Você está na página 1de 8

O surgimento da mídia cidadã

Terça-feira, 19 de setembro
17-19:00 h
Bartos Theater – Media Lab

Resumo

Jornalistas da imprensa, críticos da mídia e visionários digitais discutem as atuais transformações e


o aparente declínio dos jornais americanos. Tópicos a serem abordados: o envelhecimento do leitor
de jornal, o surgimento da mídia cidadã e da blogosfera, o destino do noticiário local e do jornal
local, e as notícias e informações em um futuro em rede.

Este debate é parte de uma série de fóruns que discutem a pergunta: Os jornais
sobreviverão? Também fazem parte desta série: News, Information and the Wealth
of Networks (21 de setembro), Why Newspapers Matter (5 de outubro).
Co-patrocinador da série: Ethics and Excellence in Journalism Foundation

Oradores

Alex Beam é colunista do jornal Boston Globe.

Ellen Foley é editora do jornal Wisconsin State Journal. Anteriormente, foi editora gerente do
jornal Philadelphia Daily News, editor gerente assistente de destaques no jornal Kansas City Star, e
reporter, editora de pauta e editora de texto do Minneapolis Star Tribune. Antes disso, ocupou
cargos similares nos jornais Milwaukee Sentinel e Detroit News.

Dan Gillmor é fundador e diretor do Center for Citizen Media e autor do livro We the Media:
Grassroots Journalism by the People, for the People (2004). Anteriormente, Gillmor foi
colunista do San Jose Mercury News, o jornal diário do Vale do Silício na Califórnia, e trabalhou
por seis anos no jornal Detroit Free Press.

Resumo preparado por Marie Thibault

Dan Gillmor: É uma grande honra estar aqui para falar do crescimento da mídia cidadã e daquilo
que espero será um ecossistema de jornalismo vibrante, crescente e diverso. Espero que os jornais
sobrevivam – seria uma tragédia se não o conseguirem, porque o que eles fazem é muito
importante.

Todo este processo tem a ver com a mídia democratizada e ampla participação, porque está aberto a
muitas pessoas. Por exemplo, este computador inclui software para edição de vídeo, além de
recursos comparáveis a um estúdio de gravação de som. Quando a Web (teia em rede global) é
acrescentada a estes recursos, existe um acesso poderoso. Tem a ver menos com distribuição de
mídia, e mais com a capacidade de ter acesso a muitos diferentes tipos de mídia.

A mudança fundamental que está ocorrendo é que consumidores agora são produtores, e vice-versa.
Junto com isso, nós agora temos a 'leia-escreva' Web que permite às pessoas a escrever com facilidade na
própria Web.

O jornalismo tem sido uma palestra – nós passamos as notícias para vocês, e vocês acreditam ou
não. O processo agora está tornando-se algo parecido com um diálogo; e a primeira regra do
diálogo é ouvir. Os jornalistas não têm sido especialmente habilidosos neste aspecto, embora na
época que eu escrevia sobre tecnologia no Vale do Silício, na Califórnia, em meados dos anos 90,
rapidamente tomei consciência que meus leitores sabiam mais que eu. Isto, em si, não é ruim;
representa uma oportunidade para fazer um jornalismo melhor.

A democratização do acesso à mídia significa que o público agora possui muitas opções. Nas
eleições de 2000, eu estava em Hong Kong. Constatei que estava obtendo melhores notícias
navegando em diferentes sítios da rede, que alguém assistindo televisão nos EUA, porque eu
conseguia criar minha própria perspectiva jornalística. Isso é algo chamado “O Diário Eu” ('Daily
Me'). Esta forma de obtenção de notícias significa que a cada dia que passa, é mais difícil manter
segredos. Governos e empresas tentam restringir o acesso, mas as informações acabam vazando. Os
construtores de notícias (newsmakers) têm novas regras de conduta, porque possuem as mesmas
ferramentas e o mesmo acesso que nós temos, e, espera-se, usem essas ferramentas para tornarem-
se mais transparentes.

A mídia tradicional está repleta de profissionais muito inteligentes, assustados ao ponto de fazer
coisas bem interessantes. Os jornais deveriam querer ser a “praça pública”, e envolver toda a
comunidade.

Por exemplo, o Le Monde oferece blogs a seus leitores e publica os melhores em seu próprio sítio;
alguns chegam a ser pagos. O Northwest Voice, da cidade de Bakersfield, na Califórnia, está
incluindo conteúdo hiper-local e está obtendo muito sucesso. Logicamente, se os jornais não
começarem a fazer isso, outros vão. Existe um sítio sediado em Brattleboro, no estado de Vermont,
que muitas vezes sai à frente do jornal local nos assuntos mais importantes, porque o jornal local
não é controlado por uma empresa muito ligada em jornalismo. A ameaça que deveria estar
causando mais preocupação aos jornalistas não é uma ameaça jornalística – é econômica. A receita
publicitária está migrando rapidamente para sites como craigslist e eBay, que, se pararmos para
pensar, é a maior estrutura de anúncios classificados do mundo. O Craig por trás do craigslist é
amigo meu, e está bastante preocupado com o que está acontecendo; ele está fazendo o que pode
para promover bom jornalismo. A publicação on-line Oh My News, de Seul, na Coréia, também é
muito fascinante. Conta com 40 mil jornalistas cidadãos em toda a Coréia, que concordaram em
publicar notas nesse sítio. Possuem editores profissionais que editam os textos a serem publicados,
de forma que é uma estrutura híbrida. É um experimento maravilhoso. Acabaram de lançar o Oh
My News no Japão e pretendem lançar um projeto ambicioso nos EUA.

Organizações estão perguntando ao público o que ele sabe sobre as coisas. Esta é a imagem
canônica que ficou das explosões ocorridas em Londres em julho do ano passado. É desta imagem
que vamos lembrar sempre, a péssima qualidade da imagem, a ausência total de produção, feita por
uma câmera de telefone celular, por uma pessoa que jamais sonhou ser jornalista, mas que cometeu
o que eu chamo de “Um Ato de Jornalismo Aleatório”. Mas as pessoas já fizeram isto antes. Esta
câmera registrou uma das mais famosas imagens de mídia cidadã na história – o assassinato do
Presidente Kennedy. Quero que pensem em um mundo mudado. Havia uma pessoa, munida de uma
câmera, fotografando a cena. Atualmente não é apenas uma – são milhares, todas obtendo imagens
de alta qualidade e todas conectadas à rede. Esta é uma enorme diferença. Atualmente, sabemos
mais. Imaginem se as pessoas a bordo dos aviões naquele 11 de Setembro estivessem
chamando outras pessoas, e enviando vídeos, através de seus telefones celulares? Não tenho certeza
o que isto significará, exceto que é diferente e que precisamos entendê-lo.

O conceito da Web 2.0, de reunir material de vários sítios e serviços, está criando coisas bastante
interessantes, como um modelo de micro-publicação. Sítios e vídeos mashup, que combinam
conteúdo de mais de uma fonte em uma experiência integrada, são algo que as gerações mais jovens
acham bastante natural. Mal posso esperar para ver no que isso vai dar.
É verdade, recebemos um excesso de informações e precisamos encontrar formas de trazer para à
tona as notícias mais importantes, se realmente nos importamos com o jornalismo. Estamos indo do
Daily Me para o Daily Us e é muito importante pensarmos como é a melhor forma de fazer isso.
Você te que pensar em reputação, popularidade e autenticidade para que possamos chegar a algo
que tenha valor, mas ainda não chegamos lá.

Existem algums princípios que devem ser considerados pelos bloggers. A transparência não é uma
coisa muito comum, no antigo ou no novo jornalismo. Todos nós somos repórteres em nossa vida
diária, quando se trata de coisas que nos são importantes. A crítica se tornou parte de nossas
conversas do dia-a-dia, e isto será assustador para o jornalista tradicional. Mas esta nova literatura
da mídia tem que ser incorporada pelo jornalista tradicional.

Ellen Foley: Estou emocionada de estar aqui sentada entre dois grandes nomes do jornalismo. Sou
editora de um jornal em uma cidade bem no meio dos EUA, e nós estamos muitíssimo envolvidos e
interessados na nova mídia e naquilo que nossos leitores têm a dizer. No meio-oeste americano,
estamos preocupados em ser bons vizinhos e emular isso para o nosso jornalismo. Isso pode ter nos
levado à frente de outros jornais que vocês devem ter ouvido falar.

Não estou preocupada com o futuro dos jornais. Estou preocupada com o futuro do jornalismo.
Estou cansada de ouvir que não nos importamos com nossos leitores, de pessoas que não fazem
parte do mundo dos jornais. Respondo todos os e-mails dos leitores.

Quando ainda era uma repórter foca, havia a consciência que deveríamos contar aos nossos leitores
aquilo que eles precisavam, mas frequentemente isso era deixado de lado. É nosso papel
compartilhar as informações, oferecendo não apenas aquilo que acreditamos nossos leitores
precisem, mas também aquilo que eles querem. Portanto, recomendo cautela com aqueles que
afirmam que não damos ouvidos a nossos leitores.

Existe atualmente uma certa tensão entre a tecnologia dos jornais – lenta e ponderada – e a
tecnologia da Iinternet – rápida e conveniente. Tenho um pé em cada um deste mundos. Nosso
jornal está valorizando as notícias da Internet, mas existe tensão entre as gerações. Temos o
problema de recursos limitados, mas vamos destrinchar este novo modelo de negócios. Entre os
interessantes modelos que surgiram recentemente, está jellyfish.com, um grupo muito interessante,
que o Wall Street Journal chamou de o novo Google. Meu jornal tem de trabalhar dentro de seu
orçamento, mas estamos trabalhando com a nova mídia e sendo reconhecidos por este esforço. A
cada dia, fazemos uma votação em nosso sítio, para permitir que os participantes decidam o que vai
ser publicado na primeira página. (outro integrante da mesa-redonda, Alex Beam, ri com bom
humor). Surpreendentemente, optam por temas com mais peso, preferindo uma matéria sobre um
oleoduto da British Petroleum a outra falando sobre Paris Hilton. Os leitores são inteligentes. Já
sabemos disto há algum tempo, e queremos e precisamos ouvir o que eles têm a nos dizer.

Mais uma vez, a missão do jornalista é contar a verdade. Tenho martelado esta idéia com os
redatores de nosso jornal. Jamie Thompson, um pioneiro da pesquisa de células tronco, evitava falar
com a imprensa, temendo que suas palavras fossem distorcidas. Para ouvirmos o que ele tinha a
dizer, utilizamos um gravador digital, para captar exatamente suas próprias palavras.

Os jornais têm também a missão de fazer a diferença. Nós criamos uma conversação com a
comunidade. Em 2004, 81% das pessoas de nossa região votaram nas eleições presidenciais, cerca
de 30% maior que a média do país. Valores e questões controversas vêm à tona através destas
conversações, de forma que seria uma coisa muito triste esta conversação deixar de existir. Não sei
exatamente como os jovens poderão governar-se sem esta conversação. Espero que parte do
dinheiro criado pela tecnologia do século 21 seja utilizada para estimular o bom jornalismo.
Alex Beam: Peço desculpas por ter rido, mas lembrei de algo que havia lido sobre a sabedoria das
multidões. Em partidas de xadrez entre leitores de jornal e campeões soviéticos, leitores sempre
escolhiam os lances mais óbvios, perdendo rapidamente.

Ellen, qual é a penetração do Wisconsin State Journal dentro do perímetro urbano


da cidade de Madison?
Foley: Nós temos cerca de 30% de participação em assinaturas e cerca de 83% entre leitores.
Muitos leitores estão compartilhando o jornal.

Beam: O jornal New York Times é lido em apenas 1/9 dos lares de Manhattan, uma das penetrações
mais baixas em todo o país; por outro lado, é lido em todo o país. No Boston Globe, controlado pelo
New York Times, é difícil decidir se cobrimos assuntos nacionais ou locais. É uma posição difícil –
cobrir a escola do bairro ou o Oriente Médio.

O Boston Globe Web já foi considerado por Bill Gates como sendo um dos melhores dos EUA,
mas atualmente é uma confusão. Acredito que o Wall Street Journal e o New York Times possuem
sítios muito bons na Web. Além disso, o New York Times possui o que eles chamam de Times
Select, que limita o acesso a determinadas matérias a apenas assinantes pagantes. Não há nada de
errado em especial com nosso conteúdo, mas cobrar acesso para uma coluna é um modelo de
negócios complicado. Na verdade, tenho inveja do New York Times. Há cerca de um ano, o Boston
Globe estava pronto para cobrar acesso às matérias do famoso time de baseball local, o Red Sox,
porque havia fãs deste time em todas as partes dos EUA. Não sei porque acabamos desistindo da
idéia.

Os jornais sobreviverão? Há cerca de 15 anos, eu estava conversando com Ellen Goodman, e ela
zombava de um filme que havia dito “Teremos menos leitores, mas melhores”. Sou um pouco
cético em relação aos 'jornalista cidadão', mas sempre estive interessado nos meus leitores. Roubo
idéias deles e eles corrigem meus pontos de vista. Recentemente, a Yahoo contratou um talentoso
vídeo reporter e produziu algumas matérias interessantes, portanto eu os parabenizo. Mas,
francamente, a idéia que o fundador do craigslist, Craig Newmark, tem do jornalismo não é
fantasticamente interessante. Pode ser aceitável ter a palavra direta de um pioneiro na pesquisa de
células tronco, mas ter a mídia direta, sem mediações, de um mentiroso é bem diferente de ouvir as
palavras de alguém academicamente honesto. Este é um momento de transição e, na minha opinião,
ainda não equilibramos muito bem o peso dos leitores e dos profissionais.

David Thorburn: Alguns dados do setor de jornais indicam que em 25 ou 30 anos não haverá mais
ninguém que queira ler jornais. Ellen, você poderia falar um pouco mais sobre os novos modelos de
negócios que estão surgindo?

Foley: Um grupo denominado Newspaper Next passou um ano pesquisando novos modelos de
negócios, e em breve eles revelarão suas conclusões. Cerca de 20% de nossa receita vêm de
circulação, enquanto que os outros 80% vêm de publicidade veiculada no jornal e no sítio na Web.
Para a maioria dos jornais, a Web gera cerca de 5% da receita, ao mesmo tempo que as edições de
domingo são responsáveis por 95% da receita. A vaca leiteira dos jornais dominicais está sendo
ordenhada enquanto os jornais fazem a transição para a nova era. As pessoas que administram a
indústria dos jornais querem ganhar dinheiro, embora espera-se que este não seja seu único
objetivo. Infelizmente, eles vêem a Web como uma oportunidade de ganhar mais dinheiro. Sua
forma de “estoque” é meramente ter mais coisas on-line. A credibilidade das informações será a
principal vantagem competitiva dos jornais. Não estamos dando a devida atenção a isso porque
estamos dando mais atenção ao espaço publicitário. Alguns modelos de negócios, como o craigslist
ou o jellyfish.com oferecem conteúdo, mas não credibilidade. Precisamos manter a vaca leiteira viva
enquanto fazemos essa mudança, mas não sei qual será o novo modelo de negócios.

Gillmor: A má notícia é que a vaca leiteira morreu. Nos últimos 50 anos, os jornais foram
monopólios que ganharam muito dinheiro, e o mercado financeiro de Wall Street exige um aumento
nessa receita. Negócios baseados na Web são ágeis, famintos e estão dispostos a sobreviver com
margens menores. O jornalismo seria uma distração ridícula para estes negócios. Estes negócios
estão roubando anunciantes, que são nossos verdadeiros clientes, do ponto de vista econômico.

Thorburn: Portanto, Dan, o seu recado é que a base econômica dos jornais está desaparecendo. Os
jornais sobreviverão este processo?

Foley: Não penso que esteja acontecendo no ritmo que Dan acredita. Os jornais
estão entendendo a situação, e estão criando conteúdo apenas, exclusivo para a Internet.

Beam: É interessante notar que a Rede Pública de Rádio (NPR) acaba de sofrer uma queda no
número de ouvintes pela primeira vez em anos. Assim como os jornais dominicais, não podem
perder as gerações mais velhas, porque estas são as que doam a maior parte dos recursos. Assim, a
Chicago Public Radio abriu mais uma estação de rádio pública. Seria bom se os jornais pudessem
fazer isto.

Foley: Mas podemos fazer isto. Temos a tecnologia da 'ink-on-paper' (papel eletrônico) e temos a
Web.

Gillmor: Já condicionamos as pessoas a acreditar que as notícias são gratuitas. Porque não ir até o
fim?

Público: Já pensaram em utilizar quadrinhos para aumentar a receita?

Foley: Já pensamos nisto, mas o problema é que não é suficiente para pagar todo o mundo na
redação. Quando tiramos do jornal as cotações da bolsa de valores, cerca de 60 pessoas reclamaram.
Por outro lado, quando nosso editor de destaques substituiu as palavras cruzadas por Sudoku, em
apenas um dia recebemos cerca de 1.000 telefonemas e e-mails. Não é preciso dizer que, no dia
seguinte, as palavras cruzadas estavam de volta.

Acredito que jornais devam ser uma pausa divertida em nosso dia-a-dia. Embora os quadrinhos
sejam uma ótima idéia, na verdade são muito caros. Mesmo aumentando o espaço para quadrinhos
em preto e branco significa que alguma matéria do caderno de negócios, ou do noticiário nacional
ou internacional, terá de ser eliminada.Não estamos considerando aumentar o espaço de quadrinhos
para ampliar o número de nossos leitores.

Público: Sou da Alemanha e, em minha opinião, os jornais europeus tendem a ter


matérias mais educativas que os jornais americanos. Em vez de de tentar alcançar aquilo que seus
leitores querem, já pensaram em tentar ampliar seus horizontes? Um dos aspectos positivos de
reunir informações na Web é que são obtidos pontos de vista muito variados.

Gillmor: Os jornais na Web precisam apontar para fora de seu próprio domínio mais do que fazem
agora. Se os jornais encaminham as pessoas para algo bom, elas tendem a voltar.

Foley: Sítios e jornais precisam dar aos leitores o que eles precisam. Jornais europeus possuem
muitas vozes, de muitos lugares diferentes, mas acredito que, nesse processo, perde-se um senso
comunitário, que é muito importante para os jornais americanos.
Público: Quanto passará dos jornais para a mídia virtual? Não acredito que
jornalismo sem intervenções algum dia substituirá totalmente o jornalismo tradicional, porque a
imprensa traz algum valor além daquilo que é obtido gratuitamente. Vocês poderiam comentar estes
dois aspectos relacionados, porém independentes?

Beam: Ainda não achei o preço final que pode ser cobrado por uma opinião ou uma experiência de
mediação. Já vimos extraordinários exemplos de jornalismo sem mediação, como aquele vídeo do
tsunami, mas ainda estamos tentando nos achar. O New York Times publica e cobra pelo acesso a
matérias de opinião, que são uma combinação de atitude e análise, mas existe muito temor com
relação a quanto podemos cobrar por tal conteúdo.

Thorburn: Os membros de Times Select também têm acesso aos arquivos do New York
Times, que pode ser algo que as pessoas estejam dispostas a pagar, de qualquer
forma.

Foley: A 'família' do New York Times prefere a abordagem da verificação, em vez da afirmação; e
estas matérias com acesso restrito são do tipo afirmação. Os redatores de opinião do New York
Times dependem de fatos verificáveis, algo que alguns bloggers não fazem. Os jornais, em seu
formato físico, são úteis por vários motivos, além de informações. São portáteis e fáceis de ler, mas
realmente não sei por quanto tempo ainda estaremos interessados na antiga tecnologia do jornal.

Thorburn: Livros, uma grande forma de tecnologia antiga, ainda são preferidos pela sua facilidade
de uso e portabilidade. Ainda demorará muito até que esta conveniência possa ser encontrada nos
jornais on-line.

Gillmor: Não sei exatamente quando os jornais on-line serão flexíveis e portáteis, mas algum dia
isto acontecerá.

Fico incomodado pelo fato de bloggers escreverem opiniões sem basear-se em fatos confiáveis.
Contudo, alguns bloggers utilizam mais fatos que os redatores das mídias tradicionais.
Logicamente, esses bloggers possuem conhecimento em um campo bastante específico, mas
escrevem para leigos, não para outros especialistas.

Público: Leio o Boston Globe apenas aos domingos, e não compro jornais em busca
da verdade. Seria melhor se os jornalistas parassem de buscar a verdade e procurassem ser mais
precisos e verificáveis.

Beam: Não uso a palavra “verdade”. Busco acurácia.

Gillmor: Quando leio um artigo no jornal, meu nível de ceticismo é menor que quando leio um
blog. Contudo, gostaria que os jornais respondessem com mais freqüência “isto é balela”, quando
um entrevistado fala determinada mentira. O medidor de asneiras de um jornalista precisa estar
ajustado em níveis diferentes para cada entrevista.

Foley: Gostaria de contar uma estória, para ilustrar este ponto. O candidato da oposição na corrida
ao governo do estado do Wisconsin é contra a pesquisa com células tronco. Ele declarou que doaria
US$25 milhões para o esforço de criar células tronco sem utilizar células de um embrião. Não há
ninguém fazendo este tipo de pesquisa. Simplesmente não é possível atualmente. Foi um argumento
totalmente infundado.

O jornalismo costumava ser muito ele disse, ela disse. Colocar o contexto num artigo é algo que
estamos trabalhando duro para fazer.
Público: Por que a maior parte dos jornais atualmente permite livre acesso a seu conteúdo na Web
e cobra pelas edições impressas? Então cobram pelo acesso ao mesmo conteúdo on-line no dia
seguinte.

Beam: Não sei se algum de nós aqui sabe a resposta a esta pergunta, porque demanda uma análise
de negócios sofisticada; mas talvez seja a forma de ganhar mais dinheiro.

Gillmor: Este é um grande centro de lucros para o New York Times; contudo, para
jornais mais regionais, se cada artigo em seus arquivos tivesse um permalink, eles subiriam nos
rankings to Google e aumentariam sua receita. Não acredito que muitos jornais se dariam mal
seguindo este caminho.

Público (continuação): A minha sugestão é cobrar pelo conteúdo do dia na Web e deixá-lo
disponível a partir do dia seguinte. Arquivar artigos deixa o trabalho dos redatores
desnecessariamente inacessível.

Gillmor: A presença repetida de um jornal nas buscas da Web, na qualidade de uma voz de
autoridade e de história, deve ter mais valor que a cobrança pelo material em arquivo. Os jornais
regionais e locais deveriam tirar proveito disto.

Foley: Em nome dos jornais regionais do país, posso dizer que um dos nossos maiores problemas
atualmente é que as edições em arquivo estão em microfilme, não on-line. Custaria para nós mais de
um milhão de dólares para digitalizar nossos arquivos. É difícil eu tentar convencer nosso editor
chefe dessa necessidade, quando ele está tentando ganhar dinheiro e equilibrar as contas.

Público: Sou um repórter de jornal, e gostaria de saber se a concentração em


notícias hiper-locais irá salvar os jornais?

Foley: Isto nos leva de volta a dar às pessoas aquilo que elas querem e precisam. As pessoas fora
das grandes áreas metropolitanas querem notícias locais, mas é caro para os jornais metropolitanos
equilibrar essas notícias locais com a cobertura da cidade. Jornais comunitários semanais estão
ganhando dos grandes jornais metropolitanos porque oferecem notícias locais. O Wisconsin
State Journal está utilizando páginas comunitárias na Web para publicar as informações geradas
pelos cidadãos. Na cidade de Fort Meyers, existe um jornal que conta com jornalistas móveis,
apelidados de mojos, que escrevem blogs sobre qualquer coisa, de jantares paroquiais a acidentes de
trânsito. Não fica muito claro se essas informações são confirmáveis, mas possivelmente é o futuro
de nosso negócio.

Público: Estou estudando jornalismo e gostaria de saber o que vocês acham que as faculdades de
jornalismo deveriam estar ensinando a seus alunos.

Foley: Tenho mestrado em jornalismo da Universidade de Wisconsin, mas nada daquilo que sei
sobre jornalismo aprendi na escola. Aprendi jornalismo trabalhando, com a ajuda de mentores e
patrões.

Gillmor: Acredito que as melhores faculdades de jornalismo oferecem uma excelente formação em
ciências humanas. Os estudantes deveriam sair da faculdade dispostos a desafiar premissas, fazer
perguntas, e ser muito curiosos. Qualquer pessoa pode aprender a escrever uma matéria e entender a
ética do negócio, mas todos os jornalistas deveriam estar ansiosos para ter um diálogo com seus
leitores.
Beam: Para mim, foi emocionante ir trabalhar para um jornal diário, porque as pessoas de fato lêem
aquilo que você escreve. Foi fantástico aprender o que realmente é o jornalismo aos 32 anos. Basta
você ir trabalhar para o Cape Cod Times, e você saberá tudo sobre jornalismo em duas semanas.

Público: Vamos assumir que os jornais não sobreviverão. Qual será o prejuízo ao público ou à
nossa democracia, e como podemos medir tal prejuízo? Os cidadãos realmente ficarão menos
informados? Em 1992, cerca de 47% dos adultos tinham dificuldade em ler. Estes números não
melhoraram nos últimos 13 anos. Se os jornais sobreviverem, como eles serão em cinco a dez anos?
Quais serão as suas qualidades? Gostaria, também, de fazer uma observação sobre o Times Select.
Ao restringir acesso a uma opinião de qualidade, a capacidade de um colunista alcançar e persuadir
uma audiência mais ampla será limitada, ao estabelecer um viés de classe social.

Gillmor: Já existe um viés de classe social nos jornais, porque eles estão voltados aos dois quintos
superiores da população. A sobrevivência do jornal nada fará para a população que integra os três
quintos inferiores.

Foley: Encontramos a mesma situação na Web por causa da 'dívida digital' As famílias mais
pobres não têm dinheiro para comprar as tecnologias que lhes darão acesso a essas informações.

Gillmor: Assumo que esses equipamentos ficarão acessíveis a todos, algum dia. Mas o problema
maior é que não estamos educando as crianças em nosso país. A mídia tradicional não está
interessada em qualquer pessoa abaixo daqueles dois quintos superiores da população, porque os
anunciantes também não estão interessados nesses segmentos. Seria trágico se o que os jornais
fazem desaparecesse e acredito que isso não vai acontecer.

Foley: Somos uma mídia com ampla base, e criamos uma conversa que é muito benéfica a nossa
comunidade. Se desaparecermos, isso também será perdido.

Audiocast
An audio recording of The Emergence of Citizens' Media is now available.
In order to listen to the archived audiocast, you can install RealOne Player. A
free download is available at http://www.real.com/realone/index.html .
Webcast
A webcast of The Emergence of Citizens' Media will be made available by MIT