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Prefácio

Educar é atividade complexa, exigente e de longa duração. Não há lugar


na educação para programas imediatistas. A tarefa educacional, no Corpo de
Cristo, abrange a vida toda e toda a vida - individual e comunitariamente. No
âmbito das igrejas, a educação cristã não se resume aos trabalhos da Escola
Dominical. Esta instituição, embora ainda importante e predominante na
educação cristã atual, não pode ser considerada a única instituição
educacional da igreja local. Devemos afirmar, com ênfase, que estruturas não-
escolares são mais relevantes e apropriadas para a educação cristã do que
estruturas escolares.
Com este livro desejo oferecer uma possibilidade de reflexão e diálogo sobre a
renovação da educação cristã no ambiente da igreja local. Não é um livro
sobre a escola dominical, mas sobre a educação cristã. Não apresenta receitas
prontas sobre como estruturar a educação na igreja local, mas propostas para
transformação da mentalidade educacional na Igreja, de modo que você,
leitora e leitor, possa desenvolver, em seu próprio contexto, propostas e planos
de reestruturação da educação cristã de sua igreja - em diálogo com a teologia
e a pedagogia da fé.
Proponho, também, um diálogo com nosso passado visando à construção de
nosso futuro. Nossa memória histórica é relativamente curta, mas nos anos
1980 e 1990 (primeira metade) houve um grande desenvolvimento da reflexão
e da prática de educação cristã na América Latina e na América do Norte –
testemunhado pelos vários livros de qualidade que foram publicados na época
e pelos vários programas educacionais inovadores naquela década. Também
no Brasil essa fermentação aconteceu. Na década de 1990 atuei na formação
de professores e professoras de Escola Dominical em várias regiões do país, a
serviço de minha denominação. Aprendi muito, vi diversas experiências
criativas e renovadoras de educação em igrejas locais mais diversas. Uma boa
dose dessa experiência, espero, está presente neste trabalho.
Creio que pastores e pastoras, juntamente com educadoras e educadores
cristãos “leigos”, no dia-a-dia de sua atividade ministerial têm todas as
condições para melhor definir as formas, alvos, meios e estruturas do trabalho
educacional. É baseado nessa convicão que ofereço estas reflexões para a
sua consideração crítica.

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Capítulo 1
Aspectos Bíblicos da Educação
Cristã

Na segunda parte dos anos 1980, houve uma espécie de auge dos
estudos no campo da educação cristã. Três autores em especial se
sobressaíram naqueles dias – Thomas Groome e Lawrence Richards nos EUA
e Daniel Schipani na AL (o primeiro católico, os demais evangélicos). Em seu
trabalho educacional e em seus escritos, as grandes metáforas norteadoras da
educação cristã eram: Reino de Deus, Humanização, Vida e Missão. As Igrejas
Cristãs descreviam sua identidade a partir da missão, do serviço ao Deus que
reina, que dá vida, que humaniza o ser humano à sua imagem. Eram tempos
relativamente otimistas – a transformação individual e social era esperada e
servia como fundamento para o trabalho eclesial, para o envolvimento social e
político, para a renovação da teologia. A educação cristã era vista como
ministério indispensável e relevante para a vida da comunidade local – seja
através da Escola Dominical então em busca de renovação, seja através dos
pequenos grupos, seja através das comunidades eclesiais de base.
Nesta primeira década do século XXI, entretanto, vivemos tempos
radicalmente diferentes. As Igrejas Cristãs não mais estão descrevendo sua
identidade a partir dos referenciais daqueles dias, mas a partir dos desafios
que a sociedade de consumo e a mercantilização da religião cristã lançam às
igrejas e suas lideranças. São tempos de pouca ou nenhuma esperança, a não
ser no sucesso individual, no crescimento numérico das congregações, na
espetacularização dos “ministros” do evangelho. A educação cristã perdeu seu
glamour, tornou-se o patinho feio das atividades eclesiais. Louvor, comunhão,
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êxtase individual se colocaram em seu lugar – reduzindo igualmente a
identidade e a missão das igrejas ao âmbito do auto-crescimento.
A seguir, proponho uma releitura de textos bíblicos baseada nas
metáforas para a educação cristã em voga nos escritos dos anos 1980-1990.
No próximo capítulo, enfocarei novas metáforas mais sintonizadas com a
nossa própria década. Você verá que, ao pensar sobre educação, de fato,
você estará pensando sobre a igreja e sua missão!

METÁFORAS DA EDUCAÇÃO CRISTÃ

1. A EDIFICAÇÃO DO CORPO DE CRISTO (Ef 4:7-16)


Conforme Ef 4:15-16, a edificação do Corpo acontece quando cada
um de seus membros realiza, sob a direção de Cristo, o seu trabalho. E o
trabalho de cada um, inclusive o nosso, deve ser realizado em um ambiente de
amor e honestidade. Ademais, o alcance do ministério é integral, pois devemos
crescer "em tudo naquele que é o cabeça, Cristo". Nenhuma área da vida
humana pode ficar inatingida pelo ensino cristão. O que significa, porém, a
edificação do Corpo de Cristo? Significa o crescimento de seus membros em
direção à maturidade cristã. E esse é o tema de que nos ocuparemos a seguir.

À luz de Efésios 4:11-14, podemos alistar as principais


características da maturidade de uma igreja:
1. É uma igreja onde os ministros (ordenados e não-ordenados)
realizam seu trabalho para o bem de todos (v. 11-12a);
2. É uma igreja onde os membros são aperfeiçoados, com vistas a
realizarem os seus próprios ministérios. Em outras palavras, é uma igreja
onde todos trabalham para o Senhor, conforme os dons que dele
receberam (v. 12);
3. É uma igreja que está chegando à unidade da fé e do pleno
conhecimento do Filho de Deus, isto é, uma igreja que cresce no
conhecimento teológico e na vivência da fé em Deus. É uma com-
unidade: igreja unida e companheira, onde todos - conforme sua
capacidade e possibilidade - deixam de ser meninos e meninas na fé e se
tornam adultos no conhecimento (v. 13-14);
4. É uma igreja que reflete o ser de Cristo em sua vida diária. É,
portanto, uma comunidade que possui as características da vida de Jesus

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Cristo: amor, misericórdia, justiça, submissão ao Pai, encarnação no
mundo, trabalho ... (v. 14).

E o que vale para a igreja como um todo, vale para cada um de


seus membros individualmente. Um cristão maduro é uma pessoa que possui
as quatro características acima. E é na direção delas que devemos ajudar
nossos alunos(as) - e nós mesmos - a chegarem. Para isso é que existe a
educação cristã, e para isso é que somos professores e professoras!

Em Colossenses 1:28-29, a ênfase de Paulo recai sobre os


indivíduos. Através do ensino e aconselhamento, Paulo realizava se ministério
a fim de apresentar a Deus, "todo homem perfeito em Cristo." Pensando em
sua própria vida espiritual, quais seriam as marcas da perfeição/plenitude em
Cristo? De que forma você pode contribuir para que todos os alunos de sua
classe se tornem "perfeitos em Cristo"? [Uma "dica": a palavra perfeição, em
Colossenses, tem o sentido de completo, inteiro. Ou seja, não é tanto uma
perfeição moral, mas a integridade da vida de fé em Deus.]

2. EDUCAR PARA O REINO DE DEUS E A MISSÃO DA IGREJA


Jesus não pregou, principalmente, a respeito de si mesmo. O seu
anúncio tinha como tema central o Reino de Deus (Mc 1:14-15). As parábolas
de Jesus são todas parábolas do Reino, assim como os milagres e exorcismos
de Jesus são sinais do Reino. Tudo o que Jesus disse e realizou, na terra, o
fez para a glória do Pai (João 17:4). Assim como Jesus serviu ao Reino
(soberania) de Deus, também a Igreja existe para realizar a missão do Reino. A
Igreja não é o alvo da obra salvífica de Deus. O alvo é que o Reino de Deus
seja estabelecido, em plenitude, sobre toda a criação (cf. I Co 15:22-28).

Que tal resumirmos os aspectos centrais do sentido teológico


dessa expressão, Reino de Deus?

1. Reino de Deus é a soberania que pertence a Deus, a glória e a


majestade inerentes ao Seu ser divino. Soberania indica, principalmente, a
ação de Deus como Senhor de todas as coisas. Majestade e glória
indicam, principalmente, o caráter de Deus - digno de todo louvor e honra.

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Educar para o Reino de Deus é educar para a submissão e o serviço ao
Rei;

2. Reino de Deus é a ação soberana de Deus no mundo, a fim de


livrar a humanidade do domínio do pecado. Educar para o Reino implica
em levar as pessoas a viverem vidas santas e justas. Implica, ainda, em
levar as pessoas a se comprometerem com a missão do Reino no mundo -
assim como Jesus. A Igreja, portanto, constitui-se de súditos do Reino de
Deus. Conforme Apocalipse 1:5b-6, somos súditos amados por Deus, e
resgatados pela morte de Seu Filho. A salvação nos transformou em
sacerdotes de Deus Pai, ou seja, somos testemunhas do Reino e
adoradores do Rei.

3. EDUCAR PARA A (RE-)HUMANIZAÇÃO (EF 4:17-24)


Uma das conseqüências básicas do pecado foi a des-humanização da
humanidade. O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn
1:26-28). Com o pecado, porém, essa realidade foi alterada, de forma tal que
já não cumprimos mais nosso papel de representantes de Deus na terra. O
pecado nos afastou de Deus e de Sua vontade. Da mesma forma, o pecado
nos des-humanizou, ou seja, agimos uns para com os outros como "animais",
cada um buscando apenas o seu próprio bem estar. Como diz um velho ditado,
"o homem é o lobo do homem".

Desumanizados, não cuidamos mais da natureza - que Deus nos confiou


para dela vivermos e dela cuidarmos. Não cuidamos mais de nosso próximo -
somos como Caim contra Abel. Não cuidamos mais de nossa relação com
Deus e fomos escravizados ao pecado e a Satanás. A salvação tem por
objetivo reverter essa situação de desumanização.

Que significa, de forma bem concreta e prática, educar para a


humanização? Sugiro algumas características:

1. É educar para a prática da justiça e santidade. Justiça significa,


basicamente, agir de forma tal que o próximo se torne mais e mais
humano, mais e mais semelhante a Cristo. Santidade significa,

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basicamente, viver de tal forma que eu mesmo me torne mais e mais
humano, semelhante a Cristo;
2. É educar para a criação de uma comunidade (e sociedade) sem
discriminações e preconceitos. Uma comunidade onde Cristo é amado por
todos e cada pessoa tem o direito de ser autêntica em sua justiça e
santidade. É a comunidade da nova humanidade, ou seja, das pessoas
que são refeitas por Deus, conforme a imagem de Cristo. Comunidade de
pessoas que abandonaram os vícios e maus hábitos do "velho homem", ou
seja, do ser des-humanizado pelo pecado.

Capítulo 2
7
Aspectos Teológicos da Educação
Cristã

Novos tempos demandam novas metáforas. Metáforas capazes de


provocar impacto e reflexão em tempos nos quais pouco ou nada se reflete, a
não ser que produza resultados imediatos e espetaculares. Novas metáforas,
porém, não podem ocultar sua história. Elas precisam nascer do solo onde
vicejaram as antigas, os rizomas do passado renovam seu vigor e deitam
novas raízes, estendem novos ramos em busca das energias do novo terreno
em que estão a viver.

1. EDUCAR PARA A CIDADANIA

Uma das novas raízes que brotaram dos velhos rizomas é a da


cidadania. Vivemos em um tempo em que os direitos individuais são assumidos
e defendidos intensamente. Não só os individuais, mas também os direitos
coletivos de minorias saíram a público e conquistaram espaço, visibilidade,
respeitabilidade – mesmo que em meio a conflitos por vezes ásperos e
preconceitusos – tais como os direitos das mulheres, dos negros, dos povos
indígenas, dos homossexuais. Em um tempo de luta por direitos, é preciso
primeiramente, viver de forma cidadã. Pois o risco da luta por direitos
específicos é o fragmentar o espaço público em lutas particulares, enquanto as
grandes estruturas dominantes do mercado permanecem controlando a vida
em geral. Em tempos de consumismo e êxtase religioso, a cidadania é o
grande desafio para as igrejas cristãs. Como viver a fé, prazerosamente, mas
também comprometidamente? Que compromissos assumir hoje? Que
prioridades devem pautar a agenda das comunidades e das denominações?
Uma dessas prioridades é viver a cidadania intensa e criativamente.
Por isso, precisamos nos perguntar: que significa, concretamente,
viver de forma cidadã? Para nos guiar na busca de respostas para esta
pergunta, ouçamos a voz de um teólogo cristão que aprender a teologar
globalmente.

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“Como toda outra forma de vida, vida humana é vida compartilhada,
vida comunicada e comunicante, comunhão em comunicação. Hoje em dia, as
comunidades necessárias que moldam a vida humana são ameaçadas de dois
diferentes lados: de um lado pelo crescente individualismo dos homens e
mulheres modernos, e, de outro, pela mercadorização global de tudo, inclusive
dos relacionamentos.” (MOLTMANN, J. God for a secular society. The Public
relevance of theology, Minneapolis, Fortress Press, 1999, p. 153)
Viver a cidadania é viver responsavelmente a liberdade, pois cidadã é
a pessoa que participa ativa e decisivamente da polis, do seu mundo. Cabe,
portanto, repensar a concepção de liberdade que anima a cidadania.
Liberdade não pode ser apenas a liberdade individual de fazer o que se
deseja, nem a liberdade política da comunidade civil na democracia e no
mercado; “liberdade é a paixão criativa pelo possível. Liberdade não é apenas
voltada para as coisas como elas são, como na dominação. Nem é direcionada
apenas à comunidade de pessoas como elas são, como na solidariedade. Ela
se direciona para o futuro, pois o futuro é o campo desconhecido das
possibilidades, enquanto o presente e o passado representam esferas
familiares de realidades. ... Assim como Martin Luther King, temos visões e
sonhos de outra vida, uma vida curada, justa e boa. Exploramos as
possibilidades do futuro a fim de realizar esses sonhos, visões e projetos.
Todas as inovações culturais e sociais pertencem a esta esfera de liberdade
para o futuro.” (idem, p. 159s.).
“Até agora temos entendido a liberdade ou como um domínio – a
relação de um sujeito a objetos -, ou como comunidade, na relação de sujeito a
sujeito. Mas em relação a projetos, liberdade é um movimento criativo.
Qualquer pessoa que em pensamento, palavra e ação transcende o presente
na direção do futuro é verdadeiramente livre. O futuro é o livre espaço da
liberdade criativa. ... Liberdade, como um transcender em direção às
possibilidades do futuro, é uma função criativa. ... É um acontecer. Somente
temos nossa liberdade criativa no processo de libertação. Nunca somos livres
de uma vez por todas, mas continuamente nos tornamos livres. E somente o
povo que faz uso da liberdade permanece livre. ... Na história, e se nós
seguimos as memórias da Bíblia, encontramos liberdade no contínuo êxodo da
escravidão e letargia, e na longa marcha através do deserto; mas não ainda na
terra prometida, que é o ‘fim da história’. Liberdade é como o maná no deserto.

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Não pode ser armazenada. Somente podemos confiar que o amanhã estará lá
novamente. Assim, temos de usar nossa liberdade a cada dia.” (idem, p. 160s)
Educar para a cidadania precisa nos ajudar a construir um estilo de
vida livre em relação às exigências do mercado que a tudo quer conquistar e
dominar.

2. EDUCAR PARA A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE


A cidadania cristã é a cidadania de pessoas graciosamente convidadas
a se tornarem semelhantes a Jesus Cristo, o primogênito dentre muitos irmãos.
Nestes dias em que as Igrejas lutam por “manter” sua identidade, somos
convidados, ao invés, a construir nossas identidades a partir da identidade
messiânica de Jesus. A pessoa de Jesus é o modelo da pessoa livre, e o
projeto de vida para a humanidade cidadã. Sejamos orientados, novamente,
pelo teólogo sistemático que nos ajudou a pensar a liberdade cidadã.
“a) Se Jesus é confessado como o Cristo de Deus, então ele é
reconhecido em sua pessoa escatológica. Nele estão presente o próprio
Messias de Israel, o Filho do homem dos povos e a vindoura Sabedoria da
criação. Ele é o reino de Deus em pessoa e o início da nova criação de todas
as coisas. Desse modo é o portador da esperança do mundo inteiro. Nele os
crentes reconhecem o homem messiânico.
b) Se Jesus é confessado como o Cristo de Deus, então ele é
reconhecido em sua pessoa teológica. Ele é o filho daquele Deus que ele
chamou de abba, Pai querido. Como filho de Deus ele vive totalmente em
Deus, e Deus totalmente nele. Essa singular relação com Deus ele patenteia a
todos que, na fé e como filhos de Deus, clamam como ele: abba. Eles
participam da alegria de Jesus. Nele os crentes reconhecem o homem filial.
c) Se Jesus é confessado como o Cristo de Deus, ele também é
reconhecido em sua pessoa social. Ele é o irmão dos pobres, o companheiro
do povo, o amigo dos abandonados, o co-sofredor dos doentes. Cura por meio
de sua solidariedade e comunica sua liberdade e poder curados por meio de
sua comunhão. Nele as pessoas envolvidas reconhecem o homem fraternal.”
(MOLTMANN, J. O Caminho de Jesus Cristo. Cristologia em dimensões
messiânicas, Petrópolis, Vozes, 1993, pp.205s.)
Assim como Jesus construiu sua identidade a partir de três eixos:
fidelidade ao Pai, solidariedade com as pessoas impuras, rejeição da religião
oficial (v. Marcos 1,1-3,6), também nós somos convidados a construir

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identidades pluralmente criativas e fiéis ao Filho. Construir a identidade cristã
no processo educacional da igreja demanda edificar pessoas que sejam (a)
fiéis a Deus em Seu projeto para a criação; (b) solidárias com as vítimas do
progresso e do desenvolvimento econômico e tecnológico de nossos dias; (c)
capazes de exercer discernimento crítico em relação à sua própria
comunidade e denominação, não se deixando submeter ao ensimesmamento
institucional a que estão entregues.

3. EDUCAR PARA A VITALIDADE


A vida continua sendo uma metáfora forte em nossos dias. Mas,
diferentemente dos anos 1980, pensar poeticamente a vida hoje traz novos
desafios. Nos leva a focar mais o processo de viver do que o resultado a ser
alcançado. Mais do que de vida, hoje em dia há que se falar de vitalidade.
“Iremos interpretar vitalidade como amor pela vida. Este amor pela vida
vincula os seres humanos com todos os demais seres vivos, que não estão
apenas vivos, mas querem viver. Desafia, também, os seres humanos em sua
estranha liberdade para a vida; pois a vida, que pode ser deliberadamente
negada, tem de ser afirmada antes de poder ser vivida. O amor pela vida diz
sim à vida a despeito de suas doenças, deformidades e enfermidades, e abre
a porta para uma vida contra a morte ... Hoje em dia, o vigor vivo que emerge
de um amor pela vida deve ser defendido contra as petrificações da vida nas
rotinas da sociedade tecnológica. Precisa também ser protegido contra o
patogênico culto da saúde em nossas modernas meritocracias.” (MOLTMANN,
J. The Spirit of Life. A universal affirmation, Minneapolis, Fortress Press, 1992,
p. 86)
A vida cristã deve ser afirmada contra a morte. Na teologia paulina, os
inimigos da vida são o pecado, a morte e a carne. A carne é: (a) a esfera do
mundo criado; (b) a esfera do tempo transitório deste mundo, “o pecado, que
erra o alvo da vida, não é centrado na sensualidade, nos impulsos, ou nos
assim-chamados instintos inferiores. Seu centro é a pessoa como um todo, e
especialmente o coração ou alma dessa pessoa, o centro de sua consciência,
ou de sua vontade se ela é possuída pelo instinto de morte” (idem, p. 88); e (c)
o tempo-mundial de pecado, injustiça e morte. (Cf. idem, pp. 87-89). Tendo em
vista que o conflito entre Espírito e carne é um conflito cósmico, e não
individual, “devemos ser redimidos com o mundo, e não do mundo. A
experiência cristã do Espírito não nos desvincula do mundo. Quanto maior for

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nossa esperança pelo mundo, maior a nossa solidariedade com seus clamores
e sofrimentos.” (idem, p. 89)
Conseqüentemente, “a constante disciplina e repressão do corpo que
a moderna sociedade industrial requer de seus membros, e a constante
sujeição e exploração da terra que a sociedade persegue, torna os seres
humanos entorpecidos e a terra infértil. ... O sim pleno e sem reservas para a
vida, e o amor pleno e sem reservas por todos os seres vivos são as primeiras
experiências do Espírito de Deus, que não é chamado de ‘fonte da vida’ à
toa. ... A espiritualidade da vida quebra as barreiras desse entorpecimento
interior, a armadura de nossa indiferença, as fronteiras de nossa
insensitividade à dor. Reabre a ‘fonte da vida’ em nós e entre nós, de modo
que possamos chorar novamente, sorrir novamente e amar novamente.” (idem,
pp. 94.97)
Vitalidade é muito mais do que saúde e culto ao corpo. Educar para a
vitalidade é um convite à renovação dos modos de viver, um chamado a
construir identidades cidadãs, a edificar comunidades criativa e solidariamente
includentes.

4. EDUCAR PARA A ECOLOGICIDADE


O paradigma moderno de pensamento científico cindiu ser humano e
natureza como sujeito e objeto, despersonalizando esta e desumanizando
aquele – e foi enfretado pelo movimento ecológico mundial. O avanço global
do mercado não suporta ter barreiras ao seu avanço, especialmente barreiras
supostamente irracionais, como as que defendem a preservação de espécies e
o ar puro... Em nosso tempo, a fé no Deus criador requer uma nova
compreensão da natureza, enquanto nova criação escatológica de Deus em
Cristo e no Espírito Santo. Essa compreensão acarreta quatro tarefas
teológicas:
(1) “Entender a natureza como criação de Deus significa não
considerá-la nem como divina nem como demoníaca, mas compreendê-la
como mundo ... criado por Deus [e, por isso], contingente; (2) “Em toda e
qualquer divisão científica moderna entre sujeito e objeto, a fé (re)conhece na
criação a uma – mesmo que dividida, mas não abolida – comunidade da
criação. Também a subjetividade humana de razão e vontade, que é
contraposta à natureza, permanece criada e contingente e não se torna
absoluta”; (3) “a natureza ‘visível’ não pode ser compreendida como criação,

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se também o que é invisível não for considerado como criação.” (MOLTMANN,
J. Deus na criação. Doutrina ecológica da criação, Petrópolis, Vozes, 1993
“No moderno mundo da pessoa, foi expandido, através da ciência e da
técnica, cada vez mais, o ‘ter-natureza’. A medicina moderna alcançou seus
sucessos neste campo, que podemos caracterizar como ‘ter-corpo’ da pessoa.
Não obstante, a pessoa é natureza, e o corpo que ela objetivou como sua
propriedade é simultaneamente ela própria em sua existência corpórea.
Localizar novamente o mundo da pessoa na história da natureza e descobrir
de novo a natureza no ser-corpo não é nenhuma fuga da responsabilidade que
cabe ao ser humano moderno através do poder por ele conquistado. Ao
contrário, significa descobrir dimensões da vida que foram reprimidas e
marginalizadas e superar, a partir delas, as desumanidades e as
desnaturalidades do mundo moderno. O ser-natureza da pessoa é a realidade
original. O dominar-natureza e o possuir-natureza são fatos secundários. Estes
permanecem dependentes da realidade original, porque eles constroem em
cima dela e dela vivem.” (idem, p. 83)
Educar para a ecologicidade demanda das comunidades cristãs que se
abram à integralidade do agir recriador de Deus, que ultrapassem as fronteiras
do antropocentrismo moderno e derrubem as fortalezas da morte que se
escondem sob o manto do desenvolvimento e da livre iniciativa.

Que tal você desenvolver estas idéias, formulando projetos bem


concretos de como vivenciar estas novas metáforas da educação cristã –
metáforas, de fato, do que significa ser cristã e cristão no mundo de hoje!

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Capítulo 3
Aspectos Pedagógicos da
Educação Cristã

EM BUSCA DE UMA PEDAGOGIA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ

A educação cristã precisa de uma boa pedagogia, como instrumental


teórico de seu ministério. A análise das atividades educacionais na Igreja, em
geral, demonstra que utilizamos uma pedagogia antiquada e ultrapassada,
incapaz de auxiliar na realização dos objetivos da educação cristã. Essa
pedagogia é basicamente uma cópia do tradicional modelo pedagógico escolar
brasileiro, que privilegia o intelecto e o teórico em detrimento do existencial e
do concreto. É, ainda, uma pedagogia individualista e alienadora - ou seja, não
capacita a pessoa a viver em comunidade e a entender plenamente a sua
realidade para poder transformá-la. Nessa pedagogia, ensino e aprendizado
são separados - como se só o professor ensinasse e só o aluno aprendesse. A
fim de superarmos essa tendência pedagógica é necessário construirmos,
teórica e praticamente, uma nova concepção pedagógica. Neste capítulo
apresento a proposta pedagógica de Paulo Freire, que pode estimular nossa
reflexão e renovar nossa prática educacional.
A escolha desta proposta se baseou em três critérios: (1) a sua
qualidade pedagógica, reconhecida por educadores e educadoras “seculares”;
(2) a sua abertura para o diálogo com a religião e a teologia, uma vez que
valores e conceitos teológicos desempenham papel fundamental na educação
cristã; e (3) a sua aplicação prática em programas de educação cristã criativos
e inovadores nos anos 1990.

UMA PEDAGOGIA INTEGRAL E T RANSFORMADORA

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Talvez seja desnecessário falar sobre Paulo Freire – dizer que ele foi um
dos maiores educadores do século XX, reconhecido em todo o mundo, não só
no Brasil; dizer que ele uniu teoria e prática de forma exemplar em sua carreira
como pesquisador, professor e dirigente educacional; dizer que ele jamais
separou sua atividade pedagógica de sua fé cristã, de seu compromisso com o
Reino de Deus transformador da vida individual e social; lembrar que sua
prática e teoria inspiraram vários cristãos em sua atividade pedagógica teórica
e prática.
Como convite à reflexão, a apresentação da proposta de Freire está
estruturada de uma forma muito peculiar: é um conjunto de citações extraídas
do livro Pedagogia da Esperança. Essas citações apontam para algumas das
dimensões da atividade pedagógica, e nos fazem pensar sobre o que fazemos,
porque fazemos, para quê fazemos e como fazemos. Acompanhando as
citações, perguntas para interpretar e aplicar o texto à vida eclesial e
ministerial.

DIMENSÃO ANTROPOLÓGICA DA AÇÃO PEDAGÓGICA


A ação pedagógica possui uma dimensão antropológica (referente ao ser
humano, sua existência, seus sonhos, seu cotidiano, suas lutas). Vivemos em
uma época marcada pela falta de esperança. O que esperar, se a sociedade
não vai mudar mesmo? Por que esperar, se podemos comprar tudo o que
desejamos? A quem esperar, se a cada dia são produzidos novos heróis e
heroínas pela TV? Como esperar, se temos de nos ocupar com o trabalho, as
compras, o lazer...? Entretanto, sem esperança o ser humano se diminui, vai
se tornando menos do que humano, vai se animalizando.

“A esperança é necessidade ontológica [ontológica é aquilo que se refere


ao próprio ser humano, à essência da pessoa humana] ... Pensar que a
esperança sozinha transforma o mundo, e atuar movido por tal
ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no
pessimismo, no fatalismo. Mas prescindir da esperança na luta para
melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados
apenas, à pura cientificidade, é frívola ilusão. Prescindir da esperança
que se funda também na verdade como na qualidade ética da luta é

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negar a ela um dos seus aspectos fundamentais ... Enquanto
necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar-se
concretude histórica.” (pp. 10-11)

A esperança é um dos temas fundamentais da teologia cristã. Cremos no


Deus da esperança que nos faz viver em esperança: “E o Deus da esperança
vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de
esperança no poder do Espírito Santo” (Rm 15:13). A esperança é uma
necessidade, mas também é um dom, uma dádiva de Deus aos seus filhos.
Como cristãos, vivemos em esperança. Só que há cristãos e cristãs que vivem
uma esperança alienada, ingênua. Acham que é só esperar “sentado” a volta
de Cristo e tudo se resolverá sozinho. Outros, porém, são extremamente
ativistas, e perderam de vista a esperança, acham que só o presente é o que
interessa para o cristão. Releia o texto de Paulo Freire, acima, e à luz das
novas metáforas para a educação cristã, reflita sobre as seguintes questões:
(1) Como é, e quais são as conseqüências da esperança ingênua?
(2) Como se relacionam esperança e prática para construir a identidade?
Qual é o papel da ação pedagógica na prática da vitalidade?
(3) A comunidade cristã tem como uma de suas tarefas levar a esperança
ao mundo sem esperança. Como o seu ministério e a Escola Dominical podem
ajudar a sua igreja local a ser mais ativa e comprometida no serviço à
humanidade e à natureza?

DIMENSÃO CRÍTICA DA AÇÃO PEDAGÓGICA


A prática pedagógica mais comum que encontramos nas escolas é a da
repetição de conteúdos previamente determinados. Temos um conteúdo para
ensinar e nos limitamos a ele. Jesus não fazia assim, pois não era mero
seguidor das tradições dos anciãos. Jesus era um mestre criativo e inovador.
Era, também, um mestre profético, pois apontava os erros do seu povo e da
religião oficial e indicava novos caminhos e possibilidades. Jesus era um
mestre crítico e criativo. Veja como Freire aponta para esta dimensão da ação
pedagógica, e depois medite sobre as questões abaixo:

“Na linha progressista, ensinar implica, pois, que os educandos, em certo


sentido, ‘penetrando’ o discurso do professor, se apropriem da
significação profunda do conteúdo sendo ensinado. O ato de ensinar,

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vivido pelo professor ou professora, vai desdobrando-se, da parte dos
educandos, no ato de estes conhecerem o ensinado. Por sua vez, o(a)
professor(a) só ensina em termos verdadeiros na medida em que
conhece o conteúdo que ensina, quer dizer, na medida em que se
apropria dele, em que o aprende. Neste caso, ao ensinar, o professor ou
a professora re-conhece o objeto já conhecido ... Ensinar é assim a forma
que toma o ato de conhecimento que o(a) professor(a) necessariamente
faz na busca de saber o que ensina para provocar nos alunos seu ato de
conhecimento também. Por isso, ensinar é um ato criador, um ato crítico
e não mecânico. A curiosidade do(a) professor(a) e dos alunos, em ação,
se encontra na base do ensinar-aprender.” (p. 81)

(1) Professor(a) só ensina se aprende, se, curiosamente, reflete, medita e


experimenta na vida concreta o conteúdo do que vai ensinar. Neste sentido,
como você deve usar a revista da Escola Dominical? Será que é suficiente dar
uma lida na lição antes da aula? Não é preciso gastar tempo com as lições,
ocupar-se delas no seu dia-a-dia, começando a preparar a aula já na segunda-
feira?
(2) Conhecendo o conteúdo do que irá ensinar, o(a) professor(a) motiva e
ajuda alunos e alunas a também conhecerem criticamente esse mesmo
conteúdo. Quais são as diferenças entre um conhecer crítico e um conhecer
tradicionalista? Como a sua ação pedagógica pode ajudar sua classe a
desenvolver um conhecimento crítico da realidade e da teologia?
(3) Ensinar é um ato criador. Falando teologicamente, ensinar é participar
da atividade criadora de Deus. Através do ensino na Igreja, Deus cria novas
criaturas, muda as pessoas, edifica a igreja, vocaciona homens e mulheres
para a missão. Você ensina com criatividade, ou segue uma rotina tradicional,
já estabelecida? Quais serão as características de seu trabalho pedagógico
quando ele for marcado pela criatividade?

DIMENSÃO DIALOGAL DA AÇÃO PEDAGÓGICA


A prática pedagógica mais comum que encontramos nas escolas é a do
monólogo: o(a) professor(a) fala, os(as) alunos(as) ouvem e aprendem.
Professores sabem, por isso ensinam. Estudantes não sabem, por isso
aprendem. Nada mais longe da verdade e da prática de Jesus! Ensinar e
aprender são atos tanto de mestres quanto de estudantes. Mestres ensinam e

17
aprendem. Estudantes aprendem e ensinam. Isto acontece no diálogo
pedagógico, na troca de saberes entre professoras(es) e alunas(os). Analise a
posição de Paulo Freire sobre este tópico e reflita sobre as perguntas a seguir.

“Minha experiência vinha me ensinando que o educando precisa se


assumir como tal, mas, assumir-se como educando significa reconhecer-
se como sujeito que é capaz de conhecer e que quer conhecer em
relação com outro sujeito igualmente capaz de conhecer: o educador ...
No fundo, o que eu quero dizer é que o educando se torna realmente
educando quando e na medida em que conhece, ou vai conhecendo os
conteúdos, os objetos cognoscíveis [que podem ser conhecidos], e não
na medida em que o educador vai depositando nele a descrição dos
objetos, ou dos conteúdos ... Mais do que ser educando por causa de
uma razão qualquer, o educando precisa tornar-se educando assumindo-
se como sujeito cognoscente [que conhece] e não como incidência
[objeto] do discurso do educador.” (p. 47s.)

(1) Aos colossenses Paulo escreveu: “instruí-vos e aconselhai-vos


mutuamente, em toda a sabedoria” (Cl 3:16). O que este texto bíblico, junto
com o texto acima, sugere sobre o papel de alunos e professores na sala de
aula? Que exigências o caráter dialogal da ação pedagógica estabelece para
você, professor(a)?
(2) Ser educando não é coisa automática. Muitos dos nossos alunos não
são educandos, são apenas freqüentadores da Escola Dominical. O que faz
do(a) aluno(a) da Escola Dominical um(a) educando(a)? Como o seu trabalho
pedagógico pode ajudar a transformar freqüentadores em educandos e
educandas?
(3) A ação pedagógica é um diálogo entre mestres e estudantes, tornado
possível pelos conteúdos sendo estudados, e mediado pela realidade em que
vivem mestres e estudantes. Assim, como incentivar alunos e alunas a usarem
melhor e mais criticamente a revista? Como você e sua classe podem tornar a
revista um apoio para diálogo, dentro da sua realidade, e não apenas um
conjunto de conteúdos para concordar ou discordar?
DIMENSÃO PROCESSUAL DA AÇÃO PEDAGÓGICA
A educação não se limita à sala de aula, ao estudo de conteúdos, à
avaliação intelectual da matéria. A educação cristã parte da vida cotidiana e

18
leva à prática da vida cristã no dia-a-dia. Como disse Jesus: “Nem todo o que
me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a
vontade de meu Pai que está nos céus.” (Mt 7:21) À luz do ensino de Jesus,
reflita sobre estas palavras de Paulo Freire:

O educador ou a educadora crítica, exigente, coerente, no exercício de


sua reflexão sobre a prática educativa ou no exercício da própria prática,
sempre a entende em sua totalidade. Não centra a prática educativa, por
exemplo, nem no educando, nem no educador, nem no conteúdo, nem
nos métodos, mas a compreende nas relações de seus vários
componentes, no uso coerente por parte do educador ou da educadora,
dos materiais, dos métodos, das técnicas (110)
Talvez nunca tenhamos tido em nossa história necessidade tão grande
de ensinar, de estudar, de aprender mais do que hoje. De aprender a ler,
a escrever, a contar. De estudar história, geografia. De compreender a
situação ou as situações do país. O intelectualismo combatido é
precisamente esse palavreado oco, vazio, sonoro, sem relação com a
realidade circundante, em que nascemos, crescemos e de que ainda
hoje, em grande parte, nos nutrimos. Temos de nos resguardar deste tipo
de intelectualismo como também de uma posição chamada anti-
tradicionalista que reduz o trabalho escolar a meras experiências disso
ou daquilo e a que falta o exercício duro, pesado, do estudo sério,
honesto, de que resulta uma disciplina intelectual. (114s)
A própria diretividade da prática educativa que implica ir ela sempre além
de si mesma, de perseguir objetivos e metas, sonhos, projetos, coloca ao
educador esse direito e esse dever [de ensinar o que lhe parece
fundamental ao tempo e ao espaço em que se acha]. (131)

(1) A prática educativa é uma totalidade, composta de relações entre os


seus vários componentes. É um processo que se estende muito além da sala
de aula. Como você pode fazer da Escola Dominical um instrumento de
aprendizado para a vida?
(2) Nas igrejas também se pode perceber a rejeição ao estudo sério e
disciplinado. Está mais na moda a experiência emocional do que o saber
crítico. Que você pode fazer para ajudar seus alunos e alunas revalorizarem o
saber bíblico e teológico?

19
(3) A ação pedagógica vai além de si mesma. Como traduzir as metáforas
da educação cristã em projetos concretos de vida e ação? Como o seu
trabalho pode contribuir para chegar a esses alvos? Como planejar e executar
a ação pedagógica para que o seu encontro educacional seja ponto de partida
da educação e não ponto de chegada?

Como um exercício “final” nesta reflexão sobre a pedagogia, dialogue


com as seguintes afirmações de Danilo Streck, escritas naquele “velho” tempo
da educação cristã à luz das novas metáforas aqui propostas. Para o prof.
Danilo (educador luterano, professor da pós-graduação da Unisinos), a
educação cristã deve ter como eixo a práxis, ou seja: educar é formar a pessoa
para agir de acordo com a vontade de Deus.
(1) "O critério da práxis faz com que a relação pedagógica seja
orientada no diálogo entre educadores e educandos, numa relação horizontal,
uma vez que ambos são sujeitos do processo educacional";
(2) "O critério da práxis não permite que se viva na e da certeza de
dogmas, mas requer que se mantenha uma presença curiosa diante da
realidade que se deseja transformar";
(3) "O critério da práxis faz com que a educação deixe de ocorrer em
espaços ideologicamente ascéticos (como se isso fosse possível), e conviva
com as alegrias e frustrações da criação do mundo novo".
[D. Streck, Um diálogo entre a teologia e a pedagogia numa perspectiva latino-
americana, CELADEC, Curitiba, pp. 40-41]

20
Capítulo 4
Aspectos Didáticos da
Educação Cristã

No capítulo anterior analisamos a proposta pedagógica de Paulo Freire,


em diálogo com a fé cristã. Como colocá-la em prática? Apresento, neste
capítulo, uma breve discussão sobre como organizar e realizar os encontros
educacionais cristãos (na lingaugem tradicional, “aulas”). Repare, novamente,
como proponho um diálogo com a didática dos tempos em que a educação
cristã era vista de forma mais vibrante e entusiástica. Não custa lembrar que
precisamos participar desse diálogo com o novo contexto social, eclesial e
teológico em mente.

UMA DIDÁTICA DA PRÁXIS COMPARTILHADA (T HOMAS A. GROOME)

1. Colossenses 1:9-11 fala de uma vida digna do Senhor, como alvo da


vida cristã. Nos Evangelhos, essa mesma idéia recebe o nome de "seguir a
Jesus", ou o que chamamos de discipulado. A didática da educação cristã é,
portanto, uma didática da práxis, ou seja, da prática bem refletida, ou da teoria
bem praticada; e da práxis compartilhada, ou seja, da práxis vivida em
comunidade e a serviço do Reino de Deus. Todo encontro educacional cristão,
conseqüentemente, deverá contribuir para que aperfeiçoemos tanto nossa
teoria (teologia) da fé, quanto nossa prática de vida - aperfeiçoamento em
nível individual e comunitário - a fim de que a igreja cresça como agente do
Reino de Deus no mundo.

Neste sentido, a Palavra de Deus e o ensino-aprendizado "dialógico"


são fundamentais. À luz de Colossenses 3:16-17, leia a proposta de Groome,
exposta abaixo, e esforce-se no sentido de aplicá-la ao seu trabalho didático.
21
Se você crescer como professor(a), certamente será mais eficiente na ajuda
aos seus alunos e alunas.

2. Thomas Groome destaca cinco momentos, ou passos, do encontro


educacional cristão - que não podem faltar em um ministério eficaz. Vamos
analisá-los e discutir como colocá-los em prática no nosso trabalho local.

(1) Ação presente. O primeiro momento em um encontro educacional é "um


convite aos participantes para que dêem nome à sua ação presente, em
resposta ao foco específico da unidade" (p. 309). Em outras palavras, é o
momento no qual partilhamos nossos sentimentos, pensamentos e problemas
concretos - individual e socialmente.

Dissemos, anteriormente, que o ensino é um ministério pessoal, e que


deveria levar em consideração a realidade dos alunos e alunas. Por isso, é
indispensável que toda aula permita a partilha da vida dos alunos. Isso não
precisa ocorrer sempre no começo da aula, nem é necessário que todos os
alunos falem em todas as aulas. Significa, sim, que você precisa ser sensível
às necessidades pessoais de seus alunos, e saber conduzir a aula - seja qual
for o tema em discussão - na direção do suprimento dessas necessidades.

(2) Reflexão Crítica. É a atividade de pensarmos sobre nossa "ação


presente". Nesse momento, "evocamos (a) a razão crítica para avaliar o
presente, (b) a memória crítica, para descobrir o passado no presente, e (c) a
imaginação criativa, para visualizar o futuro no presente." (p. 257) Em
Colossenses 1:9-11, esta atividade é chamada de discernimento, e não é só
fruto de nossa razão, memória e imaginação, mas também da ação do Espírito
em e através de nós.

Em toda aula deve ocorrer, também, uma avaliação do que nós já


sabemos, pensamos e fazemos. Se queremos uma educação
"transformadora", precisamos ter coragem de rever os nossos erros e acertos,
a fim de sabermos em que direção mudar. Neste sentido, as lições de nossas
Revistas oferecem bastante material, pois apresentam diferentes visões da
realidade atual e da teologia reformada. Isso possibilita o confronto de
opiniões, que ajuda a exercer a auto-crítica.

22
(3) Diálogo. É, propriamente dito, o estudo do tema bíblico, teológico ou
missiológico da lição (encontro educacional). Neste momento, o conteúdo da
lição vem iluminar a ação presente e a reflexão crítica. "O diálogo é um
encontro de sujeito-a-sujeito (eu-você), no qual duas ou mais pessoas
compartilham e ouvem" (p. 280). Neste momento, não só estudamos um tema,
mas aperfeiçoamos nossa vivência comunitária e fazemos teologia. [Na
prática, "diálogo" não quer dizer que só o método da discussão seja
apropriado para este momento]

(4) Caso. É o momento no qual relacionamos o tema estudado com a nossa


vida pessoal e comunitária. É a aplicação do que estamos estudando, à luz de
todo o conjunto de nossa Fé e Tradição, de modo a percebermos a ação de
Deus na nossa realidade atual. É a hora em que avaliamos as nossas
convicções e práticas, a fim de que - se necessário - as transformemos ou
aperfeiçoemos.

Este momento é muito parecido com a "reflexão crítica". A diferença é


que ele sempre ocorre depois do estudo da lição do dia. Popularmente,
podemos chamar este momento de "fechamento" da discussão didática, ou
seja, é a hora em que nós juntamos as pontas soltas, e damos um contorno
bem definido ao conteúdo apresentado e debatido.

(5) Visão. Encerra-se um encontro educacional cristão com a proposta de


ação concreta. O conteúdo estudado deve ser transformado em ação
missionária no mundo. "É uma oportunidade para que o indivíduo e o grupo
escolham uma resposta de fé, uma práxis cristã, à luz de tudo o que foi
colocado antes" (p. 327). Finalmente, cada aula deve concluir com sugestões
concretas para colocar em prática, durante a semana, o que foi estudado no
domingo de manhã. Isso pode ajudar, também, no início da aula seguinte -
quando a classe poderá conversar sobre a aplicação da lição anterior na vida
cotidiana.

Estes cinco momentos não devem ser entendidos rigidamente de forma


cronológica, mas como partes de um todo indivisível – o encontro educacional.

23
Provavelmente, você já realiza esses passos, mesmo sem dar os mesmos
nomes. É importante, porém, que você se discipline para sempre colocá-los
em prática. (As citações foram extraídas do livro de T. H. Groome, Educação
Religiosa Cristã. Compartilhando nosso Caso e Visão, Edições Paulinas, São
Paulo, capítulos 9 e 10.)

Uma das coisas que professores costumeiramente perguntam -


quase sempre a si mesmos - é o que fazer na próxima aula. É importante
variarmos os métodos de ensino, porém, é mais importante ainda mantermos
uma estrutura fixa de atuação pedagógica. Use sua experiência e criatividade
para "misturar" sempre de forma atraente os cinco ingredientes do "pudim"
educacional, de modo que seus alunos e alunas gostem do "prato" e,
realmente, cresçam em Cristo Jesus. Muitos dizem que o Cristianismo matou o
“prazer” de viver. Não precisa ser assim, a educação cristã pode (e deve) ser
uma experiência agradável - a Deus e a nós mesmos!

Groome propõe uma forma de estruturação do encontro educacional, na


qual os cinco passos não podem ser confundidos com métodos, nem com
técnicas de ensino. Dentro da estrutura proposta por Groome é necessário
utilizar métodos e técnicas adequados e relevantes. Para essas ferramentas
voltaremos nossa atenção a seguir.

MÉTODOS DE ENSINO

A didática1 é a reflexão sobre a atividade de ensinar. Embora lide também


com questões relativas ao aprendizado (ação do aluno), seu foco principal é a
ação da(o) professor(a). Uma das áreas abordadas pela didática é a que
engloba as questões de método, metodologia, técnicas e procedimentos de
ensino. Segundo Preiswerk, o método deve ser entendido como “o espaço das
inter-relações dentro de e entre os diferentes componentes da educação:
estrutura social, atores, finalidades, conteúdos. O método é um conjunto de
relações e de interações que define, em última instância, o caráter e a
natureza de uma determinada educação.” Continuando, ele afirma: “por
metodologia, seguindo o uso mais comum, entendemos o conjunto das
1
Nesta lição nós nos baseamos no curso de educação cristã ministrado pelo Dr. Matthias Preiswerk
(pastor metodista, nascido na Suíça e morando na Bolívia), que foi publicado pelo Seminario Bíblico
Latinoamericano (Costa Rica) e Comissão Evangélica Latino-Americana de Educação Cristã, com o
título Educación Cristiana.
24
técnicas utilizadas durante o processo educacional.” (p. 54)
Pelas definições acima, percebemos que o método tem a ver com o modo
pelo qual conduzimos todo o nosso trabalho educacional. Podemos olhar o
método, por exemplo, desde o ponto de vista das atividades que o(a) aluno(a)
realiza para aprender. Desde este ponto de vista, podemos falar em quatro
tipos diferentes e complementares de método que podem ser usados nas
aulas e demais encontros educacionais cristãos:

1 “Um método dedutivo parte de uma lei ou de um conjunto de


conhecimentos estabelecidos pela cultura ou pela ciência, e os aplica a
casos determinados. Começa com o geral ou universal e chega ao particular.”
(Preiswerk, p. 55)
Talvez este seja o método mais comum usado nas Escolas Dominicais. O
ponto de partida é um princípio bíblico, um conceito teológico, ou uma doutrina
que deve ser entendido. Depois de compreender o conteúdo, passa-se a
discutir como aplicá-lo na prática.

2 “Um método indutivo procede exatamente ao contrário: parte de casos e


situações particulares; compara-os, tenta ordená-los e trata de encontrar
uma lei que permita relacioná-lo. Vai do particular ao geral.” (Preiswerk, p. 55)
Este método é pouco usado em classes de Escola Dominical. Em parte,
porque o uso de materiais curriculares previamente preparados dificulta a sua
utilização. Mas, a razão principal para seu pouco uso, me parece, está no fato
de que em nossa tradição protestante temos dificuldade em construir o saber
teológico a partir das experiências cotidianas. Quase sempre ficamos na troca
das experiências sem reflexão crítica.

3 “Um método interativo (dialético) aproveita os conhecimentos já


adquiridos e os reinterpreta a partir de situações novas que se
apresentam. Confronta constantemente o particular com o geral.” (Preiswerk,
p. 55)
Este método aproveita os aspectos positivos dos dois anteriores. Seria
interessante usá-lo com alguma freqüência em nossas aulas. Afinal de contas,
a maior parte de nossos alunos e alunas já conhece parcialmente os temas
que estudamos. Assim, é importante que os temas a serem estudados sejam
analisados a partir de novas perspectivas e situações.

25
4 “Um método divergente inventa e cria novos conhecimentos, colocando
em relação elementos que pertencem a diferentes campos do saber e
cujo encontro pode provocar uma novidade.” (Preiswerk, p. 55)
Este é, talvez, o mais rico e mais difícil método a ser usado. Ele se utiliza
de conceitos, saberes, experiências e situações percebidas a partir de
diferentes campos do saber (p. ex.: sociologia, psicologia, teologia, etc.), a fim
de construir novos conceitos e possibilidades de entender e transformar a
realidade. É possível de ser usado na Escola Dominical principalmente porque
nossas alunas e alunos têm formações escolares e experiências de vida
diferentes e podem contribuir para a produção de novos conhecimentos
bíblico-teológicos.

Para aplicar esses métodos, devemos selecionar as técnicas apropriadas


a cada um deles. É comum encontrarmos professores e professoras
preocupados com as técnicas a serem usadas, a fim de que suas aulas sejam
interessantes e motivadoras. Entretanto, as técnicas, por si só, não são
capazes de produzir uma boa educação. Analise com atenção o seguinte
trecho extraído do livro do Dr. Preiswerk, e reflita sobre o seu próprio uso de
técnicas de ensino - tanto avaliando o que você já tem feito, como propondo
novas possibilidades de atuação.

“As técnicas em educação, como em qualquer outro campo da vida


humana, têm um aspecto instrumental. Todavia, não são neutras e o
educador não pode usá-las sem se questionar a respeito dos valores que
elas transmitem.
Efetivamente, por trás das técnicas, atrás de determinados
procedimentos didáticos, estão presentes, em maior ou menor grau,
valores e projetos que podem facilitar ou entorpecer as finalidades
propostas - mesmo que não haja uma relação direta entre as finalidades
e as técnicas.
Um material didático pode ter uma aparência muito atrativa, utilizar
procedimentos criativos e, ao mesmo tempo, estar a serviço de um
projeto educacional muito conservador e reprodutor dos valores
dominantes. Ao contrário, um material pode ter objetivos transformadores
da realidade e, mesmo assim, usar técnicas que contradizem as

26
finalidades. De forma mais concreta, uma técnica como a exposição, por
exemplo, pode servir tanto a um discurso fechado e impositivo, como à
narração de uma parábola que transforma a compreensão que o(a)
educando(a) tem de si mesmo(a) ou de Deus.
A pesquisa pode ser uma busca criativa ou uma perda de tempo, quando
o(a) educando(a) não sabe o quê e nem para quê está pesquisando.
Um audiovisual pode ser o meio mais eficaz para transmitir uma verdade
fechada e alheia à realidade do educando(a), ou um estímulo criativo
para despertar novas dimensões e conhecimentos.” (pp. 56-57)

T ÉCNICAS DE ENSINO

1. Até aqui estudamos, especialmente, aspectos mais teóricos da


didática. Agora iremos enfocar algumas das técnicas de ensino que podem ser
aplicados para que a nossa pedagogia realmente se concretize. Estamos
usando o termo técnicas de acordo com a definição de Preiswerk, acima. Mais
comumente, ao invés de técnicas, os manuais de didática usam o termo
métodos – em sentido, claramente, diferente do adotado por Preiswerk.

2. Quando falamos em técnicas, falamos em caminhos para alcançarmos


os nossos objetivos. Não há, portanto, técnicas infalíveis, universais, ou
receitas prontas para a aula. Por isso, precisamos preparar bem nossa
atividade de ensino - não só os conteúdos a serem discutidos, mas também as
técnicas que usaremos. Precisamos caminhar em busca da excelência
didática, ou seja, da perfeição no ensino, para que haja aprendizado e
edificação na igreja.

3. Não iremos alistar todos as técnicas possíveis. Há excelentes livros


sobre o assunto (veja, a seguir, algumas sugestões). Queremos apenas
destacar alguns procedimentos básicos para o trabalho em sala de aula.

(1) Preleção. Exposição do tema, por uma pessoa, diante de um auditório. É


um método bom para ser usado quando a classe estiver motivada, e quando
você precisar transmitir conteúdo novo. Por um lado, a exposição poupa
tempo, por outro, porém, dificulta a participação da classe, bem como exige

27
muita habilidade do professor ou professora, para manter o nível de atenção.
Ao usá-la, procure sempre fazer perguntas para a classe responder, ou misture
a preleção com métodos de grupo, ou outros métodos participativos.

(2) Dinâmica de Grupo. Há múltiplas formas de trabalho em grupo dentro de


uma sala de aula. Por exemplo: a discussão do tema por toda a classe
juntamente; a divisão em grupos menores, para estudo, discussão ou reflexão;
os grupos compartilhados, etc. Seja qual for a dinâmica usada, porém, precisa
ser previamente preparada e selecionada, se não pode se tornar meramente
em um bate-papo não educacional. Os métodos de grupo possuem a grande
vantagem de ampliar a participação da classe e, no contexto da igreja, ajudam
a aumentar a comunhão. Possuem, entretanto, também os seus limites. Se a
classe não estiver acostumada a trabalhar, o grupo pode ser "grupo", como se
diz na gíria, ou seja, pode ser apenas um tempo perdido.

Caso você goste de usar métodos de grupo, mantenha-se bem


informado sobre os mesmos, sempre buscando adquirir novas experiências e
materiais sobre o assunto. Em minha experiência pessoal, os métodos de
grupo são úteis quando estão inseridos dentro de uma exposição, ou quando
temos alunos e alunas bem motivados para trabalhar por conta própria. São
importantes, ainda, no estudo de textos bíblicos - pois ajudam a vermos os
diferentes ângulos de um texto, especialmente se for um texto difícil.

(3) Dramatização. É a "representação teatralizada de situações reais da vida,


com o propósito de dar e receber informações, alcançar melhor compreensão
das situações e favorecer maior integração do grupo" ( I. G. Nérici,
Metodologia do Ensino. Uma Introdução, Editora Atlas, São Paulo, p. 277).
Entre outras vantagens, a dramatização nos ajuda a "entrar" no mundo pessoal
do tema a ser estudado e nos envolvermos concretamente com esse tema.
Exige, porém, disposição e preparo prévio do grupo - o que também tem a
vantagem de aumentar a comunhão e integração da classe. É bem apropriada
para lidar com temas existenciais e pessoais, pois ajuda a expressarmos
nossos emoções.

28
Eu gosto bastante das dramatizações. Entretanto, é muito difícil usá-las
com adultos, pois, geralmente, nós somos pessoas "fechadas" e
"envergonhadas" (a situação dos jovens é, em geral, diferente, pois eles ainda
não se deixaram dominar pela “sisudez” das responsabilidades da vida adulta
na sociedade capitalista). Para que a dramatização funcione, precisamos nos
abrir para Deus, para o próximo e, especialmente, para nós mesmos.
Devemos, ainda, levar em conta que uma dramatização "didática" não deveria
tomar mais do que metade do tempo da aula (para preparação e execução).

(4) Recursos Áudio-Visuais. Vivemos na era da imagem e não da palavra.


Sem o acompanhamento visual, a palavra falada perde muito de sua eficácia.
É fundamental, portanto, que saibamos utilizar os diversos recursos áudio-
visuais existentes, a fim de melhorarmos nossa comunicação e nosso ensino.
Esses recursos vão desde o simples e velho "quadro-negro", passam pelos
"cartazes", retro-projetor, e os mais modernos data-show e outros recursos
informático-televisivos.

A sua utilização deverá variar de acordo com as possibilidades da igreja e


de conformidade com os objetivos educacionais estabelecidos. Não devemos
usar os áudio-visuais apenas para deixar a aula mais "interessante". Eles
devem estar em sintonia com os objetivos da aula, e com os "momentos" da
prática educacional cristã.

(5) Leitura Dirigida. "O método da leitura dirigida consiste em o professor


orientar a aprendizagem do aluno por meio da leitura de adequada seleção de
textos" (I. G. Nérici, obra citada, p. 104). O hábito da leitura não é muito
desenvolvido em nosso país, e este é um dos grandes problemas do baixo
nível educacional de nossa população. Na Igreja, a leitura é fundamental, pois
nossa fé se alimenta da Palavra de Deus - texto que deve ser constantemente
lido e estudado. Os encontros educacionais podem ser um bom instrumento
para o aperfeiçoamento da arte da leitura - seja usando a Escritura, revistas
didáticas, ou livros.

Por leitura, não estamos apenas indicando a "identificação" de palavras e


frases, mas a compreensão do texto escrito - suas idéias, seus pressupostos,
as implicações práticas, os defeitos, etc. A leitura crítica nos ajuda a superar os

29
limites intelectuais, a falta de consciência político-social, a ingenuidade
teológica. Crescer na arte de ler é importante para o desenvolvimento
espiritual. O apóstolo Paulo jamais deixou o estudo e a leitura, mesmo na
prisão (II Timóteo 4:13), pois sabia da necessidade de continuar crescendo na
fé.

4. Encerrando esta breve discussão sobre métodos de ensino,


precisamos lembrar que educadores não são infalíveis. Nós também somos
discípulos e discípulas de Jesus Cristo, temos nossas angústias e limites,
nossos saberes e dúvidas. Existe uma idéia, velada mas difundida, de que
professores são infalíveis e sabem tudo. Não podemos passar essa imagem a
nossos alunos e alunas. A autenticidade e transparência são fundamentais no
trabalho educacional, especialmente no ensino cristão. Sempre que você tiver
alguma dúvida, angústia, ou sentir-se limitado, saiba compartilhar com sua
classe, para que você também seja edificado por seus alunos e alunas. Além
disso, não há chance de sermos bons professores se não formos bons
aprendizes. Valorize a dúvida e a curiosidade. São o ponto de partida para o
conhecimento.

Capítulo 5
30
Aspectos programáticos da
educação cristã

INTRODUÇÃO

Vamos pensar, agora, em termos mais práticos e estruturais. Se a


educação cristã não se restringe à escola dominical e às “aulas” tradicionais;
se a educação cristã tem a ver com a formação do povo de Deus para a vida e
a missão; se a educação cristã é ferramenta do Espírito para a renovação da
igreja, que alternativas concretas se apresentam para a nossa prática
educacional global, enquanto igrejas cristãs, no início deste novo século e
milênio?

REINVENTANDO A DIMENSÃO EDUCACIONAL DO CULTO


Precisamos reinventar e rearticular a dimensão educacional do culto!
Enquanto a ênfase na educação cristã regredia, crescia exponencialmente a
valorização do culto e da música na igreja local. Nos anos 1990 e nestes
primeiros anos do século XXI, grandes avanços na música e liturgia das igrejas
evangélicas têm acontecido (embora, também, limites e problemas sérios
tenham acompanhado esses avanços). Refletindo de forma esquemática sobre
esses avanços talvez se possa destacar os seguintes pontos: (1) o corpo dos
crentes passou a fazer parte viva dos cultos: palmas, movimento, “dança”,
coreografia se tornaram comuns em muitas igrejas; (2) ritmos, melodias, letras
brasileiras foram incorporadas aos cultos; (3) o ministério de adoração passou
a ser enfatizado, e muitos jovens se envolveram com a música e o louvor na
igreja; (4) emoções que anteriormente tinham pouco lugar no culto passaram a
ocupar lugar central – alegria, exaltação, auto-afirmação.
31
Sem desmerecer nenhum desses avanços, é preciso, porém, destacar
também alguns problemas que se podem ver na prática litúrgica “típica” em
igrejas evangélicas: (1) a lógica litúrgica se tornou demasiado simples (ou, por
que não dizer, simplista?) – os cultos se reduziram praticamente a músicas em
seqüência e sermão; (2) ênfase demasiada recai sobre a performance musical,
desvalorizando a maturidade espiritual e emocional dos “grupos” de louvor; (3)
a escolha de canções para o culto depende, em demasia, de critérios
mercadológicos e midiáticos – o CD que “vende mais”, a canção que mais toca
nas rádios, a cantora ou cantor “mais famoso”; (4) o baixo nível de formação e
reflexão teológica da maior parte dos novos “levitas” e dirigentes de louvor -
acompanhado de relações conflitivas com pastores e pastoras ...
Bem, em um livro sobre educação cristã, por que estas considerações
sobre culto e liturgia? Porque o culto é uma das estruturas mais importantes da
educação cristã na igreja local! Não! Não se preocupe, não vou propor que os
cultos voltem a ser “chatos”, “antiquados”, seguindo as regras da liturgia
européia. O culto é, primariamente, encontro de adoração a Deus, de
celebração de Seus atos em nosso favor e em favor do mundo por Ele criado,
encontro de gratidão, testemunho e preparação para voltar a viver, no tempo
secular, a fé e a missão. E é exatamente enquanto culto que ele desepenha
papel fundamental na formação cristã integral. Não precisamos transformar o
culto em “aula” para que ele seja educador. Entretanto, precisamos trabalhar
para que a função educacional do culto aconteça, precisamos valorizar o
caráter pedagógico do culto, senão, não haverá educação transformadora na
igreja. Como?
Algumas sugestões simples:
* Existe uma lógica litúrgica que dá sentido ao culto. Não precisamos
confundir a lógica com a estrutura do culto, mas aquela deve ser fundamental
para esta. Ou seja: ao preparar o culto, dê asas à criatividade, mas asas que
nos levem ao encontro do Senhor, e não às nuvens vazias. A lógica litúrgica se
compõe de: entrada na presença de Deus (separando o tempo “secular” do
tempo “sagrado”), exaltação de Deus que se dispõe a nos receber em Sua
presença, confissão de pecado (pois não se pode entrar na presença de Deus
sem o reconhecimento da nossa pecaminosidade), gratidão a Deus pelo Seu
perdão e ação em nosso benefício (que pode incluir testemunho e até mesmo
batismo), reconhecimento da comunidade e comunhão cristãs (com ou sem a
Eucaristia), ouvir a Palavra de Deus (seja através de sermão, ou não),

32
compromisso com o Deus da Palavra, e envio da igreja à missão no mundo.
Esta lógica é, em si, educadora. Quando o culto se reduz apenas a uma
seqüência de cânticos e um sermão, enina muito pouco – e ensina mal, ensina
que a vida cristã é apenas felicidade, busca de bênçãos e comunhão entre
irmãos. A lógica litúrgica ensina que a vida cristã nasce, cresce e se concretiza
em nossa submissão a Deus, em nossa vida entregue ao Seu Filho, em nossa
dependência do Espírito. A forma do culto pode e deve variar, ser criativa –
mas precisa sempre ser fiel à lógica litúrgica! Quando abandonamos a lógica
litúrgica, o culto dá a impressão de “liebrdade do Espírito” mas, na prática, não
passa de um tradicionalismo repetitivo – não passa de celebração da
mesmice.
* Aliada à lógica litúrgica praticada de forma contextual e criativa, o culto
precisa de conteúdo bíblico e teológico de qualidade. A ‘teologia” do povo de
Deus é, primariamente, a teologia cantada e não a ouvida e lida. Escolher
cuidadosamente as músicas, não em função de ritmo, mas em função da
mensagem bíblica e teológica que ensinam, é fundamental. Neste sentido,
precisamos de uma revolução prática nas igrejas. Dirigentes de louvor,
musicistas, “levitas”, seja como for que chamemos as pessoas que participam
na elaboração e direção dos cultos, precisam conhecer profundamente a
Escritura e a teologia cristã – tanto quanto os pastores e as pastoras! Entregar
a escolha das músicas a serem cantadas no culto a quem não conhece (ou
conhece pouco, ou, pior, conhece mal) Bíblia e teologia provoca deseducação
do povo de Deus. Alguns critérios simples: as letras precisam falar muito mais
de Deus do que de “eu”, de “mim”, de “meu”... As letras precisam valorizar os
alvos da vida eclesial: discernimento, missão, humanização, cidadania, etc. As
letras não podem ser antropocêntricas nem cardiocêntricas (só voltadas para
as emoções). Que desafio! Qunto trabalho a ser feito nesta área”
* É indispensável que o lamento faça parte de nossos cultos. O lamento,
no sentido bíblico, é composto de súplica, confissão e intercessão. Lamentar a
Deus significa que: (1) reconhecemos nossa pecaminosidade; (2)
reconhecemos que Ele responde à oração; e (3) reconhecemos nosso
compromisso missionário e oramos pelo mundo amado por Deus – e não só
por nós mesmos. O lamento é o momento litúrgico do clamor: clamar a Deus
por perdão e crescimento espiritual, clamar a Deus por crescimento e
desenvolvimento da igreja, clamar a Deus pelo mundo sem Cristo. No lamento,
especialmente na intercessão, nos identificamos solidaria e compassivamente

33
com a humanidade pecadora e reconhecemos que nossa salvação nos coloca
na condição de missionárias e missionários, de embaixadores e embaixatrizes
de Jesus Cristo no mundo. Releia e reflita cuidadosamente sobre Colossenses
3:14-17 e o papel educacional do culto.
Sem mais detalhes, um destaque: o culto deve sempre orientar o povo de
Deus à ação missionária no mundo. O culto não pode ser egocêntrico, egoísta,
voltado para dentro de nós mesmos. Se for assim, será doentio – acúmulo de
bênção provoca doenças espirituais terríveis. A bênção de Deus deve ser
repartida, ou se transformará em maldição.

REVALORIZANDO O PEQUENO GRUPO


Uma das formas mais interessantes de renovação eclesial nas últimas
décadas tem sido a redescoberta do pequeno grupo como matriz da vida
eclesial. Isto tem ocorrido desde, pelo menos, os anos 1970, quando se falava
de pequenos grupos e de discipulado nas iregajs evangélicas, e quando
surgiram as comunidades eclesiais de base no catolicismo. Muitas formas de
atuação em grupos surgiram e se desenvolveram. Mais recentemente (e, às
vezes, dando a impressão de que algo absolutamente novo estava nascendo),
se fala em células (e há vários tipos de igreja “em células”, “com células”,
células de 10, 15, 12 membros, etc. – isso sem falar nas igrejas “em
cédulas”...). Não cabe, aqui, uma avaliação de cada um desses modelos.
É preciso dizer, porém, que a mutualidade ministerial é indispensável
para uma educação cristã renovada e renovadora. Igreja não é auditório, Igreja
não é templo. Auditórios e templos podem até ser necessários, mas não são a
igreja. Igreja é a comunhão de pessoas com Deus e umas com as outras. Por
isso, pequenos grupos são ferramentas educacionais e ministeriais
indispensáveis. O pequeno grupo é espaço privilegiado para o estudo bíblico,
para a oração, para o serviço mútuo, para a evangelização! Por isso, é
indispensável na educação cristã. Mais do que “conteúdos”, a vida comunional
e mútua do pequeno grupo educa. No pequeno grupo não é possível “se
esconder”, não é possível depender do ministério de outros e não fazer nada.
No pequeno grupo o dar e receber da fé se tornam reais, de uma forma que a
grande reunião cúltica não é capaz de concretizar.
Pequenos grupos e grandes igrejas não são antagônicos, nem
contraditórios. Pequenos grupos e pequenas igrejas locais não são idênticos,
mas também não são inimigos. Não precisamos ser escravos de “modelos” de

34
igreja e ministério – podemos ser criativos também na forma como
organizamos os pequenos grupos na igreja. As classes de escola dominical
podem ser “pequenos grupos” fermentadores de renovação e crescimento
espiritual. Seja criativa, sejá criativo! No pequeno grupo, teoria e prática
podem se casar – cabe a nós inventar caminhos e estratégias para o namoro e
o casamento.
* Uma outra forma importante de renovação da educação cristã é a
mentoria (antigamente chamada de discipulado, caso você tenha memória
curta). A diferença fundamental entre mentoria e pequeno grupo é que este é
mais simétrico (todos os membros do grupo servem mutuamente), enquanto a
mentoria é mais assimétrica (uma pessoa mais experiente orienta uma ou mais
pessoas). A mentoria pode ser realizada de várias formas, sua essência,
porém, consiste na formação integral de pessoas, mediante o exemplo de uma
pessoa mais amadurecida. A mentoria é especialmente necessária quando se
precisa e se deseja investir na vida de novas lideranças, quando se precisa
formar novos líderes para a igreja e “passar o bastão” para novas gerações.
Sem formas criativas e comprometidas de mentoria, as novas gerações têm de
reinventar a roda e o legado das gerações anteriores se perde. O grande
modelo de mentor é Jesus Cristo, cujo exemplo foi seguido por Paulo (além de
outros dos primeiros cristãos). A questão pessoal é: dedicaremos parte de
nosso tempo na valorização de irmãs e irmãos que assumirão, futuramente,
nosso lugar?

ENSINANDO ATRAVÉS DA PRÁTICA

Na formação de lideranças e de pessoas para exercer ministérios na


igrejá, uma das formas mais adequadas de capacitação é a delegação
supervisionada de tarefas. Em outras palavras, o aprendizado ocorre
juntamente com a prática da atividade/ministério delegado à pessoa. Este é um
método que não deve ser praticado com exclusividade se a tarefa a ser
aprendida for complexa e, por isso, demandar conhecimentos técnicos
especializados. Nesses casos, o aprendizado através da prática pode
acompanhar cursos específicos necessários para a habilitação ao ministério
em questão – funcionando, por assim dizer, como um estágio “escolar”, ou, na
linguagem empresarial, como o caso de um trainee na empresa. Nos casos de
ministérios que demandem conhecimentos especializados, o aprendizado

35
através da prática é um excelente e necessário complemento à educação
formal – seja no caso de jovens ministros e ministras, evangelistas,
missionários, seja no caso de musicistas e educadores cristãos com educação
formal técnica ou superior
O ensino através da prática é melhor aparelhado para a capacitação de
pessoas para ministérios que não exijam conhecimentos especializados
adquiridos apenas em cursos formais. É uma boa forma de treinamento, por
exemplo, de líderes de grupos, de professores para classes de escola
dominical, de diáconos e diaconisas, etc. O crucial nesta forma de educação é
a supervisão. Quem supervisiona precisa ter conhecimento e experiência
significativos na área da formação, precisa ter disposição para ensinar e
acompanhar o ritmo da pessoa aprendente, precisa ter paixão pelo ensino, de
modo a motivar o aprendiz a crescer mediante a prática, a leitura e a
supervisão pessoal.

AUTO-APRENDIZADO E MÍDIA
Com o avanço das tecnologias de difusão de conhecimento e
informação, o auto-aprendizado tem se tornado um recurso cada vez mais útil
na educação não-formal (e até na formal). Tendo com vista que os programas
coletivos de educação cristã de uma igreja local normalmente não
conseguirem atender todas as necessidades educacionais de cada um dos
membros da igrejá, o estímulo ao auto-aprendizado é uma forma relevante e
eficaz de educação cristã. Todas as pessoas envolvidas em educação na igreja
podem estimular irmãs e irmãos a desenvolverem seus conhecimentos, valores
e habilidades mediante o auto-aprendizado.
Neste caso, a função de educadores é dupla: (1) motivar e orientar na
busca dos conhecimentos e habilidades necessários – seja através da leitura,
da internet, da TV, da música ou outras mídias; e (2) acompanhar e
supervisionar o processo de auto-aprendizado – o que não precisa ocorrer de
forma rígida – de modo a manter o estímulo o aprendiz, a proporcionar
correções de rumo quando necessário, e a avaliar o progresso realizado. A
igreja local pode apoiar este tipo de estudo criando biblioteca em seu prédio –
não só a tradicional biblioteca com livros e revistas, mas também com recursos
de outras mídias (CDs, DVDs, links da internet, etc.).
Pode parecer banal, mas de um modo geral as pessoas não sabem
assistir TV/cinema, ouvir música, ler obras literárias ou técnicas. É importante

36
que a igreja ajude seus membros a desenvolver habilidades críticas (de
discernimento) para assistir programas televisivos, ouvir músicas, ler textos,
sites, etc. Hoje em dia o volume de informação que circula no espaço midiático
é imenso e muito material de péssima qualidade chega às pessoas
constantemente. Em meio a tamanho caos de informação, o discernimento é
uma atitude cristã indispensável para o crescimento espiritual e para o
desenvolvimento da educação em uma igreja.

E A ESCOLA DOMINICAL?
Em certo sentido, a Escola Dominical merece um livro à parte. Faço,
aqui, apenas alguns brevíssimos comentários. O pior problema da escola
dominical é que ela é um tipo ruim de escola - entrega apenas diplomas de
“aluno de escola dominical”, ou seja, não há previsão de término do curso, não
há um perfil da pessoa egressa – a escola virou um fim em si mesma, tornou-
se apenas um programa rotineiro da igreja desenhado para que os membros
tenham o que fazer aos domingos, além do culto. A questão fundamental não é
a da “revista” da escola dominical, do material utilizado para o ensino. O
probleme é, insisto, que a escola dominical tornou-se uma escola de baixa
qualidade. Para renovar a Escola Dominical, é fundamental que ela
desenvolva o seu caráter de escola – toda boa escola precisa de um bom
projeto pedagógico, a partir do qual os currículos sejam confeccionados, os
participantes tenham clareza quanto ao que se espera de cada um, os
professores e professoras recebam adequada formação continuada e métodos
de avaliação possam ser aplicados à vida escolar como um todo.
A maioria das igrejas locais evangélicas possui membros com
experiência em trabalho educacional, formação superior e vontade de
trabalhar. Nada melhor para uma escola dominical do que aproveitar o talento
e a disposição dos próprios membros da igreja para renová-la e reinventá-la.
Quando a direção da igreja local reconhece o talento de pessoas que Deus
deu à igreja e permite que elas façam a revolução educacional de que a
Escola Dominical precisa, formas criativas surgem e transformam
significativamente o processo educacional escolar na igreja. Cabe, portanto, à
direção da igeja, criar os espaços para a mudança e delegar confiantemente a
tarefa para pessoas capacitadas. Não se pode, neste caso, ter medo de errar.
Pior do que tentar acertar e acabar errando, e manter a escola dominical do
jeito que ela está.

37
Capítulo 6
Aspectos da Espiritualidade na
Educação Cristã

JESUS, MESTRE DA ESPIRITUALIDADE E ESPIRITUALIDADE DO MESTRE

“Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas,


pregando o Evangelho do Reino e curando toda
sorte de doenças e enfermidades entre o povo.” (Mt 4:23)

Tudo o que vimos até agora, porém, não terá qualquer valor se as
pessoas envolvidas na educação cristã não forem cristãs maduras, homens e
mulheres que seguem o exemplo de Jesus e, na força do Espírito, vivem para
a glória de Deus e a edificação do Corpo de Cristo. Por isso, este capítulo final
trata da espiritualidade – de uma espiritualidade cristocêntrica, baseada na
graça de Deus e voltada para a solidariedade cristã – a missão para a glória
de Deus.
Os Evangelhos nos apresentam Jesus como um ativo servo de Deus,
realizando um ministério que levava em conta as múltiplas dimensões da vida
humana: Jesus curava, levando a sério a dimensão corporal das pessoas;
Jesus pregava, levando a sério a dimensão religiosa das pessoas; e Jesus
ensinava, levando a sério a dimensão intelectual das pessoas. Em seu
ministério, Jesus não via os seres humanos apenas como corpo, ou apenas
como mente, ou apenas como espírito. Para Jesus, corpo, mente e espírito são
dimensões inseparáveis da pessoa humana.
Nesta lição iremos refletir sobre a prática educativa de Jesus. Isto quer
38
dizer que não iremos nos ocupar da pregação e das curas de Jesus. Não
porque nós possamos separar o que Deus não separou, mas porque nossa
preocupação é com o ministério educativo na Igreja. Esta advertência, porém,
é necessária para que nós, professores e professoras do povo de Deus, não
nos descuidemos das dimensões “corpo” e “espírito” de nossos alunos e
alunas.
Jesus começou a ensinar muito cedo. Lucas narra um episódio da
infância de Jesus, aos seus doze anos, em que ele se perdeu de seus pais na
cidade de Jerusalém. Ao invés de estar nas ruas, brincando, como seria de se
esperar em uma criança de sua idade, Jesus estava “no templo, assentado no
meio dos mestres, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam
muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas.” (Lc 2:46-47).
Vemos que a ação pedagógica de Jesus se compunha, não só de ensinar, mas
também de ouvir e perguntar. Em outras palavras, para ensinar é preciso,
primeiro, aprender! Depois, é preciso dialogar!
Do ponto de vista humano, como aquele menino de doze anos era capaz
de dialogar e espantar, com sua inteligência, os mestres da religião? Lucas
mesmo dá a resposta: “crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de
sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele.” (Lc 2:40) As duas
características da vida de Jesus que o capacitaram a ser mestre, já nesta
idade tão tenra, foram a sabedoria e a graça de Deus. Essas características
estão à nossa disposição, professores e professoras na Igreja! Como podemos
conseguir e colocar em prática a sabedoria e a graça?

ONDE, QUANDO E A QUEM JESUS ENSINAVA?

Jesus ensinava nas sinagogas aos sábados (Mc 1:21, etc.); ensinava nos
montes (Mt 5:1, etc.); nas planícies (Lc 6:17, etc.); às margens dos lagos (Lc
5:3, etc.). Em outras palavras: Jesus ensinava em todos os lugares possíveis e
a qualquer momento em que fosse necessário ensinar. No episódio da primeira
multiplicação dos pães (Mc 6:30-44), Jesus levara os discípulos a um lugar
deserto para descansar. Entretanto, ao chegar ao lugar de repouso, “viu Jesus
uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram com ovelhas que
não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas cousas.” (Mc 6:34).
Jesus ensinava aos freqüentadores das sinagogas, aos seus discípulos, às
multidões. Ensinava também a indivíduos, pessoas comuns e também a

39
pessoas importantes. Mais de uma vez discutiu pedagogicamente com os
fariseus (Mc 7:1ss, etc.) e com os mestres da Lei (Mc 12:28-34, etc.). Em seu
ministério, Jesus ensinava a quem quer que necessitasse de Seu ensino. De
acordo com a situação e as pessoas envolvidas, a motivação pedagógica de
Jesus era diferente. Compare, por exemplo, os episódios da multiplicação dos
pães e o da discussão de Jesus com fariseus (Mc 7:1ss). Com que motivação
Jesus ensinou as multidões que foram atrapalhar seu repouso? E com que
motivação ensinou os fariseus e alguns escribas que vieram de Jerusalém
para vê-lo? (Veja, por exemplo, Mc 7:6)

COMO JESUS ENSINAVA?

Jesus utilizou os vários métodos e técnicas de ensino de sua época e


cultura. Dava aulas expositivas (o sermão do monte, por exemplo); aulas
práticas (por exemplo: lavou os pés dos discípulos, mostrando-lhes o que
deveriam fazer); ensinava através de parábolas (Mc 4:1ss); fazia perguntas em
resposta às perguntas que lhe faziam (Mc 10:17-18; etc.); dialogava com as
pessoas (Mc 10:23-31; etc.); debatia com os seus oponentes (Mc 7:1ss; etc.);
usava técnicas corpóreas (pegava crianças no colo, Mc 10:16; etc.).
Jesus usava métodos diferentes em circunstâncias diferentes, em relação
a pessoas específicas e com conteúdos diferenciados. Analisando a didática
de Jesus, vemos que as técnicas não eram a coisa mais importante. O que
importava para Jesus eram três aspectos: a pessoa a ser ensinada, o
conteúdo ensinado e a circunstância do ensino. Do ponto de vista das
técnicas, “as formas de ensino de Jesus não parecem romper com as formas
usadas pelos doutores de Israel” (CELADEC, “La educación cristiana a la luz
de la Palabra”, Cuaderno de Estudio, n. 25, Lima, 1984). Entretanto, Jesus não
ensinava como os doutores de Israel! Como isto era possível?
“Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem
autoridade, e não como os escribas” (Mc 1:22). Um erro muito comum de
interpretação deste texto é achar que a autoridade pedagógica de Jesus era
derivada de seu poder milagroso, de sua autoridade para expulsar espíritos
impuros (Mc 1:27). Preste atenção no texto: no verso 21 vemos que Jesus
ensinava, em um sábado, numa sinagoga. Ouvindo-o, as pessoas se
admiravam de sua autoridade pedagógica (v. 22). Somente depois do ensino -
“não tardou que ...” (v. 23) - é que Jesus liberta o homem possesso, e causa

40
uma nova admiração (v. 27).
Para entendermos como era a autoridade pedagógica de Jesus,
precisamos seguir a pista que Marcos nos dá: ele não ensinava como os
escribas. Os escribas eram os “doutores da lei” em Israel. Eram os mestres da
religião. Vimos, logo acima, que as técnicas de Jesus não eram muito
diferentes das dos escribas. Por que, então, manifestava Jesus uma
autoridade não encontrada nos escribas? Pelo que conhecemos
historicamente, os escribas ensinavam baseando-se nas “tradições” dos
anciãos, ou seja, ensinavam as Escrituras apelando para a autoridade da
tradição de outros mestres, aos quais seguiam fielmente!
Imagine a seguinte situação: uma pessoa se aproxima de um escriba e
lhe pergunta como deve fazer para guardar o sábado. O escriba poderia
responder mais ou menos assim: “Bem, de acordo com o mestre fulano, você
deve fazer... e não pode fazer ... Todavia, o mestre beltrano já pensa de modo
diferente, e diz que você pode fazer ...”. Se a pessoa que fez a pergunta
insistisse: “mas qual é a sua opinião, mestre?” provavelmente ouviria: “não é a
minha opinião que importa, mas a tradição ...”
Nas sinagogas, Jesus não fazia isso. Ele lia o texto bíblico (veja, p. ex.,
Lc 4:16-17) e o explicava, sem apelar para a tradição dos anciãos e para as
disputas de opinião entre os vários mestres-escribas. Por isso as pessoas se
admiravam: Jesus tinha autoridade para ir diretamente ao texto bíblico e
apresentar a sua própria interpretação da Palavra de Deus! Ele fazia isso sem
ter estudado nas escolas dos fariseus (Mt 13:54-56). Jesus vivia aquilo que ele
ensinava, Jesus se compadecia das pessoas a quem ensinava, Jesus se
indignava com algumas pessoas a quem ensinava.
Ou seja, Jesus tinha autoridade pedagógica porque seu ensino nascia da
Palavra de Deus, entrava em sua própria vida, levava a sério a vida e as lutas
das pessoas a quem ensinava, e era relevante para a situação social em que
Ele se encontrava. Seu ensino não era meramente “teórico”, ou “tradicional”.
Era um ensino íntegro e integral: toda a Palavra para toda a pessoa!

O QUE JESUS ENSINAVA?

A leitura dos Evangelhos Sinóticos (a palavra sinóticos vem do idioma


grego, e significa “com um ponto de vista comum”, e se refere aos Evangelhos
de Mateus, Marcos e Lucas) nos mostra que o tema principal do ensino de

41
Jesus era o Reino de Deus (p. ex., Mc 1:14-15; Mt 4:12-17). O grande alvo
pedagógico de Jesus era ajudar as pessoas a compreenderem o projeto de
Deus para a humanidade e se comprometerem com Ele. O conteúdo do ensino
de Jesus, podemos dizer, era teológico.
Não era, porém, uma teologia desvinculada da vida cotidiana das
pessoas! Jesus ensinava sobre o projeto de Deus para a Sua criação,
especialmente para a humanidade como parceira nesse projeto, em relação ao
trabalho, à família, aos costumes religiosos, ao lazer, à relação com a
natureza. Tratava de temas polêmicos, como a violência, o adultério, a política,
a crítica aos líderes religiosos judeus. Instruía a respeito dos problemas
sociais e religiosos do povo judeu: o papel da Lei na vida das pessoas,
criticava as idéias religiosas sobre as pessoas portadoras de deficiência (a
religião judaica oficial considerava cegos, coxos, surdos, mudos, e outros
portadores de deficiência como impuros, separados de Deus), não aceitava as
opiniões preconceituosas das pessoas em relação a estrangeiros, a mulheres,
a crianças, a portadores de deficiência, a adúlteras.
O centro, o eixo do ensino de Jesus era, portanto, que as pessoas
percebessem que deviam viver integralmente sob a soberania de Deus. A
presença do Reino de Deus na terra significava, para Jesus, que a melhor
maneira de viver era a submissão ao Deus que reina e transforma a vida de
pecadores e das sociedades humanas. E a forma mais eficaz do ensino de
Jesus sobre o Reino de Deus era a Sua própria vida: Jesus não só falava a
respeito do Reino, Ele vivia como súdito do Reino de Deus! Assim como Jesus
vivia o Reino de Deus, exigia que as pessoas também vivessem o Reino. A
única resposta digna para o ensino de Jesus era a conversão. Não a adesão
religiosa, não o consentimento intelectual, não o prazer emocional! Conversão,
ou seja, mudar de idéia a respeito de quem é o Senhor da vida e da pessoa e,
pela fé no Rei, iniciar um novo estilo de vida: seguir a Jesus.

CRESCENDO EM VITALIDADE

A vitalidade cristã é a qualidade de viver na energia do Espírito de Deus.


Em I Coríntios 3:1, Paulo recrimina os coríntios porque não eram espirituais,
mas “carnais”, “crianças em Cristo”. Cristãos carnais são aqueles que vivem
segundo a carne, por isso são crianças em Cristo, ou seja, imaturos,
irresponsáveis, incapazes de servir adequadamente a Deus e a igreja.

42
Cristãos espirituais são as pessoas que vivem segundo o Espírito, por isso são
adultos em Cristo, ou seja, maduros, responsáveis, servos e servas fiéis. Viver
segundo o Espírito significa ser guiado, liderado, conduzido pelo Espírito de
Deus: “Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se
pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis. Pois todos
os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.” (Rm 8:13-14)
A manifestação “negativa” da vida segundo o Espírito é a mortificação dos
feitos do corpo dirigido pela carne. Aos colossenses Paulo escreveu
detalhando o sentido prático do mortificar os feitos do corpo carnal: “Fazei,
pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva,
desejo maligno, e a avareza, que é idolatria ... despojai-vos, igualmente, de
tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso
falar.” (Cl 3:5-8; veja, também, Gl 5:19-21 que alista as “obras da carne”.)
Já a manifestação “positiva” da vida no Espírito é a prática do fruto.
“Andai no Espírito e jamais satisfareis a concupiscência da carne ... Mas o
fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas cousas não há lei” (Gál
5:16,22-23). Estas características da vida no Espírito - o fruto do Espírito - são
exemplificadas na vida de Jesus Cristo. O mestre por excelência, aquele que
viveu o que ensinou.
Professoras e professores que desejam seguir o exemplo do Mestre
Jesus, precisam crescer em vitalidade. Ou seja, precisam manifestar em suas
vidas tanto a forma “negativa” quanto a “positiva” da liderança do Espírito
Santo. Tanto quanto o seu trabalho, propriamente dito, a vida do(a)
professor(a) é parte integrante da ação pedagógica cristã. Do ponto de vista
da avaliação divina, porém, é mais importante a eficácia de vida do que a do
trabalho. Por isso, nesta lição iremos conversar a respeito das possibilidades
que Deus colocou à nossa disposição para o crescimento em espiritualidade.
CRESCER NÃO É DEVER, É DOM DA GRAÇA

Você reparou, no texto de Gálatas 5, que a carne realiza obras e o


Espírito em nós produz fruto? A espiritualidade cristã não é espiritualidade
baseada em obras, assim como a salvação não nos é dada pelas obras. Uma
forma de ser carnal é tentar crescer pelas obras, e não pela fé! O crescimento
na espiritualidade não pode, portanto, ser encarado como um dever! Mas, que
isto quer dizer? Esta afirmação não parece estranha? Sim, é algo estranha,

43
mas facilmente compreensível: nós não devemos crescer espiritualmente; nós
podemos crescer espiritualmente! O dever nos leva à prática de obras da
carne. O poder nos permite, pela fé, frutificar. E podemos crescer
espiritualmente porque o Espírito de Deus habita em nós e dirige as nossas
vidas. Isto é dom da graça de Deus: a habitação e o senhorio do Espírito em
nós.
Para crescer espiritualmente, a atitude fundamental é apenas uma: a fé.
Assim como recebemos a salvação pela fé, crescemos espiritualmente pela fé.
Leia atentamente esta afirmação de Paulo: “Ora, como recebestes a Cristo
Jesus, o Senhor, assim andai nele” (Cl 2:6). Como nós recebemos a Cristo?
Pela fé. Como andaremos nele? Pela fé! É assim que o próprio Paulo explica
sua afirmação: “nele radicados e edificados, e confirmados na fé” (Cl 2:7).
Muitos membros de igreja sentem-se frustrados porque transformam a
graça da espiritualidade em uma lei. Tentam crescer espiritualmente pelo
esforço da vontade, do trabalho. Sem perceber, ao invés de seguir o caminho
do Espírito, seguem o caminho da carne. Sim, por incrível que pareça, muita
gente que quer crescer no Espírito acaba vivendo na carne! Crescer em
espiritualidade não é dever, não é lei; é graça. Lembra-se de Gl 5:23? “contra
estas cousas não há lei”! Muita gente, hoje, passa pelo mesmo problema dos
cristãos gálatas: “sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito,
estejais agora vos aperfeiçoando na carne?” (Gl 3:3)
O caminho da espiritualidade é o caminho aberto pela graça de Deus. É o
caminho trilhado pelas pessoas que andam no Espírito, vivem segundo o
Espírito, são guiadas pelo Espírito de Deus. É o caminho dos que, alcançados
pela graça transformadora de Deus, vivem pela fé. Recebem o crescimento
espiritual assim como receberam a Cristo e sua salvação. Crescem, não
porque devem crescer. Crescem porque podem crescer espiritualmente;
porque podem frutificar no Espírito de Cristo.
A ESTRADA DO CRESCIMENTO: OS MEIOS DA GRAÇA

O crescimento espiritual, como possibilidade aberta pela graça de Deus,


está diante de nós para ser seguido em nosso dia-a-dia. O crescimento não
vem por obras, mas também não vem automaticamente. A graça de Deus
estabelece, junto com a possibilidade, os meios para o crescimento. Medite
nestas palavras de Paulo: “Assim, pois, amados meus, como sempre
obedecestes, não só na minha presença, porém muito mais na minha

44
ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é
quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa
vontade.” (Fp 2:12-13)
Os meios para o desenvolvimento da salvação são, na prática, as
diferentes formas da fé atuar. Uma vez que é Deus quem efetua o crescimento,
é pela fé que recebemos a sua atuação (cf. Cl 2:6-7). E é buscando a Deus
que alcançamos o crescimento em espiritualidade:
É pela experiência da fé que reconhecemos a Deus, sua iniciativa de
amor para conosco e o caminho de nossa resposta. E, como dizíamos,
essa fé, feita experiência na esperança e no amor que gera, é o único
caminho possível para a espiritualidade cristã. A busca de Deus é o
caminho da fé. E, pela experiência da fé, esse caminho é o encontro de
Deus. Pela fé encontra-se Deus na medida em que se busca a Deus.”
(Segundo Galiléia, O Caminho da Espiritualidade, p. 58)

A busca e o encontro de Deus pela fé têm o seu principal aspecto na


comunhão com Deus. A busca é feita individual e coletivamente.
Coletivamente, como igreja, buscamos a Deus no culto e no serviço
missionário aos irmãos e ao mundo. Não trataremos deste tema da
espiritualidade nesta lição. Iremos nos ocupar das disciplinas interiores e
individuais da fé. Na comunhão pessoal, individual, com Deus, a fé se
desdobra em:
ORAÇÃO: que é o diálogo com o Senhor, diálogo no qual abrimos a Ele
nossas vidas, nossos sonhos, nossas lutas, nossos pecados, nossos desejos,
nossas frustrações, nossas esperanças. A oração cristã é um diálogo com
várias faces. Em oração pedimos a Deus, a Ele suplicamos que aja em nosso
favor. Em oração, agradecemos e exaltamos a Deus, apresentamos a Ele
nossa gratidão e louvor pelo que Ele já fez e continuará fazendo por toda a
humanidade, em nós, e por nós. Em oração, intercedemos a Deus por outras
pessoas, igrejas, situações. Na intercessão o foco da oração é o próximo, a
quem somos chamados a amar como amamos a nós mesmos. Em oração,
simplesmente conversamos com Deus, ouvimos a Sua voz, ficamos em
comunhão com Ele.
MEDITAÇÃO: que “ nos leva à plenitude interior necessária para nos
darmos a Deus livremente, e à percepção espiritual necessária para atacar os
males sociais. Neste sentido, ela é a mais prática de todas as Disciplinas
[espirituais].” (R. J. Foster, Celebration of Discipline. The Path to Spiritual
Growth, p. 15) Na vida corrida das grandes cidades, perdemos o hábito da
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meditação, perdemos o jeito de meditar. A meditação é um tempo em que
deixamos nossos pensamentos e imaginação fluírem para Deus e a partir de
Deus. Meditando em Deus e em sua Palavra, afastamos de nossa mente as
coisas do mundo e as coisas que atrapalham nossa caminhada espiritual. A
meditação cristã é tão mais eficiente quanto mais iluminada pela Palavra de
Deus: “Para os teus mandamentos, que amo, levantarei as minhas mãos, e
meditarei nos teus decretos.” (Sl 119:48) “Os meus olhos antecipam as vigílias
noturnas, para que eu medite nas tuas palavras.” (Sl 119:148)
ESTUDO: enquanto a meditação é um fluir da mente, o estudo é um
exercício de reflexão crítica sobre a realidade em que vivemos, à luz da
Palavra de Deus. No estudo nós buscamos entender e explicar como Deus
age, onde Ele age, por que age, etc. Estudo e meditação são as duas faces de
uma moeda. A face meditativa é a da imaginação, da intuição, da mente que se
entrega a Deus. A face do estudo é a do raciocínio, da elaboração de
conceitos e idéias, da mente que reconstroi os objetos de sua reflexão. Como
na meditação o estudo essencial para o crescimento espiritual é o estudo da
Palavra de Deus, constante, sério e disciplinado.
JEJUM: é a atitude de abrirmos mão de uma necessidade fundamental do
corpo, a fim de orientá-lo para o serviço a Deus e ao próximo. Desde tempos
antigos, o jejum foi mal utilizado. De instrumento de entrega a Deus e
solidariedade ao próximo, foi reduzido a arma de orgulho espiritual e hipocrisia
religiosa. Para jejuar bem, convém seguir a instrução profética:
Eis que jejuais para contendas e rixas, e para ferirdes com punho iníquo;
jejuando assim como hoje não se fará ouvir a vossa voz no alto. Seria este o
jejum que escolhi, que o homem um dia aflija a sua alma, incline a sua cabeça
como o junco e estenda debaixo de si pano de saco e cinza? chamarias tu a
isto jejum e dia aceitável ao Senhor? Porventura não é este o jejum que
escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da
servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura não é
também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres
desabrigados, e se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu
semelhante? Então romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem
detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua
retaguarda. (Is 58:4-8)

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Posfácio

Ao terminar a escrita deste pequeno livro, emoções conflitantes disputam


os espaços do meu corpo. A dúvida – será que é tempo para publicar um livro
como este? Não me parece que o mercado livreiro tenha interesse em uma
obra deste tipo, assim como não estou seguro de que as lideranças eclesiais

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estejam dispostas a revalorizar a educação cristã diante de tantos desafios
que têm de enfrentar no dia a dia.
Contra a dúvida, porém, teimosamente reaparece a esperança. Não
consigo ver as igrejas cristãs apenas como comunidades de pessoas
conformadas com o mundo, nem mesmo consigo ver as denominações como
instituições tão embrutecidas que não sejam capazes de se deixar arejar pelo
vento novo do Senhor. Meus amigos e minhas amigas nas lideranças de
comunidades e denominações não se cansam de lamentar o tempo em que
vivemos – o conformismo, a competitividade, o desnível competitivo entre
mega-corporações religiosas e pequenas igrejas.
Mas também elas e eles são teimosamente pessoas de esperança. E é a
esperança, enfim, a emoção que supera a dúvida...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Esta não é uma bibliografia exaustiva. Apresenta apenas obras em português


e espanhol representativas da produção em educação cristã nos últmos vinte anos.

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