Você está na página 1de 3

A Mulher na Idade Média – a prostituição

Apesar da suposta rigidez religiosa na idade média, que é frequentemente narrada nos
meios populares, a prostituição não foi barrada pela igreja como muitos pensam, apesar
do grande dilema do pecado público da fornicação. A prostituição normalmente exigia uma
certa densidade demográfica. Assim, podemos dizer que fazia parte de uma cultura
urbana, mas não significa que não existia no mundo rural, que nesse caso se praticava de
forma organizada próximo a albergues ou tabernas, assim como também próximo das
rotas de peregrinação e rotas de viajantes.
Atualmente muitos historiadores separam a prostituição na idade média entre a
clandestina e a legalizada/oficial. A oficial e legalizada seriam os bordéis que estariam
sobre controle das autoridades, conselhos municipais e era permitido pela monarquia. Um
dos motivos para que os municípios legalizassem essa prática era com a desculpa de que
tinham medo de que a imoralidade e as práticas sexuais fora do casamento atentassem
contra os bons costumes dos cidadãos, em outras palavras: para evitar que pecassem
mais. O outro motivo era a quantidade de arrecadação para o município, já que havia um
grande movimento de ‘dinheiro’ nos bordéis. Seguindo essa mentalidade. a conclusão era
que as prostitutas tinham algumas responsabilidades e papéis sociais importantes, devido
ao fato que o trabalho contribuía com a ordem social e poderia evitar atos de violência
sexual como o estupro. Os bordéis legais foram construídos com dinheiro publico e
arrendados a uma abadessa ou a donos de albergues, que eram encarregados também,
de recrutar as prostitutas. Tanto os trabalhadores quanto os clientes tinham a obrigação de
arcar com a manutenção do local, desde zelar das instalações, como garantir segurança e
ordem.
A consequência dessa prostituição controlada pelas autoridades foi o surgimento da
prostituição clandestina, que acabou repercutindo negativamente a economia nos bordéis
públicos, que resultou em duras perseguições.
Na prostituição clandestina surgiu uma figura importante: “O cafetão”, já que o cliente
precisava de uma terceira pessoa que era o encarregado de fazer o contato com a
meretriz. Os cafetões não eram, necessariamente, vagabundos e vadios. Há escudeiros e
criados de bispos, de abades e de fidalgos como foi o caso de Duarte Fernandes,
escudeiro, morador de Setúbal e primo do alcaide que, para além de ter praticado vários
crimes de estupro, partindo portas, saltando janelas ou usando chaves falsas, era ainda
acusado de incesto e de ter mancebas na mancebia.
Para tentar resolver o problema da prostituição clandestina, as autoridades decidiram
expulsar da cidade os cafetões. Em agosto de 1469, os jurados de Zaragoza deram uma
ordem publica de retirar todos os cafetões em dois dias, sobre pena de açoito público. No
entanto, a ordem não foi cumprida, porque em várias ocasiões os mandatos foram
repetidos. E uma das vantagens do clandestino era a discrição.
A entrada e a saída das mulheres no Bordel
A prostituição pública era realizada em áreas longes do centro urbano, com a desculpa de
que colocavam a moral publica em perigo, sendo assim, era pedido autorização para que
os bordéis fossem colocados nos subúrbios da cidade.
As autoridades municipais observaram atentamente esses recintos e deu atenção especial
às atividades realizadas pelos taberneiros, já que se dedicavam ao fornecimento e venda
de vinho no varejo. Os taberneiros eram pessoas que possuíam e cuidavam de suas
instalações, ou que trabalhavam para terceiros como empregados. Eles atendiam clientes,
fornecedores locais e estrangeiros, ou seja, eram os verdadeiros administradores e
regentes das tabernas.
A documentação geralmente não fornece muita informação sobre como as
mulheres iam para prostituição ou como saíam do bordel. Pode-se deduzir que elas
costumavam ser jovens do meio rural que vieram para as cidades para procurar trabalho e,
não conhecendo ninguém, caíram nos braços dos cafetões. Da mesma forma, mulheres
que foram estupradas e/ou “perderam a honra” podiam acabar exercendo essa profissão.
Se a prostituta, porque necessária, era alvo de tolerância e complacência de toda uma
sociedade, o mesmo não acontecia com o alcaiote ou a alcoviteira, acusada de
desencaminhar mulheres honestas transformando-as em desonestas, corromper virgens e
fomentar adultérios. No tempo de Afonso IV, as ordenações gerais do reino condenavam
os que alcovitassem.
Em relação à saída do bordel e sua reintegração à sociedade, pode-se dizer que as
possibilidades de reintegração na sociedade eram escassas. Porém,
a miséria espiritual dessas mulheres despertou a compaixão dp povo da cidade, desta
forma, a aplicação dos princípios da caridade cristã deu lugar para a criação de algumas
instituições administradas pelos municípios com o objetivo de remover as mulheres
públicas do pecado. Com este propósito, foi criado em 1345 a Casa das Arrependidas de
Valência, por iniciativa de dona Soriana, uma freira franciscana. Outra saída também era o
casamento, que era vantajoso para a mulher, pois deixava definitivamente esta vida, e
para o homem também era vantajoso, visto que, era perdoado por crimes ao casar com
uma “mulher da vida”.
As vestimentas
Tal como hoje, mesmo entre as prostitutas existiam significativas diferenças; algumas
desfrutavam de um compensador nível de vida e até de alguma consideração social,
merecendo mesmo sua defesa por parte dos representantes dos concelhios; outras eram
instaladas por conta de um clérigo, nobre ou respeitável cidadão, preferindo muitas delas
esta situação ao casamento normal, desta forma melhor satisfazendo os seus desejos de
luxo e abundância; outras arrastavam se por caminhos, feiras, tabernas e estalagens,
cheirando a pobreza e a abandono, nada tendo de seu. Apesar do fato de que a sociedade
aceitou a institucionalização da prostituição em finais da Idade Média, moralmente visto
como um dever desonesto, porém necessário para evitar males maiores. Portanto, as
autoridades municipais tentaram sinalizar prostitutas através da promulgação de estatutos
e ordenanças na intuição de obrigar a vesti-las de forma diferente das “mulheres
honestas”. Desta forma, elas poderiam ser reconhecidas à primeira vista sem prejudicar as
meninas inocentes e boas.
No caso de prostitutas de bordel, vestidos e acessórios eram frequentemente seus únicos
patrimônios, ao qual devemos acrescentar o seu papel como ferramentas do trabalho. As
mulheres públicas deveriam ser atraentes e bonitas, mas dentro de uma ordem, já que não
era do interesse da sociedade que as mulheres pobres vissem do seu lado prostitutas
enfeitadas, adornadas de luxos, porque podiam invejá-las. As autoridades municipais de
Daroca mostraram grande preocupação por identificar as prostitutas através de suas
roupas. Desta forma, em 17 de abril de 1407 o conselho de Daroca ordenou um estatuto
que regula o vestido da “mulher desonesta”:
‘non cubra velos, tocas de oro ni tocas vistadas, e vaya con socaxos blancos e lieve los
vestidos planos sines de freses, cintas, canyones e sines de otro guarniment alguno, et
lieve los vestidos redondos et non con toda, et lieve la capa o abrigadura en la cabeça'
Para concluir, pode-se dizer que as autoridades municipais da maioria das cidades
ordenaram às trabalhadoras do bordel para descobrir, isto é, sem mantos ou xales ou
qualquer roupa de abrigo, para diferenciá-los das mulheres que eram consideradas
honestas. A Orientação contínua de ordenanças a esse respeito nos permite conjecturar
que essas ordens não foram cumpridas em várias ocasiões.
~Ronei
Fontes Bibliográficas
Dissertação de mestrado em História - Especialização em história Medieval. «A
sexualidade feminina na idade média Portuguesa – Norma e Transgressão»; Cristina
Patrícia Costa Constatino Correia.
«O Dia-a-Dia em Portugal na Idade Média» – Ana Rodrigues de Oliveira
Noelia RANGEL LÓPEZ, «Moras, jóvenes y prostitutas: acerca de la prostitución
valencianaa fnales de la Edad Media», Miscelánea Medieval Murciana, XXXII (2008).
Jacques ROSSIAUD, «La prostitución en el Medievo», Barcelona, Ariel, 1986.
N. RANGEL, «Moras, jóvenes y prostitutas», p. 120;
José SÁNCHEZ HERRERO, «Amantes,barraganas, compañeras, concubinas clericales»,
Clio y Crimen, 8 (2005).
J. ROSSIAUD, «La prostitución»
M. GARCÍA HERRERO, «Del nacer y el vivir»
Documento publicado en María Isabel FALCÓN PÉREZ, «Organización municipal de
Zaragoza en el siglo XV>, Zaragoza, Universidad de Zaragoza, 1978, p. 286.
J. PLANAS BADENAS, «El trabajo y la mujer en la Barcelona del siglo XV>
Ana María RIVERA MEDINA, «Las actividades femeninas en el universo de la vid y el vino.
Bilbao 1400-1550», Medievalismo: Boletín de la Sociedad Española de Estudios
Medievales, 21 (2011), pp. 265-266; EADEM, «Del mar a la taberna: el vino en Bilbao (ss.
XV-XVII)», Itsas Memoria. Revista de Estudios Marítimos del País Vasco, 6 (2009), pp.
622-625; EADEM,
«El paisaje vitivinícola en las ordenanzas vizcaínas: Bilbao (ss. XIV-XVI)», Studium.
Revista deHumanidades, 14 (2008), p. 194.
M. GARCÍA HERRERO, «Prostitución y amancebamiento»
Documento publicado en M. RODRIGO ESTEVAN, La ciudad de Daroca, p. 650.

[https://www.facebook.com/RepensandoMedievo/posts/1060887054103510]

Você também pode gostar