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Resenha:

O projeto ético-político do Serviço Social - TEIXEIRA, Joaquina B., BRAZ,


Marcelo.
O projeto ético-político do Serviço Social conecta-se a um projeto societário
transformador e é concebido como a “auto-imagem” da profissão, passando a
representá-la e adquirindo a condição de projeto profissional, de acordo com Netto,
delimitando seus objetivos e funções, projeto que é inerente à objetivação da
realidade material na sociedade de classes e à práxis profissional que é permeada
pelos valores éticos que emergem do projeto ético político do Serviço Social, sendo
necessariamente pensando em conjunto a um projeto societário que por sua vez é
de maior abrangência.
Os projetos profissionais da sociedade burguesa sao indissociáveis a projetos
políticos, compreendendo a colocação do Serviço Social na divisão sócio técnica do
trabalho enquanto profissão a mediar os conflitos capital/trabalho, na qual a prática
imprime determinada direção a um projeto societário específico, tendo em vista a
disputa entre diversos desses projetos em curso na sociedade que entre eles
encaminha e determina as diretrizes da ordem social posta. Tais projetos também
podem aderir caráter conservador ou transformador, visando a mudança da ordem
posta ou a sua mudança.
O projeto ético-político do Serviço Social, por sua vez, é de caráter transformador,
tendo em vista as influências da perspectiva marxista para sua elaboração e a
colocação do profissional da área de atendimento e a exigência de uma dimensão
política para o efetivamento da atuação profissional. Tal influência se dá em 1979 a
partir do III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, popularmente conhecido
como Congresso da Virada, organizado por parte da vanguarda profissional que
influiu fortemente durante o movimento de reconceituação da profissão na década
de 70. Assim, o projeto avança durante a década de 80, com a criação do Código de
Ética de 1986 e a grande produção teórica trazendo renovação às metodologias da
profissão e ao que se refere às políticas sociais e movimentos sociais que
acontecem na época.
Logo, o projeto ético-politico da profissão tem a liberdade como valor ético central,
bem como a autonomia, emancipação e a plena expansão dos indivíduos sociais.
Perpassa questões teleológicas que levam ao direcionamento de uma categoria
profissional e sociedade para a possibilidade de concretude a respeito do que
idealiza e visam propostas societárias que garantem melhorias da qualidade de vida
no conjunto da sociedade, propondo a construção de um nova ordem social sem
dominação de classe, etnia e gênero.
Dessa maneira, surge radicalmente democrático, reconhecendo a liberdade como
valor central, assim como princípios de igualdade, pluralismo, recusa da sociedade
do capital e luta contra ela e suas iniquidades, de pleno compromisso com a classe
trabalhadora. Tal projeto pode ser sistematizado em quatro tópicos: o de
explicitação dos princípios e valores ético-políticos, o que se refere à matriz
teórico-metodológica em que se apoia, o de referência à crítica da ordem social
vigente e a manifestação de suas lutas e posicionamentos políticos.
Para que criem concretude e possam se expressar na realidade, tais elementos têm
como base outros três componentes que são construídos pelos assistentes sociais,
sendo eles a produção de conhecimento no Serviço Social, as instâncias
político-organizativas da profissão como as organizações sindicais, associações
profissionais, o CFESS/CRESS, a ABEPSS e etc e a dimensão política
jurídico-política que se constitui enquanto material legal e institucional da profissão.
Efetivamente, é a partir desses elementos e de outros tantos que incidem na
realidade profissional que é possível que sejam materializados os elementos que
constituem o projeto ético-político na realidade concreta.
Entretanto, é importante entender que mesmo com todo esse arcabouço para sua
efetivação plena na sociedade brasileira, o projeto não é efetivo de forma integral na
realidade, uma vez que não há relação de identidade entre projeto e a realidade
material, já que não se pode controlar todos os aspectos que incidem sobre a
realidade e não controlamos todos os aspectos que incidem sobre ela, já que não
ha relação identitária entre sujeito e objeto, entendendo que o que é pensado não
acabe por imprimir necessariamente o mesmo corpo ideal na realidade material,
uma vez que que o plano objetivo existe tal qual o plano subjetivo toma forma.
Ademais, também é dito que o projeto profissional dos assistentes sociais é inviável
já que é incompatível à sociedade em que vivemos. O caráter societário
transformador que envolve tal projeto bem como as contradições travadas no cerne
da profissão, levando aos profissionais da categoria a escolherem
democraticamente os caminhos a seguir e construindo estratégias que projetem e
determinem claramente seus compromissos profissionais para com a classe
trabalhadora.
Mesmo tendo sido consolidado na década de 90, há um movimento contraditório e
dialético nessa época. Há grande movimentação na profissão com numerosos
assistentes sociais comparecendo aos congressos e apresentando pesquisas,
amplificando a produção intelectual da categoria e com a organização da profissão
através de debates e fóruns deliberativos. Contudo, o grande fluxo conservador que
a sociedade brasileira toma junto ao neoliberalismo coloca tensões e muitos
enfrentamentos para o funcionamento de tal programa profissional, assim como no
campo ideocultural, no qual prevalescem e são reproduzidos modos de pensar que
garantem e reiteram a sociedade burguesa, levando a desdobramentos políticos e
culturais que garantem o triunfo do capital sob qualquer outra alternativa societária
que se possa ter, uma vez que a crise do capital lança oportunas modificações nos
aparatos do Estado para a restauração do capital, enfraquecendo o poder da classe
trabalhadora, levando à precarização do trabalho e a altas taxas de desemprego.
Tais mudanças incidem negativamente para os profissionais de Serviço Social, uma
vez que modifica a realidade material dos usuários e até mesmo a própria realidade
enquanto profissional.
Logo, diante a conjuntura atual, faz-se imprescindível que a vanguarda profissional
não permita o enfraquecimento da luta e da resistência perante as violentas
investidas do capital, através de estratégias comprometidas à reafirmação do
projeto ético-político do Serviço Social tanto no âmbito da formação quanto da
atuação profissional comprometida aos valores postos pela classe para o
compromisso junto à classe trabalhadora contra a dominação e as iniquidades
gerada pelo capital.