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Primeira edição

Me chame
pelo seu
nome 2

Versão fã
Contents

Contents 2

1 Pesadelo temporal 6

2 Convidados inesperados 28

3 Luar de Revelações 87

4 A vida por um fio 88

5 Me chame pelo meu nome 89

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Prefácio

Novas perspectivas para um coração cingido.


- Versão fã

Desde o inicio, quando comecei esse projeto,


muitas vezes pensei em desistir. Não havia um
propósito em reescrever uma versão alternativa para
Me chame pelo seu nome (Call me by your name).
Tudo começou quando assisti o filme lançado em
janeiro de 2018 aqui no Brasil. No final daquele mo-
mento uma sensação ruim pairou sobre mim e me
intrigava aquele final sugerido pelo roteirista. Desde
quando me entendo por mim, nunca havia assistido
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

algo tão verdadeiro. O desejo e o amor tratado de


uma forma tão surreal. Ainda sinto toda a tristeza e a
dor da saudade do personagem principal. A pergunta
era: como me livrar desse sentimento que perdurava
desde então? Procurei no livro a minha resposta.
Eu precisava acabar com a sensação de tristeza e in-
credulidade quanto ao final simplesmente destruidor
do filme. No livro pude entender cada sentimento
dos personagens, mas ao final não fui recompensado
com o alívio esperado. Uma nova nuvem negra se
instaurou sobre mim. Aquela tristeza e sofrimento
que senti pelos personagens era inda maior. Entendo
que o autor tenha tido a intensão de manter os per-
sonagens longe um do outro, mas meu coração não
permitia isso. Eu precisava serenar minha alma.
A continuação dessa história se baseia na versão
original do livro, e que levou elementos apresentados
no filme. Basicamente tentei reverter os últimos 20
anos apresentados no livro, sem perder a essência
do desejo e talvez um amor entre os personagens
e proporcionando a você leitor não um final feliz
direto, mas sim um desenrolar mais agradável. Espero
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

imensamente que gostem, assim como eu amei.


Esse material está disponível de modo livre e não
deve ser comercializado em hipótese alguma 1 .

1
Os direitos de comercialização da história original são do autor
Aciman, André e que no Brasil é distribuído pela Editora Intrinseca
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Chapter 1

Pesadelo temporal

... parei por um instante. Se você se lembra de tudo, eu


quis dizer, e se realmente gosta de mim, então antes de
ir embora amanhã, ou quando estiver prestes a fechar
a porta do táxi e já tiver se despedido de todos os outros
e não houver mais nada a ser dito nesta vida, então,
só desta vez, vire para mim, ainda que de brincadeira,
ou como um adendo que significaria tudo para mim,
e, como fez naquela vez, olhe nos meu olhos, sustente
meu olhar e me chame pelo seu nome...
— Elio, Elio... acordado? Pode descer? — Ouvia-se
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

minha mãe no corredor, provavelmente ao lado da


minha porta me chamando.
Com calma, fui me conectando ao mundo real,
ainda com os olhos meio fechados. Naquele momento
a claridade do sol da manhã já ia entrando em meu
quarto, e a fraca briza do jardim da primavera trazia
não somente um ar fresco, mas também o cheiro das
flores silvestres.
Por um segundo me imaginei vinte anos mais
velho, e, procurava em mim os sinais de uma vida
toda que acabara de presenciar em um sonho.
— Elio, Elio, acordado...? — continuava dizendo
minha mãe só que agora entrando no meu quarto e
chamando para descer o quanto antes.
Mamãe não tinha o hábito de entrar em meu quarto,
eu sempre tinha a liberdade e ir dormir e acordar a
qualquer hora. Algo poderia ter acontecido para ela
estar ali.
— Mamma, per favore! — resmunguei. Ela deu
de ombros se virou e saiu como se nada houvesse
acontecido. Senti que era importante.
Me coloquei de barriga para cima e com as mãos
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

entrelaçadas atrás da cabeça passei a olhar para o


telhado do quarto. Percebi que aqueles vinte anos
vividos não eram meus, eu não queria que fossem.
Eram, e faziam parte de uma versão de maquete que
apenas poderia ser encontrada em sonhos que mais
pareciam pesadelos. Como poderia um sonho permi-
tir que Oliver se casasse e tivesse dois filhos? Como
poderia após anos de ausência ele aparecer num dia
de verão e dizer que se lembrava de tudo, mas que iria
embora no outro dia? Como poderia papai e Anchiese
não estar mais entre nós? Se tudo isso for um sonho,
queria nunca ter pesadelos. Suspirei aliviado, pois
sabia que tudo aquilo que passei, se passou apenas
em um intenso e desagradável sonho. Estava mais
para um pesadelo, onde eu era sentenciado, não a
morte que preferia muito mais, mas a um calvário
de vinte anos de uma vida em que Ele não estava lá
para pagar a sentença comigo. Ele não estava lá em
sonho, e agora não estará comigo aqui também. Me
pergunto se continuo num sonho dentro de outro,
sentenciado duas vezes. Ele, logo logo, se casaria,
e isso era um fato imutável. Estaria meu sonho se
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

tornando realidade. Um cisco simulou cair em meus


olhos.
Ao me virar, e num minúsculo lapso de tempo pude
sentir o cheiro dele, que ainda impregnava suave-
mente no travesseiro. Neste ápice, pude relembrar
muitos momentos que passei ao lado de Oliver. Me
senti como se ele apenas tivesse levantado cedo e
teria saído para realizar a sua caminhada matinal.
Olhei a porta como se sentisse que ele fosse abri-la
a qualquer momento e entraria com um sorriso sin-
gelo no rosto, se aproximaria da minha cama, já sem
camisa e com seu shorts vermelho, entraria por de-
baixo do lençol e me beijaria dos pés à cabeça. Eu
sabia que aquilo era impossível, ele já estava do outro
lado do Atlântico, e eu ali em B.
Sempre neste período de primavera estávamos em
Roma, mas um projeto de pesquisa do papai fez que
voltássemos a B. onde ficaríamos por três semanas.
Mamãe trabalhara desde então e se dedicava a uma
revisão literária para a Universidade de Berlim. Es-
tar ali me remetia a muitas sensações. Tentei não
vir quando papai nos avisou, mas ele insistiu. Ele
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

já até tinha combinado com o meu coordenador de


estágios que eu estaria envolvido com um projeto par-
alelo. Papai também tinha planejado uma surpresa,
segundo ele, para meu aniversário que aconteceria
neste período. Nem tentei imaginar o que seria.
Desci. Papai e mamãe já haviam começado a que-
brar os primeiros ovos cozidos que Mafalda havia
acabado de colocar a mesa. O cheiro do expresso
aromatizava o ambiente.
— Bonjour! — Cumprimentei, com beijos, a todos
e me pus ao lado do papai.
Ele me olhou lentamente como se quisesse me
dizer algo, mas exitou por algum motivo. Desde que
conversei com ele sobre Oliver ficamos mais próxi-
mos. Eu sentia que ele me entendia, pois ele sabia
quanto o último verão tinha significado para mim.
Mamãe me olhava como se tentasse ler as minhas
memórias, talvez tentando ler os meu sonhos ou pe-
sadelos. Quando conversamos sobre Oliver, numa
tarde quando ele ainda andava pelos cantos na casa,
no jardim, no pomar, em mim, ela me perguntou
se eu gostava dele. Todos gostavam dele, respondi.
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

Tenho certeza que sim, mas ele gosta mais de você,


do que você dele, ela disse. Se gostasse mesmo, ele
teria ficado comigo, não teria ido embora como foi.
Me deixou a última lembrança do último vagão da
condução que o levara para longe, tão longe, que
nem a saudade que sinto dele pôde alcançar. Desde
quando ele foi embora os cafés da manhã já não eram
os mesmos. Ver ele ali sentado, quebrando totalmente
errado os ovos mas que já pegara uma certa prática,
saboreando um dos pedaços de torta de damasco col-
hidos no dia anterior, enchendo uma das xícaras com
expresso, aquilo não existia mais.
Depois que ele veio no natal, já haviam se passado
algumas semanas desde que Oliver havia retornado
para os Estados Unidos. Desde então, sempre que
ele ligava para o meu pai para saber das notícias eu
sempre me ocupava de algo para não precisar atendê-
lo. Papai insistia, mas sem sucesso. A saudade que eu
sentia havia sofrido uma metamorfose e se tornado,
de certa forma, mágoa. Mágoa pois ele logo iria se
casar. Imaginar ele com outra pessoa, era tortura.
Num dia que ele ligou para o papai, ainda inicio da
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primavera, imaginei que fosse para dar notícias que


havia se casado e que estava muito feliz. Eu poderia
fazê-lo feliz, eu teria retirado toda a minha felicidade
e tê-lo dado dentro de um pêssego, e assim quando
ele comesse pudesse sentir toda a minha felicidade
em estar ali ao meu lado, nos braços dele.
Numa final de tarde, papai falava ao telefone. Me
fiz de desentendido e subi rapidamente para o quarto,
pois Marzia havia chegado minutos antes e estava me
esperando. Quando subia os lances de escada apenas
pude ouvir papai dizendo Claro que pode, pode sim!
Será sempre bem-vindo! Neste momento imaginei que
talvez ele estivesse falando de algum novo hospede
para o verão seguinte ou uma visita da universidade
de Roma. Mas se não fosse Oliver, não queria saber.
No quarto, Marzia sentada na cadeira virada para
a escrivaninha folhava algumas páginas de um livro
antigo que tinha começado a ler, mas que depois de
pouco interesse, o-desiste.
— Muito bom esse livro, não é Elio? — Disse
Marzia num tom de apenas querer puxar assunto.
Acho que ela apenas leu uma página aleatória ou deve
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ter lido a sinopse de tal forma a encontrar alguma


coisa para conversar comigo. Por um instante pensei
que ela iria pedir para levar, ou que talvez estivesse
esperando que eu o oferecesse a ela.
— É..., bom mesmo, talvez... nem lembro direito!
— Respondi dando um certo ar de desinteresse.
— Gostei da parte que Apoline, que após anos
sozinha ainda lembrava de seu primeiro amor. —Disse
Marzia tentando dar um ar de importância no livro.
— Não sei se eu conseguiria ... — Completou Marzia,
engolindo em seco a última palavra.
— Muito tempo mesmo! Eu ... — Pensei em dizer
que eu conseguiria, mas num súbito lembrei que ele
não estava mais aqui. Onde será que estava Oliver
agora?
Na última visita de Oliver, a notícia do seu noivado
foi abafado pelos longos dias depois da notícia em
que não falávamos nada sobre nós. Não existia mais
nós. Eu sabia que naquele momento o nós tinha se
tornado apenas eu e apenas ele. Eu em Roma re-
organizando minhas idéias, e ele com a sua noiva
planejando listas de convidados, onde eu provavel-
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mente não estaria. O buffet da festa após a cerimônia


da igreja, que provavelmente estaria cheio da mais
variada quantidade de comida americana processada
e industrializada. Sentiria ele falta da comida de B.?
Aquela mesma preparada pela Mafalda para os al-
moços e jantares onde sempre haviam convidados.
Estavam o casal planejando uma viagem de lua de
mel? Talvez o interior em alguma fazenda com um
lindo jardim ou pomar, assim como tem aqui em casa,
e assim ele pudesse lembrar dos momentos que pas-
sou nas seis semanas do seu verão de 83. Eles pode-
riam ir para uma ilha no meio do oceano, num lugar
tão isolado e quieto, que ele lembrasse dos momen-
tos que ficavamos juntos, sabendo que ninguém nos
incomodariam, exceto a luz da lua e uma brisa úmida
vinda do pomar que adentrava pela janela. Pensei
em diferentes lugares para eles passarem seus dias de
marido e mulher, os dias de Oliver e ... Neste altura
nem o nome dela sabíamos. Para cada lugar onde eles
iriam, imaginei inúmeras maneira e anedotas de ele
se lembrar de mim, e que para cada lugar visitado ele
pudesse imaginar o quanto eu queria estar ao lado
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dele. Não importasse o lugar.


Eu continuava a transcrever minhas músicas, vis-
itava o centro da cidade, lia uma pilha de livros
que havia separado na mesma livraria onde Oliver
comprá-ra os seus. Onde até mesmo uma das ver-
sões do seu manuscrito de Heráclito já se encontra
disponível para venda. Assim como em inúmeras
livrarias de Roma. Na semana do lançamento pensei
em adquirir um, e deixar na conta pessoal do pai,
porém tinha certeza que se quisesse esquecê-lo eu
deveria me deixar desapegar em pequenas coisas que
envolviam Oliver.
As noites eram os piores momentos. Eu me pergun-
tava se quando subisse para meu quarto ele estaria
lá me esperando. Na cama sempre colocava a camisa
azul dele perto de mim, e em alguns momentos colo-
cava umas das mangas sobre meu peito. Eu sentia
que a ausência de Oliver poderia ser cerceada ape-
nas com aquele pedaço de pano, que ainda eu não
tivera coragem de colocar para lavar. O cheiro dele
impregnado na camisa me fazia lembrar do cheiro
do cabelo dele, um cheiro suave de água dos rios
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de B. Eu ficava virado na cama de tal forma que eu


pudesse imaginar ele vestido naquela camisa. Por
um instante pude imaginar ele ali do meu lado sem
camisa me olhando fixamente em meus olhos. Pude
sentir a mesma sensação de quando ficamos juntos
na primeira vez, quando ele me olhou nos olhos e me
pediu para eu chamar ele pelo meu nome. Enquanto
me olhava, como se me chamasse com um convite
feito por um anfitrião, levantei o meu braço e passei
lentamente as costas de meus dedos sobre o seu peito
e em movimentos circulares navegando nas covas
do seu corpo do pescoço, passando pelo peito semi
cabeludo até o seu umbigo. Imaginei o que poderia
ter feito com um pêssego naquele momento, mas ape-
nas conseguia me ver envolvido sobre os braços de
Oliver, sentindo seu calor junto ao meu na eminên-
cia da erupção dos vulcões de nossas almas. Aquela
camisa me trazia muitas lembranças e me envolvia
em muitas emoções. Eu simplesmente não conseguia
esquecê-lo, e a cada dia que passava a tristeza e a dor
eram mais e mais intensas.
Os dias se passaram e a primavera se aproximava,
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e eu sabia que o casamento dele se aproximava. A


saudade que eu sentia por ele não estar aqui cres-
cia a passos longos e acelerados. Fui até o centro de
Roma e comprei um exemplar de Los Miserables e
que escreveria uma dedicatória ao casal saudando-
os e felicitando-os as minhas sinceras felicitações.
Ao imaginar em escrever isso me veio um agror que
subia do estomago pela garganta e parava sobre a lín-
gua como um sabor azedo dos doces de pimenta que
Mafalda fazia. Desejar felicitações era como aceitar
que ele já não poderia estar comigo, como naque-
las noites de quando todos iam dormir e nós dois
ficávamos abraçados numa atmosfera que somente
nós sabíamos sentir. Voltei para casa pensando em
inúmeras maneiras de escrever a eles, sem que eu
mostrasse que estava incomodado. Eu estava com
saudades do usurpador do meu quarto. O usurpador
do meu corpo. Pensei no meu esconderijo secreto, no
mesmo lugar onde eu disse a Oliver que eu amava
tudo isso e eu lhe dei o primeiro beijo. Aquele escon-
derijo já não era mais meu apenas, era do usurpador
também e sempre que eu passaria ali perto sentia
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como se ele ainda estive lá debaixo da mesma ár-


vore com o calção verde e uma camisa aberta deitado
sobre a grama, não verde como no verão mas meio
queimada do intenso inverno. Cheguei próximo do
horário do jantar e mamãe já organizava os últimos
talheres a mesa. Na sala de estar, um casal de amigos e
seu filho conversavam com papai sobre as tendências
de musicas literárias do norte da Itália.
Após o jantar me debrucei sobre o travesseiro onde
por seis semanas Oliver repousou dos seus longos
dias de intensa escrita de seu manuscrito, auxílio do
meu pai, aproveitando o verão e me aturando. Preferi
não escrever diretamente no livro, então procurei
pelas palavras certas em um garrancho qualquer e
depois passar a versão final definitiva. Pensei em
começar falando de uma das personagens do livro,
Cosseti, uma doce garotinha que era escravizada por
um casal em troca de um teto e alimento. Mas depois
de muito refletir não havia sentido em falar dos per-
sonagens do livro, mas sim de como eu estava feliz
pelo casamento dos dois. Comecei:
Queridos Oliver e usurpadora... Desejo toda felici-
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dade do mundo a vocês. A mesma felicidade que me


foi dada no último verão vinda em um táxi e vestida de
camisa, e que depois de me mostrar um sentido impul-
sivo e enlouquecedor de algo que nunca havia sentido
antes foi embora num trem, após sem ao menos me
dizer adeus mas que num abraço como nunca senti.... .
Estava errado! Não poderia mandar isso para eles!
Como poderia felicitar alguém que me sentiu por den-
tro, que me olhou nos olhos e me chamou de Oliver?
Conseguiria eu mentir sem que ele percebesse? Ten-
tei:
Queridos, Desejo de todo coração toda felicidade do
mundo ao lindo casal. Do amigo Eliot.
Parecia fácil e objetivo. Deixei o livro sobre a es-
crivaninha e dormi rapidamente como se a dor de
imaginar ele nos braços dela me cortasse o anseio de
viver. Seria mais um dia sem acordar e saber que ele
não estaria lá.
Como todas as manhãs desci pro café da manhã.
O cheiro de expresso já era sentido da escada do meu
quarto e o barulho de ovos cozidos sendo quebrados
eram mais evidente quando me aproximava da copa
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onde somente meu pai e Mafalda conversavam sobre


as opções para o almoço.
— Bom dia! — Me aproximei da mesa, beijando
papai e já alcançando a primeira cadeira para me
sentar.
— Dia... Bem? — Questionou ele como se quisesse
me preparar para algo. Sabia ele que desde a nossa
conversa sobre como tinha sido a viagem com Oliver
em Roma, que eu ainda pensava em nele?
— Estou ótimo. Tenho que ir ao centro hoje postar
uma lembrança para o Oliver e sua usur... ! — Exitei
por um segundo, percebendo que estava me entre-
gando. — ... noiva.
— E o que você está enviando para ele? Posso
saber por acaso? — Ele me questionou, quase que
me julgando pelo meu descuido em chamar ela de
usurpadora.
Mamãe chegou logo em seguida, me salvando de
algo que seria com certeza mais constrangedor para
meu pai do que para mim. Talvez ele tivesse achando
que a tristeza e a dor fizesse parte do processo de
aceitação, e que com o tempo eu poderia substituir
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toda a minha agonia humana pelas boas lembranças


que passei com Oliver.
— Como estão meus dois amores? — Disse mamãe,
como se quisesse se atualizar do nosso assunto.
— Eu estava falando que preciso postar um lem-
brança a Oliver e sua .... noiva.
— Você ainda não contou a ele? — Mamãe olhou
rapidamente para ele, colocando os dedos sobre a
testa e esfregando como num movimento de preocu-
pação.
— Contou o que? — Comecei a enumerar todas as
possíveis possibilidade para o que havia de acabado
de ouvir. Será que ele terminou o noivado? Ou ela
desistiu? Aconteceu algum acidente? Alguém ficou
doente?
— Porque não entrega pessoalmente a eles Elio?
— Meu pai respondeu levando o copo de suco de
pêssego a boca. Talvez ele tenha imaginado que o
copo poderia me tirar a atenção para o que ele tinha
acabado de dizer. Será que eu havia sido convidado
para o casamento, e estava de viagem marcada para
os Estados Unidos e não sabia? Mas será que eu
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queria isso, poderiam ao menos me consultar antes


de tomar uma decisão dessas. Fiquei me imaginando
como um bombeiro enviado para dentro de um prédio
em chamas, onde não haveria volta sem ao menos
se queimar. Eu não queria me queimar. Já havia me
queimado a cada dia que acordava e sabia que não
seria mais chamado de Oliver. Engoli a seco todas
as suposições, e ainda incrédulo imergi novamente
meus olhos sobre minha mãe.
— E como faço isso, sem que eu vá até lá pessoal-
mente? — Perguntei mesmo sem saber qual seria a
resposta.
— Elio.... — Ele olhou para mamãe como se pedisse
ajuda com as palavras. Mas sem sucesso. — A situ-
ação não mudou nada. Obviamente as variáveis po-
dem ter sido alteradas. Estamos aqui para o que você
precisar. Você é nosso filho e nós te amamos! — Ele
segurou as mãos da mamãe, como se buscasse no-
vamente uma ajuda com as locuções e verbos que
me rodeavam como um lobo em volta do cordeiro.
Mas esse lobo, talvez pela pouca experiência em dar
botes ou no caso do papai em dar conselhos, me deix-
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ava ainda mais perdido. Supus por segundos que


uma tragédia havia acontecido e que não seria mais
necessário enviar presentes. Senti um aperto tão forte
como se uma saca de pêssegos houvessem sido jo-
gadas sobre minhas costas. Meus olhos atendendo as
suplicas do meu coração já apresentavam um brilho
peculiar. Um brilho igual aquele de quando voltei da
estação de onde Oliver deu o seu último olhar em de-
vaneio pela janela do trem antes do apito de partida
da condução. — Ele está bem! — Completou ele,
ao perceber que aquilo havia acendido um fagulha
dentro de mim.
— Mon cher. Cela vous dérange-t-il de renoncer
à votre chambre? — Fui perguntado se me impor-
tava em ceder novamente meu quarto? Ainda era
início de primavera e a substituta apenas chegaria
no verão. Já havia parada na metade de um pedaço
de torta de damasco da mamãe. Eu já havia criado
uma esperança dentro de mim. Será isso que estou
imaginando? Ele voltaria apenas para uma visita
antes do casamento. Seria algo relacionado ao livro
publicado recentemente na versão italiana e por isso
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conseguiria passar um dia aqui em casa.


— Elio. Amanhã teremos novos convidados para
o almoço... Eu sei que sempre tem, mas estes são
especiais. E você sendo um garoto muito bom e gentil
será cavalheiro e respeitoso. — Ele me olhou como
se eu não fosse tudo aquilo que ele achava que eu
deveria ser. — Oliver estará conosco por dez dias a
partir de amanhã ... — Ele continuou. Suas palavras
foram cessando pouco a pouco. Eu via seus lábios
se mexendo, mas não houvia palavra alguma. Um
tsunami de sensações me foi consumindo pouco a
pouco, e eu estava feliz por saber que ele estaria de
volta. Eu poderia chamá-lo de Elio uma vez mais, e
ele a mim de Oliver. — Elio, Elio, Elio ... você me
ouviu? Entendeu a situação? — Me interrompeu
novamente papai, sem conseguir entender o final da
conversa.
— Oui, oui! — Acenei que sim, com um dez avos
de um sorriso.
— Ok, precisamos então que você troque de quarto
ainda hoje, para que Mafalda possa organizá-lo para
amanhã. — Papai olhou para mamãe, informando
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dos procedimentos que eu deveria fazer ainda hoje.


Mamãe olhou novamente para ele, e com um sorriso
de gaiato levantou os ombros como que como uma
sugestão de O que há de ser, será.
Depois do café fui ao jardim, estendi uma pequena
toalha na grama meio molhada e ao som de Bhá em
meu walkman fiquei imaginando como seria quando
o visse amanhã. Como naquela primeira noite a meia
noite quando ele me pediu para crescer e encontrá-lo
em seu quarto na surdina, e que ao abrir a porta eu
não sabia se o abraçava ou apenas apertava a sua mão.
Talvez se eu apenas apertasse a sua mão amanhã, e
simplesmente agir como no primeiro dia do verão
passado quando veio passar uma temporada aqui.
Um abraço seria muito, quase que uma abuso sexual
considerando as condições passadas. Não sabia como
reagir na frente dele, será que ao menos um abraço
como de duas pessoas que acabaram de se conhecer
era o suficiente. Ele ficaria sem graça na frente dos
meus pais, até porque eles já sabiam de nós.
Naquela noite que antecedeu o seu retorno, me
mudei para o antigo quarto do meu avô. Mas sem
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

antes levar o travesseiro que me fazia lembrar dele


todos os dias. Essa noite eu sonharia com ele envolta
de mim, me abraçando como nas noites que passamos
juntos em Roma, antes do seu retorno aos Estados
Unidos. Eu senti naquela noite um calor tão grande,
me mal pude pegar no sono. Apenas sentia um tom
de calmaria no ar, como seu eu tivesse num campo de
camomila que recebia uma pequena chuva de verão
e o vapor que subia da terra molhada aromatizava
toda campina. Imaginava como diria para Oliver que
a sua essência ainda fazia parte de mim, muito mais
que aquela essência que ele limpou do seu peito com
sua camisa e depois me entregou para me limpar. Já
imaginava em deixar a porta aberta a noite, pois sabia
que ele iria me procurar. Deixaria ele o primeiro passo
de tudo. Eu poderia propor para que dividíssemos
o quarto, a mesma cama, o mesmo lençol, o mesmo
ar. Já que meus pais já sabiam de nós, não haviam
motivos para não ficarmos juntos. A enxurrada de
suposições me jogaram num poço tão profundo, que
quanto mais eu afundava mais me sentia como se
um hipnotizador tivesse balançando aqueles relógios
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antigos na frente dos meus olhos, dizendo você está


pegando num sono profundo.... Dormi.

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Chapter 2

Convidados
inesperados

Naquela manhã da chegada de Oliver acordei tão


cedo que nem mesmo os primeiros raios adentravam
pela semi aberta janela de acesso a varanda. Levantei
como uma pena para não fazer barulho e fui até o rio,
onde eu sabia que naquele horário ninguém ainda
haveria de aparecer. Fiquei sentado numa das mar-
gens, encostado em uma árvore até porque a água

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estaria muito gelada para um mergulho. Tentei deco-


rar um discurso de recepção. — Senti sua falta. Que
bom que voltou. Vamos andar de bicicleta? Até depois,
deixe sua porta aberta. — Eu não sabia o que aconte-
ceria. Apenas sabia que queria ficar junto dele, com
ele, perto dele, ser dele. Poderia escrever novamente
um bilhete e jogar pelo vão da sua porta. Por favor
não me ignore, eu não suporto imaginar que não gosta
de mim. Por favor, fale comigo. Imaginar como ele me
receberia, por si só, era uma tortura. Oliver poderia
simplesmente me ignorar e fazer de conta que nada
tinha acontecido. Isso me mataria de dentro para fora.
O tempo foi passando e aquilo mais me consumia e eu
sabia que somente imaginar as diferentes maneiras
dele me receber apenas me tirava a calma e paciência.
Depois do café, eu já estava muito apreensivo com
a chegada dele. Tinha esquecido tudo o que tinha
imaginado e decorado em dizer. Ele poderia chegar
a qualquer momento, e não sabia o que dizer. Estra-
garia tudo quando eu o visse e provavelmente en-
traria colapso surreal, em pânico. Provavelmente eu
sairia correndo como uma criança que quando faz
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

traquinagens e a mãe o chama pelo nome por in-


teiro. Eu já estava no antigo quarto do vovô quando
houvi, meio que distante, um barulho de um veículo
se aproximando. Era ele.
Como no primeiro dia, mas hoje Marzia não estava
lá, fui até a varanda onde sabia que o táxi logo abaixo
encostaria. Meu pais já estavam no jardim a espera
de Oliver. Num instante pensei em descer também
e agir como um bom anfitrião, mas se fosse, talvez
ele achasse que eu estaria desesperado em vê-lo e
não queria deixar isso transparecer tão claramente.
O carro foi desacelerando calmamente e meu coração
foi em sentido totalmente contrário, e eu conseguia
senti-lo batendo mais e mais. Quando o táxi parou,
eu respirava tão rápido como se o ar tivesse sido
acabado de toda Itália. A parta abriu. Explodi por
dentro. O vi saindo calmamente do carro. Ele abriu a
porta, e mantendo a mão direita sobre a porta colocou
primeiramente a perna direito para fora. Ele sabia
que ali logo acima ficava meu quarto, e supliquei
por favor me olhe. Me de um sinal que ainda sente
algo por mim. Estou suplicando, me olhe, me olhe,
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

me olhe. Antes que ele colocasse todo o corpo para


fora por completo ele buscou como que num olhar de
uma leoa faminta nas pradarias da África, olhou em
minha direção. Foi como eu tivesse levado um soco
no estomago. Ele estava me encarando, me olhando
tão profundamente que pude sentir por um segundo
todo o cansaço que ele sentia da viagem. Ele não
havia mudado em nada. O seu cabelo loiro brilhava
com os raios de sol que já iluminavam o jardim. Usava
uma camisa verde sob um moleton azul e um jeans
que combinava com os seu tênis estilo americano
esportista. Eu queria gritar para todos lá embaixo,
dizer o quanto eu estava feliz com o retorno dele,
dizer a todos o quanto eu gostava dele e que não
havia o esquecido nenhum dia desde a partida dele.
As palavras não saiam. Cada lágrima por ele caída
seriam extintas. Sinalizei em abrir um sorriso, mas
antes que isso pudesse acontecer ele desviou o olhar
em direção a outra porta do táxi.
— Oli. Oli. — Ao lado da outra porta uma moça
chamava por um Oli. Quem é Oli? Procurei, tentando
não acreditar no que já sabia do que se tratava, talvez
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

mais alguém perdido dentro do taxi, ou até mesmo


alguém que já tivesse descido e que não percebi pois
estava me afogando no brilho do olhar do Oliver.
Da varanda me emergi num caos de lembranças.
De cima vi Oliver, Oli, cumprimentando primeira-
mente papai com um abraço e um beijo no rosto. Eles
riram. Em seguida um abraço na mamãe. Logo depois
a moça veio e abraçou-os também após uma breve
apresentação de Oliver. Todos riram juntos agora,
até mesmo o motorista do táxi que deixava a última
mala no chão para que Anchiese pudesse levá-la para
dentro. Simplismente eu não estava acreditando na
situação que estavam me envolvendo. O porque ela
estava aqui? Todos os meus planos e desejos estavam
arruinados completamente. Indo em direção a porta
principal, papai gritou pelo meu nome. Mas imagino
que ele tenha me visto lá desde o começo. Oliver já
não mais me olhava, nem de relance, significaria que
ele já não sentia mais nada? Tinha que descer até o
salão principal onde sabia que todos estariam a minha
espera. Ainda na escada, um mal persentimento me
envolveu tão distintamente que quase recuei para
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

evitar o constrangimento de estar na frente de to-


dos. Lentamente fui descendo e evitando chamar a
atenção da minha presença. Quase na metade da es-
cada quando ainda olhava para chão virei em direção
a todos que já estavam me olhando e esperançosos
pela minha entrada, meu olhar fixou nos deles. Uma
força sobrenatural apenas me conduziu aos olhos de
Oliver. Não via mais ninguém. Enquanto eu o olhava,
um sorriso se abriu em seu rosto. Um sorriso gritante,
um grito de Estou devolva pra você venha aqui e me
abrace, me abrace, me beije.
— Elio. Venha conhecer a noiva do Oliver. — A
noiiiivaaaaa dooooo Ollliiivveerrrrr. Senti o tempo es-
paço desacelerar quase que instantaneamente. Cada
sílaba e vogal se repetia como numa ópera eterna,
e eu supliquei a tudo que era mais que sagrado que
aquela palavra noiva não chegaria a ser dita. Não
apenas o espaço tempo tinha desacelerado, o meu
corpo também reagiu em igual intensidade. Naquele
momento fez sentido as leis de Newton que tanto
ouvia na escola, que para toda ação há uma reação
contrária. Aquela era a minha reação. O sorriso de
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

Oliver de repente se tornou quase que como um de-


boche. Eu parei no último degrau, e coloquei a mão
sobre o corrimão como se pudesse cair do degrau.
— Buongiorno, Elio. Ouvi muito falar de você.
Eu sou Emma. — Interrompeu a moça antes que eu
pudesse cair do meu degrau de cinco metros imag-
inário.
Me aproximei dela, estiquei minha mão num ato
quase que obrigatório. Ela retribuiu. Quando a toquei
apenas imaginei que depois de mim, aquelas mãos
sujas o tocaram por muito mais tempo que eu. Senti
um semi conforto, pois foi o mais perto do corpo
dele que estive depois do seu retorno aos EUA, mas
senti uma agonia em saber que não eram as minhas
mãos a tocá-lo nas últimas semanas. Ela era uma
moça pouco mais baixa que ele, de olhos azuis e de
cabelos castanhos e longos. Se percebia que pela sua
estatura física que praticava algum tipo de esporte,
provavelmente corrida como Oliver.
— Piacere di conoscerti. Eu sou Elio. — Menti
descaradamente. Não fazia sentido me apresentar, al-
guém, ele, já havia me apresentado mesmo antes dela
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

me conhecer. Eu a odiava. Queria ela fora dali o mais


rápido possível, e sozinha de preferência. Imaginei
quer que eu chame seu táxi?
— Eu sei quem você é. Alguém aqui não tem um
dia que não fala de você. — Disse ela, buscando com
o braço a mão esquerda de Oliver, que me olhava
como se tivesse fazendo um favor lembrado de mim
para a usurpadora dele.
Até aquele momento, uma última fagulha de es-
perança pairava sobre a origem de Emma. Rezei tão
rápido dentro de mim, para que ela fosse alguma
agente literária ou até mesmo a esposa do taxista.
Ouvir soar a palavra noiva me emergiu em tempo
nunca vivido, em tempos onde o sentimento e a dor
simplesmente existiam para me amedrontar como
nos dias de trovão. Saber que ele a trouxera aqui
era como esfregar, quase que literalmente, na minha
face que ele já havia se esquecido de mim, que ele
havia superado rápido a minha ausência. Esquecido
de tudo. Talvez ele tenha achado que eu já tinha me
comprometido com Marzia, ou até mesmo noivado
com ela por raiva dele. Desde a última vez que con-
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

versamos na véspera de Natal, ainda inverno, ele me


disse que lembrava de tudo, mas que iria se casar.
Ver o sorriso dela, acariciando o braço dele me fez
sentir milhares de borboletas no estômago, mas es-
sas borboletas não eram como aquelas que eclodem
após a metamorfose do inverno para primavera em
cores vivas e esplendorosas, mas sim borboletas ne-
gras quase sem vida que se debatem desproporcional-
mente como se os próximos segundos completassem
a sua pequena jornada da vida.
— É bom lhe ver novamente. Pensei que não lhe
encontraria aqui Elio. — Interrompeu Oliver o meu
dançar das borboletas zumbi dentro de mim. Ele foi
tirando o braço dele ainda entrelaçado nos braços
de Emma e me estendendo a mão para o que mais
parecia um aperto de pena. Ele deve ter pensado,
Aproveite esse aperto, é o máximo que terá de mim. Eu
queria tocá-lo, eu quero, é o que mais desejo, daria
a vida por isso, mas sabia que uma aproximação as-
sim tão íntima me faria querer mais. Eu não podia
negar a mim mesmo, que ainda gostava dele, e muito,
e que não houve um sequer dia que não pensasse
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

nele e como fui feliz enquanto ele esteve aqui. Não


posso tocá-lo! E antes que ele pudesse estender a
mão por completo já fui segurando uma das malas
que estavam ao lado dele.
— Para o meu quarto, como sempre? — Ques-
tionei já olhando para mamãe que com um olhar de
serenidade concordou com um pequeno piscar de
olhos.
Ainda haviam mais duas malas maiores e que
provavelmente teria que realizar mais de uma vi-
agem para que pudesse levá-las totalmente para
cima. Mamãe já pegando pelos braços de Emma a foi
puxando para a sala de visitas perguntando de como
tinha sido a viagem e como estavam os preparativos
para o casamento. Meu pai as seguiu lentamente.
Oliver fez menção em acompanhar mas disse que
ajudaria com as malas. As duas já haviam entrado
na sala principal e meu pai havia parado logo abaixo
do caixilho depois que ouviu Oliver se oferecendo
para ajudar com as malas. Ele me olhou como poucas
vezes o vi me olhar. Peguei uma das malas, e Oliver as
outras duas começou a me acompanhar pela escada.
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

Já quase na metade da escada lembrei de meu pai,


que ainda me seguia pelos olhos, observei depois de
voltar a olhá-lo. Aqueles olhos diziam muita coisa,
hora dizia para tomar cuidado, hora para não criar
expectativas, hora para não ser rude, tive uma aula
de sentimentos apenas com olhares dele. Ele ficou ali
me seguindo, olhei para traz e vi Oliver olhando para
o papai que ainda não havia percebido que Oliver o
encarava assustado.
— Não se preocupe Professor Perlman. — Tran-
quilizou Oliver já chamando atenção de meu pai que
ainda me lançava sermões pelos olhos. Eu olhei para
Oliver como se quisesse maiores esclarecimentos.
Quem é ele para decidir isso por mim.
Papai tentando se esforçar em entender tudo aquilo
entrou na sala de visitas logo que percebeu que o
assunto já havia me afetado. Continuei a subir em
direção ao meu quarto, ao quarto dele, ao quarto de-
les, ao nosso não quarto. Em frente a porta principal
parei como se algo tivesse se materializado na minha
frente. Um ar gélido imergiu por todo o corredor e
os meus pés tinham endurecido subitamente sobre o
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

assoalho que ainda fazia barulho ao pisar. Ver aquela


porta me trouxe um turbilhão de imagens e cenas.
Eu olhava cada fresta daquela porta tão calmamente
como se fosse uma obra de arte colocada numa ex-
posição ao lado do quadro da Monaliza no Luvre, em
Paris. Lembro do dia em que a meia noite bati em sua
porta, e ele me convidou para entrar, e eu consenti en-
trando entre as pontas dos dedos para evitar barulho
que Mafalda pudesse especular no outro dia. Lembrei
do dia pela manhã, depois de irmos no rio, em que ele
se ajoelhou na minha frente e pediu para que abaix-
asse o calção. Lembrei dos dias que passei esperando
por ele, nas noites em que Oliver bancava o traidor.
Entrar naquele quarto, não era o mesmo que entrar
ontem. Hoje aquele quarto significava muito mais.
Era como se fosse um templo sagrado destinado a
somente dois corações... os nossos corações... Oliver
e eu. E agora o nosso templo seria blasfemado por um
novo visitante, uma nova visitante, uma usurpadora.
— Elio. Elio. — Percebi que ali havia ficado por
alguns segundos admirando a porta, quando ele me
interrompeu. — Precisa de ajuda, com a porta? — Ele
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

estendeu a mão tentando buscar a maçaneta. Fui mais


rápido, e como num ataque de um camaleão a um
gafanhoto distraído, coloquei a mão sobre a maçaneta.
Ele percebeu, exitou e assim evitou o contato que eu
havia evitado minutos antes na recepção do casal.
Abri a porta e segui em direção a janela do quarto
onde posicionei a mala que carregava. Enquanto,
lentamente colocava-a sobre o chão, observei que
Oliver havia parado em frente a cama. O seu olhar
foi se perdendo como se fosse um barco a deriva no
oceano que se perde no horizonte até que só reste
a imensidão do mar. Ele olhava cada pedacinho do
quarto vagando entre as curvas das vigas e na pintura
já gasta pelo tempo. Ele olhou para o teto como se
fosse um céu de estrelas, e por um momento pensei
ter visto ele contar as estrelas que ali nem existiam,
foi descendo o seu olhar entre os quadros da parede
e pairou sobre a cama. Ele olhava tão fixamente para
cama, não como estar prestes a deitar, mas sim como
alguém que no alto de uma falésia observa o por
do sol no crepúsculo com tanta admiração e prazer.
Aquele olhar parecia tão sereno, tão calmo, tão real,
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

tão Oliver que eu não queria interrompe-lo. Pensei:


foi aí que me entreguei a você, foi aí que eu disse que
você me mataria se você parasse, foi aí que os melhores
dias da minha vida foram guardados. Seus olhos ainda
estavam longe, tão longe que quase pude sentir o
cheiro de água salgada do mar de lembranças que ele
estava se afogando. Eu poderia ajudá-lo, mas quis
que ele se afogasse. Queria que ele sentisse a dor que
senti quando ele foi embora. Se eu pudesse eu mesmo
o afogava, mais e mais. Ele piscou duas vezes antes
de se virar para mim, como se ele tivesse saído de
um transe quase que catatônico, fez uma expressão
ainda não catalogada nos livros de expressões faciais,
e disse.
— Sem discursos. — Disse ele alto e em bom tom,
antes de deixar cair as malas e sair pela mesma porta
que havia entrado. Levou as suas mãos cabeça que
se desejasse se livrar de alguma lembrança que não
havia gostado e a quisesse descartá-la. Assim como
fizera comigo.
Eu tinha que saber o significava tudo aquilo. O
porque ele estar aqui na Itália. Porque esconderam
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

de mim? Porque ele a trouxe? O que ela significava


para ele? E eu?
— Eu me lembro de tudo. — Eu disse, ainda quando
ele passava por debaixo da porta. Ele desacelerou,
como se fosse se virar e me responder algo. Ele con-
tinuou, ainda que mais lento. — Eu me lembro de
tudinho. — Reforcei para ter certeza que ele tinha
entendido da primeira vez. Ele parou. Ficou parado
por alguns segundos, mas não me olhou.
— Cresça. Somos amigos. — Ele disse ainda de
baixo da porta e voltou em sentido a escada e sumiu
do meu raio de visão.
Eu pude sentir que ali onde tudo havia começado
havia sido enterrado de vez. Ele dizer que eu deve-
ria crescer representava não somente um figura de
linguagem para eu criar maturidade, mas também
para que eu pudesse entender que nem tudo na vida
era possível. Ver ele saindo sem ao menos me olhar,
selou abaixo de sete palmos de terra toda e qualquer
esperança de um dia poder olhar em seus lindos ol-
hos e dizer tudo o que eu sentia. Um vazio foi se
instalando lentamente, foi retirando toda a esperança
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

e a vontade de sentir alegria novamente. Me senti


naquela tarde quando no sótão ele me acordou sobre
um colchão velho e me desafiou ao saborear a minha
inocência sob um pêssego, e eu num gesto desesper-
ador caí em lágrimas e supliquei que ele não fosse
embora. Ele virar as costas para mim representava o
fim de tudo.
Após poucos minutos desci para a sala de visi-
tas onde todos, até mesmo Mafalda que degustava
de uma xícara de chá, estavam ainda eufóricos pela
chegada das visitas inesperadas. Inesperadas para
mim, pois eu sabia que meus pais já sabiam deles. Me
aproximei ainda sem reação e rumo a tomar do sofá
onde mamãe conversava com Emma, e ao lado dela
o traidor. Papai em uma poltrona afastada balançava
a cabeça e esboçava um sorriso gentil. Ele estava na
poltrona favorita do vovô, que pouco antes da sua
morte, passava muitas horas naquela poltrona e que
hoje era a favorita do papai. Me aproximei lenta-
mente dele, e sentei sobre um dos braços da poltrona
de forma que o meu rosto ficasse virado para Emma
e Oliver. Papai me olhou como se não tivesse gostado
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

a atitude, que de certa forma era grosseira e desre-


speitosa com as visitas, mas mesmo assim sentei para
pedir esclarecimentos.
— O que eles fazem aqui? — Perguntei baixinho.
— Eles? ... ou somente ela? Diga o que você quer
saber exatamente. — Papai respondeu.
— Eles. — Respondi. Mas na verdade me enfurecia
o fato de ela estar ali. Somente ela. Meu pai estava
bom em adivinhar as coisas sobre mim.
— Amanhã conversamos...
— Elio você toca piano, não é? Não vejo a hora de
poder ouvir. — Interrompeu Emma o que o meu pai
concluía meio que pela surdina somente a mim.
— Sim um pouco. — Respondi olhando para Oliver.
O que mais ele tinha dito a ela sobre mim. Será que
ela me conhecia tão bem assim ao ponto de saber do
que gostava e não gostava. Sabia ela de fato do que
realmente eu gostava. De quem eu gostava?
— Teremos tempo Eli-Belli, e eles provavelmente
estão cansados.
— Sim estamos. Nos desculpem Professor e Sra.
Palman. — Disse Oliver já se levantando.
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

Todos se despediram desejando boa noite e se di-


rigiram aos seus quartos. Fui a frente rapidamente
em possibilidade de não ver os dois entrarem jun-
tos no meu templo sagrado. Já em meu improvisado
quarto ouvi quando a porta deles bateu em seguida
da porta do banheiro que deveríamos compartilhar
pelos proximos dias. Deitei sobre a cama e procurei
não imaginar se eles já haviam se deitado também. O
cisco no olho ainda perdurava a incomodar.
Pela manhã percebi o quão diferente era acordar no
meu não quarto. Eu sabia que estar ali representava
que ele estaria no meu quarto, porém com ela. Nos
encontramos na mesa do café, onde Oliver e Emma
já haviam iniciado a contar sobre os preparativos da
festa. Sentei ao lado da mamãe e quase de frente com
Emma, como num duelo entre cowboys prestes a dar o
primeiro tiro. Ela me olhou assim que sentei, mas não
disse nada além daquele calmo e singelo. Me servi de
uma xícara de expresso e um pedaço de torta de maçã
que aparentava ter sido feita mais cedo. Enquanto
buscava pela torta, lembro de ter aproximado com a
mão próximo a Oliver. Ele estava lá, assim como no
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

segundo dia do verão passado que me ofereci para


acompanhá-lo ao centro da cidade para abrir uma
conta. Ele me olhou, e eu retribuí, mas logo depois
ele desviou ao que meu pai dizia sobre como ir até
Roma.
— Pensei que ficariam somente até hoje. — Iniciei
o interrogatório. Mesmo sabendo que eles ficariam
por dias.
Minha mãe como numa reação espontânea e
largando o copo de suco, que parecia ser de laranja,
me corrigiu e dando um certo ar de equívocos desen-
contrados.
— Esqueceu que dissemos ontem sobre Oliver e
sua noiva ficarem aqui por alguns dias?
Eu os olhei, e naquele momento entendi que o que
papai tinha tentado dizer no dia anterior era que ele
teria que ficar por alguns dias conosco.
— Ah sim, havia esquecido. Me desculpem!
— Mas Emma, o que espera fazer mesmo em Roma
nesses dias? — Perguntou papai.
— Meu pai possui uma vasta rede hoteleira no
Estados Unidos e recentemente ele iniciou a expan-
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

são pela Europa. Nessa primeira etapa adquirimos


dois hotéis em Roma, e eu estou responsável pela
coordenação de operação inicial dessas filiais...
Enquanto Emma falava o quanto a sua vida
tinha um propósito, observei que Oliver havia in-
terrompido seu último pedaço de torta de maçã e
agora rodeava um pequeno livro vermelho entre os
dedos da mão esquerda enquanto que com a outra
mão fechada posiciona próximo a maçã do rosto. Ele
estava longe, muito longe. O Oliver que eu ali assistia
na mesa não era o mesmo da noite anterior. Aquele
Oliver tinha uma expressão de solidão, como se algo
verdadeiramente faltasse a ele. Eu sabia que ele iria
se casar logo logo, então imaginei que talvez fosse
isso, que ele sentia falta de Emma como esposa dele.
A linda história de vida e conquistas de Emma es-
tava fazendo algum sentido. Sentido do porque ela
tinha vindo para Itália. Mas ainda não estava claro
do porque ele havia trazido ela para B. Se era apenas
uma visita de passagem, o porque eles iriam ficar três
semanas conosco. Ainda faltava muito tempo para
a nova hóspede chegar no verão seguinte, então o
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

que poderia ele ter perdido em B. Ele poderia ter se


arrependido ou sentido saudade dos rios e das ruelas
do centro de B. Pensei que talvez pela falta de din-
heiro eles preferiram vir para B. e economizar para o
casamento. Mas essa hipótese caiu em poucos segun-
dos de imaginação, já que o pai de Emma aparentava
ser rico ou até mesmo milionário.
Enquanto Emma ainda falava pelos cotovelos
aproveitei para me aproximar de Oliver. Não era
uma aproximação física mas sim sentimental. Trocar
algumas palavras olhando em seus lindos olhos azuis
poderia saciar as minhas intensões deixadas para trás
quando ele partiu. Um sorriso caiu do meu rosto
enquanto ele ainda olhava calmamente no livro que
ainda rodava entre os dedos. Olhei para ver se alguém
havia percebido. Mamãe e papai ainda ouviam Emma.
Quando voltei os olhos para Oliver, e assim continuar
a admirar cada expressão do seu rosto de pensamento,
até mesmo os dedos dele tinham uma magia que me
faziam me perder em pensamento. Quando voltei
para o seu rosto, ele estava ali na minha frente me
olhando. Pensei em desviar o olhar e me refugiar em
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

qualquer outra coisa na mesa, mas já era tarde e já


havia me perdido nas luzes que refletiam do seu olhar.
Tentei virar o rosto, mas o meu olhar se manteve per-
dido nos dele. Ele me olhava como se quisesse dizer
algo muito importante, importante como eu sei no
que está pensando. Mesmo ele imóvel e me fixando
profundamente senti como se ele se levantasse e se
aproximasse de mim lentamente subindo pela mesa,
enquanto todos ainda ouviam Emma. A sua mão se
aproximou do meu rosto lentamente, e colocando-
a tão macia e gentil no meu pescoço percorreu até
a minha nuca. Ele ainda me olhava, e eu o olhava.
Ele acariciava meu cabelo, subindo e descendo os
dedos entre os fios de cabelo que um dia sentiram
essa sensação poucas vezes. Ele foi se aproximando
ainda mais, mais e mais, e quanto mais perto ele
chegava mais eu sentia ele apertar os meus cabelos
entre seus dedos. Seu lábios estavam tão próximos
que me permitia até sentir no meu rosto o calor da
sua respiração. Aquele calor vindo da sua boca, se
espalhou pelo meu rosto alimentado pelo brilho azul
da sua iris. Ele se aproximou ainda mais. Eu sentiria
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

aqueles lábios nos meus novamente, senti meu peito


enchendo com aquele desejo de estar com ele que se
alimentou das lembranças que Oliver deixou. E antes
que pudesse sentir o doce beijo, o pequeno toque
da sua carne na minha, ele me olhou novamente da
cadeira em que estava quase na minha frente e sorriu.
Tentei voltar ao que mais parecia uma lembrança do
passado em que ele quase selava o que mais o meu
corpo desejava, mas me vi sentado ali na frente dele.
Senti meu rosto quente esfriar lentamente. Passei
minha mão na nuca como se procurasse vestígios
do que tinha sido uma peça pregada pelo meu de-
sejo, a mão dele não estava lá. Aquele sorriso me
atordoou completamente, eu já não sabia mais onde
estava, ou com o que, ou fazendo o que, e que horas
eram, eu estava me perdendo. Meus olhos foram se
fechando, como nas cortinas no final de uma peça, e
como se estivessem cansados foram se lubrificando
pouco a pouco. Ele percebeu e parou de girar o livro
entre seus dedos, e antes que a primeira gota pudesse
rolar livremente na colina da minha tristeza ele me
estendeu seu guardanapo.
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

— Elio, Elio. — Estendendo o guardanapo e me


oferecendo. — Seu nariz, sangrando.
Eu ainda não tinha processado o que ele tinha dito.
Ainda sentia o color que saia da sua boca e do beijo
que eu iria receber ali mesmo na mesa. Ele mais uma
vez me destruindo por dentro, e neste ponto eu já
me perguntava se eu o deseja novamente perto de
mim. A presença dele estava me afetando de um jeito
tão intenso que não me confundia entre a realizada e
o imaginário. Desde a partida de Oliver, eu passava
as noites pensando nele e o quanto o desejava ao
meu lado. Ele estava de volta, mas agora eu o queria
longe de mim. Aquele desejo ainda continuava, mas
agora esse desejo vinha acompanhado de um energia
negra. Se ele não voltou por mim, porque foi então?
Queria ler as linhas da mente de Oliver, andar pelas
pensamentos dele desejando encontrar no final do
caminho encontrar, mesmo que fosse, uma casinha
pobre e que dentro dela repousava serenamento toda
e qualquer lembrança minha. Ele voltar e trazer a sua
pretendente, e ainda trocar caricias e apertos com ela
não estava certo. Ver no sorriso dela todo o deboche,
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

mesmo ela não sabendo, que ela tinha sido a escolhida


ao invés de pobre garoto de dezessete anos que se
entregou a ele. Simplesmente não estava certo.
Senti aquela gota descer a montanha. Ela desceu
como numa avalanche que destrói tudo que esteja
em seu caminho até que nada mais sobre além de
destruição e morte. A minha tristeza da partida dele
meses antes hoje andava de mãos dadas com a agonia
de velo mas não telo.
— Elio. O nariz — Ele ainda estendia o guardanapo.
Seria aquilo um mero gesto de caridade comigo.
Poderia ele imaginar que talvez me oferecendo o
guardanapo mostraria o mínimo de pena por mim.
Naquele momento minha mente se via numa tempes-
tade de ironias e suposições, e sem pensar nas conse-
quências seguido num gesto de aceitar o guardanapo
ainda suspenso nas mão dele, dei-lhe um tapa que fez
o guardanapo cair sobre a jarra ainda com metade do
suco. Já não mais me importava com o sangramento
do nariz, apenas sentia uma amargura profunda no
que tinha acabado de fazer. Não era isso que eu de-
sejava fazer, muito pelo contrário era o aposto. Eu
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

queria aceitar o guardanapo, o que representaria não


somente a preocupação dele mas a minha esperança.
O guardanapo já afundava dentro da jarra e não se
mais ouvia a tagarela do dia. Todos me olhavam as-
sustados, exceto Oliver que segurava a mão surrada
como se tivesse acabado de cortá-la com alguma coisa
afiada. Ele me olhou mais uma vez. Eu sentia meu
olhos cheios d’água, prestes a desmoronar de raiva.
— Elio. Che cosa succede! — Mamãe ainda incré-
dula com o que acabara de ver me questionou num
tom poucas vezes visto.
— Estou cansado disso! Farto — Falei baixinho
para que somente eu mesmo pudesse me ouvir.
— Explique-se agora mesmo.
Oliver me olhava e provavelmente não acreditava
no que acabara de presenciar. Meus olhos já estavam
imersos num rio de angustia, como num rio que der-
rete e desce a montanha após meses de inverno pro-
fundo. Cada lágrima que descia apagava uma lem-
brança dele. Lembrança do primeiro dia dele em B.,
o primeiro passeio de bicicleta, o primeiro nadar na
praia, a primeira dança, o primeiro toque, o primeiro
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

beijo, a primeira meia noite, o primeiro Até logo, o


primeiro dizer Oliver, o primeiro bater intenso den-
tro de mim... A avalanche Oliver estava destruindo
tudo. Ele fez um movimento como se fosse dizer algo,
pedir explicação ou desculpas, ou até mesmo sair da
mesa. Mas antes que ele pudesse continuar me levan-
tei e ainda olhando nele virei as costas e saí. Senti o
sangue empossar na camiseta, mas não me importei,
deixei.
Eu ainda saía quando percebi que ele tinha também
se levantado. Ele fez de me acompanhar, mas eu voltei
meu olhar a ele e como se eu dissesse Não me siga,
por favor! minha mãe interrompeu.
— Deixo-o. Eu falo com ele.
Ela me seguiu até meu quarto onde eu já procu-
rava algum pedaço de pano para limpar toda aquela
bagunça. Ela abriu a porta, e lentamente se sentou ao
meu lado na cama ainda desarrumada pois Mafalda
ainda se preocupava com o desejum. Ela me olhou,
e como se quisesse me confortar postou a sua mão
sobre meu ombro. Ela poderia ter me abraçado ali,
era o que uma mãe faria ao ver a sua prole pedir por
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

ajuda, eu só queria um afago.


— Imagino o quanto tudo isso possa ser difícil pra
você.
— Acho que foi o sangue — Me fiz de desentendido
e desconversei as reais razões das minhas atitudes
infantis.
— Tem certeza. Sabe que pode conversar comigo.
— Ainda dói. Queima por dentro — Disse baixinho
achando que ela não ouviria.
— Se dói e queima é porque você ainda sente algo.
Neste momento ela passou a mão de um ombro ao
outro de maneira que aquilo se tornasse um abraço.
Me puxando para mais perto dela, eu senti o calor da
sua compaixão. Nos olhamos mais uma vez fixamente
e me deixei levar pela inocência de um dia achar que
seria tudo diferente.
— Me sinto perdido, sem rumo, sem reação. Não
sei como reagir a isso — Desabafei.
— As circunstâncias da vida nos causam estran-
heza. Num dia estamos bem, mas no outro... Sabe
meu banbino. Quando ele veio para cá no verão, vi
uma oportunidade de você puder sair mais e interagir
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

mais com as pessoas. E quando vocês ficaram mais


próximos eu consegui perceber que algo tinha mu-
dado. — Ela ainda me segurava mas não mais fixava
seu olhos no meu.
— Em que eu mudei? Sou o mesmo — Respondi.
— Você conheceu o lado humano mais perverso.
Um lado que poucos tem o privilégio em conhecer
verdadeiramente. Porém ao conhecer esse lado o
preço a ser pago as vezes é muito alto. Basta saber
se você está disposto a pagar esse preço. Deixar de
explorar essa magia é fadar em uma vida sem gosto,
sem significado.
— O que importa toda essa filosofia, se eu o perdi.
— Não importa o quanto você se prepare para a
perda de alguém querido. Não importa quantos dias
ou semanas você levou para sossegar a mente... e o
coração... o choque é inevitável. E tem o golpe final,
quando vê a sua pessoa amada não está mais aqui.
— Mamãe me olhava penetradamente, mas com seus
olhos inundados como se lembrasse de algo, e que
aquilo que acabara de dizer lhe fizesse lembrar de
seu passado, ela continuou. — E mesmo que repita
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

para você mesmo dentro do seu peito que Ele se foi,


e junto com ele, milhares de coisas que deixavam a
vida maravilhosa e muito mais prazerosa. Foi embora
a ansiedade de esperá-lo no final da tarde com aquele
sorriso, foi embora a emoção de ouvir a voz dele pelos
cantos da casa, foi embora a sensação de ter a mão
dele ao pegar na sua, com o som da sua risada e o
color do sorriso dele.
Custava ouvir cada palavra daquela maneira. Eu
sentia cada palavra como o vislumbre de cada mo-
mento se tornando real.
— Mon, essa é a certeza arrepiante e paralisante
que ele nunca mais estará comigo? A certeza de que
eu nunca mais terei isso?
— Eu não sei Elio. Eu como mãe, gostaria de ter
todas essas respostas. Você é tão jovem, tanto pra
viver. Mas ver você assim também nos entristece.
Queremos o seu melhor, sempre!
Ela me abraçou forte. Mas eu apenas queria me
isolar, deixar ela me olhar daquela maneira não era
o que eu mais desejava naquele momento. Me deitei
sobre o travesseiro virado para a parede. Fechei os ol-
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

hos e senti tudo aquilo eu tinha perdido e que mamãe


acabara de me lembrar o sorriso, a voz, a sensação,
o toque, o som, o cheiro, tudo. Senti que ela inda es-
tava lá, com a mão sobre meu ombro, mas antes que
saísse um beijo de despedida selou a nova prosa. Eu
fiquei para trás, jogado em meus momentos, minhas
angustias, meu tudo.

Ainda me recuperando de tantas revelações acompan-


hei mamãe até a porta que dava acesso ao corredor
da escada. Papai e os convidados provavelmente es-
tariam a mesa ainda, e talvez preocupados se eu ainda
necessitava de cuidados mais específicos. A porta de
acesso ao corredor estava entreaberta o que permitiu
que eu pudesse ver uma sombra próximo a parede
oposta. Conclui que Mafalda já esperava pela opor-
tunidade de entrar e arrumar os quartos, mas antes
que eu pudesse concluir que Mafalda ali ainda es-
perava mamãe desacelerou logo a minha frente. Eu
ainda com olhos inchados. Ela parou e me olhou, não
pude ver Mafalda. Ela continuou permitindo que eu
pudesse me aproximar ainda mais porta, e abrindo o
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

meu raio de visão. Encostado na porta com os braços


cruzados e com a perna direita encostada na parede
velha estava ele, Oliver. Ao me ver ele se colocou di-
reito e pronto a pedir explicações. Eu sabia que devia
desculpas a ele, era o certo a ser feito. Ficamos os
três parados. Mamãe me olhou mais um vez, e como
num raio de chuva de verão seguiu até as escadas e
sumiu. Ela confiava no meu julgamento pessoal, e
sabia que eu faria o que seria certo. Me vi procurando
por Emma, talvez procurando por testemunhas do
meu crime. Ela não estava. Não consegui olhá-lo, me
senti envergonhado pelo desrespeito praticado. Ele
não disse nada. E como uma cobra sorrateira cerquei
com meu olhos todas das áreas de visão que poderia
utilizar sem precisar focar nele.
— Não sei o que houve. — Disse olhando para
o assoalho próximo aos pés dele. Ele deu um passo
a frente em minha direção. — Não sei mesmo. Me
sinto envergonhado. — Eu ainda olhava para baixo
quando ele deu mais um passo a minha frente. A
largura do corredor não era muito grande, então ele já
quase estava a minha espreita com apenas dois passos.
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

— Ufffff... — Fiz um gesto de auto descontentamento,


mesmo com ele muito próximo.
Ele estava pregado de pé na minha frente. Pude
sentir o cheiro dele, o mesmo deixado na camisa ja-
mais lavada depois do verão. Ele levantou o braço
e num gesto simplista posicionou dois dedos abaixo
do meu queixo e tornou a virar o meu rosto em sua
direção. Ele não o segurava, apenas acolhia a minha
pele sobre a pele dos seus dedos. Ele não pretendia
demonstrar dominação, mas apenas o cuidado de um
pai quando o filho se machuca no quintal e corre para
dentro de casa aos prantos. Me senti desprevenido
ali. Ele girou o meu rosto na sua direção, e mesmo
que não precisasse eu sentia que ele pedia esclarec-
imentos. Uma pausa instalou-se entre aqueles dois
mundos. Meus olhos estavam novamente inundados
de vergonha. Ele me olhou fixamente.
— Me desculpe. Sou mesmo um idiota. Você não
concorda? — Desabrochei nas palavras.
Ele não respondeu. Não disse que me desculpava,
tão pouco confirmou que eu era um idiota. Ele apenas
abriu os braços, e esperou. Estava ali algo que eu não
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

gostaria de dar a ele, o gosto da rendição em seus


braços. Seria possível que eu tivesse demonstrado
algo a mais, e num ato de conforto que estivesse me
oferecendo um apoio ele abriu os braços?
— Estamos bem, não é? — Ele disse ainda de
braços abertos, esperando uma resposta minha. As
palavras saim da sua boca como turbilhões de vento
da turbina de avião que bateram em meu rosto.
A breve brisa da sua voz fez até que o meu ca-
belo mexesse, mesmo que por milésimos de segundo.
Analisei o rosto de Oliver, imaginando o que tinha
mudado desde a última vez. Sua barba mal feita re-
alçava ainda mais os contornos de seus lábios, eles
estavam mais vermelhos que o habitual. Sua pele
menos bronzeada do pouco sol do último inverno
mostrava um Oliver diferente daquele de verão. Seu
cabelo era ainda o mesmo, com fios longos e loiros.
Eu me imaginei tocando-os, fio a fio. Ele se aproxi-
mou ainda mais, e eu pude sentir que se ele parasse
eu morreria ali mesmo. Não pare, supliquei dentro de
mim. Paralisei. Não consegui dizer nada, a proximi-
dade dele me tirou todo o vocabulário que conhecia,
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

não consegui me mover, o seu corpo consumiu as min-


has forças. Apenas senti um gosto amargo na minha
boca, entreabri meu lábios e percebi que era salgado
na verdade. Aquela lágrima me dedurou, ela mostrou
o meu lado humano perverso. Naquele momento
Oliver fechou os olhos lentamente, e num ato de en-
tendimento de que ele não receberia uma resposta
ao seu carinhoso, ou não, gesto começou a baixar os
braços. A minha chance estava partindo, e de braços
abertos. Mas antes que ele pudesse abaixá-los por
completo meu corpo curvou em sua direção. Como
uma árvore abatida na floresta que acabara de ser
cortada, meu corpo despencou ao seu. Meu peito no
dele, o dele no meu. Meu rosto em seu ombro, minha
maçã do rosto na sua pele. Eu senti seus braços se
fecharem às minhas costas, as suas mãos abertas nas
minhas vértebras. Ele desceu e subiu suas mãos como
se me envolvesse num manto sagrado. Eu estava no
paraíso, e ali eu repousaria pela eternidade envolvido
em seus braços. Não retribuí seu gesto, meus braços
largados ao léu simplesmente balançavam de um lado
a outro. Uma pequena possa salina pousava sobre
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

sua camisa, que eu a deixara ali.


— Me desculpe. Eu não consegui! — Confessei.
— O que? — Ele perguntou mesmo já sabendo a
resposta.
— Te esquecer. Sinto sua falta, ..., muito! — En-
quanto eu respondia, ele me envolvia ainda mais em
seus braços longos e quentes.
— Você continua dificultando as coisas para mim.
As coisas acontecem porque simplesmente aconte-
cem.
— Você a ama? — Engoli em seco a minha própria
pergunta.
— Eu deveria? — Ele respondeu num tom de auto-
questionamento. — Você ainda não disse se importa.
Isso lhe incomoda?
Eu chorava e alimentava ainda mais aquela possa.
Tudo ali estava perfeito, agora estava, pois meus
braços se fecharam em volta do corpo dele. Quando
isso aconteceu, eu senti que ele ainda mais me aper-
tava sobre seu corpo evitando que eu pudesse virar o
rosto em sua direção. Eu retribuí sutilmente aquela
força. Virei rosto lentamente, em direção ao pescoço
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

dele. Senti minha orelha mergulhar naquele possa


salina. Um aroma fraco saia daquela camisa, o mesmo
aroma de sempre. Ainda nos abraçávamos. E num
ato selene e de tranquilidade selei com um beijo em
seu pescoço toda a minha angustia. E antes que eu
pudesse selar ainda mais aquela angustia ele retirou
os braços de mim e segurou com as duas mão o meu
rosto. Ele me olhou com os olhos cheio de paixão,
agora inundados também, e como se fosse se entre-
gar ao desejo que o destino nos fadou inclinou meu
rosto para o lado direito e me beijou na bochecha
do lado esquerdo. Não foi um beijo qualquer, como
se fosse de uma mãe ao filho que acabará de escutar
uma história na cama e está pronto para dormir, mas
sim como se fosse uma troca de alma entre dois seres
irreais. Oliver era irreal, surreal, eu o idolatrava. E
antes que eu pudesse ver uma vez mais o seu rosto ele
virou o corpo, dirigiu-se a escada e também sumiu.
Naquele dia todos sumiram, cada um foi para um
lado. Mamãe e papai com os seus compromissos pon-
tuais apenas deram um até logo e disseram que não
voltariam para o almoço. Oliver e ela também sumi-
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

ram todo o dia. Pensei ter ouvido ele mencionar que


iram até o centro de B. onde havia um compromisso
na livraria. Eu imaginei em ficar em casa e criar uma
condição de conversar com ele novamente quando
ele voltasse. Aquele olhar emanado em lágrimas dele
não me saia da cabeça, aquele beijo ainda pressionava
sobre o meu rosto uma pressão imaginária recente.
Eu sabia que não poderia gerar expectativas em re-
lação a ele. Antes do café da manhã daquele eu tinha
uma semi raiva dele, mas depois como se ele tivesse
percebido e tentasse mudar esse panorama me beijou
no rosto, e agora eu já não sabia mais que estado eu
me encontrava. Odiá-lo era uma alternativa, a mais
sensata, mas algo ainda batia em mim. Uma batida
sutil e serena. Eu ainda me sentia dele, era o que eu
mais desejava. Para o jantar eles também não apare-
ceram. Ficamos somente os Perlman em um jantar
ao som da chuva que naquele final de tarde já trazia
um friozinho típico do norte da Itália.

O dia seguinte estava mais quente que o habitual.


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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

Acordei mais cedo e me dirigi ao salão principal onde


sabia que todos passariam para chegar até a copa
para o café matinal. Mafalda já estava de pé como
todos os dias pela manhã, em especial agora que está-
vamos de passagem por alguns dias. A última vez que
estivemos aqui sem ser no verão, foi quando o vovô
estava doente e ficamos as últimas semanas com ele
até o seu descanso eterno. Mafalda ainda não me vira
deitado no sofá, mas continuava a organizar a mesa
para o desejum. Fiquei olhando em direção a escada,
onde sabia que em alguma hora ele iria descer. Ouvi
a porta se abrir. Era ele!. Meus olhos se focaram ainda
mais no topo da escada para recebê-lo.
Infelizmente aquela alegria que se instalaria não
se perdurou por muito tempo. No topo da escada ela
apareceu em seu esplendor arrogante. Emma ainda
não havia percebido que eu estava ali no sofá, mas
quando me viu não mostrou surpresa alguma.
— Esperando alguém? — Ela perguntou já se sen-
tando em uma poltrona oposta ao sofá onde eu estava.
— Eu estava muito curiosa em lhe conhecer sabe!
— Ela exclamou sentando na poltrona e cruzando
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

as pernas como se fosse a presidente de uma grande


companhia que iria realizar um comunicado impor-
tante.
Suas palavras soaram como se tivesse me interro-
gando após um crime bárbaro que acabara de aconte-
cer e eu era o único suspeito.
— Não, não. Apenas desço aqui mais cedo e fico
pensando em coisas. — Menti descaradamente.
— Ah tá... só pensei que talvez estivesse esperando
alguém. Seus pais, obviamente.
Um tom de sarcasmo escapou por entre seu lábios.
Ela obviamente estava me interrogando por causa do
Oliver. Comecei a imaginar muitas coisas, e uma de-
las é como ela tinha descoberto. As suposições eram
muitas como: minha mãe avisou ela já no primeiro
dia que eles tinham chegado; ou Oliver tinha con-
tado a ela todo o nosso verão juntos, mas isso era
impossível; talvez eu ou ele tenhamos nos olhados
de forma diferente. Ficar imaginando não ajudou em
muito. Aquela conversa mais se parecia com um jogo
de gato e rato. Ela o gato procurando o rato usando
de artifícios baixos até chegar a sua presa, e eu o rato
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

me escondendo e me desvencilhando das armadilhas


de Emma.
— E como foi a sua viagem? — Perguntei para
fugir de um assunto mais perturbador.
— Nossa viagem foi maravilhosa. Viemos de
primeira classe!
A sua esnobação era clara em suas palavras. Ela
estava fazendo muito a questão de enfatizar que eles
estavam juntos. O que ainda mais me intrigava.
— E o seu verão aqui em B., muito bom? — Ela
disse abaixando os olhos em direção as pernas que
já não estavam mais cruzadas. Ela colocou as duas
mãos nos joelhos, e as trouxe fortemente até as coxas
e depois voltando. Ela me olhou mais uma vez.
Eu percebi que algo a incomodava, então levantei
lentamente me colando sentado no sofá. Era evidente
que ela sabia ou meramente suspeitava de algo, eu
trocava os olhares quando ela me encarava. Eu es-
tava com vergonha. Estava me sentindo parcialmente
mal pelo que havia ocorrido no verão. Ela me olhou
mais uma vez, se levantou e caminhou lentamente
até a janela com vista do jardim. Uma pausa foi dada
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

enquanto os passos dela ecoavam no salão principal.


— Você sabe porque estou aqui Elio? — Ela disse
ainda olhando pelo vidro da janela.
— Sei. Para a expansão da rede de hotéis da sua
família.
— Sim, .... — ouve uma pausa. Ela me olhou
diretamente. — Mas não.
— Então veio para conhecer o norte da Itália. Aqui
é muito bonito mesmo, não tanto na primavera como
no verão, mas bonito. — Entrei no jogo dela de gato
e rato. Eu estava fugindo.
— Preste atenção Elio. Eu serei bem clara contigo
... — Ela começou mas foi interrompida pelas vozes
da mamãe dando bom dia ao entrar no salão.
Suas palavras foram embora tão rápido quanto
chegaram. Seja lá que ela iria dizer, já não mais po-
dia. Mas sem antes eu perceber que de fato ela iria
iniciar um longo discurso. Me intriguei dos fatos
antecessores daquela conversar. O que seria claro?
As duas se cumprimentaram e mamãe me deu um
beijo na testa, já que eu ainda estava sentado no
sofá, ainda desacredito no que acabara de presen-
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

ciar. Aquela garota provavelmente iria me dar um


sermão, uma bronca ou algo assim. Era o que aquele
tom de voz se remetia para mim naquele momento.
Mamãe a puxou pelo braço em direção a copa onde a
mesa já estava posta, e o cheiro de chá de camomila
se espalhava pelo local. Sem antes entrar na copa,
Ema virou a cabeça e me deu um último olhar de
condenação. Aquele olhar representava um eu sei o
que você está fazendo, ou tentando.
Segui em sentido a copa, ainda imaginando o que
teria acontecido caso mamãe não tivesse chegado.
O que exatamente eu teria que prestar a atenção, e
que ela seria clara. Papai chegou logo em seguida,
cumprimentando a todos e se sentando a mesa já
com seu jornal da manhã em mãos prestes a ler as
manchetes do dia. Ele se sentou ao meu lado, e passou
a mão sobre a minha cabeça.
— Tudo bem Elio? — Ele me disse, acompanhado
de um olhar de Emma posta do lado oposto da mesa.
— Si, si... Je vais bien! — Sinalizei com a cabeça
que estava bem. Entreolhei e ví que Emma ainda me
olhava pelos contos dos olhos, mesmo a mamãe estar
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

puxando assunto com ela.


— E o Oliver? — Papai completou.
— Ah sim... Ele pede desculpas mas estaria no
banho e que já descia. — Ela respondeu dando um
certo ar de importância. — A noite estava uma mar-
avilha. Ficamos alguns minutos na varanda vendo as
estrelas. — Ela retificou me olhando mais um vez,
só que desta vez um sorriso perverso brotou da sua
boca. Imaginei ter visto um gota de veneno descer
enquanto ela se gabava de seu feito. Papai me olhou,
como se fornecesse algum consolo somente de me
olhar.
Poucos minutos depois ouvimos do salão principal
alguém descendo pelas escadas. Oliver logo apareceu
na porta da copa. Um sorriso instalado em seu rosto
iluminou o ambiente.
— Bo jour! Bon jorno! — Um agradável bom dia
ele deu a todos, com o sorriso iluminado e maroto.
Ele ficou ali por mais alguns segundos. O lugar
dele já estava reservado ao lado de Emma. Ela o
olhou e com um piscar de olhos lhe chamou instin-
tivamente. Ele exitou novamente, mas começou a
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

caminhar lentamente em direção ao seu trono do


lado de sua rainha, que naquele momento mais pare-
cia com uma madrasta megera. Próximo ao seu lu-
gar pré-destinado ele exitou e voltou, circulando a
mesa e se posicionou atrás de mim. Ele segurou na
cadeira, que até pude sentir a força que ele a sus-
tentava. Todos pararam e ficaram olhando para ele
como se esperassem uma notícia ou a resposta de uma
pergunta ainda não feita, O que você está fazendo ai
Oliver? pensavam todos. Eu não podia olhá-lo, não
conseguia, ele estava atrás de mim. Meu pai ainda
o admirando colocou a sua mão sobre o meu ombro,
como se fosse um sinal para que eu me preparasse a
algo que estava por vir. Eu o olhei, e ele apertou a sua
mão no meu ombro como se tivesse compartilhando
da minha aflição.
— Tenho um comunicado a ser feito! — Ele disse
ainda segurando na cadeira ao qual eu ainda sentado
aguardava a tão esperada pergunta ou resposta não
dita por ele.
Papai retirou a mão sobre meu ombro, mas logo
ele voltou a colocá-la. Se aquele carinho anterior era
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

apenas para me acalmar, o porque agora a sensação


era diferente. Olhei novamente para ele. Seu olhos
estavam vidrados sobre meu ombro, porém as suas
mãos estavam com ele. Meu peito acelerou repentina-
mente ao perceber que aquela mão não era do papai,
era do homem que eu idolatrava. Senti a segunda
mão pousar sobre o meu outro ombro. Foi como uma
pena que cai sobre o chão após a revoada de pombos
levantarem voo. Eu senti que ele não só apoiava suas
mãos de pena sobre mim, mas as pressionava lenta-
mente sobre os ossos abaixo da minha pele. Ele não só
me tocava, ele me energizava com uma força mistica
que fluía entre a sua palma e a minha carne. E quanto
mais ele me pressionava mais a minha paixão por
aquele cer celestial se expandia dentro de mim. As
suas mãos eram as mesmas, como quando no jogo de
vôlei ele me molestou publicamente me fornecendo
uma seção de massagem, ou quando no quarto da
meia noite ele me segurou pela cintura e me pôs so-
bre o seu corpo e me beijou intensamente até onde
seu lábios me alcançavam. Ele continuou, e eu não
mais fazia parte dessa dimensão, eu estava em um
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

plano totalmente diferente daquele onde Oliver não


existia, agora eu estava me conectando a ele. Ele
pressionou mais uma vez as suas mãos sobre o meu
ombro e como se desejasse descê-las pelo meu peito
até alcançar o ônibus que o levaria para o mesmo
plano onde eu estava. Suas mãos subiram novamente
e agora pousando em definitivo sobre meu ombro. Eu
estava anestesiado com aquilo. Mais uma vez senti-lo,
era deslumbrante.
— Fui convidado para que amanhã eu realize uma
leitura do meu livro na livraria do centro de B. — Ele
dizia todo entusiasmado. — E também haverá a di-
vulgação oficial do meu livro na versão italiana.
Uma euforia geral se instalou em todos que nem
mesmo Mafalda se conteve em expressar um pequeno
sorriso. Ema era a mais empolgada, que logo se levan-
tou e foi até onde Oliver estava.
— Que maravilha Oli! Maravilha! — Ela dizia se
dirigindo a ele, e que não muito demorou para que
as mãos dele saíssem de mim. Ele provavelmente a
abraçou e beijou em retribuição a sua felicidade.
A cordialidade nunca foi a minha principal quali-
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

dade. E eu sabia que deveria expressar o mínimo de


felicidade ao seu feito incrível. Ser convidado para a
leitura de um livro não era para qualquer um. Mas
me intrigava como tudo aquilo era repentino, parecia
engessado demais. A livraria do centro de B. não era
grande, mal cabiam umas cinquenta pessoas dentro
dela. Mas em anos anteriores alguns eventos eram
realizados nos fundos da livraria que dispunha de um
terreno grande e espaçoso que tinha até sido usado
no casamento da filha mais nova do dono da livraria.
Mas e se o livro já tinha sido publicado na Itália e
se encontrava disponível em diversos estabelecimen-
tos, inclusive em B. com um seçãozinha de uns cinco
livros e não mais.
Papai o cumprimentou com um abraço, logo depois
que mamãe lhe deu um beijo e pediu para que Mafalda
buscasse uma garrafa de vinho na adega da cozinha.
Eu me vi em uma situação que deveria ao menos lhe
dar os parabéns com um simples aperto de mãos. Ela
já estava sentado em seu trono ao lado de sua megera,
que o apertava pelos braços. Ela a olhava e recebia
de bom grado o seu carinho através de beijinhos.
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

Era inevitável, eu desviava, aquilo que agredia de tal


maneira que só me restava sair dali e correr até onde
meus pés não aguentassem mais.
— Elio, não vai cumprimentá-lo. — Disse papai.
Minha vontade era fazer escapar um Se eu ainda
conseguisse!. Ema simplesmente não o desgrudava.
O segurava como um objeto próprio seu e que não
largaria a menos que ganhasse algo melhor que
aquilo. Eu trocaria tudo o que eu tinha por aquilo,
eu o queria, eu o desejava. Estendi a mão e parab-
enizei pelo feito realizado. Ele sorriu. Eu amava ver
o sorriso dele, pois era único e inigualável.
— E por que não contou antes, Oli? — Ema ques-
tionou lhe dando mais um beijo, só que no rosto.
— Você sabia que tinha que ir a Roma nessa tarde.
Não sei se consigo voltar amanhã a tempo. Vou tentar
cancelar a reunião e ficar.
— Eu não tinha ideia da data, então preferi esperar.
— Ele respondeu. — Mas é apenas uma leitura, nada
demais. Pode ir que depois lhe conto tudo.
Ficamos mais alguns minutos a mesma, só que a
mercê de uma taça de vinho cada um. Logo, cada um
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

tinha as suas atividades do dia. Mesmo estando num


suposto projeto que o papai me colocara, eu passava
as tardes no salão principal escrevendo partituras.
Mamãe passava as tardes na sua revisão da univer-
sidade de Berlim no escritório, e papai saia de carro.
No almoço só estava eu, Anchiese e Mafalda. Papai
novamente não apareceu e a mamãe pediu apenas um
lance no escritório. Oliver e Ema haviam saído logo
depois do desejum, mas avisaram que não voltariam
para o almoço.

Por volta das quinze horas da tarde os dois aparece-


ram. Eu estava no salão passando os últimos refrões
e melodias no piano. Ouvi ela dizer que subiria para
se arrumar e que não demoraria. Ele se dirigiu ao
salão, e se sentou no sofá em minha direção sem dizer
nada. Ele olhou a sua volta como se recordasse de
algo da sua infância. Talvez aquela calmaria, exceto
pela minha respiração que aumentara a alguns se-
gundos depois da sua entrada, o remetia a sensações
e desejos inesperados. A sua presença tornava o am-
77 89
Versão fã Me chame pelo seu nome 2

biente diferente, eu me sentia amedrontado com a


forma como ele me olhava. A situação era diferente,
ele estava ali mas não estava. Ou estava mas não se
mostrava.
— Você ficou feliz por mim? — Ele se inclinou no
sofá e me olhou ainda que em devaneio.
— Você ficou feliz com isso? — Perguntei.
— Claro que sim. Ainda mais sendo aqui em B.
— Ele respondeu. E como se mostrasse um reconhec-
imento pessoal, já que foi aqui que ele redigiu as suas
ultimas páginas do seu manuscrito.
— Então também estou feliz. —Dei de ombros,
rabiscando um último lá menor por um dó menor.
— Toca para mim? Algo especial?
Era um pedido inesperado. Ele já havia ouvido eu
tocar inúmeras vezes quando esteve aqui no verão.
Imaginei que aquele momento poderia ser especial,
como sempre fora e que nunca deveria de ter se
acabado a meses atrás.
— Algo especial? Pra você ou para mim? — Per-
guntei. — Ou para nós? — Olhei em volta procurando

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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

alguém que pudesse ter ouvido e que já estivera me


julgando pela pergunta descabida.
— Só toque. Apenas me mostre o verdadeiro Elio
dentro de você. Felicidade, tristeza ou dor, deixe tudo
isso de lado e flua livremente.
A janela próxima ao piano estava aberta, o que
permitia que os raios de sol batessem sobre a tampa
do piano e refletissem no restante da mobília. Aquele
calor emanado de cada fio de luz esplandecia ainda
mais o momento. O calor italiano não apenas ilu-
minava e aquecia a minha paixão que eu sentia por
Oliver, mas me remetia a um passado não muito dis-
tante. Me imaginei no jardim com os pés descalços
sentado num pequeno banco na altura do piano. O
vento batia e soprava as folhas da pessegueira ainda
com frutos vermelhos. As teclas do piano estavam
molhadas. Não muito distante Oliver repousava sem
camisa em um pano próximo a piscina, seu cabelo
molhado me fez suspeitar que ele estivera no piano
segundos antes. Passei os dedos sobre as teclas, e
que logo começaram a ser pressionadas. Uma sonora
orquestra de sons fluíram por todo o jardim. O vento,
79 89
Versão fã Me chame pelo seu nome 2

os pássaros, as folhas, a água, tudo em um único es-


plendor de sons que emanavam por entre os galhos e
frutos do pomar. Samewhere in time não era apenas
um clássico, era uma jornada de busca ao verdadeiro
desejo. A cada nota tocada, a cada estrofe completada
todos os sonhos se uniam em um só universo. Ele ali
deitado me olhando e sorrindo ao mesmo tempo, me
fazia imergir naquele desejo ainda mais. Eu imergia
e imergia como num buraco negro, ele ficava mais
e mais distante até que seu rosto sumisse em uma
última fagulha como uma estrela que perde a sua luz
a milhares de anos luz de distância. Aquela sonora
foi pausada pela presença de Oliver ao meu lado do
piano. Enquanto eu continuava tocando ele puxou
uma pequena cadeira próxima a poltrona do vovô e
ficou ao meu lado. Eu já não mais estava num buraco
negro, estava ao lado dele. Ele olhava a dança dos
meus dedos sobre as teclas do piano, talvez tentando
associar cada sequência apertada ao som que do pi-
ano que ecoava pelo salão. Seu braço colado ao meu
ombro sinalizava que aquela canção estava próxima
do fim. Eu sorri quando percebi que ele me olhava,
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

também com um sorriso. O fim estava próximo, e


antes que eu pudesse pressionar as últimas notas ele
colocou a mão dele sobre a minha.
— Para nós? — Ele perguntou.
Um soco foi disparado em minha direção. Sem
ar, sem voz, somente minha imaginação trabalhou
naquele momento. O que eu tinha me conformado
é que eu deveria esquecê-lo, mas o seu retorno a B.
tornou essa tarefa ainda mais difícil. O quanto eu
queria dizer que me agradava amá-lo, e que gostava
de acariciá-lo, e que desejava colocá-lo para dormir
ao meu lado. Me arrepiava imaginar ele de frente
a mim e como fazê-lo sorrir me fazia tão bem. Eu
daria qualquer coisa para tê-lo ali ao meu lado, me
tocando novamente. Entre tantas coisas, eu queria
tocá-lo e dizer que ele se entregasse a mim, pois eu
não decepcionaria em nenhum segundo enquanto
envelhecêssemos juntos.
— Quero te beijar. Gastar contigo o meu tempo.
Guardar os seus segredos e cuidar dos seus momentos.
Eu te espero! — Minha mão pousou sobre a dele,
enquanto eu sussurrava aquelas palavras. — Quero te
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

abraçar, te adorar, ter paciência com a minha loucura.


Esse é o meu vício que tenho. Meu vício é você.
A sua outra mão se pôs sobre a minha. Uma pilha
se formou, minha mão sobre a dele, e a dele sobre a
minha, tudo sustentado pela primeira dele. Ele não
dizia nada, só olhava. Uma mecha do seu cabelo sobre
a sobrancelha, semi cobrindo seus olhos. Ele ficou
ali me olhando sem dizer nada. O silêncio ecoava
no salão. Gentilmente empurrei aquele mecha de
seu olhos para cima do cabelo, eu sorri, ele retribuiu.
Tocá-lo novamente tornava tudo mais difícil. Quem
era eu? Quem era ele? O que estávamos fazendo ali?
Meus dedos, minha pele, tocando a sua testa, o seu
rosto. Seus lábio estavam ali, eu os toquei, ele fe-
chou os olhos, abaixou a cabeça como se quisesse sair
daquele situação.
— Eliiiiiooooo! — Ele sussurrou levemente
levando a sua mão sobre a minha e apertando so-
bre o seu rosto. — Isso não! Por favor.
— Não o quê? — Insisti.
— Isso não está certo.
— Certo? — Comecei — Você quer ouvir a ver-
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

dade? O que você é, o que eu sou? Nós nunca disse-


mos a verdade por mais de dez minutos nessa casa,
ou por telefone. Então, está na hora de você escutar
Oliver. Este sou eu.
— Por favor pare! — Ele completou.
Se afastou alguns centímetros, no anseio de sair
daquilo que seria não somente uma conversa como
todas as outras, mas talvez a primeira e última. Eu
estava pronto para aquele momento, e ninguém me
faria voltar daquele caminho que escolhi. Apenas
pararia no final daquela estrada, quando só houvesse
um buraco de solidão e dor, ou uma fagulha de es-
perança que ainda perdurava em resistir como uma
última folha da pessegueira no ápice do outono. Me
aproximei dele, antes que minha mão perdesse o seu
colar de sua mão. Continuei.
— Você sabe o que tenho feito nesses últimos seis
meses? — Retomei ao meu monólogo. Eu não que-
ria respostas, queria apenas que ele me ouvisse. Ele
corou. — Eu fiz o meu melhor desde quando você foi
embora. Eu fazia e fazia, mas não conseguia chegar
a lugar algum. Você, Oliver .... — minhas palavras
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Versão fã Me chame pelo seu nome 2

tremiam por entre os dentes, uma vez mais a dor e


a tristeza perdurou e se mostrou em meus olhos car-
regados — ... você, me fez de idiota. — A primeira
lágrima escorreu, que o seu calor adentrou em cada
poro do meu rosto.
Ele assentiu a minha angustia, e secou aquele meu
fio de água turva. Sua mão sobre o meu rosto, aquilo
me enaltecia.
— Elio eu não sabia. — Ele secou uma vez mais
minhas lágrimas.
— Não sabia... — Ri sarcasticamente — É tudo sua
culpa, sempre foi, sempre será e é a única vez que
ouvirá isso. Talvez a última. Você me fez acreditar
em algo bom, algo novo, e agora quando retornou
novamente ... — Apertei a sua mão em meu rosto, a
beijei e beijei. Senti o calor de minhas angustias, e
o sal da minha esperança caído de meus olhos. Ele
deixou. — Eu vi tudo o que eu mais amo no mundo,
o verão, os livros, a música, mamãe, papai, ..., você
Oliver, e olhei para você, e me perguntei Por que
diabos ele está aqui?
— Elio ... — Ele segurou o meu rosto sobre as
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palmas de suas mãos. Me olhou como se penetrasse


em todo o meu mar de relevações.
— Oliver, você está tentando me transformar no
que eu não sou? Me tornando um tolo, desdenhoso
e imbecil. Tudo o que eu quero está aqui, na minha
frente. Agora e só agora, esperando pelo segundo que
eu diga Eu estou aqui. — Eu já não mais sussurrava,
talvez não mais falasse, mas talvez gritasse. Oliver
olhou para os lados, ninguém olhava. — Eu não posso
dizer isso Oliver? Não posso?
Ele abaixou a cabeça. Talvez aquilo o fizesse ficar
mal. Eu não queria aquilo, mas talvez ele merecesse.
— Olhe para mim! Olhe para mim! — Eu gritei.
Não mais me importava quem aparecesse, Mamãe,
Mafalda, Anchiese ou Ema. — Eu não tenho valor
algum? ... E você tem?
Seus braços me acolheram. A sua generosidade
respondia que eu tinha sim valor, mas talvez para ele.
Ele não dizia nada, apenas me abraçou num acalento
sereno. Eu o abracei, como numa metamorfose de
uma lagarta que viraria uma linda mariposa depois
de algumas semanas. Uma mistura da minha saliva e
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das lagrimas pousavam em sua camisa cor de salmão.


— Você nunca foi nada além de um hóspede, que
pousou a sua luz sobre as cinzas do meu ser. E eu?
Sou apenas mais um garotinho, um pequeno pedaço
de madeira para apoiar o seu desejo. Eu tentei, mas
não consegui crescer. Você entende? — Dei uma
última pausa. — Não mais. Não espere que eu cresça.
Eu não sou nada. Sou só quem eu sou, e isso é tudo.

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Chapter 3

Luar de Revelações

Ainda continua!
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Chapter 4

A vida por um fio

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Chapter 5

Me chame pelo meu


nome

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