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REVISTA DO CFCH • UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

ISSN 2177-9325 • www.revista.cfch.ufrj.br


Edição Especial SIAC 2017

Uma Maré de Inseguranças

Luiz Augusto Ferreira Lourenço


Instituto de Geografia
Luiz.fl.augusto@gmail.com

Orientador(s):Carlos Vainer
ETTERN/IPPUR
carlosvainer@ippur.ufrj.br

Breno Pimentel Câmara


ETTERN/IPPUR
breno@ippur.ufrj.br

Palavras-chave:
Conflitos urbanos. Maré. Necropolítica. Violência.

Nas áreas favelizadas das grandes metrópoles, o tema da segurança pública


emerge com importância vital para eclosão de conflitos motivados por violências. Nesse
sentido, a cidade do Rio de Janeiro, com suas grandes áreas e populações favelizadas,
apresenta uma grande problemática em relação à atuação das forças de segurança
pública (devido à ação truculenta, extralegal, muitas vezes assassina por parte dos
agentes policiais) ou por parte das territorialidades de grupos criminosos que controlam
diversos espaços marginalizados, ou pela ação dos dois grupos ao mesmo tempo.
O bairro Maré (composto por quinze favelas) apresenta, ao longo de sua história
recente, manifestações de conflitos envolvendo a crítica à violência e seus agentes
institucionalizados ou não no que diz respeito à segurança dos moradores das favelas
que compõem a Maré, revelando que existem sujeitos manifestantes insatisfeitos com a
política de segurança pública aplicada no local.
De forma geral, a atual política de segurança pública tem revelado a ação do
Estado pactuada com agentes exógenos à favela, sobretudo na lógica dos megaeventos
pelos quais passou a urbe carioca. Necessitando garantir o controle do espaço e dos
indivíduos na periferia social da cidade, a proposta de segurança pública para a Maré
foi, sobretudo durante a Copa do Mundo de 2014, a utilização do Exército Brasileiro e a
materialização de forças desproporcionais e aparatos de guerra na contenção de
qualquer movimento local que pautasse contestar a lógica mercadológica da cidade e a

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especificidade da segurança pública local.


O objetivo da análise dos conflitos urbanos é revelar os motivos que levam os
moradores do bairro a se manifestarem quando o assunto é violência local. Ao
cartografar os conflitos urbanos e identificar padrões de problemas, a pesquisa tenciona
esclarecer características que possam apontar áreas de maior conflituosidade ou menor
incidente de problemas associados à segurança pública dentro da Maré. Utiliza-se a
definição de conflito proposta pelo Observatório de Conflitos Urbanos na Cidade do
Rio de Janeiro, que diz:

Entende-se por conflito urbano todo e qualquer confronto ou litígio


relativo à infraestrutura, serviços ou condições de vida urbanas, que
envolva pelo menos dois atores coletivos e/ou institucionais (inclusive
o Estado) e se manifeste no espaço público (vias públicas, meios de
comunicação de massa, justiça, representações frente a órgãos
públicos, etc.).1

Os dados registrados pelo Observatório de Conflitos Urbanos, leva em conta os


seguintes objetos de conflitos: energia e gás, transporte, trânsito e circulação, saúde,
educação, infraestrutura de comunicação, acesso e uso do espaço público, rios, lagoas e
praias, parques, jardins e florestas, lixo e resíduos, água, esgoto e drenagem, legislação
urbana, moradia, segurança pública, vizinhança, espaço sonoro e visual, patrimônio
cultural e a categoria outros, onde estão agrupados todos os conflitos que não se
enquadram nas demais categorias.
Diante de uma cidade com altos índices de violências, torna-se importante
demonstrar a perspectiva das manifestações realizadas pelos sujeitos-moradores, dando
voz aos grupos politicamente marginalizados, apontando informações trazidas para a
discussão a partir da fala dos habitantes das favelas e não apenas pelas informações
institucionalizadas por órgãos de segurança pública. Com essa dinâmica o “lugar de
fala” coletivo ganha materialidade e importância na postura contestatória de práticas
violentas nas favelas.
A pesquisa tem como fonte de informações o banco de dados do Observatório dos
Conflitos Urbanos na Cidade do Rio de Janeiro. Seus dados, são catalogados desde
1993, utilizando variadas fontes de informações jornalísticas, o Ministério Público do

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Observatório de Conflitos Urbanos na Cidade do Rio de Janeiro. Disponível em:
<http://www.observaconflitosrio.ippur.ufrj.br/site/>. Acesso em: 29 set. 2017.

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Estado e a própria equipe do Observatório. Somada ao banco de dados, a utilização de


bases cartográficas do bairro Maré faz-se necessária para melhor visualizar e referenciar
espacialmente a distribuição de conflitos no local. O uso do Censo de Empreendimentos
da Maré também é importante para podermos realizar o cruzamento de dados obtidos
das diversas fontes de trabalho, formatando análises e conclusões sobre os conflitos
existentes na área.
Para entendermos a complexidade da segurança pública da Maré, é preciso
adentrarmos no campo das heranças coloniais associadas ao racismo e à violência,
processos políticos tão impregnados nas favelas cariocas. O conceito de necropolítica
proposto por Achilles Mbembe é um alicerce teórico no qual é possível se apoiar para
perceber a complexidade multidimensional das formas de violência do mundo atual na
periferia do capitalismo. Mbembe (2014) indica que a violência colonial, ou
colonizadora possui uma tripla perspectiva categorizando-as como: instauradora,
empírica e fenomênica. A violência instauradora é tipificada através do puro uso da
força para fazer valer os desígnios do grupo dominante frente aos dominados na
construção de uma relação política de poder. A violência empírica, caracteriza-se por ser
um quadriculamento de forma molecular, numa sujeição estrutural e permanente da vida
dos grupos dominados através da dimensão espacial do confinamento humano, além de,
se necessário, a supressão da vida e outros atos baseados em sequelas físicas. Por
último, a violência fenomênica ingressa no campo das subjetividades, dos sentidos,
criando nos submetidos problemas psicológicos, traumas e instabilidades associadas à
sua psique. Afetando processos de identificação e memória dos grupos dominados e
incutindo a subalternidade que legitima as relações de poder.
Traçando paralelos com a atualidade, a violência colonial debatida por Mbembe é
praticada nas favelas do Rio de Janeiro, espaço social destinado não apenas, mas
sobretudo, à população negra no Brasil. A imposição da violência como saída para a
questão social das favelas tem sido o mote central na confecção de variadas políticas
públicas de segurança na cidade. Com a violência das ações de contenção dos agentes
de segurança pública praticada nas áreas marginalizadas da cidade fica evidente o uso
cada vez mais amplificado de ferramentas de guerra. Caveirões, helicópteros, operações
conjuntas entre polícia e exército, barricadas, revistas, ou seja, uma gama de ações de
esquadrinhamento socioespacial visando o controle territorial nas favelas. Além da
violência física, é preciso enfatizar os reflexos sensoriais da opressão, que reverberam

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em diferentes sensações perpassando pelo medo, impotência, inferioridade, percepções


sensitivas que consolidam fabulações sobre os moradores das favelas.

Os conflitos de segurança pública registrados na Maré

O recorte temporal da pesquisa remeteu ao intervalo entre 1993 até 2017, quando
foram registrados 58 conflitos no total, sendo esses divididos entre cinco tipos de
conflitos que se manifestaram no local: segurança pública (44), saúde (1), moradia (10),
educação (2) e água (1).
O bairro Maré é controlado por três grupos criminosos que territorializam o
espaço, sendo necessário entender que a dinâmica da vivência local está atrelada à
sociabilidade política construída por esses grupos, e, numa relação de poder, essas
facções possuem influência suficiente para coibir a manifestação de um conflito que
possa prejudicar as relações políticas, territoriais e econômicas de setores da Maré. O
silenciamento de determinados conflitos pode ser entendido como uma medida de
sobrevivência, pois moradores e criminosos dividem o mesmo espaço, porém, com
assimetrias de poder que fazem com que a fala dos moradores seja sobrepujada pelo
medo e violência dos criminosos, ou, dos agentes de segurança pública.
Predominam na Maré os conflitos associados à segurança pública, onde foram
registrados 44 conflitos. Tal primazia revela que a maior violência que o Estado pratica
no local é através dos agentes de segurança pública. Para entender essa lógica, é preciso
atar na discussão o ordenamento socioterritorial a partir das demandas levantadas pela
conjuntura política que imprimem no espaço urbano as relações capitalistas de
produção, onde a segregação e a contenção das favelas são formas de valorização do
espaço físico e social da cidade “formal”. Nesse sentido, a segurança pública é uma das
políticas de manutenção da estrutura de poder vigente, evitando a manifestação de
grupos contestatórios. Mesmo com o contexto de violência na Maré, os múltiplos atores
locais se manifestaram e fizeram uso de distintas formas de protesto.
A espacialização dos conflitos na Maré aponta para uma distribuição de conflitos
que está atrelada à duas variáveis: contingente demográfico e comércio, e são nas
localidades da Maré com maior número de habitantes e comércios que acontecem
conflitos com maior frequência. Segundo o Censo de Empreendimentos Maré, em
termos demográficos, a Vila do Pinheiro, Nova Holanda e Vila do João são

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respectivamente 2º, 3º, 4º favelas mais populosas da Maré. No âmbito do quantitativo de


empreendimentos econômicos, a ordem passa a ser Vila do Pinheiro (2º), Vila do João
(3º) e Nova Holanda (4º). Essa sobreposição de dados socioespaciais registrados indica
a centralidade dessas localidades dentro da Maré como pontos difusores da economia
local formal e informal. Nessas áreas, através de pesquisa de campo, observou-se a
potência desses fluxos materializada em um forte e diversificado comércio que garante
boa parte das demandas de consumo no bairro. Além dos empreendimentos legais, é
central no debate ressaltar a venda de drogas como um ramo da economia ilícita que
atua intensamente nessas localidades com altos índices de disputas violentas entre os
grupos de vendedores varejistas. O que de maneira constante obriga os moradores a uma
atualização permanente da situação territorial da favela, posto que as disputas entre tais
grupos normalmente significam expansões ou retrações do espaço de seu controle.
Nesse sentido, a velocidade dos fluxos de informações das redes sociais que noticiam
sobre a geopolítica interna da Maré se transformam em ferramentas que podem ajudar a
evitar mortes no local, uma vez que relatam em tempo real os confrontos violentos no
bairro.

Referências bibliográficas

MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. Lisboa: Antígona Editores, 2014.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Artes & Ensaios, Rio de Janeiro, n.32, p. 123-151,
dez 2016.

REDES DA MARÉ. Censo de Empreendimentos Maré. Rio de Janeiro: Observatório


de Favelas, 2014.

OBSERVATÓRIO DOS CONFLITOS URBANOS NA CIDADE DO RIO DE


JANEIRO.Mapa dos Conflitos. Disponível em:
<http://observaconflitosrio.ippur.ufrj.br>. Acesso em: 01 out. 2017.