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INTRODUÇÃO

O Brasil atualmente registra alto crescimento no encarceramento de mulheres, nos últimos 15 anos.
Entre 2000 e 2014, a população feminina privada de liberdade saltou de 5.601 indivíduos para 37.380.
Para dizer o mínimo, trata-se de uma verdadeira explosão demográfica, incrementando a população dos
presídios de mulheres em 567%. Como comparação, no mesmo período, a população masculina
encarcerada subiu 220%.

E quem são essas mulheres tão perigosas que precisam ser retiradas do convívio social? Em geral, as
mulheres que são submetidas ao cárcere são jovens, têm filhos, são as responsáveis pela provisão do
sustento familiar, possuem baixa escolaridade, mais de dois terços são negras, são oriundas de camadas
sociais desfavorecidas economicamente e exerciam atividades de trabalho informal em período anterior
ao aprisionamento. Em torno de 68% dessas mulheres possuem vinculação penal por envolvimento com
o tráfico de drogas não relacionado às maiores redes de organizações criminosas. A maioria dessas
mulheres ocupa uma posição coadjuvante no crime, realizando serviços de transporte de drogas e
pequeno comércio; muitas são usuárias, sendo poucas as que exercem atividades de gerência do tráfico.
Em uma só expressão: “são pés-de-chinelo”, que representam um perigo não tão significante para a
sociedade, ou seja, ao realizar o encarceramento em massa desse perfil feminino, não estamos
solucionando o problema e sim duplicando o problema de violência contra a mulher.

COMPARAÇÃO ENTRE “ORANGE IS THE NEW BLACK” E A VIDA REAL NOS PRESÍDIOS FEMININOS

Piper, Red, Crazy Eyes e outras personagens da série Orange is The New Black, de Jenji Kohan, tornaram-
se fontes e estereótipos sobre as prisões femininas para milhões de assinantes da Netflix que assistem a
série americana. Porém a série deturpa a vivência real da população carcerária feminina, tanto nos
Estados Unidos, como em outros países do mundo, como o Brasil, por exemplo.

1. A maioria das mulheres em presídios federais cometeram crimes relacionados a drogas, de pouca
gravidade.

As pessoas acham que as detentas de presídios federais são as piores criminosas do país. Os roteiristas
de OITNB são bastante criativos, de Pensatucky assassinando uma enfermeira por um comentário sobre
seus sete abortos a Miss Claudette traficando crianças. Mas, a realidade é diferente, seis de cada dez
mulheres em prisões federais de verdade estão presas por crimes não-violentos relacionados a drogas.
Para cada mulher que cometeu homicídio, há 99 outras presas por tráfico de drogas. Quase nenhuma
das 99 é traficante internacional como Alex Vause; a maioria das mulheres presas por crack ou
metanfetaminas foram detidas com menos de 100 gramas. Muitas vendiam pequenas quantidades de
drogas para sustentar o próprio vício ou, como Taystee e Daya, tinham pequena importância nos
esquemas criminosos de parentes.

Apesar desses papeis menores no tráfico, as mulheres passam uma média de sete anos na cadeia, mais
que a traficante internacional de heroína Cleary Wolter, a inspiração para Alex Vause (ela passou cinco
anos e dez meses presa). Frequentemente, essas ajudantes passam mais tempo presas que seus chefes.
Por quê? Elas não podem pagar um advogado particular, e seus defensores públicos mal têm tempo de
ler as acusações contra suas "clientes" antes de defendê-las no tribunal - sem falar no tempo necessário
para preparar uma defesa decente. Além disso, os promotores reduzem as penas para quem oferecer
informações "valiosas", um funcionário de baixo nível não tem informações valiosas para oferecer.

Se a série tivesse 99 Taystees para cada Pensatucky, haveria menos brigas com facas, mas o retrato do
desperdício humano e financeiro de prender mulheres por crimes de pequena importância seria mais
preciso. Hoje, nossas prisões têm centenas de milhares de traficantes de baixo nível, a um custo anual
de 30 000 dólares por cabeça. Como cocaína e heroína valem entre três e oito vezes seu peso em
ouro,respectivamente, prender um traficante simplesmente abre uma nova vaga de emprego. Quando
os traficantes saem da cadeia -- depois de "pagar sua dívida com a sociedade", mas marcados com uma
ficha criminal --, eles têm dificuldade de encontrar um emprego legal. Em três anos, 68% são presos de
novo.
É o que acontece com Taystee logo depois de sua saída. Ela dorme no chão da casa de um primo de
segundo grau, não tem dinheiro para comer, não consegue achar um lugar para morar e não consegue
reconstruir sua vida. Na realidade, o primo poderia nem sequer deixá-la dormir no chão de sua casa,
pois permitir que um condenado entre em uma casa fornecida pode resultar em despejo.

2. A maioria das mulheres em presídios federais têm filhos menores de idade.

A família de quem tem a mãe encarcerada, mesmo após sua liberdade, ainda é assombrada pelo sistema
prisional. A ex detenta, possui dificuldades para encontrar emprego, devido a sua ficha criminal. Não são
raros os casos de que os filhos das mesmas detentas, tenta cometer suicídio por várias vezes, ou o filho
mais velho acaba abandonando os estudos para cuidar dos menores, ou pior acaba também se
envolvendo no mundo do crime. Na série OITNB vemos poucas mães, mas na vida real quatro de cada
cinco detentas têm filhos, e mais da metade tem filhos menores de idade, e essas crianças são
condenadas junto com suas mães. Alguns perdem a mãe permanentemente; a prisão aumenta em cinco
vezes a probabilidade de que a mãe perca a guarda do filho. nem todas as crianças acabam presas, mas
estudos mostram uma ligação significativa e nada surpreendente entre prisão dos pais e problemas de
agressividade, desatenção na escola e vida nas ruas. Será que afastar as mães dos filhos torna nosso país
mais seguro e mais saudável?

3. Muitas mulheres precisam de aconselhamento e auxílio médico, não de prisão.

Embora apenas Crazy Eyes, Jimmy e Lorna mostrem sinais de problemas mentais na série, na
realidade 62% de todas mulheres no sistema prisional federal têm algum problema mental. As cadeias
são os maiores provedores de serviços para doentes mentais. E, se você quiser encontrar vítimas de
crimes, pode procurar nas prisões. A imensa maioria das mulheres em presídios federais foi vítima de
abuso físico ou sexual. Entre as que venderam drogas para sustentar o próprio vício, cerca de dois
terços foram abusadas na infância. Entre as presas por matar seus companheiros, 90% tinham sido
abusadas por eles, e a maioria cometeu o crime em defesa própria. Não deveríamos desculpar seus
crimes apontando para o histórico de abusos, mas temos de nos perguntar se as cadeias são, como
escreve a própria Piper Kerman "um lugar em que o governo americano coloca não só as pessoas
perigosas, mas também as inconvenientes". Estamos prendendo essas mulheres para resolver nossos
problemas sociais ou para escondê-las?

4. Tudo isso é novidade.

OINTB é verdadeiramente um produto do nosso tempo, não só por causa da qualidade da produção, da
linguagem crua e do sexo lésbico, mas também porque presídios femininos mal existiam 30 anos atrás.
Há dez vezes mais mulheres presas hoje do que em 1980, uma explosão duas vezes maior que a dos
homens encarcerados. Com um-vigésimo da população mundial, hoje temos um quarto dos homens
presos do mundo e um terço das mulheres na cadeia.

Nossos índices recorde de encarceramento têm origem na Guerra contra as Drogas. Quando a mídia
galvanizou o medo da população em relação ao uso de crack nos anos 1980, o Congresso estabeleceu
sentenças "mínimas obrigatórias" para pessoas detidas com pequenas quantidades de drogas. Juízes se
viram obrigados a sentenciar os condenados a penas mais duras, mesmo eles sabendo que mulheres
como Taystee, Daya e Nicky Nichols são apenas viciadas ou ajudantes de baixo nível, mas são forçados a
sentenciá-las como se elas fossem grandes traficantes com base na quantidade de drogas e no número
de armas encontradas pela polícia.

Não importa a pena merecida pelas pequenas traficantes, prendê-las também significa punir seus filhos,
os contribuintes e a sociedade como um todo. OINTB nos ajuda a acordar, mas não é perfeita. A série
não mostra com fidelidade a maioria da população dos presídios femininos do país. Embora retrate
problemas de administração nas cadeias e as histórias humanas das mulheres atrás das grades, ela
poderia levantar uma questão mais fundamental: será que manter presas essas mulheres vale os
R$2.400 reais mensais, mais o dano causado a elas, seus filhos e nossas comunidades, “Ao esquecer a
humanidade de nossas infratoras — e de seus bebês —, deixamos de lado nossa própria humanidade.”
(Livro Presos que Menstruam).

VIOLÊNCIA DE GÊNERO COMINADA COM VIOLÊNCIA FÍSICA E MORAL

Uma das formas do sistema carcerário brasileiro discriminar as mulheres é tratando-as exatamente
como trata os homens. Isso significa que não lembra que elas precisam de papel higiênico para duas idas
ao banheiro em vez de uma, algumas detentas acabam utilizando jornais velhos para tal fim, nem de
exames pré-natais e muito menos de absorventes internos, muitas vezes é utilizado o miolo de pão
como absorvente interno. A luta diária dessas mulheres é por higiene e dignidade, aliás essa última que
nem existe se parar para analisar que dentro das cadeias femininas bebês nascem em banheiros, ou se
devido a sorte a grávida detenta conseguir ir ao hospital, tem seu parto feito com algemas e a comida
vem com cabelo e fezes de rato, as celas são escuras, encardidas e superlotadas, não têm cama, as
mulheres dormem no chão, o encanamento é antigo e conta com canos estourados, o mau cheiro é
enorme. O Estado não lembra que mulheres precisam por exemplo de condicionador, sabonete, xampu
em uma quantidade maior que os homens, então quem possui esses itens lá dentro da prisão acaba que
fazendo virar moeda de troca das mais valiosas, servindo de salário para as detentas mais pobres, que
trabalham para outras presas como faxineiras ou cabeleireiras.

Apesar de estarem expostos aos mesmos fatores sociais que atingem a nossa população, as mulheres
sofrem, além desses, fatores culturais característicos do gênero. Como maus tratos e abuso sexual
sofridos durante a infância e adolescência, violência doméstica por parte de seus companheiros,
gravidez precoce, entre outros. Mais de 95% das mulheres encarceradas foram vítimas de violência em
algumas dessas situações: na infância, por parte de seus responsáveis; na vida adulta, por parte dos
maridos e quando presas por parte de policiais civis, militares ou federais.

Um fator de suma importância que diferencia a mulher presa do homem preso é a questão da
sensibilidade, das emoções, sendo ela mais vulnerável ao cárcere.

O gênero feminino tende a sofrer mais com a ausência dos filhos e familiares, a distância dos filhos
ocasionada pela prisão é sentida mais nela devido à aproximação decorrente de sua natureza fisiológica
materna. As mulheres preferem permanecer em estabelecimentos carcerários provisórios insalubres,
com superlotação, onde não possuem acesso a direitos, para ficarem perto de seus familiares do que
irem para penitenciárias mais aparelhadas longe do acesso de visitas familiares e com possibilidades de
trabalho, educação e remição de pena. Na mulher a preocupação com o universo fora das grades é
maior, ela tende a priorizar o companheiro e a família, que na maioria das vezes a abandona, enquanto
que o homem encarcerado recebe o apoio incondicional de sua mulher, sempre não medindo esforços
pessoais para facilitar a vida de seu homem enquanto preso.

O indivíduo mulher sofre mais discriminação familiar por estar presa, recebe menos visita e tende a
perder seu relacionamento amoroso por estar longe de seu companheiro, na situação inversa ocorre o
contrário, pois a mulher não abandona ou esquece de seu homem preso, cuida dos filhos, mantém
financeiramente a casa e cultiva seu afeto, e de seus filhos pelo pai, até a volta da liberdade.

Evidencia-se frequentemente que a mulher encarcerada sofreu influências masculinas diretas ou


indiretas que a levaram a sua prisão. Como quando estes as induzem ao cometimento ou participação
do crime ou então, a assumir a culpa sozinha para livrá-lo do cárcere, servindo como escudo contra a
ação policial e outra vez vítima de sua própria natureza.

As mulheres sofrem violência física dentro dos estabelecimentos por parte de carcerários e policiais, o
que demonstra despreparo para exercer as funções que lhes são atribuídas. Como também, sofrem com
a violência sexual, que é o pior dos problemas a ser enfrentado pelas mulheres, principalmente, aquelas
em regime provisório que se encontram em Secretárias de Segurança Pública onde os presos ficam
confinados em cubículos super lotados ainda mais precários, todos a mercê de sua própria sorte.
CONCLUSÃO

Portanto, mesmo em um país que preceitua a igualdade e dignidade da pessoa humana, a realidade é
bem diferente. As leis não modificam as atitudes do seu povo sozinhas, é preciso muito mais que leis
para se obter o respeito a mulher. Pode-se dizer que são necessárias atitudes por parte dos órgãos,
autarquias, secretárias, ministérios e governos a fim de mostrarem com suas próprias atitudes que a lei
é para todos os cidadãos, sem distinções e que, principalmente eles, como administradores,
legisladores, fiscalizadores e executores, cumpram os enunciados legais não permitindo que dentro de
seus estabelecimentos penais femininos ocorram essa violência dupla, por ser mulher e por sofrer
abusos sexuais, violência, maus tratos, desrespeito a vida de mães e filhos, abuso de autoridade, etc.

E assim, partindo do pressuposto que se consiga melhorar essas condições, pode-se então acreditar na
ressocialização pela pena, na reeducação pela pena, na prevenção da criminalidade pela pena e na
conversão dos estabelecimentos penais em centros de formação de seres humanos que serão
reinseridos dignamente da sociedade em que foram subtraídos.