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Variabilidade de frequência cardíaca: Novas perspectivas

sobre mecanismos fisiológicos, avaliação da capacidade de


autorregulação e riscos para a saúde*
Rollin McCraty, PhD; United States;
Fred Shaffer, PhD, BCB, United States

RESUMO: A variabilidade da frequência cardíaca (VFC), ou a modificação dos


intervalos de tempo entre as batidas consecutivas do coração, é uma propriedade
emergente dos sistemas regulatórios interdependentes que opera sobre diferentes
escalas temporais para adaptar-se aos desafios ambientais e psicológicos. Este artigo
revisa brevemente a regulação nervosa do coração e oferece novas perspectivas sobre
os mecanismos subjacentes ao ritmo de muito baixa frequência da VFC. Analisa-se a
interpretação de que os ritmos de VFC no contexto de risco para saúde e avaliação da
capacidade de autorregulação fisiológica e psicológica. Os centros reguladores
cardiovasculares da medula espinal e do bulbo integram entradas de centros cerebrais
superiores com entradas do sistema cardiovascular aferente para ajustar a frequência
cardíaca (FC) e a pressão arterial por vias eferentes simpáticas e parassimpáticas.
Também falamos sobre o Sistema Nervoso Intrínseco Cardíaco e as vias de conexão
coração-cérebro, através das quais a informação aferente pode influenciar a atividade
das áreas subcortical, frontocortical e córtex motor. Além disso, revisa-se o uso de
biofeedback de VFC em tempo real para aumentar a capacidade de autorregulação.
Concluímos que os ritmos cardíacos se caracterizam tanto por sua complexidade como
por sua estabilidade sobre escalas temporais mais longas que refletem os estados
funcionais fisiológicos e psicológicos destes sistemas internos de autorregulação.

INTRODUÇÃO
Desde que Walter Cannon introduziu o conceito de homeostase1, o
estudo da fisiologia tem se baseado no princípio de que todas as células, tecidos
e órgãos se esforçam para manterem-se em uma condição “estável”, seja de
forma estática ou constante. Contudo, com a introdução das tecnologias de
processamento de sinal é possível mensurar dados contínuos de séries
temporais de processos fisiológicos, como de frequência cardíaca (FC), pressão
arterial (PA) e atividade nervosa, com isso tornou-se bastante aparente que os
processos biológicos variam de maneiras complexas e não-lineares, mesmo
durantes as condições chamadas de “estáveis” ou em “estado estacionário”.
Essas observações levaram ao entendimento de que uma função boa e saudável
é resultado de interações continuas, dinâmicas e bidirecionais entre múltiplos
sistemas de controle neurais, hormonais e mecânicos, tanto em nível local
quanto central. Em conjunto, tais sistemas regulatórios fisiológicos e psicológicos
nunca estão verdadeiramente em repouso e certamente nunca são estáticos.
Por exemplo, atualmente nos sabemos que o ritmo de batimentos cardíacos em
repouso é altamente variável, e não monotonamente regular, que foi uma noção
generalizada por vários anos.

VARIABILIDADE DE FREQUÊNCIA CARDIACA


A investigação da complexidade do ritmo cardíaco, ou, como agora é
chamada, variabilidade de frequência cardíaca2 – VFC (HRV, em inglês),
começou com o surgimento do processamento de sinais moderno, entre os anos
de 1960 e 1970, e expandiu-se rapidamente até os tempos atuais. O
comportamento irregular do batimento cardíaco é aparente quando a FC é
examinada com base de batimento a batimento (beat-to-beat), mas é ignorado
quando um valor médio ao longo do tempo é calculado. Essas flutuações na FC
é resultado complexo de interações não-lineares entre um número de diferentes
sistemas fisiológicos. VFC, é, portanto, considerada uma mensuração da função
neurocardíaca, refletindo a interação coração-cérebro e a dinâmica do sistema
nervoso autônomo (SNA)3-4.
Um nível ideal de VFC em um organismo reflete uma função saudável e
uma capacidade inerente de autorregulação, adaptabilidade ou resiliência 4-10.

Muita instabilidade, como arritmias ou caos no sistema nervoso, é prejudicial a


um funcionamento fisiológico eficiente e a utilização de energia. Contudo, pouca
variação indica o mau funcionamento dos sistemas relacionado a idade, estresse
crônico, patologias, ou o funcionamento inadequado em vários níveis de
sistemas envolvidos no controle da autorregulação 2,11,12.
A importância da VFC como um indicador do status funcional dos sistemas
de controle fisiológico foi observado anteriormente ao ano de 1965, quando foi
descoberto que o sofrimento fetal é precedido por reduções na VFC antes
mesmo de ocorrer uma mudança na própria FC13. Na década de 1970, a redução
da VFC mostrou predizer a neuropatia autonômica em pacientes diabéticos
antes do início dos sintomas 14-16. A redução da VFC também foi considerada um
fator de risco de morte, após infarto do miocárdio, maior do que outros fatores
de risco conhecidos 17. Está claro que a VFC diminui com a idade, e os ajudes
relacionados a idade não devem ser ignorados no contexto de predição de risco
18.