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m

CONVITE À CIÊNCIA

*
Coleção

Enciclopédia de Conhecimentos Fundamentais


Sob a direção de Mário Ferreira dos Santos

m
1) CONVITE À CIÊNCIA I — de Júlio Minhan

2) CONVITE À CIÊNCIA II — de Júlio Minhan

3) CONVITEÀ CIÊNCIA III — de Júlio Minhan

4) CONVITE À CIÊNCIA IV — de Yolanda Lhullier


dos Santos

5) CONVITE À FILOSOFIA — de Mário Ferreira dos


Santos
i
6) CONVITE À PSICOLOGIA PRÁTICA — de Mário
Ferreira dos Santos

7) CONVITE À ESTÉTICA E À DANÇA — de Mário


Ferreira dos Santos e Nádia Santos Nunes Galvão

8) CONVITE À HISTÓRIA I — de Yolanda Lhullier dos


Santos

9) CONVITE À HISTÓRIA II — de Yolanda Lhullier dos


Santos
ENCICLOPÉDIA DE CONHECIMENTOS
FUNDAMENTAIS

IV

CONVITE
À

CIÊNCIA
4 .° V o l u m e

DE

YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

L iv k a r ia e LOGOS L t d a .
E d it ô r a
Rua 15 de Novembro, 137 — 8.° andar — Tel.: 35-6080
SÃO P A U L O
l.a edição, agosto de 1961

TODOS OS DIREITOS R E S E R V A D O S
Livro impresso para a Livraria e Editôra LOGOS Ltda.,
pela Gráfica e Editôra MINOX Ltda, rua Mazzini, 167,
São Paulo, em agosto de 1961
»

ÍNDICE

Os Povos e Seu Ambiente .................................. 11


Os Povos e Suas Necessidades ...................................................... 19
A Necessidade de Defesa ...................................... 25
A Ascensão Intelectual da Humanidade ..................................... 29
Povos Americanos . . ....................... 49
Como se Povoaram as Américas ................................................... 63
Mas Quem Era o Habitante da América ................................... 65
A Atlântida Submersa ............................................ 71
Parte Antológica ............................................... . ................... 77
O Império Incaico .................................... 79
As Culturas Asteca e Maia ............................................................ 111
A Descoberta do «Rio das Amazonas» ....................................... 129
A Lenda das Amazonas ................................... |§j............................ 130
O Mistério Amazonense ............................................ 132
O Talismã Verde ..................... 135
As Amazonas ..................................................................................... 137
Etnografia Brasileira do Século XIX ........................................... 140
Primeiros Cronistas . ........................................................................ 142
Um Viajante Francês do Século XVI ........................................... 146
Arqueologia Marajoara ........... 147
A Mulher de Aruaque ...................................................................... 150
O Mistério de Jurupari ................................... - ............................... 151
Grupos Lingüísticos Brasileiros ...................................................... 155
Os Tupis-Guaranis e Suas Migrações ........................................... 157
Folclore Diluviano ........ *............ 158
As Lendas e a Busca do Ouro ................................................. 167
A Escravatura Indígena .................................................................. 170
A Influência do Indígena ................................................................ 172
Parte Antológica ................................................................................ 175
Mito e Religião ................................................................................... 177
Totemismo ........................................................................................... 183
Aspectos do Problema Totêmico . . . : ............................................. 184
A Cerimônia do Kuarup Entre os índios do Alto Xingu . . . . 191
A Manifestação Artística Entre as Tribos do Alto Xingu . . . 203
A Cerâmica nas Tribos do Xingu ......... 215
OS POVOS E SEU AMBIENTE

Os diferentes grupos humanos apresentam maior ou


menor amplitude, peculiaridades diversas, ao mesmo tempo
que vivem distribuídos pela Terra. A Etnografia é a dis­
ciplina do conhecimento humano que estuda êsses aspectos.
O vocábulo é formado de ethnos, palavra grega, que signi­
fica povo, e graphia do verbo graphein, que significa des­
crição. Assim, a etnografia é a disciplina que descreve os
povos em suas peculiaridades, não só internas como exter­
nas. No entanto, se assim a definíssemos, cometeríamos
um êrro, porque a palavra povo está sujeita a equívocos, e
nosso dever é evitá-los.
É que se emprega a palavra povo, muitas vêzes em sen­
tido translatício, isto é, aplica-se à parte ou a um todo, sem
bem especificar-se o que realmente é povo para a Etno­
grafia.
Para a Etnografia, povo é uma associação completa
e autárquica (com direção própria) de múltiplas funções
sociais que se afiguram, em si, como totalidade. Primiti­
vamente, essa totalidade era muito pouco diferenciada, po­
rém, mesmo assim, era uma totalidade, por que se manifesta
de maneira autárquica. Essa é a definição de DUNK-
MANN.
Dessa forma, para haver um povo, são imprescindíveis
as seguintes condições: l.a — associação completa; 2.a —
autarquia e 3.a — coesão, gradativamente maior ou menor.
A coesão, a coerência na formação dessa associação nos é
revelada pelos costumes, pelas regras de comportamento,
pela moral, pelo direito, etc. Tais aspectos são, entre ou­
tros, temas da Etnografia. *
Mostram-nos os povos uma grande variedade, e dife­
renças até extremas. A Etnografia procura estudá-las
12 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

através de seus graus, e não se atém apenas em descrever


essas diferenças e peculiaridades, mas, também, em revelar
os aspectos invariantes e constantes; isto é, aquêles que se
dão em todos os povos e os que se dão particularmente em
alguns. Dessa forma, o estudo, que ora empreendemos, in­
vade também o terreno da Sociologia, da História e, sobre­
tudo, da Etnologia, que é propriamente o estudo das raças.
Tem assim esta ciência um amplo campo de ação. E
não é só. Tem também seu "universo de discurso” , ou seja,
têrmos que significam conceitos, categorias, gêneros, tais
como povo, raça, costumes, cultura, população, etc., que exi­
gem estudos especiais. E se aí ficássemos, não teríamos,
nem de leve, esgotado o campo de nosso estudo, pois, nêle, de­
vem inchiir-se classificações etnográficas, comparar entre si
os agrupamentos humanos coerentes, revelar svm analogias,
estudar as conexões que se formam entre êles, as peculiari­
dades internas e externas, as qualidades corporais, a lín­
gua, os graus de cultura, a origem e o desenvolvimento dês-
ses povos; que leis gerais regem a coexistência dos mesmos,
o crescimento, o desaparecimento, e as causas que os con­
dicionam.
Contudo, impõe-se desde logo um reparo importante:
não se devem considerar como povos apenas aquelas popu­
lações delimitadas dentro do âmbito político-econômico do
Estado. Há povos que não se cingem ao campo geográfico-
-político, e temos o exemplo do povo judeu, dos ciganos, de
muitos agrupamentos nômades e errantes.
A Etnografia é uma ciência nova; mas são tantas as
suas conquistas obtidas nestes últimos anos, tamianho o seu
cabedal de conhecimentos, que já permite a construção em
linhas seguras, de teorias bem ordenadas, de hipóteses bem
fundadas e de amplo alcance. É natural, também, que em­
bora os temas, que compõem a sua esfera, tenham merecido
a atenção dos estudiosos, em todos os tempos, só em nossos
dias alcançassem o valor que desfrutam. É que a nossa era,
dispondo dos meios de que dispõe, que seria inútil descrever
aqui, está apta a um estudo bem coordenado da vida dos
diversos povos.
As investigações que ultimamente têm sido empreendi­
das, feitas sob base e rigor científicos, permitiram-nos en­
riquecer o nosso cabedal de conhecimentos. É bem verdade
CONVITE à c i ê n c i a 13

Um indigefWL já civilizado, colhendo coco


14 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

que dispúnhamos de trabalhos feitos pelos gregos, as famo­


sas viagens de Heródoto, as descrições de Marco Polo e de
Fernão Mendes Pinto, as de Cieza de León, e as ligadas às
grandes descobertas de Dias, Vasco da Gama, Cristóvão Co­
lombo, Magalhães e outros. Por outro lado, dispõe a Etno­
grafia dos dados oferecidos pelos viajantes, que percorriam
os diversos povos do inundo, na intenção, naturalmente, de
obter grandes lucros nas suas transações, e das declarações
dos sacerdotes das diversas religiões, que descrevem em
suas obras a vida e os costumes dos diversos povos.
Procura a Etnografia, em seus estudos, revelar, apon­
tar, e descobrir certas constantes, certos postulados, que são
invariantes no desenvolvimento dos povos. Partindo dêsses
pontos básicos, e sobre êles se sustentando, quer ela cons­
truir seu amplo edifício. Por isso, não são alheias à Etno­
grafia temas como o da evolução dos povos. Nesse amplo
setor, procuram-se distinguir as diferenças de grau de de­
senvolvimento cultural desde os povos mais "atrasados” até
os mais adiantados. A s culturas pouco desenvolvidas de
alguns aglomerados humanos são examinadas como condi­
cionadas pelas condições materiais ou espirituais dêsses
povos. Por outro lado, há certos paralelos que não podem
ser desprezados nem subestimados. Há inventos semelhan­
tes que surgem em regiões colocadas em extremos do mundo,
sem que se saiba de uma comunicação entre elas. Muitas
teorias surgem, então, para explicar tais fatos, e não pode
a Etnografia ser alheia aos problemas que êles oferecem.
Além dêsses, a vida étnica se desenvolve dentro de certas
coordenadas que exercem sua ação importante e em muitos
casos são elas decisivas, atuando como verdadeiras.
Entre essas forças, logo ressalta aos nossos olhos o meio
ambiente. Os animais, como o homem, são inseparáveis do
meio ambiente. Mas, enquanto os animais têm um meio
ambiente específico, o homem apresenta um espetáculo iné­
dito na natureza. É que o homem é um dominador, um
adaptador do ambiente. O que se observa nos animais, em
determinadas condições, é a sua ação coletiva na luta pela
existência. Igualmente se verifica no homem a mesma ne­
cessidade de apelai? ao social para sobreviver. É caracte­
rística de todos os animais bissexuados, isto é, que têm in­
divíduos de um e de outro sexo, unirem-se, apoiarem-se
CONVITE À CIÊNCIA 15

mutuamente, para sobreviverem. Êsse apoio, que nos ani­


mais oferece graus diversos, nos homens é elevado, pois que
seus rebentos exigem uma educação mais prolongada (edu-
cere, significa dirigir de fora ). O homem, até os dezesseis
anos, exige o apoio de seus progenitores. O desenvolvimen­
to do homem é lento, o que não se verifica em igual propor­
ção nos animais.
Outra observação que logo ressalta é a quantidade dos
indivíduos de um povo atuando sobre o desenvolvimento de
suas possibilidades. As condições exteriores atuam forte­
mente, e merecem elas um estudo genérico especial para
bem compreendermos o desenvolvimento dêsses agrupamen­
tos. Nunca, porém, deveremos esquecer que os elementos
internos (espiritual-anímicos) influem sobremaneira, in-
teratuando-se com aquêles. Em outras palavras: as condi­
ções exteriores atuam e são atuadas pelas condições inte­
riores, e dessa mútua interatuação sobrevêm desenvolvi­
mentos variados. Vamos chamar a essas condições de
fatores (palavra que significa fa zed ores), e chamemo-los de
fatores internos e externos. Passemos a examiná-los.
Inclui-se na denominação de ambiente uma série de
energias e condições externas, assim como o clima, a estru­
tura do território, a situação geográfica, as relações e pos­
sibilidades reais econômicas, incluindo as condições de ali­
mentação. Temos aqui os fatores de ordem geográfica,
mas, além dêsses, funcionam também os fatores que cons­
tituem o ambiente cultural, e, entre êstes, o desenvolvimento
anímico-espiritual do agrupamento, seus conhecimentos
adquiridos pela experiência ou por tradição.
É comum afirmarem uns que o homem depende apenas
do ambiente geográfico, e outros apenas do ambiente cul­
tural. Tais tomadas de posição são meramente abstratas,
porque subestimam outras. Há influência evolutiva dos fa­
tores geográficos, mas também dos culturais, que se in~
teratuam. Êsses fatores geográficos são mais eficientes
quanto aos animais; são, pois, decisivos; mas quanto ao ho­
mem não devemos esquecer sua capacidade de transforma­
ção do meio ambiente, sua força de modelação, de domínio,
que se exerce com a finalidade de modificar o meio, porque
o homem tem espírito, isto é, o conjunto de funções supe­
riores, entre elas a inteligência, que lhe permite atuar como
16 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

fator no meio ambiente, ser causa também, e não meramente


efeito.
É o clima um dos fatores mais importantes, porque o
homem precisa albergar-se, vestir-se, criar para si meios
que lhe permitam viver no mundo ambiente. Os povos das
regiões árticas, como os esquimós, são submetidos totalmen­
te às condições do clima. Nos climas tropicais, o relaxa­
mento é maior, porque a atividade é cansativa. Na agri­
cultura, o clima é importante, influindo decisivamente sobre
o desenvolvimento dos povos. As condições territoriais são
também importantes, porque a população de uma ilha, ou
de uma costa, de uma montanha, ou de uma planície, ou de
um bosque, oferecem características diferentes. A ausência
de rios ou a sua abundância, a fertilidade do solo, as con­
dições da fauna e da flora influem nas formas de vida e de
economia dos diversos povos.

As condições do mundo vegetal são também de grande


importância. Os selvagens, em geral, buscam os bosques
para seu esconderijo e albergue, onde vive a maioria dêsses
povos. Além disso, o mundo vegetal oferece grande quan­
tidade de alimentos ao homem. Mas nem sempre o mundo
vegetal é suficiente, tendo o homem necessidade de procurar
alimentos no mundo animal, através da recoleção, da pesca,
da caça, e, nas formas mais avançadas, na criação de ani­
mais domésticos.

Os povos criadores e cavaleiros conhecem uma situação


econômica mais estável, porque têm alimento mais seguro
e uma ordem de vida mais sólida. Emigram segundo a ne­
cessidade de alimento dos seus rebanhos. Constituem sem­
pre organizações sólidas, de grande energia política e de
maior requinte intelectual. A ausência de animais domes­
ticáveis no hemisfério ocidental é considerado o motivo do
desenvolvimento desigual que se deu entre as culturas dos
dois hemisférios.

A influência dos animais na vida humana é imensa,


porque não servem somente de alimento, mas de compa­
nheiros, colaboradores do homem, como animais de carga,
como os lhamas, o asno, o cavalo e o camelo.
CONVITE À CIÊNCIA 17

Também as condições minerais são fatores para o de­


senvolvimento dos povos. A existência da argila permite
a formação da cerâmica.
Na Polinésia, não há cerâmica, porque não há argila.
As jazidas de sal são importantes na formação dos povos.
Para o desenvolvimento de sua cultura, de sua arte, as ter­
ras de várias cores permitem as ornamentações. Os metais,
como o cobre, o estanho, o ferro, o ouro, a prata, os vidros
dos vulcões, as pedras preciosas, os cristais, as rochas, têm
interferência direta no desenvolvimento dos povos. Muitas
lutas, muitas migrações surgem e se desenvolvem em con­
seqüência da falta dêsses elementos ou do desejo de possuí­
dos.
Grandes também são as influências de ordem meramen­
te cultural. O contacto entre os povos, a troca de conheci­
mentos, de experiências adquiridas, dêsse saber fundado na
experiência, permite o desenvolvimento das culturas inci­
pientes dos povos, como também das culturas mais desenvol­
vidas. Amplas e variadas são as formas em que se proces­
sam êsses contactos, temas da Sociologia e também da His­
tória. Entre êles, temos os provenientes do comércio, das
simples trocas, da troca de mulheres, do rapto de crianças
e mulheres. Os povos, que vivem isolados, têm conhecido
pouco progresso, enquanto e mais geral encontrar-se o de­
senvolvimento acentuado entre os povos que mantêm rela­
ções comerciais mais estreitas com outros.

Distinguem-se os povos pela sua constituição étnica,


racial. Estas qualidades têm sua influência no desenvolvi­
mento cultural e atuam como fatores importantes, ao lado
das condições psicológicas dos diversos povos, da influência
que exercem a sensibilidade, os excessos (a embriaguez, os
excessos sexuais, etc.), o caráter, o desenvolvimento dos
afectos, as concepções religiosas, as opiniões e preconceitos
formados.
Também fatores sociais exercem sua grande influência,
tais como a divisão do trabalho, que decorre das possibili­
dades quantitativas do agrupamento, da forma de produção,
do aproveitamento das mulheres, como também o número
de indivíduos, que permite o maior desenvolvimento ou não
do agrupamento, e que leva a considerar a conveniência ou
não do aumento da natalidade, o que condiciona certos méto­
18 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

dos cruéis de liquidação dos anciãos, das crianças, quando as


condições econômicas não são favoráveis, e põem em perigo
a vida do agrupamento. Fundadas em todos êsses elemen­
tos, que ora se acabaram de examinar e estudar, têm-se as
bàses para penetrar no estudo propriamente da Etnografia
e da Etnologia, acentuando-os, quando necessários, à me­
lhor compreensão dos fatos que pertencem ao grande cam­
po dessas duas disciplinas, que são tão necessárias para a
formação de uma visão concreta dos grandes problemas po­
lítico-sociais e de melhor compreensão e de amor pelo
homem.
OS POVOS E SUAS NECESSIDADES

Se passarmos os olhos pelos povos pré-alfabetos (não


possuidores da escrita) e primitivos que ainda existem no
mundo, o que logo nos ressalta é a imensa variedade étnica.
No entanto, apesar dessa variedade, percebe-se desde logo
existir um certo número de traços comuns ou afins, que de­
correm da coexistência dêles.
Todos os homens têm necessidades naturais que preci­
sam ser satisfeitas, aplacadas, sob pena de perecerem ou de
sofrerem. Comem, bebem, amam e procriam, precisam de
abrigos para o corpo, de albergues para as noites, defen­
dem-se dos perigos e, finalmente, envelhecem e morrem.
Para atender tais necessidades desenvolvem um esforço, um
trabalho variado, e que se diversifica segundo as peculia­
ridades dos diversos povos.
Graças ao estudo que se faz sobre êsse trabalho e sua
diversidade, pode-se perfeitamente aquilatar o grau de de­
senvolvimento dêsse povo. E os etnógrafos, graças às des­
cobertas feitas sobre as formas dêsse trabalho, estão aptos
a assegurar as condições de vida dos diversos povos, bem
como as épocas a que pertencem. Não satisfazem o homem
apenas necessidades físicas, mas também as de ordem espi­
ritual. Êsse acervo imenso oferece ao etnólogo grande cam­
po para as suas observações e, entre êsses elementos, pode­
mos considerar toda a obra cultural, como a religião e a
arte, a língua, os conhecimentos técnicos e finalmente a es­
crita.
As manifestações vitais dos homens em todas as lati­
tudes são idênticas. Mas toda manifestação vital do homem
depende da coexistência do grupo, e encontra na colectivi-
dade satisfação aos seus desejos. Suas necessidades são
satisfeitas dentro do grupo social ou dêle sofre influência,
20 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

como a união sexual, a alimentação. Passemos a examinar,


por exemplo, a alimentação.
Na sua fase primitiva, mais rudimentar, desenvolve o
homem uma actividade colectora, quer dizer, o homem dis­
põe apenas das reservas da natureza, que lhe oferece plan­
tas, animais, rios, e o m ar... Recolhe do meio ambiente o
que êste lhe oferece para atender às suas necessidades.
Nesta fase, há um período mais elevado, quando as tribos,
já sedentárias, aproveitam certas árvores, como por exem­
plo, as palmeiras, que oferecem uma alimentação inesgotá­
vel durante o ano, como o melhor fornecedor de alimentos.
A nossa selva, no Brasil, oferece aos nossos indígenas gran­
de número de árvores frutíferas que permitem uma alimen­
tação mais ou menos regular.
A recolecçâo dos frutos das árvores permitiu, com o
tempo, a formação da arboricultura entre os povos sedentá­
rios e, posteriormente, a agricultura regularizada dos povos
já fixados num determinado território, a qual é antecedida
pela recolecçâo de sementes. Coube à mulher êste trabalho
de recolecçâo. Assim, pode dizer-se que a agricultura nas­
ceu da mulher, e está profundamente ligada à mulher, o que
vem explicar certos cultos agrários, que se observam nas
diversas religiões.
Além dos alimentos vegetais, oferece a Natureza ao ho­
mem os alimentos animais. Os nossos conhecimentos per-
mitem-nos estabelecer que o homem foi, em todas as épocas,
omnívoro, chegando até em certas ocasiões a praticar o ca­
nibalismo. Através da caça, capturava o animal, cuja carne
lhe parecia comestível e às margens do mar, ao alcance da
mão, encontrava grandes quantidades de mariscos. Em fa ­
ses mais elevadas, organiza a caça e a pesca regulares.
Finalmente, em fases mais evoluídas, consegue o homem
dominar certos tipos de animais, tornando-os mais aptos à
satisfação de suas necessidades, como, por exemplo, o gado.
Em certas circunstâncias, observa-se uma alimentação
eventual quanto a alguns bens alimentícios, que se mani­
festam sob a forma de abstinências ou jejuns prolongados.
Muitas vêzes, essas abstinências decorrem da ausência do
alimento em determinadas regiões. E o prolongamento da
abstinência correspondente leva muitos povos a estabelecer
restrições ao uso dêsse alimento, quando encontrado, o qual
CONVITE À CIÊNCIA 21

«e torna, ou melhor, é considerado prejudicial e, portanto,


é proibido o seu uso. Obedecendo a motivos de índole re­
ligiosa, êsses costumes terminam por se transformarem em
verdadeiros "pecados” , resultando daí, certos tabus.
Uma das maiores necessidades do homem é a satisfa­
ção da sêde, e daí ser a preocupação pela água potável tão
importante na vidá dos povos, sobretudo naquelas regiões

Kwakintl Islander e sua mulher. Típicos do E streito de


Suatsino, da Ilha de Vancouver, Colômbia Britânica.
22 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

onde ela é escassa. A obtenção da água nessas regiões tor-


na-se difícil, o que leva os homens a empregarem disposi­
tivos dos mais variados, tais como poços, aproveitamento
do rocio, acumulação de águas nos troncos, das árvores, a
utilização de odres, o seguimento dos animais sedentos.
Tem o homem necessidade de descanso, o que o leva a
dormir durante a noite, e assim como os animais procuram
lugares albergados para pernoitar, também o homem se vê
forçado a construir albergues onde possa passar a noite.
Segundo as influências climatéricas, êsses albergues vão
sofrendo profundas modificações. Um dos problemas maio­
res para o homem, durante o sono, é a perda de calor, o
que levou os primitivos a dormirem juntos, a fim de con­
servarem o calor, ou sobre cinzas ainda quentes. Aprovei­
tou o homem, em fases primitivas, os albergues que a na­
tureza lhe oferecia, como árvores, cavernas. A construção
de choças e de casas só veio muito depois, e elas correspon­
dem aos elementos que dispõe a natureza. O homem sem­
pre procura proteger-se da melhor maneira possível.
t Os estudos da Etnologia nos levam a compreender que
antes do homem procurar cobrir a sua nudez, usou o adorno.
Os povos nus, ou quase nus, usam ornamentos. Entretanto,
dada a influência do tempo, são obrigados a cobrir o corpo
para resguardá-lo. Assim os esquimós envolvem-se em
grossas peles quando ao ar livre. Mas, em suas cabanas
de neve, desnudam-se completamente. A indumentária na­
da tem de ver com o pudor, que é um sentimento posterior
dos homens, mas surge apenas para atender às necessida­
des do corpo humano. É natural que a indumentária varie
segundo os povos e as regiões do mundo. Assim, nos tró­
picos, o homem apresenta-se mais desnudo, enquanto nas
regiões subtropicais envolve o seu corpo com meios que o
defendam das intempéries. Assim, também, os materiais
indumentários empregados dependem da situação econômica
dos povos e das condições ambientais.
Pelo adorno pode o homem distinguir-se dos outros, e
êsses adornos serviam para ornamento pessoal, como para
declarar a importância de quem o usava. O uso de tatua­
gens e desenhos de cicatrizes, como a pintura da pele têm
como finalidade uma significação ornamental ou como dis­
tintivo de tribo ou como insígnia religiosa. Também o
CONVITE À CIÊNCIA 23

penteado é objeto de cuidado e tem o papel ornamental.


uHavam, assim, adornos em certas partes do corpo, como
o nariz, os lábios, as orelhas e sobretudo nas cabeças. É
interessante observar-se que entre os povos primitivos são
precisamente os homens que se adornam mais que as mu­
lheres.
Para a sua defesa, sendo o homem um animal que dis­
põe de poucos meios naturais, teve de usar outros, apro­
veitando o meio ambiente. O primeiro meio de defesa do
homem foi a pedra, cuja obtenção estava ao alcance da mão,
ou o ramo de árvore, que até os símios superiores usam em
caso de necessidade. Com o tempo, essas armas desenvol-
veram-se e serviram não só para serem arrojadas como para
a defesa. São várias as armas mais evoluídas que se en­
contram nos povos, como a maça, os paus, as flechas, as
bolas, os laços, sendo entre êsses, dos mais elevados, o arco
e a flecha e a cerbatana, usada pelos indígenas do Boméu.
Para a defesa do corpo, os homens primitivos começaram
a construir escudos de diversas maneiras, ora de madeira
ou de fios oferecidos pelas árvores, e só posteriormente, em
fases mais elevadas, é que o metal passa a ser utilizado partf
a construção dêsses escudos.
A NECESSIDADE DE DEFESA

A necessidade de defesa, de armazenar as colheitas e


a ânsia de convívio obrigaram os homens do passado a reu-
nirem-se em tribos e povoações, que foram fundando, umas
após as outras, à medida que as famílias cresciam:. Como
essas comunidades existiam em função de defesa e comér­
cio, submetiam-se à que escolhiam como capital da região
ou das tribos que essa região integravam. Era natural que
nesta conjetura surgisse o chefe, que quase sempre se des­
tacava no conselho dos anciães como o mais experimentado,

Indígena brasileira

mais inteligente ou o mais forte. Êste conjunto de povoa­


ções ou tribos em torno da cidade capital, tinha, como é ló­
gico supor, extensão variada. Como essa obediência, a
mascote ou "totem de um clã, passou a ser primeiramente
o deus da fortaleza, e depois, da cidade que governava todas
as outras — era o deus da nação.
26 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Com o advento de uma religião coletiva teve iníeio a


diferença de obrigações e a definição de responsabilidades.
A autoridade que fora privilégio do pai ou da mãe (con­
forme o clã praticasse o patriarcado ou o matriarcado) pas­
sou para as mãos do chefe, senhor, príncipe ou rei por todos
«leito e respeitado.
Mesmo assim, a essência do poder nem sempre foi
absoluta. Os povos, ao elegerem seus condutores, faziam-no
(quase sempre), reservando-se o direito de destituí-lo se
. não correspondesse à expectativa.

Um totem, indígena

Desta forma, desde o quaternário, viveu o homem em


agrupamentos que chamou de vilas, ou cidades, espalhadas
pelo mundo inteiro, menos na América é claro, pois foi po­
voada depois de as tribos primitivas se terem organizado
em nações.
A primeira região realmente propícia à vida social
mais avançada foi a que fica situada entre os rios Nilo,
Eufrates e Tigris; ou seja, a faixa que começando na Áfri­
CONVITE À CIÊNCIA 27

ca do Norte, desde o delta do Nilo, se estende pela Ásia


Menor até à Mesopotâmia.
A retirada do que em Geologia se chamou o "mar do
plioceno” , deixou muitos lagos e pôs a sêco um planalto cal-
cáreo do Atlântico ao Golfo Pérsico.
A unidade física e geológica e a fertilidade do solo,
muito influíram nos destinos dos primitivos habitantes do
que hoje chamamos Próximo Oriente.
Após a retirada do mar plioceno, as águas pluviais do
centro da África e as que desciam dos Montes Urais, rom­
peram os diques e começaram a correr quase em linha reta,
como as do Nilo, ou sinuosas como as do Tígris e Eufrates.

VÊNUS DE WILLENDORF — Achada nas


redondezas da aldeia alemã do mesmo nome.

Quando os grupos primitivos atingiram êste vale, como


que adrede preparado durante milênios, com essas bacias
que, no conjunto, dependentes uma das outras,- repartiram
as águas, forçou a solidariedade dos grupos entre si e como
era de esperar-se, com esta concórdia social nasceram as
nações. Êsses primitivos habitantes para seu próprio bem
e harmonia tiveram de aceitar uma disciplina recíproca
28 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

para a execução de obras protetoras, diques, drenas, canais


para um aproveitamento equitativo das águas, permitindo,
assim, irrigar a maior extensão possível.
Um complexo de fatores convidava a expansão social:
clima ótimo, sêco, sol fecundante, noites frescas, orvalho
abundante e a fertilidade que anualmente o lodo dêsses rios,
especialmente o Nilo, deixava nas terras cultiváveis após as
cheias. A chuva abundante e pontual, que irrigava as ter­
ras, que as águas dos rios não atingiam, foi outro fator que
permitiu os produtos agro-pecuários.obrigarem essas popu­
lações a "colarem-se” à terra.
O progresso rápido quase nem permitiu a transição do
mesolítico. Neste período, o culto dos mortos tomou gran­
de incremento.
No neolítico surgiram os primeiros indícios das gran­
des religiões; do totemismo avançaram para o politeísmo,
que as diferentes tribos foram idealizando; deuses diferen­
tes surgiram, alguns muito estranhos tanto nas feições que
apresentavam, como na liturgia que exigiam.
Na Heráldica apareceram os emblemas que hoje nos
permitem conhecer em que pensavam nossos antepassados
ao usarem tais emblemas. Recordam perfeitamente sua
origem totêmica: crocodilos, falcões, escorpiões, touros,
cães, águias e todos os outros animais que a zoolatria antiga
deificou.
Novos usos e costumes formaram-se, novas disciplinas
se impuseram por necessidade, e dessa necessidade e costu­
mes, nasceram e se firmaram as nações como grupos sociais
mais estáveis.
A ASCENSÃO INTELECTUAL DA HUMANIDADE

Reproduzimos de Weinert estas passagens:


"Há muito tempo que consideramos a façanha de Pro­
meteu como a reviravolta decisiva na evolução que condu­
ziu o hominídeo à humanidade. Sabemos, também, que
êsse acontecimento capital não pode ser fixado com preci­
são.
A velha lenda de Prometeu corresponde a uma reali­
dade. Humanidade e uso do fogo estão indissolüvelmente
ligados, enquanto que animais e fogo se opõem.
Um dia, o fogo deve ter sido trazido aos Hominí-
d e o s.. . , e é belo ter imaginado que um semi-deus, um gênio
acima da média humana, tenha roubado o fogo aos deuses
ciosos. Que o corpo dêsse gênio não tivesse ainda atingido
a deslumbrante e pura beleza clássica é uma constatação à
qual nos levam as buscas claras e frias dos naturalistas. . . ,
mas que não muda em nada a preeminência do fato inte­
lectual. Eis por que o mito inventado por um povo de ho­
mens belos não impede a ciência objetiva e, no fundo, não
a contradiz, transfigurando o acontecimento a ponto de o
atribuir a um Homem que alcançou a beleza do desenvolvi­
mento físico perfeito. É, também, ainda, um sinal de pou­
ca importância, que é preciso atribuir ao corpo na Antro-
pogênese.
Não é definível a fronteira entre o animal e o Homi­
nídeo pelos caracteres morfológicos, embora seja ela con­
dicionada pela inteligência. . . em absoluto como se o físico
fosse bestial antes do estágio final, humanóide posterior.
Conhecemos primeiramente a série do desenvolvimento
craniano; insistimos que não há melhor escala de desenvol­
vimento duma linhagem do que aquela que nos oferece uma
30 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

série de crânios, após os Antropomorfos do grupo do Chim­


panzé, passando pelos Anthropos de Java, de Pequim e do
Este africano, até o Homem de Neandertal e por fim o
Homo sapiens. Nesta série, distingue-se muito bem o que
é "simiesco” e "humano” ; é mesmo de surpreender, por
exemplo, achar no Australopiteco uma dentição "humana” .
Nossa surprêsa seria maior ainda, se encontrássemos
o esqueleto completo do aparelho locomotor dos Antropo­
morfos não arborícolas.
Poderia esperar-se nesses Primatas do Terciário, restos
de ossos da perna ou da bacia "simiesca” . .. e por "simies-
co” entendemos semelhantes às dos Chimpanzés arborícolas*
Não se pensa como deveriam ter sido "humanos”, ao
contrário (pelo menos humanóides) os ossos dos membros
interiores do Australopiteco e do Driopiteco (que fosse me­
lhor chamado Protopiteco).
"Humanos”, porque sua forma poderia corresponder
melhor à de nossas pernas e, no entanto, vistos em relação
ao conjunto de anatomia dos sêres nos quais ela apareceu
pela primeira vez, esta forma de pernas não é realmente
"humana” . Não nos vem à idéia de qualificar de "antro-
póides” nossas belas pernas de caminhantes; mas simples­
mente porque não há mais nenhum Antropomorfo atual que
as tenha semelhantes, e que as utilize para caminhar a pé.
Contudo, mesmo possuindo uma coluna vertebral e membros
humanos, um Antropomorfo do grupo dos Chimpanzés, que
não tivesse ainda alcançado o acontecer intelectual da antro-
pogênese, não seria um Homem, apesar de sua forma hu­
mana. E quando a façanha de Prometeu foi cumprida, e
graças a êle aberto o caminho essencial para o desenvolvi­
mento intelectual, Prometeu, assim como os companheiros
que tinham participado de sua genial descoberta, não foram
modificados imediatamente nos seus corpos. Condições
prévias à forma humana, que nossa terra faz nascer, só fo­
ram realizadas num só grupo do reino animal, o dos Sumo-
primatas. Anteriormente, no decorrer da evolução, nenhum
Hominídeo poderia nascer, porque precisamente essas con­
dições prévias não estavam ainda realizadas. . . mas, em
compensação, é preciso dizer que a realização dessa forma
antropóide não implicava necessàriamente a do "Homo sa~
piens” atual.
CONVITE À CIÊNCIA 31

Imaginemos uma horda de Antropomorfos, rodando por


alguma parte nas montanhas. Seus corpos assemelham-se
mais ao nosso do que o do Chimpanzé atual, "o mais evoluí­
do” intelectualmente dos animais. É, contudo, uma horda
de Antropomorfos, são animais que passam. Seu horizonte
intelectual não ultrapassa o dos Antropóides da floresta vir­
gem.
E agora uma outra visão, na mesma região, se quereis;
diante de uma caverna, um bando de sêres se agrupam; fa­
lam, uns devoram selvagemente, outros se aquecem volup­
tuosamente à volta do fogo; fisicamente não são Chimpan­
zés, sem dúvida, mas diferem pouco dos Antropóides des­
critos acima.

Chimpanzé

Mas, de repente, a forma do corpo torna-se principal.


As pernas podem ser curtas e tortas ou compridas e direi­
tas; não vemos mais os Antropomorfos» os animais. A
horda sentada à volta do fogo chegou à humanidade. Ve­
mos, no espírito, o "Paraíso terrestre” , embora não se asse­
melhe a uma terra de promissão onde o primeirô homem
(dizem) não tinha nada mais a fazer senão viver e "pecar” .
Pois o começo de humanidade coincide com o comêço
do "trabalho” .
32 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

O dia de um Antropóide não decorre sem dúvida na


inanição e indolência; mas as idéias de trabalho e de preo­
cupação o animal as ignora. Comer e deslocar-se são uma
só coisa para êle. Êle viaja para comer e come viajando;
se não encontra nada para comer, sofre fome até encontrar
um lugar onde haja comida!
Êle sabe que há inimigos e que a vida não está sem
perigos... mas nada sabe da morte!
A vida dos últimos Antropomorfos e até dos Pré-homi-
nídeos parece-nos ter sido profundamente compreendida e
sentida na obra de Jack London "Before Adam” (antes de
Adão), da qual teremos prazer em citar textualmente uma
cena. Jack London é bem conhecido como autor de roman­
ces de aventuras; êle não o é menos por sua delicada intui­
ção de um mundo desaparecido: "As cavernas com largas
entradas não eram ocupadas; serviam apenas para brinca­
deiras dos jovens mais ousados. Somente as cavernas de
acesso difícil, com a abertura estreita, eram utilizadas como
habitação. Quanto mais estreita fosse a entrada, mais
apreciada era a caverna; pois as feras, que rondavam em
busca de uma prêsa, lhes tornavam a vida difícil noite e dia.
Ao nascer do dia, "Dente-de-Sabre” , o velho tigre das
cavernas, desliza pelo lugar. Dois da horda, que haviam
saído, fogem precipitadamente. O mêdo havia-lhes feito
perder a cabeça, a fera estava já sobre seus calcanhares, rá­
pida, e em lugar de procurarem asilo nos mais altos roche­
dos, nas grutas de estreitos corredores, precipitaram-se na
caverna, largamente aberta ao pé do penhasco, na qual os
jovens tinham brincado no dia anterior.
"O que se passa então, ninguém pode, naturalmente,
ver de fora. Sem dúvida, os dois perseguidos deslizaram
pelo lugar mais estreito da segunda gruta. A passagem
estava barrada ao tigre, que saiu da caverna rugindo com
furor. Mas percebe, na entrada da gruta, ao lado, as prê-
sas que lhe haviam escapado: descobrindo os dentes, cai so­
bre elas, o apetite desenfreado. Mas, naturalmente, lhe es­
capam ainda pelo estreito corredor da gruta seguinte, e o
tigre reaparece rugindo de furor.
"Então, rompe súbito um ruído infernal: toda a frente
do penhasco é ocupada por uma multidão; em todas as sa­
liências do rochedo, em todas as entradas da gruta, aperta-se
CONVITE À CIÊNCIA 33

uma multidão que gritava e investia contra a fera em todos


os tons. Todos fazem terríveis trejeitos, todos estavam
animados do mesmo furor. Selvagemente mostram os den­
tes como o tigre, porque, nêles, a cólera se mistura ao mêdo.
"Diversas vêzes o tigre salta de uma gruta a outra, mas
sem conseguir bom êxito, porque os dois companheiros lhe
escapavam sempre pelo lugar estreito. Durante êsse tempo,
a horda passara ao contra-ataque.
"Todas as vêzes que o tigre reaparecia, uma chuva de
pedras caía sobre êle. No início, êles destacam simples­
mente os blocos da parede rochosa e lhes empurram fazendo
rolar até em baixo. Mas logo depois a bêsta sente assobiar
em seus ouvidos pedras talhadas com pontas agudas, lança­
das com os braços.

Orangotango e sioa cria

Êsse bombardeamento desperta a sua atenção para o


resto da horda.
Abandona a perseguição dos dois primeiros e tenta, en­
tão, subindo com as garras nos escombros, alcançar a ponta
do penhasco. Ante seu aspecto, a horda recolhe-se preci­
pitadamente às cavernas.
"A cada nova tentativa de assalto, o terror ãvassala a
horda; quase todos correm para o abrigo das grutas, somen­
te alguns, entre os mais corajosos, permanecem fora. In­
flamados pelo corajoso exemplo, os outros saem e tomam
lugar no combate.
34 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

"Nunca criatura tão formidável havia sido atacada tão


enèrgicamente. Ela continuava em seu lugar rugindo, fe­
roz, batendo a cauda, impotente, contra as pedras que se
desencadeavam sobre ela.
"Com um último rugido de cólera, o Tigre desapareceu,
e um imenso grito de alegria acompanha sua partida; de
todas as cavernas sai gente. Gritando alegremente, pro­
curam os sinais do tigre nas pedras.
"Um dos que a fera havia perseguido na gruta era um
jovem adolescente, quase uma criança. Ambos estavam fa­
ceiros de escaparem da fera, e deixavam-se admirar peia
multidão que os rodeavam. Sübitamente, a mãe do mais
jovem rompe o círculo, dá-lhe alguns sopapos retumbantes,
arranca-lhe um punhado de cabelos, gritando como uma me­
gera. É uma mulher ossuda, robusta, com uma floresta de
cabelos.
"O castigo que ela aplica ao filho faz a alegria da hor­
da; todos gargalham. A alegria de alguns foi tanta que
começaram a dançar e a rolar sobre o solo”.
Eis uma exposição clara, que nos dá uma visão verossi*
milhante do que foram os dias de luta do homem primitivo.
Com a descoberta do fogo e de sua utilização, abre-se,
lentamente, a pouco e pouco com mais clareza, uma pers­
pectiva de um outro mundo de pensamentos, inconcebível
anteriormente. Além das tarefas necessárias, que giram
mais ou menos em torno da conservação da vida e da re­
produção, há agora mais e mais coisas que pareciam neces­
sárias à vida de maneira imediata..., mas as quais não era
mais possível renunciar uma vez já conhecidas.
Pode-se imaginar que se tentou pela primeira vez o
desejo, sem cessar repetido na história da humanidade:
"Retorno à natureza?” O desejo de abolir tudo o que a
inteligência humana tem descoberto e inventado? O gran­
de êrro de imaginar que, renunciando aos cuidados que são
inerentes à condição humana, encontrar-se-á o feliz estado
natural, quer dizer, a condição de animal?
É um êrro julgar que só se pode apreciar a felicidade
por contraste aos cuidados, às preocupações.
CONVITE À CIÊNCIA 35

Alguns dizem que seria melhor que o fogo não tivesse


nido descoberto, mas, desejarão renunciar à nova conquista
e às suas vantagens e retomar à condição de um animal sem
pensamentos?
O fogo aquecia e afastava as feras; êle torna-se, con­
seqüentemente, o centro de toda a tribo, embora a maioria
de seus membros não tivessem sem dúvida uma clara cons­
ciência da importância que a posse do fogo tinha para a
conduta da vida. Mas o fogo exige quem o guarde e quem
o cuide; era um sério obstáculo a uma mobilidade ilimitada.
Traz, pela primeira vez, a noção nova do trabalho. Sem
dúvida, a construção do ninho exige também um certo tra­
balho de todos os animais que se ocupam de sua progeni-
tura; mas êsse trabalho se confunde com a busca do ali­
mento, até nos animais que fazem provisões. . . Manter o
fogo exige, ao contrário, uma actividade contínua, que não
pode ser exercida inconscientemente, nem brincando; êle
exige tarefas que cada um deve cumprir, até quando nem
êle mesmo pode colhêr os frutos ou participar de sua co­
lheita.
Esta actividade é o trabalho!
Trabalho quer dizer ainda actividade consciente de sua
finalidade.
É diferente da dos Insetos, quando falamos de Abelhas
obreiras. Conhece-se a expressão "Estado das Térmites” ,
precisamente quando se considera um trabalho para exe­
cutar pelo bem da comunidade.
Mas o essencial é a consciência. Uma vespa arreba­
tadora ou uma vespa escavadora trabalha sem dúvida du­
rante a sua vida; pode-se mesmo dizer que, em certo sen­
tido, ela "mata-se de trabalho” por sua progenitura. Tal
espécie, por exemplo, procura e acha uma grande larva dou­
rada; poderia matá-la com uma picada de seu temível agui­
lhão, mas como um sábio anatomista, ela busca o gânglio
abdominal, no qual quer ( . . . o u deve) enterrar seu dardo.
O golpe provoca a paralisia na larva do Coleóptero, que não
poderá mais escapar-se nem defender-se. . . , mas que per­
manece viva. A vespa carrega sua pesada vítima para um
terreno prèviamente aprofundado por ela; enterrada viva,
mias, antes de tapar a entrada da cova, ela põe ao lado da
larva os ovos de onde deve sair sua própria descendência.
36 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Quando nascem as larvas da vespa, encontram o ali­


mento para todo o tempo necessário de seu desenvolvimen­
to; cruel em certo sentido, útil se não pensarmos senão no
seu resultado. As pequenas larvas da vespa começam a de­
vorar a larva do Coleóptero, mas com tanta habilidade que
o conservam vivo tanto tempo quanto possível o enterrado
vivo. Quando o alimento acaba, as larvas da vespa estão
evoluídas para a ninfose. O repouso ninfal terminou, as
novas vespas, insetos perfeitos agora, utilizam para saírem
o poço de acesso fechado pela mãe, desenvolvem-se, unem^
-se para começarem a cuidar por sua vez da mesma forma
de uma progênie que elas não conhecerão jamais.

Pois, com êsse trabalho, a vida da vespa termina. Sua


vida foi somente trabalho e, no entanto, não tem do "tra­
balho” um sentido humano, porque jamais uma vespa soube
por que fêz todos êsses esforços. Dizemos que a vespa age
por instinto; que ela deve fazer e marcar hereditàriamente
nas suas células ganglionais; ela age sem compreender o
sentido de seus atos.

Não são só as Vespas; não falamos das atividades das


Formigas e das Térmites. Um par de Escaravelhos "ma­
ta-se trabalhando” toda a sua vida para assegurar a exis­
tência dos filhos. Êle, o macho, faz no solo mais duro um
fosso profundo. Ela, tem a tarefa não menos penosa de
transportar pelo estreito buraco de acesso a terra extraída
para o exterior. Quando a mina lhes parece bem profunda,
eles empurram um pedaço de excremento de cavalo para o
fundo alargado do terreno. A fêmea põe um ovo sobre o
excremento, onde prosseguirá, sem seu auxílio, o seu desen­
volvimento. Quando êles repetiram um certo número de
vêzes êsse trabalho, suas forças se esgotaram, seus dias es­
tão contados. Morrem, sem saberem por que cavaram o
fosso, e levado para lá o pedaço de excremento, por que pu­
seram sobre êle seus ovos e deixaram o poço aberto. A
larva do Escaravelho sai do ovo, devora o alimento que en­
contra ao lado, alcança a ninfose, torna-se um Coleóptero
adulto, torna a fazer o poço e trabalha por sua vez até à
morte para a sua progênie.

O Inseto executa instintivamente todos êsses atos, que


representam um trabalho penoso, levado até ao sacrifício, se
tivesse consciência do que faz.
CONVITE À CIÊNCIA 37

Mas arrebatar o fogo, acendê-lo e conservá-lo não é


possível se não se compreende o que se faz. Nenhum ins­
tinto hereditário poderia levar uma Vespa a utilizar um
archote. Um Prometeu Formiga é inconcebível!
O uso do fogo marca o limite decisivo entre a animali­
dade e a humanidade. Tudo aquilo que faz a Vespa ou o
Escaravelho seria da parte do homem um sacrifício sublime.
Mas o uso do fogo trouxe uma outra conseqüência mui­
to importante; o trabalho para o fogo não cessa nunca. Um
trabalho novo se impôs ao ser que está para se tornar um
homem; ainda se trata nesse período apenas de aprovisionar
um fogo natural; séculos decorrem, antes que o homem pro­
priamente dito chegue a acender êle mesmo o fogo. A pri­
meira descoberta deve ter sido certamente a do transporte
do fogo. Levado de acampamento a acampamento era en­
tão possível, pois a própria façanha de Prometeu consistira
em levar o fogo, do ponto onde tinha rompido naturalmente
até à habitação. A idéia nasceu então de que o fogo po­
deria, não somente se transportar, mas distribuir-se aos
membros da tribo. O fogo era como um animal; poderia
devorar, crescer, e também morrer sem que se saiba por
quê.
É inevitável que o fogo, uma vez conquistado, fosse per­
dido algum dia, como também a "façanha” de Prometeu
deve ter na realidade se repetido. Mas o "pensamento” de
Prometeu, a idéia do descobrimento, só pode ter sido con­
cebida uma só vez, e ter persistido, mesmo após o primeiro
fogo haver se apagado muito tempo na mão do Hojnem.
Com êste pensamento manteve-se a vontade de possuir
novamente o fogo, sinal de humanidade; aquêles que tinham
uma vez conquistado a dignidade de Homens, conservam-na,
mesmo temporàriamente depois de terem sido privados da
chama. O acontecimento, que nos revelou à façanha de Pro­
meteu, pode, na sua concepção, não se ter produzido senão
uma vez. E aquêle que tinha sido associado ao novo mundo
de pensamentos tornou-se por isso um homem.
É possível, entretanto, que muitos, que se sentaram in­
conscientemente à volta do primeiro fogo, tenham caído no­
vamente na animalidade, mas, na verdade, êles não poderiam
jamais se tornarem Homens, porque o sentido dêste ato
intelectual não fora (^espertado nêles.
38 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

É impossível representar o acontecimento com maior


precisão; podemos ainda menos situar com rigor a origem
da humanidade. A conquista do fogo marca bem um limite
excelente em princípio entre o animal e o homem; mas um
pensamento e sua realização não são um meio de traçar uma
linha de demarcação entre dois mundos.
Podemos muito bem ensinar os Antropomorfos atuais
a ocuparem-se do fogo; chegam mesmo a compreender sua
importância, a acender fósforos ou a riscar um fuzil, e uti-
lizá-los convenientemente. Mas nenhum Chimpanzé de
"music-hall” pode jamais se tornar um Homem. Mesmo
em liberdade, mais de uma horda de Chimpanzés pôde ver
Homens à roda do fog o. . . nenhum Prometeu, entretanto,
levantou-se entre êles. Nenhuma imitação jamais permite
ultrapassar o abismo entre o Símio e o Hominídeo.
Tudo o que vem de fora, até quando alcança a consciên­
cia, é sem importância para o grande estágio da evolução
que se produziu um dia sobre a nossa Terra e que, seme­
lhantemente, não se realizou em nenhuma parte, e não se
realizará jamais. Porque para a antropogenia, para êsse
fato intelectual, é preciso êste feliz encontro de disposições
intelectuais e desenvolvimento corporal, que permitiu aos
nossos antepassados pitecóides tornarem-se Homines sa-
pientes.
Mas, somente com o primeiro uso do fogo, o aconteci­
mento intelectual não teria se dado; seu valor decisivo con­
sistiu em determinar uma série lógica de invenções novas.
As vantagens que o fogo trouxe para a vida, em compara­
ção com o que ela era sem êle, não apareceram todas de
uma vez.
O calor foi o primeiro benefício, e foi êle que deve ter
incitado o homem a levar a chama para a sua própria ha­
bitação, e alimentá-la no lugar onde êles desejavam tê-la.
No benefício do calor das noites, acrescenta-se outro, que
não haviam previsto: a proteção contra as feras. É sobre­
tudo à noite que a nova descoberta lhes revela toda a sua
importância.
Não pretendemos dizer que a chama que iluminou a
humanidade se conservou até nós, ou — para falar simbo­
licamente — que o fogo, trazido aos Homens por Prometeu,
CONVITE À CIÊNCIA. 39

brilhe ainda hoje. Mas, calor e proteção foram os bens que


deveriam modificar profundamente a vida da horda. Muitos
artistas já representaram um grupo de Antropomorfos à
volta do primeiro fog o. . . é certamente a primeira ocasião
na qual uma cena da vida animal não pode mais ser classi­
ficada de "animal” .
Ignoramos quanto tempo pode ter decorrido antes da
invenção, que deve ter sido a segunda, aquela de cozinhar
os alimentos antes de devorá-los.
O primeiro passo foi, talvez, uma descoberta do acaso;
foi uma revolução na alimentação que deveria provocar var
riações morfológicas, bem como culturais. Já tivemos oca­
sião de verificar que não é preciso subestimar a importân­
cia das mudanças no regime alimentar para provocar mo­
dificações do metabolismo e das mutações hereditárias. A
"domesticação” tinha feito em todo caso um grande passo
adiante.
Mas a revolução não foi somente física; assim como
o fato intelectual, deveria suscitar a seguir outras conquis­
tas da inteligência.
Todos os membros da tribo não seriam certamente ca­
pazes de aproveitar a significação e importância do uso do
fogo; mas muitos compreenderiam se lhes explicasse. Por­
que, eis aqui um ponto importante, que contribui ao lado
de outros dados, a tornar inteligível a antropogênese: o
Homem é um ser social; e só um animal, que vivia em hor­
das ou em tribos, poderia engendrar a humanidade. Um
gênio isolado teria nascido, e desaparecido depois, tanto quan­
to um gênio pode ser solitário. Mas a horda contava com
membros capazes de aprender. Da mesma maneira que po­
demos fazer uma representação visual da descoberta do fo­
go, podemos conceber como seu uso se conservou na tribo
pelo ensino. Os sêres, que se tornaram Hominídeos, tinham
já o meio de se compreenderem; mas o que dêles se exigia
nessa relação era outra coisa do que reçlamava a vida ani­
mal.
Nós, Homens de hoje, compreendemos mal como os ani­
mais de um grupo (não se trata somente dos Antropomor­
fos) podem comunicar-se entre si.
Muito atentos à linguagem articulada, não vemos a que
ponto podemos nos compreender, sem palavras, pela mími-
40 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

ca, pelos movimentos dos membros e do corpo. Quanto mais


êsse modo de comunicação entre os animais escapa à nossa
vista, e quanto mais seu resultado é rápido, mais nos cau­
sa admiração. Uma tropa de Ongulados, que fogem, pare­
ce um só bloco; um vôo de Pássaros dá, em suas evoluções,
a impressão de um só organismo. Os macacos de uma hor-*
da, Cinocéfalos ou Cercopitecos, sustentam-se e agem em
comum sem um grito; e, no entanto, a musculatura de suas
fisionomias são também delicadamente diferenciados como
a do Homem. . . com o qual o Chimpanzé só pode atualmen­
te se comparar anatomicamente.
Quando todas as nossas funções estão intactas, não po­
demos imaginar como podemos nos compreender uns aos
outros sem fazer uso da palavra; constatamos com admira­
ção até que os surdo-mudos não sofrem tanto sua impotên­
cia em falar como a nossa piedade imagina.
Isso não impede que a linguagem articulada, consciente,
seja uma importante linha de demarcação entre o animal
e o homem. . . êle também deve tê-la conquistado um dia.
Representemos, então, o chefe de uma horda de chimpan-
zóides, que concebeu, mais ou menos surpreendido, a im­
portância do uso do fog o; êle vai esforçar-se por fazer com­
preender o valor de sua descoberta aos outros membros da
tribo, e não se contentará mais com gestos de mão e caran-
tonhas. Um ser, que já adquiriu o hábito de usar sua voz
numa ocasião, deve utilizar também os sons, para fazer os
outros compreenderem as noções abstractas que suscitam
as suas relações com o fogo. Aqui, comportamento e mí­
mica vão juntos com a palavra. Pode demonstrar com as
mãos o que é preciso fazer e, pela tonalidade emotiva dos
sons, insuflar a vontade.
Não se trata de falar a língua dos Símios ou de querer
aprender a "língua dos Símios” ; porque tudo o que os An­
tropóides comunicam por sons ou por palavras não merece
a classificação de "língua” . Um velho ditado assegura que
os animais não falam, não somente porque êles não sabem
falar, mas sobretudo porque não têm grande coisa a dizer.
Não há necessidade de insistir sobre o fato de estar
a boca humana melhor adaptada à palavra do que a güela
dos animais.
A evolução dessa boca será por muito tempo ainda um
grande problema da genética; mas não resta dúvida que a
I
CONVITE À CIÊNCIA 41

boca humana nasceu um dia da güela de um animal chim-


panzóide. Temos um início de prova com a descoberta re­
cente do Australopiteco, que apresenta dentes humanos
numa mandíbula de Chimpanzé. Mas as leis da genética
não permitem representar como o uso constante da palavra
fêz uma boca, que não somente se transmite hereditària-
mente, mas que evolui mais e mais em boca humana. Ou­
tras circunstâncias provocadoras de mutações devem inter­
vir aqui. Pode-se atribuir à mudança do regime, às modi­
ficações consecutivas do metabolismo e à selecção.
Depois dos Símios do antigo continente, a nossa den-
tição se compõe de 32 dentes. É-nos impossível não atri­
buí-la, até aos antepassados do Homem, de fortes caninos;
com as novas descobertas de fósseis, as formas de passagem
não são apenas uma concepção do espírito. Sabemos que
não estamos perto do esclarecimento dessas questões, e de­
vemos levar em conta a juventude da genética entre as ciên­
cias biológicas. Mostramos com franqueza as lacunas de
nossos conhecimentos, o que não nos impede de considerar
a linha geral do desenvolvimento como ciência certa.
O cérebro, a mão e o fogo, a linguagem e boca, são mu­
tualmente determinados. O comprimento do canino dimi­
nuiu, e a dentição fechou-se regularmente. A mandíbula
arredondou-se em forma de ferradura; a güela tornou-se
uma boca, favorecendo o mecanismo da língua.
A evolução morfológica e a evolução intelectual seguem
juntas; o ac to intelectual da descoberta do fogo não tinha
sido possível se as mãos não tivessem sido próprias para
a sua execução.
Um potente canino torna-se, então, supérfluo. Era nos
Antropomorfos uma arma e um instrumento, as mãos não
eram mais do que auxiliares. Nosso canino articula-se após
muito tempo ao nívei dos outros dentes, êie encontra, entre­
tanto, em caso de necessidade, seu antigo papel de arma e
de instrumento.
Mas o ser que se serviu do fogo teve também uma téc­
nica que torna inútil o uso dêsses órgãos para a defesa e
o trabalho.
Uma tocha acesa, que êle poderia lançar ao longe, cons­
tituía uma proteção mais eficaz que um canino, apropriado
42 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

somente num corpo a corpo. O fogo decompõe muitas coi­


sas que os dentes, antes dêle, é que deveriam quebrar e es-
pedaçar. Ao lado de todas essas transformações que o fogo
determinou em seus conquistadores, há uma que, embora
menos saliente, não deve ser esquecida; o fogo criou um
lugar em torno do qual toda a horda se reunia, e funda­
mentou um sentimento de solidariedade. É um lugar de
repouso e de segurança, é outra coisa que a caverna sem
fogo. Perto dêle, no confortável calor e na tranqüilidade,
nascem pensamentos, que não teriam podido desabrochar na
pressa da vida inquieta.
Um Símio também se serve de pedras como instrumen­
tos; contudo, êle as usa tal como as encontra; e as pedras
perdem seu valor de instrumentos, desde que não emprega­
das. O fogo dá a oportunidade, não somente de utilizar
a pedra, tal como é, mas, retocando-a, fazer dela o primeiro
objeto que foi especificamente um instrumento.
Além disso, os instrumentos não eram necessária e
exclusivamente de pedra. A natureza forneceu ao Antro-
póide em caminho de se tornar um Homem pelo menos dois
outros materiais para a fabricação de instrumentos. Não
devemos negligenciar, neste período de nossa evolução, a
possibilidade de utilizar a madeira. Bastões e maças são
já empregados pela mão dos Antropomorfos; um cérebro
de Hominídeo não é certamente necessário para se fazer um
bastão, quebrando um ramo de árvore; um bastão assim
obtido pouco merece o nome de instrumento.
O osso é também tão fácil de utilizar como a madeira.
Muitas vêzes destacamos que a primeira idade da cultura
humana merece menos o nome de Eolítica ( = a aurora da
pedra lascada) do que a da "Eóssica” .
Se não é sempre possível ver a prova de um trabalho
intencional sobre o mais simples dos instrumentos de osso,
não é também de instrumentos líticos. A ciência teria po­
dido conservar as polêmicas em torno dos eolitos. Se a
humanidade primitiva utilizasse os silex que levam incon-
testàvelmente a marca de um talhe intencional, é evidente
que esta cultura primordial foi precedida de uma cultura
embrionária, na qual o trabalho dos silex era tão rudimen­
tar que prova não poder mais ser feita. Acrescentemos
que o Homem não está sozinho a quebrar e a lascar pedras,
CONVITE À CIÊNCIA 43

GIGANTE DE PEDRA
(Na Ilha de Raivaeval, do grupo Tabuai, no sudoeste da
PoUnésia).
44 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

o jogo das fôrças naturais pode produzir ações idênticas;


o movimento turbilhonante da água, a compressão no fundo
de bacias geológicas criam formas idênticas àquelas dos
eolitos.
As pedras são como documentos antropológicos, esta
superioridade sobre os ossos, de melhor se conservar; e q s
objetos de madeira da mais primitiva humanidade são ainda
menos resistentes que os ossos. Nós voltamo-nos mais ex­
plicitamente sobre o Eolítico, enquanto estado de civiliza­
ção; mas dissemos desde já que não temos nenhum cuidado
em lhe conservar seu nome e que julgamos inútil de intro­
duzir o de "Idade de madeira” . Pois os três materiais:
madeira, pedra, e osso, foram utilizados para a fabricação
de utensílios pelos Antropóides. E o fato que nos seja mais
fácil de acompanhar sobre os objetos de pedra, o desenvol­
vimento da civilização é a melhor justificação do têrmo de
Eolítico.
Madeira, pedra e osso devem ter sido as matérias das
quais tiraram os mais primitivos instrumentos, porque elas
são utilizáveis na forma dada pela natureza quase sem re­
toques . . . não exigem esforços intelectuais particulares.
Já é bem mais difícil de utilizar como ligas de cipós e ramos
finos, embora êsses materiais não sejam considerados senão
como uma subdivisão dos instrumentos de madeira. Mas
ligar e atar supõem uma atividade intelectual que não é
dada de maneira imediata. . . lembremo-nos da experiência
do Chimpanzé, Totó, que refletiu profundamente o que po­
dia fazer com um barbante e um pedaço de madeira e que
finalizou por ter a idéia de atar o primeiro em torno do
segundo. Geralmente, com a madeira, a pedra ou o osso,
pode-se exercer as mais simples ações mecânicas, choque,
empurrão ou pressão; a ação de atirar deve pertencer já
a um estado mais elevado da atividade intelectual. Ela su­
põe que um objeto pode ser atado de uma maneira qual­
quer ao instrumento; é aqui que lembramos a experiência
feita com o Chimpanzé Sultão, que puxava para êle com um
bastão as bananas colocadas diante da gaiola. . . , ainda não
se trata de uma verdadeira tração, mas o gesto do Sultão
nos oferece uma transição entre o empurrão e a tração.
Em resumo, nenhum dos tipos de atividade inteligente
que examinamos, depois do ato de se procurar e manter o
fogo, até à fabricação de instrumentos a partir dos três
CONVITE À. CIÊNCIA 45

A o pé dos Andes, paleontólogos do Museu Argentino de


Ciências Naturais e de Howard procuram fósseis triássicos
em uma camada que data de 175 milhões de anos. A s mon­
tanhas escarpadas que vemos, ao fundo encerram mamíferos
do Plioceno.
46 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

materiais que empregava a humanidade primitiva, não exi­


ge aptidões preliminares que não possam ser atribuídas a
um Antropomorfo bem dotado; são, na maioria, atividades
de um nível fàcilmente excedido nas experiências com os
Antropóides.
Lembremo-nos, que Sultão não só aumentou o compri­
mento de seu bambu, ajustando um segundo bastão, mas
procurou êle próprio êste bastão, roendo uma guarnição da
porta.
Contudo, o Sultão não chegou a êsse comportamento
superior senão porque o experimentador o havia posto numa
situação difícil da qual não podia salvar-se senão por um
meio. E eis o essencial para explicar a Antropogenia: a
experiência que o psicólogo realizou com alguns Antropóx-
des, a natureza o têz numa medida muito maior e muito
mais pressionante, com Antropomorfos de um nível intelec­
tual elevado e morfològicamente adaptado. A recompensa
que a natureza oferecia em caso de êxito não era uma ba­
nana, muito embora sua formidável experiência se fundasse
também sobre a necessidade de comer, sobre a satisfação
do apetite... Não se tratava simplesmente de saciedade
ou de fome, mas de vida ou de morte.
A experiência instituída pela natureza consistiu numa
mudança de clima, determinada pelo início da época glacial
e que trouxe como conseqüência modificações gerais do meio
e das possibilidades alimentares.
A humanidade não foi criada num paraíso, mas ela nas­
ceu, porque perdera um paraíso.
Se a Antropogenia não fosse o resultado dessa expe­
riência, ela sem dúvida não se teria produzido; pois somente
o aguilhão da necessidade podia determinar o acontecimen­
to. E que não se pense apenas no uso do fogo considerado
como uma reação elementar à ação do frio. A passagem
do animal à humanidade foi, em seu conjunto, uma resposta
às novas condições de vida que não comportavam mais o
dolce fam iente na floresta equatorial, com sua profusão de
recursos alimentares. A modelação de instrumentos é tam­
bém uma das conseqüências imediatas da mudança do cli­
ma. A pedra cortante, aguçada, pode ajudar a trabalhar
a madeira para que ela queime melhor; permite cortar os
ramos, fendê-los quando a mão sozinha não os alcança.
CONVITE À CIÊNCIA 47

Conchas podem também fazer o mesmo papel.


O osso presta também os mesmos serviços: pode ser
aguçado, e com êle cortar a madeira ou a pedra, sem que
seja necessário que aquêle que o modela conheça, nem se­
quer compreenda a diferença entre os materiais; êle visua­
liza apenas a possibilidade de os utilizar, e com êles tra­
balhar.
Os castores quaternários de Piltdown, em Sussex, ha­
viam se "enganado” ao modelar com os dentes, para seu
dique, um fêmur antigo, talvez já fossilizado, de elefante
antigo, fazendo um objeto, que foi em nossos dias atribuído
a um Antropiano! Se êsse "material” , que um castor to­
mou pelo tronco de uma árvore, não fosse um osso, há muitQ
tempo já teria desaparecido, e o complexo problema do
Eoantropos teria sido menos simplificado.
Mas fogo, madeira, pedra ou osso, os Antropomorfos
terciários dêles ter-se-iam pouco preocupado como os atuais
Chimpanzés da floresta virgem, se a profunda mudança dó
meio no quaternário não tivesse exigido uma elevação de
suas aptidões intelectuais. E, se a Antropogenia se tornou
um fato intelectual, ela foi também — ou antes por conse­
qüência — o efeito de uma agravação das condições climá­
ticas no início da época glacial e de todas as conseqüências
que decorrem dêsse fenômeno”.
A teoria de Weinert encontra muitos pontos de apoio
e é aceita por notáveis Antropologistas. Contudo, nunca se
deve esquecer que, em matéria de ciência, visto ter ela
de trabalhar com o contingente, é quase impossível esta­
belecerem-se teorias que não estejam sujeitas a constantes
revisões.
POVOS AMERICANOS

A América se diferencia de todos os outros continentes


por sua configuração peculiar e a sua situação geográfica,
escreve Krickeberg em sua "Etnologia da América” . Não
consta de uma única faixa de terra e sim de duas grandes
massas terrestres, que se estendem desde a zona Ártica até
às proximidades das regiões Antártidas, e que estão unidas,
no seu centro, por uma ponte de terra firme e uma cadeia
de ilhas. Na sua superfície não existem montanhas de
muita importância que as corte do oriente para o ocidente,
e sim, sòmiente (a este aspecto se assemelha à Austrália)
um grande sistema de cordilheiras, que corre de norte a sul,
deixando lugar, na sua parte oriental, a imensas planícies,
sulcadas por sistemas fluviais, que se colocam entre os mais
extensos do mundo. Nestas planícies, pràticamente não
existe barreira alguma quê impeça a propagação do gênero
humano de extrêmo a extremo do continente. Encaixadas
entre as cordilheiras da borda ocidental, há grandes alti-
planícies, onde, às vêzes em altitudes alpinas, foi possível
se desenvolverém povos e culturas que mais tarde encontra­
ram fáceis caminhos para ir descendo, graças à formação
de serranias, que em várias regiões se abrem em leque” .
E prossegue: "Enquanto que na África e Austrália é
fácil a comunicação com a massa continental da Eurásia em
latitudes que favorecem a travessia de um continente a ou­
tro, a América fica numa posição muito mais isolada. Tanto
nas latitudes temperadas, como nas tropicais, há extensos
oceanos, que separam a América das costas ou ilhas mais
próximas (Senegâmbia, Hawai, as Ilhas Marquesas e a Ilha
da Páscoa). Certamente que na região subártica, a Amé­
rica está separada da Eurásia somente pelo estreito de Be-
ring, relativamente estreito, e ademais tem fácil comunica­
ção com a Ásia, através do arco formado pelas Ilhas Aleu-
50 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

tinas; mas as tundras do Alaska são tão pouco atrativas


para a vida humana, que somente povos caçadores e cole­
tores poderiam sentir-se impelidos a atravessá-las e ali se
estabelecerem. Na costa oriental, onde Groenlândia, Islân­
dia e as Ilhas Faroe formam um alinhamento, que se asse­
melha às pedras de um passadiço de um caminho europeu,
esta rota estava bloqueada à navegação primitiva devido
às tempestades, o frio e os icebergs. Ante tais circunstân­
cias, somente restavam duas possibilidades para explicar-se
a maneira como foi possívei a povoação na América, em
tempos remotos: que o homem americano tenha se origi­
nado e se desenvolvido dentro do próprio continente, inde­
pendentemente dos habitantes do Velho Mundo, ou que
tenha imigrado do Norte da Ásia, passando pelo Estreito
de Bering.

Já há muito tempo foi chamada a atenção para o fato


de que se carece de toda base para uma suposição da origem
independente do homem americano, por não existir na
América monos antropóides, nem vivos nem fósseis, pois
fica rompida neste continente a linha de ascendentes ani­
mais do homem com os cébidos (macacos de nariz largo).
Não obstante, houve uma época em que se acreditou ter-se
dado a descoberta inclusive do homem terciário na Amé­
rica. Isto foi favorecido por um lado pelo achado do crâ­
nio de Calaveras, junto com utensílios ae pedra, nas areias
auríferas da Califórnia, objetos que o geólogo do governo
americano, J. D. Whitney, qualificou, em 1880, como per­
tencentes ao período do plioceno e possivelmente ao do mio-
ceno; e por outro lado, o descobrimento de restos humanos
em associação com ossos fósseis de animais no loess dos pam­
pas argentinos, em cujo achado, Florentino Ameghino, di­
retor do Museu de História Natural de Buenos Aires, ba­
seou, desde o ano de 1870, sua teoria do homem terciário
(incluso do eoceno) na América do Sul, como pátria do gê­
nero humano. Mas um novo exame dêstes achados, sob o
ponto de vista geológico, físico-antropológico e arqueológi­
co, deu por resultado demonstrar que a afirmação do Dr.
Ameghino é insustentável, bem como outras hipóteses aná­
logas. Hoje em dia parte-se, em todas as investigações so­
bre a idade do homem na América, dos seguintes fatos:
1) Até agora não há na América nenhum achado
comprove a existência de formas primitivas do homem à
CONVITE À CIÊNCIA 51

semelhança do Pithecanthropus, Sinanthropus, H. Heidel-


bergensis, nem ainda do H. Neanderthalensis. Todos os
restos humanos de uma suposta antiguidade geológica, que
apareceram na América, incluso os da raça da Lagoa San­
ta, êstes não se diferenciam essencialmente do tipo do in­
dígena atual, o que ficou comprovado mediante as investi­
gações do antropólogo norte-americano Hardlicka.
2) A associação de restos de esqueletos humanos, com
os de animais extintos em sítios arqueológicos americanos,
tem aqui um significado cronológico muito diferente do
Velho Mundo.
3) Os artefatos humanos mais antigos da América per­
tencem, quando muito, aos últimos períodos do paleolítico” .
i * * *

PRAIA DE MANZANILLA (TRINIDAD)


Nativas dançando

Em sua totalidade, o continente americano era habi­


tado por coletores, caçadores e pescadores, descendentes
diretos dos imigrantes mais remotos vindos da Ásia. As
circunstâncias, que comprovam que as duas zonas de distri­
buição, separadas na época da descoberta por imensas dis­
tâncias, estavam ligadas em outros tempos, sendo que es*
52 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

tendia-se uma única capa de caçadores e pescadores, muito


grande, apesar de não ser de nenhuma maneira homogênea,
que vinha desde o estreito de Bering até à Terra do Fogo,
são:
1) existem ainda numerosos restos desta capa dentro
do território dos cultivadores inferiores e dos povos civi­
lizados; por exemplo, os seri e huave primitivos do México,
os igualmente primitivos uru e changos no antigo Império
Incaico e numerosas hordas com um nível cultural muito
baixo e vida nômada como as maku e sironó, nas selvas do
rio Amazonas;
2) existe como prova do antigo contacto cultural en­
tre os caçadores e pescadores da América do Norte e da do
Sul, um grande número de paralelismos etnográficos em
todos os aspectos culturais, que, por conseguinte, devem vir
de tempos anteriores ao surgimento do cultivo que dividiu
a zona dos caçadores e pescadores em duas partes. Muitos
dêstes elementos culturais, que evidentemente representam
formas de adaptação a um clima mais fresco e que também
se encontram na Eurásia — apesar de algumas vêzes so­
mente em épocas pré ou proto-históricas — pertenciam,
provàvelmente, ao acervo dos primeiros imigrantes. Em
alguns casos, pode comprovar-se a grande antiguidade de
certos elementos na América, por meio de achados em ca­
madas arqueológicas mais antigas.
Erland Nordenskiold, foi quem pela primeira vez cha­
mou a atenção sobre êstes eontactos antiquíssimos entre a
América do Norte e a do Sul, chegando à conclusão de que
os primeiros imigrantes, por terem-se acostumado a um
clima subártico, devem ter atravessado as terras tropicais,
com certa rapidez, aproximando-se de preferência das mon­
tanhas do oeste, das cordilheiras e das altiplanícies do leste
(Güianas e Brasil), até chegar às sávanas arborizadas e
aos pampas meridionais. Do contrário, quer dizer, se ti­
vessem permanecido muito tempo nas terras tropicais, so­
bretudo nas selvas amazônicas, (acrescentamos que são hos­
tis a todo trânsito e relativamente pobres em fauna), teriam
provàvelmente perdido, paulatinamente, todos aquêles ele­
mentos subárticos, que encontramos ainda hoje em dia com
tanta freqüência entre os índios do Chaco e dos Pampas,
do Chile e da Terra do Fogo. Além da subdivisão dos imi­
grantes caçadores e pescadores num grupo da cultura de
Uma paisagem das Antükas
54 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Folson e outro da cultura do osso (as quais correspondem,


em certo modo, às protoculturas "tasmanóide” e "esquimói-
de” , segundo a teoria dos "círculos culturais” de Kopper e
Menghin), encontramos também certos vestígios entre as
tribos do extremo meridional da América do Sul, pois obser­
vam-se nesta região dois grupos de culturas primitivas,
claramente separadas pelos Andes, cujos representantes típi­
cos são, segundo J. M. Cooper, os araucanos meridionais e
fueginos ocidentais por um lado e os patagões e ona pelo
outro.
O local do cultivo americano foi a América Central,
pátria originária do milho, cuja forma primitiva era uma
gramínea silvestre, proveniente das mesetas mexicanas.
Sem dúvida, a América deve êste adiantamento a tribos,
que eram, como os californianos atuais (entre êles há al­
guns que possuem nexos lingüísticos com M éxico), colecto-
res assíduos de plantas silvestres. De maneira semelhante
deu-se a criação de animais nos altiplanos do Peru, entre
tribos que originàriamente caçavam a lhama, como os pa­
tagões o guanaco, chegando mais tarde a pegá-la viva e
criá-la, a princípio apenas para aproveitar a lã. O cultivo
propagou-se no início da nossa era — paulatinamente desde
o México para outras direções — indo para a região que
posteriormente foi ocupada pelos índios pueblos; transfor­
mando, assim, uma tribo de caçadores após outra em cul­
tivadores sedentários, sem que o cultivo tenha alcançado,
na época do descobrimento da América, os últimos limites
naturais de sua possível difusão, porque a Califórnia, o
leste do Brasil e a Argentina setentrional ficavam, então,
ainda na sua maior parte fora da zona do cultivo, apesar
de serem brindados com as melhores condições naturais.
No processo de difusão do cultivo, os movimentos mi­
gratórios dos povos desempenham também, naturalmente,
um papel importante; por exemplo, a migração dos iroque-
ses e cados em direção do norte, dos aruaques e tupis para
o sul. Certas incursões de tribos cultivadoras para regiões
ocupadas exclusivamente por culturas de caçadores, por
exemplo os chiriguano (tupi) para o Chaco, pertencem, em
parte, já à época do descobrimento.
Acontecimentos muito semelhantes tiveram lugar, mais
tarde, durante a difusão da alta cultura. Também esta
empreendeu incursões, saindo do território de seu domínio
* CONVITE À CIÊNCIA 55

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Um jarro representando um homem barbudo lendário, do


Vale de Chicama, ao norte do Peru. As tradições peruanas
contam que uma raça estrangeira de homens barbudos vie­
ram, ao Peru implantar cultura, bem antes dos Incas.
56 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

exclusivo para penetrar nas áreas dos cultivadores inferio­


res, rodeando-se, por assim dizê-lo, de círculos de postos
avançados, aos quais pertencem as culturas dos índios
pueblo, dos Montículos ( munds) das Antilhas, marajó dia-
guita.
Dêste modo, podemos observar, à parte do grande mo­
vimento do norte para o sul da cultura subártica de caça­
dores e pescadores, que vinha da Ásia, outro movimento
que irradia desde o centro geográfico do continente para
todos os lados. Êste quadro sofre alterações importantes,
se supomos que tenha havido na América focos de origem,
tanto do cultivo inferior como do cultivo superior (alta
cultura)^; porque, com efeito, pode ocorrer que a dificul­
dade de tornar cultivável a mandioca na América do Súl
tropical se tenha consumido sem relação alguma com o cul­
tivo do milho; igualmente parece que chegou a formar-se
independente, do lado do foco centro-americano de alta cul­
tura, outro segundo centro na altiplanície peruano-boiivia-
na, onde a natureza proporcionava ao homem grandes
vantagens para o seu desenvolvimento econômico (batata,
lhama, minério de cobre). Em favor da primeira suposi­
ção temos o uso de instrumentos (raladores e braços pren-
sadores para a preparação da mandioca) dos quais não exis­
te nenhum modêlo na cultura baseada no milho; em favor
do segundo, temos o fato de as culturas da América Central
e do Sul apresentarem, com respeito a muitos elementos,
diferenças fundamentais, cuja origem nem sempre é devida
ao meio ambiente, como no caso do cultivo da batata ou a
criação da lhama. Estas diferenças fazem-se mais notáveis
na metalurgia, a escritura pictográfica hieroglífica e a ar­
quitetura. A extração de cobre e estanho de seus minerais,
assim como o sobrante de cobre e bronze, foram descober­
tos na altiplanície peruano-boliviana e somente com data
tardia chegaram a difundir-se até à América Central, por­
que nem as antigas culturas maia (até mais ou menos
1.000 d. C .), nem teotihuacana (de 600 a 1.200 d. C,) co-
nheciam-na ainda, e também, na época asteca, os utensílios
de cobre ou bronze escasseávam e não alcançavam, nem de
relance, a riqueza dé formas que havia no Peru.
CONVITE À CIÊNCIA

Estátua de pedra, ao culto dos heróis


( Oaxaoa, M éxico)
58 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Também ao que respeita à elaboração dos metais pre­


ciosos, Colômbia, América Central, por um lado, e Peru,
pelo outro, seguiam caminhos diferentes; nos primeiros en­
contramos ouro e "tumbaga” (aleação de ouro e cobre),
dourado, o tirado de arame e o vazio oco; no Peru, há ouro
e prata, laminado, repuxado. Contudo, apesar de suas ins­
tituições estatais muito avançadas, o Peru não possuía
nenhuma escrita hieroglífica, enquanto que esta estava em
pleno desenvolvimento entre os maias; não obstante, pode-
-se perceber relações entre México e Peru quanto à arte
ornamental de superfície. Finalmente, a arquitetura em
pedra, apesar de ter alcançado o mesmo alto nível, tanto
no Peru como no México, baseava-se em cada uma das duas
áreas cylturais, em princípios técnicos e artísticos inteira­
mente diferentes. A tudo isto, é mister ajuntar ainda ou­
tras diferenças menores; por exemplo, a balança, somente
conhecida no Peru, e a fabricação de papel, que ficou loca­
lizada no México. Em têrmos gerais, pode-se afirmar,
apesar de certas afinidades, o desenvolvimento essencial­
mente independente das duas áreas culturais.
Houve influências de fora que colaboraram na origem
das culturas dos cultivadores da América? A pergunta
impõe-se em vista de que seus povoadores tinham elemen­
tos culturais importantes em comum com certos povos da
Oceania e sul da Ásia, que se encontravam no mesmo nível
cultural. Deve afastar-se dêste plano a idéia de que as
bases da cultura superior, quer dizer, o próprio cultivo e
os outros adiantamentos, que costumam acompanhá-lo (ce­
râmica, arte de tecer, etc.), tenham sido importados para
a América por navegantes oceânicos ou asiáticos; porque
se opõem a ela os mesmos argumentos que repelem uma
transmissão de tipos raciais ou línguas. Em caso contrá­
rio, também a banana, a cana de açúcar e o taro, assim
como o porco e a galinha, provàvelmente teriam sido conhe­
cidos na América pré-colombiana. Na realidade, na época
de seu descobrimento, a América não tinha em comum com
o Velho Mundo quase nenhuma planta de cultivo nem qual­
quer animal doméstico (se omitirmos o cão). As únicas
exceções eram a palma de coco (sem importância para a
economia americana) e a cabaça vinhateira, pois o algodão
americano é de outra espécie que o asiático. Dêste modo,
pelo menos, não se deve pensar num intercâmbio cultural
regular ou freqüente entre América e Oceania.
CONVITE À CIÊNCIA 59

Mas, apesar de tudo, não podemos refutar por completo


a possibilidade de uma conexão antiquíssima do complexo
do cultivo americano com o correspondente da Ásiã-Oceania.
Recordemos que havia, entre os primeiros imigrantes, que
atravessaram o estreito de Bering, tribos que viviam prin­
cipalmente da coleta de vegetais e que inclusive traziam
consigo instrumentos de grande importância para o cultivo
americano, por exemplo, a pedra de moer; de modo que po­
demos considerar estas tribos como os antepassados dos

Pilar de pedra pré-histórica.


(Sto. Agostinho — Colômbia)

descobridores dêste cultivo. H. C. Gladwin identifica êstes


homens da cultura de Cochise com a raça da Lagoa Santa,
e busca sua origem num centro asiático, do qual também
vinham os antepassados dos melanésios. Poderia alguém
imaginar que em tais povos coletores, já estivesse latente
o germe de muitos descobrimentos posteriores, que não te­
60 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

nham chegado a materializar-se a não ser quando começou


o cultivo, manifestando-se, então, numa forma surpreenden­
temente análoga entre povos com iguais tendências here­
ditárias, ainda no caso de terem estado separados desde mi­
lhares de anos devido aos caminhos diferentes que foram
tomados assim como por terem sido empurrados para con­
tinentes diferentes?
Um problema excepcionalmente difícil é o do nasci­
mento e desenvolvimento das altas culturas americanas, com
respeito às quais se pensava antes, com base em certos in­
dícios bastante duvidosos, que não eram mais que simples
transplantes do Velho Mundo. Com toda segurança, são
também as altas culturas da América, no essencial, criações
autóctones dos indígenas, "intensificações” , da primitiva
cultura indígena, sob condições naturais, excepcionalmente
favoráveis, pois integraram-se sobre bases econômicas cla­
ramente americanas, ainda que carentes de importância e
em parte, decisivos adiantamentos das altas culturas do Ve­
lho Mundo: como o arado e a carruagem, o torno do oleiro
e o fole, o ladrilho e a verdadeira abóbada (com pedra cha­
ve), as vasilhas vítreas, utensílios de ferro e instrumentos
musicais de corda. Mas, apesar do que as altas culturas
00 Velho Mundo tinham em comuiç com as do Novo Mundo
(arquitetura em pedra, metalurgia e escritura hieroglífica),
seguiram aqui e ali caminhos muito diferentes. Tudo isto
não exclui, porém, que os povos civilizados da América, e
especialmente os da América Central, tenham tido contacto
durante uma fase adiantada do seu desenvolvimento, com
culturas do Velho Mundo, provàvelmente por via marítima,,
ao longo de toda a costa setentrional do Oceano Pacífico.
Somente desta maneira, encontrar-se-ia explicação a certas
concordâncias muito curiosas no setor da cultura espiritual,
sobretudo no calendário, na cosmologia, no culto, na arqui­
tetura dos templos (em primeiro lugar pirâmides escalares)
e na representação dos deuses; mas também em alguns ele­
mentos que pertencem à esfera social (guarda-sóis e liteira
como privilégio dos príncipes). Sendo que as altas cultu­
ras americanas não chegaram a alcançar o máximo de seu
florescimento, a não ser no período cristão (na região maia
por volta do ano 450 d. C.), a cronologia não é nenhum
obstáculo, tampouco para se pensar numa comunicação en­
tre as altas culturas do Velho e do Novo Mundo.
Desenho europeu representando indígenas americanos
devorando um prisioneiro
62 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Depois do cultivo ter separado os caçadores setentrio­


nais da América dos meridionais, novos adiantamentos cul­
turais asiáticos seguiram afluindo sem interrupção na Amé­
rica do Norte. Desta maneira chegou a formar-se, final­
mente, uma grande comunidade cultural circumpolar.

Mais tarde, chegaram à América outras ondas cultu­


rais asiáticas, que somente deixaram seus traços no oeste
do continente. Estas influências trouxeram o arco refor­
çado com uma coberta de tendões, a couraça de planchas
ou varinhas, o chapéu trançado, a "casa-poço”, etc. Não
obstante, nem com tudo isto se explicam os profundos con­
trastes entre as zonas do pacífico e oriental da América do
Norte, sobre os quais A. L. Kroeber chamou a atenção, e
que vieram de fases muito mais antigas. O modo de vestir
no oeste era fundamentalmente diferente da do leste: não
se conheciam escudos; as vasilhas de barro faltavam; em
compensação a cestearia em espiral e de duplo fio estava
muito desenvolvida — ao contrário da região leste — ; nos
setores social e religioso, o oeste difere do leste pela grande
importância que se concede à riqueza como fator para a in­
tegração das classes sociais; pela completa relegação da
tribo a favor da aldeia, em têrmlos políticos; pelo pouco in-
terêsse no simbolismo ritual e pela carência de pictografia.
Todos êstes elementos estão mais caracterizados na região
da costa norte-ocidental, a qual, devido também a outras cau­
sas, ocupa uma posição singularmente isolada entre as áreas
culturais americanas.
A colonização européia trouxe uma última e decisiva
onda de culturas estrangeiras aos povos da América. Rà-
pidamente produziu um empobrecimento e uma nivelação
geral, devido ao desalojamento dos índios de seus territó­
rios, até o ponto de chegar a desaparecer muitos grupos
com suas culturas peculiares. Por outro lado, também, sur­
giram formas culturais inteiramente novas, sobretudo nos
prados da América do Norte e nos pampas da América do
Sul, onde chegaram a integrar-se povos eqüestres depois da
aclimatação do cavalo, enquanto que os navajos, no sul-oeste
dos Estados Unidos, e os guajiro, no norte da Colômbia,
transformaram-se em criadores de gado. Ademais, conse­
guiram tomar raiz numerosos elementos culturais da Euro­
pa, Ásia e África, aclimatando-se de tal maneira, que aos
poucos se tornaram partes integrantes da cultura indígena.
CONVITE À CIÊNCIA 63

A êstes pertencem não somente utensílios, armas, roupas


de vestir e instrumentos musicais ( barrena, arco de balas,
adornos de prata, marimbas), mas também indústrias in­
teiras, estilos artísticos e motivos de contos. Pergunta-se
ainda se coisas aparentemente tão indígenas como os postes
heráldicos da costa norte-ocidental da América do Norte,
assim como os altares e imagens de deuses dos índios pueblo,
não Existiram em sua forma atual sem influências euro­
péias. É o que perguntam Barbeau e Parsons.
Dêste modo, o quadro, que a cultura indígena oferece,
após um desenvolvimento de 12 milênios, apresenta traços
extremamente interessantes.

Meninas Guaíbas

COMO SE POVOARAM AS AMÉRICAS

Antônio de Ulloa, viajante espanhol, que estêve no


Novo Mundo (séc. X V III), ao ter escrito o seguinte: "Quan­
do se viu um índio em qualquer lugar, pode-se dizer que
se viu todos”, não imaginou a importância que esta afir­
mação teria na posteridade. Todos aquêles que optavam
pela homogeneidade racial dos "americanos” (povos que
habitavam as Américas), usavam-na como elucidando algo
que era visível. Encontra-se em quase todos os viajantes
e cronistas da época, citações sobre a grande parecença fí­
sica verificada entre os indígenas da América.
64 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Mas, lembremo-nos que muitas vêzes, afirmações que


não encerram uma verdade, são aceitas e perduram, servin­
do de base para estudos posteriores. Contudo, não culpe­
mos Ulloa. Na verdade, êle não disse só isto, vejamos até
onde vai o seu pensamento: "Quando se viu um índio em
qualquer lugar, pode-se dizer que se viu todos, quanto à
cor e os membros; não é, porém, o mesmo quanto à corpu-

Indígenas da América do Sul

lência, que varia muito segundo as regiões” (Ulloa, ed.


1944, pág. 242). Muitos erros não teriam perdurado nas
teorias sobre o povoamento das Américas, se se tivesse sido
levada em conta toda a passagem de Ulloa.
MAS QUEM ERA O HABITANTE DA AMÉRICA?

Logo que chegaram os primeiros descobridores ao Novo


Mundo, centenas de indivíduos pertencentes a uma raça da
qual não se tinha ouvido falar, nem era mencionada nos li­
vros sagrados, apareceram ante os olhos do homem europeu.

Trabalho de um certo holandês no século XVII. Imaginava


existirem, na América, êstes estranhos animais.
É natural que a primeira impressão fosse um misto de
espanto, mêdo e curiosidade. Mas, uma pergunta logo apa­
receu: Quem eram êstes indivíduos, e donde tinham vindo?
66 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Antes da descoberta da América por Cristóvão Colom­


bo, pouco se sabia das possibilidades da existência de um
ser humano nesta região, mas, quanto a isto, o primeiro
passo era procurar na Bíblia alguma alusão ao homem ame­
ricano.
Segundo a tendência, antes de ser dada qualquer ex­
plicação científica, procurava-se a religiosa. E a questão
proposta foi: "Era o habitante destas terras um ser racio­
nal?” Atualmente, uma criança responderia sem titubear,
mas lembremo-nos que, na época, foi uma questão importan­
tíssima e causadora de disputas, que perdurou por muitos
anos.

JUAN DE LA COSA
Companheiro de Cristóvão Colombo
De início, duas posições diferentes se concretizaram, e
ambas solidamente estruturadas: a l.a) dizia serem todos
os homens iguais, pois eram "filhos de Deus” ; a 2.a) que
êstes mesmos sêres estavam num degrau acima dos animais
na escala zoológica, não chegando, nem de longe, a se igua­
larem aos povos da raça branca (tese que é ainda defen­
dida pelos "racistas da desigualdade humana” ). Êstes ma­
nejavam a favor de sua tese fortíssimos argumentos, dos
quais um dêles era: que o grau de cultura dêsses povos era
inferior ao de qualquer outra cultura conhecida (lembre­
mo-nos que grande parte da Ásia, África, e toda a Austrália
não eram conhecidos).
CONVITE À CIÊNCIA 67

Um frade, José de Santa Tereza Ribeiro, da Ordem de


Nossa Senhora do Carmo, escreveu no seu relatório o se­
guinte; "conhecera um índio que possuía rabo, e como êste
crescia muito, êle constantemente o cortava” . Terminava
dizendo que soubera, por fontes fidedignas, da existência,
no rio Guruá (Amazonas), de uma nação toda composta de
índios, que possuíam rabos. Isto foi dito no ano de 1751
(século X V III), o que não seria em pleno século XVI!
E as discussões continuavam! Os partidários da tese
da "igualdade humana”, afirmavam que as culturas encon­
tradas no Novo Mundo (como a dos Astecas, Maias, etc.)
não eram inferiores às civilizações européias. As cidades
astecas, por exemplo, obedeciam a planos estabelecidos e es­
tudados por especialistas; possuíam uma monumental ar­
quitetura, sendo donos de uma civilização adiantadíssima,
que podia ser colocada ao lado das que nasceram em solo
europeu. O que tão acirradamente se discutia, em pleno
século XVI, nada mais era que uma velha questão, que se
apresentava agora com outras roupagens, mas que trazia
no seu bojo uma eterna pergunta do homem, ou seja, rela­
tiva à liberdade ou servidão humana!
Desde a antiguidade, que já dois filósofos tinham pro­
curado responder esta questão. Para Aristóteles e Platão,
existia uma escravidão natural entre os homens. Assim,
para êles, a humanidade era dividida em: homens livres e
escravos.
O europeu, que vinha em busca de novos meios fáceis
de enriquecimento, que já não lhe podiam ser dados na ve­
lha Europa, encontrando um contingente humano que po­
deria ser aproveitado, colocava-se naturalmente do lado da
posição escravagista. Assim muitas opiniões foram aceitas,
por séculos e séculos, por serem vantajosas aos interêsses
político-econômicos dominantes.
Mas, no dia 9 de junho de 1537, o papa Paulo III ex­
pediu uma bula, na qual declarou, oficialmente, que os ín­
dios eram "veri homines, fidei catholicae et sacramentorem
capaces” (portanto, verdadeiros homens, capazes de rece­
berem a fé católica e os sacramentos). Esta bula não foi de
68 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

toda aceita, e meio século depois, no Concilio de Lima (1853),


ainda se discutia se o indígena americano era dotado de su­
ficiente inteligência para participar dos sacramentos da
Igreja Católica. Tais controvérsias colocavam o missioná­
rio, que aqui chegava, na posição de não saber se o selvícola
poderia ou não ser considerado um ser humano. Mas, após
a bula do Papa Paulo III, os frades e sacerdotes vieram
em busca da salvação das almas dêstes infelizes, que apesar
de estarem na barbárie, eram "filhos de Deus” .
Não acabam aí as questões suscitadas pela descoberta
do indígena das Áméricas. Muitas outras iriam aparecer
e perdurar por um longo tempo. Uma delas era: "Se eram
filhos de Deus, deveriam ter vindo do mesmo tronco comum,
sendo piortanto, filhos de Noé”.
Nos livros da Gênese, os teólogos só encontraram o
seguinte: . .E os filhos de Noé, que da arca saíram, fo­
ram Sem, Cam e Jafet; e Cam é o pai de Canaã. Êstes
três foram os filhos de Noé; e dêstes se povoou a terra” .
Mas, quem seria o antepassado do indígena americano?
Um sábio espanhol, Montano, que viveu no século XVI,
defendeu uma tese que foi aceita por muitos estudiosos.
Dizia êle que: "Um descendente de Heber, de onde, segundo
a Bíblia, derivam os Hebreus, teria povoado a América,
pelo oeste, e teriam chegado até o Peru; enquanto um outro
grupo, vindo do velho Sem, pai dos semitas, teria dado nas­
cimento à população que se formou em terras compreen­
didas pelo Brasil. De acordo com êste ponto de vista, todos
os americanos pertenceriam à raça semita, e, por conse­
qüente, eram parentes próximos dos árabes e judeus” .
E Montano ia mais longe em suas afirmações, fundan­
do a sua tese numa curiosidade. Dizia que a palavra Piru
(forma arcáica do vocábulo Peru), não era nada mais que
o nome Ophir, corrompido pelos indígenas, na pronúncia.
Quanto a isto, tinha tamanha convicção, que chegou a en­
contrar textos que permitiam identificar o Peru com o le­
gendário "reino de Ophir” . Dêste reino teria vindo a frota
do rei Salomão, que comerciava também com os fenícios,
à procura do ouro e pedras preciosas. E segundo Montano,
teriam chegado a esta longínqua região do Novo Mundo pelo
leste ou pelo oeste.
CONVITE À CIÊNCIA 69

Em nossos dias, tendo como chefe um arqueólogo in­


glês, que se tornou famoso devido à hipótese que apresen­
tou, criou-se uma escola, que teve, durante um longo perío­
do, muita influência. Conhecida pelo nome de "Escola
Etnológica de Manchester”, aceita ela a tese hiper-difusio-
nista. Segundo esta tese, o povoamento da América, inclu­
sive de todo o mundo, teria como centro de origem um local
determinado, donde teriam partido todas as levas humanas,
e donde, conseqüentemente, teria vindo o conhecimento ma­
terial e cultural da humanidade.

Uma esquadra holandesa no Estreito de Magalhães

Localizam êste foco central de expansão no Egito, que


seria, portanto, o "berço da humanidade” . E daí serem os
hamitas os prováveis antepassados dos nossos índios. Não
explica ela, porém, uma série de aspectos que permanecem
obscuros, e daí as fortes críticas que sofreu.
Contrária a ela apareceram outras hipóteses. Para al­
guns, os antigos egípcios nada mais eram que povos de
origem maia, que muito remotamente teriam ido das
Américas para o Egito. No rio Nilo, teriam estabelecido
o Império dos Faraós, e diziam mais, que o nome Nilo nada
mais era que um vocábulo americano, que tinha sofrido uma
corruptela de fonética.
A ATLÂNTIDA SUBMERSA

Encontra-se nas páginas do diálogo Timeo de Platão,


uma passagem que merece ser aqui reproduzida: "P or que,
naqueles tempos, se podia atravessar êste mar. Êle tinha
uma ilha, diante dessa passagem, que vós chamais as co­
lunas de Hércules. Esta ilha era maior que a Líbia e a
Ásia reunidas. E os viajantes daqueles tempos podiam
passar desta ilha para outras, e destas podiam alcançar o
continente, sobre a margem oposta dêste mar, que merece
verdadeiramente o seu n o m e ... Ora, nesta ilha Atlântica,
os reis tinham formado um grande e maravilhoso império.
Êste império era possuidor de toda a ilha e de muitas ou­
tras, assim como porções do continente. De outro lado,
possuía a Líbia até o Egito e a Europa até a Tirrênia (1 ).
Então, tendo uma vez concentrado todas as suas forças, ten­
tou, de um único salto, conquistar todo o vosso país, e o
nosso, e aquêles que se encontram do lado das colunas (po­
sição de Atenas na guerra contra a Atlântida)
Êste diálogo se deu entre Sólon e um sacerdote egípcio.
E mais adiante continua: "Mas, no tempo que se se­
guiu, houve tremores de terra espantosos, e cataclismos.
Num espaço de um único dia e de uma única noite terrí­
veis, todo o seu exército foi tragado de um único golpe, e
a ilha Atlântida se abismou no mar e desapareceu. Eis,
aí, por que ainda hoje êste Oceano é difícil e inexplorado,
pelo obstáculo dos profundos abismos que a ilha, em se afun­
dando, depositou (2)

(1) Líbia é o nome geral dado para designar a parte da África


situada ao oeste do Egito. A Tirrênia (mais tarde Etrúria) designa
a Itália Ocidental.
(2) Diversos comentadores modernos encontram, aí, uma alusão
ao mar de Sargaços.
72 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Ajudados pela nossa imaginação, podemos fazer uma


idéia do que teria sido êste império. Para muitos, as civi­
lizações encontradas nas terras do México, Peru, Bolívia,
seriam a dos mais adiantados remanescentes da Atlântida,
enquanto os indígenas do Brasil seriam os mais atrasados.
Esta hipótese, apesar de ainda não estar fundamenta­
da, possui, entretanto, seguidores e estudiosos que incansà-
velmente procuram baseá-la em provas científicas (3).
No ano de 1894, apareceu um livro, cujo autor se cha­
mava P. Acosta, e fora escrito em pleno século X V I! A
primeira edição deu-se no ano de 1589, e nela encontra-se
um trecho muito interessante, cuja idéia serviu de ponto
de partida para a elaboração de uma teoria, que foi a alma
de uma nova e moderna escola, que tem à frente o antro­
pólogo norte-americano Alex Hardlicka.
Acosta dizia em seu livro ("História natural e moral
dos ín d ios"): "Não faz muitos milhares de anos que os ho­
mens que as habitam (em relação às terras do Novo Mun­
do), e que os primeiros que aí entraram eram selvagens
e caçadores, em muito maior quantidade que indivíduos ci­
vilizados” .
A atual "Escola Norte-Americana” segue também o
ponto de vista que o povoamento das Américas ter-se-ia
feito a partir de populações que residiam em regiões adja­
centes, e neste caso, seria a Ásia, o continente mais próxi­
mo, por intermédio do estreito de Behring.
Os quatro postulados, na qual ela se baseia, são os se­
guintes: 1.°) o homem americano, à parte de pequenas di­
ferenças de detalhes, que podem existir entre os diversos
grupos, é "racionalmente uniforme” ; 2.°) os povos primi­
tivos da América provêm todos da Ásia; 3.°) a entrada dês-
tes povos primitivos no duplo continente (do Norte e do
Sul) efetuou-se pela única rota, que é o estreito de Behring;
4.°) penetrando na América, êstes asiáticos eram portado­
res de uma civilização de tipo inferior; o desenvolvimento
posterior e a diversidade cultural foram efetuados já em
continente americano.

(3) Há cêrca de 20 mil obras escritas sôbre a provável ou não


existência da Atlântida.
CONVITE À CIÊNCIA 73

Entretanto, para o professor argentino Canais Fraus,


esta teoria merece algumas críticas. Êle é do parecer que:
"A primeira destas quatro premissas enunciadas, sobre a
unidade racial de todos os povos americanos, é a mais fun­
damental de todo o conjunto dado. Ela é tão necessária
à argumentação que, se a tirarmos, seria então difícil con­
tinuar a sustentar os outros pontos do programa”.
Mas, diz ainda o seguinte, e com toda a razão: "Veri­
ficou-se uma grande variação entre os grupos indígenas” .
Relativo à estatura: enquanto um patagão tem uma esta­
tura média de 1,80 m (constituindo desta forma uma das
populações mais altas da terra), encontra-se, por sua vez,
num grande número de tribos brasileiras, a estatura média
de 1,50 m. Como se poderia explicar esta diferença es­
pantosa dentro de um mesmo grupo étnico? O mesmo re­
sultado foi obtido quanto a medições do índice cefálico.
Para os antropólogos, a medição do cérebro é um dos ele­
mentos mais importantes, porque é por intermédio dos seus
resultados que se consegue estabelecer as teorias relativas
à evolução do ser humano na escala zoológica. E na medi­
ção do índice cefálico, as diversidades encontradas em vários
grupos foi a maior possível.
Canais Fraus chega à conclusão que não se pode des­
truir o postulado desta escola, quando diz que pertencem
todos a uma mesma raça, mas sim que temos que juntar
uma afirmativa: "é que dentro desta raça existe uma série
de tipos raciais diferentes” .
Passemos ao 2.° postulado, que afirma terem vindo da
Ásia todos os povos da América, o que mereceu também
esta crítica: há em certos indivíduos traços físicos que não
aparecem de forma nenhuma em povos asiáticos. Temos,
por exemplo, o caso do nariz proeminente (o tão comen­
tado "nariz de águia dos peles vermelhas” da América do
Norte), e a alta estatura que se verifica entre os mesmos
peles vermelhas e patagões; e ainda mais, a forte dolicoce-
falia, que possuem alguns indígenas brasileiros. Finaliza
a sua crítica, dizendo que não se^ pode negar terminante-
mente que o indígena não tenha vindo em grande número
da Ásia, pois verificaram-se certos caracteres somáticos
idênticos entre japonêses e índios americanos, mas também
houve fortes contingentes vindos de outras regiões.
74 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

No quarto postulado, a crítica feita salienta que os ele­


mentos culturais trazidos tinham origens diversas. Um
fato curiosíssimo e, talvez não muito conhecido dos leitoresy
é que os povos da América não conheceram nem a roda nem
o arco arquitetural (a abóbada usada nas construções), nem
tampouco o vidro e outros elementos da cultura material,
conhecidos amplamente por povos asiáticos. E como isto
se explicaria?
A idéia proposta pelo antropólogo francês Paul Rivet,
fundador do Museu do Homem de Paris, modificou e lan­
çou novas luzes sobre esta discutida polêmica. Rivet sus­
tentou que êste povoamento não se tinha feito somente sob
base de imigrações asiáticas e sim, também, tinha contado
com a colaboração de elementos provenientes de outras par­
tes do mundo, e uma delas era sem dúvida, a Oceania.
E Rivet, para defender a sua tese, explicou: há "um
elemento australiano na América”, o que é demonstrado
pela língua de certos povos (por exemplo, os Tehuelches e
os Oonas, moradores da Patagônia e Terra do F o g o ). Além
disto, há um elemento que êle chamou de "Malaio poline-
siano” , com muitas semelhanças com um grupo indígena
habitante da Califórnia. Portanto, êstes dois elementos
étnicos (o australiano como o malaio-polinesiano) teriam
chegado à América numa época anterior à invasão dos mòn-
golóides asiáticos, êstes vindos pelo estreito de Behring. E
ainda mais, que êstes mongolóides, pelo fato de terem vindo
em grandes hordas, e em imensos contingentes (seria como
uma migração moderna, em que trazem tudo o que lhes per­
tence, para uma estabilização definitiva na nova terra), é
que teriam marcado os característicos mais visíveis na raça
americana, como seja cor da pele e do cabelo, que, à pri­
meira vista, parece dar uma certa uniformidade, mas que
não pode ser tomado como um elemento comum para origi-
ná-los de uma única raça.
Outra explicação foi fornecida pela Escola histórico-
-cultural. Defende a tese que teria havido a intervenção
de cinco elementos diferentes na concreção das civilizações
americanas primitivas. Três dentre êsses são muito arcai­
cos, e pertencentes a civilizações inferiores, uma quarta se­
ria neolítica e de civilização matriarcal, e a última oceânica,
tendo trazido consigo as bases de alta civilização. Pode­
mos exemplificar como se fossem capas sucessivas de cul­
CONVITE À CIÊNCIA 75

turas, que penetraram parcialmente e foram estruturando


toda esta gama multicor, que são as tribos indígenas da
América.
Apresentamos, aqui, uma síntese feita por um estudio­
so do assunto: Imbelloni. Êle admite, primordialmente, a
influência do meio na formação do homem americano. Parte
êle do princípio que os grupos raciais, que podemos distin­
guir atualmente na América, devem ser considerados como
produtos de invasões distintas. Com isto quer dizer que
cada migração trouxe, sobre o continente, um tipo racial
diferente. Estabelece, depois de um exaustivo exame, nove
tipos raciais americanos, e que os povos emigrados também
deviam orçar por êste número. Assim, não se pode tomar

Marinheiros polinesianos, afrontando descobridores


europeus de sobre uma piroga.
0

estas hordas de povoamento humano como expressão de via­


gens conscientes, mas sim difusões migratórias, que tinham
por habitat primitivo regiões da Polinésia, Ásia, Austrália,
etc.
Finalizamos com uma síntese apresentada pelo escritor
Canais Frau. Diz êle que quanto ao aspecto geográfico, há
dificuldades em ser alcançado por outros povos o continente
americano. Só seriam capazes de chegar em terras do
76 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Novo Mundo aquêles que possuíssem uma adiantada nave-


gação, pois a travessia do oceano obriga um conhecimento
aprofundado da arte navegatória. Quanto à penetração
através do estreito de Behring é a mais plausível.
Quanto ao aspecto antropológico, verificou-se que os ca­
racteres somáticos apresentam uma grande heterogeneida-
de. Há, entretanto, opiniões divergentes quanto ao número
de tipos raciais existentes no continente americano.
Quanto ao aspecto etnográfico, ficou demonstrado que
houve relações mais ou menos estreitas entre as populações
do Novo Mundo, pois são encontrados objetos que são co­
muns nas duas Américas.
Quanto ao aspecto lingüístico, êste então apresenta
uma grande variedade. O número de línguas e dialetos co­
nhecidos nas Américas sobe ao número de milhares, que
podem ser agrupados em umas 120 famílias lingüísticas di­
ferentes, sendo que 22 delas estão na América do Norte,
19 na Central e 80 na do Sul. O estudo lingüístico veio
reforçar a tese do povoamento pluripartido do continente
americano.
PARTE ANTOLÓGICA
0 IMPÉRIO INCAICO

Pelo seu excepcional valor, examinamos abaixo o que


escreveu Walter Krickeberg em seu "Eanologia da Améri­
ca” , sobre este tópico:
"É muito comum invocarem-se representações da arte
chimu ao referir-se à Cultura Incaica, apesar de ser esta
muito mais recente e ter tido seus começos num ambiente
totalmente diferente, além de estar submetida a outras con­
dições. Na realidade, as diferenças entre os povos habi­
tantes da costa e os do altiplano do Peru não eram muito
menores que as existentes entre os maias e os mexicanos.
Êste fato ressaltaria aos olhos, se nos fosse possível veri­
ficar os excelentes relatos espanhóis acêrca dos incas, atra­
vés dos correspondentes achados arqueológicos ou represen­
tações artísticas. Mas desgraçadamente, os primeiros são
muito escassos e dos segundos existe somente um número
reduzido, porque o clima úmido do altiplano destruiu todos
os objetos de fácil decomposição, e a arte dos incas quase
não conhecia representações. Por isto é de grande valor
para a antropologia peruana a crônica do Huaman Poma
de Ayala, propriedade da Biblioteca de Copenhague, e que
foi publicada não faz muito tempo. O autor era um quí-
chua da dinastia de Chinchaysuyu, e ela foi escrita em prin­
cípios do século XVII, tratando da vida no império incaico,
além de estar ilustrada com numerosos desenhos feitos a
bico de pena.
Os habitantes do altiplano passavam pelas mesmas di­
ficuldades no trabalho de retirar do solo os alimentos ne­
cessários à subsistência. No clima frio da Puna, o milho
já não crescia mais, e nos estreitos vales dos Andes era
muito limitada a superfície cultivável. Por tal motivo, o
Peru foi o país clássico do cultivo em terraças, ou seja um
sistema que tornava também aproveitável para o cultivo,
80 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

as ladeiras das encostas de muito declive, Por muitos qui­


lômetros observam-se nas encostas das serras, as antigas
terraças, sustentadas por muros de pedra, cujo engenhoso
sistema de irrigação era igual aos modernos. Ainda se con­
servam em várias regiões: os canais irrigadores, cobertos,
diques e reprêsas dos tempos incaicos. No vale de um dos
tributários do rio Urubamba, a uma altura de 4.000 metros
acima do nível do mar, descobriu-se, por exemplo, um canal
puxado à corda, que não é nada mais que o curso regula­
rizado de um riacho, cujos cotovelos tinham sido cortados
pelo canal, para assim se obter mais espaço para o cultivo
de batatas.
Dentre as plantas de cultivo mais importantes no Peru,
temos o milho que dá até à altura de 3.500 metros, a qui-
noa (uma variedade de quenopódio), a batata e a oca (uma
planta tuberosa, oaxalis tuberosa) até os 4.300 metros aci­
ma do nível do mar.

Detalhe de um alto-relêvo, representando


serpentinas entrelaçadas.

Segundo Huaman Poma, os trabalhos agrícolas princi­


piavam no mês de julho, adubando-se as terras com esterco
de lhama, e depois procedendo-se à limpeza dos canais de
irrigação. Em agosto, cultivava-se a terra com a "taclla”,
ou seja um bastão de semear, perfurado, por meio de um
pedal amarrado a um cabo fortemente encurvado. Com
êste instrumento produzia-se o efeito de uma alavanca, por­
que, ao fincá-lo obliquamente no solo, o labrego batia com
toda força sobre o pedal, empurrando simultâneamente o
instrumento para a frente. Regularmente, quatro ou mais
homens trabalhavam em fila, movimentando-se sob um só
compasso, de forma que todos juntos levantavam volumosas
glebas de terra dura, que as mulheres, caminhando atrás,
CONVITE À CIÊNCIA. 81

esmiuçavam com martelos de pedra. No tempo dos espa­


nhóis, a "taclla” foi-se transformando, por meio de um ins­
trumento de ferro, numa espécie de "arado de pé” . No mês
de setembro ou dezembro, os buracos para a semeadura
eram feitos com êste mesmo instrumento, trabalho no qual
cooperavam novamente homens e mulheres: enquanto os
primeiros preparavam os buracos, seguiam-se as mulheres,
depositando nêles os grãos de milho ou os tubérculos de ba­
tata, cobrindo-os de terra logo em seguida com uma pá de
pau. Os mesegueros (batedores), que viviam em choças no
meio dos campos*semeados e que levavam peles de raposa

Desenho de máscara incáica

na cabeça, espantavam os pássaros com tambores, fundas ou


varas, nas quais amarravam bolas de lã e cascavéis. Para
a expurgação e para desenterrar as batatas, usavam-se en­
xadas com um cabo muito curvo e com uma lâmina plana
de madeira.
Para dar maior realce à importância vital do cultivo
para a população, o próprio inca reinante e seus parentes
mais próximos tomavam parte neste trabalho; assim como
o fazia o imperador da China. Cada ano procedia-se à elei­
ção de novos pariana, que tinham de jejuar e abster-se de
mulheres, enquanto estavam em serviço.
82 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Para preparar os alimentos, os peruanos valiam-se, no


essencial, dos mesmos métodos que os outros povos civili­
zados da América. Da batata, preparava-se, congelando-a
e amassando-a, alternativamente, uma conserva (chu’unu e
chuno) que, esmagada e cozida em água, constitui ainda hoje
um alimento muito apreciado — a "sopa hualemosa”. De
muita importância era a chicha, ou seja, a cerveja de mi­
lho, que se fazia fermentar, acrescentando certa quantidade
de grãos mastigados, e a coca, que era indispensável pelos
seus efeitos estimulantes sobre a respiração, a circulação
do sangue e o metabolismo da gente andina, que tinha de
trabalhar em grandes alturas e, por conseguinte, necessi­
tava desta ajuda para resistir melhor às fadigas e mitigar
a fome. Tendo em conta que a coca desempenhava também
um importante papel nos cultos, os incas fomentavam o seu
cultivo sistemàticamente nos vales de clima quente à leste
dos Andes. Do tabaco, somente se fazia uso em forma de
rapé, "para tornar mais leve a cabeça” ou para produzir
estados narcóticos.
Não somente a alta perfeição da técnica do cultivo, mas
também a criação das espécies sul-americanas do gênero dos
camelos, ou sejam a lhama e a alpaca, constituem uma das
grandes conquistas culturais que forneceu aos peruanos a
possibilidade de superar economicamente a todos os outros
povos civilizados da América. Mas, de igual maneira que
o costume de seguir usando o pau de cavar como bastão
para semear no cultivo da batata revela relações estreitas
com a colheita, assim também seus métodos para a criação
do gado mostram certos aspectos que têm sua origem na
antiga cultura dos caçadores e que comprovam que êste tipo
de criação não era ainda um costume muito inveterado, pois
ainda no século XIX, costumava-se caçar, na Puna boli­
viana, outras duas espécies sul-americanas da espécie dos
camelos (a vicunha e o guanaco), por meio de um sistema
sumamente primitivo. Cercava-se um extenso terreno,
mais ou menos circular, mediante um grande número de
estacas unidas entre si com cordéis dos quais caíam panos,
e se deixava aberta somente uma entrada bastante larga,
até que uns setenta ou oitenta batedores empurravam os
animtais. Esta maneira de caçar, e o cerrado que se usava
para ela, chamavam-se chacu, palavra que se conservou no
nome geográfico do Gran Chaco, e que traz à memória o
fato de que os incas também organizavam de vez em quando
Vicunha
84 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

tais batidas nas extensas planícies entre Tucumã e rio Pa­


raguai. Estas caçadas levavam-se a cabo sempre sob a vi­
gilância do Estado, porque a caça individual estava estrita­
mente pjoibida. Às vêzes, substituía-se o cerrado por cen­
tenas de batedores que cercavam um território de 1.500 a
2.000 krn e que, com uma gritaria ininterrupta, estreitavam
os animais, paulatinamente, até fechar o cêrco, e davam as
mãos pj*ra evitar que algum animal escapasse. Depois,
tosquiav^-se a maior parte dos guanacos e vicunhas e eram
deixados soltos após. Sem dúvida alguma, o amansamento
e domesticação das lhamas e alpacas deve ter-se desenvol­
vido em "tempos passados com base nas regias que se obser­
vavam nestas batidas, porque não é muito diferente o trata­
mento, que se dá hoje em dia aos animais domésticos que
apascentam durante todo o ano em perfeita liberdade nas
mesetas « que somente se juntam para a tosquia.
No ifiício, caçavam-se ou criavam estas quatro espécies:
lhama, aípaca, guanaco e vicunha, sobretudo para aprovei­
tar-se a lã que, depois do aperfeiçoaménto da arte de tecer,
tinha substituído entre os índios do altiplano o uso de peles
para vestir. Outras maneiras de tirar proveito da lhama
(como aijimal de carga, como alimento e como produtor de
estêrco) gòmente chegaram a ter importância de forma pau­
latina. A lhama é muito apropriada para transportar car­
gas, por £er ligeira, de muita resistência e sóbria; mas de­
vido ao fato de não poder suportar cargas muito pesadas,
tinha-se O costume de levar nas viagens mais longas um
rebanho e se alternava a carga o mais freqüentemente pos­
sível. A carne da lhama constitui, hoje em dia, em estado
sêco (xarque), um alimento de importância, e seu estêrco
( taquia) proporciona o único combustível na Puna total­
mente despovoada de árvores.
De gfande importância para o desenvolvimento do im­
pério inc#ico era o problema das comunicações, pois êste
apresentava sérias dificuldades na região dos Andes. Os
incas souberam vencê-la, principalmente, por meio de suas
magnífica^ vias calçadas que, como no império romano,
uniam as regiões conquistadas ao centro político do país.
No curso dos anos, chegou a estender-se uma enorme rêde
de caminhos sôbre todo o Peru, sendo uma das artérias prin­
cipais a vía calçada andina do Cuzco a Quito, e uma outra
costeira de Nasca a Tumbes; ambas uniam-se em Vilcas
CONVITE À CIÊNCIA 85

Hauman e estavam, ademais, comunicadas entre si por meio


de numerosos caminhos transversais. As ladeiras de muito
declive eram vencidas por escadas, porque somente tinha
trânsito de pedestres e lhamas, enquanto que sobre os rios
ou barrancos, estendiam-se diques de pedra e pontes sus­
pensas. Das pontes, a mais ousada, que ainda hoje está
em uso, conduz sobre a canada de Apurimac, no caminho
de Cuzco a Ayacucho, consiste em cinco grossas cordas de
fibra de ágave, amarradas a grandes pilastras; três dos
cabos, cobertos de feixes, formavam o caminho, enquanto
que os dois restantes serviam de passa-mãos. À parte des­
tas pontes tinha, e há ainda, "tarabitas”, de um só cabo,
através dos quais passam pessoas e cargas em canastras de
um lado a outro dos rios. Ao longo das grandes vias cal­
çadas costeiras, fileiras de árvores proporcionavam sombra,

Escultura de cabeça incáica

e taipas de ladrilhos não cozidos protegiam cojitra as tem­


pestades de areia. A espaços regulares, havia casas para
os corredores (chasqui), que levavam, à semelhança do sis­
tema das carreiras de relevos, notícias, cordéis de nós ou
cargas, e que necessitavam dois dias para fazer o percurso
de Cuzco até à costa, e vinte dias para a viagem integral
de ida e volta de Cuzco a Quito, quer dizer, estabeleciam
recordes que somente em nossos dias foram superados.
Ainda, com maior rapidez, transmitiam-se notícias por meio
de sinais de fumo ou fogo. Para prover as necessidades
86 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

dos viajantes ou tropas em marcha, existiam os "tambos”


(em, língua quíchua, tampu) , quer dizer, casas de alojamen­
to distantes entre si de vinte a trinta quilômetros, e de cujo
abastecimento com víveres e roupas, tinham que encarre-
gar-se as províncias. Um tambo perfeitamente conserva-j
do, localizado no porto de Raya sobre a via calçada de Cuzco
ao lago Titicaca, consiste, segundo Squier, num grande edij
fício com três aposentos e dois corpos laterais, à volta de
um pátio que baixa em várias terraças até um pequeno lago.

Reprodução da cabeça de uma efígie Nasca.

Quando o inca ia de viagem, era transportado numa


liteira em forma de caixa com um baldaquin de plumas e
cortinas laterais. As cargas pesadas, como as enormes
ânforas para chicha, transportavam-se, nas costas, median­
te cintas que não se punham na frente, como comumente
se faz na América do Sul, e sim que eram passadas sobre
os ombros e o peito; maneira esta somente encontrada en­
tre algumas tribos colombianas e os oona da Terra do Fogo” .
CONVITE À CIÊNCIA 87

Mais adiante diz o autor:


"A s obras mais imponentes dos incas são as suas for­
talezas. O forte de Sacsahuaman cobre um promontório
inclinado de base triangular entre dois rios que dominam
a cidade de Cuzco, capital do império incaico, defendendo-a
contra ataques no lado noroeste. Suas construções consis­
tem em três muralhas em forma de ziguezague em diferen­
tes alturas de seis e meio, cinco e três metros respectiva­
mente, com parapeitos e entradas engenhosamente dispos­
tas. Também as principais vias de acesso à região das
selvas tropicais no leste dos Andes, quer dizer, os Vales de
Paucartambo e Vicanota, estavam bloqueados por meio de

Escultura de guerreiro inca

fortalezas, entre as que Ollantaytambo é a mais importan­


te, porque desde êstes três vales, o império incaico estava
sempre ameaçado pela invasão de tribos selvagens. A idéia
fundamental de tais obras é quase sempre a mesma: co­
briam-se os sítios de menos declive de um pico proeminente
na ladeira do vale, desde o fundo até o desfiladeiro, com
terraças de alvenaria de diferentes alturas, e nos lugares
muito escarpados com atalaias, enquanto que as obras prin­
cipais estavam situadas no próprio desfiladeiro. Um exem­
plo, especialmente típico, é apresentado por Machu Picchu,
o castelo de fronteira mais setentrional, que não foi des­
88 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

coberto até o ano de 1912, e que servia de refúgio a Manco,


o último descendente dos incas depois da conquista do Peru.
Situado a uma altura de 2.500 metros acima do nível do
mar, sobre um fio da serra, em cujo pé o rio de Urubamba
traça a figura de uma ferradura, esta fortificação consta
(à parte das terraças) de uma dupla muralha no lado aber­
to do cotovelo do rio e dos dois fortes avançados sobre cada
um dos cumes que dominam o rio. Um fosso circunda a
muralha interior, cuja entrada podia ser fechada antiga­
mente com grossas tábuas. De tierraça em terraça, seguem
seu curso escadarias de pedra; e um aqueduto que passa
por debaixo da muralha, conduz água de manancial a de­
zesseis pilhas de pedra, construídas em fila.

Escultura de guerreiro inca

Apesar da indumentária do altiplano ser, no essencial,


idêntica à da costa, há, não obstante, certas diferenças no­
táveis. Os homens, levavam, além da tanga (juara), uma
camisa (úncu), na qual a relação entre comprimento e lar­
gura era inversamente proporcional à camisa dos costeiros,
por ser relativamente estreita e chegar até o meio da coxa;
além disto, não tinha mangas. Quanto ao modo de vestir
das mulheres, temos informações não somente através dos.
relatos e representações, mas, também, graças a um achado
de Maxe Uhle, que descobriu, dum lado do templo do sol de
Pachamac, um túmulo com múmias de mulheres ricamente
vestidas, as quais teriam sido estranguladas, o que quer di­
zer, provàvelmente sacrificadas. Estas mulheres levavam
CONVITE À CIÊNCIA. 89

um vesti ao que as cobria desde o peito até os pés e dava


uma volta ao corpo por um de seus lados (acsu), estando
prêso nos ombros com dois alfinetes de cabeça discoidal
( topu), de maneira que os braços ficavam livres. Na cin­
tura, levavam um cinturão magnificamente adornado. Tan­
to homens como mulheres usavam, ademais, sobre os om­
bros, uns capotes estreitos retangulares (yacolla e lliclla,
respectivamente), que os homens fechavam no peito com
um nó, enquanto as mulheres as seguravam com um topu.
O calçado e penteado eram iguais para ambos os sexos;
sandálias de couro ou fibra de ágave, assim como faixas
frontais de lã de lhama (llautu), da largura de um dedo,
que se enrolavam em várias voltas na cabeça. O inca rei­
nante, levava, em lugar do llautu negro, comum e corrente,
um de cor vermelha, do qual caíam sobre a fronte uma
franja de lã igualmente vermelha (mascapaiqha) e da lar­
gura da mão, em cujo centro viam-se guizos de ouro, en­
quanto que, na fronte, e fincado verticalmente na faixa,
via-se um penacho de plumas de corequenque, o pássaro sa­
grado. As mulheres de alta posição, sobretudo a esposa
principal do inca, trocavam o llautu por uma estreita man-
tilha dobrada sôbre a fronte e que caía para trás.
Esta indumentária predomina quase uniformemente,
desde Quito até o norte do Chile. Somente os colla e seus
afiliados quichus (os cana e collagua) formavam exceção
da regra, pois levavam, e levam ainda hoje em dia, um
gorro com borla (chuco), feito de lã em trabalho de ponto,
e com orelheiras; algumas vêzes, também, com uma más­
cara, para protegerem-se contra os ventos glaciais da Puna;
ademais, não usavam sandálias, e sim pantuflas de lã ou
alpargatas de tecido. Na época da cultura de Tiahuanaco,
estas mesmas tribos usavam uma espécie de boné de ponto,
com borlas pontiagudas nos seus quatro lados. -
Quando os espanhóis, depois da cruenta rebelião do
Tupac Amaru (de 1780 a 1782), proibiram, por meio de
leis draconianas, que se usasse a indumentária incaica,
"perigosa para o estado” , difundiu-se no Peru, além de cal­
ça e chapéu, o poncho, ou manta sem costura e com uma
abertura no centro para a cabeça, que era um adorno total­
mente desconhecido no Peru antigo. Segundo G. Montell,
o poncho é provàvelmente originário do Chile, onde come-
90 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

çou a ser usado, após a introdução do cavalo, como evolução


de um tipo de indumentária que se encontra nas sepulturas
de Arica. Não obstante, o vestido feminino incaico é usado
até em nossos dias, no Equador, Chile e em certas regiões
do Peru.
Os homens usavam o cabelo curto, incluso raspado, com
exceção de uma trança da largura de um dedo. No jogo
de toucador, figuravam pinças de bronze para depilação, de
forma triangular ou retangular, espelhos de bronze e esco­
vas. Para a pintura corporal, usava-se, além do urucum,
que era originário da Amazônia, o cinábrio extraído das
minas de mercúrio da província de Huancavilca.
A defo/i%maçõio craniana dos colla assemelhava-se à dos
povos costeiros, diferenciando-se, por conseguinte, das "ca­
beças planas” ^(paltor-uma) no norte da região do altiplano
e no Equador.
Devido aos seus enormes bodoques auriculares de ma- ‘
deira leve, que na parte dianteira estavam adornadas com
ouro, os membros da casta dos incas eram designados pelos
espanhóis pelo nome de "orelhudos” . Os habitantes do
vale de Yucay eram os únicos que tinham permissão para
levar também orelhas iguais, apesar de serem menores e
feitas da medula do junco; diz-se que, como sinal muito
especial da benevolência dos incas, mas, na realidade, por­
que êstes já os tinham encontrado em uso ao chegar em
tal região.
O principal distintivo dos guerreiros e príncipes eram
discos peitorais de cobre, prata ou ouro. Na época de
Tiahuanaco, costuravam-se à roupa, como em Coclé, discos
semelhantes. Graças aos relatos espanhóis a respeito do
saque realizado nas capitais incaicas de Pachacamac e
Cuzco, e a informação sobre a soma fantástica de resgate
com que o prisioneiro Atahualpa esperava comprar a sua
liberdade, sabe-se perfeitamente, quão imensos eram os te­
souros em jóias, utensílios e armas de prata e ouro, acumu­
lados no império incaico. A grande maioria dêstes objetos
■^oi parar, naturalmente, nos crisóis dos espanhóis.
As artes da época incaica eram menos presunçosas que
a dos povos costeiros, mas em compensação, ostentavam
serena gravidade e formosura, de igual maneira que a sua
CONVITE À CIÊNCIA 91

arquitetura. Conhecemos os tecidos graças a alguns peda­


ços que se conservaram em sepulturas de Pachacamac, Ica
e na ilha de Titicaca. Enquanto as camisas dos homens,
o que merece mais admiração, devido ao seu carácter geo­
métrico, com os desenhos realistas dos tecidos feitos na
costa” .
Sobre a guerra diz o autor: "Os incas faziam a guerra
com a mesma crueldade que os povos primitivos; com a
maior naturalidade exterminavam desapiedadamente tribos
inteiras e martirizavam de uma maneira bárbara os
adversários vencidos. Provàvelmente, é originária do

Cabeça de uma múmia do antigo Peru

Equador, o costume de esfolar os príncipes prisioneiros, re­


beldes ou traidores, e de forrar com sua pele os grandes
tambores que se tocavam durante a festa do sol, de ma­
neira que em cada batida, a cabeça e os braços do morto
moviam-se lügubremente em espantosas convulsões, como
se estivessem cheios de vida. Outros troféus incaicos, co­
mo os recipientes feitos de crânios, ou flautas feitas de
ossos dos inimigos mortos, é costume entre os araucanos
até os tempos atuais.#
A constituição estatal incaica não deve tampouco jul-
gar-se, apesar de seu carácter unitário na América pré-co-
lombiana, desvinculando-a de suas bases primitivas. O
império incaico não era "um grande estado socialista”, co­
92 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

mo quiseram interpretar alguns utopistas democráticos, e


sim uma continuação e "intensificação” de antigas formas
sociais americanas, apesar de terem sido levadas até as
suas últimas conseqüências. Por muito tempo, tomou-se
por verídicas as afirmações do cronista Gardlaso de la Ve-
ga, descendente dos incas, que atribuía a êles todo tipo de
instituições que, na realidade, êles já a tinham encontrado
implantadas e que somente as adotaram quase sem mudan­
ça, incorporando-as com muito acêrto no seu estado.
Isto refere-se em primeiro lugar à instituição dos ayU
lus. Entre todos os habitantes do altiplano, a tribo estava
subdividida numa série de ayllus, quer dizer, em clãs, cujos
membros se sentiam aparentados por consangüinidade, e
formavam simultâneamente uma comunidade aldeã, que era
dona de certas terras perfeitamente delimitadas (marca).
Dentro dos clãs regia geralmente o princípio patrilinear,
bem que provàvelmente somente desde os tempos dos incas,
porque ainda se encontram restos de instituições matrili-
neares em Chinchaysuyu e outras regiões. De igual ma­
neira, parece que a endogamia dentro da comunidade aldeã,
favorecida pelos incas, tinha substituído a uma exogamia
anterior.
Como em todas partes da América, o clã formava no
Peru, não somente uma comunidade econômica e militar,
mas também religiosa, porque cada aldeia tinha sua divin­
dade tutelar, ao que Arriaga Camac dá o nome de "cria­
dor”, quer dizer, ancestral do clã. Isto permite tirar a con­
clusão de que prevaleciam conceitos totêmicos e, efetiva­
mente, Garcilaso diz que alguns dos participantes da festa
do sol no Cuzco apresentavam-se com peles de puma na
cabeça, e outros com asas de condor nas costas, porque acre­
ditavam ser descendentes dêstes animais.
Os chefes do clã chamavam-se curaca; nos combates ti­
nham o comando sobre o pessoal armado do clã, adminis­
travam justiça e se encarregavam tanto da repartição anual
dos lotes de terra (chacra), como dos rendimentos dos re­
banhos entre os membros do clã, porque as terras e os re­
banhos de lhamas eram propriedade exclusiva do clã. Para
aquêles que, por idade ou enfermidade, tinham ficado
inválidos, todo o clã cultivava coletivamente uma porção
das terras comunais que não tinha sido repartida e a qual
também pertenciam todos os campos de pastoreio e os bos­
CONVITE À CIÊNCIA 93

ques; de igual maneira, a construção dos caminhos, canais


e terraços formava parte das obrigações de todos os mem­
bros do clã.
Entre quase todas as tribos do altiplano, desde os ca-
naris no Equador até os quíchuas do Cuzco, conhece-se a
divisão dual dos clãs em dois grupos, os " hana/n99 e " hurin” ,
que se correspondiam com as "metades” matrimoniais de
outras regiões da América, e que também estavam locali­
zadas como os clãs, quer dizer, que tinham quarteirões es­
peciais nas cidades. Fora disto, havia para ocasiões sole-

Múmia de um adulto do antigo Peru

nes, por exemplo, durante a festa de Sithua no Cuzco, uma


divisão da tribo em quatro grupos com fins rituais, que se
remontavam aos quatro clãs que originàriamente estavam
domiciliados em Cuzco.
Também a família dos incas eram originalmente um
ayllu no estilo dos outros, que estava à frente de uma pe­
94 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

quena tribo composta de uns dez ou onze ayllus. Posterior­


mente, esta tribo teve outros onze ayllus mais, que se ti­
nham formado com os filhos menores dos incas reinantes.
A o estabelecer-se esta tribo, no vale de Cuzco, submetendo
os aborígenes da região, não se misturou com êles, e sim
se constituiu na casta reinante, carácter que conservou tam­
bém ao estender seu senhorio paulatinamente sobre todo o
país.
Seu modo de proceder era deixar intacta, em relação
aos seus traços essenciais, a instituição dos clãs nas regiões
conquistadas. Dentro do estado, os clãs seguiam sendo as
unidades administrativas menores; os homens capazes de
levar armas formavam as centúrias do exército incaico e
o curaca continuava no seu cargo de diretor de obras pú­
blicas de sua aldeia, chefe da centúria e juiz, e mais ainda,
sua condiçãp era melhorada, concedendo-lhe terras e servos
e dispensando-lhe de prestar serviços pessoais. Conclui-se
que, êste funcionário necessitava da confirmação da parte
do inca e era responsável na pontual e irrepreensível exe­
cução dos trabalhos públicos e outras prestações do seu clã.
Com respeito à propriedade das terras dos clãs, os
incas somente intervinham no sentido de que procediam em
todas partes a dividi-las em três classes: uma continuava
de posse do clã; outra era declarada "terra de deus” e a
terceira, domínio do Estado; o mesmo se fázia com os re­
banhos. Não obstante, ao tomar estas disposições, não se
procedia de maneira esquemática, e sim se tinham em conta
as condições naturais e a densidade da população, para não
pôr entraves às necessidades vitais das comunidades aldeãs.
Os incas nunca pensaram em suprimir a propriedade par­
ticular sobre casas ou bens móveis.
A expropriação da "terra de deus” e os terrenos do Es­
tado, proporcionava-lhes a vantagem de poder recompensar
os serviços dos funcionários ou guerreiros, dando-lhes ter­
ras possíveis de serem herdadas fora da organização genti-
lícia. Para cultivar tais terras, proporcionavam-se aos feu-
datários servos ( yanacuna), que eram recrutados entre os
prisioneiros de guerra, delinqüentes e servidores escolhidos
entre os clãs, por meio de um recrutamento; êstes traba­
lhavam sob as ordens exclusivas do inca, o qual também os
ocupava em serviços do palácio e templos. Outra restri­
ção da propriedade, referia-se às plantações de coca e às
CONVITE À CIÊNCIA 95

jazidas de minerais m etaliferos, que sempre passavam à pro­


priedade exclusiva do inca. A intervenção no funciona­
mento econômico dos clãs somente era procedente naqueles
ramos que necessitavam de uma regulamentação para o
bem geral; por exemplo, no importante problema do repre-
samento de água mediante canais.

A história do império inca conta que seu imperador, Manco


Capac, fu?idou a cidade de Cuzco, no século X III, mais ou
menos em 1250.
96 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

A organização do trabalho obrigatório no império in­


caico, que causa a impressão de algo muito moderno, basea-
va-se numa idéia que já faltava no próprio carácter dos
clãs e segundo a qual, cada membro do clã estava obrigado
a trabalhos agrícolas em bem da comunidade. Para a me­
lhor distribuição do trabalho, os incas tinham criado ou
adotado o agrupamento dos membros do clã em dez grupos
coevales, dos quais, não obstante, somente o oitavo grupo
(quer dizer os homens de 25 a 50 anos) tinha que estar
disponível para toda classe de trabalhos. Eram ocupados
nas obras públicas, no exército e no cultivo das terras, pro­
priedade dos templos ou do Estado, já que êstes tinham
prioridade sobre o trabalho nas terras do clã. Os outros
grupos de jovens e velhos tinham que trabalhar, principal­
mente nos transportes e nas colheitas. Isentos destas obri­
gações estavam ünicamente os cíiracas e os "orelhudos” ,
quer dizer, todos os membros da casta incaica, os quais em
vez de trabalhos pessoais, prestavam serviços como funcio­
nários e oficiais do exército, por serem os únicos capacita­
dos para êle. Outro pequeno grupo de isentos compunha-
-se dos artesãos, cujo trabalho era de importância especial
para os incas: ourives, artistas, tecedores e alfaiates.

Tanto os produtos dêstes como os tributos em produ­


tos naturais, que se arrecadavam periodicamente dos clãs,
eram entregues aos armazéns. O comércio livre estava
muito pouco desenvolvido, reduzindo-se suas atividades
quase exclusivamente à troca de milho e lã entre a costa
e o altiplano. Quanto ao resto, o próprio inca encarrega-
va-se de certa nivelação econômica, proporcionando provi­
sões dos armazéns fiscais aos povoados que tinham ficado
na miséria, devido às más colheitas ou catástrofes naturais.

Com a maioria das mencionadas disposições, os incas


não se distanciavam, nos seus pontos essenciais, dos limites
da organização gentüicia; mas, sim, puseram fim ao agru­
pamento em tribos, ao ordenar o repartimento total de suas
terras entre as comunidades aldeãs. Ademais, sua tendên­
cia a debilitar os clãs manifestava-se claramente, e de ma­
neira inconfundível em algumas disposições que resultam
especificamente características para a constituição estatal
dos incas. Um dos obstáculos principais para a centrali­
zação governamental consistia n a multiplicidade de línguas
e de divindades entre as numerosas tribos pequenas. Con­
CONVITE À CIÊNCIA 97

tra êstes inconvenientes lutavam os incas por meio da in­


trodução. forçosa do idioma quíchua e do culto solar. Da
mesma maneira como o inca não destituía os chefes do clã,
tampouco eliminava os deuses locais, procedendo ünicamen-
te a subordiná-los ao deus solar, o que se expressava sim­
bolicamente por meio da mudança de seus ídolos a Cuzco.
Era, naturalmente, de grande importância o firme en-
cadeamento das regiões recém-conquistadas à metrópole in-
caica. Isto se conseguia, por um lado, fortalecendo o poder
dos curacas, por meio do qual se colocava uma cunha na
organização tribal democrática, e pelo outro, dando aos fi­
lhos dos curaca uma educação obrigatória num colégio no­
bre ( Yachahuasi) do Cuzco; deste modo, tais jovens cria­
vam-se nos costumes e modo de pensar dos conquistadores.
Mais radical ainda, era o sistema de colonos forçados (mi-
tim a c); carregavam grupos inteiros das regiões recém-sub-
metidas (por exemplo, da costa), às terras da metrópole,
e eram substituídos por elementos de inteira confiança.
Simultâneamente, esta colonização tinha por objeto impul­
sionar economicamente as regiões pouco aproveitadas (co­
mo a Puna), mediante elementos mais experimentados.
Um exército de funcionários tomava conta dos curaca
(de uma mjaneira parecida a dos "residentes” inglêses ante
os príncipes nativos). Êstes empregados estavam às or­
dens de governadores de província ( tucuy ricuc), que sem­
pre tinham quatro tribos sob seu mando e cuja obrigação
era a de vigiar o recrutamento dos homens sujeitos ao ser­
viço militar, à arrecadação dos tributos e à execução das
obras públicas.
Enquanto a maior parte da jurisdição permanecia nas
mãos dos curacas, o tucuy ricuc intervinha sempre, quando
se tratava de disputas entre duas tribos, de delitos dos
"orelhudos” ou de crimes que faziam perigar o- próprio Es­
tado (alta traição, rebelião, delitos militares, etc.). O inca
em pessoa pronunciava o veredicto sobre os curacas delin­
qüentes, enquanto que o castigo de sacerdotes ou de leigos,
que tinham cometido delitos contra a religião, correspondia
às obrigações do sumo sacerdote do sol ( huillac um u). O
direito incaico era extremamente draconiano, porque se re­
sumia, com seu conceito da lei do talião, inteiramente na
idéia do castigo, não conforme ao direito gentilício. Mes­
mo por delitos insignificantes condenava-se à morte, cuja
98 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

forma mais infamante era a de ser queimado — uma idéia


muito compreensível num país que tratava de conservar
seus mortos com o maior cuidado possível — ; em contraste
com isto, a decapitação era considerada honrosa, sendo apli­
cada, por conseguinte, somente ao tratar-se de "orelhudos” .
Ademais, as crônicas falam das penas de forca, apedreja-
mento e esquartejamento (em caso de traição), encarcera­
mento, escravidão e raspagem da cabeça (êste último cas­
tigo aplicava-se, também, a casos de prostituição ou im-
pudicícia). De acordo com o carácter do direito incaico, a
multa ficava relegada a segundo plano. Entre os métodos
de investigação para descobrir o culpado, usavam-se tor­
turas, por deliberação das "huacas” e ordalias.
Comumente, crê-se que o império incaico foi um regime
de despotismo absoluto, e efetivamente, visto de fora, tinha
chegado a êste extremo da forma monárquica, mediante o
desenvolvimento conseqüente das fases preliminares que en­
contramos entre os cuevas e muiscas. O inca reinante
( capac ou sapay inca) era considerado como o deus solar,
que se tinha encarnado e estava de passagem na terra; por
outro lado, sua principal mulher (coya) era a encarnação
da deusa lunar. Todo indivíduo, que se aproximava do
inca, tirava as sandálias e colocava uma carga às costas,
para demonstrar a sua humildade. Os emblemas do inca
eram, ademais do llautu vermelho com franja, uma espécie
de cetro com uma cruz feita de plumas (suntur paucar),
uma preciosa sombrinha de plumas, que uns criados susten­
tavam, e a coya. Todos os utensílios do inca eram de ouro
e prata, e seus trajes da mais fina lã de vicunha.
Não obstante, apesar de toda esta pompa, existia tam­
bém limitações; o poder do inca estava sujeito a várias
restrições que se explicam pela sua origem. A casta nobre
dos orelhudos que, como é sabido, representava, devido às
suas funções, privilégios e ingressos, um fator de extrema
importância no império, estêve freqüentemente em oposi­
ção violenta ao inca. Quando o oitavo inca, Huiracocha,
quis entregar o poder ao seu segundo filho, em vez de dá-lo
ao primogênito, a nobreza não lhe permitiu; e ainda mais,
insubordinou-se em campanha de guerra por ser mal aten­
dida pelo penúltimo inca, Huayna Cápac. Mas nem mes­
mo nos seus assuntos governamentais era o inca indepen­
dente, porque tinha ao seu lado um conselho supremo de
CONVITE À CIÊNCIA 99

GIGANTES DE PEDRA
(Sto. Agostinho, Colômbia — América do Sul)
100 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

quatro "cápac” ou "cvpu” que atuavam como os supremos


funcionários dos quatro grandes distritos (suyu), denomi­
nação da qual se deriva o próprio nome do império:
("os quatro suyu” ). Ademais, parece que o sumo sacer­
dote (huülac umu) desempenhava também um papel polí­
tico de muita importância, porque as fontes espanholas di­
zem que êle gozava do mesmo prestígio que o inca, e que,
em tempos antigos, tinha feito comparecer êste ante seu
tribunal.
Tais situações recordam vivamente o império asteca, e
encontram, como supõe Trimborn, sua explicação no fato
de que, dentro da tribo dos incas, os curacas dos quatro clãs
mais antigos tinham originàriamente o poder e que o
huillac umu, que era talvez um dos parentes mais próximos
do inca ou que talvez descendesse de um clã que, desde
tempos remotos, rivalizava com o ayllu incaico, correspon­
dia, segundo seu cargo, ao chefe de paz norte-americano.
Somente pouco a pouco, o chefe de guerra {sinchi) conse­
guiu fazer prevalecer seu cargo. Efetivamente, os primei­
ros sucessores de Manco Cápac se intitulavam ainda sinchi;
ademais, do relato de Montesinos sôbre um longo período
de príncipes com o título de amauta (sábio), que precedeu
aos sinchi, depreende-se que anteriormente existia a supre­
macia dos chefes de paz.
Sob o texto inca, Roca (segundo Means, de 1250 a
1315), os sinchi adquiriram poder de verdade e desde aí
começa a grande 'expansão guerreira da tribo dos incas, e
graças às conquistas dos incas Pachacutec, Tupac Yupanqui
e Huayna Cápac, o império levou suas fronteiras até o rio
Ancasmayu, no sul da Colômbia, (1 grau de latitude nor­
te) e o rio Maule no Chile (35 graus de latitude sul), abar­
cando, dentro dêstes limites, todo o altiplano e a costa.
Apesar dos exércitos dos incas terem avançado também na
região do Amazonas superior e o Gran Chaco até os limi­
tes do pampa, nunca submeteram de maneira permanente
os países ao leste dos Andes. Sob Huayna Cápac, levou-se
a cabo a fatal divisão do império numa metade setentrional
e outra meridional, tendo Quito e Cuzco por capitais, e
Atahualpa e Huáscar por regentes, respectivamente. Com
esta divisão ficou aberto o caminho da conquista do país
pelos espanhóis.
CONVITE À CIÊNCIA 101

Por intermédio de suas disposições, os incas tinham in­


vadido a vida privada dos seus súditos. Não somente pres­
creviam a indumentária a ser usada em cada região e proi­
biam a mudança de local de residência, como, também, re­
gularizavam os casamentos segundo seus propósitos. O
súdito comum não podia casar-se antes dos vinte e quatro
anos de idade, e as mulheres antes dos dezoito anos. Nin­
guém podia tomar mais que uma mulher, o que se fazia por
compra ante uma espécie de "registro civil” , sob a presidên­
cia do curaca e em presença do presidente incaico compe­
tente. Certos decretos muito rigorosos contra o rapto, o
estupro e adultério comprovam que se tratava de impedir
a todo custo aquele que se iludisse ou não apreciasse a com­
pra realizada.
Os curacas, orelhudos e membros da dinastia não esta­
vam sujeitos a estas leis, pois a êles era permitida a poli­
gamia, até a ponto de que a adjudicação de mulheres a
meritórios funcionários e oficiais do exército era, ao lado
da cessão de terras e servos, um dos favores mais .impor­
tantes por parte do inca. Êste tomava, em geral, como
esposa principal, sua própria irmã, prerrogativa que estava
em aberta contradição com a lei que proibia o matrimônio
entre parentes.
Suas numerosas mulheres e aquelas que regalava aos
orelhudos ou curacas, procediam principalmente dos "con­
ventos”, nos quais viviam as virgens do sol (aclla), sob a
custódia de anciãs. Um alto funcionário, o apupcmaca, en-
carregava-se da seleção destas jovens que os ayllus tinham
que entregar e que desde a mais tenra infância entravam
na aclla» huasi (casa das aclla). Não obstante, nem todas
as aclla eram destinadas a serem concubinas, pois uma par­
te delas tinha que fazer voto de virgindade perpétua, e se
dedicava ao serviço do templo e trabalhava na casa do inca,
ocupando-se da fiação e tecelagem, da preparação.da chicha,
etc.
Mais antiga que estas instituições é a iniciação dos jo ­
vens (huarachicuy, colocar a tanga), que o estado incaico
tinha adotado da organização gentilícia. Esta cerimônia
tinha lugar anualmente em Cuzco nos meses de novembro
e dezembro para a juventude na idade púbere dos orelhu-*
dos, e conservava ainda em todos os seus detalhes a marca
dos ritos de puberdade dos povos primitivos americanos.
102 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Os adolescentes tinham que submeter-se a um longo período


de preparação, durante o qual recebiam conselhos e instru­
ções para a fabricação de armas e sandálias, e deviam dar
provas da sua destreza em corridas de competência ou lu­
tas, assim como de sua firmeza de ânimo por meio de fla-
gelações ou outras provas. Em seguida, o próprio inca, em
solene cerimônia, perfurava-lhes as orelhas com uma agulha
de ouro para ali colocar o distintivo tribal, e lhes cingia
além disto a tanga e as sandálias, considerando tudo isto
como insígnias dos homens. A festa que se realizava, uma
parte, numa grande praça de Cuzco, e outra parte na en­
costa das montanhas sagradas dos arredores, terminava
com bacanais de chicha, danças de máscaras e uma lavagem
dos jovens.
O primitivismo das bases nas quais o inca assentava seu
estado, aparece também na sua religião. Há nela muitos
traços que recordam, de maneira evidente, as idéias reli­
giosas da América do Norte: falta de divindades personi­
ficadas e o conseqüente culto sem imagens, assim como a
crença nos espíritos tutelares e principalmente nos hmacas.
Os peruanos aplicavam a palavra huaca a todos os sêres,
objetos ou fenômenos, dos quais se irradia uma "força”
misteriosa e sobrenatural, e que é capaz de trazer prospe­
ridade ou desgraça; seu veículo é o vento, do qual se crê,
por conseguinte, que é a causa de muitas enfermidades.
Ainda hoje em dia, a linguagem do povo, dá o nome de
huacas ou huacos a todas as pirâmides, sepulcros, figuras
ou vasilhas-efígie da costa. Antigamente, compreendia-se
sob esta palavra, em primeiro lugar, os totens dos clãs, ou
sejam, pedras de forma curiosa ou tôscas figurinhas de pe­
dra; a tribo dos incas possuía duas delas, Huxmacauri e
Anahuarque, que tinham seu local em duas planícies dos
mesmos nomes perto de Cuzco, e eram consideradas como
dois antepassados petrificados, um do sexo masculino e ou­
tro do sexo feminino. Também certos animais eram totens
tribais, principalmente a puma e o condor, que já os ho­
mens da cultura de Tmhuanaco tinham considerado como
sagrados ; assim como o falcão, espírito tutelar dos chancas.
Do mesmo modo que o clã tinha seu espírito tutelar, assim
também cada indivíduo possuía seu fetiche pessoal (cono-
p a )9 quer dizer, algum objeto curioso ou extraordinário,
que, por herança, passava de pai a filho; enquanto que cs
huauques, irmãos do inca reinante (análogos aos con&pa),
CONVITE À CIÊNCIA 10 3

eram enterrados ao ocorrer sua morte, junto com a múmia.


Esta crença combina-se freqüentemente com idéias mitoló­
gicas naturalistas, por exemplo, quando aparece entre os
huauque o falcão que leva o nome de inti (sol).
O sol era possuído por uma huaca particularmente po­
derosa, motivo pelo qual, tinha sido feito espírito tutelar
do ayllu do inca. Sua imagem encontrava-se no templo de

Escultura de um sapo. Encorvtrada na parte mais alta


do rio Fraser, na Colômbia Britânica.

Desenho tirado de um pote, em S. Domingos, Guatemala.


Cuzco sob o altar e ao lado das imagens da lua (qintta)
e diversos astros ou constelações.
Somente raras vêzes, encontramos uma antropomorfi-
zação dêstes espíritos da natureza. Em certa lenda, que
trata de uma visão do que mais tarde seria o inca Pacha-
104 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

cutec, o deus solar apareee na figura de um homem, de cujo


occipúcio irradiam raios, enquanto serpentes se cingem à
volta dé suas clavículas e uma puma descansa sobre os seus
ombros; é esta uma descrição que traz, à memória, a re­
presentação do deus solar sobre o frontispício monolítico
da cultura do Tiahu/maco e sobre placas de bronze dos dia-
guita.
Em geral, os deuses incaicos não são mais que figuras
pálidas e impessoais, manifestando-se nos corpos celestes,
no raio e no arco-íris, na terra, no mar, mananciais e lagos,
rochas e cerros. Do deus das tormentas nos é dito que
produz trovoadas e raios com sua funda; da deusa das chu­
vas, que derrama o elixir frutificador, por cântaros, sobre
a terra, como o Tlaloc mexicano. A adoração dos lagos
alpinos e nevados, faz recordar conceitos e costumes dos
chibcha. Pedras ou penhascos sagrados eram considerados
em parte, como lugares de origem da humanidade, e em
parte, como huari, ou seja, gigantes petrificados dos tem­
pos primitivos, que levam a terra às costas e que, por tal
motivo, são invocados cada vez que se trata de emprêsas
que exigem força e perseverança. Um resto da idolatria
da pedra sobrevive nos apachetas, ou seja, montões de pe­
dras dos desfiladeiros, ante os quais ainda o índio atual
deposita uma oferenda de folhas de coca.
Somente o grande deus criador e herói civilizador
Huiracocha, que chegou a ser identificado com o deus solar,
igual ao seu antecessor Touapa (o principal deus dos coUa),
nos é apresentado em mitos e cantos como um personagem
um pouco mais forte. Tem traços afins ao Quetzalcoatl
dos mexicanos, também levando-se em conta de que já não
lhe era rendido um verdadeiro culto nos últimos tempos
pré-históricos.
A dupla dos deuses Huallallo e Pariacaca, sob os quais
tratam os mitos de Huarochiri, recordam os irmãos rivais
das lendas norte-americanas.
intimamente ligada com a crença nos huacas, estava a
adoração ancestral, que se expressa no culto das múmias
( mallqui). Também delas irradia-se um efeito mágico,
principalmente quando se trata de pessoas importantes,
motivo pelo qual, os chanca levavam as múmias dos famosos
chefes em suas expedições guerreiras; enquanto que os qui-
CONVITE À CIÊNCIA 105

chuas do Cuzco faziam as múmias do inca participarem em


todas as suas grandes festas, por exemplo, no him uchicuy.
Devido ao fato de os incas reinantes representarem o sol
na sua vida terrena, suas múmias eram depositadas no tem­
plo do Sol. O licenciado espanhol Polo de Ondegardo en­
controu, no ano de 1559, cinco delas num esconderijo, e as
descreve como cadáveres acocorados luxuosamente atavia­
dos, semelhantes às múmias dos povos costeiros. Tudo o
que um inca defunto tinha usado, seu palácio, sua mobília
e seus servos, não passava para a propriedade do seu su­
cessor, e sim se conservava no mesmo estado em que tinha
existido durante sua vida.

ÍNDIO GUAÍBA — Nota-se grande semelhança entre


índios guaíbas e chineses.

Os mortos eram sepultados não somente em templos,


mas também em tôrres-túmulos e em covas. Estas últimas
estão situadas, perto de Ollantaytambo, nuns alcantilados
quase inacessíveis, e no vale de Cuzco, nas proximidades
de picos, nos quais se tinham esculpido assentos, escadi-
nhas, nichos, canais e cavidades. Uhle supõe que estas ro­
chas talhadas (no total de onze), serviam p a ra '0 culto dos
mortos dos ayUu incaicos. Também sepultavam-se crianças
em urnas, mas, únicamente, tratando-se de gêmeos, aos
quais os peruanos, assim como os mexicanos, consideravam
como algo contrário à natureza, e por isto causava-lhes te­
mor.
Os templos dos incas não eram mais que habitações de
maiores dimensões e estavam construídos na superfície da
106 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

fcerra. Isto pode dizer-se também do grande templo de


Huiracocha de Cacha, no vale do rio Vilcanota superior,
que era na sua época, uma casa mais comprida que estreita,
de teto com duas vertentes e naves laterais abertas, sendo
que hoje em dia, apresenta somente a parede mediana, e
as bases de ambas filas laterais de colunas redondas. Em
tempos anteriores à difusão do culto solar, conheciam-se
também no altiplano formas de templos que recordam as
da costa e também as da Mesoamérica; assim temos, por
exemplo, em Vilcas Huaman, antiga região de campos, uma
pirâmide de três corpos, construída de tijolos, e que servia
de base a um templo, no qual se sobe por uma escadinha
estreita e com porta de entrada; e no Huánaco Velho, no
Maranon superior, uma terraça de pouca altura, que tam­
bém tem escadinhas, e sobre ela se levanta um quadrângulo
de tijolos, cujas duas entradas estão franqueadas por um
friso com figuras de pumas acocoradas.
Em geral, os templos incaicos do Sol estavam combi­
nados com um intihuatana, que consistia numa superfície
plana de rocha com um cone de pedra de pouca altura, que
servia de indicador da sombra, segundo a passagem do sol,
ou talvez somente como simples altar solar. Na fortaleza
de Pisac, o intihuatana está rodeado de uma muralha de
pedra em forma de ferradura; também o último resto do
Coricancha ("cercado de ouro” ) ou seja, o templo do Sol
em Cuzco, tem a forma do muro circundante de um intihuau-
tana.
Por considerar-se as acllas como esposas ou serventes
do deus solar, cada templo solar tinha seu "convento de
freiras” (acllahuasi); o da ilha.de Coati, no lago de Titi-
caca, está bem conservado, consistindo num edifício central
e duas alas laterais; duas grandes peças que ocupam o cen­
tro da fachada principal e em cuja parede de fundo vêem-se
grandes nichos decorativos, serviam provàvelmente para o
culto, enquanto que as outras peças, muito estreitas, seme­
lhante a celas, serviam de quartos. Uma construção simi­
lar encontra-se no templo solar incaico de Pachacamac, a
cidade sagrada, que gozava, na época dos incas, de grande
prestígio por seu famoso oráculo, motivo pelo qual estava
dotada de vários privilégios.
Somente em ocasiões muito excepcionais imolavam-se
seres humanos, por exemplo, para espantar a má sorte nas
CONVITE À CIÊNCIA 107

emprêsas guerreiras ou epidemias, mas, principalmente,


durante a canonização de um novo inca. Então, todo o
país tinha que enviar crianças e virgens para Cuzco, de
onde eram escoltados em solenes procissões aos diferentes
templos ou locais sagrados. No lugar de destino, eram es­
trangulados, enterrando-se os cadáveres defronte das hua-
cas ou templos. Êstes dados foram confirmados de uma
maneira surpreendente pelo achado do grande túmulo de
mulheres de Pachacamac. Não obstante, em geral, sacrifi­
cavam-se animais: coelhos da índia, com o intuito principal
de serem abertos para arrancar-lhes o coração, como às ví­
timas humanas no México. Ainda atualmente, o agricultor
peruano enterra fetos de lhama sob os alicerces da sua nova
casa.

Gigantesca cdbcça de pedra encontrada num matagal


do sudoeste do México.

Outras formas de sacrifício eram oferendas de coca ou


ehicha, especialmente durante a festa do Sol em Cuzco, que
também terminava com uma grande bebedeira de chicha.
Já mencionamos os diferentes tipos de oferendas. As jóias,
como plumas ou conchas, eram como no México as mais
apropriadas para o sacrifício ante os deuses das tormentas
e chuvas. Em lugar dos incensos, no império incaico, cos-
tumava-se soprar em direção às huacas gordura e sangue
de lhama, tostadas com milho e folhas de coca.
108 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Os sacerdotes, cujo chefe era o sumo sacerdote do Sol


( huillac um u), prestavam os seus serviços não somente nos
templos, mas também estavam adstritos às huacas e mú­
mias mais importantes; além dos sacrificadores, havia hip­
notizadores, sortilégios, adivinhadores e hepatóscopos. Ês­
tes últimos observavam as contrações dos músculos ou as
convulsões de uma serpente ou das patas de uma aranha
e prognosticavam o futuro, valendo-se de um pulmão de
lhama inchado ou dos intestinos de um coelhinho da índia.
O malefício para prejudicar alguém praticava-se soprando
farinha de milho ou cinza de mortos em direção do inimigo
ausente.
Os sacerdotes confessores desempenhavam um papel de
primeira ordem, porque ante êles confessavam-se os peca­
dos, não somente no caso de alguém sentir-se pessoalmente
enfêrmo, mas também ao adoecer o inca reinante ou ao su­
ceder alguma desgraça nacional. Então o sacerdote sancio­
nava o confesso por meio de golpes com uma boleadeira e
ambos cuspiam sobre um feixe de ervas que jogavam ao rio,
para que êste se encarregasse de levar o pecado. Semelhan­
tes conceitos davam motivos à grande festa de Sithua, que
tinha lugar em Cuzco durante o mês de setembro. Para
exorcizar todos os males que se tinham acumulado na ci­
dade no correr do ano que acabava de terminar (enfermi­
dades, pecados, etc.), quatrocentos guerreiros de todos os
ayllu saíam correndo, logo que a lua aparecia, da cidade
em direção aos quatro pontos cardeais, agitando com pro­
jéteis acesos e banhando suas armas na primeira corrente
dágua que encontrassem. De todas as casas, por onde pas­
savam, saíam moradores, que sacudiam suas roupas, banha­
vam-se e pintavam o rosto com papa de milho. Durante
esta cerimônia, os forasteiros, os enfermos e os inválidos
tinham que permanecer fora da cidade.
Quanto às outras festas, quase sempre estavam relacio­
nadas com o cultivo. Com o fim de fertilizar màgicamente
os campos, queimava-se durante a colheita fetiches de mi­
lho ou batatas; costume muito parecido ao que encontramos
no México.
Entre os sacerdotes, havia um grupo importante, os
amauta ou sábios, que tinham como missão, entre outras,
cultivar as tradições históricas e transmiti-las aos jovens
membros da nobreza. Parece que se valiam para êste fim
CONVITE À CIÊNCIA 109

de uma espécie de escritura pictórica, da qual desgraçada­


mente não se conservou nada; guardava-se num templo
perto de Cuzco certas tábuas de madeira, nas quais estavam
pintadas a história e pré-história do país, para ajuda mne-
motécnica dos auamauta,. Segundo Cabo, estas pinturas
assemelhavam-se aos tapetes que êle tinha conhecido em
Cuzco, e que provàvelmente tinham o mesmo aspecto das
telas muito delicadas que exibiam representações cênicas
dos túmulos de Pachacamac. Sarmiento atribui a fundação
destas "bibliotecas” pictóricas ao inca Pachacutec, que sem­
pre tratava de fomentar as ciências, instalando escolas de
amauta, aperfeiçoando a cronologia e ordenando a forma­
ção de mapas em baixos-relevos de barro, de todas as re­
giões do seu império.

Também os índios atuais do Peru e Bolívia mostram


ainda certa propensão em fazer apontamentos pictográficos.
Em, fins do século XVIII, um velho índio colla, da região
de Cochabamba, inventou uma escritura pictográfica pri­
mitiva para gravar-se na memória os artigos do catecismo.
Parece-se com a dos curva.
Não obstante, em todos êstes casos, somente se trata
dos primeiros passos para uma evolução que não conseguiu
ultrapassar os seus começos. Em compensação, os perua­
nos incaicos desenvolveram até à perfeição outro substituto
da escritura, que não é raro tampouco em outras regiões
da Am érica: os cordéis de nós ( quipos). Graças aos estu­
dos de Max Uhle, L. Locke e E. Nordenskiõld muitas fan­
tasias de relatos anteriores acêrca do conteúdo dos quipos
puderam ser desvirtuadas; é lógico que estas cordas não
podiam transmitir tradições históricas, nem leis, nem poe­
mas, como se afirmava, e sim exclusivamente números. O
princípio fundamental dos quipos está intimamente ligado
à escritura de números dos maias, porque os nós têm um
valor de posição, que tem por base, não obstante,, o sistema
decimal; quer dizer, assinala de baixo para cima, respecti­
vamente, unidades, dezenas, centenas e milhares. Para evi­
tar erros, empregavam-se diferentes tipos de nós. Todos
os outros detalhes dos quipos (cor e agrupamento de cordéis
e cordéis auxiliares, etc.), somente referem-se à categoria
dos objetos computados (objetos, pessoas, unidades de tem­
p o). Para cada ramo havia entre os "guarda quipos”
(quipu-ca/mayoc) dos incas, especialistas que tinham sob
110 YOLÀNDÀ LHULLIER DOS SANTOS

sua custódia arquivos inteiros, à vista do qual os sinais, que


caracterizam as categorias, tinham em cada caso que signi­
ficar outra coisa; por exemplo, um cordão branco indicava
por um lado, prata (em contraste com amarelo-ouro), e
pelo outro, dias futuros (em contraste com negro — dias
passados); um cordão vermelho significava guerreiros, etc.
Desta maneira, tinha-se feito um sistema de computar, por
meio de quipos, um excelente auxiliar para os funcionários
do império incaico, que assim podiam registrar tributos,
gado, habitantes de aldeias (com o objetivo de fixar con­
tribuições ou recrutamentos) e outras muitas coisas, depois
de ter feito o cômputo com a ajuda de um ábaco, que tam­
bém está construído à base do princípio do valor da posi­
ção.
Os quipos foram usados ainda por muito tempo no co­
mércio mantido pelos espanhóis com os índios e atualmente
subsiste parcialmente, pois serve ao pastor da Puna boli­
viana para levar a conta de seu trabalho, ou ao agricultor
da região de Huarochiri, para vigiar o rendimento do tra­
balho dos extras nas plantações”.
Como a finalidade desta obra é eminentemente cultu­
ral, não podíamos deixar de reproduzir as passagens acima,
extraídas da obra de Krickeberg, por serem elas altamente
expressivas sobre uma cultura que ainda está em exame.
Esta a razão por que, nesta parte antológica, escolhemos
êstes notáveis trabalhos, bem como os que vamos reprodu­
zir a seguir.
AS CULTURAS ASTECA E MAIA

Da obra citada de Walter Kickenberg rèproduzimos as


seguintes passagens:
"Herbert Spinden chamou de romanos e gregos do
Novo Mundo, respectivamente, os astecas e maias, compa­
ração que, em geral, é exata. Os maias eram um povo ci­
vilizado, criador da América, de cujos conhecimentos se
aproveitaram, não somente muitos outros povos meso-ame-
ricanos, mas também, em escala mais ou menos grande, to­
dos os cultivadores localizados nos contornos do Mar Medi­
terrâneo americano, assim como outros de regiões mais dis­
tantes. Suas conquistas no terreno da arquitetura, artes
plásticas e ciências sacerdotais, colocam-nos, apesar de di­
ferenças fundamentais, no mesmo nível de muitos povos ci­
vilizados do Velho Mundo.
Infelizmente, conhecemos a Cultura Maia de maneira
imperfeita. O clima cálido e úmido do país tropical, no
qual os maias habitavam, não favoreceu a conservação dos
bens perecedouros da sua cultura material. Ademais, a
cultura maia mais antiga, a que alcançou um nível superior,
sucumbiu sob circunstâncias catastróficas, de maneira que
entre ela e a outra mais recente há um abismo, em sentido
cronológico, sobre o qual nenhuma tradição nos estende
uma ponte. Mas, também, são escassos nossos conhecimen­
tos acêrca da cultura maia recente. O auto de fé, que o
primeiro bispo do México, Juan Zumárraga, celebrara com
os códices astecas no ano de 1531, foi eclipsado pela inci­
neração dos livros maias, realizada pelo primeiro bispo de
Mérida, Diego de Landa. De maneira que se salvou, em
relação a uns trinta códices mexicanos, ünicamente três có­
dices maias (agora em Dresde, Madri e Paris respectiva­
mente), que têm um conteúdo principalmente calendárico
e ritual, apesar de fornecerem algumas informações a res­
112 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

peito da vida quotidiana, porém nenhuma em relação a da­


tas históricas. As Relações, redatadas na língua indígena
ou em espanhol, não nos podem oferecer mais que um subs­
tituto muito insuficiente da perda sofrida, porque entre
êstes documentos não há nenhum Sahagún, que é o expoente
máximo da cultura asteca. O que chegamos a saber por
meio das Relações, refere-se somente aos últimos tempos,
quando a cultura maia já estava em plena decadência e pro­
fusamente mesclada com elementos mexicanos, tanto no
Yucatan como na Guatemala. A antiga cultura maia supe­
rior, que floresceu na região de Petén (norte da Guatema­
la) e na faixa de terras baixas, ao longo dos riòs Usuma-
cinta e Montagua — quer dizer, em regiões, que na época
do descobrimento já fazia muito que estavam tomadas pelas
selvas, sobrevive ünicamente nas mudas testemunhas de
edifícios majestosos e monumentos que, por sorte, conser-
varam-se muito melhor e em maior número que os do Mé­
xico. Graças aos estudos dos últimos cinqüenta anos, as
inscrições que os cobrem em compridas colunas, já foram
decifradas até um ponto que nos permite fixar as datas de
tais monumentos, de modo que já se pode reconstruir uma
história da Arte através de um período de uns 700 anos
em números redondos. Mais ainda: descobriu-se a manei­
ra de relacionar esta cronologia com a cristã, sendo que
assim conhecemos agora também as datas absolutas da
criação dos mencionados monumentos, apesar de ainda não
se saber com plena certeza qual é a correta entre as duas
"concordâncias”, que foram formuladas pelos arqueólogos
norte-americanos H. J. Spinden e J. E. Thompson, e entre
as que medeia uma diferença de 260 anos. Não obstante,
indo além do mencionado, não conseguimos ainda ler as
inscrições. Não há dúvida que contêm, não somente datas
religiosas ou astronômicas, mas também fornece dados so­
bre a história e a cultura dos antigos impérios maias, cujo
florescimento coincidiu com os primeiros séculos da Idade
Média Européia (300 a 900 d. C.) ” .
Com base nas notícias, achados arqueológicos e dados
etnográficos, pode-se chegar à conclusão de que os maias
estenderam antigamente pelo leste até o vale do rio Uluá
e a baía de Fonseca, e pelo leste, ao longo da costa do golfo,
até à região do vulcão Tuxtla. Os nahua davam aos habi­
tantes do sul da costa do golfo, aos que tinham subjugado
ou desalojado durante sua própria expansão, o nome de
CONVITE À ÇIÊNCIA 11 3

olmeca, palavra que (como a palavra tolteca) assinala ori-


ginàriamente somente os antecessores da população históri­
ca. É provável que entre êles tenha que se buscar os proto-
-maia, cujos paradeiros não estavam situados nem no Pe-
tén, onde se encontraram os monumentos maias de datas
mais remotas, nem nas terras altas de Guatemala, nem me­
nos ainda no Yucatan, onde não se tinham estabelecido a
não ser em épocas bem mais recentes, e sim na zona entre
Tuxtla e a região dos zapotecas. A favor desta idéia ates­
tam os fatos, que a inscrição maia mais antiga (162 d. C.)
encontra-se numa pequena figura de jade, de Santo Andrés
Tuxtla, e que existem evidentemente relações culturais anti-
quíssimas entre os maias e os zapotecas. Em Guatemala,
Honduras e Salvador, a cultura maia baseia-se, segundo S.
K. Lothrop, numa camada "pré-maia”, da qual se pode di­
zer que era afim à camada arcaica da altiplanície mexicana,
mas sem ser idêntica a ela. Esta antiga população carac-
teriza-se por suas produções cerâmicas e suas esculturas em
toscas pedras oviformes, que representam sêres humanos
em posição acocorada e noutras em que a cabeça e extre­
midades estão indicadas somente por meio de baixos-relevos
ou linhas gravadas, assim como figuras que levam uma es-
cudela apoiada no ventre; outras, cujo rosto termina num
bico de pato, e ainda outras que levam nas costas a figura
de um animal acocorado; quer dizer, tipos que se encon­
tram ainda, apesar de modificados, na arte mexicana pos­
terior. A grande antiguidade desta cultura deduz-se do
fato de ter sido descoberta nas cercanias da cidade de São
Salvador, sob uma camada de doze metros de espessura,
que procede das erupções do antigo vulcão e atual lago de
Ilopango, e que deve ter necessitado de longos anos para
formar-se. Em outras regiões; esta cultura existia, toda­
via, um pouco antes e ainda contemporânea com a cultura
maia da primeira época, porque algumas das toscas figuras
acocoradas foram encaixadas nos cimentos das esteias de
Copán, e a inscrição de Tuxtla está gravada diretamente
numa das mencionadas figuras com cabeça de pássaro, do
tipo pré-maia. Entre 500 a 700 d. C., esta cultura mais
antiga parece ter sido desalojada pelos maias em todas re­
giões e, em último lugar, nas terras altas da Guatemala,
onde os restos, que se encontram nas cercanias da capital
(propriedade Arévalo e outras mais) e nas margens do lago
de Atitlán, não foram ocupadas pelos maias, a não ser na
11 4 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

época do último período do "Velho Império” . Da afini­


dade existente entre as figuras de pedra de Nicarágua com
a plástica pré-maia, poderia deduzir-se que os escultores
desta última tenham sido os chorotega. Não obstante, fo ­
ram achados vasilhas de barro e figuras de pedra no norte
do México, Mississipi, Colômbia e Peru, que demonstram
ser a influência da cultura pré-maia, em tempos remotos,
de alcance muito mais amplo que o próprio território ocupa­
do por êles. A cultura pré-maia foi, evidentemente, uma
variante muito tenra da alta cultura meso-americana, e a
ela temos de atribuir, talvez, certos elementos essenciais da&
culturas posteriores.
Já em seus começos, a cultura maia apresenta um nú­
mero de tipos locais, que fazem pensar em determinadas
diferenças tribais. Naquela época, quase não havia rela­
ções com regiões mexicanas mais do norte. As escavações
que se fizeram em Uaxactun, um grupo de ruínas do Pe-
tén, onde se encontra a esteia com a data mais remota do
ano 328 d. C., trouxe muita luz sobre a época anterior à
erecção dos monumentos mais antigos. Em tal lugar, os
arqueólogos do Instituto Camegie encontraram, sob uma
pirâmide da citada época, outra mais antiga, cujo estilo
arquitetônico é ainda muito diferente da arte maia poste­
rior. Esta pirâmide mais antiga é de pouca altura, tem
escadinhas nos quatro lados, cercadas por máscaras gro­
tescas de estuque, e levava antigamente, na sua platafor­
ma, um edifício de madeira em vez de um templo. Mas em
Uaxactun, os maias já viviam em épocas anteriores à qual
se deu esta construção maia, que é a mais antiga^ que é tal­
vez afim à desaparecida arquitetura pré-maia. Naqueles
tempos, êles ainda não conheciam edifícios de pedra, e sua
cerâmica assemelhava-se às dos seus antecessores. Somen­
te depois, tinham começado a desenvolver uma cultura
típica, cobrindo as férteis terras do Petén com uma rêde
de pequenas colônias, cujas pegadas encontram-se ainda
hoje em dia na selva tropical em forma de montículos de
pouca altura, que assinalam os restos de antigas proprie­
dades. As povoações maiores de Uaxactun, Tikal, NaJcum,
Naranjo, Benque-Velho, etc., que datam do mesmo período,
não eram cidades no sentido moderno da palavra, e sim
centros políticos e religiosos, onde se congregavam os cam­
poneses da comarca nos dias de mercado e festa. A data
mais antiga de Tikal, ou seja a maior dentre as cidades
CONVITE À CIÊNCIA 115

mais antigas, é do ano de 445 d. C. Pouco tempo depois


(ano de 455), fundou-se a cidade de Copán, a "Atenas do
Novo Mundo” , situada em Honduras, às margens de um
afluente do rio Montágua.”
"Várias outras cidades foram fundadas, e uma das mais
famosas foi Palenque, que segundo o autor tem por mais
antiga data o ano de 33 d. C. e que assinala o local onde
se encontram obras de arte estranhas.
Continua o autor: "Todo êste desenvolvimento imensa­
mente rico sucumbiu de uma maneira repentina nos fins do
século IX. A última inscrição do "Velho Império” encon­
tra-se, assim como a primeira, em Uaxactun, com a data do
ano 889. Todas as outras cidades tinham ficado desertas
já muito antes — em primeiro lugar os postos de avanço
da periferia, Copan e Palenque — e a selva, que os maias
de outras épocas tinham feito retroceder, voltou a tomar
conta da região. O repentino abandono de uma área de
600 km de comprimento e 200 de largura, com dezejias de
grandes cidades e numa época em que a cultura maia justa­
mente tinha chegado à cúspide de seu florescimento, faz
pensàr na concomitância de várias catástrofes de índole in­
terior e exterior (invasão de tribos estrangeiras, guerras
desventuradas ou levantamentos sangrentos). Não obstan­
te, parece que o abandono repentino desta região já se ti­
nha iniciado muito tempo antes, e que, em última instância,
tinha sido provocado por circunstâncias que emanavam do
peculiar carácter geográfico da área. Nestas terras bai­
xas, tropicais, não podia viver com facilidade uma densa
população possuidora de uma alta cultura, cujo sistema eco­
nômico baseasse exclusivamente no cultivo, porque esta ati­
vidade empobrece ràpidamente o solo e obriga o agricultor
a buscar novas terras em regiões sempre mais distantes
dos centros populosos. Temos de acrescentar que a mu­
dança do clima, de uma época de sêcas para mais úmida,
tinha produzido um aumento de chuvas. A selva tropical
avançava em direção às cidades, e as águas arrastavam a
terra boa ao plantio das partes mais altas pelo costado das
montanhas, indo depositá-las nos lagos. Todos êstes fato­
res adversos obrigaram os maias a emigrar para as regiões
de terras altas e estepes da Guatemala e Yucatan. Já se
tinham formado no sul, no último período do "Velho Im­
pério*’, numerosas povoações nas adjacências de Chaculá,
11 6 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Huehuetanango, Aguacatán, Rabinal e Mixco. Não obstan­


te, o "Renascimento Maia” não se produziu nesta região,
mas também no Yucatan, onde, depois de um período tran­
sitório, levantou-se o "Novo Império” com uma rêde de
numerosas e florescentes cidades não menos extensas e sun­
tuosas que as antigas, devido à luta penosa pela vida na­
quele país árido, resultou como conseqüência, certa rigidez
na nova cultura maia, tornando sua arquitetura mais ma­
ciça e de menos amplidão, e sua arte plástica mais angulosa
e ornamental” .
O autor estende-se a respeito da construção de várias
cidades importantes, entre elas Chichen Itzá, Uxmal, etc.,
demonstrando em todas o poderio da antiga civilização
maia.
O autor continua fazendo menção à diferença funda­
mental que existe entre a arquitetura das áreas mexicanas
e maia com as do Velho Mundo. "As duas primeiramente
mencionadas têm em comum as bases piramidais e escalo­
nadas, somente que estas apresentam freqüentemente, entre
os maias, cantos arredondados e planta poligonal com
ângulos salientes e entrantes. Quanto às construções su­
periores, de forma cúbica, ç necessário distinguir entre
"palácios”, quer dizer, edifícios mais compridos que largos,
divididos longitudinalmente, em duas salas, e construídos
sobre terraços de pouca altura, e "templos”, ou seja edifí­
cios de planta quadrada, também de duas peças, sobre altas
pirâmides. Devido às peças receberem luz somente através
da entrada da fachada, construíam-se, no "Velho Império” ,
várias portas, uma ao lado da outra, de maneira que a pa­
rede frontal ficava reduzida a largas pilastras ( Yaxchilas,
Pedras Negras, Palenque).”
O autor trata ainda das construções. Em relação à
decoração exterior dos edifícios diz: "os maias valiam-se
principalmente de cornijas e frisos de máscaras, que divi­
diam as fachadas em planos horizontais. As formas pri­
mitivas de ambos já se apresentam na pirâmide maia mais
antiga de Uaxactun, cuja comija consiste numa larga faixa
saliente, à altura da aresta superior dos degraus da pirâ­
mide, ou um pouco mais abaixo, aplicando-se mais tarde,
também, à superposição, onde forma um marco ao redor da
parte vertical ou inclinada da parede acima das portas, co­
mo uma faixa principal. Em Tikal, esta faixa mostra ain­
CONVITE À CIÊNCIA 117

da a largura original e deixa, por isto, bastante lugar para


ornamentos de estuque; mais tarde ("Novo Império” ), con­
siste somente em duas ou três fileiras estreitas de pedras
com frontispício alternativamente vertical e oblíquo. Tam­
bém as rnáscaras decoravam originalmente somente o en-
vasamento, sendo modeladas de estuque sobre um esqueleto
de pedra; representam cabeças grotescas de monstros, muito
estilizadas, com feições de serpentes (Uaxactun) ou realis­
tas caras* humanas (Palenque). O decorado por meio de
máscaras não chegou ao seu pleno desenvolvimento a não
ser no momento em que se começou a empregar na super­
posição entre as cornijas, e nas cresterias, e isto ainda
como decorado de estuque, em Tikal, Yaxchilan e Palenque,
enquanto que, no Yucatan, as máscaras compõem-se de
pedras do revestimento mural, esculpidas em sua cara
exterior e dispostas em forma de mosaico; já no "Velho
Império” tinham aparecido os precursores desta técnica.
Somente no Yucatan, as máscaras alcançam o seu estilo ca-
racteristicamente quadrado e sua estilização em linhas geo­
métricas (como nariz em forma de trom pa); aqui, as' más­
caras cobrem, freqüentemente, toda a parte superior das
fachadas ou formam um marco à volta da porta que, desta
maneira, adquire o aspecto das fauces abertas de um mons­
tro.”
No tocante à escultura, diz o autor que não foi muito
desenvolvida entre os maias.
Tratando do cultivo, diz que êste era baseado em técni­
cas primárias, assim como a caça e a pesca.
"De suma importância para a vida no Yucatan, onde
existe somente um rio que corre superficialmente, era a so­
lução do problema da água. Em conseqüência, fundavam-
-se as cidades nas adjacências dos poucos charcos que se
formavam em depressões do terreno sobre um subsolo argi­
loso (os chamados akalché) ou no fundo de colinas (ceno-
tes) e covas que abundam nesta região de rocha calcárea.
Chiché Itzá leva tal nome ("nas cisternas dos itzá") por ter
sido fundada entre duas colinas.
"Ainda hoje em dia, as casas-habitação mostram, no
Yucatan e Tabasco, a mesma forma ovalada, como na época
do descobrimento. O alto teto de palha ou palma descansa
sobre quatro paus colocados no interior e não sobre as pa­
11 8 TOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

redes, que são feitas de caniços com barro ou pedra e arga­


massa.”
Tratando do comércio e tráfico diz o autor: "devem
ter sido de muita importância, porque assim o indica a
vasta distribuição dos produtos maias. Os primeiros re­
presentantes da área cultural meso-americana que os espa­
nhóis chegaram a ver, eram comerciantes maias em viagem
de negócios: os tripulantes de uma grande canoa de comér­
cio, repleta de mercadorias, que Colombo avistou no golfo
de Honduras, no ano de 1502. Para transpqrtar cargas por
terra utilizavam armações de madeira, carregada nas cos­
tas; e para pessoas utilizavam-se liteiras em forma de rêde,
atadas a um pau. Largas estradas bem construídas atra­
vessavam o Yucatan, ligando todas as cidades de maior im­
portância.
Em concordância com o clima cálido, a antiga indumen­
tária era mais ligeira que a dos mexicanos. Quanto aos
homens, limitavam-se a um bragueiro mais amplo que o dos
astecas, de maneira que dava várias voltas à cintura, e cujas
extremidades caíam na frente e atrás. Em lugar desta
roupa, os atuais levam camisas mais amplas como os taras-
cos. Também as mulheres andavam no Yucatan quase des­
nudas da cintura para cima, e somente em Campeche e Ba-
calar, usavam uma minúscula peça sôbre o busto. No en­
tanto, nas altas terras do sul, usavam-se geralmente o
huvpily adornando-o graças ao gosto refinado, com bordados
delicados de sêda ou lã sôbre um fundo branco ou verme­
lho. A indumentária masculina já se assimilou hoje em dia
com a roupa espanhola.
Em todos os monumentos do "Velho Império” e em to­
das as figuras de barro, destaca-se a excessiva deformação
craniana, que se praticava ainda nos primeiros tempos da
conquista por meio de tàbuazinhas entre as quais se com­
primia a cabeça do recém-nascido. Tinham o costume da
deformação dental e da tatuagem; ao que se refere aos den­
tes, todos os tipos de deformação dental eram conhecidos
entre os maias; em relação à tatuagem, somente a pratica­
vam os adultos, ao casarem; também as mulheres costumaw
vam adornar-se com tatuagens de maneira semelhante.
Freqüentemente, nota-se a escarificação nas figuras de
barro ou sôbre os monolitos, em forma de grânulos e listas,
que se aplicavam nas comissuras da boca e na pálpebra.
CONVITE À CIÊNCIA 119

Cortava-se o cabelo, de maneira que ficasse uma tonsura,


em cuja volta agrupava-se o resto da cabeleira, juntando-a
numa trança. Parece que se encontravam entre os maias
pessoas com barba com mais freqüência que no México, pois
havia muitas representações de homens ou deuses com bar­
bas compridas. As pérolas finas e outros adornos de con­
cha ocupavam o primeiro lugar entre as jóias.
F. Termer distingue três formas no estado maia: o
^Estado-cidade” , o "estado regional” e o "estado-tribal” .
Quando os espanhóis chegaram, o Yucatan estava dividido
em muitos "estados-cidades” . Em cada um dêles governa­
va um batab, cujo cargo era hereditário, e tinha ao seu
lado, como chefe de guerra, o nacom, um funcionário eleito.
Os chefes das antigas dinastias que, com os cocom i xiu,
tinham dominado em outras épocas grandes regiões do país,
mas que, na época do descobrimento, tinham apenas o po­
der de um batab, recebiam o título de halach iunic. So­
mente os itzá retinham no Petén restos de sua antiga gran­
deza, porque ainda exerciam o domínio sôbre uma região
de dez províncias, em cada uma das quais governava um
ca/nek, e como dignitário sacerdotal, com quase os mesmos
direitos, seu irmão. O estado do "Velho Império” deve de
ter sido de tipo semelhante. As grandes cidades ( Copan,
Tikal, etc.) eram centros de comarcas politicamente unidas,
que talvez formavam uma espécie de aliança do mesmo tipo
que a Liga Hanseática, mas que, pelo menos, viviam entre
si em paz, desfrutando de um constante intercâmbio de bens
materiais e espirituais. Somente, assim, se explica que,
durante um período de mais de 700 anos (de 162 a 889 d.
C .), tenha regido a mesma escrita em toda a região maia,
desde Chichen Itzá e Tulum no norte até Palenque e Copan
no sul, fato surpreendente, se o comparamos com a trans­
formação do alfabeto fenício num período muito mais curto.
Desta maneira, explica-se também que a existência de re­
produções de cenas guerreiras nos relevos do "Velho Impé­
rio” somente nas cidades da região de Usumacmta, quer
dizer, na fronteira sul-ocidental, donde, talvez, houve guer­
ras com tribos mexicanas. É possível que ainda tenha exis­
tido por um certo tempo um império centralizado, o que
Teeple crê poder deduzir de certos dados do calendário
maia. Nos Altos da Guatemala, eram as tribos que forma­
vam unidades políticas, constituindo ocasionalmente ligas,
de igual maneira que existiam, nos séculos XII e XIV, ligas
120 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

de cidades no Yucatan. Pode ser que ambos fenômenos se


devam a influências mexicanas. O estado mais importan­
te era o dos quiche, que tinham conseguido estender-se pau­
latinamente desde a Alta Verapaz até o Oceano Pacífico.
Também os maias estavam agrupados em clãs, que vi­
viam em determinados povoados ou parte dêles, e os quais,
por sua vez, se organizavam em fratrias. Os clãs dos qui­
che chamavam-se nimba ("casa grande” ) e se agrupavam
em três fratrias. Em tempos mais recentes, imperava em
todos cantos a sucessão patrilinear, apesar de restos de uma
sucessão matrilinear mais antiga ter-se conseiVado nos no­
mes pessoais yucateos, nos quais se coloca sempre o clã em
primeiro lugar, assim como também o costume de que o jo ­
vem marido vá viver, por um período de 5 ou 6 anos, na
casa dos pais da mulher. O ingresso oficial das crianças
no clã, era no Yucatan, um ato solene que tinha lugar entre
os três e doze anos de idade do aspirante, e que se chamava
de "segundo nascimento” ( ccuput zilhil) ; o mais importante
da cerimônia consistia numa purificação ritual das crianças
por meio de oferendas, confissão, batismo com água benta,
etc.
As escavações, que se levaram a cabo nos tempos mo­
dernos, proporcionam valiosos dados sôbre os antigos cos­
tumes funerários. Os elementos da "cultura pré-maia” dos
Altos de Guatemala, na região de Salcajá, depositavam os
seus mortos em túmulos subterrâneos, que tinham a forma
de uma colmeia e nas quais se entrava por um caminho in­
clinado. Em Holmul, êstes túmulos estão construídos no
interior das pirâmides; no caso de se cobrir uma pirâmide
com uma superposição, aproveitava-se simplesmente o anti­
go templo na plataforma para ali sepultar os cadáveres.
A grande quantidade de oferendas em forma de vasilhas
finamente pintadas, que foram encontradas em sepulcros
dêste tipo, prova-nos que se tratava, em tais casos, de de­
funtos de grande prestígio; as pessoas do povo enterravam
os seus mortos debaixo ou detrás da casa. Em épocas mais
remotas, era costume incinerar os cadáveres de pessoas de
prestígio, e suas cinzas depositadas em vasos-efígie., de bar­
ro ou em estátuas de madeira, que, para êste fim, tinham
na região occipital uma concavidade fechada com um pedaço
da pele do crânio do defunto. Ao morrer um membro da
dinastia dos comom, cortava-se-lhe a cabeça e da parte an­
CONVITE À CIÊNCIA 121

terior do crânio, fazia-se uma máscara, com ajuda de cêra.


Também em Guatemala, onde se depositavam os cadáveres
em urnas funerárias sem serem queimados, levantava-se sô­
bre o tümulo uma estátua do defunto. Êste culto ancestral
— em todos os casos citados, faziam-se sacrifícios diante
das imagens dos mortos — não é de origem setentrional,
e sim meridional, e está indubitàvelmente relacionado com
os costumes colombianos, que também se irradiavam até às
Antilhas. Entre os quiche atuais, êste culto forma o con­
teúdo principal de sua religião, porque não há acontecimen­
to de sua vida que não esteja acompanhado de orações e
sacrifícios aos antepassados. Em contraste com o culto
ancestral, no conceito do além-mundo que professavam os
miaias predominavam traços mexicanos: no Yucatan, acre­
ditava-se em três diferentes mundos dos mortos, conforme
ao tipo de morte, e na Guatemala, o inframundo compreen­
dia toda classe de horrores que o defunto tinha de vencer,
se quisesse chegar ao mundo dos mortos.
É difícil determinar até que grau a cosmologia dos
maias tinha sido influída por conceitos mexicanos, porque
somente a conhecemos de maneira imperfeita. De todos
modos, encontram-se traços paralelos muito significativos;
por exemplo, a idéia de que a terra era uma ilha ( tf/petén” 9
o antigo nome de Yucatan), ou um caiman; a crença na
existência de quatro portadores do céu, treze céus e nove
inframundos, assim como a convicção de que o fim do mun­
do, se daria pela queda dos astros. Mais claro que no Mé­
xico, destaca-se, entre os maias, a crença num deus supremo,
que se confunde, como tantas vêzes acontece, com a crença
num herói civilizador celeste, porque os dois se personifi­
cam em Itzamná. Por um lado, ltzamná é um antigo deus
celeste e, por outro lado, é um sábio príncipe da mais re­
mota antiguidade, que mostra a escritura aos homens; ren-
dia-se-lhe culto especialmente na velha cidade de templos
de Izamal. A o seu lado, está o deus solar, que em Izanuü
chama-se Kinich KaJcmó ("rosto de sol — arara de fog o” ),
porque o imaginava sob a figura de uma ave, de igual ma­
neira que vários deuses solares dos mexicanos; e assim é
vista representada nos templos de Tulum. Já nas repre­
sentações do "Velho Império” , o deus solar tem sempre a
figura Lumana, cujos sinais são a barba e a limadura den­
tal. Os outros deuses são para nós mais ou menos pálidas
silhuetas: o deus da água A h bolon tz’acab e o deus da
122 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

chuva Chac, que no Yucatan gozavam, naturalmente* de


.grande veneração, eram personificados nas máscaras das
fachadas com narizes em forma de trompa encurvada para
cima ou para baixo (nos códigos), o deus da chuva levava
duas tochas de raios e uma bolsa de água, feita de uma ser­
pente; o deus negro Ekchuah, senhor dos cultivadores de
cacau e dos mercadores; um jovem deus do milho e um ve­
lho deus lunar, cujos atributos são caracóis e couraças de
tartaruga; a ave das nuvens Moan, etc. Ao culto solar
predominante precedeu também entre os maias uma época
de culto lunar, com a poderosa deusa lunar que no Yucatan
tem o nome de Ixckel, mas a quem principalmente se ren­
diam cultos nos países do "Velho Império”, como o indicam
certos toponímicos em Tabasco e no Usumacinta superior.
Evidentemente, era idêntico ao de Tlazolteotl, como nos é
xecordado pela confissão dos pecados (muito comum no
Yucatan e que, entre os olmecas e astecas era imposta pelo
sacerdote de Tlazolteotl), e os ritos sexuais, como o teste­
munham os grandes falos de pedra no Uxmál e em outros
lugares. Os mexicanos introduziram o culto ao deus da ser­
pente emplumada, chamado Kukulcan pelos maias, os quais
seguiam rendendo-lhe culto com grande devoção, mesmo de­
pois da expulsão dos mexicanos. Não obstante, os maias
do "Velho Império” já tinham a idéia de uma serpente ce­
leste, pois, com freqüência, encontramos em Tikal e Copan,
na região do Usumacinta e em Palenque, a figura de um
dragão, cujo corpo se arqueia sôbre o vão de uma porta e
cujas duas cabeças, uma viva e outra morta (esta última
figurada na forma de um esqueleto) descansam sôbre a
terra; o significado dêste dragão intui-se por uma série de
símbolos de corpos celestes, que algumas vêzes toma o lugar
do corpo do dragão.
A eterna rivalidade das grandes forças cósmicas é in­
terpretada entre os lacandons como uma luta do supremo e
bondoso deus Nohochacyum ("Grande Pai” ) contra Ha/pi-
kem ("O do corpo de serpente” ) ; para os kekchi é uma luta
^ntre o juvenil e bem intencionado Tzultaccá e o velho e
maligno deus Mam. Da mitologia maia do Yucatan não sa­
bemos quase nada. O culto cosmogônico tal como o encon­
tramos no Popol Vuh, o livro de lendas dos quiche, parece
ter sido tomada ponto por ponto da mexicana. Não obstan­
te, dentro desta tradição se conservou um antiquíssimo mo­
tivo americano, em geral desconhecido na Meso-américa,
CONVITE À CIÊNCIA 12 3

que trata do fim e da ressurreição do sol e da lua; neste


caso, os dois astros se apresentam sob a figura de dois ir­
mãos divinos Hunahpu e Xbalanque, que, por serem gran­
des jogadores de pelota, recebem da parte dos poderes do
inframundo um convite para disputarem a supremacia; nas
provas às quais são submetidos, saem derrotados, mas seus
filhos, concebidos de forma mágica, vingam-nos no fim ; no
início dêste conto, narra-se como esta nova geração vence
os espíritos da natureza que existiam antes: um deus do
fogo, sob a figura de uma arara, Zipacna, deus dos vulcões,
e Caprakan, deus dos terremotos.
Apesar do Yucatan estar dividido em um grande nú­
mero de senhores mundanos, apresentava uma unificação
pelo menos em relação aos assuntos religiosos, personifican­
do-se esta unidade num sumo sacerdote, que residia em
Mayapcun e que parece ter tido a seu cargo a organização
dos cultos de todo o país. As palavras maias para sacer­
dote (ahkin e chilam) significam verbalmente "intérprete
de símbolos”, quer dizer, peritos em hieróglifos; é muito
característico para o alto nível cultural dos maias que ti­
nham recebido as maiores honras, e não, como entre os as­
tecas, os sacerdotes sacrificadores, aos que os maias trata­
vam com desprêzo. Em relação a isto, não se dava muita
importância aos sacrifícios humanos, que somente em Chi-
chen Itzá, a colônia mexicana no meio do país dos maias, é
que desempenhavam um papel destacado.. Na citada cida­
de, o culto principal parece ter sido dedicado aos deuses da
água e da chuva, pois uma larga calçada para procissões
conduzia do templo maior a um dos dois poços, em cuja
borda sacrificavam-se jovens ou eram jogadas vivas na
água, como o demonstram os achados de numerosos esque­
letos e oferendas preciosas no interior de tal poço.
Também entre os maias concedia-se, desde os tempos
mais remotos, muita importância às penitências; pratica-
vam-nas de maneira muito rigorosa, principalmente, pas­
sando-se um cordão com puas através de orifícios feitos na
língua. Na alta Verapaz, encontraram-se pequenas vasi­
lhas de barro, que continham falanges amputadas, o que
indica outro tipo de penitência. Para os sahumerios utili­
zavam-se, no leste de Yucatan, escudelas de barro com fi­
guras humanas na parte dianteira; os lacandons usam, ain­
da hoje, utensílios semelhantes.
124 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Os outros atos rituais dos maias, ainda incruentos na


sua maioria, baseiam-se nas idéias mágicas, análogas aos
conceitos mexicanos, o que se manifesta claramente na festa
do Ano Novo durante o primeiro mês (na época do solstício
estivai) , quando se substitui por outros novos, todos os mó­
veis da casa e objetos de uso nos templos, inclusive os ídolos
de madeira; limpam-se todas as casas e alumiam-se de novo
os fogos. No décimo terceiro mês, (na época do equinócio
primaveril) tem lugar uma cerimônia do fogo, na qual se
apaga com água o lume que se alimentou com os corações
de animais de caça, para impetrar o benefício da chuva para
os campos, que estão secos, enquanto uma pequena pirâmide
em degraus, pintada de azul como símbolo do céu, tem que
facilitar aos deuses da luz a ascensão ao firmamento. Nos
cinco dias restantes no fim do ano, fazemj-se cerimônias, que
têm por objeto conjurar as desgraças talvez imanentes no
próximo ano, tirando-as da aldeia em forma de um ídolo.
Em muitas festas, organizam-se danças de máscaras. Quan­
do em novembro de cada ano se celebrava em Mani a grande
festa em honra de Kuklcan, para a qual todas as cidades do
Yucatan delegam seus representantes, o ponto culminante
consistia num drama no qual os atores mascarados repre­
sentavam o mito do citado deus. Também os maias meri­
dionais conheciam êstes dramas até%nos tempos mais atuais.
No ano de 1856, Brasseur de Bourbourg, assinalou entre
os quiche, um drama histórico que trata de um episódio da
história dos príncipes de Rabinal. Nos tempos atuais, esta
antiga arte dramática sobrevive somente nos "bailes” , nos
quais os índios da Guatemala representam lendas cristãs ou
cenas da conquista espanhola, por meio de dançarinos, que
levam fantásticas máscaras de madeira.
É provável que se tenham cultivado também outros
tipos de poesia, porque assim o deixa entrever o livro de
lendas, Popol Vuh, mas, desgraçadamente se perdeu a gran­
de maioria desta literatura; os três únicos códices que fo ­
ram salvos e que procedem de diferentes comarcas da região
maia (o matritense é do Yucatan, o dresdense do norte da
Guatemala e o parisinense de Chiapas), não contêm uma
história contínua, e mais se assemelham ao Códige Bórgia,
informando sôbre a vida diária à base de pequenas narra­
ções sem ligação uma com outra. Ao lado dos desenhos,
vêem-se muitos hieróglifos de caráter explicativo e compri­
das séries de algarismos; o mesmo cabe dizer das repre­
CONVITE À CIÊNCIA 125

sentações dos monumentos. Seguramente, havia também,


nos começos da escritura maia, figuras de objetos, ou sím­
bolos semelhantes aos quais a escritura mexicana, ainda
usava na época do descobrimento, mas êstes períodos devem
ter sido tão remotos que a escritura maia típica já se apre­
senta em seu pleno desenvolvimento no monumento mais
antigo que leva hieróglifos; ou seja, a figurinha de Tuxtla.
Seu adiantamento, se a comparamos com a mexicana, con­
siste, sob o ponto de vista exterior, em que os sinais foram
simplificados consideràvelmente e ademais reduzidos quase
a um mesmo tamanho (uma cursiva nos códices e outra, ca-
ligráfica, nas inscrições) oferecem um princípio formativo
inteiramente diferente dos mexicanos. Quase todos os si­
nais, ainda os que são aparentemente simples, cabeças de
deuses ou animais, se compõem de vários elementos: o ideo­
grama propriamente dito, e os determinativos, cuja ligação
com o ideograma é, todavia, muito mais íntima que nos hie­
róglifos egípcios, porque ficam adscritos ou inscritos nêle
(motivo pelo qual se chama acertadamente de "afixos” e
"infixos” ) e porque mudam em muitos casos sua forma
nesta operação. Há muitos hieróglifos que consistem uni­
camente numa combinação de vários determinativos. Todas
estas partículas diminutas da escritura maia, remontam-se,
originàriamente, a figuras realistas, mas apresentam-se, so­
mente raras vêzes, em formas não-combinadas e quase sem­
pre têm um sentido curiosamente complexo, de maneira que
o determinativo "disco de jade” pode aplicar-se aos concei­
tos de "água” , "vegetação” e "esplendor” (luz), assim como
o determinativo "dente” para os conceitos "dureza” e "pe-
sadez” . O escrivão maia conseguia, pois, por meio da com­
binação infinitamente variada de ideogramas e determina­
tivos, sinais para os objetos e conceitos mais heterogêneos,
de modo que podia reproduzir as idéias contidas numa fra­
se, quase palavra por palavra. É certo que quase sempre
se expressa ünicamente o sentido da palavra e somente ra­
ras vêzes, também, seu valor fonético (à maneira dos crip-
togramas), o que naturalmente significa uma grave dificul­
dade para decifrá-los. Já se conhecem os hieróglifos de
algarismos, dias, meses e outras unidades de tempo; deuses,
animais, corpos celestes, pontos cardeais, cores, certos obje­
tos e verbos; mas somente em casos isolados podemos com­
preender o sentido das combinações dos sinais.
12 6 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

O trabalho de decifração dos algarismos foi da mais


grande importância para poder determinar as *datas dos
monumentos os quais expressam os números de duas manei­
ras: por meio de pontos para as cifras de um a quatro, e
um traço para a cifra cinco; e pelo outro lado, mediante
hieróglifos (cabeças de deuses). A aplicação prática dês-
tes sinais tendera a ampliar-se de modo surpreendente, che­
gando a dar-se-lhes um valor de posição. Eram escritos em
cinco séries, uma sôbre as outras. Nas inscrições, nas quais
freqüentemente se expressava um número por meio de uma
coluna de hieróglifos dividida em duas seções, indica-se ade­
mais, para sua maior clareza, o valor de posição por meio
de um hieróglifo especial. Para esta maneira de escrever
os números, fêz-se indispensável o algarismo zero. Ambos,
o valor de posição e o sinal para zero, são conquistas da
inteligência maia, que não conhecia nem a escrita da anti­
guidade européia. Com poucos sinais podiam expressar
números gigantescos, possibilidade que se aproveitavam em
primeiro lugar, para fixar datas com inconfundível preci­
são. Cada data maia compõe-se de cinco partes, das que
dois correspondem ao sinal do dia e a cifra do dia do ca­
lendário mexicano. Outros dois dão a posição do dia den­
tro dos dezoito meses, de sorte que cada uma tinha sua po­
sição exata dentro de um "ciclo calendário” de 52 anos.
Combinando também a data dêste ciclo com a "conta larga”,
quer dizer, com um número que expressa os dias transcor­
ridos desde o princípio da cronologia maia, qualquer acon­
tecimento pode ser datado com a mesma precisão, que o
fazemos na cronologia cristã. O ponto de partida para a
cronologia maia não é, como na era judáica, um aconteci­
mento histórico, mas somente uma data muito remota, obti­
da por meio de cálculos, que cai no ano de 3113 a. C. In­
felizmente êste sistema de fechar os monumentos, que tinha
permanecido em uso por mais de 700 anos, foi abandonado
no "Novo Império” a favor de outro mais abreviado, que
somente permite datas precisas para um período de vinte
"katunes” (um katun — 20 por 360 dias) ou 256 anos em
números redondos, de maneira que a concordância com a
cronologia cristã não foi possível ser fixada ainda com pre­
cisão. Evidentemente, os maias, tinham perdido, durante
a dominação dos mexicanos, uma grande parte de sua anti­
ga e rica cultura espiritual, adaptando, por consegüinte,
também sua cronologia à dos mexicanos, que era muito mais
CONVITE À CIÊNCIA 127

grosseira. Simultâneamente desapareceram também as ins­


crições nos edifícios e monumentos. No "Velho Império*V
êstes se levantavam quase sempre no final de um período
calendárico, normalmente, de um quarto de katun de 1.800
dias, de modo que são, de certa maneira, "pedras milenares
de tempo”, cujas inscrições dão, provavelmente, notícias do&
acontecimentos sucedidos entre um e outro período. Entre
êstes, os fenômenos celestes ocupam o primeiro lugar. Os
grandes problemas aritméticos das inscrições e os códices
demonstram quão amplos eram os conhecimentos em astro­
nomia que os maias tinham adquirido: conheciam perfeita­
mente a duração do ano solar e dos meses lunares, e sabiam
eliminar, com extraordinária habilidade, as inexatidões re­
sultantes do operar com números inteiros. No códice dres-
dense, encontram-se longas tábuas de eclipses e quadros das
fases de Vênus. Segundo os estudos do astrônomo alemão
H. Ludendorf, os maias conheciam também os períodos de
revolução sinódicos e sidéreos de Mercúrio, Marte, Júpiter
e Saturno, e sabiam calcular com grande exatidão, de ante­
mão, suas conjunções entre si e com o sol, a lua e as estré­
ias fixas de maior luminosidade. Há, provàvelihente, mui­
tas construções nas cidades, das quais hoje em dia não
restam mais que ruínas, que estavam dedicadas a esta obser­
vação do firmamento, tão altamente desenvolvida (por
exemplo em Uaxactun ou Chichen Itzá) , de maneira que não
eram somente templos, mas observatórios astronômicos” .
A DESCOBERTA DO "RIO DAS AMAZONAS”

Em pleno século XVI, preparou-se uma expedição à


procura do lendário Rio das Amazonas, cuja chefia foi con­
fiada ao capitão espanhol Francisco de Orellana.
Em 1541, a mandato de Pizarro, governador do Peru,
Orellana partiu numa expedição composta de quatro mil ín­
dios e 220 espanhóis. Levava consigo dois frades. Um
dêles se chamava Frei Gaspar de Carvajai e graças ao seu
relato é que temos notícia desta travessia.
A primeira etapa da expedição foi feita por terra, logo
depois em barcos para navegar nos rios, até o local onde
obtiveram a informação de "que havia um rio muito gran­
de, onde se viram muitos índios vestidos, que andavam em
caüoas” . Para aí quis ir Orellana, e mandou construir um
bergantim, nêle embarcando com seus cinqüenta soldados e
dois frades.
A crônica escrita por Carvajai inicia-se com as seguin­
tes palavras: "Relação que escreveu Frade Gaspar de Car­
vajai, pertencente à Ordem de São Domingos de Guzman,
do novo descobrimento do famoso rio grande, que descobriu
por imensa ventura o Capitão Francisco de Orellana desde
a sua nascente até sair no mar, com cinqüenta homens que
trouxe consigo e se lançou à aventura pelo dito rio. Em
honra ao Capitão que o descobriu se chamou Rio de Orella­
na.”
Eis aí, por que o rio aparece nos mapas da época com
o nome de "Rio de Orellana”. Julgava-se a Coroa de Cas-
tela e Leão dona dêste imenso caudal de águas, que logo
depois chamar-se-ia "Rio das Amazonas” .
A crônica de Carvajai é completada por outras duas,
uma escrita por Rojas e outra por Acuiia, que relatam a
130 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

travessia do explorador português, Pedro Teixeira. Des-


crevem o mesmo roteiro, só que há entre elas o intervalo
de um século.
Vários historiadores afirmam serem fantasistas certos
trechos escritos por Carvajai, apesar de êle ter afirmado no
início do seu livro o seguinte: "Tudo que eu vou contar da­
qui por diante será como testemunho da vista de um homem,
a quem Deus quis dar parte de um tão novo e nunca visto
descobrimento, como é êste que adiante contarei.”
Desde as primeiras páginas, encontramos citações so­
bre as "mulheres guerreiras” (as amazonas), conhecidas na
língua dos indígenas da região, por "coniupuiara”, que quer
dizer "grandes senhoras” .
Verificou-se também que há uma grande parecença en­
tre o mito das amazonas brasileiras com o das amazonas
gregas. A existência das mulheres guerreiras, que forma­
vam sociedades durante o século XIII na Boêmia e que lu­
taram contra o soberano daquele país, por várias vêzes su­
cessivas, foi contestada. Na África, existiu o Reino de
Dahomey, composto só de mulheres guerreiras, que foram
paulatinamente conquistadas, através de sangrentas lutas*
pelas tropas francesas.

A LENDA DAS AMAZONAS

Dizia ela que: "na antiga Grécia, um povo estranho


habitava a região da Capadócia, às margens do rio Ter-
modon” . Teriam vindo do Cáucaso e formavam um estado
que tinha como capital a cidade chamada Temiscira, cuja
ordem era mantida por uma rainha. Ali os homens não
eram admitidos. Porém, uma vez por ano, as amazonas
(como se chamavam as habitantes dêste país), mantinham
relações com os Gargareanos, que eram seus vizinhos. As
crianças nascidas destas uniões, se eram do sexo feminino
permaneciam junto às mães, onde recebiam uma educação
voltada à caça e à guerra.
Os antigos gregos derivavam o nome de mazos (ma­
milo.) 9.e o a (alfa privativo que queria dizer, portanto, sem
CONVITE À CIÊNCIA 131

mamilo), porque, segundo se contava, elas cortavam o seio


direito para melhor manejar o arco. Atribuía-se às ama­
zonas a fundação de várias cidades do império grego como:
Esmirna, Éfeso, Cime, Mirina e Pafos, assim como se con­
tava que, da Capadócia, elas tinham chegado às ilhas de
Lesbos, Samotrácia, e penetrado daí até a Beócia e Ática.
Esta invasão da península tinha por motivo vingar o rapto
realizado por Teseu, de Antiópia, irmã da rainha Hipólita.
Por muitos séculos, em Atenas, visitavam-se os túmulos das
Amazonas, que haviam perecido nos combates, e todos os
anos, os atenienses ofereciam sacrifícios aos "manes” dês-
tes seus inimigos.
Uma passagem, que não sabemos até que ponto é fruto
da imaginação do escritor, ou se relata a própria realidade,
transcrevemo-la, por ser digna de interêsse: "Nesse dia,
aportamos a uma aldeia de medíocre tamanho, onde a gente
nos esperava. Havia lá uma praça muito grande, e no meio
da praça, uma grande prancha de dez pés por quatro, pin­
tada e esculpida em relêvo, figurando uma cidade murada,
com a sua cêrca, e uma porta. Nessa porta, havia duas
altíssimas tôrres com janelas. As portas das torres se de­
frontavam, tendo cada porta duas colunas. Toda esta obra
era sustentada sobre dois ferocíssimos leões, que olhavam
para trás, como acautelados um do outro, e a sustinham nas
patas e nas garras. Havia no meio desta praça uma cova,
por onde deitavam, como oferenda ao sol, a "chicha” (be­
bida fermentada e levemente alcoólica, de muito uso entre
os Incas), qúe é o vinho que êles bebem, sendo o Sol o que
êles adoram, e tendo-o como seu Deus. Era êste edifício
coisa digna de ser vista, admirando-se o Capitão e nós todos
de tão admirável coisa. Perguntou o Capitão a um índio
o que era aquilo e que significava aquela praça, e o índio
respondeu que êles eram súditos e tributários das Amazo­
nas.”
Para o frade Carvajai, o comêço "da boa terra e senho­
rio das amazonas, situa-se na foz do rio Jamundá” . Outros,
entretanto, asseveram estar a lenda das amazonas intima­
mente ligada à existência dos muüraquitãs.
0 MISTÉRIO AMAZONENSE

O relato de Carvajai não tinha esclarecido muitas per­


guntas e eis por que outras expedições seguiram-se à pri­
meira. Mas estas expedições não foram realizadas só com
o intuito de procurar as "amazonas” ; o que os atraía era
o ouro que diziam existir em quantidades nunca vistas!
Impunha-se, antes de tudo, à Coroa de Castela e Leão,
o domínio e colonização do portentoso rio, dono de um nú­
mero incontável de afluentes.
Simão de Vasconcelos (cronista do século X V II) escre­
veu: "Ficam êstes dois rios, o do Grão Pará e o da Prata,
sendo têrmo, princípio e fim, e ainda largura da terra do
Brasil, porque abarcam, com a extensão de seus grandes
braços, a circunferência do sertão, fazendo com êles um
como semicírculo de mais de 1.500 léguas. São os rios
maiores de todo o universo: maiores do que qualquer dos
que celebram as antigas idades, à vista do rio Grão-Pará,
fica um pequeno pigmeu em comparação a um gigante.”
Outro aspecto digno de assombro, por todos aquêles
que o admiraram, é o fenômeno da "pororoca” . Um trecho
de Bernardino de Sousa, dá-nos uma idéia do admirável es­
petáculo: "V i a pororoca. Eram quase onze horas da ma­
nhã, quando me pareceu ouvir um ruído surdo como um
trovão que escoa muito ao longe. As águas do Guajará
corriam tranqüilas como se não esperassem a invasão do
inimigo que se aproximava. A vasante era completa, dei­
xando a descoberto, como coroas, os baixios e espraiados.
O dia estava claro. Na extremidade do horizonte, vi como
se formava uma ligeira linha de espuma, que ia ràpidamen-
te crescendo e engrossando. O ruído tornara-se perfeita­
mente distinto. Houve como que uma suspensão das águas
do rio. Dir-se-ia que tinham pressentido o inimigo e com­
CONVITE À CIÊNCIA 133

preendido o perigo. A linha de espuma ia crescendo es­


pantosamente e descrevendo como um semicírculo em que
prendia o rio. Era uma muralha de espuma, uma vaga
gigantesca que se enovelava, e esteirava com fragor medo­
nho. Depois, aquêle semicírculo, por uma súbita e admirá­
vel evolução, formou uma imensa linha reta, de uma per­
feição completa, e avançou rápida, ameaçadora, fremente,
rugindo, levantando espuma, e levando, diante de si, tudo
quanto encontrava no caminho, troncos de grandes árvores,
galhos, etc. Em certo ponto do rio desapareceu de súbito,
parecendo mergulhar, para surgir mais violenta, mais rui­
dosa, algumas braças adiante. Não pude mais vê-la; for­
mava aí o rio uma curva, que me tirava a vista.”
O choque das águas do mar com as do rio forma um
estrondo que parece um trovão. Dêste embate, erguem-se
vagalhões de 10 a 12 metros de altura. O ruído do choque
é òuvido a uns 8 ou 10 km de distância. Até hoje não te­
mos uma explicação cabal sobre o que seja a 'pororoca. Seu
nome vem do tupi "pororay” , que quer dizer: "arrebenta
com estrondo” . Não é um fenômeno verificado só na foz
do rio Amazonas, pois se estende na costa norte do Brasil
até às Güianas. Outros rios, como o Juruá, também pos­
suem pororoca, assim como certos rios europeus e asiáticos.
Os geógrafos dizem que a pororoca pode ser definida
como o "encontro das correntes da maré com as correntes
fluviais, ao passar pelos baixios” .
Na carta escrita por Cristobal de Acuna ao rei Felipe
IV da Espanha, encontramos um trecho que dizia o seguin­
te:
" . . . Cuidadoso sempre dos maiores aumentos de sua
Real Coroa, e receoso de que acontecimentos menos favorá­
veis, vistos às nossas portas, afoguem e impeçam o luzi-
mento de seus afetuosos serviços, diz que sendo, em verdade,
a mais importante daquele novo mundo descoberto, para
mais depressa começar a gozar dos proveitosos e ricos fru­
tos, que por liberal oferece, a sua boca principal, pela parte
que deságua no Oceano das costas do Brasil, sujeita a Por-
tuguêses, é por isso menos apropriada para que, no presente,
se procure esta entrada.”
E segue-se uma série de razões, que deveriam ser le­
vadas em conta na colonização destas novas terras. Vemos,
134 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

•entretanto, a importância do rio Amazonas pela linguagem


usada em outro trecho: "A vinte e seis léguas da ilha do
Sol, sob a linha Equinocial, espraiado em oitenta e quatro
de boca, tendo pelo lado do Sul o Saparará e, do oposto, o
Cabo Norte, deságua no Oceano o "maior pélago de águas
doces que há no descoberto” (1) o mais caudaloso rio de
todo o Orbe (2) : a Fênix dos rios, o verdadeiro Mara­
nhão (3 ), tão suspirado e nunca acertado dos do Peru,
Orellana antigo, e, para dizê-lo de uma vez, o grande rio
das Amazonas, depois de ter banhado com as suas águas
mil trezentas e cinqüenta e seis léguas de extensão (4 ), de­
pois de sustentar, com suas riquezas infinitas, nações de
Bárbaros, depois de fertilizar imensas terras e depois de
haver passado pelo coração de todo o Peru, e, como canal
principal, recolhido em si, a melhor e a mais rica de todas
as vertentes. Esta é, em suma, o novo descobrimento dêste
grande rio, que, encerrando em si grandiosos tesouros, a
ninguém repele, mas ao contrário, a toda espécie de gente
convida, e liberal a que dêle se aproveite.”
E Acuna termina o seu relato com estas palavras:
"Está a foz do rio povoado pelas Amazonas, a dois graus
e meio de altura. O tempo descobrirá a verdade, se estas
são as famosas amazonas dos historiadores, que guardam
em sua comarca tesouros que dão para enriquecer o mundo
todo.”
(1) Durante muito tempo foi considerado o maior rio existente
na terra, em extensão. Atualmente, saoemos que o seu percurso co­
bre 6.500 km, sendo o segundo colocado na ordem dos rios terrestres.
Toma diversos nomes durante o seu percurso, como Maraüon, Soli-
mões, recebendo, em terras brasileiras, o de Amazom s. Segundo
alguns, nasce no planalto de La Raya, nos Andes, a 4.000 m de altura.
Sua profundidade oscila entre 20 a 130 m, permitindo franca nave­
gação em todo o percurso. Sua largura chega a ser impressionante,
alcançando em certos locais dezenas de km, impedindo naturalmente
ao navegante distinguir as margens, dando a impressão de um oceano
de águas barrentas. Na confluência com o Xingu, a largura chega
a 13 km, e na do rio Negro, 96 km!
(2) Quanto ao volume das águas apresenta um índice excepcio­
nai. É o rio que tem maior débito ou descarga no mundo (80.000 m3
de água por segundo). Sua descarga é 3/4 vêzes maior que a do
rio Congo e 4/6 que a do Mississipi.
(3) O rio Maranon foi procurado durante muitos anos. Era o
rio Amazonas conhecido pelo nome de Marafion.
(4) Quanto à superfície de sua bacia ultrapassa muito a dos
outros rios. É calculada em 6.500.000 km2, sendo considerada a mais
vasta e portentosa bacia fluvial do mundo. Dêstes, 4.750.000 km2
estão em terras brasileiras.
O TALISMÃ VERDE

Os muiraquitãs ou mirakitá (cuja etimologia mencio­


nada por Ladislau Neto é: mira = nação, ki = chefe,
itá = pedra, que significaria: "pedra de chefe da nação” ),
são pequenos artefatos (constituídos de materiais diversos)
usados pelos indígenas, aos quais se atribuíam o valor de
verdadeiros amuletos, ressaltando-se, quase sempre, os que
eram feitos de pedras verdes.
Estas "pedras verdes” foram levadas para a Europa e
dizia-se que elas serviam como amuleto contra certas doen­
ças (prevenção contra dor ciática, dores nefríticas, etc.).
Em 1875, Barbosa Rodrigues assinalava a analogia que
existia entre o muiraquitã e o amuleto. Dizia êle: "São os
descendentes dos Jamundás ou dos Tapajós, ou alguma ve­
lha tapuia que o possui, legado por seus pais, que o guar­
dam como um precioso tesouro, escondendo-o. Evitam exi­
bi-lo, e não o vendem por dinheiro algum. Emprestam-lhe,
ademais, virtudes sobrenaturais, acreditando que êies têm
vida e que preservam certas moléstias como epilepsia, es-
quinência, cólicas, etc.”
Noutro livro seu, descreve uma peça esculpida de es-
teatite e que representa uma onça assentada sobre uma tar­
taruga, parecendo querer devorá-ia. Foi encontrado em
terras do rio Amazonas, e julgou o autor tratar-se de um
ídolo contemporâneo à existência das amazonas.
Para Carvajai, as regiões onde se encontram as "peças
verdes são as que se estendem das ribeiras do rio Purus
às cercanias do rio Jamundá. Mas, para Barbosa Rodri­
gues, as "icamiabas” de Orellana (que receberam depois
êste nome), não eram somente as mulheres que usavam;
também os muiraquitãs e talvez os índios Uapés, que emi­
graram para o rio Ucaiari, hoje conhecido como rio Uapés” .
136 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Conta uma das lendas dêstes índios, que êles teriam outrora
habitado as margens de um "lago encantado” , onde vivia
a Mãe d’Água, e ela é que lhes teria ensinado a fazer os
muiraquitãs. Um certo dia, ao ter saído de dentro dágua
e tomado a forma de um animal, dirigiu-se para umas mon­
tanhas próximas, onde foi flechada por um índio. Isto deu
origem a uma grande enchente, que inundou a aldeia, e
obrigou-os a fugir para um local onde estivessem a salvo
da calamidade que se abatera sobre êles.
Há várias lendas a respeito da origem dos muiraquitãs.
Uma delas nos conta que: "nas fontes do rio Jamundá há
um lago chamado Jaciuaruá, que fora consagrado à Lua
pelas Amazonas. Em certa época do ano, e em determi­
nada fase lunar, reuniam-se as amazonas às margens do
lago, para festejar a Lua e a mãe do Muiraquitã, que ha­
bitava o fundo das águas tranqüilas. Dias depois de con­
tínua festa de expiação, quando o disco lunar refletia-se com
todo o esplendor nas faces plácidas do lago, atiravam-se
nêle, recebendo no fundo, das mãos da mãe do Muiraquitã,
as "pedras verdes” . Estas vinham moles e ao entrar em
contacto com o ar endureciam, tomando a configuração que
se lhe quisesse dar. Eram com estas pedras que as ama­
zonas presenteavam os homens com quem mantinham rela­
ções.”
Mas pouco se conseguiu saber a respeito do material
que é usado para a confecção dêstes objetos, e o porquê do
seu uso.
Há autores que afirmaram serem oriundos da Ásia, en­
quanto outros afirmam justamente o contrário: teriam elas
aparecido nas terras do Novo Mundo.
AS AMAZONAS

A tripulação comandada por Orellana, só teve oportu­


nidade de ver uma única vez as amazonas, e êste fato é
relatado por Carvajai com estas palavras:
"A estas, nós as vimos, que andavam combatendo dian­
te de todos os índios como capitãs, e lutavam tão corajosa­
mente, que os índios não ousavam mostrar as espáduas, e
ao que fugia diante de nós, elas o matavam a pauladas. *
Eis a razão por que os índios tanto se defendiam e com
tanto ardor combatiam. Estas mulheres são mui alvas, e
altas, com o cabelo muito comprido, entrançado e enrolado
na cabeça. São muito membrudas e andam nuas em pêlo,
tapadas as partes pudicas, e com os seus arcos e flechas nas
mãos, fazendo tanta guerra, como dez índios.”
Mais adiante, descreve um diálogo entre Orellana e um
índio (êste falava espanhol) e do qual obteve dados que
relatamos: que estas mulheres residiam em terras mais para
o interior, cuja distância era de sete jornadas da costa.
Moravam em grandes aldeias que deviam orçar pela casa
dos setenta. E para dar crédito ao que dizia, conta Car­
vajai que êle enumerou, ante todos, o nome das setenta
aldeias.
Ademais não moravam em palhoças de palha, e sim em
sólidas construções de pedra. Ia-se de uma aldeia à outra
por caminhos controlados por guardas, que vedavam com­
pletamente a qualquer forasteiro a penetração por estas re­
giões. Conta ainda que não havia entre elas homens, po­
rém, em determinadas épocas do ano, atacavam as tribos
vizinhas, trazendo como prêsa de guerra grande número de
guerreiros que permaneciam por algum tempo nas aldeias.
Depois, quando se sentiam grávidas, mandavam-nos embo­
ra. O filho nascido desta união, se fosse do sexo feminino
permanecia com a mãe, recebendo uma educação guerreira ;
se fosse do sexo masculino era morto ou enviado ao pai.
138 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Entre elas, havia uma chefe chamada de "Conhori” ,


sob quem permanecia a chefia de toda a tribo. Onde mo­
rava, havia cinco casas grandes, que eram adoratórios de­
dicados ao Deus Sol (chamado de "Caranái” ). Carvajai
descreve-as como casas imensas, assoalhadas, e tendo o forro
todo coberto por motivos ornamentais, em geral, de grande
beleza.
A descrição estende-se também à roupa que usavam:
"E ra esta confeccionada de finíssima lã, devido aos grandes
rebanhos existentes em suas terras.
"Usam mantas apertadas na cintura, por uns cordões,
mantendo o busto a descoberto. Trazem os cabelos soltos
até o chão, e têm o costume de usarem na cabeça coroas
de ouro, da largura de dois dedos” .
Carvajai, conta-nos, ainda, fatos ocorridos durante a
travessia. Num dêles, que se passou cêrca da foz do rio
Tapajós, duas flotilhas de canoas de índios saíram dum
braço do rio atacando a escolta de Orellana. Um dos com­
panheiros de Orellana, tendo recebido uma flechada, veio
a falecer 24 horas depois, morte esta motivada pelo veneno
usado na ponta da flecha. Soube, então, Orellana que estas
terras, da margem direita do rio, pertenciam ao célebre ca­
cique Chipayo. Em 1623, a primeira expedição portuguê-
sa, chefiada pelo capitão Pedro Teixeira, encontrou êstes
mesmos índios, com os quais manteve contacto.
Em 1639, Bento Maciel Parente, filho do governador
do Pará, subjugou-os. É Acuna .que nos relata tal acon­
tecimento, contando, que os portuguêses, receando as flecha,
lançadas pelos índios tapajós (as pontas embebidas em
curare), por muito tempo tentaram debalde obter a sub­
missão dêstes por meios brandos. Nunca conseguiam de-
m,ovê-lcs a sair de suas terras, apesar dêstes já terem man­
tido franca amizade com os componentes da expedição de
Teixeira, anos antes. Mas Bento Maciel queria conseguir
o que planejara. Reunindo todas as forças disponíveis em
Destêrro, perto da foz do rio Paru, atacou-os sob o pretexto
de planejarem uma subversão. Mas, o intuito de Maciel
era de escravizá-los. Colocados os tapajós ante a alterna­
tiva de um extermínio em massa ou a submissão incondi­
cional, optaram pela última. Entregaram, portanto, as
flechas que os tornavam tão temidos nas lutas, e Maciel não
perdeu tempo. Mandou-os encurralar sob a guarda de ho­
CONVITE À CIÊNCIA 139

mens armados, enquanto os seus aliados (indígenas de ou­


tras tribos) saqueavam a aldeia e violavam as mulheres e
filhas dos prisioneiros, e tudo isto sem que estas pudessem
fazer a menor reação. Para conseguir libertar-se do jugo
dos portuguêses, resolveram entregar os seus escravos, mas
como êstes tinham se evadido durante a luta, tiveram de dar
os próprios filhos para satisfazer os vencedores.
Talvez o nome do cacique Chipayo, mencionado por
Carvajai, seja o nome tapajó. Os mapas antigos trazem
o nome de Topaio, Tabajotos e Tapaj ocos, enquanto outros
afirmam que Tupaio é o mais seguro, por ser como o pro­
nunciam os habitantes da região.
Todos que tiveram contacto com eles afirmaram serem
bem numerosos, talvez uns 240 mil. Digno de nota é a
existência de uma ciasse social definida na sua sociedade.
Segundo certas passagens de um estudioso (O. Betendorf),
vemos tal aspecto: "E ra Maria Moacara, princesa desde os
seus antepassados, de todos os Tapajós, e chamava-se Moa­
cara, que quer dizer fidalga grande, porque costumam os
índios, além de seus príncipes, escolher uma mulher de
maior nobreza, a qual consultam em tudo como um oráculo,
seguindo-a em seu parecer.”
Mas a maior indignação dos missionários jesuítas foi
verem cadáveres mumificados de chefes, que eram objeto
de culto especial. Um dêstes viajantes (Heriarte), que lá
estêve, conta com cores vivas um dêstes cultos:
"Havia ídolos pintados nesta tribo, aos quais se ofe­
recia tributo de sementes e milho. Na noite de quinta-fei-
ra (? ) fabricavam-se destas bebidas, oferendas; depois, fa­
ziam soar na praça, atrás da aldeia, trombetas e atabales
tristes e funestos, até que se manifestava um terremoto,
ameaçando derrubar árvores e montes. Vinha, então, o
Diabo e entrava num "corro” (roda), levantado especial­
mente para êle. Rematava-se a festa com cantigas e dan­
ças guerreiras. Êste local, onde entrava o Diabo, era
também conhecido por "terreiro do Diabo” . Estava loca­
lizado na mata e conservado sempre muito limpo. Quando
havia as danças, eram as mulheres que levavam bebidas para
lá. Depois, se acocoravam, cobrindo os olhos com as mãos
para não ver. Então falando-lhes alguns dos feiticeiros com
voz rouca e grossa, persuadiam-nas que esta era a fala do
Diabo, e lhes punham na cabeça tudo o que queriam.”
ETNOGRAFIA BRASILEIRA DO SÉCULO X IX

As contribuições dadas pelos etnólogos, e estudiosos,


especialmente alemães, são muito importantes. As viagens
etnológicas no Brasil foram financiadas, quase na sua maio­
ria, por museus e institutos científicos. Tudo quanto era
interessante foi coletado e levado. Material de primeira
ordem, que daria para fazer-se interpretações preciosas na
etnologia. Foi por iniciativa de Adolf Bastian, que o Mu­
seu Etnográfico de Berlim tornou-se o mais importante do
mundo, como também é o que possui as mais ricas coleções
etnográficas do Brasil. Era necessário, para o desenvolvi­
mento da Etnografia, salvar o selvagem em, estado primá­
rio, aquêle que ainda não tivera contacto com o civilizado.
Nêles se encontraria o homem primitivo, e tudo o mais que
tínhamos perdido, mas que era o ponto de partida da nossa
civilização. E baseado nesta afirmação é que Max Schmidt
enriqueceu o Museu de Berlim através de suas viagens.

Kõch Gruenberg foi outro estudioso, que fêz parte des­


ta constelação de sábios alemães, aqui vindos para estudar
o indígena brasileiro. Tendo uma instrução universitária
essencialmente filológica, dedicou grande parte do seu tem­
po em recolher material para o estudo dos idiomas indíge­
nas. Através de estudos comparativos, baseado no material
recolhido, tornou-se uma das maiores autoridades lingüís­
ticas sul-americanas. Realizou, ao todo, três expedições,
indo dos sertões do Brasil Central e Setentrional até às re­
giões limítrofes do norte. Em 1912, partiu em procura das
nascentes do rio Orinoco, mas antes de chegar ao destino,
sucutnbiu vítima de uma febre maligna.
índio brasileiro
PRIMEIROS CRONISTAS

As terras do Novo Mundo eram povoadas por homens


desconhecidos aos europeus. Êste encontro tinha algo de
dramático, se imaginarmos o confronto que se verificou en­
tre o homem da Renascença com um ser que vivia na Idade
da Pedra! Alguns dos europeus, que aqui chegaram nos
primeiros anos da colonização, pertenciam à nobreza euro­
péia. Vestindo brocados e veludos, encontravam-se frente
a frente com um indivíduo que, na maioria das vêzes, le­
vava sob a epiderme a mais precária vestimenta. Era o
encontro da caravela com a piroga: do soldado armado de
espada e arcabuz com o guerreiro de arco e flecha, e muitos
cronistas afirmaram ser: “ o encontro da civilização com a
barbárie” .
Um dos documentos mais importantes desta época
(séc. X V I) é a carta de Pero Vaz de Caminha, que vinha
como escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral. Uma
das primeiras citações dêste documento diz : "Dali avista­
mos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito,
segundo disseram os navios pequenos, por chegarem pri­
meiro” . Daí em diante, abundam descrições sobre os pri­
meiros indígenas que entraram em contacto com os portu-
guêses.
Imaginemos o europeu que aqui chegava: Recém-saído
da Idade Média, época que se caracterizava pela existência
de núcleos fechados e pequenos, levando uma vida restrita
em certos aspectos, possuidor de uma mentalidade "sui ge-
neris” , entrava de chôfre numa era de conquistas, de des­
coberta de novas terras, de grandes expedições ultramarinas.
Ao lado dos fatos reais como as descobertas de novas terras
e a possibilidade de um grande comércio, encontravam-se
espíritos fantasistas, que faziam descrições e relatos de via­
gens maravilhosas, em que afirmavam haverem visto reinos
milenares e povos estranhos, senhores de costumes raros.
CONVITE À CIÊNCIA 143

As terras descobertas por Cabral no ocidente aguçavam


também a curiosidade do europeu, e a esperança de novas
riquezas era um poderoso incentivo à colonização. Mas,
também, chamara a atenção do conquistador o habitante
destas regiões. Verifica-se em quase todos os relatos da
época, que a figura do selvícola é traçada de uma maneira
caricatural. Muitas vêzes, é apresentado como um mons­
tro, possuidor de deformações horríveis. Felizmente, na
carta de Caminha, temos uma descrição singela, mas segura.
São notas tomadas após o contacto rápido com o gentio que
se apresentava.
Assim foram descritos: "Eram pardos, todos nus, sem
coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos,
traziam arcos com suas setas” . Mais adiante, entretanto,
Caminha já os descreve melhor e com mais agudeza: "A
feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de
bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem
cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir
ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência
como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de
baixo furados e metidos nêles seus ossos brancos e verda­
deiros, do comprimento duma mao travêssa, da grossura
dum fuso de algodão, agudos na ponta como furador. Me­
tem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes
fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez,
ali encaixado, de tal sorte, que não os molesta, nem os es­
torva no falar, no comer ou no beber. Os cabelos são
corredios. E andam tosquiados, de tosquia alta, mais que
de sôbre-pente, de boa grandura e raspados até por cima
das orelhas. E um dêles trazia por baixo de solpa, de fonte
a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de
ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui
basta e mui cerrada, que lhes cobria o toutiço e as orelhas.
E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma con-
feição branda como cêra (mas não o era), de maneira que
a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual,
e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.”
Esta é uma das melhores observações a respeito dos
indígenas brasileiros.
A grande variedade de pássaros multicores existentes
nas terras brasileiras despertou a atenção dos portuguêses.
Alguns dêstes pássaros, que viviam nas aldeias, domestica­
1 44 YOLÀNDA LHULLIER DOS SANTOS

dos, possuíam uma plumagem de cores vivas de uma gran­


de beleza, sendo usada pelos índios como enfeites.
O grande número dêstes pássaros originou o primeiro
nome recebido por nosso país (daí aparecer nas cartas geo­
gráficas da época, como Terra dos Papagaios).
Em 1557, foi publicado um livro, cujo autor, um ale­
mão, estêve durante alguns anos em nossa terra. Possuía
um título assaz longo: "Verdadeira história e descrição de
uma terra de. antropófagos selvagens, nus e ferozes, situada
no Novo Mundo, América'”, escrito por Hans Staden.
As duas viagens que realizou no Novo Mundo deram
a Hans Staden oportunidade de conhecer e viver situações
inesquecíveis 1
Na segunda viagem ao Brasil, naufragou nas costas de
São Vicente, tendo daí seguido para Bertioga. O aspecto
que mais chamou a atenção de Staden foi a antropoíagia.
Lê-se, numa passagem do seu livro, o seguinte: "Fazem isto
não para matar a fome mas por hostilidade, por ódio, e
quando na guerra, escaramuçam uns com os outros, gritam
uns aos outros: "Debe marapá xe reumiu ram begué”, que
traduzido diz: sobre ti caia toda a desgraça, tu és o meu
pasto.”
Q canibalismo, ou seja comer carne humana, não pode,
nos indígenas, ser olhado apenas como um meio de matar
a fome, mas também como uma função religiosa ou melhor,
mística. Em geral, os canibais a praticavam por supersti­
ção ou vingança. Julgavam assim que incorporando a alma
do inimigo que foi valente, em si próprios, não sofreriam
a vingança do espírito do morto. Muitos cronistas dizem
entretanto, que não foi pequeno o número de índios apri­
sionados e que serviram de pasto aos brancos! Além do
mais, houve muitos europeus, que ao chegarem na nova ter­
ra, e em contacto com o indígena adotaram o modo de vida
dêstes, o qual seja: habitar nas aldeias, casar-se com indí­
genas e comer carne humana, e a tal ponto integraram êstes
hábitos, que pareciam "verdadeiros índios”.
Desde os primeiros anos da descoberta, formaram-se
dois blocos diferentes: dum lado os tupinambás aliados dos
franceses (êstes chamados de "maires” pelos selvagens, que
significa na língua tupinambá: os que moram em longín­
CONVITE À CIÊNCIA 145

quas paragens” ) ; e os Tupiniquins que eram amigos dos


portuguêses. Ambos pertencentes ao grupo Tupi, porém
inimigos desde épocas remotas.

A atitude do português ao se unir com o Tupiniquim,


assim como a do francês com o Tupinambá, vinha da ne­
cessidade de tirar maior proveito da situação. O comércio
do pau-brasil tinha muito valor nesta época. A luta se
dava entre os corsários no intuito de se apropriarem dos
carregamentos da preciosa madeira, que alto preço alcan­
çava na Europa. Em 1530, não se podia dizer se o Brasil
pertencia à França ou a Portugal, pela igualdade das forças
que possuíam ambas as nações. Portugal, para resolver a
situação que se tornava deveras embaraçosa, enviou a es­
quadra de Cristóvão Jacques, cuja missão era acabar com
os corsários franceses. Mas êstes voltaram logo depois e
em maior número. O que se fêz em face desta situação
foi iniciar a colonização com a fundação de vários núcleos
fortificados para defesa do litoral. Chega, portanto, em
1531, a esquadra de Martim Afonso de Sousa em terras
brasileiras, fundando São Vicente, uma colônia denominada
de "célula mater”, por ser o primeiro núcleo de colonização
em terras brasileiras.
UM VIAJAN TE FRANCÊS DO SÉCULO XVI

A crônica de Jean de Léry é muito viva e interessante.


Era um simples sapateiro natural da Borgonha, que mais
tarde se tornou estudante de teologia, e que embarcou com
outros artesãos para as terras do Novo Mundo. A colo­
nização francesa se fazia com grande incentivo em terras
brasileiras, favorecida pelas dissensões entre calvinistas e
papistas na França, o que originou o exílio de um grande
contingente humano, que vinha à procura de uma pátria
onde não sofressem perseguições. Na baía de Guanabara,
iniciou-se o núcleo da "futura França Antártica” , que logo
se desenvolveu.
Os franceses mantinham contacto com o Brasil, espe­
cialmente no campo comercial. Vários produtos originários
tinham grande aceitação em território francês e europeu,
daí várias casas comerciais dn Ruão. Honfleur manterem
relações com os núcleos tribais, chegando mesmo a terem,
representantes na nova terra, que, na maioria das vêzes,
viviam com os selvagens, adaptando-se à vida tribal de uma
tal forma, que Léry nos conta que chegavam a regalar-se
com guisados preparados com carne humana!
Em 1550, na cidade de Ruão, deram-se grandes festas
por ocasião da visita de Henrique II e Catarina de Médicis
naquela cidade. Nestas festas de grande brilho, tomaram
parte vários indígenas brasileiros, ornamentados e pintados,
como faziam nas suas tribos e que dançaram em honra dos
dois soberanos.
Verifica-se que a repercussão dos costumes dos selva­
gens brasileiros na Europa foi muito grande. Muitos es­
tudiosos, entre êles Montaigne, escreveram páginas em que
abundam interpretações e citações a respeito do indígena.
Em sua obra "Essais” , o magnífico escritor francês dedica
um capítulo ("D es Cannibales” ) aos indígenas brasileiros.
Tudo isto fazia nascer e concretizar uma questão muito im­
portante, a do "bom selvagem” , tema êste muito estudado
e que manteve acirradas polêmicas durante muitos séculos.
ARQUEOLOGIA MARAJOARA

Foi no dia 8 de novembro de 1519, que Hermán Cortez,


à frente de suas tropas, e em nome da Coroa Espanhola,
avistou pela primeira vez a capital do Império Asteca: a
maravilhosa cidade do México, onde em pleno século XVIII,
Alexandre von Humboldt. viajante e sábio francês, ainda
veria ante seus olhos os belos lagos ornados de ilhas flu­
tuantes de flores. Entretanto, para Cortez e seus 400 ho­
mens foi um espetáculo invulgar aquêle emaranhado de
templos e palácios, que atestavam uma civilização adianta-
díssima. Não durou, porém, um ano para que a destruição
e exterminação impiedosa de quase toda a sua população
se desse. Mas, remontemo-nos para muitos séculos antes:
O segundo império Maia, que dominara quase toda a
península do Yucatan, entrava em decadência. Depois de
ter mantido por vários séculos uma sólida estrutura polí­
tica, não resistiu ao ataque cada vez mais constante das
tribos vizinhas. Desmoronou-se, originando pequenas tri­
bos isoladas, só mantendo-se como grupo homogêneo, os va­
lorosos astecas, do planalto de Anáuac, considerados como
possuidores da melhor organização estatal encontrada nas
civilizações pré-americanas.
Mas o que aconteceu aos remanescentes do império
Maia? Segundo consta, dispersaram-se, chegando alguns
dêles aos planaltos colombianos, espraiando-se até os vales
do Equador e da Venezuela. Outros foram mais longe;
após atravessarem regiões de difícil acesso foram localizar-
-se numa ilha. Esta ilha de 48.000 m2 (que poderia
conter dentro dos seus limites um país europeu, como a
Suíça) é a ilha de Marajó.
Em certos locais, principalmente nas adjacências do
lago Arari e na ilha do Pacoval, foram encontrados, pela
população local, pequenas elevações de terra. Apresenta­
148 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

vam um formato bastante interessante e em algumas delas


foram encontrados restos de cerâmica, cacos e outros obje­
tos, que se apresentavam mesclados com barro, restos de
árvores carcomidos, conchas, ossos, etc.
Estudiosos levados pelo interêsse que êstes achados des­
pertavam, foram verificá-los "in loco” . Chegaram à con­
clusão que êstes pequenos montes (chamados de "tesos” pela
população) nada mais eram que resíduos de antigos cemi­
térios. Tal interpretação foi tomada devido à semelhança
com os famosos "mounds builders” (do vale do Ohio), cons­
truídos pela mão do homem para servir de túmulo aos
mortos.
Espalhavam-se por centenas e centenas de quilômetros,
mantendo-se, muitas vêzes, acima do nível das águas, mes­
mo durante as grandes inundações.
A ilha de Marajó apresenta terrenos de épocas geoló­
gicas diferentes. Os mais antigos são os localizados no
lado norte e sul, sendo os mais recentes os da região cen­
tral. A í está o lago Arari, ocupado peias águas das enchen­
tes durante certo período do ano, permanecendo sempre
como um grande atoleiro.
A paisagem da ilha é composta da interposição de
imensas clareiras ("os campos” ), com densas florestas equa­
toriais. Êstes campos são semelhantes aos que aparecem
na planície amazônica e que sofrem, em certas épocas, gran­
des inundações. Mas, há, também, zonas sêcas e altas, onde
há criação de gado e atualmente de búfalos.
O clima é quente-úmído, mas, ao mesmo tempo, tem­
perado, devido à constante viração das correntes marítimas.
Repartem-se períodos de chuvas intermitentes (que origi­
nam cheias nos rios), com um período de sêca. Assim, du­
rante um longo período, as águas dos rios aiagam as terras
onde cresce uma luxuriante vegetação.
Segundo certos estudiosos, houve migrações sucessivas
de tribos pertencentes a grupos diferentes. Daí, a ilha ter
recebido grupos culturais diferentes, que deixaram marcas.
No exame do terreno, em que um dos métodos usados foi
o da "estratigrafia arqueológica ” (processo aplicado por
dois etnólogos), chegou-se à conclusão que camadas suces­
sivas, umas sobre as outras, jaziam no solo da ilha. Por­
CONVITE À CIÊNCIA 149

tanto, não se pode falar de "uma única cultura marajoara” ,


e deve aceitar-se a hipótese de que houve "várias culturas
marajoaras” .
Para satisfazer as perguntas que apareciam, os estu­
diosos começaram a preocupar-se com um estudo mais
aprofundado da arte marajoara.
Um dos aspectos, que chamou muito a atenção, é o uso
de tangas. Para muitos, é restrito aos rituais, devido ao
feitio que não se adapta às formas do corpo humano. É
interessante notar-se que é usado somente pelas mulheres.
Mas, perguntaríamos: Por que é usado somente pela
mulher?
A MULHER DE ARUAQUE

Existe uma tradição muito remota que tem o nome de


"A Cruz de Palenque” , que pertence à cultura do Yucatan.
Esta cruz, simbolizando as fôrças que governam os
quatro pontos cardeais, possui, de cada lado, duas figuras
humanas em atitude de veneração à cruz, sendo do lado di­
reito um homem e do esquerdo uma mulher.
O símbolo da cruz representa o '"culto solar dos maias”,
e nêle, tanto o homem como a mulher ocupavam a mesma
posição.
Encontra-se, também, numa antiga tradição pertencen­
te à civilização dos Incas e dos Quíchuas, a "instituição das
Virgens do Sol” , conhecido pelo nome de AclLa, Essa ins­
tituição era formada de um grupo de jovens, que perma­
neciam longe do contacto de outras pessoas e aa comuni­
dade. Desde a idade de oito anos, eram encerradas numa
espécie de convento, onde permaneciam o resto de sua vida
como sacerdotisas.
Consta na tradição, que elas eram divididas em três
categorias, segundo a classe social donde provinham (da
nobre, da rica ou da plebéia), e ali ficavam sob a direção
de mulheres mais idosas (chamadas de "mamacona” ), onde
recebiam uma educação toda especial. Eram as "vestais”
do fogo sagrado, fogo êste, sempre renovado cada ano nos
templos, em cuja cerimonia, eias ocupavam o cargo de sa­
cerdotisas.
A mulher na cultura Aruaque (à qual pertencem as
tribos localizadas em M arajó), possui uma posição invulgar.
O papel da mulher, tão importante em certas culturas
primitivas, é explicado, por muitos, como remíniscência de
uma fase matriarcal. Esta fase teria desaparecido, mas os
seus resquícios seriam ainda mantidos em certas culturas.
Daí a série de lendas de fundo matriarcal* dentre as quais
avulta a tão conhecida de todos nós:
0 MISTÉRIO DE JURUPARI

Figura contraditória e comentada nas páginas escritas


pelos mais antigos cronistas é a do Jurupari. Aparece nos
textos dos cronistas, como de Simão de Vasconcelos. D’È-
vreux, cTAbeviile, como uma figura que simboliza o mal.
Como figura representativa do mal, foi também aceita por
vários autores posteriores. O primeiro a dar uma inter­
pretação diferente do Jurupari, foi o padre João Daniel.
Êste autor redimiu-o dos atributos demoníacos que lhe eram
impostos.
Jurupari é concebido por uma cunhã (mulher) virgem.
Mas houve, na sua concepção, a interferência do sumo da
cucura.
Cucura é um fruto selvagem, o qual, para as tribos do
rio Negro, é proibido à mulher. Ceuci é a jovem que come
a fruta proibida, e, por castigo de tal ato, concebe um filho.
Êste, porém, desaparece das suas vistas, e ela não mais o
vê. Mas, todas as noites, quando Ceuci dorme na sua rêde,
sente que vem alguém amamentar-se ao seu seio. Passa-se
muito tempo, e eis que, um dia, chega um jovem forte e
de belas feições, que vem disposto a exercer o comando da
tribo.
É aclamado tuixaua por todos. Começa então o seu
trabalho: instrui os homens 1 1 0 conhecimento das leis, en-
sina-lhes os ritos e as festas cerimoniais, assim como as
danças e os cantos realizados com a participação só dos ho­
mens, estando a mulher disto proibida. E ainda mais: fá-
-los tornarem-se fortes e insensíveis às seduções das mulhe­
res, para que possam viver sem elas. Ensina, ademais,
muitas e muitas outras coisas que a tribo depois vai aceitar
como leis. São os preceitos relativos às práticas de inicia­
ção, à caça dos grandes animais, à pesca, e tudo o mais que
irá servir de normas para a vida coletiva na aldeia.
YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

A lenda do Jurupari é uma das mais belas lendas in­


dígenas. Aparece na mitologia dos índios Tucanos, Taria-
na, Uapés, localizados em território amazonense, e estende­
-se ainda a tribos do nordeste, como a dos Carijós. de Águas
Belas.
Dizem os estudiosos que o mito de Jurupari, como o
de Izi e Poronominare (quer dizer "Deus dos Barés” ) são
diversificações do mesmo mito de "origem Solar” , em que
se venera o Sol, como símbolo do Deus Supremo. Explica­
-se a existência dêstes mitos chamados "solares” , como ori­
ginários de sociedades patriarcais, em substituição ao regime
do matriarcado, que se presume tenha existido em antigas
culturas primitivas. O mito do Jurupari é dado como ten­
do nascido numa região em que o cratos ("poder” ) perten­
cia às mulheres. Por isso, o primeiro ato de Jurupari é
cassar-lhes o poder, fazendo-o reverter ao sexo masculino.
Impõe êle um novo culto, que é o do Sol. Nos grupos de
fundo político matriarcal, os mitos são "lunares” , e, neste
caso, a veneração é devotada totalmente à lua. Entre vá­
rias tribos, a lua é conhecida como a "Grande Mãe” , ou
como a "origem de todas as coisas.
Em algumas regiões, onde é observada a lenda do Ju­
rupari, êle toma figuras diferentes. Nos mitos dos índios
Barés (localizados no rio N egro), aparece Jurupari na fi­
gura de Poronominare.
Têm-no como filho da Lua, tendo sido sua mãe fecun­
dada pelo suco da cucura. Mas, ambos são tomados como
sêres enviados do céu, sobrenaturais, que terão uma digni-
ficante missão na terra.
Já entre os índios Tarianas (rio Uapés), há uma lenda
que é uma versão do mito de Jurupari, apresentando algu­
mas variações. Diz que: "uma horda muito grande de
mulheres tinha chegado às margens do rio Ucaiari, acom­
panhada de um grupo de homens muito velhos. Não po­
diam êles ser mais pais, daí não se ouvir um choro de crian­
ça há muito tempo. A o se banharem no lago, apareceu a
Cobra Grande, e, com ela, as índias tiveram filhos. Nas­
ceram muitos meninos e meninas, porém, dentre êles, uma
se distinguia pela extrema beleza com que era dotada. Esta
beleza aumentava conforme os anos iam passando, quando
um dia, já moça e bela, tomou o suco da fruta uacu ("uacu
CONVITE À CIÊNCIA 153

iua” ), que era proibido às moças virgens. Teve um filho;


mas antes de o ter, foi carregada para o alto de uma serra
onde deu à luz. Esta criança, que nasceu, foi considerada
como um semi-deus, que veio ao mundo para conduzir e
ensinar os homens as coisas mais adiantadas.”
Verifica-se que esta é a missão atribuída a Jurupari
em outras tribos.
Outro mito também encontrado na região amazonense
é o de Dinari. Vivia ela reclusa numa comunidade de mu­
lheres (restos de um possível matriarcado), quando um dia
consegue fugir e sai à procura de um marido. Na fuga,
encontra, no meio do caminho, um jovem guerreiro, for­
moso e forte, pelo qual se apaixona. Seguia o jovem um
séquito de guerreiros valorosos. Dinari segue-o também.

Máscaras de Povos Primitivos

No caminho, deparam com um largo rio, onde todos


se banham. A o saírem das águas vêem assombrados que
se transformaram em Jacamins. Dinari fica sob êste dis­
farce até poucos dias antes de dar à luz a uma criança. Aí,
ela pede ao marido que lhe dê novamente a forma humana,
154 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

e obtém que sua súplica seja atendida. Dá à luz a um ca­


sal. A menina chama-se Ceuci (que vai ser personagem
no Mito da Lua) e o menino Setestrelo (encarnação da
constelação das Plêiades). Estas duas crianças, com o pas­
sar do tempo, sem distinguirem o bem do mal, matam di­
versos jacamins, e nesta mortandade sucumbe o pai, que era
um dêles. Daí o respeito muito grande que vai vigorar en­
tre êstes índios pelos jacamins (uma ave) que, na lenda,
aparece como a figura sagrada de um Animal-Deus. Dinari
é mãe de Ceuci, esta por sua vez, vai depois aparecer como
a mãe de Jurupari” .
Os primeiros missionários em contacto com estas cul­
turas indígenas ficaram impressionados com as máscaras
usadas na representação do mito de Jurupari. Estas más­
caras do culto, chamadas de "pucamucá ou macacaraua” ,
representavam, na sua maioria, figuras de sêres horrendos,
atemorizantes, que em tudo se pareciam com as figuras re­
presentativas do "diabo” da religião cristã. Daí, a inter­
pretação errônea que por tanto tempo vigorou nas crônicas
desta época, que êstes "cultos eram demoníacos”, feitos em
honra ao deus do Mal.
GRUPOS LINGÜÍSTICOS BRASILEIROS

Certos autores afirmam que o continente americano


contém mais famílias lingüísticas que todo o resto do mun­
do junto. Êsse número chegaria a elevar-se à espantosa
cifra de alguns milhares! Podemos ter uma idéia da difi­
culdade com que luta o estudioso das línguas nativas ame­
ricanas quando tenta distribuí-las em grupos.
Ao ler a citação que segue: ../"Q u a n d o as ondas de
mansinho vinham beijar a areia alva e fina, na qual apoia­
do num bastão, um jesuíta escrevia lentamente verso» em
honra à Virgem M a ria ... ” o leitor não imaginará que êstes
versos tenham sido escritos numa iingua, que em nossos
dias só é conhecida por algumas centenas de indivíduos, e
que perdurou somente em nomes geográficos e em raras pa­
lavras do nosso vocabulário.
É a chamada "Língua Geral” , tão amplamente difun­
dida em território sul-americano (tendo sido em certas re­
giões usada como língua oficial). Poucos sabem que esta
língua dominou quase todo o continente, tendo servido como
meio de comunicação, não só entre os próprios índios, mas
também entre êstes e os brancos. Durante os séculos X V II
e XVIII, vários livros impressos foram escritos na língua
geral.
Couto de Magalhães, que passou vários anos da sua vida
realizando viagens pelos noásos sertões, estudou profunda­
mente o tupi-guarani. Êle é do parecer que foi esta a lín­
gua primitiva que teve maior extensão, compreendendo toda
a América do Sul e parte da Central.
A língua tupi era mais difundida no norte e orla lito­
rânea; enquanto a guarani tinha seu núcleo mais forte no
sul e no Paraguai. É interessante notarmos o seguinte: no
Paraguai, dizem "ava nhenhen” , que pode ser traduzido por
língua de gente” , e não "guarani nhenhen” que seria "lín­
156 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

gua guarani” . Tal fato se explica, pois o indígena, como


outro qualquer primitivo, considera coma um irmão aquêle
que fala a sua língua. Assim, o vocábulo usado para no­
mear o inimigo é: "Aquêle que não fala a nossa língua” .
Foram os jesuítas que durante os primeiros anos de
colonização estudaram com grande interêsse as tribos exis­
tentes na terra recém-descoberta. A diversidade encontra­
da chamou a atenção dos soldados, dos colonos, dos cronistas
que, entrando em contacto com os selvícolas, notavam a
heterogeneidade que cada tribo apresentava na língua e nos
costumes.
Haveria uma possibilidade de classificá-las, procuran­
do as raízes comuns?
A classificação existente era a mais simples possível.
Diziam ser tupis os que habitavam o litoral, e os que re­
sidiam mais para o interior eram os tapuias. Êste nome
era dado pelos do grupo tupi àqueles que não falavam a sua
língua. Daí, também, serem conhecidos popularmente co­
mo "povos de língua travada” , e o epíteto que recebiam era
de "gentio bárbaro”, que é sinônimo da palavra "tapuia” .
Notemos que, apesar de primária, esta classificação foi
durante muitos anos aceita pela maioria dos cronistas e es­
tudiosos. Ela mantinha afastada da sua classificação cen­
tenas de famílias lingüísticas. Mas só no século X IX
apareceria a primeira classificação lingüística.
Karl von den Steinen, após a 2.a expedição ao rio Xingu,
confirmou as bases da sua l .a classificação lingüística feita
em 1884. Para êle, havia quatro grandes grupos lingüís­
ticos que são: Tupis-Guaranis, Gês, Caribes e Aruaques.
Esta classificação serviu de base aos estudos realizados
por outros antropólogos. Entre êles, o alemão, Enhreirech
que andou pelos rios do Brasil Central realizando várias
pesquisas.
Uma classificação, que demandou um tempo incrível
para ser elaborada, é a de Loukotka. Durante 20 anos, de­
dicou-se à classificação das famílias lingüísticas indígenas
do Brasil, chegando a distribuí-las em 37 grupos.
Mas, voltando à classificação de Von den Steinen, po­
deríamos perguntar: Quem são os Tupis-Guaranis e quais
tribos fazem parte dêste grupo? Uma resposta precipitada
contestaria: "É a maior família lingüística indígena exis­
tente em território brasileiro” .
OS TUPIS-GUARANIS E SUAS MIGRAÇÕES

Por volta do ano 1820, Curt Nimuendadjú afirmou que


os últimos remanescentes da grande nação Guarani tinham
partido de suas aldeias situadas no sul de Mato Grosso, e
seguido para leste, pretendendo com isto chegar até à borda
litorânea.
Os primeiros portuguêses aqui chegados tiveram a opor­
tunidade de observar um dêstes movimentos migratórios
que se fêz na direção sul-norte. Eram centenas de tribos
que partiam em busca de novas paragens. Os estudiogos
são unânimes em afirmar ter existido três ramos diferentes
migratórios: os que teriam ido para a direção sul-norte;
os que tomaram a direção norte, ultrapassando o rio Ama­
zonas e chegando até às Güianas, e o último, que teria to­
mado a direção leste. O foco de dispersão seria a região
compreendida pelo médio rio Paraná e alto Paraguai.
Espalharam-se por várias regiões, entrando em contac­
to com outras tribos. Daí, resultou ficarem "tupinizadas”
essas tribos; quer dizer, assimilaram os elementos do grupo
mais forte, integrando-os na sua cultura. As interpreta­
ções divergem fundamentalmente: uma delas diz que estas
tribos saíram do seu habitat, devido à pressão sofrida por
outros, e por desejarem escapar à escravidão que lhes seria
imposta; outros, que seria devido à sua natureza errante e
guerreira; mas há, também, uma hinòtese que se baseia no
fato ao qual vários etnólogos aceitaram: é que a nação tupi-
-guarani emigrava à procura da Terra da Promissão, onde
supunham encontrar uma vida melhor, e segundo êles: onde
a morte não existia, vivendo-se num estado de perene feli­
cidade” .
Esta crença tão importante da mitologia tupi-guarani
seria o fator destas constantes migrações, sendo que cada
migração seria um passo a mais na direção da terra pro­
metida, a "Terra sem Males” .
FOLCLORE DILUVIANO

Os primeiros cronistas, como Thévet, Léry, Hans Sta­


den e vários outros, ficaram impressionados com os mitos
existentes na cultura tupi-guarani, dos quais um dos mais
dignos de nota é o do Dilúvio.
Conta a tradição, que em épocas que já vão longe, teria
havido um grande dilúvio, no qual todas as terras teriam
ficado submersas, e a vida teria desaparecido. Salvaram-
-se, porém, das águas, apenas dois casais, um dêles perten­
cia à tribo dos Tupinambás e outro a dos Tamoios, e para
êles foi dada a incumbência de povoarem outra vez o mundo.
Verificou-se, — fato interessante — já nos séculos X IX
e X X , que esta mesma lenda aparecia entre outras tribos,
tribos estas "tupinizadas” ou "guaranizadas” , como é o caso
dos Chiriguano e dos Tembé. Há, na mitologia destas duas
tribos, uma lenda que êles chamam de "Cheia Grande” , exa­
tamente como a contada pelos Tupinambás e Tamoios.
E ainda em outras tribos localizadas no Paraguai (co­
mo os Guayaki e M bo), encontra-se uma lenda que explica
a "destruição dos homens pelas águas” . No extremo norte,
entre tribos do Pará e do Maranhão, existe uma lenda com
êste mesmo tema simbólico. E poderíamos nos estender a
tribos como a dos: Xiripa do Alto Paraná, a dos Kuná e
Taulipang, Tapirapés, Guajara, etc. Em todas aparece o
mesmo tema mitológico, apresentando-se com variações. Em
algumas há o episódio do incêndio que precede à invasão
das águas. Êste é sem dúvida, um dos aspectos mais inte­
ressantes que aparecem na vasta mitologia indígena. Esta
mitologia influi poderosamente nos costumes e modo de fa­
lar de cada tribo.

O grupo tapuia ou gê:

O têrmo tapuia, dado indistintamente pelos do grupo


Tupi a qualquer um que não pertencesse à sua tribo, per­
CONVITE À CIÊNCIA 159

maneceu em todas as classificações por muitos anos. Em


nossos dias, sabemos que no têrmo tapuia, integravam-se,
principalmente, os componentes do atual grupo gê. É êle
constituído por uma extensíssima família lingüística, a qual
tem chamado a atenção dos etnólogos. Êles próprios se
chamavam de Nac Manuc ou Nac Poruc, que quer dizer "os
filhos da terra” . O têrmo gê significa chefe, pai ou ascen­
dente.
Presumem os estudiosos, e disto temos notícia pelos
cronistas, que logo após a descoberta, ainda havia muitos
remanescentes na zona litorânea. É que, anteriormente à
chegada dos Tupis-Guaranis (vindos nas grandes migrações
que já tivemos oportunidade de descrever), o domínio cabia
às tribos do grupo gê. Eram os senhores da orla litorânea,
onde mantinham um tráfico costeiro bem desenvolvido.
Eram os Botocudos do Espírito Santo, no vale do rio Doce,
que ficaram na nossa história colonial como os Aimorés;
os Timbiras, os Cariris e vários outros.
O grupo gê é o de cultura material e espiritual mais
atrasada que se conhece. ‘ Basta dizer que são nômades, não
possuem lavoura, nem cerâmica, nem tecelagem, nem nave­
gação e rêde de pescar. Moram em taperas rústicas, e usam
o arco e flecha para a caça. Como ornamento, usam o cé­
lebre bodoque (auricular e labial). São conhecidos pela sua
antropofagia, pois comem carne humana quando a fome se
torna aguda.
Sua origem ainda permanece incógnita e é tema de
muitas controvérsias. Sabe-se, com certeza, que emigraram
primàriamente da direção oeste para leste, indo para o li­
toral, onde mais tarde foram expulsos pelos Tupis. Daí,
tomaram a direção inversa, partindo de leste para oeste
indo localizar-se, desta vez, novamente no interior, em ter­
ras áridas.
Remanescentes dêste grupo são os Caiapós, conhecidos
pelas constantes incursões que fazem aos núcleos de brancos
da região.

O grupo aruaque:

É uma das famílias lingüísticas mais extensas da Amé­


rica do Sul, pois além de ter-se disseminado em território
brasileiro, alcançou as Antilhas.
160 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Mesclaram-se com outras tribos nas migrações, e daí a


dificuldade que se tem em saber qual tribo pode ser per­
feitamente caracterizada como aruaque.
São povos agricultores, e para muitos etnólogos, as suas
migrações são explicadas como uma necessidade em pro­
curarem novas terras para o plantio. Enquanto isto, ou­
tros aceitam a hipótese que estas migrações tiveram como
causa o pressionamento feito por tribos dos grupos Caribe,
Tupi, que tentavam apropriar-se das terras.
A cidade de Manaus tem o seu nome devido à grande
nação que aí habitava. Conta a lenda dos índios Manaus
que um dos seus heróis, que se chamava Ajuricaba, opôs
tenaz resistência aos portuguêses vindos para conquistar a
região. Sendo prêso por aquêles, preferiu atirar-se no rio
e morrer afogado, do que permanecer refém.
A corrida para a região, onde hoje é a capital, deve-se
à lenda das grandes riquezas que diziam ali existir, lenda
que percorreu o Brasil, levando em conseqüência grande
número de bandeirantes e exploradores à procura das fabu­
losas riquezas.
Eram os aruaques senhores de uma grande e aperfei­
çoada lavoura, e muitas palavras de suas técnicas agrícolas
foram incorporadas no linguajar espanhol e português.
Desenvolveram muito a cerâmica, e ainda atualmente
em muitas tribos dêste grupo, aparecem ótimos trabalhos de
olaria. Produziam tecidos de algodão, dos quais faziam
mantos, rêdes, panos de grande beleza, além de um trabalho
de cestearia muito desenvolvido.

O grupo Caribe:

Êste grupo é muito pouco conhecido. Além do que já


dissemos a respeito da migração para a América Central,
e lá, da pressão feita sobre as tribos Aruaques, muito pouco
sabemos.
Eram considerados como guerreiros devastadores, da­
dos à pilhagem.
As interpretações dadas ao nome caribe são interessan­
tes: para alguns deriva de Calina e Caripuna, nomes que
CONVITE À CIÊNCIA 161

índio Xavante de Mato Grosso


16 2 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Cristóvão Colombo ouviu ao chegar em Haiti. Calina é o


nome com que os caribes na sua língua designam "compa­
nheiro” .
O estudioso alemão Karl von den Steinen, entretanto,
é de outro parecer. Para êle, caribe seria uma grafia erra­
da de caraíba que significa, na língua dêste grupo, "estran­
geiro” . Assim, quando chegaram os primeiros espanhóis e
ouviam os índios dizer constantemente caraíba ou caribe,
não queriam referir-se a si próprios, e sim aos brancos es­
trangeiros. Ainda hoje, tal vocábulo é usado em grande
número de tribos brasileiras, para o estrangeiro que ali che­
ga, como também para designar os pertencentes a tribos não
conhecidas.
Outros ainda explicam que a palavra canibal, dada a
êstes selvícolas, também teria sua origem neste vocábulo.
O fato dos caribes comerem carne humana, pois praticavam
a antropofagia, espantou muito os espanhóis e portuguêses,
daí haver a corrupção do nome "caribe” que teria dado "ca­
nibal” .
Fazem parte dos caribes algumas tribos disseminadas
pelo interior do nosso país.

Grwpos isolados:

Existem tribos que permanecem fora da classificação.


Entre êles encontramos os Nhambiquaras, os Trumais e oe
Bororos. Dêstes últimos temos algo a dizer:
Os Bororos habitam a região central matogrossense.
Localizam-se no alto rio Paraná e rio São Lourenço, e outro
grupo está atualmente no rio das Mortes e Araguaia.
O Cel. Amilcar Botelho de Magalhães conta no seu li­
vro: "Impressões da Comissão Rondon” , um costume bororo
que muito o impressionou:
"Assim, o fato que me chamou a atenção foi o cadáver
de uma mulher que, enterrada perto do Bahyto, era desen­
terrada todas as manhãs para ser o seu cadáver molhado,
e no oitavo dia, foi levada para uma lagoa distante, onde
a descarnaram quatro índios, até que os ossos, depois de
terem sido lavados repetidas vêzes, ficassem completamente
CONVITE À CIÊNCIA 16 3

índio Gauracu, do Paraná


164 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

brancos. Esta cerimônia faz-se antes do amanhecer, en­


quanto as trevas ainda dominam, pois tal é a vontade do
Boppe (divindade).”
Entretanto, o modo de ser enterrado é que varia muito,
havendo práticas verdadeiramente exóticas. Conta-nos o
mesmo autor que: "na aldeia, quando a noite já caiu há
muito, e a aldeia toda dorme, ouvem-se coros e rezas aba­
fadas, cantadas em surdina, que se parecem aos cantos gre­
gorianos. Vem êste lamento, do Bahyto ("Casa dos Ho­
mens” ), que fica no centro da aldeia, e da qual não pode
nem se aproximar, nem entrar qualquer mulher.” Êstes
cantos se fazem nas noites de vigília, que dura desde a mor­
te de um indivíduo até o seu enterramento.” "Contaram-
-me coisas fantásticas sobre aquêle templo de mistérios, ou
seja, o Bahyto; não dei crédito, apesar de me parecer ra­
zoável aceitar tais hábitos, como próprios de um estado
ainda mais atrasado do que o que caracteriza a vida atual
dos Bororos, e muito embora, entre os civilizados exista
também costumes bárbaros, temos de notar que nada é de­
mais nestas populações indígenas.”
Quando Rondon necessitou de braços para o trabalho
das Linhas Telegráficas, chamou os Bororos, e êstes vieram
em grupos de 100 a 150 homens, que se prestavam aos ser­
viços mais penosos. São muito altos (chegando a alcançar
1,80 m ), fortes e de feições muito regulares e rígidas.
Há outras práticas religiosas dignas de serem relata­
das. Uma delas diz: "Quando qualquer membro morre na
aldeia, é êle inteiramente untado com "m onogo” (urucum).
Chegam logo os parentes (as mulheres também) e fazem
nos seus próprios corpos, arranhões e talhos, com pontas de
conchas afiadas, e o sangue que dáli jorra é deixado cair
sobre o cadáver. É como sè fosse uma última homenagem
prestada ao morto, que nunca mais participará desta vida.
Os homens tomam pârte, formando os Pagmejeras. Vêm
untados de urucum è agitando os "bapos” , vão mantendo o
compasso de uma dança na qual batem com toda força os
pés* balançam os chocalhos, e gritam em altos berros” ;
Continua o autor: "O pó asfixiava, as mulheres brada­
vam as boas qualidades do morto, outras se arranhavàm,
em prantos; sangue e lágrimas se misturavam, o solo es­
tremecia sob os pés dos chefes, coroados com o "parico” ,
CONVITE À CIÊNCIA 165

que dava àqueles vultos vermelhos e suarentos, de rostos


contraídos pela febre destas danças, a impressão infernal
e assustadora de uma visão apocalíptica.”
Atualmente, os remanescentes bororos são poucos. Lo­
calizados em duas aldeias, vão pouco a poüco perdendo a
altivez e os costumes peculiares de sua raça.
Quando aqui chegou Jean de Léry (cronista do século
XV I, que viera para o forte de Villeigagnon), ficou im­
pressionado com as tribos indígenas com as quais teve opor­
tunidade de entrar em contacto. Diz de uma delas: "Quan­
do são marcados e perseguidos por seus inimigos (os quais
ainda não os puderam vencer nem domar) andam tão rá­
pidos a pé, e correm tão ligeiro, que não só dêste modo
evitam o perigo da morte, mas também, no exercício da
caça, apanham certos animais, quando estão correndo, como
certas espécies de veados e corças.”
Frei Vicente do Salvador (outro cronista famoso) cita
a seguinte façanha: "São grandes buzios e nadadores e a
braços tomam o peixe ainda que sejam êles tubarões, para
os quais levam numa das mãos um pau de palmo pouco
mais ou menos, que lhes metem na boca direito, e, com a
outra mão lhe tirar, por ela, as entranhas, e com elas a vida,
e o levam para terra, não tanto para os comerem, como para
dos dentes fazerem as pontas de suas flechas, que são peço­
nhentas e mortíferas; e para provarem força e ligeireza,
como também as provam com os veados nas campinas, to­
mando-o o corso, e, ainda com os tigres e onças e outros
feros animais.”
Chamavam-se êstes índios Goitacazes e moravam nas
regiões compreendidas entre o rio Paraíba do Sul e Macaé.

A classificação de Max Schmidt:

Baseando-se essencialmente nos fatores econômicos,


Max Schmidt elaborou uma divisão em dois griipos, forne­
cendo material importante para o estudo etnológico das cul­
turas primitivas.
A primeira expedição de Max Schmidt, no Brasil, reali­
zou-se no ano 1900. Foi para as nascentes do rio Xingu,
já visitadas anteriormente por K. von den Steinen. Em
166 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

1901, regressou a Berlim, levando consigo todo o material


coletado na viagem. Mas, parece, como asseveram alguns,
que Max Schmidt ficara tão impressionado com os índios
de Mato Grosso, que retornou numa segunda expedição, na
qual estudou desta vez, os índios Guató e Parecis. Numa
terceira viagem, estêve com os índios Toba, Kainguá do
Paraguai, e numa quarta entre os Bakairis, Aurás, Kajabi,
Pareci, Nhambiquara, etc.
Dois legados foram os mais importantes de toda a obra
de Max Schmidt: "a técnica dos traçados e seu papel nas
origens do desenho ornamental” e "a conjunção de fatores
materiais e sociais na origem das diferentes formas de or­
ganização econômica.” •
O fim de sua vida foi trágico, viveu os últimos anos
numa extrema pobreza, na cidade de Assunção, vítima de
um mal lento e incurável.
Max Schmidt diferenciava as diversas tribos indígenas
em dois grupos: as que apresentavam predominância da
coleta e caça sobre as outras formas de sustento; e as que
apresentavam predominância da lavoura sobre os outros
meios de subsistência.
Para os da primeira classificação, colocava, em sua to­
talidade, os Gês, que mantêm uma atividade econômica fran­
camente coletora.
Para alguns estudiosos, eram êles primitivamente agri­
cultores, quando habitavam as zonas férteis do nosso litoral.
Com a migração para o interior, localizaram-se em zonas
pobres, onde não lhes foi possível manterem as técnicas
agrícolas que conheciam. Tornaram-se coletores, vivendo
do que lhes proporcionava o meio ambiente.
Diferem, entretanto, dentro dêste grupo, aquêles que
nunca tiveram agricultura, como é o caso dos Botocudos do
Espírito Santo, que ficaram na nossa história com o nome
de Aimorés, e que são chamados de "primàriamente primi­
tivos” , e os que tiveram agricultura, mas depois a perde­
ram, como grande parte do grupo Gê, que são chamados de
"secundàriamente primitivos” .
As tribos lavradoras dominam as regiões de matas e
florestas, enquanto as caçadorras os campos e planícies.
CONVITE À CIÊNCIA 167

Os Aruaques, Caribes e Tupis pertencem ao grupo das


tribos lavradoras.
Os Tupis, além de terem aprendido técnicas agrícolas,
talvez dos Aruaques, são caçadores, pescadores e coletores.
Não esqueçamos a importância da cultura do milho, cujo
plantio disseminado tornou-se uma das bases da alimenta­
ção.

AS LENDAS E A BUSCA DO OURO

Há autores que afirmam que o móvel da colonização


da América foi a procura do ouro. Logo que os espanhóis
chegaram ao Mar de Caribe ou das Caraíbas, ficaram es­
pantados em verem os adornos reluzentes que ornavam o
corpo bronzeado dos indígenas.
Nasceram desde êsses tempos, os célebres "mitos do
ouro”, que serviram de chamariz para muitas expedições
em terras do Novo Mundo. Vinha o europeu para a Amé­
rica com o intuito do enriquecimento rápido e fácil e do
lucro desmesurado.
Após a segunda expedição de Cristóvão Colombo, apa­
receu e alastrou-se pela Europa o "Mito de Cibao”. Cibao
era o local onde diziam existir quantidades nunca vistas de
ouro, e com o intuito de procurá-lo é que veio a expedição
de Alonso de Ojeda. Mas quanto maior era a expectativa,
menor foi o resultado obtido. Encontraram um pouco do
precioso metal que nem deu para pagar os gastos da dis­
pendiosa expedição.
Outro mito que percorreu a Europa e trouxe centenas
de expedições foi o: "Mito do Eldorado”. A lenda contava
que, "num local‘'muito recôndito e de difícil acesso, existia
uma lagoa chamada Guatavita, onde os habitantes da região
costumava em determinadas épocas do ano, ofertar imen­
sas quantidades de ouro ao seu soberano” . A êste soberano
eram dedicados vários sacrifícios. Nesta ocasião, era cos­
tume untarem o corpo do senhor e depois aplicar uma ca­
mada de ouro em pó. Contava a lenda que êste monarca
era conhecido pelo nome de "Homem Dourado” . Daí o no­
J68 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

me de El Dorado (Eldorado) com que ficou conhecida a


lenda.
Para muitos, a capital do Eldorado ficava localizada
nas florestas tropicais das Güianas, abaixo dos rios Meta
e Orenoco. Chamavam-na de Manoa, e diziam que as suas
casas eram cobertas de telhas de ouro. Daí se explica o
porquê de várias expedições francesas, espanholas, inglêsas,
holandesas, etc., que vieram para esta região. Chegou a
ser tão falado, que um inglês famoso, também aí, estêve.
Foi o navegante Walter Raleigh (que depois recebeu o título
de Sir pelos inúmeros trabalhos prestados à sua soberana,
a Rainha Elisabeth I da Inglaterra). No ano de 1595 par­
tiu do porto de Plymouth com uma grande armada, toman­
do a direção das Güianas. Tentou debalde encontrar â fa­
mosa cidade de Manoa!
Mais tarde, em pleno século XVIII, um holandês fez
uma extensa viagem: subiu o rio Essequibo, desceu' o rio
Branco, entrou pelo Negro, navegou o Amazonas e chegou
depois de longa peregrinação, à cidade de Belém do Pará.
A cidade de Manoa, cujas casas refletiam-se nas águas do
lago sagrado de Parima, não passava de uma miragem!
Mas por que se dizia que existia ouro em tão grandes
quantidades e o que levava estas expedições a virem a sua
procura? Tinha sido encontrado, por acaso, algum ouro
que servisse de base para êstes mitos? ou seriam êles so­
nhos e miragens da mente humana? Havia ouro, sim e
muito! É a história que nos conta: em terras da atual
Colômbia existiu grandes indústrias para fabricação do pre­
cioso metal. Dali tinha sido levado para o México, Equa­
dor e outros países. Mas continua pouco conhecida a ori­
gem desta indústria. Sabe-se que quando as esquadras
espanholas chegaram à América, encontraram muitos in­
dígenas usando artefatos de liga de ouro e cobre, que eram
chamados pelos aruaques de gvxmin e pelos caribes de ca~
mcoli ou caricuri.
Na Brasil, foi imenso o número de mitos e lendas que
se espalharam. Lembremo-nos das "Minas de Prata” de
Rogério Dias (segundo um roteiro que até hoje não foi en­
contrado) deviam estar perdidas em algum lugar do sertão
do rio São Francisco; as "Minas de Esmeraldas e Prata”
de Fernão Dias (nos sertões de Minas Gerais); e os "Mar-r
CONVITE À CIÊNCIA 169

tírios” (no sertão de Mato Grosso) ; as da "Mãe 3’Água” ,


que, conforme dizia a lenda, escorriam sem interrupção das
suas nascentes filões de ouro branco, ouro preto, ouro verde
e ouro fino, em forma de pepitas ou grânulos.
Não foi só o ouro que atraiu a atenção do europeu, ha­
via outros fatores, entre êles o comércio das matérias
primas.

Mato Grosso (Xingu)

O indígena trocava aquilo que possuía, ou seja: papa­


gaios, tucanos, macacos, adornos, etc., por aquilo que o bran­
co trazia nas embarcações: roupas, ferramentas, contas
multicores, tesouras, guizos, etc. As primeiras trocas foram
em geral felizes. Não demorou muito para que os conflitos
aparecessem. O índio não tinha sentido da propriedade
privada, e o que lhe agradava tomava para si. O portu- m
guês, naturalmente, não podia entender esta atitude, o que
acarretou uma série de desavenças e brigas, que acabaram
muitas vêzes em mortes sangrentas.
A ESCRAVATURA INDÍGENA

Existiu a escravatura indígena. Para isto contribuiu


em parte a idéia que alguns europeus faziam do indígena.
Chamavam-no de "motius” (monstro humano, que tinha os
pés virados, para dentro) e acreditavam ser êle uma aberra­
ção da natureza.
Entretanto, aqui se coloca uma pergunta: "Foi ou não
a escravatura uma condição social e econômica necessária
para a colonização do Brasil? As respostas dadas foram
as mais controversas possíveis, mas temos de aceitar que

índios do Mato Grosso


se impôs a conveniência da escravatura, devido à escassez
do braço humano. Gandavo (cronista do século XVI) con­
ta que devido aos próprios índios cobiçarem as coisas tra­
zidas pelos europeus, como ferramentas, colares, etc., "ven-
diam-se a troco delas” . Assim também os prisioneiros
feitos nas guerras que eram tratados como escravos dentro
da tribo.
CONVITE À CIÊNCIA 171

Notemos, entretanto, que a contribuição do indígena


na nossa colonização foi muitas vêzes benéfica e necessária.
Quando Jerônimo de Albuquerque lutou contra os franceses,
levou consigo, agregado ao exército regular, uns 234 selví-
colas flecheiros, que tiveram um grande papel na luta. Os
franceses, sob a chefia de La Ravardière, levavam, também,
nas suas incursões contra os portuguêses, uns 4.000 índios
flecheiros. Não só na guerra foi benéfico o indígena, tam­
bém na colonização. Certos objetos de uso material como:
rêde de dormir, instrumentos de caça e pesca (ex. arapuca,
curral, etc.). O costume da "coivara” ou "queimada” foi-
-nos legado, segundo a maioria dos estudiosos, pelo indíge­
na; certos alimentos como o milho, mandioca, ananás, fari­
nha de mandioca, beiju, tapioca, cará, etc. assim como certas
indústrias extrativas de resinas, corantes, gomas (pau bra­
sil), fibras têxteis (embira, algodão, buriti, etc.), e também
certos utensílios domésticos, como a peneira, cuias, game-
las, balaios, cestos, etc. Do ponto de vista cultural, certas
festas folclóricas, assim como vocábulos incorporados no
nosso linguajar, e diversos costumes que já estão tão inte­
grados no nosso folclore, dos quais nem nos damos mais
conta, são de contribuição indígena. E iríamos longe se
fôssemos nos estender neste assunto.
A INFLUÊNCIA DO INDÍGENA

Couto de Magalhães disse em pleno século X X : "Nós


só possuímos a circunferência desta enorme área chamada
Brasil; o centro está em poder do selvagem, que possui tam­
bém as regiões mais férteis, assim como os cursos dos gran­
des rios navegáveis, cada um com bacias que cobrem um
território tão grande como o das maiores monarquias euro­
péias, como o Javari, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu,
Araguaia, Tocantins, Japurá, Negro, Branco, só na bacia
do Amazonas, sem falar nos rios da bacia do Paraná” .
Ainda hoje, com várias ressalvas, esta citação pode ser
aceita. Grande parte do nosso território está em mãos dos
indígenas, apesar das tentativas que o branco tem feito para
apoderar-se delas.
Mas qual foi a influência do indígena na formação da
nossa cultura?
O português aqui chegado trazia uma civilização se­
cular que não podia ser integralmente aplicada na nova
terra, e daí, o número imenso de costumes indígenas que
foram assimilados e tomaram um papel importante dentro
do contexto cultural.
Verificou-se que, durante os anos de 1530 a 1580, a
entrada de portuguêses no Brasil foi muito grande, assim
como o cruzamento dêstes com a população indígena. Nas­
ceu, desta miscigenação, o mameluco: tipo excelente pela
energia, coragem, sobriedade, espírito de iniciativa, cons­
tância e resignação. Teve um papel importante na nossa
história colonial. Mas possui um grave defeito: o da im-
previdência ou indiferença pelo futuro.
Nas reduções jesuíticas do sul do Brasil, êste aspecto
foi comentado e é o padre Sepp que diz num trecho: "Êste
CONVITE À CIÊNCIA 17 3

povo não tem previdência alguma, que tudo devora num dia,
e não cogita de que precisa viver também no dia seguinte” .
Muito mais tarde, o viajante francês, Auguste de Saint-Hi-
laire, falando a respeito da população gaúcha dizia o mesmo.
O indígena misturado com elementos negros deu o tipo
cafuso. Em certas regiões, como na Amazônia, o índio, ou
o mameluco, recebeu o nome de tapuio. E o homem que
trabalha nos seringais e vive da borracha. Usa como mo­
radia, muitas vêzes, a canoa, a qual serve como meio de
transporte e locomoção entre os rios e igarapés. A sua
choça é de construção muito rústica, levantada sob seis ou
doze forquilhas, aberta de todos os lados e mal coberta com
palmas de palmeira.
Atualmente, no estado de Amazonas, encontra-se a se­
guinte distribuição da população: 28,32% de brancos, 2,03%
de negros, 48% de caboclos e 20,27% de mestiços.
No sul do Brasil e centro, apareceu o tipo do caipira,
do caboré (como é chamado em Goiás e Mato Grosso) e do
gaúcho (R. G. do Sul e províncias platinas). A miscige­
nação de vários elementos étnicos é muito importante na
constituição de um país. Entretanto, muitas ressalvas po­
dem ser feitas.

V
P AR TE A N TO LÓG IC A
MITO E RELIGIÃO

Do livro "Antropologia Filosófica” de Cassirer, repro­


duzimos os trechos abaixo pelo valor e significação que
possuem para a melhor inteligência da matéria dêste livro.
"Antropólogos e etnólogos surpreenderam-se muitas
vêzes ao encontrar os mesmos pensamentos elementares re­
partidos em toda a superfície da terra e nas condições so­
ciais e culturais mais diversas possíveis. O mesmo ocorre
com a história da religião. Os artigos de fé, os credos
dogmáticos e os sistemas teológicos encontram-se envolvi­
dos numa luta interminável. Os símbolos religiosos mu­
dam incessantemente, mas o princípio que se encontra em
sua base, a atividade simbólica como tal, permanece a mes­
m a: "una est religio in rituum varietate” .
De qualquer forma, a teoria do mito apresenta-se desde
o início, cheia de grandes dificuldades. O mito, em seu
verdadeiro sentido e essência, não é teórico. Desafia nos­
sas categorias fundamentais do pensamento. Sua lógica,
se tem alguma, é incomensurável com todas as nossas con­
cepções da verdade empírica ou científica.
Apesar do mito ser fictício, trata-se de uma ficção in­
consciente. A mente primitiva não se dava conta do sen­
tido de suas próprias criações. Para nós, a análise cien­
tífica corresponde revelar êste sentido, desvendar a face
que se oculta atrás destas inúmeras máscaras. Algumas
escolas etnológicas e antropológicas partiram do princípio
de que a primeira coisa que se tinha de buscar era um centro
objetivo do mundo mítico.
Para os partidários desta escola — diz Malinowski —
todo mito possui, como núcleo ou realidade final, algum
fenômeno natural, entrelaçado laboriosamente numa fábula,
de tal maneira que, às vêzes, quase o esconde e dissimula
17 8 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

completamente. Não há um acordo entre êles em relação


a que tipo de fenômeno natural encontra-se na base da
maioria das criações míticas. Existem exagerados mitólo-
gos lunáticos, presos de tal maneira à sua idéia, que não
reconhecerão que algum fenômeno possa conduzir a uma
rapsódica interpretação selvagem fora do satélite noturno
da terra. . . Outros consideram o Sol como o único fenô­
meno, em cuja volta o homem primitivo teceu suas fábulas
simbólicas. Também temos a escola dos intérpretes meteo­
rológicos, que consideram o vento, a água e as cores do céu
como a essência do mito. . . Alguns dêstes mitólogos de­
partamentais lutam ferozmente por seu corpo celeste ou por
seu princípio; outros são de um tipo mais universal e estão
dispostos a conceber que o homem primitivo construiu seu
mundo mitológico, valèndo-se de todos os corpos celestes” .
Na teoria psicanalítica do mito, que nos é oferecida
por Freud, todas as criações míticas nada mais são que va­
riação e disfarce de um mesmo tema psicológico, a sexua­
lidade. Não temos necessidade de examinar detalhada­
mente todas estas teorias. Por muito que difiram em con­
teúdo, revelam-nos a mesma atitude metódica. Pretendem
fazer-nos compreender o mundo mítico por um processo de
redução intelectual. Mas, nenhuma delas pode conseguir
seu fim sem constranger e mutilar constantemente os fátos
com o intuito dè converter a teoria num todo homogêneo.
O mito combina um elemento teórico e um elemento de
criação artística. A primeira coisa que nos chama a aten­
ção é o seu estreito parentesco com a poesia.
O mito não constitui um sistema de credos dogmáticos.
Fundamenta-se, muito mais em ações que em meras imagens
ou representações.
O homem primitivo não expressa seus sentimentos e
emoções com meros símbolos abstratos e sim de um modo
concreto e imediato; e para dar-nos conta da estrutura do
mito e da religião primitiva devemos estudar a totalidade
desta expressão.
Uma das teorias mais claras e consistentes desta estru­
tura é oferecida pela escola sociológica francesa na obra de
Durkheim e seus discípulos. Durkheim parte do princípio
de que não será possível explicar o mito enquanto tratemos
CONVITE À CIÊNCIA 179

de buscar suas fontes no mundo físico, numa intuição dos


fenômenos naturais. Não é a natureza e sim a sociedade
o verdadeiro modêlo do mito. Todos os seus motivos fun­
damentais são projeções da vida social do homem. Median­
te estas projeções, a natureza se converte na imagem do
mundo social; reflete seus traços fundamentais, sua orga­
nização e arquitetura, suas divisões e subdivisões. A teoria
de Durkheim foi desenvolvida por completo na obra de
Lévy-Bruhl. Mas encontramos, aí, uma característica mais
geral. Descreve-se o pensamento mítico como "pensamento
pré-lógico” . Se se procuram causas, estas não são lógicas,
nem empíricas: são "causas místicas” . "Nossa atividade
quotidiana implica uma confiança absoluta e perfeita na in-
variabilidade das leis naturais. A atitude do homem pri­
mitivo é muito diferente. Para êle, a natureza dentro da
qual vive, apresenta-se com um aspecto bem diferente. To­
das as coisas e criaturas compreendidas nela encontram-se
envolvidas por uma rêde de participações e exclusões mís­
ticas” . Segundo Lévy-Bruhl, êste caráter místico da reli­
gião primitiva procede do fato de que suas representações
são "representações coletivas” . Não podemos aplicar nelas
as leis de nossa própria lógica, encaminhadas a propósitos
bem diferentes. Quando pisamos êste terreno até a lei de
contradição e todas as demais leis do pensamento racional
tornam-se inválidas” . Segundo meu ponto de vista, a es­
cola sociológica francesa nos ofereceu uma prova plena e
concludente da primeira parte da teoria, mas não da segun­
da. O caráter fundamentalmente social do mito é alto in-
controvertível. Mas, que toda mentalidade primitiva seja
necessàriamente pré-lógica ou mística parece uma afirma­
ção em contradição com as provas antropológicas e etnoló­
gicas. Encontramos diversas esferas da vida e da cultura
primitivas que oferecem as marcas bem conhecidas de nossa
própria vida cultural. Enquanto suponhemos a existência
de uma heterogeneidade absoluta entre nossa própria lógica
e a mentalidade primitiva, enquanto pensemos que esta é
especificamente diferente e radicalmente oposta à nossa, di­
ficilmente poderemos explicar êste fato. Encontramos sem­
pre na vida primitiva uma esfera secular ou profana, que
se encontra fora da esfera sagrada. Existe uma tradição
secular composta de regras consuetudinárias ou legais, que
determinam a forma em que terá de conduzir-se a vida
social.
18 0 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

As regras, que encontramos neste caso — diz Mali-


nowski — são completamente independentes da magia, das
sanções sobrenaturais, e jamais são acompanhadas de ele­
mentos cerimoniais ou rituais. É um êrro supor-se que na
etapa primitiva de seu desenvolvimento, o homem vivia num
mundo confuso, onde o real e o irreal formavam uma mis­
tura, onde o misticismo e a razão eram inter-reiacionadas,
como a moeda falsa e a boa num país desorganizado. Para
nós, o ponto mais essencial acêrca da magia e do rito-reli­
gioso é que avança ünicamente onde falha o conhecimento.
As cerimônias baseadas no sobrenatural surgem da própria
vida, mas nunca estultecem os esforços práticos do homem.
Nos seus ritos mágicos ou religiosos, o homem trata de obter
milagres, não porque ignora os limites de suas forças men­
tais, mas, ao contrário, porque os conhece plenamente. E
adiantando-nos, parece-me que o reconhecimento disto é in­
dispensável, se desejamos estabelecer de uma vez para sem­
pre a verdade de que a religião tem sua matéria própria,
seu campo legitimo de desenvolvimento”.
É precisamente neste último campo, no campo legítimo
do mito e da religião, que a concepção da natureza e da
vida humana de modo algum se encontra desprovida de todo
.sentido racional. O que sob nosso ponto de vista podemos
chamar irracional, pré-lógico, místico, constitui as premis­
sas de onde parte a interpretação mística ou religiosa, mas
não constitui o modo de interpretação. Se aceitamos estas
premissas e as entendemos devidamente — se as vemos à
mesma luz que as vê o homem primitivo — as inferências
tiradas delas terminarão de apresentar-se como alógicas ou
ilógicas. Realmente, todos os intentos de intelectualizar o
mito, de explicá-lo como expressão alegórica de uma ver­
dade teórica ou moral, fracassou por completo. Ignoravam
os fatos fundamentais da experiência mítica. O substratum
real do mito não é de pensamento e sim de sentimento. O
mito e a religião primitiva não são, de modo algum, inteira­
mente incoerentes, não se encontram desprovidos de "sen­
tido” ou razão. Mas, sua coerência depende em muito maior
grau da unidade do sentimento que propriamente de regras
lógicas. Esta unidade representa um dos impulsos mais
fortes e profundos do pensamento primitivo. Quando o pen­
samento científico preteiide descrever e explicar a realidade,
tem que empregar seu método geral, que é o de classifica­
ção e sistematização. A vida é dividida em províncias se­
CONVITE À CIÊNCIA 181

paradas, que se distinguem nitidamente entre si. Os limi­


tes entre o reino vegetal, o animal e o humano, as diferenças
entre espécies, famílias e gêneros são fundamentais e exis­
tentes. Mas a mentalidade primitiva os ignora e os refuta.
Sua visão da vida é sintética e não analítica. A vida não
se encontra dividida em classes e subclasses. É sentida
como um todo contínuo, que não admite nenhuma cisão,
nenhuma distinção marcante. Os limites entre as diferen­
tes esferas não são obstáculos inseparáveis e sim fluentes
e oscilantes. Não existe diferença específica entre os di­
versos reinos da vida. Nada possui uma forma definida,
invariável, estática. Mediante uma metamorfose súbita,
qualquer coisa pode-se converter em outra. Se existe algum
traço característico e sobressalente do mundo mítico, algu­
ma lei que o governe, é esta a da metamorfose. Ainda
assim, dificilmente, podemos explicar a instabilidade do
mundo mítico pela incapacidade do homem primitivo para
captar as diferenças empíricas das coisas. Sob êste aspecto,
o selvagem mostra não raras vêzes sua superioridade sobre
o homem civilizado. É capaz de captar muitos traços dis­
tintos que escapam à nossa atenção. As esculturas e pin­
turas de animais, que encontramos nas etapas mais infe­
riores da cultura humana, na arte paleolítica, foram admi­
radas em especial atenção a seu caráter naturalista. Mos­
tram um conhecimento surpreendente de toda sorte de
formas animais. A existência inteira do homem primitivo
depende em grande parte de seus dotes de observação e
discriminação. Se é caçador, tem que estar familiarizado
com os detalhes mais nímios da vida animal; tem que ser
capaz de distinguir as diferentes pegadas de diversos ani­
mais. Tudo isto é dificilmente posto de lado com a supo­
sição de que a mente primitiva, por sua natureza e essência,
é indiferenciada ou confusa, uma mente pré-lógica ou
mística.
O que caracteriza a mentalidade primitiva não é sua
lógica e sim seu sentimento geral da vida. O homem pri­
mitivo não olha a natureza com os olhos de um naturalista
que deseja classificar as coisas para satisfazer uma curio­
sidade intelectual. Não se acerca dela com interêsses mera­
mente pragmáticos ou técnicos. Não é para êle nem um
mero objeto de conhecimento, nem o campo de suas necessi­
dades práticas imediatas. Estamos acostumados a dividir
nossa vida em duas esferas de atividade: prática e teórica.
182 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

E ao fazer esta divisão, fàcilmente esquecemos que existe,


junto às duas, uma outra; no entanto o homem primitivo
não a esquece, sua visão da natureza não é puramente teó­
rica nem meramente prática: é simpatética.

Toda a vida religiosa e social das tribos mais primi­


tivas — por exemplo as tribos aborígenes da Austrália, que
foram estudadas e descritas detalhadamente por Spencer e
Gillen — encontra-se governada por concepções totêmicas.
E em etapas muito mais avançadas, na religião de nações
muito civilizadas, encontramos um sistema muito complexo
e elaborado de culto zoolátrico. No totemismo, o homem
não somente se considera como descendente de certa espécie
animal, más também crê em um vínculo tanto atual e real
como genésico, que conecta sua vida física e toda sua exis­
tência social com seus antepassados totêmicos. Em muitos
casos, esta conexão é sentida e expressa como identidade.
O etnólogo Karl von den Steinen conta que os membros de
certo clã totêmico de Uma tribo do Brasil Central afirma­
vam que eram da mesma espécie do animal do qual deri­
vavam e expressamente declaravam ser animais aquáticos
ou papagaios.

Conta-nos Frazer, que, entre as tribos dieri, da Aus­


trália, a cabeça de um totem, que consistia numa espécie
particular de semente, era chamado pelo seu povo pelo pró­
prio nome da planta que produz a referida semente.

Nas sociedades totêmicas encontramos plantas totem


junto a animais totem . E encontramos o mesmo princípio
da solidariedade e unidade contínua da vida se passarmos
do espaço ao tempo. O presente, o passado e o futuro se
fundem um no outro, sem que haja uma linha clara de se­
paração; os limites entre as gerações tornam-se incertos” .
TOTEMISMO

O problema do totemismo tem preocupado e preocupa


em nossos dias um grande número de estudiosos. Uma de­
finição precisa é difícil de ser dada, pois há uma quanti­
dade incomensurável delas. Pode-se, porém, dizer que há
três formas fundamentais de totemismo:
a) o totemismo tribal ou grupai, o qual pode ser aceito
como o totemismo propriamente dito no qual há uma rela­
ção específica entre um grupo de pessoas consanguíneas,
por um lado, e uma espécie de animais, plantas (chegando
mesmo a objetos inanimados) por outro lado; relação esta
que ordinàriamente é considerada como sendo de "paren­
tesco” .

b) O totemismo sexual, no qual os homens de um


mesmo grupo apresentam um totem e suas mulheres, outro.
c) O totemismo individual, em que o totem é espírito
tutelar do indivíduo, não tendo relações de parentesco nem
caráter hereditário.

O totemismo pode ser considerado como um fenômeno


religioso, produzido, não por um acontecimento que ocorreu
uma única vez, seguido, por um culto, mas por uma repre­
sentação mítica. Há vários povos que não possuem nenhuma
forma de totemismo. Contudo, verificamos que as espécies
naturais, como plantas e animais, são objetos de rituais ou
de uma atitude ritual, que é expressa na mitologia. Os fe­
nômenos que a maioria dos antropólogos chamam de totê-
micos, são simplesmente uma parte de um grupo muito mais
amplo de fenômenos, que inclui todos os tipos de relações
rituais entre o homem e as espécies naturais. Quando uma
tribo, por exemplo, depende da caça ou da coleta de frutos
silvestres para a sua manutenção, quer tenham qualquer
184 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

forma de totemismo ou não, os animais e plantas se tornam


objetos de atitude ritual. Isto se dá principalmente quando
certas espécies de animais são personificadas como ances­
trais ou heróis culturais.
Sabemos que os grupos indígenas estão divididos em
clãs. Que é um clã para a antropologia? Designa pessoas
de descendência comum, mais ou menos no sentido de "fa -
mília-grande” . Usa-se o têrmo família-grande para desig­
nar aglomerações familiares consolidadas e baseadas na
crença em antepassados comuns, como também, muitas vê­
zes, niim apoio político ou econômico. O totem é o meio
pelo qual o clã reconhece e expressa a sua unidade. Assim,
cada clã tem a sua individualidade e reconhece um vínculo
entre os seus membros, sendo todos ligados e descendentes
de um ser comum.

ASPECTOS DO PROBLEMA TOTÊMICO

Segundo a explicação de Friederici, baseada nas indi­


cações de Thavenet, o têrmo "totem ” , derivado da língua
dos Algonquinos e de outras tribos norte-americanas, é de
formação secundária, e inexistente nos respectivos idiomas
indígenas, que conhecem apenas o nome oté, equivalente a
clã. Não se trata, pois, originàriamente, da figura de um
"totem” , mas simplesmente dum grupo de indivíduos que se
considera descendente ou parente de uma determinada es­
pécie de animal ou vegetal. Assim, o totem poderia ser
concebido como objetivação «do clã, como D.urkheim já pro­
curou demonstrar, e como recentemente foi reafirmado, de
maneira um tanto diversa, por Preuss. A o passo que, para
Durkheim, o "totem ” objetivava o sentimento comunitário
dos membros do clã, intensificado sobretudo nas cerimônias
religiosas de caráter coletivo. Preuss remonta a origem do
"totem ” a fenômenos religiosos cristalizados em mitos: a
crença do grupo teria gerado um "demônio coletivo” , que
surgiria da mentalidade do clã, como instituição do tempo
primitivo, "em correspondência com a unidade mística, sen­
tida pela primeira vez por um grupo de homens organiza­
do patri ou matrilinewmente.
CONVITE À CIÊNCIA 185

A confusão reinante entre etnólogos e sociólogos, com


relação ao totemismo, é devida, em grande parte, à aplica­
ção dêsse nome a uma quantidade de sistemas religiosos e
sociais bastante diferentes entre si. A dificuldade em se
encontrar um "denominador comum” para as numerosas
instituições reunidas sob a mesma denominação, aparece
logo que se procure dar uma definição de totemismo; esta,
para abranger ao menos aproximadamente a complexidade
de fatos essenciais dos diferentes sistemas totêmicos, deve
ser por demais compreensiva. Assim, Montandon define o

Estátuas de pedra da Ilha da Páscoa


9
totem como símbolo ou brasão de um indivíduo ou de um
grupo de indivíduos, e acrescenta que há totens individuais,
locais, de clã, de tribo, de sexo. São muitas as definições
mais ou menos vagas e gerais como a de Montandon, mas,
evidentemente, não conseguem dar uma idéia clara do que
seja totemismo. O problema se torna mais fácil, entretan­
to, quando se trata de uma determinada forma de totemis­
mo. Assim, limitando-se aos traços essenciais do totemis­
mo na Austrália ocidental e oriental, Radcliffe-Brown pôde
caracterizá-lo como "uma associação entre um grupo local
(horde) , uma espécie natural, um centro local para cerimô­
186 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

nias de multiplicação (increase rites) e um "ser místico” .


O problema do totemismo não é outra coisa senão parte do
problema mais amplo da relação entre o homem e a natft-
reza no ritual e no mito.
Para se compreender um sistema totêmico qualquer,
com todo o complexo de representações, valores morais, ati­
tudes e padrões de comportamento dêle decorrente e por êle
determinados, é, pois indispensável fazer, em primeiro lugar,
a análise do conjunto dos ritos e do corpo mítico em que
se baseia. É nas suas diferentes modalidades, variáveis de
tribo em tribo, que cumpre estudar o totemismo, sem a
preocupação de se darem explicações para um fenômeno de
ordem geral — na realidade talvez inexistente.
A origem das religiões é o tema que melhor permite
que a humanidade seja estudada por planos a que os pes­
quisadores inglêses chamam de "horizontes” e os alemães
de "círculos de cultura”.
O primeiro plano ou horizonte, segundo os inglêses, o
mais primitivo, aparece sob a égide do que os malaio-poli-
nésios chamam "mana” . Os primitivos iroqueses e algon-
quinos davam a êsse plano os nomes de "orenda” e "ma-
nitu” respectivamente. Convém notar que "manitu” veio
a tornar-se o "Grande Espírito”, entre todos os índios ame­
ricanos e por isso deixou de ser um meio para atingir a
religião, uma vez que o Grande Espírito era a religião por
excelência. Os selvagens africanos, quando aparecem na
História à procura dos bens espirituais, criaram uma pala­
vra para nós difícil de pronunciar — "Dzo”. Êstes quatro
têrmos tinham o mesmo significado — a potência miste­
riosa que impressiona o espírito, mas que por êle não é
compreendido.
O "numem” , no qual muitos historiadores acharam a
força que levou os homens à religião, corresponde a êsses
quatro vocábulos introduzidos na literatura sociológica por
muitos pesquisadores. "Numem” na acepção de espírito,
inspiração, é coisa que a razão pode atingir. Esta vérdade
já era afirmada pelos gregos metafísicos, para os quais o
que nos atinge o espírito não passa de aparências de uma
realidade.
Kant, de quem discordamos totalmente, introduziu o
vocábulo na literatura moderna para designar as realidades
CONVITE À CIÊNCIA 18 7

metafísicas em contraste com os fenômenos, que são o que


se nos apresenta potente-real. Assim, o "numem” não pode
ser objeto de ciência, é objeto de fé.

No regime da magia, o clima do primeiro impulso re­


ligioso "mana” não pode ser chamado de religião, simples­
mente, por desembocar no totemismo, para o qual a magia
foi um terreno propício, permitindo que a religião medrasse.
O totem, na prática da magia, está para a religião como
os alicerces estão para a construção de um edifício.
O sentido do misterioso impressionou muito o homem
primitivo. Diante das coisas e fenômenos, que lhe eram
inexplicáveis e especialmente pelo mêdo que o dominava,
foram a porta que se abriu ao totemismo e por êle a reli­
gião começou a deitar fundas raízes. Daqui, podemos ver
que a origem dêsses temores primitivos não era nem Deus,
nem o Diabo, apenas era o potencial do espírito de que todos
estamos possuídos. É lógico arquitetarmos o resultado.
Êsse potencial espiritual levou ao totemismo o homem pri­
mitivo, êste conduziu-o à religião, assim como a alquimia
e astrologia originaram as ciências da Química e Astrono­
mia.
Êste estado pré-religioso teve lugar no segundo círculo
do animismo, estado que já admite a existência de espíritos
tangíveis, vivendo em um mundo à parte.
O terceiro ciclo religioso teve início com o desenvolvi­
mento da agricultura e pecuária, que se iniciou com a do­
mesticação dos animais e a adaptação das plantas. Neste
ciclo, o animismo transpôs as fronteiras da religião, e a
zoolatria e astrolatria surgiram com todos seus inconve­
nientes. Aparecem espíritos do céu e do espaço que se ma­
nifestam pelo Sol e Lua, pela chuva, pelo mar e pela fer­
tilidade do solo. Todos êsses fatores, influindo sobre as
colheitas e rebanhos, terminaram por impor a necessidade
de um orientador ou iniciado desta receosidade e surgiu o
mago, o feiticeiro.
A Humanidade deu o quarto passo para a "civilização”,
em cujo clima se formaram grandes comunidades ou nações
onde não era raro ver que o chefe, o mago ou feiticeiro,
recebia também os atributos de um deus. Aqui, começam
a surgir doutrinas de pensamento, critérios morais e regras
18 8 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

aplicadas à vida cotidiana. O espírito encontrou campo li­


vre para seu desenvolvimento e enveredou por trilhas "pro­
féticas”, quando se originam, assim, a capacidade de formar
conceitos morais e religiosos, facilitando o aparecimento de
guias éticos e filosóficos — os Messias.
Aqui, temos o quadro do totem, que, começando por ser
mineral, vegetal ou animal, evolui e toma o caráter de espí­
rito, para transformar-se em um deus antropomorfo sob
todas as inclinações naturais do homem. Daí muitos his­
toriadores e até alguns teólogos afirmarem que o caráter
sagrado da religião teve sua origem no "Mana” do tote­
mismo. Quando êste galgou as encostas do animismo, ini­
ciou sua forma definitiva, culta, evoluindo para a religião,
ao mesmo tempo que, por outro lado, surgia a ciência, ambas
imersas ainda na mesma névoa da magia.
Outros ligam as origens da religião aos costumes e dis­
posições sociológicas dos grupos tribais; as categorias ordi­
nárias do pensamento, como tempo e espaço, teriam deri­
vado das disposições da vida do campo ou da colônia, até
o ciclo aminista da cultura. Seja como for, são inegáveis
os laços remotos da religião e do totemismo. As religiões
mais antigas tomaram caráter politeísta, onde cada deus
dêsse ciclo mais civilizado, correspondia ao totem do ciclo
primitivo.
A vida social, complicando-se, exigiu uma organização
mais ampla; os indivíduos uniram-se em tribos; pelo mes­
mo motivo, as tribos se uniram sem perder a sua persona­
lidade e dessa união nasceram os feudos ou províncias.
O culto totêmico da família evoluiu para o culto da tribo
ou da província e a seguir evoluiu para o culto nacional.
Êsse traço religioso permitiu a coexistência da nação,
da província, da tribo, do clã, e da família. Era o tote­
mismo, no seu estágio final, a confundir-se já com a reli­
gião. Por exemplo, no Egito, as diversas regiões aparecem
com emblemas totêmicos, que denunciam sua remota origem
no totemismo. Na realidade, a fixação dêsses nomes foi
um estágio de grande importância sociológica e constituiu
os primordiais episódios da história do Egito. As tribos
podiam ser sedentárias e nômades, porém ao originar a
província pela união de várias delas, define-se uma porção
de território que cada tribo recebe e deve cuidar. A agri­
CONVITE À CIÊNCIA 189

cultura e pecuária impuseram a necessidade de nova orga­


nização social. Surgia, assim, a cidade, que, antigamente,
não passava de uma área fortificada, onde a tribo se reunia
para a defesa ou para deliberações, e lá ficavam os celeiros,
armazéns e currais. Estas cidades, que o mais das vêzes
tinham sua origem com um simples castelo, erguiam-se em
elevações protegidas por muros, por trás dos quais, todos
se refugiavam, à noite, para maior segurança. Daí surgiu
a acrópole que, em grego, significa, precisamente — a parte
mais elevada da cidade. O homem começava a ter noções
de religião e propriedade. Por esta evolução social, surgiu
a nação que subsiste até hoje e o conceito religioso como
os diversos povos o entendem.
A CERIMÔNIA DO KUARUP ENTRE OS ÍNDIOS
DO ALTO XINGU

Do ponto de vista etnológico, a zona compreendida pe­


los rios da cabeceira do Xingu, apesar de apresentar um
mosaico de tribos provindas de grupos lingüísticos diversos,
caracteriza-se por uma relativa homogeneidade cultural.
Já Karl von den Steinen insistia, em fins do século passado,
no elo comium que ligava todas essas tribos. O mesmo as­
pecto foi notado pelo Capitão Vasconcelos, que, em seu livro
"Expedição ao Rio Ronuro”, diz: "As populações indígenas,
que aí se encontram, vivem na maior intimidade, umas com
as outras, e possuem essencialmente, como é natural, os
mesmos costumes e tendências. Se é verdade que não fa­
lam a mesma língua, entendem-se mutuamente, tanto assim
que se visitam assiduamente, mantendo grande convivência
entre si, pois suas aldeias são franqueadas, umas às outras,
por bons e limpos caminhos, absolutamente desprovidos de
qualquer defesa” (pág. 81). Em nossos dias, alguns
estudiosos também chamaram a atenção para o fato de todas
as tribos, a despeito de sua diversidade, possuírem muitos
elementos culturais em comum, devido, em grande parte,
à constância e intensidade das relações comerciais intertri-
bais. Na mitologia, grande número de textos, como o da
origem do fogo, do aparecimento do dia (sol), da formação
dos rios, são comuns a todas as tribos da região.
A cerimônia máxima dos índios xinguanos é a do
Kuarup, ritual religioso realizado para a libertação dos mor­
tos. Por meio de um grande cerimonial, representam a len­
da da criação das dinastias indígenas, após a morte de um
grande Cacique. Todo o transcorrer do vasto ritual tem
por objetivo libertar o espírito dos mortos, que continuam
habitando as aldeias após o falecimento. Os índios comuns
192 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

(de statvss inferior na constituição social da tribo) apro­


veitam a circunstância para render culto aos seus mortos
pessoais. É uma cerimônia exótica que apesar do seu ar
festivo e bárbaro, tem na sua essência tristeza e pesar, pois
é uma festa feita em honra aos mortos. Temos de notar
que ela engloba tanto uma comemoração aos mortos, assim
como a criação das dinastias indígenas e finalmente a liber­
tação dos espíritos dos mortos, que após o ritual estarão
libertos para sempre, indo habitar no céu (1 ).
Não há época para a realização de um kuarup, entre
um e outro, intercala-se às vêzes um período de vários anos.
Os preparativos processam-se com vários dias de ante­
cedência. É durante êste período que os guerreiros pintam
o corpo com urucum (cor vermelha) e carvão resinoso (cor
preta). Alguns dêles usam também vários enfeites. As
lutas (ruka ruka), características das tribos do Xingu, são
realizadas todos os dias e servem de treino aos guerreiros
que irão lutar nos dias de festa, como também de ensina­
mento para os meninos. O capitão e os guerreiros da tribo
fazem as demonstrações.
Os ensaios dos tocadores de flauta (uruá) também são
feitos com alguns dias de antecedência. As flautas, de uns
dois metros de comprimento, têm dois canos, um para o
som grave e outro para o agudo. É o principal instrumen­
to de sopro do Xingu. Tomam parte só dois índios, geral­
mente de uma tribo vizinha. No kuarup a que assistimos
em julho de 1956, quem, dava a festa eram os Yualapiti, com
a cooperação dos Meinakó, duas tribos ligadas uma à outra
por grande número de casamentos, além de pertencerem
ao mesmo grupo lingüístico: aruaque.
Os índios que tocam uruá pintam-se cuidadosamente
com os motivos ornamentais característicos da pintura cor­
poral, vestindo apenas os apetrechos da festa: braçadeiras,
diademas, colares, etc. O movimento que fazem é o seguin­
te : dois índios, um ao lado do outro, começam a tocar. O
ritmo é monótono, pois é sempre o mesmo. O compasso é
dado pela batida do pé direito, com mais força que o es-

(1) Êste céu fica localizado numa cidade, numa região «além
do sol». Para lá rumarão as almas dos mortos após a sua liber­
tação.
CONVITE À CIÊNCL\ 193

índias recolhendo a pesca


194 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

querdo. Principiam a andar, sempre batendo com o pé*


para marcar o ritmo. Dirigem-se para uma das casas e
aí fazem três movimentos, fazendo menção de entrar, mas
só entram no terceiro. Dentro da casa, fazem três evolu­
ções, cruzando-se um com o outro, e saem novamente, um
atrás do outro (por ser a abertura da casa muito estreita)*
Quando entram numa das casas, os donos desta designam
duas moças para os seguirem. É uma espécie de uma ho­
menagem retribuída peio dono da casa que está sendo ho­
menageado pelos tocadores de uruá. A s duas moças seguem
os tocadores, colocando o braço direito no ombro do homem,
e o outro fazendo um movimento rítmico de encontro ao»
peito, que serve para marcar o compasso. Pedem, ao en­
trar em cada casa, que o espírito do mau permaneça afas­
tado, e que dentro da casa só reme alegria e bem-estar*
É considerada a única demonstração de alegria, feita num
ritual xinguano. Neste movimento permanecem horas e
horas sem descanso.
Outro preparativo muito importante, essencial mesmo
para a realização da cerimônia, é a pesca do timbó. Par­
tem para o timbó, como êies dizem, todos os guerreiros da
tribo, enquanto as mulheres ficam na aldeia, preparando
os beijus, que são feitos em grande quantidade para o dia
da cerimônia (1 ). Os pescadores levam os apetrechos ne­
cessários para uma ausência de trés dias ou mais.
Para ser coroada de êxito a pescaria escolhem de pre­
ferência um lugar em que haja muito peixe. Cortam-se
vários paus, que são fincados nágua, formando uma per­
feita barreira. Depois, batendo com timbó (espécie de cipó
que contém elevadas doses de rotenona, e que paralisa o
sistema nervoso dos peixes, matando-os), conseguem em­
purrá-los para o local onde está a barragem deixando-os
ali aprisionados. Logo após a pescaria são assados sem
serem limpos e colocados dentro ae cestos para serem leva­
dos à aldeia. Durante o preparo da pescaria os pagés não
cansam de fumar charutos (feitos de fumo bravo que en­
contra-se na região) para anular os efeitos maléficos do>
peixe Cará, que é o pagé dos outros peixes, e tornar a pes­
caria rendosa.

(1) Beiju é o prato principal da alimentação indígena, fi feito»


de farinha de mandioca e tem o form ato redondo.
CONVITE À CIÊNCIA 195

U?n índio brasileiro do Rio Xingu (Mato Grosso)


apanhando peixes para a festa do Timbó.
196 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

A volta dos que foram para a pescaria do timbó é es­


perada com muita ansiedade; logo após marca-se a data,
geralmente para daí a uns três dias, para haver tempo de
se enviarem os mensageiros (pariá) às outras tribos e se
esperar a chegada destas. Também deve ser observado o
seguinte: a cerimônia deve coincidir com a lua quarto cres­
cente ou a lua cheia.
Um grupo de guerreiros parte para o mato a fim de
cortar os troncos cerimoniais que ainda faltam, pois alguns
já foram cortados anteriormente. Irão servir para os kua-
rups, nome que se refere à madeira que é empregada nos
toros que irão representar os mortos (pau de leite é o tipo
de madeira empregada).
Os pariá enviados às outras aldeias partem algumas
vêzes acompanhados, outras não, mas vão sempre com seus
adereços e apetrechos festivos. Ao chegarem à aldeia que
vai ser convidada, o cacique lhes pede que se sentem no ter­
reiro, oferece-lhes piqui e beiju e recebe o convite. Após
uma troca de presentes, os pariá voltam, e a tribo começa
os preparativos para ir ao local da festa.
Na manhã da festa, pintam-se os troncos, ritual que
as mulheres não podem assistir. Os troncos, cortados e
preparados, são da altura de 1,40 m e bem grossos, tendo
todos mais ou menos a mesma grossura. A pintura é feita
com tinta preta e vermelha. Os ornamentos representam
simbolicamente os que vão ser usados no corpo humano. No
alto há um cocar de penas de cor amarela, tendo prêsas seis
penas grandes, de diversas cores (azul, amarelo, vermelho
e prêto), que representam o cocar usado pelo índio. Logo
abaixo, vem uma parte de poucos centímetros de tronco des­
coberto, a seguir, vem amarrada uma braçadeira (de tiras
de algodão pintado de vermelho), que representa a que é
usada na parte superior do braço. Mais abaixo, a pintura
ornamental (em prêto e vermelho), com os motivos caracte­
rísticos do respectivo sexo. O motivo indica, pois, se o
kuarup é de sexo masculino ou feminino. Após o desenho
que representa o tronco vem uma parte descoberta, e mais
abaixo uma jarreteira, seguindo-se por fim a zona corres­
pondente à parte inferior das pernas e dos pés. Assim,
cada kuarup representa um indivíduo que morreu e vai ser
comemorado na festa. Cada morto está simbolizado num
CONVITE À CIÊNCIA 19 7

dêstes troncos. O respectivo kuarup é preparado pela fa­


mília do morto.
No dia da festa dá-se a tirada de luto simbólico à frente
dos Kuarups por parte dos parentes do morto. Êste é feito
com um banho dágua, e pelo corte do cabelo (por parte de
um homem viúvo) pois desde que a sua mulher morreu não
cortou mais os cabelos. A viúva, cujo marido morto deva
ser comemorado, põe-se a lamentá-lo.
Alguns índios, inclusive mulheres e crianças, fazem es-
carificações no corpo. Usam, para isto, um pedaço de ca?
baça em que estão inscrustados dentes de peixe-cachorro;
passam-no pelas costas, braços e pernas, em movimentos ao
longo do corpo. Depois das escarificações sangrarem um
pouco, passam às vêzes pimenta, para mostrar que resistem
bem à dor, demonstração de sofrimento pelo morto que cul-*
tuam na festa.
Ao entardecer começa o afluxo de mulheres e crianças
yualapiti para o terreiro, onde estão plantados os troncos.
Dois pagés postamrse atrás dos kuarups, e com um arco
no ombro e maracá na mão começam a entoar um canto,
que é o canto de Maivotsinin (herói da lenda da Criação).
Em frente de cada kuarup é aceso um fogo feito pelos pa­
rentes que dali se sentam e iniciam o choro, invocando o
nome do morto. Aí permanecerão toda a noite até o dia
seguinte, quando então o espírito do morto estará defini­
tivamente liberto.
Neste ínterim pagés defumam os kuarups lançando
fumaça sob o algodão que cobre a parte superior dos tron­
cos que representam os cabelos. Cobrem os kuarups com
uma esteira de buriti para que o orvalho que venha a cair
não incomode os espíritos.
A noite cai. Ouvem-se gritos ao longe que são respon­
didos pelos yualapiti. São as tribos vizinhas que se apro­
ximam da aldeia. Os pariá da tribo que dá o kuarup vão
em busca dos visitantes. Primeiro chegam os capitães e
os pagés que tomam assento no terreiro defronte dos tron­
cos. Choram os mortos que são cultuados e recebem cha­
rutos da tribo hospedeira. E assim cada tribo por sua vez
vem ao terreiro onde estão os kuarups: os Aueti, Aurá;
Kamaiurá e Kuikuru.
198 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Depois dos rituais dos pagés e capitães, aproxima-se


o grosso da tribo (só homens, pois as mulheres ficam nos
acampamentos localizados a um quilômetro do terreiro) e
dançam à volta dos troncos. Pulam e dançam, trazendo nas
mãos, além de suas armas, tochas de buritirana (evocam
os peixes que saltaram dágua e dançam para Maivotsinin
na descrição da lenda). Retira-se cada tribo por sua vez
para os seus acampamentos.
O resto da noite, à volta dos troncos, permanece apenas
a tribo que dá o kuarup, além dos pagés e pariá das tribos
visitantes. Aos visitantes é servido piqui, peixe e beiju em
abundância.
Ao amanhecer, quando o sol jorrar sob os troncos que
estão colocados de frente para o leste, êles criarão vida, e
os espíritos se libertarão, permanecendo os kuarups isola­
dos porque não simbolizam mais os mortos.
De manhã cedo aproximam-se os guerreiros das tribos
visitantes para a luta do ruka ruka. Todas as tribos se
aproximam (mulheres, crianças e velhos com seus apetre­
chos: panelas, rêdes, cestos, etc.) e instalam-se cada qual
num canto do terreiro. Na frente senta-se o cacique e atrás
dêle as mulheres com as crianças, formando a assistência.
A tribo hospedeira espera os visitantes no centro do ter­
reiro. Chegam os guerreiros, que são apresentados pelos
caciques. Postam-se em fila, e é feita a chamada dos no­
mes dos lutadores. Tomam posição, um em frente do outro,
limpam as mãos na areia, agacham-se. Um segura a mão
direita do outro e, com a esquerda, tenta agarrar-lhe o pes­
coço. Vencedor é quem consegue fazer com que o adver­
sário tire o joelho da terra: assim derrubá-lo-á fàcilmente,
fazendo-o cair de costas. O huka huka (ruka ruka) sim­
boliza a luta dos peixes e das onças em homenagem ao Cria­
dor das dinastias indígenas.
Após a competição de cunho essencialmente desportivo
e amigável, é servido mais piqui e beiju e os tocadores de
uruá das tribos vizinhas prestam mais uma vez uma ofe­
renda ao hospedeiro.
O mito em que o cerimonial se baseia dá como local
de sua criação a região da praia do Morená, na confluência
dos rios Ronuro, Batovi e Culuene, que são os formadores
CONVITE À CIÊNCIA 199

do Xingu. Aí habitava solitário um velho cacique chama­


do Maivotsinin (ou Maivotsin) que é o herói mítico, cria­
dor do seu povo. Êle é considerado o herói cultural de seis
tribos xinguanas. Queria êle gerar os seus descendentes,
fundar a sua dinastia (a dinastia dos Caciques) e para isto

Uma índia pescando

entrou no mato e cortou vários troncos de madeira (de uma


árvore chamada Kuarup). Ao todo eram doze toros de ma­
deira, sendo seis representativos do sexo feminino e seis do
masculino. Em cada tronco pintou os motivos correspon-
200 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

dentes: o do sexo feminino (a cobra jibóia) e o do sexo


masculino (o peixe), o que servia para diferenciar os tron­
cos que dariam origem ao homem e à mulher.

Enterrou-os na areia com a face voltada para o nas­


cente. À noite fêz um fogo diante de cada tronco e come­
çou a cantar tendo apenas um arco no ombro e um maracá
na mão. Entoou um canto evocando todos os protetores
para que dessem vida a esses troncos. Cantou durante a
noite toda, desde antes do pôr do sol até de madrugada,
mas os troncos não se animaram. Começou a chorar. Aí
os peixes saltaram de dentro dágua e vieram dançar em
volta dos troncos e de Maivotsinin (são representados no
ritual pelos guerreiros das tribos visitantes que dançaram
em redor do terreiro com archotes na mão). O sol surgiu
e com êle os troncos recebendo os primeiros raios de luz
começam a movimentar-se. Tinham os inanimados toros
de kuarup adquirido vida. Os peixes regojizaram-se jun­
tamente com os pássaros pela criação. As onças (que re­
presentam as outras tribos vizinhas) chegam em sinal de
alegria. Em homenagem de Maivotsinin começam a lutar
— peixes e onças — o ruka ruka. Maivotsinin tinha ge­
rado a sua descendência. Ao cair da tarde atira os troncos
na água, libertando desta forma os espíritos, que nêles ha­
bitavam, enviando-os para o Céu.

Interpretação: Com êsse mito, os índios xinguanos não


explicam a criação da espécie humana, mas a de um deter­
minado povo. Assim cada tribo dá um nome ao Criador
da dinastia dos caciques. Todas as tribos xinguanas reali­
zam a festa do kuarup, com exceção dos TrumaL

Feito o kuarup, que tem por ensejo a morte de um ca­


cique influente, acreditam os índios que os espíritos dos
mortos, cultuados nos troncos, são libertados, seguindo para
uma aldeia distante que fica no alto (talvez no céu). As­
sim como herói cultural cria a dinastia dos chefes, o kuarup
liberta o espírito do morto, que vai reviver em outro local.
O espírito que antes estava prêso à terra (árvores, flores­
tas, rios) ficará, após o cerimonial, liberto.

Os toros criados por Maivotsinin representam indiví­


duos de alta posição social (como sejam um capitão ou ca­
CONVITE À CIÊNCIA 201

cique). Como os troncos são individuais, o número de


pessoas influentes é sempre reduzido. Os índios de status-
inferior, representados pelos peixes do mito, não possuem
kuarup, podendo, no entanto, ser cultuados durante a festa.

De manhã encerra-se a cerimônia, por ter a fôrça dos


mortos voltado para os vivos. Então os kuarups são atira­
dos no rio, permanecendo para sempre no leito profundo
das águas.
A MANIFESTAÇÃO ARTÍSTICA ENTRE AS TRIBOS
DO ALTO XINGU

No presente capítulo vamos descrever e interpretar, na


medida do possível, as várias manifestações artísticas en­
contradas em algumas tribos do Alto Xingu. Sendo êste
um aspecto importante dentro do contexto cultural, digno
é de um estudo aprofundado por parte dos estudiosos da
etnologia.
Entre tôdas, há uma que avulta entre as demais, es­
tando ainda hoje pouco conhecida dos estudiosos da cul­
tura xinguana: é o relativo à pintura corporal e os motivos
ornamentais nela usados.
Karl von den Steinen dedicou-lhe, no seu livro "Entre
os Aborígenes do Brasil Central”, um pequeno capítulo in­
titulado: "Unturas e Pinturas” . Nêle salientou a dife­
rença existente entre a simples untura e a pintura oma-
mental. Para o autor, na primeira manifestação, prevalece
o "sentido do útil”, servindo apenas como proteção ao frio
e mordidas de insetos; quanto ao segundo, prevalece o "in­
tuito do belo”, tendo sido feito em vista a um "fim estéti­
co” . A pintura oleaginosa, é, no dizer do autor, a indu­
mentária do índio.
Em outro livro seu, "O Brasil Central” , encontramos
apenas uma citação breve, que diz numa passagem: "Um
dos meus atletas tinha o corpo pintado com quadrados pre­
tos, cujos cantos se ligavam por pequenos traços. O tra­
çado do quadril de outro — uma linha preta ondulante com
salpicos nas sinuosidades — lembrava, decididamente, a
pele do peixe pintado” .
Durante a minha estada nesta região tive oportunida­
de de verificar um número bem elevado de pinturas orna­
204 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

mentais no corpo, em grande parte por estar no período


em que faziam os preparativos para a realização da Festa
do Kuarup. Durante os dias que antecedem a festa do
Kuarup, assim como a do Javari — tendo o seu climax
no dia da cerimônia — é que se verifica um incremento
maior da pintura ornamental corporal.
A festa do Javari que não é propriamente xinguana
(tendo sido trazida pelos índios Trumai, cuja filiação a um
dos grupos indígenas conhecidos permanece um mistério, e
tendo chegado na região do Xingu, em época posterior à
entrada das outras tribos), está hoje incorporada à tradi­
ção de todas as tribos xinguanas. Durante a cerimônia, as
aldeias convidadas a participar da solenidade, aparecem (os
homens principalmente, pois as mulheres quase não tomam
parte na festa), estranha e bizarramente pintados! No
corpo, prèviamente untado, desenham-sé linhas, círculos,
pintas, tudo obedecendo a uma grande e profunda repre­
sentação simbólica.
Durante a festa do Kuarup, — que é precedida pela
do Javari — , e considerada a cerimônia máxima das tribos
xinguanas, o mesmo aspecto se verifica. Tanto os elemen­
tos da tribo que proporciona o kuarup (cerimonial que re­
presenta a lenda da Criação das dinastias indígenas, sendo
realizada após a morte de um Cacique), como os visitantes,
aparecem pintados e ricamente ornamentados e enfeitados.
O material usado na pintura corporal é muito variado.
Para a simples untura (feita diàriamente, e em geral, umas
duas vêzes por dia), é usado o óleo de piqui e o urucum.
O óleo de piqui (retirado de uma castanha, com a qual fa­
zem também uma bebida muito apreciada ao paladar indí­
gena), devido às suas qualidades protetoras é usado como
preservativo contra o frio e mordidas de insetos. Tem uma
coloração amarelada, e é bem espêsso. O urucum (retira­
do da fruta do urucuzeiro, tem um sabor levemente acídulo,
e apresenta uma cor avermelhada que recebe o mesmo no­
me da fruta). É usado na cozinha para dar cor às comi­
das, mas êste uso se limita às populações caboclas do inte­
rior, pois entre os indígenas tal não se verifica. O índio
brasileiro só emprega o urucum na pintura do corpo. Não
são todas as tribos que o usam no corpo inteiro; em geral,
só o é n a ; ornamentação de certas partes restritas, assim
como para pintura de certos objetos. Entre as tribos xin-
CONVITE À CIÊNCIA 205

guanas parece que o seu uso é mais difundido, pois além


de ser usado nos dias de festa, o é, também em dias comuns
(não porém com grande freqüência), A tonalidade ver-
melho-brilhante que apresenta é indubitavelmente a cor
preferida pelos nossos indígenas; O genipcvpo é obtido do
fruto do genipapeiro. É retirando o suco desta fruta da qual
se obtém o genipapo como matéria corante, que apresenta
Uma coloração azulada escura. É muito importante, devido
ao seu uso ser muito difundido na maioria das tribos bra­
sileiras. Entre as tribos xinguanas tem utilidade só em
certas épocas. O carvão (tanto vegetal como de madeira
queimada) tem uma coloração escura pardacenta. A taba-
tinga (retirada das areias dos rios ou de terras esbranqui­
çadas), tem uma cor branca. O seu uso, entretanto, só é
permitido durante a festa do Javari, sendo em outras oca­
siões usado somente nas mãos pela mulher (quando fia) ou
para untar o corpo das crianças.
Os instrumentos usados para passar a tinta no corpo
são em geral os próprios dedos (usam o polegar para fazer
traços curtos e o indicador e o médio para traços mais lon­
gos, demonstrando nisto uma grande perícia manual).
Usam, além da mão, um pequeno pauzinho ou um pincel
feito de fibras vegetais.
É interessante notar, que entre as tribos do Alto Xingu
(pois noutras tal não se dá), o "artista da pintura corpo­
ral” , é o homem, sendo que o número de "mulheres artis­
tas” é muito reduzido. É no homem, também, que irá apa­
recer em maior número e mais disseminado a ornamenta­
ção corporal, enquanto que, na mulher os motivos usados
são em número bem menor.
A parte principal do corpo para a feitura do desenho
é sem dúvida as costas, usando a própria coluna vertebral
como separados de ambos os lados, em que se verificam os
motivos. Prolonga-se êste pelas nádegas, descendo até a
barriga da perna (tomando em geral nesta região o feitio
de uma cartucheira). No peito, também aparece um mo­
tivo em tamanho reduzido, e, no rosto, só pintam de prêto
o redor dos olhos. È costume a multíer pintar de urucum
o rosto (carregando mais na testa) como enfeite para pa­
recer mais bonita. Costumam pintar o motivo do losango
com um quadrado entre as pernas, única região do corpo
feminino a receber a pintura ornamental.
206 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Nos homens é costume pintar (só nas festas) o cabelo.


O desenho usado apresenta poucas diferenciações de um in­
divíduo para outro. Na base é feito um largo círculo de
uns 4 a 5 centímetros de largura, do qual partem vários
riscos que vão se encontrar no topo da cabeça. Usam sem­
pre a pasta de urucum para a feitura dêstes desenhos.
Na festa do Javari untam primeiramente o corpo com
óleo de piqui e por cima da capa protetora é que são dese­
nhados os motivos ornamentais. O motivo principal é o
das pintas (pequenos círculos que simbolizam a onça pin­
tada), e que se espalham por todo o corpo, concentrando-se
mais nas costas, pernas, peito e barriga das pernas. As
cores usadas são: o branco (da tabatinga), o prêto (do car­
vão), o azuí (do genipapo) e o vermelho (do urucum). Há
predominâncias da cor branca, sendo o seu uso permitido
apenas nesta ocasião. .
Na festa do Kuarup também untam primeiramente o
corpo com óleo de piqui e as côres usadas nos motivos são
predominantemente o vermelho e o prêto. Os motivos são:
o losango (representando o peixe) e as pintas (a onça pin­
tada). Êles simbolizam os elementos da ienda do Kuarup.
Nela é dito que "as onças e os peixes vieram se regozijar
com Maivotsinin (considerado o herói cultural de seis tri­
bos xinguanas) pela sua criação. Os peixes dançam e en­
toam um canto triste (são os índios de status inferior da
tribo que dá o kuarup, sendo que a classe mais alta é a dos
caciques e sua dinastia, os quais são criados na lenda), e
as onças também vieram se regozijar com a criação (são
os elementos das tribos visitantes, convidadas que tomam
parte no cerimonial). Daí, na festa do Kuarup, serem
usados os motivos ornamentais que simbolizam os dois ele­
mentos, que tomam parte na lenda da Criação.
Os motivos ornamentais da pintura corporal distin-
guem-se quanto aos que são usados pelo sexo masculino e
os do sexo feminino. Êstes motivos servem de base a toda
arte ornamental dos índios xinguanos. No homem o moti­
vo constante é a linha quebrada, que toma diversos feitios
e formas. Tanto na pintura corporal, como na ornamenta­
ção dos troncos do kuarup (quando este representa um
morto do sexo masculino), e nos diversos objetos elabora­
dos pelo homem, aparece o uso dêste motivo que poderíamos
chamar de "motivo masculino
CONVITE À CIÊNCIA 207

Na mulher, o motivo constante é o da linha sinuosar


usado também na pintura do corpo e na ornamentação do&
diversos objetos elaborados pela mulher.
Aparecem ainda como motivos ornamentais o triângulo
e o losango para o homem. Para a mulher, também surge
o losango, mas tem uma característica diferencial da do
sexo masculino, pois apresenta um quadrado no centro.

ÍNDIO

O estudioso alemão Karl von den Steinen baseou a sua


interpretação da arte ornamental das tribos da região do
Xingu, no motivo do losango, que não seria nada mais que
a "forma abstrata do peixe mereschu (conhecido também
por peixe matrinchã) Êste é um peixe encontrado abun­
dantemente nos rios desta região e muito apreciado pela
sua carne. Poderíamos entretanto fazer aqui uma ressal­
va: é que a forma do losango é muito mais específica de
208 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

um outro peixe: o pacu. Em desenhos feitos por vários


índios (tanto crianças como adultos) representaram êles a
forma do pacu como de um perfeito losango, enquanto que
o mereschu era representado com uma forma mais alongada
e curva.
E aqui nos cabe fazer várias considerações, quais se­
jam: O desenho ornamental característico de cada um dos
sexos serviria como um meio de escrita, de "sinal diferen-
ciador” . Se o homem, quando pinta o corpo ou ornamenta um
objeto qualquer, usa somente o motivo representativo do seu
sexo, o mesmo acontece com a mulher, sendo que podería­
mos aceitar êstes motivos ornamentais como uma diferen­
ciação sexual. Desta forma, um objeto é reconhecido como
pertencente ao homem, quando trás em si, o ornamento do
sexo masculino, o que igualmente acontece com o da mu­
lher. O homem só irá pintar um motivo feminino quaudo
êste objeto vai ser dado de presente a uma mulher, porém,
não poderá pintar um objeto de seu uso privado com êste
motivo.
A aceitação dêstes motivos primordiais: da linha que­
brada e da linha curva; o primeiro representando o peixe
(masculino), e o segundo a cobra jibóia (feminino), tem
umá explicação. O mesmo acontece com o losango e o
triângulo, o primeiro representando o peixe e o segundo o
uluri.
Também se verifica que cada tribo possui um motivo
ornamental, uma diferenciação pequena que a assinala di­
ferente das outras. Assim o índio de uma tribo reconhece
outro devido a sua pintura corporal.
Poderíamos explicar a simbólica dêstes elementos or­
namentais, processando-se pelas semelhanças figurativas ou
pela experiência imediata entre o símbolo e o simbolizado.
Só em povos de cultura mais alta, em que a acentuação in­
telectual é mais desenvolvida, a simbólica pode usar de se­
melhanças formais, não figurativas. É fácil compreender-
-se, portanto, que esta simbolização seja mais adequada ao
grau de cultura em que etftá êste povo. Se êle revelasse
uma simbólica mais complexa, teríamos de admitir que fora
ela transmitida por um povo de cultura mais elevada. Mas»
neste caso, não era de admirar que, com o decorrer do tem-
210 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

po, perdesse a sua significabllidade, permanecendo apenas


como um sinal sem outros conteúdos intencionais. Nos
exemplos apresentados, o conteúdo intencional é presente,
pois ao interrogarmos alguns índios, manifestaram êles a
correspondência entre o símbolo e a sua significação (o lo­
sango e o peixe, a linha curva e a cobra, etc.). Outra ca­
racterística que se pode salientar na simbólica primitiva é
a imitação. Ora, o símbolo para ser tal, deve repetir algo
à semelhança do simbolizado. Portanto, em todo o símbolo
há uma imitação de certo grau. Num povo primário, cuja
inteligência é eminentemente imitativa, esta nossa interpre­
tação encontra razões a seu favor. Uma inteligência que
sabe distinguir meios de fins, é criadora, é própria de povos
mais elevados culturalmente. Manifestações dêstes está­
gios são raras entre primitivos, daí o acentuado estaciona­
mento das suas formas culturais.

Durante a festa do Kuarup e do Javari, além do uso


da pintura corporal, aparecem os guerreiros de cada tribo
ricamente enfeitados e ornamentados.
É nesta ocasião que os índios xinguanos exibem todas
as suas riquezas, trazendo, por êsse motivo, sobre o corpo
os melhores enfeites, assim como as armas mais valiosas de
que são possuidores.
Dentre os enfeites da cabeça, temos: a) kanitar (es­
pécie de chapéu). É feito de trançado, trazendo, na sua
superfície, vários desenhos com a forma do losango. É o
único objeto em que aparece a cor preta combinada com o
amarelo. Entre os Auetó é conhecido pelo nome de rapuai.
Entre os Kamaiurá tem o nome de kamaip.
b) Os om atos de plumas e diademas: são usadas
para confecção dêstes enfeites, penas de diversos animais
como arara, papagaio, japu, falcão, etc. Demonstram na
confecção dêstes objetos saberem harmonizar várias cores
com uma grande beleza. É predominante o uso de penas
de cor azul, vermelho, alaranjado e amarelo.
c) E nfeite de orelha (espécie de brinco só usado pelo
homem pendurado no lóbulo da orelha). É feito de penas
de mutum (cor preta), do peito da arara (cor vermelha)
e do tucano (cor amarela). Karl von den Steinen diz em
sua obra escrita sobre os índios do Xingu, que são os Suyás
CONVITE À CIÊNCIA 211

(atualmente habitantes do curso inferior do rio Suyá Mis-


su, afluente direito do X ingu), os superiores na confecção
dos enfeites de penas. Gostam muito da combinação de
vermelho com o alaranjado, usando também diademas de
penas de arara, assim como trançados largos de algodão,
em toucados redondos.
No corpo, temos:
a) braçadeiras usadas nos antebraços, feitas de penas
coloridas, amareladas e alaranjadas;
b) faixas de algodão na cintura, que são pintadas de
amarelo, vermelho ou azul;
c) 'protetores de fios nos joelhos, em que as cores são
o branco e o vermelho;
d) fios de embira, usados nos tornozelos e pintados
algumas vêzes de vermelho e amarelo;
e) colares:
1) de conchas, que é um dos objetos de maior beleza,
dentro da cultura material xinguana. Tem um grande va­
lor, sendo considerado até o objeto que atinge o preço mais
alto no comércio entre as diversas tribos. É dado pelo pai
ao filho na ocasião da compra da noiva.
É feito de conchas (tiradas de um pequeno caramujo
terrestre), que são cortadas com o feitio quadrangular e
prêsas a um cordão.
Os únicos artífices dêstes colares são os índios Kuikuro,
os Kalapalos e os Matipus, que os produzem com grande
habilidade e os vendem às outras tribos, trocando-os sem­
pre por objetos de grande valor.
2) De dentes de onça, que são usados somente por
raros caciques, demonstrando que quem os usa é um brava
e valoroso guerreiro.
3) De pedra polida, que são usados por algumas tri­
bos.
4) De contas azuis e brancas, que foram trazidos pe­
los brancos e para os quais o índio xinguano dá um grande
valor. Usam-no tanto crianças como velhos. Penduram-
-nos no pescoço ou nos quadris.
212 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

Karl von den Steinen quando estêve nesta região já


notara o uso dêstes colares azuis e brancos, em grande nú­
mero de indígenas.
É interessante notar-se que só aceitam os de boa qua­
lidade (para verificarem isto, mordem-nos para ver se não
quebram, pois se tal acontece, rejeitam-no). Os colares de
contas azuis e brancas são os preferidos, enquanto os de
qualquer outra cor, são considerados de pouco valor.

O arco e a flecha constituem para Karl von den Steinen


a única arma comum a todos os nossos índios. A flecha,
prossegue o autor, "é uma obra de arte que de modo algum
pode ser chamada de simples. Comparando-se as flechas
de nossas tribos, entre as quais se processou uma certa ni-
velação etnográfica, com as das regiões limítrofes, notam-
-se, mediante cuidadoso exame, diferenças no material ou
na técnica” . E continua o autor: "Pode-se fazer também
(não só com as línguas) um estudo comparativo das flechas.
Chegando a uma nova tribo, víamos freqüentemente os ín­
dios examinarem e determinarem com grande interêsse as
peças trazidas dos vizinhos” .
Entre as tribos do Alto Xingu, o arco e flecha nã<*
apresentam grande beleza; são simples e quase sem ador­
nos. É o homem que os faz e usa. Encontram-se flechas
e arcos de diversos tamanhos, pois tanto as crianças como
os adultos usam-nos. O autor citado, em uma das suas pas­
sagens, diz. . . "Embora seja difícil compreender como o
índio imagina que seus heróis de cultura criaram as diver­
sas tribos por encantamento de canas de flechas fincadas
na terra, é muito fácil apreender a idéia básica desta con­
cepção, isto é, que a flecha é o distintivo tribal. O grande
mágico escolhe para cada tribo a espécie de cana que será
empregada como haste de flecha. A cana de cambaiuva dá
hastes mais delicadas e finas. A cana de ubá também é
geralmente usada pelas tribos do Xingu” .
Não creio que esta seja a exata interpretação. A cria­
ção dos üères humanos e conseqüentemente das tribos, não
provém das flechas fincadas ao chão, e sim de troncos de
madeira de jatobá ou ipê. Talvez a flecha sirva como dis­
tintivo tribal, devido a certos sinais que lhe podem ser
acrescentados, não representando porém o sentido mais "pro­
CONVITE À CIÊNCIA 213

fundo da criação” . Creio que é procedente aceitar-se como


um mero distintivo tribal, mas não como criacional.
Os cestos são comuns a todas as tribos. Alguns apre­
sentam um trançado bem complexo. Geralmente são feitos
de folha de embira ou buriti, e o desenho mais constante
é o losango. Max Schmidt, oferece a seguinte explicação:
"É fato provado que os índios das regiões das cabeceiras
do Xingu sabem dar nomes determinados aos ornamentos
derivados dos padrões de trançado puramente geométrico,
nomes êsses que se relacionam principalmente com o reino
animal. Há uma estreita conexão dos ornamentos do tran­
çado puramente geométrico e as diversas formas de animais,
explicando que estas eram derivadas daquilo que constitui
a base do ornamento do trançado” . Encontrou o autor
realísticas figuras de peixes nas superfícies de vários obje­
tos; portanto, o desenho ornamental proviria do trançado.
É uma interpretação adotada e seguida por muitos estu­
diosos de arte indígena brasileira.
Todo o trabalho da cestearia provém do sexo masculino.
Elemento de grande beleza é o tuavi (peneira da man­
dioca) . Vê-se na feitura dêste objeto uma grande preocupa­
ção de dar harmonia na disposição do desenho geométrico.
Usam às vêzes listras coloridas, dispostas proporcionada-
mente na superfície da peneira.
Apresentam também grande beleza as rêdes de buriti
e algodão. É ela comum em todas as tribos xinguanas, e
trabalhadas pela mulher.
A pá de virar bd ju (iuvég) tem a forma de meia lua
e muitas vêzes traz na superfície desenhos de losangos.
As máscaras são elaboradas com muito cuidado e pro­
duzidas exclusivamente pelo homem. Como diz Karl von
den Steinen: "é especialmente de uso masculino e são guar­
dadas na casa das flautas” . Esta casa é chamada de "Casa
do Jacuí” , onde só o homem tem direito a entrar, sendo disto
completamente excluída a mulher, sob pena de um forte
castigo se não obedecer. A existência desta casa é por
muitos estudiosos considerada como uma reminiscência da
réplica masculina a um provável matriarcado de época an­
terior. Atualmente as máscaras só são feitas pela tribo
214 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

dos Waurás. Logo após o seu uso na cerimônia, são elas


postas de lado ou jogadas fora. Cada uma delas repre­
senta um motivo que simboliza um animal, e é individual.
Karl von den Steinen diz que se conhece um índio pela más­
cara que êle usar, pois não há um motivo repetido. Os
motivos são geométricos: é o losango e o triângulo nas suas
diversas modalidades, que são explicados pelo autor como
representações abstratas de animais.
As flautas são feitas pelo homem. Há de diversos ta­
manhos e só o homem pode tocá-las. Entre todas, a mais
importante é a flauta uruá. É feita de dois bambus justa­
postos, medindo o mais longo cerca de 2 metros e o menor
uns vinte a trinta centímetros menos. Emite sons graves
e pode ser considerado o principal instrumento de sopro
dos índios xinguancs. Na festa do Kuarup, tem ela um
papel importante no ritual. É tocada somente por guer­
reiros da tribo visitante, que reverenciam desta forma, o
cacique da tribo que dá o Kuarup. É considerado o único
momento de alegria em todo o ritual. Apesar de emitir
sons graves e baixos, com um ritmo monótono, (pois sem­
pre é o mesmo, não tendo variações) representa um estado
alegre e efusivo, do qual é portador o índio que presta as­
sim a sua homenagem ante a libertação dos espíritos dos
mortos.
O uluri é um objeto de uso estritamente feminino.
Pode ser considerado como a indumentária feminina mais
importante. É usado desde a época da puberdade até à ve­
lhice, acontecendo às vêzes, que até as criancinhas o usam.
É feito com sêda de buriti, e quem o faz é a mulher. Há
alguns mais trabalhados, apresentando uma pintura orna­
mental.

O zunidor é um objeto que serve para espantar os maus


espíritos. Tem uma forma oblonga e em ambas as super­
fícies apresenta desenhos geométricos.

O pente consiste em pauzinhos estreitos colocados um


junto ao outro, presos a duas tabuinhas horizontais, por
meio de um trançado de fios de algodão. Os pauzinhos
duros são dispostos sobre a tabuinha inferior, como os den­
tes do nosso pente. É feito pelo homem, mas é usado pela
mulher. Tem sempre o desenho do losango no seu trançado.
A CERÂMICA NAS TRIBOS DO XINGU

É muito importante a análise da cerâmica, não só para


a interpretação artística, como também para o exame dos
objetos etnográficos daqueles povos que se encontram num
estágio cultural ainda rudimentar que são chamados geral­
mente de "povos primitivos” .
Como análise da cerâmica, não se compreende apenas
a descrição e a interpretação do objeto já feito e acabado,
mas também a explicação do porquê dos motivos ornamen­
tais, assim como o exame da técnica e do material nêle
usados.
Apesar de não serem encontrados em todas as tribos
indígenas brasileiras vestígios de cerâmica, onde ela apa­
rece é considerada como um dos elementos mais importan­
tes para o estudo da arte ornamental. Temos assim a
Cerâmica Marajoara, que provocou vários estudos e inter­
pretações contraditórias, considerada pelos estudiosos como
a "cerâmica clássica na arqueologia brasileira” ; a A rte
oleira Tapajônica, que também manifesta um ponto alto de
elaboração artística; a do Cunam e de Maracá, que com­
preende somente urnas; a Tupi-Guarani, tão citada pelos
antigos cronistas; a Kaduvea e a Carajá, e várias outras.
<que deixamos de citar para não nos estendermos muito.
O nosso trabalho prende-se ao estudo da cerâmica nas
tribos do Alto Xingu.
Karl von den Steinen teve a atenção voltada para o
número imenso de panelas, potes que existiam pelas diver­
sas tribos visitadas nesta região.
No seu livro "Entre os Aborígenes do Brasil Central”
diz o seguinte: "Uma das coisas que mais me surpreende­
ram quando cheguei ao Xingu, foi a circunstância de que
216 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

a arte cerâmica aí se restringiu às tribos Nu Aruaks. A


arte destas tribos (na cerâmica) vinha de fabricação da
tribo dos Meinakó. Também as tribos Tupis tinham potes
de uma tribo Nu Aruak, os Waurás. Um grupo de tribos
era pois, o único possuidor de cerâmica, que, como adiante
veremos, também constituía atividade artística”.
Em nòssos dias verifica-se que as únicas tribos que
mantém a fabricação de objetos cerâmicos são a dos ilfei-
nakós e a dos Waurás.
Entretanto, o número imenso de objetos cerâmicos, que
em épocas anteriores devia existir, hoje tal não se dá mais.
Encontra-se em número bem mais reduzido.
A cerâmica tem um papel importante dentro da vida
material de uma tribo. Karl von den Steinen já dizia:
"O pote serviu como utensílio. Para carregar água e ou­
tras coisas, o recurso era o uso de cabaças. Mas a falta de
cabaças se deu, e isto é hoje revelado pelas cestinhas im­
permeabilizadas com barro, usadas por várias tribos. Com
barro conserta-se também a canoa que faz água, com barro
untou-se o índio — início da pintura do corpo — e o pró­
prio barro era transportado, o que certamente foi o prin­
cipal — em cestas, como ainda podemos observar. Com a
repetida falta de cabaças, as mulheres eram levadas fàcil-
mente a tornar sólidas as suas cestas para barro, aplicando
êste material plástico em maior abundância; podiam, além
disso, dispensar o trançado logo que percebessem as formas
de argila, depois de sêcas, tinham por si suficiente resis­
tência. Expunham-nas ao sol ou colocavam-nas sobre o
fogo, e tinham assim uma fonte mais barata de cabaças
artificiais. Mas as mulheres fizeram esta invenção só de­
pois do grupo ter adotado um modo de vida sedentário. A
mulher do caçador, que vagueia pelo mato, não pode ter
substituído a cuia pelo pote pesado e quebradiço e muito
menos o homem caçador ter sido o inventor do pote. Esta­
mos aqui em face de uma analogia com a origem da agri­
cultura”.
Vê-se assim que só um povo sedentário, portanto agri­
cultor, poderia ter tido a idéia de fabricar um objeto de
barro. As tribos do Alto Xingu são agricultoras, apesar de
serem também caçadoras.
CONVITE À CIÊNCIA 217

Mas as caçadas não são realizadas com a presença de


todos os indivíduos, da tribo, e sim por pequenos grupos de
guerreiros e na maioria das vêzes por um único isolado.
Daí conseqüentemente (ponto de vista de muitos estudio­
sos), é, que nas tribos de vida sedentária, deveria ter sur­
gido uma maior elaboração artística devido ao tempo dis­
ponível. Para muitos estudiosos a cerâmica seria um tra=
balho do sexo feminino, fundando-se tal afirmativa no fato
da mulher dispor de mais tempo, já que o homem está cons­
tantemente ocupado na caça e na pesca. Ademais seria a
ornamentação um trabalho especificamente feminino. Tal
se verifica em grande número de tribos, mas não em todas.
Daí não podermos estender tal afirmativa como geral.
Quanto à cerâmica marajoara, não há certeza se o artista
era do sexo feminino ou masculino; igualmente quanto a
arte oleira tapajônica, à tupi-guarani e outras. Temos no­
tícia que na cerâmica kaduvea, a mulher foi e é ainda o
artista, não tendo o homem contribuição neste mister; já
na carajá, tanto o homem como a mulher trabalham na
elaboração das célebres bonecas, potes, etc. Entretanto, a
arte atual carajá é ralizada como um meio econômico de
troca, e por isso, é compreensível que os dois sexos contri­
buam para a sua feitura, embora não se tenha notícia exata
de a qual sexo caberia a sua realização anteriormente, em
períodos mais recuados.
Nas tribos do Alto Xingu, a cerâmica é trabalho da
mulher. Entretanto, a procura do barro é feita pelo homem.
Tal se prende ao fato de ser necessário o barro de uma con­
sistência toda especial, e só ser encontrado no fundo do rio.
O trabalho cerâmico, pertence atualmente a duas tribos:
a dos Meinakó e a dos Waurâ. Ambas pertencentes ao
grande grupo Aruak. Outra tribo, a dos Yualapiti, também
era ceramista. Foram as mulheres Yualapiti raptadas em
lutas sucessivas por serem hábeis fabricantes de panelas de
barro. Atualmente não há mais cerâmica entre os seus
poucos elementos (estão localizados em uma única aldeia
muito pequena, constituindo na época em que Karl von den
Steinen percorreu a região, três ou quatro aldeias distin­
tas).
A cerâmica da tribo dos Waurâ apresenta uma série de
panelinhas (o tamanho varia muito, indo de 10 cm de com­
primento até uns 70 a 80 cm), as quais revelam-nos uma
218 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

série de características bem específicas. Após o homem


ter trazido o barro, o trabalho posterior é exclusivo da mu­
lher. Modela-o, dando-lhe uma forma convexa. Karl von
den Steinen diz em seu livro já citado acima: "A forma
convexa é uma reminiscência das cabeças, e examinando com
atenção os povos zoomorfos, descobrir-se-á, na maioria dê-
les, pelo menos um dos três elementos considerados como
carácter distintivo: -cabeça, membros e cauda sempre acres­
centando a um dêles um elemento bem marcante. E nunca
se deve esquecer também a conclusão "per exclusionem” .
Verifica-se assim a representação, na forma convexa,
que é comum de vários animais. São êles — o tracajá, o
veado, o pica-pau, a anta, o jaboti, o jacaré, etc. Apenas
usando os três elementos: cabeça, membros e cauda, cada
um é representado segundo a fantasia do autor.
Após a modelação do feitio do animal na panela, esta
é posta para secar ao sol, sendo logo após, colocada com a
abertura para baixo, sobre um fogo que produza muita fu­
ligem. Desta forma a parte interior fica enegrecida, e esta
cor, depois de vários anos e uso, nunca mais sairá. Na
parte externa, passa-se uma camada de urucum, havendo
em geral a feitura de desenhos que constam de riscos em
diversos feitios.
Verifica-se que não são todas as mulheres que sabem
fabricar estas panelinhas, e sim um número muito reduzido
delas: geralmente umas 3 ou 4, que são consideradas as
"artistas” . E sempre há uma que possui mais sentido ar­
tístico, apresentando um trabalho mais bem feito e acabado.
Na cerâmica Waurâ também se verifica a elaboração
de panelas, tij elas, mas que não sao tão características como
as panelinhas que reproduzem figuras de animais.
Na tribo dos Meinakó, vamos encontrar a fabricação
de grandes potes e panelas. O método de construção e o
material usado são os mesmos que o feito pelo Waurâ. Es­
tas panelas e potes Waurás são de cor branco-cinzento ama­
relo. Alcançam algumas quase um metro de raio e são
muito pesados. Servem para cozinhar e guardar alimen­
tos, como mandioca, beiju, mingau de mandioca, peixe ou
carregar água. Esta era a sua função mais importante,
junto com o cozimento da mandioca. Atualmente já há um
CONVITE À CIÊNCIA 219

número muito grande de latas de gazolina que estão toman­


do o lugar das panelas, principalmente no que concerne ao
carregamento dágua, por serem mais leves e mais fáceis de.
transporte.
Várias destas panelas apresentam desenhos feitos do
lado de fora. São linhas que partem em geral do centro do
círculo e dispersam-se pelas bordas. N(^ interior, a pintura
é sempre preta. As figuras são geometricas e o desenho
quasé não muda. Cita, porém, K$rl von den Steinen ter
visto desenhos muito variados e de grande beleza. A opor­
tunidade que tivemos de ver na tribo dos Yualapiti e Ka-
maiurá, não corresponde à descrição do autor. Encontra­
mos em número muito reduzido e além do mais os desenhos
eram bem raros (tal fato talvez devido a estarem muito
usadas e a tinta já estar gasta). Em geral os desenhos
são feitos de tinta preta (carvão resinoso) e tinta verme­
lha (urucum).
Na tribo dos Siiyá, Karl von den Steinen encontrou
diversas panelas feitas com muito esmêro, cujos desenhos
eram bem trabalhados. O que lhe chamou a atenção foi o
desenho de dois círculos concêntricos na base externa, de
onde partiam riscos laterais até à beirada superior. O
autor ficou impressionado com o grande número de potes,
panelas, tij elas que possuíam desenhos ornamentais bem
feitos e de traços com feitios estranhos.
Um aspecto importante, que não se deve esquecer, é o
fato de a cerâmica só pertencer a duas tribos, e assim mes­
mo, cada uma delas, tem o seu tipo característico.
O escambo de vários objetos (principalmente os de ce­
râmica) é muito extenso. Estes panelas, potes, tijelas vão
aparecer em outras tribos.
. r %
No comércio tribal verifica-se que: a mulher não pode
vender um objeto feito pelo homem. O homem, por sua
vez, não troca um objeto que fêz por outro elaborado por
uma mulher. Toda mulher só faz objetos com motivos or­
namentais femininos, assim como todo o homem, o faz com
motivos ornamentais masculinos. Se êste, entretanto, é
para ser dado a uma mulher usa o motivo feminino. Cada
grupo tem a sua especialidade, e as trocas se fazem sem
competição. Cada um procura o que lhe interessa trocando
220 YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS

pelo que realiza. Daí se dar uma difusão e uniformização


de artefatos entre as diversas tribos xinguanas.
A troca é feita, diferentemente, conforme tratar-se de
troca ou de presente. Se for de presente o dono entrega-o
em mãos a quem quer ofertar. Se for de troca, atira-o no
chão, e quem aceitar a troca por outro que lhe pertence, faz
o mesmo. Se estijprem de acordo, cada um segura o seu
novo objeto. Se não é aceita, cada um segura o seu objeto,
sem tocar no contráriov Não entram em conflito, se por
acaso a troca não se realizar a contento.
Apesar de possuir um mosaico lingüístico muito grande,
esta região, tem uma uniformidade cultural com relações
intertribais constantes. O comércio é muito importante e
feito com muita freqüência (há uma determinada época es­
tabelecida para isto). O mesmo em relação às relações de
contacto entre as diversas tribos moradoras de toda esta
vasta região. Como já tinha notado o Capitão Vasconcelos
no seu livro "Expedição ao Rio Ronuro” : "suas aldeias são
franqueadas por caminhos limpos e absolutamente despro­
vidos de qualquer defesa” . Tal fato manifesta bem as re­
lações amistosas entre quase todas as tribos do Alto Xingu.

l.
I

I
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• I*


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