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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

CURSO DE HISTÓRIA

Fichamento do texto “A Pluralidade das Censuras e das Propagandas da Ditadura” de Carlos


Fico

Beatriz do Piauí Barbosa

SÃO CRISTÓVÃO

AGOSTO/2018
No Capítulo 16, “A Pluralidade das Censuras e das Propagandas na Ditadura”, o autor
Carlos Fico inicia comentando sobre o aumento nos investimento da propaganda na ditadura
militar. Com o AI-5, a censura tornou-se ainda mais forte no Brasil ditatorial, a censura
política passa a ser escondida do povo.

Também no terço final dos anos 1960, a ditadura militar patrocinou intensa
propaganda política que, de algum modo, podia ser lida como a outra face da
censura: ao invés de ocultar a verdade, como fazia a censura, a propaganda
veiculava a farsa montada pelo regime, segundo a qual a sociedade brasileira
finalmente realizava todas as suas potencialidades. (FICO, 2004, pp. 265-266)

No decorrer do capítulo, aparece mais uma justificativa do por que do investimento


maciço em propagandas. O uso da publicidade ajudava a fortalecer a comunicação e
“esclarecer” os ideais do Estado de exceção.

O propósito da presente comunicação é iluminar as diferenças existentes entre tais


instâncias, especialmente a censura e a propaganda, justamente com o intuito de
aclarar a leitura que enfatiza as especificidades de cada um dos “pilares básicos” da
ditadura. (FICO, 2004, pp. 266)

Durante o governo de Castelo Branco, surge a “força autônoma”, constituída na ideia


que deveriam ser exterminados todos aqueles os quais eram identificados como comunistas
para o alcance de um Brasil grandioso. “Desse modo, o combate ao comunismo e à corrupção
foi o slogan preferido da força autônoma.” (FICO, 2004, pp. 267)

Segundo Fico, enganam-se aqueles que creditavam a ditadura militar o início da


publicidade conservadora. No Brasil, a propaganda já era historicamente conservadora e cheia
de censura, com a ascensão do governo militar e a instituição do AI-5, a censura se fortalece
porém não significa que esta já não existia. “Fixe-se que a cenura ‘moral’ existia havia muito
tempo, sendo um equívoco historiográfico associá-la, estritamente, à ditadura militar” (FICO,
2004, pp. 270)

Não houve uma única censura durante o regime militar, mas duas. A censura
moderna de diversões públicas existia no Brasil, de maneira oficial, desde 1946. (...)
todo um ethos próprio animava a Divisão de Diversões Públicas (DCDP), desde
muito antes do golpe de 1964. A Divisão realmente expressa à vontade da maioria
da população ao cuidar para que os “atentados à moral e os bons costumes” fossem
evitados. (FICO, 2004, pp. 269)

Como havia diversos órgãos que cuidavam das questões de censura, o autor faz
questão de fazer uma diferenciação entre estes no âmbito do Direito. A diferença entre o SNI
e o sistema CODI-DOI são os exemplos utilizados.

Assim, o SNI era legalizado (até porque órgãos assemelhados existiam em países
democráticos), enquanto que a polícia política era “revolucionária”. Do mesmo
modo, a censura moral era legalizada e a censura de imprensa era “revolucionária”.
(FICO, 2004, pp. 271)

A televisão buscava exibir apenas o aceitável para a “família tradicional brasileira”.


Os bons costumes foram muito utilizados durante o governo Médici, a ideia era transparecer
um Brasil de cristãos onde a democracia, o otimismo e a formalidade seriam os maiores
pilares do governo ditatorial.

De fato, prevaleceu a exaltação contínua dos comerciais da AERP, que falavam de


“amor” e “participação” na fase mais truculenta da repressão – o governo do general
Emílio Garrastazu Médici. A televisão foi inundada por anúncios que destacavam
valores éticos morais associados à “democracia ocidental e cristã” e a supostos
traços característicos do Brasil e dos brasileiros, como a alegria, o otimismo, a
cordialidade etc,. tudo transparecendo a tradição, de razoáveis antecedentes, segunda
a qual a pretensa singularidade da sociedada brasileira era garantia para que o país se
transformasse em uma grande potência. Foi na época de campanhas como “Ninguém
segura o Brasil”, “O Brasil merece o nosso amor” e “Este é um país que vai pra
frente”. (FICO, 2004, pp. 272)

Entretanto, a AERP, ainda que contribuísse para a publicidade favorável a ditadura


brasileira, não foi criada sob a influência da linha dura. Logo, houve alguns embates entre ela
e os outros órgãos de censura da linha dura.

Foram muitos os conflitos entre a AERP e a linha dura, sendo o mais famoso o que
resultou da divulgação do slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o”, de autoria da Operação
Bandeirantes (o embrião do Sistema CODI-DOI) e que, para todos, parecia ter sido
criado pela AERP. Para a linha dura, a propaganda política edulcorada da AERP,
deveria ser substituída pela contra-propaganda, uma guerra psicológica. Assim,
contra a vontade da AERP, a comunidade de segurança e de informações levava à
TV os discursos de arrependimento de militantes da luta armada feitos prisioneiros,
prática de propaganda que acreditavam ser muito mais eficaz. (FICO, 2004, pp. 273)

Perante tantos embates ideológicos dentro da própria instituição militar, o autor põe
como questionamento como essas diversas instâncias puderam conviver e atuar durante o
golpe? A resposta a essa pergunta aparece logo em seguida:

(...) um forte amálgama unificava as diversas correntes militares (...) traços de uma
cultura política que animava os militares e que podem ser reunidos sob a expressão
“utopia autoritária”. Esta utopia assentava-se na crença de uma superioridade militar
sobre os civis e realizava-se em duas dimensões: a primeira, mais óbvia, podemos
chamar de “saneadora”, e visava a “curar o organismo social” extirpando-lhe
(fisicamente) o “câncer do comunismo”; a segunda, de base pedagógica, buscava
suprir supostas deficiências do povo brasileiro, visto como despreparado (para o
voto, por exemplo) e manipulável (pelos políticos corruptos, digamos). (FICO,
2004, pp. 274)

Por fim, Fico classifica a propaganda e a censura como de importância essencial para
que houvesse a “legitimidade” em consenso por parte daqueles que compartilhavam da
“utopia autoritária” além de defenderem a ideia de que a ditadura combatia a corrupção. “(...)
a comunidade de informações teve função importante na defesa da necessidade da repressão
stricti sensu, mas também da censura, do combate à corrupção, da utilização dos meios de
comunicação para propaganda, etc.” (FICO, 2004, pp. 274)

Referência Bibliográfica

FICO, Carlos. A Pluralidade das Censuras e das Propagandas da Ditadura. In: REIS,
Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O golpe e a ditadura
militar: quarenta anos depois (1964-2004). Bauru: Edusc, 2004.