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ALOCUÇÃO FEITA PELO PROF. DR.

JOCHEN GOLZ (PRESIDENTE DA GOETHE-


GESELLSCHAFT IN WEIMAR) POR OCASIÃO DO CONGRESSO INTERNACIONAL “AS
AFINIDADES ELETIVAS” EM NOVEMBRO DE 2009, PRIMEIRO EVENTO PROMOVIDO PELA

ASSOCIAÇÃO GOETHE DO BRASIL, FUNDADA EM MARÇO DESSE MESMO ANO.

O LUGAR DE GOETHE NO DIÁLOGO DAS CULTURAS

Com a fundação da Associação Goethe do Brasil, o número de Sociedades e


Associações Goethe ativas em todo o mundo elevou-se para trinta e sete. Há Sociedades
e Associações Goethe em todos os continentes. Muitas delas foram constituídas depois
de 1990, após a queda dos chamados regimes socialistas. Isso vale para a Polônia e a
República Tcheca, para a Hungria, Bulgária e Romênia, para os países do Báltico e para
a Rússia, para os Estados do Cáucaso e para os do Extremo Oriente; um panorama
completo das Sociedades e Associações pode ser encontrado na homepage da Sociedade
Goethe em Weimar (Goethe-Gesellschaft in Weimar). Em todos os lugares ocorrem
congressos e eventos literários; em todos os lugares, Goethe ganha espaço nas salas de
aula de universidades bem como nas salas de aula de escolas. As Sociedades Goethe na
América do Norte e na Inglaterra são muito mais antigas, e a Sociedade Goethe
Austríaca (anteriormente Sociedade Goethe Vienense) já havia sido criada em 1878,
enquanto a Sociedade Goethe de Weimar, apenas em 1885. Em 2010, portanto, a
Goethe-Gesellschaft in Weimar completa 125 anos e nós celebraremos esse aniversário
com um evento festivo no dia 19 de junho em Weimar e com uma conferência sobre a
história das Sociedades e Associações literárias, conferência essa a ser realizada entre os
dias 10 e 12 de setembro. A Goethe-Gesellschaft in Weimar possui atualmente cerca de
3.200 membros espalhados por 50 países da Terra, somados a cerca de 7.000 membros
das 59 sociedades locais existentes na Alemanha.

Mas chega de números. Mais importante é a pergunta sobre a importância de Goethe na


vida intelectual contemporânea. Seu prestígio no mundo intelectual é
incontestavelmente enorme. Não é apenas uma questão de marca registrada o fato de os
institutos voltados para a divulgação da cultura alemã no exterior levarem o nome de
Goethe-Institut. Quando, no ano de 2000, uma comissão da Unesco viu-se encarregada
de descobrir quais materiais presentes em arquivos da Alemanha deveriam ser incluídos
na lista Memory of the World, os manuscritos de Goethe, mantidos no Arquivo Goethe-
Schiller em Weimar, foram imediatamente e sem discussão escolhidos para isso.
Atualmente Goethe pertence ao elenco dos autores alemães mais traduzidos; o Fausto, o
Werther e seus poemas representam para os tradutores, sempre e de novo, um desafio.
No Ano-Goethe de 1999, a feira de livros de Frankfurt apresentou, sob o título “Goethe
em mil línguas”, uma expressiva exposição com as traduções de textos goethianos.
Naquele ano comemorativo, a Goethe-Gesellschaft convidou os tradutores de Goethe
para participarem de um congresso em Weimar.

No entanto, seria fácil demais discorrer somente a respeito do papel de Goethe na vida
intelectual da atualidade. A pergunta precisa ser dirigida para a substância de sua obra.
Hoje se fala com frequência da necessidade de um diálogo internacional das culturas e
arrisca-se a tese de que Goethe poderia imiscuir-se nesse diálogo de forma muito viva e
que, nesse caso, caberia às Sociedades e Associações Goethe do mundo todo
desempenhar um papel específico. Desde seus anos de juventude, o escritor abriu-se à
riqueza das culturas estrangeiras, seja quando, ainda criança, observou o mundo dos
guetos judaicos de Frankfurt, seja quando, mais tarde, descobriu o Antigo Testamento
como um grande e poético documento da história da humanidade, ou quando, na casa
dos pais, declamou um hino em homenagem a Shakespeare. Logo cedo, ingressaram em
seu horizonte o Islã e o fundador dele, Maomé. O estudo sobre Winckelmann abriu os
olhos do jovem escritor para as belezas da cultura antiga. Quando Goethe, em novembro
de 1775, chegou a Weimar, já estava familiarizado com as mais importantes correntes
intelectuais da Europa moderna e, igualmente, com as tradições culturais europeias e
não-europeias, já que estas lhe chegaram por meio dos testemunhos da arte e da
literatura do Oriente antigo ou da Antiguidade.

As Antiguidades grega e romana ofereceram o padrão-guia para aquelas obras


goethianas que nós fazemos acompanhar do epíteto de “clássicas”. No entanto, nos anos
posteriores a 1800, a percepção estética de Goethe alterou-se sob o signo de uma nova
tolerância e receptividade. A poesia do Oriente entrou em seu campo de visão o mais
tardar em 1814, e no diálogo criativo com a poesia persa e árabe nasceu o livro de
poemas Divã Ocidental-oriental [West-östlicher Divan]. Além disso, Goethe tornou-se
visivelmente consciente de sua própria importância histórica. Se o seu romance Os
sofrimentos do jovem Werther foi um sucesso dentro e fora da Europa, sua fama cresceu
ainda mais depois da publicação, em 1808, da primeira parte do Fausto. Quando os
poemas sobre Helena, parte do Fausto II, vieram a público, Goethe percebeu, com
autoconfiança, que eles haviam encontrado leitores em Edimburgo, em Paris e em
Moscou. Tomando como exemplo o próprio êxito, Goethe descreveu o fenômeno de
uma “literatura mundial” (Weltliteratur).

Com o conceito de “literatura mundial”, Goethe designa um processo de trocas


intelectuais entre os povos, processo esse tornado possível pela primeira vez através dos
meios modernos de comunicação – o navio a vapor e a estrada de ferro – e que hoje se
consuma com inimaginável rapidez. Esse processo deve ocorrer sob o signo da
apreensão imparcial do que é “estrangeiro”, processo esse em cujo desenrolar os povos
precisariam se conhecer melhor e, ao menos – conforme acrescentou Goethe com
ceticismo – aprender a se respeitarem uns aos outros, já que não conseguem mesmo se
tolerar mutuamente. Acima de tudo, porém, a concepção de Goethe garante que a troca
intelectual e a mediação intelectual somente poderão realizar-se se o conhecimento do
outro capacitar os homens à compreensão mútua e ao respeito mútuo. Literatura
mundial é um conceito qualitativo, e não uma fórmula para a comunicação acrítica – um
conceito que está a serviço da humanização de uma sociedade mundial formada por
pessoas mais cultas e mais criteriosas.

Toda história possui uma história precedente e somente o conhecimento dessa história
precedente permite-nos uma avaliação real da atualidade, somente isso garante nossa
capacidade de dialogar. Citando Goethe: “Quem de três mil anos de história / Não sabe
prestar-se contas / Vive em turvação inglória, / Sem experiência e às tontas” [Wer nicht
von dreitausend Jahren / Sich weiß Rechenschaft zu geben, / Bleib im Dunkeln
unerfahren, / Mag von Tag zu Tage leben]. Goethe não apenas divulgou essas máximas
em suas obras e cartas, como também as converteu em ato na consumação da vida
prática. E justamente em suas últimas décadas de vida, por meio de leituras e de
visitantes, ele apropriou-se de uma quantidade incrivelmente grande de conhecimentos
sobre o mundo. Viajantes como Alexander von Humboldt informavam-lhe sobre as
regiões afastadas do mundo; a América do Sul fez-se presente a seus olhos por meio das
visitas e dos relatos de Martius ou Eschwege. Recentemente, um moderno trabalho de
pesquisa sobre Goethe, embebendo-se nas fontes, revelou o grau de contato dele com a
cultura internacional de seu tempo. Contudo, ainda há muito a ser descoberto.

Para a Associação Goethe em Weimar, o brilho de Goethe na cultura mundial é tanto


um incentivo quanto um compromisso. Somente depois da queda da cortina de ferro, a
Goethe-Gesellschaft in Weimar pôde fazer valer realmente seu caráter internacional,
algo já previsto de forma expressa em seus estatutos desde 1967. A entidade mantém-se
em contato produtivo com as Sociedades e Associações Goethe existentes no mundo
todo e, periodicamente, o Goethe-Jahrbuch (Anuário Goethe) registra na bibliografia
referente ao autor os resultados das pesquisas goethianas realizadas em todo o mundo.
Desde 1993, há um programa de bolsas de estudo em cujo âmbito recebemos
anualmente entre 10 e 12 bolsistas em Weimar; no ano de 2010, nós já poderemos dar
as boas-vindas ao 250º bolsista. Um curso de verão, realizado sempre na segunda
metade de agosto por germanistas destacados, reúne cerca de vinte e cinco estudantes
universitários e pesquisadores de todo o mundo para participarem de discussões
acadêmicas sobre Goethe. As plenárias da Goethe-Gesellschaft in Weimar, realizadas a
cada dois anos na semana que se segue ao Pentecostes, são vívidas reuniões para a
discussão da pesquisa internacional em torno de Goethe e também um ponto de
encontro para os presidentes das várias associações Goethe de outros países. No entanto,
não apenas em Weimar Goethe constitui assunto para debates acadêmicos. Lembro-me
com grande satisfação da Conferência sobre o Fausto realizada em 2008 em São Paulo;
ela forma uma sequência com as Conferências de Túnis e de Montreal, que se
debruçaram sobre a influência da tragédia fáustica nas culturas não-europeias. Com um
apreço especial, lembro-me da conferência anual sobre Goethe realizada em 2009 pela
Sociedade Goethe coreana e da conferência Goethe-Schiller ocorrida no final de abril de
2009 em Pequim, das quais pude participar. Agora também a Associação Goethe do
Brasil desempenhará um papel nesse concerto de congressos e eventos. Eu gostaria de
acrescentar mais uma coisa: é também um sinal da importância de Goethe para o
diálogo entre as culturas o fato de que, desde 1999, jovens músicos de Israel e da
Palestina toquem juntos sob a regência de Daniel Barenboim e sob o signo do Divã
Ocidental-oriental. Anuncia-se assim um indício de esperança. Permitam-me concluir
com versos goethianos do ano de 1827 que destacam de forma expressiva seu conceito
de literatura mundial:

De polo a polo, canções se renovam,

Uma dança das esferas, harmônica no tumulto;

Que todos os povos, sob o mesmo céu

Animados se regozijem nas mesmas dádivas.

Von Pol zu Pol Gesänge sich erneun,

Ein Sphärentanz harmonisch im Getümmel;

Lasst alle Völker unter gleichem Himmel

Sich gleicher Gabe wohlgemut erfreun.