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Isaac Martins

Série Barra-Cordenses Ilustres


Notas Biobibliográcas

Pesquisa e Edição

Kissyan Castro
Copyright © 2019 by Kissyan Castro

Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta


publicação, no todo ou em parte, constitui violação
de dire(Lei it0os autorais 9.61/1998).

Edições ABCL

Castro, Kissyan.

Isaac Martins; Série Barra-Cordenses Ilustres; Notas Biobiblio-


gráficas/ pesquisa e edição de Kissyan Castro. Barra do Corda: Edições
ABCL, 2019.
44p.
1. Biografia nacional 2. Biografia maranhense
I. Título

CDD 921
CDU 929:82
NÓTULA DO EDITOR

A “Série Barra-Cordenses Ilustres” é resultado


de séria pesquisa, consulta recorrente a arquivos
públicos e acervos particulares, estudo de material
bibliográfico, incluindo-se livros, jornais e revistas,
impressos ou digitalizados. Nasceu, portanto, da
necessidade de se compor a história do município de
Barra do Corda a partir das personalidades que mais
influenciaram o seu desenvolvimento social, político,
econômico e cultural. Vem, pois, suprir considerável
lacuna e favorecer a sociedade, sobretudo a classe
estudantil, com informação ampla e sólida sobre os
nossos principais vultos do passado, em formato
simples, gratuito e para pronta consulta.

Kissyan Castro
o n

n Isaac Martins
(1854-1898)
n
SUMÁRIO

OS PRIMEIROS ANOS/7
FORMAÇÃO E MAGISTRATURA/13
A “SOCIEDADE LIBERTADORA 28 DE JULHO”/19
ISAAC MARTINS E A OBRA EDUCACIONAL/21
A TRAJETÓRIA POLÍTICA/25
A ADESÃO À REPÚBLICA E A
FUNDAÇÃO DO JORNAL “O NORTE”/28
A VIAGEM AO RIO DE JANEIRO/32
ISAAC MARTINS E BELFORT VIEIRA/37
OS ÚLTIMOS ANOS/39
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA/41
CRÉDITOS DAS IMAGENS/41
SOBRE O AUTOR/42
Editorial

OS PRIMEIROS ANOS

ISAAC MARTINS DOS REIS nasceu na Fazenda


Santo Antônio, situada no povoado Matogrosso, Fre-
guesia de São Félix de Balsas, da vila de Loreto, em 18 de
abril de 1854.
O pai, o honrado Cap. Domiciano Martins dos
Reis, era natural do Piauí e, segundo consta, chegou
moço ao Maranhão, na década de 1840. Em busca de
terras para lavoura, instalou-se há cerca de dois
quilômetros da margem esquerda do rio Balsas, no
lugar que, a partir de 1835, passou a denominar-se São
Félix de Balsas, subordinado à então vila de Loreto.
Para lá já se haviam refugiado inúmeras famílias de
piauienses, seus parentes, todos lavradores e cria-
dores. O distrito foi talhado pela natureza para a
criação de gado em grande escala, seus campos são
extensos e férteis, o gado cresce e engorda facilmente.
Domiciano aí casara-se, em 1848, com Ana Joaquina de
Jesus, seguindo pouco tempo depois para o sertão do
7
Riachão, onde trabalhou como vaqueiro por alguns
anos. De volta à freguesia de São Félix de Balsas,
instalou-se no lugar denominado Matogrosso, aldeia
de seu cunhado, o influente fazendeiro e senhor de
engenho de açúcar, Cap. Joaquim Henriques de
Macedo, de quem foi também vaqueiro.
De orientação política conservadora, militou
neste partido durante trinta anos, após o qual in-
gressou nas fileiras do partido Liberal. O motivo do
transfuguismo partidário teria sido o não reconheci-
mento pelos serviços prestados, o que negam seus
antigos correligionários, que preferem atribuí-la à
influência do cunhado, o Cap. Macedo, ou a uma
suposta promessa de um posto na Guarda Nacional.

Passados alguns anos, ainda no mesmo povoado,


veio a ser vaqueiro do Cel. José Pereira da Silva, na
fazenda Santo Antônio, onde esteve cinco anos. Foi
nesta fazenda que nasceu Isaac Martins dos Reis, sobre
quem passaremos a discorrer.

***

Por ocasião de uma desobriga em Matogrosso,


no dia 12 de abril de 1856, o pequeno Isaac foi solene-
mente batizado com imposição dos santos óleos pelo
padre Alexandre da Silva Mourão, vigário da Freguesia
de São Félix de Balsas. Foram seus padrinhos Plácido
8
Ribeiro Antunes de Macedo e D. Izabel Brígida da Puri-
ficação.
A infância transcorreu alegre e solícita, nem
monótona, contrariando o murmúrio retilíneo das
águas do Balsas, nem tampouco cômoda, já que cedo
teve de auxiliar o pai nas lides com o gado, trans-
portando rebanhos de um pasto a outro, de fazenda em
fazenda, onde os imolava, preparava a carne de sol, o
charque e o couro para vendê-los nos centros maiores,
como São Luís, Caxias e Teresina. Assim, metido nessa
vida, provido de arreios, esporas e gibão de couro,
chegou Isaac Martins aos vinte anos, não sabendo ler
nem escrever.
Domiciano acumulara grande quantidade de
cabeças de gado que, ao longo dos anos, durante as
chamadas “partilhas”, ia incorporando à sua própria
fazenda, pois, àquela época, era comum o vaqueiro ter
direito a pelo menos uma cria dentre quatro das que
nascessem sob sua guarda e vigilância. O mesmo
processo de partilha aplicaria mais tarde aos filhos,
incluindo-se o jovem Isaac.
Com a nomeação do pai, em 1860, para 2º
Suplente de Subdelegado de Polícia de São Felix de
Balsas, as coisas na família Martins dos Reis pareciam
tomar novo rumo.
Criador de gado e família numerosa, Domiciano
descuidara-se da educação dos filhos. Na verdade,
somente a partir de 1864, Loreto prover-se-á de um
9
8
Certidão de Batismo de Isaac Martins dos Reis, datado de 1877
professor de primeiras letras, o Sr. Antônio Luís da
Rocha. Em 1873, chega à vila o segundo e mais co-
nhecido professor, o Sr. Bento Bandeira de Melo, pai de
José Bandeira de Melo, antigo funcionário dos Correios
e Telégrafos de Barra do Corda e pessoa altamente
relacionada e benquista de nossa sociedade, no início
do século XIX, de cujo progresso e bem-estar foi um
dos grandes esteios.

Estimulado por um episódio em que o pai perde


uma questão de terras e lamenta-se não ter tido
nenhum filho letrado que pudesse defender os
interesses da família, Isaac Martins resolve vender
todo o seu gado e aplicar o dinheiro na própria edu-
cação.

O Juiz de Direito de
Pastos Bons, Dr. Dias Carneiro,
processou o pai de Isaac Martins
que, não obstante ter provando a
improcedência das acusações, foi
obrigado a pagar exorbitante multa.
Muitos atribuem o caso a
consequências de sua deserção do
Partido Conservador.

12
FORMAÇÃO E MAGISTRATURA

Em Caxias, para onde seguiu a fim de estudar as


primeiras letras, funda, com alguns companheiros, em
4 de junho de 1874, a Associação Católica de Caxias,
com o propósito de defender e propagar os princípios
da madre Igreja. Realizou os preparatórios para o
curso jurídico no antigo Liceu Piauiense, em Te-
resina/PI, sendo aprovado plenamente no dia 5 de
dezembro de 1875.
Sobre a vetusta e ilustrada Faculdade de Direito
de Recife, o historiador Jerônimo de Viveiros, dá-nos o
seguinte testemunho:

“No tempo do Império, a Faculdade de


Direito de Recife era o único centro de
cultura jurídica que havia no norte do País.
Imenso o fascínio que exercia sobre o
espírito da mocidade. De todas as pro-
víncias – desde a Bahia até o Amazonas –
afluíam para lá, os moços que desejavam
possuir um diploma de bacharel em ciên-
1
cias jurídicas e sociais”.

Isaac Martins não fugiu à regra. Tendo seguido


no vapor “Espírito Santo”, desembarcou em Pernam-

1 VIVEIROS, Jerônimo de. Benedito Leite, um verdadeiro republicano. D.A.S.P.,


1960; 2ª ed.
13
buco no dia 17 de janeiro de 1878.
Durante todo esse ano e boa parte do seguinte,
prestará ele exames de ingresso, dará aulas no Liceu
Paraibano, matriculando-se efetivamente na Facul-
dade de Direito somente em 17 de outubro de 1879. Aí,
encontra-se com os conterrâneos Urbano Santos,
Benedito Leite, Viveiros de Castro, Lopes da Cunha,
Torreão da Costa, Torquato Tasso, Agripino Azevedo,
Graça Aranha e outros que, como ele, são igualmente
influenciados pelas ideias avançadas da “Escola do
Recife”, que teve no jurista Tobias Barreto seu mais
fervoroso apóstolo.
Visando a discussão das matérias estudadas e à
elaboração de teses e dissertações, reúne-se com
outros alunos e funda, em 19 de maio de 1880, o “Clube
Acadêmico do 2º Ano”, renomeado no ano seguinte
2
para “Grêmio Jurídico”, onde é eleito Vice-Presidente .
Esta plêiade de intelectuais varava a madrugada,
exercitando-se na leitura, na escrita e na oratória. A
partir desses conluios, as concepções evolucionistas
foram ganhando cada vez mais espaço na mente do
calouro Isaac, sobretudo após a apropriação de ideias
de Haeckel, Buckle, Spencer, Darwin, Littré, Le Play, Le
Bon e Gobineau.
Concluído o curso, tomou grau de bacharel em
Ciências Jurídicas e Sociais a 16 de novembro de 1883,

2 Jornal do Recife, PE, 20.mai.1880.


14
Matrícula de Isaac Martins correspondente ao 1º Ano do curso de Direito

Registro de Bacharel do Dr. Isaac Martins dos Reis


15
3
e, no dia 23 do mesmo mês, desembarcou em São Luís .
Isaac Martins retorna ao Maranhão com apreciável
bagagem de conhecimentos jurídicos, humanísticos e
literários.
Antes, porém, ainda no 4º ano de Direito, pleiteia
junto ao então presidente da província, o Desem-
bargador José Manuel de Freitas, o lugar de promotor
público da comarca de Barra do Corda:

“O presidente da província, visto lhe


haver o acadêmico do 4º ano de Direito Isaac
Martins dos Reis requerido o lugar de
promotor público da comarca de Barra do
Corda, resolve atendê-lo, e o nomeia para o
referido lugar, ficando exonerado o cidadão
4
Anastácio Martins Jorge, que o exercia”.

Dr. José Manuel de Freitas

3 Diário do Maranhão, S. Luís, 23.nov.1883.


4 Publicador Maranhense, 28.mar.1882.
16
Nomeado por portaria de 21 de março de 1882,
Isaac Martins assume o cargo no dia 5 de abril de 1882,
após ter prestado juramento.

Saúde frágil, há pouco mais de um mês na


promotoria de Barra do Corda, teve de solicitar licença
5
de três meses, com ordenado, para tratar da saúde .
Novamente, no dia 19 de janeiro de 1883, pede um mês
de licença com ordenado para tratamento de saúde e
justifica suas faltas por motivo de moléstia. De volta a
Barra do Corda, reassume suas funções em 27 de março
6
de 1883 . Por fim, em 3 de outubro do mesmo ano,
outros três meses de licença, sem ordenado, lhe são
7
concedidos, usando-se a mesma justificativa .
Claro está, pelo menos no segundo e terceiro
casos acima, que as recorrentes “moléstias” apresen-
tadas por Isaac para a obtenção das licenças, em que
pese a insalubridade da vila naqueles idos, mormente a
epidemia de varíola que, entre 1882 e 1883, dizimou
grande parte da população de Barra do Corda, não
eram verossímeis, e que fez uso desse expediente, um
dos poucos com amparo legal, para poder deixar a
província, e, ao mesmo tempo, garantir sua vaga na
promotoria de Barra do Corda, visto que, na segunda

5 Publicador Maranhense, São Luís, 25.mai.1882.


6 Publicador Maranhense, São Luís, 21.abr.1883.
7 O Paiz, São Luís, 3.out.1883.
17
vez em que lhe é concedida a licença, no dia seguinte,
20 de janeiro de 1883, Isaac embarca no vapor “Bahia”
rumo a Pernambuco, a fim de dar continuidade ao
curso de Direito, e, na terceira, segue o mesmo trajeto,
desta vez para receber o grau de bacharel, retornando
no vapor “Espírito Santo”, em 23 de novembro daquele
ano, juntamente com os amigos Dr. Tito Lemos, Agri-
8
pino Azevedo, Graça Aranha, entre outros . O Diário do
Maranhão, de 23 de novembro de 1883, assim se
manifestou:

“Chegaram hoje formados os nossos


coprovincianos, Drs. Isaac Martins dos Reis
e Tito Lemos, aos quais enviamos os nossos
9
emboras”.

O professor pernambucano Manoel Tavares,


que a convite de Isaac viria a Barra do Corda lecionar
no Colégio Popular, não pudera embarcar com este no
mesmo vapor, devido a pendências e compromissos
inadiáveis. Desembarcou em São Luís dias depois, em
10
18 de dezembro .

Quando Isaac Martins abriu em Barra do Corda o


seu próprio escritório de advocacia, o jornal “Diário do

8 Pacotilha, São Luís, 23.nov.1883.


9 Expressão que caiu em desuso, significando: “em boa hora”.
10 Pacotilha, São Luís, 18.dez.1883.
18
Maranhão”, de 15 de março de 1884, assim notificou ao
público:
“O bacharel Isaac Martins Reis abriu
nesta vila o seu escritório de advocacia.
Oferece os seus serviços ao comércio desta
localidade, ao da capital, ao das mais
localidades do interior; e oferece-se para
fazer quaisquer liquidações amigáveis ou
judiciais nesta comarca. Oferece igual-
mente os seus serviços a todos os seus
amigos do interior da província.
Santa Cruz da Barra do Corda, 1º de
fevereiro de 1884”.

A “SOCIEDADE LIBERTADORA 28 DE JULHO”

Assim subscreveu Isaac Martins em artigo ao


“Diário do Maranhão”, de 6 de outubro de 1882, em que
apresentou para o povo da Província a “Sociedade
Libertadora 28 de Julho”, erigida entre os escravos da
vila de Barra do Corda:

“A ideia partiu de um escravo de nome


Leovigildo, de propriedade do Dr. José
11
Clemente da Silveira , foi apresentada aos
11 José Clemente da Silveira, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade
de Direito de Recife, em 1871, foi Juiz de Direito (1875), Juiz Municipal (1883) e
Promotor Público de Barra do Corda (1884).
19
seus parceiros e realizada sob um plano tão
bem traçado, que admira que de inteli-
gências tão incultas, saísse uma concepção
tão importante e de tanto alcance. O fim da
sociedade é a formação de pecúlios para
ajudar a verba da emancipação.
Vimos os Estatutos da Sociedade, que
deverão ser publicados nos jornais dessa
capital, e, como nos pareceram dignos disto,
tomamos a iniciativa de recomendá-los à
atenção do público. A questão da escra-
vatura ocupa hoje em todo o Império as
atenções do governo e do povo; não é, pois,
sem interesse para a consecução de tão
desejado fim que se louve e aplauda uma
ideia que traz a dupla vantagem de con-
correr, embora com um fraco meio, para a
desaparição da escravidão; e de implantar
um princípio de economia e sociabilidade
nesta classe que, mais cedo ou mais tarde,
virá fazer parte integrante da grande
Sociedade Brasileira.
Animem, pois, os jornais do país esta
ideia; imitem-na os escravos das outras
localidades, e teremos um átomo para
adicionar ao nosso progresso.
Barra do Corda, 10 de setembro de
1882”.
20
No dia 7 de setembro, o promotor Isaac, após
acurada análise do referido estatuto, louva a iniciativa
dos escravos e propõe medidas cautelares:

“Julgo que os associados se propõem a


um fim justo, qual o de promoverem por
meios lícitos e a seu alcance a consecução de
sua liberdade. Todavia, é mister que os
associados, antes de fazerem parte da
sociedade, peçam o consentimento dos seus
respectivos senhores. O fim da sociedade é
formar pecúlios e, segundo a lei 2040, de 28
de setembro de 1871, art. 4º, estes não
produzem efeitos legais sem que sejam for-
mados com o consentimento dos senhores”.

ISAAC MARTINS E A OBRA EDUCACIONAL

Convencido de que a educação e instrução do


povo são os únicos meios a empregar-se para melhorar
a sociedade e elevar-se o seu nível moral e intelectual,
Isaac Martins resolveu, como amante da pátria e de sua
província, dedicar uma parte da sua atividade ao
ensino do povo, especialmente da mocidade.
Envidou esforços para conseguir, com o valioso
concurso de alguns amigos prestimosos, a criação, em
Barra do Corda, de uma associação cujo único fim seria
21
o ensino gratuito do povo por meio de conferências
públicas aos domingos e aulas noturnas para os
meninos, moços e operários pobres. Fundou, então, a
10 de maio de 1882, a “Associação Auxiliadora do
Ensino Popular”.
Em pouco mais de um ano de existência, contava
esta sociedade com 88 sócios, inclusive alguns de
outras localidades. Os resultados já se faziam sentir.
Não obstante, Isaac concluiu que ainda não bastava
este melhoramento. Era mister facilitar um meio de
chamar os meninos e moços àquela localidade, isto é,
criar-se um internato que fosse como uma casa de
hospedaria para aqueles que quisessem gozar do
ensino que oferecia a “Auxiliadora”.
Teve então a ideia de criar um coleginho cuja
realização, acreditava, prestaria a todo o Alto Sertão, a
todos os pais de famílias, um relevante serviço. Atento
à grande distância a que ficavam da capital e o estado
pouco sanitário desta, naqueles idos, não podia deixar
de trazer grandes vantagens a Barra do Corda e às
demais localidades do interior um estabelecimento de
educação nas condições por ele oferecidas ao público.
A vila, já pela sua posição, no centro da província, e já
pela sua salubridade, oferecia todas as condições
desejáveis. Acrescente a tudo isto que, sendo muito
mais perto e mais módicas as despesas, poderiam os
pais e as mães de famílias vencer muito mais facil-

22
mente os dois obstáculos que encontrariam para a
educação e instrução de seus filhos, e que tanto mal
faziam ao país, à sociedade e à humanidade – o amor
desordenado ao dinheiro e o receio de separarem-se
dos filhos.
Isaac tinha em vista associar a sua ação à de mais
alguns amigos da localidade e oferecer ao público um
perfeito estabelecimento de educação primária, e em
que se ensinasse também alguns preparatórios como
francês, geografia, história, geometria, aritmética, etc.
Até maio de 1883, o Colégio ainda não dispunha
de espaço físico próprio, com as acomodações neces-
sárias, tendo de funcionar provisoriamente nas
dependências da casa de Isaac Martins. Somente no dia
6 de janeiro de 1884, foi solenemente inaugurada a
sede própria do “Colégio Popular”.
O Colégio funcionava regularmente de acordo
com o regímen e programas adiantados dos colégios
dos centros populosos. O ensino letivo se dividia em
primário e secundário. O curso primário limitava-se às
primeiras letras, porém confiado a um professor de
reconhecida competência. O curso secundário abran-
gia todas as matérias ou preparatórios que constituíam
o objeto de matrícula para quaisquer Academias ou
Faculdades do Império. O francês e o Inglês eram
ensinados na prática. Compunha o corpo docente da
entidade, entre outros, os professores João Praxedes

23
de Montalvão, Francisco de Melo Albuquerque e Ma-
noel Tavares, que, a convite de Isaac Martins, viera de
Pernambuco para lecionar no colégio, tendo desem-
12
barcado em São Luís a 18 de dezembro de 1883 .
O edifício em que funcionava o estabelecimento
oferecia as melhores proporções sanitárias e o clima da
localidade era incontestavelmente ameno. Quanto aos
preços das mensalidades, não podiam ser levados à
maior comodidade. As vantagens do Colégio Popular
estavam implicitamente discutidas em suas condições,
cuja confirmação apelava o Diretor para aqueles que já
lhe fizeram a honra de visitar o seu colégio.
O Diretor, visando melhorar o seu programa,
criou ainda escolas de artes, música e desenho. Os
exercícios de natação e ginástica eram observados
todos os dias, com a precisa regularidade.
O Colégio Popular era a sede da sociedade “Au-
xiliadora”. Em um de seus salões funcionavam as
conferências públicas da mesma. O ensino era comple-
tamente gratuito para todos os meninos pobres e
mesmo para todos os moradores da vila, enquanto se
limitassem ao estudo da língua e gramática portu-
guesa. Pelos alunos internos recebia-se uma módica
contribuição que não excedia a vinte e cinco mil réis
(25$000) e podiam usufruir de cômodos confortáveis,
comida, ensino, roupa lavada e gomada.

12 Pacotilha, 18.dez.1883.
24
A TRAJETÓRIA POLÍTICA

Isaac Martins envolveu-se nas lutas políticas


quando ainda estudante e amargara a primeira derrota
nas eleições para deputação geral em 10 de novembro
13
de 1881, concorrendo pelo 6º Distrito Eleitoral , quan-
do obteve apenas 15 votos contra 189 do candidato
mais votado, Cap. Deocleciano Augusto Maranhão. E
como este fora o único candidato que obteve o
quociente eleitoral, à Junta Apuradora foi mandado
proceder o segundo escrutínio entre os oito mais
14
votados. Isaac estava fora .
Anos depois, pretendendo lançar-se novamente
candidato a Deputado Geral da Província, e temendo
que o seu ofício de Promotor Público de Barra do
Corda, o qual exercia desde 1882, incompatibilizasse
com o seu intento, pede exoneração do cargo, o que lhe
15
foi concedido no dia 13 de maio de 1884 , substituindo-
16
lhe o Cap. Anastácio Martins Jorge .
Tudo leva a crer que a rivalidade ao deputado
Francisco de Araújo Costa, que desde sua chegada à
comarca se havia mostrado um verdadeiro déspota, o
13 O 6º Distrito compreendia as seguintes paróquias: N. S. da Conceição da Manga,
S. Bento do Mirador, S. Bento de Pastos Bons, S. Felix de Balsas, Santa Cruz da Barra
do Corda, Senhor do Bonfim da Chapada, Santa Tereza do Porto Franco, S. Pedro de
Alcântara da Carolina, N. S. de Nazaré do Riachão e N. S. da Vitória do Parnaíba.
14 Publicador Maranhense, 17.mar.1882.
15 Diário do Maranhão, 27.mai.1884.
16 Pacotilha, São Luís, 14.mai.1884.
25
tenha estimulado à luta por um espaço na tribuna da
Assembleia Provincial, para assim melhor defender os
interesses do Partido Liberal, de que fazia parte.
Lançada a candidatura, em novembro de 1884,
disputava Isaac Martins o 6º distrito com o Dr. José
Viana Vaz, também liberal, e o conservador Dr. Manoel
José Ribeiro da Cunha. Foram 18 os que se haviam
candidatado aos 6 lugares a que tinha direito a
província na representação geral. A vitória, como era
de se esperar, coube a Ribeiro da Cunha, que obteve 400
votos. Isaac Martins engoliu em seco, sobretudo ao ver
ainda mais grosso o caldo dos conservadores na repre-
sentação provincial. Não demorou para que alguns de
seus desafetos conseguisse que fosse nomeado
delegado de polícia de Loreto um inimigo “figadal” da
prestimosa e influente família Martins dos Reis. Ciente
do ocorrido, Isaac Martins pede nomeação para a dita
comarca e, no dia 31 de outubro de 1885, é nomeado
17
Juiz Municipal e de Órfãos do termo de Loreto e, em
seguida, assume também a vara de Direito. Contidas as
escaramuças, é transferido a pedido para o termo de
Barra do Corda, como Juiz Municipal e de Órfãos, em 6
18
de março de 1886 .
No expediente do Supremo Tribunal de Justiça
do Rio de Janeiro, de 11 de novembro de 1886, lê-se que
17 Gazeta de Notícias, RJ, 2.nov.1885.
18 Diário de Notícias, RJ, 7.mar.1886; O Paiz, RJ, 7.mar.1886; A Vanguarda, RJ,
7.mar.1886; Diário de Pernambuco, PE, 17.mar.1886.
26
Dep. Araújo Costa, o
maior adversário político
de Isaac Martins.

o Dr. Isaac Martins reassumira, naquela data, o exer-


19
cício do referido cargo . Era Juiz de Direito da comarca
de Barra do Corda o bacharel João Lopes de Carvalho
Lobão, inimigo rancoroso e perseguidor do Dr. Isaac
Martins que, vendo-se lesado por essa circunstância
perante o presidente da província, leva o fato ao co-
nhecimento dos poderes competentes e propõe um
expediente atípico para resguardar sua probidade:

“Seja ou não regular, remeterei à s. exc.


o sr. presidente da província no fim de cada
ano de exercício um atestado de minha
conduta e desempenho de minhas funções
dada pela câmara municipal, pelo promotor
público e pelo delegado de polícia da

19 Jornal do Comércio, RJ, 18.nov.1886.


27
comarca” (O Paiz, Maranhão, 18 de maio
de 1887).

Amigo e defensor contumaz dos Moreiras e


Ledas, a força liberal de Grajaú, viu-se envolvido nos
conflitos entre estes e o Cel. Araújo Costa, sendo
acusado de cumplicidade nos crimes perpetrados
naquela comarca, supostamente atribuídos àquelas
famílias.

A ADESÃO À REPÚBLICA E A FUNDAÇÃO


DO JORNAL “O NORTE”

A propaganda republicana só ganhou força no


sertão, a partir de Barra do Corda, em 1888, após a
chegada de Dunshee de Abranches, que encontrará em
Rocha Lima, próspero comerciante local, um ardoroso
adepto da República. “Hospedando-se em casa desse
negociante e tornando-se logo dele um companheiro
inseparável, não tardava Dunshee de Abranches a
aceder em iniciarem ambos a campanha partidária,
procurando alastrá-la pelos sertões maranhenses.
Para isso, porém, careciam de um nome capaz de emo-
cionar a alma sertaneja. Lembraram-se então de Isaac
Martins, cujo prestigio já era grande em todas aquelas
zonas. Formado em Direito, exercendo na Barra do
Corda o cargo de Juiz Municipal e sendo um dos chefes
28
mais proeminentes do partido liberal adiantado, Isaac
por si só valeria por uma legião. Convidado para uma
reunião em casa de Rocha Lima, esse ilustre filho dos
sertões mostrou-se prontamente disposto a encabeçar
20
o movimento” . Assim foi que, no dia 25 de dezembro
de 1888, Isaac Martins publicou o seu manifesto
aderindo pública e solenemente à República, ocasião
em que também foi proclamado chefe do partido em
toda a região sertaneja. O jornal conservador O Paiz, S.
Luís, de 23 de janeiro de 1889, assim notificou o fato:

“O dr. Isaac Martins, juiz municipal da


Barra do Corda, declarou-se republicano,
pronunciando um violento discurso num
meeting realizado no salão da câmara
municipal no dia 25 de dezembro p. p.
Atacando a monarquia e a religião
católica, afirmou o dr. Isaac que: “tanto a
Igreja Romana, com a sua teocracia, como a
realeza, com os seus despotismos, cons-
piram contra a dignidade humana; espe-
culam com a ignorância e se opõem às
conquistas da liberdade e da razão”.

Com Rocha Lima e Dunshee de Abranches, Isaac


seguiu por todo sertão a serviço de propaganda,
fazendo meetings, fundando clubes e organizando o
20 O Paiz, RJ, 18.nov.1909.
29
Leão Leda (1840-1909).
Por causa da amizade leal e
devotada à família Leda, Isaac
Martins comprometeu sua
carreira, perdeu promoções e
renunciou a magistratura para
sair pelos sertões afora,
pregando a queda do Trono e a
implantação da República.

partido histórico que, meses mais tarde, empenhava-


se nos pleitos eleitorais. Dia a dia pregava, sustentando
formidáveis campanhas que ficaram memoráveis na
história do Maranhão.
Passou a circular pelo sertão maranhense o
primeiro número de um jornalzinho incendiário,
chamado “O Norte”. Fundado por Isaac Martins em 12
de novembro de 1888, trazia, estampado em seu
frontispício, a epígrafe: “órgão das ideias democrá-
21
ticas” . Nascida daqueles “conciliábulos”, foi a pri-
meira folha de propaganda republicana no Maranhão,
e Isaac Martins, o introdutor da imprensa em Barra do
Corda.
21 A partir da década de 1890, a epígrafe passará a ser: “órgão das ideias repu-
blicanas”.
30
A VIAGEM AO RIO DE JANEIRO

Entrando no gozo de licença, em 23 de abril de


22
1889 , Isaac reassumiu as suas funções a 14 de maio do
23
mesmo ano . No entanto, o clima de tensão que agita-
va os centros republicanos de toda a região sertaneja,
sobretudo em Barra do Corda, onde funcionava o
diretório central do partido, absorvia sobremaneira o
jovem magistrado.
O memorialista Dunshee de Abranches, amigo e
correligionário de Isaac Martins, copartícipe que foi
daquele importante momento histórico, assim
descreveu o clima de tensão que agitava o interior da
província do Maranhão, sobretudo em Barra do Corda,
a ponto de muitos se arregimentarem numa verda-
deira luta armada para a derrubada da Monarquia:

“Os últimos dias de setembro e o mês de


outubro de 1889 foram de intensa atividade
nos centros republicanos de toda a região
sertaneja, filiados ao diretório central da
Barra do Corda. Além do copioso arma-
mento existente em poder de fazendeiros e
jagunços, amigos nossos, de Grajaú e outras
localidades, armamento esse em grande
parte composto de carabinas Comblain e to-
22 Jornal do Comércio, RJ, 16.mai.1889.
23 Jornal do Comércio, RJ, 27.jun.1889.
32
mado às forças do Governo enviadas para
ali a fim de abafarem sucessivos motins,
importantes encomendas de rifles tinham
sido despachados do Pará. E, dentro de
algumas semanas, calculavam os chefes
políticos podermos dispor de mil e duzentos
homens bem equipados.
Dadas as relações da íntima amizade
24
entre Martins Júnior , influência republi-
cano no Recife, e Isaac Martins, e as minhas
relações pessoais na Corte e em São Paulo
com Quintino, Aristides Lobo, Silva Jardim e
Campos Sales, resolveu o nosso diretório, em
sessão secreta, que seguisse viagem até ao
Rio de Janeiro o Redator-Chefe de “O Norte”.
Ali, estudaria ele de visu a situação; e, então,
resolveríamos coparticipar do anunciado
movimento insurrecional se, de fato, esti-
vesse iminente, ou marchar sozinhos, como
25
os balaios em 1839, para a Revolução!”.

Assim, Isaac formulou, junto ao Supremo Tribu-


nal de Justiça, um pedido de licença de três meses, o

24 Dr. José Izidoro Martins Júnior, poeta e magistrado, foi o fundador, em 1886, do
Centro Republicano de Pernambuco, o qual por muitos anos presidiu. Em 1889, ano
da Proclamação da República, o Centro contava com 150 sócios, em sua maioria
eleitores.
25 ABRANCHES, Dunshee. A Esfinge do Grajaú. São Luís: ALUMAR, 2ª ed., pp.
189-190.
33
qual lhe foi concedido no dia 12 de outubro daquele
26
ano . Embarca em São Luís, rumo à capital do Império,
no dia 9 de novembro de 1889, em companhia do Dr.
José Bernardo de Sousa Brito.
Por ocasião do golpe de Estado de Deodoro, que
proclamou a República, a 15 de novembro de 1889,
estava Isaac Martins em Recife, avistando-se com o Dr.
Martins Júnior, seu íntimo e inseparável amigo, desde
os bancos acadêmicos. No dia seguinte, logo pela
manhã, embarca no paquete nacional “Pernambuco”
com destino ao Rio de Janeiro. Rememorando esse
trajeto, Abranches diz que “Isaac regressava triun-
fante de sua excursão a terra, acompanhado por aquele
colega e numerosos republicanos. E, reunidos todos no
convés, trocavam saudações entusiásticas e erguiam
seguidos vivas à República. E, daí por diante, tornava-
se o modesto chefe democrático dos sertões mara-
nhenses, o centro das zumbaias daqueles que, dias
antes, o fustigavam com alusões ferinas e baixos
gracejos”.
No entanto, logo ao saltar no Rio, em 22 de no-
27
vembro , “batera em diversas portas dos membros do
Governo e dificilmente conseguira abrir duas ou três
que, para não mentir, quase não lhe deram a devida
atenção”, reitera Abranches. Nem mesmo Quintino

26 Jornal do Comércio, RJ, 14.out.1889.


27 Diário do Comercio, RJ, 23.nov.1889; Gazeta de Notícias, RJ, 23.nov.1889.
34
Campos Sales e Aristides Lobo; este, Ministro do Interior, aquele, Ministro da
Justiça de Deodoro e futuro Presidente da República. Foram os únicos que, na
capital do país, acolheram a Isaac Martins e o trataram com distinção, explicando-
lhe os rumos da recém-proclamada República.

Bocaiúva, agora membro do Governo Provisório da Re-


pública e chamado a compor a pasta das Relações
Exteriores, encontrara tempo para recebê-lo, a des-
peito da correspondência que dias antes lhe remetera,
solicitado audiência e fazendo-o lembrar de que fora o
candidato maranhense no último pleito da Monarquia.

O Diário do Comércio, do Rio de Janeiro, de 4 de


dezembro de 1889, dá-nos a notícia:

“Pela Secretaria de Estado dos Negó-


cios da Justiça, em 2 do corrente, passou-se
35
diploma habilitando o bacharel Isaac
Martins Reis ao cargo de Juiz de Direito”.

Estando em importante missão na Corte, Isaac


Martins recebe esse diploma das mãos do então
Secretário de Justiça do Governo Provisório da Repú-
blica, José Pereira de Queiroz, e, por decreto de 3 de
dezembro de 1889, isto é, no dia seguinte, é nomeado
28
Juiz de Direito da comarca de Riachão/MA . De regres-
so da Capital, no vapor nacional “Pernambuco”, de-
29
sembarca em São Luís no dia 17 de dezembro de 1889 ,
assumindo o exercício do referido cargo no dia 1º de
30
fevereiro de 1890 .

Em 24 de fevereiro de 1891 é transferido como


Juiz de Direito para a comarca de Barra do Corda,
entrando no exercício do cargo somente em 12 de
outubro do mesmo ano. Em 10 de junho de 1898, o
Partido Republicano Federal, chefiado no Maranhão
pelo Dr. Manoel B. da Costa Rodrigues apresenta o seu
nome como candidato às eleições de Deputado Federal.
Segundo Francisco de Melo Albuquerque, Isaac Mar-
tins foi um dos “únicos que já se atreveram a lavar em
público a toga de nossa Magistratura da Roça”.

28 Gazeta de Notícias, RJ, 4.dez.1889; Jornal do Comércio, RJ, 4.dez.1889; Diário


de Pernambuco, PE, 11.dez.1889.
29 O Globo, MA, 17.dez.1889.
30 A República, MA, 14.mar.1890.
36
ISAAC MARTINS E BELFORT VIEIRA

O Maranhão deu-lhe um lugar de Senador no


Congresso Constituinte, onde ocupou o lugar de 1º
Secretário. Depois de promulgada a Constituição de 4
de julho, o Dr. Isaac voltou a Barra do Corda a fim de
reassumir a Vara de Juiz de Direito. Nesse posto o
encontrou a deposição do governo do Estado, contra a
qual protestou, e em ofício dirigido ao Cap. Ten. Belfort
Vieira ratificou o seu protesto. Sobre este aconteci-
mento comentou Domingos Vieira Filho, dizendo que
Isaac Martins “não reconheceu a autoridade de Belfort
Vieira, declarando alto e bom som que no regime
republicano somente por eleição e nunca por acla-
mação poderia haver investidura num cargo eletivo.
Pagou esse rasgo de intrepidez e coerência jurídica
com a suspenção de suas funções judicantes, ficando o
resto da vida na condição de avulso, porque não era do
seu feitio cortejar os poderosos, andar babujando
sandices nas antecâmaras palacianas para lisonjear o
31
mandonismo” .
O caso ganhou espaço no jornal O Pharol, de Juiz
de Fora/RJ, que na edição de 17 de março de 1892,
trouxe em sua primeira página a seguinte notícia:

“O governador do Estado do Maranhão


31 FILHO, Domingos Vieira. Breve História das Ruas e Praças de São Luís.
Maranhão, 2ª ed., 1971, p. 100.
37
decretou a suspenção do exercício das
funções ao Juiz de Direito da Barra do
Corda, Dr. Isaac Martins dos Reis, Senador
do Congresso daquele Estado. O motivo foi a
declaração do Juiz de não reconhecer a
autoridade do Governador. O mesmo
Governador ordenou que fosse respon-
sabilizado”.

Dias depois, o Diário de Notícias, também do Rio


de Janeiro, de 10 de abril de 1892, publicou esta nota:

“O Ministério da Justiça, em data de


ontem, aprovou o ato pelo qual o gover-
nador do Estado do Maranhão suspendeu e
mandou responsabilizar o Juiz de Direito da
comarca da Barra do Corda, bacharel Isaac
Martins Reis”.

Republicano da velha guarda,


Isaac Martins se recusou a aceitar
a legitimidade do governo do
Cap. Ten. Belfort Vieira, e sofreu
consequências desastrosas.

38
OS ÚLTIMOS ANOS

Em 1896, o seu partido o apresentou candidato a


Deputado Federal pelo 2º distrito nas eleições de 31 de
dezembro, e indicou novamente o seu nome ao
eleitorado para idêntico cargo, no pleito de 4 de julho
de 1898.
Em viagem a São Luís, em fins de julho, para
tratar de negócios particulares, acabou contraindo a
enfermidade que o vitimaria. Apesar de todos recursos
da ciência médica e o desvelo dos familiares e amigos,
em cujas casas esteve enfermo, Isaac Martins faleceu
às nove horas da manhã do dia 13 de agosto de 1898, em
casa de Agripino Azevedo, na antiga Rua das Barrocas.
Este logradouro, a partir de 1921, passou a denominar-
se “Rua Isaac Martins” pela Câmara Municipal de São

Agripino Azevedo cuidou


do amigo Isaac Martins
em sua própria casa até o
dia de sua morte.

39
Luís, atendendo a um pedido formulado pela “Revista
Maranhense”, na pessoa do poeta grajauense Sousa
Bispo, seu extremoso admirador e biógrafo.
Em 2 de abril de 1902, foi fundado, em Barra do
Corda, sob a direção de João B. Moreira Ferraz e
Melquíades Moreira Ferraz, o externato “Isaac Mar-
tins”, no qual eram lecionadas as matérias indispen-
32
sáveis à instrução primária .
Isaac Martins é hoje nome de uma das principais
ruas do centro de Barra do Corda; é também patrono da
cadeira nº 12 da Academia Barra-Cordense de Letras,
fundada pelo jornalista Nonato Cruz.

Deixou várias publicações, como:


“Mil pessoas miseráveis que clamam” – Diário do
Maranhão, S. Luís, 30/7/1882;
“Barra do Corda” – O Paiz, S. Luís, 19/1/1883;
“Colégio Popular” – O Paiz, S. Luís, 5/6/1883;
“Colônia de Índios Dois Braços” – Diário do Mara-
nhão, S. Luís, 26/11/1883;
“Juízes da Barra do Corda” – Diário do Maranhão,
S. Luís, 5/10/1885;
“O Crime do Grajaú” – Pacotilha, S. Luís, 2/3/1886;
“Resposta ao Discurso do Sr. Araújo Costa” –
Pacotilha, S. Luís, 15/7/1887;
“Aposentadoria dos Magistrados em Disponibili-
dade” – Pacotilha, S. Luís, 30/7/1895.

32 Pacotilha, 26.abr.1902.
40
33
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CARVALHO, Carlota. O Sertão. Imperatriz: Ética, 2000.


ABRANCHES, Dunshee de. A Esfinge do Grajaú. São Luís:
ALUMAR, 1993.
BRANDES, Galeno Edgar. Barra do Corda na História do
Maranhão. São Luís: SIOGE, 1994.
FILHO, Domingos Vieira. Breve História das Ruas e Praças
de São Luís. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica
Editora, 1971.
MEIRELES, Mário Martins. Panorama da Literatura
Maranhense. São Luís: Imprensa Oficial, 1955.
__________________. O Maranhão e a República. São
Luís: SIOGE, 1990.

CRÉDITOS DAS IMAGENS


Todos os esforços foram feitos para determinar o crédito das
imagens publicadas neste livro. Nem sempre isso foi possível.
Teremos prazer em creditar as fontes caso se manifestem.

Acervo do autor, 10, 11, 15


Acervo da família Leda, 30
Álbum do Maranhão - 1923, 39
Biblioteca Nacional: Acervo Digital, 31
Casa de Cultura Galeno Edgar Brandes, 5
Jornal “A Mocidade” (1906), 12
Revista Ilustrada (Suplemento do nº 569), 39

33 Não constam deste rol a relação dos periódicos já citados nas referências
marginais.
41
KISSYAN CASTRO nasceu em Barra do Corda, Ma-
ranhão, no dia 23 de dezembro de 1979. Desde cedo, levado
por necessidades de ordem econômica, deixa sua província
natal e se lança pelo mundo, incursionando no Pará, Brasília
e Tocantins. Aí, aos vinte anos de idade, começa a produzir
seus primeiros poemas. Junta-se a três jovens poetas e cria o
grupo “Fênix”, resultando na publicação conjunta do livro
“Sete Amores Em Um Só” (Palmas, 2002). No entanto, é com o
livro “Vau do Jaboque”(Rio de Janeiro: CBJE, 2005) que se dá a
sua estreia como poeta. Dois anos depois está em São Paulo,
onde entra para a Faculdade de Farmácia e Bioquímica da
Universidade Paulista, filia-se a agremiações e ganha
prêmios literários.
Após longo período de existência andarilha, volta à
terra natal robustecido no aprendizado da vida e da poesia,
para lançar-se a novos empreendimentos literários, de que é
fruto “Bodas de Pedra” (Lisboa: Chiado, 2013), livro elogiado
pela crítica, cujos “poemas, de sabor ameno, denunciam um
artista que trabalha com a lupa engastada na órbita, não
presumindo a menor aspereza na pedra preciosa em que os
esculpe”, afirmou o jornalista Nonato Silva. Prefaciando

42
Bodas de Pedra, o poeta Nauro Machado confessa: “Foi, para
mim, uma grande e grata surpresa a leitura desses poemas
de Kissyan Castro, nome a já fazer parte dos melhores e mais
autênticos poetas da nova geração maranhense”.
Pesquisador, reuniu a obra dispersa em verso de
Maranhão Sobrinho, sob o título “Maranhão Sobrinho –
Poesia Esparsa” (São Luís: 360°, 2015), obra que, segundo
Jomar Moraes, “representa uma das mais significativas
homenagens prestadas ao grande poeta de Papéis velhos...
roídos pela traça do Símbolo”, mormente “a empenhada e
perspicaz pesquisa que resultou na reunião de dados com os
quais o organizador reconstruiu, documentadamente, uma
quase história completa da aventurosa e tumultuária vita
brevis do bardo”. Publicou ainda “Rio Conjugal” (Imperatriz:
Ética Editora, 2016) e “O Estreito de Éden” (São Paulo:
Penalux, 2017)
Tem colaborado com crônicas, poemas e haikais em
vários sites e revistas eletrônicas, entre as quais Recanto das
Letras, Caqui, Germina, Mallarmargens e Portal de Poesia
Ibero-Americana, de Antonio Miranda. Participou ainda das
antologias “Caleidoscópio” (São Paulo: Andross, 2006),
“Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” (Rio de
Janeiro: CBJE, 2011), “Os 50 Melhores Sonetos do Ano”
(Academia Jacarehyense de Letras, 2012) e “Antologia de
Poesia Brasileira Contemporânea – Além da Terra Além do
Céu” (São Paulo: Chiado, 2017). Atualmente Kissyan colabora
no site www.barradocorda.com, é funcionário público e
membro efetivo da Academia Barra-Cordense de Letras.
E-mail: kissyancastro35@gmail.com
43
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