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Elementos de Apoio aos Trabalhos Práticos MECÂNICA GERAL

LICENCIATURA EM ENGENHARIA ELECTROTÉCNICA AUTOMAÇÃO INDUSTRIAL E SISTEMAS DE POTÊNCIA

ELEMENTOS DE APOIO

AOS TRABALHOS PRÁTICOS DE

MECÂNICA GERAL
coligidos por MARIA HELENA CARDOSO
ANTÓNIO MANUEL CASACA
MÁRIO MOREIRA

ÍNDICE

1 - Relatório de um trabalho experimental .............................................. 1


2 – Estimativa de erros ............................................................................... 2
2.1 - Importância da estimativa de erros ....................................................... 2
2.2 - Erros sistemáticos ................................................................................. 4
2.3 - Erros estatísticos, aleatórios ou acidentais ………………………....... 5
2.3.1 – Introdução .................................................................................. 5
2.3.2 - Estimativa de erros estatísticos .................................................. 6
2.3.3 - Estimativa de erros estatísticos com poucas medições .............. 9
2.3.4 - Estimativa de erros de leitura ................................................... 11
2.4 - Propagação de erros ............................................................................ 11
3 - Algarismos significativos .................................................................... 13
4 – Gráficos ................................................................................................ 14
4.1 - Apresentação de gráficos .................................................................... 14
4.2 - Ajuste de uma recta a pontos experimentais de igual peso ……….... 16
5 – Bibliografia .......................................................................................... 18

2004

INSTITUTO SUPERIOR DE ENGENHARIA DE LISBOA

Área Científica de Física – DEEA – ISEL


Elementos de Apoio aos Trabalhos Práticos MECÂNICA GERAL

1 - RELATÓRIO DE UM TRABALHO EXPERIMENTAL

A credibilidade de um trabalho experimental assenta em medições bem feitas,


resultados bem calculados e conclusões cientificamente bem fundamentadas.
O relatório do trabalho deve traduzir a verdade dos factos. Deve ser apresentado
com clareza, de uma forma completa mas sucinta. Deve permitir que qualquer pessoa com
acesso ao relatório possa compreender os procedimentos executados e possa verificar os
resultados, utilizá-los ou até reproduzi-los.
Num relatório devem constar os seguintes elementos:

I - INTRODUÇÃO TEÓRICA (breve)


É apresentado o objectivo do trabalho. São referidas as leis físicas utilizadas ou a
testar e são indicadas as condições experimentais em que essas leis são válidas.

II - DESCRIÇÃO DOS EQUIPAMENTOS (breve)

III - DESCRIÇÃO DOS MÉTODOS UTILIZADOS (breve)

IV – MEDIÇÕES DIRECTAS
As medições efectuadas directamente são apresentadas, indicando a grandeza
medida, o instrumento utilizado e os resultados.
A medição directa de uma grandeza pode consistir numa só medida, ou pode
resultar de múltiplas repetições da medida, efectuadas nas mesmas condições. Em ambos os
casos o resultado da medição inclui o valor nominal (valor numérico), o erro e as unidades
do valor nominal e do erro.
Os resultados de medições directas são apresentados, de preferência, em tabelas. As
tabelas estão legendadas com os símbolos (ou nomes) das grandezas e as unidades dos
valores tabelados. O significado dos símbolos deve constar, definido com exactidão.

V - CÁLCULOS
Usam-se os resultados das medições directas para calcular os resultados finais do
objectivo do trabalho.
Os cálculos devem ser apresentados com grande clareza. É indispensável indicar
com exactidão o significado dos símbolos utilizados.
Cada resultado final inclui o valor nominal, o erro e as unidades.
O cálculo dos resultados finais é feito a partir dos valores nominais e dos erros das
medições directas. O erro do resultado final calcula-se através da propagação dos erros dos
resultados directos.
Sempre que possível, os resultados finias são apresentados em tabelas, devidamente
legendadas.
Quando um cálculo é ilustrado por um gráfico, este deve ser acompanhado pela
tabela dos valores colocados no gráfico. Quando existem vários resultados finais para uma
mesma grandeza, pode convir dispô-los numa tabela e num gráfico para facilitar a tirada de
conclusões.

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VI - INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS E CONCLUSÕES


É o ponto culminante do relatório.
Os resultados finais são comparados com resultados obtidos em outras
experiências ou com valores previstos teoricamente. Esta comparação só é possível se os
erros constarem do resultado final. A comparação consiste em verificar se o intervalo de
incerteza do nosso resultado final contém, é contido ou intersecta o intervalo de incerteza
dos outros resultados. No caso afirmativo, há concordância entre o nosso resultado e os
outros; no caso contrário há discrepância entre o nosso resultado e os outros.
Eventuais discrepâncias devem ser interpretadas. Devem ser racionalmente
apresentadas as causas possíveis da discrepância e, eventualmente, podem ser apresentadas
sugestões para as eliminar ou atenuar. Por vezes a causa de discrepância reside no facto de
as condições da experiência não coincidirem com as condições de validade da teoria
utilizada, o que revela um método inadequado.
A detecção de um erro sistemático merece explicação detalhada.
Se o grau de precisão dos resultados não fôr suficiente para tirar conclusões, há que
identificar as medições directas que mais contribuem para o erro do resultado final (por
análise da expressão da propagação de erros) e podem sugerir-se alternativas de
procedimento ou de equipamento que permitam diminuir os erros dessas medições de
forma a obter resultados significativos.

Além dos elementos indicados acima, um relatório deve ter título, identificação dos
autores e da instituição (Instituto, Departamento, Secção), enquadramento (disciplina,
Curso), data, índice (em relatórios extensos), bibliografia (aquela que tenha sido útil à
realização do trabalho e relatório) e/ou referências bibliográficas (chamadas numeradas
colocadas no texto do relatório, com a correspondente referência bibliográfica no fim da
página ou no final do relatório).
Nos capítulos seguintes são abordados alguns assuntos básicos, que são
indispensáveis para a elaboração de qualquer relatório de Engenharia.

2 – ESTIMATIVA DE ERROS

2.1 – Importância da estimativa de erros


Quando se mede uma grandeza não esperamos obter um valor exactamente igual ao
verdadeiro. É importante darmos uma indicação sobre a proximidade do nosso resultado ao
valor verdadeiro, isto é, uma indicação da precisão ou do grau de confiança da medição.
Isto é feito incluindo no resultado uma estimativa do seu erro. Por exemplo, podíamos
medir um comprimento e dar o seguinte resultado final

s = ( 256 ± 2) mm. (2.1)


(valor nominal de 256 mm e erro de 2 mm)
Isto significa que esperamos que o comprimento esteja situado algures no intervalo entre
254 e 258 mm (intervalo de incerteza ou intervalo de confiança). A equação (2.1) é, na
realidade, a afirmação de uma probabilidade. Ela não significa que temos a certeza de que o

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valor está dentro dos limites referidos, mas significa sim que as nossas medições indicam
que há uma certa probabilidade de isso acontecer.
Estimar os erros é muito importante porque, se não o fizermos, não podemos tirar
conclusões significativas dos valores experimentais. Imagine-se, por exemplo, que
queremos descobrir se a temperatura altera a resistência de um enrolamento condutor. Os
valores medidos foram

200,025 Ω a 10 ºC
200,034 Ω a 20 ºC.

A diferença entre estes valores será significativa? Sem conhecermos os erros não podemos
responder. Se, por exemplo, o erro em cada valor da resistência fosse 0,001 Ω a diferença
era significativa, ao passo que se o erro fosse 0,010 Ω a diferença já não era significativa.
Uma vez obtido um resultado numa experiência, esse resultado é registado e torna-
se público. Diversas pessoas podem usá-lo de maneiras diversas. Uns podem usá-lo em
cálculos com uma finalidade prática; outros podem querer compará-lo com uma previsão
teórica. Por exemplo, um engenheiro electrotécnico pode querer conhecer a resistividade do
cobre para desenhar um transformador, enquanto que um físico pode querer conhecer o
mesmo valor para testar uma teoria da condutivididade electrónica em metais. Seja qual for
o uso que se dê a um resultado experimental, é necessário saber se ele tem ou não precisão
suficiente para o objectivo pretendido. Para haver resposta a essa pergunta, há que conhecer
a estimativa do erro do resultado, e é o experimentalista quem tem a responsabilidade de o
fornecer.
Embora um experimentalista nunca possa prever todos os usos possíveis dos seus
resultados, ele deve ter consciência de algumas possibilidades. Por exemplo, se a
experiência é feita para testar uma teoria, o experimentalista deve ter uma noção da
precisão que o resultado deve ter para poder ser útil nesse teste. Quer dizer, o objectivo de
uma experiência muitas vezes determina o erro que pode ser tolerado, o qual por sua vez
pode ter implicações importantes nos procedimentos experimentais a seguir.
Poder-se-ia pensar que qualquer experiência deve ser efectuada da forma mais
precisa possível, mas tal ideia é irrealista. A vida é finita e os recursos e capacidades do
experimentalista também o são. Por isso, é importante planificar e efectuar a experiência de
forma que a precisão do resultado final seja a apropriada para atingir o objectivo da
experiência. Suponhamos que, no exemplo anterior, estávamos interessados na resistência
do enrolamento para o usar como resistência padrão num intervalo de temperaturas entre 10
ºC e 20 ºC, e que a precisão necessária era de 1 parte por 10 000. Neste caso, seria
perfeitamente adequada a medida da resistência com um erro de 0,010 Ω, e seria uma perda
de tempo esforçarmo-nos por reduzir o erro para 0,001 Ω. Medir a resistência com um erro
de 0,05 Ω seria ainda muito pior porque tal medida seria inútil para cumprir o objectivo
pretendido.
Tal como o resultado final de uma experiência deve ser obtido com um certo grau
de precisão, o mesmo deve acontecer com os valores das várias grandezas medidas ao
longo da experiência. Poucas experiências serão tão simples ao ponto de o resultado final
ser medido directamente. Normalmente, precisamos de medir o valor de várias grandezas
primárias e depois conjugar esses resultados para obter o valor da grandeza final. Os erros
dos valores primários determinam o erro do resultado final. Em geral, os erros primários

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contribuem em quantidades diferentes para o erro final e este é minimizado se os nossos


recursos de tempo, equipamento e paciência se concentrarem em diminuir aqueles erros que
mais contribuem para o erro final.
Por aqui vemos que os erros não têm uma importância secundária, nem têm um
interesse meramente perfeccionista. Ao contrário, os erros estão directamente relacionados
com o objectivo da experiência, com o procedimento nela adoptado e com o significado dos
resultados.

2.2 - Erros sistemáticos


Os erros sistemáticos são os erros que afectam de igual forma todas as medições,
sempre para mais ou sempre para menos, isto é, os erros sistemáticos fazem com que o
resultado da medição seja sempre maior ou sempre menor do que o valor real.

Alguns exemplos de erros sistemáticos:

- erro cometido usando uma régua graduada, quando o observador mede comprimentos sem
fazer coincidir o zero da régua com uma das extremidades do comprimento a medir;
zero zero
régua régua

ERRADO CERTO

- erro de paralaxe, nas leituras de uma escala de um instrumento analógico, quando o


observador não se coloca em frente do ponto de leitura no instrumento;
velocímetro

condutor passageiro
CERTO ERRADO

- erro na medição de tempos com um cronómetro que se atrasa;


- erro na medição de resistências eléctricas com um ohmímetro, quando não se acertou
previamente o zero da escala;
- erro de calibração do aparelho de medida;
- erro na medição da diferença de potencial existente entre dois pontos de um circuito,
quando essa parte do circuito tem uma resistência tão grande que é comparável à resistência
interna do voltímetro usado na medição;
- erro devido ao facto de as condições experimentais não corresponderem às condições
assumidas teoricamente (método inadequado). Por exemplo, o cálculo do movimento de um
corpo, através de equações que não consideram a existência de atrito, estará afectado por
um erro sistemático se o atrito fôr uma força importante comparativamente às outras forças
que influenciam o movimento.

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Alguns dos erros sistemáticos exemplificados atrás são fáceis de detectar e eliminar.
Contudo, numa experiência podem existir outros erros sistemáticos que não são evidentes,
dos quais nem nos apercebemos. Na realidade, é difícil uma medição não estar afectada por
erros sistemáticos.
Quando se alteram as condições da medição, alteram-se também os erros
sistemáticos presentes. Por isso, não se devem misturar resultados obtidos em experiências
diferentes para, por exemplo, calcular a sua média aritmética, já que os resultados de
experiências diferentes têm erros sistemáticos diferentes.
Um aumento do número de medições com o mesmo aparelho não altera os erros
sistemáticos (portanto não os atenua, nem elimina). Por isto, e porque nem sempre são
detectáveis, os erros sistemáticos são potencialmente muito mais perigosos do que os erros
estatísticos a seguir descritos.

2.3 - Erros estatísticos, aleatórios ou acidentais

2.3.1 - Introdução
Erros estatísticos, aleatórios ou acidentais são os erros que afectam as medições de
forma aleatória, umas vezes para mais, outras para menos, pelo que o resultado da medição
pode ser, com igual probabilidade, maior ou menor do que o valor real.

Alguns exemplos de erros estatísticos:


- erro cometido ao accionar um cronómetro;
- erro de leitura numa escala.

Os erros estatísticos estão sempre presentes numa experiência. Os erros estatísticos


têm igual probabilidade de ser positivos ou negativos pelo que, na ausência de erros
sistemáticos, eles fazem com que medições sucessivas dêem valores que se distribuem em
torno do verdadeiro valor da grandeza:

Valor verdadeiro

Valores medidos

Assim, podem-se detectar erros estatísticos repetindo várias vezes a medição.


Além disso, quanto maior for o número de medições efectuadas, mais próxima do
valor real da grandeza estará a média aritmética dos valores obtidos. Claro que estas
repetições têm de ser feitas sem alterarmos as condições da experiência, para não se
introduzirem novos erros sistemáticos.
Se nas várias medições, além do erro estatístico, também existir um erro
sistemático, então os resultados distribuem-se em torno de um valor deslocado:
Valor verdadeiro

Valores medidos

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Os erros estatísticos distinguem-se dos erros sistemáticos por terem efeitos


aleatórios, em vez de terem efeitos sistemáticos. Assim, não podemos dizer que uma certa
fonte de erro é intrinsecamente sistemática ou estatística. Por exemplo, a medição de um
intervalo de tempo com um cronómetro tem variações tipicamente aleatórias porque o grau
de atenção do experimentalista e o seu tempo de resposta (cerca de ± 0,2 s mas variável de
pessoa para pessoa) são irregulares. Accionando o cronómetro de forma irregular, o
experimentalista produz um erro estatístico. Contudo, se o experimentalista tiver tendência
para actuar sempre cedo de mais (ou sempre tarde demais) introduz também um erro
sistemático. Quer dizer, uma fonte de erro pode produzir ambos os erros, estatístico e
sistemático.

2.3.2 – Estimativa de erros estatísticos


Considere-se que foi feito um conjunto de n medições de uma certa quantidade x,
realizadas nas mesmas condições, que conduziram aos resultados x1, x2, ..., xn.
Uma vez que as medições foram realizadas nas mesmas condições, o valor
experimental da grandeza é a média aritmética de x1, x2, ..., xn:

Σx i
x= . (2.2)
n

A média aritmética x é o melhor valor que podemos atribuir à grandeza, mas não
coincide necessariamente com o seu verdadeiro valor.
Põe-se a questão de saber qual é a proximididade provável de x ao valor
verdadeiro. Tudo o que podemos vir a saber é que existe uma certa probabilidade de o valor
verdadeiro se encontrar num certo intervalo centrado em x . O nosso problema consiste em
calcular esse intervalo para uma probabilidade específica.

Considerem-se os dois conjuntos, (a) e (b), de resultados de algumas medições


sucessivas de uma mesma quantidade, registados na figura seguinte:

x x

(a) (b)

Espera-se que a média x calculada com o conjunto (a) esteja mais próxima do valor
verdadeiro, do que a média x calculada com o conjunto (b). Por outras palavras, quanto
menores forem os desvios dos resultados relativamente à média x , menor deverá ser o erro
do valor x . O desvio de um valor xi é a diferença x i − x .

Considere-se agora que era feito um número muitíssimo elevado de medições (por
exemplo 10 000 000 medições) de uma certa quantidade x, nas mesmas condições. A este
conjunto muito grande de valores medidos dá-se o nome de distribuição. Os valores
medidos distribuem-se simetricamente em torno do valor verdadeiro, sendo uns maiores e

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outros menores. Na ausência de erros sistemáticos, e face ao enormíssimo número de


medições, podemos assumir que a média se confunde com o valor verdadeiro. O gráfico do
número de vezes que cada valor x ocorre é do tipo da figura seguinte:

f (x) = Número de
ocorrências
de um
resultado x

x x

À função f(x) chama-se função de distribuição.

A forma desta função está relacionada com a precisão das medições. Uma
distribuição de medições de grande precisão tem um pico muito acentuado à volta de x -
figura (a) - enquanto que uma distribuição de pequena precisão terá uma forma mais
espalhada em torno de x - figura (b):

x x x x
(a) (b)

Matematicamente, a precisão calcula-se através da largura da função de distribuição


e designa-se por desvio padrão da distribuição ou erro padrão de cada medição, σ. A
distribuição (a) terá um pequeno σ, enquanto que a distribuição (b) tem um grande σ. Este
erro padrão refere-se a cada medição realizada, pelo que não depende do número de
medições. Trata-se de um erro intrínseco ao conjunto experimental utilizado.

Quando na prática se faz um conjunto não muito grande de n medições, encara-se


este pequeno conjunto como uma amostra tirada ao acaso da distribuição.
Matematicamente, calcula-se o desvio padrão da distribuição, σ, ou erro padrão de cada
medição:

Σ( x i − x ) 2
σ≈ (2.3)
(n − 1)

isto é, σ é a raiz quadrada da soma dos quadrados dos desvios divididos pelo número de
medições menos um.

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Mas o erro que mais nos interessa é o erro que afecta a média x obtida com n
medições. A este erro chama-se σm, erro padrão da média de n medições:

Σ( x i − x ) 2
σm ≈ (2.4)
n(n − 1)

Este erro estatístico σm diminui quando o número n de medições aumenta.

As expressões de σ e σm podem-se escrever em função de s (desvio padrão da


amostra):

s 2
=
∑ (x i − x) 2
(2.5)
n

n
σ=s (2.6)
n −1

σ
σm = (2.7)
n

Exercício 1 - Para as seguintes medidas de uma resistência:


Resistência 4,615 4,638 4,597 4,634 4,613 4,623 4,659 4,623

calcule o resultado da medição.

Resolução – O primeiro passo é calcular a média dos valores medidos que dá 4,625 Ω.
Depois acham-se os quadrados dos desvios e a respectiva média s2. Finalmente calcula-se o
desvio padrão da distribuição, σ, e o erro padrão da média σm.

Resistência Desvios Quadrados dos Desvios Desvio Padrão Erro Padrão


da distribuição da média
Ω Ω Ω2 Ω Ω
4,615 - 0,010 0,000100
4,638 0,013 0,000169
4,597 - 0,028 0,000784
4,634 0,009 0,000081
4,613 - 0,012 0,000144
4,623 - 0,002 0,000004
4,659 0,034 0,001156
4,623 - 0,002 0,000004
média 4,625 média s2 = 0,000305 σ = 0,019 σm = 0,007

O resultado da medida é (4,625±0,007) Ω.

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Falta-nos conhecer a probabilidade de o valor verdadeiro se encontrar num dado


intervalo de incerteza. Para uma dada função de distribuição f(x), a probabilidade de o
resultado verdadeiro se encontrar no intervalo entre x − ∆x e x + ∆x é dada pela área
+∞
tracejada da figura (já que a área total sob a curva é ∫ f (x)dx = 1 ) :
−∞

f(x)

x x

x − ∆x x + ∆x
Assim, a probabilidade procurada depende da forma da função de distribuição f(x):
x + ∆x

∫ f (x)dx
x − ∆x

Para grandezas que podem assumir valores contínuos, admite-se que a forma da
distribuição é gaussiana ou normal, onde f(x) é uma curva de Gauss. Neste caso, a função
de distribuição tende rapidamente para zero fora do intervalo de x − σ a x + σ e
verificam-se os valores do seguinte quadro:

Intervalo de Grau de Confiança do intervalo Fracção de resultados


incerteza (Percentagem de resultados dentro dentro do intervalo
do intervalo)
x±σ 68,3% 2 em cada 3
x ± 2σ 95,4% 19 em cada 20
x ± 3σ 99,73% 399 em cada 400
x ± 4σ 99,994% 15999 em cada 16000

Os valores deste quadro permanecem os mesmos se substituirmos σ por σm. Assim,


quando calculamos um resultado:
x ± σm
sabemos que a probabilidade de o verdadeiro valor estar dentro deste intervalo é de 68,3%.
Diz-se que o grau de confiança do resultado é 68,3%.
Para se ter um grau de confiança maior, por exemplo de 95,4%, usa-se o intervalo
de confiança x ± 2σ m .

Para distribuições diferentes da de Gauss (por exemplo, a de Student, a binomial, a


de Poisson, a de χ2) as probabilidades são diferentes.

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2.3.3 – Estimativa de erros estatísticos com poucas medições


Conforme foi dito atrás, quanto menores forem os desvios dos resultados
relativamente à média x e maior for número n de medições, menor deverá ser o erro da
média x .

Para um número n de medições muito pequeno (n<10), a média x pode estar muito
desviada do valor verdadeiro. Por isso, nestes casos é usual sobrestimar o erro estatísico,
∆x , tomando-se:

- a média do módulo dos desvios: ∆x =


∑x i −x
(2.8)
n

ou

- o módulo do maior dos desvios: ∆ x = x i − x max (2.9)

O intervalo de incerteza calculado por (2.8) é maior do que o intervalo x ± σ m ,


conforme mostra a comparação dos resultados dos exercícios 1 e 2a).
Por sua vez, o intervalo de incerteza calculado por (2.9) é maior que o calculado por
(2.8). Assim, (2.9) é usada quando o número n de medições é diminuto (por exemplo n=3 ).

Exercício 2 - a) Para as seguintes medidas de uma resistência:


Resistência 4,615 4,638 4,597 4,634 4,613 4,623 4,659 4,623

calcule o resultado da medição.
b) Calcule o resultado para o caso de só ter efectuado as três primeiras medidas.

Resolução – a) O primeiro passo é calcular a média dos valores medidos que dá 4,625 Ω.
Depois acham-se os módulos dos desvios em relação à média e finalmente calcula-se a
respectiva média:

Resistência Desvios Módulo dos Desvios


Ω Ω Ω
4,615 - 0,010 0,010
4,638 0,013 0,013
4,597 - 0,028 0,028
4,634 0,009 0,009
4,613 - 0,012 0,012
4,623 - 0,002 0,002
4,659 0,034 0,034
4,623 - 0,002 0,002
média 4,625 média 0,014

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O resultado da medida é (4,625±0,014) Ω. Fornecendo este resultado com apenas 1 algarismo


diferente de zero no erro, tem-se (4,62±0,02) Ω.

b) Calcula-se a média das três primeiras medidas que dá 4,617 Ω.


Depois calculam-se os desvios em módulo (figuram já na tabela anterior).
Como se fizeram apenas 3 medidas, o erro é o maior desses desvios em módulo: 0,028 Ω.
Então o resultado da medida é (4,617±0,028) Ω. Fornecendo este resultado com apenas 1
algarismo diferente de zero no erro, tem-se (4,62±0,03) Ω.

2.3.4 – Estimativa de erros de leitura


Efectuando uma medição directa com um aparelho dotado de escala, comete-se um
erro de leitura. Este erro existe porque a escala do aparelho tem a sua menor divisão com
um valor que não é tão pequeno quanto se queira.
O erro de leitura num aparelho é igual à menor quantidade que o experimentalista
consegue avaliar usando esse aparelho.
Um aparelho digital fornece resultados discretos, separados de um determinado
valor mínimo que é o seu erro de leitura. Por exemplo, uma balança digital que forneça
resultados até à décima do grama, não pode apresentar resultados que difiram de menos de
0,1 g. A menor massa que se consegue medir com esta balança é 0,1 g. Então o erro de
leitura da balança é 0,1 g. Um cronómetro também funciona por saltos (quer o mostrador
tenha ponteiro, quer seja digital) e o erro de leitura será o valor do menor salto (em geral
0,01 s).
Um aparelho analógico tem uma escala que pode ser lida de forma contínua. O erro
de leitura é, em geral, o valor da menor divisão da escala. Contudo, se o experimentalista
ler fracções da menor divisão da escala, então o erro de leitura é essa fracção. Por exemplo,
usando uma régua onde a divisão mínima é 1 mm, o experimentalista lê o número de
milímetros de um dado comprimento e o erro de leitura é 1 mm. Mas se o experimentalista
se preocupar em interpolar distâncias que sejam uma fracção de milímetro, por exemplo 0,5
mm, então o erro de leitura é 0,5 mm. Neste último caso, os comprimentos medidos pelo
experimentalista vão até ás décimas de milímetro: por exemplo pode ler (21,5 ± 0,5) mm ou
(230,0 ± 0,5) mm.
Se uma medição é realizada apenas uma vez, um erro que se tem de considerar é o
erro de leitura.
Se a medição é repetida muitas vezes, o erro de leitura não tem que ser considerado
porque se dissolve no erro estatístico calculado por σm (2.7) ou ∆x (2.8 ou 2.9).
Se o fornecedor do aparelho de medida nos informar acerca do erro de fabrico do
aparelho (relacionado com imperfeições dos componentes, procedimento de calibração, etc)
este erro tem de ser somado ao erro de leitura (ou ao erro estatístico se forem feitas muitas
medições).

2.4 - Propagação de erros


Depois de se medir directamente várias grandezas, podem utilizar-se esses dados
para calcular o valor de uma grandeza final. Os erros dos valores medidos irão determinar o
erro do resultado final.

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Seja y a grandeza a calcular em função das variáveis a, b, c, ... através de uma


expressão simbolizada por:
y = y (a, b, c, ...). (2.10)

As variáveis a, b, c, ... foram medidas e conhecem-se os erros respectivos ∆a, ∆b, ∆c, .... O
resultado y terá um erro ∆y dado por:

∂y ∂y ∂y
∆y = ∆a + ∆b + ∆c+ ... (2.11)
∂a ∂b ∂c

onde figuram as derivadas parciais da expressão y = y (a, b, c, ...) calculadas relativamente


a a, b, c, ....

Exercício 3 - Mediu-se o espaço (e) percorrido por um corpo pontual e mediu-se o tempo (t) que esse
espaço levou a ser percorrido. Sabe-se que o corpo estava animado de movimento uniforme. As medições
tiveram os seguintes resultados:
e ± ∆e = (30,00 ± 0,05) m
t ± ∆t = (15 ± 1) s.
Determine o módulo da velocidade (v) do corpo e o respectivo erro.

Resolução: Antes de tudo é necessário conhecer a expressão (2.10), isto é, a expressão que relaciona a
grandeza final (v) com as grandezas medidas (e e t). Como o movimento é uniforme, essa expressão é:
e
v= .
t
Com esta expressão começa-se por calcular o valor nominal da velocidade, que dá:
30,00
v= = 2,0 m/s.
15

Seguidamente deduz-se a expressão do erro final, ∆v, fazendo a propagação dos erros ∆e e ∆t com
(2.11):
∂v ∂v
∆v = ∆e + ∆t .
∂e ∂t

e ∂v 1
Derivando v= em ordem à variável e obtem-se: = .
t ∂e t
e ∂v e
Derivando v = em ordem à variável t obtem-se: ∆= 2 .
t ∂t t

Então a expressão da propagação de erros é:

1 e
∆ v = ∆ e + 2 ∆t .
t t

Finalmente, substituem-se nesta expressão os dados experimentais e=30,00 m, ∆e=0,05 m, t=15 s e


∆t=1 s. Obtem-se:

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0,05 30,00 × 1
∆v = + 2
= 0,2 m.s-1.
15 15
O resultado final para a velocidade é:

v ± ∆v = (2,0 ± 0,2) m.s-1.

Nota: O erro só apresenta 1 algarismo depois dos zeros à esquerda, arredondado por excesso; o valor
nominal apresenta um número de casas decimais igual ao do erro.

Exercício 4 - a) Mediu-se uma grandeza m com um erro ∆m. Verifique que o erro de m2 é 2 m ∆m.
b) Sabe-se que a grandeza m vale (3,1 ± 0,2) kg. Mostre que m2 vale (10 ± 2) kg2.

2( m 1 + m 2 )
Exercício 5 - Pretende-se conhecer a aceleração g através da expressão g = a.
m2
Para tal, mediram-se as grandezas m1, m2 e a e obtiveram-se os resultados seguintes:

m1 ± ∆m1 = (1,00010 ± 0,00001) kg


m2 ± ∆m2 = (0,03002 ± 0,00001) kg
a ± ∆a = (0,142± 0,009) m.s-2.

a) Deduza a seguinte expressão de propagação dos erros para calcular o erro ∆g :


2  am 1 
∆g = a∆m 1 + ∆m 2 + (m 1 + m 2 )∆a  .
m2  m2 
b) Mostre que o resultado final de g é (9,7 ± 0,7) m s-2.

c) Diga se este resultado é consistente com o valor 9,8 m s-2, conhecido para g.

3 - ALGARISMOS SIGNIFICATIVOS

Normalmente, o último algarismo de um valor nominal é o único que está afectado


de erro. Por exemplo, num comprimento de 0,050 m temos a certeza que todos os
algarismos são exactos excepto o último, pelo que a incerteza deste comprimento é da
ordem dos milímetros. Um comprimento de 0,05 m já tem uma incerteza maior, da ordem
dos centímetros.
Com este critério, o erro de um resultado tem apenas um algarismo após os zeros à
esquerda e o valor nominal tem o um número de casas decimais igual ao do erro. Por
exemplo, se calcularmos um comprimento de 0,1534 m com um erro de 0,023 m, o
resultado é (0,15 ± 0,03) m, visto só o último algarismo do valor nominal ser incerto. Se
quisermos apresentar o erro com dois algarismos após os zeros, escreveremos o resultado
(0,153± 0,023) m.

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Os zeros à esquerda não são algarismos significativos porque podem ser eliminados
através de uma mudança das unidades. Por exemplo, um comprimento de 0,050 m pode ser
expresso como 50 mm, que é um valor igual (e de igual incerteza) mas sem zeros à
esquerda. Todos os outros algarismos, incluindo os zeros à direita, são significativos, visto
os zeros à direita darem informação sobre a ordem de grandeza da incerteza (veja-se o
exemplo dado no início deste capítulo).

Assim, o número de algarismos significativos de um resultado é obtido contando da


esquerda para a direita todos os algarismos, à excepção dos zeros à esquerda. Contudo, se
o primeiro algarismo significativo fôr 5 ou superior a 5, ele contará por dois algarismos
significativos, uma vez que, por aproximação, ele pertence à ordem de grandeza
imediatamente superior. Por exemplo 0,0670 tem 4 algarismos significativos (o seis conta
por 2 e os algarismos que se seguem contam por 1 cada um).

Suponhamos que se quer medir o valor de π. Para tal desenhou-se uma


circunferência e mediu-se, com uma fita métrica, um diâmetro de 43 mm e um perímetro
de 132 mm. Fazendo o quociente entre o perímetro (2πR) e o diâmetro (2R), com uma
máquina de calcular, obteve-se 3,069767442. Será que todos estes algarismos são
significativos? Recorde-se que só o último algarismo deve estar afectado por erro! Como a
precisão do resultado nunca pode ser superior à precisão dos dados, nas multiplicações e
divisões o número de algarismos significativos do resultado é igual ao menor número de
algarismos significativos dos factores. Assim, o resultado do quociente só pode ter 2
algarismos significativos, visto que 42 só tem 2 algarismos significativos. Então, o
resultado do quociente é 3,1 (o último algarismo significativo obtem-se por aproximação do
valor fornecido pela máquina de calcular). Este resultado é concordante com o valor de π
conhecido com maior precisão (3,141592654...).
Utilizando o mesmo critério lógico (a precisão do resultado nunca pode ser superior
à precisão dos dados), nas somas e subtrações o número de casas decimais do resultado é
igual ao menor número de casas decimais das parcelas. Por exemplo 39,34 + 2,1 - 0,257 =
41,2.

O método a seguir é fazer todos os cálculos sem arredondamentos, com todas as


casas decimais que a máquina de calcular permita, e no fim reduzir o resultado final ao
número de algarismos signficativos que o erro permite, arredondando o último algarismo.

Os erros dos resultados finais são sempre arredondados por excesso. Por exemplo,
um erro calculado de 0,4132 é apresentado com um único algarismo após o zero à esquerda
(como foi visto atrás) pelo que, num arredondamento “normal”, este erro seria 0,4. Mas,
como se trata de um erro que é (ligeiramente) superior a 0,4, é arredondado “por excesso”
para 0,5.

4 - GRÁFICOS

4.1 - Apresentação de gráficos

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Para se conhecerem os valores exactos representados num gráfico, este deve ser
acompanhado da tabela dos valores representados.
Cada eixo do gráfico tem de estar identificado com o nome ou símbolo da grandeza
representada e com a unidade da graduação do eixo.
A amplitude e graduação das escalas devem permitir que os pontos representados
ocupem a maior parte do espaço do gráfico. Para uma leitura fácil, o gráfico não deve ser
demasiado pequeno, pelo contrário deve ser bem visível.
Convem identificar o gráfico através de um título ou de uma legenda. Num gráfico
podem-se representar diferentes conjuntos de pontos, usando um símbolo diferente para
cada conjunto devidamente legendado (por exº: • pontos experimentais, * pontos de
previsão teórica).
Não se deve apresentar uma linha quebrada unindo os pontos dispostos no gráfico,
pois tal linha não tem significado. Para quem não domine bem a elaboração de gráficos em
computador, é preferível fazê-los à mão, para não arriscar a disparates.
Um gráfico (x,y) é linear quando os dois eixos têm escalas lineares; ele permite
visualizar uma recta sempre que y = a x + b.
Um gráfico (x,y) é logarítmico quando os dois eixos têm escalas logarítmicas; ele
permite visualizar uma recta sempre que y = b xa.
Um gráfico (x,y) é semilogarítmico quando o eixo das ordenadas tem uma escala
logarítmica e o eixo das abcissas tem uma escala linear; ele permite visualizar uma recta
sempre que y = ax.
A representação de cada par de resultados experimentais (x,y) inclui a disposição no
gráfico de um ponto definido pelos valores nominais (x,y) e de barras de erro
representando os erros ∆x e ∆y. Uma barra é horizontal igual ao intervalo de incerteza das
abcissas (2 ∆x) e a outra barra é vertical igual ao intervalo de incerteza das ordenadas (2
∆y). Este par de barras está centrado no ponto (x,y).

Gráfico do módulo da velocidade, v, de um ponto material, em função do tempo, t, onde foram


representados os valores experimentais registados na tabela 4.1:

55
50
45
40
35
v (m/s)

30
25
20
15
10
5
0
0 0 ,5 1 1 ,5 2 2 ,5 3 3 ,5 4 4 ,5 5

t (s )

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Tabela 4.1 - Módulo da velocidade v, em diversos instantes t, e respectivos erros ∆v e


∆t, obtidos experimentalmente para um corpo com movimento rectilíneo
uniformemente acelerado
t (s) v (m.s-1) ∆v (m.s-1) ∆t (s)
1,06 11,4 0,1 0,03
1,96 19,6 0,5 0,04
2,56 25,4 0,9 0,06
3,72 38 2 0,08
4,6 46 4 0,1

4.2 - Ajuste de uma recta a pontos experimentais de igual peso

Quando um conjunto de pontos experimentais têm igual peso (incertezas iguais ou


desprezáveis), calcula-se a equação da recta que melhor se ajusta a esses pontos, usando o
método da regressão linear, também designado por método dos desvios quadráticos
mínimos. Este método permite calcular os parâmetros da recta para a qual é menor a soma
dos quadrados das distâncias entre os pontos e a recta.
Considere-se um conjunto de n pontos de coordenadas (xi, yi), todos de igual peso.
A recta que melhor se ajusta a estes pontos tem a equação y = a x + b, onde:

n∑ ( x i y i ) − ∑ ( x i )∑ ( y i ) ∑ ( y ) − a∑ ( x )
i i
a= , b= (4.1)
n∑ ( x i ) − ( ∑ x i )
2 2
n

O erro estatístico associado aos parâmetros a e b é, respectivamente:

∆a =
n

∑ (y i − ax i − b) 2 , ∆b = ∆ a
∑ (x ) i
2

(4.2)
(n − 2) n ∑ (x i ) 2 − (∑ x i )2 n

Assim, o parâmetro a tem um valor dentro do intervalo de incerteza a ± ∆a e o


parâmetro b tem um valor dentro do intervalo de incerteza b ± ∆b.

Exercício 6 – Mediram-se os períodos de oscilação, T, e os comprimentos, l, de 5 pêndulos simples.


Seguidamente, calcularam-se os valores de T2 e de 4π2l registados na Tabela 4.2. Estabeleça a relação linear
entre 4π2l e T2 que melhor se ajusta aos 5 pares de valores da tabela, admitindo que têm peso idêntico.

Tabela 4.2 – Valores experimentais do quadrado do período T e do comprimento l


multiplicado por 4π2, em cinco pêndulos simples
T2 (s2) 4π2l (m)
1,06 11,37
1,96 19,58
2,56 25,38
3,72 38,14
4,60 46,15

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Resolução – A relação linear entre 4π2l e T2 é do tipo 4π2l = a T2 + b, correspondente a uma recta de
declive a que cruza o eixo das ordenadas no ponto de ordenada b. Uma vez que os 5 pares de valores (T2 ,
4π2l) têm igual peso, os parâmetros a e b são calculados com as expressões (4.1) e os respectivos erros ∆a e
∆b são calculados com as expressões (4.2), onde x=T2 e y=4π2l. Obtem-se:

a = 10,0 m s-2 , ∆a = 0,3 m s-2,

b = 0,4 m , ∆b = 0,7 m.

Assim, a relação linear que melhor se ajusta aos pontos experimentais é:

4π2l = 10,0 T2 + 0,4.

Esta recta está representada no gráfico da figura 3 e tem o declive:

a = (10,0 ± 0,3) m s-2

e intersecta o eixo das ordenadas para:

4π2l = (0,4 ± 0,7) m.

55
50
45
40
35
30
4π2l (m)

25
20
15
10
5
0
0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 4 4,5 5

T2 (s2)

Fig. 3 – Recta de equação 4π2l = 10,0 T2 + 0,4 que melhor se ajusta aos pontos experimentais
representados, dados na Tabela 4.2.

Como complemento ao Exercício 6, imagine-se que a teoria previa 4π2l = a T2, isto
é, a teoria previa b=0 e portanto previa que a recta passasse pela origem. Confrontando o

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valor teórico b=0 com o valor experimental b=(0,4 ± 0,7) m, concluimos que não são
contraditórios, porque o zero está dentro do intervalo de incerteza (0,4 ± 0,7).
Mas se os valores teórico e experimental de b fossem discrepantes, haveria que
procurar uma explicação.
Uma hipótese seria a de termos cometido um erro sistemático, s, na medição de
todos os comprimentos l, o que provocaria um desvio da recta sem alterar o seu declive.
Por exemplo, se os valores atribuídos a l tivessem sido todos aumentados de uma mesma
quantidade s, a equação teórica era distorcida para 4π2 (l + s) = a T2. Assim, obtinha-se:

4π2 l = a T2 - 4π2s

ou seja, obtinha-se uma recta com o mesmo declive a, mas que intersectava o eixo das
ordenadas em:
b = - 4π2s.

Outra pergunta que em geral é feita pelos alunos é a seguinte: Verificando-se a


relação teórica 4π2l = a T2, não podíamos calcular o valor de a fazendo a média aritmética
dos 5 quocientes experimentais 4π2l / T2 dos valores da Tabela 4.2?
Para responder, repare-se que esses 5 quocientes representam os declives de 5 rectas
que passam pela origem. Em consequência, o cálculo de a através da média dos quocientes
despreza a possibilidade de existirem erros sistemáticos afectando l. Se tais erros existirem,
ficam por detectar e irão distorcer o resultado final obtido para a. Em conclusão, o cálculo
de a através da regressão linear é mais correcto, porque o resultado não é afectado por erros
sistemáticos das medidas de l.

BIBLIOGRAFIA
Nesta brochura foram incluídos alguns trechos coligidos de:
- Practical Physics – Gordon L. Squires (4ª edição, Cambridge University Press, 2001)

Outra bibliografia:
- Texto de Apoio às Aulas Práticas de Física Experimental I e II – Filipe Tiago de Oliveira
et al. (Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, 1997)
- An Introduction to Error Analysis – John R. Taylor (2ª edição University Science Books, 1997)
- Grandezas e Medidas – Jorge Valadares e José Maria Tavares (Universidade Aberta, 2002)
- Física Experimental / Uma introdução - Abreu, Matias e Peralta (Editorial Presença, 1994).

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