrindo turnos de Jordan
enquanto ela tira uma folga.
Ela está apoiando sua cabeça na mão enquanto fala com
um cliente, mas assim que seus olhos encontram os meus, ela
endireita sua postura, e seu sorriso desaparece.

Shel começa a se afastar.

“Espere,” digo, parando-a. “Eu não vou ficar.”

“Ótimo.”

“Eu só...”

“Eu não vou te dizer onde ela está.” Shel me corta.

Vejo Cam nos observando, e respiro fundo novamente,


ajeitando meus ombros. “Eu só preciso saber se Jordan está
bem.”

“Ela está bem,” Shel responde secamente. “E ficará ainda


melhor se ficar longe de você e desta cidade.”

Baixo minha voz e imploro. “Eu preciso vê-la. Por favor.”

“Você teve a chance.”

Seus olhos estão quase cobertos por sua longa franja preta,
mas consigo ver muito bem o ódio neles.

Não quero incomodar Jordan. Ela tem mantido distância e


estou sem qualquer notícia sua, com isso acredito ter feito a coisa
certa. Ela está indo bem e ficará mais feliz.

Mas, eu não estou. Isso ainda não acabou para mim. Eu


preciso do meu coração para sair da cama, andar, falar, trabalhar
e comer; e ela o levou quando partiu. Eu não era muito antes de
Jordan aparecer, mas o que tinha dentro de mim ela levou
quando foi embora. Estou extremamente infeliz.

“Por favor, diga a ela...” Faço uma pausa, admitindo em voz


alta o que temia enfrentar. “Que eu a amo.”
Shel não diz nada, e não posso sequer olhar em seus olhos
e ver tudo o que ela está pensando e que sei que é a verdade. Eu
estraguei tudo.

Estou prestes a sair quando Cam diz.

“Já se passaram dois meses,” ela diz para Shel. “E ele ainda
continua fodido.”

“Isso não é problema da Jordan.”

“E nós não somos guardiãs da Jordan,” Cam responde. “Ela


foi embora uma vez, ela pode muito bem ir embora novamente se
for essa a sua escolha. Não precisamos protegê-la.”

Shel hesita, me lança um olhar furioso e finalmente desiste,


passando por Cam e seguindo para a outra extremidade do bar.

Cam vira para mim. “Olha, não sabemos exatamente a


localização dela.” Ela diz. “Jordan liga para dar notícias toda
semana. Mas sei que tem uma amiga cuja família administra
algum hotel no leste da Virgínia, e que estava tentando já há
algum tempo fazer com que Jordan a visitasse e, até lhe ofereceu
um emprego por lá no verão.” Ela hesita e depois dá de ombros.
“Sem muito dinheiro, não consigo imaginar Jordan tendo outro
lugar para ir.”

Virgínia. Essa é uma viagem de doze horas. Ela teria feito


isso com o VW?

Acho que se Cam diz que ela está ligando, então está
segura. E essa é uma boa pista que vou seguir. Suas aulas de
outono começam em uma semana, e se ela resolver voltar, deve já
estar se organizando, certo? Jordan provavelmente vai querer
retirar suas coisas da minha casa, e descobrir onde vai morar.
Será que ela está realmente planejando voltar a casa?

Preciso encontrá-la. Não posso esperar.


Eu me viro para sair, mas depois paro. “Qual é o nome do
hotel?” Pergunto a Cam.

Mas ela apenas suspira. “Hmm, não consigo lembrar,” ela


diz, zombando de mim. “Mas, acredito que se a deseja tanto, irá
encontrá-la.”

E, então Cam se afasta muito satisfeita por tornar minha


procura mais difícil. Posso fazer algumas ligações, mas se
encontrá-la dessa maneira, ela pode simplesmente desligar na
minha cara. Preciso ir encontrá-la pessoalmente.

Preciso pelo menos vê-la uma última vez e dizer que a amo
e que ela é tudo para mim.

E que estou morto sem ela.


Capítulo 28

Jordan

Clico com o mouse, movendo o seis de copas, colocando-o


sobre o sete de espadas. Então viro a nova carta, clicando duas
vezes, e vendo todas as cartas deslizarem automaticamente até
um espaço livre.

Depois de nove semanas eu me tornei muito boa neste jogo.


Danni continua sugerindo que eu aprenda poker ou blackjack ou
participe de alguns jogos online com pessoas do mundo todo, mas
ainda não estou nesse nível. Gosto de jogar sozinha. Apenas algo
para manter meu cérebro ocupado. Essas férias de verão também
foram bem agitadas. Ganhei em torno de trezentos e cinquenta
jogos dos quatrocentos que joguei, e só perdi muitos, porque
continuei jogando até tarde e adormeci, deixando minha bateria
morrer.

Na verdade, me sinto bastante patética quando me permito


pensar em como passei horas e horas durante este lindo verão.
Mas, então, começo um novo jogo e paro de pensar no mesmo
instante.

A campainha na porta do saguão soa, e olho para cima,


vendo um jovem entrar usando pulôver preto e jeans, vindo direto
para a recepção.
Escorrego do meu banco e fico de pé. Sempre me sinto
nervosa com a chegada de clientes tão tarde. O hotel fica em uma
rodovia antiga, sem uma grande concentração de comércio ou
iluminação. A maioria das pessoas prefere a Interestadual,
especialmente quando já está escuro, e as que não preferem, me
deixam desconfiada.

Mas, ei! Isso aqui é trabalho.

“Oi.” Sorrio. “Bem-vindo ao Blue Palms.”

Ele se aproxima do balcão, e meu sorriso vacila, vendo a


enorme asa tatuada em seu pescoço com as palavras O Diabo não
dorme gravadas em tinta preta. Esta é uma área bastante
conservadora. Ele não pode ser daqui.

“Olá.” Ele encontra meus olhos, mas apenas por um


segundo. “Quantos quartos vagos você tem?”

“Hum...” Olho para a prateleira da recepção e conto as


chaves para ter certeza. “Seis,” digo a ele.

Ele concorda, enfiando a mão no bolso de trás


provavelmente para pegar a carteira. “Vou ficar com cinco. Por
uma noite, por favor.”

Cinco? Acho que jamais ficamos sem quartos vagos desde


que cheguei aqui. Para que ele precisa de tantos quartos?

Mas não estou reclamando. Precisamos lucrar.

O Blue Palms, de propriedade da minha amiga Danni e sua


família, está localizado em uma estrada quase deserta, a nova
rodovia interestadual que foi construída há vinte anos trouxe
muito prejuízo aos negócios. As únicas pessoas que parecem
saber que estamos aqui são os habitantes da cidade, seus
parentes que viajam para visitá-los e os motociclistas que buscam
uma experiência mais autêntica quando viajam pelas rodovias
antigas.
Estou feliz por ter vindo ajudar. Danni está me implorando
por anos para visitá-la, e é um retorno ao passado curtir outro
verão com ela. Ganhamos juntas bolsas de estudo para um
acampamento de férias quando tínhamos doze anos e desde então
permanecemos em contato mesmo à distância. Sempre quis
combinar o lugar onde ela viveu tantas histórias extravagantes e
sensuais com o da minha imagem mental.

O cliente entrega sua identidade e eu aceito.

“Obrigada,” digo, enquanto apoio o documento no teclado


para registrar os quartos para ele.

De repente, a porta se abre novamente, a campainha toca e


escuto uma voz gritar exigindo: “Precisamos de comida!”

Olho para cima vendo três mulheres de pé na porta e noto


outras do lado de fora. Não vejo nenhum homem. Meus olhos
caem em seus trajes, e ao lado deles, as roupas de minha irmã no
The Hook parecem puritanas. Cabelo, maquiagem, saltos...

Atiro meus olhos para o cara e o vejo piscar longo e forte,


parecendo irritado. Mexe em alguns folhetos de menus no suporte
da parede e tira alguns de diferentes lugares.

“Será que esses restaurantes fazem entrega?” Ele


pergunta, colocando-os sobre o balcão e tirando um maço de
notas da sua carteira.

“Sim, todos.”

Ele levanta os menus com o dinheiro, e uma das meninas


se move e arrebata tudo de suas mãos.

“Eu quero recibos e troco,” ele ordena, sem olhar para ela.

Ela faz careta a suas costas e depois desaparece com as


outras.
Sinto que devo avisá-lo. Este lugar tem um código oficial de
conduta, e Danni é muito rigorosa sobre promiscuidades. Elas
reinaram por aqui por um longo tempo, mas a cidade está muito
atenta à conduta da propriedade. Ela não quer dar a eles uma
desculpa para querer que este lugar desapareça.

“Este é um lugar bastante tranquilo, voltado para a


família,” digo, digitando lentamente seu nome e endereço. “Não
são permitidas festas, então, apenas como informação...”

Ele me olha, seus olhos cor de sândalo escuros quase


divertidos. “Elas são minhas irmãs,” ele diz.

Engulo meu sorriso e me concentro no trabalho novamente.


Claro. Se essas são suas irmãs, então, eu sou sua mãe.

Mas, certamente ele parece muito aborrecido com elas,


como se fosse realmente um irmão.

Coloco as chaves no balcão — com seu chaveiro antiquado


com diamantes redondos — e imprimo o contrato para assinar.

“A piscina fecha as dez,” digo a ele. “As máquinas de gelo e


de venda automática estão entre os dois edifícios, e há uma
lavanderia no caminho.” Olho para ele e aponto para trás, do lado
de fora. “A recepção está aberta o tempo todo, nos avise se
precisar de alguma coisa. E o valor total ficou em duzentos e oito
dólares e quarenta e dois centavos, pode assinar, por favor.”

Mas quando coloco uma caneta em cima do contrato e


espero sua resposta, vejo que ele nem está me ouvindo. Está
olhando para o letreiro de néon na parede à sua direita e a
citação escrita em cursiva…

Bem, eles não são nada parecidos comigo e Billy12...

12
All I Wanna Do - Sheryl Crow.
De repente, sua expressão severa se transforma em um
pequeno sorriso, quando olha para o letreiro com um misto de
espanto e confusão no rosto e parece que em sua cabeça alguma
memória surge. Olho para o letreiro novamente, a obsessão de
Danni com a música dos anos 90 é a ruína na minha existência
durante todo verão. É uma citação de uma música de Sheryl
Crow, e nunca perguntei o significado, porque seria um tormento
se ela resolvesse cantar.

“Senhor?” Digo.

Ele me olha hesitante, ainda parecendo desorientado por


um momento.

“Você está bem?”

Ele se recompõe e abre a carteira novamente. “Quanto


custa?”

“Duzentos e oito dólares e quarenta e dois centavos,”


respondo.

Ele me entrega três notas de cem dólares, e há uma placa


informando que não aceitamos notas acima de cinquenta, mas
vendo a pilha perturbadora de dinheiro em sua carteira, não sinto
vontade de lhe causar qualquer aborrecimento. Pego o dinheiro e
separo o troco.

Ele tamborila no balcão enquanto espera, e percebo que


está acompanhando o ritmo de The Distance do Cake que Danni
colocou para tocar no alto-falante da recepção.

“Oh, não faça isso,” brinco enquanto entrego o seu troco.


“Você incentivará a proprietária. Estou tentando convencê-la que
a playlist está afastando os clientes.”
Ele pega o dinheiro e me dá um olhar. “Dos anos noventa a
música é o melhor. Foi o único momento em que as pessoas
disseram a verdade.”

Curvo o canto da minha boca, encerrando a conversa. Ele


está enfeitiçado pela mesma droga que ela.

“Obrigado,” ele diz, pegando as chaves.

Devolvo seu documento e o observo sair. Lá fora, ele


distribui as chaves dos quartos para as mulheres e, depois de um
momento, todos seguem para os quartos. Estou meio tentada a ir
até a janela e ver se ele entra com uma delas. Ou com as cinco.
Muito curiosa.

“Era um cliente?” Danni pergunta atrás de mim e viro para


observá-la entrar no escritório. O apartamento em que ela mora
com a avó, fica atrás do escritório, isso a facilita gerenciar e
verificar como tudo está quando é necessário.

“Sim,” afirmo. “Ele pegou cinco quartos para a noite, e está


viajando com pelo menos meia dúzia de mulheres, então, divirta-
se no plantão noturno.”

Ela bufa e se aproxima, pegando o contrato. “Tyler


Durden?” Ela lê o seu nome, semicerrando os olhos através dos
óculos.

Aceno concordando, e puxo um fio de cabelo castanho da


sua camisa de flanela. Ela ainda segue a moda dos anos noventa.

“Você não conferiu seu documento de identidade?” Ela faz


uma careta para mim. “É um nome falso.”

“Seu documento diz Tyler Durden,” respondo. “Por que você


acha que é um nome falso?”

“Tyler Durden é um personagem principal de Clube da


Luta,” ela cospe como se eu fosse uma idiota. “O melhor filme dos
anos 90 e um dos melhores livros da história. É perturbador que
você não saiba disso, Jordan.”

Dou risada, balançando a cabeça. Ela pode ser apenas um


ano mais velha que eu, mas estamos em mundos separados por
interesses.

Clube de luta.

Meu sorriso some, e baixo os olhos, voltando ao


computador. Já vi esse filme, mas não memorizei o nome. E,
também fiz isso recentemente, com Pike...

Engulo, meu peito fica apertado. Droga. Eu me saí tão bem


nas últimas semanas, colocando minha atenção em outro lugar, e
não deixando espaço para pensar nele. No começo foi muito
difícil, mas não o ver todos os dias facilitou. Foi correta minha
decisão em partir.

Mas, às vezes, ele retorna a minha mente quando faço


molho de taco para Danni durante um longo turno de sábado ou
quando escuto uma música ou vejo minha capa de chuva e os
respingos de lama que ainda estão nela resultado da nossa
diversão. Nem sequer acendo velas, porque não sei o que desejar
quando tiver que apagá-las.

Desejar voltar a sentir tudo o que sentia com ele, dá a ele


poder sobre mim novamente, mas no fundo, isso é tudo o que
realmente quero.

Voltar a sentir o que senti com ele.

Apenas precisa ser com outra pessoa.

“Então...” Danni puxa outro banquinho. “Suas aulas do


outono não começam em breve?”

Clico no jogo Paciência, evitando seu olhar. “Sim”


Ela espera que eu diga mais, mas não sei o que dizer.
Recebi minha ajuda financeira, então as aulas estão pagas, e
tenho o suficiente para alugar um apartamento quando voltar
para casa, mas é quase como um retrocesso. Ele ligou logo que
fui embora, mas depois de alguns dias parou e não houve
qualquer tentativa desde então.

Odeio admitir isso, mas eu me pergunto com muita


frequência o que ele está fazendo, se está saindo alguém, se sente
a minha falta...

Se ao voltar para casa, posso me deparar com ele. Como


será isso?

Estou orgulhosa por ficar longe, mas ainda me sinto


envergonhada por pensar nele o tempo todo. Não o superei, e até
que possa apagar uma vela e ter algo melhor para desejar,
acredito que minha cabeça ainda não está preparada para que eu
possa retornar. Estou muito assustada.

“Você sabe que pode ficar para sempre,” Danni continua.


“Sério, minha universidade não é ruim, você pode pedir
transferência.”

“Obrigada,” digo. “Mas preciso voltar. Sei que é necessário e


que apenas estive adiando esse pensamento.”

“Você não quer vê-lo.”

Encaro seus olhos, e mais uma vez seus óculos de aro


preto caem por cima do nariz.

“Não quero voltar a ser quem eu era antes de ir embora,”


esclareço.

“Você não é.” Ela descansa um cotovelo no balcão,


apoiando o queixo na mão. “Você tinha todo direito de sofrer. Mas
não se permitiu ficar deprimida,” Danni ressalta. “Isso é o que
nos torna fortes. Você não ligou para ele e conseguimos nos
divertir um pouco. Ele não arruinou o seu verão, porque você não
deixou.”

Sim. Nós ficamos bêbadas na lagoa, curtimos música ruim


enquanto corríamos pela cidade em seu conversível Pontiac
Sunbird 92, e fizemos algumas festas na piscina. Além de altas
gargalhadas.

“Também não é como se ele estivesse me procurando, por


isso...” digo. “Acho que no fundo sabíamos que nossos dias
estavam contados. Foi apenas uma aventura. Ele estava certo."

Uma aventura.

Uma história legal que vou me divertir ao relembrar,


quando o amor tiver passado, e sempre vou apreciar o bom sexo
que tivemos.

Sinto seus olhos em mim, porque ela sabe que estou


mentindo para mim mesma, mas como uma boa amiga, Danni me
deixa mergulhar na minha ilusão. Às vezes, precisamos de
mentiras para sobreviver, porque a verdade dói demais.

Talvez uma transferência seja uma boa ideia, afinal.

Eu me levanto. “A impressora precisa de papel,” sugiro.

E sem encará-la, entro no escritório, piscando para afastar


a queimadura em meus olhos antes que ela veja. Não vou chorar.
Enfim, não posso me esconder aqui para sempre. Northridge é
minha casa, minha família está lá e tenho que voltar em algum
momento. Eu consigo fazer isso.

“Oi.” Ouço Danni cantarolar. “Bem-vindo ao Blue Palms.”

Sorrio sozinha. O Blue Palms é um conjunto de palmeiras


neon que não são reais e certamente não são nativas da Virgínia.
Mas gosto das cores tropicais deste lugar, dos rosas e azuis retrô
e do antigo e charmoso estilo praiano. Pode não ter as
comodidades dos hotéis maiores, mas é privado, limpo e
nostálgico. Tem personalidade.

“Uh, obrigado,” diz uma voz masculina. “Um...”

Abro o armário, pego uma resma de papel, suas vozes


abafadas continuam no corredor. Espero que ele só precise de um
quarto, porque pela primeira vez estamos quase sem vagas.

“Jordan Hadley?” Danni diz mais alto como se repetisse.

Paro com o papel no braço e o armário ainda aberto.

“Sim,” o homem diz, e me aproximo mais da porta para


ouvir melhor. “Sinto muito incomodá-la. Ela trabalha aqui? Tive
uma informação que ela trabalhava em um hotel na área, e já
estive em quase todos os lugares.”

A veia do meu pescoço lateja e só consigo respirar de


maneira curta e superficial.

“E você é?” Sonda Danni.

“Pike Lawson,” ele responde. “Um amigo.”

Meus braços cedem e quase deixo cair o pacote de papel.

“Pike...” ela repete. “Como em Buffy, a Caçadora de


Vampiros?”

“Hã?”

“Clássico cult de 1992?” Explica Danni. “Luke Perry? Seu


nome é Pike no filme?”

Normalmente eu daria risada da sua diarreia verbal, mas


minha cabeça está zonza e meu estômago dando cambalhotas.
Ele está aqui? Ele está mesmo aqui?

Há silêncio por um momento, e então Pike pergunta:


“Então, Jordan trabalha aqui? Eu realmente preciso vê-la.”
Pike parece vulnerável, sua voz me faz perceber que senti
sua falta ainda mais do que pensava.

Mas em meu íntimo, a força cresce e endireito minhas


costas, pronta para mostrar que não vou me esconder dele. Não
sei o seu motivo para estar aqui, mas se tentar fazer exigências de
novo, como quando tentei voltar para meu pai, tenho a séria
impressão que não será nada difícil me impor e ser desafiadora.
Ele não voltará a me dizer o que fazer.

Não importa o quanto ele tente.

Saindo do corredor, entro na recepção, e vejo Pike parado


do outro lado do balcão. Seu olhar está imediatamente fixo em
mim.

Ele inspira e apenas olha, mantendo seu corpo rígido.

Olho sua camiseta preta e o bronzeado intenso, como se


tivesse passado o verão inteiro trabalhando ao ar livre, e meu
coração palpita ao ver aqueles olhos castanhos penetrantes e
mãos grandes que me pegaram e carregaram meia dúzia de vezes.
Ele parece mais alto, mas sei que ele não cresceu, é claro.

Danni salta do banquinho. “Vou apenas... verificar minha


avó,” ela diz e silenciosamente passa por mim seguindo para o
seu apartamento.

Pike fica entre a porta da frente e a mesa, segurando as


mãos ao lado do corpo parecendo prestes a avançar, mas não faz.

Ando até a mesa e deixo a resma de papel. “O quê?”


Pergunto.

Mas, ele permanece parado como se estivesse em transe.

Minha nuca começa a suar e estou ficando nervosa. Por


que ele continua parado ali, apenas me olhando?

“O que você quer?” Pressiono em um tom seco.


Ele abre a boca, mas depois a fecha engolindo seco.

“Pike, Jesus...”

“O dia que você partiu,” ele deixa escapar, e eu paro.

Espero, ouvindo enquanto um olhar de medo atravessa


seus olhos.

“A casa estava tão vazia,” ele continua. “Com um silêncio


que nunca esteve lá antes. Não consegui ouvir os seus passos no
andar de cima ou o seu secador de cabelo, e muito menos
antecipar a sua entrada em um quarto. Você se foi. Tudo
estava...” ele abaixa os olhos, “morto.”

Um nó se aloja em minha garganta, e sinto as lágrimas


ameaçando, mas tensiono meu queixo, recusando-me a liberar o
choro.

“Mas eu ainda podia sentir você,” ele sussurra. “Você


ainda estava por toda parte. O pote de cookies na geladeira, o
revestimento que você escolheu, a maneira como colocou todas as
minhas fotos no lugar errado depois de limpar minhas estantes.”
Ele sorri para si mesmo. “Mas não pude reorganizá-las, porque
você foi a última a tocar e eu queria tudo do jeito que você fez e
deixou.”

Meu queixo treme e cruzo meus braços sobre o peito,


escondendo os punhos fechados.

Ele faz uma pausa e, em seguida, continua. “Nada voltaria


a ser como era antes de você entrar em minha casa. Eu não
queria isso.” Ele balança a cabeça. “Fui trabalhar, voltei para
casa, e fiquei lá todas as noites e todo fim de semana, a cada fim
de semana, porque era esse o momento em que ficávamos juntos.
E onde eu ainda podia sentir você.” Ele se aproxima, abaixando a
voz. “Era o momento em podia me envolver e me agarrar a cada
pequena parte daquela casa que provasse que você foi minha por
um tempo curto.”

Seu tom engrossa, e vejo seus olhos lacrimejarem.

“Realmente pensei que estava fazendo o que era melhor,”


ele diz, franzindo a testa. “Achei que estivesse tirando vantagem
de você, porque é jovem e bonita; tão feliz e esperançosa, apesar
de tudo que passou. Você me fez sentir como se o mundo fosse
um grande lugar novamente.”

Minha respiração acelera, e não sei o que fazer. Odeio que


ele esteja aqui. Odeio amar que ele esteja aqui. Eu o odeio.

“Eu não poderia roubar sua vida e manter você em


segredo, entende?” Pike explica. “Mas, então, percebi que não é
por ser jovem que você é feliz, cheia de esperança e me faz bem.
Você é todas essas coisas e é capaz de todas essas coisas, porque
é uma pessoa especial. Isso é quem você é.”

Uma lágrima escorre, deslizando pelo meu rosto.

“Baby,” ele sussurra, com as mãos tremendo. “Espero que


você me ame, porque eu te amo loucamente, e vou te amar pelo
resto da minha vida. Tentei fugir, porque achei que era a coisa
certa, porra, mas eu não consigo. Preciso de você, e eu te amo.
Isso não vai se repetir, jamais voltarei a ser estúpido. Eu
prometo.”

Meu queixo treme e algo se aloja em minha garganta, e


tento segurar, mas não consigo. Meu rosto se desmancha e eu
desmorono, afastando-me dele. As lágrimas descem como uma
maldita cachoeira; e eu o odeio. Porra, eu o odeio.

Em um segundo seus braços estão à minha volta, me


abraçando por trás e enterrando o rosto no meu pescoço.

“Lamento ter demorado tanto,” ele sussurra em minha


orelha.
“Você demorou.” Choro. “Demorou tanto tempo.”

“Eu vou compensar.” Ele me vira e agarra meu rosto,


pressionando os lábios na minha orelha. “Prometo.”

Pike me segura por um tempo, e meu orgulho me diz para


não ceder. Não deixar ninguém entrar e nada mais de segundas
chances.

Mas não tenho absoluta certeza se em seu lugar eu não


faria o mesmo. Cole, Lindsay, Shel, minha irmã, Dutch, toda a
vizinhança... eles não deixariam de fazer comentários. Alguns o
julgariam por isso. Seu medo é justificado

Mas eles não sabem. Eles não sabem como somos sortudos
e como tudo é bom.

Que eu o amo.

Afasto-me e enxugo minhas lágrimas em sua camisa. “Eu


não coloquei as fotos no lugar errado,” digo. “É ali que elas
pertencem.”

Ele ri, enxugando as lágrimas em meu rosto e me traz mais


perto, e me beija. Tudo transborda — sua boca suave, e ainda
assim forte, e seu gosto — e retribuo o beijo, subindo na ponta
dos pés para aprofundá-lo.

“Precisam de um quarto?” Alguém fala. “Vieram ao lugar


certo.”

Eu me afasto de novo e Pike limpa a garganta quando


Danni entra e se senta no banquinho.

“Pike, esta é Danni,” digo. “Danni, Pike.”

“Prazer em conhecê-lo,” ela diz.

“Sim, ó prazer é meu.” Pike estende a mão, e eles se


cumprimentam.
“Então, vocês querem um quarto?” Ela pergunta
novamente. “Oferta da casa?”

Danni pega a última chave pendurada na prateleira e a


segura.

Ele se inclina, pegando. “Obrigado. Sério. Seria perfeito.”

Ela desvia o olhar para mim, e posso dizer que está


procurando a confirmação de que tudo está bem. Aceno,
assegurando-lhe.

“Bem, tenham uma boa noite,” ela diz. “Vejo vocês pela
manhã.”

Pike pega minha mão e saímos; o ar frio de agosto gela


meus braços. Ele me agarra como se fosse me perder enquanto
caminhamos em direção a sua caminhonete para pegar sua
mochila e um pequeno pacote. Dou risada, vendo lama ainda por
toda porta e pneus.

Caminhando para o quarto, passo os cinco quartos que


distribuí para ‘Tyler’ e suas garotas, e posso ouvir música,
conversas e risos de várias delas. Passamos por outro quarto com
cortinas fechadas, mas a luz da televisão passa pelo tecido.

Na calçada, um dos frequentadores, Peter, caminha até a


máquina de Coca-cola com uma espada amarrada em suas costas
nuas e usando as habituais calças de couro preto.

“Que porra é essa?" Pike murmura para mim, olhando para


ele.

“Esse é o Peter,” digo, admirando o cabelo preto que cai


muito perto da sua cintura. “Ele está aqui todo fim de semana,
jogando RPG.”

Pike franze as sobrancelhas e olha para mim.


“O jogo de interpretação de personagens,” explico. “Às vezes
ele traz uma bela princesa élfica e eles ficam bem pervertidos.
Você pode ouvi-los através das paredes.”

Pike zomba quando chegamos ao nosso quarto e abre a


porta. Entro e caminho em direção à mesa de cabeceira, acendo a
lâmpada enquanto ele fecha e tranca a porta.

“Posso te levar para casa amanhã?” Ele pergunta. “Estou


ansioso.”

Olho para ele. “Ansioso para quê?”

Pike apenas esboça um sorriso. “Acho que para tudo.”

Ele joga uma pequena caixa para mim e levanto a mão para
pegá-la.

“O que é isso?” Pergunto.

“Abra.”

Ando até a pia e olho no espelho, arrancando a fita.


Quando abro a caixa, tiro três fitas cassete e imediatamente
começo a sorrir.

“Encontrei algumas músicas dos anos oitenta, por você eu


posso suportar,” ele diz quando se aproxima por trás enquanto
inspeciono as novas adições à minha coleção.

“AC / DC,” leio as etiquetas. “Metallica... Beastie Boys.”

Olho para ele, e ele se inclina para me beijar. Fecho os


olhos, sentindo-me tonta. Gostaria de saber quantos problemas
enfrentou para encontrá-las. Espero que tenha sido um monte.

Movo minha língua com a sua, o beijo se torna quente e


intenso, acaricio e agarro sua nuca, não permitindo que se afaste.

Ele suga o ar entre os dentes e posso senti-lo endurecer


através do seu jeans.
“Baby, estive por toda a porra da Virgínia,” ele fala.
“Preciso de um banho.”

“Vamos tomar um depois,” digo, relembrando a nossa


incursão na mesa da cozinha há dois meses, quando ele também
queria um banho primeiro.

Largo as fitas no balcão e pressiono minhas costas contra


ele, gemendo.

Ele me beija e se afasta um pouco apenas para olhar nos


meus olhos. “Não houve mais ninguém desde que você partiu,”
ele me diz.

Pisco para ele. “Eu sei, mas não posso dizer a mesma
coisa.”

Seu semblante fecha, e sua mandíbula fica tensa.

Eu o encaro com olhos arrependidos. “Senti sua falta, então


tomei algumas bebidas no quatro de julho e tive um pequeno
encontro com o canto da mesa do quarto 108,” digo. “Foi muito
quente.”

Ele começa a rir e seu corpo treme atrás de mim.

Na verdade, não fiz isso, porém por vezes me senti muito


tentada. Mas, sempre que fecho meus olhos, é somente ele que
vejo; por essa razão me senti patética em me masturbar pensando
em um cara que achei que nem me queria.

Então fui casta, e agora estou pronta para enlouquecer.

Pike me levanta e eu envolvo minhas pernas em sua


cintura enquanto me leva para a cama. Chegando lá, ele me deixa
cair de costas, puxa a camisa sobre a cabeça e me olha enquanto
solta o cinto.

De repente, uma batida muito alta e rápida atinge a parede


atrás de nossa cama, seguida por gritos e gemidos agudos
ecoando pelas paredes. Nós dois paramos para escutar Peter e
sua princesa mandando ver no quarto ao lado, batendo sua
cabeceira contra a nossa e fazendo-a balançar de um lado para o
outro.

Seus olhos se arregalam. “Oh, eles são barulhentos.”

Oh, sim.

Depois, Pike me olha com malícia estampada nos olhos.


“Nós podemos derrotá-los.” E então ele agarra a parte de trás dos
meus joelhos, me puxa até o final da cama, e eu grito quando seu
corpo cai sobre mim.
Capítulo 29

Jordan

Um ano depois

“Aprenderei por conta própria se você parar de me


conduzir!” Repreendo, tentando empurrar as mãos de Pike do
meu guidão.

Sentada na garupa do meu novo quadriciclo 4X4, ele


pressiona o acelerador, subindo o barranco e saindo da lama.
Suspiro, recostando contra ele com um frio na barriga enquanto
agarro seus braços para me equilibrar. Sorrindo muito.

“Bem, se você usar o capacete...” ele diz.

“Mas com o capacete eu não consigo enxergar nada.”

Estamos cobertos de lama, mas nem de perto chegamos a


cinquenta quilômetros por hora. Por isso, não vejo necessidade
de usar um capacete. E, além do mais, estou aprendendo a usar
o quadriciclo hoje. Ele terá sorte se eu chegar a vinte quilômetros
por hora.

Mas, enquanto não usar meu capacete, ele não me deixará


dirigir sozinha até que eu tenha recebido instruções adequadas.
Por essa razão, aulas de direção só com o instrutor na garupa.
Corremos por toda margem, espirrando e cobrindo de lama
o meu novo quadriciclo vermelho, minhas botas e jeans. Também
senti gotas de algo frio pousar constantemente na minha camisa
e em meu cabelo, ficando fora apenas do meu rosto pela proteção
do boné de basebol.

Minhas provas finais acabaram esta semana e tive dores de


cabeça sem parar por ficar sem dormir, mas hoje me sinto muito
melhor. Fico feliz que Pike tenha me surpreendido com isso. Um
dia inteiro com ele, diversão e ar fresco é tudo que eu precisava.

Durante meus estudos nas últimas semanas ele foi


paciente e soube lidar com meu péssimo humor, fazendo lanches
e o possível para não me distrair enquanto finalizava minhas
atividades.

Embora ele entrasse na biblioteca — meu antigo quarto —


e me tentasse, aqui e ali, com uma rapidinha, sob o pretexto de
que eu precisava de uma pausa do estudo.

Sim! Com certeza.

Sorrio, lembrando quando Pike entrou enquanto meu nariz


estava enterrado em um livro, tirando sua camisa, e avisando que
tomaria um banho, mas sei o que realmente queria, porque ele
sabe que sua visão apenas em um jeans é meu maldito pornô.
Nem sequer ofereci resistência. Nunca resisto. Eu o quero tanto
quanto ele me quer.

Mas, agora que as finais acabaram e as aulas só retornarão


no próximo outono, sou todinha dele.

Sua caminhonete está estacionada à frente, com seu


quadriciclo ainda no reboque anexado, limpinho e brilhando
como novo.

Ele para e desliga o motor, enterrando seus lábios no meu


pescoço e me beijando.
“Eu tenho um presente para você,” ele brinca.

Viro a cabeça, escovando meus lábios sobre sua bochecha.


“Você já me deu meu presente.” Corro meus dedos sobre o guidão
do meu quadriciclo novo e também lembro o orgasmo que ganhei
às seis horas da manhã. Meu aniversário até agora tem sido
incrível.

“Na verdade, o quadriciclo foi apenas uma desculpa que eu


arranjei.” Ele explica.

Mordisco sua mandíbula. “Então, o que é? Mais


antiguidades para minha coleção?”

“Fitas cassetes não são antiguidades, Jordan,” ele diz com


firmeza.

Dou risada. “Você está certo, você está certíssimo. São


considerados clássicos. Como os carros com mais de trinta anos.
Como você!” Provoco. “Você é um clássico.”

Ele cobre minha boca com a mão, sufoca meu riso e


balança a cabeça. Pike não está ofendido com a minha piada. Só
o provoco sobre sua idade, porque ele ainda acha que é um
problema, e eu estou tentando aliviar o clima.

Para algumas pessoas da cidade ainda é algo estranho. Mas


elas não significam nada para nós. Cole, minha irmã e Shel já
estão próximos, embora Cole seja um pouco mais lento que os
outros, mas eles são a única coisa que importa.

Mordo seus dedos sobre minha boca, brincando, mas, de


repente, ele levanta uma pequena caixa de couro preto na minha
frente, e eu paro.

Meu rosto paralisa, e já não estou rindo.

Abaixando a mão do meu rosto, ele permanece em silêncio


enquanto olho para a caixa, um milhão de pensamentos
diferentes passam pela minha cabeça neste momento, mas mal
posso ouvi-los, porque o pulsar em meus ouvidos é ensurdecedor.

Oh, meu Deus. Não é um... anel, certo? Quer dizer, nunca
conversamos sobre isso.

Sempre esperei que chegasse a isso, mas Pike não é de dar


grandes passos sem uma pequena ajuda. Não fazia a mínima
ideia...

Lentamente, pego a caixa da sua mão e abro, minha boca


seca como um deserto quando vejo o anel de diamante dentro.

Lágrimas ardem em meus olhos e fico boquiaberta.

É uma rosa. Como as do bolo de aniversário que ele me deu


no ano passado e as flores que plantei em torno da casa nesta
primavera. Um grande diamante está no meio das pétalas de
platina, adornado com pequenas pedras, e é diferente de tudo que
já vi na vida. Lindo, especial e completamente a minha cara.

Ele quer casar comigo?

Deixo escapar um pequeno soluço, oprimido. “Você está de


gozação comigo?” Falo indignada. “Estou coberta de lama!”

E só agora ele resolve fazer isso? Quando existiram


centenas de jantares e cafés da manhã na cama durante o ano
todo, quando eu estava bonita e limpa?

Seu peito treme com uma risada atrás de mim e ele envolve
os braços ao redor da minha cintura. “Você está linda.”

Esfrego meu polegar sobre a grande pedra. É real. Tudo


isso é real.

“Planejei isso durante muito tempo,” ele diz. “Achei que


saberia o que fazer ou o que dizer, mas agora não consigo pensar
em nada.” Sua respiração sopra em meu cabelo enquanto
sussurra. “Acho que deveria ter me ajoelhado, hein?”
“Não, não me solte.” Minha voz treme.

Engulo o nó em minha garganta, retiro o anel e deixo a


caixa cair no chão enquanto experimento. O aro frio desliza
perfeitamente, e pego sua mão, colocando-a no guidão novamente
com a minha sobre a dele.

Seu dedo ainda não tem um anel enquanto entrelaçamos


nossas mãos.

Mas terá.

Meu coração incha como se fosse demais para o meu peito


suportar, e fico sem palavras. Ele certamente me surpreendeu.
Não consigo acreditar que ele fez isso sem me dar uma pista do
que estava planejando.

Olho para nossas mãos entrelaçadas, encosto nele e fico


ainda mais animada com tudo que está por vir. Acho que parte de
mim — uma pequena parte — sempre esteve esperando por isso.
Mas, minha mente está sempre atormentada, pelo medo que ele
ainda possa me ver como jovem demais ou despreparada para
isso ou para ele, mas Pike precisa saber...

Estou feliz todos os dias. Não há nada que pareça melhor


que ele.

Algumas gotas de chuva batem em meus braços, as nuvens


escurecem, e finalmente encontro a minha respiração, inalando
profundamente.

“Então, você vai dizer ‘sim’ ou...” ele para e permaneço em


silêncio.

Sorrio para a pequena pitada de medo que ouço em sua voz


com o meu silêncio. “Sim.” Eu me viro e o beijo. “Você me faz tão
feliz. Eu te amo.”
Pike pressiona a testa na minha. “Eu te amo tanto que dói,
baby.”

Sua boca afunda na minha novamente, e ele toma meu


rosto em suas mãos, beijando-me e provocando minha língua até
despertar excitação por todo meu corpo. Minha respiração fica
irregular, e estou prestes a sugerir que levemos isso para a
caminhonete, já que estamos sozinhos aqui fora, mas a chuva
aumenta, atingindo meu corpo com mais intensidade.

Interrompo o beijo e olho para cima, apertando os olhos


contra a chuva para ver pesadas nuvens de tempestade. As
tempestades de verão começaram mais cedo este ano.

Ele sai do quadriciclo e me ajuda a descer, corremos juntos


para o lado do passageiro da caminhonete, e ele abre a porta para
mim.

“Podemos fazer isso hoje?” Pergunto, tirando o meu


capacete novinho em folha do meu assento e colocando-o no
assoalho do carro.

“Casar?” Pike me questiona. “Você não liga muito para essa


coisa de casamento, não é?”

Olho para cima e o vejo sorrindo para mim enquanto tira a


camisa lamacenta e a joga na carroceria da caminhonete.

Fico parada em frente à porta aberta e dou de ombros.


Enquanto crescia jamais passou pela minha mente o interesse
por uma festa e roupas extravagantes. Ao passo que outras
meninas sonharam com suas cores temáticas e vestidos de
damas de honra, eu só queria o que vem depois. Marido, os
filhos, a casa com o cheiro de biscoitos depois da escola,
piqueniques e passeios...

Subo o degrau, prestes a entrar na caminhonete, mas ele


me puxa de volta para ele. Caio em seu peito nu, meus pés ainda
plantados no degrau, e envolvo meus braços em volta do seu
pescoço.

“De alguma forma eu me importo muito,” ele admite,


estremecendo um pouco como se estivesse se desculpando. “Você
sabe que nunca casei antes, certo? Então, adoraria te ver em um
vestido.”

Agora, como posso dizer não a isso? Concordo com a


cabeça, beijando-o novamente. Pode ser divertido, na verdade.
Fotos de noivado na lama? Sim, por favor.

“Estava pensando no México,” ele diz enquanto me olha.


“Uma praia no mar de Cortez e só você, eu, e nossa família e
amigos mais íntimos?”

Sorrio. “Claro que sim.”

Parece o ideal. Calma, privada e perfeita. Estaria mentindo


se não dissesse que me animava conhecer um lugar em que
nunca estive. Mal saí dessa cidade, e nesse momento a ideia de
ter um passaporte me emociona tanto quanto comprar esse
vestido que Pike vai morrer quando me ver usando.

Eu já estou transbordando de emoção com o olhar que


espero ver em seu rosto.

Ele olha para mim, cada vez mais calmo e com os olhos
sérios. “Você vai querer filhos?” Ele pergunta.

Meu coração palpita, sabendo que esse é um assusto


potencialmente sensível.

“Um, pelo menos?” Falo tímida. “Tudo bem?”

Entendo que começar de novo é pedir muito dele, mas eu


adoraria ter um filho seu.

Finalmente.
Para minha surpresa, ele mal hesita antes de concordar.
“Estou bem com isso,” ele responde. “Porém, não posso esperar
muito tempo, ou vou conseguir descontos para idosos no jantar
de formatura da criança.”

Começo a rir.

“Entretanto, somente após o seu diploma,” ele diz. “Tudo


bem?”

“Ok.”

Sento-me no banco e tiro minhas botas enlameadas,


jogando-as na carroceria junto a sua camisa, tiro o boné e meu
cabelo cai ao redor do rosto.

“Sabe...” eu começo, “estou um pouco nervosa.”

“Sério?”

Balanço minha cabeça, estalando minha língua com


desaprovação tsk tsk. “Casar com um homem mais velho, com
muito mais experiência...”

Ele se aproxima de mim, agarrando meus quadris e me


puxando para a borda do assento e para ele. Corro minha mão
pelo seu peito nu.

“Não preciso que minha esposa saiba o que os outros


homens gostam,” Pike afirma. “Apenas o que eu gosto.”

Ergo minhas sobrancelhas, tendo uma ideia. Lentamente,


desabotoo a camisa de flanela que estou usando e observo seus
olhos quando ele vê que não tenho nada por baixo. Abro e afasto
um pouco, convidando seus olhos a descansarem sobre meus
seios nus.

“É o que você gosta?” Provoco como naquela noite na


cozinha quando coloquei um Band-Aid em seu dedo.
Seu olhar está fixo em meus seios, e deixo a camisa cair
pelos meus braços, meus mamilos duros pelo frio da chuva no ar.

Baixo minha voz para um sussurro. “Acho que preciso


praticar um pouco mais.”

Enquanto me observa, seus olhos escurecem cheios de


desejo. Pike sobe no degrau, mergulha na caminhonete e sai da
chuva, seu corpo cai sobre o meu. Recosto no banco, abrindo as
pernas para ele enquanto me estico para abrir o cinto.

Nossos lábios pairam sobre o outro.

“Tudo o que a aniversariante quiser,” ele sussurra.


Epílogo

Pike

Nove anos mais tarde

Um trovão perfura o silêncio, e pisco meus olhos quando


um relâmpago lampeja no quarto. Suspiro, colocando a mão
sobre meu rosto e esfrego com os dedos em meus olhos.

Mais chuva, caramba.

Não. Não é meu trabalho me preocupar com isso pelas


próximas duas semanas; então não vou fazer isso. Dutch pode
lidar com tudo. Preciso acreditar nisso.

Jordan e eu partiremos pela manhã, e ele estará no


comando enquanto eu estiver fora. Prometi a ela e às crianças
que eles teriam toda a minha atenção enquanto estivéssemos
fora, contanto que ela deixasse seu laptop em casa e não tentasse
se esgueirar para qualquer trabalho. O problema com ela é que
seu trabalho também é o seu hobby, então meio que me senti mal
por lhe pedir para ficar longe de algo que ela ama por tanto
tempo.

Mas, Jordan está certa. As crianças precisam nos ver sem


os olhos enterrados em alguma tela.
Viro a cabeça, olhando para ela ao meu lado. Jordan está
deitada em seu lado, com o nariz e os lábios enterrados no meu
braço, com uma mão no meu peito e ombro. Seus cabelos na
altura dos ombros espalhado por cima do travesseiro, e eu me
estico e puxo o lençol de volta sobre suas pernas nuas e calcinha
branca. Ela veste a camiseta amarela que trouxe da nossa lua de
mel no México, e ainda não consigo notar evidências da gestação
de quatro meses do nosso segundo filho. Nosso primeiro, Jake,
está dormindo em seu quarto no final do corredor. Jake Ryan
Lawson. Ela deu o mesmo nome do cara de um filme adolescente
dos anos 80, mas eu não divulgo isso para as pessoas. Ela pode
até dizer, mas, eu certamente nunca farei isso.

Descanso minha mão em sua coxa e olho para o teto.

Tenho quarenta e oito anos. O que eu quero com um filho


de seis anos e outra criança a caminho?

Mas, que se foda, eu estou feliz.

O tamborilar da chuva atinge as vidraças e sinto Jordan


respirando tão pacificamente ao meu lado. Fecho meus olhos.
Minha. Minha casa, minha esposa, minha família... minha. Às
vezes fico tão impressionado com a sorte que tenho que não
consigo entender que tudo isso é real. Ainda não consigo parar de
abraça-la quando está perto ou parar de ficar ansioso por me
enfiar na cama à noite, sabendo que estamos finalmente
sozinhos.

De repente, lembro da roupa secando no varal do quintal e


levanto rápido da cama. “Merda,” murmuro, colocando uma
calça.

Deixo o quarto, ando pelo corredor, parando na porta de


Jake e abrindo-a silenciosamente. Ele dorme em sua cama,
enquanto o filho de Cole, Parker, está apagado ao seu lado.
Ambos parecendo uma teia de aranha de braços e pernas, e eu
sorrio baixinho. Nós explicamos a eles que Jake é o irmão de
Cole, o que o torna tio de Parker, mas é difícil para eles
entenderem algo assim quando se tem a mesma idade.

Meu peito aperta toda vez que os vejo assim. Meu filho e
meu neto são mais como irmãos, e realmente não dou a mínima
se parece estranho aos outros, porque somos uma família de
sorte.

Cole conheceu sua esposa, Kotori, quando ele estava em


Okinawa, e agora os dois estão participando de uma convenção
que a empresa dela organizou em Las Vegas. Convidamos Parker
a se juntar a nós por algumas semanas, para que assim eles
pudessem participar.

Fecho a porta, corro escada abaixo, passo por todas as


fotos da minha família nas paredes, a maioria das quais eu estou,
e atravesso a cozinha até a lavanderia. Pego uma cesta de vime do
secador e vou para o quintal. A chuva não está tão intensa, mas
bate em minhas costas como pequenos dardos, afiados e rápidos.
Corro para o varal e começo a arrancar toalhas de praia e
qualquer outra roupa de última hora que Jordan queria lavar
para jogar nas malas. É provável que tenhamos mais do que
suficiente para a viagem ao norte, mas para minha sorte, vamos
chegar à casa do lago, e ela ficará chateada por duas semanas
porque não trouxe sua camisa com outro-tom-de-rosa que
combina melhor com os tênis que ela comprou durante essa
viagem.

Esvazio o varal, coloco todos os pregadores no saco e levo a


cesta para dentro. Abro e despejo tudo na secadora e ligo a
máquina, certificando-me de que esteja pronta assim que
acordarmos de manhã.

Voltando ao andar de cima, fecho a porta do nosso quarto e


volto para a cama, Jordan imediatamente me encontra em seu
sono e se aconchega. Envolvo meu braço em volta dela.
“Tudo bem?” Ela pergunta baixinho.

“Sim.” Beijo sua testa, puxando as cobertas sobre nós.


“Volte a dormir. Amanhã será um dia longo.”

“Você sabe que eu não consigo dormir durante as


tempestades.”

Meu peito treme com uma risada, porque ela é uma


mentirosa. Este problema de dormir durante as tempestades
nunca foi um problema em nossa cama. Ela dorme como os
mortos ao meu lado, e tenho muito orgulho desse fato.

De repente, quero ver seu rosto, então estendo a mão e


pego a caixa de fósforos, risco um e acendo a vela da mesa de
cabeceira. Soprando o fósforo, o quarto brilha com uma luz
suave, e olho para seu rosto, ainda na sombra, mas um pouco
mais visível agora.

Seus longos cílios e pele bonita. Seus lábios rosados que


beijei milhares de vezes por milhares de horas. Seu corpo que
amei por dez anos e de mil maneiras diferentes. Achei que com o
tempo ficaria acostumado com isso, mas meu pau endurece
apenas com o simples pensamento de tê-la sobre mim outra vez.

Sua cabeça levanta e ela olha em volta, assustada. “Oh, as


roupas,” ela explode.

“Já recolhi,” digo, acariciando sua perna para acalmá-la.


“Não se preocupe.”

Ela relaxa, balançando a cabeça e bocejando ao mesmo


tempo.

“As crianças estão bem?” Jordan pergunta, colocando a


cabeça no meu peito.

“Sim. Dormindo feito pedras.”


Esfrego suas costas, tentando induzi-la ao sono e sinto sua
perna sobre a minha. Cerro meus dentes, enquanto a sensação
do calor entre suas coxas se infiltra em meu corpo. Minha virilha
pulsa.

“Está nervosa?” Sussurro.

“Um pouco.”

Amanhã ela fará uma apresentação na abertura dos jardins


botânicos que projetou para o novo museu em Rockford. Depois
da faculdade, ela trabalhou para uma empresa por vários anos,
mas decidiu começar seu próprio negócio no último ano. O
museu foi seu primeiro grande projeto solo, e não apenas os
clientes estão muito satisfeitos com seu trabalho, como também
já trouxeram vários projetos novos. Ela é uma artista.

Mas, para quem odeia falar em público, acredito que


amanhã será um dia doloroso, mas espero que seja breve.

“Basta lembrar,” Beijo seu cabelo. “Que vamos entrar no


carro e pegar a estrada logo depois.”

Seus braços me apertam. “Mal posso esperar.”

Após a apresentação, vamos para Minnesota, onde


alugamos uma casa no lago por duas semanas. Sua irmã Cam e o
último de uma série de seus namorados ricos também alugou
uma casa nas proximidades, por isso eles estão levando o filho
dela com eles, e assim teremos companhia sempre que
quisermos.

E uma pessoa para ficar com as crianças por uma noite


quando precisarmos.

Seus dedos percorrem meu peito e ela arrasta as unhas


levemente no meu estômago. Meu corpo começa a ganhar vida
sob a minha pele, e acho que não posso dormir até que consiga
liberar esse desejo.
“Então, já está acordada?” Provoco.

Ela balança a cabeça. “Você?”

“É difícil dormir quando você faz isso.”

Ela ri e se levanta, deslizando uma perna sobre o meu


corpo e me monta. “Oh, meu Deus.”

Jordan levanta a camisa sobre a cabeça, e toco


imediatamente em seu estômago, sentindo o pequeno monte
rígido onde o meu filho ou filha está crescendo.

Ela sorri para mim, inclina a cabeça de brincadeira, e ainda


vejo aquela garota rastejando no chão do cinema cada vez que
olhei para ela. E desde aquele momento ela me possui
completamente.

“Eu te amo,” digo.

Descendo, ela paira sobre mim, olhando nos meus olhos


enquanto minha mão vai para o seu seio.

“Oh, espere.” Ele se levanta e se inclina para apagar a vela.

“Não, deixe isso,” gemo, rolando meus quadris firmemente


contra ela. “Quero te ver.”

Ela olha para mim. “Você trancou a porta?”

Faço uma careta. “Merda.”

Por que eu sempre esqueço isso? Tive filhos apenas por


mais da metade da minha vida.

“Não podemos permitir uma visão completa disso, não é?”


Ela repreende, mas sorri para mim.

Inclinando-se para trás, ela fecha os olhos, pausa um


momento, pensando, e então os abre novamente, soprando
suavemente a vela. O quarto escurece, exceto pela luz da lua
fazendo a chuva brilhar na parede do nosso quarto, e vejo seu
contorno voltar e minha direção.

Aperto seu quadril, sentindo seu moer sobre mim. “Você


nunca vai me falar o que você deseja?” Pergunto.

Jordan me beija, sussurrando contra os meus lábios: “Dá


azar falar.”

Ela desce pelo meu pescoço, arqueio a cabeça para trás e


fecho os olhos, permitindo seu acesso.

“Mas, eu vou contar,” ela continua, mordiscando meu


queixo, “eu sempre desejo a mesma coisa, e todo dia ela se torna
realidade.”

Fim