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Bases Psicossociais da Aprendizagem

Bases Psicossociais da
Aprendizagem
Professor Altiere Araujo Carvalho

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Bases Psicossociais da Aprendizagem

1. Desenvolvimento Moral/Social 3
1.1: Aspectos Psicossociais da Infância e da Adolescência 5

2. Aprendizagem: 5
SUMÁRIO 2.1: Aprendizagem e Desempenho 6
2.2: Transferência de Aprendizagem. 8
2.3: Aprendizagem e Motivação 8

3. TEORIAS DA APRENDIZAGEM 10
3.1: Aprendizagem e o Condicionamento Clássico e Operante 10
3.1.1: Ivan Petrovitc Pavlov 10
3.1.2: Skinner 11
3.1.3: Thorndike 11
3.2: Aprendizagem e o Insight 12
3.3: Aprendizagem e o Ensaio e Erro 12
3.4: Aprendizagem e o Modelo Social 12

4. Modelos teóricos na Psicologia da Aprendizagem 13


4.1 – A Teoria Cognitiva de Piaget – A Epistemologia Genética 13
4.2: A Teoria Histórico-Cultural de Vygotsky 15

5: OUTRAS TEORIAS E COMPONENTES DA APRENDIZAGEM 16


5.1: Bandura e a Aprendizagem Social 16
5.2: Noam Chomsky e o conflito com a teoria behaviorista de Skinner 16
5.3: Psicomotricidade e a Aprendizagem: 17
5.4: Memória e Aprendizagem 18
5.5: Pensamento, Linguagem e Aprendizagem: 18
5.6: Grafismo e Aprendizagem 20

Anexo 1 - O problema do controle: 24

Anexo 2 - O homem que foi colocado numa gaiola 25

Referências Bibliográficas: 27

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1. DESENVOLVIMENTO MORAL/ “agência psíquica” da sociedade. Ao ajustar-se a


situação da família, a criança adquire a espécie de
SOCIAL caráter que leva a querer fazer o que tem que fazer,
Mesmo antes de nascer, a pessoa já recebe, no intuito de funcionar com alguma eficácia social.
indiretamente, uma enorme carga de expectativas.
O homem sofre cerceamentos internos e externos no
meio cultural em que vive. Os padrões de sentimentos,
pensamentos e ações adotados por determinada
cultura têm como objetivo formar o homem da melhor
maneira possível dentro da mentalidade desta.

O homem internaliza, num processo individualizado,


os elementos de sua cultura. Em outras palavras, o
homem como personalidade individual integra-se
aos objetivos globais da cultura em que nasceu. Vale
lembrar, entretanto, que cultura e personalidade
interagem reciprocamente. O que o homem vive
na mais tenra idade, coloca os fundamentos da
personalidade adulta na visão própria da geração que
o educa.

Porém, fundamento não significa obra terminada


ou, no caso, personalidade acabada. Integrar-se ou
não à cultura há de depender significativamente de
experiências posteriores, no decorrer da existência.
A educação apenas contribui para a formação da
personalidade desejada, no esquema de valores
cultivados, deixando livre o homem para seguí-los ou
não.

Para Freud a aquisição tanto da moralidade


como de valores e atitudes está substanciada
no desenvolvimento do superego, dentro da
personalidade da criança, através de um processo
de identificação que se dá inicialmente com os pais.
Freud entende por identificação a internalização de
valores dos modelos, os pais. O indivíduo se forma
pelas identificações que deixam um sedimento na Erich Fromm e Sigmund Freud.
forma de valores e metas.
A socialização pode ser considerada um processo
Erich Fromm, psicólogo culturalista, também pelo qual os indivíduos atingem as expectativas de
compartilha da importância da família na formação papel, valores e atitudes da sociedade por meio das
da criança. Segundo Fromm, o caráter da criança relações interpessoais, o que compõe um processo
é modelado por sua família, mas esta constitui a

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que não se restringe à infância, mas perdura pela um valor maior que a socialização secundária e a
vida adulta. estrutura básica da socialização secundária deve
assemelhar-se à socialização primária. Parece correto
O cotidiano se apresenta como uma realidade atribuir à socialização primária, na qual se percebe a
interpretada pelos homens e subjetivamente dotada presença marcante da família, um papel fundamental
de sentido para eles na medida em que forma um na formação do indivíduo.
mundo coerente. Por esse motivo, a personalidade
é uma entidade reflexa, que retrata as atitudes A socialização primária interioriza uma realidade
tomadas pela primeira vez pelos outros significativos apreendida como inevitável. Esta interiorização
com relação ao indivíduo. É preciso que se entendam pode ser julgada bem sucedida se o sentimento de
outros significativos. O indivíduo se torna o que é pela inevitabilidade estiver presente na maior parte do
ação dos outros que para ele são significativos. Este tempo, pelo menos enquanto o indivíduo é ativo no
processo implica numa dialética entre a identificação mundo da vida cotidiana. Os fatores de legitimidade
pelos outros e a auto-identificação. e inevitabilidade são fundamentais para o sucesso e
a sedimentação da socialização primária, uma vez
Segundo Berger e Luckmann (1991: 173) “... o que a socialização não é completa e definitiva e os
indivíduo não nasce membro da sociedade, nasce seus conteúdos são constantemente ameaçados.
com a predisposição para a sociabilidade e torna-se
membro da sociedade...”. Portanto, é preciso que o Outro ponto a ser considerado é que as relações
indivíduo passe pelo processo de socialização, onde com os outros não se limitam aos conhecidos e
ocorre a internalização (apropriação) do mundo social, contemporâneos, mas também com predecessores e
com suas normas, valores, modos de representar sucessores. As relações com os sucessores são ainda
objetos e situações que compõe a realidade objetiva. mais anônimas, os “filhos de meus filhos” ou “as
gerações futuras”.
Este processo de constituição da realidade
subjetiva se forma a partir das primeiras relações do Como foi visto os conteúdos inevitáveis
indivíduo com o meio social. Cada indivíduo possui interiorizados pelos indivíduos são transmitidos por
uma sequência temporal no curso da qual é induzido aqueles que assumem o papel na sua socialização
a tomar parte na dialética da sociedade. O ponto primária e, na maioria dos casos, é dos pais esta
de partida deste processo é a interiorização, que responsabilidade tendo a linguagem como o mais
consiste na apreensão ou interpretação imediata de importante conteúdo e o mais importante instrumento
um acontecimento objetivo como dotado de sentido. de socialização.

A socialização primária é a primeira socialização Entretanto, é importante destacar que na


que o indivíduo experimenta na infância, em virtude adolescência a socialização secundária assume um
da qual se torna membro da sociedade, normalmente importante papel na vida do indivíduo, uma vez
são responsáveis pela socialização primária a família, que os valores incontestáveis recebidos ao longo da
ou pessoas muito significativas e próximas, como socialização primária serão agora testados frente aos
ocorre em orfanatos, por exemplo. valores fornecidos pelo grupo de amigos e demais
grupos em que o indivíduo passa a integrar.
A socialização secundária é qualquer processo
subsequente que introduz o indivíduo, já socializado,
em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade.
Em geral, a socialização primária tem para o indivíduo

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1.1: Aspectos Psicossociais da Infância e as etapas, sendo marcadas por intensidade e foco
específico; mas uma coisa é certa, se as coisas não
da Adolescência forem bem durante a infância, possivelmente não
serão melhores durante a adolescência. Muitos pais
A cultura ocidental contemporânea tem grande
têm dificuldades em estabelecer limites, direcionar
interesse na infância e na adolescência, por esse
afeto e conduzir uma relação baseada no respeito e
motivo o processo do desenvolvimento e do
na confiança.
crescimento humano tem sido amplamente estudado,
discutido e teorizado em seus aspectos biológicos,
A relação com os filhos é construída diariamente
psicológicos e sociais.
desde a mais tenra idade. A forma de relacionamento
que se estabelece desde os primeiros anos de vida,
Estes aspectos estão interligados de forma
provavelmente, terá reflexos no futuro. As crianças
complexa e pode-se dizer que muitos fenômenos
testam seus pais a todo o momento e são capazes de
psicológicos e sociais decorrem das mudanças
perceber suas fraquezas e vulnerabilidades, tirando
anatômicas e fisiológicas ao longo da infância e,
proveito dessa condição.
em especial, durante a adolescência. Além disso,
grande parte dos teóricos parece concordar que
Na adolescência há uma tendência à repetição do
os acontecimentos e vivências do início da infância
processo imitativo, nesta fase porém, a inspiração
afetam o ajustamento psicológico e social futuro.
é procurada fora da família. Um auto-conceito, ou
auto-estima, favorável é essencial para a felicidade
Tanto na infância quanto na adolescência,
pessoal e para o funcionamento efetivo tanto da
existem diferentes faixas etárias que apontam
criança, como do adolescente e do adulto.
comportamentos psicossociais comuns que evoluem
e se transformam. Durante a infância há o predomínio
Em todas as fases o comportamento é resultado
da socialização primária marcada pela forte presença
da interação entre indivíduo e meio, das suas
e interferência dos pais. As experiências sociais
exigências internas e seu encontro com a sociedade.
e psicológicas evidenciam gradativos avanços em
Porém na infância e na adolescência o significado
direção à autonomia e à superação da dependência
desse processo psicológico e social reside no fato
dos adultos.
de ser o momento em que o indivíduo sedimentará
conceitos e experiências que serão decisivos para
Durante a adolescência, o grupo de amigos tende
seu ajustamento e conduta na vida adulta.
a ganhar importante papel, o que faz com que
a socialização secundária aumente seu poder de
influência sobre os adolescentes. Na adolescência o
2. APRENDIZAGEM:
processo pela busca da identidade e da conquista da
Quando se pretende caracterizar o fenômeno
autonomia se consolida, partindo das experiências
aprendizagem se percebe que inúmeras condições
trazidas do núcleo familiar e da contraposição das
o influenciam. Estas condições podem ser biológicas
experiências vividas fora da família, onde começa a
(maturação), a motivação, psicossociais e as
demarcação do seu papel no mundo em direção à
pedagógicas.
transição para a vida adulta.
Pode-se se dizer que a maturidade ocorre
Certamente, todo esse dinamismo psicossocial da
quando o organismo está pronto para a execução
infância e da adolescência é marcado por angústia
de determinada atividade. É comum se associar a
e dificuldades entre pais e filhos. De uma maneira
maturidade à chegada da vida adulta, o que constitui
geral, as dificuldades estão presentes em ambas

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um erro. A maturidade se dá em qualquer fase da de pés e mãos podem ser descoordenados e a


vida e pode se identificada como maturidade física, respiração pode estar irregular. Todavia, após
mental, social e emocional. algumas semanas de prática ou treinamento, esse
quadro se modifica, a pessoa aprende a flutuar,
A maturidade está relacionada à evolução dos seus movimentos ficam coordenados e a respiração
atributos do intelecto, psíquico e social, assim como acontece de forma a facilitar o ato.
no desenvolvimento motor – definido como as
mudanças progressivas resultante do crescimento A analogia acima compara a situação inicial e a
e do desenvolvimento biológico e comportamental. final, e mostra claramente uma notável mudança de
A maturidade varia de forma considerável entre comportamento, ocorrida durante o tempo, resultante
indivíduos dentro de um sistema biológico específico. de prática ou experiência anterior. Pode-se dizer
O nível de maturidade não acontece necessariamente então que o indivíduo aprendeu a nadar. Inúmeros
em paralelo à idade cronológica e é amplamente outros exemplos poderiam ser citados, para elucidar
determinado pela herança biológica. Em geral, existe esse processo, como aprender a andar de bicicleta,
uma correlação positiva entre nível de maturidade aprender a ler e escrever.
e rendimento físico e intelectual, especialmente no
menino durante a adolescência. 2.1: Aprendizagem e Desempenho
A relação entre maturidade e rendimento físico é A definição de aprendizagem e o exemplo
composta por uma união entre a idade cronológica e mencionado anteriormente costumam ser
as alterações no tamanho, proporções e composição confundidos com desempenho. A aprendizagem é um
corporal. Existem também efeitos que combinam evento interno, não-observável. Já o desempenho
pressões sociais e psicológicas que acompanham diz respeito a um comportamento observável. Por
durante período da adolescência. isso, embora a aprendizagem possa ser deduzida
pela observação do desempenho, não é sinônimo de
Algumas pessoas podem utilizar os termos garantia de aprendizagem.
aprendizagem e conhecimento como sinônimos, o
que constitui um erro, porque por meio do processo Suponha que dois grupos de sujeitos – grupo A
de aprendizagem se adquire conhecimento. Ou seja, e grupo B – serão submetidos repetidamente, em
aprendizagem é o processo, o conhecimento é o igualdade de condições, ao aprendizado de uma
produto. tarefa motora. Durante alguns dias os grupos tendem
a continuar apresentando o mesmo resultado.
É comum as pessoas atribuírem à aprendizagem Porém, num determinado dia, o grupo A não poderá
uma conotação moral, apenas aos comportamentos descansar durante à noite, ou seja, os componentes
socialmente ajustados ou moralmente sancionados deste grupo estarão sujeitos a um estado de fadiga,
pela sociedade. Entretanto, deve-se considerar que enquanto os componentes do grupo B poderão
no processo de aprendizagem podem ser adquiridos descansar à noite, ou seja, não estarão sujeitos a
tanto bons quanto maus comportamentos, adequados uma condição de fadiga.
e inadequados.
No dia seguinte, ao se solicitar que os grupos
Aprendizagem é a mudança de comportamento realizem a tarefa motora a que estão acostumados,
resultante de prática ou experiência anterior. Quando pode-se perceber que, provavelmente, os
uma pessoa inicia o aprendizado da natação, por componentes do grupo A, cujo desempenho nos dias
exemplo, pode não conseguir flutuar, seus movimentos anteriores era igual aos componentes do grupo B,

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apresentarão um resultado alterado. Se isto acontecer fim de que seja restabelecido o equilíbrio vital,
pode-se referir a um desempenho inferior devido às provavelmente rompido pelo aparecimento de
condições (variáveis) a que foram submetidos, ou uma situação problemática.
seja: o estado de fadiga.
• Processo pessoal: Ninguém pode aprender por
O exemplo descrito neste experimento leva à outra pessoa. A aprendizagem é intransferível,
compreensão de que aprendizagem e desempenho de um indivíduo para outro. A maneira de
são fenômenos diferentes, pois os componentes aprender e o próprio ritmo de aprendizagem
do grupo A executaram satisfatoriamente a tarefa variam de indivíduo para indivíduo, face ao
motora durante vários dias. Isto leva a inferir que caráter pessoal da aprendizagem. Ao ouvir
houve aprendizagem. Entretanto, o desempenho esta afirmativa, se pode questionar o fato de
ficou comprometido devido à variável imposta ao se poder ensinar algo a alguém. O processo de
grupo. ensino consiste no empenho de se transmitir
algum conceito, conhecimento ou idéia. O
Após essas considerações iniciais sobre processo de aprendizagem pode ocorrer ou
aprendizagem, podem-se estabelecer, ainda, algumas não, depende do aprendiz.
características e compreender que a aprendizagem
é um processo dinâmico, contínuo, global, pessoal, • Processo gradativo: A aprendizagem é um
gradativo e cumulativo. Como segue: processo que acontece por meio de operações
crescentemente complexas, porque, a
• Processo dinâmico: a aprendizagem não é cada nova situação, maiores números de
um processo de absorção passiva, pois a elementos podem estar envolvidos. Cada nova
característica mais importante é a atividade aprendizagem acresce novos elementos à
daquele que aprende. É evidente que não experiência anterior, sem idas e vindas, mas
se trata apenas da atividade externa física, numa série gradativa e ascendente.
mas, também, de atividade interna, mental
e emocional, porque a aprendizagem é um • Processo cumulativo: Com um sentido de
processo que envolve a participação total do progressiva adaptação e ajustamento social, ao
indivíduo. Esta participação pode envolver os se analisar o ato de aprender, verifica-se que,
aspectos físicos, intelectuais, emocionais e além da maturação, a aprendizagem resulta
sociais individualmente ou em conjunto. de atividade anterior, ou seja, da experiência
individual. Ninguém aprende senão por si e
• Processo contínuo: A aprendizagem acontece em si mesmo, por auto-modificação. Desta
desde a infância, na juventude, na idade maneira, a aprendizagem constitui um processo
adulta e da senescência. cumulativo, em que a experiência atual se
aproveita das experiências anteriores. Estas
• Processo global ou compósito: A maioria dos modificações de comportamento, resultantes
comportamentos humanos é global. Podem da experiência, podem levar a frustrações e
incluir aspectos motores, emocionais e a perturbações emocionais, quando não se
ideativos ou mentais. Portanto, a aprendizagem dá a integração do comportamento, isto é, a
envolve mudança de comportamento e exige aprendizagem.
a participação global do indivíduo, para que
os aspectos constitutivos da personalidade
entrem em atividade no ato de aprender, a

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Quando a aprendizagem se realiza, surge um 2.3: Aprendizagem e Motivação


novo comportamento, capaz de solucionar a situação
problemática encontrada, o que leva o aprendiz à Outro aspecto relevante e indissociável do processo
adaptação, ou à integração de sua personalidade, de aprendizagem é a motivação, que se refere ao
ou ao ajustamento social, ou a todos estes fatores reconhecimento pelo indivíduo de que aprender algo
em conjunto. A acumulação das experiências leva à representa satisfação de necessidades atuais ou
organização de novos padrões de comportamento, futuras. A motivação também pode ser vista como
que são adquiridos e incorporados pelo sujeito. É um processo psicológico em construção.
possível afirmar que quem aprende modifica o seu
comportamento. A motivação humana deve ser compreendida na
relação entre os aspectos cognitivos e afetivos da
2.2: Transferência de Aprendizagem. personalidade, ambos largamente dependentes do
meio social. A motivação está ligada à autoconsciência
Ao se defrontar com uma nova situação que do indivíduo – seus ideais, projetos, visão de mundo
apresenta certa dificuldade, as pessoas, depois de – e também aos aspectos inconscientes de sua
alguma reflexão, percebe que uma solução utilizada personalidade.
anteriormente, num outro contexto, pode ser também
a alternativa para a resolução do problema do Pode-se dizer que uma pessoa motivada para
momento ou ser adequada a ela. Isto é transferência aprender constrói o conhecimento mais prontamente
de aprendizagem. do que uma sem motivação. Na base da motivação
encontram-se tantas razões de ordem geral como
Muitas transferências ocorrem naturalmente, aquelas de natureza específica: vontade de aprender,
ao se transpor e aplicar numa dada situação, necessidade de realizar-se, desejo de receber
conhecimentos, habilidades, métodos, ideais, valores, determinada recompensa ou de evitar certa punição.
hábitos e atitudes adquiridos em outros setores, ou
situações de vida. Naturalmente, a aprendizagem controlada por
recompensas – obter satisfação pessoal ou elogios
No universo escolar, o professor deve apontar ao da professora, por exemplo – é preferível àquela
estudante as inúmeras oportunidades em que se realizada apenas para não receber castigos dos pais,
pode utilizar esse procedimento, de modo a beneficiar para não repetir o ano, ou para evitar críticas da
a aprendizagem. Muitas vezes os alunos iniciam um professora.
novo conteúdo partindo do zero, como se nada que
foi visto anteriormente tivesse relação com o novo De igual modo, se aprende melhor quando se
conteúdo. espera alcançar sucesso do que quando se tem
expectativa de fracasso. Neste caso, a criança tende
Na verdade, isso contraria o que deveria de a não investir energia suficiente para poder realizar
fato ocorrer na atividade pedagógica, na qual adequadamente a tarefa.
as experiências anteriores deveriam favorecer
a aprendizagem do momento, assim como a O prazer deve vir da própria aprendizagem, do
aprendizagem do momento deveria favorecer às sentimento de competência pessoal, da segurança em
aprendizagens futuras. ser hábil para resolver problemas. Convém ressaltar
que o trabalho intelectual feito sobre materiais ou
conteúdos significativos é sempre mais produtivo do

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que aquele que envolve conteúdos ou materiais sem • Teoria Humanística: Abraham Maslow, um dos
nenhuma significação para quem aprende. teóricos humanistas, aceitou a ideia de que o
comportamento humano pode ser motivado
Motivação denota a predisposição por parte pela satisfação de necessidades biológicas e
do indivíduo para certo comportamento desejável então esquematizou uma hierarquia conjuntos
naquele momento. Motivação pressupõe o de motivos/necessidades, conhecida como a
encontro com os motivos pessoais. Os motivos Pirâmide das Necessidades, conforme a seguir:
levam o indivíduo a uma atividade na tentativa de
satisfazer suas necessidades. Qualquer necessidade • Necessidades Estéticas: estão presentes em
gera tensão, desequilíbrio. A tensão impulsiona alguns indivíduos e se manifestam através da
o comportamento na direção de um objetivo que busca constante da beleza.
permita o restabelecimento do equilíbrio. Os motivos
mantêm o organismo ativo até que a necessidade • Necessidade de Conhecimento e Compreensão:
seja satisfeita e a tensão desapareça. abrange a curiosidade, a exploração e o desejo
de conhecer novas coisas, de adquirir mais
Motivo, necessidade, impulso e instinto são conhecimentos.
constructos, processos internos hipotéticos que
parecem explicar o comportamento, mas não podem • Necessidade de Realização: expressa a
ser diretamente observados ou medidos. Referem-se tendência de transformar em realidade o que
a um estado de tensão, uma impulsão interna, que se é em potencial, a realizar planos e sonhos,
inicia, dirige e mantém o comportamento voltado a alcançar objetivos.
para um objetivo.
• Necessidade de Estima: leva à procura de
Este objetivo é, muitas vezes, chamado incentivo. valorização e o reconhecimento por parte dos
Os motivos dirigem o comportamento do indivíduo outros.
para o objetivo mais adequado para satisfazer a
necessidade. Não basta que o organismo esteja ativo, • Necessidade de Amor e Participação:
é preciso que sua função se dirija para um objetivo expressa o desejo de todas as pessoas de se
adequado. relacionarem efetivamente com os outros, de
pertencerem a um grupo.
Os motivos selecionam e acentuam a resposta
correta. As necessidades humanas são numerosas, • Necessidade de Segurança: manifesta-se pelo
especialmente as psicológicas, e muitas delas comportamento de evitar o perigo.
continuam insatisfeitas. A questão da motivação tem
sido bastante estudada pelas diversas linhas teóricas • Necessidades Fisiológicas: oxigênio, líquido,
existentes em Psicologia: alimento e descanso;

• Teoria do Condicionamento: a motivação Na teoria de Maslow, a hierarquia das necessidades


através do reforço ou recompensa. é fundamental. As necessidades que estão no topo
da pirâmide só surgem e podem ser satisfeitas na
• Teoria Cognitiva: Considera que, como ser medida em que se satisfazem as que estão na base
racional, o homem decide conscientemente o da pirâmide.
que quer ou não quer fazer.

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3. TEORIAS DA APRENDIZAGEM 3.1: Aprendizagem e o Condicionamento


Clássico e Operante
Aprendizagem é a mudança de comportamento
que ocorre pela prática, experiência ou treino. A Teoria Behaviorista, também conhecida
Tanto os comportamentos aprendidos como os como Teoria Comportamental usa o modelo do
não aprendidos têm como objetivo a adaptação. condicionamento, que é um tipo de aprendizagem
Os reflexos e os instintos são comportamentos não que acontece ao longo da vida nas mais diversas
aprendidos, são inatos. circunstâncias e pode ser dividido em condicionamento
clássico ou respondente e condicionamento
Existem por outro lado, diversas formas de operante.
aprendizagem, desde as mais simples até as mais
complexas. O “imprinting”, ou estampagem, é a 3.1.1: Ivan Petrovitc Pavlov
forma mais primitiva de aprendizagem que possui
muito de comportamento instintivo. Lorenz observou O Condicionamento clássico é de autoria de Ivan
este comportamento em filhotes de patos: Os filhotes Petrovitc Pavlov, chamado condicionamento clássico
formam um vínculo com uma “figura de mãe”. para distinguir-se do condicionamento operante. É o
Normalmente, esta figura é a sua mãe real, mas eles condicionamento de natureza fisiológica e estabelece
podem formar vínculo com objetos mais variados, uma relação entre estímulo e resposta, como segue.
desde que se movam, e tratá-los daí em diante como
mãe. Ao contrário de outras formas de aprendizagem, Primeiro Pavlov observou as reações inatas ou
a estampagem é irreversível e restrita a um breve reflexos, que podem ser definidas como reações
“período sensível”, que ocorre logo depois da saída imediatas, fixas e não-aprendidas de um músculo
do ovo e que a escolha de uma mãe também afeta ou glândula, em face de um estímulo sensorial. O
a escolha da companheira sexual quando a ave fica organismo que é dotado de uma série de respostas,
adulta. tendências ou reações, na presença de estímulos
apropriados, naturais incondicionados, entra em ação
O estudo da aprendizagem perpassa pela e produz uma resposta.
compreensão de teorias que ajudam a compreender
seu mecanismo. As principais teorias psicológicas do Baseado nesta premissa, Pavlov realizou o
século XX, como a teoria behaviorista, por exemplo, seguinte experimento: Ele colocou um cachorro em
fornecem grandes subsídios para se compreender a uma caixa dotada de uma lâmpada e um alarme
o comportamento humano. sonoro. O experimento consistia em apresentar ao
cachorro um pedaço de carne ao mesmo tempo em
Para os behavioristas as experiências passadas que soava a campainha e se acendia a luz. Ao ver
representam um fator fundamental na forma com o bife o cachorro salivava. Vale frisar que sempre
a qual os indivíduos se comportam no presente. que havia a apresentação do bife para o cachorro
As teorias do condicionamento clássico e operante se fazia soar o alarme e o acender da luz. Após
são fundamentais para a compreensão do processo várias apresentações, Pavlov fez soar a campainha
ensino/aprendizagem, assim como a aprendizagem e acender a luz, mas não apresentou o bife para o
por insight, por ensaio e erro, e social. cachorro, que mesmo assim, salivou.

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3.1.2: Skinner uma ação, que levaria à resposta esperada para


obtenção de um reforço.
O Condicionamento Operante se refere ao
condicionamento proposto por B. F. Skinner. Em outras palavras, enquanto no condicionamento
Ele chegou a esta teoria baseado no seguinte clássico, o estímulo incondicionado (alimento) e
experimento: colocou um rato numa gaiola dotada o estímulo condicionado (campainha) antecedem
de uma alavanca que ligava o seu interior a um a resposta (salivação), no condicionamento
reservatório de alimento ou água, localizado na parte operante, a resposta (pressionar a barra) antecede
externa. ao aparecimento do estímulo (alimento) ou ao
desaparecimento do estímulo (choque elétrico) que
Após o rato ter sido adaptado à gaiola, Skinner o vai assumir o papel de reforço para a emissão da
privou de alimento. O rato percorreu toda a gaiola resposta condicionada de pressionar a barra.
insistentemente à procura de alimento. Durante esta
busca, em um dado momento, o rato esbarrou na Quanto ao conceito de reforço, em linguagem
alavanca incidentalmente, que, ao ser pressionada comum, corresponde a recompensa. Para Skinner,
liberou alimento na gaiola. qualquer estímulo, cuja apresentação ou afastamento
aumenta a probabilidade de uma resposta, é um
O rato passou a repetir a ação de pressionar a reforço. É preciso não confundir reforço negativo
barra. Este procedimento se tornou a resposta com punição. No caso do reforço negativo, um
condicionada para o seu problema inicial (ausência comportamento se instala para evitar um estímulo
de alimento) e desta forma o estímulo (alimento) foi desagradável. No caso da punição, um determinado
o reforçador para a emissão da resposta condicionada comportamento é eliminado por meio de um estímulo
(pressionar a barra). O alimento funcionou como um aversivo.
reforçador positivo para o fortalecimento da resposta
esperada: pisar na alavanca. Portanto, o reforço 3.1.3: Thorndike
positivo é o estímulo cuja apresentação fortalece o
comportamento. Thorndike também era um behaviorista que apoiava
o conceito de condicionamento como processo de
Posteriormente, nesta mesma gaiola, foi aprendizagem. Seu experimento consistia em um
adicionado ao piso um choque elétrico. O rato gato em uma caixa com ferrolho e o alimento do
executou movimentos na tentativa de escapar do lado de fora, que o gato podia perceber por um visor.
choque, o que o levou, novamente, a esbarrar na Por ensaio e erro, acidentalmente, o animal abriu o
alavanca e pressionar a barra incidentalmente. O trinco e alcançou o alimento. Na medida em que a
problema inicial (retirada do choque elétrico no piso) exposição se repete, cada vez mais o gato abandona
fez com que o rato repetisse a resposta (pressionar os movimentos desordenados, exploratórios e
a barra), uma vez que esse procedimento afastava o impulsivos. Sua atividade se tornava cada vez mais
estímulo do choque. Neste caso, o choque funcionou restrita até que, finalmente, ao ser colocado de
como um reforço negativo para fortalecimento da novo na caixa, o gato dirigia-se imediatamente para
resposta esperada, pisar na alavanca. Portanto, a porta, abria o trinco e saía. O gato aprendeu por
reforço negativo o estímulo, cujo afastamento ensaio e erro.
fortalece o comportamento.
Thorndike estabeleceu a Lei do efeito: quando um
Este processo pode ser resumido da seguinte ato causa satisfação ou é seguido de recompensa,
forma: é operante porque implica na realização de tende a ser repetido. Ele sugere que a punição tem

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efeito inverso, ou seja, quando um ato é seguido de prévias, a solução aparece repentinamente quando
um estímulo aversivo (punição), este ato tende a ser tudo passa a ter sentido.
evitado. Ainda, relata que a prontidão é importante, e
que só é possível reforçar comportamentos possíveis 3.3: Aprendizagem e o Ensaio e Erro
de serem realizados. Foi o primeiro teórico a ressaltar
o papel da moderação. Outro tipo de aprendizagem ocorre por ensaio
e erro. Este processo é conhecido como a seleção
É muito conveniente ressaltar o conselho de de respostas bem sucedidas e surge quando a
Thorndike de nunca orientar um exercício pessoas ou situação problemática é difícil para o indivíduo, que é
animais que não estejam aptas a fazê-lo. obrigado a produzir diferentes respostas até resolver
o problema. Não deve ser identificada com mera
A Teoria do Condicionamento recebe frequentes atividade ao acaso, na qual as respostas corretas
críticas, entretanto, não se pode negar que o são feitas ao acaso. Deve ser reconhecida como uma
condicionamento é um componente marcante no aprendizagem dirigida para algum objetivo, na qual
cotidiano, pois constitui um dos tipos de aprendizagem. cada passo do processo é planejado.

3.2: Aprendizagem e o Insight 3.4: Aprendizagem e o Modelo Social


O fenômeno do insight integra os estudos da Teoria Nem toda a aprendizagem é proveniente do
da Gestalt. Traduzida do alemão de modo aproximado, condicionamento, ensaio e erro ou insight: a
a palavra Gestalt significa padrão ou configuração. aprendizagem também pode acontecer por imitação,
A teoria gestáltica do comportamento baseia-se em pela observação direta da conduta de outras
percepção, experiência e uma orientação definida pessoas, ou seja, aprender segundo um modelo. Os
para meta. Os psicólogos da Gestalt acreditam que pais, normalmente, são modelos significativos para a
uma pessoa percebe uma situação inteira, ao invés criança. Mas a escolha do modelo pode estar ligada
de seus elementos individuais. Assim, o todo é mais a muitos fatores como: ao poder reforçador que este
do que meramente a soma dos elementos, porque exerça, ao status por ele ocupado, sua atratividade,
as pessoas tendem a organizar os elementos de sua importância no imaginário de quem está
uma situação e depois acrescentam os elementos da imitando, dentre outros fatores. Muitos estudos têm
experiência passada, dessa forma torna a experiência indicado que condutas agressivas também podem ser
maior do que a soma das percepções individuais. aprendidas por modelos, assim como as preferências
estéticas, os juízos morais e outros comportamentos.
O insight é um tipo de aprendizagem que
ocorre quando o sujeito, diante de uma situação A imitação é percebida por quem imita como uma
problemática, apresenta um discernimento súbito. maneira de se obter atenção, segurança, aceitação
É uma aprendizagem inteligente, interpretativa e e prestígio, mesmo quando o conteúdo do que
integrativa. Ocorre quando o indivíduo consegue é imitado não é adequado. De modo geral, nas
perceber as relações existentes em uma situação situações do cotidiano as tendências imitativas são
problemática, formar uma estrutura, integrar os recompensadas e a não imitação castigadas.
elementos e, subitamente, compreende a situação.
O termo insight pode ser resumido como uma Os tipos de aprendizagens vistos até aqui fazem
compreensão imediata. Para que se dê o insight, parte de um tipo de aprendizagem mais complexo,
há uma necessidade de uma série de experiências conhecido por raciocínio. O raciocínio é
um processo análogo ao ensaio e erro, mas de

12
Bases Psicossociais da Aprendizagem

natureza mental, isto é, as pessoas ensaiam e crianças que freqüentavam as escolas francesas,
erram mentalmente, para só depois tentar resolver o teste de inteligência Binet-Simon (Teste de
efetivamente os problemas. Quoeficiente de Inteligência – QI). Ao analisar as
respostas das crianças no teste, Piaget começou a
O processo de raciocinar inicia-se a partir de se interessar pelas respostas erradas, salientando
uma motivação, da necessidade de resolução de um que as crianças erravam porque as respostas eram
problema. Segue-se uma análise para determinar em analisadas a partir do ponto de vista do adulto.
que consiste exatamente a dificuldade e formulam-se
hipóteses para a solução. Por fim, as hipóteses são A criança possui uma lógica de funcionamento
estudadas, verificam-se quais as implicações de cada mental que a difere qualitativamente dos adultos.
uma delas, seleciona-se a mais adequada, e então Seu desenvolvimento é um processo de equilibrações
há a verificação da hipótese, ou seja, a aplicação do sucessivas num processo contínuo, caracterizado
procedimento escolhido. por diferentes fases. Cada etapa é um momento de
desenvolvimento ao longo do qual a criança constrói
4. MODELOS TEÓRICOS NA suas estruturas cognitivas.
PSICOLOGIA DA APRENDIZAGEM
As respostas infantis seguiam uma lógica
O desenvolvimento intelectual ou cognitivo própria. Esse foi o ponto de partida para que Piaget
acontece como um processo individual interativo de desenvolvesse sua teoria, que sugere que o indivíduo,
vários fatores internos – como biológicos e hereditários ao longo do seu desenvolvimento, realiza um
– e externos. Esta ideia de interação deu origem à processo contínuo de trocas entre o seu organismo
concepção interacionista do desenvolvimento que se vivo e o meio. A aprendizagem e o desenvolvimento
apóia na idéia de interação entre organismo e meio interagem constantemente. Enquanto aprende, a
e vê a aquisição de conhecimento como um processo criança desenvolve novas habilidades e aumenta
construído pelo indivíduo durante toda a vida, que não suas possibilidades cognitivas, do mesmo modo se
está pronto ao nascer, nem é adquirido passivamente desenvolvem estruturas que dão oportunidades a
graças às pressões do meio. Ainda, experiências novas aprendizagens.
anteriores servem de base para novas construções
que dependem, nesse sentido, da relação que o Para Piaget, a aprendizagem tem por finalidade
indivíduo estabelece com o meio. Piaget e Vygotsky adaptação. Ao realizar trocas com o meio, o indivíduo
representam duas correntes do interacionismo. está em constante adaptação com a finalidade de
alcançar equilíbrio. A adaptação é o equilíbrio entre
4.1 – A Teoria Cognitiva de Piaget – A a acomodação e a assimilação, que por sua vez levam
ao ajustamento ao meio. Como essa é uma dinâmica
Epistemologia Genética
contínua, o desenvolvimento cognitivo ocorre por
Jean Piaget (1896 –1980) nasceu na Suíça e, meio de constantes desequilíbrios e equilíbrios.
embora tenha se formado em ciências naturais,
A assimilação é a incorporação dos objetos ou
tornou-se uma autoridade em Psicologia, pelo
dos acontecimentos aos esquemas existentes e a
reconhecimento da importância de sua teoria para a
acomodação é a modificação para atender às novas
compreensão do desenvolvimento cognitivo.
exigências do ambiente psicobiossocial. Acomoda-
Ao deixar a Suíça, Piaget foi trabalhar no se ou aprende-se quando ocorre mudança nos
laboratório de Binet que, por volta de 1905, dedicava- esquemas mentais a partir de objetos ou informações
se a elaborar um teste para medir a inteligência das desconhecidos.

13
Bases Psicossociais da Aprendizagem

Em suas observações com crianças, Piaget • Egocentrismo: incapacidade de se colocar


verificou que a natureza e a caracterização da no ponto de vista do outro. Centralização:
inteligência mudam significativamente com o passar consegue perceber apenas um dos aspectos
do tempo e enunciou a sua teoria “Epistemologia de um objeto ou acontecimento
Genética” com os seguintes estágios, considerando
que as idades mencionadas não são rígidas, e que • Animismo: Empresta alma às coisas e lhes
pode haver grande variação individual: atribuindo sentimentos e intenções próprios
dos seres humanos.
• 1º estágio – sensório-motor – 0 a 2 anos: A
criança percebe o ambiente (natureza sensorial) • Realismo nominal: Pensa que o nome faz parte
e age sobre ele (natureza motora). Daí ser do objeto.
muito importante a estimulação ambiental –
é essencial que o bebê manipule uma grande • Classificação: Após o quinto ano a criança
variedade de objetos, que tenha liberdade consegue agrupar os objetos com base no
para se movimentar, que receba estimulação tamanho, cor ou forma.
visual, auditiva, táctil etc. Em princípio o bebê
utiliza seus reflexos (comportamentos inatos), • Inclusão de classe: tem dificuldade de entender
depois coordena reflexos com respostas já que uma coisa possa pertencer a duas classes
aprendidas, aperfeiçoando os primeiros, e ao mesmo tempo. Ex.: ser carioca e brasileiro.
inicia o processo de adaptação (assimilação
• 3º estágio – operacional concreto – 7-11 anos:
e acomodação). Movimenta mãos e pernas.
ressalta o caráter coordenado das operações,
Alcança objetos, os pega e os chupa. Deixa
coordenação que permite que as crianças nesta
cair objetos para observar a queda. A criança
etapa realizem inferências e deduções muito
não dispõe ainda da capacidade de representar
mais complexas do que crianças menores.
eventos, de evocar o passado e de se referir
Enfocam um problema de forma muito mais
ao futuro. Está presa ao aqui e agora, ou
completa, com articulação de diferentes
seja, não construiu ainda a noção de tempo e
dimensões, considera aspectos anteriores
espaço. Para aprender utiliza os recursos dos
e virtuais que a ajuda a resolver problemas
esquemas sensorial e motor.
mais complexos. Reconhece a estabilidade
• 2º estágio – pré-operacional – 2 a 6 anos: Período lógica do mundo físico. Tem a percepção de
marcado pelo aparecimento da linguagem oral. que os elementos podem mudar ou serem
A criança começa a desenvolver a capacidade transformados, e que esses elementos podem
simbólica, a usar símbolos mentais, imagens conservar muitas de suas características
ou palavras que representam os objetos originais, além de compreenderem que tais
que não estão presentes – o pensamento é mudanças podem ser revertidas.
independente da percepção. Há exuberante
• 4º estágio – operacional formal –12 anos em
explosão linguística. Aos 2 anos, o vocabulário
diante: Não depende mais da realidade efetiva,
da criança possui cerca de 270 palavras, aos 3
as operações lógicas são realizadas entre
já fala aproximadamente 1.000 e compreende
idéias, expressas numa linguagem qualquer
outras 2.000 ou 3.000 palavras. Nesta época o
(palavras ou símbolos). O pensamento
pensamento infantil tem várias características
formal é hipotético e dedutivo, isto é, capaz
como:
de deduzir as conclusões de puras hipóteses

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Bases Psicossociais da Aprendizagem

e não somente através da observação real. O é a apropriação ativa do conhecimento disponível na


adolescente raciocina cientificamente, formula sociedade em que nasceu. É preciso que a criança
hipóteses e as comprova em pensamento. aprenda e integre o conhecimento de sua cultura em
Imagina possibilidades, analisa logicamente, sua maneira de pensar
formula hipóteses a respeito de resultados
possíveis. Para Vygotsky, o desenvolvimento mental é o
processo ou apropriação da experiência acumulada
4.2: A Teoria Histórico-Cultural de pela humanidade no decurso da história social.
As conquistas do desenvolvimento social foram
Vygotsky
gradualmente acumuladas e transmitidas de geração
A concepção interacionista também foi adotada em geração. Desde o nascimento a criança é
pelo russo Lev Seminovitch Vygotsky (1896 –1934). cercada por um mundo criado pelo homem, ou seja,
Assim como Piaget, Vygotsky concebia a criança como alimentos, vestuários, instrumentos e linguagem
um ser ativo, atento, que constantemente interage que reflete conceitos, idéias e, consequentemente,
com o seu ambiente. Para Vygotsky, o processo de o desenvolvimento mental. A criança se adapta
formação de pensamento é despertado e acentuado ao mundo dos objetos humanos e aos fenômenos
pela vida social por meio da constante comunicação que a circundam e se apropria deles. O processo
que se estabelece entre crianças e adultos, a qual de apropriação é muito diferente do processo de
permite a experiência de muitas gerações. adaptação.

Nos trabalhos de Vygotsky, encontram-se Por adaptação entende-se uma mudança


justificativas para a aquisição da linguagem a partir dos comportamentos e capacidades em função
de uma forte ligação entre o ser e o ambiente social. das exigências do ambiente. Por apropriação
A partir do ambiente em que vive, o indivíduo tem compreende-se e um processo que tem como
acesso a instrumentos físicos como: vassoura, mesa, consequência a reprodução, pelo indivíduo, de
faca e simbólicos como: a cultura, valores, crenças, qualidades, capacidades e características humanas
costumes, tradições e conhecimentos desenvolvidos de comportamento.
pelas gerações precedentes.
A ênfase no ambiente se reflete em toda a sua
Segundo Vygotsky, o pensamento se forma teoria, as interações com os mais experientes facilita
a partir da história social do indivíduo e através a aprendizagem, uma vez que surge uma Zona de
da linguagem. A forma como fala é utilizada na Desenvolvimento Proximal ou Potencial. Vygotsky
interação social com adultos e colegas mais velhos. usou esse termo para se referir à distância entre o nível
O pensamento infantil é amplamente guiado pela de desenvolvimento atual ou real, que é determinado
fala e pelo comportamento dos mais experientes. pela capacidade de solução de problemas sem ajuda,
Gradativamente adquire capacidade de se auto- e o nível de desenvolvimento proximal, medido pela
regular. Por meio da linguagem, a criança internaliza capacidade de solução de problemas sob a orientação
o modo de vida de sua cultura. ou em colaboração com crianças mais experientes.

Em seu entender a criança já nasce num mundo Em outras palavras, zona de desenvolvimento
social e, desde o nascimento, forma uma visão desse proximal é o espaço dinâmico de sensibilidades, na
mundo por meio da interação com adultos ou crianças qual as pessoas presentes ou em memória estão
mais experientes. Ao se variar o ambiente, também afetadas umas pelas outras, na qual o desenvolvimento
se varia o desenvolvimento. O processo desenvolvido cognitivo pode avançar. Assim, configura-se uma

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Bases Psicossociais da Aprendizagem

importante redefinição epistemológica quando desempenhado. O estímulo moderador transmite a


Vygotsky defende que a aprendizagem estimula informação que é reproduzida e aperfeiçoada.
o desenvolvimento na medida em que o conteúdo
aprendido é incorporado como um instrumento Esta observação de modelos ocorre, principalmente
da atividade mental, reorganizado e permite que durante o processo de aquisição de linguagem.
essa reestruturação represente um impulso para o Crianças que vivem em lares com alto nível cultural são
desenvolvimento. mais adiantadas e precoces no seu desenvolvimento
verbal do que crianças de lares com nível sócio-
O convívio com crianças mais experientes econômico-cultural baixo ou de instituições.
funciona como um mediador de aprendizagem e
quanto mais aprendizagem, mais desenvolvimento. A relação de comportamentos aprendidos por
Assim, Vygotsky via a inteligência como habilidade imitação é infinita, inclusive as respostas indesejáveis.
para aprender e desprezava as teorias que concebem Uma criança pode aprender a tornar-se agressiva,
a inteligência como resultante de aprendizagens mentirosa ou desonesta também por imitação de
prévias, já realizadas. Para ele, as medidas modelos.
tradicionais de desenvolvimento, que utilizam testes
psicológicos padronizados, focalizam apenas aquilo 5.2: Noam Chomsky e o conflito com a
que as crianças são capazes de realizar sozinhas. teoria behaviorista de Skinner
5: OUTRAS TEORIAS E COMPONENTES Skinner, como mencionado anteriormente, tentava
DA APRENDIZAGEM explicar a aprendizagem linguística baseado na teoria
de estímulos-respostas e leis de reforço com animas.
5.1: Bandura e a Aprendizagem Social Chomsky, com base nos trabalhos de Descartes, Platão
e Immanuel Kant, argumentou que a interpretação do
Bandura era behaviorista. Segundo ele a mundo baseia-se em sistemas representacionais que
aprendizagem acontece por meio da imitação derivam da estrutura da própria mente e, segundo
e pelos contatos com as pessoas. Durante as ele, não refletem de nenhuma maneira direta a forma
alterações sociais, o indivíduo pode modificar o seu do mundo exterior.
comportamento como resultado da observação direta
de como as outras pessoas reagem. Nem todas as Chomsky apregoava a linguagem como uma
aprendizagens ocorrem como resultado do reforço herança biológica do ser humano, que é capaz
direto. de adquiri-la e desenvolvê-la por meio suas
competências e habilidades inatas, ou seja, o homem
O reforço Vicariante consiste na mudança do nasce com herança genética para desenvolvimento
comportamento dos observadores como uma função do da linguagem, e é dotado de estruturas gramaticais
testemunho das conseqüências quando acompanham universais, por isso é capaz de formular sentenças na
o desempenho do outro. A punição vicariante se dá língua mãe na dependência da intuição e criatividade:
quando a observação das conseqüências negativas o inatismo.
reduz a tendência dos indivíduos a se comportarem
de forma igual ou semelhante.     Segundo o inatismo um dos fatos notáveis é a
possibilidade de, aos cinco ou seis anos, as crianças
As novas respostas podem ser aprendidas por serem capazes de produzir e entender um número
meio da observação dos outros. O comportamento indefinidamente grande de elocuções das quais não
é aprendido grosseiramente antes de ser tinham tido prévio conhecimento.  

16
Bases Psicossociais da Aprendizagem

Também criticou a teoria da imitação, pois as 3. Linguagem: A base de toda comunicação


crianças, que não conseguem imitar devido a prejuízo social que requer evolução normal do sistema
neurológico ou físico, ainda conseguem entender a nervoso, funcionamento dos órgãos sensoriais,
linguagem e a comunicar-se.  motores e de articulação, e mais maturação.

Vários pesquisadores sugerem que, nos dois ou A partir da vigésima semana de gestação a mãe
três primeiros meses de vida, os nenês emitem todos já pode sentir os movimentos do filho, ou seja, o
os sons que a voz humana pode produzir. Porém, desenvolvimento motor começa na vida intra-
depois de alguns meses de contato com os falantes uterina. Neste período todos os movimentos natos
de seu país, as crianças abandonam os sons inúteis são reflexos. O bebê já é capaz de ouvir.
para a sua língua.
O primeiro ano de vida é uma época de maturação
Do mesmo modo em que os bebês nascem intensiva dos movimentos. As mãos, os pés e depois
biologicamente dotados de todos os fonemas que todo o corpo, passam a ser um brinquedo fascinante
o ser humano pode produzir de forma universal, para a criança que aprende e apreende seus próprios
Chomsky elucida a possibilidade da posse de uma movimentos e se diverte em experimentá-los.
gramática universal. Além disso, a criança descobre uma série de ruídos
produzidos pelo seu próprio corpo.
5.3: Psicomotricidade e a Aprendizagem:
Aos quatro meses de idade a criança é aprende
A aprendizagem ocorre em conseqüência de uma a segurar brinquedos e percebê-los como um
contínua organização e reorganização da experiência prolongamento do seu corpo, o que permite
que permite a compreensão global da situação e a diversificar os ruídos do seu corpo.
percepção dos seus elementos mais significativos. Não
há comportamento possível sem o conhecimento do No decorrer do primeiro ano, o auto-conhecimento
meio ambiente. A percepção se impõe ao organismo. continua. A criança brinca de esconder as coisas e de
fazer com que os mais variados objetos apareçam,
Segundo a psicomotricidade, isto acontece de desapareçam, reapareçam, o que de acordo com
acordo com as leis do desenvolvimento psicomotor Freud, seria uma forma de ensaiar o controle
que é uma conquista que amplia a capacidade da emocional diante das inúmeras situações de ausência
criança de adaptar-se às necessidades comuns. Para e presença da mãe e do pai. A criança começa a
que haja uma boa integração com o meio numa aprender a lidar com seus sentimentos.
comunicação mais ampla, três aspectos precisam ser
cuidados: Durante o segundo e terceiro anos, a fantasia
ganha maiores proporções. O “faz de conta” que
1. Percepção: tem papel fundamental para o comanda as situações, dando-lhes vida. Desta forma,
desenvolvimento harmonioso da criança. pela ação, a criança assimila as coisas do mundo.
Existem diferenças marcantes. Cada criança
tem o seu próprio ritmo. Durante a escolarização o escrever combina
motricidade com percepção. Na adolescência há o
2. Esquema corporal. É o conhecimento do crescimento longitudinal e a diferença sexual. Uma
próprio corpo, questão pessoal de elaboração vez adulto, a pessoa sai em direção ao mundo e
da relação indivíduo-meio. aprende a viver em sociedade. Na velhice, diminui a
força muscular em função dos elementos conjuntivos

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Bases Psicossociais da Aprendizagem

armazenados nos músculos. É o momento de a atividade regularmente na situação. Esse tipo de


aprender a contemplar. aprendizagem é chamado de “ensaio e erro”.

5.4: Memória e Aprendizagem Memória consiste nos mecanismos pelos quais


uma aprendizagem permanece disponível durante
Aprendizagem é a mudança de comportamento certo período de tempo. O sujeito não é passivo.
que ocorre pela prática, experiência ou treino. Suas motivações e reações afetivas modulam o
Tanto os comportamentos aprendidos como os funcionamento da memória. Outros fatores que
não aprendidos têm como objetivo a adaptação. interferem na memória são a familiaridade que o
Os reflexos e os instintos são comportamentos não material tem para o sujeito, a organização que o
aprendidos, inatos. sujeito dá ao material ou nele consegue discernir e
certas propriedades do material.
Existem diversas formas de aprendizagem, desde
as mais simples até as mais complexas. O “imprinting”, A memória pode ser classificada de acordo com
ou estampagem é a forma mais primitiva de o sentido envolvido, a memória depende do grau de
aprendizagem e que possui muito de comportamento desenvolvimento do cérebro e é comum ao homem
instintivo. Filhotes patos são os melhores modelos e aos animais. O homem tem a memória visual mais
para exemplificar este tipo de aprendizagem: estes acurada que os cães, em contrapartida, o cão tem
filhotes formam um vínculo com uma “figura de centros auditivo e olfativo mais desenvolvidos que o
mãe”. Normalmente, esta figura é a sua mãe real, homem, e, consequentemente, a memória auditiva e
mas eles podem formar vínculo com objetos mais olfativa.
variados, desde que se movam, e tratá-los daí em
diante como mãe. Ao contrário de outras formas de Há três tipos de memórias:
aprendizagem, a estampagem é irreversível e restrita
a um breve período sensível, que ocorre logo depois 1. Memória de Trabalho: Dura de segundos a
da saída do ovo e que a escolha de uma mãe também minutos.
afeta a escolha da companheira sexual quando a ave
2. Memória de Curto Prazo: Pode durar vários dias.
fica adulta.

3. Memória de Longo Prazo: Dura, geralmente, a


Pavlov enunciou o condicionamento clássico
vida inteira.
quanto estudava o reflexo salivar dos cães e o chamou
de estímulo condicionado, como já demonstrado
anteriormente, que possui uma estreita ligação com 5.5: Pensamento, Linguagem e
a memória. Aprendizagem:
Outra forma de condicionamento se dá sem O pensamento da criança é construído
esta associação de um estímulo incondicionado a paulatinamente num ambiente que é histórico e em
outro condicionado. Neste o animal é mais ativo e essência social. Por intermédio da fala, a criança
apresenta exploração do ou comportamento apetitivo, progressivamente se introduz no seio da vida social
durante o qual desempenha atividades tais como e adquire uma variedade de outras ferramentas
farejar, andar, olhar etc. Se uma destas atividades culturais.
for seguida por reforço e a associação for repetida
diversas vezes, o animal aprende a desempenhar Linguagem -> pensamento -> vida social
-> cultura.

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Bases Psicossociais da Aprendizagem

A fala funciona como ferramenta na construção do aprendizagem, pois permite a comunicação entre
pensamento da criança, por meio da qual a criança indivíduos, a troca de informações e de experiências.
organiza, modifica e integra vários aspectos de seu Os seres humanos aprendem a ser humanos pela
comportamento, tais como percepção e memória. linguagem.
Também por meio da fala a criança aprende o
significado das atividades de sua cultura, seja pela Quando, por volta dos dois anos de idade, uma
experiência vivida com os outros, seja com os objetos criança começa a falar as pessoas à sua volta,
que sintetizam as atividades de gerações anteriores. normalmente, não percebem que algo fantástico está
acontecendo. Em geral, os adultos ficam fascinados
Assim a aprendizagem pressupõe uma natureza com os esforços que as crianças fazem para nomear
social específica e um processo interativo. A criança algo presente em seu ambiente, divertem-se com as
não aprende por si própria, mas, essencialmente com confusões e trocas que inevitavelmente ocorrem.
os outros, através de sua relação com eles. De acordo
com Vygotsky o coletivo é recuperado como espaço Normalmente se passa despercebido um
de constituição e apropriação do conhecimento. fato fundamental que se refere, justamente, ao
impacto que a aquisição da linguagem tem sobre
A pessoa é ativa desde que nasce e suas ações a vida da criança e daqueles que interagem com
são progressivamente internalizadas, a partir de um ela. Foi mostrado, anteriormente, como ocorre
processo interpessoal que, posteriormente se torna o desenvolvimento do pensamento em Piaget e
interpessoal. Todas as funções do desenvolvimento Vygotsky e como são significativas as sucessivas
da criança aparecem duas vezes. Primeiro, no nível conquistas das crianças, assim como habilidades
social e, depois, no nível individual. inatas descritas por Chomsky.

O papel daqueles que interagem com a criança Conhecer as fases do desenvolvimento da


é o de fornecer informações, apresentar desafios, linguagem representa uma excelente ferramenta
estimular a construir hipóteses e a avançar, isso utilizável para se estabelecer recursos que auxiliem o
difere totalmente de analisar e realizar sínteses para processo de aprendizagem das crianças, para tanto,
a criança. segue um descritivo da Linguagem expressiva:

As pessoas possuem capacidades cognitivas 1. Palavra frase - entre o décimo primeiro e o


extraordinárias, mais obviamente a capacidade décimo segundo mês: as primeiras palavras
para pensamento e linguagem. Conquanto os seres pronunciadas têm o sentido de uma frase,
humanos não sejam somente criaturas que pensam representam uma idéia, uma ação. Podem
e se comunicam, inquestionavelmente são os mais ter diferentes significados de acordo com
sofisticados e habilidosos pensadores e comunicadores a modulação do som e os gestos que as
deste planeta. Neste sentido, a linguagem é, sem acompanham.
dúvida, um fenômeno que diferencia os homens dos
animais. 2. Linguagem Telegráfica- dezoito meses:
Apresentam frases curtas com expressões
O homem adquire informações por meio do contato egocêntricas. Fala na terceira pessoa. As
direto com o ambiente. No entanto, são capazes de orações geralmente são afirmativas.
fazer uso da linguagem para se apropriarem das
experiências significativas das gerações precedentes. 3. Linguagem designativa ou Denominativa - dois
A linguagem é um fator de interação social e anos: a criança descobre que cada coisa tem

19
Bases Psicossociais da Aprendizagem

o seu nome: surge a conjunção [e], começa que não parecem sofrer qualquer influência dela. Este
a usar o possessivo [meu]. Faz esforço para é o caso das operações cognitivas que não podem
conjugar os verbos. Começam as perguntas. ser trabalhadas por meio de treinamento específico
Conversa com objetos e brinquedos. feito com o auxílio da linguagem. Por exemplo, não
se pode ensinar apenas usando palavras, a classificar,
4. Linguagem oracional - três anos: orações a seriar, a pensar com reversibilidade.
completas, curtas e simples - surge o pronome
[eu]. Surgem os plurais. Participa do mundo Já para Vygotsky, pensamento e linguagem são
exterior. processos interdependentes desde o início da vida.
A aquisição da linguagem pela criança modifica suas
5. Linguagem Melomática - quatro anos: a criança funções mentais superiores: dá uma forma definida
descobre o futuro do indicativo [amanhã]. ao pensamento, possibilita o aparecimento da
imaginação, o uso da memória e o planejamento da
6. Linguagem ergástica - sete anos: fase da ação. Neste sentido, a linguagem, diferente daquilo
aprendizagem sistemática. que Piaget postula, sistematiza a experiência direta
das crianças e, por isso, adquire uma função central
7. Linguagem somática - quatorze anos: começa no desenvolvimento cognitivo, e reorganiza os
a se referir ao passado remoto. Faz planos, é a processos que estão em andamento.
linguagem do adulto.

A linguagem e o pensamento estão intimamente


5.6: Grafismo e Aprendizagem
ligados. Por pensamento se entendem as atividades
A aquisição da linguagem define um salto qualitativo
mentais variadas, tais como raciocinar, resolver
no desenvolvimento do ser humano. A aprendizagem
problemas e formar conceitos. As pessoas
e a linguagem constituem formas complexas de
caracterizam seus pensamentos como uma fala
comportamento que exigem a integridade de certas
interior abrupta.
áreas do cérebro consideradas fundamentais para a
hierarquia da linguagem, principalmente na passagem
Pensar provavelmente depende de diversos tipos
da aprendizagem da língua falada à aprendizagem da
de imagens, linguagem, memória, dentre outros.
língua escrita.
Entretanto, surge uma importante questão: O que
surge primeiro, o pensamento ou a linguagem?
A escrita é a simbolização da linguagem verbal. A
Segundo Piaget, o pensamento aparece antes da
leitura e a escrita, dois processos distintos, costumam
linguagem, que é apenas uma das suas formas de
fazer-se simultaneamente, entretanto, a leitura
expressão. Por um lado, a formação do pensamento
precede a escrita.
depende, basicamente, da coordenação dos
esquemas sensoriomotores e não da linguagem. A A leitura e a escrita exigem que a interiorização
linguagem só ocorre depois que a criança alcança da linguagem tenha concluído a sua evolução – que
um determinado nível de habilidades mentais que se já ocorra o pensamento lógico, com generalizações
subordinam aos processos de pensamento. de abstrações. Os métodos de alfabetização globais,
embora possam facilitar criança que não apresentam
A linguagem possibilita à criança evocar um
qualquer tipo dificuldade, podem ser complexa para
objeto ou acontecimento ausente na comunicação
crianças com distúrbios perceptuais.
de conceitos. Piaget, todavia, estabeleceu uma clara
separação entre as informações que podem ser
transmitidas por meio da linguagem e os processos

20
Bases Psicossociais da Aprendizagem

O registro sobre uma superfície provocado por Também não existe uma relação fixa entre a idade
um objeto que trace caracteriza o grafismo, que para da criança e a etapa a ser alcançada pela sua forma
a criança, é o resultado de uma tendência natural, de representação, pois assim como a idade mental
expressiva, representativa, que revela seu mundo não é a mesma para crianças com a mesma idade
particular. cronológica, a etapa individual de desenvolvimento
gráfico só pode ser revelada pelos desenhos.
Crianças do mundo inteiro desenham com muito
pequenas variações, as mesmas coisas, da mesma De qualquer forma, é importante que o profissional
forma e na mesma idade. As casas, por exemplo, conheça essa evolução a fim de realizar sua tarefa
mostram as mesmas paredes, as mesmas portas educativa tendo em mente que a expressão da criança
e janelas, os mesmos tetos – e são os mesmos o geralmente varia com a idade, o meio, o estímulo e
complementos que as circundam: flores, árvores, as oportunidades oferecidas; o grafismo lhe será útil
animais, sol. Isto ocorre porque na evolução do como instrumento de avaliação e o método a adotar
desenho infantil – embora obedecendo a um ritmo relativamente às atividades artísticas terá como
pessoal – existem características comuns que base o conhecimento do desenvolvimento gráfico da
possibilitam a sua divisão em estágios. Como segue: criança.

• Estágio da Rabiscação: fase da garatuja – 2/4 O momento em que a criança é capaz de


anos: no qual o desenho é um prolongamento empunhar um instrumento qualquer (até o próprio
do gesto, sem significação intencional. dedo) que deixe um traço no espaço marca o início da
Rabiscação. É uma atividade aparentemente lúdica,
• Estágio de início de figuração: fase pré- que alguns autores comparam ao desenvolvimento
esquemática - 4/7 anos: no qual surgem as da linguagem (o rabisco corresponde ao grito). O
primeiras formas reconhecíveis. rabisco para olhos adultos não avisados parece sem
sentido. Poucos pais e professores guardam rabiscos,
• Estágio de figuração esquemática: fase no entanto, é o alicerce de toda a evolução gráfica
esquemática – 7/9 anos: corresponde a um futura.
realismo no qual a criança desenha o que
sabe. Atualmente, reconhecem-se várias espécies de
rabiscos, alguns mais complexos, mas nenhum sem
• Estágio de figuração realista: fase do realismo sentido. Existem 20 rabiscos básicos, alguns em
lógico – 9/12 anos; Fase do realismo visual 12 linhas verticais, outros horizontais, e mais diagonais,
em diante: a criança se esforça em representar circulares, curvos, enovelados, pontuados.
o que vê.
Para a criança pequena, rabiscar é tão natural
Esta sequência corresponde, apenas de maneira como brincar. Normalmente ela adora fazê-lo. Embora
sumária, ao que se manifesta com todo exemplo seu relacionamento figura/fundo seja ainda bastante
concreto, porque cada criança se detém numa fase primitivo, já demonstra uma constância de direção e
particular por períodos diferentes de tempo. Pode posição nos rabiscos.
ser também que seu desenvolvimento não atravesse
etapa alguma ou que várias fases se combinem As crianças parecem eleger, desde o início, como
de acordo com um modo particular, segundo a que uma localização pessoal – no alto, no centro, no
personalidade do indivíduo e a influência exercida meio da folha. O importante a observar é que esta
pelo meio. localização primitiva, a eleição do seu canto favorito,

21
Bases Psicossociais da Aprendizagem

permanece depois, como uma espécie de ponto de desenvolvimento pelo qual está passando, a criança
atração – ali sempre se estabelece o elemento central passa a trabalhar mais o seu desenho, e demorar
do desenho feito. mais, perdendo aquela característica de produção
intensa.
Os progressos que aos poucos se incorporam
à rabiscação surgem sem que a criança abandone Já aí, no início da figuração, parece que a criança
por completo as formas iniciais da atividade. O que desenvolve o que poderíamos chamar de um estilo
a criança representa não é ainda reconhecível, mas – e por isso pais e professores podem, entre vários,
a fabulação intensa que acompanha a atividade descobrir os desenhos de tal ou qual criança, embora
comunica o valor significativo dos desenhos. As isso pareça até magia a olhos desavisados.
formas quase não se diferenciam: o mesmo registro
pode servir a diferentes interpretações. A repetição e a prática enriquecem e diversificam
os símbolos que a criança usa. Dois símbolos
Enquanto rabisca, a criança descobre formas constantes nos desenhos de todas as crianças são as
internas: círculos, retângulos, cruzes, “x”, do rabisco, mandalas e as figuras humanas.
portanto, surge a forma. Estas formas, quando
descobertas, trazem grande satisfação à criança, Mandala é uma palavra sânscrita que significa
principalmente porque, ao descobri-las, sente que o “círculo mágico”. É um dos mais velhos símbolos
adulto vê alguma coisa em seus desenhos – e ganha mágicos usados em rituais religiosos. Por sua simetria
sua aprovação. central, não particularizando nenhuma direção, o
círculo constitui a estrutura visual mais simples.
Aos 3/4 anos, a criança não é movida por uma Mandalas foram desenhadas pelo homem desde
intenção de desenhar tão ou qual o objeto, não milhares de anos atrás e aparecem nos desenhos de
planejando antes o que vai fazer. É o que poderia todas as crianças, no mundo inteiro.
chamar-se de estágio não intencional. Tão logo a
criança descobre a forma, da um grande passo no A mandala em sua forma mais simples – um
caminho do desenvolvimento gráfico. Ela passa a dar círculo e uma cruz – lembra o sol, mas este só
nome ao que faz – um nome, contudo, extremamente aparece, realmente quando os raios emergem. Este
versátil e maleável, pois o que antes era uma casa sol não se contenta em aparecer no céu: ele surge na
pode ser um carro ou bola. figura humana, logo depois, por um quase processo
evolutivo. Observam-se como os primeiros bonecos
Nesta fase, a criança aprende que as linhas se infantis são um sol que teve seus raios alongados. E
combinam para dar, em resultado, superfícies. O que o sol reaparece ainda nas mãos, e mais raramente
desenha representa a tradução concreta e direta da nos pés.
forma percebida. Aquela forma circular que desenhou
não representa exclusivamente algo redondo, mas A descoberta do sol, com seus múltiplos raios, é
sim a sua linha envolvente, a densidade do objeto – outro passo importante dado pela criança. A figura
e daí a pluralidade de interpretações posteriores. humana, em geral, aparece logo depois da mandala
e do sol. Segue abaixo um resumo que associa a fase
Por essa razão é sem sentido perguntar a uma de grafismo com o tipo de forma impressa:
criança nesta fase, o que vai fazer ou mesmo o
que fez: o desenho tem valor para ela enquanto o
está fazendo, e não como produto final. Também
nesta fase, e como conseqüência natural do

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1) Na Rabiscação: • Os símbolos gráficos mudam constantemente


(figuras, casas, árvores).
1.1) – Garatuja desordenada:
• Os mesmos símbolos na vertical significam
• Os primeiros traços não têm sentido, variam pessoas, na horizontal, animais.
em direção e pode haver repetição.
• Relacionamento espacial dependendo de
• É comum fazer os traços sem olhar razões emocionais. Por exemplo: eu e o meu
carrinho.
• Não há intenção de representar o ambiente
em que vivem. • A cor não tem relação com a realidade – é
emocional.

1.2) – Garatuja controlada:


3) Esquemática: início da escolaridade.
• Descoberta da ligação entre seus movimentos
e o traço (controle visual) • Repetição do símbolo gráfico, desde a origem,
dá origem ao esquema.
• Não tira o lápis do lugar, porém os traços têm
direção imprevisível. • Os desvios do esquema representam novas
experiências.
• Já relaciona o ambiente em que vive.
• A percepção significa muito mais que o
simples conhecimento visual do objeto, inclui
1.3) – Garatuja com nome: a intervenção de todos os sentidos.

• Dá nome aos desenhos, embora não se possa • Estabelecimento do primeiro conceito de


reconhecer. espaço – a linha de base – início da socialização.

• Aparecimento do pensamento imaginativo • Esquema de cor – repetição da mesma cor


para o mesmo objeto.
• Desenha com intenção

• Descrição verbal do desenho que se torna um 4. Realismo lógico:


importante meio de comunicação.
• Processos gráficos. Transparência,
rebatimento, mudanças de ponto de vista,
2) Pré-esquemática: projeção dos objetos sobre o solo.

• Aparecem as primeiras figuras humanas que • O desenho expressa uma experiência de


reduzem a um círculo para a cabeça e dois sensação corporal.
filamentos para as pernas.
• A cor muito relacionada com o conceito
• Busca de um conceito de forma emocional e visual (cor subjetiva).

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de evitar que o uso de suas descobertas se faça em


modos que estão longe dos propósitos originais da
5. Realismo visual: ciência.

• Despertar da independência social – Uma ciência do comportamento não contém em


consciência progressiva do mundo real, cheio si mesma quaisquer meios de controlar o uso para
de emoções, planos e recordações – tendência o qual suas contribuições serão dirigidas. (...) Na
a se agrupar (patota). A criança se sente mais Alemanha nazista, os resultados de uma ciência mais
forte em grupo. exata foram aplicados para interesses similarmente
restritos. Poderá isso ser evitado? Devemos continuar
• Preocupação com detalhes de indumentária, a desenvolver uma ciência do comportamento sem
diferenciando os sexos. Figuras rígidas, ligar para o uso que dela se fará? Se não, a quem
estáticas – criticam os desenhos da fase deve ser delegado o uso do controle que ela gera?
anterior.
Não é apenas uma questão intrigante, é
• Começam a se preocupar com o produto, o assustadora; pois há uma boa razão para temer
resultado (lado estético). aqueles que, com maior probabilidade, usurparão
o controle. Winston Churchill uma vez respondeu a
• Relação rígida entre cor e objeto. uma sugestão de que a ciência eventualmente seria
capaz de “controlar com precisão os pensamentos
• A linha de base desaparece e é substituída pela
dos homens” dizendo: “Ficarei muito contente se
representação de planos – aparecimento da
minha tarefa neste mundo terminar antes que isso
linha do horizonte (indicação de perspectiva).
aconteça”. Entretanto, esta não é uma disposição
inteiramente satisfatória do problema. Outros tipos
ANEXO 1 - O PROBLEMA DO de soluções podem ser classificados sob quatro
CONTROLE: títulos gerais.

Há certas regras empíricas de acordo com as quais


Negação de controle. Uma solução proposta
o comportamento humano vem sendo controlado há
é insistir em que o homem é um agente livre
muito tempo e que constituem uma espécie de arte
e eternamente além do alcance das técnicas
pré-científica. O estudo científico do comportamento
controladoras. Aparentemente já não é possível
alcançou o ponto em que pode proporcionar técnicas
buscar refúgio nessa crença. (...)
adicionais. Na medida em que os métodos da ciência
continuarem a ser aplicados ao comportamento, Todos nós controlamos e somos todos
poderemos esperar que as contribuições técnicas controlados. À medida que o comportamento for mais
se multipliquem rapidamente. Se pudermos julgar a profundamente analisado, o controle virá a ser mais
partir da aplicação da ciência em outros problemas eficaz. Mais cedo ou mais tarde o problema deverá
práticos, o efeito sobre os assuntos humanos será ser encarado.
tremendo.
Recusa do controle. Uma solução alternativa é a
Não temos nenhuma garantia de que o poder rejeição deliberada da oportunidade para controlar.
assim gerado será usado para aquilo que agora O melhor exemplo disso vem da Psicoterapia. Muitas
parece ser o melhor dos interesses da humanidade. vezes o terapeuta tem consciência de seu poder
Como o demonstra limpidamente a tecnologia da sobre o indivíduo que vem a ele em busca de auxílio.
guerra moderna, os cientistas não têm sido capazes

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Bases Psicossociais da Aprendizagem

(...) A solução de Rogers é diminuir ao máximo o SKINNER Burrhus Frederic. Ciência e


contato entre paciente e terapeuta a ponto de que Comportamento Humano. Trad. João Claudio Todorov
o controle parece ter desaparecido. (...) Entretanto, e Rodolpho Azzi. 2. ed. Brasília: Universidade de
recusar-se a aceitar o controle é meramente deixar o Brasília/São Paulo: FUNBEC, 1970.
controle em outras mãos. (...) Recusar-se a exercer
controle e deixá-lo assim para outras fontes, muitas ANEXO 2 - O HOMEM QUE FOI
vezes tem o efeito de diversificá-lo. (...) COLOCADO NUMA GAIOLA
Diversificação do controle. Uma solução Certa noite, o soberano de um país distante estava
particularmente óbvia é distribuir o controle do de pé à janela, ouvindo vagamente a música que vinha
comportamento humano entre muitas agências* que da sala de recepção, do outro lado do palácio. Estava
tenham tão pouco em comum que não seja provável cansado da recepção diplomática a que acabara de
que se juntem em uma unidade despótica. Em comparecer e olhava pela janela, cogitando sobre
geral, este é o argumento em favor da democracia o mundo em geral e nada em particular. Seu olhar
e contra o totalitarismo. Em um estado totalitário, pousou num homem que se encontrava na praça,
todas as agências são colocadas sob o controle de lá embaixo - aparentemente um elemento da classe
uma única superagência. (...) Freqüentemente se diz média, encaminhando-se para a esquina, a fim de
que uma agência unificada é mais capaz, mas isso tomar um bonde para casa, percurso que fazia cinco
dificulta ainda mais a busca de uma solução para o noites por semana, há muitos anos. O rei acompanhou
problema do controle. É a ineficácia das agências o homem em imaginação - fantasiou-o chegando
diversificadas que oferece algumas garantias contra em casa, beijando distraidamente a mulher, fazendo
o uso despótico do poder. (...) Até onde as forças sua refeição, indagando se tudo estava bem com as
que se opõem mantêm certo equilíbrio, evita-se a crianças, lendo o jornal, indo para a cama, talvez se
exploração excessiva por qualquer das agências. Isso entregando ao ato do amor com a mulher, ou talvez
não significa que o controle nunca seja abusado. (...) não, dormindo, e levantando-se para sair novamente
Para aqueles que temem o abuso de uma ciência para o trabalho no dia seguinte.
do comportamento humano, esta solução sugere
um progresso óbvio. Distribuindo o saber científico E uma súbita curiosidade assaltou o rei, que por
o mais amplamente possível, obteremos alguma um momento esqueceu o cansaço. “Que aconteceria
certeza de que não será monopolizado por nenhuma se conservassem uma pessoa numa gaiola, como os
agência para seu próprio fortalecimento. animais do zoológico?”

Controle do controle. Em outra tentativa para No dia seguinte, o rei chamou um psicólogo,
resolver o problema do controle dá-se a uma agência falou-lhe de sua idéia e convidou-o a observar a
governamental o poder de limitar à medida em que experiência. Em seguida, mandou trazer uma gaiola
o controle é exercido por indivíduos ou por outras do zoológico e o homem de classe média foi nela
agências. (...) Restringe-se o controle pessoal dando colocado.
ao indivíduo socorro contra “influências indevidas”.
(...) A princípio, ficou apenas confuso, repetindo para
o psicólogo que o observava do lado de fora: “Preciso
* Por agência, o autor entende religião, educação, pegar o trem, preciso ir para o trabalho, veja que
propaganda... horas são, chegarei atrasado!” À tarde, começou
a perceber o que estava acontecendo e protestou,
veemente: “O rei não pode fazer isso comigo! É

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injusto, é contra a lei!” Falava com voz forte e olhos ter sido desajeitado. Sua conversação passou a ter
faiscantes de raiva. um único sentido: em vez de complicadas teorias
filosóficas sobre as vantagens de ser bem tratado,
Durante a semana continuou a reclamar com limitava-se a frases simples como: “É o destino”, que
veemência. Quando o rei passava pela gaiola, o que repetia infinitamente. Ou então murmurava apenas:
acontecia diariamente, protestava direto ao monarca. “É”.
Mas este respondia: “Você está bem alimentado,
tem uma boa cama, não precisa trabalhar. Estamos Difícil dizer quando se estabeleceu a última
cuidando de você. Por que reclama?” Após alguns fase, mas o psicólogo percebeu um dia que o rosto
dias, as objeções do homem começaram a diminuir e do homem não tinha expressão alguma: o sorriso
acabaram por cessar totalmente. Ficava sorumbático deixara de ser subserviente, tornara-se vazio, sem
na gaiola, recusando-se em geral a falar, mas o sentido, como a careta de um bebê aflito com gases.
psicólogo via que seus olhos brilhavam de ódio. O homem comia e trocava algumas frases com o
psicólogo, de vez em quando. Tinha o olhar vago e
Após várias semanas, o psicólogo notou que havia distante e, embora fitasse o psicólogo, parecia não
uma pausa cada vez mais prolongada depois que o vê-lo de verdade.
rei lhe lembrava diariamente que estavam cuidando
bem dele. Durante um segundo o ódio era afastado, Em suas raras conversas deixou de usar a palavra
para depois voltar - como se o homem perguntasse “eu”. Aceitara a gaiola. Não sentia ira, zanga, não
a si mesmo se seria verdade o que o rei havia dito. racionalizava. Estava louco.

Mais algumas semanas passaram-se e o prisioneiro Naquela noite, o psicólogo instalou-se em seu
começou a discutir com o psicólogo se seria útil dar gabinete, procurando escrever o relatório final, mas
a alguém alimento e abrigo, a afirmar que o homem achando dificuldade em encontrar os termos corretos,
tinha que viver seu destino de qualquer maneira e pois sentia um grande vazio interior. Procurava
que era sensato aceitá-lo. Assim, quando um grupo tranqüilizar-se com as palavras. “Dizem que nada se
de professores e alunos veio um dia observá-lo perde, que a matéria simplesmente se transforma
na gaiola, tratou-os cordialmente, explicando que em energia e é assim recuperada”. Contudo, não
escolhera aquela maneira de viver; que havia grandes podia afastar a idéia de que algo se perdera, algo
vantagens em estar protegido; que eles veriam com fora roubado ao universo naquela experiência. E o
certeza o quanto era sensata a sua maneira de que restava era o vazio.
agir etc. Que coisa estranha e patética, pensou o
psicólogo. Por que insiste tanto em que aprovem sua MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo.
maneira de viver? 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1982. p. 121- 3 (Coleção
Psicanálise v.II)
Nos dias seguintes, quando o rei passava pelo
pátio,o homem inclinava-se por detrás das barras da
gaiola, agradecendo-lhe o alimento e o abrigo. Mas
quando o monarca não estava presente, o homem não
percebia estar sendo observado pelo psicólogo, sua
expressão era inteiramente diversa – impertinente e
mal humorada. Quando lhe entregavam o alimento
pelas grades, às vezes deixava cair os pratos, ou
derramava a água, e depois ficava embaraçado por

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Bases Psicossociais da Aprendizagem

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