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ANA MARIA ALEXANDRE DE SOUZA RA 103891

VALTERCI MARTINS DE MOURA RA 1047692

ARTE NA INCLUSÃO SOCIAL

Orientador: Prof. Newton Gomes Ferreira

Centro Universitário Claretiano

CAMPINAS

2011
INTRODUÇÃO

Breve contexto do processo de redemocratização no Brasil

A Constituição Federal de 1988 aclamada como a Constituição Cidadã, deu à luz o


ideal de redemocratização do povo brasileiro que, encorajado pelo sentimento de liberdade
lançou-se as mais variadas formas de recuperação de sua dignidade, - encorajamento que
possibilitou inúmeras inovações que pudessem apagar da memória o sentimento de tempo
perdido e estagnação oriundos da pela Ditadura Militar - tempo este cuja duração ultrapassou
mais de 20 anos de repressão e exclusão. Inicia-se de fato e de direito a participação popular
em mecanismos decisórios do poder público. Nesse cenário histórico e fundamentalmente sob
a égide da Carta Magna, muitos municípios vivenciam uma das maiores experiências no
processo de redemocratização, o orçamento participativo. O orçamento participativo é uma
iniciativa fundamentada na participação popular e dá visibilidade aos movimentos sociais
organizados.

O Estado Democrático de Direito, conquistado com muita luta e sacrifícios, inaugura


um novo cenário na história do país que possibilita a participação efetiva da sociedade
organizada nas instâncias de controle social.

Em seu artigo sobre o “Controle Social”, Romualdo Flávio Dropa afirma que:

(...) a Reforma do Estado que ora experimentamos tem vários objetivos. Um


deles é a descentralização estatal, que parte da premissa que os problemas
devem ser solucionados o mais próximo possível de seu foco de origem,
facilitando o controle social sobre a eficácia de qualquer programa que se
proponha resolvê-los, uma vez que a sociedade brasileira está mais
participativa, politicamente, e mais preparada para assumir
responsabilidades, organizar-se e acionar mecanismos para esse controle
social.

Este fato se dá através da criação dos conselhos paritários entre sociedade civil e
poder público,. São eleitos conselheiros que irão definir e deliberar sobre políticas públicas
nas mais diversas áreas: Educação, Cultura, Assistência Social, Saúde, Criança e Adolescente,
Idoso, etc. Estes conselhos de debates permanentes estabelecem prioridades nos investimentos
públicos. Através de conferência são elaboradas propostas de âmbito municipal, estadual e
federal.

Neste aspecto podemos afirmar que toda ação de inclusão social está garantida na
Constituição Brasileira de fato e de direito, estando intrinsecamente fundamentada na Lei.
Assim, os direitos da pessoa humana em sua múltipla dimensão: Biológica, Psicológica,
Social e Espiritual, trazem garantias em âmbitos da saúde do corpo e da mente e também
garantias de participação e produção da cultura e do lazer, - o cidadão passa a ser
contemplado efetivamente e afirmativamente, resgatando sua dignidade e cidadania de forma
participativa e deliberativa, com direito a voz e ao voto. Portanto, essa experiência, do ponto
de vista da história da redemocratização, do ponto de vista legal, da participação popular da
sociedade organizada aproximando e flexibilizando a relação entre o governo e o povo, dá
início a uma nova visão de planejamento de integração entre o poder público e a sociedade,
um debate fundamental e permanente que passará a orientar as políticas públicas em âmbito
nacional, cujos reflexos serão observados nos mais variados programas governamentais dos
estados e municípios pelo Brasil afora, o que não poderia ser diferente nos projetos da
Secretaria de Educação, Cultura e Turismo – SECTUR, na cidade de Americana.

Os programas sociais e o fomento cultural na cidade de Americana.

A sinergia desprendida pelos segmentos da sociedade, no afã de um trabalho integrado


que atendesse aos interesses da sociedade de forma geral, trouxe ao debate algumas
reivindicações que vão desde os aspectos mais objetivos e tangíveis como pavimentação de
rua e construção de escola, aos aspectos subjetivos e intangíveis como resgate da cultura
popular, festas tradicionais, dentre outras manifestações culturais outrora adormecidas.
Para melhor elucidar este precioso momento de integração e vontade de construção de
um projeto que contemple todos esses objetivos, buscamos na letra de “Comida”, - clássico do
rock nacional dos anos 1980, composta por Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto,
integrantes do grupo “Titãs”.

“Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comida


A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte [...]

A gente não quer só comida


A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer...

A gente não quer só comer


A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor...

A gente não quer


Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade [...]

Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade “

E neste contexto em torno do desejo, da necessidade e da vontade, descritos na canção,


a SECTUR inicia um projeto piloto envolvendo artistas de todos os segmentos num grande
encontro na praça “Comendador Muller” na região central da cidade, denominado “Tarde com
Arte”, onde reúne vários artistas que atuavam na cidade e região. O projeto inicia com
apresentações na praça central num horário comercial o que possibilitava aos transeuntes um
momento de lazer e entretenimento. Com o passar do tempo, novos objetivos e metas vão
sendo agregados e o projeto sai da zona central para levar cultura e entretenimento à
população das regiões periféricas. A cada semana essa trupe de artistas se apresentava em uma
praça pública de algum bairro da periferia. As pessoas podiam prestigiar, de forma segura e
totalmente gratuita, apresentações musicais, teatrais, de dança e exposição de arte.

Deste constante contato da população com a arte, desperta o “[...] Desejo,


necessidade, vontade [...] do fazer artístico. Do desejo da população de experienciar algumas
das modalidades artísticas surge a necessidade de se repensar o projeto o que fez valer as
vontades tanto dos artistas que agora ocupariam a função de professores; da população, que ao
se inscrever em alguma modalidade artística deixaria de ser expectadora para ser aprendiz; e
do poder público, que teria que repensar toda estrutura de um projeto considerado de médio
porte para um projeto de grande porte. Surge então o projeto “Arte na Praça” que agregava
ao “Tarde com Arte” oficinas artísticas permanentes que em sua primeira edição reuniu mais
de 500 crianças e adolescentes em idade escolar, distribuídas nas modalidades de Desenho,
Pintura, Musicalização, Poesia e produção de texto, Capoeira, Dança de Rua e Teatro. Com o
passar do tempo, houve um amadurecimento em relação a proposta original do projeto, tanto
em relação a oferta de novos cursos mas principalmente em relação ao aspecto pedagógico
que, além das aulas técnicas, professores e alunos se envolviam em atividades de pesquisa em
torno de um tema central pautando as aulas de todos os segmentos artísticos, cada qual com
suas especificidades, no entanto, voltados para uma grande produção de encerramento das
atividades de oficinas que, ao final do anos, culminava em uma grande apresentação. Este
espetáculo com todos os segmentos artísticos integrados, ganhou notoriedade dado o grande
avanço qualitativo, e muito mais ainda pelo quantitativo, pois a cada edição aumentava o
número de inscrições o que resultou na sua incorporação ao planejamento anual da pasta
cultural, integrando definitivamente o calendário de eventos da SECTUR.

Melquesedec Ferreira, um dos idealizadores do projeto, aponta que


“o projeto foi fundamentado nesse tripé: pesquisa, produção e
apresentação integrada, porque através da pesquisa o aluno contextualiza
sua obra. A partir da produção do espetáculo o aluno acompanha todo o
processo de criação o que resulta numa nova percepção da atuação
profissional no fazer artístico. A integração acontece para que o aluno
perceba que existe uma gama de possibilidade onde ele pode atuar
profissionalmente, diferentemente de seus anseios iniciais que subentendiam
apenas a atuação em palco.”
Disse-nos também que “existem vários casos de alunos que hoje atuam
profissionalmente, inclusive como monitores do projeto”. Prova disso é o professor de “Dança
de Rua”, - Francismar de Souza, o “Fran”, que era um morador de rua, se despontou como
dançarino no projeto e hoje é instrutor de dança com formação em Educação Física pela FAM
– Faculdade de Americana, além de compor o quadro de funcionários da Secretaria de Cultura
de Americana, compõe também o quadro de conselheiros do COMCULT - Conselho de
Cultura, na Câmara Setorial de Dança.

A arte e seus benefícios

São inúmeros os benefícios que o aprendizado em Artes traz na vida das pessoas, pois
o contato com a diversidade do patrimônio cultural da humanidade “expressa a riqueza
criadora dos artistas de todos os tempos e lugares” e uma experiência estética, um contato
com essas produções, as crianças e jovens podem “exercitar suas capacidades cognitivas,
sensitivas, afetivas e imaginativas, organizadas em torno da aprendizagem artística e estética
(...)” (PCN – Artes, p. 114) ao passo que ao se tornarem protagonistas da realização artística,
podem sentir o respaldo em forma de aprovação e admiração, promovendo a elevação da
autoestima.

Isso é prova cabal de que:

“ (…) a arte, o esporte, a educação e a cultura aparecem como um


contraponto, elemento estratégico para enfrentar e combater a violência,
para a construção de canais de expressão alternativos, espaço a ser
explorado, um incentivo aos jovens para afastarem-se de situações de
perigo, sem lhes negar meios de expressão e de descarga dos sentimentos
de indignação, protesto e afirmação positiva de suas identidades”.
(CASTRO, 2001)

Segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em sua


pesquisa: Síntese de Indicadores Sociais – 2004, a mortalidade por causas externas (não
naturais) entre jovens é de 90%, sendo que há uma maior incidência no sexo masculino em
relação ao sexo feminino que chega a ser mais de 10 vezes superior. Isso é um resultado de
uma construção histórica de relação de gênero no Brasil voltada ao machismo uma vez que ao
homem não é permitido expressar sentimentos que os mostre vulneráveis: chorar, ter medo,
dor, tristeza, ternura, ser sensíveis ou emocionais ao passo que, ao longo dos anos, foi-lhe
ensinado que o homem deve ser: racional, ter autoridade, ter força física, coragem, ser
competitivo, ter sucesso profissional, ser provedor, enfim ser “macho”, - estes são fatores
preponderantes que os expõem a situações de perigo, violência e agressividade.

Neste sentido, o Projeto Arte na Praça, deixa de ser apenas uma atividade de lazer e
entretenimento para assumir de fato o seu papel social. Além de capacitar tecnicamente os
estudantes das oficinas artísticas, ajuda a transformá-los em atores sociais que, de forma
sensível e organizada, darão o retorno à sociedade contribuindo, segundo CASTRO, […]
“para a construção de um processo que viria na contramão de violências” […],
sensibilizando-os para a desconstrução dos estereótipos machistas. O investimento em arte
passa a exercer um papel fundamental na busca pela cidadania, cultivando vidas e
desarmando violências. Embora apareça de forma subjetiva, corrobora a reflexão sobre os
direitos e deveres destas crianças e jovens na construção de um futuro mais justo e mais
humano. Este fortalecimento sobre o devir pode ser sentido na sociedade quanto à redução
dos índices de evasão escolar, gravidez na adolescência, tráfico de drogas, violência, dentre
outros aspectos negativos que envolvem a criança e o adolescente. Neste contexto, o ensino
de arte nos programas sociais assume mais uma característica - o instrumental. Segundo
CASTRO,

“A cidadania plena é tida como um vir a ser hipotético, cabendo aos jovens
lutar para sua realização. Entretanto, as propostas se preocupam com o
próximo […] com a sobrevivência, em suas várias acepções, ainda que se
faça referência a um impulso na busca pelo exercício de cidadanias,
conjugando-se a social, a civil, a política e a cultural.” (CASTRO, p.496)

Em 2004, o governo federal, através do MinC – Ministério da Cultura, implementou o


Programa Cultura Viva, que tem como ação principal o projeto Ponto de Cultura. O Ponto de
Cultura não cria projetos, mas funciona como um gestor das iniciativas culturais já existentes,
injetando recursos para potencialização desses projetos junto às comunidades.

Graças à eficácia de sua atuação, a partir de 2007 o projeto Arte na Praça foi
reconhecido pelo MinC como Ponto de Cultura, passando a receber recursos para compra de
equipamentos e instrumentos musicais.
Conclusão

A arte é a forma de expressão mais antiga da humanidade. Seus signos se manifestam


em todas as formas de expressão, sejam elas visuais, sonoras, corporais ou teatrais e traduzem
toda subjetividade do homem em seu “ser e estar” no mundo, revelando-o a partir de seus
humores, emoções e sentimentos. Oportunizar uma experiência artística é abrir as portas para
o mundo sensível para que a subjetividade possa se revelar. Nesse sentido, exercícios
sistemáticos e orientados ajudam crianças e jovens a se conhecerem melhor, cultivar bons
pensamentos, elevar a autoestima e transpor barreiras interiores que possam interferir no
desenvolvimento pessoal, sobrevindo assim uma elevação das faculdades mentais, da postura
ética e crítica diante da realidade. E nesse autoconhecer-se, exposto à diversidade cultural dos
povos no tempo e no espaço, na experiência de criação e de expressão estética, o aluno poderá
traçar o seu caminho com respeito ao semelhante, ao sexo oposto e à diversidade, com
cuidado e responsabilidade. Um projeto possível!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTRO, Mary Garcia, et al. Cultivando vida, desarmando violência: experiências em


educação, cultura, lazer, esporte e cidadania com jovens em situação de pobreza. Brasília:
UNESCO, Brasil Telecom, Fundação Kellogg, Banco Interamericano de Desenvolvimento,
2001.

WAISELFISZ, Julio Jacobo et alii, Nos Caminhos da inclusão social: a rede de participação
popular de Porto Alegre. Brasília: UNESCO. 2004.

TURINO, Célio (org.) Lazer nos programas sociais: proposta de combate à violência e a
exclusão – São Paulo: Anita, 2003
APRESENTAÇÃO DA ANÁLISE DE RESULTADOS DA PESQUISA: Serviço Social
Escolar. Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Americana – 2005.

SÍNTESE DE INDICADORES SOCIAIS, IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e


Estatística – 2004

CADERNO DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO: Antropologia Teológica. Batatais, SP,


CEUCLAR, 2011.

CADERNOS DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO: Historia da Arte. Batatais, SP,


CEUCLAR, 2011.

E-REFERÊNCIAS

Titãs, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tit%C3%A3s_%28banda acesso em


20/11/2011.

Consciência Social, disponível em: www.conscienciasocial.net


acesso em 24/11/2011

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