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A Guerra dos Direitos Autorais

Quinta-feira, 18.11.04

17:00-19:00 horas

A continuing conversation about copyright in the digital age.


abstract | speakers | summary | audiocast

E25-111

Resumo

Em agosto, o Congressional Budget Office, agência federal americana, publicou um relatório denominado
Copyright Issues in Digital Media [Questões de Direitos Autorais em Mídias Digitais]. O relatório definiu
direitos autorais como um instrumento para a “alocação de recursos criativos”, não um “conjunto de
direitos invioláveis e absolutos aos quais criadores ou consumidores têm direito”. Mas como funcionam
na prática esses princípios aparentemente tão justos? E quais são os princípios constitucionais e
intelectuais que estão por trás da idéia de direitos autorais? Quais lições para os atuais argumentos sobre
baixar músicas ou filmes fazem parte da história dos direitos autorais? Como a lei de patentes difere da lei
de direitos autorais? Como parte do presente debate sobre criatividade, propriedade e poderes da
tecnologia, o Fórum está planejando uma série de painéis sobre assuntos específicos das guerras dos
direitos autorais.

Recentes fóruns sobre direitos autorais

Oradores

Donna L. Ferullo é diretora do Copyright Office da Purdue University, criado em 2000 com o objetivo
de oferecer orientação a professores e funcionários em questões de direitos autorais. Antes de integrar o
quadro da Purdue University, Ferullo era advogada autônoma em Boston, especializada em lei dos
direitos autorais.

Michel Meurer é professor da Faculdade de Direito da Boston University, onde leciona cursos sobre
patentes, propriedade intelectual e políticas públicas voltadas ao setor de alta tecnologia.

Resumo

Donna Ferullo disse que a promulgação da Digital Millennium Copyright Act [Lei de Direitos Autorais
Digitais do Milênio, ou DMCA] em 1998 e da Technology Education and Copyright Harmonization
(Teach) Act [Lei de Educação em Tecnologia e Harmonização de Direitos Autorais] em 2002, que
definiram o “uso justo” de materiais protegidos para aprendizado à distância, tornaram as universidades
cada vez mais responsáveis pela disseminação de importantes informações sobre direitos autorais a seus
integrantes.

Ela mostrou algumas páginas no site da Purdue University como


um exemplo de como aquela universidade oferece aos educadores
informações úteis sobre direitos autorais. As páginas mostradas
contêm análises da lei e uma lista de verificação para ajudar
educadores a determinar se os materiais qualificam-se para uso
justo dentro do ambiente do aprendizado à distância.

Na questão do compartilhamento de arquivos peer-to-peer, ela


afirmou que as escolas estão cada vez mais optando por obter
acordos de licenças para permitir que estudantes e outras pessoas
possam baixar músicas mediante uma taxa de serviços. A Purdue
University, por exemplo, comprou uma licença que permite o compartilhamento de músicas, devendo em
breve estender esse acordo ao compartilhamento de filmes. Ela afirmou que outra universidade, a UCLA,
implementou um sistema que desconecta o usuário da internet e o notifica caso tenha violado direitos
autorais.

Um maior controle sobre direitos autorais pode inibir pesquisas acadêmicas ao impor penalidades
criminais às pessoas que ignoram códigos anti-pirataria em suas pesquisas, afirmou. Um acadêmico de
Princeton, por exemplo, foi processado porque sua dissertação incluía informações sobre como driblar o
código de proteção de cópias dos Ebooks da Adobe.

Embora exista uma concordância geral que o público não deveria pagar duas vezes por pesquisas feitas
com verbas públicas, os atuais sistemas de publicação muitas vezes colocam os resultados de importantes
pesquisas em revistas profissionais, que por sua vez são vendidas de volta às universidades via assinaturas
das bibliotecas. Algumas universidades estão procurando formas alternativas de licenciamento e
publicação, tais como aquelas oferecidas pelo Creative Commons, ou buscando iniciativas de livre acesso
como o OpenCourseWare do MIT, para compensar os maiores custos e perda de controle de direitos
autorais muitas vezes associados com publicações em revistas científicas.

Ferullo afirmou que muitos serviços de bibliotecas, tais como empréstimos inter-bibliotecas, reservas
eletrônicas, e ajuda de referência online 24 horas por dia, sofrem com essas questões de direitos autorais.
Cada vez mais, novas empresas como a Xanadu funcionam como intermediários, buscando permissões de
direitos autorais, obtendo licenciamento e oferecendo gestão de conteúdo. Isto acrescenta mais um
complexo e oneroso item a orçamentos já sobrecarregados e ameaçados.

Ferrulo concluiu criticando a repetida ampliação da proteção aos direitos autorais – atualmente a vida do
autor mais 70 anos – e redução da isenção do uso justo, o uso legalmente protegido de materiais com
direitos autorais para finalidades educativas. Uma política prática de direitos autorais deve ser
colaborativa, disse ela, e buscar um equilíbrio entre os direitos dos proprietários e usuários.

Michael Meurer disse que embora seja um ardoroso defensor do uso justo, ele iria descrever “o que está
certo com o sistema de direitos autorais” e falar um pouco do ponto de vista do setor.

Ele descreveu os aspectos básicos da lei de direitos autorais, afirmando que o direito autoral existe a partir
do momento da fixação ou criação – “o momento no qual a caneta é levantada do papel ou o dedo do
teclado” – e não precisa ser registrado com qualquer órgão oficial. Patentes, por outro lado, protegem
invenções e a aplicação da patente precisa ser avaliada pelo Escritório de Patentes dos EUA, que
determina se uma patente pode ser concedida. Direitos autorais protegem a expressão, não fatos ou idéias,
explicou. As patentes cobrem funções invés de conteúdo, que é o domínio dos direitos autorais. Tanto
direitos autorais como patentes protegem software, mas de formas diferentes. Embora todos os softwares
tenham direitos autorais, nem todos são patenteados. A proteção por patentes é mais cara, protegendo
características como algoritmos, mas não dura tanto tempo quando a proteção dos direitos autorais.

A principal ferramenta utilizada pelos proprietários de direitos autorais, tais como editoras, é
a regra da reprodução direta, que proíbe a reprodução não autorizada de obras protegidas.
Citando casos recentes de sites de compartilhamento de músicas peer-to-peer, tais como
Napster, Aimster e Grokster, Meurer disse que esses sites não foram processados com
sucesso pela violação da regra de reprodução direta porque são considerados intermediários
entre usuários que realmente copiam o material protegido.

As gravadoras obtiveram vitórias jurídicas contra a Napster e Aimster citando dispositivos


de reprodução indireta, e persuadindo juízes que essas empresas visaram e acobertaram
violações de direitos autorais, oferecendo funcionalidades de busca que ajudavam a
encontrar online cópias ilegais de materiais protegidos. Contudo, as gravadoras perderam o
processo contra a Grokster porque essa empresa eliminou o sistema de busca centralizada,
sendo que tal perda forçou as gravadoras a repensar suas estratégias de litígio.

Descrevendo os EUA como um “regime de baixa proteção”, no qual usuários têm mais direitos que em
outras partes do mundo, Meurer disse que quando a possibilidade de compartilhamento é incluída no
sistema, os custos aumentam. Na época da Xerox, por exemplo, os preços das revistas científicas saltou
porque as editoras buscaram recuperar indiretamente o valor perdido através das cópias feitas
ilegalmente. Aumentos similares nos custos resultaram de cópias digitais, mas a escala e a anonimidade
do compartilhamento de arquivos digitais faz com que estratégias de preço não consigam recuperar mais
que uma fração das receitas perdidas.

Debate

DAVID THORBURN, diretor, Fórum de Comunicações: Michael, você comentou que as editoras
estão aumentando o preço das assinaturas para bibliotecas para compensar seus prejuízos. Mas isso fez
com que caísse o número de assinaturas de publicações científicas. Os orçamentos das universidades
estão sob grande pressão em razão dos custos dessas publicações. Isso é uma situação na qual todos
perdem. Isso não é ruim?

MEURER: Considerando todos os aspectos, eu diria que não. Não tenho muita simpatia pelas editoras,
mas os direitos autorais devem oferecer um incentivo financeiro para que autores publiquem e editores
disseminem; agora, as editoras estão vulneráveis em razão de cópias baratas e fiéis que podem ser
facilmente distribuídas através de tecnologias digitais.

Mostro esses diferentes modelos de negócios – diferentes formas de obter valor – como uma maneira de
as editoras compensarem o que acreditam ser receita perdida. Uma dessas estratégias é a diferenciação, na
qual diferentes clientes, incluindo bibliotecas, pagam diferentes preços. Não estou dizendo que isto é uma
coisa socialmente desejável, mas o ponto da questão é que as editoras contam com novas estratégias de
marketing trazidas pelas mesmas tecnologias digitais que permitem cópias fáceis e eficientes.

CAROL FLEISHAUER, Bibliotecas do MIT: Donna, estou intrigada por algo que você escreveu há
cerca de dois anos, na Chronicle of Higher Education. Vou ler parte do artigo: “O uso justo está longe de
morrer. Está vivo e bem, e cada vez mais poderoso com cada mudança na lei que fortalece o detentor dos
direitos autorais e enfraquece o direito público de utilizar a obra.” O que, exatamente, você quis dizer
com isto, e você ainda acredita nesta palavras?

FERULLO: Sim, ainda acredito que são verdadeiras. Essas palavras foram escritas em resposta a um
longo artigo, que dizia que o uso justo estava morto, opinião com a qual discordo. O uso justo é uma
grande exceção às leis de direitos autorais para nosso – universidades – uso, mas que não usamos, por
temer processos jurídicos. Existem muitas situações nas quais o uso justo se aplicaria, mas vemos o que
está acontecendo com as gravadoras, por exemplo, e isso tem um grande efeito adverso. Mas ainda assim
temos o uso justo e precisamos usá-lo. Existem leis que tentam reduzir esse uso, mas o princípio existe na
lei e precisamos utilizá-lo e defendê-lo.

THORBURN: Você conhece diferenças na aplicação do uso justo em materiais impressos e imagens?

FERULLO: Como um conceito, o uso justo é tecnologicamente neutro, devendo ser aplicado a todas as
mídias. Mas, como Michael afirmou, estamos chegando em um ponto em que o uso justo é disponível na
lei, mas a tecnologia está reduzindo sua aplicabilidade.

IAN CONDRY, MIT: Tenho um comentário e uma pergunta. Direitos autorais versam sobre mercados e
o uso justo obtém um equilíbrio nos mercados. Existe uma premissa que cada material baixado
ilegalmente equivale a um CD ou DVD roubado. Mas vários estudos indicam que isto não é verdadeiro.
Lawrence Lessig, por exemplo, destaca que muitos CDs são baixados com pouco impacto nas vendas.
Mesmo assim, compartilhamento de arquivos virou sinônimo de furto, e vejo isso como algo ruim para a
missão educacional sob a qual promovemos o compartilhamento. Queremos compartilhar idéias; é assim
que avançamos no mundo intelectual.

Minha dúvida é baseada no fato que muitos estudantes universitários americanos baixam episódios de
animações mostradas na televisão japonesa. Entendo que o direito autoral se aplicaria a um filme da HBO
baixado ilegalmente, mas isto se aplica a um programa transmitido publicamente no Japão? Existe uma
violação dos direitos autorais?
MEURER: Os produtores japoneses diriam que sim. Eles alegariam que podem vender o DVD do
programa nos EUA; se os americanos estão baixando o programa ilegalmente, os produtores estão
perdendo dinheiro. Um juiz provavelmente daria razão aos produtores japoneses.

Concordo com a sua opinião sobre compartilhamento. Compartilhamento pode ser definido como uma
experiência compartilhada, e essa idéia de compartilhamento se encaixa naquilo que os economistas
chamam de bem público; contudo, eu me preocupo com o compartilhamento generalizado, a la Napster.

Três estudos que conheço indicam que não houve queda nas vendas devido ao compartilhamento de
arquivos, mas dois outros indicam uma queda entre 10% e 20% nas vendas. Não é uma perda de 100%.
Acredito que haverá prejuízos econômicos provocados pelo amplo compartilhamento de arquivos, mas
não da forma alegada pelas gravadoras.

A Blockbuster compra um DVD e permite que várias pessoas o vejam. A Blockbuster está fazendo um
favor ao setor, ao nivelar a demanda dos consumidores, mas mesmo assim o setor a combateu. Penso que
existe algum mérito no argumento que o compartilhamento de arquivos de músicas ou filmes inclui um
elemento de publicidade, alguma amostragem e um pouco de experimentação, como é feito via rádio.
Mas as gravadoras e produtoras dizem: “Não queremos compartilhamento de arquivos para finalidades de
publicidade.” Querem controlar seu próprio marketing.

PERGUNTA: Qual a sua opinião sobre direitos autorais mecânicos? Existe algum método razoável para
micropagamentos?

MEURER: Ainda estamos esperando a idéia de micropagamentos decolar. Existe uma grande lista de
elementos utilizados no processo de copiagem e isso poderia ser tributado. Não estou muito animado com
os micropagamentos porque é bem difícil para o governo fixar tributos e isso acelera uma tendência que
não gosto: a crescente politização do direito autoral. Cria mais oportunidades para desvio de verbas, para
envolvimento do Congresso na fixação de alíquotas e no estabelecimento de termos para emissão das
licenças.

STEPHEN MARX, produtor de televisão: Estou interessado em crítica de mídia publicada na internet
juntamente com amostras de filmes, para ilustrar um ponto intelectual. Até o momento, constatei que as
distribuidoras de filmes não apóiam isto, mas aparentemente promove o seu produto.

FERULLO: Isto remete ao uso justo e o motivo de eu gostar do uso justo. Quando alguém faz uma
crítica, não deve haver diferença se é feita na mídia impressa ou online.

MARX: Mas não é possível ter uma imagem em movimento na mídia impressa. A internet é a única
forma de usar a imagem em movimento de maneira prática.

THORBURN: Uma vez publiquei um ensaio que incluiu uma leitura de um show de televisão,
Lonesome Dove, especialmente a seqüência do título. Quando surgiu a internet, eu quis postar o material
online, mas os advogados da MIT afirmaram que eu não podia, porque temiam ser processados. Acredito
que estavam errados.

FERULLO: A mim soa como uso justo.

MEURER: Ambos acreditamos que é uso justo.

MARX: Fiquei confuso. Compro um DVD e consigo copiar uma pequena parte. Intencionalmente reduzo
a qualidade da imagem. Reduzo o tamanho do arquivo. Mas burlo a proteção, e vocês estão dizendo que
esse é o problema.

MEURER: Sim, esse é o problema. Uma maneira de burlar isso é usar uma saída analógica. Você põe o
filme para rodar e grava a partir da tela da televisão.
PERGUNTA: A Wal-Mart coloca chips de identificação via rádio freqüência (RFID) em seus produtos
antes de despachá-los, e consegue acompanhá-los ao redor do mundo. Existe possibilidade de editoras
colocarem esse tipo de chip em material impresso? Isso poderia acontecer em bibliotecas? Você faz uma
cópia de um livro ou artigo e é automaticamente cobrado?

MEURER: Estudantes de direito já não usam livros; valem-se de serviços online como Lexus ou
Westlaw. Produtos foram substituídos por serviços e a vantagem para as editoras é que podem contar
cada uso. Conseguem saber que usa muito ou pouco, e cobrar de acordo.

HENRY JENKINS, diretor de Estudos Comparativos de Mídia: Um recente caso que me intriga
envolve a Marvel Comics e uma empresa de videogames que produz um jogo chamado City of Heroes.
Começa com o usuário criando um super-herói com características genéricas. A Marvel Comics está
processando a empresa porque em teoria uma série de escolhas pode recriar o Incrível Hulk. Assim, um
primeiro argumento é violação de direitos autorais. Um segundo argumento é que jogar com o
personagem no mundo virtual é o equivalente a uma publicação.

Se isso for uma publicação, também é publicação se eu fizer uma fantasia para meu filho usar no
shopping onde possa ser visto? Como abordamos essa questão de ajudar e incitar a violação com essas
ferramentas de criação?

MEURER: Tenho duas linhas independentes para abordar a situação. Primeiramente, o programa que
permite ao usuário recriar algo com direitos autorais cria uma questão difícil sobre o que fazer com a
criação independente. O titular do direito autoral deve comprovar a violação. Por exemplo, provar que os
criadores do software City of Heroes estavam pensando em super-heróis da Marvel. Se isso os motivava,
o argumento da criação independente é enfraquecido.

Em segundo lugar, a palavra “publicação” tem um lugar em direito autoral, mas não é aqui. Isto tem mais
a ver com exibição ou espetáculo. Assim, é público ou privado? Acredito que já existiram processos
legais com relação a fantasias. Creches que colocam o Mickey Mouse nas paredes é assunto público. Um
pequeno grupo de amigos jogando um videogame online pode ser interpretado como privado.