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SUMÁRIO

1 CONSTRUCIONISMO SOCIAL ....................................................................... 3

2 TERAPIA FAMILIAR ........................................................................................ 6

3 CAMPO DE TERAPIA FAMILIAR .................................................................... 7

3.1 Situando o campo da terapia familiar ...................................................... 12

4 APROXIMAÇÕES ENTRE CONSTRUCIONISMO SOCIAL E TERAPIA


FAMILIAR ....................................................................................................................... 18

5 A TERAPIA FAMILIAR NO BRASIL ............................................................... 20

6 CONTRIBUIÇÕES DO CONSTRUCIONISMO PARA A PRÁTICA


TERAPÊUTICA .............................................................................................................. 22

7 REFLEXÕES SOBRE MEDIAÇÃO FAMILIAR E TERAPIA FAMILIAR ......... 26

7.1 Metas da medição familiar....................................................................... 27

7.2 O processo .............................................................................................. 28

7.3 O papel do mediador ............................................................................... 29

7.4 Lugar da expressão emocional ............................................................... 30

8 ASPECTOS METODOLÓGICOS DO CONSTRUTIVISMO ........................... 31

9 CONCEITUAÇÃO DE CONFLITOS ............................................................... 33

9.1 O campo da terapia familiar: enfoque sistêmico x enfoque psicanalítico 34

10 A TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA: ALGUNS CONCEITOS BÁSICOS ... 35

10.1 A escolha da intervenção sistêmica: a consulta psicológica da terapia


familiar 39

10.2 Contra- indicações da terapia familiar .................................................. 46

11 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................... 48
1 CONSTRUCIONISMO SOCIAL

Fonte: ampacabrerapinto.blogspot.com

A tentativa de definir o que vem a ser o construcionismo social tal como presente
na literatura em Psicologia é uma tarefa difícil, seja pelas questões envolvidas, seja pela
crescente produção que tem ocorrido. É possível tentar iniciar esta tarefa afirmando que
não há uma definição única, amplamente, aceita, do que vem a ser o construcionismo
social. Alguns definem o construcionismo como um movimento (Gergen, 1985, 1997),
outros afirmam que os autores considerados construcionistas têm entre si apenas uma
‘semelhança familiar’ (Burr, 1995), e outros ainda afirmam não existir uma psicologia
construcionista social (Potter apud Nightingale & Cromby, 1999).
O surgimento do construcionismo na Psicologia é, segundo alguns autores (Burr,
1995), datado de 1973, com a publicação do artigo de Kenneth Gergen “Social
psychology as history” (Gergen, 1973).
Contudo, este mesmo autor questiona a possibilidade de circunscrever desta
forma o surgimento do construcionismo. Segundo ele, a história do construcionismo
social está inserida no contexto do desenvolvimento da ciência, pautada por três críticas
ao fazer científico que contribuíram para a construção de uma concepção alternativa ao
pressuposto do conhecimento como posse do indivíduo: a crítica social, a ideológica e a
retórico-literária. A crítica social emergiu de autores tais como Marx, Weber, Scheler e
Karl Mannheim, os quais estavam preocupados com a gênese social do pensamento
científico, ou seja, de como o conhecimento é cultural e historicamente situado.
De particular importância para o construcionismo foram os estudos dos processos
micro-sociais presentes na produção científica, seja na construção do fato científico, nas
práticas discursivas de autolegitimação, ou na influência do grupo na forma como os
dados são interpretados Já a crítica ideológica possui uma forte identificação com ‘teoria
crítica’ da Escola de Frankfurt - Horkheimer, Adorno, Marcuse, Benjamim e outros.
Esta crítica, para além de sua orientação marxista original, está presente
atualmente em diversos setores das ciências humanas. Ela busca explicitar os vieses
presentes na construção de determinadas teorias, decorrentes de seu compromisso com
grupos sociais específicos. Dessa forma, a teoria crítica rejeita a ideia de neutralidade na
ciência e sua possibilidade de descrição objetiva e acurada do mundo.
A crítica retórico-literária, por sua vez, busca mostrar como as descrições e
explicações científicas são determinadas pelas regras de apresentação literária, as quais
absorvem o objeto de tais descrições, fazendo-o perder seus status ontológico, sua
independência do processo descritivo.
Em paralelo aos estudos literários, a investigação retórica aponta as formas pelas
quais tais descrições ganham seu poder persuasivo, através do uso de determinadas
metáforas, e formas específicas de apresentação da relação autor/leitor e do objeto
descrito. Ela desloca a investigação do objeto para os meios de sua apresentação. A
partir desta crítica, o texto científico fica então aberto para análise de suas metáforas, as
quais não são derivadas da observação, mas “servem como estruturas retóricas através
das quais o mundo observacional é construído” (Gergen, 1997, p. 41).
Assim, estas três críticas redimensionam as teorias científicas, explicitando seu
caráter comprometido, sua determinação histórico-cultural e enfraquecendo uma visão
da ciência como uma descrição objetiva e acurada da realidade, na qual a linguagem é
sustentadora da verdade. É no bojo do pensamento pautado por estas críticas que
emerge o construcionismo. Para Gergen (1997), buscar uma história da gênese do
construcionismo é remontar à história de cada um destes empreendimento.
O construcionismo social fundamenta-se, dentre outras, por uma noção
sociocultural da mente, muito similar ao que foi proposto pelo pesquisador russo Lev
Vygotsky (1896-1934), para quem o funcionamento mental tem origem nos processos
sociais, ou seja, nas relações que se estabelecem entre as pessoas, e não nas mentes
individuais.
Em outras palavras, o construcionismo social postula que os processos
psicológicos de um paciente são sociais, e somente podem ser compreendidos se forem
contextualizados e entendidos à luz da comunidade e das relações em que o paciente
está inserido. Por exemplo, o significado que uma pessoa dá a uma experiência por que
passou não se origina dentro dela.
É, pelo contrário, resultante da interação social que acontece entre ela e outra pessoa.
Sendo assim, a prática clínica da terapia de base construcionista social privilegia buscar
o processo de construção de um significado não nos funcionamentos psicológicos
intrínsecos de um paciente, mas sim na relação que se constrói entre o paciente e seu
mundo relacional.
Enquanto grande parte dos modelos tradicionais de práticas psicoterapêuticas
diria que o problema é resultante de conflitos internos ou intrapsíquicos inerentes ao
paciente, tendo sua origem no próprio indivíduo, essa proposta privilegia o olhar sobre as
relações e práticas discursivas que se dão em todo o contexto do paciente.
A psicoterapia se configura como um espaço aberto para uma conversa, um diálogo, um
convite à reflexão sobre os padrões que se estabelecem na vida do paciente, sobre os
sentidos que ele dá às crises que enfrenta, ao mundo em que vive e às relações que se
estabelecem entre ele e os outros.
O construtivismo concentrou-se em como os indivíduos criavam sua própria
realidade, mas a terapia familiar sempre enfatizou o poder da interação. Como resultado,
outra psicologia pós-moderna, chamada construcionismo social, agora influencia muitos
terapeutas familiares (p. 287).
2 TERAPIA FAMILIAR

Fonte: arapsicologia.com

A história da terapia familiar é diversa e contempla diferentes conceituações sobre


família, modelos de atendimento e abordagens epistemológicas as quais causaram
transformações paradigmáticas em sua prática. Seu início se caracteriza no campo das
terapias fundamentadas pela prática clínica da psicanálise tendo como foco de atuação
o indivíduo e o entendimento de seus conflitos como causados por conteúdos
intrapsíquicos.
A perspectiva sistêmica, neste campo de conhecimento, iniciou uma grande
mudança ao deslocar o foco de atuação para família e o entendimento de seus conflitos
como fazendo parte de uma causalidade circular, marcada pelas relações interpessoais
entre sus membros, como em um sistema.
Tal alteração foi considerada a primeira mudança paradigmática, uma vez que
deslocou a ênfase, até então fixada no indivíduo e em sua vida intrapsíquiquica, para o
contexto e sua vida inserida em sistemas relacionais (Grandesso,2000; Paula-
Ravagnani, McNamee, Rasera, &Guanaes-Lorenzi,2016; Rapizo,1996).
3 CAMPO DE TERAPIA FAMILIAR

O campo da terapia familiar tem se desenvolvido a partir de diferentes


contribuições teóricas e epistemológicas. Um dos desenvolvimentos recentes da terapia
familiar tem se dado a partir da emergência do movimento construcionista social em
ciência, levando, dentre outras mudanças, a uma maior ênfase nos processos de
comunicação no contexto terapêutico. Considerando a crescente utilização das
contribuições do construcionismo social pelos profissionais brasileiros envolvidos na
prática clínica, consideramos relevante compreender como tem se dado essa
transmissão de conhecimentos do campo teórico para o campo clínico.
O campo da terapia familiar pode ser dividido, de uma maneira geral, em terapia
sistêmica e terapia familiar psicanalítica.
Terapia sistêmica: A Terapia Sistêmica foca nas relações. Ela compreende o
indivíduo integrado ao seu contexto familiar e sociocultural, e realça a
complementariedade existente entre os seres humanos. Por praticar uma abordagem
relacional, o terapeuta sistêmico interage com o cliente - entendendo-se por cliente a
família, o casal ou o cliente individual - numa postura de proximidade e sintonia. Deste
modo, experimenta emoções distintas durante cada atendimento, e é essencial que ele
tenha consciência de si mesmo e de como sua história pessoal e familiar interfere em
seu modo de entender a realidade e relacionar-se com ela.
As terapias familiares correspondem a tratamentos psicoterapêuticos ou
socioterapêuticos da família que apresenta dificuldades ligadas a um ou mais pacientes
reconhecidos socialmente como doentes. A conjunção-disjunção dos aspetos psíquicos
e sociais reflete-se nas divergências de pontos de vista entre modelos psicanalíticos e
(sócio) sistémicos, sem que seja possível permanecer muito tempo num envolvimento
puramente dicotómico, maniqueísta e exclusivo da ação e da reflexão a esse respeito
(Miermont, 1994).
Fonte: noticias.infocif.es

O trabalho com a família de origem tem espaço assegurado na terapia sistêmica.


Pais preocupados com a educação de seus filhos percebem que repetem padrões de
seus pais que não gostariam de repetir. Casais reproduzem modelos relacionais de suas
famílias de origem, mesmo quando haviam se proposto a construir novos modelos para
o seu casamento. A exploração das experiências com a família de origem na terapia
promove as reformulações necessárias para liberar o indivíduo da repetição destes
padrões familiares disfuncionais.
O reenquadre das mágoas e sentimentos infantis, a reformulação da ira e das
imagens negativas, a revisão das expectativas irrealistas, o libertar-se do aprisionamento
a lealdades invisíveis e a possibilidade de perdão, são alguns dos objetivos centrais do
trabalho com a família de origem. A riqueza da terapia sistêmica reside na possibilidade
de que este trabalho possa ser feito com a presença da família de origem na terapia, mas
também na ausência dela, quando ela não pode participar.
A meta é a liberação do indivíduo de seus aprisionamentos passados, para que
deixe de reagir à sua história e passe a agir e se conduzir dentro de uma proposta
relacional atualizada e pessoal com sua família de origem e com sua vida. Busca-se o
desenvolvimento da individualidade, mantendo a conexão com a família, integrando o ser
autônomo e o pertencer.
Através da compreensão intergeracional, o cliente alcança maior integridade, que
se traduz por vínculos mais saudáveis com cônjuges e filhos, interrompendo a repetição
de condutas que o convertem em vítima de sua história e de si mesmo, e que o leva a
encontrar e fazer outras vítimas. A possibilidade de ver a própria família com outros
olhos, rever suas regras, entraves e riquezas, facilita renunciar às delegações que ela
transmitiu a cada um de seus membros, favorecendo que a nova geração esteja liberada
da repetição.
A família é uma unidade fundamental que acompanha a formação e o
desenvolvimento do ser humano. É composta por pessoas que estabelecem entre si
profundas ligações emotivas, que são naturalmente complexas e diferentes ao longo da
vida e muitas vezes unem várias gerações, podendo possuir elementos que, não tendo
ligação biológica com a família, são afetivamente muito importantes no enredo das
relações familiares

Fonte: estrelladigital.es

O terapeuta sistêmico e sua família de origem


O terapeuta sistêmico se depara com a necessidade de examinar sua relação com
a família de origem já nos primeiros anos de formação. Em geral ele fica estancado
quando um caso evoca seus problemas familiares. Quando isto acontece, o terapeuta
pode apresentar uma série de indicadores de que fatores pessoais estão interferindo na
sua capacidade de conduzir a sessão, tais como: enrijecimento, fechamento, mudança
brusca de postura ou de tema, foco e intensidade inapropriados, dispersão, irritação,
cansaço, sono.
Todos os terapeutas, em certo nível, veem a si mesmos na vida de seus clientes,
sendo fundamental a consciência de como os valores subjetivos do terapeuta influem no
processo terapêutico, e como suas questões pessoais e familiares se entrelaçam com os
problemas e a realidade dos clientes. Problemas inerentes à terapia serão sem dúvida
perturbadores e penosos para os clínicos, quando tocam em problemas da vida do
terapeuta, como o abandono de um pai, uma luta moral difícil, um trauma emocional
escondido.
A terapia sistêmica baseia-se num processo integrado da pessoa do terapeuta e
de suas habilidades técnicas. No trabalho clínico o terapeuta tem em sua pessoa o mais
rico instrumento de trabalho. É útil ao terapeuta voltar-se para seu genograma,
examinando como seus modelos relacionais e o lugar que ocupou em sua família de
origem interferem no posicionamento frente a cada família e a cada cliente que atende.
Murray Bowen organizou sua Teoria Intergeracional dando destaque ao tema da
família de origem do terapeuta. Em 1967, em congresso realizado na Filadélfia,
apresentou um trabalho a respeito da própria família de origem, surpreendendo a
comunidade científica presente. Ele verificou que os terapeutas que tinham mais êxito na
clínica eram os que mais haviam trabalhado as próprias famílias, pois estavam mais
diferenciados das histórias das famílias dos clientes.
Questionando a ideia de “saúde mental perfeita” e reconhecendo como a própria
vida do terapeuta afeta e é afetada pela terapia que está conduzindo, com respeito aos
seus problemas não resolvidos, transformou a debilidade do terapeuta em um
instrumento útil para a condução da terapia.
O terapeuta sistêmico, quando trabalha sua família de origem, passa a reconhecer
com mais clareza e prontidão a ressonância provocada nele pela interação com as
famílias que atende. Seu “eu pessoal” torna-se uma ferramenta para seu “eu terapêutico”.
O que o seu “eu pessoal” registra e vivencia na terapia informa seu “eu terapêutico”
sobre as experiências que o cliente vive na família dele. Assim, o terapeuta pode
reconhecer, por exemplo, através de seus sentimentos de opressão e tensão, os
sentimentos de opressão e tensão que o paciente identificado sofre. Pode avançar e
utilizar está vivência terapeuticamente, porque seu self está diferenciado do self do
cliente, exatamente pela clareza e resolução que obteve a partir do trabalho com sua
família de origem. Assim, seu trabalho clínico se enriquece, e ele enriquece a si mesmo
e às famílias que atende. Neste sentido, podemos concordar com Whitaker, sobre a
possibilidade do terapeuta crescer junto com a família.

Fonte: joblinks.etsb.qc.ca

A resolução de algumas questões fundamentais, que o trabalho com a família de


origem do terapeuta promove, contribui para humanizar sua experiência e sua formação,
pondo destaque na sua capacidade de reconhecer a riqueza, diversidade e capacidade
das famílias. O trabalho clínico está repleto de desafios pessoais para os terapeutas. O
terapeuta sistêmico, ciente da interdependência existente entre o técnico e o pessoal,
evolui quando integra o conhecimento da sua família de origem à habilidade técnica, e
propicia a si próprio uma experiência de crescimento compartido.
O processo terapêutico em Terapia Familiar inicia-se com o pedido de terapia
realizado pela família, ou por um dos seus membros. O pedido é realizado por telefone
pelos interessados ou por indicação de profissionais que conhecem a família e em
simultâneo a abordagem sistémica.

3.1 Situando o campo da terapia familiar

As primeiras propostas no campo da terapia familiar se consolidaram a partir da


década de 50, cujo contexto de estudos mais expressivo foram os Estados Unidos e
alguns países europeus, tendo se difundido mundialmente a partir de então. Todavia,
Hintz e Souza (2009) afirmam que os estudos pioneiros sobre terapia familiar datam do
início do século XX, mais especificamente a partir do relato freudiano do atendimento do
pequeno Hans, o qual foi realizado através do pai e provocou mudanças em toda a
família.
As autoras afirmam que a partir de então surgiram diversos estudos apontando a
necessidade de haver uma intervenção com a família como forma de dar suporte ao
atendimento individual.
A partir da década de 50, cresceram os desenvolvimentos da terapia familiar como
tal, contando com a contribuição de diferentes grupos de estudiosos (Hintz & Souza,
2009). Objetivo destes estudos era ampliar o foco individual dominante nas práticas
psicoterápicas e no campo da saúde mental, deslocando a atenção do indivíduo para as
relações familiares (Rapizo, 2002).
Segundo Grandesso (2009), a terapia familiar constitui-se como um campo
interdisciplinar, tendo em vista a grande diversidade de profissionais dedicados ao seu
estudo e sua prática. Para a autora, as diferentes abordagens surgiram sem um sistema
de crenças compartilhado, o que resultou em desenvolvimentos teórico-conceituais
diversos.
As correntes que se constituíram mais fortemente no campo foram as
psicanalíticas e aquelas embasadas nos pressupostos da teoria sistêmica. Neste
trabalho, serão privilegiadas as correntes com enfoque sistêmico, visto que são os
desenvolvimentos desta corrente que, sob uma perspectiva histórica, contribuíram para
a introdução das ideias construcionistas no campo da terapia familiar.
Fonte: amenteemaravilhosa.com.br

Segundo Gomes e Levy (2009), as correntes psicanalíticas se desenvolveram a


partir dos conceitos propostos por Sigmund Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott, José
Bleger, Enrique Pichon-Rivière, e os estudos com famílias de pacientes esquizofrênicos
realizados nas décadas de 40 e 50.
As propostas teóricas psicanalíticas para o atendimento de famílias substituíram o
modelo de atendimento individual de membros de uma mesma família por diferentes
terapeutas pelo atendimento de todo o grupo familiar por um único terapeuta. Esta
mudança explicita a compreensão de que seria necessário focalizar o funcionamento
inconsciente da família – como é enfatizado pelas perspectivas americanas e inglesas –
ou para as configurações vinculares da família, como enfatizam as perspectivas
francesas e latino-americanas (Gomes & Levy, 2009).
O desenvolvimento das correntes sistêmicas se deu concomitantemente às
evoluções ocorridas na teoria cibernética e também a partir da proposição da teoria geral
dos sistemas, por Ludwig von Bertalanffy (Vasconcellos, 2009). Em 1948, o matemático
Norbert Wiener cunhou o termo cibernética para referir-se ao campo do conhecimento
dedicado ao estudo da comunicação e do controle, criando seus contornos como uma
teoria voltada para os sistemas em geral que visava superar a fragmentação da ciência
e ultrapassar as fronteiras disciplinares. A cibernética foi considerada uma teoria
sistêmica por deslocar o foco dos elementos componentes de qualquer complexo a ser
estudado, para as relações entre estes elementos (Vasconcellos, 2009).
Em 1968, Ludwig von Bertalanffy, um biólogo austríaco, propôs a teoria geral dos
sistemas, em que apresenta princípios gerais aplicáveis a diferentes tipos de sistemas, e
transcende fronteiras disciplinares. Segundo Vasconcellos (2009), a cibernética e a teoria
geral dos sistemas possuem a mesma proposta para o campo da ciência, embora
apresentem tendências diferentes – enquanto a primeira é mecanicista (voltada para o
estudo das máquinas), a segunda é organicista (com foco no estudo dos seres vivos). O
contato da cibernética com as ciências sociais originou, na década de 50, a terapia
sistêmica de família.
A principal mudança que este contato propõe ao campo da terapia familiar é
permitir olhar a família como um sistema, no qual os membros interagem entre si de forma
recíproca e interdependente.
Assim, o trabalho do terapeuta transcende o olhar individual, para considerar a
totalidade da dinâmica familiar. Como consequência, o foco é deslocado do sintoma
apresentado para as relações que o produzem e sustentam (Rapizo, 2002).
O percurso histórico da cibernética tem sido dividido entre cibernética de primeira
ordem e cibernética de segunda ordem, cada qual contribuindo de maneiras específicas
ao desenvolvimento do campo da terapia familiar sistêmica.
Na cibernética de primeira ordem, os sistemas são considerados como “um todo
ordenado que mantem relações recorrentes entre seus componentes e que mantem o
equilíbrio através de regulação e correção do desvio, ativado por erro” (Rapizo, 2002, p.
39). Esta definição implica que a organização dos sistemas ao longo de sua história visa
à sua conservação e está baseada na estabilidade dos mecanismos que ocorrem no
interior dos mesmos. Rapizo (2002) afirma que, na terapia familiar, essa compreensão
sustenta a noção de família como um sistema que busca a homeostase, ou seja, que
tende a buscar o equilíbrio, mantendo o sintoma como parte do seu funcionamento e
resistindo aos processos de mudança. Assim, o objetivo da terapia é induzir uma crise
na família, rompendo a homeostase e permitindo que os membros da família se
reorganizem de forma que não necessitem mais do sintoma.
Fonte: albertville.ufcquechoisir.fr

A prática clínica traduz estes pressupostos a partir de uma atividade diretiva e


interventiva, visando à resolução de problemas específicos no sistema. O terapeuta
planeja ativamente as estratégias e intervenções, operando sobre o sistema familiar a
partir de uma postura externa a este. Isto implica que, na cibernética de primeira ordem,
o terapeuta considera a si mesmo como um sistema separado da família, sendo que suas
visões acerca do sistema familiar são consideradas neutras e objetivas.
Em consonância com este pressuposto, aquilo que ocorre entre os membros da
família no momento do encontro terapêutico é considerado um processo cujos aspectos
independem da influência do terapeuta sobre eles (Rapizo, 2002).
A cibernética de segunda ordem se desenvolveu a partir da década de 70, devido,
sobretudo, às contribuições do físico austríaco Heinz Von Foerster para o campo. Este
autor cunhou o conceito de sistema observante, o qual implica que, ao realizar suas
observações sobre o mundo, o observador passa a incluir a si mesmo como elemento
crucial das descrições que faz dos fenômenos e objetos.
Neste sentido, o observador torna-se parte dos sistemas que observa (Rapizo,
2002). Segundo Vasconcellos (2009), as propostas de Heinz Von Foerster e suas
influências sobre outros autores da época marcam o “giro de auto-referência da
cibernética”, uma vez que esta assume que seus conceitos, antes aplicados apenas aos
sistemas observados, devem ser aplicados a ela mesma.
Assim, a cibernética enquanto campo do conhecimento toma a si mesma como
objeto de estudo, deixando de ser uma teoria e passando a ser uma epistemologia, visto
que seus esforços se voltam para o estudo das perguntas sobre o conhecer e sobre o
sujeito que conhece (Rapizo, 2002).
É interessante pontuar que esta mudança epistemológica acompanha discussões
mais amplas correntes no âmbito da ciência, em que a prática científica passa a ser
atravessada por questionamentos e reflexões acerca da possibilidade de objetividade e
neutralidade, por parte do pesquisador, ao realizar seus estudos e observações acerca
de objetos e fenômenos.
Estas propostas da cibernética de segunda ordem são elementos que embasam o
pressuposto construtivista e marcam a relevância deste para o campo da terapia familiar.
Vasconcellos (2009) descreve o pressuposto construtivista como centrado no
entendimento de que a realidade é uma construção que ocorre no espaço da
intersubjetividade e está pautada em consensos, sendo que é apenas a partir das
conversações que as pessoas podem falar daquilo que tomam como sendo o real para
elas. As mudanças propostas pela cibernética de segunda ordem sustentam grandes
alterações na prática clínica.
A partir de então, a terapia passa a ser considerada como uma rede de
conversações em torno de um problema, a qual busca a construção de um contexto onde
são exploradas possibilidades e restrições para as mudanças. O terapeuta é considerado
um participante ativo na reconstrução de significados e seu interesse se volta “para os
processos de construção da realidade e identidade familiar, para os significados gerados
no sistema, incluindo nele o terapeuta” (Rapizo, 2002, p. 99). Estas contribuições para o
campo da terapia familiar começam a dar forma a novas abordagens no campo, as quais
vão se desenvolvendo e estruturando a partir da década de 80. Grandesso (2000) nomeia
tais abordagens da terapia familiar sistêmica como conversacionais, dialógicas ou
narrativas – também comumente denominadas como construcionistas ou pós-modernas.
Fonte: terenceherron.com

A partir da década de 80, também aumenta o interesse pelas propostas da


hermenêutica um ramo da interpretação textual e suas possibilidades de contribuição
para o contexto terapêutico. No campo da terapia familiar, as primeiras incursões teóricas
no estudo da hermenêutica foram feitas, segundo Schnitman e Fuks (1996), por Harlene
Anderson e Harold Goolishian, dois autores de grande influência no campo até os dias
atuais.
Como consequência destas novas propostas, um número crescente de terapeutas
familiares foi abandonando as metáforas dos sistemas para compreender e descrever
seus atendimentos, e começaram a utilizar linguagens mais relacionadas ao processo
conversacional. Este novo momento de transição tem sido descrito na literatura como
uma “virada interpretativa”, e expressa a centralidade que a conversação adquire nas
abordagens de terapia familiar assim orientadas, focando, sobretudo, “os círculos
intersubjetivos do diálogo” (Hoffman, 1998, p. 14). Neste sentido, as proposições do
movimento construcionista social passaram a ser úteis para se entender e atuar na
prática da terapia familiar (McNamee & Gergen, 1998).
4 APROXIMAÇÕES ENTRE CONSTRUCIONISMO SOCIAL E TERAPIA FAMILIAR

Situar uma definição única do construcionismo social não tem sido objeto de
consenso dentre os autores construcionistas. A própria origem do movimento não possui
contornos precisos, e alguns autores indicam que a publicação, em 1985, do artigo: O
movimento do construcionismo social na psicologia moderna, de Kenneth Gergen, marca
a entrada do movimento na Psicologia.
O movimento construcionista social em ciência, também denominado por Gergen
(1985) como um “corpo de conhecimentos”, um “movimento contemporâneo” ou, ainda,
uma “consciência compartilhada”, é definido pelo autor como uma perspectiva
preocupada em compreender os processos pelos quais as pessoas descrevem, explicam
ou, de alguma forma, dão conta do mundo em que vivem (incluindo a si mesmas).
Busca articular formas compartilhadas de entendimento tal como existem
atualmente, como existiram em períodos históricos anteriores, e como poderão vir a
existir se a atenção criativa se dirigir neste sentido.
Assim, é uma perspectiva sensível à temporalidade – como os discursos foram
produzidos, como eles estão presentes nos intercâmbios sociais atualmente, e como
podem ser problematizados e modificados a partir da análise crítica e reflexiva de suas
implicações.
Constitui-se também em uma concepção crítica ao status quo, pois que, nas
palavras do autor, o construcionismo social “atua como uma espécie de crítica social”
(Gergen, 1985, p. 301) ao colocar em dúvida as concepções do mundo dadas como
certas.

A ciência tradicional considera que os sujeitos podem produzir conhecimentos de


forma neutra, ou seja, sem que haja influência de suas crenças
e valores na sua visão do objeto. Na perspectiva da construção social, não há
possibilidade de neutralidade na construção do conhecimento, visto que tanto sujeito
quanto objeto são socialmente construídos. Então, o que tomamos como sendo a
realidade emerge a partir de uma inserção em contextos sociais e normativos que
circunscrevem nossa produção de sentidos sobre o mundo.
Estrutura a proposta construcionista segundo os autores, diz respeito à noção de
verdade. Enquanto na ciência tradicional parte-se do pressuposto de que a verdade pode
ser atingida através da aplicação correta e rigorosa dos métodos de investigação e
observação, o pressuposto desta perspectiva aponta a impossibilidade de se chegar a
uma verdade única e imutável.
O que consideramos como “verdade” está sempre circunscrito ao sujeito que fala,
o tempo histórico que está inserido e as condições de produção deste discurso em outras
palavras, está atrelado a quem fala, quando fala, onde fala, e para quem este discurso é
dirigido.
Assim, a proposta do movimento construcionista social nos domínios da
epistemologia diferem-se daquela da ciência tradicional.
As afirmações do construcionismo acerca do que podemos conhecer são
respondidas a partir das relações que as pessoas estabelecem entre si em seus
intercâmbios cotidianos. O conhecimento é construído nas relações entre pessoas
através de práticas discursivas.
Assim, essas possibilidades de construção estão circunscritas pelas convenções
compartilhadas nas comunidades discursivas às quais pertencemos, não sendo,
portanto, determinadas por condições objetivas ou subjetivas (McNamee, 2010).

Fonte: gumuskoza.com.tr
Esta epistemologia é o ponto de partida de diversas transformações no campo da
terapia em geral, e da terapia familiar em particular. A partir de agora, nosso interesse
recai na forma como estes entendimentos foram articulados com o campo da terapia
familiar, e como esta aproximação altera a prática e o papel do terapeuta familiar.

5 A TERAPIA FAMILIAR NO BRASIL

No que se refere ao contexto brasileiro, apresentaremos alguns marcadores que


influenciaram a criação e desenvolvimento do campo da terapia familiar no país,
priorizando eventos e acontecimentos que marcam o campo de forma mais ampla no
contexto nacional. Neste sentido, será necessário deixar de fora de nossas descrições
algumas especificidades que, ainda que ofereçam um panorama mais completo deste
desenvolvimento histórico, extrapolam nosso objetivo de contextualização do campo.
Aun (2012) indica que algumas iniciativas pioneiras marcam o início do
desenvolvimento do campo da terapia familiar no contexto brasileiro. A criação do Centro
de Orientação Juvenil (COJ) do Departamento Nacional da Criança do Ministério da
Saúde, em 1946, no Rio de Janeiro, mantinha o atendimento do grupo familiar como parte
da proposta de trabalho clínico da equipe multidisciplinar que compunha o COJ. Esta
proposta trouxe para o panorama brasileiro a possibilidade de ampliação de ações
voltadas para famílias em contextos de atuação de diferentes profissionais.
A autora afirma que a prática da terapia familiar, que já se ampliava em alguns
países, despertou o interesse de alguns psicanalistas brasileiros que, na década de 70,
começaram a descrever a terapia familiar como parte relevante dos tratamentos
propostos nos contextos de atendimento clínico (Aun, 2012).
Hintz e Souza (2009) afirmam que, ainda na década de 70, a Pastoral da Igreja
Católica teve grande importância no incentivo da terapia de casal e família, sobretudo
após a aprovação da lei do divórcio no Brasil, em 1977. Neste período, houve grande
encorajamento de trabalhos em todo o território nacional que visassem à prevenção do
divórcio e a manutenção da unidade familiar. Assim, foi estimulada a abertura de centros
de atendimento a famílias e casais em diversos estados do país. Segundo as autoras, a
maior parte destes centros utilizava a teoria sistêmica como principal referencial teórico
(Hintz & Souza, 2009).
Desse modo, a década de 80 foi um período de expansão da terapia familiar como
opção de tratamento e esta prática começou a ganhar espaço em diversas instituições
brasileiras, tornando mais denso o grupo de profissionais envolvidos com a elaboração
prática e teórica destas atividades (Hintz & Souza, 2009).
Entre os anos de 1976 e 1987, foram formalizados os primeiros grupos de estudos,
formação e atendimento em terapia familiar em diversas regiões, sistematizando e
solidificando o desenvolvimento do campo no país (Aun, 2012). Nesta década também
foram criadas as primeiras revistas com temáticas relacionadas à terapia familiar e com
periodicidade regular: a Revista “Família. Temas de Terapia Familiar e Ciências Sociais”,
criada pela Fundação Projeto Diferente, em Fortaleza; e a Revista “Nova Perspectiva
Sistêmica”, criada pelo Instituto de Terapia de Família do Rio de Janeiro.

Fonte: integratedpsychsolutions.com

A partir de 1988, quando foi realizado o I Encontro Brasileiro de Terapia Familiar,


em Salvador, passaram a ser realizados diversos Encontros e Congressos que
contribuíram para a criação de contornos mais precisos para o campo no contexto
brasileiro. Atualmente, os Congressos Brasileiros de Terapia Familiar são realizados a
cada dois anos, de forma alternada com os Encontros de Formadores Brasileiros. A partir
de 2004, passaram a ser realizados os Encontros de Pesquisadores, também com
periodicidade bienal, os quais promovem espaços onde os profissionais podem
compartilhar práticas de pesquisa.
Em 1994, foi criada a Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF), e a
partir de então outros estados brasileiros criaram as associações regionais de terapia
familiar. Atualmente, existem treze associações regionais ativas, com sede em diferentes
cidades do país.
No tocante à prática profissional, Aun (2012) aponta uma diferenciação no
direcionamento das propostas dos terapeutas familiares ao longo dos anos. Segundo a
autora, desde o início da sistematização da terapia familiar no país, os profissionais
estenderam seus trabalhos para âmbitos mais amplos do que a família, passando a
integrar preocupações com as redes sociais que a envolvem e propondo reflexões e
práticas em contextos que excedem o núcleo familiar e integram também as
comunidades.
No que se refere à trajetória da terapia familiar no Brasil como um todo, Hintz e
Souza (2009) ressaltam que a promoção de encontros e a criação dos núcleos e institutos
de formação são formas de expressão da busca dos profissionais por fundamentações
teóricas articuladas com a prática. Neste domínio, os autores também pontuam a
utilização integrada, pelos profissionais da área, de diferentes teorias e perspectivas no
atendimento das famílias. Neste sentido, a partir de uma predominância da teoria
sistêmica como o principal norteador teórico, são utilizadas também as contribuições do
construtivismo, psicodrama, psicanálise, existencialismo, psicologia corporal e
construcionismo social. A seguir, nosso interesse se volta para as formas pelas quais o
construcionismo social tornou-se um aporte útil no campo da terapia familiar.

6 CONTRIBUIÇÕES DO CONSTRUCIONISMO PARA A PRÁTICA TERAPÊUTICA

Propostas de aproximação entre o construcionismo social e a prática clínica em


terapia familiar. É importante ressaltar que estas contribuições não dão forma à uma
“abordagem construcionista”, tal como falamos em uma abordagem psicanalítica ou
cognitivo-comportamental, e sim há a proposta de novos discursos sobre a prática
terapêutica, enfatizando proposições críticas e reflexivas que focam aspectos discursivos
e relacionais (Guanaes, 2006).
Segundo Gergen e Warhuus (2001) são quatro os pressupostos derivados da
perspectiva construcionista social que permitem entender a terapia como um contexto
relacional, os quais influenciam a postura e as metas terapêuticas.
O primeiro deles se refere à flexibilidade que deve pautar o processo através do
qual o terapeuta constrói seus conhecimentos acerca da família. Ao considerar que as
teorias da ação humana se desenvolvem a partir de uma “estrutura prévia de
compreensão” (p.32), os autores afirmam que são as convenções das inteligibilidades
compartilhadas em cada comunidade que determinam como o mundo será interpretado.
No caso da prática clínica, podemos pensar que será a afiliação teórica e epistemológica
do terapeuta que determinará as formas como ele atribuirá significados aos
comportamentos e discursos dos participantes. Assim, estes significados não estão
“contidos” nos participantes, mas referem-se aos conhecimentos que o terapeuta constrói
a respeito deles.

Fonte: ubisafe.org

Dessa forma, o desafio para o terapeuta constitui-se em exercitar a constante


flexibilidade e remodelação de suas compreensões acerca dos participantes e das
relações entre eles. Além disso, a flexibilidade também implica que o conjunto das
propostas construcionistas não delineiam um método construcionista social, uma vez que
estabelecê-lo seria paralisar seu significado no meio social.
O segundo pressuposto descrito pelos autores refere-se à postura
antiessencialista do movimento construcionista social, que nos convida a olhar os
discursos acerca do mundo como construções possíveis dentro de determinados
contextos e momentos históricos. No tocante à prática clínica, vemos que no pressuposto
tradicional de ciência a terapia encontra- se orientada para encontrar as “causas reais”
dos conflitos em questão, sendo que estes são considerados como possuindo uma
existência independente das pessoas que o estão vivenciando. Assim, a tarefa do
terapeuta é procurar por estas causas e propor soluções.
A perspectiva construcionista social considera que descrever algo como sendo um
“problema” é um fenômeno atrelado às tradições de significado a que pertencem as
pessoas. Assim, a terapia buscará entender estes significados como soluções possíveis
para aquelas pessoas e naquele momento, e que podem ser ressignificados quando não
mais estão sendo úteis para elas. O terapeuta, portanto, tem uma postura que convida
ao questionamento da natureza essencializada e inquestionável do problema, buscando
espaços dialógicos em que novos significados possam ampliar os antigos, trazendo
outras descrições acerca das situações que incomodam os participantes da terapia.
Construcionista social que nos permite considerar a terapia como um contexto
relacional, segundo Gergen e Warhuus (2001), refere-se a uma mudança na postura
ocupada pelo terapeuta em sua relação com os clientes. Esta proposta foi descrita por
Anderson e Goolishian (1993) como sendo uma postura do não saber por parte do
terapeuta.
Tradicionalmente, o profissional trabalha a partir do pressuposto de que seu
conhecimento é superior ao do cliente, uma vez que está embasado na ciência e não no
senso comum. Em decorrência, suas interpretações advêm de narrativas teóricas pré-
determinadas que condizem com o modelo teórico por ele adotado e dão forma, como
consequência, a relações hierárquicas que desqualificam o saber do paciente em favor
do saber especializado do profissional.
Segundo Anderson e Goolishian (1993), estas intervenções levam em
consideração apenas a voz do especialista e, por reduzirem os significados que norteiam
o processo da conversação terapêutica, elas reduzem também os cursos de ação
possíveis para profissionais e clientes.
A terapia como um contexto relacional e implicam o terapeuta tanto no que é
descrito como o problema a ser abordado no processo terapêutico como nos resultados
alcançados ao longo do mesmo. Além destes pressupostos, outras propostas sensíveis
às ideias construcionistas dão forma a diferentes maneiras de compreender e atuar na
terapia.
A centralidade que a linguagem assume na criação das possibilidades de mudança
no contexto terapêutico é um elemento importante nas mudanças ocorridas no campo da
terapia familiar.
A atenção é voltada para aspectos discursivos e relacionais entre os membros da
família e entre estes e o terapeuta. Assim, a preocupação central deste passa a ser as
formas pelas quais a linguagem constrói o self e o mundo desde o ponto de vista dos
participantes, e as implicações que estes significados têm para o bem-estar de cada um
em particular e da família como um todo (Anderson, 2012; McNamee, 2004a; Rasera &
Japur, 2004).
As pessoas estão inseridas em contextos complexos de relações
interdependentes e cada uma convida a diferentes construções de discursos a respeito
de si mesmas.
Ao trabalhar com esta noção no âmbito da terapia, há a valorização de diferentes
formas de descrição das situações, considerando que a emergência destas vozes
possibilita um diálogo – tanto externo quanto interno – mais rico e potencialmente gerador
de mudanças.
Segundo McNamee (2001), o desafio do terapeuta é viabilizar a abertura para que
o indivíduo fale através destes múltiplos discursos – dar conta deste desafio é trazer à
conversação terapêutica a ideia de que nossas palavras e atos estão relacionados com
aquelas das pessoas a quem nos dirigimos. Nas palavras da autora, “quando os outros
falam conosco, nós estamos, de alguma forma, incluídos no que é dito” (McNamee, 2001,
p. 241).
A Terapia familiar pode envolver a necessidade dos terapeutas conhecerem as
famílias de origem, o seu genograma, a sua história, as suas experiências e o seu modo
de vida e valores transmitidos. Às vezes resulta importante convidar elementos da família
alargada para participarem nas sessões.

7 REFLEXÕES SOBRE MEDIAÇÃO FAMILIAR E TERAPIA FAMILIAR

Fonte: radiobuap.com

Uma das interrogações quanto ao emprego da terapia e da mediação refere-se à


existência ou não de fronteira nítida entre estes processos. O profissional que trabalha
com ambos os recursos pode utilizar alguns subsídios da mediação durante um processo
terapêutico, como também usar algumas contribuições da terapia durante uma mediação.
Contudo, a mediação focaliza, em primeiro plano, o processo de interação e resolução
entre as partes no que diz respeito ao conflito, ao passo que a terapia tem caráter mais
envolvente, na medida em que trabalha não tão centrada na resolução do conflito. Em
suma, os tipos de processo são distintos, mas as abordagens e as técnicas de ambos os
procedimentos são utilizados por vezes, de modo complementar, como ferramentas
importantes. Por exemplo, o caráter organizador do conflito na mediação pode ser útil em
uma terapia, assim como o restabelecimento de um diálogo respeitoso pode ser
terapêutico durante um processo de mediação. Sempre tendo em mente a mediação
transformativa, interessa examinar algumas de suas facetas para compará-la e
diferenciá-la da terapia. Estes aspectos incluem metas da mediação, a natureza desse
processo, o papel do mediador e o lugar da expressão emocional no processo da
mediação.

7.1 Metas da medição familiar

A meta explícita da mediação é definida pela negociação de determinados


assuntos identificados pela família e pelo mediador como temas pertinentes ao conflito
em questão. De modo geral, os conflitos que levam uma família a buscar auxílio na
mediação são diferentes daqueles que a fazem procurar a terapia. Finalizar uma terapia
que foi iniciada em razão de um conflito particular é diferente de resolver um conflito
através da mediação. Por sua vez, os familiares que buscam a terapia comumente não
querem assistência em negociações sobre conflitos específicos, mas sim visam
mudanças nas suas relações. Enquanto que as metas primárias da mediação e da terapia
são diferentes, as metas secundárias de um processo em geral são similares às metas
primárias do outro. Por exemplo, se a família procura um terapeuta em virtude de conflitos
entre os pais e o filho com relação a horários, responsabilidades domésticas e mesada,
o terapeuta não enfatizará a resolução destes conflitos como primeiro objetivo, apesar de
o final das disputas poder vir a ser visto como resultado de um tratamento terapêutico
pleno de êxito. Similarmente, se a mesma família procura um mediador, este não terá
como meta primeira a mudança na qualidade das interações ou a melhoria da
comunicação familiar. No entanto, muitos mediadores de família associariam tal resultado
a um produto da mediação.
Embora na mediação transformativa o acordo não seja a principal meta, uma
mediação plena de êxito em geral tem como remate um 'produto’ específico, que é o
acordo escrito construído pelas partes. A terapia, por sua vez, não tem como fecho um
acordo escrito, e sim a decisão conjunta, entre os membros e o terapeuta, quanto ao seu
término, contemplando as mudanças que eram esperadas e foram conseguidas. Deve-
se reconhecer que os resultados da mediação plena de êxito podem ser similares aos
esperados em terapia. O processo da mediação costuma ser terapêutico na medida em
que conduz a reduções observáveis a ansiedade, as feridas e a raiva que podem ser
geradas em situações de conflito. De maneira semelhante, o mediador pode notar maior
compreensão confiança, melhora na comunicação e nas habilidades de colaboração
entre as pessoas.
Alguns autores discutem acerca das metas secundárias da mediação; tais metas
seriam a reestruturação da relação pais-filhos e a criação de um modelo de comunicação
e resolução de conflitos que pode servir no futuro. O mediador que tem estes objetivos
deve ser cauteloso para não prolongar e descaracterizar o processo de mediação, que é
mais rápido e com desígnios mais delimitados do que o da terapia.

7.2 O processo

A mediação é processo com temas, metas e tempo limitados. Enfatiza o presente


e o futuro, mas não o passado, como na terapia. Há casos em que a mediação vai lidar
com aspectos da lei que podem influir na tomada de decisões. Se a mediação trabalha
com temas mais ‘objetivos’, a terapia, em geral, lida com temas de caráter mais 'subjetivo’
e trabalha de forma mais ampliada sobre os mesmos. Na mediação, as respostas
emocionais são trabalhadas de maneira restrita para que o processo possa ter
prosseguimento. Em terapia, estes aspectos são mais explorados. Embora o impacto da
mediação possa acarretar mudança psicológica, esse processo não visa uma exploração
ou aprofundamento dos temas e reações emocionais. O começo dos processos de
mediação e terapia também são distintos.
A maioria dos mediadores trabalha com uma sessão inicial de contrato, a qual
propicia a verbalização das expectativas de todos os envolvidos, mediador e partes. O
mediador expõe a natureza do processo, fala dos resultados esperados, da
confidencialidade e, caso seja preciso, da possibilidade de consulta a outro profissional
após o término previsto. As responsabilidades pelas tomadas de decisões e o nível de
participação das partes também são discutidos, introduzindo-se o conceito de
imparcialidade. No momento em que as partes optam pela mediação, pode-se firmar um
acordo, o qual inclui os pontos mencionados anteriormente. Por sua vez, a terapia inicia
pela exploração dos motivos da procura deste processo. O terapeuta faz entrevistas para
ir discutindo com seu/s cliente/s a proposta e o desenvolvimento desta abordagem. Na
mediação, depois que as partes dela aceitam participar, o mediador auxilia na
identificação e esclarecimento dos temas, comunicação, desenvolvimento de dados e
tomadas de decisões.

7.3 O papel do mediador

O papel do mediador é mais ativo do que o do terapeuta. Faz o levantamento das


informações necessárias junto com as partes; esclarece, redefine e organiza dados,
facilita uma comunicação mais colaborativa; estrutura as sessões de forma a dar
prosseguimento às negociações; administra o conflito; recomenda, quando preciso, que
as partes procurem informação ou recomendação de especialista; auxilia no
desenvolvimento de propostas; ajuda as partes a refletir sobre a importância de suas
decisões; e, por fim, auxilia na redação do acordo, quando este é conseguido. Durante
todos estes processos, o mediador permanece centrado nos temas, recordando os
propósitos, procedimentos e alcances da mediação a seus clientes. Trabalhando
ativamente e tendo em mente a transformação das relações e a possibilidade da
construção de acordo, o mediador não decide, mas facilita o processo de tomada de
decisões das partes. A relação do mediador com as partes é imparcial e equilibrada.
Outra característica distintiva quanto ao terapeuta é que o mediador não assume
responsabilidade no que se refere à melhoria da saúde mental dos clientes.
O cliente também não vem para a mediação com este propósito, apesar de poder
ver a mediação como processo menos estressante e psicologicamente mais benéfico que
os procedimentos competitivos. O mediador compreende seu papel como aquele no qual
vai ajudar as pessoas a resolver seus conflitos, possivelmente chegando a acordo
benéfico às partes envolvidas.
7.4 Lugar da expressão emocional

Sentimentos e emoções têm lugar na mediação, mas não constituem foco maior,
mesmo sendo identificadas, esclarecidas e consideradas. Certos clientes trazem estas
emoções, ao passo que outros procuram não se expor muito. O mediador vai lidar com
tais variações de maneira cautelosa para que o objetivo do processo não sofra alteração.
Alguns mediadores alertam as partes para a possibilidade de surgimento de sentimentos
fortes durante o processo. Deve-se levar em conta o fato de a família ter escolhido a
mediação em lugar da terapia, o que já pode servir de parâmetro a respeito de sua
disponibilidade para aprofundar estes temas.
Um mediador – por não explorar muito as manifestações emocionais,
identificando-as e dispondo-as com o objetivo de dar continuidade ao processo – pode
optar por não identificar sentimentos que considere dispensável, enquanto que em
terapia a manifestação dos mesmos sentimentos poderia ser trabalhada.

 Metas primárias/ mediação: resolução do conflito e/ou mudança nas


relações
 Negociação de termas específicos
 Possibilidade de acordo
 Processo/mediação: tempo, começo e participação
 Limitado/breve
 Acordo para mediar
 Todas as partes envolvidas no conflito (membros da família)
 Orientação no tempo – presente/futuro
 Natureza – social/semilegal
 Temas – mais objetivos
 Papel do terceiro: conduta mais ativa para as metas primarias
 Expressão emocional: reconhecidas e assinaladas
 Terapia: mudança pessoal e relacional
 Temas trabalhados são menos focalizados
 Tempo não limitado
 Sessões para avaliação
 Pode iniciar com a parte dos membros da família
 Passado/presente/futuro
 Psicológica/social
 Mais subjetivos
 Co-construção do processo
 Exploradas, ampliadas e trabalhadas

8 ASPECTOS METODOLÓGICOS DO CONSTRUTIVISMO

Fonte: minutopsicologia.com.br

A questão da metodologia a ser adotada numa pratica pedagógica construtivista é


um dos aspectos que mais têm gerado controvérsias na aplicação da teoria à realidade
da sala de aula. No caso da alfabetização isso fica claro em virtude de que, na escola
tradicional, há uma valorização dos métodos e/ou técnicas de ensino da leitura escrita.
O professor construtivista, por sua vez, tem consciência de que não pode mais
utilizar essas velhas técnicas de alfabetização; no entanto, o ensino da leitura e da escrita
e de outros aspectos próprios a alfabetização deverá também seguir uma metodologia
coerente com os objetivos da proposta construtivista.
A prática de sala de aula deverá ter um norte, uma orientação, e isso não é deixar
de ser construtivista. Ao contrário, as orientações metodológicas baseadas nas teorias
construtivistas devem explicar não apenas os detalhes das técnicas utilizadas, mas
principalmente, justificar teoricamente como se chegou até essas técnicas, quais são os
objetivos em relação à aprendizagem e suas prováveis consequências em termos
pedagógicos
Técnica por si só não tem mais sentido algum na alfabetização, quando, por
exemplo, a professora da escola tradicional aplica o método silábico, ela se utiliza da
técnica das famílias e não questiona por que as crianças devem aprender a ler e a
escrever daquela maneira. Simplesmente aplica a técnica, sabe que ela funciona e, se
funciona, não há o que questionar. O método e a técnica estão acima do conteúdo. A
leitura e a escrita não são percebidas como um meio, mas como um fim em si mesma. O
importante é saber decifrar as silabas, as palavras, as frases e o texto.
Os problemas com a interpretação da leitura e com a produção de textos são
deixados para as series seguintes. Na alfabetização o que interessa é que a criança leia,
ou melhor, decifre. Mas não é preciso elaborar um tratado sobre a leitura para chegar à
conclusão de que ler não é a mesma coisa que decifrar. É isso e muito mais.
Segundo Pimentel (1992), esta é uma das críticas feitas à prática pedagógica que
se sustenta na teoria construtivista: a não utilização de um método para alfabetização.
Quando isso se confunde com um espontaneísmo irresponsável por parte do professor,
pode gerar muitas deformações e prejuízos para a prática pedagógica:
O construtivismo é incompatível sim com um método fechado, do tipo dos que são
tradicionalmente usados na aprendizagem da leitura e da escrita, porque este tipo de
instrumento didático veicula uma generalização de conhecimento que todos sabemos
não ser verdadeira: as crianças na alfabetização não se encontram todas no mesmo
ponto de partida e nem aprendem, ao mesmo tempo, a ler e escrever. (Pimentel,
1991.p.30).
De acordo com esta autora, adotar um método exclusivo de ensino para a leitura
e a escrita seria ignorar que as crianças não têm as mesmas experiências anteriores à
própria escola, os mesmo interesses e necessidades e a mesma capacidade e
velocidade de aprendizagem na alfabetização. Isto não significa que uma postura
construtivista seja incompatível com a aquisição dos conteúdos curriculares. As maneiras
com estes conteúdos são trabalhados em sala de aula é que é diferente da utilizada na
escola tradicional.
Mas isto não significa dizer que não se tenha, numa prática construtivista, uma
metodologia de trabalho, uma organização curricular, uma vez que não há nenhuma
incompatibilidade do construtivismo com os conteúdos curriculares. Na realidade o que
muda é a forma como estes conteúdos são trabalhados pedagogicamente.

9 CONCEITUAÇÃO DE CONFLITOS

Os conflitos são inerentes à vida humana, pois as pessoas são diferentes,


possuem descrições pessoais e particulares de sua realidade e, por conseguinte, expõem
pontos de vistas distintos, muitas vezes colidentes.
A forma de dispor tais conflitos mostra-se como questão fundamental quando se
pensa em estabelecer harmonia nas relações quotidianas. Pode-se dizer que os conflitos
ocorrem quando ao menos duas partes interdependentes percebem seus objetivos como
incompatíveis; por conseguinte, descobrem a necessidade da interferência de outra parte
para alcançar suas metas (Hocker & Wilmot, 1991). Por sua vez, Donohue & Kolt (1992)
estabelecem a distinção dos conflitos em manifestos ou latentes: o manifesto se dá de
forma aberta e o latente existe quando as pessoas evitam determinado tema e não fazem
visível seu incômodo ou desagrado. Embora se possa ter visão negativa do conflito, como
algo ameaçador ou destrutivo, é possível, ao contrário, dele ter visão positiva. Quando
entendido como possibilidade de crescimento e mudança, orna-se a base a partir da qual
são geradas soluções participativas, criativas e satisfatórias. Há estudos que oferecem
visão mais ampla e menos polarizada, facilitando a concepção de uma resolução
construtiva dos conflitos, como também da conotação positiva a esse respeito (cf. Bush
& Folger, 1994; Kolb, 1994; Littlejohn, 1996).
Tem-se, desse modo, a possibilidade de dar rumo positivo ou construtivo às
diferenças, elaborando uma visão positiva do conflito. Nessa linha de pensamento, o
construcionismo oferece modelo diferente de compreensão dos conflitos, traçando uma
perspectiva transformadora dos mesmos: os conflitos são socialmente construídos e
administrados através da comunicação da ‘realidade’ em seu contexto socio-histórico, na
qual ambos, conflitos e realidade, influenciam e são influenciados em seu significado e
comportamento pelo contexto. (Folger & Jones, 1994).
Quando se pensa os conflitos desde um ângulo positivo, pode-se vislumbrar uma
variedade de opções na forma de administrá-los, o que implica preocupar-se tanto pela
situação individual do conflito quanto pela situação mais ampla em que este se produz.
Semelhante idéia permite a antevisão de resultados igualmente positivos. As pessoas,
então, entendendo o conflito como sinal para mudanças, podem escolher um método de
resolução que se adapte tanto a elas como ao conflito.

9.1 O campo da terapia familiar: enfoque sistêmico x enfoque psicanalítico

O Enfoque Sistêmico:
Os Estados Unidos, que estão agora na terceira geração de terapeutas familiares,
reclamam para si o pensamento sistêmico no trabalho clínico com famílias.
A partir da teoria geral dos sistemas e da teoria da comunicação surgiram várias
escolas de terapia familiar e vários institutos e centros de atendimento e de formação
foram criados.
Para os teóricos da comunicação, qualquer comportamento verbal ou não verbal,
manifestado por uma pessoa - o emissor -em presença de outra - o receptor - é
comunicação. Ao mesmo tempo que a comunicação transmite uma informação, ela
define a natureza da relação entre os comunicantes.
Estas duas operações constituem, respectivamente, os níveis de relato (digital) e
de ordem (analógico) presentes em qualquer comunicação. Quando estes dois níveis se
contradizem, temos o paradoxo. A comunicação paradoxal está na origem da patologia
familiar.
A família é vista como um sistema equilibrado e o que mantém este equilíbrio são
as regras do funcionamento familiar. Quando, por algum motivo, estas regras são
quebradas, entram em ação meta-regras para restabelecer o equilíbrio perdido.
A terapia desenvolvida a partir deste enfoque enfatiza a mudança no sistema
familiar, sobretudo pela reorganização da comunicação entre os membros da família. O
passado é abandonado como questão central, pois o foco de atenção é o modo
comunicacional no momento atual. A unidade terapêutica se desloca de duas pessoas
para três ou mais à medida em que a família é concebida como tendo uma organização
e uma estrutura. É dada uma ênfase a analogias de uma parte do sistema com relação a
outras partes, de modo que a comunicação analógica é mais enfatizada que a digital.
Os terapeutas sistêmicos se abstêm de fazer interpretações na medida em que
assumem que novas experiências - no sentido de um novo comportamento que provoque
modificações no sistema familiar - é que geram mudanças. Neste sentido são usadas
prescrições nas sessões terapêuticas para mudar padrões de comunicação, e
prescrições, fora das sessões, com a preocupação de encorajar uma gama mais ampla
de comportamentos comunicacionais no grupo familiar.
Há uma certa concentração no problema presente, mas este não é considerado
apenas como um sintoma. O comportamento sintomático é visto como uma resposta
necessária e apropriada ao comportamento comunicativo que o provocou.
A partir do enfoque sistêmico, várias escolas de terapia familiar se desenvolveram,
entre elas a Escola Estrutural, a Estratégia, a de Milão e, mais recentemente, a Escora
Construtivista.

10 A TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA: ALGUNS CONCEITOS BÁSICOS


Fonte: philosophadam.wordpress.com

A terapia familiar sistémica assenta numa teoria comportamental da comunicação


e numa estratégia pragmática.

Esta abordagem privilegia a observação, no seio da família, das condutas


interativas e das trocas comportamentais manifestas das quais se tende a denunciar os
efeitos patogénicos. A terapia sistémica possui as suas próprias técnicas (contra
paradoxo, conotação positiva, desqualificação, redefinição, reenquadramento e
provocação) para clarificar a comunicação perturbada no sistema familiar (Doron &
Poirot, 2001).
Entre os principais conceitos, encontram-se: a noção de família e a ideia de
mudança:
A noção de família: é o conceito-chave da terapia familiar. Andolfi (1995) considera
a família como um sistema de interação que supera e articula dentro dela os vários
componentes individuais e, deste modo, a exploração das relações interpessoais e das
normas que regulam a sua vida como grupo. Esta exploração das relações e das normas
são necessárias para a compreensão do comportamento dos membros que a formam,
bem como para a formulação de intervenções eficazes.

Então, a família pode ser considerada como um sistema aberto, social e auto
organizado constituído por várias unidades ligadas no conjunto, por regras de
comportamento e por funções dinâmicas em constante interação e com trocas com o
exterior. A família é um sistema entre sistemas, essencial à exploração das relações
interpessoais e das normas que regulam a vida dos grupos significativos a que o indivíduo
pertence para que seja possível compreender o comportamento dos membros e
formulação de interações eficazes. (Andolfi, 1995)
A família é como um sistema ativo regulado: por regras desenvolvidas e
modificáveis no tempo através de tentativas e erros que irão permitir aos vários membros
experimentar o que é permitido na relação e aquilo que não é. Por outras palavras, a
formação de uma unidade sistémica é apoiada em modalidades relacionais peculiares ao
próprio sistema e susceptíveis de novas formulações e adaptações no tempo.

A família não é um ser passivo, mas sim um sistema intrinsecamente ativo, em


que cada mudança no seu interior (intrasistémica: nascimento dos filhos, separação, luto,
divórcio), ou no seu exterior (Inter sistêmica: mudanças de trabalho ou contexto, de
valores) irá repercutir-se no sistema de funcionamento familiar, exigindo um processo
constante de adaptação (Andolfi, 1995)

Também é um sistema aberto em interação com outros sistemas (escola,


emprego, bairro): as relações intrafamiliares mantêm uma relação dialética com as
relações sociais: irão condicioná-las ao mesmo tempo que será condicionada pelas
normas e valores da sociedade onde se encontra, procurando estabelecer um equilíbrio
dinâmico. Levi- Strauss refere que tal relação “não é estática como a parede e os tijolos
que a compõem. É antes um processo dinâmico de tensão e oposição com um ponto de
equilíbrio extremamente difícil de encontrar, porque a sua localização exata é submetida
a infinitas variações que dependem do tempo e da sociedade. ” (Levi Strauss, 1967).
A concessão de família até aqui apresentada respeita a atual noção de sistema
entendido como um conjunto ativo, estruturado, que se define em função das diferenças
que apresenta na relação com os contextos em que vive e nas finalidades que constituem
a sua razão de existir. Relação e organização são as palavras-chave deste conceito,
correspondendo, respectivamente, às capacidades interativas (circularidade,
retroatividade) e auto - organizativa dos sistemas (Relvas, 2000).
A terapia familiar mostrou que a família deve ser entendida na sua globalidade, ou
seja, como sistema que cria através de relações e interações algo único e não
sobreponível à soma das pessoas que a compõem. Por outras palavras, permitiu
descobrir como os indivíduos, as suas famílias e o seu sofrimento não podem ser isolados
ou desligados dos contextos de vida em que participam, quer eles sejam privados ou
mais sociais e comunitários. Não se deve ignorar que tudo isto deve ser relacionado com
o presente, ao mesmo tempo que não pode ser dissociado da sua própria história
individual e familiar (Relvas, 2002).
A família é um sistema em constante transformação: e que se adapta às diferentes
exigências das diversas fases do seu ciclo de desenvolvimento, assim como às
mudanças e solicitações sociais com o fim de assegurar a continuidade e o crescimento
psicossocial dos seus membros. Esta continuidade e crescimento desenvolvem-se
através de um equilíbrio dinâmico entre duas funções: a tendência homeostática e a
capacidade de transformação, isto é, circuitos retroativos agem através de um
mecanismo de feedback em direção à manutenção da homeostasia (retroação negativa)
ou em direção à mudança (retroação positiva). (Andolfi, 1995)

Esta ideia da família como um sistema em constante transformação remete para


a ideia de mudança, ou seja, cada família vai-se transformando ao longo do seu tempo
de vida em três aspetos fundamentais: estrutural, interacional e funcional. Cada família
nuclear percorre um ciclo vital, marcado por etapas desenvolvimentais, caracterizado
pela prossecução de objetivos específicos que concorrem para a obtenção de um único
objetivo: a sobrevivência do sistema familiar.
A mudança é um conceito fundamental para se perceber a família numa
perspectiva sistémica, aparecendo associada ao fator tempo processual e familiar, no
qual os diversos momentos estruturais da família se vão articulando progressivamente.
Não se trata de uma mudança oposta à não mudança, já que a estabilidade não significa
uma paragem na evolução da vida do sistema familiar, dado que estabilidade e mudança
são duas faces da mesma moeda: uma família encontra-se em mudança permanente
(Relvas, 2000).

Assim sendo, os momentos de mudança correspondem às chamadas crises,


definidas por Minuchin (1974) como uma ocasião de evolução e risco de patologia. As
crises, embora impliquem stress, não se relacionam com o carácter agradável ou
desagradável, nem com a carga afetiva negativa de determinada situação ou etapa da
vida familiar.
As crises podem relacionar-se com as exigências de mudanças internas ou
externas, com as tarefas normativas do evoluir familiar (etapas do ciclo vital) ou com
situações e fontes de stress acidentais que, de algum modo, intersectam ou colidem com
o caminho da família ao longo do seu ciclo de vida (Relvas, 2000).
Em suma, terapia familiar teve o mérito de fornecer todo um conjunto de técnicas
específicas de intervenção que, acopladas à entrevista familiar conjunta baseada na
circularidade, se constituiu como um meio para a atualização de estratégias que se
propõem a perseguir os objetivos terapêuticos definidos pelo conjunto de clientes e
terapeuta.

10.1 A escolha da intervenção sistêmica: a consulta psicológica da terapia familiar

Fonte: julianaorrico.com.br

A terapia familiar, no âmbito da consulta psicológica, irá atravessar diversas etapas


que vão conduzir à concretização de um determinado objetivo.
Optar por uma intervenção sistémica leva a que a família deva ser entendida e
analisada como um todo, em que se um membro tem um determinado problema, toda a
família contribui para a sua manutenção ou resolução. Ao contrário do que se possa
pensar, a terapia familiar não passa logo para uma abordagem centrada na família: irá
partir do particular, do individual, do paciente identificado para delinear uma intervenção
centrada e para a família.
Partindo dos pressupostos sistémicos, torna-se necessário ressaltar as razões
pelas quais se deve partir de uma abordagem individual para uma abordagem familiar.
Significa que terá que ser adotado um modelo conceptual que nos leva do mundo interior,
dos processos intrapsíquicos, para um mundo de comportamentos interativos
observados no seu contexto temporal e espacial. A abordagem sistémica está mais virada
para o estudo dos acontecimentos e das pessoas em detrimento da dinâmica interativa
e não tanto para os seus significados intrínsecos (Andolfi, 1995).
Ao adotar os pressupostos sistémicos, toda a família irá ser concebida como um
ser vivo, um sistema autónomo, auto organizado que tenta progredir ao longo do seu ciclo
de vida. Este “organismo” está em estreita relação com outros sistemas, cada um
composto por diferentes elementos: escola, grupo cultural ou social, nação, bairro,
emprego. Desta forma, quando uma pessoa chega à consulta com algum problema, este
encontra-se em toda a família, ou seja, dela dependerá a forma como ele será resolvido
e quais os recursos que dispõe para que tal seja possível (Sidelski, 2000).
Desta forma, a intervenção sistémica defende que o terapeuta deve convocar toda
a família, procurando estabelecer, desde logo, uma atmosfera de cooperação e
confidencialidade (Andolfi, 1995). Falar do processo terapêutico em terapia familiar é um
pouco complexo e quase impossível de fazer de modo genérico, ou seja, o sistema
constituído pelo todo teórico- epistemológico previamente referido compõe-se de vários
subsistemas com pressupostos particulares e técnicas específicas. Dentro destes
modelos encontramos: modelo estrutural de Salvador Minuchin; o modelo estratégico
associado à escola de Palo Alto, e o modelo extensivo. (Relvas, 2000)

Contudo, existem alguns elementos que se podem ressaltar do todo que é a


terapia familiar: a necessidade que o terapeuta tem de se apoiar numa teoria da família
e deve satisfazer os seguintes requisitos:
Fonte: monganews.blogspot.com

 Descrever e explicar a estrutura familiar, a sua dinâmica, processo e


mudança;
 Descrever as estruturas interpessoais e as dinâmicas emocionais dentro da
família;
 Ter em conta a família como ligação entre o individual e a cultura;
 Descrever o processo de individuação e a diferenciação dos membros da
família;
 Prever a saúde e a patologia dentro da família, isto é, ter um conjunto de
hipóteses acerca do funcionamento familiar e das causas da disfunção;
 Prescrever estratégias terapêuticas para lidar com a disfunção familiar. (Cit.
em Gameiro, 1992)
Então, o processo terapêutico pode ser definido como a psicoterapia de um
sistema social natural, a família, utilizando como técnica base a entrevista interpessoal
conjunta (cit. Relvas, 2000: 29). A família e o terapeuta passam a formar o sistema
terapêutico, numa acoplagem em que cada qual mantém intacta a sua organização e
autonomia.
Desta forma, a psicoterapia vai-se desenrolando através da realização de diversas
entrevistas com os elementos da família, pontuados pelo terapeuta como importantes no
contexto em que surge o sintoma. O terapeuta pode trabalhar diretamente com um só
indivíduo, com um ou mais subsistemas. O ritmo e periodicidade das entrevistas variam
conforme o terapeuta, podem ser mais ou menos espaçadas, regulares ou não. Ao longo
de todo este processo, vão-se utilizando técnicas próprias de cada modelo, aplicadas de
forma pessoal por cada terapeuta, tendo como objetivo último a mudança da estrutura da
família, ou seja, a mudança da forma como mantém a sua organização. (Relvas, 2000).
Terapeuta exerce um papel ativo, mas que não procura impor à família uma
realidade que é dele. Rigorosamente, deve-se falar em terapia com a família e nunca de
uma terapia da família. (Relvas, 2000). Assim sendo, a atitude do terapeuta não é a de
tentar explicar um indivíduo, observado isoladamente, sobre o qual realizará inferências,
mas sim de um participante num processo ativo que parte das observações das
interações entre os membros da família e entre está com os outros sistemas que com ela
interagem. (Andolfi, 1995). É este terapeuta, como agente de mudança, que favorece a
amplificação das flutuações do sistema, de modo a que este, através da reestruturação,
evolua para um novo nível de estabilidade: mais diretivo, provocador e consultor (Relvas,
2000).
O terapeuta deve observar o indivíduo no seu contexto de interação (família,
escola, bairro), nos quais o seu comportamento “diferente” pode assumir um outro
significado. O terapeuta prescinde da necessidade de reconstruir uma história e uma
evolução clínica com fins amnésicos, preferindo começar do zero, analisando as relações
no aqui e no agora entre o indivíduo e o sistema interativo num único ato de observação.
Assim, a família passa a ser considerada um sistema interativo, não como uma soma de
uma série de comportamentos individuais desligados entre si. (Andolfi, 1995).
O terapeuta não deve ignorar o facto de a vinda da família à consulta como grupo
poder ser ligeiramente embaraçante, em que qualquer um dos familiares pode estar ali
contra a sua vontade. A verdade é que aquele que é apresentado como “perturbado” é o
que se sente mais melindrado com esta situação, já que sabe que é a razão da vinda à
consulta. Andolfi (1995) refere que cabe ao terapeuta criar um contexto terapêutico
tranquilizante e colaborante, evitando pôr-se no papel de juiz que deve emitir um
veredicto, ou no papel de um aliado ou defensor de quem parece débil.
A grande maioria dos familiares é enviada para a terapia já com um diagnóstico
formulado, daí que seja condicionados, no desespero de tal ocorrência, a raciocinar
segundo a lógica da delegação absoluta para o técnico, ou seja, consideram que cabe
ao terapeuta modificar o que não funciona no doente ou fornecer algumas indicações
para saírem do problema, não esperando um pedido de participação na promoção da
resolução do problema. Ao contrário do que a maioria das famílias pensa, a solução do
problema não está nas indicações do médico ou na intervenção farmacológica, mas sim
na análise sistémica dos problemas reais da família e na ativação de todas as valências
positivas e auto - terapêuticas que cada núcleo social possui no seu interior. Será o
sistema familiar a tomar a seu cargo a gestão dos problemas de interação pouco a pouco
evidenciados, funcionando como o eixo do processo terapêutico (Andolfi, 1995).

O papel deste terapeuta relacional será, numa primeira fase, ser o consultor dos
problemas que da família e depois o supervisor dos esforços desenvolvidos por ela no
decorrer da terapia. Para que tal seja possível concretizar há que começar a fazer parte
do sistema familiar, com a sua bagagem técnica de experiência, personalidade, sentido
de humor e capacidade de sentir as emoções dos outros, renunciando à ideia de mágico,
de alguém de “ferro”.
Deve ser capaz de avaliar se a intervenção é correta, negando a terapia quando o
problema é resultante de contradições sociais, mascarado por um sintoma psiquiátrico
ou no caso da família se mostrar constrangida em aceitar uma intervenção imposta por
outrem (escola ou instituição) (Andolfi, 1995).
Assim, o problema daquele que levou ao pedido será considerado, mas o
terapeuta também se interessará pelo problema em termos interacionais, ou seja, saber
como, quando, onde, com quem é porquê do comportamento, ao mesmo tempo que
explora os efeitos desse nos outros membros da família e até fora desta (professores,
vizinhança, parentes, etc.), bem como ver como os comportamentos destes últimos se
repercutem no comportamento da pessoa apresentada como o portador do problema, ou
seja, levar em conta o contexto geral em que estas interações têm lugar (Andolfi, 1995).
a função do terapeuta é, ainda, a de compreender o problema em termos e
interação através do contributo de todos os membros da família, traçando na sua mente
um mapa da estrutura familiar com base nas interações mais significativas intra e
extrafamiliares, ou seja, pode-se pedir a todos os membros da família que definam
objetivos que conduzam a uma mudança estável e à solução do problema Aqui o
terapeuta deve realizar um mapa do tempo decorrido desta família, isto é, realizar o mapa
vital, no qual será realizado uma descrição dos obstáculos com que se podem deparar
na resolução do problema e para passar com êxito para a próxima etapa (Sidelski, D.,
2000). Desta forma, a terapia deixa de ter o seu quê de mistério, passando a revelar um
compromisso de colaboração entre todos (família e terapeuta), em que o terapeuta
apresenta um papel privilegiado: o de ativador e mediador da família. Este pressuposto
aplica-se quer ao contexto familiar, quer ao extrafamiliar, para o qual pode ser necessário
propor soluções e ativar comportamentos. (Andolfi, 1995)

Fonte: portalfloresnoar.com

Por fim, não devemos esquecer o setting: os meios técnicos audiovisuais, como o
espelho unidirecional ou o equipamento de vídeo, que se convertem num importante
instrumento terapêutico ou de suporte de trabalho. Além de sustentarem algumas
técnicas particulares, como reforço da delimitação de subsistemas ou playback, são
ainda utilizadas formalmente no processo terapêutico, quer como auxiliares dos
terapeutas para uma posterior reflexão e estudo do caso, quer como meio de
funcionamento da equipa terapêutica (Relvas, 2000).
A instalação e utilização deste equipamento implica sempre uma organização
adequada do espaço físico: o espaço terapêutico deve ser dividido em duas salas
contíguas (de entrevista e observação), separadas pelo espelho unidirecional e com
comunicação através de um sistema de som. No mobiliário da sala de entrevista não
devem ser esquecidos os brinquedos e jogos para crianças. Aqui, é de salientar que este
setting terapêutico deve ser de imediato apresentado à família, explicando quais as
razões da sua disposição e composição, nunca esquecendo de solicitar à família a
autorização para utilizar o material (sobretudo o de gravação) (Relvas, 2000).
Quanto às implicações terapêuticas da terapia familiar encontramos: razões que
legitimam fazer psicoterapia com a família enquanto totalidade, em que o comportamento
sintomático é entendido como uma mensagem e um comportamento interacional
adequado ao contexto em que se manifesta. Por exemplo, quando na intervenção se
assume que o que está em jogo é o aspeto relacional, é precisamente sobre a relação
que se vai intervir através da implementação da mudança dos processos
comunicacionais nela implicados. Desta forma entende-se que a terapia da família não
tem de ser obrigatoriamente feita com toda a família, pelo que se justifica que se possa
falar de uma intervenção sistémica junto do indivíduo, do casal, da instituição, etc.
(Relvas, 2000)
A própria conceção de mudança acarreta implicações importantes para o processo
terapêutico, bem como para o próprio papel do terapeuta. Por outras palavras, faz com
que a noção de cura adotada pelos modelos causalistas lineares seja substituída pela de
mudança, ou seja, o objetivo não é o retrocesso a um estádio anterior de funcionamento
onde o comportamento problemático era inexistente, mas sim uma evolução para um
novo estádio. Esta evolução para um novo estádio permite uma resolução adequada e
eficaz da situação problemática ou de crise e, obviamente, de novas possibilidades de
evolução (Relvas, 2000).
Tal como Bateson formulou, a terapia é considerada um processo descritivo de
deutero - aprendizagem, ou seja, o organismo “aprende a aprender”, percebe e assimila
um contexto de interações, o que lhe permite ultrapassar o nível de acolhimento puro e
simples de uma informação, acolhendo novos modos relacionais e novos contextos
interacionais por um processo de ensaios e erros, permitindo-lhe corrigir os seus
fracassos.
O objetivo da terapia não é apenas mudar, mas fundamentalmente aprender a
mudar: a mudança é condição dessa aprendizagem, pois é necessário que o sistema
mude para aprender a mudar. O próprio terapeuta faz parte deste processo, no qual ele
próprio se transforma, isto é, incluído no sistema terapêutico, utiliza-se a si próprio não
como um regulador homeostático, mas como um agente ativador da mudança. Cada
terapeuta terá uma representação particular do modo como o fará (Relvas, 2000).
Assim, uma abordagem interativa sistémica requer uma formação séria e
aprofundada, aproximando-se da família e desta forma poderá revelar conflitos que não
pareciam tão evidentes aos olhos desta, ao mesmo tempo que liberta o doente
identificado da sua condição de bode expiatório. Por outras palavras, para aprender uma
abordagem sistémica, o terapeuta em treino deve trabalhar não só com a família, mas
também em contato direto com a comunidade, em que o conhecimento teórico dos
processos interacionais tem de ser implementado pela experiência em campo, ou seja, a
dissolução duma divisão rígida tradicional dos papéis profissionais, ensinando o
terapeuta a lidar com novas responsabilidades, requerendo uma competência genuína e
efetiva (Andolfi, 1995).

10.2 Contra- indicações da terapia familiar

Tal como qualquer modalidade de intervenção, também a terapia familiar


apresenta os seus pontos fracos, sejam ao nível da metodologia, seja ao nível da
intervenção. Não se tratam de desvantagens, mas sim casos em que ela parece ser
contra - indicada e em que se deve optar por uma psicoterapia individual. Falar em
contraindicação prende-se com razões de ordem pragmática, sobretudo no que concerne
ao papel que pode exercer no âmbito da terapia familiar. As ditas contra-indicações são
a favor da capacidade que o terapeuta possui de se aliar há famílias e de as manter em
tratamento, bem como com o consentimento que o sistema familiar dá para que possa
ocorrer a mudança (Bloch, 1979).
Assim sendo, entre as principais contra - indicações da terapia familiar encontram-
se: quando o paciente identificado sofre de pequenos delírios e comportamentos e ações
de menor porte, o mais adequado é utilizar uma psicoterapia individual, centrando-se
única e exclusivamente no indivíduo identificado, dado que ele próprio possui capacidade
para resolver o seu problema. No entanto, a terapia familiar é extremamente adequada
em casos de esquizofrenia, paranoia grave, situações de conflito conjugal e familiar
(Bloch, 1979).
Um outro entrave à terapia familiar pode prender-se com o facto de existir uma
relação de extrema dependência entre os membros da família, em que está funciona
como um conjunto protetor, manipulador, diretivo e desequilibrado. Nesta situação de
nada servirão os esforços do terapeuta, dado que este tipo de família tende a defender-
se e a fechar as suas fronteiras a forças e elementos exteriores a si, contribuindo para a
manutenção do problema (Bloch1979).
A terapia familiar pode não ser útil em quadros de patologia complicados,
sobretudo com as ditas “não-famílias”, dado que se pautam por ser um aglomerado de
pessoas, com uma estrutura similar à de uma família, mas na qual não existem relações
afetivas entre os seus membros.
Neste caso, a terapia torna-se inútil dado que irão evitar qualquer tipo de
intervenção, relação com o terapeuta, não deixando que acedam ao seu interior e não
caminhando para a resolução do problema. Em determinados casos, a própria tentativa
de levar a que a família se comprometa na resolução do problema pode conduzir ao
fracasso. Muitas das vezes, o paciente identificado é o único que espera que o seu
sistema possa mudar, quando na verdade o sistema não se predispõe para a mudança,
resignando-se à condição em que se encontra (Bloch, 1979).
Por fim, deve-se ter em atenção o facto de uma família chegar à consulta após
infrutíferas tentativas de resolução do problema, fosse através de outros técnicos ou
através das suas capacidades, sentindo que está procura de ajuda no exterior seja uma
confirmação da sua incapacidade de resolver, de modo autónomo, os seus problemas.
(Andolfi, 1999).
Dadas todas as contra - indicações, é importante ressaltar que antes de propor a
realização de uma consulta familiar, o terapeuta deve possuir conhecimentos acerca do
que trouxe aquela família à consulta e se será relevante uma intervenção ao nível do
sistema familiar. Por vezes, a psicoterapia individual pode ser a solução para o problema
e a terapia familiar pode vir a piora- lo. Assim, trata-se de escolher, de modo cauteloso,
qual o modelo de intervenção a adotar, analisando de forma concisa os pós e contras de
cada escolha, ao mesmo tempo que deve facilitar a resolução do problema.
Quando se trata de terapia familiar com crianças: de facto esta pode ser muito
vantajosa, dado que a crianças se sentirá mais acolhida e protegida se a sua família a
acompanhar no tratamento. Aqui o terapeuta também pode agir sobre o local onde a
criança se encontra diretamente inserida, isto é, a escola, jardim-de-infância ou bairro,
para que esta não evolua para um quadro patológico ainda mais problemático. (Bloch,
1979).

Fonte: prezi.com

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