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Cornelia Eckert

Ritmos e ressonâncias da duração


de uma comunidade de trabalho:
Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

2012
Cornelia Eckert

Ritmos e ressonâncias da duração


de uma comunidade de trabalho:
Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)
Ficha Técnica
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho:
Mineiros do Carvão (La Grand-Combe, França)
Editora Appris
1ª edição
Autor:
Cornelia Eckert
Editor Chefe:
Vanderlei Cruz
Editor Adjunto:
Marli Caetano
Coordenação Comercial:
Rafael Souza
Revisão Final:
Luiz Carlos de Almeida Oliveira
Diagramação:
Fabio Delfino
Capa:
Fabio Delfino

Editora Appris Ltda.


Rua Alfredo Scorsin, 59, Orleans
82300-460, Curitiba/PR
(41) 3053-5452
www.editoraappris.com.br

Catalogação na Fonte
Elaborado por: Sônia Magalhães
Bibliotecária CRB 9/1191

Figueiredo, André Videira de


F475c O caminho quilombola : sociologia jurídica do reconhecimento étnico /
2011 André Videira de Figueiredo. – 1. ed.– Curitiba : Appris, 2011.
214 p. ; 21 cm

Inclui bibliografias
ISBN 978-85-64561-31-1

1. Quilombolas. 2. Sociologia jurídica. 3. Multiculturalismo. 4. Relações


Étnicas. I. Título.

CDD 20. ed. – 305.8


Coleção Ciências Sociais
Diretor Cientifico
Fabiano Santos - UERJ/IESP

Consultores científicos
Alícia Ferreira Gonçalves – UFPB
Artur Perrusi – UFPB
Carlos Xavier de Azevedo Netto – UFPB
Charles Pessanha – UFRJ
Flávio Munhoz Sofiati – UFG, USP, UFSCAR
Elisandro Pires Frigo – UFPR/Palotina
Gabriel Augusto Miranda Setti – UnB
Geni Rosa Duarte – UNIOESTE
Helcimara de Souza Telles – UFMG
Iraneide Soares da Silva – UFC, IFARDÁ/UFPI
João Feres Junior – UERJ
Jordão Horta Nunes – UFG
José Henrique Artigas de Godoy – UFPB
Josilene Pinheiro Mariz – UFCG
Leticia Andrade – UEMS
Luiz Gonzaga Teixeira – USP
Marcelo Almeida Peloggio – UFC
Maurício Novaes Souza – IF Sudeste MG campus Rio Pomba
Michelle Sato Frigo – UFPR/Palotina
Revalino Freitas – UFG
Rinaldo José Varussa – UNIOESTE
Simone Wolff – UEL
Vagner José Moreira – UNIOESTE
prefácio
“Se o que dura mais é aquilo que recomeça me-
lhor, devemos assim encontrar em nosso cami-
nho a noção de ritmo como noção temporal fun-
damental. Fomos levados então a postular uma
tese, em aparência bastante paradoxal, mas que
nos esforçamos para legitimar. É a de que longe
de os ritmos serem necessariamente fundados
numa base temporal bem uniforme e regular,
os fenômenos da duração é que são construídos
com ritmos. (...) Para durarmos, é preciso então
que confiemos em ritmos, ou seja, em sistemas
de instantes. Os acontecimentos excepcionais
devem encontrar ressonâncias em nós para mar-
car-nos profundamente. Desta frase banal - ‘a
vida é harmonia’ -, ousaríamos então finalmente
fazer uma verdade. Sem harmonia, sem dialéti-
ca regulada, sem ritmo, nenhuma vida, nenhum
pensamento pode ser estável e seguro: o repou-
so é uma vibração feliz”. (BACHELARD, 1988. p. 9).
dedicatória
Aos meus pais
Kurt e Herta Eckert
AGRADECIMENTOS
Às famílias de mineiros de carvão que me receberam em suas vidas e ro-
tinas nas cidades de La Grand-Combe, Trescol, Champclauson e Alés (Gard,
França), de 1987 a 1991, serei infinitamente grata, ou como sugere a expres-
são em francês, merci infiniment.
Uma gratidão que tem forte potencial afetivo ao evocar os nomes das
minhas irmãs Clarissa e Cordula e do meu marido José Marcos Gomes. Cla-
rissa, em especial, pacientemente, estendeu seu sempre comprovado amor
fraternal ao resolver todas as burocracias administrativas durante minha au-
sência me permitindo um grande conforto para o estudo.
Minha vida acadêmica sempre foi marcada de incentivos, gestos de so-
lidariedade e de reciprocidades. Mas Ana Luiza Carvalho da Rocha, nos hoje
já 20 anos percorridos juntas, é minha colega, parceira de pesquisa, cúmplice
em nem sempre fáceis percursos compartilhados nos campos antropológi-
cos. A ela devo não só o afeto ao constante aprendizado antropológico, mas
a felicidade de poder construir conhecimento compartilhado na pesquisa, no
ensino e no desvendamento dos enigmas das ações imaginantes.
Agradeço à Beatrice Ladrange, que me recebeu em sua casa em Alés. À
Claude Boustany que me ajudou a enfrentar os segredos da informática, os
mistérios da língua francesa e por ter se tornado minha grande amiga.
Ao meu orientador de mestrado, Prof. Ruben George Oliven, meu re-
conhecimento é sem fim. Seu brilhantismo intelectual e sua simplicidade em
partilhar seu saber, incentivando-me sempre, são motivos de grande honra-
ria que me acalentam um certo orgulho indisfarçável. Devo muito ao meu
orientador de doutorado Prof. Jacques Gutwirth. Agradeço ainda ao Prof.
Anthoine Prost, Prof. Olivier Kourchid e ao coordenador do projeto CAPES/
COFECUB incentivador da pesquisa, Prof. Sérgio Teixeira.
Na França ou no Brasil muitos amigos(as) me apoiaram incondicional-
mente, são muitos nomes mas cito em especial Maria Lúcia Gonçalves, Car-
men Silvia Rial, Cristina Goelzer, Isabel Mallmann, Marilene e Lucilene Pinto,
Lola, Liliane Guterres, Manuel Ferreira Lima Filho, José Sérgio Leite Lopes e
Rosilene Alvim, Ondina Leal, Rosemari Feijó e Alexandre Aguiar. Para não
ocultar nenhum nome em tantos anos, agradeço aos colegas do meu Pro-
grama de Pós-Graduação em Antropologia Social e aos pesquisadores do
Núcleo de Antropologia Visual e Banco de Imagens e Efeitos Visuais. Malu
Rocha sempre atenta e brilhante aos meus pedidos imagéticos criou a capa
da tese de doutorado.
Por fim, a pesquisa de mestrado, de doutorado, de pós-doutorado e to-
dos os projetos de pesquisa por mim desenvolvidos só foram possíveis graças
ao apoio das instituições financeiras da CAPES, do CNPq e da FAPERGS e das
unidades administrativas do IFCH, do ILEA e da PROPESQ na UFRGS, Brasil.
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO...........................................................................................
INTRODUÇÃO...............................................................................................
1. “NO TEMPO DA COMPANHIA”...............................................................
A) O nascimento de uma vila mineira..............................................
B) Enraizar os desenraizados............................................................
1.1. A Organização Espacial da Vila Mineira e o contexto familiar no
“tempo da Companhia...................................................................
A) A constituição do tecido urbano.................................................
B) A construção da “família corporativa”.........................................
C) A “grande família”: complexidades e cumplicidades...................
1.2. Langorosa mas Inebriante Construção de “um novo tempo”...........
A) Os avatares de um novo século...................................................
B) O declínio da Companhia............................................................
2. “NO TEMPO DA NACIONALIZAÇÃO”......................................................
2.1. Mineiros Cevenois...........................................................................
2.2. Os Heróis do Trabalho.....................................................................
3. “NOS TEMPOS DE CRISE”........................................................................
3.1. A Vila Deserdada.............................................................................
3.2. A Trama da Vida Cotidiana “nos Tempos Letárgicos”
3.3. Variações sobre o tema de sociabilidade..........................................
A) A vida em outro ritmo.................................................................
B) Receitas para triunfar sobre o caos..............................................
C) “Do negro ao verde”..................................................................
4. TEMPOS DE NARRAR: RELATO DE UMA PESQUISA
ETNOGRÁFICA NA FRANÇA.....................................................................
A) Uma prática de campo às avessas?..............................................
B) A opção pelo universo de pesquisa..............................................
C) O trabalho de campo: ritual de instalação/interação....................
D) Uma pesquisa qualitativa............................................................
5. O TRABALHO DE DURAR..........................................................................
CONCLUSÃO................................................................................................
Referências................................................................................................
APRESENTAÇÃO
A metáfora da morte de uma civilização do trabalho põe à luz a agonia
e o sofrimento de duas ou mais gerações pelo “luto” de um “mundo ope-
rário” no processo de desindustrialização que atingiu determinados seto-
res produtivos “tradicionais” (extração de carvão no subsolo) movidos pelos
processos de transformações nos campos político-econômicos na era global.
Essa “situação de crise”, tão inerente aos processos históricos de desenvol-
vimento associados à modernização, afetou inúmeros grupos trabalhadores
enraizados, ao longo do século XX, em cidades industriais. Trata-se, sobre-
tudo de sociedades organizadas em torno de setores monoprodutivos que
perdem sua eficácia econômica frente às re-estruturações produtivas de uma
economia diversificada e, sobretudo ambientalmente sustentável.

De fato os efeitos do desenvolvimento econômico, das transformações


nas práticas e saberes do trabalho, dizem respeito a todas as culturas. As
dinâmicas de transformação no trabalho geram rupturas, descontinuidades,
desenraizamentos e não raro a destruição de redes sociais e cidades, a desin-
tegração de famílias e de grupos de identidade. Mas sabemos que em todas
as noções de morte subjazem igualmente a transformação e a vida, pela
recusa da extenuação social.1

Este estudo trata desta problemática a partir de uma pesquisa etnográ-


fica realizada junto a grupos de trabalhadores mineiros de carvão que deno-
minamos de comunidade ocupacional, para quem o “universo da mina” é
concebido como um contexto singular, revelando a tensão com que a coti-
dianidade de trabalho interage com as dinâmicas macroestruturais, percep-
tíveis na relação entre o desejo de mudança e a inserção no mundo global,
entre o sentimento de crise pela ruptura e um ideal de continuidade dos
referenciais de pertencimento do grupo.

A escolha para um estudo de caso recaiu sobre La Grand-Combe, situa-


da no sudeste da França, a 192Km do Mediterrâneo e a 650km de Paris, no
Departamento do Gard (Languedoc-Midi). O interesse temático dava conti-
nuidade as pesquisas que vinha desenvolvendo no Brasil em torno das con-
dições de vida de trabalhadores de extração na localidade de Charqueadas
(RS) de 1982 a 1985, em que tratei das condições de vida de mineiros de
carvão e suas famílias. A escolha da localidade de La Grand-Combe na França
se deu por uma especificidade, a de ter sido fundada com as características
de “fábrica com vila operária”2. Esta cidade nasce em 1846 pela motivação

1 “Somos seres descontínuos, indivíduos que morrem isoladamente numa aventura ininteligível,
mas temos a nostalgia da continuidade perdida. Não aceitamos muito bem a idéia que nos
relaciona a uma dualidade de acaso, à individualidade perecível que somos. Ao mesmo tempo
que temos o desejo angustiado da duração desse perecimento, temos a obsessão de uma
continuidade primeira que nos une geralmente ao ser”. BATAILLE. (1987). p.15.
2 Este enfoque de interesse seguia os estudos pioneiros de Antropologia do Trabalho e

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Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

de uma Companhia para explorar o “ouro negro”. Para tanto, requisitam


mão-de-obra, organizam a vila, mediatizando a relação entre os homens e
o trabalho produtivo. Para as famílias que se enraízam, o trabalho na mina
era base de toda estética rítmica das relações sociais, pontuando a cadência
da dança da vida.

É no seio de uma região cultural de tradição protestante3, Cévenne, que


a Companhia de Minas de La Grand-Combe dinamiza a implantação de um
complexo industrial e incrusta, em meio a extensos vales e montanhas, uma
microcivilização mineira e católica. Ali a Companhia consolidou uma política
paternalista e fundou a ética do trabalho como uma subcultura, a cultura
operária produtiva de capital. Ela estabeleceu seu domínio não somente nos
espaços fundados, mas na multiplicidade de relações sociais cotidianas, do-
minando as relações temporais dos grupos habitantes da vila mineira pelo
consenso em torno de seu projeto de construção de uma comunidade de
trabalho como uma “família corporativa”.

Até recentemente falar de mineiros e de vilas mineiras (ville minière) na


França implicava falar de grupos sociais operários com identidade coletiva
ligada ao mundo do trabalho na mina. No final do século XX, a regressão da
atividade extrativa do carvão obrigou a conquista de novos itinerários ativos.
Para tanto, homens e mulheres foram obrigados a deixar suas cidades de
origem, onde permanecem em sua maioria os aposentados, desempregados
e uma minoria de jovens4.

O fim da mina, que era a razão do enraizamento das famílias de mineiros


na localidade, e as transformações do espaço e relações de trabalho enca-
deiam as conseqüências que se multiplicam: a crise se reflete sobre todos os
domínios da vida social dos habitantes. A violência da ruptura é ainda mais
forte porque nenhum outro complexo produtivo veio substituir a unidade
econômica desaparecida, o que levou à retração do mercado de trabalho lo-
cal. Ora, na sociedade capitalista, onde o trabalho mesmo é um valor central,
pode-se medir a devastação na qual os habitantes vivem esta descontinuida-
de no contexto urbano5.

Antropologia da Classe Operária no Brasil desenvolvidos por, José Sérgio Leite Lopes (1978,
1987) e por Leite Lopes e Alvim (1990).
3 . Cévennes sempre foi bastião protestante e republicano. Em 1704, os Camisards são vencidos
pelas forças royalistas, mas no século XVIII, um regime de tolerância se instala. A comunidade
protestante cevenol é, desde então, fiel ao regime republicano e durante todo o século XIX
será considerada “radical e socialista” em oposição aos católicos, que defendem em massa
o partido royalista. Os diversos episódios revolucionários são confundidos com estes conflitos
seculares, mesmo no século XX: os protestantes serão liberais votando à esquerda, os católicos
serão conservadores e votam à direita. Cf. JOUTARD, PH. “Les Cévennes, bastion républicain
et Vendée méridionale”. In: JOUTARD (1979). pp. 143 a 153.
4 Em geral descendentes de imigrantes norte-africanos. Estes jovens são marcados pelo atraso
escolar e pela desqualificação profissional, sofrendo fortes estigmas por parte da população
francesa ou de imigrantes de antigo enraizamento.
5 Foi fundamental aqui a leitura de WEBER. (1982).

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Cornelia Eckert

Hoje, sem a mina, foi a profissão que desapareceu e com ela valores de
referência de um grupo, de uma prática social e um modo de vida. É junto
aos aposentados da mina e seus familiares, referidos como “a última gera-
ção de mineiros de carvão”, que convivemos ao longo de uma experiência
etnográfica (1987-1990). É claro que La Grand-Combe não foi um caso iso-
lado; em toda a França os antigos “reinos mineiros”, após anos de glória e
prosperidade, foram atingidos. Para todos eles, “a mina não foi somente um
dado econômico”, muito mais que isto, foi “o que gostaríamos de chamar
de um fato social total”6.

O que vivemos nesta experiência de pesquisa foi o compartilhamento de


uma grave recessão econômica. A exemplo de outras cidades que conhece-
ram este retrocesso, em La Grand-Combe, assistiu-se ao fim de um processo
de reprodução de um grupo operário que encontrava nele mesmo, pela so-
lidez das ligações familiares e pela cumplicidade compartilhada na inserção
neste mundo de trabalho específico, as fontes necessárias para a transição de
um savoir-faire, a honra coletiva de uma profissão de tradição e, ao mesmo
tempo, um modo de vida fundado sobre uma comunidade de trabalho.

Mas o que faz com que as pessoas, apesar das descontinuidades vividas,
sejam capazes de projetarem e reconstruírem uma duração social a partir de
formas diversas de sociabilidade, numa ação transformadora incessante? É
essa indagação que promoveu esta pesquisa interpretativa neste contexto
em transformação e declínio pela perda da vocação de “industrial”.

Apesar de experimentarem esta ruptura violenta da história coletiva


vivida, os grand-combianos vivem uma dialética da duração (ou durações,
que são sempre descontínuas), uma recomposição social cotidiana. Assim,
numa vila onde em 1987 a metade da população declara não exercer nenhu-
ma atividade profissional e onde 23% da população total têm 65 anos ou
mais(7), o tempo vivido e o modo de vida se encontravam também ritmados
por elementos de práticas sociais reinventadas, observadas privilegiadamente
sob formas de vivenciar sociabilidades diversas destacando-se as atividades
culturais agregativas (esporte, teatro, lazer, etc).

Dediquei o trabalho a compreender como este grupo operário se reorga-


niza neste processo de desestruturação industrial, de desordem da identida-
de social da comunidade de trabalho - como as famílias ali ainda residentes,
herdeiras de um tempo coletivo e portadoras da memória do grupo, reinter-
pretam os tempos vividos através do olhar a partir de um presente de crise
pousado sobre trajetórias de trabalho “produtivo” (categoria assalariada) no
passado, reordenando os tempos pensados e vividos em suas descontinuida-
des, posto que “não existe nenhuma razão, natural ou não, para que uma

6 . SCHWARTZ (1990). p. 11.


7 . ETUDE DE DEVELOPPEMENT DE LA GRAND-COMBE. Rapport. Beture. Mairie de La Grand-
Combe, (1987).

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Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

sociedade se conserve, salvo justamente a sua cultura, que é o instrumento


de luta contra a dissolução”(8), uma vontade de futuro social, “uma vontade
de ultrapassar a vida”, como o sugeriu o sociólogo Georg Simmel(9).

É nos diferentes domínios da vida social, nos tempos de interação, nos


lugares de interação que focalizei um processo de reinvenção do cotidiano,
de recriação das formas de sociabilidade de referência, que permite reatu-
alizar as práticas sociais e reordenar o tempo coletivo para viver uma conti-
nuidade. A última geração de mineiros de carvão e seus herdeiros vão assim
desvendando as experiências que exprimem o vivido humano articulados nas
narrativas por uma duração em nome do valor da reciprocidade e dos fins
interativos nos espaços da vida sensível, seja nas cenas públicas, seja nas
esferas da vida privada.

***

Esta publicação resume a tese de doutorado “Une ville autrefois minière:


La Grand-Combe. Etude d’Anthropologie Sociale». Univ. Paris V, «Renè Des-
cartes», S.H. - Sorbonne, Paris, França, 1992. Tome I, II, III. 1025 p. Sob
a orientação dos Srs. Professores Jacques Gutwirth (CNRS) e Antoine Prost
(Paris 1 - Sorbonne).

8 DUVIGNAUD (1983).
9 A referência à Georg Simmel é de Gastón Bachelard em sua obra (1988). p. 76.

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INTRODUÇÃO
No quadro industrial do século XIX na França, o carvão aparecia como fon-
te econômica básica. Entidades foram criadas para explorar o “ouro negro”,
trabalhadores foram requisitados para extraí-lo, vilas foram organizadas para
mediatizar a relação entre os homens e o trabalho produtivo. O “universo da
mina” foi cartografado como um espaço específico, onde o trabalho era para-
digma dominante na história singular das coletividades. Em torno do trabalho
na mina, famílias foram enraizadas e comunidades de trabalho, fundadas. Em
relação ao “mundo da mina”, combinaram suas aspirações, conceberam suas
chances objetivas de um projeto de vida, construíram suas culturas.

Na segunda metade do século XX, a maioria destas vilas conhece uma


situação regressiva do mundo da mina e confronta-se com dificuldades eco-
nômicas. Na medida em que se aproximava o final do século, em face das
novas lógicas de políticas financeiras e transformações no mundo tecnológi-
co e de inovações nos processos de trabalho industrial, o fim das minas de
carvão transtorna e desordena culturas singulares que gravitavam em torno
da extração carbonífera. São os imperativos da civilização industrial e capi-
talista que transparecem na situação “de crise” no meio mineiro francês:
o carvão, fonte energética n° 1 durante mais de um século, não ocupava
mais o pódio, o petróleo o suplantara. Para seguir o caminho do progresso,
o setor carbonífero sofreu uma profunda modernização em seu sistema de
exploração. A isto se seguiram o desaparecimento do trabalho tradicional do
mineiro de subsolo, o desemprego dos jovens, a transformação de toda uma
organização econômica e social. A fim de perseguir um itinerário ativo, ho-
mens e mulheres viram-se obrigados a buscar novos horizontes de trabalho,
e foram sobretudo aposentados e desempregados, os que permaneceram
nas vilas marcadas pela crise.

A oportunidade de desenvolver um programa de doutorado na França


(1986-1991) veio ao encontro do meu interesse em refletir sobre as trans-
formações sobrevindas no modo de vida de famílias de mineiros frente a
recessão carbonífera. Para analisar este contexto, optei por um estudo de
caso. A escolha foi La Grand-Combe, situada no sudeste da França, a 192km
do Mediterrâneo e a 650km de Paris, no Departamento do Gard (Languedoc-
-Midi). Foi com a leitura de uma citação feita por Rolande Trempé, na sua
obra sobre os mineiros de Carmaux(10), que minha atenção recaiu sobre esta
vila nascida do carvão no início do século XIX e fundada por uma sociedade
industrial em uma região rural, Cévennes(11).

10 TREMPE. (1971).
11 Os geógrafos designam por Cévennes o conjunto sudeste da cadeia de montanhas e vales do
Massif Central, mas as Cévennes históricas, o espaço cultural, compreendem os departamentos
do Gard, Ardèche e parte de Lozère. Situando-se na Occitanie, o dialeto cevenol é o occitan,
língua vernacular dos mineiros. O occitan, hoje, é designação popular da língua d’oc (Langue
d’Oc), também chamado por dialeto languedocien.

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Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

No seio de uma região protestante(12), em meio a extensos vales e mon-


tanhas, nasceu um enclave criado pela vontade de uma Companhia carbo-
nífera de dinamizar a implantação de um complexo industrial e, assim, uma
fração do espaço nativo foi incrustado por um “vale negro” ritmado por uma
ideologia patronal, católica tradicional e conservadora. O “país mineiro”(13)
de Cévennes alicerçou, por mais de um século a trajetória de uma comu-
nidade de mineiros, posto que a unidade econômica, aí, desenvolveu uma
política paternalista, provedora mas controladora de todas as ações da vida
pública e privada em relação aos seus operários, o que implicou a obtenção
de um consenso em torno de seu projeto de construção de uma comunidade
de trabalho(14) como uma “família corporativa”.

Mas a cidade industrial não era um contexto isolado, mas fruto das com-
plexidades do processo da ordem global de desenvolvimento e conhecia nos
novos revezes da moderna era industrial consolidadas no século XX. Após
viver um longo período regido por um sistema mono-industrial e de urbani-
zação do tipo vila-mineira, experimentava um processo de desindustrializa-
ção pelo recesso de sua atividade econômica dominante. Depois de registrar
uma população de 20.000 habitantes, os 7 mil habitantes em 1987 deixavam
transparecer o drama vivido pela comunidade ocupacional.

Delineado o cenário, desenvolvi no local um trabalho de campo entre


1987 e 1990, em quatro fases: inserção em campo, residência durante nove
meses, retornos com períodos mais curtos e pontuais, retorno para devolu-

12 . Cévennes sempre foi bastião protestante e republicano. Em 1704, os Camisards são vencidos
pelas forças royalistas, mas no século XVIII, um regime de tolerância se instala. A comunidade
protestante cevenol é, desde então, fiel ao regime republicano e durante todo o século XIX
serão considerados os “radicais e socialistas” em oposição aos católicos que defendem em
massa o partido royalista. Os diversos episódios revolucionários são confundidos com estes
conflitos seculares, mesmo no século XX: os protestantes serão liberais votando à esquerda,
os católicos serão conservadores e votam à direita. Cf. JOUTARD, PH. “Les Cévennes, bastion
républicain et Vendée méridionale”. In: JOUTARD. (1979). pp. 143 a 153.
13 . “Le pays minier», dizem os nativos, «tombée», en occitan. O país, neste contexto, é o espaço
onde os habitantes participam de um mesmo meio econômico e vida social.
14 . Identifico este grupo operário como uma comunidade de trabalho porque esta conceituação
ajuda a compreender a maneira própria de os personagens em questão cartografarem
o seu mundo de pertencimento social e de recortar as fronteiras culturais em relação ao
mundo mineiro. Comunidade de trabalho é outra maneira de dizer grupo de identidade, de
destino, ou de fazer uma homologia entre a grande família mineira e as relações marcadas
por uma trajetória, uma condição de vida em comum, assim como são comuns valores como
a solidariedade, a reciprocidade, a cumplicidade. Uma comunidade igualmente recortada
por outras unidades de identidade fundamentais como família, religião, bairro, vizinhança,
sindicato, partidos políticos etc, que são ora complementares, ora dilacerantes das fronteiras
imaginadas como constitutivas da comunidade de trabalho. O processo de reatualização
destas fronteiras é uma manipulação incessante das diversas referências sócio-culturais
inscritas sobre as propriedades de situações variáveis. Esta tensão coloca em destaque a
dinâmica histórico-social. Na maneira de cartografarem seu mundo de pertencimento com
significação, os entrevistados acionam as referências culturais que os transportam a estes
micromundos de pertencimento e que os fazem deslizar num feixe de valores em relação aos
universos complementares individualista/hierárquico (holista) que se distinguem segundo a
situação à qual o valor é suposto.

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Cornelia Eckert

ção do trabalho, visitas, agradecimentos e despedidas. Com este estudo de


caso tive por objetivos: a) conhecer a situação vivida pelos mineiros de carvão
grand-combianos frente ao desaparecimento do seu mundo de referência (a
mina) e de sua profissão (mineiro), o que provocou a dispersão da comuni-
dade tradicionalmente ligada a esta prática de trabalho; b) entender como
este grupo operário se reorganizava face à situação de “desordem” da iden-
tidade social da comunidade de trabalho; conhecer o impacto sofrido pelos
habitantes nos diferentes domínios da vida social, as transformações no seu
modo de vida e sua cultura; c) analisar, enfim, como as famílias ali ainda resi-
dentes, herdeiras de um tempo coletivo e portadoras da memória do grupo,
repensavam seu tempo vivido através do olhar pousado sobre uma trajetória
de saber-fazer, da cultura operária, reordenando o tempo presente.

***

Nesta pesquisa coloquei em alto relevo a vida e o trabalho dos mineiros


grand-combianos e de suas famílias não somente em relação à sua inserção
no mundo plural, do mercado moderno (com o qual eles estão confronta-
dos), mas também a outras totalizações que compartilham sensibilidades e
projetos de vida com que reconfiguram valores e lógicas de reinvenção do
cotidiano. Dimensionei sua maneira singular de viver e de pensar, o que é
percebido na representação e na prática social intrinsecamente articulada.
Busquei conhecer suas maneiras ao mesmo tempo individuais e coletivas de
exprimirem as continuidades e descontinuidades de um tempo vivido, seus
testemunhos sobre a vida em sociedade. Isto significa dizer que o sistema so-
cial é visto como um sistema de significações e a cultura como dimensão de
um sistema de representações e de práticas sociais no qual se estabelecem as
distinções e identificações na constituição de um sentido de durar no mundo.

Minha motivação antropológica consistiu, por um lado em estudar o


processo de construção da identidade social(15) de um grupo face a uma
experiência de trabalho percebida como diferencial e singular. Os mineiros
de carvão grand-combianos viveram durante mais de um século, o tempo
coletivo da comunidade de trabalho, dividindo a experiência particular de
inserção no mundo da mina e na vida da vila mineira. Assim, todo esforço de
“traduzir” a experiência do convívio etnográfico e o conhecimento de seus
dramas e dos seus projetos, é dimensionado na observação de campo, na
escuta e interpretação dos relatos dos entrevistados, na captação e estudo
de acervo de imagens16, no processo de construção de uma identidade nar-
rativa17. O “seu” mundo é cartografado como específico, pelo modo de vida

15 . Sobre conceito de identidade social sigo DIAS DUARTE.(1986) e LEVI-STRAUSS.(1983).


16 O Tomo III da tese de doutorado (114 p.) é de imagens: mapas, fotos do acervo de famílias
de mineiros, fotos produzidas na pesquisa, cartões postais, imagens tiras por fotógrafos
profissionais e vendidas nas lojas especializadas, imagens de folders e de imprensa. Agradeço
oportunidade ao COFECUB por ter financiado a câmera fotográfica com o qual pude
desenvolver a prática do registro fotográfico no campo etnográfico.
17 O conceito de identidade narrativa é da obra de Paul Ricoeur, in RICOEUR (1991, 1996, 2000,

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Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

singular e pela condição de vida operária no interior de contextos históricos


e sociológicos constitutivos de um “coletivo”: um “mundo mineiro”, a partir
do qual eles qualificam referências e valores de sua cultura.

A alusão ao “mundo da mina” detinha em suas representações um va-


lor operativo para conceberem-se como um grupo de pertencimento, uma
“comunidade de identidade”. A mina, o trabalho mineiro orientava qualida-
des simbólicas de uma “identidade-valor” que amalgama a idéia de cultura
como sistema simbólico e de sociedade como atualização de uma ordem de
princípio abstrato.(18) O “valor-trabalho” é intrínseco à ideologia da socieda-
de moderna e individualizante, mas, impregnado de seu contrário, sustenta
princípios de complementaridade e reciprocidade. Princípios que não negam
o operário-indíviduo (do ideário moderno), mas não o colocam no centro,
dão, antes, sentido a uma totalidade, à cultura de uma coletividade pensada
como hierarquizada e holista(19), de uma comunidade que se identifica: o
mundo mineiro do carvão fundado sobre o valor-trabalho.

A mina, o trabalho na mina, a grande família mineira são temáticas en-


tre outras tantas possíveis para presidir a construção social da identidade
do grupo em questão, isto é, representam uma das formas de combinar e
segmentar o feixe de valores culturais compartilhados. O “valor-trabalho”,
aqui, considera a inscrição do grupo em tempos e espaços vividos e pensa-
dos como “encompassadores” (20) da coletividade, pela comunhão de “um
modo de pertencimento diverso daquele que qualifica a societas moderna
e sua relação com os seus sócios ‘livre-contratantes’”.(21) A apreensão e a
interpretação que os sujeitos fazem da realidade vivida é não só abstração ou
classificação de uma ordem simbólica do mundo, mas, também, construção
de uma inserção social onde se deve deter os diferentes níveis de interação
cultural no seio da sociedade dominante. Isto implica dizer que esta inserção
encontra-se colada a “situações”(22) que combinam os valores e dão sentido
às práticas sociais enfatizadas, imprimindo lógica e sentido à vida.

Por outro lado, busquei conhecer a construção da trajetória da comu-


nidade de trabalho na sua maneira própria de pensar a continuidade sobre
as descontinuidades de sua história coletiva, na sua maneira de pensar a
2006).
18 . Segue-se, aqui, DIAS DUARTE. (1986). Cap. II. e IV.
19 . Segundo Dumont (em que DIAS DUARTE se apóia) a noção de valor é pensada em relação
à totalidade social por um critério de hierarquia: a totalidade é fundada sobre a coexistência
necessária e hierarquizada de dois opostos. DUMONT (1966 e 1983). e DUMONT. (1966).
20 . Cf. DUMONT. (1966 e 1983).
21 . “A experiência e a sensação de pertencimento pré-existem, prevalecem, condicionam a
instituição de pessoas diferenciadas, hierarquizadas no interior dessa configuração holista”.
In: DIAS DUARTE. (1986).p. 136.
22 . “A teoria da hierarquia pressupõe uma lógica de ‘situação’ no mesmo sentido em que
pressupõe uma dinâmica de ‘níveis’. Qualquer identidade só é função do ‘nível’ em que se
encontra no interior de uma ‘totalidade’ (qualificada diferencialmente por um ‘valor’) e em
função da ‘situação’ em que se faz operar ().” In: DIAS DUARTE. (1986). p. 43.

22
Cornelia Eckert

ordenação de superposições temporais vividas, “tempos recusados e tempos


utilizados”, “tempos ineficazes e tempos coerentes, organizados e consoli-
dados numa duração”(23). Parti da premissa da obra “A dialética da duração”
de Gastón Bachelard (1989), e investi na dinamização da memória coletiva
vivida nas experiências temporais vividas pelo grupo, em que os sujeitos con-
solidam as temporalidades de suas trajetórias, redes e sociabilidades como
coletivas, ricas em reinventar as significações dos processos rotineiros de in-
terações, partilhando as múltiplas formas de “arranjar” a vida social:

“... o tempo pensado é tempo vivido em estado nascente, ou


seja, que o pensamento é sempre, em alguns aspectos, a ten-
tativa ou o esboço de uma vida nova, uma tentativa de viver de
outro modo, de viver mais ou até mesmo, como queria Simmel,
uma vontade de ultrapassar a vida. Pensar o tempo é enqua-
drar, localizar a vida; não é tirar da vida uma aparência parti-
cular, que se captaria de modo tanto mais claro quanto mais
se tiver vivido. É quase fatalmente propor que se viva de outro
modo, que se retifique antes de tudo a vida e em seguida que
se a enriqueça.”(24)

É na reflexão sobre a construção da identidade narrativa que se reconhe-


ce o ritmo do cotidiano deste grupo de pertencimento na dinamização das
relações temporais vividas numa “ondulação dialética”(25).

Privilegiando ora as práticas familiares, ora as relações de vizinhança, ora


as múltiplas formas e processos de sociabilidade, percorreram-se as cenas,
descobriram-se as estéticas e lógicas, escutaram-se os tons e conheceram-se
os autores que desempenham personagens diversos no teatro da vida coti-
diana no tempo da pesquisa.

Desde as primeiras entrevistas, os interlocutores narraram sua história lo-


cal e sua trajetória de vida em diferentes intervalos temporais. Num processo
de ordenamento da memória, reconstituíram o vivido no passado, quando a
mina ainda existia e mais do que um meio de trabalho, era toda uma razão
de existência e de composição de redes de relações. Viver o presente, ao
contrário, foi exteriorizado como uma época marcada pelo fim do trabalho
na mina, significada como “um tempo de crise”.

As evocações do vivido ontem foram enunciadas pelas expressões “no


tempo da Companhia” e “no tempo da mina”. Mesmo as hachuras perce-
bidas nas suas falas não aparecem com força suficiente para quebrar o de-
vaneio deste tempo vivido como contínuo. São, portanto, os tempos sociais
de um passado ritmado pelo trabalho na mina e do nascimento da vila, que

23 . BACHELARD. (1988). Capítulo 5.


24 . BACHELARD. (1988). p. 76.
25 . BACHELARD. (1988). p. 76.

23
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

eles ordenam para encadear o passado em uma relação lógica com o tempo
presente. É “no tempo da Companhia” que é criada a vila capaz de amal-
gamar trajetórias heterodoxas para fundar a população grand-combiana. É
“no tempo da Companhia” que é localizada a origem da comunidade de
trabalho, fundada como uma “grande família corporativa”.

As famílias desta corporação pertencem a um universo cuja dinâmica


é paradoxalmente ligada à morte, à doença, à fatalidade, experimentações
de vulnerabilidade e vitimização que lhes orientam sentimentos cotidianos
expressos em suas interpretações sobre o viver no “tempo da Companhia”.
Os entrevistados insistem na palavra “solidariedade”(26) para falar das quali-
dades dominantes que outrora fundamentavam a vida coletiva. A solidarie-
dade, a cumplicidade, disseram, “unia todos os mineiros”. Previsibilidade e
confiança que os totaliza na condição necessária de cumplicidade, possibi-
litando lógica no esforço de ordenar o mundo social. Experiência fixada na
especificidade da atividade da mina, por condições de trabalho estreitamente
ligadas ao perigo e à insalubridade.

A conjuntura da Segunda Guerra Mundial quebra abruptamente o tem-


po do jugo paternalista que se queria permanente. Os eventos históricos que-
bram a eficácia deste continuum ilusório. Neste momento, os entrevistados
situam os fatos que os forçam a reatualizar as referências de organização do
tempo coletivo. Outras relações de imagens representam as experiências do
tempo vivido. As narrativas acionam “o tempo da nacionalização”. Tempo
de mudanças, mas que assegura a continuidade da comunidade de trabalho
e de um ritmo social dominado pelo tempo industrial (na mina).

O tempo do presente etnográfico é considerado como tributário dos


erros acumulados do passado e de uma conjuntura de crise que se inicia
com o fechamento dos poços. Junto às mudanças econômico-industriais que
despontam neste antigo reino do desenvolvimento do carvão, as rupturas
são profundas: é o fim da atividade tradicional na mina, o fim da profissão
de mineiro e da tradição da comunidade de trabalho, da hereditariedade
do “ser mineiro”. Esvaziada desta substância industrial que havia forjado a
identidade dos habitantes, La Grand-Combe é destituída de seus status de
vila mineira.

No tempo do processo etnográfico compartilhado os grand-combianos


identificam “o tempo da crise”, “o tempo da recessão”, o tempo depois do
fechamento das minas. Esta mudança é interpretada como um corte desme-
dido da continuidade da comunidade de trabalho e que porta um impacto a
previsibilidade idealizada de transmissão de um savoir-faire: é todo um con-
junto de tradições próprias que desaparece nos “tempos letárgicos”.

O tempo de pesquisa é de convívio com homens e mulheres que en-

26 . A solidariedade faz apelo antes à luta do que ao sentimento. Cf. DUVIGNAUD. (1986). p. 10.

24
Cornelia Eckert

frentam, não raro, o embaraço de suas próprias diferenças e pluralidades,


os velhos habitantes exprimem a ruptura do tempo coletivo da comuni-
dade de solidariedade e falam da dificuldade de colar, em bases reais, os
valores de referências da identidade ocupacional. É esta antiga facilidade
de construir a unidade em torno de uma referência englobante que não é
mais possível: a sensação é de “desordem” de sentidos do valor-trabalho e
o estranhamento ao desafio de retrabalhar por uma duração. A tendência
à forte privacidade, aliás, vem de uma opção por proteção de um mundo
também multifacetado.

Estes ritmos vividos pensados (“rythmanálise”27), são múltiplos, entre-


cortados por outros tempos plurais, mas passíveis de um ordenamento tem-
poral ancorado no “mundo da mina” como constitutivo de uma comunida-
de de identidade fundada sobre o valor-trabalho. O passado, então, não é
necessariamente antagônico ao presente. “Nosso passado inteiro também
vela atrás de nosso presente”(28), os tempos vividos são pensados como su-
perpostos como um movimento dialético de continuidades e descontinuida-
des da duração social em sua dialética. Assim, para compreender o presente
do grupo estudado, é preciso conceber o tempo social como uma série de
rupturas, evitando perceber sua história num eixo temporal contínuo e uni-
forme. Esta posição motiva a trabalhar com a memória coletiva e social(29), já
que a memória não obedece a uma ordem cronológica, corresponde antes as
maneiras de ativar uma ordem com significado dos traços mnésicos nos seus
esforços de acomodar o jogo de lembrar e esquecer. Narrar as suas memórias
no tempo do evento etnográfico é aceitar o desafio de se constituir como
personagem das interpretações com movimentos ondulares, transmitindo
suas inteligibilidades narrativas e compartilhando as imagens que os habi-
tam. Pressupõe-se que nas narrativas construídas pela motivação da troca
na prática etnográfica, os entrevistados evocam as imagens que exprimem
o cortejo da cultura operária em movimento, deformando a percepção de
uma ordem rígida de identificação de terem sido simples figurantes de uma
história oficial. Uma mobilidade de imagens narradas agora por personagens
de vidas em transformação em que são fornecidos as “ações imaginantes
como potências dinâmicas”(30) compartilhando de forma consentida com a
pesquisadora, os seus esforços de imaginarem a duração.

Fica claro porque é a população mais idosa, os aposentados da mina,


que compõe o grupo numericamente privilegiado em minhas entrevistas.
Nas suas narrativas bricolam os rastros de tempos passados, reordenando e

27 . “... A ritmanálise procura em toda parte ocasiões para ritmos. ... Ela nos previne assim sobre
o perigo que há em viver no contratempo, desconhecendo a necessidade fundamental das
dialéticas temporais”. In: BACHELARD (1988). p. 133.
28 . BACHELARD (1988). p. 11.
29 . Sobre memória coletiva e social recorrer a: a) HALBWACHS (1968); NAMER (1987); JEUDY
(1986); BACHELARD (1988); BOSI (1987) (etc, cf. bibliografia).
30 . Sobre imaginação e mobilidade e sobre ação imaginante, seguimos BACHELARD (1962);
DURAND (1986). Citamos BACHELARD (1962). p. 1 e 2.

25
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

reatualizando nos tempos presentes as referências identitárias. Viver hoje é


igualmente guardar uma ligação ao passado, emprestando sentido aos valo-
res e às práticas coletivas e individuais no presente.

O fechamento das minas de extração é indicado como ponto de inflexão


do processo que degradou a situação de emprego e colocou em causa o sis-
tema de disposição de valores em torno do qual esta comunidade construiu
toda uma existência. O fechamento dos poços e o fim do trabalho de subsolo
provocaram um tempo de recessão vivido como caótico pela força com que
instalou um tempo inativo. Mesmo que estes novos tempos modernos tives-
sem sido desejados, a força da desordem em todo um modo de vida colocou
em xeque os referenciais que indicavam a existência de um grupo de perten-
cimento. A ruptura deste tempo contínuo ritmado pelo trabalho na mina,
teve uma força dramática. Os grand-combianos reordenam o tempo apesar
da ausência desta referência, como num esforço de garantir pela memória a
continuidade do grupo e de superar o vazio deixado pela ruptura violenta do
tempo coletivo, da história da família corporativa. O grupo social retrabalha
na descontinuidade uma continuidade, uma duração. Esta continuidade é
construída, é pensada, é projetada.

Este estudo busca decodificar estes tempos e estes espaços em que en-
gendram uma continuidade. É na cadência das relações cotidianas de socia-
bilidade que localizo a construção de um tempo coletivo. Esta é a descrição
que trago, a etnografia desta duração construída, pensada e projetada.

26
CAPÍTULO
1

“NO TEMPO DA COMPANHIA”


A) O nascimento de uma vila mineira
Iniciando uma narrativa sobre o tempo em que trabalhava na mina, um
velho mineiro explica que para se fazer uma imagem do que era seu universo
de trabalho, deve-se compreender o lema do brasão da cidade, “Mains Ne-
gros, Pan Blanc”(31) : “... no fundo da mina, nós estávamos sempre cobertos
do negro pó do carvão e comíamos pão branco”, explica M. Leclerc, no alto
de seus 80 anos.

O brasão da cidade ilustra os utensílios tradicionais e o ambiente do


labor mineiro. Como marcador emblemático, lembra o modo de trabalho
deste grupo outrora, a relação do homem com o meio ambiente, e eterniza
um meio social singular, um grupo identificado com uma história coletiva
pelo pertencimento a uma vila mineira, criada e desenvolvida na epopéia de
um capitalismo crescente no século passado. Uma época marcada por lutas
pelo domínio e pelos direitos à prospecção mineira.(32)

Entre 1835 e 1852 deu-se verdadeiramente o nascimento do capitalismo

31 . “Mãos Negras, Pão Branco”, en occitan.


32 . Em 1810 foi editado o direito à propriedade sobre as minas (época de Napoleão I°),
processo que conduz à formação de uma sociedade que visava à exploração do carvão e
desenvolvimento das forças produtivas.É neste contexto que um grupo composto por diversas
concessionárias forma a Sociedade Civil das Hulherias de La Grand’Combe em 1818, onde
diferentes diretorias se sucedem desenvolvendo sobretudo o sistema de transporte, com a
construção de estradas de ferro que ligam a região a outros centros econômicos do país e
portos escoadores.

27
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

no setor mineiro, quando a sociedade econômica sob uma nova razão social -
Companhia de Minas de La Grand-Combe - se estabelece como guardiã eco-
nômica deste “país”. “A Companhia”, como ainda hoje a chamam os grand-
-combianos, coordenou uma vasta área de extração e enfrentou de imediato,
problemas infra-estruturais de base. Os capitais regionais eram ainda pouco
numerosos nesta região de forte tradição agrícola, enquanto que a ambição
era vê-la transformar-se numa prometida zona industrial. Nestas condições a
sociedade abriu-se ao capital “estrangeiro” (Banco Rothschild), modernizou
o sistema de extração e solidificou a expansão dos sistemas de transporte
ligando esta comunidade mineira a Paris, a Lyon e ao Mediterrâneo.

As vésperas da criação da vila de La Grand-Combe, reuniam-se nas cir-


cunvizinhanças cerca de 4.000 habitantes, contando, de imediato, com uma
mão-de-obra local, composta na sua maioria por camponeses dos arredores.
Habituada a um modo de vida inteiramente voltado ao trabalho agrícola,
esta população apresentou um comportamento migratório e sazonal. Era ne-
cessário recrutar e formar uma população operária mais estável e mais quali-
ficada, medida indispensável para ganhar o mercado. A Companhia orientou
então suas estragégias para o crescimento da mão-de-obra e a organização
de um complexo urbano. Por esta razão, antes mesmo de ver aprovados
os processos destinados a negociar a criação de um novo território munici-
pal, ela desenvolveu uma política de habitação e ensino. No mesmo espírito,
criou instituições sociais como a caixa de seguros, de aposentadoria e de
poupança para seus trabalhadores, no que é uma das precursoras na época.

Em verdade, raramente pode-se fazer tal economia de palavras e de


datas para falar do nascimento de uma vila. La Grand-Combe nasceu da
vontade de uma Companhia de Minas que aspirava desenvolver a indústria
do carvão e dinamizar uma aglomeração urbana em torno desta unidade
extrativa, a submetendo a um enquadramento paternalista. A Companhia
cercou-se de uma vila colocada a seu serviço, uma vila política nos termos
de François Ewald(33). Foi esta Companhia que estabeleceu o plano diretor
de urbanização e construiu a infra-estrutura necessária (escolas, hospital,
centros administrativos, igreja etc) nesta vila que já nasceu com um compro-
misso, “um casamento de razão, ela teve que esposar um grande Senhor da
Terra: o carvão”.(34)

Batizada com o mesmo nome da Companhia, La Grand-Combe foi fun-


dada como vila por uma lei promulgada em junho de 1846, estendendo-se
sobre uma superfície de 6.000 hectares, no Gard. La Grand-Combe tornou-
-se o centro de diversos vilarejos periféricos dispersos.

Desde sua criação, a vila e a Companhia conheceram uma dinâmica

33 . Vila e usina são organizadas segundo os princípios de uma mesma economia, sob a direção
de um “patrão” como “sociedade”. EWALD. (1986).
34 . LIVET. (1956). p. 23.

28
Cornelia Eckert

recíproca. A vila viveu à sombra da Companhia: a demografia positiva ou ne-


gativa exprimia as necessidades de mão-de-obra por parte da empresa e suas
estratégias de recrutamento; a urbanização foi condicionada pelo interesse e
necessidades estruturais desta mono-indústria, o poder local era exercido por
representantes da Companhia que garantiam, assim, o interesse patronal e o
domínio sobre a área urbana.

A Companhia inscreveu sobre o urbano sua estratégia industrial e crista-


lizou a imagem de “vila-operária” no espaço público e doméstico.

B) Enraizar os desenraizados
O problema crucial para a Companhia desenvolver seu empreendimento
de forma intensa era a falta de mão-de-obra. De maneira a reunir esta popu-
lação de trabalho, praticou um recrutamento endógeno e exógeno, fazendo
apelo a grupos de diferentes origens regionais e nacionais, mostrando clara
preferência pelas regiões vizinhas predominantemente católicas e rurais (Lo-
zère e Ardèche).

Entretanto, o absenteísmo sistemático dos mineiros-camponeses, que


costumavam voltar às suas terras em épocas de colheita, e sua lenta adapta-
ção à extração em galerias profundas eram entraves aos interesses da Com-
panhia, sobretudo frente a uma demanda de carvão superior à capacidade de
produção. A Companhia passou a visar, então, uma mão-de-obra mais qua-
lificada, sedentária e urbanizada. Para isto, recrutou mineiros estrangeiros,
vindos da Itália e da Bélgica, e profissionais de outras províncias francesas.

Mas, de fato o que sustentou estes movimentos migratórios? O que le-


vou estas pessoas a deixarem seus países, regiões e atividades de origem? O
que as ativou a ponto de aceitarem esta mobilidade, um novo modo de vida,
uma nova mentalidade? Por que aceitaram compor uma mão-de-obra que
respondia aos apelos de uma profissão tão dura?

A resposta é complexa, mas pode-se considerar como indícios os meios


dinamizados pela Companhia para estimular o enraizamento em La Grand-
-Combe: o desenvolvimento de uma comunidade corporativa, a criação
de uma vila baseada em um poder paternalista e uma atitude assistencial
assegurada pelo patronato (representado localmente pela figura do dire-
tor de minas), desenvolvendo uma “estratégia de poder” (para parafrasear
Foucault(35)), posto que o poder aqui “não é apenas repressão e proibição,
mas também incitação ao discurso e produção de saber”(36).

A estratégia política e a iniciativa industrial apoiavam-se em primeiro

35 . FOUCAULT. (1975).
36 . Cf. Foucault, in: ECO. (1985).

29
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

lugar na construção de uma vila operária, e isto significava atribuição de


alojamento. O dueto trabalho-teto é, sem dúvida, um instrumento de se-
dução eficaz para explicar o efeito criado no imaginário destes camponeses
confrontados com as dificuldades do trabalho agrícola (epidemias, crises) ou
destes operários confrontados com as duras condições de sobrevivência im-
postas pelo desenvolvimento industrial nos seus inícios. São conhecidos os
constrangimentos sofridos por esta população operária no século XIX: fra-
gilidade de ganhos, irregularidade de trabalho, promiscuidade, ausência de
higiene, fome, má nutrição, enorme mortalidade infantil etc.

Mas isto não é suficiente para fixar os trabalhadores: é necessário adap-


tá-los a um novo modo de vida, estimulando a adequação a um habitus(37),
a uma sociabilidade operária. Esta política publicitária baseada em vantagens
correspondia mais a uma tática de estabilização, de enraizamento, que a
uma estratégia de imobilização dos operários. No conjunto da vida local de
La Grand-Combe, “a Companhia” queria que o trabalho fosse o elemento
dominante na cultura operária da “grande família corporativa”.

Para tanto, a Companhia desenvolveu uma política de “ordem moral”(38),


que considerava o sistema de organização produtiva e social em harmonia
com as relações sociais dominantes na vila. A questão era a construção de
um cotidiano equilibrado fundado sobre a vida em família, instituição social
considerada como base de estabilização dos trabalhadores e da coletividade.

Nos argumentos publicitários divulgados, a Companhia exaltava a famí-


lia voltada ao lar, como instituição moral sustentada e garantida por ela no
que diz respeito à segurança material e à assistência espiritual, moral e física.
Apoiava-se nas redes familiares e nos grupos de parentesco para compor e
recompor a mão-de-obra, o que motivou uma organização social local forte-
mente estruturada em torno da família.

Aceitando esta relação, o mineiro de fato assinava um contrato que o


inseria numa relação desigual de “dom e contra-dom”, pela qual a Com-
panhia oferecia as vantagens de segurança material e moral em troca do
engajamento dos trabalhadores e da aceitação de uma vida regulada por
deveres que definiam o desempenho específico do mineiro como membro
da “grande família corporativa”. Esta estratégia de normalização da Compa-
nhia explica que os espaços de residência da vila tivessem cristalizado uma
forma de organização familiar e um modelo de rede social fundado sobre as
37 . “Un système de dispositions durables et transposables qui, intégrant toutes les expériences
passées, fonctionne à chaque moment comme une matrice de perceptions, d’appréciations et
d’actions”. BOURDIEU. (1972). p. 178.
38 . “(...) ce qui nous préoccupe surtout, c’est l’amélioration du sort de l’ouvrier pour tout ce qui
dépend de nous. C’est en effet en rendant attrayant pour lui la colonie de La Grand-Combe,
c’est en lui assurant la vie à bon marché, l’éducation et l’emploi de ses enfants, l’assistance
morale et matérielle, une administration équitable et paternelle que nous parviendrons à
attirer et à conserver les bons ouvriers, c’est-à-dire les ouvriers laborieux, rangés, pères de
famille”. In: Rapport des gérants sur l’exercice 1846. Assemblée Générale du 28 mars 1847.

30
Cornelia Eckert

relações de trabalho.

O patronato da Companhia de Minas de La Grand-Combe orquestrava


a organização da vida cotidiana, estruturando não somente o espaço e o
tempo familiar, mas também as formas de reprodução da família operária.
Face à necessidade de aumentar a mão-de-obra, é sobre os próprios recursos
humanos locais que a Companhia queria contar. “Um crescimento natural
da população operária por ela mesma”(39), argumenta a administração, a fim
de evitar os problemas de recrutamento futuro. Seu objetivo era estimular
a auto-reprodução da força-de-trabalho local empreendendo um plano de
hereditariedade profissional, assegurando a reprodução endógena da popu-
lação. A família nuclearizada (pai, mãe, filhos) foi idealizada, e as alocações
encorajaram materialmente o desenvolvimento de famílias numerosas: “um
método eficaz para aumentar a taxa de natalidade”, referem as atas de as-
sembléia patronal(40).

A Companhia homogeneizou esta mão-de-obra pela unidade das con-


dições de vida, que conferia um sistema de práticas interiorizadas pela co-
munidade como marcas distintivas reinvestidas de outro nível de significação
totalizante, elemento estruturante de identidade emblemática e contrastiva
(indissociável da formação social), “um princípio de unificação identitária”(41).

Desde sempre, a atribuição de altos salários como forma de atrair tra-


balhadores era recusada pelo Conselho de Administração. Para realizar este
objetivo, a Companhia colocou em funcionamento um conjunto de institui-
ções sociais destinadas a assistir seu pessoal. E, se a lista das ações sociais
era longa, não é o indivíduo que ela visava, mas o mineiro pai de família e
os seus. Este devia “amar seu trabalho, sua casa, sua família”(42); em outros
termos, ser um bom mineiro e um bom pai de família, mantendo relações
cordiais com os seus, com colegas, vizinhos e chefes. Da habitação à compra
de produtos subvencionados, tudo é prometido. Em acréscimo, para evitar a
repulsa ao trabalho na mina e o comportamento sazonal dos mineiros-cam-
poneses, a Companhia oferece vantagens ainda inéditas na época: seguran-
ça em caso de doença e de acidente de trabalho, aposentadoria, assistência
educacional, religiosa e moral.

A Companhia definiu o catolicismo como opção espiritual por excelência


na vida desta comunidade. Ela atribuiu à Igreja o papel de organizador disci-
plinar de primeira linha: velar pela obediência às regras da família corporati-
va. Construiu várias igrejas católicas como “monumentos” a resguardarem
os valores ideais suscetíveis de unir os homens. A cada cerimônia religiosa a

39 . Rapport des gérants sur l’exercice 1846.


40 . Rapport des gérants sur l’exercice 1846.
41 . Cf. BROMBERGER; CENTLIVRES; COLLOMB. “Entre le local et le global: les figures de
l’identité”. In: SEGALEN. (1989). p 139.
42 . Rapport des gérants sur l’exercice 1846.

31
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

disposição hierárquica da ocupação espacial e o tom dos sermões confirma-


vam o poder dominante no mundo da mina.

Também o papel desempenhado pelo padre local foi fundamental nas


funções de controle social. O clero tinha seu campo de ação não apenas res-
trito ao universo religioso, na assistência às almas, mas ampliado ao domínio
educativo. A ação pedagógica da Igreja, efetuada pelo controle do ensino
nas escolas privadas criadas pela Companhia, foi o de incitar a população a
seguir o comportamento social idealizado por ela.

É claro que a Companhia não podia negar a assistência aos trabalha-


dores protestantes em uma região onde esta confissão era dominante. Um
templo foi construído e escolas protestantes igualmente estabelecidas. Da
mesma forma que o padre local e assistentes, o pastor e professores eram
assalariados da Companhia.

No que tange a vida política local, esta se confundia com a administra-


ção da Companhia. Era ela que confirmava o poder municipal e dominava
o poder executivo e legislativo da vila. Os diretores da Companhia ou os
engenheiros chefes ocuparam por quase um século os cargos de prefeito
ou conselheiro geral do município. Poder garantido graças a uma influência
coercitiva sobre o eleitorado: licenciamento imediato do trabalho em caso de
oposição ao poder dominante.

Não é, pois, somente na esfera do trabalho que a Companhia desenvolvia


sua ação hegemônica. Ela comandava os diferentes domínios da vida cotidia-
na, a vida familiar e todas as instituições sociais interligadas: a igreja, a escola,
práticas de esporte (futebol, ginástica etc.), e outras formas de lazer (orques-
tra, festas, bailes, etc.), estímulo à prática da jardinagem e cultivo de hortigran-
jeiros, alimentação (armazéns, cooperativas, controle de preços), assistência
(fornecimento de carvão, previdência social, aposentadoria, poupança, saúde,
etc), força policial e outros serviços de “forças de controle da ordem”.

Antes mesmo de a classe operária organizar-se frente suas necessidades


e reivindicações, a Companhia colocou-se como fornecedora de condições
morais, materiais e de assistência, buscando por estes meios convencer das
vantagens de uma vida comunitária favorecida por um sentimento de prote-
ção. Para os mineiros, recém-chegados ou não, que buscavam lutar contra
a insegurança e a precariedade dos meios de sobrevivência, este leque de
tutela detém o fio condutor permitindo compreender as razões de um enrai-
zamento e engajamento ao sistema protecionista.

32
Cornelia Eckert

1.1. A Organização Espacial da Vila Minei-


ra e o Contexto Familiar no “Tempo da
Companhia”
A) A constituição do tecido urbano

Dar conta do papel patronal no processo de construção do espaço urba-


no é enfocar também a dinâmica das relações sociais na vila. La Grand-Com-
be nasceu de um projeto urbano traçado pela Companhia. O plano urbano
foi condicionado pelos interesses e necessidades estruturais da mono-indús-
tria que estabeleceu uma relação lógica entre os espaços de trabalho, público
e doméstico, e foi sobre esta base que a Companhia fundou estes espaços.

A Companhia presidiu todo o processo de ocupação territorial e constru-


ção urbana, ocupando-se igualmente de todos os serviços públicos e infra-
-estruturais. Os bens imobiliários da Companhia eram importantes: edifícios
industriais e administrativos, edifícios públicos, alojamento para os operários,
casas para os empregados, engenheiros, médicos, professores, padres etc,
tudo é construído rapidamente, não sem definir a posição social precisa de
cada um nesta vila recém-criada, imprimindo a cada centímetro a ordem
hierárquica e a dinâmica do status dos diferentes grupos sociais.

Na sua operação imobiliária iniciada em 1837, a Companhia desempe-


nhou o papel de uma das precursoras na França. A lógica espacial definiu-se,
no início, por uma distribuição irregular dos bairros operários em torno dos
poços de extração, visando aproximar as residências aos locais de trabalho:
desde a fundação do município, o espaço urbano desenvolveu-se colado aos
objetivos de rentabilizar a matéria em destaque: o carvão. Não se encontrou
neste caso a imagem clássica da vila-industrial concentrada em torno de uma
usina. Antes, o tecido urbano foi desenvolvido seguindo os múltiplos pontos
de extração dispersos sobre todo o território, o que forçou uma expansão
extramuros. A vila tornou-se centro de atividades urbanas e ponto de con-
vergência dos diversos bairros operários construídos próximos aos espaços
de trabalho.

Uma vez que o centro da vila é cercado pelo leste por um grande vale
produtivo - o “vale negro” como o denominam os mineiros - e, levando em
conta os limites naturais (ao norte e oeste é cercado por montanhas e ao
sul corre o riacho que o separa da vila vizinha de Salles-du-Gardon) pode-se
compreender o porquê da expansão intensa de moradias ao longo do “vale
negro”, que foi a “alma da vida produtiva”, compondo com a área do centro
o esqueleto do desenvolvimento urbano da vila mineira.

33
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

A vila de La Grand-Combe foi o núcleo de urbanização do “país mi-


neiro”. Centro do território administrativo, comportava na periferia as vilas
satélites de Trescol, Champclauson e La Levade. Estas reproduziam, em pro-
porções menores, os mesmos princípios urbanísticos, como de sempre ligar
o centro aos espaços de trabalhos por ruas principais. Esta disposição criou
territórios diferenciados marcados por uma hierarquia espacial.

O centro era dominado por atividades comerciais e administrativas, to-


mado por imóveis qualitativamente mais favorecidos, revelando o estatuto
de seus moradores (comerciantes, empregados administrativos e públicos).
Já o “vale negro”, tanto a “zona alta” (colina Santa Bárbara) quanto a “zona
baixa” (às margens do centro-vila), era caracterizado pela alta concentração
de famílias mineiras residindo em casernas, em barracos, em casebres espa-
lhados ao longo das estreitas ruas. Nestas, trajeto habitual entre a residência
e o trabalho, vários botecos se sucediam, lugar de alta sociabilidade mascu-
lina. Mulheres e crianças perambulavam pelas ruas no vai-e-vem da procura
de água nas fontes públicas, por exemplo, ou permaneciam frente às caser-
nas, debruçavam-se às janelas, circulavam nos pátios internos onde podiam
pendurar as roupas lavadas, freqüentavam os lavadouros públicos, espaços,
entre outros, que aparecem na memória dos grand-combianos como pon-
tos de intensa sociabilidade feminina e infantil. Todo o ambiente era muito
poluído pois os poços de extração encontravam-se próximos e impregnavam
o ar e as casas com o pó negro e cheiro de fuligem, razões de constante
reclamação das donas de casa.

As casernas eram o tipo de habitação dominante na “vila mineira”, no


entanto, em períodos de alta demanda, a construção de simples barracões
em madeira foi sempre a solução mais imediata para abrigar uma população
trabalhadora excedente.

As casernas eram prédios de um a dois andares. Cada apartamento era


minúsculo, de uma a duas peças. Desprovidas de jardins, a prática da jardi-
nagem só era possível nas hortas cedidas pela Companhia em terrenos íngre-
mes. Em geral, a porta principal e as janelas da cozinha davam diretamente
para a rua e os quartos, de fundos, davam para o “vale negro”. Para chegar
aos andares superiores era preciso atravessar corredores e escadas internas.
Em cada prédio os vigias, “os mouchards pagos pela Companhia”, velavam
pelo cumprimento das regras estritas de comportamento: ordem e moral.

Viver em caserna era sinônimo de morar comprimido, até os porões


eram ocupados por famílias numerosas. M. Landes (artista plástico, f.m.) faz
alusão à estreiteza do seu foyer na infância:

“Nós vivíamos num porão, eu me lembro bem das cores das


paredes era um cinza-amarelo com que eu ainda sonho muito.
Isto explica, um pouco, as cores das minhas pinturas hoje. A

34
Cornelia Eckert

gente vivia com quase nada, éramos 6 filhos na época. Mas a


atmosféra de vizinhança era boa. Tínhamos vizinhos de tudo
que é nação, mas a gente formava uma grande família, todo
mundo se ajudava. A noite íamos com meu pai na casa do vi-
zinho, M. Martinez, era uma família espanhola. Na época não
existia racismo, tinha italiano, espanhol, francês, os gavots ce-
venóis... A gente vivia todos muito apertado mas tinha seu lado
divertido, meu pai jogava cartas e cantava com a vizinhança. É,
tinha um ambiente que a gente não vê mais hoje”.

Num longo discurso aqui citado parcialmente, ele enaltece a mistura


étnica do bairro e as lembranças ligadas à solidariedade de vizinhança no
passado, afirmando constantemente ser esta a qualidade maior das relações
cotidianas das famílias no “tempo da Companhia”: as relações de solidarie-
dade parental e de vizinhança tomavam um lugar importante na vida destas
famílias operárias.

No centro, as residências dos funcionários e empregados qualificados


dispunham de pequenos jardins e também de WCs por andar. No alto do
“vale negro” e não muito distante dos grupos de casernas, as vilas dos en-
genheiros e quadros dirigentes “eram luxuosas, com grandes jardins” e mar-
cavam, por sua ostentação, uma gritante diferença da ocupação espacial.

B) A construção da “família corporativa”


Nesta vila a Companhia visou construir uma comunidade de trabalho como
uma “grande família corporativa”, onde devia dominar uma ideologia de con-
cordância entre os diferentes grupos que a formavam. Queria difundir a imagem
de uma empresa comparável a uma família que vivia em harmonia, mascarando
os antagonismos fundamentais das relações capitalistas. Assim, no “tempo da
Companhia” a maioria da população trabalhava para ela. Ser mineiro de pai
para filho era o itinerário possível após um curto período de formação escolar.
“A gente não tinha escolha”, explica M. Loth (m.a.), esta é uma condição que
traduz a ordem social a partir da qual os projetos familiares eram construídos e
é “neste sentido que se pode falar de uma certo ascetismo, expressão de um
destino aceito durante várias gerações como o único possível”(43).

“Ah, todo mundo aqui é filho de mineiro. Era raro alguém que
partisse para fazer outra coisa” (Mme. Régis, v.m).

Isto não significava necessariamente vocação ou afinidade com a profis-


são, uma vez que eram constatadas recusa e deserção do trabalho na mina.
Entretanto, é certo que o trabalho na mina tornou-se o centro de gravidade
dos projetos familiares.

43 . SCHWARTZ. (1990). p 68.

35
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

Pelo biais de uma dominação simbólica e como um valor constitutivo


de uma identidade (o valor-trabalho), estas categorias de percepção foram
internalizadas(44) pelas famílias operárias na representação de si próprias
como grupo de pertencimento, marcando suas relações diferenciais com a
sociedade maior. As desigualdades criadas pela divisão social do trabalho na
mina e na comunidade ocupacional foram envelopadas por este “espírito”
que devia reinar nas relações sociais: o de uma “grande família corporativa”.

O domínio da Companhia sobre o conjunto dos níveis da vida social e


a hegemonia patronal sobre a vida local desenharam um universo profis-
sional fechado. Esta base foi sustentada por uma composição social pouco
complexa, conseqüência de uma estrutura profissional concentrada de modo
monolítico no setor carbonífero. Mais ainda, à medida que a estrutura social
era pouco ou nada flexível, os operários se defrontavam logo com os limites
de uma “falsa proximidade” sugerida pela assembléia desta “família corpo-
rativa”, onde estava implícito o lugar de cada um.

O historiador francês Philippe Ariès compreende a estrutura social nos


“países negros do carvão” dividida em quatro castas, a nobreza ou burguesia
dominada pelos engenheiros, o funcionário de escritório, os mineiros-chefes
ou empregados de serviços qualificados e uma massa de mineiros.(45) Esta
tendência de “civilizações mineiras” no século XIX dominava também em La
Grand-Combe, dotada de uma organização profissional pouco diversificada,
de par com a hierarquia paternalista.

Neste processo, que reforçava as ligações do grupo, o coletivo operário


era assimilado pelo modelo social do trabalhador mineiro, caracterizado por
sua atividade bem particular no subsolo da mina, o símbolo emblemático
para toda comunidade local. O mineiro era o personagem mais presente no
cotidiano grand-combiano. Ele é descrito como sendo aquele que, antes mes-
mo do sol nascer, partia em direção aos poços com seu cabas (mochila) onde
carregava pão e água. No cair da noite ele percorria as ruas coberto do pó de
carvão, cansado, trazendo nos bolsos alguns pedaços de carvão para aquecer
sua casa. Alguns paravam nos botecos onde “cada cliente fiel tinha sua pró-
pria garrafa de pastis, com seu nome no rótulo”. Outros retornavam para a
caserna, enquanto que mineiros apressados seguiam para o turno da noite.

É claro que cabe relativizações por trás desta aparente “comunidade de


iguais”. A inserção na estrutura das relações de trabalho testemunhava uma
diversidade de práticas muitas vezes invisíveis na vida pública. De múltipla na-
tureza estas atividades podiam corresponder a diferentes ciclos da vida ativa
dos mineiros. “A carreira”, dizem, iniciava como mineiro aprendiz (gamins
ou galibots), sucessivamente exercia-se tarefas na superfície e no subsolo,
e “alguns poucos poderiam tornar-se chefes”. Contava-se também com o

44 . Ação de inculcação ou efeito de inculcação. Cf. BOURDIEU. (1979). pp. 22 e 124.


45 . ARIES. (1971).

36
Cornelia Eckert

trabalho feminino (as placières) e infantil na triagem do carvão na superfície,


o que contabilizava a idade e o sexo como determinações de distinção na
organização do trabalho.

Os mineiros entrevistados relatam com nitidez as duras condições de tra-


balho, as diferentes práticas, as dificuldades, os riscos de acidentes e doen-
ças, as responsabilidades e competências. Sem poder estender estes aspec-
tos, importa reter que a atividade mais globalizante é a do trabalho mineiro
na extração do carvão no fundo da mina. A periculosidade enfrentada no
desempenho de uma profissão de alto risco qualificava-a e diferenciava-a das
outras atividades setoriais e ambientais.

A fim de entender o contexto no qual a socialização das crianças ganhou


toda sua significação em La Grand-Combe é preciso entender o domínio
desempenhado pela Companhia no processo educativo. Esta queria que “as
crianças dos mineiros apreendessem como natural e quase obrigatório o fato
de virem a tornar-se mineiros como seus pais, respeitadores da ordem e da
disciplina impostas pela empresa”(46). A formação escolar era o eixo principal
do programa de engajamento das novas gerações às regras da Companhia
e de fidelidade aos seus princípios morais. Vetor da ideologia dominante,
pela escola, a Companhia queria para além do ensinamento, difundir sua
hegemonia e convencer desta futura condição proletária. Na memória dos
velhos mineiros, estão presentes a rigidez disciplinar na escola, os castigos, a
mentalidade dos professores [religiosos(as) católicos(as)]. Em fórmulas como
esta, “vocês não precisam de muita inteligência porque vocês vão fazer o
que os pais de vocês fazem, vocês vão todos para mina” (M. Voldan, m.a.),
aparecem claramente os objetivos pedagógicos de compor os novos rangs da
população trabalhadora. A visão de mundo a interiorizar era a de que fazer
carreira na Companhia era o único horizonte profissional possível e, neste
contexto, não é difícil entender por que a aspiração de M. Voldan de seguir
um destino já traçado, continuar a prática do pai:

“Eu fiquei muito contente quanto pude me livrar da escola. Eu


tinha 14 anos quando fui empregado na mina. Ah, eu tava bem
contente de não precisar mais ir na escola... Meu pai sempre
me ameaçava, ‘aquele que não estudar vai para mina’ mas para
mim isto não era uma ameaça, eu queria mesmo sair da escola.
Na verdade eu nunca estudei nada, eu queria mesmo era traba-
lhar como meu pai”.

Os jovens eram admitidos em geral com a idade de 13 a 14 anos, logo


após terem passado o exame da escola primária obrigatório pela Companhia.
Somente para os jovens rapazes esta atividade se estenderia a outros ciclos
da vida, já que as meninas (placières) eram admitidas até seu casamento.
Apenas na condição de viúvas, face às dificuldades impostas por uma magra

46 . GAILLARD. (1974). p. 131.

37
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

previdência, muitas retomavam o trabalho na triagem. Outros trabalhos fe-


mininos eram bastante raros e em geral voltados ao domicílio, como domés-
ticas, lavadeiras, costureiras, bordadeiras.

A carreira era por conseqüência “operária”. Bem que existia certa dose
de “consentimento do destino”, seguir a mesma trajetória de pai para filho
era antes de mais nada visto como o único “mundo do possível”.

O mundo da mina comportava também o pessoal de chefia e empre-


gados dos escritórios. Era uma pequena minoria que assegurava o controle
da produtividade e o trabalho burocrático e que, dados os seus privilégios, é
vista como sendo os de “colarinho branco”.

Entretanto, eram os dirigentes da empresa que formavam o grupo domi-


nante: eles eram engenheiros, geólogos, técnicos qualificados, os lous mous-
sus (“os notáveis”).(47) Era o grupo que dirigia a Companhia e regia a vila,
onde a mais alta autoridade era o diretor geral da mina. Os operários não
ignoravam a existência dos “patrões” que compunham o Conselho Admi-
nistrativo com sede em Paris. Esta, porém, era uma entidade mais abstrata,
e era o diretor local que eles assimilavam como sendo a figura de poder
executivo.

O pertencimento a um mundo distinto era facilmente conhecido pela


postura social privilegiada exibida pelas famílias dos “notáveis”, exigências
da Companhia. Todas estas precauções, que marcavam a distância social,
permitiam ao patronato afirmar sua hegemonia sobre a vida local, o que
não deveria ser assimilado pelas famílias operárias como uma dominação,
mas como um determinismo social e cultural inculcado como “natural” nas
relações sociais e na ordem hierárquica da “família corporativa”.

Outra fonte de distinção forte no seio da população era o pertencimento


religioso e político, definido como mais uma determinação social. Os minei-
ros apreendiam que nos diferentes domínios da vida social o mundo mineiro
era também organizado segundo critérios de conveniência religiosa e dife-
renças políticas. Era sobre um embasamento católico que a Companhia pro-
curava legitimar toda uma série de valores morais impostos aos habitantes,
apropriada para informar um campo de práticas determinado pela ordem
paternalista: ser um “bom católico” correspondia aos códigos de compor-
tamento idealizados pela Companhia: tal “virtude” era acompanhada pela
de ser bom trabalhador e cidadão apolítico. Já o protestantismo era “reco-
nhecido” como profissão religiosa (Edito de Tolerância de Culto, 1787), mas
não encorajado. Ora, o cevenol do Gard era herdeiro de lutas camisards e
de tendência política de esquerda, “radical e socialista”, uma eterna ameaça
aos olhos conservadores da Companhia. A estratégia de preferir uma comu-

47 . Os filhos dos “notáveis” não permaneciam muito tempo nas escolas de La Grand-Combe,
em geral eram internos em escolas francesas de prestígio (Alès, Montpellier, Nîmes ou Paris).

38
Cornelia Eckert

nidade na sua maioria formada de católicos busca assegurar um proletariado


politicamente conservador, e durante todo o século XIX, 80% da população
foi católica. Era esta a população que ela julgava mais fácil enraizar, porque
mais submissa e dócil para conceber os princípios paternalistas da organi-
zação social e econômica. Neste projeto, contava com o padre local como
aliado.

“A diferença aqui era a Igreja. No tempo do meu pai e do meu


marido, eles eram obrigados a ir na missa. Os que não iam na
Igreja não recebiam nada. A Igreja se colocou do lado do mais
forte, do patrão. Eu acho que ela não escolheu bem a sua fatia.
Mas hoje não tem mais nada disso, hoje não tem tanta hipo-
crisia. Naquela época todo mundo tinha que pensar a mesma
coisa, a gente não podia ter suas próprias idéias”. (Mme. Volvic,
v.m).

O pertencimento religioso e político era critério de classificação a mais;


a Companhia sugeria os ideais éticos aos membros da comunidade com dis-
cursos políticos e propaganda clerical a favor de uma “vila paternalista”.

É, sobretudo relacionada aos favores de ascensão funcional e de distri-


buição residencial mais privilegiada, que a memória dos velhos mineiros é ágil
para falar das antigas tensões religiosas existentes, que de fato escondiam a
preocupação da Companhia em regular uma questão antes de mais nada de
pertencimento político. Os protestantes foram em geral instalados nos vilare-
jos periféricos. Discriminados, restavam à margem da nova vila, segregação
reforçada por signos negativos de distinção carregados de propriedades de
exclusão: seus núcleos habitacionais eram estigmatizados como “vilas verme-
lhas”, e seus habitantes como “os vermelhos” ou “os de tendência política”
simplesmente, conforme explica Mme. Delmat, comerciante aposentada. A
Companhia favorecia a existência desta tensão como uma “hostilidade intra-
-comunitária”, segundo define um professor grand-combiano, buscando
com esta forma de crítica moral desprestigiar as preferências políticas protes-
tantes no seio de uma população majoritária católica e conservadora.

Para além de uma aparente harmonia social, as posições, as hierarquias


explícitas e implícitas e os signos diferenciavam uns dos outros. Depois do
grupo social, da função exercida na mina e passando pelo pertencimento
religioso e pela convicção política, o mundo mineiro era repleto de elementos
de distinção, produtos do sistema desigual engendrado pela Companhia e
que revelavam as circunstâncias diversas em que cada um se inseria diferen-
ciadamente no mundo de trabalho e na cidade. As relações interindividu-
ais no interior do grupo, os comportamentos distintos em relação ao todo
embaraçavam as reais distâncias com as outras classes. Nas ondulações do
“tempo da Companhia”, os mineiros demoraram-se a agenciar o potencial
que a unidade operária podia aglutinar para romper com as forças hegemô-
nicas, mas foi neste mesmo tempo que rupturas foram engendradas.

39
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

C) A “grande família”: complexidades e cumplicidades.


Emile Zola, no seu romance Germinal (1885), conta a história de uma
família que durante cinco gerações é ligada ao trabalho da mina. Muito foi
escrito sobre a hereditariedade no universo proletário de mineiros, ora su-
blinhando a linhagem de mineiro de pai para filho como uma tradição, ora
analisando os mecanismos pelos quais as Companhias desenvolveram estra-
tégias fixando a hereditariedade profissional(48).

A medida que famílias se enraizavam, ser proletário mineiro tornava-se


eixo condutor de projetos familiares, menos por um ideal de vida ou vocação
natural, que por coação e força, pela herança das condições determinadas de
existência. Face às incertezas da vida, optava-se por um trabalho perigoso e
arriscado, onde a fatalidade se transformava em empreendimento doloroso,
e as “incertezas” eram subjugadas à “consciência de riscos de morte”(49).

Os grupos domésticos(50) grand-combianos se definiam. A estrutura familiar


e a organização da residência se conformavam, sob traços específicos, à vila mi-
neira: o pai, provedor do sustento familiar, trabalhava na Companhia; à mäe, ca-
bia o cuidado dos filhos e das atividades domésticas. Estes princípios são bem co-
nhecidos na sociedade contemporânea: construção de unidades domésticas que
reforçam a vida privada, onde os genitores desempenham papéis hierarquizados
e se integram a sociabilidades sexualmente e territorialmente diferenciadas.

Aos trabalhadores solteiros, numericamente importantes, a Companhia


estimulou fundar uma família, explicitando uma série de disposições (sociais,
econômicas, culturais) que permitiriam construir um projeto familiar em re-
ferência à mina e à empresa. Para dizer à maneira de Bourdieu(51), a família
do mineiro veiculava os valores e um estilo de vida convenientes ao tom
pedagógico da Companhia, como um “capital familiar” a transmitir aos des-
cendentes da comunidade de trabalho. A Companhia incitava os casais à
constituição de uma família numerosa:
“... e como não interiorizar um espírito reprodutivo e desejar
uma família numerosa se a Companhia, no seu objetivo de
auto-reprodução de sua mão-de-obra inicial, oferece prêmios e
alocações aos lares com mais de 3 crianças?”(52).
48 . Neste caso, os autores tanto analisam a intenção de criar um estoque de trabalhadores por
hereditariedade (villes-stocks), uma vila-reservatório, a fim de imobilizar as classes perigosas
assegurando a auto-reprodução em larga escala da mão-de-obra, como demonstram que este
processo comporta resistências, recusas e mesmo repugnância ao trabalho penoso da mina.
49 . Segundo Goffman, corre-se o risco da fatalidade física - a morte - pela compensação ou
condição de ter um trabalho, uma precaução ou prudência material tomada para evitar a
impossível sobrevivência cotidiana: a miséria, a fome, etc. In: GOFFMAN. (1974). p 141.
50 . Conjunto de pessoas que dividem o mesmo espaço de vida: a noção de coabitação, de
residência comum, é aqui essencial. Cf. SEGALEN. (1981). p. 33.
51 . BOURDIEU. (1972 e 1979).
52 . GAILLARD. (1974).

40
Cornelia Eckert

De fato, manifestavam-se uma homogamia profissional(53) e uma here-


ditariedade ocupacional delineando as gerações de mineiros “do tempo da
Companhia”.

Muitos dos camponeses reciclados como mineiros, tradicionalmente or-


ganizados em família extensa(54), conheceram a passagem para uma vida
familiar mais nuclear(55), o que não impedia o reeencontro ou a formação de
famílias nucleares pertencentes a um mesmo grupo de parentesco na mes-
ma aglomeração de residências (casernas), compartilhando a mesma rede
de vizinhança. Neste sentido, cabe talvez pensar-se em “famílias estreitas”
baseadas em um sistema bilateral de parentesco e em uma aliança matri-
monial, isto por que a predominância do núcleo conjugal simples, sem ou
com descendentes, não invalidava a presença das relações de parentesco,
de vizinhança e amizade que se desenvolviam no seio da comunidade de
trabalho. Outrossim, importa dar conta das situações de indivíduos vivendo
sós, solteiros ou não, compondo uma estrutura simples de residência, esta-
belecidos em pensionatos ou ainda inseridos em núcleos familiares em troca
de uma pensão. Aliás, se o modelo nuclear dominava como estrutura fami-
liar, as práticas eram marcadas por uma organização de redes extensas onde
predominavam relações de reciprocidade, ajuda e prestação de serviços. Sem
deixar de precisar que a intensa vida coletiva, reforçava vigilâncias recíprocas
de códigos tradicionais de comportamento. Era uma forma de relação impe-
rativa face à situação de proximidade dos lares e à intensa sociabilidade de
vizinhança: um cotidiano repleto de situações onde entravam em jogo tanto
os inter-reconhecimentos, a solidariedade, quanto as relações de fricção e
de conflito.

A Companhia foi bem sucedida no seu programa de estabilização de


mão-de-obra, conforme os dados de taxa de aumento da natalidade. Con-
siderando igualmente a imigração sistemática, a população grand-combiana
cresceu em rápidas proporções (11.341 h. em 1886, 13.358 h. em 1896)
(56). Um exemplo elucida uma das estratégias da Companhia para motivar o

53 Casamentos intergrupos sociais e profissionais. Utiliza-se também o termo “endogamia


profissional”, não como indicativo do seu território de nascença mas de consórcios de casais que
se conheceram em La Grand-Combe e se fixaram neste local. A forte concentração operária foi
a base de um número importante de alianças matrimoniais no interior da rede da comunidade
de trabalho: uma homogamia sócio-profissional marcava as uniões, prova de que a mina
representava o único elemento econômico local dinâmico: o “campo dos possíveis”, para repetir
Bourdieu.
54 . Família extensa: O grupo doméstico é a unidade de produção e, de geração em geração,
os bens de propriedade são transmitidos na sua integridade. Um sistema onde o mais idoso
da família detém a autoridade. Sobre sistema de organização familiar ver: FLANDRIN. (1984);
LEVI-STRAUSS. (1967); SEGALEN. (1981); YOUNG e WILLMOTT. (1983).
55 . Família nuclear: residência neolocal, sistema bilateral baseado no casamento, valores
orientados para a racionalidade. Papéis sexuais e geracionais fortement diferenciados.
MICHEL. (1972). pp. 82 à 90.
56 . Com o passar dos anos a imigração diminui e o celibato masculino decresce embora a
população não cesse de aumentar, os casamentos locais e o número de pessoas de 3° idade
aumentam, prova de que o período pioneiro de povoamento chega à seu termo, signo de

41
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

casal a procriar: ter filhos significava concessão imediata de uma residência


independente.

“Era a Companhia que alojava todo mundo. Mas tinha períodos


penosos para conseguir alojamento porque era muita gente pedin-
do ao mesmo tempo. Eu e minha mulher tivemos que ficar um ano
e meio na casa dos meus sogros quando casamos, mas aí nasceu
o Jeremy e conseguímos uma casa para nós”. (M. Jonnel, m.a.).

Fundar uma família numerosa, sugere Goffman, pode ser visto como um
meio de “tomar precauções” para compensar os “riscos de morte”, isto é, como
uma questão de segurança que concorre para arranjar uma existência tranqüila(57).

A Companhia de Minas de La Grand-Combe prevaleceu-se de uma re-


ceita tradicional para resolver o problema da penúria de mão-de-obra: fixar
e reproduzir largamente a população mineira. Na base desta política estava
a estrutura familiar de modelo nuclear, onde o mineiro era “mestre na sua
casa”, diz o provérbio popular. Esta família deveria ser prolífera, o que supu-
nha uma mentalidade legitimada pela tradição cristä. A procriação não era
do tipo “malthusiano”, porque a Companhia motivava ainda a fecundidade;
era fundamental como reprodução da mão-de-obra não para a família, mas
para a Companhia. A família devia ser numerosa, mas era a Companhia
que tinha a responsabilidade de “educar” as crianças e “assegurar-lhes um
trabalho na mina”.(58)

As relações sociais que deveriam predominar no espaço familiar toma-


vam formas intimamente ligadas ao sistema hierárquico inscrito numa polí-
tica de enquadramento paternalista. A hierarquia da Companhia deveria ser
reconhecida como a de uma “grande família”, onde o patronato era o pater
com autoridade(59), assim como o mineiro era a autoridade máxima na sua
casa. Tal idéia está na origem do ditado que eles repetem com freqüência
“mulher de mineiro, mulher de senhor”, que tanto invoca o papel que a mu-
lher desempenha na moral familiar quanto faz alusão à “estabilidade familiar
assegurada pela tutela paternalista”. “Mas nossa vida não tinha nada de cor-
-de-rosa”, lembra Mme Enjol, que vê no ditado uma fórmula de persuasão
da Companhia que queria “nos convencer que ser mulher de mineiro era um
privilégio”.

maturidade da vila.
57 . GOFFMAN. (1974). p. 143 e 144.
58 . Isto não quer dizer ausência de estratégias matrimoniais. As prescrições sociais eram
ancoradas em valores e princípios morais antigos (família extensa) e novos (família nuclear), e
isto tanto no processo de “escolha” das alianças por afinidade, como no que diz respeito aos
direitos e deveres em relação à família base (ego), embora na sociedade paternalista onde o
tipo nuclear é “oficial”, não exista o problema do patrimônio familiar. Os bens não eram mais
transmitidos de pai para o filho mais velho, segundo o princípio de primogenitura próprio das
famílias extensas de origem cevenol.
59 . SENNET. (1981). pp. 94 et 107.

42
Cornelia Eckert

Se muito é dito sobre a passividade dos mineiros grand-combianos no


“tempo da Companhia” (seu pessoal tem mesmo a reputação nacional de
dóceis e resignados), deve ser dimensionada no âmago da vida cotidiana, a
luta coletiva, as contestações invisíveis ou não da comunidade de trabalho
que se opunham à corrente tutelar da Companhia. Nos anos que fecharam o
século XIX, surgiram as primeiras tentativas de organização sindical e de gre-
ves. Isto significava que os mineiros experimentavam sua entrada definitiva
no mundo operário organizado. A luta sindical passou a fazer parte da vida
cotidiana desta comunidade.

Estes instantes de movimentos contra-hegemônicos foram insuficientes


para romper com a continuidade deste tempo cimentado sobre um bastião
paternalista, mas a resignação dos trabalhadores nunca foi total. Uma corpo-
ração mineira cada vez mais articulada e politizada fornecia novas referências
à construção da identidade coletiva: a contestação contra a toda poderosa
Companhia.

Na época em questão, as forças patronais conseguiram sempre reprimir


estas ações, e as conseqüências foram drásticas para as famílias, que sofre-
ram a expulsão do chefe de família militante ou manifestante. Isto implicava,
por extensão, o despejo da casa concedida e a perda dos serviços de previ-
dência. Era o infortúnio que se abatia sobre estas famílias, obrigadas a partir
para outras regiões.

Mais sutil, mas não menos importante instrumento de contestação


era a apropriação, por parte dos mineiros, da língua nativa cevenol. Com
freqüência os informantes repetem sobre certa autonomia na organiza-
ção do trabalho no fundo da mina e vêem aí o espaço que permitiu o
desenvolvimento de um espírito de companheirismo, onde “apreende-se
a profissão e conhece-se o que é a mina”. Formas de cumplicidade foram
desenvolvidas neste trabalho de alto risco, explicam eles, valores passados
como próprios do savoir e faire da profissão. Acima da heterogeneidade
étnica e cultural que marcava La Grand-Combe, o occitan era apropriado
como patois minier (dialéto dos mineiros) ou patois grand-combien. Dia-
leto este evocado como ato de classificação e de diferenciação dos que
pertenciam e dos que não pertenciam à comunidade de identidade, o
“mundo dos mineiros”, como explica M. Dugrand, 35 anos de trabalho
no subsolo:

“Na mina, entre a gente, só se falava o patois... quem não era


mineiro não tinha como entender, parecia chinês... “.

Signo de enraizamento espacial e de pertencimento ao grupo, o dialeto


permitia aos mineiros reconectar códigos e valores que remetiam a espa-
cialidades e temporalidades que antecediam o tempo da mina. Projeções
culturais e históricas que eles apreendiam fragmentadamente pela narrativa
e hábitos dos autóctones. Este código de reconhecimento permitia também

43
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

por uma espécie de “magia social”(60), que eles se sentissem integrados ao


grupo de identidade e ao “país” hospedeiro:

“Na escola era proibido falar o patois, mas na mina, ‘ah oui’. O oc-
citan era a língua dos mineiros, era a língua oficial do mineiro ce-
venol, tinha este traço bem claro que nos unia”. (M. Surrel, m.a.).

Visualizam-se aqui signos de cumplicidade que informam mecanismos


silenciosos de resistência ao consentimento servil. Pelo dialeto, os membros
da comunidade de trabalho ascediam a história, a memória dos cevenois,
herdeiros de uma tradição de lutas. Este processo pode ser apreendido como
movimento à “conscientização da categoria”(61), à medida que a politização
dos mineiros grand-combianos nasceu ligada a uma intensificação da apro-
priação de propriedades culturais dos cevenois.

A vida destas famílias na vila mineira estava longe de ser idílica. Para
80% da população, era o trabalho na mina e a disciplina industrial que ca-
denciavam o cotidiano; assim; a vida da comunidade era, antes de mais nada,
a luta pelo ganha-pão em um trabalho de alta periculosidade. A angústia e
o medo, dizem, ligavam o grupo a uma condição e reforçavam sua coesão.
Neste contexto, as redes de amizade e ajuda recíproca tão referidas em suas
narrativas, eram expressões da submissão ou da resistência?

“Quando meu marido partia para mina pela manhä, eu nun-


ca sabia se ele ia voltar a noite”.(Mme. Ponce) “É, mas quando
um mineiro sofria um acidente na mina, ninguém esperava por
equipe de seguro, nada... era a solidariedade, era o coração que
comandava o salvamento. A gente se arriscava, porque a mina,
atenção hem... era bem perigoso este trabalho”.(M. Ponce, m.a.).

Trata-se sobretudo de formas de sociabilidade intensa, bases sobre as


quais se construía localmente a identidade social, força pela qual valores do
grupo eram comunicados e cuja comunhão os fazia mergulhar em sentimen-
tos de pertencimento. Ser mineiro era ser companheiro de trabalho, prática
de uma sociabilidade operária.

60 . O ato de luta de classificação. Cf.BOURDIEU. (1980).


61 . Consciência operária para TOURAINE. (1966). pp. 64-82.

44
Cornelia Eckert

1.2. A Langorosa mas Inebriante Constru-


ção de um “Novo Tempo”
A) Os avatares de um novo século

Ganhos cada vez mais importantes pressionavam a Companhia a abrir


espaços de negociação com os mineiros organizados. Fendas cada vez maio-
res eram esculpidas neste continuum do “tempo da Companhia”. A emanci-
pação operária era irreversível, o movimento social e sindical crescia em nível
nacional e apenas o evento da Primeira Guerra foi ainda capaz de retardar o
processo de desintegração da estrutura de poder da Companhia. Nesta con-
juntura excepcional, a Companhia conseguiu ainda frear o crescimento do
socialismo e da laicidade no seio da comunidade grand-combiana.

Na passagem para o século XX, mudanças substanciais transformaram


a qualidade de vida dos grand-combianos. O período de guerra e o de pós-
-guerra exigiram uma recuperação industrial do país. Era urgente a revita-
lização da produção carbonífera, o que exigia um número excepcional de
trabalhadores. A Companhia refez apelo à vinda de imigrantes da Europa
Central, poloneses e iugoslavos, tchecos e eslavos; do Mediterrâneo Ociden-
tal, espanhóis, portugueses e italianos; ou de nações sub-industrializadas,
principalmente da Africa (norte) e Turquia.

O afluxo de novas famílias estrangeiras foi enorme. Todo este aporte


humano renovou significativamente a população local. A morfologia social
e a fisionomia étnica e cultural da vila diversificou-se marcando ainda mais a
coabitação de autóctones, de imigrantes de “ontem” e de imigrantes recém-
-chegados.

Junto a esta nova massa imigrante, a Companhia reafirmou sua política


paternalista, divulgando imagens de força e de controle sobre a população e
retomando a velha receita do caráter familiar da empresa, ainda pertinente
para enraizar a mão-de-obra. Como no passado, num primeiro instante o
recrutamento foi mais coletivo, mesmo “tribal” (grupos étnicos). As primei-
ras famílias desempenhavam o papel de estimuladores da vinda de grupos
de parentesco ou de afinidade, fazendo o efeito de “bola de neve”. De fato
os poloneses, tchecos, italianos e espanhóis chegaram, em geral, com suas
famílias (ou esta chegaria alguns meses mais tarde). Entre eles poucos soltei-
ros, e para estes o casamento no interior do grupo étnico na nova vila não
era acontecimento raro.

Ao contrário disto, os norte-africanos (algerianos e kabyles da região de


Constantina, na sua maioria) se caracterizaram pela chegada de grupos mas-
culinos solitários. A maioria entre eles era casado, mas deixaram suas esposas

45
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

no país de origem pois todos chegavam com o projeto de retorno. De fato


muitos retornaram, entretanto a demanda de uma crescente mão-de-obra e
o empobrecimento acelerado da Algéria pós-revolução estimularam não só a
vinda massiva destes imigrantes com seus familiares e grupo de parentesco,
como agiram sobre o projeto original de retorno de muitos, que se sedenta-
rizaram em solo francês.

Na memória dos velhos habitantes grand-combianos não houve, na


época, uma reação xenófoba ostensiva em relação aos novos chegados. De
modo geral eles desenharam um portrait de “integração doce” destes imi-
grantes, o que não obscureceu o caráter complexo do processo de integra-
ção, onde alguns grupos étnicos eram mais estigmatizados pela população
déjà grand-combiana que outros: os antigos moradores se definiam pela co-
munhão de um imaginário comum que os distinguia dos novos chegados,
não portadores da memória local.

Outrossim, para além das diferenças culturais e religiosas, a política


discriminatória da Companhia, embora sutil, alimentava o crescimento de
um racismo latente, pois nem mesmo camuflava que observava uma classi-
ficação profissional da mão-de-obra segundo critérios de nacionalidade. Ao
lado dos poloneses e tchecos, os italianos eram classificados pela adminis-
tração como “bons operários”. Os espanhóis e portugueses, considerados
menos qualificados, eram, entretanto apreciados por sua regularidade no
trabalho, com uma reputação de “sérios” ou seguidores de “rígidos códigos
de honra”.

De longe eram os poloneses os mais privilegiados pela Companhia, que


os considerava “excelentes mineiros e bons católicos”. As vantagens de habi-
tação e de educação são aspectos que os entrevistados destacam para justi-
ficar a fácil aceitação deste grupo étnico no seio da população, como explica
Mme. Durant que os define como “perfeitamente integrados à comunidade
francesa”. Aliás, os poloneses, dizem, antes de aprenderem francês, fala-
ram o dialeto da mina e, a medida que se enraizavam, “confundiam-se com
os daqui” no seio da comunidade grand-combiana, no sentido de que eles
“não eram socialmente um problema” para a população maior.

Menos apreciados pela Companhia, que os acusava de instabilidade no


trabalho e desconhecimento da prática de extração, os norte-africanos e tur-
cos foram na sua totalidade empregados no desmonte (uso de explosivos) do
carvão e viveram mal-alojados: “moravam comprimidos entre 5 a 10 pessoas
por peça e, enquanto uns iam trabalhar, outros entravam para descansar”,
conta M. Gibuel, mineiro aposentado.

Apesar desta postura preconceituosa da Companhia, segundo alguns


franceses, na esfera do trabalho a assimilação dos norte-africanos foi “nor-
mal”. Para a maioria dos mineiros do fundo, “cobertos do pó negro do car-
vão”, não tinha porque reproduzir estes critérios para diferenciar uns dos

46
Cornelia Eckert

outros. Não raro eles esclarecem que era a chefia que, com freqüência, estig-
matizava-os com apelações negativas:

“No fundo da mina, pouco importa quem era quem, árabe ou


francês, era uma vida humana que estava em jogo e no fundo
da mina nunca vi nada de racismo. Só os chefes abusavam. Mas
a nossa mentalidade era de fraternidade. Agora, fora da mina
tinha racismo sim”. ( M. Rocades, m.a.).

É referente à coabitação cotidiana e às relações de vizinhança que os


pontos mais conflituais desta forte miscelânea racial aparecem na memória
coletiva dos velhos na vila. Duas francesas, esposas de mineiros aposentados,
contam com estupefação o que era percebido como “choque cultural”:

“Eles criavam cabras na cozinha”... “Eles tiravam o parquê da


cozinha para fazer fogo na terra”.

A população de antigo enraizamento cobriu a comunidade norte-afri-


cana de críticas por seus hábitos “pouco civilizados”. Mas, pouco a pouco,
os africanos tomam seu lugar no cotidiano da vila: frequentam a feira, suas
crianças (que eram também francesas: os beurs) iam à escola e, como diz o
historiador local M. Wienén, “eles se tornaram tão grand-combianos como
os franceses”.

A vinda em massa de novos imigrantes causou mudanças importantes na


delimitação espacial urbana e na distribuição da população: uma nova política
habitacional foi instaurada. As “cités minières”(62) são construídas obedecen-
do a um novo estilo, o de “casas-jardins”. Nova terminologia, mas também
novas condições de habitação. Possuíam peças um pouco mais amplas, onde
a presença de jardins de frente ou laterais e os W.Cs construídos no fundo
dos terrenos, ofereciam aos locatários um conforto apreciável. Este modelo
habitacional resultou de uma política médico-sanitária e moral do Estado; a
seleção de famílias para habitar as novas cités seguiu critérios de ocupação
funcional, de tamanho da família e de nacionalidade. Foram, sobretudo as fa-
mílias francesas e polonesas as privilegiadas neste processo, já as famílias nor-
te-africanas e turcas ficaram concentradas nas antigas casernas ou barracões
construídos sobre terrenos denominados “campos” (dado o modelo militar
de origem), o que os estimulou à formação de guetos por comunidade étnica.

As vésperas da Segunda Guerra Mundial, a Companhia se autofelicita


num livro comemorativo lançado pelo seu Centenário, exaltando a constru-
ção de 2650 residências e 22OO jardins, dentro do programa de melhorias
da habitação operária(63). O centro de La Grand-Combe e suas principais ar-
62 . Ou “casas-jardins”, ou “bairros mineiros”.
63 . Política que, como elucida Leite Lopes, é funcional à produção enquanto instrumento
estratégico de formação, educação, domesticação e transformação da classe trabalhadora
ativa, com suas tradições e dados culturais, segundo o modelo que o grupo dirigente

47
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

térias conheceram também um forte dinamismo na virada do século, época


em que a feira livre semanal se afirmou como a mais importante da região,
tornando-se o espaço de mais forte convívio público dos grand-combianos.
Estimulado pelo crescimento da vila, o comércio livre se impõe. De fato, estes
signos anunciavam que novos tempos construídos pela força coletiva sopra-
vam no horizonte, delineava-se o engendramento de rupturas mais radicais
no tempo maior ritmado pela Companhia.

B) O declínio da Companhia
Com a intensificação da produção, toda a comunidade foi penalizada
pelas péssimas condições de trabalho. No combate a esta situação, o mo-
vimento sindical enfrentou as forças paternalistas. O período compreendi-
do entre 1919 e 1921 foi ponto de partida para profundas mudanças: La
Grand-Combe mudou de decoração política com a derrota dos candidatos
da Companhia à municipalidade. Para marcar simbolicamente a conquista de
espaço político por aqueles que eram maioria nesta vila - os operários minei-
ros - uma grande festa sindical comemorou em praça pública a emancipação
da classe operária grand-combiana.

Da mesma maneira que para a grande maioria operária francesa, o


engajamento político dos mineiros era com as tendências de esquerda. Os
grand-combianos se inscreviam mais e mais no interior de uma ordem distan-
te, no movimento de um tempo maior, ritmado de forma mais direta por de-
terminações externas (transformações políticas e econômicas mundiais). No
entanto, La Grand-Combe permaneceu mais do que nunca uma vila mineira,
operária. O objetivo não foi a ruptura de um cotidiano ritmado pelo trabalho
na mina, mas simplesmente transformações na organização do trabalho e no
nível de gerência dos bens capitais produzidos.

Após a crise de 1929, no quadro político nacional o Front Populaire


(1937) desenvolveu um programa de recuperação econômica e estimulou a
produção de carvão nacional em larga escala, com uma série de medidas pro-
tecionistas. No âmbito de uma intensa propaganda nacionalista, esta revita-
lização do setor recebeu o nome de “Batalha do Carvão”, para a qual foram
convocadas todas as sociedades carboníferas da França. Os operários foram
chamados pelas lideranças partidárias e sindicais de esquerda a assumirem
“o dever de salvar o país em nome do interesse nacional”(64). Neste contexto
a Companhia com sua estrutura paternalista, não cessaram de afundar. Os
ganhos políticos da categoria, em nível nacional, foram importantes (salário
mínimo, dia dos trabalhadores, lei limitando horário do trabalho semanal,
eleições de delegados sindicais, alta de salários etc).

construiu. LEITE LOPES, José Sérgio. “Anotações em torno do tema ‘condições de vida’ na
literatura sobre a classe operária”. In: MACHADO DA SILVA. (1984).
64 . DEBOIS, E; JEANNEAU, Y; MATTEI, B. (1986).

48
Cornelia Eckert

Em 1939, com a Segunda Guerra Mundial, repetiu-se a situação de crise


econômica. O governo francês lançou a segunda fase da “Batalha do Car-
vão”, enquanto a Companhia, graças a este contexto, salvaguardava sua
estrutura e seus lucros.

Mas a Segunda Guerra não foi apenas uma conjuntura de guerra, foi ao
mesmo tempo conflito político, oposição ideológica, choque máximo entre
as classes sociais, finalização de processos de formação nacional. Foi uma
situação inédita de aceleração de mudanças estruturais determinadas por
forças transformadoras produzidas por uma sociedade que se moderniza-
va. Chegada ao seu termo final sob a forma explosiva e mortífera de que
se tem conhecimento, todos os países envolvidos foram tributários de uma
superativação de desenvolvimento. Os anos pós-guerra foram anos de estru-
turas que caíram, de modos de viver e pensar colocados em xeque, povos
remobilizados, hierarquias, prestígios e valores afetados, enfim, foi toda uma
“transformação estrutural global de caráter revolucionário”(65).

Esta descontinuidade no tempo coletivo é pensada pelos entrevistados


de forma tão profunda, que eles tecem novas referências estruturais para
ordenar “o tempo vivido”. Os grand-combianos viveram este evento como
de acentuadas transformações, em que a nacionalização das minas lhes sig-
nificou sobremaneira.

As minas da França foram nacionalizadas por decreto promulgado em


1946 e todo o complexo industrial da Companhia passou a pertencer às
Hulherias da Bacia de Cévennes, grupo sudeste da Central Carbonífera da
França.

A história econômica da toda poderosa Companhia encerrou-se. Ela que


havia reinado durante 110 anos, dirigido segundos seus interesses, particula-
rizado os hábitos da comunidade, transfigurado paisagens e monopolizado
a economia, chegava à bancarrota: “Mesmo os monumentos edificados aos
diretores foram demolidos”, lembra M. Perhas, aposentado da mina.

Em meio às rupturas, uma permanência se conformou na sociedade mi-


neira. Os traços, as referências, as marcas engendradas e interiorizadas ao
longo do “tempo da Companhia” e dos tempos sobre os quais este mes-
mo é superposto, informam e dinamizam a memória coletiva dos habitantes
grand-combianos neste espaço social de enraizamento, no “país mineiro”.
Estimado por uns, menosprezado por outros, o trabalho na mina manteve-se
como a atividade econômica por excelência.

“Ficar amarrado à sua profissão de mineiro era uma mentalida-


de. Era a mentalidade à La Grand-Combe e existia esta fraterni-
dade de ficar ligado à este trabalho”. (M. Ponce, m.a.).

65 . Cf. BALANDIER. (1983). p. 107.

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Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

O espaço vivido permaneceu fundamentalmente mineiro, importante


fonte de relação social e cultural. Tudo isto permitiu aos habitantes da vila
que se reconhecessem como pertencendo a um meio singular, à comunidade
de trabalho. O cotidiano seguiu ritmado pelo tempo “forte” industrial, e o
valor-trabalho (mineiro) como num ato de envelopamento, continuou a dar
qualidade e senso na construção da identidade social do grupo de tradição.
Mudanças que os mineiros viveram na segurança da continuidade; como
num jogo dialético, o grupo permaneceu sobre as descontinuidades vividas.

50
Cornelia Eckert

CAPÍTULO
2

“NO TEMPO DA NACIONALIZAÇÃO”


2.1. Mineiros Cevenois
A época da nacionalização das minas coincidiu com o centenário da
vila, que realizou uma festa com grande pompa para celebrar o evento. Os
grand-combianos renderam homenagem aos feitos que marcaram a his-
tória da vila no “tempo da Companhia”, mas para além desta tendência
nostálgica, a festa pontuava a passagem de épocas, pela autonomia política
conquistada, e comemorava as mudanças portadoras de “progresso”, que
consagravam a vila como importante produtora de carvão com uma estru-
tura modernizada.

Com a promulgação da nacionalização, as mudanças de época foram


patentes. Os grand-combianos referem-se ao vivido como o “tempo da na-
cionalização das minas”. As transformações fizeram-se sentir em diferentes
domínios; os mais palpáveis foram o econômico e o político. Com as novas
disposições administrativas, os mineiros foram inseridos numa instituição de
razão social regional. Passaram a ser recenseados no conjunto dos efetivos
das Hulherias de Cévennes, que contava com um total de 21.000 operários
em 1947, com sedes em Alès (cidade vizinha) e em La Grand-Combe.

As diferenças citadinas desmoronaram no interior dos limites regionais à


bacia de Cévennes. Assim, mineiros grand-combianos e de todas as circunvi-
zinhanças foram cobertos por uma mesma “nata” identitária topônima: “os
mineiros de Cévennes”.

51
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

Em nível político, as forças de esquerda eram agora hegemônicas na


região; na vila os socialistas assumiram o poder municipal, estabilidade que
perdurou por mais de duas décadas. Um grande número de mineiros estran-
geiros solicitou naturalização francesa, o que lhes dava o direito a voto e à
militância política.

La Grand-Combe ainda era uma vila mineira, mas agora reapropriada


pelos grand-combianos; os habitantes viviam o status de cidadãos livres, sem
as proibições, repressões ou discriminações político-religiosas do passado. As
escolas públicas de ensino gratuito abrigavam a maioria das crianças, que co-
nheciam os valores republicanos da sociedade nacional: elas não ensinavam
mais como ser “um bom mineiro”, mas como ser cidadão com plenos direi-
tos: igualdade, fraternidade e sufrágio universal. Entre outros arquétipos, a
escola pública e laica representava “a vitória de forças revolucionárias”.

Trabalhar na mina era ainda a possibilidade mais concreta de construção


dos projetos familiares da população ativa: o emprego na mina continuava
sendo o motivo da projeção de itinerários singulares neste meio. Esta ima-
gem da perenidade de uma tradição coletiva permitia à comunidade de tra-
balho reproduzir como outrora um sentimento de estabilidade, de um futuro
assegurado a seus filhos. Apesar das transformações que a vila conheceu, os
mineiros podiam permanecer enraizados localmente porque o trabalho lhes
era garantido. Era justamente pela garantia de existência do trabalho, que o
grupo tanto vinha lutando. Assegurada esta conquista, passou a reivindicar
que a vila se integrasse igualmente à dinâmica própria de grandes centros
urbanos.

Foi com a garantia do trabalho que eles encontraram na vila a estabili-


dade desejada, suporte espacial e afetivo para o “repouso” da memória do
grupo, elementar para poder reordenar o tempo vivido e encontrar sob as
transformações a duração do grupo de identidade.

Inegável que o mercado de trabalho extramuros (Paris, Lyon, etc) atraía


cada vez mais uma massa de jovens para estudar ou trabalhar. Mas, na visão
dos entrevistados, o jovem grand-combiano raramente partia em direção aos
grandes centros urbanos na época, porque na mina “seu lugar era seguro”.
Partir para os grandes centros, naquele momento, era antes o resultado da
realização de projetos individuais na aspiração de ascensão sócio-cultural do
que mobilidade compulsória provocada por situação de penúria. O período
foi marcado por um sistema de valores coletivos suficientemente fortes, e o
ideal de incorporação neste meio encontrou guardadas suas referências no
mundo local.

As Hulherias da Bacia de Cévennes herdaram todo o grande patrimônio


da Companhia. Geriu o parque imobiliário segundo os Estatutos do Minei-
ro, que observava o direito à moradia gratuita até a morte. Novos espaços
habitacionais foram construídos, bairros reabilitados. As cités transit (mora-

52
Cornelia Eckert

dias transitórias, assim chamadas por sua qualidade inferior de construção)


foram erguidas em grande quantidade para alojar a crescente mão-de-obra
imigrante norte-africana.

O que havia de comum a todos os tipos de construção era a localização


do terreno, afastado dos espaços de trabalho, evitando a poluição atmos-
férica e sonora. E se a hierarquia funcional ainda era critério de distribuição
segundo a qualidade da habitação, o critério religioso tombava arcaico. Fo-
ram amenizadas igualmente as distinções sexistas: as mulheres participavam
das missas e festas antes restritas aos mineiros e cada vez mais atuavam em
espaços múltiplos (políticos, econômicos etc).

As mudanças globais que elevavam as condições de vida em países de


modernização acelerada chegaram também a La Grand-Combe: o consumo
de um conforto standard reproduziu-se largamente, aliviando as duras prá-
ticas domésticas, por exemplo. Uma nova sociedade nacional projetava-se
sobre o local. La Grand-Combe vivia sob um novo ritmo, ainda cadenciado
pelo trabalho industrial, mas cada vez mais um ritmo que não lhe era especí-
fico, ritmos externos, plurais: uma nova política centralizada pelo Estado. Era
um novo tipo de influência urbana, de uma globalidade social, de um código
geral que se sobrepunha a seu tempo interno.

Se é verdade que em nível político a cidade ganhou sua indepen-


dência, em nível econômico existia um processo de “translação de de-
pendência”; as novas relações eram estabelecidas com o Estado, o que
foi determinante para o futuro da cidade. Ela se aproximava em todos
os níveis de outros centros vizinhos produtores. A assistência social
era agora garantida por estatuto(66), coordenada pela nova estrutura
econômico-política centralizada pelo Estado. A comunidade de trabalho
permaneceu protegida pela empresa empregadora. Isto significa dizer
que a passagem da condição privada à condição pública reforçou o que
nossos interlocutores identificam como “a mentalidade grand-combiana
de assistidos”.

Inserida economicamente numa área geográfica definida pelos limites


da região cevenol, as fronteiras de pertencimento da comunidade de traba-
lho grand-combiana passaram a ser entrecortadas por outras redes; convém
falar agora de “mineiros cevenois”. A abertura do mundo do trabalho supu-
nha a abertura do sentimento de pertencimento sobre a região, que marcou,
no imaginário coletivo, a comunhão de culturas que sempre coabitaram. A

66 . Efetivamente a nacionalização das minas trouxe como vitória significativa da categoria a


aprovação dos Estatutos do Mineiro (1946), que permitiam uma melhora substancial nas
condições de vida da sociedade mineira, vantagens de segurança social, de aposentadoria,
de habitação gratuita, de reconhecimento das doenças profissionais, bolsa de estudos para
as crianças até para o ensino técnico, colônia de férias, sociedade de lazer subvencionadas,
melhores salários etc.

53
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

análise precisa aqui ser bem talhada(67): a chave da questão repousa sobre
o fato de a identidade local ser encompassada por uma identidade regional
reatualizada. Isto é, se ser cevenol outrora era sobretudo eficaz na represen-
tação do grupo social que se identificava com as raízes agrícolas, tradições
rurais, tendências políticas de esquerda, ela era agora fortemente valorizada
como constitutiva igualmente do “país mineiro”. É claro, desde sempre os
mineiros de origem cevenol sentiam-se ligados à cultura da região, às suas
raízes nativas, e o occitan sempre foi o dialeto dos mineiros no reconheci-
mento do grupo de pertencimento. Cabe lembrar, no entanto, que “no tem-
po da Companhia” qualquer exteriorização de uma unidade regional que
ameaçasse o poder dominante era vista como “perigosa” e que a Compa-
nhia construiu verdadeiros “muros” ideológicos e simbólicos em torno de La
Grand-Combe, obstaculizando toda e qualquer ameaça ao seu reino.

As imagens de trajetórias passadas da vida na vila mineira foram rea-


tualizadas como suportes de identidades ocupacionais mas como um valor
singular que dá senso à experiência da vida no presente como um conjunto
de símbolos que ilumina a tradição do grupo. Não foi apenas sobre a histó-
ria local que os mineiros grand-combianos puderam oficialmente negociar
a construção de referenciais de identidade, trabalhar um sistema classifica-
tório, mas igualmente sobre a região cultural e mesmo para além destas
fronteiras. Isto não significa dizer que se manifestava uma imagem uniforme
destas diferentes vilas. Cada uma guardava suas particularidades. La Grand-
-Combe resguardou sua “vocação” e, de fato, foi neste “estado de espírito
do tempo”, de tradição de um grupo de solidariedade, que eles participaram
econômica e sócio-culturalmente do “progresso” da região.

2.2. Os Heróis do Trabalho


Para os velhos mineiros a maior inovação era na “mudança do patrão”,
na passagem de uma “direção de elite” para uma “direção de massa”, dado
que “antes, o patrão era a Companhia e, depois da Guerra, foi o Estado e
o sindicato”. As minas passaram de uma condição privada a uma condição
pública, com a participação dos sindicatos e delegados operários na gestão
sócio-econômica das Hulherias.

A vida e trabalho dos mineiros cevenois devem ser vistos no contexto


geral da política nacional. O setor extrativo tornou-se mais do que nunca um
ponto nevrálgico das forças de recuperação da economia francesa. Passada
a Segunda Guerra, os mineiros foram outra vez mobilizados de forma con-
tundente em uma nova fase da “Batalha do Carvão”, programa organizado
em comum acordo entre Estado, Carboníferas e Centrais Sindicais, unidos
67 . Este movimento de construção social da identidade regional foi extremamente complexo
posto que ele abarcou grupos étnicos e culturais diferenciados, cujas referências simbólicas
devem ser compreendidas no entrecruzamento de espaços e redes múltiplas: micro-espaços
(bairro, escola, trabalho, etc), que desenvolvo na tese.

54
Cornelia Eckert

numa verdadeira “mobilização psicológica dos mineiros”. De fato eram as


forças de esquerda (sindicais e partidárias) que estavam no poder e promo-
viam um “operariado que cooperasse com o Estado”. Lê-se nos panfletos-
-convocação: “As minas estão verdadeiramente nacionalizadas, os mineiros
devem participar na reconstrução econômica da França e salvaguardar a in-
dependência nacional”.

A nova “Batalha do Carvão”, lançada em nome do interesse nacio-


nal, tomou amplitude. Um modelo moderno de operário e um proletariado
protótipo foram programados: o escolhido foi o mineiro. As forças estatais
recorreram aos meios de comunicação de massa para difundir a imagem
de um operário modelo, criando um personagem heróico, quase mítico: o
“homem-carvão”. Fotos de mineiros cobriram jornais, revistas, cartazes: ho-
mens robustos e simples, mas acima de tudo heróis. No imaginário coletivo
interiorizou-se um personagem corajoso, que amava sua nação, seu traba-
lho, seu poço, sua cité e sua família.

Como todos os mineiros franceses, os cevenois, os grand-combianos


foram galvanizados por este clima psicológico criado pela “Batalha do Car-
vão”, pela exaltação patriótica. Para os mineiros, ali estava a prova da super-
posição de “novos tempos”, onde a figura do Estado era a referência externa
sucessora nesta ordenação temporal. A perspectiva no coração de todos era
de que as mudanças iriam permitir a serena continuidade da comunidade
fundada no trabalho, propiciando uma melhoria na qualidade de vida, graças
aos Estatutos e à organização sindical na luta por benefícios sociais.

Mal se imaginava, então, que junto às reformas de estrutura econômica


e social, duras condições de trabalho iriam subsistir apesar da modernização
da tecnologia de extração. De fato, a mecanização substituíra os homens em
tarefas difíceis, mas aumentara a insalubridade. A penalidade do trabalho
estendeu-se: a prorrogação da jornada, dura disciplina somada a uma enor-
me fatiga, aumento do número de doenças profissionais. Na narrativa dos
mineiros, “o descontentamento era geral”, os desentendimentos políticos
cresciam e muitos dos que haviam se filiado aos sindicatos pediam exonera-
ção. Restavam pequenos gestos ainda individuais que traduziam toda uma
decepção face a esta “Batalha” que estava ganha, mas para que e para
quem? O contexto lhes era realmente muito ambíguo.

Ganha a Batalha, o quadro político nacional modificou-se com a que-


da de ministros comunista e de membros da direção nacional das minas, o
progresso social anunciado sofreu um retrocesso: a nacionalização e a pre-
vidência social foram colocas em questão. A estrutura política montada era
frágil e a máscara caiu, para o desgosto dos heróis mineiros. “O progres-
so prometido era uma emboscada”, explica M. Letour (m.a.), as mudanças
(conseqüências do plano Marshall na economia francesa) pareciam colocar o
mundo tão idealizado ao inverso. Entre os mineiros pairava este sentimento
de terem sido “passados para trás”. A nacionalização que prometera “as

55
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

minas aos mineiros” foi um devaneio. O fracasso das greves de 1947, 48


e 52 confirmou esta realidade, afundando os ideais corporativos. O clima
geral era de desencantamento e os mineiros exprimiram este ceticismo no
absenteísmo, na desfiliação sindical, na recusa de engajarem seus filhos no
mesmo caminho.

“Pra mim, a nacionalização fez a nossa ruína.” (M. Sounier, mi-


neiro aposentado).

Aos autores da história da Batalha do Carvão restou tornaram-se “he-


róis de um mito”. As greves ao longo dos anos 50 foram inexoráveis, e o
paradoxo maior residiu no fato de estas serem organizadas pelas centrais
sindicais (como a CGT) e pelo Partido Comunista, também protagonistas
desta conjuntura de crise. A intenção era resgatar suas forças políticas, “cor-
rigir os erros cometidos” durante a gestão da Batalha do Carvão. Mas a
recessão no setor já se instalara com força: a concorrência com o carvão
estrangeiro e a política francesa de integração ao mercado internacional
produziam conseqüências nefastas para o setor tradicional do carvão. Todas
as estratégias sindicais e partidárias não foram fortes o suficiente para barrar
os impactos de decisões governamentais (aplicação do plano Schuman em
1951 e do plano Jeannerey em 1960): houve retração da venda do carvão
(1952 a 1955) e regressão sistemática da produção (1960). A França, econo-
micamente recuperada, queria se modernizar autrement, e partiu para um
plano de fechamento sistemático de indústrias tradicionais, caso do setor
carbonífero.

O fechamento dos primeiros poços de extração nos anos 1960 foi ines-
perado por todos. Foi com muita dificuldade que os mineiros elaboraram os
acontecimentos: a modernização do trabalho mineiro era de fato a “mor-
te” da profissão, ela não era modernizada, mas simplesmente enterrada.
Foi o início de uma outra ordem de problemas que afligiu a comunidade
de trabalho. Não era apenas o medo do desemprego, era todo o universo
mineiro ameaçado de desaparecer, trabalho, habitação, família, redes so-
ciais, região:

“Eu não entendia mais nada, eles (Hulheria) diziam que o carvão
tinha acabado. Foi uma época de muita mentira, eles queriam
passar os mineiros pra trás. Eu conhecia os poços... tinha muito
carvão e do bom. Sabe o que eles fizeram com ‘La Forêt’? Eles
colocaram fogo no poço e quando deu a fumaça eles disseram
‘viram só, esta mina é perigosa, vamos fechar’. Pois é, foi bem
assim, era uma época de muita sem-vergonhice. Imagina, nos-
so carvão era lindo, brilhante, bom mesmo. Mas quando eles
decidiram fechar tudo, tudo fechou”. (M. Champeac, m.a.).

“Não consigo entender”, desabafa este mineiro, o que teria precipitado


uma recessão carbonífera assim irreversível. “É verdade”, reconhece, “nos

56
Cornelia Eckert

anos 50 e 60” as mudanças econômicas e políticas enunciavam tempos di-


fíceis, mas o fechamento dos primeiros poços aparentava ser interregno à
modernização das minas. Os rumores tornaram-se fatos:

“Parecia que era só uma fase de transição e que todo o resto


não passasse de rumores. Mas foi por pouco tempo, pouco
a pouco só se falava de crise em casa, ninguém dormia mais
sossegado” (M. Lefort, m.a.).

Nem as hulherias regionais, nem a central nacional sustentavam mais


suas promessas. A unidade dos mineiros cevenois tomou, então, uma outra
performance: a identidade regional surgiu como suporte de uma ação de
luta que assumiu formas de “movimento regionalista”.

Colocando-se, inicialmente, como um movimento de protesto contra a


crise que começava a se alastrar no setor carbonífero regional, rapidamente a
luta dos mineiros de organização sindical e partidária (CGT-PC, principalmen-
te), confundiu-se com o “movimento occitan”, que nasceu da fusão da luta
dos camponeses cevenois contra a política agrícola governamental com a da
militância de intelectuais da região na defesa do patrimônio, da cultura e da
memória cevenol.(68) “Foi um movimento de solidariedade, muito bonito”,
lembra um aposentado da mina (M. Land), argumentando que a motivação
maior era a honra do mineiro cevenol: “Queríamos ficar no país para traba-
lhar, era a honra de todo este país que estava em jogo, e isto é tudo”.

Na defesa do seu trabalho, os mineiros apropriaram dos leitmotivs do


movimento de defesa da tradição da região: viure, travalhar, decidir al pays
(“viver, trabalhar, decidir no país”, em occitan). O movimento tomou ampli-
tude inesperada, aconteceram manifestações por toda região, verdadeiros
atos rituais coletivos foram organizados, onde a língua oficial era o occitan.
Mineiros, camponeses e todos cevenois portavam a touca dos camisards que,
outrora, simbolizara a resistência protestante. Exaltava-se o que era consi-
derado um forte valor da tradição regional: a resistência. Valor reatualizado
como base de uma identidade emblemática do país cevenol. Foi apelando
para um tempo anterior ao da Companhia, “o tempo das lutas Camisards”,
que os mineiros encontraram as raízes de um “comportamento coletivo de
defesa”. De soma, explicam que, em Cévenne, não somente eram mineiros
de pai para filho, mas também de pai para filho eles se engajaram nas lutas.
Foi assim que fizeram apelo à história do país cevenol para justificar um
passado heróico dos mineiros. Lutar e defender o trabalho no país está no
“temperamento do mineiro cevenol”, explica um líder sindical.

Os mineiros grand-combianos viviam igualmente o fim de uma espécie


de auto-repressão, do “vício” de forçar uma memória coletiva aos limites do
68 . Movimento coordenado pela união do Institut d’Etudes Occitanes (IEO, 1945) e do Parti
nationaliste occitan (PNO, 1959 por François Fontan). Sobre o “movimento occitan” recorrer
a TOURAINE & DUBET et alii. (1981).

57
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

“tempo da Companhia”. As raízes são mais profundas, as referências a uma


memória coletiva são apreendidas na participação neste movimento pelas
tradições cevenois de lutar desde os primórdios tempos por seu “país”, suas
terras, suas práticas, sua cultura. O “tempo anterior”, distante nos séculos,
é remobiliado na memória e se torna próximo. “Fenônemo surpreendente”,
diz o historiador Joutard, “o de ver os mineiros, ‘os católicos’ tomar a peito
a herança camisard (protestante)”(69).

Gritava-se “não” ao fechamento das minas pelo direito ao trabalho nos


espaços de enraizamento. Um movimento pela “duração” apoiando-se na
memória coletiva. Criavam-se estratégias contra a ameaça de dissolução no
tempo de grupos de trabalho de tradição. O espírito regionalista, o enrai-
zamento no “país” metamorfosearam-se em tradição, terra, patrimônio e
trabalho. Um movimento de resistência que, pela legitimidade herdada do
passado, queria assegurar o presente e organizar o futuro.

A comunidade de mineiros buscava defender o país mineiro ameaçado


de declínio, lutava contra a estagnação da vila, contra o fechamento das
minas, contra o desenraizamento, espaços-depositórios de suas referências
sobre os quais eles podiam seguir construindo a continuidade do grupo de
identidade, negando a descontinuidade que se colocava.

Mas a recessão instalou-se sem precedentes no setor carbonífero; como


que por contágio, a crise alastrou-se sobre todos os domínios da vida coti-
diana na vila mineira.

As últimas resistências contra a morte do lugar (a mina) e pela continui-


dade da prática que definia uma “civilização de mineiros” manifestaram-
-se nos anos 1980. Estes movimentos reuniram uma expressiva população,
artistas, políticos, intelectuais, todos sensibilizados pela opinião pública. Fo-
ram manifestações carregadas de gestos simbólicos: mineiros ocuparam os
fundos dos últimos poços ameaçados de extinção e realizaram passeatas em
Paris. Uma estação de rádio e programas de TV foram criados pela CGT para
difundir a luta pelo “amor e fidelidade a uma profissão e ao país”.

Mas se o movimento social foi vitorioso pela forte consciência classista e


regionalista, se a luta política dos mineiros foi escrita com letras douradas na
história da resistência cevenol, tudo isto não desembaraçou as fumaças de
um futuro hipotecado. Os chifres da produção regional, o êxodo da popula-
ção, o empobrecimento e o desemprego desmentiram os logotipos pichados
nos muros em todas as cidades da região: “O carvão é o futuro do país”.

A mina tornou-se “o último lugar da indústria”, o carvão, “um combate


de retrocesso”(70). Os mineiros, que haviam comprendido, ao longo destes

69 . JOUTARD, Philippe. “D’une version à l’autre”. In: PELEN. (1987). p. 9.


70 . Cito LUCAS. (1985). p. 146.

58
Cornelia Eckert

anos de inserção neste meio, que cabia a eles esperar, procurar, conquistar
melhores condições de vida e de trabalho, lutar pelo “desenvolvimento”,
viam agora que, ironicamente, nesta alegoria de “progresso”, vinham as
próprias contradições da modernidade: superação das indústrias tradicionais,
desemprego, disputa num mercado de trabalho discriminatório, racista etc.

Sem a mina, foi a profissão que desapareceu e com ela valores de refe-
rência de um grupo, de uma prática social e um modo de vida. É claro que
La Grand-Combe não foi um caso isolado; em toda França os antigos “reinos
mineiros”, após anos de glória e prosperidade, foram atingidos. Para todos
eles, “a mina não foi somente um dado econômico”, muito mais que isto, “o
que gostaríamos de chamar de um ‘fato social total’”(71).

71 . SCHWARTZ. (1990). p. 11.

59
CAPÍTULO
3

“NOS TEMPOS DE CRISE”


3.1. A Vila Deserdada
Na virada da década de 1960, as promessas de reconversão industrial
em Cévennes eram tema de primeira página nos jornais, enquanto poços de
extração eram fechados um após o outro, prelúdio de um refluxo econômico
irreversível que se instalava no setor.

Para La Grand-Combe, as mudanças econômicas trazidas com a nacio-


nalização das minas não faziam mais que confirmar a fragilidade de uma
estrutura cimentada na mono-atividade extrativa. A mutação profissional
implicava migração:

“Era a recessão, e aí não era mais a mesma coisa”. “La Grand-


-Combe esvaziou”. “As minas foram sendo fechadas e o país
mineiro declinou”. “(...) Não tinha mais nada a ver. A população
foi partindo, a cidade foi se esvaziando”. (M. e Mme Volder,
m.a., e.m.).

Nos anos 1970, poços e torres de extração considerados dos mais mo-
dernos da Europa foram fechados e dinamitados. Ficou claro aos mineiros
que nem mesmo a modernização do setor frearia o declínio. Nos anos 1980,
todos os sinais da atividade mineira subterrânea foram desativados, era o
ponto de não-retorno. A mina desapareceu e com ela os espaços de referên-
cia identitária. Modificou-se toda a trama cotidiana de existência, o tecido
urbano foi deslocado, o corpo social desintegrado: “é o fim do mundo da
mina”, é igualmente a desestruturação da comunidade de mineiros, porque

61
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

“a profissão não existe mais”, a não ser nas desformidades que secretaram
a morte da mina: os mineiros aposentados, o patrimônio mineiro, a memória
“do” social.

A força desta ruptura foi tão dramática que no discurso dos mineiros
outro tempo é pensado como superposto “aos tempos da mina”. Estas fa-
mílias que durante gerações viveram uma estabilidade de trajetória com con-
tornos firmes, reordenam agora suas projeções a partir de concepções de
um mundo às avessas, da improbabilidade: “o tempo de crise”, “o tempo
da recessão”.

“O que eles eles poderiam fazer? A maioria não tinha opção. Com toda
esta crise o cara que tinha criança pequena para criar, nem pensava muito,
ele ia embora. Eu recusei partir porque faltava pouco pra aposentadoria nor-
mal, e eles me aposentaram de avanço” (M. Combet, m.a.).

Face às novas determinações irrevogáveis que desvitalizam a região e a


exemplo de outras vilas mineiras, La Grand-Combe viu sua principal indústria
local atingir um estado de recessão fatal. A crise econômica produziu um
contexto social alarmante. Os efeitos foram implacáveis para a população
mineira: um após outro os habitantes partiram, portas e janelas foram fecha-
das, casas abandonadas, a cidade se esvaziou:

“Meus filhos partiram todos. Aqui estavam todos desemprega-


dos. Fazer o quê? Tem que procurar trabalho. O mais velho foi
para Paris, ele é cozinheiro num hospital. Minha filha trabalha
num restaurante à Mende. O caçula por enquanto tá no exérci-
to à Anduze, depois não sei. É o trabalho que comanda a vida
de todo mundo. Hoje a família é handicapé, mas o importante
é que todos estejam trabalhando”. (Mme. Rimbot, e.m.a.).

É o trabalho que comanda, que define as trajetórias de vida, que enraiza os


indivíduos. A força dos argumentos desta informante vai de encontro ao que di-
zia Weil: “Que pode fazer o homem sem trabalho? O trabalho é a honra do ho-
mem e, um homem sem honra é um homem sem alma”.(72) Neste contexto de
crise, os grand-combianos, mineiros e filhos de mineiros foram pressionados a
partir em busca de um trabalho que garantisse uma existência honrada. Como
seus antepassados que vieram de cantos distantes, negam a inércia da vida:

“Olha, o carvão era a vida de todo mundo. Então no momen-


to em que tudo fechou, e que eles não iam empregar mais
ninguém, os jovens partiram. E os mineiros? As Hulherias até
pagavam para que a gente partisse. Eles davam uma soma de
dinheiro para quem aceitasse outro trabalho, e muitos foram
embora.” (M. Combet, m.a.).

72 . Cf. WEIL. (1949). p. 31.

62
Cornelia Eckert

Mais do que um simples sintoma de tempos difíceis, o fechamento da


mina significava a ameaça do esvaecimento da comunidade de trabalho.
Uma descontinuidade com sabor de tragédia para os grand-combianos, que
viam colocada em xeque a organização social de uma vila fundada sobre
uma história econômica e profissional que havia produzido um grupo de
identidade, uma comunidade de solidariedade. Tudo desaparecia como que
por desencanto: o trabalho mineiro, as conquistas da categoria.

Se até este período os grand-combianos contavam sua história e repen-


savam seu cotidiano a partir de signos externos fortes, determinantes das
práticas sociais (a Companhia, o Estado, o Sindicato), passaram a referir-se
à insegurança do futuro, consubstancializando um “não-lugar”, um vazio
deixado tanto pela crise da principal fonte de produção (a mina) como pela
morte de uma tradição, a civilização de mineiros. Os velhos mineiros identifi-
cam aí a suspensão da trajetória coletiva da “família corporativa”, a consci-
ência de uma desordem temporal vivida com angústias e medos de um devir
nebuloso.

A crise econômica aportou conseqüências graves para a vila de La


Grand-Combe: despovoamento, dispersão do grupo ativo local, aumento da
população inativa e idosa, baixa na taxa de casamentos e natalidade etc. Em
todos os lares o assunto era o mesmo, “mais um que se foi”, “mais um que
está desempregado”. O êxodo da população desintegrou redes familiares,
de parentesco, de vizinhança e de amigos. Frente ao universo que se despe-
daçava, “o moral era baixo”, lembra um mineiro aposentado. E, segue ele:

“É pena que está tudo fechado. Essa era a riqueza do país mi-
neiro. Era tudo. Hoje as minas fecharam e não tem mais nada.
Hoje, aqui, não existe mais nada. Tá tudo vazio, tá difícil manter
o moral”. (M. Plum, m.a.).

Mas nem todos lamentavam os “tempos de crise”. Sobretudo para os


jovens, as promessas de reconversão econômica pareciam sedutoras, viam aí
a possível qualificação do trabalho. Por outro lado, importa perceber que era
toda a sociedade que vivia uma nova era, de consumo de massa, de aspira-
ção à ascensão profissional. Portanto, não é difícil supor que eles desejassem
que estes tempos fossem portadores de uma diversificação no mercado de
trabalho e de modernização no modo de vida. Por mais paradoxal que possa
parecer, este foi, portanto, um tempo desejado e construído.

Ora, ao contrário do “tempo da mina”, no presente, a busca de novos


centros é causada por determinações pouco transparentes:

“No momento em que eles começaram a pagar os jovens para


partir, a gente começou a acreditar que era verdade que as
minas iam fechar. Isto tudo era ainda mantido um pouco em
segredo, mas eles (os diretores) já sabiam muito bem o que ia

63
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

acontecer. Aí eles começaram a pagar os jovens para se reciclar


e eles íam aos poucos para outros lugares”. (M. Pontes, m.a.).

As situações são múltiplas e é difícil recompor todas. Desvendam-se,


apenas, as sensações mais presentes nas lembranças sobre o impacto que
feriu a saúde econômica da vila.

La Grand-Combe perde, então, o brilho que sua antiga “vocação” lhe


conferia e passa a refletir a imagem de uma vila letárgica. Desde logo, os
grand-combianos viram uma vila estigmatizada pelo fracasso econômico. A
vila mineira e seus habitantes pagavam o preço de uma evolução em nome
da “remodelagem” a que o Estado aspirava numa perspectiva mais univer-
sal. A modernização “desejada”, a evolução “bem-vinda” estabeleceu uma
dinâmica que engendrava uma desclassificação imposta por determinações
externas: o declínio do “vale negro” e todo um cortejo de conseqüências
a enfrentar. Em 1988, uma centena de comércios foram considerados per-
didos. A municipalidade não conseguiu conservar certos serviços urbanos:
diversas escolas e setores públicos foram fechados. Para M. Colin, minei-
ro grand-combiano, o Estado havia, intencionalmente, marcado La Grand-
-Combe com uma cruz vermelha, numa lista de municípios que deveriam
desaparecer: “Nós estamos numa lista de vilas que eles querem fazer desa-
parecer. Aqui não tem mais nada, trabalho, nada”.

Na medida em que a recessão estrangulou o mercado de trabalho local,


partir não foi mais um ato voluntário ou sinônimo de um projeto de ascensão
social: foi, para muitos, a única saída, ato obrigatório na busca da própria
sobrevivência ou da família.

O desemprego ou os “pequenos empregos temporários e sazonais, em


geral no negro” foram a nova realidade produzida. As poucas ofertas de em-
prego qualificado eram mais e mais seletivas. Face a esta situação, os filhos
de mineiros viram-se ameaçados com a “desclassificação” social, princípio de
uma sorte de revés comum a esta geração.

La Grand-Combe encolheu-se na função de vila-dormitório, de vila de


aposentados. A vila e a casa garantida por estatuto apareciam para os apo-
sentados como refúgio, eles optaram por “dormir no país” onde encontra-
ram o sustento material e emocional necessário para enfrentar um futuro de
envelhecimento. Estes qualitativos revelam um remanejamento das funções
desta vila em relação à região. La Grand-Combe, núcleo importante por mais
de um século, passou a desempenhar uma papel periférico na divisão do
mercado econômico regional. Os tempos eram bem outros:

“Os tempos heróicos dos ‘gueules noires’ (mineiros) haviam


passado, e ninguém se sentia mesmo constrangido de lhes fa-
zer sofrer, interrompendo brutalmente a carreira dos mais ve-
lhos, lhes atirando à rua com uma aposentadoria modesta, lhes

64
Cornelia Eckert

dizendo de certa forma como Dante à porta de seu inferno:


‘abandonem toda esperança’”.(73)

Na representação dos mineiros, não é a apologia da profissão que é


constante, nem mesmo idealizada para o futuro dos jovens; o que é lastima-
do é o esvanecimento do espaço social que imprimia existência à comunida-
de como fonte tradicional de trabalho.

A desindustrialização provocou uma recomposição social da população.


Na tipologia sócio-profissional da França, La Grand-Combe aparece como
“vila operária em declínio” e “zona de prioridade de assistência”, efeito do
número importante de chefes de família inativos. Graças ao subsídio do Es-
tado, o poder local buscou fórmulas para contornar a situação de crise. Dois
processos de salvamento foram desenvolvidos para estancar a hemorragia
de habitantes da vila: um programa de reconversão econômica da região e,
internamente, de restruturação urbana.

No que diz respeito ao primeiro empreendimento, de fato algumas


pequenas empresas instalaram-se em La Grand-Combe animadas pelas fa-
cilidades acordadas pelo Fundo de Industrialização da Bacia de Alès. Mas
nenhuma sobreviveu aos primeiros anos de funcionamento. As tentativas de
reconversão industrial revelaram-se um fenômeno marginal para frear a situ-
ação de recessão. Esta “operação cirúrgica” chegara muito tarde. A recon-
versão tornou-se sinônimo de desertificação, empobrecimento, desperdício
de dinheiro público, como declarou o prefeito na época (1965 a 1989):

“Para reconverter um país como La Grand-Combe, era preci-


so que isto acontecesse há 20 anos atrás. Agora é tarde, 7 a
8OOO mineiros partiram, e neste ritmo, em 2020, aqui não terá
mais nenhum habitante”. (M. Larguier).

Para M. Le Cler (funcionário municipal), os limites de uma reconversão


econômica local podiam ser encontrados na própria “mentalidade grand-
-combiana” que consiste em sentir-se tradicionalmente dependente de uma
grande empresa:

“Existem muitas contradições nisto tudo. Tem a sina desta vila


ser herdeira da Companhia e das Hulherias que criaram uma
mentalidade aqui, porque o carvão era a única empresa que se
ocupava de tudo. Ela cuidava dos alojamentos, da igreja, dos
templos, das escolas, do hospital, ela se ocupava da nutrição
e da vida cultural, enfim de tudo. Era uma empresa única. E
então as pessoas acham que, se acabaram com o carvão, uma
outra empresa caída do céu deve vir substituí-la. Algo novo mas
no mesmo esquema, uma empresa moderna que empregasse

73 . FLECHON. (1987). Tomo II. p. 287.

65
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

todo mundo e tudo continuaria igual. É a mentalidade aqui,


é a nossa fragilidade. Propor um desenvolvimento micro, eles
não entendem e rejeitam, e ninguém quer instalar uma multi-
-empresa aqui neste fim de mundo”.

Quanto ao projeto de reestruturação urbana, este previa inovar o cen-


tro da cidade, eliminar as áreas insalubres e desvalorizadas demolindo casas
ou bairros inteiros. Previa, principalmente, a transformação radical do “vale
negro” em área verde e de lazer, com instalação de um museu do carvão.

A morte da mina produziu uma sensação de caos pela perda de refe-


rências da comunidade de trabalho, espaços e formas de sociabilidade. É
por isto que os mineiros incorporaram um sentimento de luto. Habituados a
transmitir o conhecimento sobre a prática do trabalho, restou-lhes ver a cria-
ção de verdadeiros santuários (museu do carvão, “salão cultural do mineiro”)
onde são expostos a técnica e o conhecimento do trabalho transformados
em patrimônio cultural.

Mas a descontinuidade pensada na relação passado/presente não en-


gendra apenas um “ontem” e sim um “devir”. Hoje, a vila não deu ainda sua
última palavra. Apesar da população ter diminuído em mais de 50%, grand-
-combianos ainda estão lá e reestabelecem, sem cessar, um modus vivendi.
Neste contexto, a memória social dos habitantes lhes permite reencontrar
e reatualizar os antigos traços e laços comuns, referências de um sistema
significante que os re-inscreve nos lugares que “falam” de uma vila outrora
mineira.

3.2. A Trama da Vida Cotidiana “Nos


Tempos Letárgicos”
Quando dei início ao trabalho de campo em La Grand-Combe (1987-
1990), cerca de trinta anos me distanciavam do início do fechamento das
minas.

As primeiras impressões que tive do “estado de alma” da pequena vila


eram as de um lugar tranqüilo, com uma estrutura urbana típica de cida-
de do interior. Mas algo na atmosfera a diferenciava de cidades vizinhas,
algo perturbava um ambiente quase rural: era o “vale negro” que cortava a
aglomeração ao meio. Ao longo do vale se espalhavam rejeitos de carvão e
prédios de produção abandonados. Nas ruas circunvizinhas, casas vazias, co-
mércios desativados, bares fechados. Mesmo um viajante não advertido teria
esta sensação de abandono: tudo traía que esta vila e seus habitantes viviam
um profundo remanejamento de uma existência ligada à mina.

66
Cornelia Eckert

Logo nas primeiras entrevistas, o tom de pesar empregado para falar do


vivido no presente denunciava um novo cenário do tempo coletivo: “Esta é
uma vila handicapé”, “esta é uma vila sinistrada”, “é uma vila de aposenta-
dos” ou “aqui só tem velhos”.

“As pessoas que passam por aqui não têm interesse de parar,
porque não existe razão para isto. Aqui não tem nada, não tem
restaurante, não tem hotel. A vila tem uma reputação negativa
de ser feia, suja, o que a torna o último lugar de Cévenne que
as pessoas pensariam em visitar”. (M. Touring, chefe aposenta-
do do setor de compras e vendas da Hulherias).

Várias pessoas me perguntavam por que tinha eu escolhido esta cidade


assim feia para pesquisar, onde apenas um turista “perdido” pararia para
perguntar: “Como eu faço para sair daqui?”, enfatizou o funcionário apo-
sentado M. Touring, entre irônico e amargo. Freqüentemente encontrei este
sentimento de “desonra” junto aos entrevistados, ligado tanto à negação da
fisionomia da vila quanto às mudanças sociais advindas com a ruptura de um
passado dinâmico.

“Nossa vila não é velha, somente os jovens, muitos partiram, os


filhos dos aposentados se foram. A vila era importante, oh lá lá,
como tinha mineiro... éramos quase 2O.OOO habitantes. Hoje
mudou muito”. (“M. Combetta”, m.a.).

La Grand-Combe não é uma “vila velha”, prossegue ele, mas hoje “é


uma vila vazia”, traço que lhe parece degradante, tanto quanto o é dimen-
sionar as “ruínas” do mundo do carvão.

Respondendo às minhas interrogações sobre as causas do fechamento


das minas, os entrevistados sempre apontavam “alguém” ou “qualquer coi-
sa” (“Giscard” ou o “petróleo”, por exemplo) que teria “matado a mina e
enterrado a profissão”. Falavam de uma esperança perdida ao “acabarem
com o melhor antracito do mundo”, que lhes foi “a razão mesmo da vida”.

“A corporação de mineiros como grupo social não existe mais.


O mineiro desapareceu. Hoje, não se reconhece mais um minei-
ro na rua, e olha que em La Grand-Combe não tinha mais que
isto. Hoje ainda vivem os mineiros aposentados, os empregados
de escritório da Hulheria, mas os mineiros, ah, desapareceram.
A corporação não existe mais”. (M. Wanchz, m.a.).

“Sem o trabalho, a vila se degringolou. Era o fim da cumplicida-


de também”. (M. Lacoste, m.a.).

Os que optaram por ficar foram na sua maioria as famílias cujo chefe era
aposentado e cujas vantagens concedidas pelo estatuto profissional permi-

67
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

tiam continuar enraizadas no local: a vila ainda podia lhes acolher. O direito
à assistência, diz um aposentado, “é porque a gente deu a vida pela mina e
muito se lutou pela categoria”.

“La Grand-Combe vive hoje graças aos aposentados. Sem eles,


ela não existiria mais. Nem os jovens ficariam, pois os que ainda
estão aqui é porque eles estão seguros com a aposentadoria
dos pais”. (M. Sunier, m.a.).

Estranha transformação de uma vila que passou a ter nos benefícios dos
aposentados, sua maior fonte de renda. O número expressivo de aposenta-
dos justifica-se pelo fato de constituírem eles uma “população protegida”,
aquela que graças ao Estatuto do Mineiro e da política de assistência do
“Estado-Providência” pôde permanecer na vila:

“Pra mim é confortável ficar em La Grand-Combe. Aqui tem


uma assistência social mineira eficaz. É claro que nada disso
nos foi dado de presente, hem. Isto tudo é resultado de muito
trabalho na mina, mas estou contente de ter resistido 30 anos
de fundo e hoje tenho uma aposentadoria que entra todos os
meses, tenho algumas vantagens, médico, medicamento, tudo
de graça. O que posso eu, hoje, querer de melhor? A calami-
dade hoje são os jovens que enfrentam”. (M. Voldany, m.a.).

O declínio econômico impregnou lentamente os hábitos grand-combia-


nos, concebendo de um lado uma geração que é em verdade a última de
mineiros grand-combianos, e de outro uma nova geração que cresce no in-
terior do “tempo de crise”, pagando os tributos de viverem numa vila “des-
motivada”.

Muitos jovens partiram para grandes centros urbanos da região (Alès,


Montpellier etc) e do país (Paris, Lyon etc) em busca de trabalho ou de es-
tudo, pois em La Grand-Combe, muitas escolas foram fechadas por falta de
recursos e clientela. No âmbito nacional, a vila figura hoje como zona de
forte fracasso escolar. Para os que ficaram, o mercado de trabalho é limitado.
Ao lado da municipalidade, principal empregador, restaram poucas ativida-
des comerciais, artesanais e serviços públicos. A maioria engrossou a lista de
inativos. O desemprego transformou-se numa espécie de imagem que marca
a vila, assim como outrora fora o pleno emprego:

“Aqui só tem desempregado. A gente fala nisto o tempo todo.


Se tu pergunta ‘oi, e daí, o que tu faz agora?’ a responta é sem-
pre a mesma ‘Bof, tô desempregado’. Só existe esta palavra nas
bocas: desemprego, desemprego... Olha (ri), acho que esta é
uma geração desencantada”. (Mlle. Moline, 21 anos, estagiária
no centro de informações turísticas e culturais).

68
Cornelia Eckert

Esta é “uma geração desencantada”, enfatiza, talvez influenciada pela


letra da música de maior sucesso, então.(74) Para os jovens que ficaram, como
Michel, filho de mineiro, a realidade é bem distinta daquela que seus ascen-
dentes conheceram:

“É isto aí, depois de três gerações eu sou o primeiro a não por-


tar o cabas. Eu sou um desempregado mas eu não vou deixar
as montanhas, o vale do meu pai. Prefiro ficar. Quando dá eu
pego um serviço nos restaurantes da região... no verão sempre
entra um dinheirinho...”.

Entre os que partiram, “a maioria não volta nunca mais”, sugere Mme
Lazaret, responsável pelo serviço municipal de assistência aos jovens inativos
na vila, mas “sempre há o que volta alguns meses ou anos após confrontar
o fracasso escolar, a instabilidade de empregos”, retornando à casa dos pais,
espaço amortecedor do desemprego. Ficar é não correr riscos, é somar a prote-
ção dos pais ao seguro-desemprego. “Esta é a mentalidade daqui”, responde a
assistente social sobre o porquê de se encontrar, não raro, adultos solteiros en-
tre 25 a 35 anos, inativos, dependentes dos pais aposentados. E, prossegue ela:

“’Esperar que me dêem’, que a ajuda venha de algum lugar,


esta é uma mentalidade que se encontra em La Grand-Combe.
É um pouco de fatalismo. E isto mesmo entre os jovens que
permanecem aqui, que não tem vontade de partir para procu-
rar verdadeiramente alguma coisa. A aposentadoria dos pais
é relativamente boa e, ficando, eles não arriscam nada. Eles
ficam, acho, não sei bem, acreditando que sempre haverá um
governo que lhes dará dinheiro”.

Esta mentalidade pode indicar um “hábito à tutela”? Para os que fica-


ram, a mentalidade pode ser tanto “resignação” como estratégia “do jei-
tinho”. Permanecer na casa, na vila, aparece na maioria dos depoimentos
como forma de garantir o conforto material e moral necessários para enfren-
tar “o tempo de crise”.

Entre justificativas que invocam “uma questão de mentalidade”, “ser


assistido” aparece antes como uma “tradição” estruturadora do habitus de
grupo, do que traço de passividade.

Igualmente determinadas pela situação de crise, foram as modificações


ocorridas no âmbito das moradias sob o jugo administrativo das Hulherias.

74 . “Eu não encontrei repouso na indiferença. E portanto eu queria encontrar a inocência. Mas
nada tem senso, e nada vai bem, e se a morte é um mistério, a vida nada tem de terno. Se
o céu é um inferno, o céu bem pode me esperar. Diz-me, nestes ventos contrários como
fazer? Nada tem mais senso, nada mais vai. Tudo é um caos. Ao lado? Todos meus ideais.
As palavras? Deformadas. Eu procuro uma alma que possa me ajudar. Eu sou uma geração
desencantada”. Música e letra de Mylène Farmer. T.A.

69
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

Com o êxodo massivo, La Grand-Combe conheceu uma espécie de encolhi-


mento urbano. Uma verdadeira mobilização residencial intramuros foi de-
tonada frente ao abandono expressivo de casas e bairros. Nesta mutação
residencial, famílias foram beneficiadas com a aquisição de apartamentos
reformados, contando com um maior número de peças. Famílias numerosas,
por exemplo, foram acomodadas nas antigas casas de engenheiros e técni-
cos administrativos que partiram para outras cidades.

Desenhou-se uma nova repartição espacial, marcada pela tendência de


concentração no centro e nos bairros próximos, cujas casas eram mais re-
centes ou haviam sido restauradas. Esta preferência pelo centro ou bairros
perto do centro também não escondia a busca de aproximação a espaços
que garantissem uma importante sociabilidade (a praça, a feira, a igreja, as
ruas mais movimentadas etc). Buscou-se evitar o isolamento, testemunha
Mme. Lemoine (e.m.), que mudou de uma vila satélite para o centro de La
Grand-Combe:

“No começo, quando ainda tinha muita gente, era bom. De-
pois, na medida em que as pessoas foram embora, isto nos de-
primiu e ficou triste viver a vida aqui só eu e meu velho. Antes,
quando a mina existia, era tudo muito vivo. Ver tudo acabar nos
tocou muito e eu comecei a refletir: todo mundo que eu co-
nhecia, que tinha vizinhado conosco, não tinha mais ninguém.
Aí eu decidi, ‘é melhor mudarmos prá Grand-Combe’. Pedimos
para eles (as Hulherias) um apartamento no centro e eles nos
deram este”.

Foi para evitar a sensação de viver num deserto de laços afetivos que
este casal partiu do lugarejo onde nasceu e viveu. Preferiu aproximar-se do
espaço onde seu grupo de referência atual, “os aposentados da mina”, se
concentra e onde pode reconstituir redes de vizinhança, de amizade para
melhor conviver com seus anos de velhice. Permanecer na vila “apesar da
crise tem suas vantagens”, sobretudo o fato de poder reencontrar no seu
mundo imaginário o “reconforto psicológico” do lar, do grupo, do espaço
social onde se reconhecem mais facilmente os papéis a serem desempenha-
dos nos rituais de interação cotidiana. Apesar de ocuparem novos espaços
de habitação, o fato de permanecerem na vila serviu para muitos como re-
ceptáculo das ligações sociais e afetivas das práticas e visão de mundo ainda
amarradas às relações que predominavam na vila mineira.

A mutação residencial, que perdurou de 1970 a 90 (administrada pelo


Serviço Imobiliário das Hulherias), redimensionou as redes de vizinhança no
território urbano, tanto para os que se mudaram para o novo bairro, como
para aqueles que conheceram novos vizinhos. Morador há mais de 50 anos
de um bairro tradicional de mineiros (La Pise), M. Poincaré, ao referir-se à sua
vizinhança, dizia, “A metade partiu, a outra metade ficou”. De sua sacada
via casas vazias, outras habitadas e outras, ainda, sofrendo reparos. Justo em

70
Cornelia Eckert

frente, o “vale negro” começava a sofrer as primeiras reformas previstas no


projeto de renovação urbana. Para este interlocutor, a vida também estava
dividida, metade na realidade, que absorvia as mudanças, metade nas lem-
branças afundadas no “tempo da mina”:

“É verdade que eu conheço todos os cantos aqui, porque eu


nasci e fui criado aqui, mas das pessoas que viviam aqui na
época, só ficou a metade; pessoas que eram próximas e que a
gente tuteava. A metade foi embora. Agora nós, os antigos, a
gente tuteia todo mundo, a gente tem este hábito. Agora os
novos eu tuteio também, mesmo que eles não gostem, ‘tant
pis’. Eu tenho este costume aqui na cité, eu tenho familiaridade
com este canto, por isso eu chamo todo mundo por ‘tu’. Não
vale a pena ter vivido aqui todos estes anos e ter que mudar os
hábitos. Não é nada bonito aqui, o vale negro é mesmo feio...
olha lá, não tem mais nada. Mas eu? eu vejo os vagões cheios
de carvão descendo, as máquinas a vapor, a torre puxando o
carvão, o barulho do trem, eu escuto ainda as pessoas gritando
‘ei, pode mandá a próxima carga’. Eu vejo as manobras dos
vagões, dos trens... eu escuto todos os barulhos... Eu imagino
todas estas pessoas trabalhando, como formigas. Hoje tá tudo
deserto, tudo, mas na época da mina, tudo tinha muita vida”.

Evocando estes testemunhos ainda fixos na vila de enraizamento, recos-


turando o ritmo da vida no “tempo da mina”, este mineiro exprime nostal-
gia. O presente? É “metade”, memória do passado.

Poucos julgam a mobilidade residencial interna como um processo de


desenraizamento. Apesar de ser mais uma determinação da situação de cri-
se, não raro ela convergiu com aspirações pessoais e coletivas de melhoria de
condições de habitação e localização da residência. Entretanto, para outros,
como o mineiro M. Jannet, todo este esforço empreendido pelo conforto
material “é tardio”, porque em descompasso temporal com sua história fa-
miliar.

“Hoje estou nesta bela casa, muitos cômodos me foram dados


porque as peças ao lado estavam abandonadas. Mas agora eu
estou velho e sozinho, minha esposa faleceu, os filhos todos
partiram”.

A fragmentação da vida coletiva anterior foi experimentada em cada


lar. Os valores agora desfigurados foram reconectados a partir de outros
códigos e práticas: o estilo de vida tornou-se mais moderno. Neste sentido,
os depoimentos são carregados de contradições; ora o tom dos discursos
livra sentimentos de pesar, “é triste” ver a vila e a comunidade de trabalho
bater em retaguarda; ora ressona o desejo de se integrar à era do consumo
de massa (em termos gerais), mesmo que seja aí localizada a causa de um

71
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

movimento visto como “estranho” à vila mineira: a tendência das pessoas


de recolherem-se à vida privada. É na construção nostálgica de um passado
onde as redes sociais e afetivas se entrecruzavam mais facilmente que hoje
os hábitos cotidianos aparecem inscritos numa ordem social que tende cada
vez mais à privacidade dos indivíduos. Mas, como em toda França, os grand-
-combianos inserem-se num cosmos global e plural, de acesso às novas
tecnologias e confortos da modernidade: televisão, telefone, automóvel etc.

Assim, é vivendo estas complexas experimentações e tensões (um meio-


-caminho entre a família corporativa e o fechar-se em si mesmo) que, os
habitantes da vila “letárgica” reconstituem seu cotidiano, preenchendo o
tempo com atividades domésticas, com lazeres individuais ou coletivos, com
atos isolados ou de interação social. Sobretudo consagram, cada vez mais,
uma boa parte do dia a consumir um “objeto fetiche”, a televisão. Sem sair
de casa e vivendo numa vila decadente, aderem ao consumo de um lazer que
permite a inserção neste movimento de mundialização da cultura, de viver
um tempo global.

Neste contexto, suas narrativas destacam as relações de vizinhança como


a forma de sociabilidade que mais sofre mudanças com o desmembramento
da antiga comunidade de trabalho. Dizem se conhecer, mas não se freqüen-
tam mais como no “tempo da Companhia”. Hoje, os “vizinhos se fecham na
intimidade da sua casa” e “cada um vive sua vida”:

“Penso que hoje as pessoas tentam manter distância, eu acre-


dito que todo mundo está mais na sua casa. Eu, eu também tô
me fechando... “. (M. Jannet, m.a.v.).

Entre reconhecimentos e dilacerações, os velhos vizinhos novos vão re-


petindo que o espírito de solidariedade da “comunidade se esmigalhou” jun-
to com os espaços que vão sendo demolidos e onde eles tinham cimentado
os códigos de reciprocidade e solidariedade. O reverso deste “desinvestimen-
to” nas relações de vizinhança é o significativo refluxo na privacidade do lar:

“Hoje, as pessoas não fazem mais que olhar televisão e as pes-


soas se tornam mais informadas do que acontece lá fora do que
na própria cidade onde moram”. (M. Palloit, m.a.).

Nas brumas dos novos tempos, a modernização aporta a imagem de


degradação das relações de vizinhança, na sua qualidade e sua intensidade
de outrora, e dos códigos culturais e valores de um grupo tradicional.

“Antes, à noite, sentava-se nas calçadas com os vizinhos, os


homens conversavam e a gente fazia um bolo e ficávamos lá
conversando. Hoje? é só tv, tv, tv... O modernismo nos matou,
não se conta mais com o vizinho como antes, a gente as vezes
só se diz bom dia, é tudo”. (Mme. Colin, v.m.).

72
Cornelia Eckert

“No tempo da Companhia”, as relações eram “mais verdadeiras”, “ha-


via mais amizade”, hoje as relações de vizinhança “não são mais as mes-
mas”, este é o tom dado aos discursos carregados de saudades. Em contras-
te, hoje as pessoas experimentam a sensação de viver um “tempo letárgico”.
Metáfora que exprime também outro embaraço inevitável: o sentimento de
envelhecer. Perceber a aproximação da própria morte funda um estado de
espírito que perturba. Na vila deserdada, nesta “vila de velhos”, onde a ce-
lebração de enterros é para o padre local “a atividade mais freqüente do
sacerdócio junto ao da missa”, o luto é ordinário.

“Este não é um país de terceiro mundo como o Brasil. As pes-


soas não são desgraçadas no plano financeiro, mas elas não
esperam mais nada da vida, elas não têm nenhuma esperança.
Elas atendem a morte, só isto. Aqui era um vale pleno de vida.
Certo, o vale era negro e sujo, mas tudo tinha muita vida. Hoje
os habitantes são velhos, eles sabem que eles têm um lugar
no cemitério. Eles só esperam a morte. As viúvas (porque tem
muitas viúvas) vão se juntar com os maridos mineiros mortos
na mina (porque a mina matou muitos homens). É por isto que
eles sofrem e têm tanta nostalgia do passado.” (Padre local).

Mas a comunidade não afunda com este contexto de tristeza. O luto


assegura, justamente, a continuidade da vida. Ela acaba por responder à
obsessão de continuar: reinventa-se o mundo.

Quais que sejam as mudanças advindas, observa-se que, dialeticamente,


as relações de vizinhança têm ainda sua atração e as pessoas ainda inscrevem
aí sua sociabilidade. Ou nos seus discursos, ou nas suas práticas, os velhos
grand-combianos acabam revelando os investimentos feitos para reencon-
trar na vizinhança uma concha de relações sociais. Suas redes são apenas
mais múltiplas e complexas e nem sempre lhes é lúcido conceber novas dinâ-
micas de interação, recodificações marcadas por novas disposições sociais. É
o pertencimento local que muda de forma.

Na mesma lógica colocam-se as relações familiares. “A vida familiar é


uma vida comum”, expressa um aposentado. Ela tanto permanece a base
fundamental da sociedade como conhece transformações consideráveis que
dão conta de novas realidades, condições de vida problemáticas, formas
de sociabilidade, redefinições de papéis, novas formas de viver em família.
La Grand-Combe, como alhures, conhece o aumento do número de lares
monoparentais, a fragilidade das uniões, o aumento da taxa de divórcio, a
concubinagem, a baixa de natalidade, a presença da mulher no mercado de
trabalho. Experimentam-se novas alternativas de constituir família, novas ati-
tudes a respeito da sexualidade (contracepção, planificação familiar, aborto
etc).(75)

75 . Seria enganoso definir a forma preponderante de família como no “tempo da Companhia”.

73
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

É o conjunto de regras matrimoniais que se encontra renovado, dan-


do lugar às exigências do “indivíduo”, ao “narcisismo contemporâneo”(76).
Viver em casal, viver livremente a sexualidade não significa mais necessaria-
mente fundar uma família nos moldes antigos. Entre olhares de aceitação e
olhares críticos, em relatos como “minha filha vive em concubinagem, hoje
cada um é livre”, ou “na minha época, não tinha isto de se juntar”, os ve-
lhos grand-combianos vão delineando seus mundos familiares assim diver-
sos. Ora, as conquistas de movimentos dos quais o “maio de 68” tornou-se
símbolo informam e formam novos valores. Os filhos da última geração de
mineiros não vivem apenas uma crise, eles aderem igualmente à liberação de
expressão social e sexual.

Relações familiares, de parentes, de vizinhança, de sociabilidade, de ami-


zade, de práticas sociais são reencontradas, reatualizadas. Nestes cenários,
dia a dia rotinas são reconstruídas como respostas históricas de problemas
também históricos. A memória espelha referências culturais do passado e é
possível recompor um tempo coletivo e reconhecer-se neste jogo de eterna
reinvenção de “práticas de interações”(77).

Por outro lado, se a população de antigo enraizamento encontra mais


facilmente, no tempo de viver a aposentadoria da mina, novas referências
identitárias, mais complexa é a relação com os grupos norte-africanos. As
novas repartições residenciais não mascaram conflitos étnicos e sentimentos
racistas crescentes.

Concentrados em conjuntos habitacionais construídos na periferia(78),


os “trabalhadores-hóspedes” optam por ficar no país de nascimento de seus
filhos (os beurs) que são igualmente franceses, duvidando dos reais efeitos
de programas de retorno ao país de origem, estipulados pelo governo. Vin-
dos da periferia, a saga destas famílias imigrantes é a de serem mantidas à
margem, mas em um território onde acabam por ancorar seus parâmetros
culturais, apesar da ilegitimidade conferida pela população maior a este en-
raizamento. A despeito da segregação vivida (e dos conflitos intertribais de
culturas milenares(79)) estes imigrantes acabam por construir uma história
local que lhes permita “repousar” na periferia.

Tais grupos étnicos são os que mais sofrem um empobrecimento “nos


tempos de crise”. É justamente em meio a suas comunidades, de famílias

Hoje, assinala Fortin, importa pensar separadamente casal e família: “Não se ousa mais falar
de família como um todo, estamos obrigados de a dar conta dos indivíduos que a compõem”.
FORTIN. (1987). pp. 58 à 66.
76 . SEGALEN. (1981). p 163.
77 . GOFFMAN. (1974). p. 42.
78 . A partir dos anos 60 é em toda França que o governo desenvolve um programa de moradia
popular a baixo custo: HLM.
79 . Trata-se de tensões entre grupos étnicos: turcos, kabyles, marroquinos, algerianos etc. Mas,
em La Grand-Combe, os algerianos são de longe a maior comunidade imigrante.

74
Cornelia Eckert

em geral numerosas, que se encontra o maior número de jovens desem-


pregados. Poucos, entre os beurs, arriscam partir. Marcados por estigmas
(atraso escolar, origem étnica), formam o grupo pior colocado na sociedade
produtiva.

Para o mineiro Rosat, francês, o racismo é recente. Ao contrário do pas-


sado, hoje “o traço de união que nos ligava não existe mais: era o trabalho
que nos unia. No fundo da mina”, repete, “nunca houve racismo”.

Os conflitos e críticas mais visíveis de discriminação por parte da po-


pulação mais antiga visa, na sua maioria, atingir os beurs. “Eles não que-
rem trabalhar como seus pais”, este é o veredicto habitual, e toda forma de
delinqüência retomba sobre suas costas. A xenofobia latente de ontem se
exarceba hoje.(80)

3.3. Variações Sobre o Tema de Sociabili-


dade
A) A vida em um outro ritmo

Percorrendo as ruas no centro de La Grand-Combe, em torno da praça


principal, foi fácil reparar que dia após dia as pessoas idosas freqüentam a
praça, passeiam ou ficam longas horas sentadas nos bancos, sós ou em pe-
quenos grupos. Na primavera de 1989, observei um grupo de homens com
cerca de 70 anos. Realizavam diariamente, durante mais de três horas, o
ir-e-vir de uma ponta à outra da praça. Conversando sempre, eles pareciam
membros fiéis de um ritual de interação. Constatei, também, a formação
insistente de pequenas arenas improvisadas para o jogo da petanca (jogo de
bocha). Para estas pessoas, a rotina é marcada por outro ritmo e os contextos
de sociabilização também são outros.

Hoje, encontra-se um grupo social marcado pelo desmoronamento de


referências identitárias (o trabalho, a mina, a profissão) e, se conjugar-se a
isto a usura física dos mineiros que deram sua saúde ao trabalho, pode-se
captar as determinações estruturais que afundam psicologicamente pessoas
na depressão e na apatia:

“Há pessoas que vivem muito mal a recessão. A diminuição da


população, a degradação do país, os jovens que se vão, não

80 . No momento do trabalho de campo, vários projetos sociais tanto organizados pela


sociedade civil (municipalidade e governo) como pela religiosa (Igreja Protestante e Católica),
desenvolviam ações de assistência e integração dos jovens beurs na sociedade maior. Também
as próprias comunidades étnicas buscam se organizar em associações que visam assistir seus
membros, sobretudo os jovens.

75
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

existem atividades, tudo isto os deprime. Os comerciantes


também vivem mal, fica difícil manter as casas. Hoje está tudo
muito difícil. A gente escuta os aposentados desanimados por-
que eles conheceram a vila com mais animação. Mas é verdade
também que não é só psicológica esta questão: existe também
o lado físico, e percebe-se a respiração difícil dos mineiros com
silicose. A gente pode ouvir a respiração de longe, e é claro, isto
pesa. Mas isto também não se pode generalizar, tem pessoas
que têm um ar feliz, que jogam petanca, que parecem bem.”.
(M. Elly, professor primário).

Ontem, na múltipla ondulação de ritmos, era a mina que pontuava a


cadência da “dança da vida”(81), o trabalho na mina era base de toda estética
rítmica das relações sociais. Hoje, constata-se uma mudança de toda ordem
na vida cotidiana das famílias grand-combianas. O cotidiano da vila é marca-
do por tempos múltiplos cadenciados pelos ritmos fragmentados das formas
de interação diversas na esfera pública e privada. É, nestas modulações de
sociabilidades encadeadas que ritmos se conciliam e que se localiza a reorde-
nação de um tempo coletivo.

Nesta vila, onde em 1987 a metade da população não declarava nenhu-


ma atividade profissional e 23% da população total tinha 65 anos ou mais, o
“tempo livre”, o “tempo desocupado” ou o “tempo liberado da aposenta-
doria”, é privilegiadamente consolidado por atividades do domínio do infor-
mal, da vida associativa. Tendo em conta uma situação de vida financeira e
materialmente confortável, pode-se compreender porque o ritmo tônico da
vida dos antigos mineiros de La Grand-Combe exalta práticas de sociabilida-
de a preencherem um tempo livre (tempo do não-trabalho). As associações,
sem fins lucrativos(82), constituem instrumentos chave de promoção da inte-
ração social e adquirem um peso significativo no cotidiano destas pessoas.

Destronados de antigas referências, sobretudo espaciais, e frente as la-


cunas no seio da família e da vizinhança, a vida social dos grand-combianos
vai se nutrir de formas associativas, onde os organismos benevolentes de-
sempenham um papel primordial. Os diferentes grupos que se formam em
torno de práticas gregárias e lazeres de massa, marcam os estilos de sociabili-
dades na vila. Face à desfiguração da unidade tradicional de inserção coletiva
e apesar dos handicaps de toda ordem, apesar do “luto” permanente, a
comunidade de trabalho se mobiliza em busca de uma sorte de “salvação”,
negando por assim dizer a “trivialidade de uma condição social” que lhes

81 . Faço alusão ao livro de HALL. (1984).


82 . Funcionando segundo a lei de 1901, as associações são benevolentes, sem direito a
benefícios, filiadas a uma federação regional. Os membros pagam cotas e recebem carteira
de sócios, podendo beneficiar-se das atividades organizadas; são submetidos às regras de
funcionamento e de comportamento da associação. A maior fonte de sustento destas, além
das subvenções, são os benefícios com jogos de bingo e loto, que crescem na preferência do
público de idade.

76
Cornelia Eckert

infligiu a história(83). Percebe-se a emergência de novas formas de afiliação


social (“redes translocais, coletividades deslocalizadas ou territorializadas
sobre os modos efêmeros, tais como as assembléias convergentes, lúdicas,
esportivas, etc.”(84)) que geram a vida contemporânea.

Não se pode deixar de observar que para os aposentados da mina, o


aconchego do lar, a privacidade, vão se mostrando uma maneira importante
de viver uma sociabilidade de caráter mais intimista e familiar, mas o isola-
mento doméstico não raro produz sentimentos de solidão tais, que as refe-
rências de senso da privacidade parecem embaralhadas, estranhas. O gosto
amargo do vazio, “o medo do desânimo” e “angústia” são argumentos para
justificar sua inscrição em associações e prática de lazeres diversos.

Dispondo de um tempo livre excedente, os aposentados da mina e os


inativos vão preenchendo de significações um tempo que aparenta vazio. O
lazer lhes permite transpor a esfera de ociosidade para participar de temas
gerais do universo de produção cultural. As associações, por exemplo, não
cessam de crescer na vila, assegurando tempos e espaços para práticas de
sociabilidade e de lazer, onde os grand-combianos podem costurar diferen-
tes redes que recompõem o tecido urbano, reordenando o lugar dos perso-
nagens sociais em cena e permitindo o sentimento de pertencimento local.
Rituais de interação no espaço público reagrupam as pessoas por interesses
comuns, ainda que às vezes invisíveis: a vida associativa é um atalho que
oportuniza restabelecer as relações de amizade, de afinidade e de recipro-
cidade.

Os lazeres constam tanto de práticas livres e espontâneas como de prá-


ticas mais formais, organizadas. A rotina é o tempo de jogar petanca, loto,
bingo, de comprar um jornal, de um bate-papo informal na praça, do passeio,
de ir na feira, de assistir às emissões da televisão, das festas improvisadas ou
marcadas pelo calendário, dos jogos gregários, das atividades recreativas ani-
madas pelas associações ou prefeitura. Estes instantes ganham significação
e eficácia na mise-en-scène da vida cotidiana: as pessoas se reconhecem. Já
as associações assumem diversas finalidades, com regras estabelecidas. Sob
forma de sociedade esportiva ou cultural, estão sujeitas à definição jurídica
e um regimento interno, sobrevivem com cotizações regulares, possuem es-
trutura de diretoria.(85)

“Antes, não tinha necessidade de associação. Tínhamos tudo


aqui, o cinema, festas, esporte. Mas hoje, você faz idéia do que

83 . LUCAS. (1985).
84 . BROMBERGER; CENTLIVRES; COLLOMB. Op. cit. p 138.
85 . Na sua maioria elas reagrupam pessoas motivadas por uma prática (colecionar selos), por um
interesse político-cultural (pais e mestres) por um evento ritual ou tradicional (caçar, pescar,
tourear), por amadores de um esporte ou diversão (esportes em geral, dança, teatro). Elas
podem ter igualmente o objetivo de aglutinar um público com características comuns para
redinamizá-lo em torno de práticas de sociabilidade diversas (Clubes de terceira idade).

77
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

existe de associação aqui? Antes, na minha casa, meus amigos


vinham aqui nos domingos. Tínhamos o coração aberto, era
formidável, hoje não se vê mais isto, então o jeito é os idosos se
associarem, criar um ambiente”. (M. Escout, m.a.).

Hoje, justifica este mineiro, a vida coletiva tem que ser reorganizada. As
pessoas estão muito presas às suas casas e é necessário motivá-las a partici-
par de práticas culturais e sociais: o objetivo consiste nisso, recompor a vida
coletiva.

Entre os espaços de sociabilidade pública mais “reputados”, o jogo de


petanca (bocha), os cafés e a feira nas quartas e sábados aparecem na tribu-
na de honra.

As práticas esportivas são muitas, umas com caráter espontâneo, outras


exigindo maior organização. Entre todas as práticas a petanca é vista como
a que reúne maior número de adeptos, momento privilegiado de encontro
dos “amigos da petanca”. De preferência do público masculino, joga-se me-
nos pelo espírito de competição que pelo prazer de reunir-se, de ver e ser
visto. Ora espectador, ora atleta, o público discute, troca idéias, olha, toma
posição, critica, formam-se grupos de cumplicidade. O evento compõe um
instante forte e é mesmo difícil imaginar La Grand-Combe sem vir à mente
estes pequenos grupos que se formam todos os dias em torno destes objetos
quase sagrados, quando somente a forte chuva é capaz de dispersá-los. O
tempo de jogar petanca lhes permite construir um cenário onde são forjados
sentimentos de identidade e de pertencimento a grupos e a vila.

Outra área privilegiada de reencontros, sobretudo para os aposentados


da mina, são os cafés, pelo menos os que restaram. Alguns entrevistados
dizem freqüentá-los ainda regularmente, mas não como no passado: “Na
saída da mina, a parada no café era obrigatória (ri)” (M. Paudras”, m.a.). Os
cafés hoje estão fechados ou mais vazios, mas permanecem locais de uma
forte sociabilidade masculina. Os aposentados sabem que os cafés são ainda
lugar de acolhimento, onde podem “esquecer” as tristezas e preencher de
atos e pensamentos lúdicos as longas tardes da aposentadoria, como podem
também ativar a memória coletiva e eternizar o passado. Alguns cafés tor-
nam-se sede de alguma associação composta em torno de uma motivação:
ski, tourada, jogo de damas, corridas de bicicleta, passeios nas montanhas,
excursões turísticas etc.

Outrossim, a crise reduz sensivelmente os espaços de divertimento para


os jovens. Restam os bistrots ou a prática de algum esporte ligando-se à al-
guma associação. Sempre que podem, buscam as cidades vizinhas para se di-
vertir, preferencialmente nos finais de semana. Os cafés-lancherias com seus
fliperamas, máquinas eletrônicas, música forte, etc, tornam-se os espaços de
preferência dos jovens da cidade. Tal comportamento não é bem visto pelos
aposentados, que argumentam “nós já terminamos nossa tarefa” e lançam

78
Cornelia Eckert

críticas ao comportamento passivo dos jovens: “São uns parasitas, diz M.


Denoîs, aposentado da mina, “culpa de uma mentalidade grand-combiana”,
conclui seu colega, M. Callam.

O momento mais privilegiado que parece reunir toda a população, ve-


lhos, jovens, crianças, homens e mulheres, é a feira livre nas quartas e sá-
bados. Motivo pelo qual jamais uma entrevista teve lugar nos horários de
feira: as pessoas se organizam durante a semana de maneira a não faltar a
este evento. A cada quarta e sábado, a tradição fala alto e forte na vida dos
grand-combianos. Um evento que sobrevive à recessão, que resta “típico”.

“Neste bairro mais ninguém visita os vizinhos, enquanto que no


mercado, a gente sempre vai e engraçado, lá a gente encontra
os vizinhos e ficamos de papo. Eu sempre vou, só para reencon-
trar as pessoas”. (M. Richard, m.a.v.).

“Eu vou todos as quartas e nos sábados também. Antes tinha


muito mais gente, mas enfim, de qualquer forma ainda tem
bastante gente. Olha, lá a Madame pode comprar legumes e
verduras tudo fresquinho da campanha. São os pequenos cam-
poneses da montanha que vêm vender. E como eles têm pa-
rentes e amigos aqui, é bom, todo mundo se encontra”. (Mme
Bouvier, e.m.a.).

Suporte de um ritual de interação, terreno de intersecção de alteridades


(étnicas, geracionais, sociais etc.), a feira agencia laços sociais, entrecruza
redes e permite os reencontros semanais de velhos vizinhos, parentes e ami-
gos. Aparece como o espaço fundamental no imaginário dos habitantes que
podem neste “tempo” viver uma unidade e ativar lembranças do passado
tanto quanto transmitir novidades. Sem diminuir sua função de fornecedora
de produtos alimentícios frescos, ir à feira é ir ao centro, é dividir um mo-
mento de forte convívio. Na vila, onde nenhuma estação de rádio sobreviveu
ao cataclismo econômico, ir à feira é também informar e ser informado: é
a “Radio Bouzac”, como jocosamente a população apelida os falatórios e
mexericos que correm na feira.

Muitas associações hoje existentes foram criadas “no tempo da Compa-


nhia” e incorporam a própria história da vila mineira. Testemunhas do pas-
sado, asseguram uma espécie de continuidade do coletivo local. Mantêm-
-se práticas culturais de um país de tradição: a banda municipal (Harmonie
Municipale), o grupo de danças folclóricas (Les Joyeux Mineurs), a associação
de belas-artes e literatura (Essor Cévenol), o clube de ciclismo (Vélo-club Cé-
venol), o estádio de futebol (Sainte-Barbe), etc.

A banda municipal foi fundada pela Companhia com o nome de Harmo-


nie de la Compagnie des Mines de La Grand-Combe. Ameaçada de desapa-
recer, a municipalidade a absorve como departamento de música e cultura.

79
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

Os músicos são voluntários e a maioria segue uma tradição da família de


participar da banda. Considerada a herdeira legítima da vida cultural, ela
permite trabalhar a memória da vila e ao mesmo tempo reatualizar, como
associação pública, os interesses culturais.

“Ainda hoje as pessoas se enganam e dizem ‘ah, a Harmonia da mina’,


por que digamos que a gente vá tocar noutra cidade, pra representar a cida-
de. Aí não tem jeito, sempre nos apresentam como a ‘Orquestra das Minas
de La Grand-Combe’, sem querer né. As pessoas não conseguem ainda se
acostumar de outro jeito, acho que por muito tempo ainda vão dizer que nós
somos os músicos da mina”. (Diretor da Associação).

No presente, esta orquestra é o grupo cultural mais solicitado tocan-


do em diversos eventos e representando as bandeiras da vila em festivais
regionais. Em cada ocasião, de forma singular, ela empresta referências de
uma continuidade da história coletiva dos grand-combianos. Outrossim, o
convívio que ela cria em torno dos ensaios, viagens, apresentações, ativida-
des festivas, garante um “espaço familiar” aos participantes e simpatizantes:

“Os músicos, enquanto podem ainda dar um sopro, não


largam a orquestra. Depois a gente ensina as crianças, tem
muitos jovens, é este ambiente que os atrai. Não é só pela
música, eles aqui encontram os colegas, se distraem, a gente
organiza passeios, festas, tocamos em várias solenidades e
sempre tem um grupo grande que nos acompanha”. (Diretor
de Orquestra)

Vista como patrimônio da cidade, a Harmonie Municipal pertence ao


local, unindo o campo de práticas atuais às tradições. Da mesma forma,
a associação de danças folclóricas Les Joyeux Mineurs era subsidiada pela
Companhia; ali filhos de mineiros e aprendizes eram iniciados em danças
folclóricas. Hoje esta sociedade de farândolas persiste como associação be-
nevolente, dispondo de uma sede onde meninas e moças aprendem danças
típicas. As bailarinas sempre iniciam suas apresentações com uma coreogra-
fia que homenageia o passado da vila mineira: “a dança do trabalho”. Imi-
tando gestos dos mineiros e vestidas de macacões e capacetes, esta dança e
este grupo são considerados um “cartão postal” da cidade, apresentando-se
em festivais regionais e mesmo internacionais. Como coloca o presidente de
honra, M. Lart:

“A gente luta para manter uma coisa típica daqui... “.

Vários aposentados e os pais das moças e meninas se mobilizam em


torno desta associação artística, promovendo espetáculos, excursões e, da
mesma forma que as outras associações, buscam em torno deste interesse
comum, alimentar uma atividade que os “faça crescer” e impulsione mo-
mentos de assembléia cultural e lúdica.

80
Cornelia Eckert

Outrossim, o clube Essor Cévenol nutre a vida literária e artística na cidade.


Como as precedentes, é herdeiro de iniciativas nascidas em outra época. Seu fun-
dador foi o criador do brasão da vila, e seus responsáveis almejam dar seguimen-
to ao estímulo da produção literária e plástica na pequena vila. Como os outros,
este grupo se considera uma instância local que possui legitimidade e respon-
sabilidade de defender a cultura grand-combiana. Cultura com “C” maiúsculo,
porque, segundo seu presidente, é esta associação a “mais erudita da cidade” e
responsável pela libertação das potencialidades culturais e artísticas locais”.

“É com muito prazer que um grupo de artistas e intelectuais


se mobiliza a divulgar nossa arte e literatura. Lutamos contra
a mediocridade que nos ameaça. Ensinamos a carreira artística
às crianças, somos todos benevolentes. Temos um papel funda-
mental de desalienar e criar o desejo de fazer alguma coisa pelo
futuro de La Grand-Combe, talvez assim se crie um laço entre
a vila e o indivíduo para os jovens que hoje não vêem isto tão
fácil”. (Presidente do Essor Cévenol).

Esta associação reivindica uma missão importante face à situação atual


da vila, garantindo um espaço de prática cultural e de desenvolvimento do
gosto artístico. Organizam exposições, concursos de desenho etc. Não é sur-
preendente constatar, dando ouvidos ao longo discurso do presidente, que
este clube se coloca como microcosmo dos detentores do capital cultural e
social que busca a legitimidade de reconhecimento e prestígio. Pertencer a
este grupo é uma via aberta a uma estratégia de ascensão social que supõe
aprendizagem de uma socialidade mais elitista.

Apesar das descontinuidades produzidas pela virada de sua história, o


clube Stade de Football Sainte-Barbe é a associação esportiva mais antiga da
cidade. Criada pela Companhia, que queria que suas divisas fossem difundi-
das também pelo esporte (como no caso da orquestra), apenas recentemen-
te esta entidade passou a ser de responsabilidade pública.

“Naquela época era uma honra jogar ou ver um filho participar


da formação que representava a Companhia. Com isto tinha-se
vantagens in natura e prestígio. Hoje, as dificuldades da vila em
recessão são um entrave ao sustento da equipe. O estádio ia
mesmo tombar, quando resolvemos fazer uma associação de
amigos que administra, com alguma subvenção do município,
este clube”. (M. Pointes, m.a.).

O universo futebolístico converge os interesses de diversos grupos: os


esportistas, jovens da cidade ou da região que são voluntários para jogar,
os “apaixonados por futebol” que se mobilizam como torcida ou como or-
ganizadores de eventos esportistas ou de promoções para arrecadar alguma
renda (almoços, sorteios, etc) e os políticos do local e da região que tentam
também participar da diretoria etc.

81
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

A diretoria deste clube recebe, porém, críticas acirradas dos membros da


comunidade algeriana e kabyle, por contratarem, sobretudo jovens “bran-
cos e europeus” (alunos de uma grande escola de engenharia de minas da
cidade vizinha de Alès, por exemplo) e de discriminar os jovens de outras co-
munidades étnicas que vivem no local. Neste clima de hostilidade, os velhos
algerianos reagem e criam um time de futebol que representa as divisas de
uma vila satélite. A iniciativa ganha sucesso, os jovens filhos de algerianos em
poucos anos ganham posição de destaque nos campeonatos regionais. Nos
anos de meu convívio na vila, a situação conhecia mudanças. Com a eleição
de uma nova diretoria, o “estádio Sainte-Barbe estava disposto a ganhar
uma estrutura mais democrática”, assegura um associado.

Outras associações nasceram no “tempo da recessão”(86), fruto da von-


tade de querer dinamizar a vila com atividades culturais, assistenciais, de
lazer. É para “animar a vila” que, por sua vez, a municipalidade estimula
com subvenções a multiplicação das associações. As mais representativas
são aquelas voltadas para a terceira idade. Importa também citar as asso-
ciações de caráter político, com peso, sobretudo para os aposentados que
guardam na participação em associações de velhos trabalhadores aposenta-
dos ou pré-aposentados, um elo com a vida de lutas e resistências operárias
do passado. É um lugar de unidade também para se organizarem agora na
garantia de direitos dos mineiros aposentados. Outras, ainda, voltam-se a
uma população mais jovem. A ociosidade destes preocupa a sociedade, que
busca fórmulas de organização para incitá-los a inserir-se em práticas sociais
entendidas como positivas. As práticas esportivas são as mais incentivadas
a fim de cultivar entre os jovens o gosto pela competitividade e conquista,
valores importantes dos novos tempos.

Tratar destas formas associativas é dimensionar uma forma de recom-


posição da organização social da comunidade, de uma reconsideração do
sentimento de localidade, do tempo da coletividade, da história do grupo o
que pode ser resumido nas palavras: identidade social.

É vivendo essa dialética da continuidade e da descontinuidade de tem-


pos superpostos que se pode finalmente encontrar o “repouso vibrado”(87)
86 . Associações Esportivas: Aéro-Club Grand’Combien, Basket Avenir Sportif Grand’Combien,
Ring Cévenol, Amicale Cycliste, Les Amis de la Danse, Crinière Cévenole, Natation
Grand’Combe, Moto-club Grand-Combien, Ski-Club Grand’Combien, Société de Pêche,
Perdansa, Haltérophile Grand’Combien, Tennis-Club Sainte-Barbe, Société de Chasse, Club
Taurin Ricard, Karaté-club Grand’Combien, Association des Loisirs Equestres e 16 sociedades
de petanca. Sociedades culturais: Amicale des Algériens en Europe, Age d’Or, Retraités
M.G.E.N., Club Léo-Lagrange, La Belle Epoque, Club de l’Amitié, Chorale Municipale, Radio
Anthracite, Photo Club, Union Associations de Trescol, Union des Femmes Françaises,
Association des Vieux Travailleurs, CSCV., CNL., Amicale des Employés Municipaux, Association
des Résidents Foyer des Pins, Croix Rouge Française, Ecole de Musique, Familles Nombreuses,
Amicale Philatélique, Fondation Emile-de-St.-Preux, Association d’Aide pour la Culture Turque
et l’Islam, Point Rencontre des Jeunes, Association Familiale Rurale de La Grand’Combe,
Comités des Fêtes Municipales de La Grand-Combe etc.
87 . BACHELARD. (1988). p. 133.

82
Cornelia Eckert

dos valores de duração da comunidade de trabalho, as identidades e solida-


riedades, onde “a organização da memória é paralela a essa organização da
duração presente”(88). Nestes jogos de interação, o passado é “composto”,
o presente, engrenado.

B) Receitas para triunfar sobre o caos.


As associações emprestam, destacadamente, outra imagem à vila. Num
crescendo vertiginoso, os clubes de terceira idade surgem entre os anos 70-
80 e reúnem hoje um grande número de membros. Como conta M. Peyric,
membro do clube Age d’Or:

“O número de aposentados crescia, e mesmo aos 4O ou 45


anos de idade, os mineiros eram obrigados a aceitar a aposen-
tadoria técnica. E aí, o que fazer? Alguns eram idosos, outros
ainda jovens, mas todos sem nada para fazer. Aí pensamos em
fazer uma associação que organizasse corais, festas. Daí nasceu
este clube que é o maior daqui”.

Ao contrário da associação do centro de La Grand-Combe, as da peri-


feria têm uma clientela predominantemente feminina. Mulheres, em geral
entre 50 e 80 anos, reúnem-se diariamente em pequenas sedes subvencio-
nadas pela prefeitura para ler, jogar cartas, tricotar, bordar, mas principal-
mente... conversar.

Homens, em geral aposentados, também são associados, mas não par-


ticipam das atividades diárias, preferem passear em pequenos grupos, jogar
petanca, frequentar um café ou as “casas de aposentados”(89) ou ficar em
casa.

Mme. Orin, que foi a principal incentivadora da fundação de um clube


de terceira idade na periferia, conta que a idéia nasceu do desejo de criar
ocupações para as mulheres isoladas, muitas viúvas, que “estavam entedia-
das, deprimidas” e que, à parte a televisão, “não tinham nada para fazer de
suas longas e tristes tardes”. Animadas pela eficácia da associação, elas se
distraem entre excursões, peregrinações, almoços coletivos, festas com dan-
ça. Equipes de visitas a doentes ou idosos que não participam do clube são
também ativadas, são as novas práticas de vizinhar.

Ligando-se ao clube, explica a presidenta de um deles, “a gente reen-


contra a moral, um bom ambiente e amigas. Agora não me sinto mais tão só,
entende?”. “Ligar-se” a associações é constituir e amarrar laços de relações
solidárias e afetivas.

88 . BACHELARD. (1988). pp. 50 e 51.


89 . Pequenos salões de lazer cedidos pela prefeitura para a reunião cotidiana de aposentados.

83
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

Conhecer as festas em La Grand-Combe é outra leitura importante da


vontade de “durar”, de ver e sentir-se no social. As festas diversas, públicas
ou privadas, possibilitam também marcar um tempo ondulante que arma de
momentos “extraordinários” o cotidiano, que permite transfigurar a rotina.
As festas familiares, casamentos, aniversários, batizados, festas religiosas,
festas populares, festas políticas, todas oportunizam viver um momento es-
pecial de ver em alto relevo seus valores.

No passado, as principais festas estavam ligadas ao mundo do carvão.


Hoje, só fragmentos são recolados no seio de uma atualidade marcada por
eventos que misturam passado e presente, porque de um lado, suas signi-
ficações perduram no curso da história, por outro, reatualizam os signos e
valores de identidade coletiva, novas combinações sociais e simbólicas sobre
o “inventário das possibilidades”(90).

Elas são de natureza diversa, festas cíclicas (Carnaval, Páscoa, Na-


tal), festas votivas, festa de conscritos, festas de feiras de diversão etc.
Algumas, como Finados, denunciam por sua recorrência e importância
que na vila a morte ameaça a ganhar sobre a vida, conforme desabafa
o padre local:

“Aqui a festa que tem mais movimento é nos Finados. De


fato são as sepulturas hoje que fazem os jovens voltarem para
um enterro, para ver a cripta de um parente. Pois é, são as
sepulturas aqui que fazem o evento. A festa mais concorrida
sempre foi a Santa Bárbara mas agora acho que é a festa dos
mortos”.

A cada enterro, que simboliza um pouco a morte da vila, os participan-


tes testemunham os laços de sangue e de afinidades que unem os vivos, as
famílias, à vila.

Entre as festas coletivas do passado que permanece importante tempo


de comunhão, que fala de um “nós” local, estão a de Santa Bárbara e a de
Nossa Senhora do Laval. São as que com mais força guardam importância
na memória coletiva do grupo. Ambas tornaram-se ritos de tradição do país
mineiro, banhadas de uma atmosfera religiosa e impregnadas do contexto
de pertencimento a comunidade católica. Hoje, somente a festa de Santa
Bárbara tem sua comemoração assegurada anualmente, organizada por uma
coordenadoria municipal.(91)

90 . VILLADARY. (1968). p. 189 e 190.


91 . Analiso detalhes desta festa no artigo “Passado e presente de devoção na padroeira dos
mineiros de carvão. Estudo da Festa de Santa Bárbara no Brasil e na França”. In: TEIXEIRA,
S.A.; ORO, A.P. (Org.) Brasil&França. Ensaios de Antropologia Social. Porto Alegre, E. da
UFRGS, 1992. pp. 55 a 77.

84
Cornelia Eckert

C) “Do negro ao verde”

Em 1988 e 1989, muitos dos espaços industriais e residenciais constru-


ídos “no tempo da Companhia” permaneciam intactos na “vila em crise”.
Justamente visando mudar esta imagem, a municipalidade lançou o “Projeto
Verde” ou “Reconquista Urbana e de Desenvolvimento de La Grand-Com-
be”. Alinhavado desde 1970, este começava agora a ser desenvolvido pelo
poder local recém eleito (início 1989).(92)

Seu governo logo foi marcado pela busca apressada de acabar com o
clichê de “velha cidadela de mineiros”, enfeiada por casas decadentes, acin-
zentadas, por edifícios industriais abandonados e em ruínas e, sobretudo,
tatuada pelo “vale negro” que rasga o tecido urbano ao meio, signos que
mostravam um espetáculo da gravidade do declínio econômico do mundo
mineiro.

La Grand-Combe sempre fora “negra” na sua cor dominante no passa-


do, mas essa textura, agora, cobria um país devastado. Hoje, face ao desa-
parecimento da razão econômica, a estética da vila fez-se tragédia. Outrora
verdadeiro pulmão da economia do país, o “vale negro” penaliza, “incomo-
da e enfeia o ambiente”, sentimento forte nas representações de entrevista-
dos. Hoje a morte da mina está selada. A supressão dos restos espaciais do
trabalho mineiro é aceita como interregno para transformar a vila e buscar
um novo status.

Assisti a diversas sessões do Conselho Municipal que discutia o proje-


to. Um grupo, majoritário, colocava-se a favor de “transformar o passado
em uma atração turística”; outros defendiam a demolição total do antigo
parque industrial a fim de “apagar as lembranças de um país decadente”.
A intenção do primeiro grupo de políticos era de convencer que o passado,
transformado em monumento histórico, poderia vir em proveito da cidade.
Esta tendência venceu. A municipalidade administrou a transformação do
“vale negro” em “vale verde”. Uma parte do patrimônio foi recuperada e
convertida em “Museu da Mina” e centros culturais; terrenos foram ativados
para a instalação de pequenos comércios.

Que se trate de um élan individual ou de uma ação política e coletiva, o


que se percebe sobremaneira é a vontade de “mudar a imagem da vila”, de
vestir uma “nova roupa”, negando a desclassificação. A mina pertence ao
passado e, com ela, o status de vila mineira.

Um movimento de reapropriação do espaço urbano foi criado acionan-


do as associações locais. Comitês discutiram a operação de definir o que viria
92 . Após quase 30 anos de uma municipalidade socialista, as esquerdas não entram em acordo.
A divisão é fatal, e é um candidato representando um partido de centro-direita que assume a
prefeitura.

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Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

a ser patrimônio da vila e o que seria demolido para ser transformado em


área verde e de lazer. A prefeitura adquiriu boa parte dos bens imobiliários
das Hulherias na cidade por um preço simbólico. Um concurso de desenho
foi lançado nas escolas para que as crianças se manifestassem sobre a refor-
ma da antiga parte da cidade condenada à demolição. Todos os desenhos
foram expostos no salão municipal. Poucos apontavam soluções econômicas,
a preferência recaiu sobre projetos culturais e relativos a lazer, espaços de
jogos e reencontros.

Uma campanha foi também lançada via imprensa, em que a prefeitura


e os comitês do “Projeto Verde” solicitavam sugestões sobre as mudanças
urbanas ao público em geral. As sugestões recolhidas, somadas ao resul-
tado de pesquisas feitas por experts, mostraram que “todos aspiram à que
a vila seja recriada, fixando uma nova imagem sobre a antiga, assim, ela
trocaria uma vila que não diz mais nada contra uma vila que teria ao menos
razão de ser vista, não parece mais haver razões para La Grand-Combe
existir com a imagem atual”(93). O dossiê final destacou a vontade da maio-
ria de “limpar” a imagem da vila: demolição de casas, prédios industriais
e oficinas vetustas. Conservam-se apenas alguns traços que perpetuam a
memória do social.

O programa de revitalização da vila apresentou-se como um projeto de


participação da população local e de integração da vila ao quadro turístico
dos vales e montanhas cevenois. Imagens ativas das hachuras de uma vida
social, os grand-combianos bordam, aqui e lá, harmonias com a paisagem
natural original chamada “campanha”, “espaço verde”, “Cévenne rural”:
irônica situação após um século de superposição espacial mineiro-agrícola.
De fato, a vila nascera de uma intenção que sempre agredira o meio ambien-
te natural. Para extrair o carvão era preciso destruir a paisagem em nome do
que os capitalistas denominavam de, “a lei da evolução”: industrializar. Hoje,
face a uma sociedade de consumo de massa dotada de valores “revolucioná-
rios, de transformação”, de outro estilo de vida, a intenção é teatralizar um
retorno à natureza, revelando uma eficácia econômico-simbólica igualmente
interessante ao capital: a indústria turística ganha sobre a produção agrícola
e a indústria tradicional. Sobre a vila mineira, uma cidade cevenol transfor-
mada em “local de peregrinagem estética e de consumação turística”(94), é
projetada. Modernizar a vila, como propõe o projeto, é virar definitivamente
uma página para o renascimento de La Grand-Combe. Um projeto ambicio-
so, mas “nada é impossível na busca de uma porta de saída”, explica um
funcionário da prefeitura.

A aspiração da ex-vila mineira é de agilizar um novo status, “o de vila


de férias”, que viria a se somar ao de “vila-dormitório”, oferecendo aos
turistas uma vila restaurada, reabilitada no mesmo sentido de um “desejo

93 . Estudo sobre reconversão da vila. In: DUCKERT & LARGUIER. (1987). p 118 e 119.
94 . LEFEBVRE. (1968). p. 17 e 18.

86
Cornelia Eckert

museofílico”(95). Alguns dos “traços-resto” do passado são demolidos, ou-


tros selecionados para petrificar emblemas guardados em santuários da me-
mória. O patrimônio recoloca em cena os valores e o senso do savoir-faire. A
cultura técnica e a memória operária permitem a ilusão de preencher de sen-
tido, com os símbolos do passado, os vazios que pertencem ao presente.(96)

Trata-se, explica um grand-combiano “de apagar todos os aspectos ne-


gativos que denunciam uma crise”, que colocam a nu uma batalha perdida,
“de integrar o passado mineiro ao presente”, tudo persuadido de que o
espírito mineiro não existe mais. O museu da mina parece aqui garantir à
consciência que, apesar de “limparem” a vila, fragmentos da história local
serão expostos às futuras gerações. A memória coletiva é apropriada como
um patrimônio cultural a ser preservado na vila, uma identidade e uma vo-
cação cimentadas em imagens tombadas como num ato de consagração
simbólica do objeto(97).

Em final de 1989, La Grand-Combe transformou-se em um gigantesco


terreno de obras. As demolições foram anunciadas pela imprensa regional:
“Chegou a hora da dinamitação, os símbolos do passado mineiro serão de-
molidos, um espetáculo a trazer um cortejo de nostálgicos que depositarão
ali suas esperanças de um futuro melhor?” O espírito de promoção das mu-
danças projetadas pelo prefeito também foram anunciadas: “La Grand-Com-
be conquistará uma nova dimensão”, justifica, criando um fórum espacial
de animação e estabelecendo uma zona de indústria turística com museu,
parques, hotel, campo de golfe, piscina, campo de tênis etc.

No dia da dinamitação, e os prédios vetustos prontos para serem im-


plodidos, “parou o relógio da cidade”, diz metafórico M. Soulages. Cedo
se dirigiu ao local protegido pela segurança para poderem assistir o evento
da demolição. Relata emocionado que no dia previsto os grand-combianos
“estavam todos lá”, como que para assistir a um espetáculo a ser registra-
do: máquinas fotográficas e filmadoras colocadas em ação, tudo foi previsto
para imortalizar a agonia da mina. Rostos emocionados: a comunidade de
trabalho contemplava, enlutada, afundarem os mitos do “pequeno trabalha-
dor infatigável”(98). A estética urbana de vila mineira desfez-se radicalmente,
não sem exprimir um novo corpo à cidade “em crise” onde pudesse repousar
a velha alma mineira moribunda.

Nem todos grand-combianos pareciam estar convencidos dos benefí-


cios deste projeto, tampouco das palavras do prefeito que garantiam uma
solução quase miraculosa para o futuro. Alguns intelectuais, professores e
95 . A regeneração da vida social passa pela recuperação da memória coletiva. O passado é
engendrado por novas formas, de musealização, que “impõe uma ordem equivalente aos
restos das identidades culturais”. JEUDY. (1986). pp. 25, 33, 41.
96 . JEUDY. (1986). e LUCAS. (1985).
97 . JEUDY. (1986). 22 e 23.
98 . Faço alusão a MURARD & ZYLBERMAN. (1976).

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Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

mineiros, manifestaram-se sobre os limites destes investimentos, primeiro


timidamente, ganhando durante 1990 cada vez mais espaço na imprensa
regional: “A prioridade é garantir o trabalho, uma diversidade de atividade
e investir na formação e educação, e não sonhar com piscinas e canchas
de golfe”, argumenta M. Veblen, intelectual e político grand-combiano. Os
últimos depoimentos que recolhi em campo foram marcados pelas críticas
à ação do poder local. O prefeito era visto por muitos como “ganancioso”,
por “usar” o projeto de renovação urbana em proveito político próprio. Para
estes contestadores, o projeto municipal de reabilitação urbana, tal como
vinha sendo coordenado, apenas reforçava as características mais negativas
de uma “mentalidade grand-combiana”, “a passividade”.

“Esperar pelos turistas, criar apenas empregos sazonários, zo-


nas de lazer que custam caro para serem conservadas, enfim,
é uma política perigosa que não leva necessariamente a um
resultado positivo. É de trabalho, e de trabalho assalariado que
nossos jovens precisam, mesmo que eles não percebam isto
claramente”, explica M. Veblen.

A forma mais concreta pela qual este pequeno grupo (cujos participan-
tes ainda não são claramente classificáveis), se manifesta é na oposição fer-
rada à intenção do prefeito de substituir o brasão da vila, “Mans Negros,
Pan Blanc”, para “La Grand-Combe em Cévennes”. O mal-estar não passa
despercebido nas opiniões dos entrevistados. O poder, dizem, “exagerou em
sua vontade de transformar radicalmente a imagem da vila”, “botando a
mão onde não devia”, isto é, nos símbolos imaculados que sustentam emble-
maticamente a memória da comunidade de trabalho. Como argumenta um
velho mineiro: “O prefeito não precisa apagar as boas lembranças. Acho que
ele está errado. Para que destruir o que nos resta de bom, nosso brasão?”.
Por que tocar nos símbolos de tradição que têm este efeito mágico de cimen-
tar um tempo coletivo superposto pelo presente?

Entre outros signos, o brasão fala da história da vila mineira. O novo pre-
feito é acusado de “estrangeiro” por “não ser grand-combiano”, “ser novo
na cidade” e ainda por cima “trabalhar numa cidade vizinha” etc. Razões
encontradas pelos entrevistados para compreender por que ele não conse-
gue captar os símbolos de honra sobre os quais os atores sociais conformam
suas recordações. “A renovação”, dizem, todos querem com fervor, mas não
ao preço da destruição até dos marcadores emblemáticos sagrados selecio-
nados pela coletividade para serem conservados como patrimônio, testemu-
nhas do passado. “Não se trata de chorar por aquilo que se perdeu”, diz M.
Veblen, mas de garantir as referências tradicionais por necessidade de segu-
rança identitária, onde possam ancorar a temporalidade das tradições, das
práticas-técnicas, e perpetuar sobre os eventos desestruturantes a duração
de uma cultura: a da comunidade de trabalho grand-combiana.

88
CAPÍTULO
4

TEMPOS DE NARRAR: RELATO DE


UMA PESQUISA ETNOGRÁFICA NA
FRANÇA(99)
O texto etnográfico é ritmado ele próprio pelas experiências de deslocar-
-se, inserir-se, ser aceito, vivenciar, partilhar, interagir com consentimento
e despedir-se para o compartilhamento mais universal de sua narrativa que
não só será devolvida ao grupo, como circulará no mundo acadêmico em
suas premissas de formação e pesquisa. Minha experiência não foi diferente
do que reza a antropologia tradicional. Ter estado lá para observar, é sobre-
tudo a escuta que nos aproxima da partilha da vida cotidiana. Os escritos em
diários, as imagens fotografadas, os acervos testemunhados, as linhagens e
estruturas de parentesco diagramadas, os exercícios de redes sociais, são to-
dos instrumentos válidos para o propósito de relatar o exercício etnográfico
construído a partir de uma prática de campo desenvolvida na França, onde a
observação direta e participante e as entrevistas livre e semi-diretivas consti-
tuíram a base da minha démarche antropológica. O estudo desenvolvido de
1987 a 1990, nesta “vila” (como identificam sobremaneira) que o(a) leitor(a)
agora já esta familiarizado, a cidade de La Grand-Combe, sul da França, foi
na realidade o meu trabalho de doutorado defendida em março de 1992
na Université Paris V (Sorbonne). Esta pesquisa, na França deu continuidade
ao tema de pesquisas em torno das condições de vida de trabalhadores de
extração que eu havia desenvolvido no Brasil de 1983 a 1985, defendida
na forma de dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em
99 . Este texto consta de partes da introduçäo e do capítulo metodológico da tese de doutorado
Une ville autrefois minière: La Grand-Combe. Etude d’Anthropologie Sociale. Tome I, II e III.
1025 ps. Université Paris V, Renè Descartes, Sciences Humaines - Sorbonne. Paris, abril 1992.

89
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

Antropologia, C. Política e Sociologia (ênfase Antropologia) na Universidade


Federal do Rio Grande do Sul, na cidade de Porto Alegre orientada pelo an-
tropólogo Prof. Ruben George Oliven100.

Na França, a problemática maior de estudo consistiu em investigar o


impacto interpretado pelos habitantes-herdeiros de uma cidade industrial em
face de um processo de recessão econômica e suas conseqüências nos dife-
rentes domínios da vida social dessa população.

La Grand-Combe encarnava o contexto idealizado para o objetivo de


meu estudo: conhecer as mudanças sociais sofridas pela população em uma
cidade inserida num processo de desindustrialização, após ter vivido um lon-
go período regido por um sistema monoindustrial e de urbanização do tipo
vila industrial. Era com muita frequencia que os interlocutores se referiam ao
“esvaziamento da vila”. Os registros municipais indicavam 7 mil habitantes,
uma baixa demográfica expressiva após uma efervescência populacional em
torno da unidade industrial que registrava uma população de 20.000 habi-
tantes na primeira metade do século XX. Retração que sugere um drama
vivido por esta comunidade.

A partir deste estudo de caso busquei entender a situação vivida pelos


mineiros de carvão frente ao desaparecimento do seu mundo de referência
- a mina. O exercício etnográfico testemunhava a “morte” de uma profissão
e a dispersão da comunidade tradicionalmente ligada a esta prática de tra-
balho. Estar em campo permitia assim compartilhar as narrativas das famílias
pesquisadas sobre as grandes transformações nos seus modos de vida, nas
suas sociabilidades e nas suas organizações sociais. Era também observar os
movimentos do poder municipal em seus projetos políticos de revitalização
e mudanças de gestão urbana. Em todas as ações refletia a determinação
sócio-econômica: o fim das minas de carvão que transtornar projetos ocupa-
cionais individuais e coletivos, desordena uma cultura singular que gravitava
em torno da extração carbonífera.

A) Uma prática de campo às avessas?


Tradicionalmente interessada pela diversidade cultural dos grupos so-
ciais, pelas diferentes experiências vividas historicamente estruturadas, o an-
tropólogo em geral inicia sua pesquisa de campo com um deslocamento
(no bairro, na vila, ou em outros tantos espaços sociais), o que lhe engaja a
“viajar” no espaço e no tempo.

Contando sua experiência etnográfica no Brasil, o antropólogo francês


Claude Lévi-Strauss deixou registrado em Tristes Trópicos que “... as viagens
100 . O estudo de mestrado foi desenvolvido em Charqueadas (RS) de 1982 a 1985, onde analiso
as representações de um grupo de trabalhadores para conhecer a construção social de sua
identidade ocupacional.

90
Cornelia Eckert

são consideradas geralmente como sendo um deslocamento no espaço. É


pouco. Uma viagem inscreve-se simultaneamente no espaço, no tempo e
na hierarquia social. Todas as impressões são apenas definíveis se referidas
a estas três coordenadas, e como o espaço possui, só por si, três dimensões,
seriam necessárias pelo menos cinco para conseguir uma representação ade-
quada duma viagem”(101). “O deslocamento” no seu próprio conhecimento
e pré-conceitos agora relativizados por uma experiência de compartilhamen-
tos, essa é a prática cara ao ofício da etnografia: compartilhar com o Outro
as dinâmicas do viver cultural e social. Partilha-se antes de mais nada a acei-
tação, a disponibilidade e o consentimento, princípios éticos de uma relação
antropológica para mim motivada por aproximações de reconhecimento mú-
tuo. Compartilham-se, sem dúvida, constrangimentos e gafes, curiosidades e
ludicidades. Estar na França, pesquisando mais uma comunidade de trabalho
mineiro de carvão, era um desafio imbuído de muita emoção a cada dia, não
somente pelo desafio de pesquisar em outro país e em outra língua, mas pelo
exercício diário de deslocar-me entre aspectos familiares ao que eu já havia
pesquisado sobre a cultura operária no Brasil e ao mesmo tempo confrontar-
-me a tantos estranhamentos:as singularidades das histórias local, regional
e nacional, das trajetórias diversas, dos estilos de vida plurais em espaços de
convívio social que me desafiam tanto ao sentimento de desfamiliariação
quanto ao de familiarização desse cotidiano sempre reinventado102.

A mistura de sentimentos de familiarização e estranhamento me exigia


muito esforço de interpretação nos meus diários de campo escritos ora em
português, ora em francês. Este reencontro entre o “eu” e o “outro” me
remetia a uma relação comparativa que colocava em perspectiva minha tra-
jetória pessoal, por um lado, e a das famílias grand-combianas, por outro.
Em outras palavras, através desta interação subjetiva, percebia as diferenças
que colocavam em destaque tudo o que eu já havia analisado como antro-
póloga sobre a vida e a cultura dos mineiros de carvão gaúchos em relação
ao mundo dos mineiros de La Grand-Combe. Tudo isto me permitiu melhor
entender a singularidade com que este grupo social constrói, organiza e re-
produz seu sistema de significações.

Por muito tempo o objeto principal de estudo da Antropologia Social


foram as sociedades ditas “simples”. A partir do início do século XX, os
antropólogos europeus e norte-americanos desvendaram, pelo método da
observação participante, o cotidiano destes grupos, sua maneira de pensar
e exprimir a ordem social e simbólica. Neste sentido, o antropólogo busca-
va familiarizar-se com esta sociedade diferente e reconstruir num trabalho
interpretativo aquilo que era ainda estranho sobre o processo civilizatório,
aos olhos da sociedade dos pesquisadores, tratando o que fora visto como
exótico, como uma cultura diferente da sua. Na revisão crítica da própria dis-
101 . LEVI-STRAUSS. 1984.
102 A reflexão sobre estranhamento e familiarização nos processos de pesquisa, segue a leitura
dos artigos de Roberto da Matta e Gilberto Velho. DA MATTA in NUNES. 1978, pp. 23 a 35 e
VELHO in NUNES. 1978. pp. 36 a 46.

91
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

ciplina, orientada na segunda parte do século XX por paradigmas mais her-


menêuticos, o objeto de estudo da Antropologia Social volta-se para as suas
próprias sociedades em suas complexidades e contradições. Nesta dinâmica
antropológica, o método de pesquisa de observação participante e da escu-
ta atenta permaneceu como instrumentos-chave para o pesquisador social
compreender sua própria sociedade. É em observando, escutando e falando
com o “outro” que o pesquisador de campo se constrói como antropólogo
social em ação, “teorias em ato” nos ensina o sociólogo francês Pierre Bour-
dieu103. É no encontro destes personagens assim diversos (o pesquisador,
os entrevistados) que se estabelece um ato de interação, de troca (quando
consentida) de comunicação e informações de mundos diferentes de identi-
dade, através do qual o pesquisador obtém as narrativas que lhe permitem
elaborar um bric-à-brac de palavras, expressões, gestos, performances, enfim
imagens agenciadas na troca etnográfica. Dados que são “bricolandos” para
construir uma produção textual que relate a compreensão do “outro”, indi-
víduo/coletividade, a sua maneira de exprimir a vida social. A observação e
a análise da representação do vivido revelam aquilo que dá a tonalidade de
uma coletividade, assim como a codificação de processos coletivos incons-
cientes.

Com a Antropologia Urbana, não era mais a alteridade étnica e cultu-


ral (as variedades das culturas humanas e as lógicas sociais e simbólicas, as
condições de reprodução e de transformação das sociedades históricas) que
estavam em destaque, mas diferentes estilos de vida; a diversidade de visões
de mundo complexas era esculpida em alto relevo.

Assim, mesmo que se trate de sua própria sociedade o pesquisador, não


pertencendo ao grupo, procura reconhecer o que lhe é familiar e o que lhe
é estranho (dépaysé). Ao mesmo tempo, ele é reconhecido pelos moradores
como não pertencendo ao grupo, ao lugar (os franceses dizem pays) e é so-
mente após um convívio mais sistemático que se perde esta “invisibilidade”
inicial e se passa a ser reconhecido a partir de um processo de codificação do
“lugar” que o pesquisador ocupa e o “papel” que desempenha no espaço
social que lhes é cotidiano. Neste convívio o pesquisador passa a viver o pró-
prio tempo da história presente do grupo.

B) A opção pelo universo de pesquisa


Por que a escolha de La Grand-Combe? Porque esta aglomeração ur-
bana foi projetada tendo em vista a exploração do carvão, portanto existia a
dinâmica do trabalho mineiro como força econômica de uma vila: uma vila
mineira. Neste lugar o carvão desempenhou durante mais de um século um
papel econômico determinante. Mais ainda, existia um sistema de idéias
dominantes orquestrado pela Companhia, que consolidou, através de uma

103 BOURDIEU. 1972.

92
Cornelia Eckert

política paternalista, a ética do trabalho como uma cultura, a cultura ope-


rária produtiva de capital. Com efeito, ela estabeleceu diversas relações
de consenso sobre o seu domínio, não somente nos espaços fundados;
mas também na multiplicidade de relações sociais cotidianas. A Companhia
pretendeu dominar as relações temporais dos grupos habitantes da vila
mineira.

Embora toda esta população pertença a uma mesma condição de classe


(proletária), ou pareça um grupo com uma história oficial homonogeneizan-
te, muitos aspectos a distinguem: a origem étnica, o modo de vida, a religião
e visões de mundo. Diferenças que no passado eram mais facilmente envelo-
padas por uma identidade social construída a partir do valor trabalho e que
hoje parecem ressemantizadas como elementos justificadores de tensões e
conflitos no interior de uma comunidade de trabalho em crise.

Viver uma grave recessão econômica é reacomodar-se em novos tempos


reordenando os instantes fugidios de uma referência rítmica que se esvai
mas, sua dissonância, não emudece as vozes dos habitantes que ali perma-
necem e narram suas biografias e trajetórias. São antigos habitantes, hoje em
sua maioria velhos moradores na cidade, predominando viúvos e viúvas, ou
casais que viram seus filhos buscarem portos mais seguros de oferta de mer-
cado de trabalho. Em suas narrativas os velhos habitantes refletem sobre os
seus tempos vividos nesse mundo urbano-industrial, confrontando-nos com
as camadas de duração que nos inscrevem nos estudos da memória coletiva
dessa última geração de mineiros do carvão (extração tradicional) e é toda a
organização social que se encontra colocada em xeque.

Isto significa dizer que o fim da mina, que era a razão do enraizamento
das famílias de mineiros em La Grand-Combe, e as transformações do espa-
ço e relações de trabalho encadeiam as conseqüências que se multiplicam:
a crise se reflete sobre todos os domínios da vida social dos habitantes. A
violência da ruptura é muito forte porque nenhum outro complexo produtivo
veio substituir a unidade econômica produtiva desaparecida, o que levou à
retração do mercado de trabalho local. Ora, na sociedade capitalista, onde
o trabalho mesmo é um valor central, pode-se medir a devastação na qual
os habitantes vivem esta descontinuidade do tempo ritmado pelo trabalho.
O desaparecimento desta profissão tradicional que constituiu o suporte es-
trutural deste grupo social no passado, marca uma mudança significativa
nas relações afetivas (familiares, de vizinhança etc.) e nas outras práticas de
sociabilidade da antiga comunidade de trabalho grand-combiana. A migra-
ção de um grande número de famílias, jovens, amigos e vizinhos em busca
de novos horizontes de trabalho dispersou famílias extensas e rompeu com
redes de relações existentes. Em cada lar, ressente-se a perda do mundo do
trabalho, sofre-se a partida das crianças, os bairros se esvaziam. Face à crise
econômica local, cada unidade residencial vive estas mudanças com mais ou
menos dificuldades.

93
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

C) O trabalho de campo: ritual de instalação/interação

Meu primeiro contato com a vila de La Grand-Combe ocorreu em 1987.


Antes disso já havia feito uma revisão bibliográfica sobre a história da região
e do local de pesquisa. Já havia lido os dois tomos sobre os mineiros de Car-
maux, uma obra de grande fôlego da antropóloga francesa Rolande Trempé
que pude conhecer em um seminário em Lille, em 1988. Esta e outras leituras
sobre as condições de vida dos trabalhadores mineiros na França me permi-
tiam imaginar uma morfologia local, bem a gosto do manual etnográfico de
Marcel Mauss104.

Após cruzar rapidamente a França de norte a sul em um trem de grande


velocidade (TGV), à medida que me aproximava da região montanhosa de
Cévennes, realizei uma série de transferências de trens cada vez mais obso-
letos. Na última parada antes do local destinado (Alès, a última importante
cidade antes de chegar a La Grand-Combe), embarquei num antigo comboio
que avançava lentamente para o pays minier. A mudança da paisagem era
impressionante: verdadeiros “morros” formados de restos de carvão, torres
de extração desativadas, enormes usinas abandonadas ao longo do “vale
negro”, a central elétrica semi-destruída. Tudo isto contrastava com a região
circundante, as colinas, os pinheirais e as grandes castanheiras típicas da
paisagem regional.

“Estrangeira” e “estranha” na vila, meus primeiros passeios explorató-


rios visavam justamente conhecer o local e me fazer conhecida. Minhas im-
pressões iniciais confirmavam uma imagem pré-concebida do que seria uma
vila mineira européia: uma pequena concentração urbana marcada pela anti-
ga atividade extrativa dominante. Este imaginário não era gratuito, mas fruto
da literatura e das criações cinematográficas sobre o tema. O estilo de vida
de uma cidade industrial permanecia em todos os cantos fixo, cristalizado.
Alguns rastros mais fortes desta presença eram as casas enfileiradas no estilo
geminado105, os restos de uma enorme zona de extração (entradas de minas,
pátios de depósito, morros de carvão), as ruas com nomes de personalidades
ligadas à história local e ao mundo do carvão, as placas das casas comerciais
hoje com suas portas fechadas (“Taberna do Mineiro”), as torres de extração
adormecidas, o pó negro cobrindo as casas, tudo testemunhando um passa-
do recente de um meio industrial dinâmico.

Caminhando pelas ruas da cidade, observei as casas em fileiras, todas


iguais de cor cinza, sucedendo-se pelas ruas. Mas se era dominante esta
urbanização local que provava a existência de uma antiga dinamização de
um complexo mineiro, em pontos altos da cidade alguns edifícios modernos
104 Cf. MAUSS. (1967). As principais leituras nesta primeira fase foram orientadas pelo Prof. An-
thoine Prost, quais sejam: FREY. 1986; SIMONIN, 1981; VERRET, 1982. Prof. Jacques Gutwirth
me orientou a leitura de LAMORISSE 1975, e PETONNET. 1979.
105 Foi fundamental a leitura de FREY. 1986.

94
Cornelia Eckert

(construídos pelo programa habitacional francês: HLM) pareciam querer ga-


rantir à cidade, “um pé na modernidade”.

Superando estas primeiras impressões, logo percebi que a aglomeração


urbana apresentava uma estrutura bem mais complexa. O centro obedecia
à estrutura tradicional de uma vila francesa, que crescia a partir da praça
central onde se localizava a igreja, a prefeitura e a escola, mas a cidade se es-
tendia de forma dispersiva por dois grandes vales (antigamente importantes
zonas de extração), um ao norte outro ao leste. A lógica desta ordenação se-
guia os princípios urbanísticos de aproximar as casernas operárias aos poços
de extração e de ligar estes núcleos ao centro da cidade.

Caminhar por estes antigos bairros onde viviam as famílias de mineiros,


ver suas antigas moradias e tantos outros “monumentos” alimentavam o
deslizamento constante de um passado no presente. Tudo evocava, como
signos emblemáticos, as memórias ainda presentes de uma maneira de viver
“ontem”, fragmentos de uma história, sinais de uma vila outrora mineira.
Por isto mesmo, grande parte da cidade é afetada atualmente pelo abando-
no das habitações. Alguns bairros conhecem uma importante transforma-
ção pela demolição de casas e usinas, conforme o programa municipal de
reestruturação pública. Este fato não me causava grande surpresa, visto que
a imprensa regional noticiava com freqüência dados sobre esta demolição,
sem, no entanto perder a sensação de presenciar uma “caçada a fantasmas”
que ali insistiam em permanecer dando à cidade um aspecto de vila abando-
nada e sinistra.

Já o centro da cidade exteriorizava ainda os signos de ter sido um bairro


comercial e de residência de maior prestígio. Zona nobre da cidade no pas-
sado, observa-se uma arquitetura mais rebuscada nos seus edifícios e bal-
cões ornamentados. Residências de engenheiros e comerciantes, médicos,
religiosos etc, tudo chamava a atenção para uma ocupação destes espaços
segundo as condições sociais diferenciadas. Em resumo, toda a morfologia
urbana descrita detalhadamente em minha tese confirmava, como vestígios
de uma história local ligada ao carvão, que esta vila nasceu da vontade e do
poder de uma Companhia, a Companhia Carbonífera de La Grand-Combe,
que batizou a vila no início do século XIX, com a mesma razão social.

Logo tentei encontrar um hotel na cidade, mas os dois únicos existentes


estavam fechados há longa data. Dirigi-me a órgãos administrativos oficiais
para saber das possibilidades de instalar-me na localidade. Os funcionários
não disfarçavam sua perplexidade fazendo-me sentir uma “E.T.” aos seus
olhos. Sugeriram-me, então, buscar alojamento na cidade vizinha, Alès, a 14
Km. Após estes primeiros dias de reconhecimento instalei-me, efetivamente,
em Alès106, deslocando-me diariamente para o local de pesquisa.
106 . Este estabelecimento ocorreu em fevereiro de 1988, ano de maior intensidade do trabalho
de campo, nos períodos entre fevereiro e julho, outubro e dezembro; em 1989 entre maio e
julho e em 1990 em diversos períodos mais curtos.

95
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

Em La Grand-Combe, desde logo, tentei dar conta da composição e


organização de todos os bairros centrais e satélites. Assim, entendi que havia
bairros antigos do tipo cité minière, outros mais recentes do tipo conjuntos
habitacionais, assim como bairros do tipo “campos militares”, construídos
“às pressas” nos períodos de alta demanda, como os da Primeira e Segunda
Guerras107.

Durante as primeiras andanças, com expectativa de estabelecer relações


de conhecimento, valeu-me a ajuda de um funcionário da prefeitura. Ele in-
sistia, sobretudo nos problemas raciais existentes, que segundo ele, embara-
çariam o andamento da pesquisa. Este aspecto elucida a formação da popu-
lação desta cidade criada “para” e “pelo” carvão: a mistura de raças, etnias,
línguas, nacionalidades, e que efetivamente dá o tom da problemática em
torno do qual se compreende a construção social da identidade do grupo.

Um dos bairros periféricos, Trescol, é hoje o que concentra o maior nú-


mero de antigos mineiros e filhos de imigrantes norte-africanos. É o bairro
mais estigmatizado e é apelidado de Mini-Chicago; ali os jovens são rotu-
lados de perigosos porque ociosos, apáticos e movidos pelo consumo de
drogas ilícitas.

De todos os bairros periféricos o que me calou mais profundamente


foi o de Champclauson. Após uma tortuosa estrada onde apenas poucos
carros circulam, chega-se a este reduto. O fim da atividade da mina atingiu
brutalmente o local, e sua desvalorização é enorme, o que pode ser medido
pelo número de residências abandonadas, casas comerciais fechadas, esco-
las desativadas, inexistência de serviços públicos (como transporte coletivo)
etc. Fui apresentada a este lugar através das seguintes palavras de meu
cicerone: “isto aqui está vazio, não tem nada para fazer”. Aproximei-me de
um senhor idoso que nos observava com curiosidade e expliquei que procu-
rava alguém para conversar sobre a história do lugar. Ele aos poucos contou
fatos apontando para os lugares como que grudando nestes, sua memória
de um tempo onde “tudo era muito movimentado, cheio de vida”, e seguia
dizendo, “na saída da mina quase não se conseguia caminhar por aqui de
tanta gente, parecia um formigueiro”. Depois me sugeriu que procurasse
a “casa de lazer” dos mineiros aposentados que costumavam ali se en-
contrar. Dias depois procurei este local e numa grande sala com inúmeras
mesas disponíveis para serem ocupadas com jogos de cartas, reencontrei
o mesmo senhor entrevistado jogando paciência. Constrangido, como se
tivesse sido apanhado em flagrante solidão, o velho mineiro continuou sua
narrativa sobre o quanto aquele lugar havia sido, antigamente, importante
espaço de sociabilidade masculina, mas que hoje nem mesmo este centro
de lazer conseguia dissimular o sentimento geral de um “gosto amargo de
vazio”.
107 . Foram, sobretudo os imigrantes de origem árabe, contratados em massa no período de
recuperação econômica pós-Segunda Guerra, que ocuparam estes barracões. Hoje, a grande
maioria destes foi demolida, e seus habitantes transferidos para os conjuntos habitacionais.

96
Cornelia Eckert

Ainda outro bairro periférico chamado La Levade, outrora, importante


reduto católico, conserva apenas algumas casas ocupadas por pessoas ido-
sas. Os vestígios provam o passado dinâmico: a estação de trem em grande
estilo, os escritórios, a subprefeitura, a igreja e principalmente o castelo que
durante muito tempo serviu de sede para a administração da Companhia e
residência dos diretores.

Assim, embora todo este ambiente e decoração assinalassem as raízes


de um ethos mineiro, hoje as práticas sociais devem ser entendidas em re-
lação às transformações profundas provocadas pela decadência industrial e
à situação “de crise vivida”, como repetem sem cessar os habitantes de La
Grand-Combe.

Era uma cidade abatida que se revelava aos meus olhos, tendo como
pano de fundo esta problemática de uma nova rítmica citadina, letárgica, dis-
sonante, uma crise figurada pela regressão econômica e demográfica. Logo
nos primeiros encontros, como que para justificar uma honra coletiva perdi-
da, os mais idosos, como M. Leclerc, eram unânimes no refrão: “Esta vila é
bem engraçada, ela ainda é jovem de idade, mas já esta morta”. “Isto aqui
é uma vila sinistra” sentenciava o velho mineiro com dificuldade de esconder
sua emoção frente às inúmeras casas abandonadas, os poços e torres de
extração silenciosos, as usinas vazias.

Desde os primeiros dias em campo tentei os primeiros contatos com as


famílias de mineiros grand-combianos. A cada dia ambientava-me mais na
localidade. Para dar início aos contatos e realização de entrevistas escolhi um
dos bairros mais antigos da vila, onde ainda existe uma das primeiras caser-
nas construída pela Companhia e reformada por volta de 1960/70, quando
foram instalados WCs e duchas no interior das casas. Nesta caserna (conjun-
to habitacional) habita ainda um importante número de mineiros aposenta-
dos, franceses e imigrantes. O bairro, no entanto, é também um dos mais
atingidos pelo decréscimo populacional e abandono de casas.

Se o método de aproximar-me das primeiras famílias tem uma definição,


esta é o “porta a porta”. Chegar, apresentar-se, tentar passar uma confiança
rápida e eficaz frente aos desconfiados e hesitantes moradores do bairro,
são aspectos que importa levar em conta. A maioria dos habitantes conta-
tados eram pessoas idosas e aposentadas que aparentemente teriam um
importante tempo livre para receber uma visita. Mas as reações são diversas:
reticências em fazer entrar um estrangeiro, resistência a consagrar um tem-
po para uma entrevista que vem quebrar a rotina tranqüila ou atrapalhar o
fiel acompanhamento de programas prediletos na televisão, interromper o
repouso, a hora do jogo, de passeios etc.

De certa forma, a “sorte” (ou paciência?) contou bastante para sentir-


-me encorajada a continuar a pesquisa e vencer a timidez do contato em
língua estrangeira. A aceitação e o início de um longo convívio com uma das

97
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

primeiras famílias contatadas, a família Courdec, rapidamente se transfor-


mou numa espécie de passe-livre no bairro; o casal introduziu-me em dife-
rentes redes de suas relações: parentes, vizinhos e amigos. O mineiro-chefe
desta primeira família visitada tinha sido recomendada por um historiador
de Alés, contatado logo de minha chegada por ser “especialista na história
dos mineiros de carvão”. M. Courdec havia desempenhado um importante
papel político como conselheiro municipal. Além de sua atuação no bairro,
fui informada que tanto ele quanto outros moradores do bairro já haviam
sido entrevistados por jornalistas e participado de reportagens e um filme
de televisão sobre a decadência do local para National Geographic Channel.
Fui então invadida por um sentimento de medo de estar desenvolvendo uma
pesquisa numa área já saturada e sobre um sujeito já cansado de tantas de-
mandas de entrevistas. Entretanto, este pânico foi superado à medida que
lia os livros e material já produzidos sobre esta comunidade e os apropriava
como fatos etnográficos a serem reinterpretados.

Nestas aproximações às famílias ou a pessoas isoladas, apresentei-me


como “estudante brasileira de antropologia fazendo uma pesquisa sobre La
Grand-Combe”. As pessoas, mais surpresas do que desconfiadas da minha
presença na vila, acabaram por assimilar-me a partir desta categoria de estu-
dante, o que não impediu em várias ocasiões de ser alvo de um vasto ques-
tionamento sobre a sinceridade das minhas razões de aproximação. Nestas
ocasiões respondia com uma curta narrativa da minha trajetória pessoal e
acadêmica, estimulando assim um processo que terminaria no reconheci-
mento.

Na realidade, ser estrangeira em várias ocasiões foi mais um fator de


“quebra-gelo” e interesse do entrevistado em receber-me em sua casa.
Num diálogo muitas vezes prolongado, a conversação inicial girava inevi-
tavelmente em torno da identificação de pontos comuns entre os dois pa-
íses: discutiam-se as diferenças de estilo de vida e, em várias ocasiões, era
com um aparente prazer que os informantes expunham demoradamente
seus conhecimentos sobre o Brasil (Pelé, Senna, o carnaval, o futebol, a
ditadura, a paisagem e o sol). Ao mesmo tempo era com meus informan-
tes que eu contava para descobrir códigos e expressões próprias do grupo
e de sua cultura, gestos, vocabulários, dialeto, o que exigia deles uma
interpretação intelectual capaz de me tornar familiar sua singularidade de
comunicação.

Logo entendi que minha presença na vila não passava despercebida,


pelo contrário, aqui e lá os habitantes sabiam, mais ou menos, quem eu era
e o que lá fazia. A título de exemplo, cito uma ocasião em que tendo marca-
do uma entrevista com um técnico agrícola num café próximo à prefeitura,
terminei por ouvir o que um dos clientes comentou a outro que perguntara
“quem era a estranha”; respondeu que eu era brasileira e lá me encontrava
para estudar a história de La Grand-Combe e que, por isto mesmo, eu me
dirigia todos os dias à prefeitura para consultar documentos.

98
Cornelia Eckert

Na medida de meu engajamento prolongado em campo, pude perceber


o crescimento de um sentimento de hospitalidade por parte destas famílias
que aceitavam ser entrevistadas e, com algumas mantive um contato regular
podendo em certas ocasiões dividir momentos que não se resumiam à situa-
ção de entrevista, como rituais familiares em aniversários, batizados, enterros
etc. A família Courdec era um porto seguro, não só pelo carinho em sempre
me receber mas pela disponibilidade em contar e recontar suas trajetórias.
M. Courdec, já bastante doente, dizia ter “muito tempo livre” para me narrar
suas experiências. É certo que não construo nenhuma ilusão e nem prego
uma visão romântica do trabalho de campo e da minha integração na intimi-
dade destes lares. Apenas assinalo estes aspectos que também fazem parte
de um convívio mais prolongado do trabalho de campo, sublinhando este
processo de “ser reconhecida” pela população, o que passa a se evidenciar
em pequenos gestos como ser cumprimentada na rua, no mercado, convida-
da para eventos familiares, públicos etc.

É claro que confrontei igualmente a recusa ou mesmo a desconfiança de


certas pessoas. De fato, a situação um tanto otimista que apresento acima
não escamoteia as dificuldades que se conhecem com freqüência nos traba-
lhos de campo e que aparecem no diário como desabafos reveladores dos
acontecimentos nos bastidores de uma pesquisa etnográfica.

A partir das primeiras famílias interrogadas pude conhecer uma im-


portante rede de relações, o que ao mesmo tempo desvelou quem per-
tencia e quem não pertencia ao mundo de suas relações cotidianas. Como
forma de aproximação a novas famílias solicitava sempre a intermediação
de um entrevistado, que me integrava no seu universo, elucidando sua
opinião sobre “a qualidade” da informação que o novo interlocutor po-
deria apresentar. As vezes era um membro da rede familiar, outras vezes
um amigo ou um vizinho. Em geral o intermediário me acompanhava até
a casa do amigo ou do vizinho da mesma rua, do mesmo bairro, e enco-
rajava-os a aceitar este contato. Assim eu ia sendo introduzida em redes
de consangüinidade ou de afinidade, seguindo este elo de pertencimento
e de afetividade.

Segui os contornos das redes que eles mesmos traçavam, o que ia tam-
bém definindo os papéis e as posições de cada um dos membros na rede de
relações. Nem sempre ficaram evidentes os motivos da seleção de um amigo
ou de um vizinho e não de outros e, muitas vezes, estas escolhas revelavam
pontos de tensões importantes entre a vizinhança, os familiares etc.

Outra forma de contato com os meus entrevistados foi a intermedia-


ção do historiador local Michel Wiénin, que muito me ajudou a entender
o contexto social, geográfico, político e cultural da região. Este historiador
também me apresentou a vários técnicos e trabalhadores da prefeitura local
que, por sua vez, colaboraram permitindo o acesso a documentos e material
de pesquisa ou ainda dispondo-se a longas entrevistas.

99
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

Foi justamente um destes funcionários da prefeitura que possibilitou


abrir ainda mais o leque de contatos, desta vez com famílias dispersas em
diferentes bairros e nas vilas satélites, oportunizando uma complexificação
das redes de relações analisadas.

Os contextos das entrevistas foram tão diversos que é difícil descrevê-los


sem omitir detalhes. Até mesmo avaliar o número de pessoas entrevistadas é
uma tarefa desconfortável. Em algumas ocasiões, a primeira entrevista acon-
teceu apenas com um dos membros da família ou o casal, mas à medida
que a relação se prolongava as situações eram diversas, podendo participar
da entrevista um filho ou uma filha, uma avó ou um avô, um vizinho, uma
vizinha, um irmão, uma irmã etc. Posso falar de uma média de 65 entrevistas
que foram formalmente marcadas, o que chamo de “situação de entrevista”.
No que diz respeito às entrevistas biográficas com famílias de mineiros apo-
sentados, totalizo o número de 20. Foi com estas que estabeleci uma relação
mais freqüente, quase cotidiana (trata-se de famílias de mineiros aposenta-
dos com a idade de 50 anos no mínimo).

As entrevistas acima quantificadas foram sempre gravadas e em diversas


ocasiões fotografei a situação de entrevista, a casa o bairro, etc. Devo ter
feito uma média de 500 fotos e diapositivos, nem sempre excelentes, mas
que se revelaram importantes dados para interpretar os ritmos cotidianos nos
cenários e ambientes das interações vividas.

Outro grupo de entrevistados pertence a diferentes profissões e atuam


na política local, no setor administrativo, no setor educacional, no religioso
etc: funcionários da prefeitura, padres, o pastor, professores primários e
secundários, diretores de centros sociais e de formação profissional, sindi-
calistas, empregados da empresa francesa carbonífera, técnicos e historia-
dores da região. As informações fornecidas dizem respeito aos diferentes
domínios da vida social. Permitiram-me compreender melhor os pontos de
vista sobre a qualidade da vida grand-combiana (a situação econômica,
social, política e cultural dos habitantes) e elucidaram as inter-relações do
social e do local.

Viver e observar o cotidiano é igualmente conhecer o ritmo da vida do


grupo estudado, os eventos marcantes, as festas mais significativas, as rela-
ções população/poder etc. A medida que se prolongava minha estadia no
local, pude observar os lugares privilegiados de convívio no universo dos ha-
bitantes, os eventos repletos de significação e de forte interação social que
têm lugar na esfera da vida pública. Estes ritos de interação são tanto regu-
lares como ocasionais: a feira livre nas quartas e sábados, as festas típicas e
outras universais etc.

Semanalmente, pode-se observar o que sem dúvida se coloca como o


acontecimento mais importante da vida local: a feira livre. É o evento coletivo
mais espetacular e importante para os habitantes desta vila. Não é apenas

100
Cornelia Eckert

uma ocasião de fazer compras, mas um espaço de intensa sociabilidade. No


dia 12 de março de 1988 eu escrevia nas minhas impressões de campo:

“Hoje pela manhã fui à feira para observar e fazer algumas fo-
tos. Sabia que assistia a algo de ordinário para eles, mas para
mim era uma verdadeira encenação (mise-en-scène) da dife-
rença. As palavras mélange, pluralidade, alteridade me vinha
ao espírito. A diversidade das maneiras de se vestirem, as cores
da pele, os sotaques, tudo prova que estou diante de uma ma-
nifestação de diferentes identidades étnicas, grand-combianos
franceses, árabes, espanhóis, italianos... A todo instante estas
pessoas param para conversar em pequenos grupos, dando a
impressão de proximidade. Todo mundo conversa e se a meta-
de das pessoas está lá para fazer compras, a outra metade esta
lá para bater papo ou matar o tempo”.

Observei na feira o que sintetiza a população grand-combiana: um gru-


po humano onde se misturam pessoas de origens as mais diversas. Muitos
aspectos escapam à observação, como os comportamentos de evitação, os
conflitos latentes, as formalidades e informalidades das relações etc. Mas
uma coisa é certa, a cada quarta-feira e sábados, a feira anima reencontros
de conhecidos, amigos, parentes, vizinhos e dinamiza uma das formas mais
importantes de sociabilidade da cidade.

Outras atividades coletivas que tomam forma de um ritual aparecem


também como chaves para entrar no campo das práticas sociais dos habi-
tantes da vila: falo das múltiplas festas, sagradas e profanas. Duas festas
religiosas se destacam a de Santa Bárbara e a de Nossa Senhora de Laval,
mas também são importantes outras festas populares, como a festa do Corso
(ou festa da Primavera), do Carnaval, festa dos aposentados, festa da música,
festas políticas e familiares. Observei e entrevistei ainda sobre opções de lazer
e formas de divertimento, como a freqüência a cafés, os jogos de pétanca, os
festivais, concertos, exposições etc.

Um das formas de lazer das mais importantes, pelo número significativo


de praticantes, é o jogo de bocha (a pétanca ou a lyonnaise). O público par-
ticipante, assim como a clientela da maioria dos cafés, é o público masculino,
pessoas idosas e aposentadas. Prazer cotidiano para uns, esporádico para
outros, divertimento ou quase vício, o jogo motiva um reencontro diário. É
mesmo difícil imaginar La Grand Combe sem que venha à mente estes pe-
quenos grupos que se formam todos os dias em torno destes objetos quase
sagrados, quando somente a forte chuva é capaz de dispersá-los.

As trajetórias vividas são reconstruídas na memória coletiva narrada pe-


los entrevistados. Um vivido para mim estranho, fragmentado. Foi importan-
te alargar este conhecimento da história local e da trajetória destas famílias
recorrendo ao estudo de fontes históricas como instrumento discursivo que

101
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

elucida igualmente a dialética da continuidade da existência do grupo de


pertencimento. Assim, a consulta a arquivos municipais e regionais (docu-
mentos, listas eleitorais, registros civis) foi de extrema relevância. Todos estes
procedimentos foram acompanhados de uma constante revisão bibliográfica
tanto temática como teórica. A imprensa local foi outra importante fonte;
além de assinar dois jornais locais, tive acesso a jornais políticos, sindicais,
boletins informativos da prefeitura etc.

Importa registrar que não raro encontrei personagens que alimentavam


uma verdadeira paixão pela história da mina e, em suas residências, manti-
nham uma ou mais peças transformadas em minimuseus, com coleções de
fotos, documentos antigos, livros e jornais velhos, souvenirs do tempo do
trabalho, medalhas, trajes, utensílios etc.

Em 1989, intensifiquei as entrevistas numa outra direção, a da vida comuni-


tária, com associações formais diversas que animam oficialmente a vida urbana:
associação de aposentados, associações esportivas, comunidades religiosas etc.

Este trabalho de campo, aqui resumidamente relatado, permitiu dar


conta das representações do grupo estudado, de seu cotidiano e das relações
sociais que lhe aparecem como significativas nos diferentes tempos vividos e
pensados. Com este processo de interação, de encontro de subjetividades,
pude observar estas pessoas e viver com elas, interagindo no mesmo fluxo
temporal e nos seus espaços sociais.

Posições hierarquizadas, interesses diferenciados, concepções de mundo


distintas, objetivos heteróclitos, tudo leva à constante relativização desta rela-
ção entre o pesquisador e o grupo pesquisado ou das observações efetuadas,
fonte deste exercício etnográfico. Não procurei em nenhum aspecto uma situ-
ação ideal para a prática do trabalho de campo, mas a realização de um exer-
cício de interação, este esforço de ir ao encontro de quem aceita a proposta
de interlocução, momentos “troca”, de reciprocidade e que autoriza, para
repetir o antropólogo americano Clifford Geertz, a reinterpretar a interpreta-
ção das pessoas em uma descrição densa dando movimento a cultura que já
é, em sí, sempre ação, sempre pública, sempre agenciada por razões práticas
e simbólicas: “o que chamamos de nossos dados são realmente nossa própria
construção das construções de outras pessoas”108. Isto me permite sugerir este
trabalho como um ensaio antropológico, sem diminuir a responsabilidade de
legar uma produção comprometida com o papel de narrar o social.

D) Uma pesquisa qualitativa


O trabalho etnográfico foi construído pela observação direta e partici-
pante das práticas sociais e culturais do grupo no seu cotidiano, logo conso-

108 GEERTZ. 1978. p. 17-19.

102
Cornelia Eckert

lidado pela escuta das narrativas na forma própria dos interlocutores conce-
berem as experiências vividas.(109)

O modo de vida, a maneira de pensar, de exprimir e de agir da comu-


nidade pesquisada são aspectos dimensionados no interior de uma relação
construída no plano da intersubjetividade entre o pesquisador e os sujeitos
pesquisados. Este método se sustentou na utilização da técnica de entrevis-
tas livres e autobiográficas como instrumentos pertinentes para tratar das
visões e mundo e representações sociais individuais e do grupo, da memória
individual e coletiva, de práticas pessoais e do grupo, suas formas de sociabi-
lidades diversas. Privilegiou-se aqui a construção de suas trajetórias narradas,
deslizando minhas reflexões para uma etnografia da memória em suas vibra-
ções temporais.(110)

Todo testemunho guardava um esclarecimento sobre a vida cotidiana, e


nenhuma experiência vivida foi atípica, ela foi somente uma das expressões
culturais do grupo. “É uma memória feita de redundâncias, de repetições, de
variantes individuais no seio de um esquema coletivo que se constrói e indica
que a um certo momento, é bem tempo de fechar, ao menos provisoriamen-
te, a entrevista”, lembra a antropóloga francesa Martine Segalen(111).

Uma vez em campo, foi o convívio e as narrativas das famílias entrevis-


tadas que estruturaram e guiaram a descrição densa. Sem perder de vista a
visão de mundo da população mais jovem foi junto a famílias de mineiros
aposentados e mais velhos que privilegiei o desenvolvimento das entrevistas,
reconhecendo o cotidiano da população e os diferentes estilos sociais dos
grupos que coexistem na vila. O fato de privilegiar o ponto de vista de uma
população mais velha significa que foi junto a ela que procurei conhecer a
trajetória pessoal/coletiva vivida nos diferentes tempos da sua história de vida
(o tempo vivido e pensado), os quais se superpõem na memória social, no
repensar o grupo e a história local.

Não há uma memória mais legítima que outra, há, isto sim, famílias
enraizadas há várias gerações, famílias de um enraizamento mais recente e
grupos étnicos e de pertencimentos culturais diversos que coabitam e que
tentei reconhecer situando estes dados das suas trajetórias.

A população mais idosa e mais numerosa tem em comum o conheci-


mento do passado e da vida presente. Ela divide esta identidade forjada em
uma experiência comum dos movimentos migratórios, da mistura étnica e ra-

109 . Reflito estes aspectos tanto apoiada em MAUSS (fato social total) quanto em SCHUTZ
(processo interativo).
110 . “C’est dire qu’un récit de vie isolé, privé du support de l’enquête ethnographique,
apparaît comme une coquille vide. Eclairée par d’autres entretiens menés auprès d’autres
interlocuteurs, relayée par l’histoire économique et sociale du groupe, la biographie devient
alors un instrument de connaissance de la société”. In: ZONABEND. (1980). Op. cit. p. 7.
111 . SEGALEN. 1990. p. 69.

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Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

cial. Junto aos aposentados, a representação é muito mais impregnada desta


superposição de tempos vividos. A experiência de uma trajetória comum na
mesma vila os homogeneíza. Eles são os portadores privilegiados de uma me-
mória coletiva que amalgama as reflexões sobre os tempos vividos e de onde
brotam as narrativas que misturam as lembranças encantadas ou nostálgicas
do passado e as reflexões realistas (positivas ou negativas) sobre a dinâmica
das práticas sociais do presente. É esta experiência que dispõe a memória da
vila, enquanto que a experiência vivida em comum não está presente, nesta
mesma longitude, nos mais jovens.

Junto aos jovens que cresceram neste período de recessão do carvão ou


que não conheceram outra coisa senão este “tempo de crise”, a representa-
ção se torna menos ambígua e contraditória. A tendência consiste em pensar
o presente de forma mais objetiva, entre crítica e indiferente, e também em
pensar seus projetos de vida preenchidos por uma intensa recorrência a fre-
qüentar locais de forte sociabilidade e cumplicidade dos jovens.

Tal diversidade é abordada com instrumentos analíticos antropológicos


a fim de compreender a natureza social da ação humana e a prática do co-
tidiano como um sistema de significados. Assim, entende-se a cultura não
só como um corpo de conhecimento que estrutura o indivíduo no conjunto
de práticas, mas também como um conjunto de referências e ações com
significado.

104
CAPÍTULO
5

O TRABALHO DE DURAR

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CONCLUSÃO: “O trabalho de durar”


As transformações que ocorreram no modo de vida da comunidade
grand-combiana, abruptamente confrontada com uma ferida profunda, afe-
taram toda a vida local. Nos “tempos de crise”, foi a grande família grand-
-combianna que desvaneceu e sua imagem com ela. Paradoxalmente, foi a
mesma modernização a que os mineiros aspiraram que rompeu seus projetos
de perenidade.

Estranha época de progresso grávida do declínio do ouro negro, do fim


da vila mineira, da explosão da comunidade de trabalho, da reconversão ou
aposentadoria de toda uma população ativa, do desemprego dos jovens ou
da sua busca forçada de novos campos de trabalho. Tudo isto foi causa de
desencantamentos, desesperanças e exaltação de sentimentos xenófobos.

Neste contexto de transformações sociais, a comunidade de trabalho


grand-combiana, marcada pela recomposição permanente dos grupos e dos
indivíduos, inscreveu num espaço social que se reproduz pelas práticas e
representações singulares que colocam em ação os mecanismos de reestru-
turação do grupo.

Os “tempos de crise” não são vazios de significação. Apesar das rup-


turas, a comunidade vai se esforçando por arranjar a vida social. A memó-
ria coletiva aparece como uma referência essencial para a reatualização da
identidade do grupo. Em suas narrativas tecem de forma revivescente uma
“memória afetiva”. Figuram práticas, reinventam saberes, “ação imaginan-
te” de durar nos jogos da memória coletiva: “porque a memória, permitindo
voltar ao passado, autoriza em parte a reparação dos ultrajes do tempo. Ela
pertence de fato ao domínio do fantástico, dado que organiza esteticamente
a recordação”, sugere o antropólogo francês Gilberto Durand (112). É por
ela que o tempo vivido é reordenado. Conscientemente ou não, os grand-
-combianos retomam outro ritmo cotidiano, reatualizam sua vida familiar,
na arte de fazer a “invenção do cotidiano”(113) em que tecem as tramas em
redes sociais diversas. Nestas reordenações temporais, não importa quais se-
jam as representações em torno da família, do grupo, da vila, da sociedade,
o trabalho na mina permanece sendo sempre referência, pela força de ritmar
as sobreposições temporais das experiências lembradas. É o nascimento, a
existência e o desaparecimento desta atividade que fornece o reconhecimen-
to da história do grupo e da vila.

Mesmo sem referências reais, os grand-combianos pensam um tem-


po vivido reordenado a partir de ritmos jamais ausentes, porque se muito
mudou na estética e na rotina ditada até então na roda viva da cidade, as

112 . DURAND. (1986). PP.402-403


113 . DE CERTEAU. (1994).

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Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

pessoas estão ainda lá. Velhos e jovens ficaram, enraizados, e reapropriam-


-se de lugares sociais onde possam ordenar o tempo com novos ritmos de
correspondências temporais: tempos pessoais, tempos do mundo. Do caos
ao luto, é outro o sentido dado as experiências ordenadas pelas imagens
do valor-trabalho. O cotidiano é sempre reinventado e se encontra sempre
carregado da vibração de sentidos.

A vida cotidiana dos aposentados da mina, dimensão fundamental para


compreender o universo simbólico deste grupo, desenvolve-se hoje sobretu-
do com práticas informais, lúdicas, que traduzem maneiras de pensar e de
exprimir suas condições de existência marcadas pela inatividade (de produção
de capital); preenche-se um tempo livre excedente. Apesar da profunda he-
morragia demográfica, a coletividade quer ainda exprimir sua coesão. Rejeita
o esquecimento global, vive a comunhão em formas plurais de interação,
concretizando espaços sociais onde vivem laços afetivos e de reconhecimen-
to. Constantemente, nos lugares de sociabilidade, nega-se a volatização do
tempo, reencontram-se as pessoas e reconstituem-se maneiras de ser coleti-
vas. Nestes ambientes, os grand-combianos vão bordando, no presente, as
linhas do passado e nestes tecidos de sentido reatualizam seus valores.

Então, eles podem viver o presente o mais plenamente, e a construção


e a sensação de continuidade é possível. Ao mesmo tempo, a plenitude é
conquistada pela liberdade de gerar cada um sua vida. Liberdade igualmente
eficaz para construir um tempo coletivo solidário: pertencer a um grupo. É
aos cidadãos grand-combianos que cabe hoje a responsabilidade de orga-
nizarem-se, de mobilizarem-se por eles mesmos, mas também pelo grupo
e pela cidade. Não há engano em dizer que os grand-combianos querem
hoje viver tanto um presente construído, quanto inventar um futuro inscrito
em uma ordem de significações. Este futuro logo os insere nas lógicas de
Estado que os abriga em sua política previdenciária e os envolve em outras
crises, estas agora agenciadas por políticas de um Estado provedor em suas
limitações, ou “outras crises” em face de uma nova política monetária que
os aposentados comentam: “a união européia” que levará os jovens alhures:
“isto aqui já está vazio. Nossos jovens vão buscar trabalho longe daqui” (M.
Tougnac, funcionário aposentado).

Nos tempos superpostos pensados, as mudanças são irreversíveis, mas


os valores podem ser reatualizados. Assim transforma-se a imagem da cida-
de, mas petrifica-se a memória do social, “musealiza-se” a cultura operária.
Nos tempos repensados e espaços reencontrados, a vida comunitária se re-
constitui, não sem o esquecimento (seletivo) do passado, sem as hachuras
das experiências novas e os sofrimentos advindos das rupturas.

Hoje, os grand-combianos têm o poder de querer destruir e reconstruir


a vila. Podem destruir aquilo que não “amam”, purificam a imagem acre-
ditando que assim fazendo chegarão finalmente a “repousar”, como o fim
da tribulação temporal. Mas, ao mesmo tempo, observa-se esta luta pela

118
Cornelia Eckert

sobrevivência dos signos culturais, depósitos de laços sociais e de identidades


culturais que soldam os sentidos fragmentados na memória.

Desta maneira, se a vida é uma sucessão de rupturas, de desestrutura-


ções (princípios mesmo da modernização), é na memória que estão os sig-
nificados de uma história vivida114, e é graças a ela que a comunidade pode
manter uma noção de continuidade contra a imagem da morte, isto é, da
pluralidade e da dissociação. Os aposentados da mina refazem todos os dias
suas vidas como mineiros. E isto é laborioso, doloroso: eles estão refazen-
do uma estrutura temporal. Isto porque a estrutura espacial constitutiva da
comunidade de trabalho (o mundo da mina) é transformada para dar conta
de uma nova sobreposição temporal. Enterradas as referências espaciais, as
referências identitárias podem ser coladas no tempo das sociabilidades, das
festas, do lazer ou da intimidade. Eles fazem dos tempos da vida social o
espaço cotidiano de pertencimento, joga-se petanca, por exemplo.

Hoje, os grand-combiannos devem continuar a construir sua própria vida


e a lutar para resolver seus problemas. Eles não podem, sem dúvida, chegar
a este fim individualmente, mas a partir de redes comunitárias, da sociabili-
dade elaborada no dia-a-dia: a família, a vizinhança, a vida associativa etc,
que implicam a tomada dos espaços de interação diversos, a casa, o bairro,
os clubes, a vila, a região, o país...

Não se fala com otimismo do futuro, mas este é incessantemente cons-


truído, e se ele não é definido claramente, é desejado sem cessar, trabalhado
nos interstícios das práticas e reflexões temporais, neste perpétuo esforço de
reatualização do passado.

O que os grand-combianos vivem hoje é uma estrutura espaço-temporal


que é todo este drama da reatualização do passado local em relação a vila
outrora mineira: a identidade da vila compõe-se de fragmentos da desconti-
nuidade de ser mineiro.

Viver a vila, hoje, é um ato de arranjar, encadear e encaixar os diversos


tempos e as diversas estruturas espaciais da história do grupo. Não querem
mais ser uma “vila mineira”, mas reconstituí-la na memória. Querem per-
manecer, viver aí uma cidade atual, moderna, e isto sem ter que obrigato-
riamente lutar contra o passado. O que querem é que o trabalho de mineiro
dure, mas se ele não pode continuar no interior da estrutura econômica
atual, o savoir-faire torna-se ato de culto. Fixam-se santuários (museus) onde
possam reconstituir a família corporativa e render-lhe homenagem.

Os velhos ordenam suas referências identitárias a partir de sua relação


atual com a cidade em seu movimento geracional. E isto diz respeito também
aos jovens que são os herdeiros deste assalto de modernização aspirado por

114 Referência a HALBWACHS. 1968.

119
Ritmos e ressonâncias da duração de uma comunidade de trabalho: Mineiros do Carvão
(La Grand-Combe, França)

seus pais. Eles não se sentem, necessariamente, os “órfãos da mina”, mas


devem dar conta, simultaneamente, de viver um tempo de crise nesta vila e
ser encompassados por referências identitárias mais globais.

O que difere os jovens, filhos e netos, dos velhos mineiros é que eles não ri-
tualizam sua própria morte, na morte da vila mineira. Viver a vila letárgica, viver a
renovação da imagem da vila não é assim tão doloroso para eles como o é para
os velhos mineiros. Para estes sim, a morte da mina é transpassada pela morte
da comunidade de trabalho e do enterramento de sua profissão, pela perda
das referências identitárias do “valor-trabalho” na mina, que não é mais “situa-
ção”. Não desconhecem que o esquecimento total das referências da trajetória
comum, como uma lavagem cerebral, pode provocar um caos psicológico sem
saída, uma angústia tal que eles se sentiriam reprimidos em participar da cons-
trução do futuro. Por isso o totem (brasão) não pode ser destruído, medo da
desordem total. O pequeno ato de rebelião contra a mudança do brasão da vila
exemplifica que os atores sociais da comunidade de trabalho ainda são, apesar
de todas as transformações, atores sociais e cidadãos de La Grand-Combe.

Os grand-combianos não “esquizofrenizaram”, mesmo com toda a vio-


lência da ruptura do tempo ritmado pelo trabalho na mina. Ao contrário,
eles “acompanham” as mudanças e se reatualizam. Ainda que tendo sofrido
mais fortemente que outros grupos sociais as rupturas infligidas pela moder-
nidade, eles continuam, conquistaram um tempo no tempo. Pela memória,
reencontram cotidianamente um senso para a vida. A memória tem este
poder de reprodução do passado e de transformação do presente, um pouco
espelho do passado, um pouco idealização de um devir coletivo. Porque se
eles perderam espaços-referência da identidade, é no tempo que encontram
um depositório-repouso para suas memórias, quando podem devanear em
tempos imaginários, retrospectivos ou anunciadores.

Pensar um futuro que não seja repleto de referências ao passado, é va-


zio. Porque mesmo que destruam a imagem da cidade decadente para pu-
rificá-la com outra imagem, os homens acabam por afirmar o que eles eram
antes. São herdeiros de mineiros e da memória social conjugada ao presente.

Assim, mesmo que uma nova cidade La Grand-Combe seja construída,


ela o será sobre as ruínas da vila mineira. Ela é esta testemunha eterna lem-
brando que não importa o que venha ser o futuro construído pela vila, os
homens ali estarão e, em alguma medida, terão sempre que dar conta que
outrora, a vila fora mineira. Acabarão por ser obrigados a assumir um passa-
do que não morre jamais, enquanto o futuro for construído por eles próprios.
Porque se tudo muda, as pessoas não param de compor uma continuidade.
Porque se a ruptura é morte, ela o é na dimensão de uma tragédia, e apesar
da morte física, os homens não cessam de criar a vida. Porque enquanto a
humanidade existir, não termina esta força de estabelecer um tempo huma-
nitário que se solidarize com o esforço de construir uma “duração”.

120
Cornelia Eckert

Esta reatualização dá-se na representação de um outro ritmo cotidiano


vivido. Ritmos temporais que lhes são dialeticamente estranhos e familiares,
conflituais e desejados, que colocam em evidência afrontamentos de forças
conservadoras e forças transformadoras, mas que colocam ainda em desta-
que esta força de combinar seus ritmos para construir um tempo que lhes
assegure, numa temporalidade ondulatória (cíclica), a continuidade.

Ritmos e ressonâncias, entonações fortes ou fracas, estilos melódicos ou


dramáticos, tonalidades harmônicas ou dissonantes, cadências dinâmicas ou
lentas, movimentos de encantamento ou de desencantamento, mas jamais
ausência de ritmo. É a superposição de instantes numa consolidação tempo-
ral, num esforço de continuidade na memória de meubler le temps(115); são
vibrações de uma estrutura temporal e de uma estrutura material, constru-
ção da duração presente, vontade de um devir social.

Cheiro de dinamite, barulho de explosões, ontem sinais de trabalho no


fundo da mina, hoje marcas da demolição do espaço mineiro, destas teste-
munhas que se queriam perpétuas. Mas a memória resta... lacunar, rítmica.
Imagens às vezes duras, às vezes nostálgicas, às vezes felizes, elas cadenciam
a lenta morte do mundo da mina. Lembranças cruéis, honradas, imagens-
-memória.(116) Tempo da mina, dos mineiros, do país mineiro, do valor-
-trabalho que fundou uma comunidade de identidade. Ontem vila mineira,
ontem mina, ontem mineiro e hoje... nada? A memória coletiva segue, no
entanto, seu caminho. Rememorações do passado, razões do presente, a
comunidade de trabalho reconhece nas descontinuidades, sua continuidade
nas “razões práticas”, nas “razões simbólicas”(117). Apesar do desapareci-
mento dos espaços reais sobre os quais o grupo fundou sua identidade, pela
memória ele pode colar suas referências a certos momentos de interação vi-
vidos como sendo seu próprio ritmo construído. É sobremaneira nos tempos
de sociabilidades que eles podem restituir um ritmo ao cotidiano, um senso
à existência do grupo, reatualizar sua cultura nos tempos plurais, posto que
“não existe nenhuma razão, natural ou não, para que uma sociedade se
conserve, salvo justamente a sua cultura, que é o instrumento de luta contra
a dissolução”(118).

115 . BACHELARD. (1988).


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