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A MULTIDISCIPLINARIDADE NO ESTUDO DAS POLITICAS PUBLICAS Carlos Aurélio Pimenta de Faria Se a evolugdo da ciéncia ocorreu também, como se sabe, por intermé- dio da especializacio, cuja eficiéncia dificilmente podera ser negada, nao deixa de ser contundente a metéfora da ciéncia como um arquipélago, como ilhas de conhecimento flutuando em um vasto oceano de ignorancia (Karlqvist, 1999, p.380). A amplamente reconhecida fragmentacdo do co- nhecimento é produzida por especialistas e produz mais especializagao fragmentagio. Indimeras questdes hoje candentes na agenda publica, como a problemé- tica ambiental, por exemplo, demandam tratamento interdisciplinar que as tradicionais instituigdes produtoras do conhecimento tém sido incapazes de ofertar, desinteressadas em prover ou lentas em fazé-lo (Brewer, 1999, p.328). Masnioapenaso desejoeanecessidade de explorar problemasequestées que nio esto confinados nos limites de uma tnica disciplina, demandando intervengio governamental e o reposicionamento dos produtores de co- nhecimento, tém produzido o clamor, jé antigo, pela interdisciplinaridade. O desenvolvimento de novas tecnologias, a provisio de diferentes incen- tivos ao trabalho interdisciplinar, a reforma dos centros universitarios de pesquisa e a criagdo de novas instituigdes produtoras do conhecimento, abrigadas no governo, em Organizacdes Nao Governamentais (ONGs) e em think tanks, tém gradualmente redundado na intensificagdo da pesquisa interdisciplinar. Essa intensificagao tem sido comprovada por diversos estudos bibliométricos (por exemplo, Braun; Schubert, 2007). Nos Estados Unidos, por exemplo, diferentes estratégias tém sido ado- tadas para o fomento da pesquisa interdisciplinar no ambiente universitétio, 10 governo federal como, principalmenté, pela universi- 2008). Recursos tém sido destinados para. estruturagaio de centros de pesq isciplinar (incentive grants), estruturas de suporte administrativo e logistico para o trabalho interdepartamental tém sido criadas (campus-wide institutes) e, em menor escala, novos modelos de recrutamento e avaliacdo nas faculdades tém sido instituidos, Nese quadrante, a interdisciplinaridade é vista também como um pro- blema organizacional e/ou gerencial. A questio central, nestas estratégias, fi busca de redugao dos custos de transacao do trabal Iss0 porque, por definigao, 0 trabalho interdi ticipacio de diversos individuos, sendo um trabalho de grupo bastante desafiador, até porque, muitas vezes, aqueles que detém conhecimento es- sencial de partes do problema se encontram apartados em campos distantes tanto intelectualmente como em termos fisicos. A logistica das interagées no interior do grupo torna-se, assim, um significativo desafio gerencial (Brewer, 1999, p.334), Essas estratégias de inducio da investigagio interdisciplinar partem do reconhecimento de que a conformacao das disciplinas e dos departamen- tos universitérios faz com que eles, disciplinas e departamentos, se tornem ‘muito resilientes, no tempo e no espaco, sendo poderosos os incentivos, de cordem organizacional, mas também profissional e individual, para a sua perpetuacao e reproducéo. As universidades sio, via de regra, estruturadas em torno de discipli- zhas ¢, por essa via, favorecem o desempenho individual dos pesquisadores (Brewer, 1999), Afinal, a institutionalizacio de um campo de estudos, de ina, vem tradicionalmente acompanhada da criagdo de associa- ses profissionais, de conferéncias e de periédicos que influenciam, direta ou indiretamente, a alocagdo de recursos materiais e simbélicos. E nesse sentido que se pode dizer que a “resiliéncia das disciplinas é © resultado da institucionalizagio dual da macroestrutura dos mercados de trabalho disciplinares e da microestrutura das universidades indivi- duais, cada uma abrigando departamentos similares” (Abbott, 2001 apud Sé, 2008, p.539). Ressalte-se que os departamentos universitarios sao tanto Produtores como consumidores dos profissionais académicos que operam nesses mercados de trabalho disciplinar (idem). Ja se disse que “o mundo tem problemas, mas as universidades tém departamentos” (Brewer, 1999, p.328). ‘Vale recordarmos, de passagem, como ressaltado pelos tedricos das. ituigdes, que a dependéncia da trajetoria tende a ser marcante e que a Aeficiéncia, é muitas vezes o principal determi- -vivéncia institucional” (Sa, 2008, p.539). ee canbe veda pesado uncer epe- ‘vinterdisciplinaridade, ela normalmente deixa intactos os processos © iano que requetemente eet /oy pone gues inte isa interdisciplinar ou interdepartamental. Bet cayenenga do discarn acerca da ecevide dapat i rdisciplinar talvez torne desnecessério elencarmos as grandes esperangas itadas no empreendimento, parece-nos aconselhavel listarmos aqui, ito brevemente, alguns desestimulos ou barreiras, quais sejam: “As diferentes culturas e quadros de referencia envolvidos no trabalho interdisciplinar; / Os diferentes métodos e/ou objetivos que pautam as pesquisas, tanto no in "terior das dsciplinas como entre elas; ; + As diferencas nas linguagens e no jargio entre as dsciplinas e entre ela “mundo exterior’ | + Os desafios pescoais relatives a aquisigdo de confianga e respeito por parte daquelestrabalhando em diferentes disciplinas e campos; “+ Os impedimentos institucionais relacionados aos incentivos, financiamento ce prioridades dados ao trabalho interdisciplinar versus o trabalho disiplinar; + Os impedimentos profissionas relativos & contratagio, promogdo, status € reconhecimento. (Brewer, 1999, p:335) + A socializasio precoce dos pesquisadores no cénone disciplinar; +O fato de arevisdo pelos pares (peer review), tio central hoje na ativi- dade académica, ser também, usualmente, revisdo disciplinar. [No caso do Brasil, podemos destacar, muito brevemente e a titulo de exemplificacdo, algumas formas de incentivo e alguns dos erp 8 psa nterdpliar. No que dz explo aos incentives, lem do iscurso generalizado, usualmentereceptivo, ede recorrentesiniciativas de \ de varias das associagdes cient | Apis epecinarcodain pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciencia (SBPC), podem ser listados: * Acriagio, pela Coordenagio de Aperteigoamento de Pessoal de Nivel Superior (Capes), em 2008, de uma grande drea mul hoje abriga as reas interdisciplinar; ensino de ciénci tica; materiais e biotecnologia. Dentro da area interdisciplinar foram criadas as subareas meio ambiente e agrarias; engenharia/tecno- logia/gestao; satide e biolégicas; e sociais e humanidades." + A criagdo de novos programas de pés-graduagao centrados na pes- quisa interdisciplinar, bem como a redefinigao de linhas de pesquisas de programas mais antigos. Segundo a Capes, a grande érea multi- disciplinar é, hoje, aquela que mais cresce. Apenas no ano de 2010, is de 200 propostas de novos cursos de pés-graduagio interdisci- plinares foram recebidas pela Capes”.* + O foco, cada vez mais presente também no Brasil, na aplicagio do conhecimento, no seu retorno para a sociedade e na vinculacio entre pesquisa e desenvolvimento. Tal énfase deve, sem duivida, ser pen- sada também como um incentivo a pesquisa interdisciplinar. Como constrangimentos, além daqueles jé citados, temos, entre outros: + 0 fato de serem escassas no pais as linhas de financiamento espe- cificamente destinadas a pesquisa interdisciplinar. Recorde-se, por ‘exemplo, 0 fato de os recursos do Programa de Apoio a Nuicleos de Exceléncia (Pronex) do CNPq e do seu sucessor, os Institutos Nacionais de Ciéncia e Tecnologia (INCT), também do CNPa, terem priorizado o trabalho em rede, ou interinstitucional, mas nao a investigagdo interdisciplinar; +O fato de o mecanismo utilizado pela Capes para a avaliagdo da qua- lidade da produgio bibliografica dos pesquisadores brasileiros, 0 Qualis Periédicos, ainda nao ser unificado. O Qualis “afere a qua- lidade dos artigos e de outros tipos de producio, a partir da andlise da qualidade dos veiculos de divulgasZo, ou seja, periédicos cienti- 1 Ocomitt maltidiseiphin 2 Fonte: