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ANÁLISE ERGONOMICA DA ATIVIDADE: Desembarque de pescado no Porto do

Grego, situado no municipio de Santana/AP e as implicações, decorrentes dos esforços


efetuados no trabalho, na coluna vertebral dos trabalhadores.

Gerciane Cordeiro da Costa1

RESUMO:

Considerando as atividades desenvolvidas dentro das áreas portuárias, em que os


fatores de riscos, podem afetar de maneira significativa a vida dos trabalhadores,
comprometendo sua qualidade de vida, o presente estudo objetivou, diante de uma
avaliação da exigência na coluna vertebral, decorrente dos esforços efetuados no posto
de trabalho, dos trabalhadores portuários avulsos, realizar uma análise
microergonômica da atividade de descarga de pescado no Porto do Grego, localizado
no município de Santana, no estado do Amapá. A pesquisa tem um abordagem
qualitativa e interpretativista, com base na observação e aplicação do checklist de
Couto e Remi. Ao final evidencia-se a necessidade de medidas que venham eliminar
ou minimizar os fatores de riscos identificados, visando a melhoria da qualidade de vida
destes profissionais.

Palavras-chave: Ergonomia. Trabalhador portuário avulso. Qualidade de vida.

ABSTRACT:

Considering the activities carried out within the port areas, where risk factors can
significantly affect workers' lives, compromising their quality of life, the present study
aimed, in view of an assessment of the spinal requirement, carried out at the workstation
of the individual port workers, to perform a microergonomic analysis of the fish discharge
activity at the Port of Grego, located in the municipality of Santana, in the state of
Amapá. The research has a qualitative and interpretative approach, based on the
1
Acadêmica do Curso Tecnologia em Design; Universidade do Estado do Amapá;3º semestre;
gercordeiro@yahoo.com.br
observation and application of the checklist of Couto and Remi. At the end, it is evident
the need for measures that eliminate or minimize the risk factors identified, aiming at
improving the quality of life of these professionals.

Keywords: Ergonomics. Port Worker.Quality of life.

INTRODUÇÃO

Grande parte dos acidentes e as doenças do ambiente portuário são resultantes


de um local de trabalho desfavorável, normalmente apresentando condições insalubres
e contaminação por agentes nocivos à saúde, sujeitando os trabalhadores a toda sorte
de sinistros. Todo tipo de cargas são movimentadas nos portos, que permeiam desde
alimentos até produtos químicos e radioativos. Os riscos são diversos e descuidos
podem acarretar acidentes graves. Há riscos físicos como ruídos, vibrações e umidade,
bem como, químicos (exposição a gases e poeiras) e, também, ergonômicos, tais como
elevado esforço físico com postura incorreta, no carregamento de peso acima do
permitido. Para IIDA(2005) a ergonomia pode contribuir, de forma siginificativa, para
melhorar as condições de qualquer trabalho, sempre com o olhar voltado para o
sistema homem/maquina/ambiente.
Nas áreas portuárias brasileiras, onde a movimentação de pessoas e
mercadorias, do cais para os locais de armazenamento, é muito constante e intensa, a
interação do homem, a máquina e o ambiente, é um assunto a ser explorado e
colocado em prática. São veículos motorizados e manuais, bem como, pessoas que
transitam por estas áreas, criando fatores de riscos que podem ocasionar diversos
acidentes, comprometendo a saúde, a segurança, a satisfação e consequente eficiência
do posto de trabalho. O uso cada vez maior de máquinas e equipamentos de içamento
de cargas, nas operações portuárias deveria suprimir as tarefas causadoras de fadigas
ou esforços excessivos aos trabalhadores, entretanto, estas ferramentas de trabalho
não estão presente em todas as atividades executadas nas áreas portuárias. Apesar da
diminuição da movimentação manual de peso, nos portos, este tipo de trabalho ainda
ocorre de maneira significativa, constituindo-se como importante fonte de lesões
lombares, dorsais e de danos para a coluna vertebral.
Neste ambiente surge a figura do trabalhador portuário avulso(TPA). Os portos
brasileiros, apesar da existência de legislação, e negligência na aplicação da mesma,
ainda é um ambiente que oferece periculosidade para trabalhador portuário, que se
expõe diariamente a condições de trabalho degradantes e infortúnios causados da
execução de determinadas tarefas e atividades. Em Macapá, existem portos públicos e
privados, entretanto, ainda, identifica-se, falta de infraestrutura adequada ao ambiente,
equipamentos em péssimo estado de conservação(quando existem), ínfimas medidas
preventivas de saúde e segurança ao trabalhador portuário.
Neste sentido, o presente artigo objetivou analisar as posturas adotadas pelos
trabalhadores portuários avulsos, que realizam o desembarque de pescado, no porto do
Grego, situado no município de Santana no estado do Amapá. O estudo teve inicio a
partir de resultados obtidos por uma abordagem microergonomica, no qual foram
coletados relatos acerca do trabalho desenvolvido no posto de trabalho dentro dos
navios que trazem pescado para Macapá e registro fotográfico das atividade
desenvolvidas.
Considerando que a tarefa realizada por eles esta predominantemente,
relacionadas ao uso dos membros superiores, com impacto direto na coluna vertebral,
optou-se pela aplicação do check list de Couto e Remi, para verificação da exigência da
coluna vertebral consequente dos esforços efetuados na execução das atividades de
descarga do pescado e as implicações destas para a qualidade de vida destes
trabalhadores.
Desta forma, este estudo representa uma pequena contribuição que busca
apontar alguns insights para uma ampla pesquisa, agregando reflexões as discussões
que já existem na área de ergonomia e contribuir com a disseminação de um tema de
primordial importância na formação de futuros designers, bem como, na concepção de
objetos que venham proporcionar bem estar e segurança a estes trabalhadores.
REFERENCIAL TEÓRICO

a. Ergonomia

A busca pela produtividade, muitas vezes, transcende os limites físicos do


trabalhador. As análise ergonômicas do trabalho ganharam importância e estão cada
vez mais frequentes, uma vez que, suas contribuições amenizam os desconfortos
gerados pelo desempenho das atividades estabelecidas para cada função profissional.
A ergonomia, segundo IIDA(2005), é o estudo da adaptação do trabalho ao homem,
contribuindo para melhorar a vida cotidiana de todos, não se restrigindo as atividades
industriais. O trabalho mencionado, possui um abordagem bem ampla, abrandendo a
postura, as máquinas e equipamentos utilizados para desempenhar as atividades
decorrentes deste trabalho.
Para Laville (1977) ergonomia é o conjunto de conhecimentos científicos relativos ao
homem e necessários à concepção de instrumentos, máquinas e dispositivos que
possam ser utilizados com o máximo de conforto, segurança e eficiência. No âmbito
internacional, a International Ergonomics Association, aprovou uma definição em 2000,
conceituando a ergonomia e suas especializações como:

“Ergonomia (ou Fatores Humanos) é a disciplina científica que estuda as


interações entre os seres humanos e outros elementos do sistema, e a
profissão que aplica teorias, princípios, dados e métodos, a projetos que visem
otimizar o bem estar humano e o desempenho global de sistemas.”
A ergonomia segundo Couto (1995) “ é um conjunto de ciências e tecnologias
que procura a adaptação confortável e produtiva entre o ser humano e o seu trabalho,
basicamente procurando adaptar as condições de trabalho às características do ser
humano.”
Para Couto (1995) a qualidade de vida pode ser encarada sob 4 prismas
diferentes: (a) condições mínimas de vida digna, (b) condições do meio urbano em que
se vive, (c) qualidade de vida no trabalho e (d) aspectos pessoais. Em uma abordagem
mais holística e sistematizada a esse termo, a Organização Mundial de Saúde (OMS)
propôs, em 1995, que "qualidade de vida é a percepção do indivíduo de sua posição na
vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ela vive e em relação aos
seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações".
Couto (1995) define ergonomia também, como o estudo dos problemas relativos ao
trabalho humano, para a preservação de seu bem estar físico e mental.
Os agentes ergonômicos são necessariamente caracterizado pela relação homem /
atividade /ambiente. Evidenciam-se em consequência de posturas que as pessoas
assumem ou de esforço que exercem na execução das atividades, em razão de: vícios,
negligência ou mau preparo para execução da tarefa que lhe cabe; inadequação do seu
porte físico, estatura, envergadura, resistência aos equipamentos, máquinas,
ferramentas com as quais tem de trabalhar, situação de stress físico ou psíquico,
trabalhos em turno diurno e noturno, monotonia e repetitividade, jornadas de trabalho
prolongadas, falhas em projetos de maquinaria, ferramental, instalações, entre outros,
que levam as pessoas a posturas inadequadas ou esforços excessivos, velocidades ou
esforços extremos devido ao extremo do tempo padrão estabelecido para a tarefa.
Os agentes ergonômicos podem provocar distúrbios psicológicos e fisiológicos ao
trabalhador, que podem afetar tanto a produtividade como a segurança do profissional.
Couto (1995) enuncia alguns riscos a saúde: tais como
“o trabalho físico pesado, posturas incorretas e posições incômodas que podem
provocam do cansaço, a dores musculares e fraqueza, além de doenças como
hipertensão arterial, diabetes, úlceras, moléstias nervosas, alterações no sono,
acidentes, problemas de coluna, ritmo excessivo, monotonia, excesso de
responsabilidade provoca desconforto, cansaço, ansiedade, doenças no
aparelho digestivo (gastrite, úlcera), dores musculares, fraqueza, alterações no
sono e na vida (com reflexos na saúde e no comportamento), hipertensão
arterial, taquicardia, cardiopatias (angina, infarto), diabetes, asmas, doenças
nervosas, tensão, medo, ansiedade. Mas é o trabalho de Ergonomia aquele que
mais faz diferença em termos de qualidade de vida dos trabalhadores. A rigor,
quando se encaram os desafios existentes na forma de realizar o trabalho,
buscando e corrigindo as situações causadoras de afastamento, de dor, de
desconforto, de dificuldade e de fadiga excessiva, melhoramos enormemente a
qualidade de vida dos trabalhadores, pois:
Elimina-se a dor ou desconforto na realização do trabalho;
O trabalhador deixa seu trabalho sem fadiga excessiva, podendo ser cidadão
nas horas que está fora da empresa;
Trabalhando-se num sistema adequado de revezamento de turnos, seu sono
será pouco prejudicado, bem como seu repouso será preservado;
Sua imagem corporal e aparência, embora não dependam só desse fator, não
sofrem o desgaste precoce, conseqüência comum dos trabalhos não
ergonômicos;
Garante-se uma boa mobilidade e um bom estado de saúde para as atividades
de vida cotidianas;
Previnem-se os tratamentos médicos e a dependência de medicamentos,
próprios dos transtornos músculo-esqueléticos crônicos e dos distúrbios
mentais;
Preserva-se a capacidade de trabalho do cidadão, o que é um dos itens mais
importantes na tendência atual de aposentadoria em idades mais avançadas;
As soluções ergonômicas sabidamente melhoram as relações pessoais, sendo
uma forma importante de solução de alguns tipos de conflitos, próprios das
relações de trabalho;

b. O trabalhador portuário avulso

Acordos internacionais debatidos na Organização Internacional do Trabalho (OIT)


levaram à adoção de uma convenção (n°127) e a recomendação (nº 128)
estabelecendo considerações sobre medidas e cuidados a serem observados para
garantir uma proteção efetiva aos trabalhadores das área de marina, denominados
como “gente do mar”.
O trabalhador portuário avulso (TPA) é aquele que, segundo o artigo 12, inciso VI da
Lei 8.212 (BRASIL, 1991), presta serviço a inúmeras empresas sem vínculo
empregatício. Para tanto, é necessário que eles sejam intermediados por um órgão
gestor para que este distribua os trabalhos disponíveis de forma justa e organizada
entre os TPA. A execução do trabalho portuário pode ser realizada por trabalhadores
avulsos com a obrigatória intermediação do Órgão Gestor de Mão de Obra (OGMO) ou
por trabalhadores contratados a prazo indeterminado. A mão de obra avulsa predomina
nos portos organizados brasileiros. (CARVALHO, 2010).
Na definição de Délio Maranhão, os trabalhadores avulsos são definidos como
“os que prestam serviços, na orla marítima, trabalhando, sem vínculo
empregatício, para várias empresas (tomadores de serviço), que os requisitam
à entidade fornecedora de mão-de-obra (sindicato).Temos aí uma forma
peculiar de prestação de serviços subordinados, afastando, pela peculiaridade
dos serviços prestados, o estabelecimento de uma relação de emprego entre o
prestador de serviço e a empresa para a qual o serviço é prestado”.

A dinâmica comercial associada à competitividade entre portos, bem como a forma


de remuneração que, em grande parte é em função da quantidade de carga que cada
trabalhador movimenta, afetam fortemente o meio ambiente de trabalho,
desencadeando operações portuárias que, por sua rapidez, são propensas à ocorrência
de acidentes.(CARVALHO, 2010). Por serem os trabalhadores avulsos, grande parte da
mão de obra utilizada na movimentação de carga nos portos brasileiros, a
implementação de normas de segurança e saúde no trabalho se torna complexa, dada
a rotatividade dos trabalhadores. Diversamente do que ocorre com trabalhadores com
vínculo empregatício que executam sua atividade em ambiente rotineiro (loja, fábrica,
escritório etc.) e para um mesmo empregador.
Não somente os operadores portuários que estão diretamente envolvidos na
movimentação de carga têm responsabilidades pelo cumprimento das normas de
segurança, mas também e principalmente, a administração do porto, denominada de
autoridade portuária, já que cabe a ela, segundo o artigo 33, VII da Lei nº 8.630/93,
fiscalizar as operações portuárias, zelando para que os serviços se realizem com
regularidade, eficiência, segurança e respeito ao meio ambiente. Tal prerrogativa legal
é mais um reforço para a segurança, desde que a autoridade portuária realmente a
exerça. (CARVALHO, 2010).
As categorias de trabalhadores portuários abrangidos pela Lei nº 8.630/93 e que detêm
o monopólio na prestação de serviços nos portos organizados são: estiva, conferentes,
consertador, vigia portuário, bloquistas e arrumadores, cada um possuindo suas
funções definidas.

c. Funções humanas versus desempenho laboral

Nas atividades desenvolvidas pelo TPA existem diversos riscos, entretanto, os ricos
ergonomicos, preponderante na tarefa de levantamnto, transporte e descarga idividual
de materiais são os mais identificados, porém os menos, controlados, pois estão ligados
ao conforto, segurança e desempenho eficientes (NR 17, item 17.1) diferente dos riscos
de acidentes ligados a fatores mecânicos. No organismo humano existem diversas
funções que influenciam diretamente no desempenho do trabalho, para IIDA(2005) são
as funções neuromuscular, coluna vertebral, metabolismo, visão, audição e o senso
cinestésico são as principais, restrigindo-se principalmente a aspectos operacionais. Em
se tratando de qualidade de vida, alguns aspectos quanto as atividades e funções do
corpo precisam ser observados, tais como:

 Coluna Vertebral
IIDA (2005) define a coluna vertebral como uma estrutura ossea constituída de
33 vertebras empinhadas, uma sobre as outras e possue dua propriedades: a rigidez
garantindo a sustentaçao do corpo e a mobilidade, permitindo a rotação para os lados e
movimentos para a frente e para trás. Por ser uma parte do corpo que é muito exigida
pelos movimentos e pela mobilidade, acaba por ser uma das estruturas mais fracas do
organismo, estando sujeita a diversas deformações e traumas.
Ao se levantar um peso com as mãos, o esforço é transferido para a coluna
vertebral, para depois para a bacia e pernas. Os discos superpostos com o qual a
coluna é composta, é capaz de suportar grandes forças no sentido vertical, entretanto
sendo extremamente frágil para as forças que atuam perpendicularmente ao eixo
corporal, podendo provocar o cisalhamento. Logo, na medida do possível, as forças
sobre a coluna deverão ser no sentido axial.

 Bimecânica ocupacional
A biomecanica ocupacional é um viés da biomecanica geral que se ocupa dos
movimentos do corpo e as forças relacionadas ao trabalho, analisando questões
posturais, a aplicação das forças e as intercorrencias advinda destas. O levantamento
de cargas é o grande responsável por traumas musculares entre os trabalhadores, em
geral. Segundo IIDA(2005) alguns fatores precisam ser observados nos postos de
trabalhos, para que a fadiga e o estresse sejam minimizados, bem como, infortúnios
advindos da execução de determinadas atividades, tais como: inicio da atividade
respeitando as demandas do corpo humano quanto a demanda e suprimento de
oxigênio para cada tarefa a ser desenvolvida; os trabalhos, sejam estes estáticos ou
dinâmicos, respeitando as cargas a serem suportadas pelo corpo em virtude dos
esforços dispendidos, devendo-se evitar o trabalho estático, uma vez que, este é
altamente fatigante.
A dores e traumas musculares são provocados pela incompatibilidade entre as
exigências do trabalho e as capacidades fisicas do trabalhador, estes últimos, quase
sempre devido a impacto e esforço excessivo, e segundo IIDA(2005) são responsáveis
pela maior parte de afastamentos dos trabalhadores de seus postos de trabalho.
As posturas do corpo, também são responsáveis pela realização do trabalho, se
posicionadas corretamente, evitam desonforto e estresse, sem consequencias danosas
das condições severas do trabalho, ao corpo humano. Quando inadequadas, devido a
deficiencias das máquinas, equipamentos e postos de trabalho, exigencias da prórpia
tarefa, podendo causar lesões diversas. Em uma jornada de trabalho o corpo assume
centenas de posturas diferentes, em cada uma um conjunto muscular deiferente é
acionado.
Outro ponto a ser observado no posto de trabalho, são a transmissão de
movimentos e forças, devendo ser adaptadas as condições de cada trabalhador.
IIDA(2005) orienta que a capacidade para empurrar e puxar de pende de fatores como
postura, dimensões antropométricas, sexo, atrito entre o sapato e o chão, dentre
muitos outros. Na Norma Regulamentadora 29, que visa a segurança e saúde no
trabalho portuário, prevê o levantamento de carga, individual, lmitado a 40 kg, para
valores maiores o levantamento deverá ser feito com o auxílio de outra pessoa ou
equipamento proprio para levantamento de cargas. Para IIDA(2005) estes valores são
elevados, considerando os padrões ergonômicos, podendo causar tanto traumas por
impacto(força súbita)como por esforço excessivo, devido ao efeito cumulativo em
músculos, ligamentos e articulações osséas, bem como, cargas desta magnitude não
podem ser destinadas a populaçõa em geral, as especificidades precisam ser
atendidas, tais como sexo, boa compleição física entre outras.
Segundo IIDA(2005) o manuseio de cargas é responsável por um grande número de
traumas musculares entre os trabalhadores. Aproximadamente 60% dos problemas
musculares são causados pelo levantamento de cargas e 20%, puxando ou
empurrando-as (Bridger, 2003). Este levantamento poderá ser de dois tipos: esporádico
(relacionado a capacidade muscular); repetitivo (relacionado ao fator duração do
trabalho), neste último, o fator limitativo será a capacidade energética do trabalhador e
a fadiga física.

d. Design e ergonomia

Para Bonsiepe (2006), o “design humanista” tem como função interpretar e


desenvolver propostas emancipatórias às necessidades de grupos sociais, com
enfoque para os excluídos, os discriminados e menos favorecidos economicamente,
não utilizando o design apenas como ferramenta única para a sustentação do consumo.
Martins e Merino (2011, p. 71-72) relata que
[...] a busca por consciência coletiva o processo de criação visa otimizar
performance, inovação, qualidade, durabilidade, aparência e custos referentes
cada produto, ambiente, informação e marca. a materialização das ideias é o
resultado da preocupação em desenvolver solução adequada para cada
projeto, reforçando a mensagem, entrelaçando códigos e linguagens,
enaltecendo o sentimento e considerando necessidades e desejos de seus
público.

Logo, o design pode contribuir ativamente com a responsabilidade social, por meio da
concepção de processos e objetos que provoquem mudanças comportamentais.O
design tem a preocupação de comunicar e criar condições para que o seu público
entenda sua mensagem e perceba seus benefícios, por meio de estratégias e estudos
multidisciplinares.
Segundo Paschoarelli (2009)
A correta aplicação dos conceitos multidisciplinares é de grande importância
para a definição de parâmetros projetuais para a produção de produtos e
equipamentos voltados a públicos específicos, garantindo-lhes o bem-estar,
devido à possibilidade de abranger diversos fatores, que seriam facilmente
mascarados por apenas uma área do conhecimento. Verifi ca-se por meio da
integração entre acessibilidade, antropometria, design ergonômico, design
universal, ergonomia e usabilidade, que é possível empregar soluções mais
condizentes com as reais necessidades dos usuários, permitindo contemplar
diversas potencialidades, que não seriam adequadamente atendidas pela ótica
de uma única área do conhecimento.

Reforçando a máxima que o designer nunca irá fazer nada, sem que para isso se
utilize das muitas ciências existentes.

METODOLOGIA

A metodologia de pesquisa utilizada no presente trabalho partiu de observações


a campo, durante as atividades de descarga de pescado por trabalhadores portuários
avulsos no Porto do Grego, no município de Santana. Foram realizadas visitas,
levantamentos e interpretação de dados dentro da concepção normativa, constando as
informações elencadas no processo de pesquisa e comentário analítico conclusivo
sobre os dados. Para Gil (1991), a pesquisa descritiva visa descrever as características
de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre
variáveis. Envolve o uso de técnicas padronizadas de coleta de dados: questionário e
observação sistemática. Assume, em geral, a forma de Levantamento.
Nesta pesquisa fez-se uso da observação, das atividades de descarga de
pescado nas embarcações atracadas no Porto do Grego. O problema abordado é
explorado de forma qualitativa. A pesquisa qualitativa é basicamente aquela que busca
entender um fenômeno específico em profundidade. Ao invés de estatísticas, regras e
outras generalizações, a qualitativa trabalha com descrições, comparações e
interpretações. Portanto este estudo busca identificar e analisar a amostra em questão,
com vistas a verificar os fatores de riscos ergonômicos voltados para o levantamento,
transporte e descarga individual de pescado, aos quais os trabalhadores portuários
avulsos são submetidos durante o desempenho de suas atividades. A pesquisa
realizada, se caracteriza como interpretativista e descritiva. Foram utilizadas como
técnicas de coleta de dados, a observação direta intensiva e a entrevista. Marconi e
Lakatos (2006), diz que a observação é uma técnica que se utiliza dos sentidos para
obter informação e deve estar em contato mais direto com a realidade. Segundo Gil
(2008, p. 111), “a entrevista é seguramente a mais flexível de todas as técnicas de
coleta de dados de que dispõe as ciências sociais”. Na pesquisa foi utilizada a
entrevista semiestruturada, na qual o “entrevistado tem a liberdade para falar, pois com
esta técnica é possível captar a expressão corporal do entrevistado, sua liberdade para
desenvolver cada situação em qualquer direção que considere adequada” (MICHEL,
2009).
Para a coleta e registro dos dados a autora observou, fotografou e filmou, as
operações de carregamento e descarregamento de pescado das embarcações
atracadas, para a faixa do cais e o transporte dessas cargas do cais para os
comerciantes, além de fazer uso da literatura pertinente ao tema com vistas a identificar
as possíveis intercorrências e os fatores de riscos de acidentes nas práticas laborais.
Posteriormente foi realizada uma análise identificando os riscos de acidentes de acordo
com o estabelecido nas normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho e do
Emprego, mais precisamente com relação a NR-29, bem como, a aplicação dos dados
coletados no cheklist de Couto e Remi, que faz uma avaliação simplificada da exigência
para a coluna vertebral pelos esforços efetuados no trabalho, versão 2014, identificando
de acordo com o preceituado nas normas, quais são os riscos aos quais esses
trabalhadores estão submetidos diariamente. Após o estudo dos dados coletados, foi
possível realizar a análise e as considerações finais da pesquisa.
RESULTADOS E DISCURSÕES

Breve histórico

O porto do Grego, localizado no municipio de Santana é um porto particular no


qual há a movimentação de pessoas e cargas diariamente. Os navios que lá atracam
realizam o transporte de pessoas e cargas ao mesmo tempo. Atualmente há 06 (seis)
navios que trazem o pescado dos municípios do Pará, em particular de Santarem,
Almeirim, Prainha, Alenque e Monte Alegre. Todos atracam por volta de 01:00 h, e logo
após a descida dos passageiros, inicia o a atividade de retirada do pescado dos navios
que atracam no Porto do Grego em Santana.

Descrição sumária da Atividade

A descarga de pescado é realizada, em média, por 06 (seis) trabalhadores


portuários avulsos, que possuem em média a idade de 30 anos; o trabalho é iniciado
no período noturno e finaliza por volta de 06:00 h do dia seguinte; trabalham ha mais de
05 anos nesta atividade, possuem apenas o ensino fundamental, e realizam uma
jornada de 06 horas ininterruptas, estes por sua vez, revezam em suas tafefas, não
possuindo uma função definida, podendo realizar diversas durante a execuação da
atividade. Todas estas ações envolvem o uso da força, para levantar os peixes e
depositá-los nos locais definidos pelo responsavel pelo pescado, podendo ser em um
freezer ou em recipientes de isopor com capacidade máxima de 70 kg. Cada TPA
carrega um peixe em cada um de seus membros superiores, que pesam
aproximadamente de 3 a 20 kg.

Atividade 1: Um trabalhador A adentra um ambiente


medindo em média 3 m² , refrigerado com cubos de gelo,
no qual o pescado foi armazenado, e retira manualmente
um peixe por vez e o entrega para o trabalhador B e C
que o aguarda na parte externa;

Fonte: A Autora
Tarefa 2: O trabalhador B e C recebe o peixe e o carrega
até um outro ambiente dentro do navio;
Para Couto (2014), cargas levantadas totalmente por uma
só pessoa de peso maior que 25 kg, caracteriza situação
de alta exigência para a coluna vertebral, independente da
frequência ou da taxa de ocupação, caracterizando uma
situação extrema. Fato observado, nas atividades 1,2,3,5 e
6.
Fonte: A Autora

Atividade 3: O trabalhador B e C entrega para o trabalhador D (encarregado pelo dono


do pescado de comercializar o produto), que por sua vez, recebe o pescado e o
deposita dentro de um refrigerador, organizando-os de forma que caiba o limite máximo
de pescado;

Fonte: A Autora

De acordo com check list de Couto , na postura estática, o


trabalho no qual exige posionamento estático do tronco em
posição encurvada para frente, mesmo que em pequeno grau de flexão, com esforços
físicos de alta intensidade dos braços ou de todo o corpo nesta posição, como
exigência da coluna vertebral em situação não extrema, como evidenciado nas imagens
presentes na atividade acima.

Atividade 4: Após finalizarem o carregamento dos freezes, iniciam o carregamento dos


recipientes de isopor com capacidade para 70 kg cada. Os TPA A,B e C realizam este
serviço, sob a orientação do encarregado do pescado.
Atividade 5: Com os recipientes de isopor em sua completude, surgem os TPA E e F,
que não trabalham diretamente para o dono do pescado, mas com carregamento de
cargas no etorno do Porto.

Fonte: A Autora

Segundo IIDA (2005) Ao se levantar um peso com as mãos, o esforço é


transferido para a coluna vertebral, para depois para a bacia e pernas. Os discos
superpostos com o qual a coluna é composta, é capaz de suportar grandes forças no
sentido vertical, entretanto sendo extremamente frágil para as forças que atuam
perpendicularmente ao eixo corporal, podendo provocar o cisalhamento das vertebras.
Para Couto (2014), há fatores agravantes na movimentação de materiais, como
frequencia maior que uma vez a cada 5 minutos; esforço feito longe do corpo; abaixo do
nível dos joelhos; pega ruim e/ou distância vertical entre o ponto inicial e o ponto final
do esforço, conforme verificado nas imagens da atividade 5. Ao empurrar e puxar
carrinhos, em aclive ou declive, com condições de piso ruins, em posição muito
desfavorável, evidenciada nas imagens acima é uma situação de exigência para a
coluna vertebral.
Atividade 6: Os pescado, contido nos recipientes de isopor, são tranferidos pelos TPA
B e C, para a faixa de cais ao qual serão realocados nos veículos dos comerciantes.

Conforme mencionado por IIDA(2005) o manuseio de cargas é responsável por um


grande número de traumas musculares entre os trabalhadores. Aproximadamente 60%
dos problemas musculares são causados pelo levantamento de cargas e 20%, puxando
ou empurrando-as (Bridger, 2003). Este levantamento poderá ser de dois tipos:
esporádico (relacionado a capacidade muscular); repetitivo (relacionado ao fator
duração do trabalho), neste último, o fator limitativo será a capacidade energética do
trabalhador e a fadiga física.
Os fatos observados, com a interpretação de aplicação do Check List, com
pontuação maior de 9 pontos, indicam um posto de trabalho de altíssima exigência para
a coluna vertebral, exigindo medidas que venham mitigar esses infortúnios e evitar
traumas e acidentes no ambiente laboral. Vale ressaltar que esta ferramenta apesar de
não ser usada para definir se um trabalhador está ou não em risco ou lesão da coluna
vertebral, nem para determinar nexo entre um distúrbio ou lesão e seu trabalho, uma
vez que, esse tipo de conclusão depende de uma análise detalhada da exposição
ocupacional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As atividades desenvolvidas pelos trabalhadores do setor portuário são intensas


e dinâmicas exigindo muito das capacidades dos funcionários. Este estudo mostra, a
parti da análise das atividades desenvolvidas pelos trabalhadores portuários avulsos,
fatores de riscos ergonômicos e de acidentes que podem causar danos a coluna
vertebral destes.
Considera-se a necessidade de implementação das Normas Regulamentadoras
sobre segurança e saúde das atividades portuárias. O estudo aponta a necessidade de
uma investigação mais aprofundada para identificação de lesões causadas na coluna
vertebral e se este tem nexo com o ambiente laboral, para possíveis propositoras de
melhorias. Entretanto, como estes trabalhadores, não possuem vínculo empregatício,
fator que dificulta a aplicação de melhorias para este trabalhadores.
Ressalta-se a necessidade de análises detalhadas e aplicação de mais
ferramentas que venham contribuir para uma eficiente análise ergonômica, para que os
problemas sejam de fato detectados e principalmente medidas sejam tomadas para a
solução dos mesmos.
Para o designer, há um universo de possibilidades para que este possa atuar
com a concepção de objetos, que venham proporcionar uma qualidade de vida a estes
profissionais, cumprindo com “a função de interpretar e desenvolver propostas às
necessidades de grupos sociais, com enfoque para os excluídos, os discriminados e
menos favorecidos economicamente, não utilizando o design apenas como ferramenta
única para a sustentação do consumo”, conforme Bonsiepe (2006).

REFERÊNCIAS

IIDA. ITIRO. Projeto e Produção.Editora Edgard Blucher. São Paulo. SP. 2005
BONSIEPE, G. Design and democracy. Design Issues, Chicago, v. 22, n. 2, 2006.
Disponível em: <http://www.guibonsiepe.com/pdffiles/ Democracy_and_Design.pdf>.
Acesso em: 10 de Outubro 2017.

CARVALHO, Francisco Edivar.Trabalhadores portuários avulsos e órgão gestor de


mão de obra. Aspectos trabalhistas e previdenciárias . Jus Navigandi, Teresina, ano
8, n. 368, 10 jul. 2004. Disponível em: < “http://jus.com.br/revista/texto/5434">.Acessado
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