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OS TEMPOS HIPERMODERNOS

TEMPO CONTRA TEMPO, OU A SOCIEDADE HIPERMODERNA


Gilles Lipovetsky

O ciclo pós-moderno se deu sob o signo da descompressão cool do social; agora,


porém, temos a sensação de que os tempos voltam a endurecer-se, cobertos que estão de
nuvens escuras. Tendo-se vivido um breve momento de redução das pressões e
imposições sociais, eis que elas reaparecem em primeiro plano, nem que seja com novos
traços. No momento em que triunfam a tecnologia genética, a globalização liberal e os
direitos humanos, o rótulo pós-moderno j á ganhou rugas, tendo esgotado sua capacidade
de exprimir o mundo que se anuncia.
O pós de pós-moderno ainda dirigia o olhar para um passado que se decretara
morto; fazia pensar numa extinção sem determinar o que nos tornávamos, como se se
tratasse de preservar uma liberdade nova, conquistada no rastro da dissolução dos
enquadramentos sociais, políticos e ideológicos. Donde seu sucesso. Essa época
terminou. Hipercapitalismo, hiperclasse, hiperpotência, hiperterrorismo,
hiperindividualismo, hipermercado, hipertexto - o que mais não é hiper? O que mais não
expõe uma modernidade elevada à potência superlativa? Ao clima de epílogo segue-se
uma sensação de fuga para adiante, de modernização desenfreada, feita de
mercantilização proliferativa, de desregulamentação econômica, de ímpeto técnico-
científico, cujos efeitos são tão carregados de perigos quanto de promessas. Tudo foi
muito rápido: a coruja de Minerva anunciava o nascimento do pós-moderno no momento
mesmo em que se esboçava a hipermodernização do mundo.
Longe de decretar-se o óbito da modernidade, assiste-se a seu remate,
concretizando-se no liberalismo globalizado, na mercantilização quase generalizada dos
modos de vida, na exploração da razão instrumental até a "morte" desta, numa indivi-
dualização galopante. Até então, a modernidade funcionava enquadrada ou entravada por
todo um conjunto de contra-pesos, contra-modelos e contra-valores. O espírito de tradição
perdurava em diversos grupos sociais: a divisão dos papéis sexuais permanecia
estruturalmente desigual; a Igreja conservava forte ascendência sobre as consciências; os
partidos revolucionários prometiam outra sociedade, liberta do capitalismo e da luta de
classes; o ideal de Nação legitimava o sacrifício supremo dos indivíduos; o Estado
administrava numerosas atividades da vida econômica. Não estamos mais naquele
mundo.
A sociedade que se apresenta é aquela na qual as forças de oposição à modernidade
democrática, liberal e individualista não são mais estruturantes; na qual periclitaram os
grandes objetivos alternativos; na qual a-modernização não mais encontra resistências
organizacionais e ideológicas de fundo. Nem todos os elementos pré-modernos se
volatizaram, mas mesmo eles funcionam segundo uma lógica moderna,
desinstitucionalizada, sem regulação. Até as classes e as culturas de classes se toldam em
benefício do princípio da individualidade autônoma. O Estado recua, a religião e a família
se privatizam, a sociedade de mercado se impõe: para disputa, resta apenas o culto à con-
corrência econômica e democrática, a ambição técnica, os direitos do indivíduo. Eleva-se
uma segunda modernidade, desregulamentadora e globalizada, sem contrários,
absolutamente moderna, alicerçando-se essencialmente em três axiomas constitutivos da
própria modernidade anterior! o mercado, a eficiência técnica, o indivíduo. Tínhamos
uma modernidade limitada; agora, é chegado o tempo da modernidade consumada.
Nesse contexto, as esferas mais diversas são o toais de uma escalada aos extremos,
entregues a uma dinâmica ilimitada, a uma espiral hiperbólica. Assim, testemunha-se um
enorme inchaço das atividades nas finanças e nas Bolsas; uma aceleração do ritmo das
operações econômicas, doravante funcionando em tempo real; uma explosão fenomenal
dos volumes de capital em circulação no planeta. Já faz tempo que a sociedade de
consumo se exibe sob o signo do excesso, da profusão de mercadorias; pois agora isso se
exacerbou com os hipermercados e shopping centers, cada vez mais gigantescos, que
oferecem uma pletora de produtos, marcas e serviços. Cada domínio apresenta uma
vertente excrescente, desmesurada, "sem limites". Prova disso é a tecnologia e suas
transformações vertiginosas nos referenciais sobre a morte, a alimentação ou a
procriação. Mostram-no também as imagens do corpo no hiper-realismo pornô; a
televisão e seus espetáculos que encenam a transparência total; a galáxia Internet e seu
dilúvio de fluxos numéricos (milhões de sites, bilhões de páginas, trilhões de caracteres,
que dobram a cada ano); o turismo e suas multidões em férias; as aglomerações urbanas
e suas megalópoles superpovoadas, asfixiadas, tentaculares. Para lutar contra o terrorismo
e a criminalidade, nas ruas, nos shopping centers, nos transportes coletivos, nas empresas,
já se instalam milhões de câmeras, meios eletrônicos de vigilância e identificação dos
cidadãos: substituindo-se à antiga sociedade disciplinar-totalitária, a sociedade da hiper-
vigilância está a postos. A escalada paroxística do "sempre mais" se imiscui em todas as
esferas do conjunto coletivo.
Tantas convulsões nos convidam a examinar um pouco mais de perto o regime do
tempo social que governa nossa época. O passado ressurge. As inquietações com o futuro
substituem a mística do progresso. Sob efeito do desenvolvimento dos mercados
financeiros, das técnicas eletrônicas de informação, dos costumes individualistas e do
tempo livre, o presente assume importância crescente. Por toda a parte, as operações e os
intercâmbios se aceleram; o tempo é escasso e se torna um problema, o qual se impõe no
centro de novos conflitos sociais. Horário flexível, tempo livre, tempo dos jovens, tempo
da terceira e da quarta idade: a hipermodernidade multiplicou as temporalidades
divergentes. Às desregulamentações do neocapitalismo corresponde uma imensa
desregulação e individualização do tempo. O culto ao presente se manifesta com força
aumentada, mas quais são seus contornos exatos e que vínculos ele mantém com os outros
eixos temporais? De que maneira se articula nesse contexto a relação com o futuro e com
o passado? Convém reabrir a questão do tempo social, pois este merece mais do que nunca
uma inquirição. Superar a temática pós-moderna, reconceitualizar a organização temporal
que se apresenta - eis o propósito deste texto.