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A VIDA DE ANTONIO G1AMSCI

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Esta biografia de Antonio Gramsci, já traduzida
em muitas línguas, propõe-se a fazer uma reconstrução
dos aspectos mais relevantes .da sua vida, e com base
nela apresentar sua história humana, menos conhecida,
mas nem por isso menos importante. Através de uma
paciente pesquisa de documentos inéditos, percorrendo
os itinerários sardos seguidos por Gramsci na infância
e na adolescência, Fiori consegue fornecer um vivo re­
trato, absolutamente original, de seu ambiente familiar,
de seus primeiros estudos, de suas primeiras experiên­
cias políticas. Descrevendo as crises nervosas que o ator­
mentaram ao longo de sua fase universitária, ou seu en­
contro com Giulia Schucht na Moscou pós-revo-
l.ucionária, ou seu difícil relacionamento com os outros
presos políticos nas prisões fascistas, Fiori traz à luz um
material pouco conhecido da vida do Gramsci adulto.
Os dados biográficos vêm sempre ligados aos episó­
dios que traçaram o destino histórico do grande intelec­
tual e revolucionário, e que fizeram coincidir sua vida
com'a história do movimento operário italiano e de seus
partidos.

MAIS UM LANÇAMENTO PAZ E TERRA


UMA EDITORA A SERVIÇO DA CULTURA

*
GIUSEPPE FIORI

Paz e Terra
Publicada em 1966, esta continua sendo
a melhor biografia de Antonio Gramsci,
pensador italiano, militante revolucioná­
rio, teórico político de importância mun­
dial, nascido na Sardenha em 22 de janei­
ro de 1891, falecido numa clínica de
Roma na madrugada do dia 27 de abril de
1937.
Giuseppe Fiori, o biógrafo, é sardo,
como Gramsci. Não chegou a conhecer
pessoalmente o seu biografado, pois nas­
ceu em 1923: quando, menino, entrou
para a escola primária, Gramsci tinha
sido preso, imperava o terror fascista em
toda a Itália. Fiori acabou fazendo uma
brilhante carreira jornalística, após a que­
da do fascismo.
Em 1966, assim que a biografia de
Gramsci saiu, Paolo Spriano, famoso his­
toriador do PCI, comentou-a nos seguin­
tes termos: “É para nós uma lição que te­
nha sido um não-comunista, em parte es­
tranho ao movimento operário, quem en­
frentou esse trabalho e bem o realizou;
mas é também mais uma indicação do
quanto o interesse por Gramsci tornou-se
um dado de toda a moderna cultura italia­
na” (Rinascita, 23-4-1966).
Fiori realizou minuciosas investigações,
entrevistou várias dezenas de pessoas, re­
constituiu a infância de Gramsci na Sar­
denha, seu quadro familiar de pobreza na
aldeia de Ghilarza, sua vinda aos 18 anos
A VIDA DE
ANTONIO GRAMSGI
Coleção PENSAMENTO CRÍTICO
vol. 30

CIP - Brasil. Catalogação-na-fonte


Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Fiori, Giuseppe.
F552v A Vida de Antonio Gramsci / Guissepe -Fiori; tradu­
ção de Sergio Lamarão. - Rio de Janeiro: Paz e Terra,
' 1979.
(Coleção Pensamento crítico; v.- 30)

Tradução de: Vita di Antonio Gramsci

Î. Gramsci, Antonio, 1891-1937 I. Título II. Série

B
CDD - 921.5'
79-0377 CDU - 92Gramsci

EDITORA PAZ E TERRA


Conselho Editorial:
Antonio Cândido
Celso Furtado
Fernando Gasparian
Fernando Henrique Cardoso
GIUSEPPE FIORI

A VIDA DE
ANTONIO GRAMSCI

Tradução de
Sergio Lamarão

Paz e Terra
Copyright © by Editor! Laterza, 1974

Título do original em italiano:


Vita de Antonio Gramsci

Capa: Mario Roberto Corrêa da Silva

Revisão: João Luiz L. Pacheco

Direitos adquiridos pela


EDITORA PAZ E TERRA S.A.
Rua André Cavalcanti, 86
Fátima, Rio de Janeiro, RJ,
que se reserva a propriedade desta tradução.

1979

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
SUMÁRIO

Capítulo1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Capítulo2 ............ 21
Capítulo 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . v . . . . . . . . . . 31
Capítulo 4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
Capítulo 5 . . . ___. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
Capítulo 6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
Capítulo 7 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
Capítulo 8 . . . . . . . . . ___. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
Capítulo 9 . . . . . . _~ 87
Capítulo 10 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103
Capítulo 11 . . . . — . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
Capítulo 12 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127
Capítulo 13 .. — . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145
Capítulo 14 ...................... . 167
Capítulo 15 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . — . . . . . 185
Capítulo 16 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193
Capítulo 17 ....... 203
Capítulo 18 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . — . . . . . . . . . . . 215
Capítulo 19 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 233
Capítulo 20 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 247
Capítulo 21 ................................... 257
Capítulo 22 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263
Capítulo 23 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 273
Capítulo 24 . . . . . ___ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 283
Capítulo 25 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 291
Capítulo 26 .................. . 305
Capítulo 27 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 319
Capítulo 28 . . . . . . . . . . . . . . ___ . . . . . . . . . . . . . . . . . 339
Capítulo 29 ........................ ............. . 351
Capítulo 30 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 357
Notas bibliográficas ............... ............... . . . . . . . . 363
A meu filho Enrico
*
INTRODUÇÃO

Em uma carta a Tatiana, Gramsci escreveu: “ Recebi as foto­


grafias das crianças e fiquei muito contente, como você bem pode
imaginar. Fiquei também muito satisfeito porque comprovei com
os meus próprios olhos que eles têm corpo e pernas; há três anos
que eu via apenas cabeças e já começava a nascer em mim a dúvida
de que eles fossem querubins sem asinhas nas orelhas”.
Este livro não tem outra ambição a não ser completar o retrato
de Gramsci, isto é, acrescentar à “cabeça” (ao Gramsci, grande in­
telectual e líder político) “pernas e corpo”: aqueles elementos hu­
manos, da infância à maturidade, que nos ajudam a ver o persona­
gem “inteiro”, nos dias da fome, do amor e do lento morrer. Trata-
se, portanto, especialmente do retrato de Nino Gramsci.
Recordo com afeto Gennaro Gramsci, morto tragicamente em
Roma, atropelado por um automóvel, em 30 de outubro de 1965,
quando este livro, que muito deve a Gennaro, era escrito.
Agradeço:
A Teresina Gramsci, a quem devo também a consulta de uma
série de cartas até então inéditas:
A Edméa e Cario Gramsci;
A Alfonso Leonetti, Elsa Fubini e Renzo de Felice;
11
A Leonilde Perrili, de quem obtive informações e documentos
sobre a família Schucht;
Aos ghilarzeses, amigos de Antonío Gramsci seus companhei­
ros de brincadeiras e da escola primária; aos companheiros de giná­
sio e de liceu; aos amigos dos anos turineses; a todos aqueles que es­
tiveram próximos a ele na luta e na prisão que quiseram testemu­
nhar sobre a sua vida.

G. F.

12
1.

A casa onde, no passado, residiram os Gramsci, feiía de pedra


avermelhada e com um único pavimento, está situada no centro de
Ghilarza, uma grande aldeia quase a meio caminho entre Oristano
e Macomer, no altiplano do Barigadu. Atualmente quem a ocupa, e
nela mantém um negócio de tecidos e armarinho, é o senhor Antio-
co Porcu, que conheceu os pais de Nino Gramsci (como todos aqui
costumam chamar Antonio), Ciccilo e Peppina Mareias. Dados re­
veladores sobre o ambiente familiar do grande intelectual sardo po­
dem começar a ser recolhidos através de uma visita a esta casa.
Francesco Gramsci, que para nós era o senhor Cic-
cillo, - conta Antioco Porcu chegou aqui muito jovem,
em 1881. Tinha 21 anos e aquele era o seu primeiro em­
prego. Vinha de Gaeta, sua cidade natal, para dirigir o
cartório. Talvez, como tantos outros habitantes do conti­
nente que atravessam o Tirreno, pensasse em cumprir
apenas uma breve estadia, uns poucos anos nos quais se é
obrigado morar mal, no início de carreira. Acabou fican­
do aqui definitivamente. Aqui se casou. E, descontados
os anos de trabalho em Ales e Sórgono, sempre morou
aqui, nesta casa onde agora conversamos. Morreu em
13
1937, 56 anos depois da sua chegada em Ghilarza. No fim
da vida, já falava, ao seu modo, o nosso dialeto. Alguns
moradores já o chamavam de tiu Gramsci.

Escreveu-se, e normalmente se acredita, que Antonio Gramsci


fosse de origem muito humilde. O senhor Antioco balança lenta­
mente a cabeça, antes de responder: “Não é bem assim. Seu pai, o
senhor Ciccillo, completou o secundário; estudava advocacia quan­
do, devido à morte do pai, teve de procurar emprego. E o pai do se­
nhor Ciccillo, pelo que sei, era coronel dos carabineiros. Também
por parte de mãe, Nino Gramsci pertencia a uma família como tan­
tas outras. Os Mareias, se não eram ricos, também não eram humil­
des” .
Tive oportunidade de ouvir, a esse respeito, o irmão mais velho
de Antonio, Gennaro. “Eu também sei disso. Até mesmo Togliatti,
e outros biógrafos de boa reputação, escreveram que Nino era de
origem camponesa, mas não estavam dizendo a verdade” .

Foi o próprio Nino - lembra Gennaro - quem se re­


feriu, em uma carta da prisão, à origem da nossa família.
Posso acrescentar alguma coisa ao que você já sabe. Um
Gramsci greco-albanês, nosso bisavô, fugiu do Épiro du­
rante ou depois dos levantes populares de 1821 e logo se
italianizou. Na Itália, nasceu-lhe um filho, Gennaro, de
quem tomei o nome. Este Gennaro, nosso avô, era coro­
nel da polícia burbônica. Casou-se com uma certa Teresa
Gonzales. Filha de um advogado napolitano, ela descen­
dia de alguma família ítalo-espanhola da Itália meridio­
nal, como tantas outras que ali permaneceram depois do
fim do domínio espanhol. O casal teve cinco filhos. Papai
era o último. Nasceu em Gaeta, em março de 1860, pou­
cos meses antes das tropas do general Cialdini a sitiarem.
Com a queda do regime burbônico, vovô foi enquadrado
na arma dos carabineiros, sempre com a patente de coro­
nel. Morreu moço. Dos cinco filhos, a única mulher ca-
sou-se com Riccio di Gaetaj um senhor abastado. Dos
homens, um era funcionário doMinistério das Finanças,
outro inspetor das ferrovias após ter sido chefe de estação
em Roma, e um terceiro, tio Nicolino, oficial do Exército.
Papai foi o menos afortunado. Por ocasião da morte de
vovô, estudava Direito. Obrigado a trabalhar, aprovei­
14
tou-se da existência de emprego na Sardenha, no cartório
de Ghiriaza, e partiu. Tio Nicolino também foi enviado à
Sardenha, primeiro à La Magdalena, depois a Sassari e fi­
nalmente a Ozieri onde, no posto de capitão, comandava
o depósito de artilharia (e ali morreu), Portanto, a família
de papai era a típica família meridional, de boas condi­
ções, que fornece os quadros intermediários à burocracia
estatal.

E Peppina Mareias? “Nossa mãe”, me disse Gennaro, “era fi­


lha de um Mareias de Terralba e de uma Corrias de Ghilarza. Vovô
. trabalhava como cobrador de impostos e possuía mais do que uma
pequena propriedade. Em resumo, os Mareias encontravam-se em
uma situação intermediária, podemos dizer até bastante boa, se en­
tendemos que é bom possuir, em nossas.aldeias, a casa, um pouco de
terra e um tanto para viver com alguma despreocupação.”
Nascida em 1861, Peppina Mareias era um ano mais nova que
Ciccillo Gramsci. Alta, graciosa, socialmente um pouco acima da
maioria das outras moças de Ghilarza (“Vestia-se à européia”, nos
declarará um costureiro de Ales que a conheceu ainda jovem), era
daquelas que chamavam atenção imediatamente. Freqüentou a es­
cola até o terceiro ano {rrimário. Lia desordenadamente de tudo,
até mesmo Boccaccio, e naquela época, tal particularidade - saber
ler e escrever - constituía, sobretudo em uma mulher, motivo de
distinção '. Francesco pediu-a em casamento, mas na Campania os
seus familiares ficaram contrariados. Principalmente a mãe, que
não aceitava que ele, filho de um coronel e quase doutor em leis, to­
masse por esposa uma jovem de família obscura, não do seu nível.
Ainda assim eles se casaram: Peppina tinha 22 anos e Ciccillo 23.
No ano seguinte, em 1884, nascia Gennaro. Pouco tempo depois,
deu-se a transferência para o cartório de Ales, onde nasceram mais
filhos: Grazietta, em 1887, Emma, em 1889 e, em 22 de janeiro de
1891, Antonio, que foi batizado sete dias depois, a 29 de janeiro.
Os Gramsci eram religiosos? Em Bonàrcado, pequena aldeia
não distante de Ghilarza, encontro Edmea, a filha de Gennaro,

' "Em toda a aldeia e arredores, as pessoas que sabem ler e escrever”, lançamos
mão do testemunho de um escritor da época, Vittorio Angius, “serão cerca de 200” .
Ghilarza contava então com 2.200 habitantes.
15
muito citada ao longo de todas as cartas do cárcere tem 45 anos e
os cabelos já começam a embranquecer. É ela quem me fala da fé de
Ciccillo e Feppina Gramsci:

, Vovo ~ dlz ela - não era praticante. Lembro-me, po­


rem, que nos seus últimos meses de vida, imobilizado em
casa pela doença, agradava-lhe muito a companhia de um
padre, que o visitava com freqüência. “O senhor sabe que
e muito parecido com Giosuè Carducci?” , costumava di­
zer-lhe o sacerdote para animá-lo. Tornaram-se amigos.
Juntos entretiam-se, conversando sobre tudo. Antes de
morrer, vovô pediu para se confessar... Vovó era mais
assídua. Ia à igreja aos domingos de manhã bem cedo. De­
pois que adoeceu, saía pouco. Mas mesmo assim, princi­
palmente depois que tio Nino foi levado para a prisão, ela
sempre dirigia-se ao Senhor. Costumava ouvi-la repetir:
Deus, meu Deus. Não te peço nada, nada mais te peço
So que me dê forças para resistir... Moribunda, chamou-
me e me deu algumas imagens religiosas...

De um outro membro muito próximo da família, Grazia Delo-


gu, a meia-irmã solteira de Peppina, que morou com os Gramsci
durante muito tempo, quase uma segunda mãe para Antonio le­
mos este retrato extraído de uma carta da prisão:

, d'*a Grazia acreditava que havia existido uma certa


Dona Bisódia”, mulher muito piedosa. Tão piedosa
que o seu nome vinha sempre repetido no Pai-Nosso. Era
o dom nobis bodie, que ela, juntamente como outras mu-
heres, entendia Dona Bisódia, que personificava uma
dama dos tempos antigos, quando todos iam à igreja e
havia um pouco de religião neste mundo. Poder-se-ia es­
crever uma novela sobre esta Dona Bisódia imaginária,
que era vista como um modelo. Quantas vezes tia Grazia
nao terá dito a Grazietta ou a Emma: Ah, você nâo é mes­
mo como Dona Bisódia!

Nao foi o conego Marongiu, então pároco de Ales, quem ce­


lebrou o batizado de Antonio Gramsci. A cerimónia teve caráter
particular. Quem batizou a criança, segundo os registros paro­
quiais, foi o ilustríssimo reverendíssimo teólogo Sabastiano Frau,
16
vigário gerai” (o padrinho foi um tabelião de Masullast o cavaleiro

* ^ L rn A Ie s há quem se recorde da festa que houve depois do bati­


zado.
As nossas famílias - conta o cavaleiro Nicolino Tu-
nis, alfaiate até quando as forças lhe permitiram, e agora
aposentado - eram amigas. O senhor Ciccilloe papai, ofi­
cial de justiça da pretória, viam-se com frequência, e a se­
nhora Peppina era considerada em nossa casa como uma
pessoa da família. ESa havia batizado uma das minhas ir­
mãs também chamada Peppina em homenagem à madri­
nha.’ Quando Nino Gramsci foi batizado eu tinha dez
anos Lembro-me bem da alegria daquele dia. Trouxeram
muitos doces de Ghilarza e muita gente veio fazer festa ao
■ pequeno. Eu era colega de Gennaro, mas brincava tam­
bém com Grazietta e Emma, embora elas fossem muito
menores que eu. Quanto a Nino, muitas vezes o carreguei
no colo. Era uma criança bonita, loura e de olhos claros.
Foi embora de Ales ainda muito pequeno, devido à trans­
ferência do senhor Ciccillo para Sòrgono, e nunca mais
voltei a vê-lo.
Não se encontram vestígios gramscianos em Ales. A casa na­
tal, ocupada depois da partida do senhor Ciccillo por um sacerdote,
padre Melis, e posteriormente destinada, durante quase 20 anos, a
sede do Faseio, abriga hoje no andar térreo, um bar, o Bar dello
Sport”, como diz o letreiro. Sobre a entrada, uma lapide colocada
em 1947 2 quase desaparece em meio a tabuletas metalicas que fa­
zem publicidade de aperitivos e bebidas. Até 1947, quando um co­
mitê formado em Cagliari tomou a iniciativa de homenagear
Gramsci no seu local de nascimento, poucos em Ales sabiam que ti­
nham um conterrâneo tão ilustre.
“Nino foi para Sòrgono” , conta Antioco Porcu, ‘ mais ou me­
nos com um ano de idade. E lá em Sòrgono, com exceção dos meses
de verão (quando vinha sempre para Ghilarza), permaneceu ate os*

* “ Dez anos após o seu martírio/ a Antonio Gramsci/ na casa onde nasceu/ esta
pedra representa/ o afeto dos conterrâneos/ e o reconhecimento dos homens livres.
17
sete anos. Enquanto isso, a família aumentava com o nascimento de
Mário em 1893, Teresina em 1895 e de Cario em 1897. Retornaram
definitivamente a Ghilarza em 1898. Daqui o senhor Ciccillo e a se­
nhora Peppina não sairiam mais.”
Foi um retorno dramático. Graves acontecimentos, tendo
como pano de fundo a mesquinha vida política local, acarretaram
para Ciccillo Gramsci conseqüências desastrosas: a perda do em­
prego e a prisão. Tudo começou com as eleições políticas de 1897.
Na Sardenha do final do século passado, “a atividade pública
não se alimentava do debate de idéias”, escreve o historiador Bellie-
ni. Os partidos não passavam de clientelas de poucos personagens.
A esse respeito, temos o testemunho direto de Francesco Pais Serra,
deputado por Ozieri. Crispi lhe havia confiado, em dezembro de
1894, a realização de uma investigação sobre as condições econôm i­
cas e a segurança pública na ilha. Um ano e meio depois, em mea­
dos de 1896, no relatório entregue ao ministro Di Rudini, Pais Ser­
ra afirmava:
À exceção de poucos centros, e ainda assim de uma
pequena minoria, conservadores e liberais, democratas e
radicais são palavras sem conteúdo; o socialismo, a anar­
quia e o clericalismo político não são conhecidos nem se­
quer pelo nome. E no entanto, os partidos são vivos, te­
nazes, intransigentes, lutadores; não são, porém, nem
partidos políticos nem partidos promovidos por interes­
ses gerais ou locais. São partidos pessoais, igrejinhas no
sentido estrito .da palavra... Sob as grandes asas destes
partidos pessoais maiores... pululam os microscópicos
partidos pessoais nos diversos municípios, que são mais
invejosos e violentos quanto mais próximos estão das ra­
zões da desavença, quanto mais o contato é necessário e
cotidiano... Colocam-se na dependência dos partidos
maiores, de quem recebem em troca proteção e auxílio
eficazes nas pequenas contestações locais e sobretudo
proteção pessoal para se obter favores e para escapar das
conseqüências das violações da lei e às vezes de delitos.
“ É uma espécie de vassalagem gradual”, concluía Pais Serra,
“que, com conseqüências piores e mais tristes, substituiu a antiga
sujeição feudal”.
No colégio eleitoral de Isili, que fazia parte de Sòrgono, onde
naquela época o pai de Gramsci era.gerente do cartório, deviam
18
concorrer .para as eleições de março de 1897, numa luta acirrada,
Francesco Cocco Ortu e Enrico Carboni Boy. Cocco Ortu, homem
de grande destaque e com um longo passado parlamentar - com 21
anos já era deputado, e ex-subsecretário de Estado em dois Ministé­
rios (primeiro na pasta da Agricultura e depois na da Justiça) - era,
segundo Camillo Bellieni, “o principal representante deste estado
de espírito de igrejinha” . Mas a próxima eleição se delineava difícil
para o influente homem de governo, uma vez que o seu jovem con­
corrente, originário de uma aldeia situada naquele colégio eleitoral,
Nuragus, gozava de grande popularidade, não só na aldeia da sua
família como também em centros-chave como Tonara e Sòrgono.
Ciccillo Gramsci apoiou Carboni Boy. Era uma batalha incerta, le­
vada até o fim sem tréguas. Cocco Ortu, que veria seu poder au­
mentado dentro de poucos meses (quando pela primeira vez tor-
nou-se ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, no gabinete
de Di Rudini), conseguiu ser eleito. Se quisermos saber qual foi, de­
pois da vitória, o comportamento dos “protegidos” , isto é, dos pe­
quenos partidos rurais, “invejosos e violentos” , que haviam se colo­
cado ao lado de Cocco Ortu, voltemos mais uma vez ao relatório do
deputado Pais Serra: “Pouco importa que em Roma prevaleça este
ou aquele programa político... O que importa é que o chefe de par­
tido seja influente junto ao Governo central, e assim possa dominar
a Sardenha e que, dominando como conquistador, beneficie os ven­
cedores e aniquile os vencidos.” Ciccillo Gramsci estava entre os
vencidos, com todos os perigos intrínsecos a essa condição, inclusi­
ve o de cair vítima do “comércio da justiça” 3.
Alguns meses depois das eleições de março de 1897, um fato
constrangedor obrigou Ciccillo Gramsci a ausentar-se de Sòrgono.
No dia 17 de dezembro, com apenas 42 anos, morria seu irmão Ni-
colino, que comandava o depósito de artilharia em Orzieri, Além de
ter comparecido ao funeral, Ciccillo tinha de procurar encontrar
uma forma pela qual Gennaro, que até então morara com o tio, pu­
desse continuar os estudos. Mal havia partido, enviam um telegra­
ma de Sòrgono com destino a Cagliari. Quem o expedia era a fac­
ção contrária que, aproveitando aqueles dias de ausência do geren-

3 "Esta é a palavra exata” - advertia naqueles anos Alfredo Niceforo. "Foi muito
grave, muito nauseante o desgosto que tivemos em todas as aldeias da Sardenha ao
notar o grande poder que alguns deputados e funcionários exerciam na administra­
ção da justiça.”
19
te, sugeria uma inspeção ao cartório. Ao retornar de Ozieri, Ciccillo
tomou conhecimento de que havia sido instaurado um inquérito
contra de.
Poder-se-ia lhe reprovar alguma pequena irregularidade, po­
rém não havia nenhuma desordem maior no oficio. Ciccillo foi
afastado do emprego e, sem mais uma lira de salário, voltou com a
família para Ghilarza. Passou alguns meses no tormentoso dilema
de que poderia acabar sendo preso. Ficava sempre trancado dentro
de casa, atormentado por pensamentos pessimistas. Estava com 38
anos e, de um momento para outro, depois da perda do emprego
poderia acontecer o pior... No dia 9 de agosto de 1898 os carabinei­
ros vieram prendê-lo. A acusação era de peculato, concussão e
adulteração de declarações.
Enviado ao presídio de Oristano, Ciccillo Gramsci lá permane­
ceu até o reenvio da sentença ajuízo. A 28 de outubro de 1899, a
sessão de acusação da Corte de Apelo de Cagliari ordenava a sua
transferência para a capital sarda. O processo se desenrolou em Ca­
gliari no ano seguinte. Na época, o crime de peculato era de compe­
tência do Tribunal Criminal e foi exatamente este Tribunal que
emitiu, a 27 de outubro de 1900, a sentença de condenação. A cir­
cunstância de “leve dano e valor”, em virtude da exiguidade da ci­
fra que o inspetor havia verificado estar faltando, acabou resultan­
do em sentença. Mas naquele tempo, o código não deixava passar
nem delitos desse gênero e, apesar de lhe ter sido aplicada a pena
mínima com o atenuante do “leve valor”, Ciccillo Gramsci foi con­
denado a cinco anos, oito meses e 22 dias de prisão.
Peppina Mareias foi atingida em cheio pelo infortúnio, tendo
sobre os ombros o peso de sete filhos, o último dos quais, Cario,
ainda usando fraldas, e o maior, Gennaro, com apenas 14 anos
(António estava com sete anos). Até então, os Gramsci haviam vivi­
do, senão com grandes facilidades, certamente dentro dos limites de
uma absoluta tranqüilidade. A vida sóbria e as contas pagas sem
atropelo, de quem todo mês vê entrar em casa um pouco de dinhei­
ro, precioso sobretudo em um lugar onde, prevalecendo a economia
de subsistência e de troca em espécie, pouco era o dinheiro em cir­
culação. Agora, inesperadamente, com a perda do salário e a prisão
de Francesco o clima em família mudava. Vieram tempos de humi­
lhações e extrema miséria. E a essa desgraça somava-se outra; há al­
guns anos Antomo começara a dar mostra de uma deformidade
fisíca.

20
2.

É N e n n e tta Cuba, de quem encontramos referência em uma


carta do cárcere, que me fala do menino Gramsci. Tem 78 anos.
Coetânea e amiga de Grazietta, morava em Ghilarza, era vizinha
dos Gramsci, em cuja casa era considerada como se fosse da famí­
lia.
Nino - recorda-se - não foi sempre... digamos... cor­
cunda. Ao contrário, quando pequeno, era uma criança
bonita. Delicado, talvez. Porém bonito, uma flor... Tinha
quatro .anos menos que eu, brincávamos juntos, e me
lembro bem como ele era antes de ficar doente, um meni­
no bonito, normal, os cabelos encaracolados e claros, os
olhos azuis. Depois, não sei porque, começou a desenvol­
ver-se em suas costas uma espécie de caroço e ele não cres­
cia, continuava baixinho, pequenino. Tia Peppina tentava
de tudo, pobrezinha, para combater o mal. Vivia confusa
e sempre com um ar espantado. Deitava-o para fazer-lhe
longas massagens com tintura de iôdo, mas nada. O caro­
ço crescia cada dia mais. Então disseram para levar o me­
nino para ser examinado em Oristano. Levaram-no tam­
bém a Caserta, onde tiu Gramsci fez com que um especia-
21
lista o examinasse. Na volta, o tratamento indicado foi o
de mantê-lo suspenso em uma trave que pendia do teto.
Arranjaram-lhe também um colete com anéis. Nino ves­
tia o colete e tiu Gramsci ou Gennaro punham-no amarra­
do ao teto, deixando-o suspenso no ar. Pensava-se que
este era o melhor modo para endireitá-lo. Mas a protube­
rância nas costas e depois também na frente aumentou e
nunca houve remédio. Nino contimfou sempre pequeni­
no. Mesmo quando grande, .não superou um metro e
meio.

Os seus pais atribuíam a corcunda a uma queda. “Tantas ve­


zes”, ^diz-me Teresina Gramsci, a irmã caçula de Antonio, “ouvi
mamãe falar como Nino era bonito nos seus primeiros anos de vi­
da. E um dia descobrem nas costas uma inchação, sem que ninguém
pudesse entender a causa. Mamãe, muito impressionada, não se
acalmava. Vem-lhe um pensamento, chama a empregada e pergun­
ta-lhe. Ele caiu dos seus braços? Diga a verdade. A mulher insistia
em dizer que não, mas por fim acabou admitindo. Depois disso, de
nada serviram os diversos tratamentos.”
Além do defeito físico, Antonio sofria também de freqüentes
indisposições. “Quando eu era pequeno, com quatro anos,” escre­
verá, tive hemorragias durante três dias seguidos, que me dessan-
graram-completamente, acompanhadas de convulsões. Os médicos
me tinham dado por morto e minha mãe conservou até mais ou me­
nos 1914 um pequeno caixão e a roupinha especial que deveria ser­
vir para me sepultar” .
t , além disso tudo, trazendo desgraça e pobreza a uma casa
que já sofria devido à pouca saúde do menino, Ciccillo é preso. Pep-
pina Mareias não se rendeu. O orgulho a impedia de recorrer à so­
gra e aos cunhados, depois que eles a receberam mal dentro da
família, na época do casamento. Os irmãos de Ciccillo, todos bem
de vida, e a irmã, casada com um próspero proprietário, teriam po­
dido ajudá-la. Mas Peppina queria fazer as coisas por conta pró-
pria, sem humilhar-se pedindo ajuda a parentes quase desconheci­
dos.
Mulher de grande carater, combativa e ainda cheia de energia
(tinha 37 anos quando o marido foi preso), enfrentou a situação1
com grande força de vontade. Desfazendo-se de uma parte da terra
herdada dos pais, conseguiu constituir um fundo, ainda que modes­
to, para pagar os advogados e atender às necessidades da família.
22
Além disso, dava pensão a um veterinário, o doutor Vittore Nessi.
Mas, sobretudo, trabalhava, “Nossa mãe,” lembra Teresina, “cos­
turava muito bem e confeccionava camisas e outras peças do ves­
tuário que depois, colocadas à venda, davam algum dinheiro. To­
dos nós éramos muito pequenos. Portanto, ela também tinha de
cuidar da casa. E ainda achava tempo para os trabalhos de costura,
renunciando ao sono.” Muitos anos depois, referindo-se àqueles
anos atormentados, Antonio Gramsci escreverá sobre sua mãe:
“Seremos capazes de fazer o que mamãe fez há 35
anos atrás? De enfrentar, sozinha, pobre mulher, uma
terrível tempestade e salvar sete filhos? Certamente a sua
vida foi exemplar e ela nos mostrou o quanto vale a perse­
verança para superar dificuldades que pareciam insuperá­
veis mesmo a homens de grande fibra (...). Trabalhou
para nós a vida inteira, sacrificando-se de um modo úni­
co. Se tivesse sido uma outra mulher, quem sabe qual o
fim desastroso que teríamos desde crianças; talvez ne­
nhum de nós estivesse vivo hoje.
Naquele tempo, Antonio frequentava a escola primária de
Ghilarza. A mãe, devido à sua saúde precária, o havia mandado ao
colégio quando já crescido, com sete anos e meio e, para que ele não
se cansasse, ainda conseguia arranjar tempo para acompanhá-lo
nos estudos. 1No primeiro ano, ele ficou em uma turma de 49 alu­
nos, tendo por professor Ignazio Corrias. No segundo, teve um
novo professor, Celestino Baldussi; e no terceiro, um outro, Luigi
Cossu. Antonio era o melhor da turma. As notas oscilavam, nestes
primeiros anos, entre nove e dez. “O sistema escolar que eu segui”
sabemos através de uma carta, “era muito atrasado. Além disso, a
quase totalidade dos meus colegas falava muito mal o italiano e isto

' “Veio-me com clareza” , escreverá Antonio na prisão, “ a lembrança de quando


estava no primeiro ou segundo ano primário e você corrigia os meus deveres.
Lembro-me perfeitamente que não conseguia nunca me lembrar que uce//o[pássaro]
se escrevia com dois c e este erro você me corrigiu pelo menos umas dez vezes. Pri­
meiro, você tinha me ensinado muitas poesias. Lembro-me ainda de Ralaplan e de
uma outra: ‘Ao longo dás margens do Loire / que como uma fita de prata corre por
cem milhas / um belo solo aventuroso’... Lembro-me também do quanto ficava ad­
mirado - devia ter uns quatro ou cinco anos - da sua habilidade em imitar, na mesa,
o barulho do tambor quando declamava Ralaplan."
23
me colocava em condição de superioridade, porque o professor de­
via levar em conta a média da turma e o fato de saber falar corren­
temente o italiano já era uma circunstância que facilitava muito.”
Outro demento favoravel era a disposição do menino em devorar
qualquer folha impressa que lhe caísse nas mios. “ Ficava semanas
sem aparecer' . disse-me um companheiro seu de brincadeiras, Felle
Toriggia, “e quando eu lhe perguntava o mptivo, respondia-me que
passara todos aqueles 'dias lendo.”
Entretanto, já começava a se manifestar em Antonio, ao lado
da tendência ao estudo, o gosto pelas atividades práticas.
Ele construiu , contam-me os parentes, “um chuveiro espe-
aal, que pode ser descrito assim: um grande recipiente de metal sus­
penso por um gancho. Este recipiente, um latão, pendia do teto da
cozinha. No lado superior, Nino tinha feito diversos furinhos. En­
chia-o de água quente e o puxava para cima. Para virá-lo, bastava
puxar uma cordinha e a água escorria logo para o banheiro.”
Com esta disposição para as atividades práticas, fabricava ele
mesmo os seus brinquedos, barcos e carrinhos. “O meu maior su­
cesso foi quando um artesão do povoado me pediu o modelo em
papel de uma.soberba barca com duas pontas, para reproduzi-la em
lata.” E ainda:

“ Lembro-me perfeitamente do quintal onde brinca­


va com Luciano Guiso, filho do farmacêutico de Ghilarza
e a banheira onde manobrava minhag grandes frotas de
papel, de bambu e de cortiça, idestruindo-as depois com
golpes de esguichos. Falava sempre de bandidos, de ma­
res, de três árvores, de fortes e de velas. A única coisa que
me desagradava era que Luciano possuía uma simples e
íorte barca de lata resistente que, com quatro movimen­
tos, afundava ou meus mais elaborados galeões, com to­
dos os seus complicados equipamentos de velas e pontes.
Entretanto, eu era muito orgulhoso da minha capacidade.
Depois, dedicou-se aos aparelhos de ginástica. Desde criança,
com uma força de vontade fabulosa e resoluta de corrigir, por todos
os meios possíveis, o defeito físico. Nino se dedicava todo dia, me­
todicamente, a levantar pesos. No quintal da casa onde hoje mora
feresina, vejo algumas esferas de pedra. E e ela quem me" conta:
24
Elas serviam de halteres. Foi o próprio Nino quem
as modelou, retirando-as de grandes blocos, com a ajuda
dos irmãos. Juntos, eles as extraíam e depois, durante ho­
ras, ele as lixava até que tomassem uma forma esférica.
Tinha feito seis bolas de pedra para três halteres de pesos
diferentes. Os pares de esferas eram unidos por bastões,
cabos de vassoura: o ferro era muito caro na época e não
se podia colocar uma haste metálica. Além disso, mesmo
com uma haste de madeira, o aparelho servia bem aos
seus objetivos. Com regularidade, todas as manhãs, Nino
fazia os seus exercícios. Desejava ficar mais lorte, ter mais
músculos nos braços e, empenhando-se ao máximo, le­
vantava pesos até que as suas forças o abandonassem.
Lembro-me de uma vez que chegou a fazer 16 flexões sem
parar...
Teresina se enternece, evocando o episódio. Era a predileta,
aquela que, das três irmãs, mais se assemelhava a.Antonio pela vi­
vacidade intelectual L Tem 70 anos, e é viúva, já há muito tempo,
do gerente postal Paolo Paulesu. Figura branca e gentil, com qual­
quer coisa de outros tempos em seu modo de ser, o vestido negro
feito à moda antiga e discreto, esquiva, o olhar que se enche de tris­
teza a cada lembrança dos dias difíceis, parece saída de uma ilustra­
ção de livro antigo. Ela, como o marido, trabalhava nos correios de
Ghilarza. Aposentada desde os 60 anos, vive fechada dentro de ca­
sa. Sai pouquíssimo. “Sem dúvida” , continua “que o fato de ser as­
sim, fisicamente infeliz, também pode ter influído na formação do
caráter de Nino. Era um pouco fechado, mantinha-se sempre à par­
te. Mas mesmo sem ser expansivo, porque isso ele não era mesmo,
demonstrava muita ternura para conosco. Eu, que era a irmãzinha
quatro anos mais nova, era paparicada por ele. Gastava o seu pou­
co dinheiro comprando-me revistinhas.”
Estas palavras serão repetidas por companheiros de brincadei­
ra e de escola, com poucas variantes. Nennetta Cuba lembra-se dele
como uma criança “reservada, mas sem ser um urso.” Fala Felle
Toriggia:

i. "Lembra-se, Teresina, como éramos fanáticos por ler e escrever? Acho que tam­
bém você, não tendo mais livros novos, leu todos os códigos.”
25
Era uma criança melancólica. Se, entretanto, alguém
lhe demonstrava amizade, ele se expandia, brincava... Em
um ano, terá sido 1900 ou 1901, fomos juntos para a praia
em Bosa Marina. Nesta época, viajava-se em carros de
boi. Aqueles dias, transcorridos quase sempre ou no mes­
mo carro ou na praia, eu não posso dizer que Nino
Gramsci fosse um menino fechado. A companhia dos ou­
tros o alegrava, fazendo-o mesmo rir em certosmomentos.
Sentia-se, porém, excluído de certos tipos de brincadeiras ao ar
livre, movimentadas e guerreias ao seu modo. Um colega de escola
primária, Chicchinu Mameli, recorda:

Ele tinha o físico que o senhor bem sabe, e natural­


mente a deformação o impedia de participar de algumas
das nossas brincadeiras. Os meninos, hoje e sempre, gos­
tam de lutas e desafios. Os nossos jogos prediletos eram
provas de valentia física e de resistência, e Nino, no máxi­
mo, podia olhar. Por isso, estava pouco conosco. Em ge­
ral, ficava em casa, ocupado com leituras e em desenhar
figuras coloridas, a fazer construções de madeira, em
brincadeiras no quintal. Ou então, ia passear no campo.
Via-o frequentemente com Mario. Dos outros irmãos,
Gennaro era muito grande, sete anos mais velho, para lhe
fazer companhia, e Cario muito pequeno, seis anos mais
novo.

São daqueles tempos, as excursões entre o vale do Tirso, em


San Serafino, e os hortos e riachos de Canzola e a casa de tia Maria
Domenica Corrias em Abbassanta. Nino tinha lido, ainda menino,
Robinson Crusoe, encontrado na pequena biblioteca que dona Maz-
zacurati, mulher do coletor dos impostos, transferido depois para
outro local, lhe havia deixado. O livro lhe impressionou durante
muito tempo. “Não saía de casa”, escreverá, “sem levar no bolso
sementes de trigo e fósforos avulsos de papel encerado, para o caso
de vir a dar em uma ilha deserta, abandonado às minhas próprias
possibilidades.”
Destraía-se pegando lagartixas ou atirando pedras pelo prazer
de vê-las saltar três, quatro vezes na água e de ouvi-las assobiar.
Apreciava especialmente esses momentos, quando examinava a
vida dos animais.
26
■Numa noite de outono, quando já estava escuro, mas
a lua brilhava luminosa, fui com outro garoto amigo
meu, a um campo cheio de árvores frutíferas, onde havia
principalmente macieiras. Escondemo-nos em uma moi­
ta para nos proteger do vento. De repente, saem dos bu­
racos alguns ouriços, cinco, dois grandes e três pequeni­
nos. Em fila indiana, se encaminharam em direção às ma­
çãs. Andaram através do mato e depois começaram a tra­
balhar; com a ajuda dos focinhos e das pernas, faziam ro­
lar as maçãs que o vento tinha derrubado das árvores, e
as reuniam em um descampado, uma pertinho da outra.
Mas via-se que as maçãs caídas por terra não bastavam.
Então, o ouriço maior, com o focinho para cima, olhou
em volta e escolheu uma árvore muito curva e nela subiu,
acompanhado pela mulher. Detiveram-se em um galho
cheio de frutas e começaram a balançar-se ritmadamente;
os seus movimentos se transmitiam ao galho que come­
çou a se mover mais bruscamente e muitas outras maçãs
caíram no chão. Depois de reunirem estas maçãs às de­
mais, todos os ouriços, grandes e pequenos, rolaram-se
com os espinhos eretos e deitaram-se sobre as frutas; as­
sim, apesar dos ouriços menores terem conseguido enfiar
nos espinhos apenas poucas maçãs, o pai e a mãe conse­
guiram enfiar sete ou oito cada um..Quando estavam vol­
tando para a toca, nós saímos do esconderijo. Pusemos os
ouriços em um saquinho e os levamos para casa. Durante
muitos meses, eu fiquei com o pai e cora dois ouricinhos
soltos no quintal.

Depois, esta outra recordação:

Com os meus irmãos menores, fui um dia ao sítio de


uma tia onde havia dois carvalhos enormes e algumas ár­
vores frutíferas; devíamos colher os frutos do carvalho
para dar de comer a um porquinho. O sítio não ficava
longe do povoado, mas no entanto era tudo deserto e de­
via-se descer por um vale. Mal tínhamos entrado no sítio
quando vimos, sentada tranqüilamente embaixo de uma
árvore, uma grande raposa, com a sua bela cauda erguida
como uma bandeira. Não ficou nem um pouco espantada
conosco. Mostrou-nos os dentes, mas parecia querer rir
27
ao invés de ameaçar. Nós, crianças, estávamos com raiva
porque a raposa não estava com medo de nós, medo ne­
nhum. Atiramos pedras nela, mas o animal apenas se des­
viava e depois voltava a nos olhar. Pusemos bastões nos
ombros e, todos juntos, fizemos bum! como se fosse uma
fuzilaria, mas a raposa continuava a mostrar-nos os den­
tes, sem se incomodar muito. De repente, ouviu-se um ba­
rulho de tiros de verdade, feito por alguém das redonde­
zas. Só então a raposa deu um salto e escapou rapidamen­
te. Parece que a vejo ainda, toda amarela, correndo como
um raio sobre um murinho, sempre com a cauda ereta, e
desaparecer em um matagal.
E havia as comemorações, o tropel dos cavalos correndo em
torno da igreja de Sèdilo durante a festa de Santo Antine, as barra-
quinhas dos doceiros, iluminadas pelas fracas lamparinas de car­
vão, os palcos erguidos para as competições de poesias dialetais.
Gramsci escreverá da prisão para a mãe:

Quando você puder, mande-me algumas canções sar­


das dessas que cantam pelas ruas os.descendentes de Riri-
si Pirione de Bolontana, e, se por acaso ainda fizerem
competições de poesia para alguma festa, escreva-me di­
zendo quais são os temas cantados. Ainda celebram a fes­
ta de S. Constantino em Sèdilo, e de S. Palmerio? Como
elas são? A festa de S. Isidoro continua grande? Permitem
a exibição da bandeira dos quatro mouros, existem ainda
os capitães que se vestem de antigos milicianos? Você
sabe que estas coisas sempre me interessaram muito, por
isso escreva e não pense que são bobagens sem pé nem ca­
beça.

Mas estas imagens que podem dar uma idéia de uma vida des­
preocupada são parciais. Antonio preocupava-se profundamente,
além do seu defeito físico, com a terrível miséria da família depois
da prisão do pai e o golpe psicológico decorrente de tudo isso. A
princípio, apenas Gennaro, que já era grandinho, estava a par da
desventura. ‘ Teria sido difícil esconder de um rapaz daquela idade

3 "Estava em Ozieri, frequentando o quarto ano ginasial, hóspede do tio Nicoli-


no , conta-me Gennaro, “Titio morreu no Natal, mas papai arranjou um modo de
28
a verdadeira situação do pai. Talvez as piedosas mentiras, os sub-
terfúrgios e as estórias inventadas para explicar o longo afastamen­
to do pai pudessem valer para os outros; e até o último momento,
Peppina Mareias conseguiu manter o drama em segredo na família.
Francesço Gramsci estava preso em Gaeta, a poucas centenas de
metros da casa onde morava sua mãe. Peppina continuava a dizer
às crianças que o pai estava em Gaeta para visitar a avó Teresa
Gonzales. Só que em um lugar pequeno como Ghilarza, o castelo
de fantasiosas explicações deveria mais cedo ou mais tarde ruir. Era
impossível, inclusive pela notoriedade do episódio, que, por uma
palavra oblíqua, por uma alusão, por frases apreendidas no ar
quando os adultos pensavam não estar sendo escutados, os peque­
nos Gramsci não chegassem ao menos a suspeitar, ainda que confu­
samente, das verdadeiras razões pelas quais, há tanto tempo, o seu
pai estava longe. Trinta anos depois, reproduzindo-se uma situação
de certo modo igual, Antonio escreveria do cárcere a Tatiana:
Não sei porque você escondeu de Delio que eu estou
na prisão; não posso deixar de pensar que ele podería ter
sabido indiretamente, isto é, pela forma mais desagradável
para uma criança que começa a duvidar da veracidade de
seus educadores e que começa a pensar por contra pró-
v pria e viver por si mesma. Isso -aconteceu comigo quando
era criança, lembro-me perfeitamente... Por isso, seria ne-
' cessário convencer [Giulia] de que, em última análise,
não é nem justo nem útil manter escondido das crianças
que eu estou na prisão. É possível que o primeiro impacto
provoque reações desagradáveis, mas o modo de infor-
;■. má-los deve ser escolhido com critério. Eu acho que as
crianças devem ser tratadas como seres que pensam e com
os quais se deve falar seriamente também das coisas mais
sérias; isto lhes provoca uma impressão muito, profunda,
reforça o caráter, mas especialmente evita que a formação
da criança seja deixada ao acaso das impressões do am­
biente e à mecânica dos encontros fortuitos. É realmente

eu terminar o ano letivo em Ozieri. Voltei a Ghilarza nas férias. Na reabertura das
aulas (papai não estava mais em casa) soube por mamãe que, naquele momento, não
poderia continuar os estudos e acabou me dizendo o motivo. Naquela ocasião, eu
era o único dos sete irmãos a saber que papai ratava na prisão.”
29
estranho que os adultos esqueçam que foram crianças e
não levem em consideração as próprias experiências. Eu,
particularmente, lembro-me bem como, a cada descoberta
de um subterfúgio usado para esconder de mim coisas que
podiam me causar sofrimento, isso me ofendia e fazia com
que me fechasse em mim mesmo. Aos dez anos tornei-me
um verdadeiro tormento para minha mãe e tornei-me de
tal maneira obsessivo, pela franqueza e veracidade nas re­
lações recíprocas a ponto de fazer cenas e provocar escân­
dalos \

Quando Nino era criança, a verdade lhe foi revelada do pior


modo possível, por vias transversas. Ele ficou transtornado com is­
so. Sofreu um trauma que por toda a sua vida influenciaria suas re­
lações com o pai. Virão incompreensões, atritos, longos silêncios.
Foi um daqueles golpes que deixam marcas profundas, já adulto,
fará a seguinte confidência: “Se mamãe soubesse de tudo que sei e
que aqueles acontecimentos me deixaram cicatrizes, isto envenenaria
estes seus anos de vida...” 45
É certo que a grande ternura que Gramsci, já maduro, tinha
pela mãe devia-se ao fato de saber das desventuras e amarguras
bem mais graves e profundas por ela sofridas naquele mesmo perío­
do quando, prisioneira em casa por humilhação, saía no escuro pela
portinha do quintal e, escondida sob um xale negro, evitando pas­
sar pela rua principal, andava encostada aos muros até a paróquia
mais próxima e ali, num canto, ficava muito tempo rezando, até
que finalmente chorava.

4 Grifo meu.
5 Grifo meu.

30
3.

Hm 1900, com apenas 16 anos, Gennaro foi o primeiro Grams-


ci a encontrar uma ocupação e a contribuir, embora em escala mo­
desta, para o magro orçamento familiar.

Éramos muito pobres - conta Teresina - mamãe era


uma mulher tenaz, ainda cheia de energia e decidida a lu­
tar contra a má sorte. Por mais incansável que fosse, po­
rém, sete filhos são sete filhos, e em casa, à medida que se
gastava o dinheiro ganho com a venda de um pouco das
terras recebidas como herança dos Mareias, a sobrevivên­
cia tornava-se cada vez mais difícil. Economizávamos ao
máximo. Recordo que, crianças ainda, Grazietta, Em ma
e eu recolhíamos a cera das velas já derretidas e fabricáva­
mos outras pequenas velas, a fim de que Nino pudesse ler
mesmo depois de escurecer.

Nesse período de transição entre o velho e o novo século, Ghi-


larza era uma aldeia de recursos limitados e, embora não fosse uma
das mais atrasadas da ilha, também não era próspera. Isto se devia
às características primitivas da sua economia, basicamente agrícola.
31
O ghilarzês divide o trabalho entre o preparo do fe­
no, a colheita da uva, a lenha para o fogo, os animais, a
cerca e a conservação da propriedade, quase sempre con­
tando com os seus braços apenas. Além disso, o patrimô­
nio da aldeia é dividido de tal forma que todos os habi­
tantes são mais ou menos proprietários de terras; este mo­
tivo explica a falta de um número adequado de braços
para uma agricultura em maior escala, e os camponeses
gue não têm empregados se dedicam ao cultivo e à colhei­
ta a câmbios, a manu torrada, isto é, com a troca de mão-
de-obra. 1
Nesta aldeia de “baixos e escuros casarões, ruas tortas e feias,
roupas tradicionais, costumes patriarcais” e de agricultura de sub­
sistência, com o camponês acostumado a ver “o nascer e o pôr-do-
sol sobre a sua fadiga”, as operações iniciadas desde o fim de 1889
para a revisão dos velhos mapas cadastrais, elaborados até ali da
forma mais primitiva, deviam repercutir beneficamente em vários
níveis, como explicarei mais adiante. Gennaro teve no cadastro
uma oportuindade de trabalhar e ganhar o seu primeiro dinheiro.
Estávamos no verão seguinte ao segundo ano primário de An-
tonio. As notas obtidas no segundo ano (três dez, um nove, dois oito,
e um sete) não constituí aqi, evidentemente, um testemunho de dons
prodigiosos. De qualquer forma, mesmo sem ser o gênio precoce
apresentado em tantas páginas de biografias de santo, o pequeno
G ram sei sobressaía-se entre todos os demais alunos. Teve até a
idéia de pular um ano:

Depois de ter concluído o segundo ano primário,


pensei em fazer, no mês de novembro, os exames elimina­
tórios para passar direto para a quarta série, pulando o
terceiro ano. Estava convencido de que era capaz disto,
mas quando apresentei ao diretor didático o requerimen­
to protocolar, ele me fez, inesperadamene a seguinte per­
gunta: “Você conhece os 84 artigos do Estatuto?”. Eu
não tinha nem se quer pensado nesses artigos. Limitara-

1 Cf. MICHELE LICHERI, Ghilarza. Note distaria civile ed ecdesiastica. Mono­


grafia publicada logo no início de 1900.
32
me a estudar as noções de “direitos e deveres do cidadão”
contidos no livro-texto. Aquilo foi para mim uma terrível
advertência que me impressionou ainda mais porque no
dia 20 de setembro anterior eu havia participado pela pri­
meira vez do desfile comemorativo, com um lampeãozi-
nho veneziano e havia gritado com os outros: “Viva o
leão de Caprera! Viva o morto de Staglieno! (não me
lembro se gritavam o “ morto” ou o “profeta” de Staglie­
no, talvez ambos, para dizer a verdade). Por isso, estava
certo de ser aprovado nas provas e de conquistar os títu­
los jurídicos para o eleitorado... Ao invés disso, não co­
nhecia os 84 artigos do Estatuto.

Antonio frequentou a terceira série regularmente, no ano esco­


lar de 1900-1901. Depois, já no quarto ano, teve como professor o
“cavalier” Pietro Sotgiu, que era justamente o diretor que lhe havia
perguntado sobre os 84 Artigos, tendo obtido no exame final, onze
dez, um nove e dois oito (ginástica e trabalhos manuais). Estava com
11 anos. Assim que as férias começaram (verão de 1902) ele foi tra­
balhar, como Gennaro, no cadastro.
Não que tivesse saúde suficiente para trabalhar já naquela ida­
de. Em casa, entretanto, ia-se de mal a pior, e era preciso arranjar
dinheiro com o sacrifício de todos, inclusive_dos pequenos, e Anto­
nio teve de se adaptar. “Cuidei de mim desde criança. Comecei a
trabalhar aos 11 anos, ganhando nove liras por mês (isto corren-
pondia a um quilo de pão por dia) por dez horas diárias de traba­
lho, inclusive a manhã de domingo que eu passava mexendo em li­
vros de registros que pesavam mais do que eu. Muitas noites chora­
va às escondidas devido às dores que sentia em todo o corpo.” A
exaustão física de uma criança já fisicamente atormentada não po­
deria deixar de acarretar reflexos psicológicos. Todo esse conjunto
de circunstâncias, ou seja, a aflição do corpo, o sofrimento pelo pai
na prisão, o clima pesado da família e as inevitáveis renúncias (mes­
mo que em sua casa, todas as atenções se voltassem para ele: o me­
lhor quarto, a melhor comida) levaram-no a ficar cada vez mais
triste. Diria de sí mesmo:

Há muitos, muitos anos, estava habituado a pensar


que existia uma impossibilidade absoluta, quase fatal, de ser
amado. Quando' criança, aos dez anos, comecei a pensar
assim em relação aos meus pais. Era forçado a fazer mui-
33
tos sacrifícios e a minha saúde era tão frágil que tinha me
convencido de ser apenas suportado, um intruso na mi­
nha própria família. São coisas que não se esquecem facil­
mente, que deixam marcas muito mais profundas do que
se possa imaginar.
Nennetta Cuba me contou: “Às vezes ele também ria, brinca­
va... só que o seu riso não era um riso de criança. Nunca o vi rir
com alegria."
No quinto ano primário (1902-1903), obteve o seu primeiro
triunfo escolar. As notas foram: composição, dez: ditado, dez: arit­
mética, dez (na escrita e na oral); leitura explicada das coisas lidas e
noções gramaticais, dez: história e geografia, dez.
Terminado o primário, surgiu um outro problema. Ghilarza
era muito distante das cidades sardas que possuíam ginásio, e era
necessário uma quantia que Peppina Mareias não possuía para po­
der manter um filho fora de casa. A>sim, aconteceu a Antonio
Ciranisci, apesar de todos os dez obtido- na condu-ão do primário,
o que tinha acontecido a muitos outros menino- pobres, não -ó da
sua terra: teve que renunciar aos estudos. A pobre/a da família e o
dever de ter que se empenhar em um trabalho provisório e mal re­
munerado no cadastro impediam-lhe de cursar o ginásio. Com os
(iramsci do continente, ele não tinha relações de amizade. Peppina
Mareias jamais lhes pediria que hospedassem Antonio. O rapaz,
consciente dos sentimentos de orgulho da mãe, também não teria
gostado, sabendo que isso teria lhe custado uma humilhação. As­
sim, esta hipótese que poderia ser uma solução (como acontecera a
Gcnnaro, que pôde ir para o ginásio morando em Ozieri, na casa do
tio Nicolino Gramsci) foi deixada de lado. Antonio teve de se con­
formar em não prosseguir os estudos até a saída do pai da prisão.
Hntretanto, não renunciava pacificamente. A impossibilidade de es­
tudar deixava-o exasperado. Nasceu nele o primeiro sentimento de
revoltaq continuou a isolar-se, aparentando frieza e tendência à iro­
nia. Vinte anos depois, escreveria a Giulia, sua mulher: “Eu me

2 Nino relembrava, anos mais tarde: “Qual foi o motivo que me salvou de me
transformar em um engomadinho? O instinto de rebeldia, que a principio era dirigi­
do contra os ricos, devido ao fato de não poder estudar, eu que havia tirado nota dez
em todas as matérias do curso primário, enquanto os filhos do açougueiro, do far­
macêutico, do negociante de tecidos continuariam a estudar.”
34
acostumei a viver isolado; desde a infância escondia o meu estado
de ânimo atrás de uma máscara de dureza ou de um sorriso irôni­
co.,.. Isto, entretanto, me fez muito mal por muito tempo. O meu
relacionamento com os outros foi sempre uma coisa extremamente
complicada.”
Somente Mario, o irmão dois anos mais novo, conseguia com­
preendê-lo. As pessoas o descrevem como extravagante e jovial.
Ele foi sempre - conta Teresina - a alegria da casa.
Seu caráter era exatamente o oposto do de Nino. Nino
era tranquilo, ele era irrequieto, barulhento, com tendên­
cia a piadas cômicas. Nino falava pouco, Mario só para­
va de falar se costurassem a sua boca. Quando o gato su­
miu de casa, certa vez, descobrimos que ele o tinha levado
para o padeiro assá-lo. Lembro-me que uma vez mamãe o
havia proibido de sair de casa. Para se certificar que ele
não sairia, mamãe pegou os sapatos dele e escondeu-os.
Mario decidiu vingar-se e pegou a tinta de engraxar sapa­
tos e pintou os pés. Assim, para obrigá-lo a ficar em casa,
mamãe tinha que vesti-lo de “mulherzinha”, com algu­
mas das nossas roupas. Somente nessa situação Mario
não tinha jeito de fugir.

Também Antonio ria das atitudes desse seu irmão levado e


brincalhão. Os dois eram muito amigos. Muitas vezes a diversão
deles era fazer improvisações poéticas, parecidas com a competi­
ções realizadas durante as festas dos padroeiros, e nessas competições
dos irmãos Gramsci erdm ironizados os mais extravagentes perso­
nagens de Ghilarza. Antonio, bem entrosado no ambiente da al­
deia, com tendência à ironia, conhecia uma série de brincadeiras in­
teligentes. Muito tempo depois, nos primeiros meses de prisão, teve
a idéia de dedicar aos personagens da sua infância uma canção ba­
seada na Scomuniga depredi Antiogu a supopulu de Masuddas, com­
posição satírica divulgada no final do século passado. Em uma car­
ta dirigida a sua mãe, lemos o seguinte;

Sabe o que eu gostaria que você me mandasse? A


oração que o padre Antiogu rezou para o povo de Ma­
suddas. Em Oristano se pode comprar, porque sei que Pa-
trizio Carta a reimprimiu na sua famosa tipografia.
Como tenho muito tempo livre, quero compor, no mes­
35
mo estilo, um poema onde incluirei todos os ilustres per­
sonagens que conheci quando criança: tio Remundu Gana
com Ganosu e Ganolla, professor Andriolu e tio Millanu,
tio Micheli Bobboi, tio Iscorza, Pippotto, Corroncu, San-
tu Jancu, etc., etc.. Vou divertir muito e depois, daqui há
alguns anos, recitarei o poema para as crianças.
Nas pausas do trabalho do cadastro, Antonio estudava um
pouco de latim. Tinha esperança de voltar a freqüentar a escola re­
gularmente quando a situação em casa melhorasse.. Para não se
atrasar, nos dois anos transcorridos em Ghilarza longe das salas de
aula, estudava sozinho. Uma vez ou outra, recebia aulas particula­
res de um rapaz que havia feito o ginásio. Chamava-se Ezío Camed-
da e, como Antonio, também era corcunda. O pouco que sabia de
latim ensinava ao pequeno Gramsci. Não se pode dizer que para
Antonio fosse o ideal, mas já era alguma coisa. Esta dedicação aos
estudos pelo menos o distraía.
Enfim, uma esperança. Em 31 de janeiro de 1904, Francesco
Gramsci terminou de cumprir a pena, reduzida em três meses gra­
ças à anistia. Depois de todo aquele tempo, na época da Páscoa,
Peppina Mareias e os filhos o receberam em casa.
Felle Toriggia relembra a noite da volta de Francesco a Ghilar­
za.

Nós, estudantes, costumávamos nos reunir em uma


ponte na entrada da aldeia. O parapeito da ponte servia
de assento e nos reuníamos ali para conversar. Certo dia,
ao anoitecer, vimos o senhor Ciccillo e Nannaro que vi­
nham a pé de Abbasanta, onde ficava a estação ferroviá­
ria. Pai e filho caminhavam em silêncio, lado a lado.
Quando passaram perto de nós, paramos de conversar. O
senhor Ciccillo estava muito envelhecido e sério. Nós o
cumprimentamos e ele nos olhou com timidez. Nannaro
colocou-lhe a mão nas costas e, sempre em silêncio, pros­
seguiram em direção à aldeia.
Com ele, pelo menos um pouco da serenidade perdida voltava
à família.

36
4.

Aos 13 anos, Antonio Gramsci, tendo terminado há um ano o


curso primário, continuava em Ghilarza "carregando registros” no
escritório do cadastro. Nessa época - setembro de 1904 - na locali­
dade de Bugerru, grande centro de mineração da costa sudoeste da
Sardenha, a tropa atirou contra os operários em greve, matando
três deles. Era a primeira explosão violenta da longa crise iniciada
há 15 anos.
Dizer que em 1887 a economia sarda era florescente seria um
exagero. Entretanto, mesmo que o quadro geral da ilha fosse de
atraso, a venda ao mercado francês de numerosos produtos da agri­
cultura da ilha, como o vinho, o óleo, o gado bovino, tinha contri­
buído até aquele momento para impedir a miséria total. Logo em
seguida, ocorreram as grandes catástrofes bancárias. As portas da
Caixa Econômica de Cagliarj foram fechadas em 1886; o Crédito
Agrícola Industrial Sardo faliu em 1887 e, em seguida, o Banco
Agrícola Sardo entrou em concordata. Â primeira consequência fo­
ram os juros elevados, que acarretaram a falência dos pequenos
produtores que, devido ao fenômeno da fragmentação da proprie­
dade rural eram uma multidão. Mas o que particularmente agravou
a situação agrícola sarda foi o cancelamento dos tratados comer-
37
ciais com a França em 1889, causado pelas novas leis alfandegárias
italianas introduzidas para proteger a grande burguesia industrial
do Norte. Privada do seu mercado tradicional, a agricultura sarda,
atingida também por outros problemas como a epidemia filoxérica
daqueles anos, chegou ao auge da crise. Acima de tudo, a Sardenha
carecia de indústrias capazes de atenuar as conseqüências do colap­
so agrícola e de absorver a mão-de-obra excedente no campo. Esta
situação teve quatro conseqüências principais: procura excessiva da
área de Sulcis-Iglesiente, onde não havia trabalho para todos; a in­
tensificação do fluxo migratório; o desemprego e o subemprego ele­
vados a índices inquietantes e o recrudescimento do banditismo.
A quinta consequência do bloqueio das exportações foi a que­
da do preço do leite. Julgando o fenômeno propício à abertura na
Sardenha de novas fábricas de laticínios, muitos industriais de quei­
jo napolitanos, romanos e toscanos se instalaram na ilha. No come­
ço, pelo menos, entraram em concorrência entre si, e o preço do lei­
te voltou a subir. Com isso, os sardos acreditaram que a criação de
gado fosse a atividade mais lucrativa dentre as culturas tradicio­
nais. As vinhas e os campos de trigo se transformaram em pastos.
Por conseguinte, os hortigranjeiros, o óleo, o macarrão e muitos
outros gêneros básicos de consumo, cuja oferta diminuía devido ao
retraimento da agricultura em muitas terras destinadas ao gado, su­
biram de preço. Tal aumento não favorecia os pequenos proprietá­
rios, que mal podiam colher o suficiente para abastecer a família, em
prejuízo da classe urbana e dos mineiros. Mais tarde, também para
os criadores de gado começou a espiral regressiva. À medida que os
fabricantes de queijo se organizavam em cooperativas e descobriam
novos mercados, o poder contratual dos criadores viu-se enorme­
mente diminuído. Agora os patrões das fábricas de laticínios esta­
vam em condições de impor o preço do leite e de vender na Sarde­
nha queijo aos preços altíssimos do mercado internacional. Era
bastante conhecida nessa época, entre as classes mais humildes,
uma expressão bastante eloquente: Chie mandicat casu hat dentes de
oro (Quem come queijo tem dentes de ouro).
Juntamente com os fabricantes de queijo, dominavam a econo­
mia da ilha os concessionários das reservas de minério, todos es­
trangeiros, e os grandes proprietários de terras, enriquecidos com a
usura.

Aqueles que se rebelaram contra os senhores feudais


- escreve Camillo Bellieni - e os cavaleiros que haviam
38
acompanhado Angioy e que insuflaram as rebeliões po­
pulares, logo que conseguiram acabar com o feudalismo e
tornar-se proprietários das terras que haviam sido dos ba­
rões de sonoros nomes espanhóis, reintensificaram o
sistema de exaçãó e, com a sua vigilância, agravaram a
servidão do povo, que estava, há algum tempo, em uma
situação mais tranqüila devido ao absenteísmo senhorial.
Mais ferozes que os barões, esses cavaleiros chegaram a
tamanho grau de opressão que não permitiram outra rea­
ção senão a do gesto violento do bandido.
A criminalidade tornou-se um dos maiores flagelos da ilha.
Togliatti afirma que nos seus primeiros anos em Turim, Gramsci
incitava os companheiros a refletirem “sobre a estrutura dos trata­
dos comerciais da Sardenha com o continente italiano, com a Fran­
ça, com outros países, e sobre a relação que se podia estabelecer en­
tre a modificação desses tratados e fatos aparentemente distantes,
tats como o aumento da delinqüência, por exemplo, a frequência
dos episódios de banditismo, a difusão da miséria e assim por dian­
te. Na verdade, tudo isso fazia sentido. Em 1896, Francesco Pais
Serra demonstrara estatisticamente a progressão descendente dos
crimes entre os anos de 1880 e 1887, isto é, nos anos de mercado
aberto com a França (de 225 homicídios em 1880 para 148 em 1887;
de 184 assaltos para 92) e a progressão ascendente quando o merca­
do de Marselha foi fechado (novamente 211 homicídios e 222 assal­
tos em 1894, cinco anos depois do cancelamento dos tratados co­
merciais com a França). A “luta de classes” , escreveria em 1919
Antonio Gramsci, com referência aos camponeses em geral, mas
com palavras que retratavam a realidade sarda daqueles anos, “con­
fundia-se com banditismo, com chantagem, com incêndio das ma­
tas, com o roubo do gado, com o rapto de crianças e mulheres e
com assaltos à municipalidade. Era uma forma de terrorismo pri­
mário, sem conseqüèncias eficazes e estáveis.”
Poucos, porém, conseguiam discernir os limites e a verdadeira
esterilidade do choque anárquico, do protesto individual do bandi­
do. Pelo contrário, havia até uma auréola de lenda que iluminava a
figura do fora-da-lei. Difundia-se o mito do “valente” , do “vinga­
dor” intrépido, e a solidariedade dos pastores e camponeses, sem­
pre prontos a ajudar e a esconder o fugitivo, era acompanhada pela
solidariedade dos intelectuais e dos escritores. Em 1894, era publi­
cada no jornal L ’ Isola, de Sassari, a entrevista de Sebastiano Satta
39
com os bandidos Derosas e Angius, localizados no mato. Eis um re­
trato de Derosas, feito pelo poeta de Barbagia: “Tem alguns gestos
de orgulho, algum carinho por tudo que se refere a sua família, cer­
ta devoção para com as suas amizades. O orgulho muito forte de
não ser um bandido, a idéia, quase a ilusão, de estar cumprindo,
com os seus terríveis atos, uma missão de justiça que o coloca acima
de um vulgar assassino.” Era um dos bandidos “ bonitos, ferozes e
valentes” que não somente Satta era levado a decantar. Em 1897, o
escritor, cronista e romancista Enrico Costa entregava à imprensa
Giovanni Tolu. Estória de um bandido sardo contada por ele mesmo.
Os primeiros contos de Grazia Deledda já incluíam personagens
que, de certa forma, antecipam o Simone Sole de Marianna Sirca.
Era um ciírculo contínuo de. contos de humor que as classes subal­
ternas comunicavam a alguns grupos de intelectuais e que, enrique­
cidos pelo vigor fantástico destes, voltavam ao povo com uma am­
pliada carga sugestiva. Assim, gradativamente, as velhas glórias na­
cionais sardas (nacionais no sentido de Pátria Sarda), como Eleono-
ra d’Arborea, Leonardo Alagon, e posteriormente Giovanni Maria
Angioy, foram sendo substituídas na imaginação popular por essa
mitologia bárbara. No entanto, nas escolas de Ghilarza, o professor
“eavalier” Pietro Sotgíu continuava a fazer os seus alunos cantarem
(entre estes estava Grathsci): “ Matar a soberba aragonesa/ te vi­
rem, espantadas as pessoas renovar os esquecidos atos heróicos/do
ramano e do grego” . Na verdade era muito pouca a participação
sentimental dos rapazes era tais façanhas. “Eu me lembro” , escreve
Antonio Gramsci, “que nós não conseguíamos imaginar estas ‘pes­
soas a/ônitas’ com o heroísmo do marquês de Zuri; pelo contrário,
nós gostávamos também de Derosas, que sentíamos mais sardo até
do que a grande Eleonora.”
O fato é que, não existindo naquela época na Sardenha qual­
quer tipo de organização política capaz de disciplinar a revolta e de­
monstrar claramente os objetivos dela, a explosão anárquica do
bandido, sem sentido, animal, e mesmo estéril, era sem dúvida, na­
quela situação histórica, a coisa mais possível. Os partidos não exis­
tiam a não ser como clientela, ideologicamente apagada, de podero­
sos agentes de benefícios. A maçonaria, mesmo exaltando os âni­
mos, não era outra coisa senão o disfarce do grande jogo burguês.
O radicalismo podia levar as massas ao delírio. Quando Felice Ca-
vallotti veio à Sardenha, pela primeira vez em janeiro-fevereiro de
1891 e depois em novembro de 1896, e mostrou o contraste entre o
gasto exagerado do ministro Crispi nas aventuras africanas e o
40
completo abandono em que se encontrava a ilha, seus discursos fo­
ram entusiasticamente aplaudidos nas praças; porém, assim que ele
partiu, tudo voltou a ser como antes. Por seu lado, o socialismo
(com apenas 128 inscritos em toda a ilha em 1896) dava seus primei­
ros passos, quase descaracterizado, menos no Suicis-lglesiente,
por um processo de descoloração local. Em Tempio, escreve Ca­
mille Bclliení, “o socialismo significava antes de tudo a luta pelo
triunfo do livre pensamento e a proibição absoluta aos seus adeptos
de batizar os filhos” . Em outras partes, incluindo Cagliari, havia
apenas um pouco mais de oposição e de espíritos esquentados vi­
vendo na lembrança de 1848 a cada 17 de fevereiro, da morte de
Giordano Bruno na fogueira, quando, em cortejo, a multidão depo­
sitava flores no seu busto. O “sol vermelho” mal começava a des­
pontar, e os homens que apareciam na Sardenha ocasionalmente
eram portadores de novas idéias.
Também foi assim em Ghilarza. Ilha dentro de uma ilha, como
todas as aldeias sardas até 1870 (devido às grandes distâncias entre
elas, às poucas e primitivas estradas, cheias de pedras, à insuficiên­
cia das comunicações, confiadas a diligências e cavalos e a um tipo
de orçamento familiar que tinha como efeito reduzir o comércio en­
tre aldeia e cidade), Ghilarza ficou por muito tempo afastada do
mundo moderno. Mantinha ligações apenas com as aldeias vizi­
nhas. Raramente pessoas de fora conseguiam se estabelecer lá. No
dicionário escrito na metade do século por Angius, lemos o seguin­
te: “ No cemitério só sepultamos algum forasteiro que morre na pri­
são” . Só mais tarde, quando foi construída a estrada de ferro (que
passa por Abbasanta, hoje ligada a Ghilarza), a aldeia saiu do seu
completo isolamento. A inserção real na história do seu tempo só
aconteceu em 1889, corn a chegada dos cadastrais um enorme gru­
po de técnicos e funcionários, em sua maiona jovens, enviados pelo
governo aos pequenos centros da Sardenha para a revisão de velhos
mapas. Muitos provinham do norte Ja Itália Com eles, um sopro
de novas idéias chegava a Ghil irza. Outtos hábitos de vida, aspira­
ções mais modernas, faziam mexer o ar parado da aldeia. Os iovens
de Ghilarza chamado-» i trabalhar ne cada^No unham finalinsme
novos modelos no^ quai- se mspir ir, o j r r o ' ) ;rnao p^ra lei In r.;s
que nunca tinham iparec-d >. Ò mais velho dos irmãos Giamsci,
Gennaro, descobriu o I vann1e se apaixonou por aquele jornalismo
de denuncia. Escutou as conversas daqueles que lembravam do
massacre de Milão, quando centenas de trabalhadores desarmados
foram mortos pela polícia de Bava' Beccaris, e soube também como
41
o mesmo oficial massacrador fora condecorado pelo rei Umberto
com a cruz de Grande Oficial da Ordem Militar de Savóia... Partici­
pava dessas conversas com a curiosidade de rapaz. Tinha 16 anos
em 1900, e esta foi a sua primeira iniciação às idéias novas.
Mas o verdadeiro terreno da cultura do socialismo era o Sul-
cis-lgiesiente. Giuseppe Cavallera, um nortista de origem humilde
que emigrou para Cagliari com pouco mais de 20 anos para escapar
às perseguições políticas do Piemonte, formando-se em medicina
um ano depois (em 1896), divulgava a doutrina socialista entre os
mineiros.
Quem eram esses mineiros? Como viviam? Em virtude da gran­
de crise nos campos, milhares de camponeses e pastores foram obri­
gados a procurar trabalho na única indústria que, na Sardenha da­
quela época, conseguia absorver parte da mão-de-obra agrícola de­
socupada a mineração. As condições de trabalho não eram muito
diferentes das dos escravos “Ad Metalla” no tempo de Roma, nem
das “companhias das fossas” que trabalharam para a grandeza de
Pisa. Apenas o patrão tinha mudado. Agora . era o capital, neste ca­
so o estrangeiro, principalmente o francês e o belga, mas o jugo es­
cravista sobre o operário continuava inalterado. Gens taillables et con-
\éable\ à tnerci, os camponeses e os pastores sardos admitidos nas
minas sentiam na própria pele as marcas deixadas pela lei dos apro­
veitadores. “ Nas numerosas autópsias que fiz, encontrei os pul­
mões dos mineiros completamente infiltrados de fumaça das lâmpa­
das de óleo”. Estas são as palavras de um médico entrevistado pela
Comissão Parlamentar de Inquérito que veio à Sardenha no início
do século. Um outro médico declarou: “Os trabalhadores cospem
preto". Ainda pesquisando nos verbais da Comissão: “Na mina de
Seddas Moddizzis, trabalha-se 11 horas consecutivas, ou seja, das
seis da manhã às cinco da tarde, e o operário é obrigado a comer
um pedaço de pão preto enquanto trabalha, acompanhado de pó de
calamina. Os médicos internos, pagos pelas companhias de minera­
ção, tinham interesse em colaborar com estas não admitindo muitas
doenças como contraídas no trabalho. A Comissão Parlamentar
colheu depoimentos como: “Quando fiquei doente, o médico disse
que eu estava embriagado e me deu quinino dissolvido pensando
que eu fosse recusar, pois assim poderia me botar para fora do em­
prego. Mas tomei o remédio voluntariamente, porque sabia do meu
estado de saúde. Fiquei com uma tremenda raiva...”
Assim, cansados pelos turnos de trabalho espantosamente
longos e pelo tipo de ocupação, sem ter um dia de folga por sema­
42
na, sem direito a férias, privados de pagamento nos dias de ausência
por doença, pagos quando o patrão queria, na medida e nos prazos
de sua conveniência (a cada dois ou quatro meses) e, por conseguin­
te, sujeitos a verem cortado o acesso às cantinas de gêneros ali­
mentícios, que as companhias de mineração dirigiam diretamente
ou entregavam a pessoas da sua confiança, morando em galpões
que pareciam cocheiras e obrigados a escopder a tuberculose para
não serem despedidos, nessas condições sub-humanas viviam, na pas­
sagem do velho para o novo século, cerca tie 15 mil camponeses e
pastores que foram trabalhar nas minas. Era ali que Giuseppe Ca-
vallera desenvolvia o seu trabalho de organizador.
Trabalho difícil porque tinha duas frentes. Primeiro, porque a
antiga máxima socialista “O Estado não é senão o comitê dirigente
da classe burguesa” era mais do que uma metáfora sectária. Em se­
gundo lugar, os mineiros do Sulcis-Iglesiente eram, na realidade,
um subproletariado rural há pouco instalado nas zonas industriais
e, em conseqüência, apresentavam todas as características típicas
do mundo camponês daquele tempo: o individualismo (a relutância
à cooperação, mesmo se esta visasse a defesa comum) e a resignada
passividade diante do mal por medo do pior (por exemplo, perder o
emprego). Podia haver talvez uma alternativa à resignação através
de uma revolta violenta, mas nunca com uma luta paciente e disci­
plinada. 1
Cavallera verificou a crueldade da primeira frente. Depois do
massacre de 1898 em Milão, ele participou de uma campanha pro­
movida pelo Avanti! em favor das famílias dos mortos, enviando
um pouco de dinheiro recolhido em Carloforte. Acusaram-no do
delito de mendigar ilicitamente e foi condenado a seis dias de prisão
(foi feito um apelo a essa decisão e o tribunal de Cagliari o absol­
veu). Cavallera constituiu, em setembro de 1897, uma sociedade en­
tre os transportadores do minério extraído em Bugerru (esta liga foi
dissolvida pelas autoridades em junho de 1898, depois do massacre
de Milão, mas foi reconstituída mais tarde). Em agosto de 1900, ele
foi preso juntamente com 18 companheiros sob incríveis acusações:
juntar-se à liga era, nada mais nada menos, que associar-se para de-
linqüir; as cotas que os sócios pagavam foram usadas como pretex-

' "Velio Sprano recordará a raiva de Gramscí em relação “à abstração simplista


que vê um mineiro de Montevecchio da mesma forma que um operário da Fiat”.
43
to para enquadrá-los em apropriação indébita e furto; além disso,
ter aconselhado a associação e o pagamento de tributos foi conside­
rado extorsão. Evidentemente não faltou a acusação de incentivar o
ódio de classe. O processo durou de 17 de julho a 3 de agosto de
1901. A incrível armadilha estava destinada a cair. Cavallera teve
ainda uma condenação de sete meses, seis dos quais perdoados
(mas já havia descontado 11 meses de prisão esperando o processo).
Não se rendeu. Compreendia perfeitamente que, dentro da lógica
das coisas, a magistratura, por ser expressão quase exclusiva da*
classe proprietária, conservava a sua ideologia. Entretanto não de­
sanimou. Ao sair da prisão tinha apenas 27 anos e o ânimo ainda
forte de quem crê em alguma coisa..Giolitti, seu conterrâneo (am­
bos eram de Dronero) o definiria como “ um atirador de pedras” .
Pelo contrário, Cavallera era um jovem gentil, lúcido, que sempre
soube distinguir o ideal do possível, o preço que é necessário ser
pago por uma conquista provável e a imposição de sacrifícios aos
trabalhadores sem haver esperança de resultados positivos. Em
1903, ele procura compor a primeira liga entre operários da minera­
ção em Bugerru (dirigida por Alcibiade Battelli). Por sua iniciativa,
outras ligas floresceram rapidamente. Havia fundado um jornal, La
Lega, entregando a direção primeiramente a Efisio Orano e depois
a um jovem estudante de Direito, iago Siotto. Em 1904, era chefe
da Federação Regional dos Mineiros, com sede em Iglesias. Em 4 de
setembro daquele mesmo ano, ocorreu o massacre de Bugerru.
Há cinco dias os operários estavam em greve. Reagiam à intro­
dução de novos horários considerados inadmissíveis; nada, todavia,
fazia prever a tempestade. Desde a tarde do primeiro dia, Cavallera
e Battelli negociavam com o diretor da companhia francesa “ Malfi-
dano", o engenheiro Achille Giargiades, um turco naturalizado
grego, e com o seu assistente, Steiner, um suíço, as bases de compo­
sição do dissídio. Foi no desenrolar das negociações que a tropa
chegou a Bugerru. A Itália não havia mudado muito com relação a
esses casos desde a época de Di Rudini e Pelloux. Como os solda­
dos acabaram se concentrando em volta dos escritórios da direção
da mina, alguns operários foram encarregados de preparar um gal­
pão para o alojamento da tropa Eles obedeceram, para outros, po­
rém, aquilo foi a gota d'âgui. Voaram pedras. A tropa atirou e três
mineiros caíram mortos e outros 11 foram feridos
Fru o primeiro sangue derramado na ilha por motivo de lutas
veiais I oi proclamada greve geral em toda Itália, a primeira com
to.-a amplitude na hritona do movimento operano italiano. Na Sar-
44
denha, devido à fraqueza das organizações, tudo ainda se encontra­
va em estado primitivo e, embora as classes urbana e rura! e o semi-
proletariado da mineração participassem sentimentalmente da tra­
gédia de Bugerru, o movimento de protesto não teve repercussão.
Apesar disso, estava-se à beira de uma.transformação. A morte de
três mineiros, escreveu Angelo Corsi, havia “ comovido e atraído
atenções, despertando” as populações sardas. Ele assinalava o iní­
cio da passagem da revolta anárquica do bandido a um método
mais justo de luta coletiva, e o sangue perdido,podia ser o elemento
consagrador desse início de mudanças. Abria-se um novo capítulo
da História,

45
5.

Após sair da prisão, Francesco Gramsci retornou a Ghilarza


mas, especialmente no começo, não teve vida fácil. Saía pouco para
evitar encontrar-se com as pessoas; ainda sofria pela humilhação
que lhe fora imposta e por não ter sequer conseguido trabalho. Não
podendo trabalhar nos empregos públicos (somente mais tarde se­
ria reabilitado), ficava mais difícil reintegrar-se à vida ativa, uma
vez que aqueles empregos eram a única possibilidade de trabalho.
No entanto, os habitantes de Ghilarza olhavam-no com simpatia.
Geralmente eles não perdoavam quem caía em desgraça, mas no
caso de Francesco Gramsci temiam cometer uma injustiça. Tendo
em vista que a sua desgraça tinha fundo político, demonstravam
uma certa solidariedade. Foi admitido no clube de leitura, que era
um ambiente completamente fechado, com sócios selecionados.
Confiaram-lhe a secretaria de uma cooperativa recém-constituída
que cuidava do seguro do gado bovino. Assim, foi reabilitado e pô­
de inclusive trabalhar como advogado de defesa, graças ao curso
universitário de direito. Os ghilarzeses, de bom grado, ofereciam-
lhe trabalho. Francesco era urri homem bom e sua companhia agra­
dava a todos. Por ser do sul, era expansivo e todos apreciavam tê-lo
à noite como parceiro de jogo. Finalmente obteve um emprego no
cadastro e é com essa pequena renda que irá se sustentar pelo resto
da vida.
47
Naturalmente que em casa o ambiente mudara com a sua vol­
ta. Os problemas práticos, porém, continuavam críticos; em primei­
ro lugar, pela forçada inatividade do senhor Ciccillo e depois, pela
modéstia do seu salário. Gennaro, que prestava serviço militar em
Turim, não podia mais colaborar como antes. Mario também esta­
va fora de casa. Em 1904, concluído o primário, ingressou no semi­
nário de Oristano. Dos rapazes, somente Antonio contribuía com
algum dinheiro. Cario, criança ainda, freqüentava o primário. Pep-
pina Mareias conseguia ganhar algum dinheiro com costuras, en­
quanto Grazietta e Emma confeccionavam meias e echarpes para
vender. Já no final de 1905, Francesco e Peppina fizeram os cálcu­
los e decidiram que, com novos sacrifícios, poderiam mandar Anto­
nio para o ginásio de Santulussurgiu. O rapaz continuava estudan­
do sozinho, com a ajuda de aulas particulares ocasionais, durante
os dois anos que passou em Ghilarza longe da escola. Agora, com
quase 15 anos, pensava inscrever-se já no terceiro ginasial. Como
era uma escola do município e não do governo, ele não teve dificul­
dade para inscrever-se. Assim, Antonio recomeçou a estudar quase
regularmente, isso devido às precárias condições daquele ginásio.
Santulussurgiu fica a 18 quilômetros de Ghilarza. Está situado
no alto de uma pequena cadeia de montanhas e parece, de certo
modo, construída sobre a cratera de um vulcão. Na metade do sé­
culo XIX, seus dois proprietários, Pietro Paolo Carta Ledda e Gio-
vanni Andréa Meloni, deixaram seus bens aos Scolopi, sob condi­
ção de que a ordem os usasse para criar na aldeia escolas de ensino
do latim, incluindo retórica. Caso a ordem fosse extinta, a adminis­
tração dos bens deveria ser confiada ao conselho da prefeitura, que
seguiria as mesmas finalidades. De fato, em 1866, os Scolopi tive­
ram de partir, dando início a uma demorada questão entre a prefei­
tura de Santulussurgiu e o Estado, que terminou com a derrota da
ordem eclesiástica. O litígio foi decidido por um decreto real, em
1901. Imediatamente, foi instalado o ginásio da prefeitura, mas em
condições precárias.
Antonio Gramsci relembra: “Era um ginásio muito pobre, um
pequeno ginásio onde apenas três professores lecionavam em todas
as cinco séries.” Revendo os livros onde estão registradas as reu­
niões do conselho administrativo do colégio, podemos constatar
que a critica não foi excessivamente severa; pelo contrário, exigem
testemunhos diretos muito mais graves. O presidente do conselho, o
teólogo Francesco Porcu, por exemplo, teve de admitir, na reunião
de 4 de março de 1905 (Gramsci só partiu para Santulussurgiu al­
48
guns meses depois): “Dois professores deste ginásio não têm o di­
ploma de habilitação para o ensino. Durante dois anos foram rrian-
íidos nos postos, na esperança de que regularizassem a situação.
Mas isso não aconteceu. O que resta agora é abrir concurso para o
próximo ano escolar 1905-6” (o primeiro ano de G ramsei na esco­
la). Na realidade, o concurso se realizou, mas sem a participação
prevista de bons professores e, ainda por cima, os melhores coloca­
dos acabaram desistindo do cargo. Massimo Stara Serra, futuro se­
cretário do Câmara do Trabalho de Sassari, designado para o ano
escolar de Gramsci, demitiu-se poucas semanas depois. O milanês
Alfonso Franchini, escalado para substituí-lo, pediu um adianta­
mento para chegar a Santulussurgiu e não apareceu. Antonio só
veio a ter aulas dè matérias literárias, com dois substitutos, quase
na metade do ano letivo, ou seja no dia 7 de fevereiro. Um enge­
nheiro ensinava as matérias científicas e francês. Antonio teve estes
professores durante três anos do ginásio, Não aproveitou muito,
como ele mesmo declara em uma carta enviada da prisão: “Desde
criança tive vocação para as ciências exatas e para a matemática.
Perdi o entusiasmo durante o ginásio porque tive pésSimos profes­
sores.” Um conselheiro da administração da escola, Dr. Giampie-
tro Meloni, denunciou na reunião de 21 de setembro de 1906
(Gramsci acabara de completar o terceiro ginásio): “Os resultados
que este ginásio obteve até agora são muito medíocres.” O conse­
lheiro julgava que a melhor solução era fechar o instituto e chegou
a submeter à votação uma ordem-do-dia nos seguintes termos: “ A
administração, não reconhecendo a existência de um funcionamen­
to adequado neste ginásio decide fechá-lo por um período de três.
ou quatro anos.” A ordem-do-dia foi rejeitada. Antonio Gramsci,
mesmo com todas essas dificuldades, conseguiu chegar ao quinto
ano ginasial. No último ano, as aulas só começaram em dezembro.
Os professores, que não gostavam de ir para Santulussurgiu, pe­
diam adiamentos sucessivos do início das aulas. O presidentejá não
sabia o que fazer:

Os professores terão de vir mesmo com atraso... Os


alunos, de qualquer forma, serão beneficiados com isso,
pois é impossível que sejam admitidos em outros colégios.
Em outras ocasiões, este ginásio abriu em janeiro ou feve­
reiro, portanto, não é nada de mais que estejamos agora
sem professores por algumas semanas.
49
A falta de pontualidade dos professores e a sua pouca capaci­
dade não eram as condições ideais para Antonio Gramsci recuperar
o tempo perdido em Ghilarza. Além disso, a insalubridade das salas
de aula contribuía para piorar as condições de estudo dos estudan­
tes, especialmente daqueles que não tinham muita saúde, como An­
tonio. Segundo o conselheiro da administração, Dr. Giomaria
Manca, o ginásio Carta-Meloni foi transferido dos “ambientes in­
salubres do convento dos ex-Minori Osservanti” para uma casa de
aluguel; aqui, o colégio continuava em condições “deploráveis” e
com os mesmos “ambientes insalubres, apertados e insuficientes às
necessidades do colégio.”
Não é que Antonio, ao sair do colégio, encontrasse em casa um
ambiente melhor. Morava no bairro de Sa Murighessa, na pensão
de uma camponesa, Giulia Obinu, mulher de meia idade que fora
empregada do médico da aldeia. “Eu pagava cinco liras por mês
pelo quarto, com direito à roupa de cama e a uma comida muito
simples e pobre.” Esta Giulia Obinu, “tinha uma mãe meio idiota,
mas não louca, que era justamente a minha cozinheira e governan­
ta. Todas as manhãs, quando ela me via, perguntava quem eu era e
porque tinha dormido na casa delas, etc.” À parte o esquecimento
da velha, o ar da casa não era de alegria pois a ex-empregada queria
desfazer-se de qualquer maneira da mãe: “Ela queria que a prefeitu­
ra a mandasse para o manicômio do Estado e tratava-a duramente
porque queria obrigá-la a cometer algum ato que provasse a sua pe-
riculosidade. A velha dizia sempre para a filha que, por hábito, a
chamava de senhora: 'Trate-me de você mas me trate bem’!”
Muitas vezes, Antonio, impressionado com as brigas, ia estu­
dar na casa dos amigos. Todos o achavam simpático. Seu compa­
nheiro de carteira, o contador Marco Massidda, relembra: “Ele era
um rapaz tranquilo, de bom coração, sempre disposto a ajudar os
colegas. Foi sempre o primeiro da turma, em todas as matérias. E
na redação era ótimo” (com respeito à redação, talvez a amizade te­
nha influenciado o julgamento).
Antonio ia para Santulussurgiu às segundas-feiras de manhã,
numa carroça de quatro cavalos: dois puxavam, enquanto os outros
dois ficavam na reserva, fazendo rodízio no meio do caminho. Aos
sábados, voltava a Ghilarza, às vezes a pé, correndo perigo, porque
aquelas bandas eram palco de operações de banditismo. Os bandi­
dos assaltavam os pastores da Barbagia, entre Santulussurgiu e
Ghilarza, e roubavam gado na área que vai das pastagens do Cam-
50
pidano Oristanese até Bòrore. Gramsci nunca teve problemas, ape­
nas uma aventura que ele mesmo relembra, em uma carta a Tania:
Quero lhe contar uma passagem da minha infância
que vai lhe divertir e dar uma idéia da vida na minha ter­
ra. Numa tarde de 23 de dezembro, em companhia de ou­
tro rapaz, para ficar um dia a mais com a família, resolve­
mos não esperar a diligência do dia seguinte e fomos an­
dando a pé pela estrada. Caminhávamos já há muito tem­
po e, quase na metade da viagem, em um lugar completa­
mente deserto e solitário, deparamos, à nossa esquerda,
com uma longa fileira de pinheiros, com um matagal em­
baixo. Nesse instante alguém disparou um tiro de fuzil
que passou por cima das nossas cabeças; escutei a bala as­
sobiar dez metros acima de mim. Pensamos que fosse um
tiro casual e continuamos a caminhar. Um segundo e um
terceiro tiros, mais baixos, nos advertiram de que estáva­
mos na m'ira dos atiradores; jogamo-nos no chão, e lá fi­
camos por algum tempo. Quando tentávamos nos levan­
tar, davam outro tiro. Essa situação durou umas duas ho­
ras e uma dúzia de tiros. Com certeza era um grupo de
farristas que queriam se divertir às nossas custas. Que
brincadeira! Chegamos em casa de noite, cansados e su­
jos, e não contamos nada a ninguém para não assustar a
família, mas acho que o susto não foi muito grande, por­
que nas férias seguintes de carnaval repetimos a viagem a
pé, que transcorreu sem incidentes...
Em Ghilarza, os sábados, para Antonio, eram sempre uma fes­
ta, entre alguma advertência materna e um puxão de orelhas do pai.
A mãe o recriminava porque tinha gasto todos os mantimentos
da semana em Santulussurgiu. A família ouvia comentários de que
Nino vendia parte dos seus mantimentos (espaguete, azeite, queijo,
etc.) a pessoas do lugarejo. A mãe ficava indignada. Temia uma
piora da saúde do filho, e não se cansava de avisá-lo.
Francesco Gramsci o repreendia por causa de alguns folhetos
subversivos que via nas mãos do filho. Ficava horrorizado. Os jor­
nais e folhetos vinham de Turim. Gennaro prestava o serviço mili­
tar na cidade mais vermelha da Itália, e desde a época em que traba­
lhava no cadastro com os jovens técnicos, vindos de cidades mais
adiantadas, simpatizava com as idéias novas. Como todo neófito, à
51
medida que se convencia de que devia aderir ao socialismo, buscava
recrutar mais adeptos por toda a parte, especialmente dentro da
família. Assim que chegava em casa, aos sábados de tarde, Anto-
nio, cuja paixão pela leitura aumentava com o correr dos anos, pe­
dia logo para ver os jornais e folhetos que Gennaro enviara. Assim
começaram as discussões com o pai. Nino tentava levá-lo na brin­
cadeira, dizendo-lhe: “ É mesmo verdade que você é descendente
dos Bourbons?” Não era por acaso que o pai se chamava Francesco
como o último rei das Duas Sicílias: Francesco II. Nascera em Gae-
ta, em março de 1860, pouco antes de o exército italiano sitiar a ci­
dade e o coronel da infantaria burbônica Gennaro Gramsci, seu
pai, estar pronto para defender o último reduto dos Bourbons con­
tra o exército do general Cialdini A família contava que a avó Te­
resa Gonzales tinha fugido da cidade sitiada para Formia, carre­
gando no colo o menino Francesco, de poucos meses, tendo atra­
vessado as linhas-de Cialdini. Francesco Gramsci era conservador
não somente pela formação familiar, mas também por outras cir­
cunstâncias. Nicolino, seu irmão, tinha sido professor de Vittorio
Emmanuele III em Caserta e ele, Francesco, chegou a conhecê-lo
pessoal mente. Jamais esqueceu a emoção que sentiu quando o au­
gusto herdeiro ao trono o chamoí/ pelo nome e apertou a sua mão.
Em casa, conservava o retrato do cavalo puro-sangue doado a Ni­
colino pelo futuro rei da Itália. Aquele retrato o enchia de orgulho e
grande devoção à dinastia soberana. Pode-se imaginar, então, o seu
espanto quando vía seus filhos se intoxicando com a imprensa sub­
versiva. E preciso esclarecer que, naquela época, expor idéias socia­
listas significava ser imediatamente fichado na política. Assim, o se­
nhor Ciccillo, que havia passado alguns anos na prisão por motivos
irrelevantes se não tivesse política no meio, não queria ver nova­
mente em sua casa carabineiros e policiais por causa de filhos sub­
versivos. A sua autoridade paterna, porém, estava em crise devido à
sua desventura judiciária. Para evitar discussões, Antonio pediu ao
carteiro que lhe entregasse pessoalmente o jornal Avanti! e o resto
do material que Gennaro enviava escondido do pai. Desse modo
não se falou mais em política naquela casa.

1 Gramsci escreverá mais tarde: “ Meu avô foi mesmo coronel da infantaria bur­
bônica, e talvez tenha sido um daqueles que prenderam o Spaventa antiburbônico
que apoiava Cario Alberto".
52
Quando Gennaro regressou a Ghilarza, depois de concluir o
serviço militar, tornou a trabalhar no cadastro. Voltou-se então a se
falar de política, mas às escondidas. A família estava unida outra
vez.'Mario abandonou o seminário, para grande desgosto da mãe.
Não queria continuar aquele tipo de estudo: “Quero casar, não te­
nho nenhuma vontade de ser padre. Seria inútil insistir. Se quise­
rem,-mandem Nino para o seminário. Ele não pensa em mulheres e
por isso poderá ser padre.”
No verão de 1908, Nino foi para Oristano concluir o ginásio.
Estava com 17 anos e meto. Naturalmente não esperava obter um
resultado muito brilhante depois de dois anos de aulas particulares
em Ghilarza e os anos que cursou em Santulussurgiu. Em julho,
não chegou a prestar exames em duas matérias: matemática e ciên­
cias. No francês, a matéria ensinada pelo engenheiro, o resultado
do exame foi um desastre. A nota foi três. Passou tranquilamente
nas outras matérias (em setembro prestou exame de francês e de
duas outras disciplinas cujas provas haviam sido adiadas). Em ju­
lho, obteve as seguintes notas: seis na prova escrita de italiano e seje
na oral; seis nas duas traduções de latim e sete na prova oral; sete
em geografia e oito em história. Há muito tempo dedicava-se ao es­
tudo de história, indo além dos livros escolares. Em uma carta es­
crita ao filho Delio, lembrava a sua paixão de rapaz: “Creio que vo­
cê gosta de história como eu gostava na sua idade porque ela trata
de homens vivos, homens do mundo inteiro que se reúnem em co­
munidade, trabalham e lutam para melhorar suas condições e tudo
que se refere a esses homens não pode deixar de lhe agradar mais do
que qualquer outra coisa.”

53
Entre maio e junho de 1906 (Gramsci tinha então 15 anos),
quando Nino acabava o terceiro ginasial, a Sardenha foi envolvida
por uma “tempestade de homens”. Apareceram elementos hetero­
gêneos que deram à ilha um ar de desordem. Havia lutas organiza­
das de ligas operárias, choques anárquicos de trabalhadores rurais
que, não sendo bem organizadas e incapazes de lutar por objetivos
concretos, limitavam-se a.simples incêndios de fábricas de queijos e
de postos alfandegários. Havia ainda as intrigas de partidos urba­
nos, sempre prontos a atacar ou a defender o poder; infiltração de
delinquentes nos movimentos de protestos com o objetivo de sa­
quear e atirar pedras contra as vitrines dos inocentes negociantes.
Certas categorias, que viram seus interesses prejudicados pelo ad­
vento das máquinas - como por exemplo os carreteiros de Quartu,
Selargius, Monserrato, nos arredores de Cagliari que foram obriga­
dos a reduzir os preços diante das baixas tarifas cobradas pelos
bondes para transportar as mercadorias - chegaram a tal ponto de
exasperação que os operários- começaram a incendiar estações de
bonde e a virar as viaturas. Era o desespero do povo faminto. Nes­
sas condições, qualquer centelha (como no caso de Cagliari), mes­
mo se provocada por organizações alheias aos interesses populares
e criadas apenas para minar outras organizações, provocava gran­
55
des rebuliços. O movimento que começou em Cagliari se alastrou
rapidamente para as minas e zonas rurais.

O Sulcis-lglesiente continuava dominado por uma economia


de rapina. Enquanto a produção aumentava, os pisos salariais di­
minuíam. Em 1905 foram extraídos minérios no valor de 22 milhões
e 885 mil liras que, no ano seguinte, passaram a 25 milhões e 600
mil. No período correspondente, os salários dos mineiros foram re­
duzidos de 2,54 a 2,30 liras por dia, os dos pedreiros de 3,12 a 3 liras
e os dos operadores das máquinas de 3,39 a 3 liras diárias. Diante
das reivindicações apresentadas, que argumentavam que os operá­
rios toscanos ganhavam quase uma lira a mais por dia, as compa­
nhias respondiam com argumentos de claro teor racista. O enge­
nheiro Erminio Ferraris, conselheiro-delegado da Monteponi, dei­
xou sua opinião nos relatórios da Comissão Parlamentar que, no
início do século, veio à ilha realizar um inquérito sobre as condições
de trabalho nas minas. Ele declarou o seguinte: “A mão-de-obra na
Sardenha é muito inferior à do continente. Contribuem para isso a
tendência à ociosidade, os fatores climáticos, a falta de iniciativa e
de energia. Claro que existem exceções, mas a média é muito baixa
e é avaliada em apenas óO",) da produção da mão-de-obra do conti­
nente". Somente anos mais tarde, um estudioso da ilha, o professor
(íiovanni Lòriga, contestou essas declarações de “homem branco”
na colônia, que pretendia com essa justificativa explicar os salários
inferiores ao custo de alimentação de um escravo. Analisando os
dados dos anos compreendidos erítre 1904-1907, chegou à conclu­
são de que a produção de cada operário nas minas sardas (excluin­
do o ferro e os combustíveis sólidos) foi de 1.665,08 liras, superior
em 281,80 liras à produção média de cada operário em outras minas
italianas do mesmo tipo. Desta forma, transparece claramente a in­
consistência das teorias dos patrões para justificar os baixos salá­
rios. O pior era que esta mentalidade de “ homem branco” aparecia
não somente em relação às remunerações, mas também quando os
mineiros pediam um regime de trabalho mais humano. Um grupo
de trabalhadores da Seddas Moddizzis foi despedido porque pediu
maior regularidade no pagamento dos salários (e não a cada dois
ou quatro meses), dois dias de descanso remunerado por mês, redu­
ção para dez horas no horário de trabalho diário, e uma hora de
descanso para o almoço entre meio-dia e uma hora da tarde. Todos
os pedidos foram negados. A posição dos patrões era inflexível até
no que se referia ao diálogo para atendimento das pequenas rei-
56
vindicações. O engenheiro Ferraris discorre sobre o tema do des­
canso nos dias feriados de forma muito reveladora:
É muito raro o caso de operários que conseguem jun­
tar algum dinheiro nos locais onde foi introduzido, há
muitos anos, o descanso aos domingos; pelo contrário,
podemos constatar a economia que fazem os operários
que trabalham nas minas mais distantes, onde o trabalho
é ininterrupto e, por conseguinte, onde não existe a possi­
bilidade de se gastar. Nestas minas, o descanso de um dia
em cada seis dias de trabalho ê verdadeiramente excessivo,
porque, longe dos centros urbanos e não sabendo como
passar o tempo livre deste dia de folga, muitos o desperdi­
çariam dedicando-se a farras e prejudicando o trabalho
do dia seguinte.

A determinação das companhias eií levar avante esta política


arbitrária de falta de pontualidade no pagamento dos salários era
acompanhada de um método de açambarcamento do dinheiro dos
trabalhadores através das cantinas: os mineiros, por exemplo, sem
nenhum dinheiro em espécie, recorriam aos vales, que se afigurava
como a única possibilidade de adquirir os mais elementares produ­
tos de consumo. O sistema de retenção dos salários dos operários
variava de uma mina para outra. Uma dessas formas consistia no
pagamento do salário, no todo ou em parte, em mercadorias, a um
preço sempre mais alto do que nos armazéns de fora; outra forma
consistia em obrigar o operário que tinha sido pago em dinheiro a
fazer suas compras na cantina de propriedade do patrão da mina,
ou, quando era o caso, na cantina administrada por alguém da con­
fiança da companhia, a quem cabia parte do lucro; finalmente, o
sistema mais estarrecedor era aquele em que os próprios funcioná­
rios e os empreiteiros das minas eram os donos das cantinas: eles
cometiam o absurdo de dispensar do trabalho o operário que não
freqüentasse a sua cantina. Para todos os efeitos, o critério básico
desse comércio era a venda de produtos de qualidade inferior a pre­
ços elevados, que eram adquiridos, por atacado, a preços bem con­
venientes. Até o selo, que em toda parte custava 15 centavos, na
cantina subia para 17, o vinho que era 30-35 centavos o litro passa­
va para 40. O óleo de uma lira para 1,60; o queijo de 1,25 para 2 li­
ras; o macarrão de 50 centavos para 60. E assim, nessa mesma pro­
porção, todas as demais mercadorias. Fechava-se assim o ciclo da
57
exploração dos recursos minerais e não sobrava nada para a Sarde­
nha. As indústrias de transformação não tinham se aliado à ativida­
de extrativa, nem tinham sido implantadas indústrias mecânicas ac-
cessórias. A drenagem dos ínfimos salários dos operários através
das cantinas completava o sistema colonial que tinha sido instaura­
do pelas companhias de mineração. Na Sardenha só ficaram uns
poucos tuberculosos', e aqueles que não cuspiam sangue estavam
condenados a uma velhice precoce, ou talvez à morte ou à mutila­
ção por acidente de trabalho. Durante o ano de 1905 os acidentes
chegaram a 2.219.
A condição dos trabalhadores rurais, neste mesmo período,
não era muito melhor. Os pequenos proprietários estavam à mercê
de todos os tipos de desgraças, do céu e da fiscalização. A usura e a
falta de escrúpulos chegavam a índices altíssimos e era freqüente o
confisco de bens (Alberto Boscolo declara que a província de Ca-
gliari teve, entre 1904 e 1905, o maior número de contribuintes/víti­
mas da desapropriação por dívidas de impostos em toda a Itália).
Por outro lado, os criadores de gado, obrigados a um papel subal­
terno em relação aos industriais do queijo (dos quais obtinham pa­
gamento adiantado do leite, evidentemente a preços e condições
sempre desvantajosos e impostos pelos industriais, visto que preci­
savam pagar o aluguel dos pastos), percebiam que, na prática, es­
tavam trabalhando apenas para o enriquecimento das fábricas de
queijo. O trabalhador rural, sob o qual recaía de forma mais grave
o mal-estar da agricultura, seja pela incidência que a crise acarreta­
va sobre as horas de trabalho e sobre o salário, seja pelo custo dos
gêneros de primeira necessidade, estava completamente aniquilado
pelas reduzidas oportunidades de trabalho (quando as coisas iam
bem eram 200 dias de trabalho por ano) e pelos salários miseráveis.
Para se ter uma idéia, entre 1905 e 1906, o camponês recebia nor­
malmente entre 75 centavos e 1 lira e 25 centavos diários, com exce­
ção dos períodos mais favoráveis, quando a remuneração aumenta­
va. Estabelecendo uma relação entre o salário e o custo dos produ­
tos básicos, tem-se que, com o pagamento mais elevado de 1 lira e
25 centavos por dia, podia-se adquirir, no máximo, um quilo de pão

1 O doutor Gildo Frongia, médico não ligado às companhias mineradoras, rela­


tou para a Comissão Parlamentar de Inquérito o seguinte: “Nos anos compreendi­
dos entre 1884 e 1905, 35% dos operários morriam de tuberculose” .
58
(30 centavos), um de batata (15 centavos), um de macarrão (50 cen­
tavos), três decilitros de azeite (30 centavos) e nada mais. Assim,
podemos concluir que o camponês, escravo das condições climáti­
cas, enfraquecido pela desnutrição e pelas doenças que assolavam
a ilha (tuberculose, malária, tracoma), geralmente analfabeto, era o
va-nu-pieds, ou seja, o último dos pé-rapados da Itália giolittiana.
E finalmente, também as classes baixas urbanas sofriam o au­
mento geral dos preços. Em Cagliari, entre fevereiro e maio de
1906, surgiram os primeiros sinais de agitação, quase ao limite de
uma revolução. A organização em ligas de várias categorias de ope­
rários conferiam à agitação um pouco de ordem e clareza. Come­
çou com a liga dos portuários, que,contava com 300 inscritos. Os
carregadores pediam a diminuição da jornada de trabalho de 15
para nove horas e um aumento de 3,50 para 5 liras diárias. Após a
recusa por parte das empresas, a categoria entrou em greve em 24
de fevereiro de 1906. Os balconistas das lojas deram continuidade à
agitação, reclamando um dia de descanso semanal. Finalmente, a 6
de maio de 1906, as lojas permaneceram fechadas e nunca mais
abriram nos dias feriados. A 7 de maio, foi a vez dos trabalhadores
dos fornos entrar em agitação. Conseguiram a redução das horas de
trabalho de 15 para 12, mas outras reivindicações não foram satis­
feitas; e, embora uma parte dos trabalhadores tenha aceitado retor­
nar ao trabalho, outros haviam tomado de assalto os fornos. Con­
vém frisar que a população, apesar de não ser a favor de violências
inúteis, estava solidária com os agitadores. Os comícios estavam
sempre repletos. Em parte, tal reação era instigada pelo jornal II
Paese, interessado em alimentar o descontentamento através de
uma ação insidiosa e sem tréguas. Por trás do II Paese estava o jo­
vem advogado Umberto Cao, chefe da facção contrária ao prefeito
de então, Ottone Bacaredda.
Seria errado atribuir coloração política aos dois partidos. Um­
berto Cao era um jovem de talento, polêmico, agressivo e com
grande sensibilidade para adivinhar o ânimo do povo. Muitos o jul­
gavam um oportunista, um monarco-anarquista, um social-
conservador, um autonomista com pinceladas de separatismo e,
com a mudança dos ventos, o porta-voz do histerismo nacionalista.
Gramsci não o estimava. Velio Spano narra este espisódio;

Uma vez, um colega, rapaz como eu, recordava as


palavras com as quais o distinto deputado Cao havia res-
59
pondido ao primeiro discurso de Mussolini na Câmara
depois da “marcha sobre Roma” , o famoso discurso da
sala “surda e cinzenta” e do “bivaque dos feixes” . Cami­
nhávamos à noite pela rua Vinte de Setembro, em Roma.
Sério, Gramsci repentinamente mudou de conversa para
nos contar dois episódios da vida do deputado Cao. Nar-
rou-nos, desde o início, o desenrolar da revolu­
ção de 1906 em Cagliari, colocando em destaque a manei­
ra pela qual haviam sido realizadas as ligações entre os
trabalhadores do campo, os trabalhadores da cidade e os
intelectuais. Através de suas palavras, vimos passar na
imensa multidão que destruía e incendiava, a figura de
Cao, advogado-filósofo, que se misturava às massas sem
perder a sua dignidade e a sua rígida frieza universitária.
Sem hesitar, Gramsci começou a analisar o opúsculo de
Cao, L'autonomia delia Sardegna com o qual tinha nasci­
do, para muita gente, e sobretudo para um certo tipo de
intelectuais como eu, o sardismo. Através de uma narra­
ção histórica e de uma crítica ideológica, Gramsci nos ha­
via traçado a figura do deputado sardo, sem dizer uma
palavra que o julgasse diretamente: um intelectual con­
vencido de ser o umbigo do mundo, que tenta inserir-se
na história para se aproveitar e que permanece, infalivel­
mente, fora da história e da vida.

Spano lembra as palavras conclusivas de Antonio Gramsci:


“Aquele homem nunca acreditou em nada a não ser nele mesmo”.
E ressalva: “ Um ano depois, Cao aderia ao fascismo”. Na verdade,
a campanha jornalística promovida por Umberto Cao em 1906 ba-
seava-se em dados concretos. Entretanto, a alta dos preços, que as
classes trabalhadoras não podiam suportar, era exclusivamente
atribuída ao prefeito Baccaredda, e aí residia a base do desconten­
tamento. A luta se desenvolvia em dois níveis: de um lado, a agita­
ção popular, e do outro, aproveitando a força da primeira, o jogo
de uma facção contra outra.
No dia 12 de maio de 1906, uma delegação de operários das
fábricas de cigarros solicitou uma audiência ao prefeito. Às cinco
mulheres que vieram lhe expor o descontentamento dos trabalha­
dores com a elevação do custo de vida, Baccaredda respondeu: “Se
os salmonetes passam a custar duas liras o quilo, eu os deixo de
lado e compro bacalhau”. Por causa dessa conversa do bacalhau,
60'
no dia seguinte o povo protestou com um comício. Houve uma pas­
seata até a municipalidade, mas tudo ficou por isso mesmo, ao me­
nos naquele dia. As autoridades prometeram medidas para contro­
lar os preços e só assim o povo se dispersou. Na manhã seguinte,
encontrando o mercado fechado por causa de uma briga entre os
revendedores e o encarregado da alfândega, o povo correu para a
fábrica de cigarros. Os operários saíram da fábrica e dirigiram-se a
outras indústrias, linhas férreas, gasómetros e, em pouco tempo,
formou-se uma multidão, liderada por uma operária que empunha­
va uma bandeira vermelha, com um pedaço de pão enfiado na haste
como emblema. A passeata atravessou todo o centro de Cagliari,
agora com os ânimos exaltados. Os escritórios da alfândega e da
Quarta Regia*, na Scafa, foram tomados de assalto e incendiados.
De lá todos se dirigiram para a estação ferroviária, onde havia uma
concentração de soldados. A multidão vaiava, atirava pedras; es­
tourou o conflito, a tropa abriu fogo. Caíram 22 manifestantes, dos
quais dois morreram e, com exceção de um balconista, todos eram
operários ou pescadores. Mas os incêndios e as depredações conti­
nuaram. Cagliari mais uma vez foi agitada por um movimento re­
belde. Com o desembarque de 5 mil homens, entre soldados, mari­
nheiros e carabineiros, entre os dias 16 e 18 de maio, era como se a
cidade estivesse ocupada.
Acesa a centelha, a revolta estendia-se ao campo e às minas.
Por toda a parte viam-se homens dominados por uma fúria devas­
tadora, saqueando cantinas e incendiando fábricas de queijo. Os
soldados atiravam. No dia 24 de maio, L ’Avanti\ publicava o se­
guinte: “Por que o governo sempre divulga nos seus comunicados
oficiais agressões à força pública, quando, na verdade, os mortos
são sempre do lado dos manifestantes?” Dois foram mortos em
Gonnesa, dois em Villasalto, com mais 12 feridos, um em Bonorva,
um em Nebida. Mas o sangue, ao invés de intimidar, excitava. As
fábricas de queijo de Ittiri e de Terranova (hoje Olbia) foram des­
truídas. A multidão assaltou as fábricas e a coletoria de Macomer.
Em Abbasanta, os manifestantes assaltaram o escritório dos impos­
tos. O enviado de ll Secolo de Milão, Luigi Lucatelli, enviou um te­
legrama com este texto: “O impulso bestial das massas faz perfeita-

* N. do T.: Regia eram as sociedades italianas que recebiam do governo real da


Itália o privilégio de cobrar impostos indiretos ou vender artigos de monopólio do
Estado.
61
mente sentido diante da incompreensão irracional à qual são sub­
metidas”. Nos primeiros dias de julho, passada a tempestade, come­
çava a repressão. Centenas de camponeses, operários, intelectuais
(entre estes, em Cagliari, o advogado Efisio Orano, dirigente socia­
lista) acabaram presos. Nas minas, os trabalhadores foram despedi­
dos sem apelação. Todavia, a opinião pública estava do lado das
vítimas da repressão. Dezenas de magistrados e escrivãos chega­
ram de navio à ilha para se ocupar da onda de processos. Em Ca­
gliari os rebeldes sob acusação eram 170, e as autoridades tiveram
de abrir uma igreja não consagrada, a de Santa Restituta, para ins­
talar os juízes, testemunhas e acusados. O debate estendeu-se do dia
6 de maio a 12 de junho de 1907, e os jornais deram maior destaque
aos argumentos da defesa. Nessa ocasião, Gramsci tinha 16 anos e
meio e freqüentava a quarta série ginasial em Santulussurgiu.

A onda repressiva deu um novo alento ao espírito de libertação


regionalista dos sardos. Naqueles anos tinha-se agravado a separa­
ção entre Norte e Sul italianos. Com a proteção alfandegária para
as indústrias nortistas, a economia do Sul e das ilhas se viam extre­
mamente prejudicadas; as fábricas do Norte, favorecidas pelo pro­
tecionismo alfandegário, expandiam-se e outras surgiam. Não obs­
tante o boom daqueles primeiros anos do século, proveitoso até
para as caixas econômicas do Estado, parecia se perpetuar uma es­
pécie de separatismo às avessas entre o Estado italiano e a Sarde­
nha. Luigi Locatelli, jornalista de ll Se colo, enviado para a Sarde­
nha por ocasião dos levantes, escrevia o seguinte, a 29 de maio de
1906:

Não resta dúvida de que existem todas as leis, espe­


cialmente o lado odioso delas, acima de tudo o aspecto
fiscal... Só não existem os direitos. Na Sardenha, as tari­
fas ferroviárias são as mesmas ou talvez mais elevadas
que na Itália, com a diferença, porém, de que aqui se viaja
com um atraso e uma falta de conforto intoleráveis. Os ci­
dadãos pagam os mesmos impostos que em Roma, Milão
e Turim. Quando, no continente, um funcionário de­
monstra ser ignorante ou desonesto, é logo presenteado
aos sardos, com o objetivo de mandar um elemento que,
além da ignorância ou culpa comprovada, ainda carrega
consigo a raiva pela punição.
62
Assim, perante a opinião pública, o Estado não era nada mais
do que uma entidade hostil, uma máquina monstruosa que criava
um número imenso de exércitos para reprimir greves, cobradores de
impostos funcionários da administração e de polícia que eram su­
bornados pelos concessionários das minas. O sardismo tornou-se a
ideologia da época. Antonio Gramsei também participou dele. Es­
creveria mais tarde: “ Naquela época eu pensava que era preciso lu­
tar pela independência nacional da região. Quantas vezes repeti es­
sas palavras: ‘Ao mar os continentais’” .

63
7.

Com quase 18 anos, Antonio Gramsci transferiu-se da aldeia


natal para a cidade, Cagliari, onde frequentaria o Liceu Dettòri. Hs-
tamos no final de 1908. Os seus pais haviam julgado conveniente
que Gennaro pedisse transferência para o escritório de cadastro de
Cagliari e que Antonio morasse com ele. No entanto, depois de se
instalar na cidade, Gennaro não permaneceu no cadastro por muito
tempo. Surgiu a oportunidade de ir trabalhar como contador na
fábrica de gelo dos irmãos Marzullo. Considerando aquele empre­
go mais vantajoso, Gennaro mudou de ocupação depois de apenas
um mês de trabalho no cadastro.
Naquela época, Cagliari era uma cidade pequena mas movi­
mentada. Lá eram publicados três jornais diários: L' Unione Sarda,
que apoiava o deputado Cocco Ortu, II Paese, tendendo ao radica­
lismo, e o Corriere deli’isola, que seguia uma linha clerical. Havia
também alguns periódicos, entre os quais o socialista La Voce dei
Popolo, semanal. Os programas dos dois bons teatros, o Cívico e o
Politeama Margherita, incluíam os maiores nomes da prosa e da
lírica. No Valdès e no cineteatro Eden começavam a exibir-se as
primeiras dançarinas em jupe-culotte. Existia um grande número de
clubes cujas instalações, quando necessário, eram usadas como sa­
las de concerto ou para conferências. Os filmes em episódios da é~
65
poca (Rocambole, Le Cantiche Dantesche, I Miserabili) podiam ser
vistos no Iris ou no Eden. Não faltavam nem sequer os clubes e res­
taurantes com música. Para Antonio Gramsci, que viveu até quase
os 18 anos em lugares como Ghilarza e Santulussurgiu, a nova vida
na cidade não deixava de surpreendê-lo.

Ele e Gennaro alugaram um quarto no número 24 da rua Prín­


cipe Amedeo, que vai do rochedo do Castelo até o bairro da Mari­
nha. Os dois deviam manter-se com o salário de Gennaro, 100 liras
por mês, o que não dava para levar uma vida folgada.
Acho que nunca vi Nino Gramsci de sobretudo - re­
corda um companheiro de liceu, Renato Figàri. Vestia
sempre a mesma roupa, as calças estreitas e curtas e uma
jaqueta muito apertada. Nos dias frios vinha para a esco­
la com um cachecol de lã dentro da jaqueta. Não tinha li­
vros, ou pelo menos não tinha todos os exigidos. Mas
prestava muita atenção às aulas e possuía, além de uma
grande inteligência, uma memória excelente que o ajuda­
va sempre. Eu me sentava na carteifa atrás da sua, e o via
copiar as lições com aquela sua caligrafia miúda. Algu­
mas vezes um de nós ou mesmo o professor lhe empresta­
va os livros.

Nino começou o colegial com algumas incertezas. Em janeiro


de 1909 escreveu ao pai:
Soube finalmente as médias do trimestre; elas deve­
riam ser melhores mas a culpa não é minha. Afinal, como
talvez Nannaro já tenha escrito, fiquei três dias sem ir à
escola por não ter levado o diploma nos dias dos exames
trimestrais, de modo que não tive nota em história natu­
ral e em história fiquei com 5; o professor chegou a me
passar um pito mas eu não tinha culpa... No resto, me saí
bem e em história natural as duas notas do segundo e ter­
ceiro trimestres são suficientes, enquanto em história pelo
menos .mantive a média. Eis as minhas notas: italiano 6/7
[ na realidade, a nota da prova oral de italiano foi 8 e não
7, como informa Gramscfj; latim 6-7/7; grego 6/7; filoso­
fia 6; matem átipa 6; química 8. Como você pode ver, tive
notas discretas, mas afinal este é o primeiro trimestre e
66
não recebi uma boa preparação em Santulussurgiu espe­
cialmente em latim, grego e matemática
Esta carta parece testemunhar as condições não ideais do jo­
vem Gramsci depois de cinco anos de estudos ginasiais decidida­
mente aventurosos: os primeiros dois anos, por conta própria em
Ghilarza e os últimos três anos no Ginásio Carta-Meloni de Santu­
lussurgiu. Antonio, porém, possuía uma notável capacidade de re­
cuperação. No segundo trimestre o cinco de história passou para se­
te, e em história natural sua nota agora era seis. Nos exames para o
segundo ano, seu boletim registrou quase que somente nota seis,
menos dois sete em latim e um oito em italiano oral, sinal de que,
neste primeiro ano colegial, as deficiências da preparação ginasial
tinham sido, de uma forma ou de outra, superadas.
Retornando das férias, transcorridas junto à família em Ghi­
larza, mudou de moradia, passando a residir rio número 149 do
Corso Vittorio, em frente à rua Maddalena. Era um pequenó quar­
to “que havia perdido toda a cal devido à umidade e tinha somente
uma janelinha que dava para uma espécie de clarabóia, mais latrina
que pátio” . A mudança foi um fato positivo. Vejamos o que diz An­
tonio em uma carta inédita de 26 de novembro de 1909, quase no
início do segundo ano de liceu: “Quanto à dona da casa, estamos
bastante bem; é uma mulher honesta que nunca nos roubou. Estou
muito melhor aqui do que no ano passado”. De casa lhe mandavam
provisões. Ele comia ou no próprio quarto, ou em um restaurante
da praça do Carmine, em companhia de Gennaro. Unj companhei­
ro de pensão, o advogado Dino Frau, recorda-se dele como um ra­
paz arredio, mas não um misantropo.

Levava uma vida à parte - conta. Nós, pensionistas


da senhora Doloretta Porcu, devíamos ser seis ou sete.
Estávamos instalados no último andar, onde chegávamos
por uma rampa de degraus muito altos e íngremes. Anto­
nio Gramsci subia lentamente, ficava logo sem ar. Depois
se fechava no quarto, sem conversar conosco. Só entrei
no seu quartinho umas duas vezes. Era simples, cheiran­
do a queijo, com livros e papéis dispostos desordenada­
mente. Uma noite, todos os pensionistas foram convida-

A carta é inédita.

67
dos a ir ao seu quarto. De lá chegavam cantos e rumores.
Encontramos uma porção de gente desconhecida, na
maioria gente do campo. Eles cantavam e alguns dança­
vam. E em meio às pessoas estava Gramsci, tentando
acompanhar as danças populares sardas com um peque­
no órgão de fole.
Agora estudava sem as incertezas do primeiro colegial. Assim,
dois meses depois do início do ano escolar, Nino pôde escrever para
o pai (a carta, inédita, é datada de 5 de janeiro de 1909; mas é de se
supor que, nos primeiros dias do novo ano, Gramsci repetisse, me­
canicamente, o número do ano velho; notas e circunstâncias se refe­
rem ao segundo ano de liceu, cumprido no ano escolar 1909-1910):
“Na escola, vou de vento em popa; pelo que sei, vou ter 7 e 8 de mé­
dia em latim, em italiano não tenho nota por falta de professor, e
no resto estou igualmente bem. Estou com esperança de acabar o
curso com boas notas” . Mais tarde, em 31 de janeiro, comentando
as notas trimestrais (latim sete e oito; grego sele e oito; história da
cultura grega oito; história e geografia histórica oito; filosofia seis;
história natural seis; física e química seis): “Como você vê, tive boas
médias, e neste trimestre pretendo melhorá-las. Tirei aqueles seis
por azar” . Ademais, o estudo era a sua única ocupação. Permitia a
si mesmo pouquíssimas distrações.
Se por acaso nós o encontrávamos - conta Cláudio
Cugusi, hoje médico - ele nos acompanhava de bom gra­
do. “Antonicheddu, venha conosco’” lhe dizia, pegando-
lhe pelo braço. E ele, feliz pelo convite, se juntava a nós.
Mas só por alguns metros no Corso, da confeitaria Cia-
vot ao café Tramer, onde naqueles tempos, se fazia sa
passillada, o passeio noturno dos habitantes de Cagliari.
Antonio falava pouco, preferia escutar. Depois, quando
todos juntos íamos terminar a noite na Su Cau, um salão
de bilhar do Corso, ele parava na porta, despedia-se e vol­
tava para casa.

Mantinha-se distante das festas e das reuniões. Renato Figàri


lembra:

Não fumava, pelo menos até o liceu. Não bebia. E se


alguém lhe oferecia alguma coisa de beber, ele recusava
68
com educação, não sei se por orgulho ou para não tomar
gosto por coisas às quais não podia permitir-se. De vez
em quando comparecia a um círculo fundado por jovens,
a Associação Anticlerical de Vanguarda, situada a pouca
distância do “Dèttori”, na rua Barcellona. Além de al­
guns jovens empregados, nós, do liceu, e os universitários
o freqüentavam, todos ou quase todos portadores de
idéias revolucionárias, socialistas, extremistas e, natural­
mente, tendo muito respeito por Giovanni Bovio e Gior-
dano Bruno. Às vezes eu declamava versos de Sebastiano
Satta, Ugo Foscolo, Steccheti. Muito raramente Gramsci
juntava-se a nós nessas manifestações. Não posso imagi­
nar o verdadeiro motivo... As suas condições físicas...
Não. Afinal de contas, embora aleijado, ele não era feio.
Tinha a testa alta, os cabelos abundantes e ondulados e,
por detrás dos óculos “pince-nez”, lembro-me bem de
olhos azuis, de um olhar luzente de metal que impressio­
nava. Não há dúvida de que muitas coisas nos afastavam
dele. Éramos um tanto gastadores, elegantes ou pelo me­
nos com pretensão à elegância, um pouco vaidosos, como
sempre se é nessa idade... Acho que o que o levava a ter
uma vida arredia era a grande pobreza...
Isso é muito provável. O confronto com os colegas de escola o
humilhava. Até então, nunca tinha dado importância a uma roupa
bem cortada; agora sentia-se diminuído por andar mal vestido. A
10 de fevereiro de 1910, escreveu ao pai:
No dia 26 de fevereiro, os alunos do segundo e do
terceiro ano do liceu farão uma excursão a Güspini para
visitar as minas de Montevecchio, portanto, eu também
tenho de ir, e estou mesmo indecente com esta jaqueta
que já tem dois anos, toda gasta e lustrosa. Por isso eu
queria que você me autorizasse a ir em algum alfaiate en­
comendar um traje novo por sua conta... Hoje não fui à
escola porque tive de trocar as solas do sapato... Neste
carnaval não saí de casa um só momento, agachado em
um canto, tão taciturno que Nannaro pensou que eu esti­
vesse doente 2.

! A c a r t a é in é d it a .

69
E poucos dias depois, a 16 de fevereiro J: “Caríssimo papai, pa­
rece que você acha que eu posso viver de vento. Nannaro já faz
muito por mim. Com a mesada que me manda não se pode viver em
Cagliari, a não ser à base de pão, e mesmo assim pouco pão, porque
o quilo custa 50 centavos.” Nino acaba conseguindo algum dinhei­
ro, mas certamente não o do casaco. Insistiu:
Agora devemos falar sobre um assunto doloroso; vo­
cê não me escreveu nada sobre a roupa nova, e olha que
quando fui a Ghilarza na Páscoa estava indecente, como
você mesmo,disse... e para não envergonhar você e ma­
mãe não saí de casa durante dez dias seguidos. Se na Pás­
coa eu estava indecente, agora que já se passou mais de
um mês e meio, os rasgos estão maiores, não estou mais*
indecente e sim sujo e esfarrapado... Se o diretor da escola
mandar o inspetor aqui em casa eu vou lhe dizer clara-
-mente que não vou à aula porque não tenho uma roupa
limpa para vestir.4

No início do segundo trimestre do segundo ano colegial, Anto-


nio Gramsci finalmente começa a ter aulas de italiano. O professor
se chamava Raffa Garzia, jovem de 33 anos, magro e baixo, sempre
com a testa franzida, o terror em pessoa. Irascível, inclemente com
os maus alunos e com os presunçosos, iricapaz de tolerar baixos
rendimentos e mau comportamento em sala de aula, não demorou
muito para transformar uma turma barulhenta em um rebanho de
alunos aterrorizados. Já tinha um certo nome. Havia escrito, dez
anos antes, um ensaio, II Canto di m a Rivoluzione, obra crítica do
hino logudorese de Francesco Ignazio Mannu contra os senhores
feudais sardos e do Giorno de Parini. Era também o diretor de L ’U-
nione Sarda, que na época era o jornal mais lido da ilha, apesar da
sua estrutura artesanal. Para completar o perfil de Garzia, devemos
acrescentar que ele era um anticlerical intransigente e. radical que,
embora procurasse distinguir-se dos socialistas, não hesitava em di­
vulgar as suas iniciativas no seu jornal (seu em todos os sentidos:
também era proprietário da publicação), chegando mesmo a apoiá-
los. Dois outros professores de Gramsci compartilhavam das suas

1 A carta é inédita.
4 A carta é inédita.
70
idéias, sendo tão ou mais avançadas que Garzia. Eram eles o pro­
fessor de latim e grego Costante Oddone, homem de origem humil­
de, e o professor de física Francesco Maccarone, amigo de Gennaro
Gramsci e socialista militante 5. Logo G ram sei tornou-se o aluno
predileto de Garzia.
Agora os seus deveres eram lidos em classe como ensaios não
só de estilo como também de clareza intelectual. Garzia emprestava,
ao jovem discípulo livros escolares e nâo escolares. De modos brus­
cos na escola, com os tipógrafos e os jornalistas, junto a Gramsci se
abrandava. Chegou mesmo a convidá-lo a ir com ele ao seu escritó­
rio na avenida Regina Margherita, onde os colaboradores de L'U-
nione Sarda se reuniam. Finalmente se estabeleceu entre os dois
uma relação que pode ser definida como amizade.
No entanto, a distração preferida de Gramsci, entre aquelas
possíveis, continuava a ser a leitura.
Nino lia de tudo - conta Gennaro. Eu tinha voltado
do serviço militar, em Torino, transformado em socialista
militante. No início de 1911 me tornaria caixa da Câmara
do Trabalho e secretário da seção socialista de Cagliari.
Por isso, encontrava-me freqüentemente com Cavallera,
Battelli, Pesei, os jovens líderes do socialismo na Sarde­
nha, e algumas vezes ocorria de Nino estar conosco. Uma
grande quantidade de material propagandístico, livros,
jornais, opúsculos, acabava em nossa casa. Nino, que na
maioria /las vezes passava as noites fechado no quarto
sem sair se quer para.dar uma volta, em pouco tempo co­
meçou a ler aqueles livros e jornais.
Gramsci já havia se aproximado de Marx, “ por curiosidade in­
telectual” , como escreverá em uma carta datada de 1924. Também
incluía na relação das suas leituras Carolina Invernizio, a Domenica
dei Corriere, e o periódico socialista II Viandante, dirigido pelo re­
volucionário Tomaso Monicelli. “ Diga a Teresina”, recomendava
em uma carta (inédita) ao pai, “ que guarde para mim todos os arti­

5 O professor Maccarone estará, em janeiro de 1911, entre os dirigentes da Asso­


ciação Anticlerical de Vanguarda, junto a Carmine Orano, presidente, e a Renato
Figàri, bibliotecário; em março, será candidato ao Conselho Comunal de Cagliari,
concorrendo na lista dos partidos populares.
71
gos publicados na Tribuna; se for possível, gostaria que ela me man­
dasse especialmente um artigo de Pascoli que foi publicado há um
mês. Eu estou guardando para ela os Domeniche dei Corriere, e na
primeira ocasião os expedirei” (em um post-scriptum, solicitava o
envio de L ’olmo e 1’edera de Anton Giulio Barrili e de um número
do Secolo XX). Também lia a Deledda, mas não gostava dela.

Dos livros de Sebastiano Satta - me diz Renato Figà-


ri - preferia as odes aos mortos de Buggerru, a Giuseppe
Cavallera e a Efisio Orano. Uma vez ele veio ao círculo
da Vanguarda assistir a uma declamação. Naquela oca­
sião, eu afirmara que cabia a nós, jovens, valorizar os es­
critores sardos. No dia seguinte, o próprio Nino retomou
o tema. Lembro-me que ele reprovava os autores sardos
por se manterem distantes dos temas vivos do momento.
A Sardenha, objetava, não se resumia a apriscos, despe­
nhadeiros, bardanas e à mãe do assassinado. E continuou
a falar das condições da ilha e dos mineiros que, traba­
lhando a centenas de metros embaixo da terra para o ca­
pital belga e francês, recebiam em troca não hospitais, es­
colas, roupas, mas a intervenção da tropa à primeira rei­
vindicação.

Lia sempre o Marzocco e La Voce de Prezzolini, e naquelas re­


vistas encontrava os seus autores prediletos.

Às vezes - conta a irmã Teresina - mesmo depois que


Nino já havia comunicado a mudança de endereço, as re­
vistas continuavam a vir durante algum tempo para Ghi-
larza. Fui encarregada de colocar em uma pequena pasta
os recortes dos escritores que mais admirava, sobretudo
Croce e Salvemini. Lembro-me que Nino também tinha
uma grande admiração por Emilio Cecchi e Papiní,
sobretudo Cecchi. Porém, quando me pedia para recortar
os artigos e colocá-los na pasta, suas recomendações prin­
cipais eram sempre dirigidas a Croce e Salvamini.

Naquela época estava em voga se estudar a questão meridio­


nal, e na ilha, onde Gramsci fazia as suas primeiras experiências
culturais, a reivindicação sardista, para as quais convergiam, em
conjunto, giolittianos, socialistas e radicais, conferia ambigüidade
72
ao movimento. Desde março de 1910, o jornal de Raffa Garzia (cu­
jo redator-chefe responsável era Jago Siotto, que já havia sido dire­
tor de La Lega, o periódico das primeiras organizações socialistas)
tinha em mira um único alvo: o gabinete Luzzatti. Isto dependia,
em grande parte, da influência que Françesco Cocco Ortu, sempre
passivo, excluído daquele governo depois de ter sido ministro várias
vezes, exercia sobre o jornal, e por conseguinte sob a condição de
ter de se curvar muito ou pouco, aos cálculos políticos de quem o
subvencionava. A orientação do momento era abrir fogo sobre o
“grande Gigione” (era desse modo que a VUnione Sarda se referia
a Luzzatti), sem se preocupar muito com o conteúdo destes ata­
ques. Por isso, ocorriam críticas vindas da direita (ataques ao proje­
to de reforma eleitoral e à trama Luzzatti-reformistas de Bissolati) e .
da esquerda. A exuberância polêmica do editor-diretor Garzia e do
redator-chefe Siotto alimentava-se principalmente de fatos da Sar­
denha. O jornal tornou-se uma caixa de ressonância dos protestos
populares e, na verdade, não faltavam ps ocasiões de protesto em
uma terra atrasada em todos os sentidos, onde imperava o analfabe­
tismo, a malária, o tracoma, a tuberculose, e onde se morria de fo-

No dia 23 de maio de 1910, desembarcaram em Cagliari do na­


vio real Trinacria, Vittorio Emanuele III e a rainha. Permaneceram
na cidade até a noite do dia 25. O rei colocou a pedra fundamental
de um dormitório público na avenida dos Ospizi, enquanto a rainha
doava 2.800 liras de guloseimas para as crianças dos orfanatos. No
dia seguinte, UUnione Sarda - embora conferindo grande destaque
à visita dos soberanos, inclusive publicando uma foto, privilégio
que, naquele ano havia cabido somente a um consagrado nome do
teatro lírico - Piero Schiavazzi, natural de Cagliari, saía com um
comentário respeitoso sobre os soberanos, mas de extrema aspereza
contra o governo.
Os festejos acabaram - começava o artigo de Raffa
Garzia. Baixados os estandartes; guardadas no depósito,
mais uma vez, as bandeiras; devolvidos aos cuidados pa­
ternos as cartolas e os fraques; de volta aos seus postos os
guardinhas que, durante alguns dias, deram ao capitão
Bousquet a satisfação de ter uma companhia para coman­
dar; liberados do privilégio feudal os meios de transporte
e restituídos à comunidade burguesa; findas as ânsias, os
73
sobressaltos, os histerismos das autoridades sonolentas
nas águas do porto,,, a paz retoma à nossa cidade.

Mas por que, perguntava UUnione Sarda, o gabinete Luzzatti


deseja a visita ds soberanos? Uma visita dese tipo só tem sentido
quando se pretende consagrar com ela um acontecimento fora do
comum, um novo estado de coisas. “E o que há de novo, hoje, entre
nós?” Apenas um pouco de poeira, concluía Garzia, “atirada nos
olhos dos crédulos” . Com efeito, a vinda de Vittorio Emanuele III e
da rainha teve como consequência apressar a unanimidade, mas
uma unanimidade decididamente contrária à que as autoridades de­
sejavam. La Voce dei Popolo, “órgão da classe trabalhadora sarda”,
que se publicava em Cagliari, assim definiu a visita: “Que luxo!
Quantas cartolas, quantos redingotes, quantas mulheres bonitas,
quantos sorrisos de complacência e de satisfação moral, que auto­
móveis estupendos, quanta riqueza, quantas bandeiras, quantos
soldados, quantos policiais fardados e à paisana. Eis o Rei!” Até
mesmo o jornal concorrente do L ’Unione Sarda, II Paese, cuja linha
era colocar-se sempre contra Garzia, seu inspirador e seus colabo­
radores, desta vez não fez o contraponto e, no domingo 29 de maio,
suas páginas diziam: “Apesar da visita de Vittorio Emanuele, tudo
continuará como antes para a Sardenha, e os nossos sofrimentos
não diminuirão”. E não parou aí, chegando a censurar o desperdí­
cio de dinheiro gasto com a acolhida reservada aos soberanos: “Pe­
quena ou grande que seja a quantia gasta com estes ridículos espe­
táculos coreográficos, estes inúteis e servis desfraldamentos de ban­
deiras, estas vazias festas oficiais que não elevam e sim corrompem
o sentimento popular, nós afirmamos simplesmente que foi dinhei­
ro jogado fora”. O representante do governo, Germonio, havia
convidado a Cagliari, para quarta-feira 25 de maio, todos os prefei­
tos da província; o rei, dizia a circular de convocação, desejava vê-
los. II Paese publicou o telegrama de resposta do advogado Felice
Porcella, prefeito de Terralba: “Sinto muito não poder aceitar hon­
roso convite dirigido a mim por Vossa Senhoria na espera de que o
governo da Sua Majestade se digne finalmente a responder aos jus­
tos e não atendidos reclamos destes prefeitos, tomando prontamen­
te as devidas providências legais para com esta região miserável e
sofredora”. A ventania sarda voltava a soprar, ainda mais impetuo­
sa, agitando os ânimos.
74
Duas semanas depois, tendo concluído o segundo colegial6,
antes de ir para Ghilarza, Gramsci foi procurar Garzia. Tinha 19
anos e, se fosse possível, lhe agradaria muito fazer sua estréia no
jornalismo, com artigos curtos, talvez breves relatos da sua aldeia,
durante o verão. Raffa Garzia o contentou. Em Ghilarza já havia
correspondente, mas se podia remediar as coisas confiando a
Gramsci a correspondência em uma aldeia próxima de Ghilarza,
Aidomaggiore. O jovem partiu com a promessa de que logo recebe­
ria a sua primeira carteira de jornalista.
A carta de Garzia anexa à carteira (datada de 21 de julho de
1910) não tinha o tom burocrático próprio a circunstâncias como
estas. “ Eis a carteira desejada”., escrevia o severo crítico e professor
de italiano. “A sua colaboração é benvinda; de agora em diante
mande-nos todas as notícias de interesse público e nós e os leitores
lhe seremos gratos. Afetuosamente.”
A primeira matéria de Antonio Gramsci como corresponden­
te, seguramente o seu primeiro texto publicado, apareceu no L'U-
nione Sarda cinco dias depois, 26 de julho. São ao todo 25 linhas,
uma notícia simples, mas exposta com estilo exemplar e muito sen­
so de humor, sem as ênfases e os floreios típicos do estreante de
província. Vamos a ela (a matéria é “ assinada” pela sigla “gi”):

Nas áreas vizinhas espalhou-se a notícia de que du­


rante as eleições em Aidomaggiore sucederiam fatos terrí­
veis. A população queria introduzir de uma só vez o su­
frágio universal, isto é, eleger o prefeito e os conselheiros
plebiscitariamente, e parecia disposta a tudo. O tenente
dos"carabineiros de Ghilarza, cav. Gay, muito preocupa­
do com estes sintomas, solicitou o envio de todo um des­
tacamento de exército, 40 carabineiros e 40 soldados de
infantaria - ainda bem que não encomendou canhões - e
um delegado de segurança pública (bastaria apenas ele).
Quando as urnas foram abertas, para a votação, a aldeia
estava deserta; eleitores e não eleitores, temendo serem
presos, sumiram, e foi preciso que as autoridades fossem
de casa em casa desencavar os faltosos...

6 As notas obtidas foram as seguintes: italiano: sete e oito', latim: oito e oito; histó­
ria da cultura grega: nove; história e geografia histórica: oito; filosofia: sete; história
natural: sete; física e química: sete.

75
A nota terminava com uma exortação tipicamente gramsciana:
“ Pobres amendoinhas de Aidomaggiore! Além da filoxera, ainda
têm os soldados de infantaria” .

76
8.

No dia 17 de novembro de 1910, poucas semanas depois do re­


torno de Antonio Gramsci a Cagliari para freqüentar o terceiro ano
do liceu, apareceram ita mesma página do £ Uníone Sarda, duas
notícias de relevo diferente. A primeira anunciava a morte de Leon
Tolstoi; a outra, a iminente viagem à Sardenha do deputado socia­
lista Guido Podrecca, diretor do periódico anticlerical L'A sino. A
segunda notícia foi a que mais excitou os habitantes de Cagliari.
Atravessava-se um momento de inquietação generalizada. Â
campanha promovida pela L ’Unione Sarda contra o governo Luz-
zatti continuava, inspirada pela hostilidade de Cocco Orfu em rela­
ção aq ministério. Porém, se quem a promoveu foi o ressentimento
de um influente homem público, excjuído do exercício do poder, os
fatos que se seguiram deram-lhe um conteúdo.sério; os problemas
que continuavam a acumular-se sem solução, ao contrário, agra­
vam-se pela escolha giolittiana das alianças de classe no Norte, em
detrimento do Sul. O objetivo do grupo político dirigente era esti­
mular os altos lucros das indústrias (o protecionismo contribuía
para isso) e de narcotizar, através^de reajustes salariais, o movimen­
to operário. Por conseguinte, foram sobretudo as massas camponesas
do sul do país que sofreram as fconseqüências dessa escolha; mas
aos grupos no poder isso pouco importava. Na época, essas massas
77
viviam em uma situação de alheiamento, devido ao analfabetismo,
dos acontecimentos políticos, e portanto sem condição de influir
sobre a vida nacional; nesse sentido, a classe política dirigente po­
dia perfeitamente não se preocupar com o seu estado de ânimo,
bastando-lhe alguns fuzis do exército para reprimir os eventuais le­
vantes. Na Sardenha, a economia agrícola, isto é, boa parte da eco­
nomia sarda, encontrava-se em um verdadeiro círculo vicioso: os
baixos rendimentos, juntamente com $ cupidez do fisco (banditis­
mo fiscal do Estado, dizia-se então), entravavam a economia e,
portanto, a acumulação de capital; sem capital, qualquer iniciativa
de transformação fundiária tornava-se impossível, e a permanência
das condições de atraso, com o emprego de métodos primitivos na
exploração da terra, era a causa do baixo rendimento. O despovoa-
mento dos campos continuou. O número de trabalhadores desocu­
pados crescia. Observou-se uma nova alta dos preços, da moradia,
dos víveres e sobretudo dos artigos manufaturados importados,
marcados pelas taxas alfandegárias. Eram aprovadas leis em benefí­
cio da ilha, mas as poucas que eram colocadas em prática, o eram
apenas parcialmente e sempre com atraso. Até mesmo solicitações
não essenciais, como a abolição das tarifas diferenciais para o
transporte de mercadorias e passageiros, continuavam sem ser aten­
didas. O isolamento da ilha era agravado pela descontinuidade das
comunicações marítimas, devido ao estado precário dos navios, e
pelas freqüentes avarias nos equipamentos telegráficos que corta­
vam completamente a ligação da Sardenha com o resto do mundo.
A exasperação se difundia. Todas as camadas sociais se ressentiam
desse estado de abandono. Já no início do verão soprava em Caglia-
ri o vento da agitação. Nos primeiros dias de julho, o prefeito Mar-
cello e todo o Conselho Comunal pediram demissão, em sinal de
protesto pela atitude de desleixo do governo.
Nos dias que se sucederam àquelas e a outras demissões em
massa de organismos eletivos, VUnione Sarda havia sublinhado a
escalada dos acontecimentos com uma torrente de títulos exclama­
tivos, um martelar incessante de manchetes acusativas publicadas
em primeira página A campanha jornalística prosseguiu com

1 As manchetes eram desse tipo: Manifestações de desprezo e princípio de batalha;


O firme protesto de Cagliari e da província; A s demissões do Conselho Comunal; As de­
missões em massa dos corpos eletivos; O grande protesto em defesa dos nossos direitos;
Contra todas as falsas promessas; A insurreição da consciência pública.
78
igual veemência durante todo o verão. £ fácil entender porque a
anunciada visita do deputado Podrecca não poderia deixar de pro­
vocar, neste céu cortado por relâmpagos de revolta, entusiasmo na
maioria dos cidadãos e consternação nas autoridades governamen­
tais e nos ambientes ligados ao clero.
Quem convidou o deputado de Budrio a visitar Cagliari foram
a seção socialista local e a Câmara do Trabalho. Sobretudo a Câ­
mara do Trabalho conseguia, naquela época, colocar-se como local
de encontro de operários, intelectuais, empregados, pequenos co­
merciantes. Seu secretário era um sindicalista toscano, Gino Pesei,
membro do grupo de políticos imigrados que vieram à Sardenha
depois de Cavallera 2. Gennaro Gramsci, então com 26 anos, passa­
va boa parte do seu tempo livre na Câmara, e às vezes Antonio o se­
guia. Naquele tempo, ir à Câmara do Trabalho, com ar de cata­
cumba que ela inspirava, parecia aos jovens quase uma aventura em
um mundo proibido, estimulante exatamente por isso, como se fos­
se um ato de desafio, um gesto à medida da própria energia mora!,
uma vez que comparecer assiduamente à sede da rua Barcellona,
sempre vigiada pela polícia, significava expor-se ao risco de perse­
guição. E, em uma época caracterizada também pelo clima român­
tico, este ar de uma nova confraria favorecia igualmente o proseli­
tismo. Depois de anunciada a visita de Guido Podrecca, delineava-
se a eventualidade de choques de tua com os clericais, que dispu­
nham até mesmo de um jornal diário, II Corhere dell'isola.
O parlamentar socialista devia cumprir um ciclo de conferên­
cias: terça-feira, 22 de novembro, no teatro Valdès di Cagliari,
sobre o tema “O pensamento revolucionário de Richard Wagner”;
quinta-feira, 24, sobre o tema “Fé e moral” ; no sábado, 26, em Igle-
sias, na ex-igreja de San Francesco, sobre “O marido da alma”.
Como conclusão, haveria um grande comício em Cagliari, na praça
do Carmine, na tarde de domingo, 27 de novembro, sobre o tema
“A organização operária”. Quatro dias antes da chegada do diretor
de L A sino a Cagliari, LUnione Sarda publicou uma nota forte­
mente anticlerical. “Comenta-se”, informava, “que os clericais es­
tão com a itenção de ir receber o deputado Podrecca na estação fer­

2 Filipo Figàri, um jovem pintor, de quem a crítica mais-autorizada logo se ocupa­


ria, havia desenhado o esboço para a Câmara. Nele apareciam, ao lado das palavras
Proletários de todo o mundo, uni-vos, um portuário e um mineiro que apertavam as
mãos, e crianças que trocavam algumas espigas.
79
roviária, lá realizando uma manifestação hostil ao deputado socia­
lista, o que se repetiria durante as suas conferências” . Comentando
as opiniões recolhidas, o jornal se levantava, afirmando: “ Seria
uma verdadeira patifaria” , e ainda: “Sem dúvida que não podemos
ser acusados de muita simpatia por certos métodos do socialismo
italiano, mas isto não nos impede de reconhecer no deputado Po-
drecca o combatente por um ideal e o colega brilhante e valoroso” .
As temidas manifestações de hostilidade acabaram não ocorrendo.
O deputado socialista teve uma acolhida triunfal. Em Iglesias, re-
metendo-me ao estilo um tanto ditirâmbico do VUnione Sarda,
“foi tal o impacto exercitado pelo orador que até os clericais não
puderam deixar de bater palmas” . Exageros à parte, a viagem pro-
pagandística do popular deputado e jornalista teve como efeito dar
um novo impulso e um contorno mais seguro às organizações de es­
querda.
Um outro fato veio tornar ainda mais agudo o descontenta­
mento da população e provocar uma nova onda de protestos contra
a passividade das autoridades: difundiu-se naqueles dias a notícia
alarmante de uma epidemia de meningite. “As macas vão e vêm”,
denunciava a 8 de dezembro VUnione Sarda. Em meio às seções de
costume do jornal, “ Barretes e togas” , “ Sardos que nos honram”,
“Quem parte” , “Aos poucos” , etc., surgia já uma outra seção fixa;
“A meningite cérebro-espinhal” . “ Estamos expostos a um perigo
gravíssimo”, era o grito de alarme do articulista, que, além da de­
núncia, fazia uma severa crítica “à inaptidão e à fraqueza do repre­
sentante do governo” . Com a nomeação do comissário real, em se­
guida às demissões do prefeito Marcello e de toda a assembléia co­
munal, “hoje a prefeitura de Cagliari”, queixava-se o jornal, “é
uma verdadeira divisão da administração governamental (e infeliz­
mente também da Cúria)” . “E o governo? Cala-se. E quem se insur­
ge na Câmara? Ninguém. E, no entanto, aqui se morre”: assim, dra­
maticamente, o articulista finalizava sua matéria, encontrando am­
plo consenso em toda parte.
No domingo, 11 de dezembro de 1910, no auge desta campa­
nha jornalística, relativa à epidemia de meningite, realizou-se na
Câmara do Trabalho uma assembléia dos delegados de todas as as­
sociações de cidadãos. A meningite cérebro-espinhal não foi discu­
tida. Em uma circular endereçada quatro dias antes às organizações
de classe e culturais, Gino Pesei assinalara “o mal-estar em que vive a
população por causa do progressivo aumento dos preços dos víve­
res e da moradia” e manifestara-se convencido de que “para deter o
80
movimento-ascendente dos preços” era “ necessário participar da
intensa agitação de muitas outras cidades italianas” . A assembléia
foi realmente plenária. Constituiu-se um “comitê de agitação con­
tra a alta dos víveres e da moradia” . UUnione Sarda aprovou a ini­
ciativa, acrescentando:
O representante do governo, o comendador Germo-
nio, que dorme profundamente quando se trata de tomar
medidas ènérgicas e eficazes para combater a epidemia de
meningite, ontem quis demonstrar o máximo de zelo e
mandou um funcionário da segurança pública para assis­
tir à reunião da Câmara do Trabalho, reunião que tinha
caráter e objetivo exclusívameníe econômicos. Mas o co­
mendador Germorfio, que não quer e não sabe atender
aos supremos interesses da população, não gosta de ser
apanhado de surpresa e por isso criou um ótimo serviço
de informações para conhecer os nomes da “canalha”
que participa da Câmara do Trabalho.
Neste clima de ânimos exaltados, chega, no dia seguinte, a
notícia de que o questor* de Bari havia sido exonerado após um in­
quérito e transferido para Cagliari. A epidemia de meningite deixa­
va a população furiosa. Havia também a indignação pela alta dos
preços que haviam atingido níveis inacreditáveis. Só faltava, para
aumentar ainda mais a raiva popular, a comprovação de que as au­
toridades centrais viam a Sardenha como terra de expiação. “De
modo que”, reagiu VUnione Sarda, “para o grande Luzzatti, terno
amigo da Sardenha, Cagliari e toda a ilha são consideradas terra de
punição, de desterro, e se um funcionário, por incapacidade ou por
indignidade, se torna incompatível no Continente, o remédio é logo
encontrado: a Sardenha é o domicílio forçado para esse tipo de gen­
te”.
Logo depois, nos dias 6-7-8 de janeiro de 1911, foram marca­
das as eleições para a renovação da comissão executiva da Câmara
do Trabalho. Os candidatos eram o ferroviário Salvatore Baire, o
pedreiro Salvatore Crovato, o metalúrgico Luigi Favero, o empre-

* N. do T.: O questorê o titular da questura, órgão da administração estatal italia­


na que está encarregada de manter a ordem pública e promover a investigação de cri­
mes em todas as províncias do país.
81
gado Gennaro Gramsci, o marmorista Luigi Onali, o alfaiate Ange­
lo Pischedda e o caldereiro Alfredo Romani. Gennaro Gramsci foi
um dos eleitos e recebeu o cargo de caixa. Naturalmente esse fato
não podia deixar de ter uma conseqüência, dado o severo controle
que a polícia então exercia sobre os dirigentes sindicais. Dentro de
pouco tempo, em Ghilarza, Francesco Gramsci e Peppina Mareias
ficaram sabendo de um pedido de informações sobre Gennaro. Fi­
caram assustados com a notícia. Irritado e inquieto, o senhor Cic-
cillo pensava em fazer uma viagem a Cagliari para esclarecer as coi­
sas. Foi então que Antonio escreveu à mãe (a carta é publicada aqui
pela primeira vez):

Respondo-te imediatamente para que papai não co­


meta a loucura de vir aqui. Vocês ficaram preocupados
porque á policia quer saber informações sobre alguém.
Não há razão, pois, para esquentar a cabeça. Posso até
imaginar o que vocês estão pensando agora: que Nannaro
está no xadrez, ou entpe quatro carabineiros. Podem ficar
tranquilos, pois nada disso vai acontecer. Nannaro acei­
tou alguns encargos na Câmara do Trabalho, portanto, o
seu nome, até agora desconhecido, chamou a atenção da
polícia, que quis saber quem era este revolucionário, este
mata-policial novo que agora se revelava, e pediu infor­
mações. Está contente agoja? Como vê, não há nada de
mais e tudo acaba ai. Tendo havido uma greve, e como
Nannaro é o caixa da Câmara do Trabalho, a polícia que­
ria saber o seu endereço para seqüestrar os fundos e pôr
um fim à greve, mas a greve acabou por conta própria, e
os fundos não foram parar nas mãos da polícia... Quando
vocês dois souberem, uma próxima vez, destas coisas, fi­
quem tranquilos e riam na cara do tenente e nas barbas
dos carabineiros, como eu faço já há algum tempo.
Pobrezinhos, no fundo devemos ter pena deles. Ocupan­
do-se como se ocupam de socialistas e anarquistas, não
têm tempo de pensar nos ladrões e nos malandros, e fi­
cam com medo que não lhes roubem o chapéu...

Antonio Gramsci tinha então 20 anos. Já estava melhor inte­


grado no ambiente urbano e, lendo suas cartas inéditas deste perío­
do, extraímos dele uma nova imagem, de estudante despenteado e
até mesmo de assíduo e barulhento freqüentador das galerias supe-
82
ríores dos teatros. “Devido à minha esplêndida cabeleira, que se
ondula com qualquer ventinho, pensaram que eu fosse uma moça, e
se maravilharam com o fato de uma mulher fazer tanto alvoroço
em um teatro. As pessoas só viam a minha cabeça e a mão que execu­
tava um sonoro assobio. Não melneomodei com isso, pelo contrá­
rio, agradeci a atenção que me davam” , E ainda: “Outra noite, me
censuraram porque eu admirava em voz alta os esplêndidos bigo­
des de um guarda de polícia. Eu lhes disse se o guarda cortasse os
bigodes não teria mais motivo para falar” . Mas atrás desta aparên­
cia de alegria, a vida de Antonio era, na realidade, bem triste.
O salário de Gennaro, sem ser complementado pelo pai, não
bastava mais para os dois irmãos. A vida estava muito cara e era
impossível para os dois viverem com cem liras ao mês. Antonio es­
creveu ao pai: “Nannaro se sacrificou bastante, pediu dinheiro
adiantado, mas agora não sabe mais o que fazer. Cada dia que pas­
sa a situação torna-se mais séria, e hoje estava decidido a me man­
dar de volta'para Ghilarza... Somente as minhas súplicas consegui­
ram convencê-lo de que, escrevendo-lhe esta noite, tudo seria arran­
jado” ’. Antonio continuou os estudos em Cagliari, mas em condi­
ções muito difíceis. Anos mais tarde, recordará: “Comecei a não to­
mar mais o já minguado café da manhã; depois, almoçava cada vez
mais tarde e assim economizava o jantar. Durante oito meses comi
apenas uma vez por dia e assim cheguei ao final do terceiro ano co­
legial em estado muito grave de desnutrição” .
Os seus coetâneos, classe 1891, tinham de se alistar no serviço
militar. Eram, em toda ilha, 11.632. Mais da metade, 7.968, foram
excluídos do serviço militar por incapacidade e a causa declarada
desta incapacidade era, em 2.486, a desnutrição. Que elo poderia
existir entre esta plebe esfaimada e os intelectuais sentimentalmente
próximos a ela, e o socialismo dos sindicatos reformistas do Norte,
basicamente alinhados com os promotores do protecionismo e, por
conseguinte, insensível, na realidade, às trágicas condições de vida
do subproletariado agrícola do Sul? Uma concepção a esse ponto
restrita do socialismo poderia ter seguidores na Sardenha? Não, é
inadmissível. Começava a despontar, em oposição ao outro, o so­
cialismo “camponês” de inspiração salveminiana. Gramsci acom­
panhava com grande interesse - o sabemos pela irmã Teresina - os

' A carta é inédita.

83
escritos de Salvemini. Na Voce de 13 de outubro de 1910, o intransi­
gente defensor das causas meridionais antecipou parte da sua expo­
sição a ser feita proximamente no congresso socialista de Milão,
nela esclarecendo a posição dos “reformistas dissidentes” , que se­
riam aqueles que “ não aceitam o revolucionarismo de palavras,
mas que também não pretendem que o reformismo se torne sinôni­
mo de ministeriaiismo, de giolittismo, de maçonismo crônico, nem
que o Partido Socialista se torne uma nova organização oligárqui-
ca, a serviço exclusivo das corporações operárias mais poderosas, e a
dano da maior parte da classe trabalhadora não eleitoral” . Na Sar­
denha; a orientação, correspondente de uma certa forma à de Salve­
mini, era uma mistura de sardismo, radicalizado à extrema veleida­
de separatista, e de socialismo com matizes revolucionários; deriva­
va daí, uma espécie de social-sardismo, heterodoxo tanto em rela­
ção a Marx, como também em relação às concepções federais de
um Cattaneo. A luta de classe era um ponto fechado, mas a classe a
ser combatida era identificada, de uma forma bastante confusa e
com uma generalização perigosa, nos continentais ricos, ricos ou ao
menos privilegiados, e até os operários das indústrias eram conside­
rados privilegiados. A organização pçlítica do sardismo, o Partido
Sardo da Ação, com temas e programas bem precisos, só surgirá em
1919; até então, o sardismo não passava de um clima de rebelião
contra o centralismo estatal.

Em março de 1911 realizaram-se em Turim grandes festejos em


comemoração ao primeiro cinquentenário da unidade italiana. Po­
deria ser uma excelente oportunidade para trégua, para o abranda­
mento dos agitados espíritos regionalistas. Mas a torrente de osten­
tação evidentemente não foi suficiente. Os ressentimentos eram te­
nazes e, para agudizá-los, registrou-se ainda a não-concessão de
auxílio de viagem aos prefeitos sardos convidados a comparecerem
ao convênio que seria realizado em Turim em 17 de março. Com
este telegrama, o prefeito de Cossoine, Agostino Senes, recusou o
convite: “Não irei porque as grandes reduções dos preços ferroviá­
rios não dizem respeito à velha Sardenha, por todos esquecida” . A
ele se juntou o prefeito de Fluminimaggiore, com esta outra respos­
ta: “ Em virtude grande distância e nenhum desconto concedido via­
gem da Sardenha e problemas financeiros da prefeitura é impossível
para mim comparecer convênio prefeitos ao qual, todavia, apóio
com coração de italiano” . Tratava-se, embora com nuances dife­
rentes, de respostas igualmente representativas do estado de ânimo
84
dominante na Sardenha. O ministro Sacchi foi acusado pelo L ’U-
nione Sarda de “mesquinhamente sovina” .
Naquele período, a que fase de desenvolvimento chegara o
“processo vital” de Antonio Gramsci? Através de uma carta de
1924, somos informados da sua convicção, no momento, de que “e-
ra preciso lutar peia idependência nacional da região” . Uma com­
posição de italiano do terceiro ano colegial (Gramsci completou 20
anos em janeiro daquele ano escolar) também parece indicativa da
primeira formação de Antonio aipda/io período do liceu. O profes­
sor do segundo ano, Raffa Garzia, adoentado, havia solicitado um
período de licença, Seu substituto na cátedra era um homem alto e
sonhador, Vittorio Amedeo Arullani, assíduo leitor dos textos clás­
sicos e aberto politicamente - embora sem ser de esquerda - ao con­
fronto de idéias. Foi com ele que Antonio Gramsci fez uma redação
sobre o colonialismo é os povos oprimidos.

...Um dia se espalha a notícia: um estudante assassi­


nou o governador inglês das Índias, ou, os italianos fo­
ram batidos em Dogali, ou ainda, os boxers extermina­
ram os missionários europeus. E então, a velha Europa
horrorizada brada contra os bárbaros, contra os selva­
gens, e uma nova cruzada é movida contra aqueles povos
infelizes... As guerras são feitas para o comércio, não
para a civilização; quem sabe quantas cidades da China
os ingleses bombardearam para obrigar os chineses a
comprar o seu ópio. Nada de civilização! E russos e japo­
neses se massacraram para controlar o comércio da Co­
réia e da Manchúria.
A redação chegava ao fim de um modo que já revelava clara­
mente a adesão do jovem aluno do Liceu Dèttorí ao marxismo:

A Revolução Francesa acabou com muitos privilé­


gios, libertou muitos oprimidos, mas só fez substituir
uma classe dominante por outra. Deixou, porém, um
grande ensinamento: que os privilégios e as diferenças so­
ciais, sendo produto da sociedade e não da natureza, po­
dem ser superados. A humanidade tem necessidade de um
outro banho de sangue para apagar muitas destas injusti­
ças: que os opressores nãó se arrependam então de ter
85
deixado o povo em um estado de ignorância e ferocidade
tal qual está hoje!
Estamos em 1911; o regime czarista cairá seis anos depois.
No exame para a obtenção do diploma colegial, Gramsci teve
média nove em italiano escrito, com o professor Arullani. Todas as
outras notas, incluindo as obtidas nas matérias científicas, foram
satisfatórias. Conta Gramsci:
Depois do primeiro ano de liceu, não estudei mais
matemática, escolhendo em seu lugar o grego (na época ha­
via a opção); porém, no terceiro ano, demonstrei, inespera­
damente, haver conservado uma notável “capacidade” .
Naquele tempo, no terceiro ano colegial, éra preciso, para
estudar física, conhecer os elementos de matemática, o
que os alunos que haviam optado por grego não tinha a
obrigação de saber. O professor de física, que era muito
distinto, [Francesco Maccarone, socialista e amigo de
Gennaro Gramsci] divertia-se muito colocando-nos em
situações embaraçosas. Na última prova oral do terceiro
trimestre, ele me fez algumas perguntas de física ligadas à
metam ática, dizendo-me que, de acordo com a minha ex­
posição do assunto, eu teria a minha média anual, e con-
seqüentemente o diploma do liceu com ou sem exame; ele
se divertia muito em me ver no quadro-negro, onde me dei­
xou todo o tempo que quis. Bem, Fiquei meia hora no
quadro, me sujei de giz da cabeça aos pés, tornei a pensar,
escrevi, apaguei, mas Fnalmente “inventei” uma demons­
tração que foi considerada ótima pelo professor, embora
não constasse de nenhum livro. Este professor - concluiu
Gramsci - conhecia meu irmão mais velho, em Cagliari, e
me atormentou com as suas risadas durante todo o tempo
da escola. Chamava-me de o físico grecizante.

Além do nove na prova escrita de italiano, Antonio Gramsci


concluiu os estudos colegiais, na primeira fase, com oito em todas
as matérias.

86
9.

Os estudantes pobres das antigas províncias do ex-reino sardo


tinha oportunidade, uma vez de posse do diploma colegial, de pro-
seguir os estudos na Universidade de Turim, através de uma bolsa
concedida pelo Colégio Cario Alberto. Eram 70 liras mensais du­
rante dez meses. Naquele ano, outono de 1911, a Fundação Alberti­
na oferecia 39 bolsas. Antonio Gramsci entendeu imediatamente
que, se não tentasse esta solução, as despesas com os seus estudos
universitários dificilmente poderiam ser arcadas pela família. O pai,
depois de ter conseguido a reabilitação, fora efetivado no cadastro,
mas como simples escriturário, não obstante ter concluído o clássi­
co e ter cursado alguns anos de faculdade de Direito; para manter
um filho na universidade era necessário um ordenado muito supe­
rior ao seu e, ainda por cima, tinha, além de Antonio, cinco filhos
para sustentar. Mario, com 18 anos, desejava ir para a Marinha ou
Exército; como havia cursado alguns anos do ginásio, tinha alguma
possibilidade de seguir a carreira de suboficial, e talvez mesmo de
oficial. No entanto, enquanto esperava ter idade para o alistamento
voluntário, continuava desempregado em Ghilarza e, portanto, a
ser um peso para o pai. Cario tinha 14 anos e fazia o ginásio em
Oristano. Em casa, as meninas ajudavam no que podiam. Em resu­
mo, a única perspectiva válida para Antonio era a obtenção de uma
das 39 bolsas oferecidas. Caso se transferisse para Turim, Gennaro
87
poderia continuar a dar-lhe um pouco de dinheiro, que, na fábrica
de gelo em Cagliari, ganhava o suficiente para manter-se e para so­
correr, ao menos em parte, o irmão estudante. Antes de tudo, porém,
era preciso superar a primeira seleção, que se baseava nas notas dos
exames de conclusão do colegial. Caso fosse admitido nas provas
em T urim, teria ainda de enfrentar uma longa série de exames escri­
tos e orais.
Naquele verão, Antonio nào atravessava uma fase boa. As inú­
meras refeições que deixou de fazer no seu último período de liceu o
haviam enfraquecido. Sentia-se desencorajado. Recordar-se-á, mais
tarde: “Só no final do ano escolar é que eu fiquei sabendo da exis­
tência da bolsa de estudo do Colégio Cario Alberto, e no concurso
devia-se prestar exame de todas as matérias dos três anos colegiais;
por isso, teria de fazer um esforço enorme durante os três meses de
férias”. Nino tinha um tio que morava em Oristano, o farmacêutico
Serafino Delogu, primo em primeiro grau da sua mãe. Um filho
deste tio Serafino, Delio, a quem Antonio era muito chegado, esta­
va precisando de algumas aulas particulares. “Bastou tio Serafino
dar-se conta das deploráveis condições de fraqueza em que me en­
contrava para me convidar a ficar com ele em Oristano, como pro­
fessor particular de Delio. Lá permaneci um mês e meio e por pou­
co não enlouqueci. Não consegui estudar para o concurso uma vez
que Delio me absorvia completamente; a preocupação, unida à de­
bilidade física, me arrasava. Saí de lá às escondidas. Tinha só um
mês pela frente para estudar” .
Nos primeiros dias de setembro, Antonio ficou sabendo ter
sido admitido para as provas. Em carta datada de 2 de setembro,
que trouxe a notícia, a secretaria do Colégio Cario Alberto acres­
centava: “Há apenas dois concorrentes na sede de Cagliari, e o se­
nhor é um deles”, e ainda: “O senhor receberá, durante a realização
dos exames escritos, de 16 de outubro, dia em que o senhor deverá
estar em Turim, até o dia seguinte ao último exame, o auxílio de
três liras por dia e a viagem em segunda classe de Cagliari a Turim
(menos a- soma referente a 300 quilômetros)” '. Na metade de ou­
tubro, com 20 anos e meio (completaria 21 em janeiro), Gramsci

1 A mesma coisa havia acontecido em março aos prefeitos sardos convidados a


Turim para o primeiro cinquentenário da unidade italiana: o auxílio de viagem não
incluía a travessia marítima.
88
deixou Ghilarza para ir “além das grandes águas”, como, menos
barrocamente do que pode parecer hoje, se dizia na época. “ Partí
para Turim", recordará, “como se estivesse em estado de sonambu­
lismo. Tinha 55 liras no bolso; havia gasto 45 liras para a viagem
em terceira classe, das 100 que me tinham dado em casa” .
Foi uma viagem longa, com parada em Pisa. O tio Zaccaria
Delogu, capitão do exército, estava de partida para Trípoli. Anto-
nio foi recpbido pelo irmãos Serafino e Achille, com quem passou a
noite: E finalmente, a chegada na grande metrópole industrial, O
“provinciano de quatro costados como era, um jovem sardo no iní­
cio do século” ficou aturdido com ela. Podemos ler na sua primeira
carta de Turim à família: “Sinto uma espécie de calafrio quando
faço caminhadas, depois que corro o risco de ir parar embaixo de
não sei quantos carros e bondes” Quem o estava esperando na es­
tação de Porta Nuova era um ghilarzês, empregado na Pirelli, Fran-
cesco Oppo. Mal chegou ao quarto indicado pelo conterrâneo, teve
a sua primeira surpresa; com a alta dos preços provocada pela Ex­
posição do Cinqüentenário, o custo do quarto passara para três li­
ras por dia, ou seja, quanto o Colégio lhe dava para, além de dor­
mir, as despesas de alimentação. Escreveu ao pai: “Iníelizmente tive
de pagar três liras por dia de aluguel e mais outras tantas para co­
mer; hoje, porém, tendo-me dirigido ao Colégio paru receber o di­
nheiro, contei a minha odisséia ao secretário. Ele, muito gentilmen­
te, acabou encontrando um outro quartinho para mim, a 1,50 por
dia".
Os exames começaram no dia 18 de outubro. O tema de italia­
no, nos diz Domenico Zucàro, que recolheu os depoimentos de Ma­
ria Cristina Togliatti e de Augusto Rostagni, que concorriam com
Gram.sci às bolsas de estudo, versava sobre a contribuição dos es­
critores italianos anteriores ao Risorgimenío *, Alfieri, Foscolo, etc.,
à unidade nacional. Assim que foi informado da sua admissão às
provas orais, Antonio escreveu à casa: “Acabei de voltar da univer­
sidade, onde fui ver o resultado do exame de italiano. Ainda bem
que passei, porém, infeiizmente, isto nào me tranquiliza de todo

2 A carta é inédita.
* N do T.: {Risorgimento (i.e., ressurgimento) é o nome dado ao período histórico
no qual a Itál-ia obteve a sua independência c reali/ou a sua unidade política.
89
porque, entre cerca de 70 concorrentes, apenas cinco foram repro­
vados, o que significa que todos estavam bem preparados e que o
exame é muito mais sério do que se pensava” -1. Antonio obteve no­
tas suficientes também nas outras provas escritas: vinte e um na de
história, vinte e três na composição em latim, vinte e quatro na tra­
dução do grego, vinte e cinco no tema de filosofia. No dia 27 de ou­
tubro, presta os exames orais. Dirá: “ Não sei como consegui fazer
os exames, porque desmaiei duas ou três vezes” . Publicada a classi­
ficação final, viu que o seu nome estava em nono lugar. No segundo
posto, figurava o nome de um outro estudante pobre vindo de um
liceu da Sardenha, Palmiro Togliatti,
Nunca haviam se visto antes. “O primeiro e fugaz encontro en­
tre dois jovens, então bastante arredios e fechados” só foi acontecer
nos exames para a admissão ao Colégio das Províncias, como mais
tarde Togliatti recordará. O elemento que os avizinhava era a pro­
veniência comum da Sardenha. Togliatti, filho de um ecónomo do
internato Nacional, morto em janeiro daquele ano (1911), havia
cursado os três anos de liceu no Domenico Alberto Azuni, de Sas-
sari. Outra coisa que os aproximava era “ a condição comum de di­
ficuldades financeiras” , escreverá Togliatti, “evidenciada pela ma­
neira que nós nos vestíamos” . Os laços entre os dois jovens, porém,
só se tornaram mais estreitos posteriormente.
O primeiro inverno de Gramsci em Turim foi um dos momen­
tos mais críticos da sua agitada existência. Havia alugado um pe­
queno quarto na Barriera di Milano, número 57 do Corso Firenze,
nas margens do rio Dora. Sem amigos e distante de casa, sentia
agora mais que no passado, o peso da solidão. Estava esgotado,
conseqüência do esforço feito para ganhar a bolsa de estudo e das
privações que a exiguidade de recursos o obrigava a passar. “ Em
1911, em um período no qual fiquei gravemente doente devido ao
frio e à desnutrição”, recordará, “imaginava que uma imensa ara­
nha, de noite, armava uma emboscada para mim, descendo para su­
gar-me o cérebro enquanto eu dormia”. E ainda ocorreu um con­
tratempo que fez com que passasse as primeiras semanas após o
concurso sem dinheiro. Antonio esperava ter direito à isenção das
taxas universitárias. Ao contrário, teve direito a apenas meia isen­
ção, que, para ser conseguida, exigia a apresentação de uma série de3

3 A carta é inédita.

90
documentos. Enquanto os documentos não ficassem prontos, a ins­
crição na universidade era subordinada ao pagamento da taxa inte­
gral, e sem a inscrição na universidade o Colégio não entregava as
70 liras mensais da bolsa. A 4 de novembro, Antonio escreveu ao
pai pedindo para que ele pagasse a importância da taxa integral e
acrescentou: “O Colégio nâo me dá o dinheiro enquanto eu não es­
tiver regularmente inscrito na universidade; ora, eu me encontro
quase a zero, e tenho de pagar um adiantamento à dona da casa
onde me instalei provisoriamente durante este mês. Portanto, preci­
so que você me mande, se possível telegraficamente, ao menos 30 li­
ras” J. As 75 liras de taxa foram pagas em Ghilafza por Franscesco
Gramsci no dia 10 de novembro, e no dia 16 Antonio finalmente
obteve a matrícula na faculdade de Letras em Filologia Moderna, e
logo em seguida recebeu o primeiro dinheiro do Colégio. Agora em
Ghilarza, seus pais não entendiam porque ele ainda precisava de
mais dinheiro, além das 70 liras da Fundação Albertina, para viver.
Antonio lhes escreveu:
Estas 70 liras são totalmente insuficientes e provarei
com dados concretos. Por mais que tenha procurado, não
pude encontrar um quarto por menos de 25 liras, como
esse onde estou agora. De 70 tiro 25, sobram 45 liras, com
as quais terei de comer, providenciar a lavagem da roupa
de cama (não menos de cinco liras, entre lavar, passar,
etc.), a graxa para os sapatos, a luz para o quarto, o pa­
pel, pena, tinta para a escola, que parece pouco mas te­
nho de gastar 40 liras com eles! Para comer, devo dizer
que um leite custa 10 centavos, um sanduíche de 25 gra­
mas, cinco centavos... para almoçar, não gasto menos de
duas liras, e isso no restaurante mais modesto, como era
aquele onde comia até poucos dias atrás; lá me davam um
prato de macarrão por 60 centavos e um bife fino como
uma folha de papel por mais 60 centavos, pelo que devia
comer seis ou sete sanduíches e continuar com fome como
antes...45

4 À cyria é inédita.
5 A carta é inédita.

91
Recebeu um xale da mãe, “para colocar sobre os ombros” , es­
creveu-lhe, a 14 de dezembro, Grazietta, “quando você estiver em
casa, porque ela achou graça da sua roupa de usar em casa, mas ao
mesmo tempo, sentiu pena do seu mísero estado” . Cinco dias antes
do Natal, o seu primeiro Natal fora de casa, Antonio, em uma carta
ao pai, resolveu dizer de forma ainda mais aberta, em que condi­
ções vivia em Turim. Esta é uma das poucas vezes em que Gramsci,
que quase nada falava de si e, no máximo, tendia a dizê-lo impes­
soalmente, descreve o mal-estar que o afeta: esta é uma das poucas
cartas onde Gramsci, deixando de lado o tom de cronista afastado
dos seus sofrimentos, abandona-se a um desabafo sem freios.
Vejo-me obrigado - implorava - a pedir a você que
me mande, sem falta, antes do final do mês, as 20 liras
que me prometeu. Este mês recebi do Colégio apenas 62
liras, das quais dei 40 à dona da casa como adiantamento
e deverei dar mais 40 para completar o pagamento. Vou
passar um Natal muito magro e não quero torná-lo ainda
mais esquálido com a perspectiva de perambular, com
este frio, por Turim em busca de um quarto pequeno e es­
curo. Pensei que este mês pudesse mandar fazer um
sobretudo, porque Nannaro mandou-me 10 liras. Mas
não foi possível e terei de esperar ainda não sei quanto
tempo. E acredite que não é nada agradável sair de casa e
atravessar a cidade com calafrios e depois, na volta, en­
contrar um quarto frio e não poder se aquecer, e sim ficar
mais duas horas ainda com os calafrios. Se eu soubesse,
acredite-me, não viria, por nada, me meter nesta geleira.
O pior é que a preocupação com o frio não me permite es­
tudar porque ou ando pelo quarto para esquentar os pés,
ou então me cubro de agasalhos porque não consigo
aguentar a primeira queda violenta da temperatura6.
O dinheiro pedido chegou no dia do Ano Novo. É o que se de­
duz de uma carta de 3 de janeiro de 1912. Antonio dizia ao pai:
Recebi anteontem o seu vale telegráfico de 15 liras.
Agradeço-lhe muito. Pode acreditar que eu me encontra­
va em uma situação dificílima e, tendo recebido um car-

‘ A carta é inédita.
92
tão postal no dia 26 não esperava mais receber o dinheiro.
Espero que de agora em diante não lhe incomode mais,
mas acredite que sem as suas 20 liras não poderia seguir
em frente, mesmo que quisesse fazer os mais duros sacrifí­
cios.
Nestas condições, mal alimentado, amargurado por uma soli­
dão que nunca fora tão pungente, e com a cabeça em pedaços pelo
esgotamento, Gramsci estudava. Recordará: “Passei o inverno sem
sobretudo, com um casaco de meia-estação que era bom para Ca-
gliari. Em março de 1912 estava tão mal que não falei mais por al­
guns meses: quando falava, trocava as palavras. E ainda por cima,
morava exatamente nas margens do Dora, e a névoa gelada rrie des­
truía” .
Desde o início, Antonio atraíra as simpatias de um jovem pro­
fessor dálmata, Matteo Bartoli, docente de glotologia, de quem,
oito anos antes, fora publicado um ensaio intitulado Um pouco de
sardo. Bartoli achava que o falar dos sardos tinha um notável relevo
no quadro dos estudos sobre as semelhanças extremas com o latim
vulgar que, inovando-se em mais direções e proliferando em novas
línguas, chegara, finalmente ao sardo. Daí manter “os olhos bem
abertos” , como escreve Domenico Zucàro,. “aos testemunhos lin-
güísticos da Sardenha” . Gramsci falava o sardo perfeitamente e ali
em Turim, na faculdade de Letras não havia muitos naturais da
ilha. Sem dúvida, foi esta circunstância que primeiro chamou a
atenção de Zucàro, e depois a simpatia e, com o tempo, uma amiza­
de profunda nascia. Data deste primeiro período uma carta onde
Antonio pedia ao pai que ele arranjasse alguém que lhe preparasse
uma lista de palavras em sardo, “porém no dialeto de Fonni... que
assinala claramente o S que se pronuncia de modo suave, como em
rosa (italiano), e o S que não vibra, como mesmo em sordo (surdo,
em italiano)” .

Antonio também estava regularmente - dentro e fora da uni­


versidade - em companhia do responsável por literatura italiana,
Umberto Cosmo, que foi professor de italiano no Liceu Dèttori de
Cagliari,
Quando eu era aluno de Cosmo - dirá - não concor­
dava com ele em muitas coisas se bem que na época eu
não havia ainda definido a minha posição - ligava-nos
93
um grande afeto. Parecia-me, porém, que tanto eu como
Cosmo, e como muitos outros intelectuais daquele tempo
(pode-se dizer nos primeiros 15 anos do século), nos en­
contrávamos em um terreno comum que era o seguinte:
participávamos, no todo ou em parte, do movimento de
reforma moral e intelectual promovido na Itáfia por Be-
nedetto Croce, cujo primeiro ponto era que o homem mo­
derno pode e deve viver sem religião, sem religião revela­
da ou positiva ou mitológica ou qualquer outro nome que
se queira atribuir.

Existia entre o jovem estudante desambientado na grande cida­


de e o professor um elo que se fortalecia também na reciprocidade
de afeto. Algum tempo depois, ocorrerão, no calor da luta política,
disputas nas quais, devido ao desejo de represália, Gramsci será le­
vado à imoderação. Mas depois dessas polêmicas, o antigo afeto re­
nascerá. O próprio Cosmo oferece um testemunho disso em uma
carta escrita a Piero Sraffa na época da prisão de Gramsci:

Uma das lembranças a mim mais caras é a.dos anos


em que ensinava na Universidade e tinha como alunos
mais próximos o G. [GrarnscJ e o G. JjPietro Paofo Gero-
sa, da mesma idade de Gramsci, originário do cantão Ti-
cino, católico). Duas almas opostas, mas que se encontra­
vam quando atribuíam, na literatura, mais importância
ao fato religioso, social e político que ao artístico. Um
achava que quem tinha razão era Cantil, outro Settembrí-
ni, e eu devia mostrar as deficiências dos dois críticos e
impor as razões de De Sanctis.

Bàrtoli, Cosmo. Foram estes os professores com quem o nosso


estudante sardo teve maior familiaridade. No entanto, toda a Uni­
versidade deixaria marcas. Era uma grande escola, rica de estímu­
los, espelhando a variedade de linhas da cultura italiana da época, a
sua tensão de pesquisa e a vontade de renovação, após o “ afã” e “a
opressão da idade positivista” . Lá lecionavam, além de Bàrtoli e
Cosmo, Luigi Einaudi, Francesco Ruffini, Giovanni Chironi, Vin­
cenzo Manzini, Gioele Solarí, Pietro Toesca, Arturo Farinelli, Gio­
vanni Pacchioni, Rodolfo Renier, Ettore Stampini, Achille Loria,
Annibale Pastore, homens de formação e orientação cultural diver-
94
sas; Loria ainda positivista» Pacchioni sensível às sugestões do na­
cionalismo, Farinelli bastante próximo dos jovens revolucionários,
Ruffini e Einaudi liberais. Com esta variedade de tendências» a
marca que a Universidade podia deixar era menos ideológica que
de método.

Lembro-me de uma sala no andar térreo» à esquerda


de quem entra» onde todos nós sempre nos reyníamos» jo­
vens de diversas faculdades e com vontades diferentes,
unidos pela inquietação comum na busca do nosso cami­
nho - escreve Togliatti. Lá» um grande espírito, Arturo
Farinelli, lia e comentava os clássicos do romantismo ale­
mão... Tentava nos inculcar uma moral nova, cuja lei su­
prema era a sinceridade até as últimas conseqüências com
nós mesmos, a recusa das convenções, a abnegação à cau­
sa a que se consagrou a própria existência.

Um traço do caráter de Gramsci começa a aflorar. Os estudos


universitários provocavam nele um maior interesse pela investiga­
ção, o gosto pela precisão, dando-lhe “o hábito da severa disciplina
filológica” e o “fornecimento de escrúpulos metódicos” aos quais
se referirá em uma carta da prisão. Falará de si mesmo em 1916:

Do seu aprendizado universitário [escreve o autor


destas nota| recorda com mais intensidade dos cursos
nos quais o professor lhe fazia sentir o trabalho de inves­
tigação através dos séculos para levá-lo a aperfeiçoar o
método de pesquisa. Das ciências naturais, por exemplo,
todo o esforço que custou a liberação do espírito dos ho­
mens dos preconceitos e dos apriorismos divinos e filosó­
ficos para chegar à conclusão de que as nascentes de água
originam-se da precipitação e não do mar. Da filologia,
quando se chegou ao método histórico através das tenta­
tivas e erros do empirismo tradicional e quando, por
exemplo, os critérios e as convicções que guiavam Fran-
cesco De Sanctis ao escrever a sua história da literatura
italiana não eram senão verdades que foram se afirmando
através de trabalhosas experiências e investigações. Esta
era a parte mais vital do estudo, aquele espírito recreativo
95
que nos fazia assimilar os dados enciclopédicos, que nos
fundia em uma chama ardente de nova vida intelectual \
Na época, a Universidade era o centro exclusivo 'dos interesses
do jovem Gramsci. Fora delà, freqüentava apenas os conterrâneos.
Encontravam-se em um restaurante onde, conta brincando Piero
Ciuffo \ “garfos e facas, louça e copos eram presos a cadeado à
mesa do taberneiro (evidentemente não segurado contra os furtos),
e até mesmo os clientes eram presos às pernas da mesa com uma pe­
quena corrente, por precaução” . Gramsci tinha poucos amigos no
ambiente estudantil: Cesare Berger, seu companheiro no concurso
da Fundação Albertina, e dois outros colegas de faculdade, Camillo
Berra e Angelo Tasca, filho de um operário socialista. Um ano mais
jovem que Gramsci, Tasca era o único já engajado politicamente.
Em maio de 1909, com 17 anos e ainda estudante de liceu, Tas­
ca havia fundado em Turim, junto com Giuseppe Romita e Gino
Castagno, o primeiro Faseio, que participava da Federação Juvenil
Socialista de Roma. “Quase todos os domingos”, escreverá,
“partíamos em um grupo de ciclistas vermelhos e fazíamos prega­
ções políticas a camponeses, quase sempre recalcitrantes”. Estavam
ainda impregnados de positivismo: “No tríplice tributo pago a Dar­
win, Spencer e Marx, este último não recebia tanto o nosso crédi­
to”. Mas, aos poucos, vinham se afastando do positivismo domi­
nante na seção socialista turinesa. Desconfiavam da eloqüência, rei­
vindicavam a prioridade "da cultura sobre o sentimento. Em se­
tembro de 1912, em um congresso nacional de jovens socialistas,
um napolitano estudante de engei\haria, Amedeo Bordiga, os cha­
mará de “culturistas”. O Faseio turinês era, na prática, um ponto
de aglutinação de acerbos “românticos revolucionários”, leitores
férvidos de La Voce de Prezzolini, jovens que em grande parte se
distinguiam dos socialistas da velha geração. “Éramos quase to­
dos... hostis ao anticlericalismo de tipo podrecchiano, ao qual se re­
duzia, muito freqüentemente, o socialismo, sobretudo local, e os
nossos grupos conseguiram fazer votar, em um congresso nacional,
uma ordem do dia, aceita por grande maioria, que aconselhava o
boicote do Asino." Em um primeiro momento, Gramsci manteve
contatos com Tasca, sempre fora do ambiente do Faseio juvenil.

1 Avanlil de Turim, 29 de novembro de 1916.


‘ Trata-se de Cip, o caricaturista de L Ordine Nuovo, que era sardo também.
96
Com Togliatti, que cursava a faculdade de Direito e não tinha
então nenhum interesse pela política desenvolvida do modo como
Tasca fazia, bs laços foram estreitados no início da primavera da­
quele primeiro ano de universidade, depois de um seminário do cur­
so de direito romano do professor Giovanni Pacchioni, o qual, con­
forme narração de Marcella e Murizio Ferrara, “substituía as suas
aulas por um debate entre os alunos, aos quais havia proposto te­
mas de pesquisa. Toglíatti escolheu o tema da maior ou menor au­
tenticidade da lei romana das 12 Tábuas e defendeu a tese da auten­
ticidade, criticando os argumentos de Pais, e Lambert. Foi a sua
primeira intervenção, documentada e polêmica, em público, e
Gramsci, que o estava escutando, com ele estabeleceu conhecimen­
to e retomou a discussão. “Foi o início” , recordará Togliatti, “ de
um debate que devíamos retomar tantas vezes com Gramsci, de ou­
tras formas, com outra experiência e em outras circunstâncias,
sobre o tema eterno da história dos homens, matriz de tudo o que
os homens sabem e podem vir a saber” . Eram os dias em que a Itá­
lia do Cinqüentenário, com as regiões meridionais repletas de anal­
fabetismo, tuberculose, corrupção, abuso de poder, mortos de fo­
me, via-se às voltas com a conquista da Líbia para parecer maior.
Vidas humanas e riquezas iam acabar inutilmente no deserto. E que
suficientemente sensato para não cair em delírios à la Corradini ou
à la D’Annunzio nos seus piores momentos, identificava o prestígio
nacional com um número menor de desempregados, mais escolas,
em resumo, à civilização interna ainda a realizar-se na Itália antes
que se pretendesse exportá-la para a África, era escarnecido. Uma
afirmação desse teor, legitimada pelo conhecimento dos inúmeros
problemas existentes nas áreas camponesas, passava por ser um dis­
curso derrotista, revelador da mentalidade que os colonialistas cha­
mavam, depreciativamente, de “pé de casa”. Foi nesse clima que os
dois jovens universitários começaram a se encontrar. “Devo dizer” ,
testemunha Togliatti, “que o seu estado de ânimo era então, nos
primeiros anos da sua juventude, não só ferozmente sardo mas tam­
bém sardista. Sentia profundamente o ressentimento comum a to­
dos os sardos contra os males feitos à ilha; isto, para ele transfor­
mava-se em ressentimento pára com os continentais e para com o
Continente” .
O jovem Gramsci exprimia-se através de uma metáfora.
Vocês devem imaginar a Sardenha - dizia ele - como
um campo fértil e farto, cuja fertilidade é alimentada por
97
um curso cTágua subterrâneo que se origina de um monte
distante. Repentinamente, vocês vêem a fertilidade do
campo desaparecer. Lá, onde havia fertilidade, há somen­
te capim queimado pelo sol. Vocês procuram a causa des­
se infortúnio, mas não vão encontrá-la jamais se não saí­
rem dos limites do seu pequeno terreno, se não estende­
rem a investigação até o monte de onde vem a água, se
não conseguirem entender que longe, a muitos quilôme­
tros, um malvado ou um egoísta, interrompeu o curso d’á-
gua que alimentava a fertilidade do campo.

Quem interrompeu o curso d’água? Quem, desse modo, conde­


nou a Sardenha ao atraso e à pobreza? Para entender a profundida­
de desta imagem, é conveniente a releitura do apelo enviado em
1925 pela Krestintern (a Internacional camponesa) aos sardistas
reunidos em congresso em Macomèr. O redator foi Ruggero Grie-
co, mas o inspirador foi Gramsci. Nele se afirma:

A Sardenha... é uma das regiões relativamente mais


rica da Itália... possui minas de ferro, de chumbo ar-
gentífero, de cobre, de antimônio, de pedra litográfica; o
seu patrimônio mineiro é um dos mais ricos e variados
dá Itália. Cerca de 1/4 do patrimônio pastoril italiano
pertence à Sardenha. A indústria pesqueira sarda poderia
promover o bem-estar da população, assim como as in­
dústrias do açúcar e das salinas... A população sarda, por
conseguinte, tem na sua terra as bases econômicas para
um certo desenvolvimento.

O quadro não deixa de conter alguns exageros. Reflete as con­


vicções do jovem Gramsci, que, impressionado com o espetáculo de
miséria das populações camponesas e das camadas médias da sua
ilha, perguntava-se, naturalmente: quem interrompeu o curso? No
primeiro período turinês, o estudante sardo dava a resposta amadu­
recida na ilha. “ Ele pensava então”, escreve Togliatti, “que a Sar­
denha devia redimir-se através de uma luta contra o Continente e
contra os continentais pela sua própria liberdade, pelo próprio
bem-estar, pelo próprio progresso”. Mas com essas tendências irre-
dentistas cruzavam-se, claramente, tendências socialistas bem mar­
cadas desde então. É ainda Togliatti quem recorda: “Antonio
Gramsci chegou da Sardenha já socialista. Talvez fosse mais por
98
instinto de rebelião do sardo e pelo humanitarismo do jovem inte­
lectual de pro.víncia, do que pela posse de um sistema completo de
pensamento” . Certo é que o socialismo do jovem estudante coinci­
dia muito pouco com o socialismo em voga naquele tempo, ideolo­
gicamente dominado pela filosofia do positivismo.
É do conhecimento de todos - escreverá - qual foi a
ideologia difundida de forma capilar por propagandistas
da burguesia entre as massas do Norte: - O Mezzogiorno*
é a bala de chumbo que impede um progresso mais rápido
do desenvolvimento civil da Itália; os do Sul, são seres
biologicamente inferiores, semibárbaros ou bárbaros
completos, por destino natural. Se o Mezzogiorno é atra­
sado, a culpa não é do sistema capitalista ou de qualquer
outra causa histórica, mas da natureza que fez dos meri­
dionais sujeitos preguiçosos, incapazes, criminosos, bár­
baros, amenizando esta sorte madrasta com a explosão
puramente individual de grandes gênios, que são como
palmeiras solitárias em um árido e estéril deserto. O Par­
tido Socialista foi, em grande parte, o veículo 'dessa ideo­
logia burguesa no seio do proletariado nortista.

E a in d a:

O homem do povo da Alta Itália pensava que, se o


Mezzogiorno não progredia, mesmo depois de ter sido li­
berado dos grilhões que o regime burbônico opunha ao
desenvolvimento moderno, isto significava que as causas
da miséria não eram externas, que não deviam ser procu­
radas nas condições económico-políticas objetivas, mas
internas, inatas à população meridional...na incapacidade
orgânica dos homens, na sua barbárie, na sua inferiorida­
de biológica. Estas opiniões já difusas foram consolida­
das e até mesrpo teorizadas por sociólogos do positivismo
(Niceforo, Sergi, Ferri, Orano, etc.), assumindo a força
de verdade científica.

* N. do T.: Mezzogiorno é um termo genérico que corresponde à parte meridional


da Itália e à parte insular (Sicília e Sardenha). Significa, em oposição ao Norte de­
senvolvido e industrializado, a parte subdesenvolvida e agrícola do país.
99
Alguns anos antes, fora publicado um livro de Alfredo Nicefo-
ro, com prefácio de Enrico Ferri, onde a medida dos crânios de um
certo número de pastores da Barbagia,, na Sardenha, possibilitou a
identificação, entre Orgosolo, Orune e Bitti, de uma “zona delin­
quente”, povoada por homens que, através do leite materno, ha­
viam sugado o bacilo da criminalidade.
Teses deçse tipo, desenvolvidas também por escritores socialis­
tas, feriam o patriotismo regionalista do jovem estudante sardo.
“ Posso afirmar isso com toda a certeza porque foi este o tema das
nossas primeiras conversas no velho pórtico da Universidade de
Turim, aonde chegamos provenientes, todos os dois, de liceus da
Sardenha” , escreverá Togliatti, “Gramsci rejeitava com desdém as
‘explicações’ que circulavam nas obras dos sociólogos de pouco va­
lor” , levados a identificar as causas da miséria e do atraso de uma
região italiana com as “características particulares do seu povo” .
Talvez tenha sido por isso que Gramsci, na sua primeira fase de es­
tudos em Turim, não se tenha ambientado nos círculos do socialis­
mo turinês, na época preponderantemente corporativo e “localis-
ta” .
No entanto, alguma coisa no seu comportamento fez com que
Angelo Tasca tivesse a esperança de tê-lo ao seu lado em breve,
como revela o seguinte episódio: no final do primeiro ano universi­
tário, Tasca presenteou Gramsci com uma edição francesa de Guer­
ra e Paz, com esta dedicatória: “Ao companheiro de estudos - hoje;
ao meu companheiro de batalha - espero - amanhã” . A dedicatória
é de 1! de maio de 1912.
Gramsci estudava para os primeiros exames. Estava esgotado.
A 14 de março escrevera para a família: “Não posso escrever mais
porque há dois dias que venho me sentindo mal, não tenho vontade
de fazer nada, e não consigo pensar em coisa alguma. Não vejo a
hora de ir para aí, para descansar um pouco e ver se me passa esta
maldita dor de cabeça que me atormenta dia e noite e não me deixa
nem estudar nem dormir, de modo que não posso de maneira ne­
nhuma dizer que levo uma vida alegre” \ Tinha a intenção de pres­
tar dois exames. Escreveu: “A ó de julho farei o meu segundo exa­
me e no dia 15 partirei para a minha adorada praia sarda” . No en­
tanto, não se sentiu em condições de prestar nenhum exame e vol­
tou para Ghilarza, adiando-os todos para o período de outono.

’ A carta é inédita.
100
Estava sem um tostão. Pensou em ganhar algum dinheiro com
•aulas particulares. O ghilarzês Peppino M a m e l i recorda:
Eu não havia passado nos exames de latim e grego,
dos quais dependia para obter o meu diploma ginasial, e
já que Nino havia voltado à nossa aldeia para passar as
férias, resolvi ter aulas particulares com ele. Nino tinha
uma c o m u n i c a b i l i d a d e extraordinária. Sempre em diale­
to, fazia as perguntas e depois comentava as minhas res­
postas. Este seu modo fácil de ensinar grego e latim me
colocava completamente à vontade. Depois, tivemos de
interromper. Ele tinha necessidade de restabelecer-se e,
durante algum tempo, foi tomar banho de mar em Bosa
Marina.

Nos primeiros dias do outono de 1912, Gramsci estava de vol­


ta a Turim. Mudou de casa, indo morar no centro, no número 33 da
rua San Massimo, pensionista de um “ desenhista de bordados” ,
Cario Gribodo, como informa a seguinte carta: “ Fugi - fugi mesmo
- da casa onde morava antes porque a vida tinha se tornado insu­
portável para mim e, sem me dar conta, fui parar em uma casa onde
não estou melhor e de onde sairia com muito gosto se encontrasse
um outro lugar seguro. Mas para estar mais ou menos bem, seria
preciso gastar muito dinheiro e isso é impossível” A rua San
Massimo desemboca na rua Po, e na sua continuação, 100 metros
depois da rua Po, ergue-se a Mole A n t o n e l l i a n a . No número 14 des­
ta mesma rua, e m u m mezanino, morava Angelo Tasca.
No dia 4 de novembro de 1912, Nino prestou exame de geogra­
fia, obtendo média trinta; a 12, exame de gramática grega e latina, e
a nota foi vinte e sete\ e ainda a 12, o exame de glotologia. B à r t o l i
lhe deu trinta com louvor.
M esmo depois de feito o exame, Antonio continuou a colabo­
rar com o professor de linguística. Duas semanas depois, escrevia a
Teresina para que ela se informasse “se existe em logudorese a pala­
vra pamentile e se da significa pavimento. Se existe a frase: Omine de
pore, e se ela quer dizer: homem de autoridade. Se existe a palavra su
pirone, que seria uma parte da balança, e se existe, que parte é es­
sa... Se em c a m p i d a n e s e se usa a palavra piscadrici para pescadora,

i» A carta é inédita.
101
ou se é o nome de algum pássaro marinho” , etc. E meses depois, em
março de 1913, ainda perguntava a Teresina “se existe em logudo-
rese a palavra pus com o significado de após, “depois” , mas não
“ pust” ou “pustis”, simplesmente pus ... Também se existe puschena
e qual é o significado de portigale (com pórtico?), poiu e p o i o l u Nes­
sa época, Nino parecia destinado a se tornar um bonTglotólogo.
“ Um dos maiores remorsos intelectuais da minha vida” , escreverá,
“foi a imensa dor que causei ao meu bom professor Bàrtoli da Uni­
versidade de Turim, que estava convencido ser eu o arcanjo destina­
do a abater os neogramáticos”.

102
10 .

Março de 1913. Antonio Gramsci, 22 anos, frequentava os cur­


sos do segundo ano de Letras. Já haviam começado a pesar sobre a
vida do país as conseqüências das expedições a Líbia, que eram sen­
tidas, mais uma vez, pelas classes humildes. O mal-estar difundia-se
rapidamente entre aqueles chamados a pagar o preço mais alto de
uma guerra por eles não desejada. A 19 de março, em Turim, 6.500
operários automobilísticos desertaram das fábricas. Os patrões
ameaçaram despedir aqueles que até o dia 25 não se apresentassem
ao trabalho, mas a frente da greve não sofreu rachaduras. Ao invés
de atravessarem os portões da Fiat, da Spa, da Lancia, os operários
se reuniam agora, todas as manhãs, do outro lado do Pó, no parque
Michelotti. Lá estava Bruno Buozzi, lá estavam os líderes sindicais;
trocavam-se notícias, decidia-se, dia a dia, o que deveria ser feito,
efetuava-se, na prática, a consulta permanente entre as bases e os
dirigentes. “Nos primeiros dias”, recorda Gino Castagno, “uma
mesa emprestada por uma taverna próxima foi a tribuna dos orado­
res. Depois, alguns companheiros mais habilidosos agruparam al­
gumas mesas e construíram um pequeno palco estável atrás de um
grupo de grandes plátanos que serviam de bastidores” . Passou
abril, passou maio. Os industriais resistiam, a frente operária não
cedia e as grandes concentrações no parque Michelotti já eram um
103
dado habitual, digamos saliente, da vida da cidade. Gramsci tam­
bém foi atingido por esse clima.

Em determinadas horas da manhã - relembra To-


gliatti - quando abandonávamos a sala e, do pátio, saía­
mos nos pórticos que iam dar no Po, encontrávamos
grandes levas de homens diferentes de nós que tomavam
aquele caminho. Toda uma multidão se dirigia para o rio
e para os parques às suas margens... E lá íamos nós tam­
bém, acompanhando aqueles homens; ouvíamos os seus
discursos; falávamos com eles e nos interessávamos por
suas lutas. À primeira vista, pareciam diferentes de nós
estudantes; parecia uma outra humanidade. Mas não era
uma outra humanidade.
A greve chegou ao fim no dia 23 de junho, depois de 96 dias de
luta. Gramsci ainda era estranho, naquele tempo, à organização so­
cialista, mas não indiferente ao que acontecia.
Continuou a manter uma vida à parte. As más condições de
saúde o atormentavam. De pouco lhe valera o repouso durante o
verão em Ghilarza e depois em Bosa Marina. O frio, a desnutrição,
o fato de não poder afastar-se dos estudos devido ao risco de perder
a bolsa do Colégio Albêrtino, tudo isso acarretava um estado físico
que alcançara, naquele momento, a precariedade extrema. E a soli­
dão contribuía para agravar ainda mais esse mal-estar. Diferente de
todos pela constituição física e com poucas ligações, seja no am­
biente universitário seja fora dele, o jovem sardo, de temperamento
fechado e não propenso a fazer amizade com facilidade, dava-se
apenas com dois colegas. Era amigo também de Matteo Bartpli, seu
professor de glotologia, e juntos passavam muito tempo sob os pór­
ticos do Corso Vinzaglio, onde ficava a casa do docente, a conver­
sar principalmente sobre lingüística. Não freqüentava teatros, nem
era visto nos cafés. As duas coisas apenas ele nunca renunciou: os
cigarros e os livros. Como em Santulussurgiu, durante o ginásio,
vendia uma parte dos seus alimentos para comprar livros, agora,
administrador pouco atento das 70 liras mensais da bolsa, era capaz
de ficar sem dinheiro em troca dos livros que o atraíam. Certa vez,
comprou em Turim, quando cursava o segundo ano universitário,
um estoque de livros sobre a Sardenha da biblioteca de um marquês
de Boyl, cujos herdeiros queriam se desfazer dos livros de temática
sarda. O estoque compreendia - e sabemos através de uma carta do
104
próprio Nino - a Voyage en Sardaigne, de Alberto Lamarmora, a
História de Sardenha e a História Moderna da Sardenha do Ano de
1773 a 1799, de Giuseppe Mannu e “ um grande volume (muito
grande, com pelo menos dez quilos) acompanhado de todos os ma­
pas de Arbórea” . Absorvido por estas e outras leituras, preferia
passar as horas livres nas salas da universidade, mesmo de uma ou­
tra faculdade. Escreve Togliatti: “ Encontrava-o por toda a parte,
pode-se dizer, onde houvesse um professor que o iluminasse sobre
uma série de problemas essenciais, de Einaudi a Chironi ou Ruffini.
Lembro-me que no curso, hoje célebre, no qual Francesco Ruffini
elaborou a nova concepção das relações entre Estado e Igreja... An­
tónio Gramsci estava presente, muito atento, na sala de aula” .
O cansaço físico e nervoso não era suficiente para apagar a sua
curiosidade intelectual. Mas era deprimido, um pouco afastado da
vida. Nem mesmo respondia às cartas dos seus familiares. A 6 de
maio de 1913, a mãe lhe escreveu: “Caríssimo, esta é a quarta vez
que lhe mando cartas e cartões postais e me entristece muito ficar
tanto tempo sem notícias suas. Não sei o que pensar, talvez esteja
doente... Se não responder imediatamente a esta carta, serei obriga­
da a recorrer ao Colégio. Aguardo resposta ansiosamente” . Em ju­
lho, Gramsci pediu à secretaria da Fundação Albertina que as suas
péssimas condições de saúde fosSem levadas em consideração, e
sem prestar exame retornou a Ghilarza.
Era tempo de eleições, o primeiro verão com o sufrágio am­
pliado. Na Sardenha, a polêmica livre-cambista chegava agora ao
auge, alimentada que fora pelas campanhas desenvolvidas contra o
protecionismo pela La Voce, de Prezzolini, pela Unità de Salvemi-
ni e pela Riforma Sociale. Quem a transportava para o terreno da
ação direta era uni jovem intelectual de Nuoro, diplomado em Pisa,
no ano anterior, com uma tese sobre a Teoria marxista da concen­
tração capitalista, Attilio Deffenu. Por sua iniciativa, constituiu-se
na ilha um Grupo de ação e propaganda antiprotecionista e foi
publicado um documento do Grupo, escrito por Deffenu e por um
outro jovem publicista, Nicolo Fancello, nas páginas de alguns jor­
na^ sardos nos primeiros dias de agosto, e no número 35 da Voce,
no dia 28 de agosto de 1913. Ao pé da página, podiam ser lidas as
assinaturas, além das dos redatores, de Gino Corradetti, secretário
do Sindicato dos Ferroviários e da Câmara do Trabalho de Caglia-
ri: do professor M assim o Stara, secretário da Câmara do Trabalho
de Sassari (que foi professor de Antonio Gramsci durante algumas
semanas em Santulussurgiu); do professor Giovanni Sanna, que
105
juntamente com Gramsci será o autor das teses sobre a Questão
Agrária no 2° Congresso do Partido Comunista da Itália em março
de 1922, em Roma; de Francesco Dore, futuro deputado popular; e
de dois jovens advogados de orientação republicana, Pietro Masti-
no, de Nuoro, e Michele Saba, de Sassari. No documento, renova­
va-se o protesto contra o regime protecionista, ao qual Deffenu e
seus amigos atribuíam “o estancamento do desenvolvimento, a mi­
séria crescente e a falta de emprego para as massas trabalhadoras, a
alta do preço dos alimentos, o despovoamento dos campos, a emi­
gração” . “ Para favorecer indústrias que a experiência demonstrou
não necessitarem de proteção e nem serem absolutamente incapazes
de viver e desenvolver-se sem ela”, prosseguia o manifesto, “conde­
nou-se a economia meridional a debilitar-se miseravelmente”, em
especial a sarda, prejudicada em primeiro lugar “pelas altas taxas
que encarecem artificialmente o custo dos manufaturados, das má­
quinas e dos instrumentos de produção” e depois “obstaculizada na
exportação e no comércio dos seus melhores produtos, gado, vinho,
azeite, frutas, queijo” que continuaram sem mercados no exterior,
já que “o protecionismo italiano determina a represália dos outros
países (basta recordar o fechamento do mercado francês ao flores­
cente comércio de gado e dos produtos agrícolas sardos)”. Enfim, o
documento solicitava a adesão moral ou também financeira dos
sardos progressistas a todas as iniciativas do Grupo. Gramsci escre­
veu de Ghilarza a Voce. O seu apoio às teses desenvolvidas pelo
Grupo de propaganda antiprotecionista foi registrado no número
41, de 9 de outubro de 1913. Era a primeira vez que o jovem estu­
dante sardo aderia, com um compromisso público, a uma luta polí­
tica.
Enquanto isso, a batalha eleitoral crescia. A 26 de outubro, se
votaria para mandar 12 deputados ao Parlamento, e a grande novi­
dade era a admissão dos analfabetos nas urnas. Por isso, o número
dos eleitores subiu de 42 mil para 178 mil; um incremento de 136
mil eleitores do qual podia depender pouco menos de um terremo­
to. "Era difusa a convicção mística”, escreverá Gramsci, “de que
tudo mudaria após a votação,.uma verdadeira palingênese social,
pelo menos na Sardenha”. Na realidade, qual era a situação?
Entre o final de 1911 e o início de 1913, as organizações socia­
listas haviam dado um passo para trás ao invés de avançar. Falta­
vam recursos e quadros. Alguns dirigentes de notável capacidade,
comoGiuseppe Cavallera,tinham ido embora, assaltados pelo desâ­
nimo. Também nos centros maiores, Cagliari por exemplo, a seção
106
socialista e a Câmara do Trabalho haviam fechado as portas '. Em
tal vazio de iniciativas, sem nada organizado a não ser nas vésperas
das eleições e portanto por muito tempo sem núcleos politicamente
treinados que servissem de centros de irradiação das novas idéias
entre as massas analfabetas, o trabalho dos poucos voluntários que
se lançaram à última hora a refazer, no mínimo, a organização ago­
ra que as eleições se aproximavam era uma tarefa complicada.
“Noventa por cento dos trabalhadores continuam sem entender
uma vírgula do novo discurso” , admitia amargamente II Risveglio
deWisola, “semanário proletário” . Mas a culpa dessa situação era
dos trabalhadores? Ou se devia atribuí-la em uma boa parte tam­
bém ao despreparo dos novos dirigentes, não conhecedores da psi­
cologia das massas e prisioneiros de poucas e débeis fórmulas?
Pode-se dizer que o socialismo sardo daquela época era tributário
menos de Marx do que do A sino podrecchiano. Um tosco anticleri-
calismo de taverna era a sua característica mais saliente. No núme­
ro de 6 de julho de 1913, referindo-se a um bandido do Sarrabus, II
Risveglio deWisola escrevia: “Mesmo se Tramatzu fosse mais de-
linqüente do que aquilo que é, de uma ferocidade que atingisse o ca­
nibalismo, brutal ao excesso, ainda assim nós o preferiríamos aos
padres”. Dois socialistas da seção de Domusndvas, Francesco Saba
e Giuseppe Onnis, foram expulsos do partido “o primeiro por ter
ajudado a celebração de uma missa, e o segundo por ter tocado os
sinos na igreja por ocasião das festas de San Giovanni” (esta era a
motivação oficial). Os dirigentes aguerridos eram uma minoria. No
outono de 1913, apresentaram-se como candidatos três socialistas:
Giuseppe Cavallera (chamado propositalmente de Gênova, onde
residia) no colégio eleitoral de Iglesias, Gino Corradetti em Cagliari
e Massimo Stara em Sassari. Além deles, pela primeira vez entra­
vam na competição dois outros homens novos: o reformista Felice
Porcella, em Oristano, e o católico Francesco Dore, em Nuoro. Em
que medida a ampliação do sufrágio incomodava os velhos repre­
sentantes giolittianos?
Entre os conservadores, o medo era grande. Até ali, como es­
creverá Gramsci, “as eleições se baseavam em questões muito gené­
ricas porque os deputados representavam posições pessoais ou lo-

1 Tanto a seção socialista quanto a Câmara do Trabalho foram reconstituídas em


Cagliari, em vista das novas eleições, por um ferroviário siciliano recentemente
transferido para a Sardenha, Gino Corradetti.
107
cais, e nâo posições de partidos nacionais. Toda eleição parecia re­
ferir-se a uma constituinte, e ao mesmo tempo parecia destinar-se à
escolha dos membros de um club de caçadores” . Nenhuma polêmi­
ca sobre idéias. O voto era comprado, era extorquido com a intimi­
dação ou com a intriga das repartições públicas; chegava até mes­
mo a corresponder a um rito votivo por uma graça recebida. E as
facções rurais se debatiam deixando de lado a orientação dos candi­
datos, que aliás era volúvel, e substituindo o debate ideológico pela
acusação difamatória, pela insinuação, pelo escárnio. 2Ora, com o
sufrágio quase universal, uma mudança (ao menos parcial) de mé­
todo se impunha. Corromper todos os eleitores, cujo número au­
mentou quatro vezes, tornava-se muito caro. E depois, os socialis­
tas, bem ou mal, faziam um discurso político, e portanto os conser­
vadores se viram obrigados a opor-lhes um outro. Mas qual? Foi
escolhido o discurso do medo. Medo insinuado nas cúrias, no pe­
queno comércio, nos proprietários de um pedaço mínimo de terra
(mas proprietários segundo um esquema enraizado). O medo do
salto no escuro.
E advém o esclarecimento. Durante muitos anos, parlamenta­
res conservadores excluídos de um ministério, jornais que apoia­
vam aqueles deputados e jornais de tendência popular, prefeitos
gregários do feudatário político irritado com Sonnino ou com Luz-
zatti e administradores municipais em dificuldades devido ao des­
leixo dos governantes, proprietários fundiários exasperados com a
cobiça do fisco e operários e camponeses já no limite da resistência
por causa dos salários de fome e do custo de vida em contínuo au­
mento encontraram-se, lado a lado, em uma mesma trincheira, a
trincheira da reivindicação sardista. Que as razões do protesto fos­
sem diversas e até mesmo contraditórias, nada havendo de comum
entre desespero do camponês faminto e a mágoa do parlamentar
conservador excluído do Ministério Sonnino ou do Ministério Luz-
zatti, poucos porém se apercebiam disso e, em todo caso, ninguém
se preocupava com as consequências. Disparava-se a esmo sobre os
governos e, neste clima de jacobinismo sardista, o ressentimento oca­
sional dos reacionários e o ímpeto de rebelião dos oprimidos acaba­
vam por confundir-se; uma coisa era o justo descontentamento das

2 “Se depois descobre-se qüe um político é traído pela mulher tudo se torna cla­
ro”, comentará ainda Gramsci.
108
massas maltrapilhas, outra o simples interesse em instrumentalizar
esse descontentamento para derrubar um governo, não por sua in­
competência, mas por ser formado sem a participação do feudatá-
rio político sardo. A ameaça representada pelo ingresso no cenário
eleitoral das classes subalternas serviu para assinalar uma linha de-
mafcatória entre os interesses que antes pareciam coincidir sob a fa­
chada de um sardismo ambíguo. Exatamente aí residia a clarifica­
ção provocada pelas eleições de 1913: de um lado estavam os gru­
pos conservadores, do outro, os trabalhadores. Fora do velho equí­
voco da batalha comum sardista, delineavam-se dois alinhamentos
de classe bem definidos. Não se podia mais fazer confusão entre as
forças.
O alvo da classe proprietária havia mudado. Não era mais o
governo, com o qual agora estava em harmonia, mas as organiza­
ções socialistas. Antes, tratara de se aproveitar da impaciência po­
pular para abater os governos não condescendentes e só devido a
essa finalidade chegou a apoiar algumas iniciativas das Câmaras do
Trabalho. Agora, subitamente desfeito o sistema de alianças, ser­
via-se do governo, dos seus funcionários periféricos e da capacidade
de corrupção dos seus balanços para combater as vanguardas orga­
nizadas das classes desfavorecidas. O álibi do sardismo, primeira­
mente útil dentro de uma tática determinada, podia enfim ser acan­
tonado. Novos temas circulavam nos jornais da classe dominante: o
martirológio dos-jovens que a própria classe política dirigente havia
mandado parà morrer na Líbia, o íncondicionado apoio aos au­
mentos das despesas militares, o aplauso aos massacradores de ope­
rários em greve, as reivindicações salariais apresentadàs como ten­
tativas de perturbação da “paz entre capital e trabalho” , e os rios,
os grandes-rios, as inundações de dinheiro que o governo amigo
destinava a obras públicas na amiga Sardenha.
Em torno dos candidatos ministeriais forma-se o coágulo de
todas as forças anti-socialistas. Em íglesias, onde a afirmação de
Giuseppe Cavallera delineava-se provável, o candidato das compa­
nhias de mineração, Erminio Ferraris, retirou a sua candidatura de
modo que os votos de direita fluíssem todos para o nome de Giu­
seppe Sanna Randacci, a favor de quem, apesar do anticlericalismo
tantas vezes manifesto por éle, a Igreja retirou o non expedit. Para
os mineiros, durante a campanha eleitoral, exprimir uma idéia hete­
rodoxa com respeito à do patrão comportava o risco da perda do
emprego. Organizar-se era um delito. Em Monteponi, 19 em 24 car­
roceiros pediram a redução da jornada de trabalho, que era de 16
109
horas diárias, e um aumento do salário, que era de 2,60 por dia.
Não pertenciam a nenhuma organização. Mas o fato de 19 terem
assinado a reivindicação bastou para que a direção definisse a ini­
ciativa como um “complô”, e como punição o líder do complô,
considerado aquele que primeiro assinara a lista, seria despedido.
Por toda a parte, a luta desembocava nesta intransigência patronal.
E os candidatos governativos eram abertamente apoiados por jor­
nais e por órgãos estatais. A administração comunal de Serraman-
na, só porque era dirigida pelo socialista Curreli, perdeu a sua auto­
ridade. “Os processos contra o nosso Corradetti”, observa o sema­
nário socialista, “não se contam mais... Instigação ao ódio entre as
classes, à guerra civil, vilipêndio às instituições, lesa-majestade...
Não há um número do Risveglio que não seja incriminado” . Junto
com os detentores do poder econômico, as procuradorias do reino,
as delegacias de polícia, os organismos de repressão, todos os ou­
tros setores do aparato estatal que influíam sobre a vida do cidadão
estavam mobilizados em apoio aos candidatos giolittianos. Porém,
algo de novo acontece. Em Iglesiàs, vence o socialista Cavallera, em
Oristano o reformista Porcella, e em Nuoro, Dore. Esta seria uma
experiência decisiva para o “processo vital” de Antonio Gramsci.
De Ghilarza, ele escreveu uma longa carta ao amigo e colega
de faculdade Angelo Tasca.
Fiquei muito impressionado - testemunha Tasca -
com a transformação produzida naquele ambiente pela
participação das massas camponesas nas eleições, embora
não soubessem e não pudessem ainda se servir por conta
própria da nova arma. Foi este espetáculo e a meditação
sobre ele que fez definitivamente de Gramsci um socialis­
ta.
Quando ele voltou a Turim, no início do novo ano
escolar, tive a confirmação do valor decisivo que esta ex­
periência teve sobre ele.

As eleições haviam revelado a Gramsci a ambigüidade do anti­


go protesto sardista, ao qual, anos antes, se associara, a ponto de
acreditar na necessidade de “lutar pela independência nacional da
região” . Agora para ele era plenamente claro o nonsense do seu ve­
lho grito. “Ao mar os continentais!”. Sim, “a muitos quilômetros
de distância um malvado ou um egoísta havia interrompido o curso
d’água que antes alimentava a fertilidade da Sardenha”. Mas

110
quem? Quem interrompeu o curso? Quem condenou a Sardenha ao
atraso e à pobreza? Todo o continente?
Começou a se tornar clara no estudante sardo a idéia de que os
verdadeiros opressores dos camponeses e dos pequenos proprietá­
rios e da camada média de empregados da ilha e de todas as classes
pobres do Mezzogiorno eram não os operários da indústria junta­
mente com as classes proprietárias do Norte, como por muito tem­
po acreditara, mas as classes proprietárias do Norte junto aos gru­
pos reacionários de todo o Sul. Isso mesmo: quem interrompia o
curso driigua que antes alimentava a Sardenha devia ser procurado
ali. Estavam ali, a igual distância do proletariado industrial que
descera às ruas em Turim por 96 dias entre março e junho.
Recordará Tasca: “As relações de Gramsci com o movimento
socialista a partir dessa época foram, sobretudo, relações com os jo ­
vens do Faseio ‘Centro’.”

111
Ao retornar a Turim, no início de novembro de 1913 para. ini­
ciar o terceiro ano de universidade, Antonio Gramsci devia ainda
submeter-se a todos os exames do segundo. Mudou novamente de
casa, transferindo-se do número 33 para o número 14 da mesma rua
- San Massimo - no mesmo edifício onde morava Angelo Tasca. A
mãe do amigo e colega da universidade, Camillo Berra, viúva, deci­
dira alugar um quarto. O edifício tem um grande pátio interno com
pórticos nos quatro lados. Há duas entradas: uma pela rua San
Massimo e outra pelo número 8 da praça Carlina. Gramsci foi mo­
rar no último andar. Permanecerá nesta casa, como único pensio­
nista da viúva Berra, por quase nove anos, até a viagem à Rússia,
em maio de 1922.
Estudava até se cansar. Durante as férias em Ghilarza, não se
restabelecera do esgotamento nervoso, o que teria lhe ajudado ago­
ra a mudar completamente de vida, adotar um novo tipo de alimen­
tação, cuidados e repouso absoluto. Só que uma vida diferente seria
impraticável se não dispusesse de dinheiro. Além do mais, ficar re­
pousando e adiar a realização das provas até que recuperasse a saú­
de significava pender a bolsa da Fundação Albertina, luxo ao qual
Gramsci não podia permitir-se. Já à custa de humilhações e de re­
núncias de sua parte e da parte dos outros membros da família, seu
pai conseguia, com dificuldade, enviar-lhe pequenas quantias para
completar as 70 liras mensais fornecidas pelo Colégio. Seria im­
possível prosseguir os estudos dependendo unicamente do pai. Ern
Ghilarza, em família, os rendimentos continuavam modestos, com
a única variante de uma boca a menos. Em dezembro de 1911, mal
completara 18 anos, Mario alistou-se como voluntário na especiali­
dade dos ciclistas. Quanto aos demais, Cario estava com 16 anos,
ainda jovem para aspirar a um emprego estável; o único emprega­
do, Gennaro, que continuava trabalhando em Cagliari na fábrica de
gelo dos Marzullo, podia dar apenas um pequeno auxílio aos seus.
O senhor Ciccillo era portanto obrigado a fazer frente às exigências
dos quatro filhos em casa e de Antonio em Turim com o modesto
salário de escrevente no cadastro. Por esse motivo Antonio se afli­
gia com a idéia de vir a perder, não prestando os exames regular­
mente, a bolsa do Colégio.
Foi obstinado, mas a vontade não bastava. Escreveu ao pai:

Escrevo-lhe com raiva e desespero no coração; hoje


foi um dia do qual me recordarei durante muito tempo e
que, infelizmente ainda não acabou. É inútil, venho ten­
tando suportar há um mês, mas agora, depois de uma cri­
se dilacerante, me decidi: não quero agravar ainda mais
as minhas condições, e não quero perder de todo, aquilo
que ainda posso conservar. Não presto exame porque es­
tou meio louco, meio estúpido, ou totalmente estúpido,
não sei bem ainda. Não presto exame para não perder o
Colégio, para não perder tudo de uma vez... Caro papai,
há um mês que venho estudando obstinadamente e tudo
que consegui foram vertigens, a volta de uma dor de cabe­
ça que me dilacera, e uma forma de anemia cerebral que
acaba com a minha memória, que me devasta o cérebro,
que me faz enloquecer hora após hora, sem que eu consi­
ga achar descanso nem passeando nem me estendendo
numa cama, nem no chão, rolando... Ontem a dona da
casa mandou vir um médico, que me aplicou uma injeção
de calmante. Agora estou tomando ópio mas, além do
tremor que ainda continua, há a idéia torturante da ruína
que vejo diante de mim sem salvação. Um companheiro
me convenceu - e vou ver se consigo alguma coisa - a
apresentar um certificado médico. Pode ser que com isso
114
a comissão dos professores decida manter a bolsa e me
permita fazer os exames em m arço1. -

Foi o que aconteceu. O Conselho diretor do Colégio das


Províncias ocupou-se do seu caso na reunião .de 19 de fevereiro de
1914. “Gramsci Antonio” , consta na ata publicada pela primeira
vez por Domenico Zucaro, “ não pode prestar nenhum exame por
motivo de doença grave, comprovada por certificado médico do
Pr. Allasia, do qual resulta que o senhor Gramsci está afetado por
grave neurose... O jovem declarou à Secretaria que deseja adiar os
exames para o prolongamento 4a sessão outonal que terá lugar em
março” . Havia, portanto, uma “grave neurose” ; a doença justifica­
va amplamente a ausência nos exames. No entanto, o certificado do
Dr. Allasia não valeu a Gramsci a total clemência do Colégio. Foi
aplicada a ele “ a pena da perda temporária da pensão, salvo se ne­
cessário concedê-la por inteiro” , detalhava o Conselho diretor,
“quando no prolongamento da sessão outonal não forem supera­
dos os exames atrasados de grego, história moderna (bienal) e de
uma outra matéria de livre escolha” . Como se vê, logo no momento
em que o repouso devia ser o primeiro cuidado para a cura da neu­
rose, o jovem foi obrigado a jogar-se de cabeça nos livros, em con­
dições materiais agravadas pela perda temporária do subsídio men­
sal. O pai lhe escreveu a 26 de novembro: “Peço-lhe calorosamente
que não continue tão ocupado porque esta é a principal razão da
sua doença, e pense que você se encontra muito longe e nenhum de
nós pode ir lhe fazer companhia” . Com muita força de vontade,
Antonio conseguiu superar a crise. No dia 28 de março de 1914,
prestou exame de filosofia moral, obtendo vinte e cinco; depois, a 2
de abril, fez a bienal de história moderna (média vinte e sete). Falta­
va-lhe ainda um exame quando, a 4 de abril, a direção do Colégio
das Províncias voltou a se reunir. Gramsci havia solicitado ao Con­
selho o pagamento mensal logo após o terceiro exame, sem que fos­
se necessário uma nova deliberação. A instância foi aceita. A 18 de
abril pôde regularizar tudo, sendo aprovado no exame bienal de li­
teratura grega com média vinte e quatro. Desde então, portanto,
voltava a receber as 70 liras mensais. Mas o cansaço daqueles meses
deixou-lhe uma marca bem dolorosa. “Durante pelo menos três

1 A carta é inédita.

115
anos”, escreverá à irmã Grazietta no final de 1915, “não passei u -
dia sem ter dor de cabeça, sem ter uma vertigem ou uma tontura'
A aplicação aos estudos para submeter-se aos exames em atra­
so foi também causa, se não de desligamento completo, pelo menos
de uma menor assiduidade junto aos poucos amigos turineses. Foi
depois da realização dos exames que Antonio voltou á vê-los mais
frequentemente, sobretudo Angelo Tasca e Palmíro Togiiatti. A
eles juntou-se um estudante recém-inscrito em direito, Umberto
Terracini, o mais jovem do grupo (Gramsci 23 anos, Tasca 22, Xo-
gliatti 21, Terracini 19). Dos quatro - que cinco anos mais tarde,
acabada a guerra, estarão novamente juntos na redação de L ‘Ordi-
ne Nuovo - só Tasca e Terracini desenvolviam então uma atividade
política regular, ambos no Faseio juvenil socialista. Gramsci, se
bem que menos comprometido (da mesma forma que Togiiatti,
que, como anotará Tasca, “dedicava-se bem mais aos estudos uni­
versitários” ), sentia-se bem próximo a estes quase coetâneos. Eles
tinham em comum a atenção vivamente voltada para Croce, anti-
positivista e antimetafísico, a Salvemini, que continuava a sua bata­
lha contra as degenerações corporativas do socialismo, e ao jovem
chefe revolucionário, diretor do Avantil, Benito Mussolini2.
É difícil dizer, na falta de pontos de referência precisos, se na­
quele tempo, antes de 1914, Gramsci já fosse inscrito no Partido So­
cialista Italiano (PS1). Testemunha Togiiatti, em uma carta a Al-
fonso Leonetti de 1? de abril de 1964:

Como você sabe, conheci Antonio no outono de


1911, na universidade. Por muitos meses não fizemos ou­
tra coisa senão encontrarmo-nos e conversarmos, como
era o costume de Gramsci, que você bem se lembra. Ora,
de todas aquelas conversas me parece claro, sem temor de
equívocos, que ele já era firmemente voltado para o so-

21 Assim Croce definia Mussolini: "... um homem de puro temperamento revolu­


cionário, como não eram os socialistas italianos, e de perspicácia a altura destes, que
retomou a intransigência do rígido marxismo, mas não se lançou à vã tarefa de tra­
zer o socialismo à sua forma primitiva, e sim, aberto como jovem que era às cor­
rentes contemporâneas, procurou infundir-lhe uma alma nova, adotando a teoria da
violência de Sorel, o íntuicipnismo de Bergson, o pragmatismo, o misticismo da
ação, todo o voluntarismo que há anos encontrava-se no ambiente intelectual e que a
muitos parecia idealismo, pelo que também ele foi chamado e se considerou, de bom
grado, “idealista".
116
De resto, este caminho remontava ao período
c ia lism o .
de Cagliari, quando Gramsci esteve em contato com a
Câmara do Trabalho da cidade. O que eu não sei precisar
é o ano em que ele recebeu a carteira do PSI... Eu recebi a
minha em 1914, mas Gramsci já a possuía nessa época.
Em todo caso, não parece errado dizer que o ' “ n o v o ” Gramsci,
o Gramsci “nacional” , nascia naquela época.
Faltaria ainda documentar as fases desta transformação inte­
lectual, os momentos da sua formação filosófica e marxista.
Tanto para Gramsci quanto para Togiiatti - escre­
vem Marcella e Maurizio Ferrara - abandonar o positi­
vismo foi desde cedo algo definitivo... O único ponto de
referência seguro continuava sendo Antonio Labriola. E
os seus t e x t o s d e explicação e aprofundamento do marxis­
mo, o artigo Em memória do manifesto dos comunistas, os
Ensaios sobre a concepção materialista da história e Dis­
correndo sobre socialismo e filosofia eram lidos, relidos,
estudados, comentados.

Provavelmente não naquele período, antes da guerra. É inevi­


tável perguntar-se se não atribuídas aos dois jovens estudantes lei­
turas de um tempo posterior; a dúvida deriva de uma constatação
objetiva: em todos os escritos juvenis, Gramsci cita Labriola uma só
vez ( em 1918!). Eis outro testemunho, do professor Annibale P a s -
tore, docente de filosofia teorética. Conta-se que Gramsci lhe foi
apresentado pelo professor B a r t o l i com estas palavras: “ Encha-o de
filosofia, se ele o merecer. Verá que se tornará alguém. Quer se
aprofundar na doutrina de M a r x ” . Naquele ano (para Gramsci, o
quarto de Letras: 1914-15), o professor Pastore desenvolvia um cur­
so sobre a interpretação crítica do marxismo. Superava a concep­
ção da dialética hegeliana “ fixa ao esquema t r i c o t ô m i c o : Tese,
Antítese, Síntese” com um “ achado original” : “a incubação das
condições materiais no seio da sociedade, sendo esse período intro­
duzido entre a Tese e a Antítese” .
Gramsci logo compreendeu a novidade e viu assim
aberta uma nova viâ crítica, de crise e de revolução. Dei-
lhe aulas particulares. A sua orientação era originalmente
crociana, mas já se mostrava impaciente e não sabia a i n ­
117
da como e por que afastar-se dela... Queria entender o
processo formativo da cultura com o fim da revolução: a
praticidade decisiva da teorética. Queria saber como se
faz o pensamento agir (técnica da propaganda espiritual),
o que faz o pensamento mover as mãos, e como se pode. e
por que se pode agir com as idéias. Foram estas minhas
primeiras investidas que o impressionaram... Outro pon­
to importante que o aproximou de mim foi o meu interes­
se pela lógica experimental, com a invenção das técnicas,
isto é, com a passagem do homo sapiens ao homo faber, do
lógico ao engenheiro, ao técnico, ao mecânico, ao operá­
rio que dirige as máquinas; do trabalho mental ao traba­
lho manual. Em suma, como excepcional pragmatista,
Gramsci preocupava-se então, sobretudo, em entender
bem como as idéias tornavam-se forças práticas.

Será que, posteriormente, Gramsci esqueceu este professor que


chegara mesmo a lhe dar aulas particulares? Frequentemente
Gramsci cita afetuosamente, em artigos ou em notas, ou ainda em
cartas da prisão, outros professores com os quais conviveu nos anos
da universidade, como Bartoli ou Cosmo, mas não Annibale Pasto-
re, cujas aulas sobre marxismo talvez não tenham exercido influên­
cia tão relevante quanto o atesta o testemunho citado acima. Ainda
em 1917, La Città Futura será um jornal que vai revelar o compro­
metimento de Gramsci com o idealismo historicista de Croce. Daí
nasce a impressão de que houve uma aceleração, segundo alguns
testemunhos, da formação marxista de Gramsci, de uma antecipa­
ção de experiências culturais que são seguramente do Gramsci ma­
duro, ou menos jovem.
Pode ser que, durante os anos da universidade, o desenvolvi­
mento das convicções de Gramsci (O Gramsci “ nacional” , poste­
rior ao Gramsci “sardo” ) tenha ocorrido sem hiatos. Gobetti se re­
ferirá a ele como alguém “vindo do campo para esquecer as suas
tradições, para substituir a herança doente do anacronismo sardo
por um esforço determinado e inexorável no sentido da modernida­
de do cidadão” ; e na pessoa física do jovem insular verá “ o sinal
desta renúncia à vida dos campos, e a superposição quase violenta
de um programa construído e reavivado pela força do desespero, da
necessidade espiritual de quem rechaçou e renegou a inocência nati­
va” . Nada disso. Ao contrário de tantos outros intelectuais do seu
tempo, Gramsci seria o único a fugir da alternativa habitual que era
118
ou permanecer fechado para sempre em experiências por certo vi­
tais, como são aquelas do homem atento à realidade da sua região,
jnas incompletas quando não confrontadas com outras experiências
(Deledda, Satta), ou evadir-se delas, assimilando o modo de vida.e
a forma de pensar do novo ambiente de trabalho, quase que rene­
gando as experiências nativas (Salvajore Farina). Gramsci não se
encerrou no sardismo da juventude 3, nem se limitou a absorver
passivamente a tendência política e a ideologia do proletariado se­
tentrional, desviado naquela época por concepções corporativas
não menos discutíveis do que as dominantes no círculo fechado de
uma ilha. Ele sentia a necessidade, escreverá, de “superar um modo
de viver e de pensar atrasado, como o que era próprio de um sardo
do princípio do século, para .apropriar-se de um modo de viver e de
pensar não mais regional e de aldeia, mas nacional”; ao mesmo
tempo, porém, advertia que “ uma das necessidades mais fortes da
cultura italiana era a de desprovincializar-se também nos centros
urbanos mais avançados e modernos” . Em outras palavras, mesmo
depois de ter se tornado socialista, Gramsci não sepultava o seu
passado. E se, da ótica socialista, podia ver a ambigüidade e, além
da ambigüidade, os limites e o irrealismo: de um certo modo de
apresentar o protesto sardista, da perspectiva do sardo, lhe era na­
tural descobrir a insuficiência ideológica de um corporativismo
operário inclinado a considerar o Mezzogiorno como “bala de
chumbo” que obstaculiza o desenvolvimento civil do país. Encon­
trava, portanto, como socialista, respostas novas às demandas que
a experiência sarda lhe sugeria; mas, como sardo, tendia também a
considerar o discurso sobre o campo não separável do discurso
sobre a revolução socialista. “Tratava-se” , escreverá, “de provocar
na classe operária a superação daquele provincianismo às avessas
da “bala de chumbo” que tinha profundas, raízes na tradição refor­
mista e corporativa do movimento socialista” . Tasca e os outros jo ­
vens do Faseio, férvidos leitores, eles também, de La Voce, e de
L ' Unità de Salvemini, entendiam perfeitamente esse tipo de discur­
so. “Compartilhávamos com Gramsci,” escreverá Tasca, “do con­
ceito do qual ele era um firme defensor, da importância do proble-

1 “O instinto da rebelião alastrou-se para todos os ricos que oprimiam os campo­


neses da Sardenha, e eu então pensava que era preciso lutar pela independência na­
cional da região: ‘Ao mar os continentais’! Quantas vezes repeti estas palavras.”
119
ma.meridional na política socialista, e fazíamos dele, como Grams-
ci, um dos eixos da sua renovação” .

É chegada a hora de experimentar a permeabilidade da seção


socialista a estas novas colocações. Com a morte de Pilade Gay, fi­
cou vaga a representação no Parlamento do colégio eleitoral de Tu­
rim de Borgo San Paolo. Colocava-se então o problema de encon­
trar um novo candidato socialista. Os jovens tiveram a idéia de ofe­
recer a candidatura a Gaetano Salvemini, que em outubro de 1913,
candidato no Colégio Molfetta-Bitonto, fora derrotado devido à
violência dos partidários giolittianos. Âfirma-se-ia desse modo a
solidariedade dos operários de Turim para com os camponeses da
Puglia, privados do seu representante na Câmara devido aos abusos
do governo. Angelo Tasca manteve uma conversa sobre o assunto
no café-cervejaria da Casa do Povo de corso Siccardi, com Ottavio
Pastore, então secretário da seção socialista de Turim. A proposta,
aprovada pela executiva da seção (composta de grande maioria de
esquerda), foi comunicada a Salvemini, que no entanto recusou a
oferta. Naquele tempo, declara .Ottavio Pastòre, “Gramsci não co­
meçara ainda a desenvolver nenhuma atividade especial no parti­
do”. Contudo, o projeto de candidatura de Salvemini, recordará
Gramsci, ventilado “por um grupo da seção socialista da qual fa­
ziam parte os futuros redatores do Ordine Nuovo” , deve ser conside­
rado a primeira iniciativa política dó estudante sardo em Turim.
Ela foi amadurecida em encontros privados, muito mais do que no
debate público na seção. Isto porém, não altera a substância do
dado novo que começava a se delinear no socialismo turinês com a
participação de um jovem de.23 anos que acabara de se inscrever no
partido e ainda obscuro militante e todavia, já preparado para vi­
ver, com originalidade, junto a outros jovens, a experiência política.
O seu círculo de amizades se alargou. “Acontecia muitas ve­
zes”, conta Angelo Tasca, “de discutirmos com os amigos estudan­
tes entre as colunatas da universidade, mas o nosso mundo, aquele
no qual Gramsci entrou, era formado bem mais por jovens empre­
gados e operários, com os quais, saindo à noite da Casa do Povo de
corso Siccardi, conversávamos por horas, trocando idéias, esperan­
ças, raivas”. É o tempo dos primeiros entusiasmos. Recordando o
fervor juvenil daqueles dias, escreverá Gramsci:

Freqüentemente saíamos em grupo das reuniões do


partido, circundando aquele que era o nosso leader, atra­

120
vés das ruas da cidade silenciosas àquelas horas, enquan­
to os últimos notívagos paravam para nos olhar de sos­
laio porque, esquecidos de nós mesmos, com os ânimos
ainda cheios de paixão, continuávamos as nossas discus­
sões, entremeando-as impropérios, risadas sonoras, in­
cursões no reino do impossível e do sonho.

A Europa caminhava para a catástrofe. Quatro dias antes que


a “inútil carnificina" começasse, a 28 de julho de 1914, a direção e o
grupo parlamentar socialista exigiram a “ neutralidade absoluta” da
Itália, que foi declarada oficialmente a 4 de agosto. Mas o debate
sobre a extensão e os desdobramentos da neutralidade logo se tor­
nou polêmico também entre os socialistas. Havia grande incerteza,
e hoje seria complicado estabelecer se quem a difundiu foi o Avanti!
de Benito Mussolini ou se a orientação vacilante do Avantil derivou
de ânimos já indecisos. O fato é que um número razoável de socia­
listas, embora aceitando a interpretação do conflito como um con­
fronto entre grupos imperialistas, inclinava-se a fazer uma distinção
nítida entre os impérios centrais absolutistas e a França republica­
na, e por isso inclinava-se a apoiar os países agredidos, a França e a
Bélgica. A 18 de outubro de 1914 saiu na terceira página do Avanti]
um longo artigo de Mussolini intitulado Da neutralidade absoluta à
neutralidade ativa e operante. As reações foram díspares. Angelo
Tasca escreveu para o semanário da seção socialista de Turim II
Grido dei Popolo (número de 24 de outubro) um artigo polemizando
com Mussolini, onde confirmava a exigência de neutralidade “ab­
soluta" da Itália. Mas já há alguns anos, o diretor ào Avantil conta­
va com um séquito não desprezível. “ Nós jovens” , escreverá Mario
Montagnana, “éramos entusiastas de Mussolini; um pouco porque
eie também era relativamente jovem; um pouco porque havia des­
baratado os reformistas e, finalmente, porque os seus artigos no
Avantil nos pareciam fortes e revolucionários". Gramsci intervêm
no debate sobre a neutralidade (foi o seu primeiro escrito político)
com um artigo publicado pelo li Grido dei Popolo de 31 de outubro
de 1914. Gramsci o havia “mostrado antes7da publicação a Togliat-
tí, que o aprovou”, comentam Marcella e Maurizio Ferrara. O títu­
lo, Neutralidade ativa e operante, repetia a definição mussoliniana.
E r a m porém claramente diversas as intenções, como o demonstram
os fins opostos das duas posições frente à guerra. A polêmica do jo­
vem estudante tinha como alvo os reformistas. Estes, escrevia, “di­
121
zem não querer jogar terni secchi * (mas deixam que os outros jo­
guem e ganhem) e gostariam que o proletariado assistisse como es­
pectador imparcial aos acontecimentos, permitindo que estes criem
para ele a sua hora propícia, ao passo que os adversários criam a
sua hora por conta própria e preparam, eles mesmos, a plataforma
para a luta de classe” . Como impedi-lo? A tarefa dos revolucioná­
rios deveria ser, para Gramsci, a preparação das condições mais fa­
voráveis à ruptura definitiva (a revolução) através de uma série de
rupturas operadas sobre as outras forças ativas e passivas da socie­
dade. E se a burguesia italiana era chamada pelo seu destino à guer­
ra, eis, justamente, o perfilar-se de outra série de rupturas que pre­
paravam aquele final.

Portanto, Mussolini não quer um abraço geral, não


quer uma fusão de todos os partidos em uma unanimida­
de nacional, porque assim a sua posição seria anti-
socialista... Mas a posição mussoliniana não exclui que o
proletariado possa, depois de um fracasso ou de uma de­
monstração de impotência por parte da classe dirigente,
desembaraçar-se desta e apoderar-se das coisas públicas.

A esta interpretação da posição de Mussolini, Gramsci pru­


dentemente acrescentava: “...se é que eu interpretei bem as suas de­
clarações um pouco desconexas, e as desenvolvi segundo a mesma
linha por ele traçada”. Depois, será difícil para Gramsci apagar a
fama de intervencionista a ele atribuida devido a uma interpretação
sectária deste artigo.
Tornou a afastar-se. Também era natural que, no seu estado
físico, a intensa atividade fosse acompanhada pelo agravamento
das condições gerais. Afinal, à atividade política e ao estudo, so­
mou-se a necessidade de trabalhar para viver. Dava aulas particula­
res 4 Na sessão de outono do terceiro ano universitário, pôde pres-

* N. do T.: No jogo do loto, temi secchi é a jogada de três números juntos, com a
exclusão do ambo (série de dois números).
4 Seis anos depois, polemizando com o seu professor de literatura italiana, Um-
berto Cosmo, que havia descrito os antigos alunos como “estudantes alegres,”
Gramsci escreverá: “Ele sabe, ele que ajudou alguns de nós em momentos de dificul­
dade financeira, ele sabe que os seus alunos socialistas viviam com 70 liras mensais
do Colégio, sabe que os seus alunos socialistas, se desejassem comprar livros, deviam
caminhar de uma extremidade à outra da cidade dando aulas particulares, que o pró-
122
lar um só exame: o bienal de literatura neolatina, a 1! de novembro
de 1914 (vinte e sete de média). Para manter-se segundo a lei e con­
servar o direito a receber a bolsa de estudo, deveria prestar também
os exames de literatura italiana e latina trienais, e de sânscrito. Não
se apresentou. E na reunião de 19 de dezembro, o Conselho diretor
do Colégio das Províncias, embora levando em conta, o sabemos
através da ata, “a declaração feita pelo professor Bartoli à presidên­
cia, isto é, que o jovem é sujeito, periodicamente, a crises nervosas,
que lhe impedem de dedicar-se com a devida vivacidade aos estuv
dos” , decidiu privá-lo da pensão por quatro meses.
Abria-se um período difícil. G ramsei deixou de freqüentar a
Casa do Povo e de escrever para II Grido. Isolou-se dos amigos.
Continuava a dar aulas particulares e este compromisso de traba­
lho, quando menos o cérebro suportava encargos, contribuía para
agravar o seu estado de saúde. “Acho que trabalhei demais, mais
do que as minhas forças me permitiam” , escreverá a irmã Graziet-
ía. “Trabalhei para viver, mas ao mesmo tempo, para viver eu teria
de repousar, teria de me divertir. Talvez faça dois anos que não rio,
assim como não choro. Procurei superar a debilidade física traba­
lhando e acabei me enfraquecendo mais ainda” .
Desligara-se também da família. “Fiquei uns anos sem escrever
para minha mãe, pelo menos dois anos seguidos, e vi como é dolo­
roso não receber cartas.” Pouco a pouco, a Sardenha, os locais da
primeira juventude, os familiares eib .Ghilarza, tudo tornava-se
para o jovem em crise um cenário longínquo, velhíssimo. Apagava-se
da memória as afetuosas discussões còm a mãe, quando ela queria
convencê-lo que um pouco de cevada no café refresca, e ele protes­
tava: “ Mas eu não quero me refjescar, quero beber café!”; os dias
passados a espionar os ouriços no vale do Tirso, a criar falcões, co­
tovias, tartarugas, a construir veleiros com Luciano, o filho do far­
macêutico. Agora a cabeça estava “sempre cheia de dor”.
E, no entanto, não se deteve, continuou a estudar para a escola
e para si mesmo. A 13 de abril de 1915 realizou mais um exame, o
trienal de literatura italiana (este foi o último: o seu “aprendizado”
universitário interrompe-se aqui).
Antonio encontrava-se em Turim quando, na segunda-feira, 17
de maio, uma semana antes de a Itália entrar na guerra, os bairros

prio Cosmo se preocupava em procurar, porque então o ‘mestre’ tinha muito afeto
pelos seus alunos” .
123
operários insurgiram-se para protestar contra a participação do
país no conflito. Na cidade paralisada pela greve, os manifestantes
enfrentaram na rua Cernaia, e depois em toda a área, os batalhões
de cavalaria. O jovem carpinteiro Cario Dezzani foi morto a tiros de
pistola. O exército irrompeu na Casa do Povo e ocupou-a. Gramsci
acompanhava os acontecimentos sem, contudo, participar deles.
Depois, aos poucos, ele começou a sair da crise. A 13 de no­
vembro de 1915, um ano após a sua primeira intervenção no debate
sobre a neutralidade, II Grido dei Popolo publicou um outro artigo
de sua autoria. Havia ainda no ar o eco do encontro realizado a 15
de setembro, em uma cidadezinha suíça, Zjmmerwald, entre os re­
presentantes dos partidos socialistas europeus, ainda colocando-se
em oposição à guerra (o Avaníil havia publicado o documento con­
clusivo do encontro no número de 14 de outubro de 1915; pela pri­
meira vez, milhares de militantes socialistas italianos viam estampa­
do o nome de Lênin, um dos signatários do manifesto). O artigo de
Gramsci, porém, refería-se não ao convênio de Zimmerwald, mas
ao X Congresso Nacional do Partido Socialista Espanhol, significa­
tivo, aos olhos do jovem escritor, como prova “ de uma sobrevivên­
cia de atividade puramente socialista na Europa” :
Também a nós os pequenos movimentos parecem
grandes porque os relacionamos com outros que só nós
sentimos porque os vivemos... Sentimo-nos como molé­
culas de um mundo em gestação, sentimos esta maré que
sobe lenta mas inexoravelmente, e como a infinidade de
gotas que a formam são firmemente aderentes; sentimos
que na nossa consciência vive verdadeiramente a Interna­
cional.

No final de 1915, refazendo o contato com a família depois de


longo silêncio, o jovem já podia olhar as atribuições dos últimos
tempos como a um acontecimento em vias de superação:
Não deveria ter me destacado, assim como fiz, da vi­
da. Vivi por dois anos fora do mundo, um pouco no so­
nho. Deixei que se interrompessem um a um todos os elos
que me uniam ao mundo e aos homens. Vivi totalmente
para o cérebro e nada para o coração... E não só no que
se refere a vocês... Foi como se para mim os outros ho­
mens não existissem, e eu fosse um lobo no seu covil.
124
Sofrimentos passados, de uma ou outra forma. Agora o jovem,
completados os 25 anos, lentamente retomava o gosto pela vida,
pelo debate político, peia atividade de jornalista. Seus artigos come­
çavam a sair na página da edição turinesa do Avantil e a colabora­
ção com // Grido tornou-se assídua. Entre outras notas, vejamos
urna recordação comovida sobre Ricardo Serra, poucos meses de­
pois da sua morte no Podgora, onde Gramsci afirmava uma ligação
entre o jovem crítico desaparecido e Francesco De Sanctis, “ o
maior crítico que a Europa jamais conheceu” . Com esta retomada
do trabalho político, a transformação na vida de Gramsci se acen­
tuava. Não havia ainda tomado a decisão de abandonar definitiva­
mente os estudos universitários '. Todavia, outros interesses já pre­
valeciam sobre a escola. O socialismo era a resposta a todos os
problemas, inclusive os pessoais, que o angustiavam; era a solução
da crise. De fato nascia nesse período, entre o final de 1915 e o iní­
cio de 1916, o “ revolucionário profissional” .

A minha vida - lemos em uma carta sua à família -


só é miserável naquilo que se relaciona ao sentimento que
experimento ao não conseguir vencer a minha fraque/a e
por não conseguir produzir tanto quanto é necessário
para viver e para poder ser livre para trabalhar para mim
e para o meu futuro, e não só para viver dia após dia.
Afirmei antes que se me sentisse sempre bem teria a possi­
bilidade de ganhar até 500 liras por mês. Aquilo que mais
me faz mal é estar só, ter de confiar sempre nos outros, ter
de viver no restaurante, gastando muito para estar mal.
Antonio poderia ter chamado alguém de Ghilarza para ficar
com ele, mas para isso era necessário ter boa saúde e rendimentos
garantidos. “ Posso assumir a responsabilidade de eventualmente
fazer outras pessoas sofrerem? Esse pensamento sempre me impe­
diu de falar sobre a possibilidade da vinda de um de vocês a Turim.

3 Em uma carta de 29 de janeiro de 1918 ao diretor do Avantil, Serrati, que, talvez


ironicamente, o havia definido no número de 26 de janeiro como “emérito estudioso
de glotologia”, falará de si mesmo: “Como estudante - não estudioso e muito menos
emérito, ironia e modéstia à parte - preparo a minha tese de final de curso sobre a
história da linguagem, procurando aplicar também a estas pesquisas os métodos
críticos do materialismo histórico” .
125
Mas sinto que talvez tenha chegado a hora de me decidir; não posso
continuar mais tempo assim, suspenso numa corda. Vou escrever a
Mario para saber o que ele pretende fazer.”
Mario estava na guerra. E também Gennaro e Cario deveriam
seguir para a linha de frente. Em Ghilarza, o senhor Ciccillo e a se­
nhora Peppina ficaram com as filhas. Tia Peppina sempre repetia:
“ Vão acabar com os meus filhos” , frase que em sardo é muito ex­
pressiva.

126
12 .

S u r g ia um n o v o e s c r ito r , t o t a lm e n t e d iv e r s o d a q u e le s c o m o s
q u a is o s le it o r e s d o s j o r n a i s s o c i a li s t a s e s t a v a m até e n t ã o fa m ilia r i­
z a d o s . A p a r tir d o in í c io d e 1 9 1 6 , a v id a d e A n t o n i o G r a m s c i s e d e ­
s e n r o la r a n o e d i f í c i o , h o je d e m o l id o , d a A lia n ç a C o o p e r a t iv a d e
T u r im , a C a s a d o P o v o , n o n ú m e r o 12 d e c o r s o S ic c a r d i, ( h o j e e s t e
tr e c h o c o r r e s p o n d e a o c o r s o G a l il e o F e r r a r is ). L á s e e n c o n t r a v a m
o s 'e s c r it ó r io s d a A G O ( A s s o c i a ç ã o G e r a l O p e r á r ia ) e d a C o o p e r a t i­
v a d o s fe r r o v iá r io s , in t e g r a n t e d a A lia n ç a C o o p e r a t iv a , a C â m a r a
d o T r a b a lh o e o s s i n d ic a t o s d e c a t e g o r ia ( c o m o a F I O M ) e , n o a n ­
d a r té r r e o , u m g r a n d e c a f é - c e r v e ja r ia c a d a v e z a m is f r e q ü e n t a d o
(em m a i o d e 1 9 1 5 , a p o líc ia h a v ia d e v a s t a d o o T e a t r o d o P o v o , e s t e
ta m b é m n o a n d a r té r r e o ). N o ú lt im o a n d a r , e m tr ê s p e q u e n o s c ô ­
m o d o s , e s t a v a m a a d m in is t r a ç ã o e a r e d a ç ã o d o II Grido dei Popolo
(d ir e to r G i u s e p p e B ia n c h i e d e p o is d a s u a p a r tid a p a r a a g u e r r a , n o
d e c o r r e r d e 1 9 1 6 , u m a p r o f e s s o r a p r im á r ia lo m b a r d a , M a r ia G iu d i-
c e , m ã e d e o i t o f i lh o s ) , o Avanti! p ie m o n t ê s , im p r e s s o e m M il ã o
( r e s p o n s á v e l, d e p o is d a p a r tid a d e B ia n c h i, O t t a v io P a s t o r e ) e a s e ­
ç ã o s o c i a li s t a ( n a s a la a o la d o e s t a v a o Faseio “ C e n t r o ” , a lm a d o
m o v i m e n t o j u v e n i l s o c i a li s t a d e T u r im ) . P a s t o r e , e n t ã o e m p r e g a d o
n a s f e r r o v ia s , G r a m s c i e u m a s in g u la r fig u r a d e j o r n a l is t a , o e x -
c a m a r e ir o L e o G a l e t t o , p it o r e s c o t a m b é m n o tr a ja r -s e , c h a p é u d e

127
abas largas e a gravata à la Lavallière, eram os únicos redatores <
A vanti!
A assinatura de Gramsci quase nunca aparecia sob os peque­
nos ensaios, as crônicas culturais, os artigos de costume que comen­
tavam um crime, uma conferência ou um espetáculo, artigos que 11
Grido e a página turinesa do A vanti] vinham publicando com uma
assiduidade cada v e z jn a io r . “A timidez fazia com que Gramsci vi-
vesse impessoalmente” , observa Pier Paolo Pasolini. Se Pasolini, re­
fere-se ao hábito de Gramsci não assinar as matérias, isto não se de­
via à timidez; significava desinteresse científico, repugnância pelas
formas exteriores, amor pelas idéias em si, aversão a qualquer for­
ma de idolatria, a começar pelo culto dos nomes. Ademais, sob os
seus artigos, podia-se ler a abreviatura “ A . G . ” ou “Alfa G a m m a ” ,
e das simples iniciais só um reduzido círculo de leitores podia che­
gar a o n o m e d o j o r n a l is t a in ic ia n t e ; d o is a n o s e m e io a p ó s a e s ­
tr é ia , em j u l h o d e 1 9 1 8 , n a c e le b r a ç ã o d o p r o c e s s o p e lo s le v a n t e s d o
v e r ã o a n te r io r , La Stampa o c h a m a r á d e G r a n is c h i A n t o n i o e a
Gazzetta delt Popolo d e A n t o n i o G r a n e i. M a s p o r m a is o b s c u r o que
f o s s e o n o m e d e s te jovem d e 25 a n o s , se m n e n h u m a r e le v â n c ia na
s e ç ã o s o c ia lis t a e q u e p e r m a n e c e r a à margem d a v id a p o lí t i c a a tiv a
n o p r im e ir o a n o d a g u e r r a , m u i t o s j á começavam a o b s e r v a r a e x ­
c e n t r ic id a d e d e s t e s a r t ig o s e m r e la ç ã o a o t r a d ic io n a l e s t ilo d e e s ­
q u e r d a . N a p á g in a p ie m o n t e s a d o A vanti! e r a p u b lic a d a u m a s e ç ã o
c o le t iv a d a c r ô n ic a tu r in e s a , Sotto la Mole, c r ia d a ta lv e z p o r G iu -
s e p p e B ia n c h i. A s n o t í c ia s e r a m r e u n id a s p e lo p r ó p r io B ia n c h i, P a s-
to r e e o u t r o s . Com G r a m s c i, a c r ô n ic a l o g o s u b iu d e to m ; e r a m tre­
chos s a t ír ic o s , p e q u e n a s j ó i a s q u e fa z ia m d o j o v e m e s c r ito r s a r d o
u m pamphlétaire e x e m p la r , ú n ic o e m u m p a ís o n d e o pamphlet era
u m g ê n e r o q u a s e d e s c o n h e c i d o . E a lé m d is s o , e r a e v id e n t e e m t o d o s
os e s c r it o s d e G r a m s c i, d e b r e v e s e n s a i o s t e ó r i c o s à s c r ô n ic a s te a ­
tr a is , um e s t ilo n o v o , a p a s s a g e m d a ê n f a s e d is c u r s iv a d o s R a b e z z a -
n a e d o s B a r b e r is a o g o s t o p e la r a z ã o ; a lín g u a v e la d a , à s v e z e s d e
p u r e z a c lá s s ic a , t ã o d is ta n te d a q u e la e m m a n g a s d e camisa dos “ v e ­
l h o s ” ; a c o e r ê n c ia , o f i o q u e u n ia t b d o s o s e s c r it o s , p a r a o s q u a is t e ­
m a s a p a r e n t e m e n t e d is t a n t e s eram n a r e a lid a d e o c a s i õ e s s u c e s s iv a s
p a r a o d e s e n v o l v im e n t o d e u m d is c u r s o n u n c a interrompido, e a
o r ig in a lid a d e e o c o n c r e t o d a s p r o p o s t a s p o lí t i c a s , ilu m in a d a s s e m ­
p re p e la c o n v ic ç ã o d e q u e a te o r ia n ã o t r a d u z ív e l e m f a t o s é a b s tr a ­
ç ã o in ú t il e a s a ç õ e s n ã o sustentadas p e la te o r ia são i m p u ls o s in ­
fr u tífe r o s . T r a n s p a r é c ia c la r a m e n t e e m G r a m s c i d e s d e e n t ã o a ten­
dência a u m m é t o d o , q u e d e p o is se r á c h a m a d o de “ m a i ê u t ic o ” ,
128
“socrático” , de educação das massas, e não de simples excitação
com discursos de tribunos. Gobetti escreverá que “ se se quiser pe­
netrar nas características íntimas de cultura e de psicologia do gru­
po que dirigia o movimento comunista turinês é necessário remon­
tar à história do jornalismo socialista dos anos de guerra” . O jovem
(iramsci foi a revelação desse novo jornalismo socialista e, nos anos
de guerra, foi praticamente o seu protagonista exclusivo.
Angelo Tasca, politicamente o mais ativo dos jovens “ c u ltu r is -
tas” teve de deixar Turim, chamado às armas logo após o início da
guerra. O mesmo aconteceu com Togliatti. Julgado incapaz nos pri­
meiros exames, inscreveu-se como voluntário nas organizações sa-
nitaristas militares (a sua atividade política, por outro lado, fora até
então totalmente marginal; algumas pessoas, como Andréa V ig lo n -
go, chega'a excluir a possibilidade de que antes da guerra ele já fos­
se inscrito no PSI; outros, como Giovanni B o e r o , afirmam que,
como se alistou como voluntário na guerra, teria deixado de perten­
cer à sessão p o c ia lis ta , obtendo a “ r e in s c r iç ã o ” só em 1919). Enfim,
o último do grupo, Umberto Terracini: detido aos 21 anos, em se­
tembro de 1916, por ter distribuído material de propaganda pacifis­
ta em Trino V e r c e lle s e , acabou conseguindo uma pena de somente
um mês e a condicional, mas não pôde evitar a convocação (no final
do curso preparatório recusaram-lhe, por razões políticas, a patente
de oficial, e acabará na frente de luta, em M o n t e b e l lu n a , como sol­
dado raso). Assim, do antigo grupo, G r a m s c i havia ficado sozinho.
Para demonstrar o tipo de tradição jornalista simplória e po-
pularesca com a qual Gramsci devia acertar contas, bastam estas
palavras de Maria Giudice: “// Grido não é ainda suficientemente
simples, suficientemente fácil, suficientemente claro... Nós estamos
habituados a ler menos nos livros da teoria e a ler mais no livro da
vida... Sabemos que a massa sente e age não como pensa e racioci­
na, mas como sente; quando ela sentir s o c i a li s t i c a m e n t e , sem tantas
te o r ia s, a g ir á em sentido s o c i a li s t a ” . E s ta a fir m a ç ã o n ã o é mais d o
que uma forma de repetir o refrão entoado dois anos antes por Bor-
diga, em polêmica com Tasca: “Ninguém se torna socialista através
da instrução, mas sim das necessidades reais da classe à qual perten­
ce” . G velho socialismo turinês, antes que a “ g e r a ç ã o filha de si
mesma” o renovasse, b a s e a v a - s e em colocações desse tipo. Gramsci
não se deixava condicionar nem mesmo trabalhando sob a direção,
por assim dizer, de Maria Giudice; era um franco-atirador, comple­
tamente livre. Já no início de 1916 havia sublinhado e m II Grido a
relação necessária entre atividade cultural e revolução:
129
O homem é acima de tudo espírito, isto é, criação
histórica, e não natureza. Não se podería explicar de ou­
tra forma por que, havendo existido sempre explorados e
exploradores, criadores de riqueza e consumidores e g o ís ­
t a s dela, o socialismo ainda não tenha se realizado. O fato
ê que só de degrau em degrau, de arranco em arranco, a
humanidade adquiriu consciência do seu próprio valor...
E esta consciência se formou não sob o grilhão brutal das
necessidades fisiológicas, mas através da reflexão inteli­
gente, p r im e ir a m e n te d e a lg u n s e d e p o is d e t o d a u m a
c la s s e , s o b r e a s r a z õ e s d e d e t e r m in a d o s f a t o s e s o b r e os
m e i o s m a is a d e q u a d o s p a r a t r a n s f o r m á - lo s d a c o n d iç ã o
d e vassalagem e m e s t a n d a r te d e r e b e liã o e d e r e c o n s t r u ­
ç ã o s o c ia l. I s to significa q u e t o d a r e v o lu ç ã o f o i p r e c e d id a
d e u m in t e n s o tr a b a lh o d e c r ític a , d e p e n e t r a ç ã o c u ltu r a l.

G r a m s c i concluía t o m a n d o o e x e m p l o d a R e v o lu ç ã o F r a n c e s a ,
p r e p a r a d a p e l o I l u m in is m o . O fim a o q u a l o j o v e m r e d a to r de //
Grido e Avanti! se p r o p u n h a a g o r a e r a p r o p a g a r a c u lt u r a s e m a
q u a l o p r o le t a r ia d o n u n c a p o d e r ia t o m a r c o n s c i ê n c ia d a su a fu n ç ã o
h is tó r ic a . F o i t a m b é m e s t a id é ia fix a , e s t a necessidade de r e p e r c o r -
rer c o m fe r v o r m is s i o n á r io a experiência ilu m in ís t ic a (m u d a v a m o s
c o n t e ú d o s p o r q u e o s fin s e r a m o u t r o s ) que fe z d e G r a m s c i, d e s d e o
p r in c íp io , u m c r ia d o r d e c u lt u r a , in d e p e n d e n t e d o te m a d o q u a l se
o cu p asse.
V o lt a n d o à s u a a tiv id a d e d e c r ít ic o te a tr a l (c o m e ç a r a a e s c r e ­
v e r s o b r e te a tr o a o s 25 a n o s ) , A n t o n i o d ir á , a n o s d e p o is , e m u m a
c a r ta a T a tia n a : “ V o c ê s a b e que e u , muito a n te s d e A d r ia n o
T ilg h e r , d e s c o b r i e c o n tr ib u í p a r a p o p u la r iz a r o te a t r o d e P ir a n -
d e llo ? E s c r e v i t a n t o s o b r e P ir a n d e llo ... o s u f ic ie n t e p a r a c o n s t itu ir
u m v o lu m e d e 2 0 0 p á g in a s e, n a é p o c a , a s minhas a f ir m a ç õ e s eram
o r ig in a is e se m precedentes. N a q u e la é p o c a , P ir a n d e llo o u era s u ­
p o r t a d o p o r questão d e a m a b ilid a d e o u abertamente escarnecido’
A t é m e s m o a s e ç ã o Sotto la Mole, que n a s c ia d ia a d ia d e u m p r o ­
t e s t o q u a lq u e r , p a r e c ia a o s le it o r e s m a is a t e n t o s merecer u m liv r o .
É o p r ó p r io G r a m s c i q u e m o te s t e m u n h a .

E m d e z a n o s d e j o r n a l is m o escrevi tantas linhas q u e


p o d e r ia m formas 15 o u 2 0 liv r o s d e 4 0 0 p á g in a s , m a s
como e la s e r a m e s c r ita s d ia r ia m e n te , d e v ia m , p a r a m in
m o r r e r q u a n d o a c a b a s s e o d ia ... O p o r f e s s o r C o s m o qui.-

130
ria, em 1918, que eu lhe permitisse fazer uma seleção de
certos artigos que eu escrevia para um jornal de Turim;
ele os publicaria com um prefácio muito benevolente para
mim, mas preferi não deixar que fizesse isso.
Para desenvolver não só com a palavra escrita a tarefa que ha­
via atribuído a si mesmo, a de promotor de cultura entre os operá­
rios, Gramsci saía cada vez mais dos limites da sala de redação.
C o m p a n h e ir o s d e m ilit â n c ia p o lít ic a 's a lie n ta r ã o p o s t e r io r m e n t e
como dado importante da personalidade de Gramsci esta sua voca­
ção à propaganda das idéias e darão ênfase ao estímulo que dele
p r o v in h a p a r a q u e se estudasse, a p r o f u n d a s s e o s p r o b le m a s c o m
m é to d o . G r a m s c i n ã o tin h a e n c a r g o s d e d ir e ç ã o n a seção s o c ia lis -
tla. De s im p le s m ilit a n t e e jornalista d e p a r tid o , p a s s o u a fa z e r c o n ­
fe r ê n c ia s n a p e r ife r ia d e T u r im . A 2 5 de a g o s t o d e 1 9 1 6 , p r o f e r iu
u m a e m B o r g o S a n P a o lo s o b r e Au dessus de la Melée, a o b r a d e
R o m a in R o lla n d q u e a c a b a r a d e se r p u b lic a d a e m it à lia n o ; e o u t r a s
a 16 e 17 d e o u t u b r o s o b r e a R e v o lu ç ã o Francesa e m Barriera de
Milão e d e B o r g o S a n P a o lo ; e a in d a uma o u tr a , a 17 d e d e z e m b r o
so b r e a C o m u n a de P a r is. U m a p á g in a d e h is t ó r ia , u m liv r o r e c é m -
p u b lic a d o , u m a p e ç a te a t r a l, t u d o lh e fo r n e c ia e le m e n t o s p a r a d i­
fu n d ir id é ia s n o v a s . E m m a r ç o d e 1917 f o i a p r e s e n t a d a a p e ç a Casa
de Boneca, n o C a r ig n a n o , c o m Emma G r a m a tic a . N a fr ia r e a ç ã o d o
p ú b lic o às v ic is s it u d e s d e N o r a H e lm a r , q u e e n g a n a d a p e lo m a r id o
o a b a n d o n a , G r a m s c i e n tr e v iu a r e v o lt a d o m a c h o la t in o c o n t r a u m
c o s tu m e c e r t a m e n t e m a is a v a n ç a d o , “ a tr a v é s d o q u a l a m u lh e r e o
h o m e m não s ã o m a is a p e n a s m ú s c u lo s , n e r v o s e e p id e r m e , m a s e s ­
s e n c ia lm e n t e e s p ír ito ; o n d e a f a m ília n ã o é m a is a p e n a s u m a in s t i­
tu iç ã o e c o n ô m i c a , m a s e s p e c ia lm e n t e u m m u n d o m o r a l, q u e se
c o m p le ta p e la ín t im a f u s ã o de d u a s a lm a s que e n c o n t r a m u m a n a
o u tr a a q u ilo q u e fa lta a c a d a u m a in d iv id u a lm e n te ; o n d e a m u lh e r
n ã o é somente a f ê m e a q u e n u tr e o s r e c é m - n a s c id o s e sente p o r e le s
um a m o r f e it o d e e s p a s m o s d a c a r n e e de s o b r e s s a lt o s d e s a n g u e ,
m a s é t a m b é m u m a c r ia tu r a h u m a n a p o r si, q u e te m c o n s c i ê n c ia d e
si, q u e tem necessidades in t e r io r e s , que te m u m a p e r s o n a lid a d e hu­
mana t o d a s u a . . . ” . F o i s o b r e e s t e te m a q u e , e m m a io d e 1 9 1 7 ,
G r a m s c i p r o fe r e u m a c o n f e r ê n c ia p a r a o g r u p o feminino d e B o r g o
C a m p id o g iio .
Em c o n f r o n t o c o m R a b e z z a n a , B a r b e r is e Giuduçe, G r a m s c i
também in o v a v a n o m o d o de c o lo c a r o p r o b le m a d a s relações c o m
os o u t r o s p a r t id o s . B a ttis ta S a n th ià r e c o r d a u m a v is it a à r e d a ç ã o d e
131
II Grido. Quatro jovens discutiam com G ram sci em tom pacat<
Tratavam-se formalmente por senhor.

No final da longa conversa, percebi com imensa sur­


presa que se tratava de jovens c a tó lic o ^ e que a sua o p o s i­
ç ã o à guerra se diferenciava da nossa porque era exclusi­
vamente pacifista (“Somos contra to t ia s as guerras” , di­
ziam) e se baseava nos ensinamentos evangélicos. Grams­
ci, para provocar-me, propôs que eu ajudasse esses jo­
vens. Não me dei conta imediatamente da provocação e
ingenuamente perguntei se devia unir-me a eles em suas
orações para obter o grande milagre da paz.
seca resposta de Gramsci é narrada da seguinte forma por
Santhià:
A única coisa que ensinam a vocês é um anticleríea-
lismo estúpido, que não educa nem intelectual, nem politi­
camente. Não que eu vá à igreja, porque não sou crente.
Mas devemos nos dar conta do fato de que os que acredi­
tam na religião são a maioria. Se continuarmos a manter
relações só com os ateus seremos sempre uma m in o r ia .
Há burgueses anti-socialistas que são ateus, zombam dos
padres e não vão à igreja, e, ao mesmo tempo, são favorá­
veis à participação da Itália na guerra e nos combatem as­
peramente. Estes jovens, ao-contrário, vão à missa, não
são industriais e pedem apenas para trabalhar conosco no
sentido de fazer cessar a guerra o mais rápido" possível.
Posteriormente tanto a recusa do a n t ic le r ic a iis m o sectário
como a tese das alianças de classe serão centrais no pensamento de
Gramsci.
Empenhado em retirar o discurso político do equívoco no qual
os “velhos” socialistas o haviam afundado, passava os seus dias tra­
balhando na redação e participando dos e n c o n t r o s - d e b a t e s que
também faziam parte do trabalho. Aos compromissos particulares
dedicava pouquíssimo tempo. Era ainda obrigado a dar aulas parti­
culares, pois o salário do Avanti! 50 liras por mês (a colaboração no
// Grido era gratuita), não lhe bastava para viver. Nos raros mo­
mentos em que estava livre, visitava alguns amigos sardos: Carona,
chefe dos conservadorçs de vinhos da Aliança Cooperativa; Mura,
proprietário de um bar na praça Statuto; ia também na casa de Atti-
132
lio e Pia Carena (ela estenógrafa do jornal), ou então passava algu­
mas noites na casa de Bruno Buozzi, de cuja família era amigo. Mas
o que mais lhe agradava era estar na companhia dos rapazes da Fe­
deração Juvenil Socialista.
Por intermédio de um destes últimos, Andréa Viglongo, filho
de um funcionário da escola primária Giacinto Pacchiotti, foi infor­
mado, no final de 1916, da intenção dos jovens de publicar um úni­
co número. Pediu para escrevê-lo. O número único, de apenas qua­
tro páginas, saiu a 11 de fevereiro de 1917 com o título La Città fu ­
tura.
Era inteiramente escrito por Gramsci. Nele constava também
trechos selecionados de textos de Gaetano Salvemini (na segunda
página, de Cultura e Ser Leigo, “livro que todos os jovens deveriam
ler”, de Benedetto Croce (na terceira página, A religião, retirado de
La Critica) e do seguidor do filósofo Giovanni Gentile, Armando
Carlini (na terceira página, O que ê a vida?, retirado de Introdução
ao estudo da filosofia, “ o qual aconselha-se vívamente a leitura e
meditação”). A escolha destes autores parece indicativa de uma
matriz cultural. Nas quatro páginas de La Città futura, que pode ser
considerada o ponto de chegada da formação juvenil de Gramsci,
as influências idealistas aparecem com nitidez. Croce era definido
como “o maior pensador da Europa atual” . “Em um breve artigo
que precedia a reprodução do escrito de Croce Religião e serenida­
de”, recordará o próprio Gramsci, “eu escrevi que assim como o
hegelianismo foi a premissa da filosofia da praxís no século XIX,
nas origens da civilização contemporânea, a filosofia crociaea po­
dia ser a premissa de uma retomada da filosofia da praxis nos nossos
dias, para as nossas gerações” . Na realidade, esse conceito não era
expresso no artigo indicado. “A questão” , admite Gramsci, “mal
fora acenada, de uma forma certamente primitiva e indiscutivel­
mente inadequada já que naquele tempo o conceito de unidade en­
tre teoria e prática, entre filosofia e política não estava claro para
mim e eu era, tendencialmente, bastante crociano"'.
La Città futura abria-se com o artigo Três princípios, três or­
dens, censurado em alguns pontos.
A ordem e a desordem - afirmava o jovem revolucio­
nário - são as duas palavras a que mais freqüentemente se

' O grifo é meu.

133
recorre fias polêmicas de caráter público. Partidos da or­
dem, homens da ordem, ordem pública... A palavra or­
dem tem um poder taumatúrgico; a conservação das insti­
tuições políticas é confiada em grande parte a este poder.
A ordem atuai se apresenta como algo h a r m o n ic a m e n t e
c o o r d e n a d o , e s t a v e lm e n t e c o o r d e n a d o , e a m u lt id ã o d e
cidadãos hesita e se amedronta na incerteza daquilo que
u m a m u d a n ç a r a d ic a l pode tr a z e r ... F o r m a - s e n a fa n t a s ia
a imagem d e alguma c o is a v io l e n t a m e n t e d ila c e r a d a , n ã o
se v ê a n o v a ordem c o m o p o s s ív e l, m e lh o r o r g a n iz a d a
q u e a v e lh a , m a is v ita l q u e a v e lh a ... V ê -s e apenas a d ila ­
c e r a ç ã o v io le n t a , e o â n im o assustado r e c u a c o m m e d o d e
p e r d e r t u d o , d e te r d ia n t e d e si o c a o s , a desordem in e lu ­
t á v e l...

Gramsci c o n c lu ía :

Os s o c i a li s t a s n ã o d e v e m s u b s tit u ir a o r d e m p e la o r ­
d e m . D e v e m in s ta u r a r a o r d e m em si. A m á x im a j u r íd ic a
q u e eles p r e te n d e m r e a liz a r é: possibilidade de atuação in­
tegral da própria personalidade humana concedida a todos
os cidadãos. C o m a concretização desta máxima t o d o s o s
p r iv ilé g io s c o n s t it u í d o s c a e m . Ela leva ao máximo da li­
berdade com o mínimo da coerção. P r e te n d e q u e a r e g r a d a
v id a e d a s a t r ib u iç õ e s s e ja a c a p a c id a d e e a p r o d u t i v id a ­
d e , fo r a d e t o d o e s q u e m a tr a d ic io n a l. Q u e a r iq u e z a n ã o
se ja in s tr u m e n t o d e e s c r a v id ã o , mas s e n d o cje t o d o s im ­
p e s s o a lm e n t e d ê a t o d o s o s m e i o s p a r a o b e m - e s ta r . Q u e a
e s c o l a e d u q u e o s in t e lig e n t e s filhos d e íjuem quer que s e ­
j a ... Desta máxima d e p e n d e m o r g a n ic a m e n t e t o d o s o s
o u t r o s p r in c íp io s d o p r o g r a m a s o c i a li s t a m a io r . E la n ã o é
u t o p ia . É u n iv e r s a l, concreta, p o d e se r a t u a liz a d a p e la
v o n t a d e . É p r in c íp io d e o r d e m , d a ordem s o c i a li s t a . D a ­
q u e la o r d e m q u e a c r e d it a m o s que s e a tu a liz a r á p r im e ir o
n a I tá lia d o q u e em t o d o s o s d e m a is p a ís e s 2.

No ú n ic o n ú m e r o d a publicação juvenil estavam refletidos n it i­


d a m e n t e a lg u n s la d o s d a p e r n o n a lid a d e de G r a m s c i: a t e n s ã o d o

1 O último grifo é meu.


134
homem que sente a exigência de posicionar-se e de combater1*3, a in­
transigência rude com os adversários de classe 4, a veia sarcástica 5, a
irritação com a retórica populista das “mãos nuas e calosas”6; en­
fim, a confiança na “vontade tenaz do homem” como motor da his­
tória e o tédio correspondente frente à “superstição científica” dos
positivistas, dos reformistas à la Cláudio T r e v e s , id ó l a t r o s da “lei
natural” , do “ fatal andar das coisas” . A polêmica d o j o v e m G r a m s -
ci contra a ala reformista do PSI era cerrada e pungente: “ Esperar
torna-se a metade mais um, este é o programa das almas assustadas
que esperam que o socialismo venha através de um decreto real as­
sinado por dois ministros” .
Já se anunciava o Gramsci de UOrdine Nuovo. Nesse sentido,
um negrito no final da última página de La Città Futura dizia:

Colocamos nesta folha um título que não é apenas


nosso. Antes q iie a guerra convulsionasse o mundo com o
seu flagelo irresistível, eu e alguns amigos tínhamos deci­
dido lançar uma nova revista socialista para servir de cen­
tro das novas energias morais, do novo espírito £ palavra
censurada, talvez r e v o lu c i o n á r io } ' ^ idealista da nossa ju-

1 “Creio, como Federico Hebbel que ‘viver significa ser participante’. Quem vive
verdadeiramente não pode deixar de ser cidadão, de participar. Odeio os indiferen­
tes... A indiferença opera com muita força na história. Opera passivamente, mas
opera... Fatos amadurecem na sombra, poucas mãos, não supervisionadas por ne­
nhum controle, tecem a tela da vida coletiva, e a massa ignora porque não se preocu­
pa com ela... Sou partidário, vivo, sinto nas consciências viris dos meus companhei­
ros pulsar a atividade da cidade futura que os meus companheiros estão construin­
do... Vivo, sou partidário. Por isso odeio quem não participa, odeio os indiferentes”.
4 “ ‘Ao discutir com um adversário, tente colocar-se na sua pele, com isso o com­
preenderá melhor e talvez acabe se dando conta de que ele tem um pouco ou mesmo
muita razão’. Segui por algum tempo este conselho dos sábios, mas a pele dos meus
adversários era tão suja que concluí que é melhor ser injusto algumas vezes do que
provar de novo esta sensação de nojo que me faz desmaiar.”
A propósito dos intelectuais que desertam do movimento socialista, escrevia
Gramsci: “Há os diletantes da fé, assim como há os diletantes do saber... para mui­
tos a crise de consciência não passa de uma letra de câmbio vencida ou do desejo de
abrir uma conta corrente” .
“Prefiro que um camponês ao invés de um professor universitário se aproxime do
movimento socialista. Só que o camponês deverá procurar ter tanta experiência e
tanta abertura de mente quanto um professor universitário pode ter, a fim de não
tornar estéril a sua ação e o seu possível sacrifício”.
135
Na grande fé do nosso ânimo cheio de mocida­
v e n t u d e ...
de e de ardor pensávamos em recomeçar uma tradição
bem italiana, a tradição mazziniana revivida pelos socia­
listas. Mas a intenção não foi abandonada. Os compa­
nheiros que a guerra nos arrancou retornarão ao centro.
E a revista sairá.
Era fevereiro. Logo se seguiram os acontecimentos da Rússia.
No início, n ã o e r a fácil entender o que acontecera em São Pe-
tersburgo. Dificuldades objetivas quanto à coleta de informações
exatas, depois a censura,- depois a tendenciosidade de alguns jor­
nais, como a Gazzetta dei Popolo, que distorcia os acontecimentos,
t u d o is s o im p e d ia u m a v is ã o c la r a d o q u e e s t a v a o c o r r e n d o . A 18 d e
m a r ç o s o u b e - s e q u e o c z a r tin h a s id o d e r r u b a d o ; h a v ia u m g o v e r n o
p r o v is ó r io d e c id id o a c o n t in u a r a g u e r r a , m a s u m g r u p o d e maxi­
malistas u lt r a - r e v o lu c io n á r io s g u ia d o s p o r L ê n in j á t r a b a lh a v a p e la
p a z im e d ia t a , a se r o b t id a a q u a lq u e r c u s t o . O p r im e ir o c o m e n t á r io
d e G r a m s c i a p a r e c e u n o ll Grido d e 2 9 d e a b r il d e 1 9 1 7 . N e l e A n t o -
n io afirmava q u e “ a o se ler o s j o r n a i s , a o s e ler o c o n j u n t o d e n o t í ­
c ia s q u e a c e n s u r a p e r m itir a p u b lic a r ” n ã o e r a fá c il a p r e e n d e r a e s ­
s ê n c ia d a r e v o lu ç ã o r u s s a , s e lib e r a l o u p r o le t á r ia .

O s j o r n a i s b u r g u e s e s ...n o s informaram c o m o f o i q u e
o p o d e r d a a u t o c r a c ia f o i s u b s t it u íd a p o r u m o u t r o p o d e r
a in d a n ã o b e m definido, m a s q u e e le s e s p e r a m q u e se ja o
p o d e r b u r g u ê s . E l o g o in s tit u ír a m o p a r a le lo : R e v o lu ç ã o
R u s s a , R e v o lu ç ã o F r a n c e s a , e a c a b a r a m d e s c o b r i n d o q u e
o s f a t o s se a s s e m e lh a m ... N ó s , c o n t u d o , e s t a m o s c o n v e n ­
c id o s d e q u e a R e v o lu ç ã o R u s s a é , além d e u m f a t o , u m
a t a p r o le t á r io , e que e la d e v e r á d e s e m b o c a r n a tu r a lm e n te
n o r e g im e s o c ia lis t a .

Notícias e x a u s t iv a s p o d ia m se r e x tr à íd a s d e La Stampa d e 10
de maio, q u e r e p o r ta v a a s p a la v r a s d e o r d e m le n in is ta s : p a z o mais
r á p id o p o s s ív e l, t o d o o p o d e r a o p r o le t a r ia d o a tr a v é s dos C o n s e ­
lh o s d o s o p e r á r io s e c a m p o n e s e s . A g o r a L ê n in e r a o a lv o p r e d ile t o
de t o d a a im p r e n s a conservacjora it a lia n a ; ta m b é m p o r is s o , o p r o ­
le t a r ia d o o lh a v a - o como o “ m a is s o c i a li s t a ” e o “mais r e v o lu c i o n á ­
r io d o s c h e f e s p r e s t ig ia d o s d o s p a r tid o s s o c i a li s t a s r u s s o s ” (como
IL Grido).
136
Os maximalistas russos são a própria revolução rus­
sa. K e r e n s k y , Z e r e te lli, C e r n o v [ p r o t a g o n is t a s d a revolu­
ção democrático-burguesa de março] são o hoje da revo­
lução, são os realizadores de um primeiro equilíbrio so­
cial, a resultante de forças nas quais os moderados têm
ainda muita importância. Os maximalistas são a continui­
dade da revolução; por isso são a própria revolução...
[ Lênin] despertou energias que não morrerão mais. Ele e
os seus companheiros bolcheviques estão convencidos de
que é possível em qualquer época realizar o socialismo.

Com esta ressonância na Itália da revolução democrático-


burguesa de março e com a confiança que os escritores socialistas
(com G r a m s c i na primeira linha) e os dirigentes de uma ala do mo­
vimento operário italiano tinham no partido de Lênin, de cujo estí­
mulo esperavam que a Revolução Russa de liberal se tornasse so­
cialista, era natural o tipo de acolhida reservado a 13 de agosto de
1917 em Turim, por uma multidão de 40 m il trabalhadores, a G o l -
denberg e a S m ir n o v , enviados pelo governo provisório liberal para
um primeiro contato com os países da Tríplice Aliança. Dias antes,
G o ld e n b e r g h a v ia d e c la r a d o a o c o r r e s p o n d e n t e de La Stampa em
Paris: “ Lênin não é nosso amigo e n ó s somos seus adversários” .
Quando os dois delegados do governo Kerensky apareceram no
balcão do palácio de Corso Sicardi, a multidão os recebeu aos gri­
tos de “ Viva L ê n in ! ” .’ D e z dias depois, combatia-se em Turim atrás
d a s b a r r ic a d a s .
A s i t u a ç ã o in ic ia l d a b a ta lh a fo i o d e s a p a r e c im e n to d o p ã o d o
m e r c a d o . S ó o u tr a s razões, porém, p o d ia m a c e n d e r n o s r e v o lt o s o s
o ímpeto te s t e m u n h a d o p e la v io lê n c ia d a lu ta e p e lo número d e
m o r t o s e fe r id o s . A p r e g a ç ã o c o n tr a a g u e r r a v in h a in t e n s if ic a n d o -
se h á a lg u n s m e s e s . J á h a v ia c r ia d o r a íz e s n o s e n t im e n t o p o p u la r a
tese d e q u e er a p r e fe r ív e l a o p r o le t a r ia d o p e r d e r 500 d o s s e u s em
uma b a ta lh a p e la causa d o s tr a b a lh a d o r e s d o q u e p e r m itir o s a c r ifí­
c io d e 10 m il c o n t r a o s a le m ã s n o in te r e s s e e x c lu s iv o d a b u r g u e s ia .
E n a s fá b r ic a s , o n d e a d is c ip lin a era c o n t r o la d a p o r um r e p r e s e n ­
ta n te d o e x é r c it o e v ig o r a v a o c ó d ig o p e n a l m ilita r de g u e r r a , o so­
frimento d o s o p e r á r io s a u m e n t a v a d ia a d ia . E m um te r r e n o c u lt u ­
ral como e s s e , fé r til à id é ia d e “fazer como n a R ú s s i a ” , a te n t a tiv a
ín s u r r e ic io n a l e r a in e v itá v e l.
O s d is p a r o s começaram n a m a n h ã d e 2 3 d e a g o s t o . A r e v o lta
se ampliava sem c h e fe s nem d ir e ç ã o . G r a n d e s á r v o r e s , v ia tu r a s da

137
rede urbana de bondes, carros ferroviários emborcados nas ruas
isolavam os centros da insurreição. Não havia ligação entre os diri­
gentes socialistas e os revoltosos. A multidão, alheia a qualquer
projeto revolucionário bem calculado, parecia ter em mente um Cí­
nico fim: saquear, destruir. E os soldados, em cuja propensão a
confraternizar com os operários atribuiu-se muita confiança, rea­
giam disparando 7. Houve cerca de 50 mortos e mais de 200 feridos.
Depois veio a onda de prisões que privou a seção socialista de quase
todos os seus dirigentes. Desde então, a tarefa de dirigir o movi­
mento operário de Turim, na medida em que era ainda possível de­
senvolver qualquer tipo de ação em uma cidade declarada em se­
tembro de 1917 zona de guerra ( e isso significava comparecer pe­
rante o tribunal de guerra por atividades, informações e juízes di­
vergentes das diretivas e das informações oficiais das autoridades
militares) foi assumida por um comitê provisório.
Gramsci encontrava-se entre os doze do comitê. Pela primeira
vez, com 26 anos, tinha um cargo de direção na seção socialista tu-
rinesa. A 1- de março de 1921 escreverá em L'Ordine Nuovo:

Em morhentos muito graves e muito difíceis para a


classe operária de Turim, foram confiados a alguns de
nós atribuições de grande responsabilidade do partido,
quando, dispersa a Seção e ocupado militarmente o edifí­
cio de Corso Siccardi, após os acontecimentos de agosto
de 1917, um de nós foi nomeado secretário político da Se­
ção; quando, após Caporetto, um de nós foi enviado ao
Congresso de Florença no qual se devia decidir sobre a
posição e a linha do partido.

Lazzari e Bombacci, da direção, e Gino Pesei, da fração maxi­


malista revolucionária, promoveram um congresso clandestino que
se realizaria em Florença a 18 de novembro de 1917 (Pesei fora se­
cretário da Câmara do Trabalho de Cagliarí quando Gennaro
Gramsci lá exercia as funções de caixa, período em que Antonio,
então estudante do colegial, o conhecera). O objetivo do encontro

7 Gramsci pensará mais tarde que a Brigada Sassari estava participando da repres­
são. Trata-se de uma lembrança incorreta. Naqueles dias, a Brigada estava em via­
gem de Cividale para o altiplano da Bainsizza e a 29 de agosto se dirigia para a linha
de frente em Cravec.
138
era reafirmar o alheamento do proletariado à guerra burguesa tra­
vada depois de Caporetto; Gramsci condividia a tese de Bordiga
quanto à oportunidade de uma intervenção ativa do proletariado
revolucionário na crise da guerra.
Na Rússia, há apenas quatro dias os bolcheviques estavam no
poder (6-14 de novembro). N a Itália, chegavam pouquíssimas notí­
cias, tornadas incompletas pela censura e publicadas com distor-
s õ e s pela grande imprensa de informação. Sob o título de As satur-
nais do leninismo, a Gaxzetta dei Popolo publicou o seguinte a 10 de
novembro: “Uma turba de maximalistas saqueou as cantinas do
Palácio de Inverno, embriagando-se, sendo dispersa pelas Forças
Armadas” . O grande evento histórico fora reduzido a um motim de
d e s o r d e ir o s . M a s o G r a m s c i de 2 6 a n o s q u e m e s e s a n te s , a 2 8 d e j u -
Iho, m a n if e s t a r a c la r a m e n t e a s u a c o n f ia n ç a n o s d e s d o b r a m e n t o s
socialistas da revolução liberal, compreendeu logo, apesar dos es­
paços e m b r a n c o p r o v o c a d o s p e la c e n s u r a e d a s d is t o r s õ e s d a im ­
p r e n s a b u r g u e s a , q u e u m a g r a n d e t r a n s f o r m a ç ã o e s t a v a se r e a liz a n ­
d o . Em II Grido de 24 de novembro, em uma breve nota de apre­
sentação de um artigo de Souvarine, Gramsci escreveu:
Não s e tem n e n h u m a n o t í c ia p r e c is a s o b r e o s ú lt im o s
a c o n t e c i m e n t o s d a R e v o lu ç ã o R u s s a . É p r o v á v e l q u e não
se p o s s a te r n e n h u m a n o t íc ia p r e c is a d u r a n te a lg u m t e m ­
p o a in d a . O Grido h a v ia p r e v is to , e e r a fá c il p r e v e r , que a
R e v o l u ç ã o R u s s a n ã o p o d ia deter-se n a fa s e K e r e n s k y .
A R e v o l u ç ã o R u s s a c o n t in u a e c o n t in u a r á a in d a .

Naquele mesmo d ia , 2 4 d e n o v e m b r o d e 1 9 1 7 , s a iu na edição


Avantil um e d it o r ia l c o m o t í t u lo A revolução contra o
n a c io n a l d o
‘Capital’, assinado por Antonio Gramsci. É um novo testemunho,
certamente o mais evidente, da formação idealista de Gramsci e da
su a te n d ê n c ia a n ã o to r n a r - s e p r is io n e ir o d e e s q u e m a s m u it o r íg i­
d o s , c o m o eram o s d e a lg u n s s e g u id o r e s de M a r x .

dos b o lc h e v iq u e s - afirmava o j o v e m
A R e v o lu ç ã o
sua primeira incursão fora do cinturão
e d it o r ia lis t a , n a
das páginas e das folhas turinesas - é a revolução contra o
Capital de Karl Marx. O Capital de Marx era, na Rússia,
o livro dos burgueses mais que dos proletários. Era a de­
monstração crítica da necessidade fatal de que na Rússia
se formasse uma burguesia, se iniciasse uma era capitalis-
139
ta, se instaurasse uma civilização de tipo ocidental, ante;
que o proletariado pudesse nem sequer pensar na sua li­
bertação, nas suas reivindicações de classe, na sua revolu­
ção. Ôs fatos fizeram explodir os esquemas críticos nos
quais a história da Rússia d e v e r ia ter se desenvolvido se­
gundo os cânones do materialismo histórico. Os bolchevi­
ques r e n e g a m K a r l Marx e afirmam, com o testemunho
das conquistas realizadas, que os cânones do materialis­
mo histórico não são tão férreos como se poderia pensar e
se pensou.
Era um discurso prenhe de h e g e li a n is m o e c r o c ia n is m o :

Se os bolcheviques renegam algumas afirmações do


Capital, não renegam o seu pensamento imanente, v iv ifi-
cador. Eles não são “marxistas” , eis tudo; não compila­
ram sobre as obras do Mestre uma doutrina exterior, de
afirmações dogmáticas e indiscutíveis. Vivem o pensa­
mento marxista, aquele que não morre nunca que ê a con­
tinuação do pensamento idealista italiano e alemão, e que
em Marx se contaminou com incrustações positivistas e
naturalistas ®.
Mais uma vez, Gramsci r e je ita v a a concepção da história como
evolução espontânea e fatal, determinada por fatos econômicos
brutos; ao determinismo dos positivistas ele contrapunha a vontade
do homem, o fator máximo da história. Deve-se acrescentar (e esta
consciência das dificuldades que acompanham todas as dilacera­
ções históricas estará sempre presente nele) que o jovem estudioso e
militante distinguia-se bastante daqueles que, muito e u f o r ic a m e n t e ,
imaginavam ter se instaurado na Rússia, com a simples derrubada
da velha ordem, um mundo de plena felicidade. “Será, a princípio,
o coletivismo da miséria, do sofrimento” , afirmava cruamente,
acrescentando porém: “O capitalismo não poderia fazer imediata­
mente na Rússia mais do que poderá fazer o c o le t iv i s m o . H o j e faria
muito menos, porque teria contra si, imediatamente, um proletaria­
do descontente, frenético, incapaz de suportar por mais tempo as
dores e as amarguras q u e o mal estar econômico traria” .*

* O grifo é meu.
140
À parte a atividade jornalística, poucas outras iniciativas de
organização e de propaganda eram consentidas a G r a m s c i pela cen­
sura militar naquele período de gestão provisória da secretaria da
sessão. Deve-se apenas registrar uma resolução contra o protecio­
nismo alfandegário, aprovada pelo Executivo provisório. Sobre
este tema, caro a Gramsci desde a primeira juventude, saiu a 20 de
outubro de 1917 um número especial de II Grido, com a participa­
ção de Ugo M o n d o l f o , U m b e r t o Cosmo, Bruno B u o z z i e um artigo
de Togliatti, o primeiro escrito por ele para um jornal socialista,
que pode ser c o n s i d e r a d o a sua estréia na política ativa. Depois do
diploma em direito, T o g lia t t i se inscrevera em filosofia e agora fre-
qüentava o curso de formação de alunos oficiais em Caserta. Para o
resto, a n ív e l d a organização, Gramsci não podia produzir muito,
dada a situação objetivamente desfavorável. Entretanto, tornou-se
incentivador de um Clube de vida moral, pois a obra de educação
política dos jovens continuava a ser um dos seus principais interes­
ses. “ Determino a um jovem a tarefa d e le r ” , sabemos d is s o a t r a v é s
de uma carta e n d e r e ç a d a p o r G r a m s c i a G i u s e p p e L o m b a r d o -
R a d ic e , “ u m c a p ít u lo d e Cultura e vida moral, d e B. C r o c e , u m d o s
Problemas educativos e sociais de S a lv e m in i, d a Revolução Francesa
ou de Cultura e ser leigo, também de Salvemini, um do Manifesto
dos comunistas, uma Apostila de Croce sobre a Crítica, ou outro,
que refere-se ao movimento idealista atuai” 9. A d e t e r m in a ç ã o d a
tarefa era seguida alguns dias depois pela discussão, sempre ou qua­
se sempre ao ar livre. Cario B o c c a r d o , u m d o s j o v e n s m e m b r o s d o
C lu b e , d e c la r a :

A s n o s s a s l o n g a s c a m in h a d a s se faziam s o b o s p ó r t i­
c o s , G r a m s c i n o m e io , le n t o n o a n d a r , e n ó s a r o d e á - lo .
V in h a m c o n o s c o A n d r é a V ig lo n g o , A t t i l i o C e r e n a , ir m ã o
d e P ia , e a lg u m a s v e z e s t a m b é m A n g e l o P a s to r e , ir m ã o
m e n o r d e O t t a v io . G r a m s c i nos d e ix a v a fa la r . É r a m o s ra­
pazes d e 1 6 -1 7 a n o s e a n o s s a ig n o r â n c ia er a p r o p o r c io n a l
à id a d e e a presunção à id a d e e à ig n o r â n c ia . M a s G r a m s -

Trata-se, como se tem por hábito considerar, de autores e textos muito indicati­
vos do estágio de formação cultural do jovem revolucionário, para o qual Marx era
“mestre espiritual e moral e não um pastor armado de cajado”, nem tampouco um
messias que tivesse deixado uma penca de parábolas impregnadas de imperativos ca­
tegóricos, de normas indiscutíveis, absolutas, libertas das categorias de tempo e de
espaço” .
141
ci não se impacientada, nunca assumia a p o s i ç ã o do teóri­
co depositário de todo o saber; agradava-lhe dar impor­
tância às idéias alheias e escutava com p r a z é f . Depois
quando, intervindo no final, nós entendíamos os nossos
erros e os corrigíamos. Continuamos a nos encontrar to­
das as noites durante dois meses. Recordo da última noite
de 1917, transcorrida em casa de Andréa Viglongo. Para
fe s te ja r o fim d o a n o v e lh o e a c h e g a d a d o n o v o , a mãe d e
A n d r é a n o s h a v ia p r e p a r a d o u m a b e la b a n d e j a d e frita­
das. E s t á v a m o s n a d ir e ç ã o d a e s c o l a o n d e o p a i d e A n ­
d r é a era e m p r e g a d o . Esperamos o a n o n o v o l e n d o e c o ­
m e n t a n d o a s Memórias d e M a r c o A u r é l i o ... Depois fo­
mos c o n v o c a d o s p a r a s e r v ir o e x é r c it o , um d e c a d a vez, e
o Clube se d e s f e z .

É uma pena que uma dedicatória de G r a m s e i ao jovem Attilio


Garena, antes que este fosse para o exército, tenha desbotado. A de­
dicatória foi escrita por G r a m s e i e m u m a d a s p á g in a s d e a b e r tu r a
d o liv r e to e d it a d o p o r B a r b e r a em 1 9 1 1 , Memórias do imperador
Marco Aurélio Antonino e c o n t i n h a , c o m o informa A l f o n s o L e o n e t -
ti, uma série d e im p e r a t iv o s q u e f o r m a v a m o d e c á l o g o d o C lu b e d e
v id a moral: tu se r á s , tu fa r á s , e tc .

D e p o i s d a p r is ã o d e M a r ia G iu d ic e , G r a m s e i e r a o único r e d a ­
to r d e II Grido e, n a p r á tic a , e r a e le q u e m o d ir ig ia . Em p o u c o tem­
po o s e m a n á r io da sessão s o c i a li s t a m u d o u d e estilo. A t e n t o a o de­
senrolar d a r e v o lu ç ã o r u s s a , o j o v e m d ir e t o r d e 2 7 a n o s m a n d a v a
traduzir p o r um c o m p a n h e i r o p o l o n ê s , A r o n W iz n e r , e p u b lic a v a
t e x t o s d e a u t o r e s b o lc h e v i q u e s , n o t í c ia s , documentos.

O p e q u e n o s e m a n á r io d e p r o p a g a n d a do p a r tid o -
r e c o r d a Piero Gobetti - t o r n o u - s e e m 1918 u m a r e v is ta d e
c u ltu r a e d e p e n s a m e n t o . P u b lic o u a s p r im e ir a s tr a d u ç õ e s
d o s e s c r it o s r e v o lu c i o n á r io s r u s s o s , p r o p ô s a e x e g e s e p o l í ­
tic a da ação d o s b o lc h e v i q u e s . O a n im a d o r d e s t a s pesqui­
sas e r a o cérebro de G r a m s c i. A figura d e L ê n in p e r s o n i f i­
c a v a , p a r a G r a m s c i, u m a v o n t a d e h e r ó ic a d e lib e r ta ç ã o :
o s m o t i v o s id e i a is q u e c o n s t it u í a m o m i t o b o lc h e v iq u e ,
o c u lt a m e n t e fé r v id o s n a p s i c o lo g i a p o p u la r , d e v ia m a g ir
não como o modelo de uma revolução italiana mas como o
142
incitamento a uma livre iniciativa operante vinda de bai­
xo 10.

Portanto, não um modelo, a transpor mecanicamente, mas li­


ção, estímulo a um reconhecimento histórico e s ó c i o - e c o n ô m i c o na
realidade italiana. Gramsci continuava a recusar o conceito de polí­
tica como uma abstrata ciência normativa fora das categorias de
tempo e de espaço. O primeiro esforço do jovem estudante chegado
na metrópole industrial foi a superação de um modo de viver e de
pensar “de aldeia” . Enfim, Gramsci te n d ja a superar também o ho­
rizonte nacional, “ou pelo menos” , segundo o testemunho auto­
biográfico, “o modo nacional confrontava com os modos europeus,
as necessidades culturais italianas confrontavam-se com as necessi­
dades culturais e as correntes e u r o p é ia s (no modo em que isso era
possível e factível nas condições pessoais dadas, é verdade, mas ao
menos segundo exigências e necessidades fortemente sentidas quan­
to a este fato)”; E como a originalidade do “tríplice ou quádruplo
provincial” consistia em um esforço de integração na cultura nacio­
nal mas sem o repúdio da experiência sarda, a originalidade do ho­
mem de cultura italiano consistia agora no esforço de vinculação às
correntes européias e ao “fazer-se” da revolução leninista com
constante atenção aos dados típicos e “autônomos” da realidade
nacional, diversa da realidade russa. O “autonomismo” de Grams­
ci, o e s f o r ç o de investigação d a s c o n d i ç õ e s h is tó r ic a s n a s quais se
formou a sociedade ita lia r ta e do modo como, especificamente no
seio desta sociedade, poderia ter se desenvolvido a luta de classe,
eram bem evidentes em II Grido.
O último número do semanário saiu a 19 de outubro de 1918.
Com razão, em uma nota de despedida, o seu “ único redator” , que
fora a revelação do jornalismo turinês dos anos de guerra, podia di­
zer que o transformara de “ semanário de crônica local e de propa­
ganda evangélica” , em uma “pequena resenha de cultura socialista,
desenvolvida segundo as doutrinas e a tática do socialismo revolu­
cionário” .

<) grifo é meu.

143
13.

Começava o pós-guerra. G e n n a r o Gramsci serviria como pri­


meiro-sargento no “ 2 1 ’ Mineiros” em Monterosso e em Montenero
e d e p o is n a s m o n t a n h a s s o b r e C a p o r e t t o D e p o i s que lh e d e r a m
baixa, p a s s o u a d ir ig ir u m a c o o p e r a t i v a d e c o n s u m o e m C a g lia r i,
n o c o r s o V it t o r io . T a m b é m o ir m ã o m e n o r , C a r io , oficial d u r a n te a
g u e r r a , h a v ia r e to r n a d o à S a r d e n h a , a G h ila r z a . D u r a n t e a lg u m
te m p o n ã o c o n s e g u i u r e in te g r a r -s e à v id a c iv il, n ã o e n c o n t r a n d o n e ­
n h u m a o c u p a ç ã o . M a r io , p o r s u a v e z , c o n t i n u a v a a v e s tir a fa r d a .
O s e s t u d o s g in a s ia is n o s e m in á r io se r v ir a m p a r a q u e se t o r n a s s e
s u b t e n e n te . C o n h e c e r a e m V a r e s e uma jovem d a a r is to c r a c ia lo m -
b a r d a , A n n a M a f f e i P a r r a v ic in i, c o m q u e m t e n c i o n a v a c a s a r - s e o
m a is r á p id o p o s s ív e l. E s p e r a v a , n e s s e m e io t e m p o , c o n t in u a r e f e t i­
v o n o e x é r c it o . Em G h ila r z a , o s e n h o r C ic c illo e a s e n h o r a P e p p in a
tinham em s u a c o m p a n h ia , a lé m d e C a r io , G r a z ie t t a e T e r e s in a .
E m m a , d o i s a n o s m a is v e lh a que A n t o n i o , e s t a b e le c e r a - s e e m T ir s o ,
o n d e tr a b a lh a v a c o m o c o n t a d o r a d a e m p r e s a c o n s t r u t o r a d e b a r r a -

■ Recordará Gramsci: “Nannaro fez a guerra em condições excepcionais, como


mineiro, no subsolo, sentindo através do diafragma que separava a sua galeria da ga­
leria austríaca o trabalho do inimigo para apressar a explosão da própria mina e
mandá-lo pelos ares” .

145
gens. Em certa medida, na casa dos Gramsci não havia mais aquela
preocupação constante com dinheiro. Vivia-se com relativa sereni­
dade e com orgulho do sucesso de Nino como jornalista na cidade
grande. É bem verdade que o senhor Ciccillo não conseguia a in d a -
entender as idéias que o bendito rapaz enfiara na cabeça, essa ilusão
extravagante de poder mudar a face do mundo. Ele deveria ser jor­
nalista do La Domenica dei corriere ou do Giornale d'Italia que
eram, esses sim, jornais direitos, feitos por gente com cabeça, nesse
caso sim, o prestígio seria bem diferente... A discursos como esses, a
senhora Peppina, leitora voraz de tudo o que Nino mandava para
casa assinalado em vermelho, reagia suavemente, dizendo para
abreviar a conversa: “Deixa para lá. Ele pensa assim...” .
N a S a r d e n h a d e e n t ã o (1 9 1 9 ) , s a b ia - s e de A n t o n i o Gramsci
p o u c o mais q u e n a d a . M a s o s ghilarzeses já c o m e ç a v a m a conside­
rá-lo como u m a p e q u e n a g ló r ia lo c a l.
U m d ia , n a e s t r a d a que v a i de G h i la r z a a A b b a s a n t a ,
na entrada da aldeia - conta Velio S p a n o - uma parente
minha me disse, indicando-me uma bela moça: - Olha, é a
ir m ã d e N i n o G r a m s c i. E ra a p r im e ir a vez q u e e u e s c u t a ­
v a aquele d o m e e p e r g u n te i quem e r a e le . E la me r e s p o n ­
d e u de modo impreciso, d iz e n d o - m e q u e e r a u m p r o f e s ­
s o r , um j o r n a l is t a q u e v iv ia n o c o n t i n e n t e . M a s d iz ia e s ta s
coisas c o m o r g u lh o .

A p a r tir d e 5 d e d e z e m b r o d e 1 9 1 8 , G r a m s c i p a s s o u a tr a b a lh a r
e x c lu s iv a m e n t e n o Avantil, q u e a g o r a t a m b é m s a ía e m e d iç ã o p ie ­
m o n t e s a , editada e m T u r im , n a r u a A r c iv e s c o v a d o 3 , esquina c o m a
r u a X X S e te m b r e . Nino e s t a v a m u d a d o . A g o r a , c o m 2 8 a n o s , n ã o
le m b r a v a em n a d a aquele jovem t í m id o , t o d o e n c o lh i d o dentro de
si, dos primeiros anos t u r i n e s e s .- H a v ia sofrido a solidão também
d e v id o à irritação d o in s u la r que s e n t e a g r a n d e c id a d e h o s t il e rea­
ge à frieza do ambiente com o a lh e ia m e n t o total. Finalmente se li­
gara a um trabalho estimulante. A angústia de ser aleijado dissipa­
va-se. A t r a v e s s a v a t a m b é m u m m o m e n t o d e b o a s a ú d e . O r g u lh a v a -
s e d e p o d e r m o s tr a r a f o r ç a q u e tin h a nos b r a ç o s , a p e r t a n d o f o r t e ­
m e n t e o s p u ls o s d o s c o le g a s d a r e d a ç ã o , e r ia - s e d is s o , d iv e r t in d o -s e
c o m o u m m e n in o . C h e io d e v it a lid a d e , e le c o n s e g u i a lib e r a r n a
a ç ã o e n e r g ia s a n te s n ã o d e s f r u t a d a s , e com a t o t a l r e c u p e r a ç ã o da
c o n f i a n ç a e m si m e s m o , o G r a m s c i f e it o s o b m e d id a p a r a as “inves­
tigações ascéticas d o g l o t ó l o g o ” , c o m o d ir á G o b e t t i, m a is q u e p a ra
146
a vida de combate, tornava-se uma imagem distante. Eie era frio,
incapaz de expansões, devido ao longo hábito de dominar os senti­
mentos, que escondia atrás de maneiras contidas. Também brinca­
va e ria , mas era um riso cerebral, controlado, uma risada aos im­
pulsos. Espontâneos eram os ataques de raiva, verdadeiras válvulas
de escape à grande compressão de sentimentos às vezes dolorosos,
ao grande esforço de vontade no trabalho e no estudo. Refugiava-se
das suavidades de tom na polêmica p o lít ic a . As suas críticas teatrais
eram ansiosamente aguardadas por c o m e d i ó g r a f o s e diretores. E
quando, certa vez, Nino Berrini passou uma semana a cercá-lo com
a intenção de obter, em troca de bajulação, um comentário favorá­
vel, recebeu igualmente uma crítica violenta e demolidora. A flafte-
rie de escritores e atores o aborrecia. A secura de juízo de Gramsci
era sempre o resultado de uma extrema aversão à hipocrisia; ele
preferia este tipo de posição a fazer um julgamento temperado de
indulgência que contivesse um mínimo de falta de sinceridade.
Durante alguns meses ficou sem nenhum encargo na sessão so­
cialista. Fizera parte do comitê provisório instalado na liderança da
seção depois da prisão em massa dos velhos dirigentes por ocasião
dos levantes de agosto de 1917. Dispensados os militares e esvazia­
das as prisões, era natural o retorno à normalidade. Na nova comis­
são executiva da seção socialista de Turim, eleita a 28 de novembro
de 1 9 1 8 s a lie n t a r a m - s e o s “ in t r a n s ig e n t e s r íg id o s ” (entre o u t r o s ,
Francesco Barberis, Giovanni Boero, Pietro Rabezzana, Giovanni
(jilodi e, posteriormente, Giovanni Parodi). Gramsci trabalhava
agora exclusivamente no Avantil. Passava os dias na saleta de um
pequeno prédio n a ma do Arcivescovado, não muito distante do
Arsenal dos Savóia. Era um antigo r e f o r m a t ó r io para menores de
idade. Para se chegar lá, depois de se entrar na rua do Arcivescova­
do, atravessava-se um pátio, onde a Aliança Cooperativa de Turim
possuía um depósito de sapatos. No andar térreo do ex-
reformatório estava instalada a tipografia, uma rotativa Marinoni
um pouco antiquada e meia dúzia de linotipos; no andar superior
estava a redação, em sete ou oito salas que foram formadas colo­
cando-se divisórias de madeira como paredes. Uma escada interna
em caracol ligava os dois andares. Gramsci tinha para seu uso uma
escrivaninha antiga, com p r a t e le ir in h a s nos cantos dianteiros. Ali,
em meio a grandes pilhas de livros, montanhas de jornais desorde­
nadamente amontoados, rascunhos à espera de correção ou acumu­
lados afi há alguns dias, ele escrevia, estudava, ouvia os operários,
os correspondentes de fábrica, os secretários políticos e sindicais da
147
cidade e da província, os jovens universitários, os membros de co­
missões internas que, principalmente no final da tarde, o procura­
vam. Voltava para casa com a noite já avançada, acompanhado
sempre por um dos companheiros mais jovens: Alfonso L e o n e tti,
um professor da Puglia que viera para Turim para lecionar no Ins­
tituto Ugo Foscolo, e ainda Giuseppe Amohetti, Mario M o n t a g n a -
na, Andrea Viglongo, Felice P la to n e .
Tasca, Togliatti e Terracini estavam de volta. A idéia de um
jornal feito pelo antigo grupo da universidade turinesa voltou à to­
na. Gramsci tinha estudado a fundo e continuava a acompanhar
com grande interesse a Revolução de Outubro e os seus desdobra­
mentos. A partir de 1917 começaram a ser conhecidos na Itália os
primeiros trechos dos escritos de Lênin, publicados por revistas
francesas e por uma americãna, 'Liberator, dirigida por Max East­
man. Agora O imperialismo e O Estado e a Revolução circulavam na
Itália. Foi também através destas leituras que Gramsci pode dar
novas respostas às perguntas sugeridas pela sua experiência de ita­
liano do Meziogíorno inserido na grande cidade operária. Daí a exi­
gência, vivamente sentida também por outros jovens, de se ter um
novo periódico onde estes temas pudessem ser debatidos com a má­
xima liberdade, fora das influências dos grupos dirigentes do parti­
do.
Piero Gobetti, que por muito tempo privou com eles, nos traça
o retrato dos fundadores de L ’Ordine Nuovo. Angelo Tasca, então
com 27 anos, “chegava ao movimento político agresso de uma edu­
cação preponderantemente literária e com mentalidade de propa­
gandista e de apóstolo” . O seu socialismo era um “socialismo de
um literato, de um messiânico que concebia a redenção popular
como palingênese iluminista e sobrepunha à civilização moderna o
seu sonho de virtude operária pequeno-burguesa, que se alimentas­
se de hábitos moderados e atávicos, de uma tranqüilidade recolhida
na casa-jardim” . Em seguida, Terracini, de modesta família israeli­
ta (não dos Tçrracini diamantaires). Tinha 24 anos. Era “antidema-
gógico por princípio, aristocrático, contrário às violências orató­
rias, dono de um raciocínio engenhoso, firme na polêmica e na ação
até a aridez e a teimosia” . Era considerado “o diplomático, o ma­
quiavélico” . Togliatti, chegado por último à política, sofria as con-
seqüências da sua inquietação, “ que parecia cinismo inexorável e ti­
tânico e era indecisão, que foi julgada equivocadamente e talvez
fosse somente um hipercriticismo combatido em vão” . - Enfim
Gramsci:
148
O cérebro subjugava o corpo... A voz é cortante
como a crítica dissolvente, a ironia se envenena no sarcas­
mo, o dogma vivido com a tirania da lógica arranca o
consolo do humorismo... A sua revolta é às vezes o res­
sentimento e às vezes a mágoa mais profunda do ilhéu
que não se pode abrir a não se r c o m a ação, que não pode
libertar-se da escravidão secular a não ser trazendo nos
comandos e na energia de apóstolo algo de tirânico.
De que palavras novas Gramsci, Tasca, Terracini e Togliatti
pretendiam se fazer portadores? Havia homogeneidade entre eles?
Uma idéia comum, à parte a impaciência para com T u r a t i, Modi-
gliani, Treves e os outros expoentes da tradição reformista? “Ai de
mim!” , contará Gramsci. “O único sentimento que nos unia... era
aquele suscitado por uma vaga paixão de uma vaga cultura proletá­
ria; queríamos fazer, fazer, fazer; sentíamo-nos angustiados, sem
uma orientação, mergulhados na vida ardente daqueles meses após
o armistício, quando parecia imediato o c a t a c lis m a da sociedade
italiana” . Reuniram-se, discutiram. Tasca arranjou dinheiro, seis
mil liras. No D de maio de 1919 saiu o primeiro número de L Ordi-
ne Nuovo, “o único documento do jornalismo revolucionário e mar­
xista” , dirá Gobetíi, “que surgiu na Itália com alguma seriedade
ideal” . Quem o assinava, com o nome sob o cabeçalho, era Antonío
Gramsci, “secretário de redação”. O trabalho administrativo esta­
va a cargo de Pia Carena, também excelente tradutora de textos
franceses ( R o ll a n d , Barbusse, Marcei Martinet, etc.).
Inicialmente, porém, o jornal conseguiu transmitir a linha que
era mais cara a Gramsci. “ Foi uma antologia, nada mais do que
uma antologia” (o julgamento, e v id e n t e m e n t e excessivo, é do pró­
prio Gramsci) “ foi uma resenha de cultura abstrata, com a tendên­
cia a publicar novelinhas horripilantes e xilografias bem intenciona­
das” . A seguir, a crítica se precisa melhor. Gramsci acusava Tasca
de ter rejeitado “a proposta de consagrar as energias comuns em
descobrir uma tradição sovietista na classe operária italiana, em es­
cavar o filão do real espírito revolucionário italiano”. A este ponto,
qual era afinal a direção da pesquisa g r a m s c ia n a ? Atento à expe­
riência dos Sovietes (em russo soviet quer dizer conselho), ao desen­
volvimento dos Conselhos de fábrica e de fazendas nos quais se or­
ganizaram os operários e os camponeses, o jovem se perguntava:
“ Existe na Itália, como instituição da classe operária, algo que pos­
sa ser comparado ao Soviete, que comparticipe da sua natureza?...
149
Existe um germe, uma veleidade, um esboço de governo dos Sovie­
tes na Itália, em Turim?” A resposta era: “Sim, existe na Itália, em
T u r im , um germe de governo operário, um germe de Soviete: é a co­
missão interna” . Mas como este embrião de democracia operária
poderia desenvolver-se até se tornar o órgão do poder proletário? A
idéia central de G r a m s c i era que todos os operários, todos os empre­
gados, todos os técnicos e mais tarde todos os camponeses e logo to­
dos os elementos ativos da sociedade deveriam tornar-se,-fossem ou
não inscritos no sindicato e independente do partido a que pertences­
sem, e mesmo que não militassem em um partido, mas apenas pelo
fato de serem operários, camponeses, etc., de simples executores a di­
rigentes do processo produtivo; de peças de um mecanismo regula­
do pelo capitalista a sujeitos; em essência, que os órgãos d e m o c r a t i-
c a m e n t e eleitos pelos trabalhadores ( o s ,C o n s e l h o s de fábrica, d e f a -
z e n d a , d e b a ir r o ) fo s s e m in v e s t id o s d e b a ix o d o p o d e r t r a d i c io n a l - ,
m e n t e e x e r c id o n a fá b r ic a e n o c a m p o p e la c la s s e p r o p r ie t á r ia e n a s
a d m in is t r a ç õ e s p ú b lic a s p e lo d e le g a d o d o c a p it a lis t a . A c o m i s s ã o
in te r n a e r a e le it a p e lo s tr a b a lh a d o r e s o r g a n iz a d o s no s in d ic a t o ; o s
C o n s e lh o s d e fá b r ic a , a o c o n t r á r io , d e v ia m se r e le i t o s p o r t o d o s o s
t r a b a lh a d o r e s , in c lu in d o o s a n á r q u ic o s e a t é m e s m o o s c a t ó l ic o s . É
e v id e n t e q u e G r a m s c i n ã o t in h a superstições a n tic le r ic a is 2. E d e ­
p o is , n ã o s e tr a ta v a mais, c o m o n o c a s o d o s s i n d ic a t o s , d e lu ta r p o r
s a lá r io s m e lh o r e s , p o r uma r e g u la m e n t a ç ã o d e m o c r á t ic a d a v id a d e
fá b r ic a , h o r á r io s , h ig ie n e , r e p o u s o , e tc . O C o n s e lh o d e f á b r ic a , fo r ­
m a d o p o r c o m is s á r io s e le i t o s e m c a d a s e ç ã o , n ã o d e v ia tr a ta r com o
c a p it a lis t a m a s s i m p le s m e n t e s u b s t it u í- lo p a r a r e g u la r d e cima a
b a ix o a v id a d a fá b r ic a . N a q u e l e momento, porém, h a v ia em t o d a
I tá lia , e n ã o a p e n a s e m T u r im , p r e p a r a ç ã o d e massa, maturidade,
e s p ír ito r e v o lu c io n á r io q u e p e r m it is s e m u m a tr a n s f o r m a ç ã o d e s s e
tip o ? P o d ia - s e p e n s a r q u e e x is t ia e m t o d o p a ís u m c lim a r e v o lu c i o ­
n á r io ? O d e b a t e a e s s e r e s p e ito e s t á a in d a e m a b e r to e n tr e a q u e le s
q u e p r o c u r a m a tr ib u ir a d e r r o ta d o m o v i m e n t o d o s C o n s e l h o s de
fá b r ic a à fa lta d e firmeza d o P a r tid o S o c ia l is t a e d a C o n f e d e r a ç ã o
G e r a l d o T r a b a lh o e a q u e le s q u e j u l g a m o movimento como u m a
a r q u ite tu r a in t e le c t u a l p e n s a d a p o r u m g r u p o d e j o v e n s lite r a t o s ,

2 Gramsci escreverá, um ano depois, em março de 1920: “Na Itália, em Roma, te­
mos o Vaticano, temos o Papa. O Estado liberal teve de encontrar um sistema de
equilíbrio com o poder espiritual da Igreja; o Estado operário também deverá encon- -
trar um sistema de equilíbrio” .
150
sem a verificação do terreno onde a ousada construção era destina­
da a surgir, já que apenas a pilastra turinesa afundava em terreno
sólido. O certo é que a idéia lançada a 21 de junho de 1919 em Tu­
rim por L 'Ordine Nuovo (no artigo Democracia proletária) teve uma
imediata ressonância entre os operários.

A fórmula “ditadura do proletariado” - concluía o


artigo, escrito por Gramsci em colaboração com Togliatti
- deve deixar de ser apenas uma fórmula, uma ocasião
para alardear fraseologia revolucionária. Quem deseja o
fim, deve também desejar os meios. A ditadura do prole­
tariado é a instauração de um novo Estado, tipicamente
proletário, no qual confluem as experiências institucio­
nais da classe oprimida, na qual a vida social da classe
operária e camponesa torna-se sistema difuso e fortemen­
te o r g a n iz a d o . E s te E s t a d o n ã o s e im p r o v is a .
A adesão do proletariado de Turim não se fez esperar.
Eu, Togliatti e Terracini - conta Gramsci - fomos
c o n v id a d o s a e m p r e e n d e r c o n v e r s a ç õ e s n o s círculos e d u ­
c a t i v o s , n a s a s s e m b lé ia s d e fábrica, fomos convidados pe­
las c o m i s s õ e s in t e r n a s a d is c u tir e m r e u n iõ e s r e str ita s d e
f id u c iá r io s e a r r e c a d a d o r e s . C o n t in u a m o s . O p r o b le m a
d o d e s e n v o l v im e n t o d a c o m i s s ã o in te r n a t o r n o u - s e
p r o b le m a c e n tr a l, t o r n o u - s e idéia d o Ordine Nuovo; e s te
p r o b le m a e r a c o l o c a d o c o m o fu n d a m e n ta l à r e v o lu ç ã o
o p e r á r ia , e r a o p r o b le m a d a “liberdade” proletária. Ordi­
ne Nuovo t o r n o u - s e p a r a n ó s , e p a r a t o d o s a q u e le s q u e
n o s s e g u ia m , o “j o r n a l d o s C o n s e lh o s d e f á b r ic a ” .

E n q u a n t o is s o , a p r o x im a v a m - s e o s d ia s 2 0 e 21 d e j u l h o , d a
g r a n d e g r e v e d e s o lid a r ie d a d e c o m a s r e p ú b lic a s s o c ia lis t a s -
s o v i é t ic a s d a R ú s s ia e H u n g r ia , c o n tr a o s q u a is o s g o v e r n o s da
T r íp lic e A lia n ç a , m e n o s a I tá lia , fo m e n t a v a m in ic ia t iv a s c o n tr a -
r e v o lu c io n á r ia s . N o s ú lt im o s d ia s d e m a r ç o de 1 9 1 9 , fo r a tr a n s fe r i­
d a p a r a T u r im , p a r a m a n t e r a o r d e m p ú b lic a , a B r ig a d a S a s s a r i, d e
c o m p o s i ç ã o b a s ic a m e n t e r e g io n a l, q u a s e t o d o s p a s t o r e s e c a m p o n e ­
s e s s a r d o s . A p a r tir d e m a i o , G r a m s c i e n c o n t r a v a - s e n o v a m e n t e na
c o m i s s ã o e x e c u t iv a d a seção s o c ia lis t a d e T u r im , j u n t o a in t r a n s i­
g e n t e s r e v o lu c i o n á r io s , t o d o s o p e r á r io s , m e n o s u m a m u lh e r , C le ­

151
m e n t in a Berra Perrone, empregada (o secretário e r a G i o v a n n i B o e -
ro). Antonio pressionava agora os soldados da Brigada Sassari,
seus conterrâneos, a confraternizarem com os operários tu r in e s e s ;
tentava explicar-lhes que, atirando contra um operário, estariam
atingindo um homem empenhado a lutar também pela libertação
dos pastores e dos camponeses da escravidão de sempre. Não era
um trabalho fácil e devia ser desenvolvido em uma frente dupla
porque a recordação de outras repressões ainda pesava nas massas
turinesas; portanto, também era necessário impor disciplina a mui­
tos operários, principalmente aos anarquistas, dominados pelo
espírito de desforra-. Quanto aos “ s a s s a r in o s ” , o seu estado de âni­
mo era bem espelhado por este relato, referido por G r a m s c i, de um
operário curtidor de Sassari participante das sondagens iniciais de
propaganda. O curtidor se aproximou de um “ s a s s a r in o ” . A acolhi­
da foi cordial.

O que vocês vieram fazer em Turim? - Viemos atirar


contra os senhores que fazem greve. - Mas nâo são os se­
nhores que fazem greve, são os operários, que são pobres.
- Aqui todos são senhores; todos vestem colete e usam
gravata; ganham 30 liras por dia. Eu conheço bem os
p o b r e s e sei c o m o eles s e vestem. E m S a s s a r i sim é que
tem muito pobre; nós camponeses somos todos pobres,
ganhamos 1,50 por dia. - Mas eu também sou operário e
sou pobre. - Você é pobre porque é sardo. - Mas se eu
faço greve com os outros, você atira em mim? O soldado
reflete um pouco e depois, colocando a mão nos meus
o m b r o s : - Ouça, q u a n d o v o c ê fiz e r g r e v e com o s o u t r o s ,
n ã o s a ia d e c a s a !
“o e s p ír it o d a im e n s a m a io r ia
“ E ra e s t e ” , c o m e n t a G r a m s c i,
da Brigada, que contava só com um pequeno número de operários
de mineração d a b a c ia d e I g le s ia s . T o d a v ia , p o u c o s m e s e s d e p o is ,
na véspera da greve geral de 20-21 de julho, a Brigada foi afastada
de Turim” . Os soldados partiram para Roma em um comboio du­
plo às duas da madrugada de 18 de julho. “Os turineses” , recorda o
infante Antonio Contini, de Bonorva, “na noite da partida, esta­
vam às margens da estrada, e nos aplaudiam. Estavam contentes
conosco porque nós, ao contrário dos outros, havíamos respeitado
a s p e s s o a s d o lo c a l, a s s im c o m o e la s h a v ia n o s r e s p e ita d o . N e m u m
d is p a r o s e q u e r , n e m u m c h o q u e . P o r isso e s t a v a m c o n t e n t e s e n o s
a p la u d i a m ” .

152
Dois dias depois, a 20 de julho, G r a m s c i teve a sua primeira, e
bastante rápida, experiência na prisão. Um jovem operário, ele
também prisioneiro político, Mário Montagnana, recorda-se dele
em um dos pavilhões da prisão.

Vi que pelo menos uns 12 guardas carcerários cerca­


vam e ouviam r è lig io s a m e n t e um homenzinho, vestido de
escuro, que lhes falava sorrindo. Era Gramsci. Em 36 ho­
ras, encerrado na cela, conseguira conquistar, e fascinar,
n u m e r o s o s c a r c e r e ir o s , s a r d o s c o m o e le , d ir ig in d o - s e a
eles no dialeto natal, com aquele seu modo de falar sim­
ples, p o p u la r , m a s a o m e s m o te m p o r iq u ís s im o d e s e n t i­
m e n t o s , d e f a t o s e d e id é ia s . A n o t íc ia s e e s p a lh a v a d e u m
g u a r d a a o u tr o : “ V o c ê sabe q u e n a cela n ú m e r o ta l tem
u m s a r d o , u m p o l í t i c o ... Vai lá fa la r c o m ele” . E a p e s a r
d a s e v e r a d is c ip lin a , m u it o s fo r a m ... E a g o r a a lg u n s d e le s
- t o d o s a q u e le s q u e p o d ia m f a z ê - lo - o a c o m p a n h a v a m ,
também p a r a d e s fr u ta r a in d a u m p o u c o d a s u a c o n v e r s a ,
a t é a s a la d e r e g is tr o d o s p r e s o s , o r g u lh o s o s daquele s a r ­
d o t ã o in t e lig e n t e , t ã o in s tr u íd o , t ã o s im p á t ic o .

E e is que n o s p r im e ir o s d ia s d e s e t e m b r o , s e c o n c r e t iz a a q u ilo
q u e , n o p r o j e t o d o s p r o m o t o r e s , d e v ia se r o in íc io d o m o v i m e n t o
r e v o lu c i o n á r io . O s d o is m il o p e r á r io s d a F ia t- B r e v e tti e le g e r a m o s
c o m i s s á r i o s d e s e ç ã o . N a s c ia o p r im e ir o C o n s e lh o d e fábrica. L o g o
o s o p e r á r io s d a F ia t - C e n t r o seguiram e s s a in ic ia t iv a . A a ç ã o fo r a
p r e c e d id a d e u m a intensa c a m p a n h a p r o p a g a n d ís t ic a . Durante
t o d o o v e r ã o , Gramsci e o s s e u s c o la b o r a d o r e s d e VOrdine Nuovo
in s is t ir a m n a n e c e s s id a d e d e que a s in s t it u iç õ e s t r a d ic io n a is d o m o ­
v im e n t o o p e r á r io (p a r t id o e C o n f e d e r a ç ã o d o T r a b a lh o ) , “incapa­
zes d e c o n t e r t a n t o ím p e t o d e v id a r e v o lu c i o n á r ia ” , fossem f la n ­
q u e a d o s p o r “ u m a r e d e d e instituições proletárias e n r a iz a d a s n a
c o n s c i ê n c ia d a s g r a n d e s m a s s a s ” , o s C o n s e lh o s d e fá b r ic a . F o r a m
p u b li c a d o s e n s a i o s e a r tig o s d e J o h n R e e d (Como Funciona o Sovie­
te), d e F o u r n iè r e {Um Esquema de Estado Socialista), d e G r a m s c i
{O Soviete Húngaro), d e O t t a v io P a s to r e (O Problema das Comis­
sões Internas), d e L ê n in {Democracia Burguesa e Democracia Prole­
tária), d e A n d r é a V ig lo n g o {Em favor de Novas Instituições). A r e fe ­
r ê n c ia a e x p e r iê n c ia s d e c o n s e l h o s d e o u t r o s p a ís e s era constante,
c o m o a a s s o c ia ç ã o s in d ic a lis t a r e v o lu c io n á r ia d o s I n d u s t r ia l W o r -
kers o f th e W o r ld - I W W ( T r a b a lh a d o r e s I n d u s t r ia is d o M u n d o ) ,
153
dirigida pelo marxista americano Daniel De L e o n , ou o movimento
inglês dos shop-stewards (“cada grupo de 15 operários elege um de­
legado; a assembléia dos delegados c o n s t it u i o Comitê operário; to­
dos os Comitês operários de uma região se reúnem formando um
Comitê operário local”). Da análise daqueles movimentos e do con­
fronto, do estudo da experiência soviética e do debate nas fábricas
■turinesas nascia a elaboração desta forma nova de auto-governo
proletário, dos proletários associados no partido ou “desorganiza­
dos” , inscritos ou não no sindicato. A constituição dos primeiros
Conselhos de fábrica na Fiat significava que o princípio era perfei­
tamente traduzível na realidade. A 5 de outubro, no Resto dei Carii-
no, Giorgio Sorel escreveu: “A experiência que se realiza nas fábri­
cas da Fiat tem uma importância maior do que todos os escritos
p u b lic a d o s s o b o s a u s p íc io s d a Neue Z e i t E s s a a d e s ã o p o d e r ia ser
.t o m a d a como p r e te x t o p a r a a q u e le s q u e j á a c u s a v a m o s “ o r d in o v is -
t a s ” de a n a r c o -s in d ic a lis ta s . G r a m s c i evitou e s t a in t e n ç ã o polêmica
em m u it o s s u s p e itá v e l, e s t a b e le c e n d o n e s s e m e i o t e m p o u m a d is t in ­
ç ã o e n tr e S o r e l, “ a n im a d o p o r u m a m o r m u i t o s in c e r o à c a u s a d o
p r o le t a r ia d o p a r a p e r d e r t o d o o c o n t a t o com a v id a , t o d a com­
preensão d a h is tó r ia d e le ” , e a te o r ia s in d ic a lis t a “ a s s im c o m o qui­
seram a p r e s e n t á -la a lu n o s e a p lic a d o r e s e c o m o n ã o e s t iv e s s e talvez,
d e s d e o p r in c íp io , n a m e n t e d o m e s t r e ” . E a c r e s c e n t o u :
S o r e l n ã o s e f e c h o u e m n e n h u m a ' f ó r m u la e h o je ,
c o n s e r v a n d o o q u a n t o h a v ia d e v it a l e d e n o v o n a su a
d o u tr in a , is t o é , a e x ig ê n c ia a fir m a d a d e q u e o m o v i m e n ­
to p r o le t á r io s e e x p r im a com fo r m a s p r ó p r ia s , dê vida a
instituições próprias, h o j e e le p o d e s e g u ir n ã o a p e n a s eom
o o lh a r c h e io d e in t e lig ê n c ia , m a s c o m o â n im o c h e io d e
c o m p r e e n s ã o , o m o v i m e n t o in i c ia d o p e lo s o p e r á r io s e
p o r camponeses r u s s o s , e p o d e a in d a c h a m a r d e “ c o m p a ­
n h e ir o s ” o s s o c ia lis t a s d a I tá lia q u e querem s e g u ir a q u e le
e x e m p lo 3.

C o n t in u a r ã o a a p a r e c e r , e m t o d o s p s n ú m e r o s d a r e v is ta , c o n ­
t r ib u iç õ e s d o u tr in á r ia s , p r o p o s t a s p r á tic a s e , traduzidos d a im p r e n ­
sa o p e r á r ia r u ss a , fr a n c e s a , inglesa, d o c u m e n t o s e t e s t e m u n h o s

1 L Ordine Nuovo, 11 de outubro de 1919. Grifo meu.


154
sobre a vida de fábrica e dos conselhos operários: textos de Arthur
R a n s o m e , B u k h a r in , Bêla K u n , Jules Humbert-Droz. No outono,
entremeado com a atividade de elaboração teórica dos Conselhos e
da comparação com os-textos e as experiências dos revolucionários
russos e do Ocidente, vem se desenvolvendo o debate pré-
congresso.
As primeiras eleições políticas do pós-guerra estavam marca­
das para 16 de novembro de 1919. As sessões nacionais do Partido
Socialista realizaram-se em Bolonha seis semanas antes, de 5 a 8 de
outubro. Foi um congresso nitidamente orientado para a esquerda.
Até mesmo os que apoiavam a moção de direita v o t a r a m ,p e la ade­
são do PSI à Terceira Internacional. Nenhuma das três moções se
qualificava de reformista. Turati disse falar pela fração “ que com a
nomenclatura idiota e superada, com a qual nos caluniamos r e c i­
p r o c a m e n t e , v e m indicada como reformista” . Quais eram então as
diferenças? À extrema-esquerda, um jovem engenheiro, A m a d e o
Bordiga, que desde dezembro de 1918 dirigia em Nápoles o sema­
nário Il Soviet, liderava a fração dos “abstencionistas” . Era convic­
to de que o direito concedido pela classe proprietária aos explora­
dos de depositar, de vez em quando, uma cédula eleitoral na urna
não só não favorecia o avanço dos trabalhadores, como também re­
freava o ímpeto revolucionário. Somente quando o proletariado ti­
ver perdido a ilusão de progredir através das instituições represen­
tativas burguesas e tiver se convencido da inevitabilidade da con­
quista v io l e n t a d o p o d e r , ele s e d e c id ir á a a b a te r com t o d a s a s s u a s
forças os obstáculos. Os maximalistas de Serrati também proclama­
vam “o uso da violência para a defesa contra as violências burgue­
sas, para'a conquista dos poderes e para a consolidação das con­
quistas revolucionárias”; porém, diversamente dos “abstencionis­
tas”, eles julgavam os organismos do Estado burguês (Parlamento,
prefeituras, etc.) uma tribuna útil “para uma propaganda mais in -’
tensa dos princípios comunistas” . Bordiga e Serrati diferenciavam-
se ainda em dois pontoâ: p nome do partido, que Bordiga queria
mudar para Partido C o m u n is t a Italiano; e a unidade do partido,
defendida por Serrati em contraposição a Bordiga, favorável à e x -
• p u ls ã o de quem proclamava “ a possibilidade da emancipação do
proletariado no âmbito do regime democrático”, repudiando “ o
método da luta armada contra a burguesia para a instauração da
d it a d u ç a .p r o le t á r ia ” . Enfim, à direita, contestava-se o critério da
abstenção eleitoral, que -na opinião de Lazzari, longe de demolir a
instituição parlamentar, acabaria reduzindo a dificuldade de dirlgi-
155
la para a burguesia. Além disso, contestava-se também o principio
da violência como única via para a conquista do poder. Em Turim,
no debate que aconteceu ao congresso, o grupo de UOrdine Nuovo
alinhou-se com Serrati, que era o dominante; o secretário da se­
ção, Giovanni Boero, e Giovanni Parodi apoiaram a moção “abs­
tencionista” , a favor de quem Boero interveio no congresso de Bo­
lonha. A votação congressual deu a maioria aos “ e le i c io n i s t a s ” de
Serrati (48.411 votos); a moção “maximalista unitária” de Lazzari
totalizou 14.880, cabendo à moção “abstencionista” apenas 3.417
votos.
O movimento turinês dos Conselhos não tivera muito eco em
Bolonha, afora as referências irônicas de Turati ao “significado
taumatúrgico da palavra Soviete” e “ao voto a t o m ís t ic o dos desor­
ganizados e dos próprios fura-greves” . Na realidade, nem mesmo
Serrati e Bordiga compartilhavam das propostas de UOrdine Nuo­
vo. O debate, iniciado antes do congresso, intensificou-se. Para Bor­
diga, com os Conselhos de fábrica se repetia o erro de acreditar
“que o proletariado possa emancipar-se ganhando terreno n a s .r e la -
ções econômicas, enquanto o capitalismo ainda detém, através do
Estado, o poder político” : e o outro erro era contrapor um órgão
substancialmente corporativo ao único instrumento de libertação
d o p r o le t a r ia d o , o p a r tid o d e c la s s e , c o m u n is t a . P o r s e u la d o , S e r ­
rati definia o v o t o c o n c e d id o aos “ d e s o r g a n i z a d o s ” u m a a b e r r a ç ã o ,
já q u e o a la r g a m e n to d o v o t o a o s “ d e s o r g a n i z a d o s ” era u m c r é d ito
de c a p a c id a d e r e v o lu c io n á r ia d a d o p e r ig o s a m e n t e à “ m a s s a a m o r ­
fa ” . S e r r a ti d e b it a v a a Gramsci e a o s s e u s a m i g o s “ u m a curiosa
c o n f u s ã o e n tr e o s Soviete, ó r g ã o s p o lí t i c o s e in s t r u m e n t o s d o g o v e r ­
n o em uma revolução vitoriosa, e o s C o m it ê s d e fá b r ic a , ó r g ã o s técni­
cos d a p r o d u ç ã o e d a o r d e n a ç ã o in d u s t r ia l” . E concluía: “A d it a d u ­
ra d o p r o le t a r ia d o é a d it a d u r a c o n s c i e n t e d o P a r tid o S o c ia l is t a ” .
C o n t u d o , em T u r im ( o n d e o P S I , v e n c e d o r p o r ampla m a r g e m
d a s eleições, g a n h a r a 11 dos 18 a s s e n t o s a tr ib u íd o s a o c o lé g i o e le i­
to r a l; n e n h u m “ o r d in o v i s t a ” se c a n d id a t a r a ), a r é p lic a d e G r a m s ­
c i, ' d e que o p r o c e s s o r e v o lu c io n á r io d e v e s e c u m p r ir n o lo c a l d e
p r o d u ç ã o , n a fá b r ic a , s e n d o utópico conceber a in s t a u r a ç ã o do
p o d e r p r o le t á r io c o m o u m a d ita d u r a d o s is t e m a d e seções d o P a r ti­
d o S o c ia lis t a , o b t iv e r a c o n s e n s o e n tr e o s d e fe n s o r e s d e tendências
q u e , em â m b it o n a c io n a l, o p u n h a m - s e a o s C o n s e lh o s . P o r exemplo,
o s “ a b s t e n c io n is t a s ” B o e r o e P a r o d i e s t a v a m c o m G r a m s c i.
O m o v i m e n t o d o s C o n s e lh o s s e ampliou. N o o u t o n o , m a is de
3 0 m il m e t a lú r g ic o s , in c lu in d o o s d a F ia t - L i n g o t t o , d a F i a t - D i a t t o ,

156
da S a v ig l ia n o , da Lancia, etc., contava com os seus Conselhos de
fábrica. A primeira ação coordenada' dos Conselhos teve lugar a 3
de dezembro'de 1919, duas semanas depois das eleições políticas.

Atrás da ordem da seção socialista, que concentrava


em suas mãos todo o mecanismo do movimento de massa
- contará G r a m s c i - os Conselhos de fábrica mobiliza­
ram, sem nenhuma preparação, no decorrer de uma hora,
120 mil .operários, enquadrados segundo as empresas.
Uma hora depois o exército proletário precipitou-se
como uma avalanche até o centro da cidade e varreu das
ruas e praças toda a canalha nacionalista e militarista 4.
Os industriais não podiam mais seguir o movimento com a in­
diferença inicial. À contra-ofensiva começou nos últimos dias de
março de 1920.
Fora introduzida em toda a Itália a hora legal. Os comissários
das seções das indústrias mecânicas, uma dependência da Fiat, pe­
diram que o horário de trabalho continuasse a correr de acordo
com a hora solar, e insistiram para que os ponteiros do grande reló­
gio da fábrica assinalassem a hora antiga. Em resposta, a comissão
interna foi despedida em bloco. Seguiu-se uma greve de protesto à
qual, por solidariedade, logo todos os metalúrgicos de Turim se as­
sociaram, ocupando as fábricas. A reação dos industriais não se fez
esperar. Decidida a portas fechadas a 29 de março, as tropas entra­
ram nas fábricas. E foi exatamente no decorrer das negociações
para a resolução desta questão que os industriais colocaram o
problema dos Conselhos de fábrica. Não os reconheciam; teriam
cedido em pontos marginais para que o movimento dos Conselhos
acabasse. O conflito se agravou. Mas a direção do PSI e da Confe­
deração Geral do Trabalho não deram à luta, agora que ela nascia
da reivindicação do direito a manter vivas as instituições novas do
poder proletário, o apoio decidido que os “ t u r in e s e s ” esperavam.
O PSI era um partido em crise, d e s v i t a li z á d o , ao invés de forta­
lecido, pelo seu recente crescimento, demasiadamente brusco: 300
mil inscritos contra os 50 mil do período anterior à g u e r r a ;d o is mí-

4 O movimento turinês dos Conselhos de fábrica, relatório enviado em julho de 1920


ao Comitê Executivo da Internacional Comunista, e depois publicado por VOrdine
Nuovo diário, a 14 de março de 1921.
157
Ihões de filiados à Confederação Geral do Trabalho contra o meio
milhão de 1914; e até mesmo o grupo parlamentar que havia tripli­
cado o seu número, passando de 5 0 a 150 deputados. Uma expan­
são que suscitava euforia e junto com e la problemas novos de en­
quadramento, com estas duas conseqüências: uma fé revolucionária
difusa, baseada mais na presunção de que a marcha do proletariado
seria contínua até desembocar fatalmente na vitória final do que na
consciência e na predisposição dos meios indispensáveis para esta
vitória; e a atribuição de “cargos de direção absolutamente inade­
quados a sua capacidade” a “ demagogos despreparados d o u tr in a -
riamente e p r iv a d o s de experiência” (como Pietro Nenni). Os ho­
mens de maior relevo intelectual encontravam-se nos grupos mino­
ritários de direita, entre os reformistas, e de esquerda (L ’Ordine
Nuovd). Dois grupos, ambos conseqüentes: uns já rendidos àquela
q u e p a r a e le s e r a a e v id ê n c ia d e q u e a p e r s p e c t iv a r e v o lu c i o n á r ia s e
d is ta n c ia v a 5; o s o u t r o s c o n v ic t o s d e q u e o m o m e n t o f o s s e o b j e t iv a ­
m e n t e r e v o lu c i o n á r io e p o r is s o e m p e n h a d o s a c o n s t r u ir o s m e io s
p a r a o fim e d e c id i d o s a e x ig ir da t o t a lid a d e d o p a r t id o a a d o ç ã o
d e s s e s m e io s . O e q u ív o c o estava n o c e n tr o , o n d e a m a io r ia , d is t in ­
g u in d o - s e d o s r e fo r m is t a s , le v a v a a v o c a li z a ç ã o r e v o lu c i o n á r ia ao
paroxismo, s e m p o r é m c o lo c a r - s e o p r o b le m a , n o q u e d is t in g u i a - s e
d a a la c o m u n i s t a , d o m o d o d e a t u a ç ã o d o projeto revolucionário.
O P S I p a r e c ia a t in g id o p o r uma espécie d e “ m o n o m a n i a d e lir a n te e
in o f e n s iv a ” ( T a s c a ) . C r io u - s e n e le u m a “ p s i c o l o g i a p a r a s itá r ia , a
d o h e r d e ir o à c a b e c e ir a d e u m moribundo [ a b u r g u e s ia ] d e q u e m
n ã o v a le a p e n a n e m m e s m o e n c u r ta r a a g o n i a ” . E e is a inevitável
c o n s e q ü ê n c i a , a in d a e m u m a im a g e m d e T a s c a : “ E s p e r a n d o a h e ­
r a n ç a , a g o r a a s s e g u r a d a , a v id a p o lí t i c a it a lia n a s e tr a n s f o r m a e m
u m b a n q u e t e permanente n o qual o c a p it a l d a p r ó x im a r e v o lu ç ã o s e
d is s ip a e m o r g ia s d e p a la v r a s ” .
N e m m e s m o a g o r a q u e e m T u r im a fr e n te e m p r e s a r ia l e o s m e ­
ta lú r g ic o s e s t a v a m e m p e n h a d o s e m u m a p r o v a d e f o r ç a t a l v e z d e c i­
s iv a , a d ir e ç ã o d o P S I m o s t r a v a q u e r e r sa ir d a s u a lin h a vacilante,
r e c e p tiv a à h ip ó t e s e r e v o lu c io n á r ia m a s , a p ó s a o r g ia d e p a la v r a s ,

Foi exatamente Cláudio Treves, um expoente da direita, quem demonstrou a


real consistência das forças em luta, quando, em março de 1920, em um famoso dis­
curso na Câmara, conhecido como o “discurso da expiação” , declarou, dirigindo-se
a Nitti: “Vocês não podem mais nos impor a sua ordem, e nós não podemos ainda
lhes impor a nossa”.
158
estéril de fato. Gramscí preparou e fez aprovar pela seção nove
pontos para o Conselho Nacional do PSl, publicados posterior­
mente com o título Por uma Renovação do Partido Socialista. Não
cabe discutir aqui se, como premissa, o documento espelhava a real
situação italiana, declarada revolucionária, ou se não era ao .contrá­
rio, viciado por uma abstração, pela qual a carga revolucionária
dos trabalhadores italianos era assimilada à capacidade de iniciati­
va do proletariado turinês: “ Os operários industriais e agrícolas são
incoercivelmente determinados, em todo o território nacional, a co­
locar de modo explícito e violento a questão da propriedade dos
meios de produção” 6. O núcleo “ maximalista” também comparti­
lhava deste diagnóstico, mesmo que equivocado. Só excitava em ex­
trair suas conseqüências:

O Partido Socialista assiste como espectador ao de­


senrolar dos acontecimentos, não tem nunca uma opinião
sua a exprimir, nem que seja em depéndência das teses re­
volucionárias do marxismo e da Internacional Comunis­
ta, não lança palavras de ordem que possam ser colhidas
pelas massas, dar uma linha geral, unificar e concentrar a
ação revolucionária. O Partido Socialista, como organi­
zação política da parte da vanguarda da classe operária,
deveria desenvolver uma ação de conjunto apta a colocar
toda a classe operária em grau de fazer triunfar a revolu­
ção e de fazê-la triunfar de modo duradouro.

E, no entanto, “mesmo após o congresso de Bolonha, ele con­


tinuou sendo um mero partido parlamentar, que se mantém imóvel
nos limites estreitos da democracia burguesa... Não adquiriu uma
fisionomia autônoma de partido característico do proletariado re­
volucionário e só do proletariado revolucionário”. Com os refor­
mistas é passivo 7; desligou-se das linhas da Internacional Comunis­
ta. O Avantil e a casa editora do partido ignoram as polêmicas
sobre a doutrina e sobre a tática da Internacional e o Partido per-

1 Grifo meu.
’ “Nem a direção do Partido nem o Avantil contrapuseram uma concepção revo­
lucionária própria à propaganda incessante q.ue os reformistas e os oportunistas es­
tavam desenvolvendo no Parlamento e nos organismos sindicais.”

159
manece afastado “deste vigoroso debate ideal no qual se temperam
as consciências revolucionárias e se constrói a unidade espiritual e
de ação dos proletários de todos os países” .
Da análise precedente - prosseguia o documento de
' Gramsci - fica evidente qual é a obra de renovação e de
organização que nós julgamos indispensável ser executa­
da na estrutura do Partido. O Partido deve conquistar
uma fisionomia precisa e distinta. De partido parlamen­
tar pequeno-burguês deve tornar-se o partido do proleta­
riado revolucionário... um partido homogêneo, coeso,
com uma doutrina própria, uma tática sua, uma discipli­
na rígida e implacável. Os não comunistas revolucioná­
rios devem ser eliminados do Partido e a direção, livre da
preocupação de conservar a unidade e o equilíbrio entre
as diversas tendências e entre os diversos leaders, deve di­
rigir toda a sua energia para organizar as forças operárias
em pé de guerra... O Partido deve lançar um manifesto no
qual a conquista revolucionária do poder político seja co­
locada de modo explícito, no qual o proletariado indus­
trial e agrícola seja convidado a preparar-se e a armar-se e
no qual sejam acenados os elementos das soluções comu­
nistas para os problemas atuais: controle proletário sobre
a produção e sobre a distribuição, desarme dos corpos ar­
mados mercenários, controle dos municípios exercitados
pelas organizações operárias.
O eixo do documento era o ponto 3, que profetizava a maré
reacionária fascista:

A fase atual da luta de classe na Itália é a fase que


precede ou a conquista do poder político por parte do
proletariado revolucionário... ou uma tremenda reação
por parte da classe proprietária e da casta governativa.
Nenhuma violência será deixada de lado para subjugar o
proletariado industrial e agrícola a um trabalho servil.
Procurar-se-á romper inexoravelmente os organismos de
luta política da classe operária (Partido Socialista) e in­
corporar os organismos de resistência econômica (os sin­
dicatos e as cooperativas) às engrenagens do Estado bur­
guês.
160
No momento da redação destes nove pontos, somente as ofici­
nas metalúrgicas haviam desertado em Turim. Os industriais resis­
tiam. O poder do Estado estava com eles.
Hoje, Turim - anotava Gramsci em 3 de abril de
1920, no Avantil turinês - é uma praça-forte guarnecida.
Fala-se de 50 mil soldados, nas colinas estão dispostas as
baterias, no campo esperam os reforços, na cidade os
blindados. As metralhas são dispostas nas casas particu­
lares, nos arredores que têm fama de serem mais dispos­
tos à revolta, nas cabeceiras das pontes, junto aos cruza­
mentos de estradas e às fábricas.
G Estado temia a insurreição e talvez os industriais, como
Gramsci estava certo, tencionavam provocá-la, prontos para repri­
mi-la n c sangue e a esmagar de uma vez por todas o movimento
operário turinês. Gramsci pressentia a intenção da frente de empre­
sários de lançar-se ao ataque. Achava, porém, que as condições
para o combate frontal ainda não estavam amadurecidas: “Concen­
trou-se e acumulou-se na nossa cidade nestes últimos meses, uma
soma de energias revolucionárias que tende a expandir-se a toto
custo, procurando uma via de saída. E a única via de saída não deve
ser, por agora, uma dilaceração local, perigosa, talvez fatal", Julgava
mais conveniente, no momento, “ um aumento de intensidade da
obra de preparação em todo o país, uma difusão de forças, uma ace­
leração geral do processo de desenvolvimento dos elementos que
devem concorrer, todos juntos, a uma obra comum” 8. No entanto,
é proclamada a 13 de abril a greve geral. Seria uma solução intem­
pestiva, com os patrões apenas aguardando, como julgava Grams­
ci, o choque frontal?
O caráter mais relevante da greve de abril, a sua novidade em
relação a outras greves, econômicas ou de protesto contra a guerra,
foi que desta vez o proletariado não era movido pela fome ou pelo
desemprego, não pedia melhorias salariais nem uma nova regula­
mentação do trabalho. A classe operária turinesa empenhava-se
agora em uma batalha pelo controle da produção através dos Con­
selhos de fábrica. Mas era uma luta difícil, não apoiada pelas mas­

8 O Avanti', turinês, de 3 de abril de 1920. O grifo é meu.


161
sas do resto da Itália e por isso sem perspectivas razoáveis de irrup­
ções revolucionárias, devido ao isolamento no qual o proletariado
turinês se encontrava. A cidade “foi inundada por um exército de
policiais; ao seu redor foram dispostos canhões e metralhadoras
nos pontos estratégicos” 9. Depois de dez dias de resistência, o re­
torno ao trabalho foi alcançado com base em um acordo que signi­
ficava praticamente a derrota de Gramsci e dos “ordinovistas”.
Naquele momento também se aprofundavam as divergências
entre o grupo próximo a Gramsci e, em outra vertente, as hierar­
quias sindicais e a direção do PSI, acusadas de “estreiteza de vi­
são”. Houve uma polêmica entre o Avantil de Milão, que refletia as
posições da maioria do PSI, e o Avantil piemontês, aberto à influên­
cia dos “ ordinovistas”, cujas teses eram apoiadas pelo redator-
chefe Ottavio Pastore. Serrati acusou os dirigentes socialistas turi-
neses de terem aceito a provocação da frente empresarial em um mo­
mento errado e de ter procurado, até a última hora, a ajuda dos ou­
tros proletários da Itália, “menos fortes” e “menos preparados”,
argumento esse que, embora pudesse dar margem a uma réplica
(devido à responsabilidade que Serrati e a maioria do PSI tinham
por aquela “menor força” e “menor preparação”), era de fato in­
contestável. O Avantil piemontês rebateu: “O proletariado turinês
foi batido localmente, mas venceu nacionalmente porque a sua cau­
sa tornou-se a causa de todo o proletariado nacional” . Com pala­
vras diferentes, repetia-se a frase conclusiva do último boletim di­
fundido pelo comitê de greve: “Esta batalha acabou; a guerra conti­
nua” .
Mas a crise interna do PSI ia além da irreconciliabilidade, no
terreno prático, das diversas tendências, a reformista, a maximalis­
ta e a comunista. Também entre os grupos comunistas (II Soviet de
Bordiga e VOrdine Nuovo) faltava coesão; e no interior do próprio
grupo “ordinovista” começava a se fazer sentir, por um lado, a rup­
tura com Tasca e por outro, delineavam-se posições diferenciadas,
chegando mesmo ao distanciamento de Gramsci de Terracini e To-
gliatti. ,
A não ser a comum aversão aos reformistas, Gramsci discor­
dava de Bordiga em quase todos os temas do momento: os Conse­
lhos de fábrica, o problema do partido revolucionário, a posição

9 Relatório de Gramsci à Internacional, já citado.

162
dos socialistas frente às eleições. Para Bordiga, ater-se ao esquema
dos Conselhos significava preocupar-se mais com a criação dos ins­
titutos do poder socialista do que com a conquista do poder. Era er­
rado, escreveu7/ Soviet, “fazer a questão do poder na fábrica priori­
tária à questão do poder político central” . Sobre a questão do parti­
do revolucionário, II Soviet sustentava desde 1? de fevereiro de
1920: “Na nossa opinião, nada é mais válido do que a cisão. Antes
de tudo, cada um em seu lugar. Sabe-se exatamente se fulano é -co­
munista ou não. Não há mais condição de se enganar... Com uma
boa cisão se faz a luz. Os comunistas estão aqui, os oportunistas de
todos os matizes estão ali”. Gramsci, ao contrário, achava que a ci­
são à esquerda não era a linha mais justa e que os grupos comunis­
tas existentes no PSI deviam tender principalmente no sentido de
expandir-se dentro do partido até conquistar a direção.
A posição abstencionista da fração bordighiana devia-se a uma
divergência nítida com os “ordinovistãs” . Segundo Bordiga, a recu­
sa da democracia burguesa e das suas instituições deveria ser total:
um socialista não devia ir às urnas. A 8 de maio de 1920, Gramsci
foi à Florença, convidado na qualidade de observador, a uma con­
ferência dos “abstencionistas”, que vinham organizando-se em es­
cala nacional. Inutilmente, ele propôs durante o congresso o aban­
dono da posição abstencionista. “Não se pode constituir um parti­
do político”, disse, “sobre a restrita base do abstencionismo. É ne­
cessário um amplo contato com as massas que só pode ser atingido
através de novas formas de organização” (e o Conselho de fábrica
era uma nova forma de organização). A proposta foi rejeitada.
Gramsci não demorou a exprimir com reservas a sua opinião a res­
peito.

Sempre defendemos - escreveu a 3 de julho no Ordi-


ne Nuovo - que o dever dos núcleos comunistas existentes
no Partido seja aquele de não cair nas alucinações parti-
cularísticas (problema do abstencionismo, problema da
constituição de um partido verdadeiramente comunista),
mas sim de trabalhar para a criação das condições de
massa nas quais seja possível resolver todos os problemas
particulares como problemas do desenvolvimento orgâni­
co da revolução comunista.

Assim, o abstencionismo e o projeto bordighiano de constitui­


ção de um partido “verdadeiramente” comunista com uma ruptura
163
à esquerda que destacasse do PSI uma minoria de revolucionários
“puros” eram para Gramsci nada mais do que “alucinações partí-
cularistas” ,
A discordância entre Gramsci e Tasca nascia no terreno dos
Conselhos, devido à tendência de Tasca, tenazmente combatida por
Gramsci, de integrar o movimento no âmbito sindical, sob a tutela
da Confederação Geral do Trabalho (de direção reformista). Assim
se expressará Tasca muitos anos depois, recordando o seu primeiro
aprendizado ao lado de Bruno Buozzi e dos demais dirigentes da
FIOM na greve dos operários automobilísticos no inverno de 1911-
1912:

Aqui se formaram a minha experiência direta das lu­


tas operárias e os meus laços com a organização sindical
aos quais permaneceram alheios, naturalmente, os de­
mais futuros redatores do Ordine Nuovo. Isto criou entre
nós uma disparidade que, embora seja discutida, encon­
tra-se na origem da discordância que nos divide e que de­
terminou a quase ruptura de 1920.
A “quase ruptura” ficou clamorosamente evidente na polêmi­
ca publicada nas colunas do Ordine Nuovo que, sempre viva e em al­
guns momentos.áspera, teve lugar entre junho e agosto:
Naquele momento, Gramsci tendia a diferenciar-se também de
Terracini e Togliatti. A comissão executiva da seção socialista turi-
nesa (compreendendo desde fevereiro “ordinovistas” e “abstenéío-
nistas”) foi submetida a uma crise pelos “abstencionistas” que,
querendo acelerar um processo secessionista no PSI e, além disso,
procurando impor a tese da não participação dos socialistas nas
iminentes eleições administrativas, marcada para 31 de outubro e 7
de novembro de 1920, demitiram-se em julho. Devia ser eleita agora
uma nova direção. Gramsci não quis participar da lista junto com
Terracini e Togliatti. Como Terracini e Togliatti, ele era, vale a pena
repetir, favorável à participação dos socialistas nas eleições e seca­
mente rechaçava a posição bordighiana. Ao mesmo tempo, porém,
julgava que eleicionismo e abstencionismo fossem em si “progra­
mas fictícios” e que a querela eleicionismo-abstencionismo contri­
buía apenas para aprofundar os contrastes entre os grupos comu­
nistas do PSI, prejudicando o trabalho no campo da ação de massa,
o trabalho de educação revolucionária, o único profícuo. Assim, ele
criou um Grupo de Educação Comunista, à meia distância entre as
164 .
outras duas frações. Propunha-se também a afastar para as mar­
gens do debate as táticas opostas com relação às eleições, procuran­
do, ao contrário, “ impor às assembléias de partido, com infatigável
e paciente energia, a discussão dos problemas fundamentais da clas­
se operária e da revolução comunista” , e ainda, “fazer com que a
seção trabalhe de modo útil na preparação dos quadros da revolu­
ção e da organização social que deverá ser a sua expressão concreta
e que por isso, através do impulso das massas, dê uma orientação
precisa aos sindicatos e à Câmara do Trabalho” . Poucos o segui­
ram, Entraram no Grupo de Educação Comunista apenas 17 com­
panheiros (entre os quais Battista Santhià, Vincenzo Bianco e An­
dréa Viglongo). O isolamento de Gramsci traduziu-se nas votações
para a eleição da nova direção. Os “eleicionistas” , de quem Grams­
ci se separa (Togliatti, Montagnana, Terracini, Roveda, etc.) preva­
leceram cóm 466-465 votos. Aos candidatos “abastencionistas”
(Boero, Parodi, etc.) couberam 186-185 votos. As cédulas em bran­
co, solicitadas por Gramsci, foram 31. Em agosto de 1920, Togliatti
assumiu a secretaria da seção.

165
f
14 .

Desde 19 de julho, desenrolava-se em Moscou o II Congresso


da Internacional Comunista. O Exército Vermelho havia derrotado
definitivamente os exércitos contra-revolucionários de Kolciak,
Denikin e Wrangel. Havia uma perspectiva de expansão revolucio­
nária em outras partes do mundo. No entanto, graves acontecimen­
tos para o movimento operário europeu indicavam as dificuldades
que a iniciativa teria de enfrentar. Em Berlim, militares aliados a
social-democratas derrotaram os revolucionários espartaquistas,
em janeiro de 1919, assassinando os seus principais dirigentes, Rosa
Luxemburgo e Karl Liebknechy. Uma outra aliança entre militares
e social-democratas derrubara, a D de maio de 1919, a república so­
viética da Baviera. Na Hungria, o governo comunista de Bella Kun,
derrotado pelas tropas contra-revolucionárias romenas e tchecoslo-
vacas, foi substituído no início de agosto de 1919 pelo social-
democrata Peidle. Tratava-se, no entanto, de um governo-ponte. A
12 de agosto, sobe ao poder na Hungria o almirante Nicola Horthy,
impondo ao país o terror branco. Ao se fazer um balanço, uma úni­
ca conclusão parecia possível: a revolução só vencera onde o parti­
do revolucionário (o bolchevique na Rússia) fora à frente sem (e
contra) os partidos moderados de linha reformista (mencheviques e
socialistas revolucionários). Inevitavelmente, a orientação central
167
do segundo congresso da Internacional Comunista foi a guerra à
social-democracia. A assembléia discutiu as 21 condições para a ad­
missão dos partidos socialistas na Terceira Internacional. A pré-
condição era, além da mudança de nome para Partido Comunista,
que os reformistas fossem imediatamente expulsos.
Nenhum “ordinovista” figurava na delegação do PSI. Havia
comunistas “eleicionistas” e “ abstencionistas” , todos hostis (de
Serrati a Bordiga) aos “turineses” e ao movimento dos Conselhos
de fábrica. No entanto, o congresso teve um desenvolvimento mais
favorável ao diretor de fO rdine Nuovo do que aos diretores do
Avanti! e do Soviet.
Naquele momento, o que sabiam de Gramsci em Moscou? Â
esse respeito, é muito revelador (e quase desconhecido) o testemu­
nho de um funcionário da Internacional, V. Degott, vindo à Itália
no finai de 1919. Podemos ler em um livreto impresso em Moscou
em 1923 intitulado Em Uberdade, na ilegalidade (registros de traba­
lho ilegal no exterior em 1918-1921), e jamais traduzido1, onde D e ­
g o t t conta:

Casualmente caiu em minhas mãos o periódico co­


munista Ordine Nuovo, dirigido por Gramsci, editado em
Turim semanalmente. Fiquei muito interessado pela
publicação. A posição justa que percebia claramente em
cada linha me fez pedir ao companheiro Viz... [Aron
WiznerJ que trouxesse Gramsci a Roma. Ele veio imedia­
tamente. Era um companheiro interessante, estupendo.
Pequeno, corcunda, uma grande cabeça, um olhar pro­
fundo e inteligente. Tranquilamente me fez uma análise
da situação italiana. Em todo o seu pensamento percebe-se
o marxismo profundo. Na cidade de Turim... a base do
seu jornal era grande, assim como a influência de Grams­
ci, se bem que Serrati e um companheiro russo conhecido
como Nicolini fossem de um parecer diametralmente
oposto.
Retornando a Moscou para o II Congresso da Internacional,
Degott encontrou-se com Zinoviev no “Smolny” : “ Entreguei-lhe o
relatório do companheiro Gramsci” . Tratava-se do relatório sobre

1 Devo a Ren/o De Kelice a consulta das partes referentes ao trabalho ilegal na


Itália.

168
o movimento dos Conselhos de fábrica. Depois Degott esteve com
Lênin: “ Falei muito tempo sobre Serrati. Falei do trabalho colossal
que os nossos companheiros turineses executam sob a direção de
Gramsci” .

Assim, sabemos finalmente, através do testemunho pratica­


mente inédito de V. Degott, que Gramsci e os “ordinovistas”, em­
bora excluídos da delegação do PSI ao II Congresso da Internacio­
nal, não estavam desligados do vértice do movimento comunista. A
sua posição suscitou um eco imediato. No 17’ ponto das Teses
sobre as tarefas fundamentais do segundo Congresso da Internacional
Comunista, redigidas por Lênin, afirmava-se explicitamente:

No que tange ao Partido Socialista Italiano, o segun­


do Congresso da III Internacional considera substancial­
mente justas as críticas do partido eas propostas práticas,
publicadas como propostas ao Conselho Nacional do
Partido Socialista Italiano, em nome da seção turinesa do
próprio partido, na revista VOrdine Nuovo de Ê de maio
de 1920, que correpondem plenamente a todos os princí­
pios fundamentais da III Internacional.
Tratava-se do documento de abril, os nove pontos publicados
com o título Para uma renovação do Partido Socialista, ao qual já
nos referimos antes. Outras manifestações de apoio às posições
gramscianas foram dadas por Lênin no decorrer da assembléia.
Serrati recusava-se a aceitar a sugestão da expulsão imediata
dos reformistas. Em outros países - admitia - os reformistas se alia­
ram durante a guerra às burguesias nacionais e depois traíram a re­
volução. Mas transpor mecanicamente para a situação italiana um
julgamento desse tipo - válido para a social-democracia alemã e
francesa mas não para os reformistas do PSI - era um equívoco. Os
reformistas indesejáveis, os Bissolati, os Bonomi, os Podrecca, já ti­
nham sido expulsos do partido em 1912, no congresso de Reggio
Emilia. Colocar no mesmo nível os Turati, os Modigliano, os Tre-
ves, que durante a guerra demonstraram respeito à disciplina do
partido e saudaram como um evento benéfico a Revolução Russa,
solicitando em seguida, solidários com os grupos comunistas, a
adesão do PSI à Terceira Internacional, seria uma injustiça. Uma
gradual depuração do partido podia ser aconselhável, mas não a ci­
169
são2. O líder maximalista julgava também, não sem fundamento,
que a possibilidade de uma ruptura da frente socialista na Itália jus­
tamente quando a burguesia reacionária começava a se organizar
para o contra-ataque, era um sério risco.

Acredito - disse no congresso, falando na sessão de


30 de julho - que é preciso levar em conta as condições
particulares de cada país... Eu lhes pergunto, companhei­
ros: se, por exemplo, nós voltássemos hoje à Itália e a rea­
ção se lançasse contra nós, se encontrássemos o imperia­
lismo alinhado contra nós, vocês poderiam, companhei­
ros do Comitê Executivo, nos aconselhar a perpetrar uma
cisão em uma situação desse tipo? Não, egrégios compa­
nheiros, confiram ao Partido Socialista Italiano a possibi­
lidade de escolher por si mesmo o momento da depura­
ção. Todos nós lhes asseguramos que a depuração será
feita, mas dê-nos a possibilidade de fazê-la de um modo
que seja útil à massa operária, ao partido, à revolução.
quê preparamos na Itália.

Lênin, firme no seu julgamento geral sobre a social-


democracia e pouco disposto a fazer distinção entre os reformistas
italianos e os dos outros países, resistiu à diferenciação. Na mesma
sessão de 30 de julho de 1920, replicou a Serrati:

O que temos a dizer simplesmente aos companheiros


italianos é que é a linha dos militantes do Ordine Nuovo, e
não a da atual maioria dos dirigentes do Partido Socialis­
ta e do seu grupo parlamentar, que corresponde à linha
da Internacional Comunista... Por isso afirmamos aos
companheiros italianos e a todos os partidos que têm
uma ala direita: a tendência reformista não possui nada
em comum com o comunismo.

2 Em 1926, recordando nas páginas do Unità, a figura de Serrati, falecido há pou­


co tempo, Gramsci escreverá o seguinte: “O traço essencial da personalidade de Ser­
rati como homem de partido era dado pelo sentimento de unidade, pelo esforço in­
cessante para conservar esta unidade que representava dezenas e dezenas de anos de
sacrifício e de luta, que significava perseguições suportadas em conjunto, anos de
prisão passados juntos”.
170
Três dias depois, a 2 de agosto, foi a vez de Bordiga ser o alvo
da libelo leninista. Já em O extremismo, Lênin acusara o líder do
grupo napolitano e os companheiros “abstencionistas” de retirar
’da sua “justa crítica aos senhores Turati e consortes a falsa conclu­
são de que, em geral, toda participação no Parlamento seja prejudi­
cial”: “Os esquerdistas italianos não podem apresentar nem sequer
a sombra de um argumento sério em defesa dessa opinião. Eles sim­
plesmente ignoram (ou procuram esquecer) os exemplos internacio­
nais de uma utilização efetivamente revolucionária e comunista,
dos parlamentos burgueses sem dúvida útil à revolução proletária".
Na sede do congresso, reafirmou e ampliou a crítica:

Ao que me parece, o companheiro Bordiga preten­


deu defender aqui o ponto de vista dos marxistas italia­
nos; mas, não obstante, não respondeu a nenhum dos ar­
gumentos adotados por outros marxistas em favor da
ação parlamentar... Você, companheiro Bordiga, sabe
que na Rússia demonstramos, não somente na teoria,
mas também na prática, a nossa vontade de destruir o
parlamento burguês. Mas esqueceu que isso ç impossível
sem uma preparação bastante longa e que, na maioria dos
países, é ainda impossível destruir o parlamento de um
golpe só. Nós somos obrigados a conduzir também no par­
lamento a luta pela destruição do parlamento... Diz-se
que o parlamento é um instrumento do qual se serve a
burguesia para enganar as massas. Mas este argumento
pode ser dirigido contra você, companheiro Bordiga, ele
se volta contra as suas teses. C oijio mostrar às massas efe­
tivamente atrasadas e enganadas pela burguesia o verda­
deiro caráter do parlamento? Como denunciar esta ou
aquela manobra parlamentar, a posição deste ou daquele
partido, se não se entra no parlamento, se procuramos
nos manter fora do parlamento?... Por hora, o parlamen­
to também é uma arena da luta de classes.

O II Congresso da Internacional Comunista encerrou-se a 7 de


agosto de 1920. Com ele, Gramsci teve um novo impulso, embora a
sua condição pessoal naquele momento fosse, por outras circuns­
tâncias, objetivamente difícil: desconhecido ou quase desconhecido
fora de Turim, e na própria Turim, em litígio com Tasca, afastado
dos “abstencionistas”, autônomo em relação à maioria da seção
171
(Togliatti, Terracini, etc.) e combatido pelas hierarquias sindicais.
Mandou chamar em Cagliari (para ter quem o ajudasse em seus
afazeres - acerto- de contas e preocupações semelhantes - com os
quais facilmente se perturbava) o irmão Gennaro, encarregado de
administrar L'()rdine Nuovo. Com Gennaro próximo, reencontrou
também algo que há muito lhe faltava, um afeto seguro e, em mui­
tos aspectos, um guia. Pedia-lhe conselhos. A ele confiava aquilo
que nem os mais próximos companheiros de trabalho e de luta sa­
biam. Dirá, anos depois, em uma carta da prisão: “Não acreditava
que seria possível rever meu irmão em Turim. Fiquei muito conten­
te, principalmente porque me sentia mais próximo de Gennaro do
que do resto da família” . Depois da chegada do irmão mais velho
sentia-se menos isolado.
Não se deve, todavia, acreditar que os problemas internos ao
grupo do Ordine Nuovo durante o verão tivessem debilitado, mesmo
que só por um momento, o seu fervor. Com indomável tenacidade
continuara a sua batalha sobre o tema dos Conselhos e pela expan­
são dos grupos comunistas dentro do PSi. Nas páginas de L ’Ordine
Nuovo de 21 de agosto deu a notícia da solidariedade expressa por
Lênin ao movimento turinês e a comentou brevemente:
O relatório que a seção socialista de T urim tinha pre­
parado para o Conselho Nacional de abril não foi levado
em consideração pelos organismos centrais e responsáveis
do Partido. Lido em Moscou por companheiros do Co­
mitê Executivo da 111 Internacional, o relatório foi consi­
derado como base de julgamento sobre o Partido Socia­
lista Italiano e apontado como objeto de discussão útil
para um congresso extraordinário. G relatório foi escrito
nos primeiros dias da greve dos metalúrgicos turineses,
quando ainda não havia a perspectiva de greve geral, nem
sequer como uma possibiliddade... Os acontecimentos en­
tão se desenvolveram de acordo com a vontade dos capi­
talistas e a classe operária foi derrotada. De nada valeram
os esforços realizados pela seção turinesa para fazer com
que o Partido se colocasse à testa do movimento; a seção
foi acusada de indisciplina, leviandade, de anarquismo...
Coisas passadas... E no entanto, recordando os dias de
paixão vividos em abril passado, nos agrada muito, assim
como certamente agradará a todos os companheiros da
seção e à massa operária, sermos informados que o pare­
172
cer do Comitê Executivo da III Internacional é muito di­
verso daquele, que parecia inapelável, dos maiores ex­
poentes do Partido; sermos informados de que a opinião
dos “quatro agitados” turineses recebeu o apoio da mais
alta autoridade do movimento operário internacional.
Estava-se na véspera do último sobressalto revolucionário na
ítália; a ocupação das fábricas.
Desde 20 de agosto reinava em todas as fábricas do país o obs-
trucionismo devido à recusa dos industriais de discutir os aumentos
de salário solicitados pela FIOM, Isto é, os operários, querendo
evitar o fechamento dos locais de trabalho pelos capitalistas, entra­
vam nas fábricas, mas não trabalhavam. O objetivo da FIOM não
era revolucionário. Com esta ação, os dirigentes da Federação dos
metalúrgicos se propunham simplesmente a provocar a arbitragem
do governo (em junho, Giolitti havia retornado ao poder; o seu
programa.parecia reformista, não lhe faltando as ameaças e adver­
tências da frente de empresários). Mas, especialmente em Turim, de
demonstrativa a ação passou a revolucionária. À proclamação da
ocupação dos locais de trabalho na noite entre 31 de agosto e D de
setembro seguiu-se, na manhã seguinte a ocupação permanente das
fábricas. Todos os poderes foram assumidos pelos Conselhos. Na
mesa de Agnelli, na Fiat-Centro, sentava-se um operário socialista,
Giovanni Parodi. Decidiu-se terminar o obstrucionismo e retomar
o trabalho, disciplinado pelos Conselhos de fábrica. Nas oficinas da
Fiat-Centro, a produção mantinha-se em 37 automóveis por dia,
contra 67-68 dos dias normais, e isso apesar da diserção de quase
todos os técnicos e de muitos empregados. De muitas partes, e não
só da Itália, olhava-se agora para Turim.
As hierarquias sociais - escreveu o Avantil piemontês
de 5 de setembro de 1920 - estão despedaçadas, os valores
históricos invertidos: as classes executivas, as classes ins­
trumentais tornaram-se classes dirigentes... encontraram
em si mesmas os homens representativos... os homens que
assumem todas as funções que fazem de um agregado ele­
mentar e mecânico uma estrutura orgânica, uma criatura
viva.
A experiência provocava curiosidade; suscitava, se não um
consenso explícito, ao menos uma atenção respeitosa também em
sítios distantes do socialista. Em uma carta a Ada Prospero, que
173
mais tarde se tornaria sua mulher, Gobetti foi levado a escrever, em
7 de setembro:
Aqui estamos em plena revolução. Acompanho com
simpatia os esforços dos operários que realmente cons­
troem uma nova ordem. Não sinto dentro de mim a força
de seguir-lhes na sua obra, pelo menos por hora. Porém,
parece que estou vendo que, pouco a pouco, se clarifica e
se assenta a maior batalha do século. Então o meu lugar
estaria do lado que possui mais religiosidade e espírito de
sacrifício... Estamos diante de um fato heróico. Ê certo
que pode ser que seja sufocado em sangue, mas seria o
início da decadência...

Naqueles dias, Gramsci e os outros “ordinovistas” (o jornal


havia suspendido as publicações, como já acontecera na greve de
abril) eram frequentemente vistos em fábricas, ao lado dos operá­
rios, para orientar-lhes, para discutir junto com eles os imensos
problemas que a vida da fábrica em movimento com a deserção de
muitos técnicos colocava, para tentar resolver as questões práticas
através da colaboração de tòdos. O novo acontecimento havia acal­
mado as divergências. Na hora da batalha, estavam todos nova­
mente lado a lado. A maré revolucionária alinhava na mesma frente
Tasca e o grupo gramsciano de educação comunista, os bordighia-
nos (Parodi, Boero) e os dirigentes da seção (Togliatti, Montagna-
na, Terracini, etc.). Mas em algumas fábricas, o extremismo de for­
tes núcleos de operários agia de uma forma que não podia deixar de
preocupar Gramsci. Havia a tendência a romper imediatamente
com o PSI, a desligar-se dele para constituir um novo partido, o
Partido Comunista.
A esse propósito, depois do artigo de 3 de julho, no qual a idéia
de constituir um partido “verdadeiramente” comunista era definida
como uma “alucinação particulàrista”, Gramsci não tinha mudado
de opinião. Continuava a pensar que o trabalho a ser feito devia ser
o de propaganda comunista na base, pela conquista do PSI a partir
de dentro. Logo que foi informado de iniciativas secessionistas em
algumas fábricas ocupadas, procurou um companheiro do seu gru­
po, Battista Santhià, operário na SPA. Era noite de 11 de setembro.
A sei\tinela de guarda na portaria não reconheceu o diretor do Or-
dine Nuovo e correu aos comissários de sessão reunidos na sede da
comfssão interna que tinha alguém na porta querendo entrar, “um
174
companheiro de baixa estatura e de cabelos muito compridos” .
Gramsci logo foi admitido na fábrica, fez um longo passeio pelas
instalações e conversou com os operários que trabalhavam, até que
encontrou uma maneira de ficar a sós com Santhià. É o próprio
Santhià que se refere ao diálogo que mantiveram:

GRAMSCI: Você está informado da iniciativa que a


Fiat-Centro quer tomar no sentido de romper com o Par­
tido Socialista para constituir o Partido Comunista?
SANTHIÀ; Não estou muito a par. Sei, no entanto,
que eles estão de acordo quanto a abandonar o Partido
Socialista só depois de uma preparação adequada. Deve­
mos sair como maioria em Turim, não como um pequeno
número de dissidentes.
A resposta - comenta Santhià - não surpreendeu
Gramsci. Havíamos discutido o problema mais de uma
vez depois da greve de abril; o comportamento do Partido
Socialista havia acabado com qualquer esperança e ilusão
sobre a possibilidade de a Direção aceitar as orientações
da III Internacional. Gramsci também estava convencido
disso, mas sabia que o problema consistia na conquista
dos operários inscritos no Partido Socialista.

Por isso, ele não podia, naquele momento, apoiar o projeto se-
cessionista do Conselho de fábrica da Fiat-Centro, dominado por
bordighianos.

A orientação de muitos companheiros do grupo co­


munista daquela fábrica - prossegue Santhià - causava
preocupação. Envenenados pelo maximalismo mais
pobre, deixavam-se influenciar mais por fórmulas exte­
riores do que pela substância ideológica. O companheiro
Parodi estava fora de discussão. Mas naqueles dias, não
era fácil superar a exasperação que aumentava à medida
em que se reforçava a convicção do declínio do movimen­
to revolucionário nas fábricas.

Gramsci, “com muito tato e delicadeza”, sugeriu a Santhià que


entrasse em contato com Parodi.
A missão não foi bem-sucedida. É ainda Santhià quem conta:
“A 20 de setembro, aquilo que fervia na panela desde os dias 13 e 14
175
explodiu na Fiat-Centro. Os companheiros da fração comunista
abstencionista decidiram separar nitidamente as suas responsabili­
dades das dos dirigentes sindicais reformistas e do Partido Socialis­
ta, sustentando a necessidade da imediata saída do Partido Socialis­
ta para dar vida ao novo Partido Comunista” . Na manhã seguinte,
21 de setembro, os bordighianos turineses propuseram ao Comitê
Central da fração “abstencionista” (será II Soviet, de Amadeo Bor-
diga, que fará referência a isso, poucos dias depois) de “iniciar o
trabalho para a criação do Partido Comunista, seção italiana da In­
ternacional Comunista, e convocar imediatamente um congresso
nacional para a sua constituição” . Bordiga, mais cauteloso, foi de
opinião que devia fazer essa proposição no congresso nacional do
PS1 que já se aproximava, e.o Comitê Central da fração “abstencio­
nista” rejeitou a proposta dos secessionistas turineses. Também a
direção da seção socialista turinesa (controlada por Togliatti, Mon-
tagnana, Terracini, etc.) tomou posição contra os bordighianos da
Fiat-Central. A 22 de setembro o Avantil piemontês publicou um
explícito documento de condenação. “ Não se trata”, afirmava, “de
apoiar quem vai mais adiante ou quem chega primeiro, trata-se sim
de fazer com que o Partido Comunista se apresente desde o início
como o único grande organismo no qual o proletariado possa con­
fiar e que seja capaz de agrupar todas as forças revolucionárias” .
A ocupação das fábricas estava fadada ao fracasso. Fora Tu­
rim, a adesão das massas às investidas revolucionárias não foi de
igual intensidade, e as organizações sindicais preocupavam-se so­
mente em encontrar uma via de saída honrosa, secundadas nisso
pela vocação mediadora de Giolitti. E não podia ser de outra for­
ma, devido à passividade de amplos estratos do proletariado italia­
no.
Havia empresas - conta Ludovico D’Aragona -
onde os operários davam uma verdadeira demonstração
de consciência e de maturidade; outras, onde os operários
sabiam fazê-las funcionar da mesma forma que o capita­
lista: dirigiam-nas e governavam-nas; mas havia outras
empresas onde, por uma infinidade de razões que não de­
pendiam somente da maturidade da massa, mas também
da falta de matérias-primas, ausência dos dirigentes, téc­
nicos, etc., era impossível o seu funcionamento; e havia
ainda empresas que tinham sido abandonadas pelos ope­
rários. Nestas últimas, devíamos transferi-los de uma em­
176
presa para outra para que, tendo um pequeno núcleo ope­
rando, desse a impressão de que lá dentro havia ainda
operários dirigindo e governando.

Pouco a pouco a maré revolucionária foi baixando. Os operá­


rios,'já cansados, tiveram de abandonar as fábricas. Retornaram ao '
trabalho nos primeiros dias de outubro com base em um compro­
misso ditado por Giolitti. Esse compromisso ao mesmo tempo que
descontentava em alguns aspectos a frente de empresários, signifi­
cava também a derrota e o fim do movimento dos conselhos de
fábrica.
Gramsci dirá, anos depois, em uma carta a Zino Zini, datada
de 10 de janeiro de 1924: “Naquele período [ j 919-2(f) depois da re­
volução, com um partido como o socialista, com uma classe operá­
ria que, em geral, via tudo cor de rosa e amava as canções e as fan­
farras mais que os sacrifícios, poderíamos ter sofrido tentativas
contra-revolucionárias que nos teriam destruído irremediavelmen­
te”.
Enquanto isso, aproximavam-se as eleições administrativas de
31 de outubro e 7 de novembro. Na assembléia dos socialistas turi-
neses foram propostas também as candidaturas de Togliatti, secre­
tário da seção, e de Gramsci. “Ergueu-se na assembléia uma onda
de protestos”, observa Tasca, “contra Gramsci” . Era acusado de
ter escrito, em outubro de 1914, um artigo (Neutralidade ativa e ope­
rante) considerado de cunho intervencionista. “Não se deve esque­
cer”, prossegue Tasca, “que naqueles anos o Partido Socialista de­
cidira não admitir candidaturas daqueles que de um modo ou de
outro houvessem tomado posição pela guerra... Outros fatores, po­
rém, concorreram para tal”. Tudo isso fica evidente quando se pen­
sa na acolhida dada à candidatura de Togliatti, que chegou a se alis­
tar como voluntário. Eis os outros fatores:

No período de 1916-18 e também no Ordine Nuovo,


Gramsci havia incorrido em muitos erros, colocado a nu
algumas personalidades mais ou menos ilustres. Muitos
rancores ferviam contra ele na panela de Turim... Deve-se
acrescentar que Gramsci não possuía nenhum dote de tri­
buno e portanto, era conhecido e estimado somente em
um círculo restrito de intelectuais e operários.
177
Agora o ataque vinha da direita. Mas é inevitável suspeitar que
as divergências, contornadas durante a ocupação das fábricas, não
tenham sido totalmente superadas: o grupo que envolvia Togliatti e
Terracini, e que também controlava a seção por ampla maioria, não
rejeitou, já que as suas posições prevaleciam, o ataque à candidatu­
ra de Gramsci, que acabou sendo excluído da lista.
Esse não foi o único motivo de tristeza para Gramsci naquele
período. A 5 de novembro de 1920, chegou um telegrama de Ghi-
larza anunciando' que Emma, a irmã empregada em Tirso nos tra­
balhos de construção de barragem, estava gravemente doente. An-
tonio logo embarcou para a Sardenha. Adivinhara o verdadeiro
sentido das palavras do telegrama: por residir em local atingido
. pela malária, Emma havia contraído a moléstia. Quando Antonio
chegou à sua aldeia, já a haviam sepultado.3Uma vez em Ghilarza,
Antonio lá permaneceu alguns dias. Mas estava inquieto. Muitas
vezes a senhora Peppina o surpreendeu absorto, pensando sabe-se
lá em quê. Vê-lo desse jeito um feixe de ossos e com o rosto esmae­
cido e cansado, de alguém que está muito esgotado, a preocupou
muito. Antonio tinha então 29 anos.
Retornou a Turim quando o debate que precedia o congresso
nacional socialista pegava fogo. Os núcleos de esquerda (os ex-
abstencionistas: dizemos “ex” porque a adesão aos 21 pontos da III
Internacional implicava no abandono da posição abstencionista; o
grupo gramsciano de “educação comunista”; os “eleicionistas”,
termo que, superado o debate sobre a participação nas eleições,
também perdia significado; e outros socialistas de esquerda) ha­
viam encontrado o elemento de ligação na fidelidade às teses da III
Internacional, apesar das diferenciações de fundo. Na primeira
quinzena de outubro, realizou-se em Milão um convênio, com o
lançamento do manifesto-programa da fração comunista. Assina­
ram-no, representando todos os grupos, Bombacci, Bordiga, Forti-
chiari, Gramsci, Misiano, Polano, Repossi e Terracini. A base da
fração estava, desse modo, formada, sendo oficialmente sancionada
em 28-29 de novembro de 1920 em Imola. A fração tomou o nome
dessa cidade. Bordiga e o seu grupo, o'único organizado em escala

3 Hoje o nome de Emma Gramsci consta em uma placa que recorda todas as víti­
mas que morreram durante a realização da obra. Esta placa fica logo na entrada da
barragem.
178
nacional, prevaleceram. Dirá Gramsci em 1923, em uma carta a To-
gliatti: “ Devido à repulsa que manifestamos em 1919-1920 em criar
uma fração, ficamos isolados, simples indivíduos ou quase isso, en­
quanto no outro grupo, o abstensionista, a tradição de fração e de
trabalho em comum deixou marcas profundas que ainda hoje têm
reflexos ideais e práticas muito consideráveis na vida do partido” .
Desde Imola, e mesmo antes dela, havia duas concepções diame­
tralmente opostas de partido: o partido como uma seita de pbucos
intransigentes que depois seriam seguidos pelas massas na ação re­
volucionária (Bordiga) e o partido das massas, “ não um partido
que se sirva das massas para tentar imitações heróicas dos jacobi­
nos franceses” . Conseqüentemente, havia duas posições opostas em
relação ao PSI: separar-se dele (Bordiga) ou tentar renová-lo por
dentro (Gramsci). Depois do lançamento do manifesto-programa
de Milão, Gramsci havia acusado a reação de querer atingir Turim
“como sede de um pensamento político preciso que ameaça con­
quistar a maioria do Partido Socialista Italiano, que ameaça trans­
formar o partido, de órgão de conservação da agonia capitalista, em
organismo de luta e de reconstrução revolucionária” 45.E na semana
seguinte, a 24 de outubro, na nota intitulada A fração comunista:
“Os comunistas pretendem organizar-se difusamente e conquistar o
governo do Partido Socialista e da Confederação Gerai do Traba­
lho" \
Mas, naquele momento, o próprio Lênin estava mais próximo
de Bordiga do que de Gramsci. A 14 de outubro, Serrati escrevera
no Humanité: “Todos nós somos pelas 21 condições de Moscou.
Trata-se da sua aplicação. Afirmo que é preciso depurar o partido
dos elementos nocivos e eu propus a expulsão de Turati; contudo,
não devemos perder a massa dos inscritos nos sindicatos e nas coo­
perativas. Os outros desejam uma cisão radical. É aí que reside o dis-
senso” . A réplica de Lênin apareceu em Falsos discursos sobre a li­
berdade, escrito a 4 de novembro e 11 de dezembro de 1920. No fun­
do, Lênin objetava:

Serrati teme que a cisão enfraqueça o partido, em


particular os sindicatos, as cooperativas e as prefeituras.

4 iCOrdine Nuovo, 17 de outubro de 1920. O grifo é meu.


5 O grifo é meu.

179
Os comunistas, ao contrário, temem a sabotagem da re ­
volução por parte dos reformistas. Contando com r e f o r ­
mistas em suas próprias fileiras, não se pode vencer na r e ­
volução proletária, não se pode defendê-la. Por conse­
guinte, Serrati põe em risco a sorte da revolução para n ã o
prejudicar a administração municipal de Milão.

Até esse ponto, Gramsci compartilhava plenamente da tese le-


ninista. Mas Lênín ia mais além:

Hoje, na Itália, as batalhas decisivas do proletariado


contra a burguesia pela conquista do poder estatal estão
próximas. Em um momento como esse, não só é absolu­
tamente indispensável afastar os reformistas do partido,
os turatianos, como também pode ser útil até mesmo
afastar de todos os postos de responsabilidade excelentes
comunistas que são suscetíveis de vacilação e que mani­
festam hesitações no sentido da “ unidade” com os refor­
mistas. Darei um exemplo bem evidente... Na véspera da
Revolução de Outubro, alguns bolcheviques e comunistas
na aparência, como Zinoviev, Kamenev, Rykov, Noghin,
Miliutin, manifestaram hesitações, preocupando-se com
o perigo de que os bolcheviques se isolassem muito, arris­
cassem muito ao desencadear a insurreição, fossem muito
intransigentes para com uma parcela determinada dos
“mencheviques” e dos “socialistas revolucionários” . O
conflito chegou a tal ponto que estes companheiros aban­
donaram com ostentação todos os cargos de responsabili­
dade e o trabalho no partido e nas organizações soviéti­
cas. Depois de algumas semanas, porém, ou no máximo
depois de alguns meses, todos estes companheiros con­
venceram-se dos seus erros e reocuparam os postos de
maior responsabilidade no partido e nos sovietes... A Itá­
lia se encontra hoje em um momento exatamente igual...
Em um momento igual, em iguais condições, o partido
não se enfraquecerá, e sim se reforçará cem vezes mais se
os reformistas se afastarem completamente das suas filei­
ras, mesmo se da sua direção se afastarem excelentes co­
munistas, como são provavelmente os membros da atual di-
180
reção do partido, Bamtono, Zannerini, Bacci, Giacomini,
Serrati6.
' Era, de fato, uma aprovação à linha bordighiana para a ruptu­
ra à esquerda. Mas seria totalmente improvável a hipótese de que o
impulso ainda mais à esquerda imprimido agora por Lênin contri­
buísse para favorecer a subordinação voluntária de Gramsci a Bor-
díga? Só depois dos Falsos discursos sobre a liberdade é que a cisão
foi vista por Gramsci como uma solução inevitável. Pela primeira
vez, a 18 de dezembro, a menos de um mês do congresso de Livor-
no, escreveu palavras de aceitação quanto à ruptura:

Seria ridículo choramingar sobre o acontecido e


sobre o irremediável. Os comunistas têm e devem ter um
raciocínio frio e pacato. Se tudo (no PSI) está aos peda­
ços, é necessário refazer tudo, é necessário refazer o Parti­
do, é necessário desde hoje considerar e amar a Fração
Comunista como um verdadeiro partido, como o terreno
sólido do Partido Comunista Italiano.
Porém, a maré revolucionária estava em refluxo e iniciava-se a
reação. O PSI repetira nas eleições administrativas de 3! de ou­
tubro-7 de novembro de 1920 os bons resultados de 1919, conquis­
tando a maioria em 2.162 prefeituras dentre oito mil (incluindo Mi­
lão e Bolonha) e em 26 províncias dentre 69, A 21 de novembro, no
momento em que Gnudi, prefeito socialista de Bolonha, se apresen­
tava no balcão do palácio d’Accursio para responder às aclamações
da multidão, irrompeu um bando de fascistas, disparando às cegas
sobre os populares. Bombas de mão foram lançadas em meio à
multidão de uma janela do palácio d’Accursio. Balanço do atenta­
do: dez mortos e 58 feridos. Um mês depois, em Ferrara, em iguais
circunstâncias, os fascistas atacaram o palácio Estense. Três deles
caíram mortos pelos guardas vermelhos. As expedições punitivas
dos fascistas se multiplicaram.
Serrati, que já pensava mais na defesa do que no ataque, tinha,
portanto, pelo menos estes bons motivos para desejar, naquele mo­
mento, a unidade dos socialistas. Respondeu a Lênin, a 16 de de­
zembro de 1920:

6 O último grifo é meu.


181
Nós não somos defensores dos reformistas. Defende­
mos o partido, o proletariado, a revolução por um desejo
ardente de destruição e demolição. Defendemos a unida­
de do movimento socialista italiano para que ele possa
enfrentar as dificuldades e os sacrifícios do amanhã para
a obra da reconstrução. A burguesia italiana já começou
a sua ação reacionária... Iniciou-se hoje o período do con­
tra-ataque burguês em resposta ao ataque descerrado pe­
las classes trabalhadoras desde o dia do armistício até ho­
je. O capitalismo italiano - garantido pelo Estado, pela
sua polícia e magistratura, pelo Exército que ainda tem
toda a eficiência - não está disposto a ceder as armas e vai
se organizando crescentemente, cerrando as próprias fi­
leiras. As últimas eleições administrativas e os recentes
episódios ocorridos em algumas cidades italianas prova­
ram muito bem como a classe dominante pretende opor o
seu próprio bloco, unidíssimo, ao procedimento resoluto
da classe operária.

E se esta era a situação nova na Itália, de contra-ataque bur­


guês ao qual era preciso resistir coesos, e não, pulverizar-se em mais
partidos socialistas, parecia natural a Serrati referir-se a um escrito
de Zinoviev 7 para concluir: “Nós, que não somos centristas, pedi­
mos apenas à Terceira Internacional que aplique a nós, como aplica
aos demais, os seus próprios critérios, isto é, que nos deixe juízes da
situação que amadurece e das providências a serem tomadas em re­
lação a ela, pela defesa do movimento socialista italiano”.
Um mês depois, a 15 de janeiro de 1921, abria-se em Livorno o
17’ Congresso Nacional do PSI. Não registrou-se nele o êxito que
Lênin esperava das posições dos comunistas “puros”, que não obti­
veram o apoio da maioria do proletariado italiano.

Fomos derrotados - escreverá Gramsci em 1924 -


porque a maioria do proletariado organizado politica­
mente nos entendeu mal, não veio conosco, embora tivés­

7 "A Internacional Comunista não tem naturalmente a intenção de forjar todos os


partidos sob a mesma forma... A Internacional Comunista reconhece seguramente
que existe um desenvolvimento de questões locais que devem ser resolvidas segundo
as exigências dos diversos partidos."
182
semos do nosso lado a autoridade e o prestígio da Inter­
nacional, que eram muito grandes e nos quais confiáva­
mos. Não soubemos conduzir uma campanha sistemáti­
ca, capaz de chegar e de obrigar à reflexão, a todos os nú­
cleos e elementos constitutivos do Partido Socialista. Nâo
soubemos traduzir em linguagem compreensível a todo
operário e camponês italiano o significado de cada um
dos acontecimentos italianos dos anos 1919-1920.

O modo pelo qual a fração comunista chegou à batalha trazia


a marca de Bordiga. No congresso de Livorno, Gramsci nem sequer
falou. A direção do PS1 continuou com Serrati (98 mil votos, contra
58 mil dos comunistas “ puros” e 14 mil dos reformistas). Na manhã
seguinte, 21 de janeiro de 1921 (Gramsci completaria 30 anos um
dia depois), a minoria dos comunistas “ puros” (os adeptos de Ser­
rati definiam-se comunistas “ unitários”) formava, no Teatro San
Marco de Livorno, o novo Partido Comunista da Itália.
Nele, o líder inconteste era Amadeo Bordiga, que finalmente,
amparado pela Internacional, realizara a sua “alucinação particula-
rista” (como Gramsci havia afirmado em julho) de um partido
“verdadeiramente” comunista. Gramsci, convencido desta realida­
de há pouquíssimo tempo, devia contentar-se com um papel subal­
terno, chegando mesmo a correr o risco de ficar de fora do primeiro
Comitê Central do novo partido. A sua inclusão foi combatida as­
peramente. Os novos companheiros, ou alguns deles, não se preo­
cupavam em evitar os pobres expedientes polêmicos que, no passa­
do, os adversários internos do PS1 lançavam mão. “ Um delegado”,
lembra-se Togliatti, “quis justificar a sua oposição à inclusão de
Gramsci através da costumeira acusação, divulgada por reformistas
e maximalistas durante as duras polêmicas que antecederam o con­
gresso, de que ele tinha sido intervencionista e até mesmo atrevera-
se a ir à linha de combate” . Foram escolhidos para o Comitê Cen­
tral oito comunistas do grupo de II Soviet (Bordiga, Grieco, Forti-
chiari, Repossi, Parodi, Polano, Sessa e Tarsia), cinco maximalistas
de esquerda (Belloni, Bombacci, Gennari, Marabini e Misiano) e
apenas dois “ordinovistas” (Terracini e Gramsci). O diretor de
L'Ordine Nuovo foi excluído do executivo, constituído por Bordiga e
três dos seus (Fortichiari, Grieco, Repossi) e Terracini.
Nascido como seita, durante muito tempo ainda o Partido Co­
munista da Itália deveria conservar essas características. Escreverá
Gramsci:
183
A reação se propôs a colocar o proletariado nas con­
dições em que se encontrava no período inicial do capita­
lismo: disperso, isolado, indivíduos não classe que sente
ser uma unidade e aspira ao poder. A cisão de Livorno (o
afastamento da maioria do proletariado italiano da Inter­
nacional Comunista) foi, sem dúvida, o maior triunfo da
reação.
Algum tempo depois da cisão de Livorno, a vida de Gramsci
conheceu momentos que pareceram a alguns de relativa “inércia”
(conforme Gobetti). Teria fundamento essa posição?

A partir de 1? de janeiro de 1921, LOrdine Nuovo voltou a ser


publicado, agora como jornal diário. Gramsci era o seu diretor.
Ganhava agora 1.100 liras mensais, um salário muito bom para
aquela época. No entanto, continuava ainda no seu quartinho de
estudante junto à família Berra, na praça Carlina. Diariamente, às
duas-três da tarde, pouco depois da sesta, um homem gigantesco,
Giacomo Bernolfo, vinha apanhá-lo em casa. Bernolfo era um ex-
sargento de artilharia da montanha, que o escoltava até o restau­
rante para protegê-lo das possíveis violências fascistas (às vezes
Gramsci era acompanhado também por um ghilarzês desemprega­
do, Titino Sanna, que servia de guarda-costa). Almoçava na rua Po
ou em uma leiteria da rua Santa Teresa, quase na confluência com
praça Solferino, ou ainda, mais freqüentemente, na casa de Pia Ca-
rena. Depois, dirigia-se imediatamente à redação, sempre na rua do
Arcivescovado. Um breve descanso à noite, para o jantar e de novo
ao jornal até o nascer do dia, quando começavam a abrir as portas
os primeiros cafés na rua Roma e na rua Pó.
185
Eram tempos difíceis. Era preciso resistir à intimidação e às
violências. Vivia-se em um clima de fortaleza sitiada e Gramsci es­
tava sempre na linha de frente, infundindo coragem, corrigindo os
erros táticos. Os companheiros recordam sua orientação segura,
exemplo de resistência tenaz à onda de barbárie.
As condições políticas gerais haviam mudado em relação aos
anos do pós-guerra e, em conseqüência, mudaram as condições do
trabalho jornalístico, não apenas devido à passagem de semana! a
diário. Agora, ao lado de LOrdine Nuovo havia mais dois diários
comunistas: II Lavoratore, em Trieste, dirigido por Ottavío Pastore,
c II Comunista, em Roma, dirigido por Togliatti. Assim, dispersa a
redação orgânica turinesa, o resultado final dessa dispersão foi,
como afirma (iobetti, “três jornais ilegíveis” , julgamento evidente-
mente adulterado por uma rigidez excessiva, pelo menos no que
toca ao Online Nuovo, mas nâó totalmente infundado. Embora com
algum resquício de vivacidade que continuava a distingui-lo da im­
prensa comum de partido, LOrdine Nuovo como jornal diário não
possuía o dinamismo do semanário. Era agora um órgão oficial de
partido, subordinado à linha do mesmo - que era a de Bordiga - e
esta falta de autonomia lhe prejudicava de uma forma ou de outra.
Os indícios da liberdade de elaboração teórica, da fantasia e do
ímpeto criativo de uma época eram cada vez menos observados, ou
não eram observados com igual evidência. Gramsci aceitava, no
novo partido, por uma série de razões não facilmente individualizá­
veis, o papel subalterno a ele conferido por Bordiga.
O confronto só se dará abertamente mais tarde e, em fevereiro-
de 1924, Togliatti escreverá a Gramsci: “ Não lhe escondo a minha
opinião de que você deveria ter dito muitas das coisas que disse
agora não em conversas privadas e das quais tinha uma impressão
indireta, mas perante o partido, há muito tempo atrás. Na Central
constituída em Livorno você representava o grupo que seguia uma
concepção diversa da de Bordiga” .
Mas em 1921, Gramsci pensava certamente ter bons motivos
para justificar esta sua renúncia ao invés de combater em campo
aberto as concepções sectárias de Bordiga; entre eles, pode-se su­
por. estaria o grande prestígio que o líder do Partido Comunista da
Itália gozava entre os militantes e também nos círculos da Interna­
cional e, depois, a sua recusa (só formal, porém) do extremismo.
Durante o III Congresso da Internacional Comunista, referindo-se
ao epílogo congressual de Livorno, Lênin afirmara a Lazzari, dele­
gado do PSI, a 28 de junho de 1921:
186
Vocês dispunham de 98 mil votos, mas preferiram fi­
car com os 14 mil reformistas do que-ir com os 58 mil co­
munistas. Mesmo que estes não fossem verdadeiros co­
munistas, mesmo que fossem apenas partidários de Bor-
diga, e não ê assim, pois Bordiga, após o segundo congresso
da Internacional, declarou com perfeita lealdade renunciar
a qualquer anarquismo e antiparlamentarismo, vocês deve­
riam ir com eles'.

Por conseguinte, Bordiga fora absolvido por Lênin e, na Itália,


diferenciar-se dele podia ser inoportuno, um risco para a solidez da
frente revolucionária. Além disso, não era aconselhável a abertura
de um claro debate interno devido às condições criadas no país pela
onda reacionária fascista. Naquela ocasião era necessário defender-
se unidos para não sucumbir. Dirá Gramsci, em um escrito de 1924:
Depois da cisão de Livorno, entramos em um estado
de necessidade. Podemos dar apenas esta justificativa às
nossas posições, à nossa atividade depois da cisão de Li­
vorno... Devemos nos organizar em partido no fogo da
guerra civil... devemos transformar, no próprio ato da
sua constituição, do seu recrutamento, os nossos grupos
em destacamentos para a guerrilha, a mais difícil e atroz
guerrilha que a classe operária teve até hoje de combater.

Naquele clima, Gramsci podia manter viva a polêmica contra


o sectarismo de Bordiga? E mesmo que tivesse tido vontade para
tal, qual era a sua força real? As massas comunistas o teriam segui­
do? Um teste bastante recente fazia duvidar disso. Candidato nas
eleições políticas de 15 de maio de 1921, as primeiras após a consti­
tuição do Partido Comunista, Gramsci não conseguiu ser eleito. Os
comunistas turineses o preteriram em favor de Misiano e Rabezza-
na. Além disso, pode-se supor que, nos círculos da Internacional,
ele ainda não fosse considerado em condições de estar à frente do
partido. O julgamento de Degott, do qual já sabemos a opinião que
tinha de Gramsci, pode ser indicativo:

! () grifo é meu.

187
Gramsci, muito mais profundo que os outros com­
panheiros, analisa justamente a situação. Compreende
com perspicácia a Revolução Russa. Mas, exteriormente,
não pode influir sobre as massas. Em primeiro lugar, não
é um orador; em segundo lugar, é jovem, de baixa estatu­
ra e corcunda, o que tem um significado para os ouvintes.

O estado de prostração física e nervosa chegara, neste período,


a um grau extremo. Além disso, tinha problemas particulares rela­
cionados à família. Gennaro não queria se casar com a mãe da sua
filha. Mario se deixara absorver pelos quadros da reação. Tornara-
se primeiro-secretário federal fascista de Varese. Gramsci procu-
rou-o. Depois do casamento com Anna Maffei Parravicini, Mario
abandonara o exército, ingressando em uma empresa comercial.
Antonio perguntou-lhe os motivos da sua adesão ao fascismo: “Você
acha justo? Pense nisso. Você é um bom’rapaz esei que pensará no
assunto” . Seis anos depois escreverá à mãe: “Quando fui visitá-lo,
faz alguns anos, na sua casa, acho que tive a idéia exata sobre todo
aquele ambiente do qual ele era uma espécie de herói. Mas é melhor
não falar nessas coisas, e além do mais, Mario é meu irmão e lhe
quero bem apesar de tudo. Espero que agora ele se ocupe dos seus
negócios e que tenha juízo” .
Vemos assim que, naquele período, as preocupações de
Gramsci eram muitas (graves ou passageiras, e de peso variável).
Não obstante, parece arbitrária a referência de Gobetti quanto a
“cérebro e atividade áridos” .
Homem de cultura, ainda com originalidade e solidez, conti­
nuava a análise das forças operantes na sociedade italiana, até des­
cobrir a verdadeira essência do fascismo, a vocação reacionária de
quem o sustentava, a submissão das forças pequeno-burguesas que
o secundavam e a sua periculosidade, ainda não plenamente avalia­
da pelos outros comunistas. Em 1921-22, eram muitos aqueles que
se obstinavam a negar a “peste” e o “contágio” e acabavam sucum­
bindo a eles. O partido tinha esta concepção oficial: era impossível
o advento de uma ditadura fascista ou militar. Gramsci discordava
dessa interpretação, mas limitava-se a expressar a sua divergência
exclusivamente em conversas privadas. E a sua posição acabou ten­
do uma certa aquiescência, pelo menos formal, a tese com as quais
não estava de acordo, a ausência de crítica (aberta) do boídighismo
e das suas atitudes “vulgares e simplifícadoras”.
188
Acima de tudo, o homem de ação se prodigalizava no jornal.
Era exigente com os redatores, não tolerando a falta de atenção, a
superficialidade, o comentário ou a crônica feitos às pressas. Enco­
lerizava-se, mandava refazer tudo. Um redator, Alfonso Leonetti,
recorda dos ataques de fúria de Gramsci, certas noites, diante das
provas de página. “ Isto não é um jornal” , gritava, “é um saco de
batatas! Amanhã, Agnelli pode chamar os operários e dizer: 'Ve­
jam, eles não sabem fazer um jornal e pretendem dirigir o Estado’ .
Devemos evitar que Agnelli diga isto, mas não o evitaremos se fi­
zermos jornais que pareçam sacos de batatas!” .
Quanto à problemática política, o alinhamento com as posi­
ções de Bordiga (apenas formal e apenas no sentido, muito limita­
do, de que aquelas posições não eram abertamente contraditas) não
lhe impedia de exprimir, se não todo o seu mundo ideal, ao menos
algumas exigências de fundo, A “abertura” aos trabalhadores não
comunistas, inclusive católicos, e aos intelectuais de oposição era
uma delas. Confiara a crítica teatral de L ’Ordine Nuovo diário a um
liberal, Piero Gobetti. Na primavera, foi a Gardone, na compánhia
de um legionário de Fiume, Mario Giordano, para falar com D’An­
nunzio (mas o encontro acabou não ocorrendo). Acompanhava
com atenção as iniciativas dos católicos de esquerda organizados
no Partido Popular (a ala de Guido Miglioli). Combatia o anticleri-
calismo enraizado em amplos setores do proletariado piemontês.

Recordo-me de uma reunião diocesana da qual par­


ticipavam 200 mil fiéis - me diz Andrea Viglongo.
Gramsci quis que fizéssemos a cobertura dela. “ f: um
acontecimento local do qual o povo participa e não pode­
mos deixá-lo de lado”, disse. Acabei escrevendo uma pe­
quena matéria que L ’Ordine Nuovo publicou com um títu­
lo em duas colunas. Uma outra ocasião escrevi um artigo
abertamente polêmico com os anticlericais. Haviam fra­
ses como estas: “A pornografia anticlerical, desenvolvida
por uma curiosa coincidência no período dourado da pre­
dicação evangélica prampoliniana, nasceu da ausência de
qualquer tipo de consciência moral no socialismo racio-
nalista de 20 anos atrás ...L’Asino é um pouco, para nós
jovens, o símbolo do socialismo de 20 anos atrás, maçóni­
co, parlamentarista, pequeno-burguês” . Gramsci leu um
trecho e o aprovou, publicando-o na primeira página do
número de 27 de agosto de 1921, em grifo. Alguns círcu-
189
los operários, como o de Borgo San Paolo, reagiram com
vivos protestos. Gramsci manteve-se calmo. Disse-me:
“O grifo pegava bem”.

Enquanto isso, começava a delinear-se um afastamento entre a


Internacional e a direção bordighiana do Partido Comunista da Itá­
lia. Antes da cisão de Livorno, Lênin havia dito: “ Para conduzir vi­
toriosamente a revolução e para defendê-la, o partido italiano deve
dar ainda um certo passo à esquerda (sem ficar com as mãos atadas
e sem esquecer que, em seguida, as circunstâncias poderão exigir per­
feitamente um passo à direita"1. O “certo passo à esquerda” já fora
dado, com a separação, em Livorno, dos grupos comunistas do
PSI. Agora as circunstâncias exigiam “um passo à direita”: a alian­
ça com os socialistas na “frente única” para resistir à ofensiva rea­
cionária. Era esta a indicação vinda do III Congresso da Interna­
cional (junho-julho de 1921). Já se reconhecia em Moscou que de­
pois do contra-ataque da reação, especialmente na Itália, o movi­
mento operário estava em retirada; por isso, o objetivo imediato da
classe operária não podia ser mais, em condições como essas, a con­
quista do poder e a ditadura do proletariado, mas, antes de tudo, a
defesa das liberdades democráticas, a ser empreendida lutando ao
lado dos socialistas. Na Itália, onde a secessão de Livorno agudiza­
ra os contrastes, a resistência de Bordiga e do seu grupo a essa
orientação foi obstinada. Lênin deu-se conta dela e censurou-a cla­
ramente. A 14 de agosto de 1921, escreveu que alguns partidos co­
munistas, entre eles o italiano, “haviam exagerado um pouco a luta
contra o centrismo , haviam ultrapassado um pouco o limite, além
do qual esta luta se transforma em um esporte” . Na realidade, Bor­
diga e o seu grupo haviam exagerado “ um pouco” mais que o ne­
cessário. Agora, tendo a Internacional substituído o velho objetivo
da conquista imediata do poder por outro, intermediário, da defesa
das liberdades democráticas, lhes parecia, a poucos meses da ruptu­
ra de Livorno, que a aliança com os socialistas equivaleria a uma
precipitação daquela cisão. Dirá Gramsci:

Lênin havia dado a fórmula lapidar do significado


das cisões, na Itália, quando declarou ao companheiro
Serrati: “Separem-se de Turati e depois façam aliança

2 O grifo é meu.
190
com ele” . Esta fórmula teria de ser adaptada por nós à ci
são ocorrida de uma forma diversa da prevista por Lênin.
Ou seja, devíamos, como era indispensável e historica­
mente necessário, nos separar não apenas do reformismo,
mas também do maximalismo que, na realidade, repre­
sentava e representa o oportunismo típico italiano dentro
do movimento operário; mas depois disso, e embora con­
tinuando ainda a luta ideológica e organizativa contra
eles, procurar fazer uma aliança contra a reação. Para os
elementos dirigentes do nosso Partido, qualquer ação da
Internacional destinada a obter uma reaproximação a
esta linha aparece como se fosse uma retratação implícita
da cisão de Livorno, uma manifestação de arrependimen­
to. -

São palavras escritas em 1926. A divergência entre Gramsci e


Bordiga quanto ao tema da frente única nos meses que precederam
o 11 Congresso Nacional Comunista de março de 1922, em Roma,
não foi tão explícita.
O estímulo de Bordiga ao fechamento sectário em detrimento
de uma vasta ação política e de massa para a interrupção e a derro­
ta do fascismo era compartilhado pela maioria dos dirigentes, in­
cluindo Togliatti e Terracini. É o próprio Togliatti quem o admite:

O que mais surpreende e deve ser registrado com


atenção - escreve ele - é que acabarão por capitular pe­
rante uma concepção sectária do partido também aqueles
companheiros, como Terracini e Togliatti que, ao lado de
Gramsci e sob a sua direção, não só tinham seguido uma
orientação de trabalho oposta, como também haviam
dado uma contribuição na elaboração de concepções bem
diversas e nelas se inspiraram no decorrer de ações de no­
tável relevo.

Tasca e os outros da minoria de direita se alinharam contra


Bordiga. Da maioria, apenas Gramsci “ não deixava de fazer críti­
cas. Estas, porém, ficaram muito tempo”, prossegue Togliatti, “no
âmbito de conversas pessoais, não dando lugar a debates no Comitê
Central; foram expressas em uma assembléia da seção turinesa ape­
nas na véspera do II congresso do partido”. As teses preparadas por
Bordiga para o congresso de Roma rejeitavam a tática da frente ú­
191
nica, isto é, eram contrárias à linha da Internacional. Ninguém,
com exceção da minoria de direita, fez objeções. Diz Gramsci:
Em Roma, aceitamos as teses de Amadeo [ Bordiga]
porque elas eram apresentadas como uma opinião para o
Quarto Congresso [ da Internacional] e não como uma li­
nha de ação. Procurávamos' manter o partido unido em
torno do seu núcleo fundamental, pensávamos em poder
fazer esta concessão a Amadeo; devido ao importante pa­
pel por ele representado qpando da organização do parti­
do. Não nos arrrependemos disso; politicamente seria im­
possível dirigir o partido sem a ativa participação nos tra­
balhos centrais de Amadeo e seu grupo... Preferimos nos
retirar e a retirada devia ser feita de modo ordenado, sem
novas crises e novas ameaças de cisão no interior do nos­
so movimento, sem acrescentar novos fermentos desagre-
gadores àqueles que a derrota já determinava de per si no
movimento revolucionário.

Havia, nessa posição, o percentual de reservas sobre a consis­


tência das teses bordighianas que procurava em Gramsci o favor da
Internacional e o percentual de aquiescência com Bordiga que sig­
nificava não tê-lo como inimigo. Assim, Gramsci foi escolhido para
representar o Partido Comunista da Itália no Executivo da Inter­
nacional em Moscou (por determinação da Internacional, já havia
estado em Lugano e Berlim; na capital alemã de 22 de janeiro a 24
de fevereiro de 1922).
Partiu no final de maio de 1922. Deixava Turim depois de qua­
se 11 anos de residência. Deixava também a direção de UOrdine
Nuovo. A despedida do prédio da rua do Arcivescovado ocorreu em
um clima de intensa emoção. Mas essa viagem teria na sua vida um
significado muito especial devido ao enriquecimento do político, já
que próximo aos protagonistas da Revolução Russa, e à oportuni­
dade de encontrar-se com Giulia Schucht, que o completaria.

192
16 .

Gramsci chegou a Moscou extremamente deprimido. Estava


doente. A tensão causada pelas polêmicas dos últimos tempos, as
amarguras e incompreensões o abateram muito; além disso, estava
acometido de um enorme cansaço físico que, para alguém como ele
que, à deformidade do corpo se somava a desnutrição e os abalos
psicológicos suportados desde rapaz, não podia deixar de acarretar
um imenso desgaste. Em breve suas más condições de saúde torna­
ram-se evidentes também aos companheiros de trabalho e, no início
do verão, Grigori Zinoviev, então presidente da Internacional, in­
ternou-o no sanatório de Serebriani Bor (O bosque de prata), na pe­
riferia de Moscou, para que ele se recuperasse. Tinha tiques, ata­
ques “quase ferozes” , tremores convulsos. “Algumas pessoas muito
gentis que vinham me visitar e me fazer companhia” , contará, “dis­
seram-me mais tarde que tinham medo, sabendo que eu era sardo,
de que eu às vezes tivesse vontade de esfaquear alguém!” . Entre es­
sas “pessoas muito gentis” estava Eugênia Schucht, uma mulher al­
guns anos mais velha que ele, que falava perfeitamente o italiano e
também era doente. Uma grave forma de esgotamento psicofísico a
impedia de caminhar. Tornaram-se amigos também pela possibili­
dade de comunicação imediata, graças ao conhecimento de italiano
e da Itália de Eugênia. Em pouco tempo, Antonio já sabia muita
193
coisa de Eugênia e da sua longa estadia, com a família, na Itália, em
Roma.

Ela nascera na Sibéria, durante a deportação do pai, Apollo


Schucht, um anticzarista de origem escandinava. Depois dela, vie­
ram mais duas irmãs, Nadina e Tatiana. Por volta de 1890, a famí­
lia se transferiu para a França, Montpellier, e depois para Genebra.
Na emigração nascem Anna, Giulia (em 1896) e Vittorio, o sexto, o
único filho homem. No início do século, a família chega a Roma.
Rico senhor, estudioso da literatura francesa e com boa cultura mu­
sical, Appolo Schucht, de família de oficiais, possui um patrimônio
que lhe permite viver com tranqüilidade. Todas as moças estudam:
Nadina, depois de ter obtido dois diplomas, volta para a Rússia, Ti-
flis, para casar-se; Tatiana faz na Universidade de Roma os cursos
de Ciências Naturais; Eugênia freqüenta o Instituto de Belas-Artes
da rua Ripetta; Anna e Giulia, ambas com vocação para música,
.são alunas, no curso de violino, do Liceu Musical, anexo à Acade­
mia de Santa Cecília. Passam em Roma os anos da adolescência e
da primeira juventude, residindo à rua Monserrato e depois na rua
Buonconsiglio, próximo ao Coliseu, e mais tarde na rua Adda.
Apollo não tem compromisso de trabalho, a não ser um período
quando lecionou russo aos oficiais do Ministério da Guerra. No
outono de 1913, a família começa a se dispersar. As primeiras a dei­
xar a Itália são Eugênia e Anna. Vão para Varsóvia: Eugênia lecio­
na em uma escola israelita, e Anna casa-se com Teodoro Zabel, em
13 de maio de 1915. Poucos meses depois, também Giulia, diploma­
da em violino, deixa a Itália, seguida a breve distância pela mãe.
Apollo e Vittorio vão para a Suíça. A 29 de setembro de 1915,
Apollo escreve a Leonilde Perrili, uma amiga romana das filhas:
“Recebi uma carta de Moscou. Genia tem um pequeno trabalho,
Giulia ainda não trabalha. Anna irá viver com a mãe do marido o
qual encontra-se em um acampamento próximo a Moscou”. Nos
primeiros dias de 1916, Eugênia, Anna, Giulia e a mãe estão em
Ivanovo Vosniesiensk, uma pequena cidade têxtil a 100 quilômetros
de Moscou. Mais tarde, em dezembro de 1916, toda a família se
reúne em Moscou, menos Nadina, de quem não se tem mais notí­
cia, e Tatiana, que permaneceu na Itália. O regime czarista está
prestes a ser derrubado. Os Schucht estão em Moscou na Revolu­
ção de Outubro. Depois da revolução novamente se separam. Eugê­
nia e Vittorio em Moscou; Giulia com o pai e a mãe, e a nova famí­
lia de Anna, Teodoro Zabel e o filhinho, em Ivanovo.
194
Quando Eugênia conheceu Gramsci, a sua família continuava
a morar em Ivanovo. Eles vinham, visitá-la freqüentemente no sana­
tório do “ Bosque de prata” . Foi em meados de julho de 1922 que
Gramsci viu Giulia pela primeira vez. Até ali, Eugênia havia lhe de­
monstrado uma simpatia muito grande. Porém, foi Giulia quem o
impressionou. Era alta e clara, um belo rosto oval com grandes
olhos tristes. Longas tranças caíam-lhe sobre os ombros. Tinha
26 anos, cinco a menos que o jovem italiano. Há sete anos na Rús­
sia, sentia saudade da Itália. Sempre sentira o peso do afastamento
da Itália. Depois da partida, aos 19 anos (na viagem para a Rússia,
que ainda não conhecia), escreveu de Tzarikov a Nilde Perilli, a 21
de junho de 1915: “Estou na Bulgária, quase chegando na Rússia,
mas me distancio da Itália, de Roma...” . E em setembro do mesmo
ano, de Moscou: “Aqui já faz frio. Sinto uma tristeza ao pensar que
em Roma... em Roma hoje é 15 de setembro” . Atualmente leciona­
va no Liceu Musical de Ivanovo.
Gramsci estava assustado com os seus sentimentos. Tinha 31
anos e nunca antes lhe ocorrera abrir-se completamente a uma mo­
ça. Controlava-se por medo de desilusões; a consciência do seu físi­
co o deprimia. “Há muitos, muitos anos estou acostumado a pensar
que há uma impossibilidade absoluta, quase fatal, de que eu possa
ser amado.” A visão de Giulia o perturbava. Escreveu-lhe depois de
um dos primeiros encontros: “Você veio a Moscou no dia 5 de
agosto como havia dito? Esperei-a três dias. Não me afastei do
quarto com medo que pudesse acontecer como da outra vez... Você
não veio a Moscou, não é verdade? Se tivesse vindo, certamente me
teria feito uma visitinha ao menos... Você virá logo? Ainda poderei
vê-la?... Escreva-me. Todas as suas palavras me fazem um grande
bem e me fazem mais forte” . Durante as visitas que Giulia fazia a
Eugênia, passavam muito tempo juntos. Este jovem italiano, de
membros tão franzinos, mas com tanta doçura nos olhos azuis e
tão rico de força interior a atraía. Os primeiros encontros no sana­
tório e o desabrochar do romance voltarão pouco depois à memó­
ria de Gramsci com aceno de saudade:

Voltava, em pensamento, a todas as recordações da nos­


sa vida em comum, do primeiro dia que eu lhe vi em Sie-
ribriani Bor, quando não ousei entrar no quarto porque
você havia me intimidado’ (é verdade, você me intimidou
e hoje lembro-me sorrindo desta impressão), do dia em que
você foi embora a pé e eu lhe acompanhei até a grande
195
estrada através da floresta e fiquei tanto tempo parado
vendo você se afastar sozinha, com o teu encargo de via­
jante, pela grande estrada, em direção ao mundo grande e
terrível
Era a conquista de um equilíbrio novo para um jovem que uma
vez confessara ter vivido totalmente para o cérebro e nada para o
coração. Toda a vida de Gramsci até aquele momento tinha sido
um contínuo recuo para dentro de si mesmo, uma prisão dentro de
sentimentos contraditórios, por um lado o instinto à sociabilidade e
por outro a vontade de ser forte mesmo sem o apoio afetivo.

Quantas vezes - escreverá a Giulia - me perguntei se


era possível uma ligação à massa quando nunca se quis
bem a ninguém, nem mesmo aos próprios parentes, se era
possível amar uma coletividade se nunca amara profun­
damente criaturas humanas individuais. Será que isso não
teve um reflexo na minha vida de militante, não esterili­
zou e reduziu a um puro fato intelectual, a um puro cálcu­
lo matemático a minha qualidade de revolucionário? Pen­
sei muito em tudo isso e tornei a pensar nesses dias, por­
que tenho pensado muito em você, você que entrou na
minha vida e me deu amor e me deu aquilo que sempre
me havia faltado e que me tornava mau e carrancudo.

Finalmente descobria que “ não se pode limitar e se dedicar a


apenas uma atividade; a vida é uma só e toda atividade se reforça
na outra; o amor reforça toda a vida... cria um equilíbrio, uma in­
tensidade maior nas outras paixões e nos outros sentimentos” . A
relação entre os dois, porém, seria, devido às circunstâncias, feita
de encontros felizes e longos e penosos afastamentos.
Da Itália chegavam notícias de catástrofe. A 28 de outubro de
1922 houve a marcha sobre Roma; no dia seguinte, o rei confiara a
Benito Mussolini a tarefa de formar o governo. Já haviam passado
dois anos e meio desde quando, em abril de 1920, Gramsci escreve­
ra: “A fase atual da luta de classe na Itália é a fase que antecede
a conquista do poder político por parte do proletariado revolucio­
nário... ou uma tremenda reação por parte da classe proprietária e
da casta governativa” . Agora esta segunda profecia se confirmava.
As Câmaras do Trabalho eram saqueadas e incendiadas, bandos
fascistas tomavam de assalto as redações dos jornais democráticos,
196
os dirigentes de esquerda eram perseguidos, presos, espancados,
mortos. Tudo isso acontecia nas vésperas do IV Congresso da In­
ternacional, que seria aberto em Moscou a 5 de novembro de 1922.
E éis o problema: como os partidos operários e todos os partidos
democráticos deveriam reagir à onda de violências? Divididos ou,
diferentemente do passado, alinhados numa trincheira comum? Zi-
noviev e Bukharín e em geral os bolcheviques mais influentes da In­
ternacional recomendavam a frente única dos partidos proletários.
Viam até mesmo como indispensável a fusão dos comunistas com
os socialistas, sobretudo depois que fora expulsa do PSI, no con­
gresso de outubro de 1922, a aia reformista. Bordiga e mesmo Ter-
racini opunham-se intransigentemente a essa orientação.
Graziadei assim se referirá aos que se opunham à fusão, em
uma reunião do Comitê Central do PCd’1: “A cisão de Lívorno
deu-se, indubitavelmente, muito à esquerda. Eu, e comigo outros
companheiros, julguei a coisa um mal; vocês, ao contrário, a julga­
ram um bem e ficaram contentes com ela. Nesta diversidade de jul­
gamentos encontra-se a base de uma divergência política profun­
da” . Mas se é verdade que a hostilidade à fusão com os socialistas
era nítida em quem havia considerado um bem a ruptura à esquerda
em Livòrno, antes que à direita, uma outra ocasião de julgamento,
o julgamento sobre o fascismo, agora distinguia os promotores da
fusão dos seus tenazes adversários. A maioria, sectariamente fecha­
da dentro de esquema rígidos, colocavam no mesmo saco fascistas e
social-democratas, todos inimigos de classe, todos igualmente de­
fensores da ordem burguesa. Mussolini equivalia a Turati, e por­
tanto o que havia de novo no fato de um partido burguês, o fascis­
ta, ter tomado o lugar de um outro partido burguês na liderança do
governo? Para Amadeo Bordiga, ocorrera na Itália após a marcha
sobre Roma uma simples mudança de Ministério. E assim pensa­
vam todos os ex-abstencionistas; mas não eram só eles. Terracini
considerava a marcha sobre Roma e a entrega do poder a Mussolini
“ uma crise ministerial um pouco agitada” . Por seu lado, Togliattí
escrevera a 27 de julho de 1922: “O tirano Vesgo contra o qual to­
das as energias que ainda vivem nas multidões terão de se insurgir
terá um único aspecto e um tríplice nome. Ele se chamará, ao mes­
mo tempo, Turati, don Sturzo e Mussolini” . Não ocorria aos diri­
gentes comunistas italianos a diversidade do fascismo em relação
aos partidos democráticos tradicionais, e uma vez que não se da­
vam conta da sua periculosidade, não se colocava o problema de
uma ditadura burguesa que trabalhasse para suplantar a democra­
197
cia burguesa. Assim, a nova indicação da Internacional (a mudança
do objetivo imediato e a passagem de uma linha de ataque a uma li­
nha defensiva: a luta pela defesa das liberdades democráticas e não
mais, ou não mais nó momento, a revolução proletária) não era en­
tendida, assim como não era entendida a necessidade das alianças e
nem sequer da fusão com forças que, na opinião da maioria dos co­
munistas, não representavam nada mais do que a ala esquerda do
agrupamento burguês. Gramsci foi um dos poucos que soube
apreender a essência nova do fascismo, a gravidade do perigo que
ele representava e a correção da linha defensiva proposta pela Inter­
nacional.

Gramsci saiu do sanatório para os trabalhos do IV Congresso.


Havia superado a fase aguda da doença mas ainda não estava bem:
“Cheguei ao IV Congresso poucos dias depois de ter saído do sana­
tório, após cerca de seis meses de permanência que me tinham vali­
do de pouco, que apenas haviam impedido um agravamento do mal
e uma paralisia das pernas que poderia ter me prendido na cama
por alguns anos. Do ponto de vista geral, o esgotamento e a impos­
sibilidade para o trabalho continuaram devido às amnésias e às in­
sônias”. Logo Mattia Rakosi aproximou-se dele. Gramsci não o ti­
nha em alta estima. Julgava-o “um idiota”, desprovido “de um gra­
ma de inteligência política” . “Com a delicadeza política que o dis­
tinguia”, contará, “me abordou para me oferecer a liderança do
partido, eliminando Amadeo, que seria até mesmo excluído do Co-
mintern caso conjinuasse na sua linha”. Embora divergindo de
Bordiga, Gramsci sofria o fascínio da sua forte personalidade e te­
mia que uma ruptüra provocasse a dissolução dd.partido:

As minhas posições nunca eram autônomas, mas an­


tes derivadas da preocupação com aquilo que Amadeo te­
ria feito se eu me tornasse um adversário seu: ele teria se re­
tirado, teria dado origem a uma crise, ele jamais chegaria a
um compromisso... Se eu tivesse feito oposição [ a Bordi­
ga] , a Internacional teria me apoiado, mas quais seriam
os resultados disso, quando o partido se organizava com
dificuldade, na guerra civil, na alça de mira do Avantü,
que explorava qualquer discordância interna para nos de­
sagregar?

A proposta de Rakosi foi rechaçada:


198
Eu disse que faria o possível para ajudar o Executivo
da Internacional a resolver a questão italiana, mas não
acreditava que se pudesse, de modo nenhum (muito me­
nos através da minha pessoa) substituir Amadeo sem um
trabalho preventivo de orientação do Partido. Para subs­
tituir Amadeo na situação italiana seria preciso, além do
mais, ter mais de um elemento porque Amadeo, efetiva­
mente, como capacidade geral de trabalho, valia pelo me­
nos por três.

Os debates sobre a fusão pareciam intermináveis. Por um lado


havia Tasca, alinhado com a Internacional pela fusão imediata.
Bordiga, obstinado na resistência, pedia que fosse adiada qualquer
solução. “ Eu andava sobre brasas ardentes” , escreve Gramsci, “e
não era este o trabalho mais condizente com a minha condição de
debilidade crônica” . Saiu-se da situação “anguillegiando” * (a ex­
pressão é sua). No interior do PSI se constituíra uma fração “terce-
rointernacionalista” (os chamados "terzini") que proclamava fide­
lidade à III Internacional Comunista. A proposta intermediária de
Gramsci foi a de que se deveria proceder imediatamente à fusão
não com o PSI como um todo, mas, no momento, apenas com os
“terzini", A sua tese prevaleceu (“ Involuntariamente” , dirá depois
Gramsci, “ganhei a fama de uma raposa de astúcia infernal”). As
condições da fusão foram fixadas em 14 pontos e foi nomeada uma
comissão mista para a sua aplicação. Bordiga, designado para inte-
■grar essa comissão, recusou-se a fazer parte dela (Gramsci tomou
o seu lugar). Os outros eram Scoccimarro e Tasca pelos comunistas,
Serrati e Maffi pelos socialistas.
No entanto, Gramsci não retornou à Itália. Serrati foi detido
logo após o seu regresso e Tasca teve de refugiar-se na Suíça. En­
quanto na Itália o trabalho em prol da fusão era levado adiante-
apesar da resistência da maioria dos comunistas e dos socialistas -
por Scoccimarro e Maffi, Gramsci continuava a trabalhar em Mos­
cou no Executivo da Internacional. Era obrigado a sacrificar boa
parte da sua vida privada aos compromissos políticos. Ia frequente­
mente ao sanatório para tratamento e para visitar Genia Schucht.
Ali passou o Natal de 1922:

* N. do T.: “anguilla” significa enguia em italiano, daí “anguillegiando.


199
Eu preparei a última árvore de Natal em 1922, para
divertir Genia, que ainda não podia levantar-se da cama
ou pelo menos não podia ainda caminhar sem se apoiar
nas paredes ou nos móveis. Não me lembro bem se estava
de pé; lembro-me que a arvorezinha estava colocada
sobre a mesa ao lado da cama e estava atulhada de fósfo­
ros de cera que foram todos acesos assim que Giulia, que
havia dado um concerto para os doentes, entrou no quar­
to.

Em geral, os encontros com Giulia eram em intervalos irregu­


lares por causa do trabalho político. “Ainda não estou certo”, es-
crevia-lhe a 13 de fevereiro de 1923, “se domingo poderei estar com
você. Somos chamados a todo momento, nas horas mais imprevisí-
veis e não gostaria nada de faltar a uma reunião sem estar em con­
dições de justificar a minha ausência” . Conferia uma grande impor­
tância ao seu trabalho de funcionário da Internacional. Nó entanto,
a jovem e doce violinista já era uma parte muito importante da sua
vida: “Quero, quero ardentemente que você continue a gostar de
mim... eu levo todas estas coisas a sério, muito a sério” . Agora, de­
pois de ter conhecido Giulia, possuía “a mais bela, a maior e a mais
forte razão do mundo” para desviar-se de pensamentos, ocupações
e batalhas antigamente exclusivas, que absorviam todas as suas
energias intelectuais e físicas. Assim, em um belo momento, o disci-
plinadíssimo e rígido funcionário da organização que, de Moscou,
puxava os fios da revolução proletária em meio mundo, passando
da fase do “ urso de caverna” à do “lobo sentimental”, chegou a
permitir-se uma infração. Chegara da Itália um telegrama: o Comi­
tê Central do PCd’l informava da existência de um mandato de pri­
são contra Gramsci e por isso era aconselhável o retorno à pátria.
Foram procurá-lo de manhã bem cedo no Lux, o hotel da rua Gòr-
ki onde morava. Não estava, e nenhum dos italianos soube dizer
onde ele tinha se metido. Gramsci não havia dito nada. Giraram
inutilmente por toda Moscou de automóvel. Inutilmente. Nem
sombra do jovem italiano. Quem sabe que suspeitas assaltaram os
mensageiros que, impressionados' com o desaparecimento de
Gramsci, chegaram mesmo a mobilizar a G.P.U. Quando Gramsci
chegou ao Lux, todos o olharam como a “ um ressuscitado” , como
ele mesmo disse. Simplesmente ele quisera ser, por uma noite, o
enamorado e ponto fina!. Deste modo, ligados a compromissos que
os prendiam a cidades diferentes, um a Moscou e a outra em Ivano-
200
vo, quase correndo um atrás do outro, aproveitando dos poucos
momentos de liberdade, Antonio e Giulia viveram o seu período
mais feliz. Até que se deu a separação.
Na Itália, a situação se agravara. Os organizadores da Interna­
cional olhavam com preocupação ao PCd’I, desagregado pela onda
de prisões (Bordiga e Grieco estavam na prisão desde 3 de fevereiro
de 1923), obrigado ao imobilismo pelo espírito sectário de muitos
dos seus dirigentes e imerso em pleno marasmo.
Com o Executivo tendo sido preso, nas pessoas de
Amadeo [Bordiga] e de Ruggero [Grieco] - escreve
Gramsci - esperou-se inutilmente [ em Moscou], durante
um.mês e meio, informações que indicassem com exati­
dão como os fatos se desenrolaram, que limites teve a
ação da polícia na destruição da organização, que medi­
das o Executivo em liberdade havia tomado para refazer
o elo organizativo e reconstituir o aparelho do partido. E
no entanto, após uma primeira carta, escrita imediata­
mente depois das prisões e na qual se dizia que tudo fora
destruído e que a centra! do partido devia ser reconstituí­
da ab imis, não se recebeu mais nenhuma informação
concreta, apenas cartas polêmicas sobre a questão da fu­
são, escritas em um estilo que parecia ainda mais arro­
gante e irresponsável do que o autor delas tinha dado a
impressão, com a sua primeira carta, de que agora o par­
tido existisse só na sua pessoa... A questão do valor dos
elementos que constituíam o centro do partido italiano
foi brutalmente colocada. As cartas recebidas foram as­
peramente criticadas e me perguntaram o que eu podia
sugerir... Também eu fora atingido pela impressão desas­
trosa das cartas... E por isso cheguei mesmo a dizer que,
se a situação fosse mesmo aquela que despontava objeti­
vamente do material a disposição, seria melhor dá-la
como acabada de uma vez e reorganizar o partido do ex­
terior, com elementos novos escolhidos pela autoridade
da Internacional.

Por conseguinte, o Executivo ampliado da Internacional deci­


diu, em junho de 1923, liquidar a velha maioria bordighiana, e de­
signou-se para o Executivo do PCdT, os nomes de Togliatti, Scoccí-
marro, Fortichiari, Tasca e Vota. Fortichiari, ex-abstencionista, re­
201
cusou-se. Foi substituído por Gennari, contrário às posições de
Bordiga. Mas a 21 de setembro de 1923, o novo Executivo (Togliat-
ti, Tasca, Vota, Gennari e Leonetti, que substituía Scoccimarro),
foi também surpreendido pela polícia na casa do operário Renato
Scanziani, em um subúrbio de Milão, e foram presos. Por causa
desses acontecimentos, Gramsci recebeu a ordem de transferir-se
para Viena, de onde poderia seguir mais de perto a difícil situação
do partido na Itália. Acontecia portanto ao jovem sardo de passar
do estado do relativo isolamento do último período turinês à res­
ponsabilidade máxima. Com 32 anos era, na opinião da Internacio­
nal, o líder efetivo do partido italiano.
Deixando Moscou, partiu para Viena em fins de novembro de
1923, depois de um ano e meio de trabalho no Executivo da Inter­
nacional. Sua vida havia sofrido uma radical transformaçãoTMas o
fato de ter de se afastar de Giulia o deprimia. A jovem musicista era
consciente da cota de sacrifício que a atividade de Antonio sempre
lhe exigiria. Poucos meses depois, a 7 de junho de 1924, Gramsci es­
creverá à maê: “A minha companheira compartilha as minhas
idéias. Não é italiana, mas viveu muito tempo na Itália e fez seus es­
tudos em Roma. Chama-se Giulia (Julka na sua língua) e é diplo­
mada no Liceu Musical. É corajosa, de caráter forte e estou certo de
que todos vocês simpatizarão com ela e a estimarão quando a co­
nhecerem. No próximo verão ou no outono, irei com ela à Sarde­
nha por alguns dias” '.

1 A carta é inédita.
202
17 .

Angélica Balabanov conseguiu obter o visto de permanência


em Viena para Gramsci. Ele residia em uma rua muito longe do
centro da cidade. O quarto não era aquecido e a cama, “é alemã,
muito dura, muito incômoda, e, ao invés de lençóis e cobertores,
tem uma só coberta, que não me cobre todo o corpo, o que me faz
acordar muitas vezes com um pé ou ombro congelados” . A dona da
casa, uma judia convertida ao catolicismo, havia abjurado também
a segunda religião para casar-se com um comunista, Joseph Frey e
agora, de novo às voltas com as práticas do culto e saudosa do seu
velho e bom imperador, maldizia o partido que a obrigava manter
em casa um estrangeiro, por causa de quem a polícia poderia bater
na sua porta. Depois de alguns meses, Gramsci mudou de casa. Os
seus dias vienenses transcorreram em regime de semiclausura. Só
saía de casa para ir ao restaurante ou a qualquer encontro organiza-
tivo. A cidade não o atraía: “A neve cobre as ruas, a paisagem é
uma sucessão de montes brancos que me lembram as salinas de Ca-
gliari com os respectivos galeotes. Mas Viena é muito mais triste e
desanimada que Moscou. Aqui não tem os trenós que sulcam, ale­
gres e sonoros, a brancura das ruas, só os bondes com o seu baru-
lhão. A vida transcorre triste e monótona”. Estava isolado. Tinha
um secretário, Mario Codevilla, atacado pela tuberculose, e sem
203
grande vivacidade intelectual: “Estou sempre só. O meu compa­
nheiro não me estimula a nenhuma comunhão de pensamentos que
vá além de uma conversa banal”. Por isso, esperava ansioso que
Giulia fosse ter com ele.
Era este o tema das suas cartas: “Vivo isoladíssimo e, por al­
gum tempo, não poderá ser de outra forma. Sinto muito a sua falta,
sinto um grande vazio à minha volta. Hoje, mais que ontem, com­
preendo o quanto lhe quero bem e como, a cada dia, lhe quero ain­
da mais. Quando você poderá viver e trabalhar comigo?”. Batia
sempre na mesma tecla de viverem juntos:

Pensei que talvez fosse muito egoísmo da minha par­


te pedir que você viesse ter comigo, separar-se da sua vida
habitual para ficar comigo, longe do fervor atual de ativi­
dade que você tem a sua volta, que está no ar que respira,
ainda que o seu trabalho pessoal seja mecânico e exterior.
Pensei que eu quero ter você perto de mim porque estou
muito só e esta solidão me entristece muito... Querida,
você tem de vir. Tenho necessidade de você. Não posso fi­
car sem você... Estou como suspenso no ar, como longe
da realidade. Penso sempre, com uma saudade infinita,
no tempo que passamos juntos, uma intimidade tão gran­
de, uma expansão tâo grande de nós mesmos.
Mas Giulia não viria. Era frágil. Já se manifestavam os primei­
ros indícios de esgotamento que, anos depois, durante a prisão de
Antonio, a levará à beira da loucura. Para justificar a impossibili­
dade de ir a Viena, dizia que não podia deixar os seus familiares so­
zinhos. E Antonio, insistente: “Eu também pensei na sua família.
Mas você não pode vir nem por uns meses?... Como seria bom um
parêntese de vida em comum, na alegria quotidiana, de toda hora,
de todo minuto... Parece que estou sentindo a sua face ao lado dà
minha, e a mão que lhe acaricia a cabeça e lhe diz que lhe quero
mesmo que a boca cale” . Alguma coisa da sua exaustão física e
mental transparecia nas cartas de Giulia,mas só um fio um peque­
no fio.

Parece que estou lhe vendo - escrevia-lhe Antonio, a


21 de março de 1924 - sempre séria, triste. Por isso queria
você perto de mim. Acho que acabaria descobrindo as
coisas mais engenhosas para lhe fazer contente, para lhe
204
fazer sorrir. Faria relógios de cortiça, violinos de papelão,
lagartixas de cera com dois rabos, em suma, esgotaria
meu repertório de recordações sardas. Contaria outras es­
tórias, cada uma mais maravilhosa que a outra, da minha
infância um pouco selvagem e primitiva, tio diferente da
sua. E depois, lhe abraçaria e beijaria tantas vezes para
sentir você toda viva, você que é vida da minha vida.
Giulia permaneceu em Moscou. Esperava um filho. A princí­
pio havia feito uma breve alusão ao fato. Antonio respondeu: “Tive
um sobressalto ao ler a sua carta. Você sabe porquê. Mas a tua alu­
são é vaga e eu me consumo, porque queria lhe abraçar e sentir, eu
também, uma nova vida que une as nossas mais do que já estão uni­
das meu amor” . Depois do primeiro anúncio, seguiram-se semanas
de silêncio. A 29 de março de 1924, Antonio lhe escreveu:

No dia 24 de fevereiro você faz uma alusão à sua ma­


ternidade, o que me encheu de alegria. Desejava ardente­
mente que você fosse mãe. Achava que isso daria força à
sua personalidade, faria você superar uma crise que pare­
cia latente, ligada a sua infância, a todo o seu desenvolvi­
mento intelectual, permitiria você me amar com um
abandono mais completo... O seu amor me reforçou, fez
de mim verdadeiramente um homem, ou pelo menos me
fez entender o que é um homem e ter uma personalidade.
Não sei se o meu amor por você trouxe conseqüências se­
melhantes. Acreito que sim porque senti claramente tam­
bém em você, como em mim, este poder criador. Pensei
muito, no breve período da nossa felicidade plena, em
como a sua maternidade contribuiria para coroar tudo is­
so. Você faz apenas uma alusão a ela, e depois nada mais.
Ao sofrimento pelo afastamento de Giulia se somava, nestes
meses em Viena, o desligamento político. Gramsci fazia o possível
para acompanhar, através de um número suficiente de informações,
os acontecimentos russos e os do partido na Itália. Desde o início de
1922, Lênin estava com as pernas e o braço direito paralisados e em
março de 1923 havia perdido o uso da palavra. A luta entre as cor­
rentes no seio do Partido Comunista Russo começava a se intensifi­
car. A 13 de janeiro de 1924, oito dias antes da morte de Lênin,
Gramsci escrevia: “ Não conheço ainda os termos exatos da discus-
205
são que se desenvolveu no Partido [ russo]. Vi apenas a resolução
do Comitê Central sobre a democracia do partido, mas não vi ne­
nhuma outr!d resolução. Não conheço o artigo de Trotski nem o de
Stalin. Não consegui entender o ataque deste último, que me pare­
ceu muito irresponsável e perigoso. Mas talvez o não conhecimento
do material me leve a um julgamento precipitado”.
Na Itália, a confusão dentro do partido chegara, há mais de
um ano, ao máximo. A minoria de direita (Tasca, Vota, Graziadei)
e a maioria (Togliatti, Scoccimarro, Terracini; Bordiga estava na
prisão e desde junho de 1923 não fazia mais parte do Executivo) se
combatiam com ferocidade. As linhas táticas da Internacional (an­
tes a “frente única”; depois a fusão com os socialistas; e enfim, fra­
cassadas as negociações para a fusão, o bloco político entre os dois
partidos) foram sempre aceitas pela maioria de má vontade e sem
nenhum interesse efetivo de colocá-las na prática. Mesmo depois
que o Executivo ampliado da Internacional depusera Amadeo Bor­
diga, os resíduos de sectarismo eram evidentes na maioria. Na reu­
nião do Comitê Central de 9 de agosto de 1923, Tasca declarou:

Tenho comigo a ata de uma reunião entre compa­


nheiros da maioria. Podemos extrair dela que, enquanto
da parte do companheiro Palmi £ Togliatti] e de outros
foi expresso o desejo de colaborar com a política da Inter­
nacional, após um esclarecimento que precisasse a posi­
ção passada e atual da maioria, o companheiro Urbani
[Terracini], ao contrário, manifestou a opinião que se
devia aceitar [ a orientação da Internacional], mas depois
trabalhar às escondidas com base nas velhas posições do
partido, desaprovadas por Moscou.

O detalhe de que a ata tenha chegado ao conhecimento de T as-


ca indiscutivelmente por vias escusas também é bastante indicativo
do clima que o PCd’l vivia naqueles meses. Afirma Togliatti: “Na
luta entre frações, que se refletia igualmente nos organismos mais
delicados de direção, era regra, de ambas as partes, tentar se obter
cartas e documentos que pudessem vir a ser utilizados contra os ex­
poentes do grupo contrário”. Neste ar pesado, onde a ambiguidade
e a intriga já eram rotineiras, vinha desenvolvendo-se o debate
sobre uma iniciativa tomada na prisão por Bordiga, que, embora
contivesse posições extremas, tinha pelo menos o mérito de não
mascará-las, assumindo toda a responsabilidade delas até as últi­
206
mas consequências, mesmo as mais desfavoráveis, não deixando de
lado a perda do poder. Em resumo, a sua idéia era que a maioria do
PCd’I devia romper com a Internacional. Com essa finalidade, pro­
punha o lançamento de um manifesto assinado por todos os diri­
gentes, menos, evidentemente, Tasca e os outros da minoria de di­
reita. Gramsci foi o único dos interpelados a criticar sem'hesitações
a iniciativa. Com ele, mas em um plano diverso, se colocara Leonet-
ti. Terracini e Scoccimarro apoiavam iordiga. Togliatti estava in­
deciso. Por um lado julgava a proposta de Bordiga “ de acordo
com uma lógica rigorosa até o excesso” (“ A tática da Internacional
tende a ligar-nos ao PS1 da mesma maneira como estávamos liga­
dos a ele antes de Livorno, e até mesmo pior”); por outro lado, não
escondia os muitos riscos da ruptura:

Na prática, dadas as condições atuais, fazer aquilo


que diz Amadeo significa colocar-se em luta aberta com a
Internacional Comunista, colocar-se fora dela, achar-se
portanto privado de um poderoso apoio material e moral,
reduzido a um grupo mínimo mantido unido por laços
quase só pessoais, e em breve espaço de tempo condena­
do, se não a dispersar todos os seus integrantes, certa­
mente a perder toda e qualquer influência real e prática
imediata no desenvolvimento da luta política na Itália.

A 5 de janeiro de 1924, escrevendo de Viena a Scoccimarro,


Ciramsci assim justificou a sua recusa de assinar o manifesto:

Na verdade, depois da publicação do manifesto, a


maioria poderia ser desqualificada e excluída também do
Comintern. Se a situação política da Itália não fosse em
sentido contrário disso, afirmo que ocorreria a exclusão.
Na medida em que a concepção do partido deriva do ma­
nifesto, a exclusão deveria ser taxativa. Se uma nossa fe­
deração fizesse só a metade daquilo que a maioria do par­
tido quer fazer em relação ao Comintern. a sua dissolu­
ção. seria imediata. Não quero, assinando o manifesto,
parecer um palhaço completo.

A posição de Gramsci não se limitava ao puro aspecto formal.


Ele fora, desde os anos da primeira formação política, o homem do
“diálogo", das “aberturas”. Os fechamentos sectários lhe repugna-
207
vam. Já antes de Livorno, combatera-os em polêmica com o grupo
de II Soviet. Após a constituição do PCd’I, depois das orientações
da Internacional, ocorreu uma ruptura muito mais à esquerda do
que ele tivesse demonstrado desejar até há um mês do congresso de
Livorno. O “passo à direita” sugerido posteriormente pela Interna­
cional não podia deixar de obter seu apoio: “Não acredito, absolu­
tamente, que a tática que se desenvolveu através dos Executivos
ampliados e do IV Congresso £onde foi confirmada a proposta de
fusão do PCd’I com o PSl] seja errada. Nem pelo tom geral, nem
por detalhes relevantes”. O manifesto exigia agora de Gramsci que
resolvesse, com a máxima urgência, dois problemas na realidade in­
terligados: 1) como dissuadir Bordiga da iniciativa; 2) como formar
um novo grupo dirigente disposto a aplicar com lealdade as novas
diretivas da Internacional.
Gramsci não tinha muitas ilusões quanto à flexibilidade de
Bordiga: “Ele é uma personalidade muito vigorosa e tem uma con­
vicção tão profunda de estar com a razão, que é absurdo pensar em
enredá-lo com um compromisso. Ele continuárá a lutar e a toda
ocasião reapresentará sempre intactas as suas teses”; e ainda: “Es­
tou convencido de que ele é irremovível, estou convencido até mes­
mo de que ele não hesitaria em separar-se do partido e da Interna­
cional ao invés de trabalhar responsavelmente contra as suas con­
vicções” . Assim, permanecia o problema, bastante delicado, da po­
sição a assumir no confronto com Bordiga:

Eu também acho que o partido não pode prescindir


da sua colaboração, mas o que fazer?... O seu próprio ca­
ráter inflexível e tenaz até o absurdo nos obriga, ao con­
trário, a colocar o problema da construção do partido e o
seu centro também sem ele e contra ele. Acho que, quanto
às questões de princípio, não devemos mais fazer com­
promissos como no passado. Ê melhor a polêmica clara,
leal até o fundo, que beneficie o partido e o prepare para
qualquer eventualidade. Naturalmente, a questão não es­
tá fechada. Esta é a minha opinião por agora.

O ponto central do problema era quem deveria constituir o


novo grupo dirigente. Ainda no final de janeiro de 1924, Gramsci
estava muito preocupado a esse respeito. Julgava que o antigo gru­
po de UOrdine Nuovo estava desagregado e, pelo menos naquele
momento, excluía a possibilidade de que a ação de renovação do
208
partido pudesse basear-se em homens e no programa do velho gru­
po t u r i n ê s . Escreve a Alfonso L e o n e t t i , a 28 de janeiro de 1924;

Não compartilho do seu ponto de vista de que deva


revalorizar o nosso grupo de Turim em torno da Ordine
Nuovo... Por outro lado, Tasca pertence à minoria, tendo
levado até as últimas consequências a posição assumida
no fina! de janeiro de 1920, que culminou na polêmica en­
tre eu e ele. Togliatti não consegue se decidir, o que sem­
pre foi um pouco seu hábito; a personalidade “vigorosa”
de Amadeo o impressionou profundamente e o mantém a
meio caminho em uma indecisão que procura justificati­
vas em sofismas puramente jurídicos. Acho que Umberto
jTTerracinf] é, fundamentalmente, até mais extremista
que Amadeo, porque absorveu a sua concepção, mas não
possui a sua força intelectual nem o senso prático e a ca­
pacidade organizativa. Como então o nosso grupo pode­
ria reviver? Pareceria nada mais do que urfia camarilha
reunida em torno da minha pessoa por razões burocráti­
cas. As próprias idéias fundamentais que caracterizaram
a atividade de Ordine Nuovo seriam hoje anacrônicas...
Hoje, as perspectivas são diferentes e é preciso evitar cui­
dadosamente insistir muito sobre o fato da tradição turi-
nesa e do grupo turinês. Acabaria havendo polêmicas de
caráter personalístico para reivindicar os bens de uma he­
rança de recordações e palavras.

No entanto, as soluções possíveis não eram muitas, devido às


circunstâncias e, nas semanas seguintes, Gramsci reviu, numa certa
medida, a sua posição inicial, provavelmente ligada, além do exame
crítico dos acontecimentos turineses, e dos seus desdobramentos, às
dificuldades de um momento. Na passagem de ano de 1923/1924,
ele escreveu a Giulia: “ Reclame com Bianco. Diga-lhe que escrevi
pelo menos meia dúzia de cartas por dia. Nunca escrevi tantas car­
tas em toda a minha vida como nesses dias” . Decididamente, a epis-
tolografia não foi n-unca o seu gênero. Continuou a escrever duran­
te toda a sua permanência em Viena. Aos poucos, as indecisões de
alguns companheiros desapareceram e outros julgaram conveniente
dar a impressão de que tinham desaparecido, O novo grupo se
formou, não sem equívocos. No entanto, foram preparadas as con­
209
dições para um trabalho alinhado à Internacional. A 1? de março de
1924, Gramsci escreveu a Scoccimarro e Togliatti:
Eu não possuía nem a capacidade, nem a vontade ne­
cessária e não podia assumir a responsabilidade de deter­
minar a situação nova nas condições em que me encon­
trava. Hoje, depois da carta de vocês, penso de outra for­
ma: pode-se constituir um grupo capaz de trabalhar e de
forte iniciativa. A este grupo eu darei toda a contribuição
e a colaboração que as minhas forças me permitirem, por
aquilo que essas coisas podem valer. Não me será possível
fazer tudo aquilo que gostaria porque ainda atravesso
uma temporada de muita fraqueza, que me faz temer uma
recaida no estado de coma e de estupidez no qual me en­
contrava nos anos passados, mas de qualquer modo me
esforçarei.

Apesar de não gozar de boa saúde, Antonio trabalhava tam­


bém em traduções e para a imprensa do partido. A 12 de fevereiro
de 1924 saía em Milão o primeiro número de UUnità, Desde 1? de
março saía a terceira série de VOrdine Nuovo, agora quinzenal.
Gramsci escreveu sobre isso a Giulia em 15 de março:

Envio-lhe o primeiro número de L'Ordine Nuovo,


com o qual não fiquei muito satisfeito. Já estava pronto
há um mês quando foi publicado, e foi compilado às pres­
sas porque parecia que tinha de sair logo, imediatamente.
Teve um grande sucesso. Foram tiradas 6.500 cópias do
jornal (1.500 a mais que em 1920) e no primeiro dia esgo­
tou tudo. De Turim, de Milão, de Roma vinham pedidos
de mais 2 mil exemplares, o que não foi possível... Esta
mesma dedicação e as esperanças que muitos companhei­
ros colocam na obra que a Ordine Nuovo renascido pode­
rá desenvolver hoje me esmagam. Sinto cada vez mais a
minha fraqueza, a minha incapacidade. Seria necessário
uma vontade de ferro, um cérebro sempre lúcido e pron­
to, uma capacidade de trabalho material que são exata­
mente as coisas que me faltam.

Desejava ter Giulia ao seu lado, para recuperar algumas destas


forças. Mas ela não podia deslocar-se, agora que esperava um filho.
210
Será que ainda poderei fazer careta para você? Agora
somos pessoas sérias, dentro em pouco teremos um filho
e não devemos dar maus exemplos às crianças. Está ven­
do quantos novos horizontes se abrem?... A verdade é que
gosto muito de você, que penso em você continuamente e
às vezes sinto uma vontade imensa de lhe abraçar bem
apertado. Acontecem-me coisas estranhas. Mal recebi a
sua última carta, tive a sensação que você tinha chegado a
Viena e que lhe encontraria na rua. Mais uma vez passei
mal, sem poder dormir; a sua carta me excitou muito.
Acho que quando lhe abraçar me sentirei mal, tamanha
será a paixão que me dominará. Querida Julca, você é
para mim a própria vida, como se eu nunca houvesse sen­
tido a vida antes de lhe amar, algo de grande e belo que
preenche todos os minutos e todas as vibrações do ser.
Hoje quero ser forte como nunca quis antes, porque que­
ro ser feliz com seu amor e esta vontade se reflete em toda
a minha atividade. Penso que quando vivermos juntos se­
remos invencíveis e encontraremos um meio para derro­
tar também o fascismo. Queremos um mundo livre e belo
para o nosso filho e lutaremos para fazer com que isso se
realize como nunca lutamos antes, com uma tenacidade,
com uma energia que destruirá todos os obstáculos.

A 12 de maio de 1924, depois de cinco meses e meio, finalmen­


te Gramsci partiu de Viena. Nas eleições de 6 de abril tinha sido
eleito deputado em um colégio eleitoral vienense. Graças à imuni­
dade parlamentar que agora lhe garantia da prisão, podia retornar
à Itália. Ficara ausente por dois anos. Logo compreendeu, através
dos relatos daqueles que os viveram, os trágicos acontecimentos da­
queles anos, as mortes, as violências, os incêndios. Também o seu
irmão Gennaro havia sofrido nas mãos dos fascistas O incidente
ocorrera em dezembro de 1922; depois, uma companheira, Pia Ca-
rena, havia ajudado Gennaro a fugir para a França.
Assim que voltou à Itália, Gramsci sentiu também que o parti­
do, como organização homogênea, não existia. Havia entre a cabe-

1 Dirá Gramsci à mulher: “ Foi um pouco triste para mim voltar à Itália e logo sa­
ber através de outros, da caça que os fascistas, pensando que eu estivesse em Turim,
moveram à minha sombra e as pauladas e baionetadas que o meu irmão tomou por
mim, que nos deixou um dedo e a metade do seu sangue” .
211
ça e o corpo, entre o novo grupo dirigente e os Quadros periféricos,
uma separação, um desligamento que sempre conduzia à paralisia
ou, ainda pior, à contradição de um organismo orientado em um
sentido pelo pensamento (as diretivas da internacional e de Grams-
ci) e, ao contrário, acionado pelas pernas (o aparato de base) em
sentido oposto. Em outras palavras, Bordiga, afastado da liderança
do partido pela Internacional através de uma intervenção “impe­
rial”, continuava, não obstante, a controlar a maioria das federa­
ções. As massas, permeáveis a um certo tipo de discurso incendiá­
rio, o seguiam no seu extremismo, na sua recusa de qualquer outra
perspectiva, ainda que intermediária, que não fosse a insurreicio-
nal. As correlações de forças dentro do partido puderam ser verifi­
cadas por Gramsci durante a conferência clandestina convocada
nos arredores de Como, em maio, poucos dias depois da sua volta à
Itália. A reunião 2foi a primeira oportunidade para uma avaliação,
que acabou sendo nitidamente desfavorável a Gramsci. Os partici­
pantes da conferência deveriam votar em três moções: a primeira,
apresentada pela nova maioria do Comitê Central (Gramsci e o seu
grupo), obteve o apoio de apenas quatro componentes do Comitê
Central (três, porém, estavam ausentes) e de quatro secretários de
federação; à segunda, apresentada pela minoria de direita (Tasca e
o seu grupo), aderiram quatro integrantes do Comitê Central e seis
(secretários inter-regionais ou federais; vitoriosa com uma grande
; margem sobre as demais, a moção de Bordiga foi apoiada por um
componente do Comitê Central, por 39 secretários inter-regionais
ou federais e pelo representante tia federação juvenil. Naquele dia,
Gramsci teve a medida exata do muito que tinha a ser feito para a
conquista efetiva do partido, internacionalista no vértice e bor-
dighiano ao nível dos quadros intermediários. Mas não esmoreceu.
Nos dois anos que havia passado no exterior, havia sofrido muitas
mudanças. Agora, aos 33 anos, possuía um outro semblante, mais
garra, uma vontade de domínio antes insuspeita nele. Agora lhe
aparecia mais clara que no passado, a necessidade de que a elabora-

1 A reunião, escreverá Gramsci, “se realizou como se fosse um passeio turístico na


montanha organizado por funcionários de uma empresa de Milão. Durante todo o
dia, discussões sobre as tendências, sobre a tática e, durante a refeição na casa desti­
nada a abrigar viajantes, cheia de excursionistas, discursos fascistas, hinos a Musso-
lini, uma comédia geral para não provocar suspeitas e não ser pertubados nas reu­
niões realizadas em belíssimos valezinhos, todos brancos de narcisos.”
212
r-io do pensamento político e o exercício do poder para a afirmaçao
dauuele pensamento coincidissem. Não havia se recuperado plena-
n J ite da crise física. Continuava tendo insônia. Contudo, a vonta­
de uue tantas vezes o havia ajudado a sair do abismo de crises pavo­
rosas, pôs-se a trabalhar sem mais um momento de descanso.

213
18 .

Antonio morava em Roma, em uma pequena vila da rua Vesa-


lio, transversal da rua Nomentana, pensionista de uma família ale­
mã, os Passarge, que sabiam pouquíssima coisa sobre ele, ignoran­
do até mesmo a sua condição de deputado comunista
Naquele quarto - relembra Felice Platone, que foi
membro do Ordine Nuovo - Gramsci não tardou em reto­
mar os velhos hábitos: discussões, numerosas visitas, fer­
vor de idéias e de trabalho. Nos primeiros dias não nos
cansávamos de evocar o período do Ordine Nuovo. Reto­
mava o contato com os velhos amigos, querendo-os todos
perto dele. Pedia informações de cada um deles, impa­
cientava-se em ver logo Amoretti e Montagnana, os dois
“velhos” redatores do Ordine Nuovo. O restaurante onde
comíamos habitualmente (próximo à Estação Ferroviá­
ria; uma “descoberta” de Gennari) tornou-se logo um lo­
cal de encontro para os companheiros que queriam ou

! “ Faço o professor muito sério, sou tido em grande consideração e me deixam tran-
qüilo até demais".

215
precisavam falar com Gramsci. Alguns passeios à noite,
de preferência pelas imediações do Coliseu,-e alguns espe­
táculos cinematográficos eram as nossas distrações.
Como sempre, Gramsci continuava dirigindo suas atenções,
como nos anos turineses, aos jovens. Começavam a constituir-se em
Roma, depois das eleições de 6 de abril de 1924, grupos do Ordine
Nuovo. “ No primeiro grupo”, conta Velio Spano, “éramos uns 20.
O mais velho tinha 22 anos. Havíamos preparado uma série de te­
mas e, um de cada vez, nomeava-se um relator. Reuníamo-nos em
uma velha loja atrás da Praça Venezia, no qual havia apenas uma
mesa e três ou quatro cadeiras; a melhor dávamos a Gramsci, outra
ao relator. Os outros, geralmente, ficavam de pé. Nós queríamos
que Gramsci falasse, enquanto ele queria que nós falássemos” .
E eclodiu a crise Matteotti. Gramsci tinha voltado à Itália há
menos de um mês quando, a 10 de junho de 1924, Matteotti desapa­
receu. Apesar de intimidada por três anos de terrorismo, toda a opi­
nião pública foi apanhada de surpresa. Nos primeiros dias as rea­
ções foram incertas. Gramsci não hesitou e logo decidiu passar ao
ataque.

Um policial - recorda Giuseppe Amoretti, redator


do / Unità, publicado em Milão - veio ao nosso jornal in­
formar-nos, com ar de mistério, o desaparecimento do
deputado socialista. Ele nos disse que bastava publicar
apenas a notícia e, em essência, que era preciso calar
sobre o assunto. O sentido da recomendação era ameaça­
dor, sob a forma diplomática: “Se não, objetamos, nós
também teremos o mesmo fim de Matteotti?” . O policial
concordou com a cabeça como se dissesse: “ São vocês
que estão dizendo.,.” . E foi embora. Ficamos perplexos. •
Todo o aparato de repressão girava ameaçador sobre nós.
À porta havia sempre um bando de camisas negras. O jor­
nal podia ser devastado, as nossas cabeças mais uma vez
quebradas... Foi justamente nesse momento que a pala­
vra de Gramsci nos chegou por telefone de Roma. Era
preciso atacar e estarmos nós à testa do ataque. Âs mas­
sas populares em agitação deviam ser impulsionadas por
nós para frente.

L ’Unità saiu com o título de página inteira Abaixo o Governo


dos Assassinos.
216
Também a faixa da opinião pública que inicíalmente havia rea­
gido ao avanço fascista com mais torpidez, na realidade favorecen-
do-o, desta vez se insurgiu. Menos de duas semanas depois do desa­
parecimento e assassínio de Matteotti, a 22 de junho, G ram sei es­
crevia a Giulia:
Vivi dias inesquecíveis e continuo a. vivê-los. Através
dos jornais é impossível se fazer uma idéia exata do que
está acontecendo na Itália. Caminhávamos sobre um vul­
cão em ebulição; de repente, quando ninguém esperava,
especialmente os fascistas, super-seguros do próprio po­
der infinito, o vulcão explodiu,liberando uma imensa onda
de lava ardente que invadiu todo opaís, arrastando tudo
e todos do fascismo. Os acontecimentos se desenvolviam
com a rapidez inaudita de um raio; dia após dia, de hora
em hora, a situação mudava, o regime era atacado de to­
dos os lados, o fascismo era isolado no país e seu isola­
mento podia ser sentido no pânico dos seus chefes, na
fuga dos seus partidários. O trabalho foi febril; era neces­
sário, hora após hora, tomar disposições, dar diretivas,
procurar dar uma linha à torrente popular transbordante.
Hoje, aparentemente, a fase aguda da crise foi superada.
G fascismo procede à reunião desesperada das suas forças
que, reduzidas em todas as partes, continuam a dominar
amparadas comer são por todo o aparelho estatal, devido
às condições de incrível dispersão e desorganização no
qual se encontram as massas. Mas o nosso movimento
realizou um grande passo à frente: o jornal 1’Vnità tripli­
cou a tiragem, em muitos centros os nossos companheiros
se colocaram à testa das massas e tentaram desarmar os
fascistas, as nossas palavras- de ordem são acolhidas com
entusiasmo e repetidas nas moções votadas nas fábricas;
acredito que nestes dias o nosso partido tenha se tornado
um verdadeiro partido de massas.

A ilusão de Gramsci sobre a eficiência do partido não duraria


muito tempo. O fascismo, superada a debandada inicial, ganhava
novas forças e se reorganizava para a contra-ofensiva, encontrando
o seu ponto de apoio na dispersão das massas e especialmente na
inércia das oposições parlamentares.
217
Os grupos decididamente contrários ao fascismo e os com ape­
nas algumas reservas quanto aos métodos de governo chegaram a
um acordo em um só ponto: abandonar, em sinal de protesto, os
trabalhos do Parlamento. Mas que vontade política séria animava
os partidos do Aventino? As distâncias entre os grupos, as suspeitas
recíprocas, a irreconciliabilidade das ideologias e das linhas táticas
continuavam. Passava-se de uma ala substancialmente semifascista,
propensa a apoiar o governo bastando que Mussolini garantisse o
restabelecimento da legalidade constitucional, até os comunistas,
um pequeno grupo (apenas 19 deputados) orientado no sentido dè
derrubar o governo com o apelo às massas. E, entre os extremos ha­
via os grupos liberais ainda confiantes, apesar de tudo, na sabedo-
ria do rei, do qual esperavam a intervenção definidora; havia os ca­
tólicos- do Partido Popular, hostis tanto ao socialismo (em alguns
casos muito mais) quanto ao fascismo. A longa polêmica sobre a
fusão havia escavado um abismo entre o PCd’I e o novo grupo diri­
gente socialista Vella-Nenni. Em resumo, o fascismo não enfrenta-
va, na oposição, um bloco igualrfiente resoluto e combativo, mas
um consórcio ocasional de grupos desunidos, indecisos quanto às
iniciativas a serem tomadas e, na prática, incapazes de ir além das
expressões orais de indignação. Nos primeiros dias da crise Mat-
teotti, quando não se via mais nas ruas ninguém com o distintivo
fascista na lapela, Gramsci propôs ao Comitê dos 16 (uma espécie
de executivo do Aventino) a greve geral política. A proposta foi re­
chaçada e Gramsci comentava a 22 de junho: “Muitas palavras,
mas nenhuma vontade de agir; um medo incrível de que nós tomás­
semos as rédeas e, por isso, eles manobraram de modo a obrigar-
nos a abandonar a reunião”.
Durante meses a atividade do Aventino continuou ainda redu­
zida a abstratas afirmações de princípios, a alguns artigos de jornal
e, em essência, a uma monótona sucessão de lamentações inócuas.
Deve ser dito também, entretanto, que a posição de desconfiança
que alguns grupos manifestaram em relação à proposta de Gramsci
de uma frente única e ativa de oposição não limitada apenas a uma
“vociferação incômoda” (assim Mussolini, acertando no alvo, defi­
nia o real programa do Aventino) era determinada pelo extremis- •
mo, o qual, desde a sua fundação, o Partido Comunista havia dado
mostras. A ação política de Gramsci sofria dessa grave limitação: o
fato dele estar à frente de um partido jovem, ainda pouco organiza-
do e, pior, debilitado pelo veneno do sectarismo, isto é, mantido em
posições imobilistas pelas ações dos irresponsáveis de esquerda.
218
Gramsci estava inevitavelmente condicionado por isso. Não igno­
rava que a maré reacionária fascista tinha empurrado a classe ope­
rária italiana para posições das quais era muito difícil estimular o
ímpeto revolucionário. Daí Gramsci não hesitava em extrair duas
consequências: em primeiro lugar, a necessidade de recuperar nesse
meio-tempo as posições perdidas, antes do assalto decisivo para o
abatimento da ordem burguesa; em segundo lugar, a impossibilida­
de de recuperar as posições perdidas sem um amplo sistema de
alianças com as forças antifascistas, incluindo as burguesas. Bordi-
ga não desejava as alianças'simplesmente porque recusava o seu
fim, a restauração da democracia burguesa: o seu único objetivo era
a ditadura do proletariado, a ser instaurada superando as fases in­
termediárias. Também Gramsci colocava, como objetivo final, a re­
volução proletária, mas, ao contrário de Bordiga, não era desenca­
minhado pela idolatria do meio. Devido a outra formação cultural,
era pouco disposto a encerrar-se dentro de fórmulas mágicas imutá­
veis em qualquer momento histórico. Por isso havia aceito as últi­
mas orientações da Internacional como as mais adequadas à nova
situação. Em resumo: primeiro, resistir à tempestade reacionária, e
depois preparar, em regime de liberdades burguesas, o ataque para o
triunfo da revolução socialista. Estes dois momentos, a resistência
ao fascismo e a propaganda revolucionária, tendiam todavia, na
ação política de Gramsci, a confundir-se. Podia depender talvez da
circunstância de ser o líder nominal de um partido substancialmen­
te bordighiano, como a conferência de maio em Como havia com­
provado claramente. O certo é que, enquanto de um lado ele pro­
punha aos grupos dirigidos porTreves, Arturo Labriola e Amendo-
la a unidade das forças antifascistas, coerente com o projeto da In­
ternacional e com o seu próprio projeto de encontrar aliados para a
recuperação das liberdades burguesas, por outro lado polemizava
violentamente contra Treves, Arturo Labriola e Amendola, consi­
derados expressão da ordem capitalista a ser abatida. A efetivação
de um diálogo sério tornava-se, deste modo, muito difícil, devido às
muitas desconfianças que o truncavam nas origens. O quadro com­
pleto do Aventino era o seguinte: não havia concórdia entre os gru­
pos de democracia burguesa e partidos operários; graves divergên­
cias separavam o partido reformista (Turati, Treves) do Partido So­
cialista (VelH, Nenni) e os dois partidos socialistas do comunista; e
as divisões se multiplicavam no interior dos partidos: assim, a ativi­
dade fracionística dos bordighianos minava as forças do Partido
Comunista, dilacerado por disputas não somente ideológicas (já
219
que a difamação pessoal entrava largamente em jogo), justamente
quando teria sido útil opor coesão à desesperada vontade dos fas­
cistas de não sucumbir.
O único resultado evidente da crise Màtteotti foi o relaxamen­
to do regime'de repressão. Gramsci podia mover-se pela cidade sem
nenhuma preocupação “ porque a polícia não funciona, como não
funciona nenhum órgão do Estado fascista que é sabotado pelos
funcionários. Não sei até quando esse estado de coisas poderá du­
rar. Os acontecimentos obrigam o Partido a uma aprendizagem
muito difícil, depois de três anos de ilegalidade, e de pura defesa da
organização. Ê necessário movimentar-se, fazer agitação, sair a des­
coberto. Os companheiros, que não estavam preparados para este
sobressalto imprevisto, mostraram-se um pouco inseguros” .
Gramsci tinha, semanalmente, três ou quatro reuniões, quer com os
organismos diretivos do partido, quer com as formações locais de
militantes. “ Reuniões muito interessantes” , dirá, “especialmente as
com a massa operária. Conversações, discussões, informações,
problemas a resolver, questões de princípio e de organização a deli­
near” . Fora dos ambientes do partido, ele não freqüentava outros.
Em Roma, morava um irmão do pai, Cesare, funcionário do
Ministério das Finanças. Não foi visitá-lo e escreveu à mãe (carta
inédita):

Nunca encontrei o tio Cesare e não sei onde ele mo­


ra. Não irei procurá-lo nem em casa nem no trabalho,
mesmo que venha a saber do seu endereço. Lembro-me
ainda do seu temor quando, em 1917, estando eu em
Roma para testemunhar em um processo político, fui
. procurá-lo. Ele tinha medo de se comprometer e me disse
uma porção de mentiras, tentando fazer com que eu acre­
ditasse que os policiais tinham ido a sua casa me procu­
rar, coisa totalmente inventada pelo seu medo. Ele sabe
que eu estou em Roma e que pode me encontrar no Parla­
mento. Se não o fez é porque tem boas razões, as quais eu
não estou disposto a discutir ou a colocar à prova.

Estava só.
Escreveu a Giulia a 7 de julho: “Cara Julca, a lembrança das
suas carícias me provoca febre, me faz sentir o peso da minha me­
lancólica solidão. Não me permito desfrutar as belezas de Roma,
queria passear com você, para vermos juntos, para relembrarmos
220
juntos, e me encerro em casa. Acho que me tornei um urso da ca­
verna” . Sofria novamente de insônia, de fraqueza:

O fato de ter de pensar me cansa, o trabalho deixa os


meus nervos em condições deploráveis. Quantas coisas
deveria fazer e não consigo. Penso- em você, na doçura de
lhe amar, de saber que você está tâo próxima, ainda que
tão distante; cara Julca, embora de longe, o seu pensa­
mento me fortalece. Mas a minha vida não pode voltar à
normalidade enquanto estivermos separados: o meu
amor por você é uma parte muito grande da minha perso­
nalidade para que eu possa me considerar normal sem a
sua presença.

Os acontecimentos nos quais estava imerso se encarregavam de


dar-lhe uma sacudidela:
No entanto, é necessário reorganizar o Partido que é
fraco e que, no seu conjunto, trabalha muito mal. Faço
parte do Centro Político e sou secretário-geral. Deveria
ser também o diretor do jornal 1’Uniíà, mas não tenho
forças suficientes. Ainda não posso trabalhar muito. Se­
ria preciso estar atento a tudo, acompanhar tudo... Fal­
tam-nos trabalhadores responsáveis, especialmente em
Roma. Das reuniões de que participo, fico satisfeito pelo
quadro de boa vontade e de ardor dos companheiros, mas
também fico pessimista pela falta de preparação geral. A
situação é ótima para nós... O fascismo está em pedaços,
parece enlouquecido, não sabe encontrar uma medida
política que lhe seja útil. Tudo se volta contra ele. Mas o
desenrolar dos acontecimentos será relativamente lento,
porque nós somos ainda muito poucos e muito mal orga­
nizados.

Essa carta é de 18 de agosto de 1924. Há oito dias Gramsci era


pai. Porém, a carta de Giulia ainda não havia chegado.
Três dias antes, a 15 de agosto , escrevera à mãe: “O meu filho
deve ter nascido nestes dias, mas ainda não recebi notícias, devido à
distância que me separa da minha companheira. Eu sabia que os
médicos haviam previsto o nascimento entre 8 e 15 de agosto. Acho
que tudo foi bem e espero ter notícias até a próxima semana” 2 De­
pois, no dia 18, escreve a Giulia:

Enquanto escrevo, talvez o nosso filho já tenha nas­


cido, talvez já esteja perto de você e você possa acariciá-
la, depois de ter sofrido para dar-lhe a vida. A minha ale­
gria é um pouco triste por isso. Quantas coisas queria sa­
ber e não posso. Mas o que importa saber se não me foi
possível sofrer com você?... E a minha felicidade está um
pouco amuada e se sente um pouquinho triste... Escrevi à
minha mãe dizendo que em breve nós teríamos um filho.
Ela está ansiosa para saber notícias. Se você puder me
mandar fotografias, mande-me duas cópias. Vou dar uma
grande alegria à minha mãe, que sente os laços familiares
como os sardos, de uma forma muito violenta e apaixo­
nada.

No dia seguinte, 19 de agosto, partiu para Milão e Turim.


Esteve fora de Rorna durante 15 dias. Ao retornar, a 3 de se­
tembro, encontrou duas cartas de Giulia. Respondeu-as:

Depois de ter lido as suas cartas, não sei o que escre-


ver. Coisas sérias e melodramáticas? Engano-me comigo
mesmo. Não sei, eis tudo. Talvez uma leve carícia expri-
misse melhor que o dilúvio de palavras que queria lhe di­
zer. Aprovo tudo o que você fez. Aprovo também o no­
me, embora me pareça exagerado que um menino, que
pesa três quilos e meio (mas talvez hoje pese mais) e não
tem nem sequer um dente, chame-se Lev. Mas ele se tor­
nara um verdadeiro Lev, não é?... E depois, nada disso
me importa. O que me importa é que o menino seja uma
criança viva, seja nosso filho e que nós nos amemos mais
que antes porque vemos nele nós mesmos, mais fortes e
mais felizes... Espero participar da sua alegria ao assistir
aos sucessivos desenvolvimentos da personalidade do me­
nino. Um momento importante, me parece, será aquele
em que o menino colocar o pezinho na boca pela primeira
vez. Gostaria que você me informasse logo deste ato que

2 A caria é inédita.
222
assinalará a tomada de posse dos limites extremos do seu
território nacional.
Dois dias depois, 5 de setembro, avisou à mãe sobre o nasci­
m en todo filho:
Nasceu a 10 de agosto e a sua mãe está bem porque
me escreveu já na manhã do dia 11 e de novo no dia 18.
Pesava três quilos e 600 gramas, tinha abundantes cabelos
castanhos, a cabecinha bem formada, a fronte alta e os
olhos muito azuis. Estou dando a descrição que a mãe me
fez. Ela acrescenta, muito poeticamente, que parece que o
menino foi banhado de sol como um fruto ainda na árvo- ^
re. Já transcorreram 25 dias desde o nascimento e agora
ele deve ter crescido. Chama-se Lev, que em italiano sig­
nifica Leone, o que me parece um pouco exagerado para
uma criança que pesa apenas três quilos e meio e não tem
ainda nenhum dente. Sofro muito por estar tão distante
da minha companheira neste momento. Acho que ela tera
de retardar a sua vinda para cá por alguns dias. E muito
difícil fazer uma viagem de cinco dias de trem com uma
criança de poucos meses. Enquanto isso, ela continua
junto à sua família. Assim que for possível, ela me man­
dará uma fotografia do menino que enviarei a você. As­
sim, você poderá ver o seu novo netinho, que por agora
atormenta sozinho, a 3 mil quilômetros de distância da
Itália, a sua mamãe que escreve coisas de louco sobre as
suas gracinhas. Ela escreveu dizendo que ele lhe mostra a
língua para provocá-la, o que me parece exagerado. Voce
também não acha? Mas talvez todas as mães vejam estes
milagres no seu primeiro filho 3.

Mais tarde, o nome do menino foi trocado para Delio, como


Delio Delogu, o primo com o qual Antonio vivera quando rapaz
em Cristano, e que morrera muito jovem (perguntará à mãe: Tio
Serafino sabe que eu dei o nome de Delio ao meu filho?”).
Agora viver longe de Giulia o entristecia ainda mais: As vezes
me vêm muitos pensamentos tristes. Penso em todo este tempo pas-

A carta é inédita.
223
sado um longe do outro; na sua vida intensa e na minha ausência de
tantas coisas, de tantos momentos. O pior é que não vejo uma solu­
ção próxima para esse estado de coisas, e durante algum tempo será
muito difícil eu poder sair da I t á lia , e por outro lado compreendo
iodas as dificuldades que se opõem a uma sua viagem à I t á l i a ” .
Queria, poder ajudá-la de algum modo; ela, embora não em boa si­
tuação, desejava resolver sozinha e rejeitava qualquer auxílio d e d i ­
n h e i r o . Era o início de longas discussões:

Mas por que você não quis aceitar o dinheiro que ele
[Vincenzo Bianco, um emigrado político em Moscou] foi
encarregado de lhe entregar? Não creio haver nisso nada
que contrarie os princípios e ãs nossa normas de vida. Te­
ria muito prazer se você tivesse aceito. Muitas vezes pen­
so que nada posso fazer por você, pelo menino. E gostaria
de fazer alguma coisa. Acho que se eu soubesse que o meu
trabalho tem alguma importância ou representa uma aju­
da na superação de uma dificuldade da vida de vocês
dois, ficaria muito feliz. Seria como se um novo elo tives­
se sido criado para nos unir, para nos dar a impressão de
estarmos mais próximos

Havia tentado, mas não conseguira. A 6 de outubro de 1924,


quase em tom de desculpa, lhe escrevia:

Por que quis que Bianco desse a você, em meu nome,


alguma c o i s a ? . . . Pensei só n is s o : que teria ficado contente
em saber q u e a l g u m a c o i s a da vida do menino e da sua

Hm 1931, ele escreverá a Giulia da prisão: “ Por que você recusou com tanta obsti-
naçao a ajuda que lhe mandei através de Bianco? E por que eu não consegui me im­
por a você e fazer reconhecer o meu direito de lhe ajudar? Havia recebido 8.200 liras
de indenização jornalística e o empreguei integralmente no novo jornal 1'Unilú. Por
que eu tive de permitir que você contraísse dívidas de 12 rublos enquanto eu empre­
gava 8.200 liras no jornal, já que poderia, sem nenhuma dificuldade e ainda cum­
prindo integralmente com o meu dever, empregar apenas 50",;.' Tudo isto me exaspe­
ra agora contra mim mesmo e me faz ver o quanto a nossa relação era de uma incon­
gruência e de um romantismo criminoso. É verdade que você não fez referência a es­
tes 12 rublos, ao contrário brincou com as minhas “pretensões" de lhe ajudar, mas
sinto agora que deveria ter encontrado a maneira de lhe impor também aquilo que
você não queria".
224
vida devia-se a mim; representava um pequeno sacrifício
meu, digamos um maço de cigarros ou um café a menos.
Por que isto? Acho que é uma lembrança da minha vida
de menino, ligada aos sofrimentos materiais e às dificul­
dades que se superam junto com a mãe e com os outros ir­
mãos e que unem, que criam vínculos de solidariedade e
de afeto que nada poderá destruir. Você acha que a me­
lhor das- sociedades comunistas poderá modificar funda­
mentalmente estas condições das relações individuais?
Por algum tempo ainda, estou certo que não.
A necessidade de união para que, todos juntos, superassem as
dificuldades, explicava, era um sentimento que nada tinha de bur­
guês e, ao contrário, era próprio das classes que sofrem a instabili­
dade da vida e a insegurança do pão, da roupa, do teto para os fi­
lhos e para os velhos. “ Você acredita estar ao abrigo de todos os pe­
rigos porque vive em um Estado soviético; porém, você tem de ad­
mitir que mesmo em um Estado soviético estas condições de insegu­
rança ainda permanecem para uma grande maioria.” Trata-se de
uma referência às leis soviéticas que confiam a criança aos cuidados
da sociedade no seu conjunto, além de ao pai e à mãe, etc., e Giulia
lhe havia recordado isso. Mas a Antonio aquilo parecia mais Rous-
seau do que Lênin: “Quando você me descreveu a cena das crianças
que são distribuídas, aos berros, em uma grande carreta às mães
que devem alimentá-las, a cena me pareceu tão nítida que pensei em
lhe provocar escrevendo que talvez, de vez em quando, dão às mães
uma criança diferente, já que a disciplina soviética não é assim tão
perfeita que possa dar uma consciência segura às /irámejjbabás] que
trabalham nos hospitais” . Voltava, finalmente, ao motivo funda­
mental da sua melancolia: “ Que pena que eu não possa dividir com
você as ânsias e as alegrias dos primeiros dias do nosso filho. Isso
será sempre uma lacuna na minha vida” .
As condições de trabalho haviam ficado difíceis. Em julho, no
auge da crise Matteotti, Antonio julgava a queda do fascismo imi­
nente. O diagnóstico, expresso em uma reunião do Comitê Central,
baseava-se nos seguintes pontos: 1) o fascismo chegou ao poder ex­
plorando e organizando “a inconsciência e a submissão da peque­
na burguesia, embriagada de ódio contra a classe operária” . “ O
fato característico do fascismo consiste em ter conseguido consti­
tuir uma organização de massa da pequena-burguesia. É a primeira
vez na história que isto se verifica. A originalidade do fascismo con­
225
siste em ter encontrado a forma adequada de organização para uma
classe social que sempre foi incapaz de ter uma estrutura e uma
ideologia unitária”; 2) o fascismo não cumpriu nenhuma das suas
promessas, não apagou nenhuma esperança, não suavizou nenhu­
ma miséria. As classes médias que jogaram no regime fascista to­
das as suas esperanças foram arrastadas pela crise geral”; 3) o fas­
cismo está por conseguinte, condenado ao fim:

A onda de indignação suscitada pelo delito Matteotti


surpreendeu o Partido Fascista que, estremecido de pâni­
co, se perdeu. Os três documentos escritos naquele mo­
mento de angústia pelos deputados Finzi, Dilippelli, Ce-
sarino Rossi e levados ao conhecimento da oposição, de­
monstram como os próprios crimes do fascismo perde­
ram qualquer segurança e acumularam erros sobre erros;
daquele momento em diante, o regime fascista entrou em
agonia. Ele encontra-se ainda apoiado por forças ditas de
apoio, mas é apoiado da mesma forma como a corda sus­
tenta o enforcado. O delito Matteotti ofereceu a prova ca­
bal de que o Partido Fascista não conseguirá mais tornar-
se um partido normal de governo, que Mussolini possui
de estadista e de ditador apenas algumas pitorescas poses
exteriores. Ele não é um elemento da vida nacional, é um
fenômeno de folclore camponês, destinado a passar à his­
tória mais na ordem das diversas máscaras provincianas
italianas do que na ordem dos Cromwell, dos Bolívar, dos
Garibaldi.

Na realidade, as forças que apoiava o fascismo eram, para o


regime, tudo, menos a corda que sustenta o enforcado. Superado o
desacerto inicial, os fascistas, fortemente apoiados pelo capitalismo
agrário e industrial, começaram a recuperar toda a sua agressivida­
de. A 31 de agosto, Mussolini declarara aos mineiros do Monte
Amiata: “O dia em que [os grupos do Aventino] passassem das vo-
ciferações incômodas às coisas concretas, nesse dia nós faríamos
deles a palha para os acampamentos dos camisas negras” . A onda
de violências fascistas foi reiniciada. Mais uma vez, como em 1921-
22, espancamentos, assassinatos, devastações, os jornais invadidos,
as casas dos opositores devastadas. A 5 de setembro de 1924, Píerò
Gobetti foi surrado até sangrar, em Turim (seus pais, depois que os
fascistas incendiaram a sua casa, foram morar no trecho entre pra-
226
ça Carlina e rua San M assim o onde viveram Angelo Tasca e
Gramsci). Dias depois, morre em Roma um deputado fascista, Ar­
mando Casalini, morto no bonde por um desequilibrado, Giovanni
Corvi, Para os fascistas, estavam quites: Casalini compensava Mat-
teotti. O regime de repressão endureceu ainda mais. Gramsci não ti­
nha mais a liberdade de movimento dos meses anteriores:
Depois da morte do deputado fascista Casalini eu,
que antes era deixado em paz, comecei a ser vigiado. Nes­
tes dias fui reconhecido por um fascista turinês, que me
indicou a um bando de amigos. A polícia, para me defen­
der, começou a me seguir, isto é, a dificultar os meus mo­
vimentos e a obrigar-me a andar de automóvel ao invés
de bonde .quando devia comparecer a alguma reunião.
Era preciso agir com extrema decisão. A 20 de outubro, aco­
lhendo a sugestão de Gramsci, o grupo parlamentar comunista pro­
pôs ao Comitê das oposições que o Aventino se transformasse em
Antiparlamento, a única assembléia representativa da vontade po­
pular, contra o grupo parlamentar fascista, reduzido à pura expres­
são de arbítrio. A proposta foi rejeitada.
Enquanto isso, desenvolviam-se, na presença de Gramsci, os
congressos das federações comunistas em numerosas cidades da
Itália. Foi em uma pausa desta febril atividade que Antonio pôde
passar alguns dias com os seus, em Ghilarza, depois de ter partici­
pado do congresso regional do partido, realizado clandestinamente
em Cagliari, em um prado entre as Salinas e Quartu, a 26 de ou­
tubro de 1924.
Era um domingo. Gramsci, que chegara a Cagliari na noite an­
terior no trem proveniente de Olbia, passara a noite no escritório
do advogado Alberto figus, na rua Ospedale, a poucos metros da
casa do corso Vittorio onde morava quando estudante. Ele gostaria
de ter saído um pouco depois da chegada, dar uma volta para rever
os locais da sua primeira juventude. Mas, naquele momento, era
conveniente ser prudente. Dentro de três dias seria comemorado o
segundo aniversário da marcha sobre Roma e desde sábado que os
' militantes fascistas estavam mobilizados em toda a parte. Dormiu
sobre um colchão. No pôqueno escritório havia uma mesa, algumas
cadeiras e um candeeiro a óleo. No dia seguinte pela manhã, ao
nascer do dia, um jovem metalúrgico das Construções Mecânicas,
Nino Brtino, veio buscá-lo.
227
[Gramsci] vestia uma camisa usada e suja e nenhu­
ma gravata - me diz Bruno. Eu nunca o vira antes, mas já
tinha ouvido falar muito no seu nome. Imaginava-o alto,
forte, um colosso. Ao contrário, era de estatura anormal'
e nem sequer se preocupava em manter-se .em ordem, a
barba crescida, um mar de cabelos mal penteados e a rou­
pa modesta e cheia de manchas. Saímos rumo ao local da
reunião, que fora sugerido por mim. Havia pouca luz, as
estradas estavam desertas. Escolhi um intinerário tran­
s ijo , estradas quase no campo, fora da periferia. Um ca­
minho longo para não dar na vista. G ram sei não dava
mostras de cansaço. Era um tipo alegre, brincava, ria, e
falava comigo em sardo. Chegamos ao .ponto combinado,
Is Arenas, entre o Poetto e Monte Urpinu, por volta das
sete horas da manhã. Já havia uma porção de delegados,
outros foram chegando aos poucos. No final, éramos ao
todo uns 20. E logo começou o congresso. Era tempo de
romã, nos sentamos no chão, ninguém podia nos ver, pois
estávamos longe das estradas, em meio a vinhas e a cam­
pos cheios de moitas. Gramsci, sentado sob uma árvore,
lia o relatório. Falava de Bordiga e depois da necessidade
de reorganizar o partido e da propaganda que devia ser
feita na Sardenha para convencer os pastores, os campo­
neses e os pescadores a colocarem-se ao lado dos operá­
rios de toda Itália. A discussão continua. O único favorá­
vel a Bordiga era o delegado de Sassari que, porém, a um
determinado momento, teve de ir embora para tomar o
trem das duas. Nós comemos. O representante de Orista-
no, Scalas, tinha trazido doces. Gramsci não quis, alegre
por poder dizer que preferia pane e casu, pão e queijo, e
bebeu um pouco de vinho e comeu algumas maçãs. Aca­
bamos o congresso às seis da tarde. Voltamos para a cida­
de cada um por sua conta, menos Gramsci, que estava
acompanhado.

No dia seguinte, com o congresso já encerrado e, portanto


sem nenhuma preocupação de ser seguido, Gramsci foi almoçar no
coraçao da cidade, na Fanni, um restaurante no Largo Cario Feli-
ce. Depois foi tomar café em um bar da praça Jenne. Quem o serviu
fo. um jovem comunista, Giovanni Lay (sete anos depois, eles se
228
reencontrarão na prisão de T u r i) . Às duas horas, Gramsci pegou o
Irem para Ghilarza.
■ jsjão visitava a sua aldeia desde a morte de Emma, em 1920.
Algumas coisas haviam mudado na família. Cario, agora com 27
anos. tinha uma loja de sapatos, e com aquele negócio, na realidade
um pouco penoso, ia levando a vida. Teresina, empregada na agên­
cia postal, havia se casado há poucos meses com P a o l o Paulesu, ge­
rente da agência. Em casa fazendo companhia aos velhos (o senhor
Ciecillo com 64 anos e a senhora Peppina com 63) restavam apenas
Cario e Grazietta; vivia também com eles uma menina de quatro
anos Edmea, filha de Gennaro. Todos agora esperavam Nino com
grandes preparativos. Sobretudo a senhora Peppina, que não via a
hora de tornar a abraçar aquele filho que aos 33 anos era deputado
(e felicidade maior não poderia ter lhe dado) tinha esposa e um fi­
lho. Também o senhor Ciecillo contava as horas e os minutos.
Os velhos amigos foram receber Nino na estação de A b b a s a n -
ta.
Logo que desceu do trem - relembra o ghilarzês P e p -
pino Mameli - nos abraçou. Depois, piscou discretamen­
te o olho e eu vi, a u m a certa distância, dois homens que
haviam descido do trem e estavam ali, tentando fazer um
ar indiferente. Eram policiais. Nino continuou a conver­
sar conosco em frente à portinhola aberta do vagão e
quando o chefe de estação apitou dando o sinal de parti­
da, subiu no trem. Os policiais também subiram. O com­
boio se pôs em movimento. Saudávamos Nino agitando
as mãos. De repente, ele abriu rapidamente a portinhola e
saltou. Não sei nem se os policiais repararam nisso. Só sei
que agora, com o trem em velocidade, eles não podiam
persegui-lo. Nino escapara diante do nariz deles.

Gramsci e os amigos dirigiram-se para Ghilarza. Tinha vindo


quatro anos antes, mas fora uma escapada de três-quatro dias em
um momento difícil: Emma, morta aos 31 anos; e depois, a situação
crítica deixada em Turim, o movimento dos Conselhos de fábrica
derrotado, a edição piemontesa do Avanti! a ponto de fechar as por­
tas devido à acusação de indisciplina lançada por Serrati no debate
pré-congresso, e as discussões nem sempre amigáveis com Toglíatti
e Terracini, dos quais, meses antes, havia marcado posição, em su­
ma, todo um conjunto de motivos de preocupações e incertezas, e
229
de pensamentos em desordem... Portanto, desde o verão de 1913 -
onze anos - que não passava muito tempo em sua aldeia. Aqui nada
parecia haver mudado. Ghilarza lhe parecia igual a como sempre
fora, com as suas casas baixas de pedra de lava e a fumaça azulada
que flutuava lentamente sobre as telhas e o cheiro das laranjas e o
trote dos burricos com os camponeses nas costas retornando do tra­
balho, e as tias Tane e os Cozzoncu e os Remundu Gana na porta
de casa. Unica novidade, as primeiras bicicletas que começavam a
fazer concorrência aos burricos. Os velhos, ao vê-lo, colocavam um
dedo na pala do chapéu, em sinal de saudação, e faziam comentá­
rios: chegou o filho de Peppina Mareias, chegou o sobrinho de Gra-
zia Delogu.

Logo começou o desfile dos prinzipales, a “nobreza” da aldeia,


também fascistas , conta Qramsci, “que vinham me visitar com
muita calma, congratulando-me por eu ser... um deputado, muito
embora comunista. Os sardbs se homenageiam, eh! Forza paris!
Avante Sardenha!” Ele se divertia com a situação. “ Mas vieram
também os membros da Sociedade de Auxílio Mútuo local, entre os
quais artesãos, operários e camponeses, tendo à frente o seu presi­
dente que não queria comprometer a apoliticidade da associação,
que me fizeram muitas perguntas: sobre a Rússia, sobre como fun­
cionam os sovietes, sobre o comunismo, sobre o significado de capi­
tal e capitalistas, sobre a nossa tática em relação ao fascismo, etc.”
Cario, que havia organizado a reunião, estava de guarda do lado de
fora. Ao se referir ao relato daquelas conversações que o próprio
Gramsci lhe fez, Celeste Negarville escreve:

Eram homens muito primitivos, destruídos por uma


vida de misérias e de trabalhos... Não era, porém, assim
tão fácil lhes explicar aquilo que eles queriam saber, mas
a singular capacidade que Gramsci tinha de conversar
com os trabalhadores deve ter servido às mil maravilhas.
Um camponês lhe disse no primeiro dia: “Quando soube­
mos que você havia se candidatado nas eleições, decidi­
mos votar em você, porque sabemos que você é um ho­
mem honesto. Porém nos disseram que isso não era possí-
yel jjde fato, Gramsci se candidatara pelas circunscrições
da Venezia-Giulia e do Piemonte^ e isto nos desagradou.
Mas para dizer a verdade nós não sabemos bem em que
partido se meteu no continente” . Gramsci explicou que
era membro do Partido Comunista e explicou o que era o
Partido Comunista. Os camponeses ficaram pensativos, e
depois um deles disse: “Mas por que depois que você par­
tiu da Sardenha, que é tão pobre, você foi se meter em um
partido de pobres?”

A senhora Peppina se aborrecia um pouco com estas v i s i t a s O


nróorio Nino, fora alguma concessão a visitantes que lhe a g r a d a -
_! preferia ficar conversando com a mãe e brincando com a filha
de Gennaro. Falava sobre Giulia, como tinham se conhecido, o que
ela fazia, e a senhora Peppina não se cansava de escuta-lo, e s t a t i c a .
“Seus olhos brilhavam de emoção” , me conta T e r e s m a , “porque
via Nino sereno como nunca fora, feliz pelo amor de G i u l i a e por
ter um filho” : Talvez pensando em Delio, G r a m s c i se distraia com
Mea que tem daqueles momentos recordações vagas em alguns as­
pectos e precisas em outros. “ Ria sempre”, conta, “me acompa­
nhava em viagens fabulosas, fazendo-me cavalgar nos seus joelhos,
e se divertia como um louco com as minhas travessuras . Foram
momentos de .grande paz para Gramsci. Alguns dias depois, escre­
verá a Giulia:

Brinquei muito tempo com a minha sobrinha de qua­


tro anos. Como ela ficou com medo de uns caranguejos
cozidos, eu a fiz viver toda uma aventura do qual faziam
parte 530 caranguejos malvados, comandados pelo seu
general M a s t i g a - s o p a , coadjuvado por um Estado-maior
brilhantíssimo (a professora Sanguessuga, o professor
Barata, o capitão B a r b a - A z u l , etc.) e um pequeno grupo
de caranguejos bons, Diabrete, C a t a p u m , B a r b a - B r a n c a ,
B a r b a - N e g r a , etc. Os maus mordiam as suas pernas com
as minhas mãos, enquanto os bons corriam de triciclo, ar­
mado com espetos e vassouras para defendê-la; os c h u f -
chuf do triciclo se alternavam com os golpes de vassoura,
com diálogos ventriloquescos, e toda a casa se enchia de
uma sociedade de caranguejos em atividade, diante do es­
tupor da menina que acreditava em tudo e se apaixonava
pelo desenvolvimento da aventura criando, ela mesma,
novos episódios e novas situações. Revivi um pouco a mi­
nha infância e me diverti mais assim do que recebendo as
visitas dos notáveis da aldeia.
231
As férias duraram dez dias, de 27 de outubro a 6 de novembro
de 1924. Chegou, finalmente, a hora da despedida. A senhora Pep-
pina deu ao filho uma touca sarda da aldeia de Dosulo, para que a
enviasse a Giulia como presente. Quando se despediram, ela não sa­
bia que aquele seria a última vez que abraçaria Nino.

232
19 .

A pressão fascista aumentava, e tornava-se cada vez mais evi­


dente a incapacidade do Aventino de opor-se a ela com eficácia. A
12 de novembro de 1924, cinco dias depois do retorno de Gramsci
da Sardenha, por ocasião da reabertura da Câmara, fechada há cin­
co meses, ocorreu a primeira ação de relevo dos comunistas no
Aventino. Um deputado comunista, Luigi Repossi, foi encarregado
de entrar na sala de Montecitorio, onde se homenageava Matteotti,
para ler uma declaração. Estavam na sala apenas deputados fascis­
tas e filofascistas. Repossi não se deixou intimidar e diante a um
grupo que era a fina flor do esquadrismo negro disse: “ Desde que o
mundo é mundo, nunca se permitiu aos responsáveis de um assassi­
nato homenagear as vítimas” . Duas semanas depois, todo o grupo
parlamentar comunista, afastando-se do Aventino em caráter ofi­
cial, voltava à sala, para conduzir da tribuna do Parlamento a bata­
lha antifascista.
Naquele mesmo dia, 26 de novembro, Gramsci escrevia a Giu-
lia:
Trabalha-se até o cansaço. A situação, no momento,
se compôs politicamente de uma forma que nos obriga a
uma atividade pequena, mas gigantesca no seu conjunto.
233
O proletariado desperta e readquire consciência da sua
força; ainda maior é o despertar entre os camponeses,
cuja situação econômica é pavorosa. No entanto, a orga­
nização de massa ainda é difícil e o Partido, no seu esque­
ma de células e de grupos de aldeia, é demorado em seus
movimentos e no trabalho. O centro do Partido deve in­
tervir continuamente nos locais, estimular e controlar o
trabalho, assistir os companheiros, orientá-los, trabalhar
com eles. Tornamo-nos muito fortes. Conseguimos fazer
comícios públicos em frente às fábricas, na presença de 4
mil operários que aclamavam o Partido e a Internacional.
Os fascistas não incutem m a í s tanto medo. Já se verifica
que depois de um comício a massa se dispõe em fileiras
para a t a c a r a c a s a d e algum chefe f a s c i s t a . A b u r g u e s i a
está desagregada. Não sabe mais arrumar um governo de
confiança, tem de agarrar-se desesperadamente ao fascis­
mo. As oposições se enfraquecem e na realidade só traba­
lham para obter de Mussolini um maior respeito das for­
mas legais.

N ã o o ob tiveram .
Em julho, Gramsci afirmara em uma reunião do Comitê Cen­
tral e depois publicado em L ’Ordine Nuovo de R d e setembro;

Haverá um compromisso entre o fascismo e as oposi­


ções?.,. Ele é impossível... O fascismo, por natureza da
sua o r g a n i z a ç ã o , n ã o s u p o r t a c o l a b o r a d o r e s c o m igual­
dade de direitos, quer só servos acorrentados. Não pode
existir uma assembléia representativa no regime fascista,
qualquer assembléia torna-se logo um bivaque de feixes
ou a a n t i c â m a r a d e u m p r o s t í b u l o p a r a oficiais subalter­
nos embriagados.

A 3 de janeiro de 1925 a justeza desse julgamento foi confirma­


da. Durante muito tempo as oposições legalistas se iludiram com o
processo de “normalização” d o fascismo. Durante muito tempo,
alguns acreditaram que a situação tivesse escapado do controle de
Mussolini, não diretamente responsável pela onda de violências, e
que a gradual expulsão do Partido Fascista dos mais sectários teria,
sem dúvida, fechado os parênteses da guerra civil. Para cortar estas
234
ilusões bastaram os extratos de Cesare Rossi, publicados a 27 de de­
zembro de 1924 pelo jornal de Amendola, II Mondo. O ex-chefe do
escritório de imprensa do Conselho de Ministros, recusando o pa­
pel de bode espiatório, escrevia: “Tudo o que aconteceu sempre se
deu por vontade direta ou com a aprovação ou cumplicidade do du-
ce". Sete dias depois, deixando de lado a prática costumeira desdi­
zer uma coisa e fazer outra, em palavras r e s p e i t o s o à C o n s t i t u i ç ã o e
nos atos, inspirador de violências, Mussolini falou b r u t a l m e n t e .
Disse à Câmara: “Declaro aqui, na presença desta assembléia e na
presença de todo o povo italiano, que eu assumo, unicamente eu, a
responsabilidade política, moral, histórica de tudo quanto aconte­
ceu... Se o fascismo foi uma associação de delinqüentes, eu sou o
chefe dessa associação de delinqüentes!” . Em três dias, de 3 a 6 de
janeiro, foram fechadas 95 associações e declaradas politicamente
suspeitas, dissolvidas 25 organizações “subversivas” e 120 grupos
da associação Itália livre, realizadas 655 invasões de domicílio e de­
tidos 111 “ subversivos” . Os seqüestros em jornais da oposição tor­
naram-se regra. Qual foi a resposta do Aventino? Mais uma vez
uma abstrata declaração de princípios. As oposições legalistas se
r e u n i r a m a 8 d e j a n e i r o e m u m a s a l a de M o n t e c i t o r i o e redigiram
u m a d e c l a r a ç ã o n a qual, e n t r e o u t r a s c o i s a s , e r a d it o : “ A m á s c a r a
c o n s t i t u c i o n a l e n o r m a l i z a d o r a c a i u . O g o v e r n o e s m a g a a s le i s f u n ­
d a m e n t a i s do Estado, sufoca com arbítrio inaudito a livre voz da
im p ren sa , su p r im e o d ireito de re u n iã o , m o b iliz a as fo rça s a r m a d a s
do s e u p a r t i d o , e n q u a n t o t o l e r a e d e i x a n a i m p u n i d a d e a s devasta­
ções e o s i n c ê n d i o s q u e a t i n g e m o s seus a d v e r s á r i o s ” . C o m o d e s c o ­
b e r t a d a vocação t o t a l i t á r i a d o f a s c i s m o era b a s t a n t e t a r d i a . C o m o
medida p a r a liv r a r a I t á l i a d o d e s p o t i s m o era u m d e d a l d e á g u a
sobre a f o g u e i r a d a s l i b e r d a d e s e s t a t u t á r i a s . N ã o s e podia e s p e r a r ,
c e r t a m e n t e , q u e M u s s o l i n i ficasse p r e o c u p a d o c o m e s s a s d e n ú n c i a s .
A 12 d e j a n e i r o , G r a m s c i e s c r e v e u a G i u l i a : “ V i v e m o s n a I t á l i a uma
fase q u e e u a c h o q u e n u n c a se verificou em nenhum outro país,
cheia de imprevistos, porque o fascismo teve êxito na sua tarefa de
destruir todas as organizações e todos os meios através dos quais as
massas podem exprimir a sua vontade” .

Ele não estava bem: “Os meus nervos estão fracos, mas mais
que os nervos, o sangue está anêmico” (4 de dezembro de 1924).
“ Estou um pouco cansado. Há alguns dias sou atormentado pela
nevralgia e pela insônia. Tenho a cabeça pesada e confusa” (2 de fe­
vereiro de 1925). Os acontecimentos lhe impediam porém de repou-
sar e o esforço durava já um ano1. Escrevia artigos e, como re­
lembra Felice Platone, viajava de um extremo a outro do país, reali­
zando reuniões “para dissipar equívocos, varrer preconceitos, es­
clarecer situações, fixar as perspectivas, mobilizar homens e organi­
zações” . Aos outros militantes se dirigia através do expediente de
uma escola de partido por correspondência. Conservara seu hábito
adquirido nos anos turineses de discutir com os jovens em longos
passeios noturnos pelas ruas da cidade.

Em duas ou três noites - recorda Velio Spano - o


acompanhávamos a pé do centro a t é a rua N o m e n t a n a .
Nas palavras daquele homem tão prodigiosamente culto,
não havia nenhuma abstração, não havia nada de livres­
co... Falava devagar como caminhava, e construía sua ar­
gumentação lentamente, pedaço por pedaço, com uma
observação, mais f r e q u e n t e m e n t e com uma pergunta e
com a resposta de um colega.
Dos .políticos não comunistas, tinha relações especialmente
com E m i l i o Lussu, líder do Partido Sardo de Ação. Muitas vezes
iam comer juntos. Lussu lhe fazia perguntas sobre a Rússia; ele fa­
zia perguntas sobre o movimento dos camponeses na Sardenha. As
ocasiões de lazer, um filme ou um espetáculo teatral, eram raras.
Quase nunca saía, como escrevia a Giulia, “deste deserto puramen­
te político” .
No final de janeiro de 1925 conheceu Tatiana S c h u c h t , a quem
desde a sua chegada a Roma procurara inutilmente. Há muitos
anos que Tatiana vivia desligada da família. Permanecera em Roma
quando os seus, aos poucos, retornavam à pátria. As revoluções de
março e outubro e a guerra civil tinham, posteriormente, dificulta­
do a comunicação entre eles, devido também ao isolamento da Rús­
sia. A 17 de agosto de 1921, Giulia escrevera a L e o n i l d e Perilli: “Se
esta carta chegar às suas mãos, porcure encontrar Tatiana e dê a ela
o nosso endereço” . A carta, escrita em Ivanovo e colocada no cor­
reio na Alemanha, apesar da demora chegou ao seu destino, mas
Leonilde não a localizou imediatamente. Depois, quando finalmen-

1 inscreverá a Giulia a 16 de janeiro de 1925: “Mais de um ano se passou desde


quando nos separamos: para mim ele significou uma vida mais intensa quando fisi­
camente ainda não estava em condições de vivê-la por completo” .
236
te foi encontrada, Tatiana teve uma reação bizarra. Estava deprimi­
da; suspeitava que algum dos seus estivesse morto e não escrevia
por medo de ter a confirmação deste seu pressentimento, abando­
nando-se assim a um estado de ansiedade sem solução. Teve as pri­
meiras notícias através de G r a m s c i ; por ele soube do casamento
com G i u l i a . Tinha então por volta de 40 anos, quatro ou cinco a
mais que Àntonio. Devia ter .sido uma bela jovem, mas tinha enve­
lhecido antes do tempo, pelas vicissitudes sofridas ( a g o r a , conse­
guia se manter ensinando Ciências Naturais em um instituto inter­
nacional da rua Savóia, o Crandon). Logo depois do encontro,
Gramsci escreveu a Giulia;
Conheci sua irmã Tatiana. Ontem estivemos juntos
das quatro da tarde até a meia-noite. Falamos de tantas
coisas, de política, da vida dela aqui em Roma, das suas
possibilidades de trabalho. Comemos juntos e não me es­
panta que ela seja tão frágil. Come pouquíssimo, se bem
que não sofra de nenhuma doença orgânica, ao contrário,
pode se dizer que tem uma aparência muito saudável.
Acho que já nos tornamos muito amigos... Prometeu-me
contar todas as peripécias que enfrentou de modo que eu
possa repeti-las todas oralmente. Fiquei muito contente
em conhecê-la, sobretudo porque ela se parece muito com
você e porque, politicamente, ela é muito mais próxima
de nós do que me haviam dito... Faz restrições apenas à
liberdade de imprensa negada aos “SR” [ socialistas revo­
lucionários] e aos sofrimentos que uma certa I s m a i l i a
(me parece) e a Spiridonova passam em algumas prisões.
Gostaria de trabalhar para os Sovietes, mas lhe fizeram
acreditar que os representantes dos Sovietes em Roma
são todos uns canalhas corruptos e não desejaria ter nada
em comum com eles, pois trabalhando com eles eia pode­
ria ter os benefícios da Revolução sem ter suportado os
seus sacrifícios.
Continuaram se vendo. Esses fragmentos de vida privada, po­
rém, não podiam satisfazer Gramsci, que esperava com impaciência
o momento de voltar a abraçar Giulia e de finalmente conhecer De-
lio. Foi convocada em Moscou, para 21 de março, uma reunião do
Executivo ampliado da Internacional. Gramsci chefiaria a delega­
ção italiana. Escreveu a Giulia a 7 de fevereiro;
237
A minha viagem foi adiada cerca de 15 dias, mas, ao
que parece, vai se concretizar. Talvez me dêem até um
passaporte regular. Uma pequena consolação pelo atra­
so. Poderemos fazer alguns passeios juntos entre o final
de março e o início de abril?... Sabe, a sua irmã Tatiana
me antecipa um pouco a sua presença: é muito parecida
com você em certos traços e em certos gestos. A música
da voz dela é um eco da sua voz (ficaria contente se sou­
besse que escrevi “eco”, porque uma vez quase se ofendeu
com a possibilidade de uma comparação da voz dela com
a sua, que ela acha belíssima). Encontro-a frequentemen­
te, comemos muitas vezes juntos nos restaurantes roma­
nos, mas não consegui fazê-la comer um pouquinho mais
do que o normal... Queria comprar para você uns sapatos
com certos saltos que me aterrorizaram. Eu resisti vigoro­
samente, afirmando que' você nunca calçaria algo tão
terrível... Quer comprar sapatinhos também para o meni­
no. É uma mulher realmente terrível a sua irmã, com a
mania de calçar todo mundo.

Antonio partiu no final de fevereiro de 1925. Não via a mulher


desde novembro de 1923, quase um ano e meio. Conofaeceu Delio,
que ia completar oito meses. O menino era finalmente para Grams-
ci “ um menino vivo e real, e não uma indistinta impressão em uma
fotografia”. Ficou preocupado por tê-lo encontrado com coquelu­
che. Muitas vezes saía para passear com ele dentro do carrinho nos
jardins próximos da Tverskaia Yamskaia (hoje rua Gorki), onde os
Schucht moravam. Mas o que o impressionou mais do que a doen­
ça de Delio foi o estado de sua cunhada Eugênia. Ela havia se recu­
perado do grave esgotamente psicofísico que a havia obrigado,
■móvel na cama, a uma longa temporada no sanatório do “Bosque
de Prata”. No entanto, ela continuava em uma condição de debili­
dade nervosa evidente, com indícios preocupantes de anormalida­
de. No sanatório, havia alimentado por Gramsci sentimentos que
iam além da amizade; agora se considerava, também ela, mãe de
Delio. Assim, logo após a sua chegada a Moscou, Gramsci ficou
impressionado com o seguinte episódio (é ele mesmo quem o conta
em uma carta inédita): havia decidido, justamente com Giulia, pre­
sentear a doutora que tratava do menino com uma reprodução dos
anjinhos da Danae de Corregio; assinou como pai; depois, sob o
nome de Giulia, Genia acrescentou o seu e ao lado dos dois nomes
238
escreveu “ as mães” . O senhor Apollo estava muito contrariado.
Mão queria que Deiio chamasse Genia de mãe. Repetia continua­
mente: Delio tem só uma mãe, uma só mãe, uma só mãe. Gramsci
também estava inquieto, mas preferiu não enfrentar a questão.
Gostava muito de Genia, a havia conhecido quando ela não podia
mover-se da cama e lembrava-se perfeitamente dos seus sofrimen-
tos. E entendia que, ainda na impossibilidade física de ser ativa, De­
lio tenha se tornado para ela um filho real, isto é, o único e maior
elo com,a vida e com o mundo. Foi humano. Deixou Moscou com
a promessa de Giulia de que logo ela, o menino e Genia estariam
em Roma.

A 28 de abril estava novamente na Itália. O governo havia pre­


parado um projeto de lei que o relatório ministerial firmava ser diri­
gido principalmente para atingir a maçonaria. No entanto, o proje­
to fora formulado com o fim mais genérico de “disciplinar a ativi­
dade das associações, entidades e institutos, e a participação neles
de funcionários públicos” . Era fácil adivinhar a verdadeira inten­
ção do governo, que decidira munir-se de um instrumento para
atingir, sob a aparência de operar em regime de legalidade, todas as
organizações antifascistas. Com respeito à maçonaria, segundo
Gramsci, o fascismo tinha razões de concorrência e não de luta com
objetivos opostos. O objetivo do fascismo podia ser cortar o cami­
nho da maçonaria para lhe impor, de uma posição de evidente su­
perioridade, um compromisso. Mas foi principalmente contra as
organizações com as quais o compromisso era impossível que, mais
tarde, depois desta lei, a fúria do governo se dirigiu. A 16 de maio
de 1925, Gramsci compareceu à Câmara para denunciar o espírito
opressor da lei. Era a sua estréia no Parlamento. O jovem líder da'
oposição de esquerda (Gramsci contava então com 34 anos) e aque­
le que até 1914 tinha sido diretor do A vanti! e líder da jovem gera­
ção revolucionária e agora, com 42 anos, se fazia chamar de duce
pelas forças de assalto da burguesia reacionária, estavam finalmen­
te um frente ao outro. Já se conheciam, embora antes daquele mo­
mento nunca tivesse havido ocasião para um confronto. Falando a
1? de dezembro de 1921 dos bancos da oposição, Mussolini havia
afirmado na Câmara: “Os anarquistas definem o diretor do Ordine
Nuovo como um falso estúpido, falso porque se trata na verdade de
um sardo corcunda e professor de economia e filosofia, de um cé­
rebro indiscutivelmente poderoso” . E Gramsci escrevera a 15 de
março de 1924 no Ordine Nuovo quinzenal:
239
Temos na Italia, o regime fascista, temos a testa do
fascismo Benito Mussolini, temos uma ideologia oficia!
na qual o chefe è divinizado, é declarado infalível, é pre­
conizado organizador e inspirador de um Sacro Império
Romano renascido. Vemos publicadas nos jornais, diaria­
mente, dezenas e centenas de telegramas de homenagem
das grandes tribos locais ao chefe. Vemos as fotografias: a
mascara mais endurecida de um rosto que já vimos nos
comícios socialistas. Conhecemos aquele rosto, conhece­
mos aquele girar de olhos nas órbitas que no passado de­
via, com a sua mecânica ferqz, aterrorizar a burguesia e
hoje o proletariado. Conhecemos aquele punho sempre
fechado para ameaçar. Conhecemos todo este mecanis­
mo, todo este arsenal e compreendemos que ele possa im­
pressionar e mover as regiões precordiais da juventude
das escolas burguesas; ele é realmente impressionante
também visto de perto...

Mas quem era na realidade Mussolini? Era “o tipo concentra­


do do pequeno-burguês italiano, raivoso, feroz mistura de todos os
detritos lançados em solo nacional por vários séculos de dominação
dos estrangeiros e dos padres. Ele não podia ser o chefe do proleta-
riado; tornou-se o ditador da burguesia, que ama os rostos ferozes
quando torna-se outra vez burbônica, que espera ver na classe ope­
raria o mesmo terror que ela sentia por aquele girar de olhos e
aquele punho fechado pronto à ameaça” . Agora, pela primeira vez
os dois lideres se enfrentavam na sala de Montecitorio. Duas per­
sonalidades opostas, dois temperamentos, um o contrário do outro
A sonoridade do tribuno não era de Gramsci. O seu discurso
parecia vir diretamente do cérebro, não dos pulmões e da garganta
Nos dias que se seguiram às eleições de abril, Gobetti escrevera em
La Rivoluzione liberale: “Se Gramsci falar em Montecitorio vere­
mos, provavelmente, os deputados fascistas recolhidos e silenciosos
a ouvir a sua voz sutil e débil e no esforço de escutar eles experimen­
tarão uma emoção nova de pensamento. A dialética de Gramsci
nao protesta contra as intrigas ou as trapaças mas as documenta
das altas esferas da idéia hegeliana, como uma insuprimível necessi­
dade para um governo burguês” . Palavras proféticas. “ Enquanto
Gramsci falava”, recorda Velío Spano, “todos os deputados se vol­
taram para os bancos da extrema-esquerda, para ouvir melhor a dé­
bil voz inflexível. Uma grande fotografia publicada por urn jornal
240
romano mostrava o chefe do governo fascista com a mio estendida
atrás da orelha em um esforço de atenção” . Calmo, Gramsci anali­
sava a substância de classe da maçonaria2e do fascismo3. E daí ex­
traía uma primeira conseqüência:
O fascismo luta contra a única força organizada efi­
cientemente que a burguesia possui na Itália, para suplan­
tá-la na ocupação dos postos que o Estado oferece aos
seus funcionários. A revolução fascista é só a substituição
de um pessoal administrativo por um outro pessoal.
MUSSOLINI: De uma classe por outra, como ocor­
reu na Rússia, como ocorre normalmente em todas as re­
voluções, como nós faremos metodicamente...
GRAMSCI: Só é uma revolução quando se baseia
em uma nova classe. O fascismo não se baseia em nenhu­
ma classe que já não estivesse no poder...
MUSSOLINI: Mas se grande parte dos capitalistas
estão contra nós, mas se eu posso lhe citar grandes capita­
listas que votam contra nós, que estão na oposição, os
Motta, os Conti...
FARINACCI: E subsidiam os jornais subversivos!
MUSSOLINI: A alta finança não é fascista, vocês
sabem disso!
Era fácil para Gramsci objetar que o fascismo se preparava
justamente para o compromisso com as forças ainda não absorvi­
das ao sistema:

O fascismo não conseguiu absorver completamente


todos os partidos na sua organização. Com a maçonaria,
empregou a tática política do noyautage, depois o sistema
terrorista do incêndio das lojas; e, finalmente, emprega
hoje a ação legislativa segundo a qual, determinadas per­
sonalidades das altas finanças e da alta burocracia acaba-

2 "Devido à maneira pela qual a Itália se unificou, devido à fraqueza inicial da


burguesia capitalista italiana, a maçonaria foi o único partido real e eficiente que a
classe burguesa teve por muito tempo.”
3 “A primeira palavra, de ordem instintiva e espontânea, do fascismo, depois da
ocupação das fábricas foi esta: “Os rurais controlam a burguesia urbana que não
sabe ser forte contra os operários’:.”
241
rão por submeter-se aos dominadores para não perderem
o seu lugar. Mas com a maçonaria, o governo fascista de­
verá firmar um compromisso. Como se faz quando um
inimigo é forte? Primeiro, quebram-se-lhe as pernas, e de­
pois firma-se o compromisso em condições de evidente
superioridade. [ ...] Por isso, nós dizemos que, na realida­
de, a lei é feita especialmente contra as organizações ope­
rárias. Perguntamos porque de alguns meses até hoje, sem
que o Partido Comunista tenha sido declarado uma asso­
ciação criminosa, os carabineiros prendem os nossos
companheiros sempre que se acham reunidos em um nú­
mero de pelo menos três...
MUSSOLINI: Fazemos como vocês fazem na Rús­
sia...
GRAMSCI: Na Rússia existem leis que são observa­
das; vocês têm as suas leis...
MUSSOLINI: Vocês efetuam prisões formidáveis.
Fazem-no muito bem!
GRAMSCI: Na realidade, o aparelho policial do Es­
tado já considera o Partido Comunista como uma organi­
zação secreta.
MUSSOLINI: Não é verdade!
GRAMSCI: E no entanto, se prende sem nenhuma
acusação específica qualquer pessoa . que seja encontrada
em uma reunião de três indivíduos, somente porque co­
munista, e a jogam na prisão.
MUSSOLINI: Mas logo são libertados. Quantos es­
tão na prisão? Nós os prendemos simplesmente para co­
nhecê-los.
GRAMSCI: É uma forma de perseguição sistemáti­
ca, que antecipa e justificará a aplicação da nova lei. O
fascismo adota os mesmos procedimentos do governo
Giolitti. Vocês agem como agiam os funcionários giolit-
tianos no Mezzogiorno, que prendiam os eleitores de
oposição... para conhecê-los.
UMA VOZ: Eram casos isolados. O senhor não co­
nhece o Sul.

“ Sou um meridional”, respondeu imediatamente Gramsci. As


contínuas interrupções o impediam de desenvolver o discurso de
modo linear. Porém, sempre conseguia encontrar o fio da meada:
242
Já que a maçonaria passará em massa para o Partido
Fascista, constituindo uma tendência dentro dele, é claro
que com esta lei vocês pretendem impedir o desenvolvi­
mento de grandes organizações operárias e camponesas.
Este é o valor real, o verdadeiro significado da lei. Alguns
fascistas recordam ainda nebulosamente os ensinamentos
dos seus velhos mestres, de quando eram revolucionários
e socialistas, e acreditam que uma classe não possa per­
manecer enquanto tal indefinidamente e desenvolver-se
até a conquista do poder, sem que ela tenha um partido e
uma organização que resuma a parte melhor e mais cons­
ciente. Há alguma coisa de verdadeiro, nesta confusa per­
versão reacionária dos ensinamentos marxistas.
Mas, naquela situação, era certo que.a desagregação dos parti­
dos operários teria empurrado para trás, para sempre, as forças do
proletariado italiano? Agora, o deputado sardo se dirigia a quem
havia dito que “o senhor não conhece o Sul” :
Na Itália, o capitalismo pôde se desenvolver enquan­
to o Estado comprimiu as populações camponesas, espe­
cialmente do Sul. Hoje, vocês ouvem falar da urgência de
tais problemas, por isso prometem um bilhão para a Sar­
denha, prometem obras públicas e centenas de milhões ao
Mezzogiorno; mas para fazer um trabalho sério e concre­
to, vocês deveriam começar restituindo à Sardenha os
100-150 milhões de impostos que anualmente extorquem
à população sarda. Todo ano o Estado extorque das re­
giões meridionais uma soma de impostos que nâo restituí
de nenhum modo, nem com serviços de nenhuma nature­
za... Somas que o Estado extorque das populações cam­
ponesas meridionais para dar uma base ao capitalismo da
Itália setentrional. Sobre este terreno das contradições do
sistema capitalista italiano, formar-se-á, necessariamente,
apesar de todas as leis repressivas, apesar das dificuldades
de constituir grandes organizações, a união dos operários
e dos camponeses contra o inimigo comum... Vocês po­
dem “conquistar o Estado” , podem modificar os códigos,
podem procurar impedir a existência das organizações
nas formas até então vigentes, mas vocês não podem pre­
valecer sobre as condições objetivas nas quais são obriga­
243
dos a se movimentar. Vocês não farão outra coisa senão
obrigar o proletariado a procurar uma linha diversa da­
quela até hoje mais difundida no campo da organização
de massa. Em outras palavras, nós queremos declarar ao
proletariado e às massas camponesas italianas, desta tri­
buna, que as forças revolucionárias italianas não se deixa­
rão abater, que o seu turvo sonho [ do fascismoj não con­
seguirá realizar-se.
A sala enchia-se de vozes. Para Gramsei era a primeira vez, e
também a despedida. Nunca mais falaria daquele banco. Comenta-
se, mas não se têm testemunhas diretas do ocorrido, que Mussolini,
vendo-o logo depois na huvette da Câmara, foi ao seu encontro,
com a mão estendida, para felicitá-lo pelo discurso. Indiferente,
Gramsei continuou a tomar o café, ignorando a mão que lhe era es­
tendida.
Nove dias depois escreveu a Giulia:
O trabalho desenvolve-se muito desordenado e des­
conexo. Isto se reflete sobre o meu estado de ânimo, já
bastante desordenado.As dificuldades se multiplicam, te­
mos agora uma lei sobre (mais precisamente, contra) as
organizações, que prenuncia' todo um sistemático traba­
lho policial para desagregar o nosso partido. Fiz a minha
estréia no Parlamento falando sobre esta lei. Os fascistas
me deram um tratamento especial, e por isso, do ponto de
vista revolucionário, comecei com um insucesso. Porque
eu falo baixo, eles se reuniram ao meu redor para me es­
cutar e permitiram que eu dissesse aquilo que eu queria,
interrompendo-me constantemente só para desviar o fio
do discurso, mas sem intenção de sabotagem. Eu me di­
vertia ao escutar o que eles diziam, mas não soube limi­
tar-me a responder e com isto fiz o jogo deles, porque me
cansei e não consegui mais continuar com a linha que ha­
via pensado imprimir ao meu discurso.

Gramsei estava cansado. O verão romano lhe provocava insô­


nia, deixando-o prostrado. Devia movimentar-se com cuidado, saía
de casa apenas o indispensável e via poucos amigos:

Sinto a minha solidão acima de qualquer outra coisa,


devido também à organização ilegal do Partido que obri-
244
ga ao trabalho individual e independente. Procuro sair
deste deserto puramente político indo frequentemente à
casa de Tatiana, que me faz lembrar muito de você. Mas a
sua ausência não pode ser de maneira alguma compensa­
da. Todas as cenas que se apresentam aos meus olhos no
mundo que me cerca me fazem lembrar de você e de Delio
e me fazem sentir a minha infelicidade mais profunda­
mente... Mas não importa... Tudo passará, por que estou
certo que você virá à Itália e que será possível a expansão
de todas as nossas forças, a afirmação de toda a nossa
personalidade, assistindo juntos ao desenvolvimento da
vida de Delio.
Giulia e o menino uniram-se a Antonio em Roma no outono.
20.

O Executivo ampliado de março-abril de 1925 havia confirma­


do a linha dos dois últimos congressos da Internacional, o IV e o V:
a ditadura do proletariado era a solução final, mas na Itália devia
realizar-se, nesse meio tempo, um objetivo intermediário, ou seja, a
reaquisição das liberdades democrático-burguesas; e para esta bata­
lha era necessário, na opinião da Internacional, a mais vasta aliança
das massas trabalhadoras e dos seus partidos, com a hegemonia da
classe operária, dirigida pela organização de vanguarda do proleta­
riado, o Partido Comunista. Gramsci, atento aos desdobramentos
da situação italiana, que era então caracterizada, depois de três
anos de terrorismo fascista, pela revivescência nas massas popula­
res de aspirações democráticas mais que de um retorno da vontade
revolucionária, não duvidava que fosse esta a linha justa. No Ordi-
ne Nuovo de I9 de setembro de 1924, escrevera:

A crise Matteotti nos deu muitos ensinamentos...


Ensinou-nos que as massas, depois de três anos de terror
e de opressão, tornaram-se muito prudentes e não querem
dar um passo maior que a perna... j/lísta prudência] é fa­
dada certamente a desaparecer e também dentro de um
período de tempo não muito grande. Mas enquanto ela
247
existe, pode ser superada apenas se nós, pouco a pouco
em todas as ocasiões, em todos os momentos, também
indo adiante, não perdermos o contato com o conjunto
da classe trabalhadora.

Daí a exigência da luta ao bordighismo: “ Se existem no nosso


Partido grupos e tendências que querem, por fanatismo, forçar a si­
tuação, será necessário lutar contra eles em nome de todo o Parti­
do” . Bordiga, porém, não parecia disposto a desistir.
Todas as soluções intermediárias eram rechaçadas por ele.
Não podia se oferecer outra alternativa à ditadura burguesa a não
ser a ditadura do proletariado. O domínio burguês, que se exercita
•sob formas democráticas, não lhe parecia preferível ao domínio
burguês despoticamente radicalizado. Com o advento dos fascistas,
houve uma simples rotação no poder de grupos inimigos do prole­
tariado; dentro dessa perspectiva, o único partido autenticamente
adversário da burguesia era o Partido Comunista (sendo todos os
demais partidos, sem distinção, dos socialistas ao Partido Sardo da
Ação, todos eles pontos de apoio da ordem burguesa), cabia so­
mente ao Partido Comunista, não contaminado por alianças impu­
ras, abater o fascismo, para substituir o Estado burguês pelo Esta­
do proletário, sem nenhuma fase intermediária de tipo democráti­
co, julgada mais perniciosa que o fascismo. Afinal de contas, o fas­
cismo, suprimindo as ilusões democráticas, não abria de uma forma
mais clara o caminho ao comunismo? Não postulava melhor a ne­
cessidade dele? Era um diagnóstico esquemático e fora da realida­
de; era uma tática suicida, tendo, como o único resultado, condenar
o Partido Comunista ao isolamento e, na prática, a uma simples
gritaria revolucionária, quando era necessário opor ao totalitaris­
mo fascista não brados de revolta nas ações concretas. Na primave­
ra de 1921, foram formados os grupos dos Defensores do Povo (Ar-
diti dei Popolo), uma organização decidida a lançar-se no terreno da
resistência armada às violências fascistas. Bordiga,. considerando
qualquer forma de aliança com os socialistas não coerente com as
razões da cisão de poucos meses atrás em Livorno, ordenara aos co­
munistas não misturar-se aos socialistas, o que, na verdade, não foi
contestado pelos outros dirigentes do Partido, que se achavam, na
ocasião, todos ou quase todos, nas mesmas posições extremas do
seu líder. Desde aquele tempo a sua orientação não sofrera nenhu­
ma mudança sensível. Zinoviev tinha tentado atrair Bordiga, ofere­
cendo-lhe a vice-presidência da Internacional. Mas para este fao-
248
mein rígido e talhado para o combate, o culto de uma coerência
equívoca era inais forte que a vaidade.
Devido à realização do congresso, que apresentaria a real cor­
relação de forças no interior do partido, G r a m s c i teve de viajar
muito. Referindo-se a uma reunião de todo o efetivo da federação
de Mi ião (chefes de região, chefes de setor, chefes de célula), r e a li­
zada no verão de 1925, Giovanni Farina relembra as palavras intro­
dutórias da participação de Gramsci: “O povo italiano, neste mo­
mento, não luta pela ditadura do proletariado mas pela democra­
cia. Não compreender este dado significa não compreender o signi­
ficado dos acontecimentos que se desenvolvem sob os nossos
olhos” . Eram palavras suspeitas de heresia, na opinião daqueles
que “viam a revolução em toda esquina da rua” (palavras de Fari­
na), e a lenda de Gramsci preso a posições social-democratas foi ali­
mentada por esta afirmação na extrema-esquerda do partido.
Foi um verão de trabalho intenso. A 15 de agosto escreveu a
Giulia: “ Estive e estou até agora longe de Roma; tenho de viajar
para participar de reuniões e tenho de tentar continuamente apagar
meus rastros dos policiais” . Sentia muito a falta de Giulia e do fi­
lho:

Viajei muito nesses últimos tempos, vi lugares que


me dizem serem belíssimos, paisagens que parecem ser
admiráveis, tanto que os estrangeiros vêm de longe para
contemplá-las. Estive em Miramare, por exemplo, mas o
local me pareceu uma fantasia equivocada de Carducci;
as torres brancas me pareceram chaminés recém-pintadas
de cal. O mar estava com uma cor amarela, barrenta, por­
que uns trabalhadores que construíam uma estrada lança­
ram nele toneladas de detritos. O sol me pareceu apenas
um aquecedor fora de moda. Mas me lembrei que todas
estas impressões deviam estar relacionadas com o fato de
eu ter me tornado “apático”, como observou a sua mie,
de ter perdido o gosto pela natureza e pela vida que me
circunda, porque penso sempre que você está longe, por­
que desde quando comecei a lhe amar não consigo.sentir
nenhuma alegria que não seja ligada a você, que não cesse
imediatamente se penso que você não está ao meu lado e
não pode ver o que estou vendo... Para mim Delio foi
realmente uma estrela fiadeira de São Lorenzo e também
o nosso amor não teve um pouco o mesmo caráter?
249
Toda criança lhe fazia lembrar de Delio. Nos breves períodos
em Milão, hospedava-se no número 7 da rua Napo Torriani, sede
da casa editora da / ’Unità. Na sobreloja morava, com a mulher e os
filhos, o administrador do jornal, Aladino Bibolotti. Gramsci tinha
sempre à disposição um pequeno quarto naquela sobreloja. E Fidia
Sassano, então redator de / ’Unità, recorda-se dele “no corredor da
administração andando de quatro atrás dos filhos de Bibolotti” .
Em setembro, ele se transferiu por alguns dias para a casa de
Togliatti em Roma. Sob a sua direção foram escritas as teses para o
II Congresso Nacional do partido, que se realizaria em janeiro, em
Lyon. O documento, de características novas, era um ensaio lúcido
e calmo, sobre a situação italiana e sobre as tarefas do Partido Co­
munista. Com rigor científico, fora da declamação polêmica pró­
pria de muitos documentos congressuais do movimento operário
italiano. Neles eram analisadas as estruturas sociais e econômicas do
país, as contradições do regime capitalista e seus componentes e o
papel do fascismo no interior daquelas contradições, e depois as
forças de classe e as políticas “motoras” da revolução proletária e
aquelas que podiam ser impelidas ao movimento e englobadas em
um sistema de alianças para a vitória sobre o fascismo. A previsão,
que tem um destaque profético, dos limites extremos aos quais era
destinado o fascismo é bem indicativa da profundidade de análise
deste documento:

A tendência do fascismo ao “imperialismo” é o co-


roamento de toda a sua propaganda ideológica, da sua
ação política e econômica. Esta tendência é a expressão
da necessidade sentida pelas classes industriais-agrárias
italianas de encontrar, fora do território nacional, os ele­
mentos para a resolução da crise da sociedade italiana.
Nela residem os germes de uma guerra que verá combati­
da, na aparência, pela expansão italiana, mas na qual, na
realidade, a Itália fascista será um instrumento nas mãos
de um dos grupos imperialistas que disputam o mundo.

Em síntese, eram estes os pontos centrais das teses para o Con­


gresso de Lyon: a definição do fascismo como método de estabiliza­
ção do capitalismo italiano; a proclamação da hegemonia do prole­
tariado na luta antifascista; mas também a análise de todas as for­
ças de massa que podiam ser conquistadas para um bloco operário-
camponês e a distinção entre as forças burguesas localizadas em
250
torno do fascismo e as forças burguesas enquadradas ou enquadrá­
veis em formações democráticas antifascistas; e finalmente, na base
de tudo, a afirmação do papel primordial do Partido Comunista,
organizado em células nos locais da produção, na liderança da clas­
se operária hegemônica. Era um passo adiante em relação a B o r d i -
ga. se bem que em meio a estas declarações pudessem ainda ser ob­
servados resíduos do antigo sectarismo (e será o próprio Togliatti a
admiti-lo: “ Existem ainda neste documento t r a ç o s d a velha orienta­
ção sectária” ). Aqui importa apenas afirmar a contribuição de
Gramsci à ruptura com os velhos esquemas.
A notícia, transmitida por alguns companheiros, de que Giulia
havia s e t r a n s f e r i d o p a r a Roma “ p a r a t r a b a l h a r ” o havia deixado
muito agitado. “Não sei como julgar esta notícia, na falta de qual­
quer referência da sua parte a respeito; comentei a novidade com
Tatiana e a pobrezinha nem dormiu, tamanha foi a agitação. Ela es­
tá c e r t a d e q u e v o c ê v ir á d e q u a l q u e r modo e lh e e s p e r a ansiosa-
mente.” G i u l i a e D e l i o c h e g a r a m e m o u t u b r o , a c o m p a n h a d o s p o r
E u g ê n i a . G r a m s c i , q u e n e s s e m e i o t e m p o , se m u d a r a c o m os Pas-
sarge p a r a u m a c a s a d a ru a M o r g a g n i , h a v i a a l u g a d o p a r a e l e s u m
p e q u e n o a p a r t a m e n t o m o b i l i a d o n a rua T r a p a n i . A c h o u m a i s p r u ­
d e n t e n ã o u n i r - s e a e l e s . T e m i a envolvê-los e q u e o g o v e r n o retiras­
se o v i s t o d e p e r m a n ê n c i a d e G i u l i a . H o u v e r a u m n o v o c i c l o d e v i o ­
lê n c i a s . A 4 d e o u t u b r o , em Florença,, o s fascistas h a v i a m semeado
o t e r r o r , a s s a s s i n a n d o o e x - d e p u t a d o s o c i a l i s t a G a e t a n o P ila ti e o
a d v o g a d o G a e t a n o C o n s o l o , e m s u a c a s a , s o b o s o l h o s d a mulher e
dos f i l h o s . M u i t o s f o r a m f e r i d o s e um g r a n d e número de casas de
a d v e r s á r i o f o i d e v a s t a d o , em uma n o i t e d e in c r ív e l ferocidade. A
v i d a d o s o p o s i t o r e s d o fascismo não era mais s e g u r a . Era preciso se
m o v i m e n t a r com cautela. A 24 de outubro, o quarto de Gramsci na
rua Morgagni foi totalmente revirado no curso de uma ação poli­
cial. Depois, a 4 de novembro, a descoberta da tentativa do e/-
deputado socialista Tito Zaniboni de matar Mussolini, atirando
sobre ele de um quarto do hotel Dragoni quando o ditador asso­
masse ao balcão do Palácio Chigi para o discurso no aniversário da
vitória [’comemorativa do triunfo da Itália e aliados na 11 Guerra
MundiafJ, contribuiu para exasperar o fascismo, e a atmosfera ainda
se tornou mais pesada. Giulia ia de manhã e de tarde à embaixada
soviética onde trabalhava (para ficar na Itália com Antonio havia
renunciado ao violino e ao ensino da música), e Gramsci vinha en­
contrá-la na rua Trapani de tarde, para o jantar, f i c a n d o j ü n t o s até
depois da meia-noite. Nunca saíam juntos. Algumas vezes Giulia ia
251
com as irmãs e com Leonilde Perilli aos concertos do teatro Argen­
tina ou do Adriano. Antonio não as acampanhava. Ficava em casa
brincando com o filho.
Delio tinha apenas um ano e meio, mas o pai via nele virtudes
extraordinárias e a ele se dirigia como a um homenzinho. “ Ele toca­
va piano, quer dizer, havia compreendido” , dirá, “a diferente gra­
dação local das tonalidades, no teclado, das vozes dos animais: o
pintinho à direita, e o urso à esquerda, com as intermediárias dos
mais variados animais” . E ainda dirá, realmente convencido da
grande capacidade intelectual do filho: “O seu amor pelos animais
era explorado de dois modos: através da música, quando se dedica­
va a reproduzir no piano a gama musical segundo a voz dos ani­
mais, do urso baritonal ao agudo do pintinho, e através do dese­
nho” . O menino gostava de ser entretido sempre do mesmo modo:
“ Primeiro era preciso colocar o relógio de parede sobre a mesa e fa­
zer com ele todos os movimentos possíveis; depois, tinha de escre­
ver uma carta à avó materna com a figura dos animais que o ha­
viam impressionado durante o dia; depois ainda, ia ao piano e toca­
va a sua música animalesca, e depois brincava de várias coisas” .
Quem comandava a casa era Genia. Ela cozinhava e dava as­
sistência ao menino enquanto Giulia e Tatiana estavam na embai­
xada e na escola. Todas sofriam a sua influência, embora perdoan-
do-lhe algumas manifestações de claro fundo nervoso. Depois de
sua viagem a Moscou, Gramsci refletira longamente e com preocu­
pação sobre a ligação de Genia a Delio. Mais tarde, ficou muito im­
pressionado com a notícia, lida em um jornal, de um drama ocorri­
do em Gênova com uma família sarda. Uma mulher doente de cân­
cer tinha se envenenado e a um sobrinho pequeno, de cinco anos,
deixando um bilhete no qual dizia que queria levar o sobrinho con­
sigo para o céu, porque nem no céu poderia ficar sem ele. Esta for­
ma mórbida de afeto que pode chegar ao crime dava a Gramsci sé­
rios motivos de reflexão. Durànte alguns dias foi chamado por De­
lio de diadia, que em russo quer dizer tio. Só uma conversa um tan­
to brusca de Tania {^Tatiana] com Genia acertou a situação. Por
seu lado, Gramsci, embora preocupado, procurava não fazer dra­
mas.
Na segunda quinzena de janeiro de 1926, atravessou clandesti­
namente a fronteira francesa para o Congresso Nacional do partido
(organizado em Lyon), o terceiro depois do constitutivo de Livorno
e do segundo, em Roma, em março de 1922. A realização do Con­
gresso no exterior não foi muito simples. Porém, Gramsci já estava
252
a longas caminhadas na montanha e às reuniões ao ar li-
tb itu a d o
e Em uma carta a Giulia do ano anterior, ele falava de um seu
-certo aprendizado nas viagens sobre a neve e de deitar-se sobre
ela de noite, para descansar” . Estavam presentes em Lyon delega­
dos de toda a Itália (18,9% de “ausentes” e “ não consultados”). O
método seguido para a convocação dos congressos provinciais,
para o debate no interior destes e para a designação dos delegados
ao Congresso Nacional era contestado pelos bordighianos, que
acusavam a maioria gramsciana de abuso. A 20 de janeiro, falando
à comissão política do congresso, Gramsci reafirmou, em polêmica
com a esquerda, a inadequação das tentativas insurreicionais.
Em nenhum país - disse - o proletariado está em
condições de conquistar o poder e de mantê-lo apenas
com as suas forças. Por conseguinte, ele deve procurar
aliados, isto é, deve conduzir uma política que lhe permi­
ta colocar-se à frente das outras classes que têm interesses
anticapitalistas e guiar-lhes na luta pela derrubada da so­
ciedade burguesa. A questão é particularmente importan­
te para a Itália, onde o proletariado é uma minoria da po­
pulação trabalhadora e disposto geograficamente de tal
forma que não podemos pressupor que ela conduza uma
luta vitoriosa para o poder se não após ter dado uma re­
solução efetiva ao problema das suas relações com a clas­
se dos camponeses. O nosso Partido deverá dedicar-se de
modo particular, em um futuro próximo, à colocação e
resolução deste problema.

Desse modo, a diretiva gramsciana era no sentido da organiza­


ção política e não da conquista do poder pela via insurreicional. As
teses da maioria do Comitê Central foram aprovadas com 90,8%
dos votos dos congressistas; a esquerda do Comitê Central (Bordi-
ga) recebeu 9,2% dos votos. Bordiga, porém, recorreu à Internacio­
nal, denunciando a irregularidade do Congresso (e a Internacional
não aceitou o recurso).
Enquanto isso, na Itália, o rolo compressor fascista preparava-
se para esmagar também os últimos resíduos de liberdade. Os depu­
tados do Partido Popular sé retiraram do Aventino, fazendo o seu
reaparecimento na sala de Montecitorio a 16 de janeiro de 1926.
Foram espancados até sangrar pelos deputados fascistas e, no dia
seguinte, Muãsolini declarou:
253
Todo aquele do Aventino que queira retornar a esta
sala será simplesmente tolerado, e deve solene e publica­
mente: primeiro, reconhecer a revolução fascista como
um fato consumado, em relação à qual uma oposição pre­
concebida é politicamente inútil, historicamente absurda,
e só pode ser compreendida por aqueles que vivem além
dos limites do Estado; segundo, reconhecer também
publicamente e não menos solenemente que a nefanda e
sensacionalista campanha do Avéntino está miseravel­
mente falida, porque nunca houve uma questão moral
que dissesse respeito ao governo ou ao partido; terceiro,
tirar não menos solene e publicamente a própria respon­
sabilidade por aqueles que, fora das fronteiras, conti­
nuam a agitação antifascista. Aceitas e cumpridas estas
condições, os dispersos do Aventino podem contar com a
nossa tolerância e voltar a esta sala. Sem a aceitação e a
execução destas condições, enquanto eu estiver neste pos­
to, e juro que o ocuparei por um bom tempo, eles não tor­
narão a entrar aqui: nem amanhã, nem nunca!

Começava o “ano napoleônico da revolução fascista”, segun­


do palavras do próprio Mussolini em 1926. O Partido Socialista
Unitário (o partido de Turati), ao qual pertencia Tito Zaniboni,
fora dissolvido logo após a descoberta da tentativa de assassinato
contra Mussolini, e o seu jornal, La Giustizia, não podia mais ser
publicado. La Rivoluzione liberale não chegava às bancas desde no­
vembro de 1925. O questor de Turim intimou Piero Gobetti a fe­
char as portas e a cessar toda atividade editorial e de publicidade. A
6 de fevereiro de 1926, Gobetti foi para Paris (onde morreu nove
dias depois, com menos de 25 anos). Amendola e Salvenini também
tinham emigrado. Uma lei de 31 de janeiro de 1926 dispunha que
aqueles que continuassem a luta antifascista no exterior perderiam
a cidadania italiana e, mais tarde, teriam seus bens seqüestrados e,
nos casos extremos, confiscados. Foram privados da cidadania ita­
liana, entre outros, Salvenini e um jornalista católico, Giuseppe
Donati, que havia denunciado a corresponsabilidade do chefe da
polícia De Bono no assassinato de Matteotti. O processo do caso
Matteotti teve lugar em Chieti de 16 a 24 de março de 1926. Autori­
dades e juízes receberam o secretário do Partido Fascista, Roberto
Farinacci, defensor dos acusados, no município e na sede da admi­
nistração. O ministério público excluiu a possibilidade de premedi-
254
ão; fui admitida a preterintencionalidade * do homicídio. Dumi-
ii]' Vo!pi e Poveromo receberam uma pena de cinco anos, 11 meses
:•) dia^ de prisão (reduzida para quatro anos graças a um decreto
de aniuia do ano anterior). Duas semanas após o dia da promulga-
ç,'.-;, da sentença, a 7 de abril de 1926, uma cidadã britânica de 62
)8, Violet Gibson, atirou em^ Mussolini, na saída do Palácio dos
Conservatórios, na Campidoglio, ferindo-o levemente no nariz.
[. rJ u(na débil mental, já com passagens pelo manicômio. A represá­
lia fascista dirigiu-se contra as sedes dos últimos jornais livres. As
redações do II Mondo e da Voce Republicana foram devastadas.
Para Antonio Gramsci, a vida tornava-se cada vez mais difícil.
Naquele período, Apollo Schucht, uma bela figura “a la Tolstoi”,
o corpo forte e a barba longa e cândida, chegou a Roma. É verdade
que a Roma de 1926, encruzilhada de milícias armadas, parecia-se
muito pouco com a Roma tranqüila e tolerante que ele conhecera
nos primeiros 15 anos do século. Mas Delio era uma ótima razão
para que se vivesse lá. A família Schucht recompunha-se parcial­
mente na Itália, como há dez anos atrás, menos Nadina Leontieva,
de quem não se tinha mais notícias, Anna, que permanecera com o
marido em Moscou, Vittorio e a mãe. Apesar das condições gerais
de vida e da semiclandestinidade à qual era obrigado, aqueles meses
foram para Gramsci de muita felicidade. Ao menos podia expandir-
se na intimidade da família: Giulia e Delio, próximos a ele, o ajuda­
vam a suportar as dificuldades do trabalho político.
Giulia esperava outro filho. Não queria deixar o trabalho na
embaixada soviética nem na Itália. No entanto, qualquer decisão
era condicionada pelo agravamento da situação política. Devia-se
levar em conta a hipótese, bastante realista, da impossibilidade de
se continuar a viver na Itália. Talvez Antonio também fosse obriga­
do ao exílio, como outros líderes da oposição. Eugênia, impondo-se
a Giulia, concluiu que a antecipação da partida tinha uma impor­
tância bem grande. O nascimento da criança complicaria as coisas;
além do mais, a passagem do clima suave de Roma para o clima
bem mais rígido de Moscou podería ser prejudicial ão bebê, sem
contar, uma vez todos estabelecidos em Moscou, a maior liber­
dade de movimento de Antonio, quando as circunstâncias o obri­

* N. do T.: Em linguagem jurídica, preterintencionalidade refere-se a um delito


mais grave do que era a intenção do agente.
255
gassem a abandonar a Itália. A justificativa de Eugênia pareceu ra­
zoável. A família partiu de Roma em julho, com destino a Trafoi.
na região de Bolzano, para passar as férias. Giulia atravessou ..
fronteira a 7 de agosto de 1926 (23 dias depois, a 30 de agosto, dará
a luz a Giuüiano). Eugênia e Tatiana ficaram com Delio em Trafoi.
Antonio se uniu a eles no final de agosto.

Tive a impressão - escreverá a Giulia - que Delio es­


tava muito melhor lá do que em Roma. Parece que ele fi­
cou mais forte. E também desenvolveu-se intelectualmen­
te. Tomou contato com o mundo exterior, conheceu uma
infinidade de coisas novas. Acho que a sua estadia em
Trafoi, em uma grandiosa moldura de montanhas e gelei­
ras, deixará traços muito profundos na sua memória.
'Brincamos juntos. Construí para ele alguns brinquedos.
Acendemos fogueiras no campo. Como não havia lagarti­
xas, não pude ensinar-lhe como capturá-las. Acho que
agora começa para ele uma fase muito importante, aquela
que deixa as recordações mais fortes, porque durante o
seu desenvolvimento se conquista o mundo grande e terrí­
vel.
Gramsci havia metido na cabeça a idéia de ensinar-lhe algumas
palavras em sardo: “Quero ensinar-lhe também a cantar Lassa sa fi-
gu, puzone[ deixa o figo, passarinho], mas as tias, principalmente,
se opuseram energicamente” . O menino partiu com a tia Genia em
setembro. Antonio nunca mais o veria.

256
21.

Gramsci dedicou-se à redação de um ensaio sobre a questão


meridional, assunto que não era novo para ele. Este foi o tema das
suas primeiras reflexões políticas, quando, ainda rapaz, vivia em
Ghilarza e em Santulussurgiu em um ambiente de camponeses e de
pastores, e mais tarde, estudante de liceu em Cagliari, no período
das leituras salveminianas. Em Turim, no novo ambiente de operá­
rios das fábricas e não mais de camponeses, continuava a propô-lo,
embora de um ângulo diferente e corfi outro amadurecimento inte­
lectual. E finalmente, aprofundou-o como um aspecto de um
problema maior, o problema da revolução proletária. O rapaz que
se formara no clima do sardismo, em um clima de denúncia contí­
nua do atraso do povo sardo devido ao abandono ao qual a ilha era
relegada, tinha, a princípio, uma visão do poblema meridional ain­
da estreita, com influências de |tm irredentismo aldeão ambíguo;
era a Sardenha como um todo a protagonista de libertação dos cam­
poneses e das camadas esfaimadas, e esta libertação só podia ser
realizada com a luta de toda a Sardenha, região-nação, contra o
"continente” . Mais tarde, com a orientação do socialismo, fez a
descoberta da sociedade dividida em classes, a verificação, em Tu­
rim, de u m j realidade: que quem se aproveitava do regime prote­
cionista, úlcera da economia meridional, não era todo o “continen-
257
te” das indústrias, mas só a classe proprietária, a classe dos patrões
das fábricas protegidas. A adesão de Gramsci, então com 22 anos,
ao manifesto antiprotecionista de Deffenu e Fancello, em 1913, de­
rivava de um posicionamento de protesto em confronto com o em­
presariado parasitário. Começava também a se tornar claro, no
jovem sardo, uma verdade: não existe uma questão meridional des­
ligada de uma questão nacional, quase uma questão por si só, solu-
cionável com remédios específicos; não pode existir uma política
justa para o Mezzogiorno se a política geral do país é uma política
inspirada por interesses particulares. Lemos em um dos primeiros
artigos escritos por Gramsci aos 25 anos, quando colaborava h,':
poucos meses regularmente com II Grido dei Popolof O Mezzogior­
no e a guerra, 1" de abril de 1916):

O Mezzogiorno não necessita de leis especiais e de


tratamentos especiais. Ele tem necessidade de uma políti­
ca geral, externa e interna, que seja inspirada no respeito
às necessidades gerais do país e não de tendências particu­
lares políticas ou regionais. Não basta construir uma es­
trada ou uma barragem para compensar os danos que
certas regiões sofreram por causa da guerra. E preciso,
antes de tudo, que os futuros tratados comerciais não de­
terminem o fechamento dos mercados aos seus produtos.
Assim, integrada a questão meridional à questão nacional, o
desenvolvimento do pensamento gramsciand em 1919-20 era co­
erente com isso, em um período em que o problema do Mezzogior­
no ingressava no quadro mais geral dos problemas nacionais que o
Estado socialista teria de resolver: “A burguesia setentrional sujei­
tou a Itália meridional e as ilhas e reduziu-as a colônias de explora­
ção; o proletariado setentrional, emancipando-se da escravidão ca­
pitalista, emancipará as massas camponesas meridionais submeti­
das aos bancos e ao industrialismo parasitário do Norte” {£’ Ordi-
ne Nuovo, 3 de janeiro de 1920). Era o ponto de chegada de uma
longa reflexão em cuja origem estava o conhecimento direto da vida
dos camponeses e pastores sardos. O deputado que a 16 de maio de
1925 gritava na Câmara “O senhor não conhece o Sul” evidente­
mente pouco sabia de Gramsci, do seu passado e dos seus interes­
ses. Mas deve-se acrescentar que o Gramsci meridionalista era em
geral ignorado, a não ser no círculo dos amigos mais próximos. O
ensaio que começou a escrever no outono de 1926, poucas semanas
258
da prisão, constituiria, quando da sua publicação em Paris,
eni 1930 (publicado em janeiro pelo Lo Stato Operaio, ano quatro,
número um), motivo de surpresa para muitos.
É um ensaio que assinala a passagem do jornalismo dos anos de
luta à meditação do período na prisão. Na produção da década pas­
sada, ligada preponderantemente, dia após dia, às razões mais ime­
diatas da batalha política, encontram-se páginas claramente anteci-
padoras do grande ensaísta revelado pelos Quaderni. Naquele mo­
mento, porém, impunham-se outras necessidades, de propaganda e
de discussão, e o jornalismo acabava sendo, normalmente, uma ar­
ma, um instrumento de mobilização operária e de ataque. O
Gramsci do decênio 1916-26 é sobretudo (não exclusivamente, fri-
se-se) um pamphlêtaire. No ensaio sobre a questão meridional o eco
perdura: na descontinuidade, o andamento é de um pamphlet. Po­
rém, logo vemos que Gramsci eleva-se, com fôlego suficiente, acima
do motivo da discussão, a sua perspectiva é outra, ele olha agora o
tema de um ponto de vista “desinteressado”, für ewig, o ponto de
vista no qual se colocará para escrever as notas da prisão; e nasce
um ensaio exemplar, um modelo de análise política e social da reali­
dade italiana.
Na obra é delineado, com método de investigação marxista, o
desenvolvimento dos últimos 30 anos da vida política da Itália. No
inicio do século, após uma ditadura muito exclusivista e violenta, a
burguesia italiana sente não poder mais governar com tranqüilida-
de. A insurreição dos camponeses sicilianos em 1894 e a insurreição
de Milão em 1896 foram os seus experimenta crucis. Tinha, portan­
to, de apoiar-se em uma outra classe, encontrar novas alianças, em
um sistema de democracia burguesa. Ela tem duas possibilidades de
escolha: ou uma democracia rural, isto é, uma aliança com os cam­
poneses do Sul, uníà política de liberdade alfandegária, de sufrágio
universal, de descentralização administrativa, de preços baixos nos
produtos industriais; ou então um bloco industrial capitalista-
operário, sem sufrágio universal, defensor do protecionismo alfan­
degário, pela manutenção da centralização estatal, por uma política
reformista dos salários e das liberdades sindicais. Escolhe a segunda
alternativa: o domínio burguês é agora personalizado por Giolitti, e
o Partido Socialista se reduz a um instrumento da política giolittia-
na. Porém, como o proletariado reage espontaneamente à política
dos chefes reformistas, o PSI é obrigado, depois de 1910, a retornar
à tática intransigente e o bloco industrial-operário perde a sua efi­
ciência. É neste momento que Giolitti põe o fuzil no ombro: a alian­
259
ça entre burgueses e operários é substituída pela aliança entre bur­
gueses e católicos, que representam as massas camponesas da Itália
setentrional e central. Em um quadro como esse, qual deveria ser a
tarefa da classe operária? A resposta de Gramsci é firme: antes de
tudo isolar a burguesia, afastando dela os aliados não naturais. O
proletariado, afirma Gramsci, só pode tornar-se classe dirigente e
dominante quando criar um sistema de alianças de classe que lhe
permita mobilizar contra o capitalismo e o Estado burguês a maio­
ria da população trabalhadora, o que significa, nas reais reações de
classe existentes na Itália, quando tiver conseguido obter o consen­
so de amplas massas camponesas. E, visto que a questão campone­
sa assumiu na Itália duas formas peculiares, a questão meridional e
a questão vaticana, conquistar a maioria das massas camponesas
significa, para o' proletariado italiano, tornar próprias estas duas
questões do ponto de vista social, compreender as exigências de
classe que elas representam, incorporar estas exigências ao seu pro­
grama revolucionário. Só assim, despojando-se de todo resíduo
corporativo, o proletariado poderá tornar-se classe dirigente. Se
isso não acontecer, os estratos camponeses, que representam na Itá­
lia a maioria da população, {»manearão sob a direção burguesa,
dando ao Estado a possibilidade de resistir ao ímpeto proletário e
de enfraquecê-lo. Mas, esclarecida a direção da marcha, como che­
gar ao consenso das massas camponesas? A sociedade meridional,
escreve Gramsci, é um bloco agrário constituído de três estratos so­
ciais: a grande massa camponesa amorfa e desagregada, os intelec­
tuais da pequena e média burguesia rural, os grandes proprietários
de terras e os grandes intelectuais. O segundo estrato (dos pequenos
e médios intelectuais) provém de uma camada com características
bem definidas: o pequeno e médio proprietário de terras que não é
camponês, que não trabalha.a terra, que se envergonharia de traba­
lhar como agricultor, mas que da pouca terra que possui, dada em
aluguel ou em parceria, quer arrancar renda que lhe possibilite vi­
ver convenientemente, mandar o filho para a universidade ou para
o seminário, formar o dote das filhas que devem casar com um ofi­
cial ou com um funcionário civil do Estado. Desta camada, os inte­
lectuais médios herdam uma áspera aversão ao camponês, conside­
rado como máquina de trabalho que deve ser usada até os ossos e
que pode ser íacilmente substituída devido à superpopulação exis­
tente. Herdam também um sentimento atávico de medo do campo­
nês e de sua violência destruidora e, portanto, um costume de hipo­
crisia refinada e uma refinadíssima arte de enganar e domesticar as
260
massas camponesas. Este tipo de intelectual, democrata na face
mostrada ao camponês e reacionário na face que se volta para o
grande proprietário e para o governo, politiqueiro, corrupto, des­
leal, é o elo que liga o camponês meridional ao grande proprietário
de terra. Realiza-se assim um monstruoso bloco agrário que, no seu
complexo, funciona como intermediário e como supervisor do capi­
talismo nortista e dos grandes bancos. O seu único objetivo é man­
ter o statu quo. Os grandes proprietários, no campo político, e os
grandes intelectuais, no campo ideológico (Giustino Fortunato, Be-
nedetto Croce), centralizam e dominam o conjunto de. manifestações
internas ao bloco. Foram grupos de intelectuais médios, escreve
Gramsci, que procuraram sair do bloco agrário e dimensionar a
questão meridional de uma forma nova. Na verdade, o meridiona-
lismo é o principal motivo inspirador das melhores iniciativas cul­
turais do século XX na Itália, desde La Voce de Prezzolini a L ’ Uni-
là de Salvemini, só que Fortunato e Croce, supremos moderadores
políticos e intelectuais de todas estas iniciativas, fizeram com que a
colocação dos problemas meridionais nunca ultrapssasse certos li­
mites, isto é, não se tornasse revolucionária. Em um panorama
como esse, o grupo do Ordine Nuovo está isolado. Também ele, ad­
mite Gramsci, sofreu a influência intelectual de Giustino Fortunato
e Benedetto Croce; mas depois, quando encarou o proletariado ur­
bano como protagonista moderno da história italiana e, portanto,
da questão meridional, o grupo representou uma ruptura completa
com aquela tradição. Em que sentido? Procurou agir de intermediá­
rio entre o proletariado setentrional e os intelectuais do Mezzogior-
no que colocam a questão meridional em um terreno novo, mais
avançado. Destes intelectuais, Guido Dorso é, segundo Gramsci, a
figura mais completa e interessante. Não se trata' de intelectuais co­
munistas e, no entanto, a ruptura do bloco agrário só poderá ser
obtida com a formação de um estrato de intelectuais de esquerda,
novos intelectuais médios que não unam mais o camponês ao pro­
prietário de terras. A aliança entre o proletariado e as massas cam­
ponesas do Mezzogiorno - conclui Gramsci - exige esta formação.
O manuscrito se interrompe aqui. A prisão impediu que
Gramsci o revisse e completasse. Mas, assim como está, em roupa­
gens de primeiro esboço de uma tese que talvez Gramsci pensasse
em desenvolver de modo mais completo, constitui, pelo método de
investigação e pela agudeza de julgamento, um exemplo de ensaio
bastante inspirado.

261
1
22.

Chegavam da União Soviética notícias cada vez mais inquié­


tantes. Os contrastes no seio do grupo dirigente bolchevique, já
existentes antes da morte de Lênin, tornaram-se mais profundos.
As lutas entre as facções eram ferozes. Batido pela troika (Stalin,
Zinoviev, Kamenev) depois da sua denúncia da esclerose burocráti­
ca do partido e novamente batido no dilema “revolução permanen­
te” ou “construção do socialismo em um só país”, Trotski não ate­
nuara a sua oposição a Stalin. Porém o secretário geral do PCUS já
concentrava em suas mãos um poder imenso. A recomendaçâo'con-
tida no “testamento” ditado por Lênin a 24-25 de dezembro de
1922 e a 4 de janeiro de 1923 não foi seguida.
Desde que o camarada Stalin tornou-se secretário-
geral - dizia Lênin - reúne em suas mãos um enorme po­
der, e não estou convencido de que saberá usá-lo sempre
com a devida cautela... Stalin é muito rude, e este defeito
é inadmissível no cargo de secretário-geral. Por isso, pro­
ponho aos companheiros que encontrem um modo de
afastar Stalin desse posto e nomear um sucessor para
ele... que seja mais paciente, leal, cortês, atencioso com os
companheiros e menos- lunático.
263
Se, apesar do severo julgamento de Lênin, Stalin continuara no
cargo, isto se deveu à intervenção de Zinoviev e Kamenev que, preo­
cupados naquela época em liquidar, antes de tudo, o antagonista
que eles consideravam mais perigoso, Trotski, apoiaram o terceiro
triunvirato obtendo do Comitê Central, em uma reunião de maio
de 1924, o nâo envio do “testamento” ao XIII Congresso do PCU5
e a confirmação de Stalin na secretaria do partido. Posteriormente,
Stalin livrou-se também de Zinoviev e Kamenev. O processo de re­
gressão de um regime de democracia proletária a um regime de au­
tocracia em nome do proletariado desenvolvia-se com rapidez. No
Politburo, Trotski, Zinoviev e Kamenev, reunidos em um bloco de
oposição, estavam isolados. Além de Stalin, eles eram combatidos
também pela direita (Bukharin, Rikov e Tomski). Também os com­
batia um novo grupo (Molotov, Voroskilov e Kalinin) que Stalin,
não querendo depender completamente do apoio da direita, empe­
nhou-se em fazer eleger para o Politburo do XIV Congresso, em de­
zembro de 1925. Agora, entre o verão e o outono de 1926, as rivali­
dades pessoais e as discóridas no terreno ideológico estavam mais
aguçadas devido às interpretações diversas que o bloco da oposição
e a maioria faziam da “nova política econômica” (NEP), projetada
por Lênin. A NEP era um sistema de economia mista: a grande in­
dústria, com direção estatal, a pequena e média indústria, o comér­
cio e a agricultura confiados à iniciativa privada. Daí derivava uma
contradição de interesses entre a classe operária, obrigada a graves
privações pela crise da indústria, e as camadas rurais, que pressio­
navam por uma política de preços baixos dos produtos industriais e
de preços altos dos produtos agrícolas. Nesta controvérsia, o bloco
da oposição de esquerda defendia a posição de uma rápida indus­
trialização, único pilar estável da revolução socialista. De outra for­
ma, o enfraquecimento do proletariado e a excessiva força conferi­
da aos camponeses ricos (kulaks), através da aquiescência às suas
reivindicações, abriria a estrada à restauração do capitalismo. Essa
questão era discutida em Moscou no verão-outono de 1926, com
um vigor acentuado pela trama de ressentimentos e de hostilidades
que a luta"pelo poder havia suscitado. Stalin não se ligara decisiva-
mente à política filocamponesa de Bukharin, mas naquele momen­
to a apoiava. Calculava a conveniência de solidarizar com a direita,
visando a eliminação definitiva dos opositores de esquerda, e tam­
bém calculava o risco, se tivesse procedido à desprivatização dos
campos, de agitações no mundo camponês, ponto perigoso enquan­
to era aberta a luta contra Trotski, Zinoviev e Kamenev. O choque
264 .
tre o bloco da oposição e a maioria do Comitê Central atingiu o
ige em outubro de 1926.
Em essência, Gramsci compartilhava das teses da maioria. Ha­
via-se oposto a Trotski também na discussão sobre “construção do
socialismo em um só país” ou “revolução permanente” (escreverá
uma nota na prisão rejeitando a tese do napoleonismo revolucioná­
rio, da revolução exportada). Agora, instalada a nova controvérsia,
não podia deixar de recusar, dada a sua concepção de fundo (ele­
mento necessário, para a estabilidade das conquistas proletárias, a
aliança permanente do« operários e dos camponeses), a revivescên­
cia do corporativismo operário que ele parecia entrever nas teses do
■bloco de esquerda. Porém, fora a essência do debate, o que lhe in­
quietava eram as formas do debate, o furor, a aspereza; os reflexos
que a cisão no interior do grupo dirigente do PCUS teriam sobre o
movimento internacional, então empenhado, sobretudo na Itália,
em uma batalha para não morrer. Poderia-se contar com os revolu­
cionários russos? Será que eles não esqueceriam os seus deveres nos
confronto com o proletariado dos outros países? A 14 de outubro
de 1926, devido a sua posição política no partido italiano, Gramsci
escreveu uma carta muito direta ao Comitê Central do PCUS. A in­
dependência de julgamento sempre foi a sua força: não tinha papas
na língua e escrevia o que sentia.

Os comunistas italianos e todos os trabalhadores


conscientes do nosso país - dizia a carta - sempre segui­
ram com a máxima atenção as suas discussões. Às véspe­
ras de cada Congresso e de cada Conferência do Partido
Comunista Soviético, nós estávamos confiantes de que,
não obstante a rudeza das polêmicas, a unidade do parti­
do russo não estava em perigo... Hoje, às vésperas da sua
XV Conferência, não temos mais a segurança do passado;
sentimo-nos muito angustiados. Parece-nos que o atual
posicionamento do bloco de oposição e a agudização das
polêmicas exigem a intervenção dos partidos irmãos...
Companheiros, vocês são, nestes nove anos de história
mundial, o elemento organizador e propulsor das forças
revolucionárias de todos os países; a função que vocês de­
senvolveram não tem precedente em toda a história da
humanidade não há outra que a ela se iguale em amplitu­
de e profundidade. Mas hoje, vocês estio destruindo o que
265
fizeram, degradam e correm o risco de anular a função di­
rigente que o Partido Comunista da URSS conquistara
pelo impulso de Lênin. Parece-nos que a paixão violenta
das questões russas lhes faz perder de vista os aspectos in­
ternacionais das próprias questões russas, faz com que es­
queçam que os seus deveres de militantes russos podem e
devem ser cumpridos só no quadro dos interesses do proleta
riado internacional1.

Quanto ã essência do debate em curso no PCUS, Gramsci nâo


hesitava em admitir o paradoxo da situação denunciada pelo bloco
Trotski-Zinoviev-Kamenev: o proletariado, classe dominante, em
condições de vida inferiores àquelas de determinados elementos e es­
tratos da classe dominada e submissa.
“Contudo - prosseguia -, o proletariado não pode
tornar-se classe dominante se não superar, com o sacrifí­
cio dos interesses corporativos, esta contradição. Nâo
pode manter a sua hegemonia e a sua ditadura se, ainda
que tornado dominante, não sacrificar estes interesses
imediatos aos interesses gerais e permanentes da classe. Ê
evidente que é fácil fazer demagogia neste terreno, é fácil
insistir nos lados negativos da contradição: “Quem é o
dominador, o operário mal nutrido e mal vestido, ou o
nepman coberto de peles e que tem à sua disposição todos
os bens do mundo?” ... É fácil fazer demagogia neste ter­
reno e é difícil não fazê-la quando a questão é colocada
nos termos do espírito corporativo e não nos do leninis-
mo, da doutrina da hegemonia do proletariado, que his­
toricamente se encontra em uma determinada posição e
não em outra... Reside neste elemento a raiz dos erros do
bloco da oposição e a origem dos perigos latentes que es­
tão contidos na sua atividade. Na ideologia e na prática
do bloco da oposição renasce em cheio toda a tradição da
social-democracia e do sindicalismo que impediu até ago­
ra que o proletariado ocidental se organizasse em classe
dirigente.

1 O grifo é meu.
266
Finalizando, Gramsci dirigia-se aos dois grupos em conflito
com um apelo à unidade:
Os companheiros Zinoviev, Trotski e Kamenev con­
tribuíram eficazmente para educar-nos para a revolução,
nos corrigiram algumas vezes de modo enérgico e severo,
foram os nossos mestres. Dirigimo-nos especialmente a
eles como maiores responsáveis da atual situação, porque
desejamos estar certos de que a maioria do C.C. da URSS
não pretende triunfar sozinha na luta e está disposta a
evitar medidas excessivas.

A carta não agradou a Togliatti, que então representava o par­


tido italiano em Moscou na Internacional. O defeito essencial da­
quela colocação era, ao seu ver, ter posto em primeiro plano o
problema da cisão e só em segundo o problema da adequação da li­
nha seguida pela maioria do Comitê Central; convinha, ao contrá­
rio - e isto ele o disse explicitamente em uma carta a Gramsci de 18
de outubro - expressar a própria adesão à linha da maioria “sem
impor nenhuma limitação”. De resto, que sentido tinha o apelo à
unidade?

O perigo inerente à posição que está contida na carta


observava Togliatti - ganha relevância devido ao fato de
que, provavelmente, de agora efn diante, a unidade da ve­
lha guarda leninista não será mais - ou dificilmente o será
- realizada de modo contínuo. No passado, o principal
fator desta unidade era dado pelo enorme prestígio e pela
autoridade pessoal de Lênin. Este elemento não pode ser
substituído.

Mas era justo atribuir a todo o grupo dirigente a responsabili­


dade da situação de ruptura, sem fazer distinção entre a maioria e o
bloco da oposição?

Na primeira parte dâ sua carta, exatamente aquela


em qué são expostas as conseqüências que uma cisão do
partido soviético e do seu núcleo dirigente poderia provo­
car no movimento ocidental, vocês não fazem nenhuma
distinção entre os companheiros que estão na chefia do
Comitê Central e os chefes da oposição. Na página dois
267
das notas escritas por Antonio, os companheiros russos
são exortados “a refletir e a ser mais conscientes das suas
responsabilidades” . Não há nenhuma referência a uma
distinção entre eles... Pode-se concluir apenas que o Polit-
buro do Partido Comunista Italiano considera que todos
sejam responsáveis, todos devam ser chamados à ordem.
É bem verdade que no fim da carta este posicionamento é
corrigido. Afirma-se que Zinoviev, Kamenev e Trotski
são os “maiores” responsáveis pela situação e acrescenta-
se: “ Desejamos estar certos de que a maioria do Comitê
Central do Partido Comunista da URSS não pretende
triunfar sozinho na luta e está disposta a evitar medidas
excessivas” . A expressão “desejamos estar certos” tem
um valor limitativo, isto é, com ela se quer dizer que
NÃO SE ESTÁ certo. Ora, à parte qualquer considera­
ção sobre a oportunidade de se intervir no atual debate
russo, atribuindo um pouco de culpa também à maioria
do Comitê Central, à parte o fato de que uma posição
desse tipo não pode ser resolvida senão em benefício TO­
TAL da oposição, à parte estas considerações de oportu­
nidade, pode-se afirmar que caiba um pouco de culpa à
maioria do Comitê Central?

Togliatti não admitia isso. Estava totalmente alinhado com as


posições do grupo Stalin-Bukharin e lhe parecia justo que a luta ao
grupo Zinoviev-Kamenev-Trotski chegasse a conseqüências extre­
mas. Eis por que não concordava com o apelo a evitar, como cons­
tava da carta de Gramsci, as “medidas excessivas” contra o bloco
da oposição.

Há, sem dúvida, um rigor na vida interna do Partido


Comunista da União [Soviética). E deve haver mesmo. Se
os partidos ocidentais desejassem intervir junto ao grupo
dirigente para acabar com este rigor, eles estariam come­
tendo um erro muito grave... £ justo que os partidos ex­
ternos vejam com preocupação uma agudização da crise
do Partido Comunista russo, e é justo que procurem, no
que está ao seu alcance, torná-la menos aguda. £ certo
porém que, quando se está de acordo com a linha do Co­
mitê Central, o melhor modo de contribuir para a supera-
268
çào da crise é expressar a própria adesão a esta linha sem
fazer nenhuma limitação.
Lida a resposta de T o g lia tti, Gramsci não mudou de opinião.
L o próprio Togliatti quem diz isso em uma carta a Giansiro Ferra-
ta: “Gramsci recebeu a minha carta, que lhe foi entregue por um
membro da representação soviética em Roma. Decerto leu-a rapi­
damente em um escritório dessa representação, onde recebeu a mi­
nha carta, e a respondeu em seguida, com uma breve carta, não
aceitando a minha argumentação” . Foi o último contato direto de
com T o g l i a t t i . Não se avistariam mais nem mais trocariam
Gr a ms c i
correspondência.
De 23 a 26 de outubro realizou-se em Moscou uma reunião
plenária do Comitê Central e da Comissão Central de controle. A
exortação de G r a m s c i para que fossem evitadas as “medidas exces­
sivas" n a t u r a l n i e n l e não tiveram eco. Ogrupo Stalin-Bukharin já se
decidira a ir até o f i m . Fis os primeiros resultados: T r o t s k i expulso
do Politburo: /moviev destituído do cargo de presidente da Inter­
nacional (foi substituído por Bukharin); K a m e n e v , q u e j á e m j u l h o
tivera de ceder a M i k o y a n o seu posto de comissário para o Comér­
cio Hxtenor. foi afastado também do Politburo.
Depois da tomada de posição de G r a m s c i , o secretariado da
Internacional decidira enviar à Itália um dos seus secretários, J u l e s
Huinbert-Dro/, com a missão de expor o estado das disputas no
Partido C o m u n i s t a russo. Foi convocada em V a l p o l c e v e r a , n o s ar­
redores de Gênova, u r n a reunião do Bureau político italiano. Os
trabalhos deveriam desenvolver-se na clandestinidade de D a 3 de
novembro. A 31 de outubro, na véspera deste encontro, a situação
precipitou. Houve um atentado em Bolonha contra Mussolini,
atribuído a um jovem de 15 anos, A n t e o Z a m b o n i . A s violências
fascistas n ã o conheceram limites: saques, expedições punitivas (in­
clusive à casa de B e n e d e t t o Croce em Nápoles), incêndios nas tipo­
grafias dos jornais de oposição. Andar livremente tinha-se tornado
para Gramsci uma aventura cheia de riscos. Assim, partiu de Roma
diretamente para Valpocevera.
Queria chegar a Gênova - afirma Togliatti com base
em notícias que lhe foram fornecidas por companheiros
que encontravam-se próximos a Gramsci naquele período
- passando por Milão, onde era esperado por alguns
companheiros. Em Milão não chegou nem mesmo a d e s ­
269
cer do trem. Um comissário de polícia lhe disse, manten­
do-o no vagão: “ Para o seu bem, deputado, volte para
Roma” . Foi o que ele fez. Tomou o primeiro trem, sal­
vando assim do perigo tanto os companheiros de Milão
quanto os de Gênova, mas renunciando a participar da
reunião para a qual estava muito bem preparado.
Alguns dias depois, a 4 de novembro, Gramsci escrevia a Giu-
lia: “ Devido a um incidente, tive de retornar a Roma” . O convênio
de Valpocevera, que tinha como objetivo ser esclarecedor, não teve
nenhum resultado. Em um relatório de Ruggero Grieco a Togliatti
de 3(5 de novembro de 1926 podemos ler: “ Reunião modesta, entre
31/10 e 2/11! Faltavam Amadeo fBordigaJ , Antonio [Grarnsci],
Angelo [Tasca] e outros. Éramos poucos...”. Não há nenhum ele­
mento, nem sequer vago, que possa induzir à hipótese de uma ten­
tativa de Humbert-Droz de encontrar-se, logo depois da inútil reu­
nião de Valpocevera, separadamente com Gramsci, que continuava
sendo o dirigente máximo do partido e o promotor e inspirador do
documento endereçado a Moscou. A não realização do encontro
deveu-se à precipitação da situação na Itália?
O atentado de Bolonha foi um bom pretexto para o recrudesci-
mento do poder fascista. A 5 de novembro, o Conselho de Minis­
tros deu o golpe definitivo àquele pouco de democracia que ainda
restava na Itália. O governo deliberava a anulação de todos os pas­
saportes, o uso de armas contra quem tentasse o expatriamento
clhndestino, a supressão dos jornais antifascistas, a dissolução dos
partidos e das asssociações contrárias ao regime. Também estava
pronto um projeto de lei para a instituição da pena de morte e do
Tribunal especial: a Câmara teria de discuti-lo e aprová-lo a 9 de
novembro.
Naquela situação extrema, parecia a todos que Gramsci devia
ir para um local seguro. Discutiu-se a sua viagem para a Suíça. A
mulher do administrador de 1'Unità, Ester Zamboni, foi a Roma
com o encargo de acompanhá-lo até Milão. Gramsci achou melhor
não acompanhá-la. Os motivos? Há duas razões que justificam tal
atitude:

Há algum tempo - escreveu Camilla Ravera a To­


gliatti em um relatório de meados de novembro de 1926 -
insistíamos na necessidade de Antonio viajar para o exte­
rior, na qualidade de nosso representante no estrangeiro,
270
que teria responsabilidades específicas e estaria estreita­
mente ligado ao nosso centro. Antonio, em geral, opunha
uma certa resistência. Achava que esta providência só de­
via ser tomada quando as circunstâncias o justificassem
de modo absoluto também diante dos operários e que os
chefes deviam, até quando possível, permanecer na Itália.
E observava muitas outras coisas de natureza diversa, to­
das elas merecedoras de consideração.
Gramsci queria muito comparecer à sessão da Câmara de 9 de
novembro, quando seriam discutidas as leis liberticidas aprovadas
no dia 5 pelo Conselho de Ministros. Mas é também provável que
ele não acreditasse na possibilidade da prisão, já que o mandato
parlamentar lhe garantia a imunidade. Os últimos acontecimentos
o induziam a um otimismo equivocado. Na manhã de 6 de no­
vembro, um jornal fascista, II Tevere, saiu com uma moção de Ro­
berto Farinacci na primeira página. Esta moção propunha, em uma
lista nominal, a revogação dos mandatos parlamentares dos depu­
tados oposicionistas. À revogação era motivada pela sistemática
ausência dos trabalhos parlamentares por parte dos deputados do
Aventino, pretexto esse que não podia ser estendido aos comunis­
tas, que, já há algum tempo haviam reassumido as suas cadeiras na
assembléia. De fato, no elenco de nomes publicado pelo Tevere não
constavam os nomes dos deputados da bancada comunista. É pro­
vável que dependesse desse fato a relativa serenidade de Gramsci.
Na noite de 8 de novembro, reuniu alguns colegas de partido em
uma sala de Montecitorio, e encarregou Ezio Riboldi de intervir na
sessão do dia seguinte, indo contra a proposta de restabelecimento
da pena de morte e contra a moção Farinacei dè revogação do man­
dato parlamentar para os deputados do Aventino. Mas eis que
ocorre o imprevisto. “Acontece”, recorda Riboldi, “ que por volta
das 8 horas da noite, Mussolini chamou ao Palácio Chigi, onde resi­
dia, Farinacci e Augusto Turati e comunicou que era preciso acres­
centar ao elenco os deputados comunistas. Farinacci observou que
a ordem do dia justificava-se pelo abandono, por parte dos deputa­
dos aventinianos, dos trabalhos parlamentares, e os comunistas
sempre haviam tomado parte deles. Mussolini respondeu que a Co­
roa queria assim” . O rei se inserira na preparação do golpe de Esta­
do e o apoiava, mas com esta condição. Mais tarde, não suspeitan­
do da mudança de rumo que tomavam acontecimentos, Gramsci
deixou Montecitorio direto para casa, depois da Porta Pia. Não
271
chegou a dormir. Às 22:30 foi detido, apesar de protegido peia imu­
nidade parlamentar. Tinha 35 anos.
Logo depois da prisão, escreveu a Giulia:
Você escreveu me dizendo, que nós ainda somos bas­
tante jovens para pretender ver juntos o crescimento dos
nossos filhos. É preciso agora que você se lembre sempre
disso, que você tenha sempre isso em mente cada vez que
pensar em mim e que me associe aos meninos. Estou certo
de que você será forte e corajosa, como sempre foi. Agora
você deve ser ainda mais forte e corajosa que no passado,
para que os meninos cresçam felizes e sejam, em tudo,
dignos de você.
Escreveu também à mãe:

Pensei muito em você nestes dias. Pensei nas novas do­


res que estava para lhe causar, na sua idade, depois de to­
dos os sofrimentos por que passou. Ê preciso que você seja
forte, apesar de tudo, como eu sou forte, e que me perdoe
com toda a ternura do seu imenso amor e da sua bonda­
de. Saber de você forte e paciente no sofrimento será um
motivo de força também para mim... Estou tranquilo e
sereno. Moralmente estou preparado para tudo. Procura­
rei superar também fisicamente as dificuldades que po­
dem estar me esperando e continuar equilibrado... Meus
queridos, neste momento sinto muito, com todo o cora­
ção, em pensar que nem sempre fui afetuoso e bom como
deveria ter sido e como vocês mereciam. Queiram-me
sempre bem e lembrem-se de mim.

Começava o longo calvário de Antonio Gramsci.

272
23.

A idéia de que Gramsci, podendo ter escapado à prisão, dei-


xou-se prender para transformar-se em mártir é bastante retórica e
totalmente incoerente com a sua personalidade, que podia ser tudo
menos inclinada a gestos exteriores ou, pior ainda, grandiosos. Pos­
teriormente, ele escreverá a Tatiana, com um tom irônico e um pou­
co de amargura:
Você me imagina, de cima a baixo, como alguém que
reivindica insistentemente o direito de sofrer, de ser mar­
tirizado, de não ser defraudado nem sequer de um minuto
ou segundo e de um matiz da sua pena. Eu seria um novo
Gandhi, que quer testemunhar diante dos superiores e
dos inferiores os tormentos do povo indiano, um novo Je­
remias ou Elias ou não sei que outro profeta de Israel que
descia à rua para comer coisas imundas para oferecer-se
em holocausto ao deus da vingança...
Na realidade, Gramsci, atento especialmente ao resultado de
qualquer ação, sempre tivera repugnância por tudo que parecia iló­
gico, e a retórica, inclusive a retórica do sacrifício, era uma armadi­
lha sentimental na qual não lhe agradaria cair. Esta foi também a
sua linha de conduta nos anos de prisão: nunca um sofrimento inú-
273
til, sc a reivindicação de um direito formalizado em leis ou em regu­
lamentos podia evitá-lo (como dispor de tinteiro, caneta e papel, ler
livros, cumprir pena em uma penitenciária para doentes, ocupar so­
zinho uma cela ao invés de ficar em uma cela coletiva, encaminhar
pedidos para a revisão do processo, pedir a liberdade provisória): e.
entenda-se, nunca uma solicitação de uma facilidade que, não deri­
vando do exercício de um direito formal, pudesse redundar, mesmo
na aparência, em urn ato de clemência do regime no seu confror-■
pessoal e, em consequência, lançar uma sombra, ainda que leve,
sobre a sua retidão de combatente irredutível.
Está agora em curso a prática para o direito de escre­
ver - lemos em urna carta dirigida a Cario - esta prática é
suficiente... Sinto, por outro lado, que Tatiana cria (anuo
sias, como a de que será possível que a reclusão venha a
ser tansformada, por razões de saúde, em desterro, atra­
vés da via ordinária, ou seja, em virtude de leis e regula­
mentos escritos. Na verdade, o desterro só seria víá\el
por meio de uma medida pessoal de clemência, que, por
sua vez, entenda-se, só seria concedida após um pedido
motivado por mudança de opinião e reconhecimento,
etc., etc. Tatiana não pensa em tudo issso. É de uma inge­
nuidade cândida que às vezes me espanta, porque eu não
tenho nenhuma intenção de ajoelhar-me diante de quem
quer que seja, nem de alterar uma vírgula da minha con­
duta. Sou bastante estóico para antever com a máxima
tranquilidade todas as consequências das premissas aci­
ma. Já há algum tempo sabia o que podia me acontecer.
A- realidade confirmou a minha resolução, e não me aba­
lou em nada. Devido a tudo isso, é preciso que Tatiana
saiba que fantasias desse tipo não devem ser nem sequer
faladas, porque a simples referência a elas pode dar a im­
pressão de que fui eu quem fez as sugestões.

Esta idéia o irritava “até a impaciência”, fazendo mesmo com


que fosse rude com Tatiana: “Cada ingerência sua não faz senão
lançar uma sombra de equívoco sobre esta minha e dos outros, mas
especialmente minha, posição cristalina. Por que você não quer en­
tender que é incapaz, radical mente incapaz, de levar em conta a mi­
nha honra e a minha dignidade nestas questões?... Só quero consta­
tar a impossibilidade objetiva - para você, estranha - de revivei
atmosfera de ferro e fogo que eu atravessei”. Simplesmente não i .
274
nunciou nunca àquilo que as leis e o regulamento carcerário lhe
'■oncediam. “ Em geral, acredito” , explicava a Cario referindo-se à
'•veptuaiídade de revisão do processo, “que, na minha situação,
Jocio recurso à legalidade seja oportuno e obrigatório, sem que eu
L-nt* ilusões, mas para ter a consciência de ter feito, da minha parte,
iudo o que era legalmente possível para provar ter sito atingido sem
ha se legal” .

Depois da prisão, o seu primeiro destino foi o desterro em Us-


íica. uma pequena ilha de oito quilômetros quadrados com 1.600
habitantes, 500-600 dos quais cumprindo pena por delitos comuns.
Grumsci vivia com mais cinco companheiros: o ex-deputado refor­
mista Giuseppe Sbaraglini, de Perugia, o ex-deputado maximalista
Paolo Conca, de Verona, dois companheiros dos Abruzos e o seu
mais tenaz adversário na luta das correntes dentro do partido,
Amadeo Bordiga. Apesar da diversidade de idéias e a lembrança
ainda fresca de acirradas polêmicas, havia entre eles um clima de
grande harmonia. Deviam arranjar-se e Gramsci aceitava com espí­
rito de adaptação a sua cota de sacrifícios: “ Eu participo de uma
mesa comum e justamente hoje devo servir de garçon e de ajudante
de cozinha. Não sei ainda se terei de descascar as batatas, preparar
as lentilhas ou lavar a salada antes de servir à mesa. A minha estréia
é aguardada com muita curiosidade. Muitos amigos queriam me
substituir nos serviços, mas eu me mantive inabalável na decisão de
cumprir a minha parte” .Tinha muito o que ler. Entrara em contato
com um amigo dos anos turineses, Piero Sraffa, que lecionava eco­
nomia política na Universidade de Cagliari e este, filho de um pro­
fessor da Bocconi em Milão, lhe abriu uma conta ilimitada em uma
livraria de Milão, a Sperling e Kupfer. Estes livros também eram
utilizados na escola de cultura geral organizada entre os presos
políticos. G ramsci era professor e aluno: ensinava geografia e histó­
ria e tomava lições de alemão. A seção científica era dirigida por
Bordiga. De noite, em casa, jogavam cartas (“Até então, nunca ha­
via jogado; Bordiga está certo que eu posso me tornar um bom jo­
gador de escopa”). Os presos políticos enfrentavam as despesas da
subsistência com as dez liras diárias que o governo dava a título de
"auxílio” . Gramsci afirmava não ter necessidade de ajuda. Escre­
veu a Tatiana: “Não quero, de modo nenhum, que você se sacrifique
pessoalmente por mim; se lhe for possível, mande o auxílio a Giulia,
que certamente necessita mais do que eu” . A permanência em Usti-
ca, na realidade suportável, devia, porém, encerrar-se logo. A 20 de
275
janeiro, 44 dias depois da chegada, G r a m s c i deixou a ilha, direto
para o presídio milanês de San Vittore.
Lá chegou a 7 de fevereiro de 1927. Foram 19 dias de viagem
penosa, com paradas em uma infinidade de prisões de tr â s ito :

Quero dar uma idéia da viagem como um todo...


Chega-se cansado, sujo, com os pulsos machucados pelas
longas horas de algemas, com a barba por fazer, com os
cabelos em desordem, com os olhos fundos e ardendo de
cansaço e insônia; você é jogado no chão, sobre um col­
chão de palha muito velho, vestido, para não ter contato
com a imundície, envolvendo o rosto e as mãos nas pró­
prias toalhas, cobrindo-se com cobertas que servem ape­
nas para não se morrer de frio. Parte-se ainda mais sujo e
cansado, até a nova prisão, com os pulsos ainda mais lívi­
dos pelo frio das algemas e o peso das correntes e pelo
cansaço de transportar, assim enfeitado, a própria baga­
gem.

O presídio de San Vittore pareceu a Gramsci, depois desta via­


gem, um local feliz. Foi interrogado durante dois dias após a chega­
da, a 9 de fevereiro, pelo juiz-instrutor Enrico Macis. Estava sere­
no. Ao invés de buscar conforto, era ele quem procurava animar a
m ãe:

Será preciso paciência, e paciência eu tenho às tone­


ladas, a vagões, a casas (você se lembra como Cario dizia
quando era pequeno e comia algum doce gostoso! “Que­
ro cem casas desse doce” ; de paciência eu tenho kentu do­
mas e prus [ mais de cem casas]). Você deve ter paciência
e bondade. A sua carta, no entanto, faz pensar que você
está em um estado de ânimo totalmente diferente. Diz
que se sente velha, etc. Bem, estou certo de que você ain­
da está muito forte e resistente, apesar da sua idade e dos
grandes sofrimentos e lutas que teve de enfrentar.
E fazia um jogo de palavras, Corrias (a mãe era uma Marcias-
Corrias) e “ c o r r ia z z u ” , resistente, forte:

Corrias, corriazzu, você se lembra? Estou certo que


ainda nos veremos, todos juntos, filhos, netos, e quem sa-
276
be, bisnetos, e faremos um almoço imenso com kulurzo-
nes e pardulas e zippulas e pippias de zuccuru efigu sigada.
Você acha que Delio vai gostar dos pirichittos e d a s pip­
pias de zuccuru7 Acho que sim e que ele também vai que­
rer cem casas. Você não imagina como ele é parecido com
Mario e com Cario quando eles eram pequenos, pelo me­
nos no que eu me lembro, sobretudo com Cario, a não ser
o nariz de Cario que ainda não era desenvolvido. Algu­
mas vezes penso em todas estas coisas e tenho prazer em
recordar os acontecimentos e as cenas da infância. É ver­
dade que encontro neles muitas dores e muitos sofrimen­
tos, mas também alguma coisa de alegre e de belo. E de­
pois tem sempre você, querida mamãe, e as suas mãos
sempre ocupadas por nossa causa, para aliviar-nos as pe­
nas e para tirar uma utilidade de todas as coisas. Você se
l e m b r a das m i n h a s tramóias para conseguir o c a f é bom,
sem cevada e outras p o r c a r i a s do gênero?

A 20 de fevereiro, Antonio escreveu a Teresina:


Estou muito preocupado com o estado de ânimo de
m a m ã e, e por o u tr o lad o não sei c o m o f a z e r p a r a c o n s o -
l á - l a e tranqüilizá-la. Queria infundir-lhe a convicção de
que estou t r a n q ü i l í s s i m o , como realmente estou, mas vejo
que não consigo. Há toda uma zona de sentimento e de
m o d o d e pensar q u e f o r m a u m a e s p é c i e de abismo e n t r e
nós. P a r a ela, a minha p r i s ã o é uma desgraça terrível e
m i s t e r i o s a n a s suas concatenações de causas e efeitos;
para m i m , é um episódio da luta política que se combatia
e que continuará a combater não só na Itália, mas em
todo o mundo, por não sei quanto tempo ainda. Fui pre­
so, assim como durante a guerra se podia cair prisioneiro,
sabendo que isso podia acontecer e que podia acontecer
também o pior.

Em maio, Tatiana, que queria dar assistência ao cunhado de


perto, transferiu-se para Milão, mas fica doente e tem de ser inter­
nada em uma clínica. Ela era o único membro da família com cujo
auxílio podia contar. A sua prolongada doença o deprimiu. No en­
tanto. outras tristezas ainda o a g u r d a v a m .
277
Há muito que não tinha notícias do irmão Mario. Perderam-se
de v is ta d e s d e 1 9 2 1 , d e p o is d e uma v is ita d e A n t o n i o a s u a c a s a em
Varese. A g o r a M a r io n ã o se o c u p a v a d e p o lí t i c a , o u n ã o s e o c u p a v a
d e la c o m o q u a n d o e r a o s e c r e t á r io fe d e r a l f a s c is t a d e V a r e s e . A s
id é ia s c o n t in u a v a m a s m e s m a s , m a s s e m o c o m p r o m is s o a tiv o d o
p a s s a d o . F o r a a g r e d id o p o r c o m u n i s t a s q u a s e n o m e s m o p e r ío d o
e m q u e o s fa s c is t a s e s p a n c a r a m G e n n a r o , e m T u r im . T e n d o d e ix a ­
d o o s e n c a r g o s p o lí t i c o s d e la d o , d e d ic a v a - s e a g o r a e x c lu s iv a m e n t e
aos n e g ó c io s d a s u a fir m a c o m e r c ia l. E m m a i o , A n t o n i o te v e n o tí­
c ia s d o ir m ã o e e s c r e v e u à m ã e: “ Q u e r ia s a b e r o e n d e r e ç o e x a t o d e
M a r io ; d e s d e 1921 q u e n ã o s e i m a is d e le , m a s a g o r a s o u b e que e le
in t e r e s s o u - s e p o r m im e p o r isso q u e r ia e s c r e v e r a ele, a g r a d e c e n d o -
lh e ” . P o s t e r io r m e n t e , c h e g o u u m a c a r ta d e A n n a M a ff e i P a r r a v ic i-
ni, a e s p o s a d e M a r io , a G h ila r z a , e a s e n h o r a P e p p in a , “ la m e n ­
t a n d o m u i t o ” , in f o r m o u lo g o a A n t o n i o s o b r e e s s a c a r ta . G ram sei
e s c r e v e u a o ir m ã o p e d in d o q u e viesse te r c o m e le n a p r is ã o . M a r io
v is it o u - o n o Final d e a g o s t o . P a r e c e u a A n t o n i o “ m u i t o e m b a r a ç a ­
d o ” , m a s q u e , n o e n t a n t o , n ã o d a v a im p o r t â n c ia a e s t e e m b a r a ç o -
p o d ia se r u m a s im p le s im p r e s s ã o . A 2 9 d e a g o s t o d e 1 9 2 7 , e s c r e v e u
a T a tia n a :

Q u in ta -f e ir a e s t iv e c o m o m e u ir m ã o M a r io , q u e m e
t r a n q u iliz o u s o b r e a s s u a s c o n d i ç õ e s ... D is s e - m e q u e lhe
c o n v id o u p a r a p a s s a r u n s d ia s e m V a r e s e , n a c a s a d e le .
Por q u e n ã o a c e ita ? O c a lo r j á p a s s o u , m a s o c a m p o d e v e
estar a in d a a g r a d á v e l e a r e g iã o d o s la g o s lo m b a r d o s d e v e
ser u m b o m lu g a r p a r a s e c o n h e c e r . M e u ir m ã o é u m b o m
rapaz e e s t o u c e r to d e q u e v o c ê ficará à v o n t a d e n a c a sa
d e le . C o n h e ç o p o u c o a m u lh e r d e le ; v i- a a p e n a s u m a v e z ,
m u i t o s a n o s a tr á s , q u a n d o e s t a v a p a r a d a r à lu z e n ã o
creio q u e e s t e se ja o m o m e n t o m a is o p o r t u n o p a r a c o n h e ­
cer u m a sen h o ra .

N o m e s m o d ia , e s c r e v e u à m ã e:

Q u in ta -f e ir a M a r io v e io m e v e r e c o n v e r s a m o s a p r o -
x im id a m e n t e u m q u a r t o d e h o r a . E le e s t á m u i t o b e m .
A lu d iu a o s s e u s n e g ó c io s , q u e a g o r a p r o s p e r a m m u ito .
A c h o q u e e l e te m u m a le v e t e n d ê n c ia a t o r n a r - s e g o r d o
c o m o p a p a i. A n t e s d e e s ta r c o m i g o , M a r io fo i a o h o s p it a l
v is ita r m in h a c u n h a d a , e a s s im m e t r o u x e n o t í c ia s d e la e
278
me tr a n q ü iliz o u um pouco. Ele me p r o m e t e u escrever
logo para você para dizer que me encontrou bem de saú­
de.
Entretanto, a carta de Mario que chegou a Ghilarza
foi em um outro tom, o que desagradou A n t o n io : “Cario
me escreve como se eu estivesse à beira do túmulo; fala
em vir a Milão e pensou até mesmo em. trazer mamãe,
uma mulher de quase 70 anos, que nunca saiu da aldeia e
nunca viajou de trem por mais de 40 quilômetros. Coisa
de louco, que me magoou e também me deixou um pouco
irritado com Mario, que podia ser mais franco comigo e
não impressionar nossa velha mãe” . Concluia amarga­
mente: “Com meu irmão Mario não posso mais contar” .

Outros laços também pareciam afrouxar-se. Antonio sofria


muito c o m a s e n s a ç ã o d e te r s id o e s q u e c i d o p o r G i u li a . A 2 6 d e fe ­
v e r e ir o e s c r e v e u à mãe: “ H á c e r c a d e u m m ê s e m e io n ã o t e n h o
n o tíc ia s d e G i u li a e d o s m e n in o s , p o r is s o n ã o p o s s o lh e e sc r e v e r
n a d a sobre e le s ” . A T a n ia , a 2 6 d e março: “ R e v i a s c a r ta s d e G iu lia ,
m a s c o m o e s s a m o ç a e s c r e v e p o u c o e c o m o s a b e s e j u s t if ic a r com o
b a r u lh o q u e a s crianças fa z e m a o r e d o r d e la ! ” . A T a n ia , a 2 5 d e
abril:

V o c ê m e e s c r e v e u a v is a n d o - m e d e u m a c a r ta d e G i u ­
lia . D e p o is t o r n o u a e s c r e v e r a n u n c ia n d o u m a o u tr a c a r ­
ta; d e p o is r e c e b o u m a c a r ta d e v o c ê (e a s s u a s c a r ta s m e
s ã o m u it o c a r a s ) , m a s n ã o r e c e b o a s c a r ta s d e G i u li a e
a in d a não a s r e c e b i. B e m , v o c ê n ã o p o d e im a g in a r a m i­
n h a v id a a q u i n a p r is ã o . N ã o im a g in a c o m o e u , r e c e b e n ­
d o o a v is o , e s p e r o d ia r ia m e n te e d ia r ia m e n t e t e n h o u m a
d e s i lu s ã o . Isto r e p e r c u te d e n tr o d e m im d u r a n te t o d o s o s
m i n u t o s d e t o d a s a s h o r a s d e t o d o s o s d ia s .

À mãe, a 1’ de a g o s t o : “ H á m u i t o tempo q u e n ã o r e c e b o n o t í­
c ia s d e Giulia; h á c e r c a d e tr ê s meses n ã o s e i n a d a nem d e la n e m
dos m e n in o s . M in h a c u n h a d a c o n t i n u a d o e n t e n o h o s p i t a l ” . T a lv e z
te n h a s id o p o r is s o q u e a 4 d e j u l h o e s c r e v ia a u m c o m p a n h e i r o ,
G iu s e p p e B erti: “ N e s t e m o m e n t o , a tr a v e s s o u m p e r ío d o d e c a n s a ç o
moral e m r e la ç ã o a a c o n t e c i m e n t o s d e caráter fa m ilia r ” .
T a t ia n a s a iu d a c lín ic a n o s p r im e ir o s d ia s d e s e t e m b r o d e 1 9 2 7 ,
e A n t o n i o e x p e r im e n t o u u m g r a n d e a lí v io c o m is s o . E la lh e le m b r a -
279
va, até fisicamente, G i u l i a Era mais expansiva que G i u l i a : opu­
nha à calma da irmã um temperamento lírico, cóm pontadas de ar­
roubos e langores românticos; sentia necessidade de derramar sobre
Antonio um afeto de mulher e mãe, protetor e “ e n f e r m e i r í s t i c o ” , e
lhe queria bem. O sacrifício de lhe dar assistência ao invés de cansá-
la a animava como se fosse um prazer, e era - de uma exigência ínti­
ma de participação dos sofrimentos alheios. Prodigalizava-se em
aliviar-lhe a dureza da reclusão e foi, nos dez anos de prisão, o
apoio mais caro a Antonio. O sentimento de Gramsci para com ela
é bem exemplificado pela frase que conclui a primeira carta que
mandou a Tatiana após a prisão: “Abraço-lhe ternamente, caríssi­
ma, porque abraçando você, abraço todos os meus entes queridos”.
Tatiana era a única da família próxima a ele, uma irmã: “Vê que eu
lhe escrevo como a uma irmã e você, durante todo este tempo tem
s i d o p a r a m i m m a i s d o q u e u m a i r m ã . P o r i s s o l h e a t o r m e n t e i um
p o u c o a l g u m a s vezes. M a s n ã o é v e r d a d e que atormentamos justa­
mente a q u e l e s q u e n o s s ã o m a i s c a r o s ? Q u e r o q u e v o c ê f a ç a t u d o
p a r a s a r a r e f i c a r b o a . A s s i m p o d e r á m e e s c r e v e r , manter-me i n f o r ­
m a d o s o b r e G i u l i a e d o s m e n i n o s e c o n s o l a r - m e c o m o s e u a f e t o ” 12.
M a i s t a r d e , a 3 d e o u t u b r o , e s c r e v e u à mãe:

M in h a c u n h a d a já saiu d o h o sp ita l e vem m e visitar


de vez em q u an d o. A in d a está em co n v a lesce n ç a e faz
g r a n d e s sa c r ifíc io s p o r m im . T o d o dia v e m à p r is ã o e m e
manda c o isa s g o sto s a s de c o m e r : fr u ta , c h o c o l a t e , la ticí­
n io s frescos. P o b r ez in h a , n ã o c o n s ig o c o n v e n c ê -lapara
não c a n s a r - s e t a n t o e p e n s a r um p o u c o m a i s n a sua saú­
de. S i n t o - m e a t é mesmo u m p o u c o h u m i l h a d o com t a n t a
a b n e g a ç ã o , que às vezes n ã o s e e n c o n t r a nem m e s m o nas
irmãs.

A vida de Gramsci transcorria agora na espera do processo,


embora não tivesse a menor ilusão em sair-se bem-sucedido dele.
Esperava uma condenação pesada. Mas nem por isso perdera a cal­
ma de sempre:

1 Dirá a ela: “Observei que vocês se parecem muito, apesar de alguns traços mar­
cantes de personalidades próprias e inconfundíveis. Falando nisso, você se lembra de
uma tarde ern Roma quando lhe dirigi a palavra pensando que fosse Giulia?’"
2 Carta de 12 de setembro de 1927.
280
A minha posição morai é ótima: há quem me creia
um Satanás, há quem me creia quase um santo. Eu não
quero bancar nem o mártir nem o herói. Acredito que sou
simplesmente um homem médio, que tem as suas convic­
ções profundas e que não as troca por nada desse mun­
do... Nos primeiros meses que passei aqui em Milão, um
agente de custódia me perguntou ingenuamente se era
verdade que eu, se tivesse mudado de lado, teria me tor­
nado ministro. Respondi-lhe sorrindo que ministro era
demais, mas que teria podido me tornar subsecretário dos
Correios ou dos Trabalhos Públicos, já que eram estes os
cargos governamentais concedidos aos deputados sardos.
Sacudiu os ombros e me perguntou porque então eu não
tinha mudado de lado, botando o dedo na testa. Havia le­
vado a sério a minha resposta e estava me achando louco
de pedra.
A instrutoria arrastava-se. Não era fácil munir os chefes da
acusação com provas exaustivas. Eles dispunham exclusivamente
de relatórios de questores e carabineiros repletos de julgamentos
formados (naturalmente Gramsci era sempre um “subversivo” , um
indivíduo “ muito perigoso para a ordem pública” , a sua ação era
“nefasta” , etc.), mas cheios de lacunas a respeito de fatos específi­
cos 3. Por isso a cada fase da instrutoria correspondia uma tentativa
da polícia de enredar Gramsci, colocando perto dele agentes provo­
cadores. A ordem de prisão era de 14 de janeiro de 1927. Durante a
viagem de Ustica para Milão, na prisão de Bolonha, um desses ti­
pos aproximou-se de Gramsci. Dizia chamar-se Dante R o m a n i e
daya as seguintes informações de si mesmo: sindicalista anarquista,
maquinista ferroviário detido em 1920 durante o levante de A n c o -
na, agora em Bolonha em trânsito para Ancona depois de ter cum­
prido a sua pena em P o r t o lo n g o n e . Parecia, no entanto, muito in­
formado, embora estivesse saindo de alguns anos de reclusão, sobre
os últimos acontecimentos italianos, e Gramsci, desconfiado, não
se deixou cair na armadilha. A 9 de fevereiro e em 20 de março foi

3 Em um relatório dos carabineiros de Roma, dizia-se o seguinte de Gramsci: “De­


nunciado em novembro de 1922 pela Procuradoria Real de Roma por ter sido en­
contrado na posse de armas e explosivos” . Em novembro de 1922 Gramsci estava há
seis meses em Moscou, recuperando-se no sanatório “Bosque de prata” .
281
interrogado no presídio de San Vittore. A 21 de março, o juiz M a c is
deu por encerrada a parte da in s tr u to r ía , expedindo o processo para
Roma, para o Tribunal Especial para a Defesa do Estado, que fun­
cionava desde l9 de fevereiro. A acusação ainda não dispunha de
provas. E eis que reaparece Dante R o m a n i. Até aquele momento,
G r a m s c i estivera sujeito a um regime p e n in t e c iá r i o rígido: sozinho
n a c e la , s o z i n h o n o p a s s e io , m á x im a v ig ilâ n c ia p a r a q u e n ã o se c o ­
m u n ic a s s e com o s o u tr o s . C o m a c h e g a d a de R o m a n i t u d o m u d o u .
E s tr a n h a m e n te R o m a n i p o d ia se a p r o x im a r d e G r a m s c i; e s t r a n h a ­
m e n t e lh e fo i p e r m itid o p a s s a r h o r a s e h o r a s n a cela d o líd e r c o m u ­
n ista. R o m a n i se o ferecia p ara p a ssa r ca rta s, m e n s a g e n s, o r d e n s para
fo r a d a p r is ã o . O m o v i m e n t o c o m u n is t a , d iz ia e le ’, e s t a v a e m c r is e , e
por is s o a c o n s e lh a v a G r a m s c i a c o r r ig ir , com uma in t e r v e n ç ã o
e n é r g ic a , a o r g a n iz a ç ã o ile g a l d o p a r tid o . O e x p e d ie n t e p o li c ia l fa ­
lh o u , m a s a m á q u in a p r o c e s s u a l n ã o se deteve. N o v a o r d e m d e p r i­
s ã o a 2 0 d e m a io , c o m a c u s a ç õ e s d e g u e r r a c iv il, s a q u e , d e v a s t a ç ã o ,
matança, e n o v a in t e r r o g a t ó r io a 2 d e j u n h o . C o n t in u a v a s e n d o
d if íc il c o m p r o v a r a s acusações. N a p r im e ir a q u in z e n a d e o u tu b r o ,
su r g iu n o p á t io o n d e G r a m s c i fa z ia o s e u p a s s e io um ta l d e C o r r a d o
M e la n i, a p r e s e n t a d o c o m o o a m a n t e d a ir m ã d a m u lh e r d o s e c r e t á ­
r io fe d e r a l fa s c is ta d e M ilã o , M a r io G i a m p a o l i. M e la n i d iz ia -s e
p e r s e g u id o p o r G i a m p a o l i e e x p lic a v a assim a s r a z õ e s : o a te n t a d o
d e 31 d e o u t u b r o d e 1 9 2 6 c o n tr a M u s s o lin i e m B o lo n h a f o r a , n a
r e a lid a d e , u m tr u q u e o r g a n iz a d o e m M il ã o p o r G ia m p a o li; u m a u ­
x ilia r d a milícia h a v ia d a d o u m tir o p a r a o ar e d e p o is G i a m p a o l i
a r r e m e s s a r a -s e s o b r e A n t e o Z a m b o n i, a g r e d in d o - o . M e la n i p o s s u ía
o s d o c u m e n t o s q u e p r o v a v a m a s im u la ç ã o d o a t e n t a d o . T in h a d o ­
c u m e n t o s s o b r e a s ligações d e G i a m p a o l i c o m r e d e s d e p r o s t it u iç ã o
e d e j o g o s d e a z a r . P o s s u ía ta m b é m p r o v a s q u e r e v e la v a m a pede­
rastia d e a lg u n s d e p u t a d o s fa s c is t a s . S e p u b li c a d o s , o c o r r e r ia u m a
c r is e d o r e g im e a in d a m a is a g u d a d o q u e a o c o r r id a com o d e lito
M a t t e o t t i. D a í o o b je t iv o d e G i a m p a o l i d e liq u id a r , a t é mesmo e n ­
v e n e n a n d o - o , o i n c ô m o d o d e t e n t o r d o s d o c u m e n t o s . Corrado M e l-
ni os o f e r e c ia a G r a m s c i em t r o c a d e u m p a g a m e n t o m e n s a l d a d o
p e lo P a r tid o C o m u n is t a . E ra u m a a r m a d ilh a in g ê n u a . G r a m s c i
mais u m a v e z n ã o c a iu , e a p a r te d a in s tr u to r ia c o n t i n u o u s e m o s
e le m e n t o s s e n s a c io n a lis t a s d e acusação q u e a p o lí c ia p e n s a v a p o d e r
c o n ta r . M a s o p r o c e s s o n ã o p o d ia m a is se r a d ia d o ; d e p o is d e a lg u n s
a d ia m e n t o s a c a b o u s e n d o fix a d o p a r a 2 8 d e m a io d e 1928 e m R o ­
m a.

282
24.

A n t o n io G r a m s c i d e ix o u Milão e m LI d e m a io d e 1 9 2 8 . Os d e ­
b a te s se realizaram entre os dias 28 de maio e 4 de junho. Era a
grande ocasião em vista da qual Mussolini havia substituído a ma­
gistratura ordinária, que opôs uma certa resistência ao processo de
f a s c is t iz a ç ã o dos órgãos de Estado, por uma magistratura política;
o Tribunal Especial para a Defesa do Estado.

Inicialmente este tribunal ocupou-se de casos mais simples,


como o de dois trabalhadores romanos que, segundo o relatório de
acusação do comissário de Segurança Pública, Epifanio Pennetta,
foram surpreendidos proferindo expressões injuriosas em relação a
Mussolini: um - “ Q u e o d ia b o c a r r e g u e e s te fedorento” ; o o u t r o -
“ A in d a n ã o a c a b a r a m c o m e l e ” . A g o r a , p o r é m , p e r a n te o s j u í z e s ,
e s ta v a m s e n t a d o s a lg u n s d o s m a is fir m e s o p o s it o r e s d o r e g im e , 22
h o m e n s o d ia d o s p o r M u s s o lin i p e lo real p e r ig o q u e r e p r e s e n ta v a m ;
em p r im e ir a lin h a , A n t o n i o G r a m s c i, U m b e r t o T e r r a c in i, M a u r o
S c o c c im a r r o , G i o v a n n i R o v e d a e o s e x - d e p u t a d o s L u ig i A lf a n i, Igi-
n o B o r in , E n r ic o F err a r i e Ezio R ib o ld i. D e v ia se r u m g r a n d e s h o w
j u d ic iá r io . T o d a s a s f o r m a s d a litu r g ia fa s c is ta fo r a m e m p r e g a d a s :
um d u p lo c o r d ã o d e s o l d a d o s c o m e lm o s n e g r o s , o p u n h a l a o la d o e

283
os mosquetes com a baioneta à mostra, os juízes 1em uniforme de
gala e todo um ritual sinistro da corte marcial. Foram admitidos à
mesa da imprensa os correspondentes do Manchester Guardian, do
Petit Parisien e d a agência Tass. Também puderam assistir às ses­
sões Cario G r a m s c i e os irmãos de Terracini e de S c o c c i m a r r o .
Os 22 implicados estavam sentados no banco dos réus “guar­
dados pela força militar mas livres como pessoas” , como se lê na
ata da primeira sessão. A linha comum foi admitir a sua atividade
nas fileiras do Partido ComunisG, negando porém uma função diri­
gente. Hstavam calmos. Na sessão de 30 de maio, o primeiro a ser
interrogado foi Antonio Gramsci. Um dos defensores, o advogado
G i u s e p p e Sardo, reconstruiu assim o interrogatório.

PRESIDENTE: O senhor é a c u s a d o de atividade


de instigação à guerra civil, de apologia de
c o n sp ir a tó r ia ,
delito e de incitamento ao ódio de classe. O que o senhor
tem algo a dizer ao seu favor?
GRAMSCI: Confirmo as minhas declarações feitas
à p o l í c i a . Fui d e t i d o apesar d e d e p u t a d o em exercício.
Sou comunista e a minha atividade política é conhecida
p o r t ê - l a explicado p u b l i c a m e n t e como d e p u t a d o e c o m o
articulista de 1’Uniíà. Não desenvolvi nenhum tipo de ati­
vidade c l a n d e s t i n a p o r q u e , mesmo se q u i s e s s e , i s t o seria
impossível. Há anos que tenho sempre às costas seis agen­
tes, com a função declarada de me acompanhar e de pos­
tar-se à m i n h a p o r t a . Assim, n u n c a me d e i x a r a m s ó e, sob
o pretexto de proteção, foi exercitada sobre mim uma vi­
gilância q u e torna-se h o j e a m i n h a melhor defesa. Peço
que sejam ouvidos como testemunhas a depor sobre esta
circunstância o questor e o representante do Estado de
T u r i m . Se, por outro lado, ser comunista importa respon­
sabilidade, o aceito.
PRES1 DENTE: Entre os escritos encontrados com o
senhor fala-se de guerra e de tomada do poder pelo prole­
tariado. O que estes escritos significam?
GRAMSCI: Creio, senhor general, que todas as di­
taduras de tipo militar acabam, cedo ou tarde, sendo a t i n -

' Presidente, o general Alessandra» Saporiti; relator, o advogado Giacomo Bucca-


1'urri: jurados, cinco cônsules da milícia fascista; procurador, o advogado Michele ls-
grò.
284
gidas pela guerra. Parece-me evidente, nesse caso, que
caiba ao proletariado substituir a classe dirigente toman­
do as rédeas do poder para mudar os destinos da Nação.

Falava com um fio de voz. Alterou-se apenas no final do inter­


rogatório. Algumas interrupções do ministério público o irritaram.
Dirigindo-se aos juízes, disse com veemência: “ Vocês conduzirão a
Itália à ruína e a nós, comunistas, caberá salvá-la” .
Também registrou-se polêmica nos interrogatórios dos outros
acusados. Entre os precedentes penais do deputado Ferrari foi re­
lembrada uma antiga condenação devido às greves de Modena de
1913. Com presteza, Ferrari objetou: “Na verdade, senhor presi­
dente, na época recebi os maiores elogios por esses fatos da parte do
diretor d o A vanti!, atual chefe do Governo” . E o advogado R ib o ld i ,
membro do bureau jurídico do PCdT: “ Defendi mais de 300 comu­
nistas que foram considerados inocentes e absolvidos pela magis­
tratura. Não compreendo porque hoje eu deva ser condenado, só
por ter-lhes defendido”.
O ministério público tomou a palavra na sessão de 2 de junho.
Despejou uma violenta exposição de motivos. Em relação a Grams­
ci disse; “ Por 20 anos devemos impedir que este cérebro funcione” .
Finalmente, antes que o Tribunal se retirasse para a sala de de­
liberações, os acusados tiveram a palavra. Terracini ergueu-se em
nome de todos.

T E R R A C I N I : C a d a u m d e n ó s r e fe r iu -s e à q u e la q u e
possa ter s id o a n o s s a p o s i ç ã o n a o r g a n iz a ç ã o d o p a r t id o
em seu próprio depoimento. As nossas palavras não fo­
ram modificadas um mínimo pelos vários testemunhos da
polícia comodamente e n t r ic h e ir a d o s a tr á s d o p r in c íp io d e
irresponsabilidade - ou dito com outras palavras “segre­
do de ofício” - segundo os quais todos nós, sem exceção,
seríamos chefes do partido. E se, por outro lado, também
is s o f o s s e v e r d a d e ?
PRESIDENTE: Está bem, vou anotar.
TERRACINI: Ótimo, senhor Presidente, mas anote
também tudo o que será dito a partir de agora. Lembro-
me que posso me condecorar com o título de advogado e
quero fazer alarde do Direito. Mas não da velha jurispru­
dência das velhas sentenças emanadas sob os velhos regi­
mes, mas da novíssima jurisprudência que provém das
285
sentenças de tribunais já inspirados nos novos princípios
de ética e de política. É isso. Trata-se de uma sentença
emanada, não faz muito, de um tribunal colocado bem
m a is acima d e s t e ...
PRESIDENTE: Como? Como?
T E R R A C I N I : ... de um tribunal que, ao contrário
deste, é um tribunal constitucional.
PRESIDENTE: Considere aquilo que diz.
T E R R A C I N I : S e n h o r P r e s id e n t e , o s e n h o r n ã o p o d e
d e ix a r d e e s ta r d e a c o r d o c o m i g o , j á q u e f a l o d o S e n a d o
c o n s t it u í d o n a A lt a C o r t e d e Justiça, is t o é , d a m a g is t r a ­
tu r a s u p e r io r a t o d a s e c u ja e x is t ê n c ia e f u n c i o n a m e n t o
s ã o p r e v is t o s e e s t a b e le c i d o s p e la p r ó p r ia C o n s t i t u i ç ã o d o
E s ta d o . P o is b e m , n e s t a s e n t e n ç a , q u e o G o v e r n o d e se ja
q u e se ja a m p la m e n t e d if u n d id a e n tr e a p o p u l a ç ã o , s e r v in ­
d o d e a d v e r t ê n c ia a o s c id a d ã o s , d iz - s e q u e n e n h u m c h e f e
o u d ir ig e n te d e p a r t id o o u d e o u t r a o r g a n iz a ç ã o p o d e s e r
d e c la r a d o p e n a lm e n t e r e s p o n s á v e l p o r a t o s c o m e t i d o s
p o r membros o u s im p a t iz a n t e s d o s p a r t i d o s o u d a s o r g a ­
n iz a ç õ e s em q u e s t ã o , q u a n d o n ã o s e p o s s a c o m p r o v a r
c o n c r e t a m e n t e a c u lp a b ilid a d e . É e v id e n t e q u e o t r ib u n a l
c o m p r e e n d e u . R e f ir o - m e à s e n t e n ç a d a C o m i s s ã o d e in s -
tr u t o r ia j u n t o à Alta C o r t e d e J u s t iç a n o p r o c e s s o c o n t r a
o g e n e r a l L u ig i D e B o n o , a c u s a d o d e c u m p l ic i d a d e n o
h o m i c íd i o d o d e p u t a d o M a t t e o t t i e a b s o l v i d o p o r in s u f i­
c iê n c ia s d e p r o v a s . A g o r a e u p e r g u n to : e s t a j u r is p r u d ê n ­
c ia é válida p a r a n ó s ? O p r o m o t o r p ú b li c o , e m s u a e x p o s i ­
ç ã o d e m o t iv o s , a f ir m o u im p lic it a m e n t e q u e n ã o . E , n o
m e u p a r e c e r , n ã o t e n h o n e n h u m a d ú v id a s o b r e o q u e o
tr ib u n a l d e c id ir á . N o e n t a n t o , m e s m o d ia n t e d e s t a s p r e v i­
s õ e s , p r e v is õ e s d e a c e it a ç ã o in t e g r a l d a s e x ig ê n c i a s d o
p r o m o t o r público, p r e v is õ e s d e p e n a s m á x im a s , n ã o p o s ­
s o o c u lt a r u m c e r t o p r a z e r ín t im o . N e m h á p o r q u e s e e s ­
p a n ta r c o m is s o . N a v e r d a d e , s e t o m a r m o s e s t a s c o n c lu ­
s õ e s q u e a té a g o r a fo r a m fo r m u la d a s a p e n a s e m li n g u a ­
g e m j u r íd ic a e a s t r a d u z ir m o s e m lin g u a g e m p o lí t i c a , q u a l
éo s i g n if i c a d o q u e s e tir a r á d aí?
P R E S I D E N T E : D e ix e a p o lí t i c a d e la d o e li m i t e - s e à
m a té r ia e m q u e s t ã o .
T E R R A C I N I : S e n h o r P r e s id e n t e , p e ç o p e l o m e n o s
p o d e r , n o e n c e r r a m e n t o d e s t e p r o c e s s o q u e te m a s u a o r i-
gem e a sua razão de ser exclusivamente em causas e ne­
cessidades de ordem política, peço poder, por um mo­
mento que seja, fazer aquilo que por seis dias nos foi proi­
bido: falar politicamente. Eu dizia: qual é o significado
político das conclusões do promotor público? Nada além
disso: que o simples fato da existência do Partido Comu­
nista é suficiente, por assim dizer, para pôr em grave e
iminente perigo o regime. Eis, portanto, o Estado forte, o
Estado defendido, o Estado totalitário, o Estado ar-
madíssimo! Ele se sente ameaçado na sua solidez, cada
vez mais abalado em sua segurança, só porque diante dele
ergue-se este pequeno partido, desprezado, atacado e per­
seguido, que viu os melhores dos seus militantes serem
mortos ou aprisionados, obrigado a mergulhar na clan­
destinidade para salvar os seus elos com a massa traba­
lhadora pela qual e com a qual vive e luta. Há algo para
maravilhar-se se eu declaro fazer minhas, integralmente,
estas conclusões do promotor público?
PRESIDENTE: Agora chega com este assunto. O
senhor tem algo mais a dizer?
TERRACIN1: Teria acabado se não me sentisse im­
pelido a seguir o promotor público no terreno das previ­
sões. Não as sentimentais e sim aquelas sobre as quais ele
se deteve, e nas quais me é mais fácil obter a vitória con­
tra ele. A nossa condenação não será recebida com ale­
gria nem com aplausos, mas com tristeza e dor, estou cer­
to disso. Mas a previsão que eu faço, senhor Presidente, é,
mais uma vez, uma previsão política: nós seremos conde­
nados porque julgados culpados de excitação ao ódio en­
tre as classes sociais e de atos incitantes à guerra civil.
Bem, não haverá ninguém que, amanhã, lendo o elenco
medonho das nossas condenações, não se convença de
que este processo e o veredito que está para ser proferido
sejam, eles mesmos, um episódio de guerra civil, um po­
deroso estímulo ao ódio entre as classes sociais.
(O Presidente o interrompe. Queria cortar-lhe a pala­
vra.)
TERRAC1NI: Mas isto não pode ser dito, não é ver­
dade? Então eu desejo encerrar com um pensamento mais
alegre. Senhor Presidente, senhores juízes, este debate foi
real mente a comemoração mais característica e mais dig-
287
na do octogésimo aniversário do Estatuto, que ontem, en­
tre salvas de canhões e barulho de fanfarras, vocês soleni­
zaram pelas ruas desta capital.
(interrupção definitiva do Presidente.)
As sentenças foram pesadas, Gramsci foi condenado a 20 anos,
4 meses e 5 dias (o mesmo para Roveda e Scoccimarro; Terracini foi
contemplado com 22 anos, 9 meses e 5 dias).
Circulava a notícia de que Gramsci iria para Portolongone. A
8 de junho de 1928, quatro dias depois da sentença, Teresina tomou
.a iniciativa de escrever de Ghilarza para Mussolini. Ela pedia a au­
torização do ditador para “ uma rigorosa visita médica fiscal” eque
depois o irmão fosse “ internado em uma casa de detenção sanitária
onde, com alimentação adequada e com tratamento conveniente ao
seu organismo doentio, possa suportar mais humanamente a pena
que lhe foi inflingida” 2. Foi visitado. Já tinha perdido 12 dentes e
sofria, sabemos disso através de um relatório de 6 de julho de 1928
feito pelo chefe de gabinete do ministro da Graça e Justiça ao mi­
nistro do Interior, de periodontite expulsiva, decorrente de distúr­
bios uricêmicos e de um leve esgotamento nervoso” 3. A partida
para Portolongone foi revogada.
Designado para o presídio de Turi, a 30 quilômetros de Bari,
Antonio chegou ao local a 19 de julho, depois de uma viagem de 12
dias.

A viagem Roma-Turi foi horrível. Percebi que as do­


res que eu sentia em Roma e que me pareciam um mal de
fígado não eram outra coisa senão o início da inflamação
que se manifestou logo em seguida. Passei incrivelmente
mal. Passei dois dias e duas noites infernais em Beneven-
to. Retorcia-me como um verme, não conseguia ficar sen­
tado, nem em pé, nem deitado. O médico me disse que era
o fogo de Santo Antonio* e que não havia nada a fazer.

2 A carta é inédita.
3 O relatório é inédito.
* N. do T.: Fogo de Santo Antonio: doença cutânea caracterizada pela formação
de bolhas, agrupadas sobre um nervo, .sede de intensas dores nevrálgicas.
288
Chegou cansadíssimo. “ Fora atacado”, conta um companhei­
ro de prisão, Giuseppe Ceresa, “ por uma explosão cutânea de fun­
do uricêmico, tinha todas as.funções digestivas perturbadas, respi­
rava com grande esforço e para dar quatro passos precisava apoiar-
se em alguém” .
Logo percebeu a intransigência e a desumanidade do pessoal
dirigente e sanitário. Um prisioneiro político, Aurélio Fontana, re­
lembra as palavras de protesto de Gramsci ao diretor: “ Eu fui preso
enquanto o meu mandato parlamentar ainda estava vigente. Por
conseguinte, deveria receber um tratamento análogo ao eventual­
mente conferido a um cardeal em caso de detenção. Vejo, todavia,
que não me tratam sem.sequer como a um sacristão” . O médico era
um certo doutor Cisternino do qual um escritor, Domenico Zucàro,
foi entrevistá-lo 20 anos depois, escreverá sem receber um desmen­
tido ou umá queixa:

Gramsci tinha necessidade de maiores cuidados mé­


dicos e de uma melhoria das condições de vida às quais
estava sujeito... O doutor Cisternino o abandonou, ou
melhor, certo dia lhe disse que, como fascista, não pode­
ria desejar outra coisa senão a sua morte. Não há nada
que possa surpreender nesse homem mentiroso e assusta­
dor até a pusilanimidade... De acordo com o que se dizia
em Turi, se recebia um chamado urgente de noite, tinha o
costume de determinar os honorários antes de atender...
Perguntava da janela se o paciente estava disposto a gas­
tar 5 mil ôu 10 mil liras.

A maior parte do pessoal de custódia era um pouco mais aten­


cioso, mas a cela de Gramsci era contígua ao posto de guarda, e
muitas vezes o barulho o impedia de descansar.
25.

No início de fevereiro de 1929, quando já estava na prisão há


dois anos e quatro meses, recebeu finalmente o necessário para tra­
balhar Já havia exposto as linhas gerais do seu plano de trabalho
a Tatiana quatro meses depois da detenção, a 19 de março de 1927.

Estou atormentado - escrevia - por esta idéia, de que


seria preciso fazer alguma coisa fur ewig, segundo uma
complexa concepção de Goethe, que recordo ter pertur­
bado muito o nosso Pascoli. Em resumo, gostaria, segun­
do um plano preestabelecido, de me ocupar intensa e sis­
tematicamente de algum tema que me absorvesse e cen­
tralizasse a minha vida interior.
Pensava então em quatro termos: 1) uma pesquisa sobre os in­
telectuais italianos, as suas origens, os seus agrupamentos conforme
as correntes da cultura e os seus diversos modos de pensar; 2) um

’ Carla de 14 de janeiro de 1929: “Dentro em breve poderei também ter o necessá­


rio para escrever e assim estará satisfeita a minha maior aspiração de detento” . A 9
de fevereiro: “Agora que posso fazer anotações em um caderno, quero ler segundo
um plano e aprofundar determinados assuntos e não mais ‘devorar’ os livros”.
291
estudo d e linguística c o m p a r a d a ; 3) um e s t u d o sobre o teatro de Pj.
randello e sobre a transformação do gosto teatral italiano que Pj.
randello representara e c o n t r i b u í r a p a r a d e t e r m i n a r ; 4) urn ensaio
sobre os romances de folhetim e o gosto popular pela literatura.
Como lhe deram papel e caneta, não se dedicou logo ao desenvolvi­
mento destes ou de outros temas. Traduzia do alemão: “No mo­
mento faço só traduções, para acostumar a mão; e enquanto isso,
ponho ordem nos meus pensamentos” (9 de fevereiro de 1929). No
entanto, no dia anterior, se determinara um esquema, escrevendo
na fachada de um c a d e r n o da Giuseppe L a t e r z a & Figli (200 pági­
nas, capa vermelha e negra marmorizada):
PRIMEIRO CADERNO (8 de fevereiro de 1929) -
Notas e apontamentos - Assuntos principais: 1) Teoria
da história e da historiografia; 2) Desenvolvimento da
burguesia italiana a t é 1 8 7 0 ; 3) Formação dos grupos inte­
lectuais i t a l i a n o s : desenvolvimento, posicionamentos; 4)
A 1i t c r a t u r a p o p u l a r dos romances de f o l h e t i m e as razões
do seu persistente sucesso; 5) C a v a l c a n t e Cavalcanti: a
sua posição na estrutura e na arte da Divina Comédia; 6)
Origens e desenvolvimento da Ação Católica na Itália e
na Europa; 7) O conceito de folclore; 8) Experiências da
vida na prisão; 9) A “questão meridional” e a questão das
ilhas; 10) Observações sobre a população italiana: sua
composição, f u n ç ã o d a e m i g r a ç ã o ; 1 1) A m e r i c a n i s m o e
fordismo; 12) A questão da língua na Itália: M a n z o n i e
G. E Ascoli; 13) O “senso comum” ; 14) R e v i s t a s t i p o t e ó ­
r i c a , crítico-histórica, de cultura geral (divulgação); 15)
Neogramáticos e n e o l i n g ü i s t a s (“esta mesa-redonda ê
quadrada” ); ló) Os s o b r i n h o s de padre Bresciani.

Desde o início, portanto, G r a m s c i tinha bem claro em mente


pelo m e n o s as linhas gerais de um p l a n o de trabalho. Precisou-as
melhor a Tatiana em uma carta de 25 de março de 1929: “ Decidi
ocupar-me p r i m o r d i a l m e n t e e de tomar notas sobre três assuntos:
1) A história italiana no século X I X , com atenção especial à f o r m a ­
ç ã o e ao desenvolvimento dos grupos intelectuais; 2) A teoria da
H i s t ó r i a e da historiografia; 3) O americanismo e o fordismo”.
G r a m s c i trabalhava em condições difíceis, com os livros que o
diretor, inclinado pelo conformismo d o s burocratas a resistências?
a pequenas prepotências, lhe permitia receber, irregularmente, d o

292
} d- fora. Os companheiros de prisão recordam-se dele absorto
ante horas no trabalho. Nunca escrevia sentado. Andava de um
i p a i a o outro, pensativo, e só quando a frase já estava bem or­
ada na sua cabeça ia à mesa, apoiava um joelho sobre o banco e
,pr. de pé, um pouco curvado, anotava; depois logo voltava a
lar Nunca foi um escritor de fluxo contínuo. Nem mesmo a e x -
icn.i t do jornalismo diário o ajudava a produzir com rapidez,
■em, depois d e uma longa meditação, aquele pouco que tinha a
e\cr ele escrevia de uma só vez, sem ser necessário reparar ou
<jar. Assim, trabalhava p o r duas horas diárias, com exemplar t e -
idade, apesar de os e l e m e n t o s desfavoráveis serem muitos: o s d a
i d-, qualquer detento e, além deles, a impossibilidade de uma
subi ampla dos livros e dos documentos necessários, a progres-
■u',n d . - m o l i ç ã o física e também a h u m i l h a ç ã o que sentia p e l a d e s -
„ o n t i n u i d a d e da correspondência que vinha se acumulando entre
ele e Giulia. Agora, para Gramsci, o trabalho, aqueles a p o n t a m e n ­
t o s de memória, aquelas notas breves com uma idéia fixa no seu pri­
meiro esboço, a q u e l e s e n s a i o s a b e r t o s à finalização ou à r e e l a b o r a -
ção eram a p r ó p r i a vida, e r a o seu modo de continuar a luta revolu­
cionária, d e permanecer ligado a o mundo, idealmente ativo na so­
ciedade dos h o m e n s .

N o f i n a l s e r ã o 32 c a d e r n o s , 21 dos q u a i s escritos ou c o m e ç a d o s
em 1 uri. No t o t a l , 2 8 4 8 páginas correspondentes a 4 mil laudas da­
tilografadas. A primeira i m p r e s s ã o d e quem se a p r o x i m a dos origi­
nais é a fragmentação. Os temas se i n t e r c r u z a m , fechados n a medi­
da da nota breve: o r e s u m o de um artigo r e c é m - l i d o , uma idéia anti­
ga guardada na memória, o primeiro e s b o ç o de uma tese, as indica­
ções para o começo de u m e n s a i o ou a parte de üm ensaio n a reda­
ção d e f i n i t i v a , enfim, todo um acúmulo de material miúdo que de­
pois terão uma disposição orgânica. A intervalos de meses e até de
tinos, devido à chegada irregular dos livros, Gramsci retorna o dis­
curso apenas e n c a m i n h a d o ou não aprofundado suficientemente e
o enriquece com novas observações, reescreve, amplia, junta grupos
d e notas anteriores. São materiais já mais sólidos, melhor acaba­
dos. q u e esperam ainda, p o r é m , ser dispostos, ligados, fundidos ern
uma construção bem equilibrada. Gramsci s ó poderá chegar a este
último, trabalho de transcrição ou de reescrita e de reordenação das
notas em um projeto orgânico em alguns temas. A aparência frag­
mentaria permanecerá e, no entanto, há uma idéia central, de fun­
do. a qual todas as notas esparsas remetem.
293
Qual é a idéia central? Ela já pode ser percebida no ensaio
sobre a questão meridional2. t Ali era colocado, como premissa, o
problema das alianças de classe: o proletariado poderá vencer e ga­
rantir estabilidade à nova ordem apenas na medida em que conse­
guir conquistar para a sua causa as outras classes exploradas, em
primeiro lugar a classe camponesa; mas a classe camponesa é inte­
grada em um bloco histórico onde os intelectuais médios exercitam
o papel de difusores de uma Weltanschauung burguesa, da concep­
ção de vida elaborada pelos grandes intelectuais da classe dominan­
te; para afastar o camponês do proprietário de terras é preciso favo­
recer a formação de um novo estrato de intelectuais que rejeitem a
Weltanschuung burguesa (Gobetti, Dorso). Os Cadernos são o pros­
seguimento e a ampliação do ensaio sobre a questão meridional. Há
neles o estudo da função dos intelectuais na história da Itália até a
formação do Estado unitário; há a crítica das filosofias que dão um
fundamento teórico ao domínio burguês; há a contribuição do ho­
mem de pensamento à elaboração de uma nova Weltanschauung
proletária, de uma nova concepção de vida oposta à burguesa, que
a substitua, na consciência das classes exploradas. É especialmente
nestas três direções que o Gramsci dos Cadernos se move. Ele histo-
riciza os movimentos culturais do passado, submete a filosofia de
Benedetto Croce à crítica, combate as degenerações eçonomicistas,
mecanicistas e fatalistas do marxismo.
Cada bloco histórico, cada ordem constituída, pensa Gramsci
- e nisso é muito original com relação a outros marxistas - tem os
seus pontos de força não só na violência da classe dominante, na ca­
pacidade de coerção do aparato estatal, mas também na adesão dos
governados à concepção de mundo própria da classe dominante. A
filosofia da classe dominante, através de uma série de vulgarizações
sucessivas, tornou-se senso comum, isto é, tornou-se a filosofia das
massas, as quais aceitam a moral, o costume, as regras de compor­
tamento institucionalizadas na sociedade em que vivem. O proble­
ma então, para Gramsci, é ver como a classe dominante conseguiu
obter o consenso das classes subalternas e como estas classes pode­

2 Carta a Tatiana de 19 de março de 1927: “Você se lembra do meu escrito rapidís­


simo e superficialíssimo sobre a Itália meridonal e sobre a importância de Benedetto
Croce? Bem, gostaria de desenvolver amplamente a tese que então havia esboça­
do...”.
294
rão derrubar a velha ordem e instituir uma outra, de liberdade para
todos, Não se trata, porém, de analisar abstratamente o capitalismo
em geral e aquilo que são as classes exploradas. A primeira exigên­
cia de Gramsci é de calcar-se em uma realidade bem precisa, na rea­
lidade concreta italiana; ver como se formou o Estado burguês ita­
liano e que função os intelectuais exerceram neste processo de for­
mação.
No entanto, por que o povo teve uma participação marginal
no Risorgimento, ou mesmo subalterna, deixando que este se carac­
terizasse como “conquista régia” e não como movimento popular?
Porque, responde Gramsci, faltava ao povo uma consciência nacio­
nal; esta consciência não podia lhe ser dada pela cultura do tempo,
pela literatura que era “não nacional-popular”, enquanto ligada a
uma tradição de “cosmopolitismo”, a tradição dos intelectuais ex­
pressos por duas instituições supranacionais, o império e a Igreja.
Neste vazio de consciência nacional e no alheamento do povo ao
movimento unitário, foi possível aos cavourianos moderados diri­
gir o processo de unificação, regulá-lo aos próprios fins, até à cons­
tituição de um novo Estado no qual as formas da ditadura burgue­
sa são refundidas. Eis porque o vício de origem do estado italiano,
a causa da sua fraqueza e da permanência nele de tentações reacio­
nárias: a ausência de espírito jacobino no movimento que lhe deu
vida.
Depois da unificação, o primeiro grande teórico da Weltans-
chauung democráticos-burguesa é Benedetto Croce. Ele tem o méri­
to, sublinha Gramsci, de ter atraído energicamente a atenção sobre
a importância do momento ético-político no desenvolvimento da
história. O historicismo idealista crociano provocou a dissolução
das interpretações correntes do marxismo, grosseiramente mecani-
cistas, positivistas, evolucionistas. O homem é o protagonista único
da história. O pensamento é o estímulo à ação, à atividade ético-
política concreta, de criação de uma nova história. Portanto, a filo­
sofia crociana, reavaliando contra as teorias deterministas o papel
ativo do homem no desenvolvimento do real, que é criação do espí­
rito, tem uma função de premissa para a retomada do pensamento
marxista, obscurecido anteriormente pelo economicismo, pelo me-
canícismo fatalista. Mas de que homem fala Croce? Do homem his­
toricamente determinado, que vive em uma realidade bem concreta,
em um conjunto de condições objetivas verificáveis em um espaço e
em um tempo determinados? Não, na filosofia crociana está presen­
te o Homem universal, entidade metafísica, não o homem social,
295
não o homem cuja personalidade, cujo modo de pensar nasce de
uma tríplice relação: do homem consigo mesmo, com os outros ho­
mens e com a natureza; estão presentes o Espírito, a Idéia, abstra­
ções do homem que se move e atua dentro de relações sociais preci­
sas. O homem, elevado a criador de história, é na realidade coloca­
do pelo historicismo crociano fora da história. Assim, objeta
Gramsci, enquanto a concepção historicista da realidade que se en­
contra na filosofia da praxis se libertou de todos os resíduos de
transcendência e de teologia também na sua última encarnação es­
peculativa (o Homem, o Espírito), o historicismo crociano perma­
nece na fase teológico-especulativa.
Gramsci define Croce como o líder nacional da cultura liberal
democrática. O historicismo crociano, escreve ele, não seria nada
mais do que uma forma de moderação política, que coloca como ú-
nico método de ação política aquele no qual o progresso, o desen­
volvimento histórico resulta da dialética de conservação e inova­
ção. Na linguagem moderna, observa Gramsci, esta concepção se
chama reformismo. Mas este historicismo de moderados e de refor­
mistas, prossegue, não é, de maneira nenhuma, uma teoria científi­
ca, o “verdadeiro” historicismo; é só o reflexo de uma tendência
prático-política, uma ideologia no seu pior sentido. De fato, por
que a “conservação” , primeiro termo do processo dialético (tese),
deveria ser exatamente aquela “conservação” dada, aquele elemen­
to dado do passado? O passado é algo complexo, um complexo de
vivo e de morto, cuja escolha não pode ser feita arbitrariamente, a
priori, por um indivíduo ou por uma corrente política. Se a escolha
foi feita de tal modo (no papel), não pode tratar-se de historicismo
mas de um ato de vontade arbitrário, da manifestação de uma ten­
dência prático-política, unilateral, que não pode dar fundamento a
uma ciência, mas só a uma ideologia política imediata. Croce gosta­
ria de ditar a priori as regras do processo dialético; gostaria de esta­
belecer unilateralmente aquilo que a síntese deve conservar da tese (
o passado) superado pela antítese (movimento inovador); e prende
o processo dialético dentro da forma liberal do Estado. Mas como
se pode questionar que as forças em luta “moderem” a luta entre
certos limites (os limites da conservação do Estado liberal) sem cair
em arbítrio ou em projeto preconcebido? Na história real, observa
Gramsci, a antítese deve necessariamente colocar-se como radical
antagonista da tese, até tender a destruí-la completanjente e a substi­
tuí-la, e a síntese será uma superação, mas sem que a priori se possa
estabelecer aquilo que da tese será conservado na síntese ou sem
296
que se possa a priori “medir” os golpes como em um ringue con-
yencionalmerfte regulado. Conceber o desenvolvimento histórico
como um jogo esportivo, com o seu árbitro e com as suas normas
preestabelecidas a respeitar lealmente, é uma forma de história a ser
p r o j e t a d a , uma das tantas maneiras de “colocar calças no mundo” .
Esta história a ser projetada correspondia aos interesses da classe
dominante, e era natural que o historicismo moderado e reformista
de Croce se transformasse na sua ideologia, quando a ditadura bur­
guesa das décadas imediatamènte posteriores à unificação devia ser
sucedida por um novo bloco de poder democrático-burguês. Croce
f oi o líder dos movimentos culturais que nasciam para renovar as
velhas formas políticas; a sua leadership significou a criação de um
novo clima cultural; uma nova Weltanschauung era proposta ao
consenso dos governados. A hegemoqia^ democrático-burguesa
pode realizar-se pela adesão dos cidadãos à nova concepção de
mundo elaborada pelo filósofo do liberalismo.
A referência de Gramsci a Croce é constante: 1) porque ele
acredita que uma retomada do marxismo não possa deixar de partir
da proposição crociana da identidade de história e de filosofia; 2)
porque a influência exercitada pelo filósofo do liberalismo obriga a
refletir sobre a função dos grandes intelectuais na vida orgânica da
sociedade civil e do Estado e sobre o momento da hegemonia e do
consenso como forma necessária do bloco histórico concreto.
Em relação ao primeiro ponto, Gramsci é bem claro:
Como a filosofia da praxis foi a tradução do hegelia-
nismo em linguagem historicista, assim a filosofia de Cro­
ce - escreve ele - é em uma grande medida uma retfadu-
ção em linguagem especulativa, do historicismo realista
da filosofia da praxis... Agora é necessário refazer para a
concepção filosófica de Croce a mesma redução que os
primeiros teóricos da filosofia da praxis,* Marx e Engels,
fizeram para a concepção hegeliana. Este é o único modo
historicamente fecundo de determinar uma retomada
adequada da filosofia da praxis, de erguer esta concepção
(que começou a se “vulgarizar” devido às necessidades da
vida prática imediata) à altura que deve atingir para a so­
lução das tarefas mais complexas que o desenvolvimento
atual da luta propõe, isto é, à criação de uma nova cultu­
ra integral, que tenha as características de massa da Re­
forma protestante e do Iluminismo francês e possua as ca­
297
racterísticas de classicismo da cultura grega e do Renasci­
mento italiano, uma cultura que, retomando as palavras
de Carducci, sintetize Maximiliano Robespierre e Emma-
nuel Kant, a política e a filosofia, em uma unidade dialé­
tica intrínseca a um grupo social não só francês ou ale­
mão, mas europeu e mundial. É preciso que a herança da
filosofia clássica alemã seja não só inventariada mas
transformada em vida operante, e para isso é preciso
acertar as contas com a'filosofia de Croce, isto ê, para
nós, italianos, sermos herdeiros da filosofia clássica ale­
mã significa sermos herdeiros da filosofia crociana, que
representa o momento mundial hodierno da filosofia
clássica alemã.

Para Gramsci, o problema de fundo é a .criação de uma nova


Weltanschauung proletária, de uma nova concepção de vida que (na
primeira fase de movimento para a conquista do Estado) penetre na
consciência dos governados e, substituindo a precedente, restrinja a
área do consenso popular à forma liberal do Estado; e depois (na
segunda fase, de gestão do poder conquistado) assegure ao novo
Estado proletário a mais ampla base de adesões. Assim o proleta­
riado será classe dominante e classe dirigente ao mesmo tempo: onde
o “domínio” existe para submeter e liquidar os grupos capitalistas e
a “direção intelectual e moral” para convencer todos os grupos an­
tagonistas do'capitalismo à causa do socialismo. “Um grupo so­
cial”, escreve ele, “pode, ou melhor deve, ser dirigente já antes de
conquistar o poder governativo (esta é uma das condições princi­
pais para a própria conquista do poder); depois, quando exercita o
poder, e também se o mantém fortemente nas mãos, torna-se domi­
nante mas deve continuar a ser dirigente” 3.
Primeira fase: luta pela conquista do Estado. A experiência re­
volucionária russa, pensa Gramsci, é irrepetível no Ocidente. A ela
foi possível a guerra de manobra, o ataque fulminante e rapidamen­
te decisivo porque a sociedade civil era primordial e gelatinosa”, o
Estado czarista não se mantinha sobre o consenso dos governados.
No Ocidente, ao contrário, onde a direção intelectual e moral da
burguesia procurou na forma liberal do Estado o consenso de enor­
mes massas de cidadãos, “o Estado é uma trincheira avançada atrás

O grifo é m e u .

298
da qual encontra-se uma robusta fortaleza de casamatas” , isto é, o
modo de viver e de pensar, as aspirações, a moral, o costume que a
maioria dos cidadões, conformando-se à concepção do mundo di­
fundida pela classe burguesa dominante, tornou próprios. Esta é
uma sociedade civil “ resistente às ‘irrupções’ catastróficas do ele­
mento econômico imediato (crises, depressões, etc.)” . É por isso
que nos Estados de direção liberal é necessário a passagem da guer­
ra de manobra à guerra de posição, o abandono da estratégia bol­
chevique por uma estratégia nova, que se baseie não mais sobre a
conquista pura e simples do Estado, “trincheira avançada”, mas
que, para a conquista da “trincheira avançada” e para a manuten­
ção desta posição, se apodere da “robusta fortaleza de casamatas”
da sociedade civil.

Parece-me que liich compreendeu a necessidade de


mudança da guerra de manobra, aplicada vitoriosamente
no Oriente em 1917, para a guerra de posição, que era a
única possível no Ocidente... Só que liich não teve tempo
de aprofundar a sua fórmula, embora levando em conta
que ele podia tê-lo feito apenas teoricamente, enquanto
que a tarefa fundamental era nacional, isto é, carecia de
um reconhecimento do terreno e de uma fixação dos ele­
mentos da sociedade civil4.

G ram sei realiza nos Cadernos, como no ensaio sobre a questão


meridional, este reconhecimento do terreno (do terreno italiano);
fixa os “elementos de trincheira e de fortaleza” que presidem o Es­
tado burguês. Para tal, estuda o desenvolvimento da história italia­
na desde o fim da República de Roma até as comunas medievais, à
Reforma, ao Renascimento, à Contra-reforma e ao momento da
Unidade; interpreta, com método historicístico, os fatos do passa­
do, até definir as reais forças operantes na sociedade italiana, as
forças que levaram à constituição do Estado unitário; e depois de
ter colocado na sua concretização histórica todas as correntes cul­
turais italianas, historiciza também a filosofia crociana, atribuindo
a ela, em última análise, o papel de construtora de “casamatas” .

4 O grifo é m e u .

299
No entanto, na guerra de posição, é suficiente ter identificado
os elementos de trincheira e de fortaleza"? Certamente que n ã o se
combate se a n t e s não se fez a i n s p e ç ã o do terreno. Mas depois é n e ­
c e s s á r i o q u e o e x é r c i t o atacante tenha o s meios p a r a o ataque; neste
caso, q u e o exército proletário seja ideologicamente aguerrido, que
tenha a opor à concepção de vida burguesa uma outra Wdtans-
cluiimiig, uma nova moral, novos ideais um novo m o d o de viver e de
pensar. Só assim muitas “casamatas” cairão, só assim desaparecerá
o consenso à f o r m a l i b e r a l d o Estado, e o n o v o Estado, o Estado
proletário, nascerá sustentado pelo consenso dos governados.
Segunda fase: a gestão do poder. Foi o próprio Lênin, enfatiza
(iramsci, quem reavaliou, em oposição às diversas tendências “eco-
nornicistas” , a frente da luta cultural; foi o próprio L ê n i n quem
construiu a d o u t r i n a da hegemonia (domínio + direção intelectual e
moral) como complemento da teoria do E s t a d o - f o r ç a (ditadura do
proletariado) e como forma atual da doutrina de Marx. O significa­
do disso é claro: o domínio (a coerção) é um modo do poder, uma
necessidade histórica em um momento dado; a direção é o modo
que garante a estabilidade do poder apoiado sobre bases de largo
consenso. “ Do momento em que um grupo subalterno torna-se
realmente autônomo e hegemônico, suscitando um novo tipo de Es­
tudo, n a s c e concretamente a exigência d e construir uma nova or­
dem intelectual e m o r a l , ou s e j a , u m n o v o t i p o de sociedade, e por­
tanto", ressalta (iramsci, “a exigência de elaborar os conceitos mais
universais, as armas ideológicas mais refinadas e decisivas" '.
Ele dedica à elaboração destes conceitos boa parte do seu tra­
balho. A r e a s s u n ç ã o do conceito de “ dialética” n o significado h e g e -
liano-marxista é central em G r a m s c i . A polêmica gramsciana i m c a ­
t e por i s s o não só contra o idealismo crociano, que faz um uso e a p e -
c u l a t i v o da dialética e substitui a dialética real por uma dialética
conceituai, a dialética das coisas por uma dialética das idéias, tanto
que em ( r o c e , afirma Gramsci, “ a história torna-se uma história
formal, uma história de conceitos e, em última análise, uma historia
dos intelectuais, antes uma história autobiográfica do pensamento
de ( roce, uma história de moscas cocheiras” ; investe também, com
igual tensão, contra o materialismo tradicional, que reage ao v i c i o
do idealismo (a realidade reduzida à idéia) com um vício oposto (a
realidade reduzida à matéria) e, ignorando a dialética, concebe o

() g rito é meu.

300
curso histórico evolutivamente, quando na história real, afirma
Grainsci, ó processo não é de evolução mas de negação total da te­
se: onde a antítese tende a destruir a tese, não simplesmente a modi-
ficá-la. É também investido pela polêmica o próprio materialismo
científico, isto é, a tentativa de cisão que Gramsci atribui a Bukha-
rin entre filosofia e praxis, entre a filosofia como ciência da dialéti­
ca (materialismo dialético) e a doutrina da história e da política
(materialismo histórico).

No Ensaio6 - escreve Gramsci - falta uma aborda­


gem qualquer da dialética... A ausência de uma aborda­
gem da dialética pode ter duas origens. Á primeira pode
estar constituída no fato que se supõe a filosofia da praxis
cindida em dois elementos: uma teoria da história e da
política concebida como sociologia... e uma filosofia pro­
priamente dita, que seria o materialismo filosófico ou me­
tafísico ou mecânico (vulgar). Mesmo depois da grande
discussão ocorrida contra o mecanicismo, o autor do En­
saio não parece ter mudado muito a colocação do proble­
ma filosófico... Contínua a crer que a filosofia da praxis
seja sempre cindida em dois: a doutrina da história e da
política e a filosofia, que ele, porém, diz ser o materialis­
mo dialético e não mais o velho materialismo filosófico...
A raiz de todos os erros do Ensaio, e do seu autor, consis­
te exatamente nesta pretensão de dividir a filosofia da
praxis em duas partes: uma “sociologia” e uma filosofia
sistemática. Cindida pela teoria da história e da política, a
filosofia só pode ser metafísica.
E enfim a difusão da nova Weltanschauung proletária. Cabe
aos intelectuais orgânicos da classe operária a tarefa de conquistar
os intelectuais tradicionais à causa do socialismo e juntos tornar
senso comum a nova concepção do mundo. Dessa forma, poderá
reaiizar-se, com a passagem da burguesia à classe operária das “ca­
samatas” (direção cultural) e da “trincheira avançada” (domínio),
a hegemonia do proletariado.

6 Trata-se de A teoria do materialismo histórico. Manual popular de sociologia mar­


xista , publicado pela primeira vez em Moscou em 1921.

301
O partido é o “ intelectual coletivo” da classe operária, seu
“moderno Príncipe” .

O moderno príncipe, o mito-príncipe, não pode ser


[com o o Príncipe pensado por Maquiavefj uma pessoa
real, um indivíduo concreto; pode ser apenas um organis­
mo; um elemento da sociedade complexa na qual já haja
um início do concretizar-se de uma vontade coletiva reco­
nhecida e afirmada parcialmente na ação. Este organismo
já.é dado pelo desenvolvimento histórico. É o partido
político, a primeira célula na qual se resumem os germes
da vontade coletiva que tendem a tornar-se universais e
totais... O moderno Príncipe deve e não pode deixar de
ser o pregoeiro e o organizador de uma reforma intelec­
tual e moral, aquilo que depois significa criar o terreno
para um posterior desenvolvimento da vontade coletiva
nacional-popular em direção ao cumprimento de uma
forma superior e total de civilização moderna. Estes dois
pontos fundamentais, formação de uma vontade coletiva
nacional-popular do qual o moderno Príncipe é, ao mes­
mo tempo, o organizador e a expressão ativa e operante, e
reforma intelectual e moral, deveriam constituir a estru­
tura do trabalho.
Eis, portanto, rapidamente esboçado, a viga-mestre dos Cader­
nos, uma obra de investigação calcada na realidade italiana concre­
ta e de elaboração teórica. Nem todos os problemas são resolvidos
e, por outro lado não podiam ter, dadas as próprias e precárias con­
dições de trabalho, nada além de uma solução fluida (é G ramsei
quem primeiro faz essa advertência e o diz explicitamente). Porém,
todos são propostos com originalidade, e são propostos com tama­
nha precisão e com tamanha riqueza de indicações que não dá mar­
gem a dúvidas sobre a linha de desenvolvimento posterior.
Os Cadernos têm uma numeração, devida a Tatiana Schucht,
não na ordem de escrita. No entanto, é possível (contando-se com
três elementos de julgamento: as indicações deixadas por Gramsci
em algumas cartas da prisão; as datas que constam em alguns ca­
dernos, na fachada ou no decorrer de anotações - “escrevo em no­
vembro de 1930”, “caderno iniciado em 1933”, etc. -; as datas das
revistas citadas) alinhá-los cronologicamente. Remontam ao pri­
meiro período de atividade (1929-1930) os cadernos 16, 20, 9 e 13.
302
Neles, Gramsci escreveu o ensaio sobre o canto X do Inferno, en-
. dos sobre os intelectuais e sobre a escola e notas, que serão ampla­
mente reelaborados, sobre o materialismo histórico, sobre a filoso-
!':a de Benedetto Croce e sobre o Manual de Bukharin. Provavel­
mente remontam ao mesmo período os cadernos 15, 19 e 26, com
traduções do alemão: fábulas dos irmãos Grimm, a primeira parte
do livro As Famílias Linguísticas do Mundo, de Franz Nikolaus
ink, um número especial da revista Die Literarische Welt dedicado
j literatura dos Estados Unidos, as conversas de Eckermann com
ioethe e prosas e poesias de Goethe,

303
26.

Recebia poucas cartas da mulher, com intervalos de meses.


1 ram cartas apressadas, escritas a lápis sobre o primeiro pedaço de
papel que aparecia, de tom variável, ora burocráticas, ora afetuo­
sas. (iramsci ficava desconcertado com Giulia.
Giulia ainda não me escreveu, depois de tanto tem­
po. Isto me magoa. Não pode tratar-se apenas de falta de
tempo. Há cerca de quatro meses que não me escreve e
nesse meio tempo lhe escrevi duas vezes sem receber res­
posta... Não escreverei mais para ela antes de receber
uma notícia direta... Não tenho suscetibilidades mesqui­
nhas, mas às vezes penso que se ela não me escreve, isto
pode se dever também ao fato de que ela não tem mais
prazer em receber cartas e notícias minhas.
Não conseguia entender estes longos silêncios que de vez em
quando Giulia rompia com palavras amigas, cheias de ternura.
Tudo isso lhe parecia ilógico e perguntava a Tatiana: “ Como você
acha que a carta dela deve ser interpretada, quando me diz que de­
pois da minha carta de 30 de julho se sentiu mais próxima de mim, e
no entanto ficou quatro iiicms sem me escrever justamente depois
305
daquela carta? Até agora nâo consegui encontrar a síntese desta
contradição e não sei se conseguirei encontrá-la” . Aconteceu de tei
em mãos um livro de Silvio Spaventa, De 1848 a 1861. Cartas, Es­
critos, Documentos, publicado por Croce em 1923. Havia lido um
trecho que era o espelho do seu estado de ânimo. Tratava-se de uma
carta escrita ao pai por um patriota abruzzese na prisão burbônica:

Não tenho notícias de vocês há dois meses; das ir­


mãs, há quatro ou talvez mais; e de Bertrando... Não que
eu pense que agora sou menos amado do que sempre fui
pela minha família, mas a desventura costuma provocar
dois efeitos, freqüentemente apaga todo o afeto para com
os desventurados, e não menos freqüentemente apaga nos
desventurados todo o afeto para com as pessoas. Eu não
temo o primeiro destes dois efeitos em vocês, mas o se­
gundo em mim.

Não escreveu mais. Tatiana, também sem notícias diretas de


Giulia. propunha ao cunhado toda uma série de hipóteses para jus­
tificar a irmã. As respostas de Antonio a essas tentativas eram brus­
cas:

Rogo-lhe que não me peça para escrever a Giulia,


porque então não escreverei nem a você. Não pense que
estou com raiva. Estava há quatro meses e me desabafei
nas cartas que então lhe escrevi. Agora tornei-me indife­
rente. Eu mesmo acho impossível ter chegado a esse pon­
to, não gosto disso, mas aconteceu e eu sou o menor res­
ponsável, se é que se pode falar de responsabilidade nes­
tas coisas. Estive em crise por mais de um ano (muito
mais) e tive momentos horríveis; agora tornei-me insensí­
vel e não quero mais me atormentar e passar semanas
com dor de cabeça. Peço que não faça referência a estas
coisas quando me escrever. Se você receber notícias, man­
de-as para mim, mas não me venha com exortações nem
com sermões.

Entre julho de 1929 e julho de 1930 recebeu de Giulia uma úni­


ca carta: por isso, G ramsei considerava-se submetido a diversos re­
gimes carcerários:
306
Há o regime carcerário constituído pelas quatro pa­
redes, pela grade, etc., etc.; já estava prevenido em rela­
ção a ele, que eu via como probabilidade secundária, já
que a probabilidade primária de 1921 a novembro de
1926 não era a prisão, mas a perda da vida. Eu não estava
prevenido era para a outra prisão, que se somou à primei­
ra e significou ser eu alijado não só da vida social mas
também da vida familiar, etc., etc. Podia estimar os gol­
pes dos adversários que combatia, mas não podia prever
que receberia golpes também de outras partes, de onde
menos podia suspeitar.
Pressentia a objeção de Tatiana, que para aliviar-lhe este se­
gundo regime carcerário suportava grandes sacrifícios, viagens e es­
tadias extenuantes em Turi devido às suas más condições de saúde,
aflições, gastos, e tudo isto com arrojo, devotada a ele a ponto de
dar a impressão de ter perdido o gosto de viver e de não ter outro
objetivo senão a salvação, a saúde e a serenidade do cunhado. É
evidente que a abnegação de Tatiana não escapava a Antonio, e ele
lhe era reconhecido por isso. Porém, amara e amava Giulia; a pro­
ximidade de Tatiana podia tornar menos pesado a prisão, mas não
extinguir o sofrimento causado pelo silêncio de Giulia. Assim, díri-
gindo-se a Tatiana, completava o discurso sobre o segundo regime
carcerário, escrevendo-lhe: “Mas você vai dizer que existe você. É
verdade, você é muito boa e eu gosto muito de você. Mas nestes as­
suntos não se pode substituir uma pessoa por outra”. Finalmente,
recebeu duas cartas de Giulia, em agosto e em setembro de 1930.
Respondeu-as:
Senti um grande prazer com aquilo que me escreveu:
que tendo relido as minhas cartas de 1928 e 1929, você
notou a identidade dos nossos pensamentos. Gostaria de
saber, porém, em que circunstâncias e em torno a que ob­
jeto esta identidade foi especialmente notada por você.
Na nossa correspondência falta exatamente uma “corres­
pondência” efetiva e concreta: nunca conseguimos enta­
bular um “diálogo”, as nossas cartas são uma série de
“monólogos” que nem sempre conseguem afinar-se, mes­
mo nas linhas gerais.
Uma novelinha popular escandinava pareceu a Antonio bem
condizente com o seu estado: “Três gigantes moram na Escandiná­
307
via, distantes um do outro como as grandes montanhas. Depois de
miihões de anos de silêncio, o primeiro gigante grita aos outros
dois: ‘Ouço mugir um rebanho de vacas!’ Trezentos anos depois, o
segundo gigante intervém: ‘Eu também ouvi o mugido’ , e após
mais 300 anos, o terceiro gigante íjttima: ‘Se vocês continuam a fa­
zer barulho eu vou-me embora!’
Muitas relações de cunho político também se desagregavam e
Antonio sofria com isso, visto que o seu isolamento político nâo era
apenas a separação da atividade prática, o desligamento de velhos
companheiros de luta, o conhecimento sumário e necessariamente
retardado dos problemas e linhas debatidos no seio da Internacio­
nal e nos partidos comunistas nacionais, em primeiro plano o italia­
no, mas alguma coisa mais grave. As últimas orientações da Inter­
nacional depois do ¥1 Congresso (7 de julho - lç de setembro de
1928) e o X Plenum do Comitê Executivo (julho de 1929) não cor­
respondiam mais à posição de Gramsci,. eG ram sei achava que não
devia corrigi-la.
Ainda na sua última intervenção, em agosto de 1926, no Comi­
tê Central, poucos meses antes da prisão, dissera:

Se é verdade que politicamente o fascismo pode ter


como sucessor a ditadura do proletariado, já que nenhum
partido ou coalizão intermediária está em condições de
dar nem mesmo uma satisfação mínima às exigências eco­
nômicas das classes trabalhadoras, que irromperiam vio­
lentamente no cenário político no momento da ruptura
das relações existentes, não é certo, porém, e nem sequer
provável, que a passagem do fascismo à ditadura do proleta­
riado seja imediata

Gramsci julgava mais provável, como alternativa imediata ao


fascismo, a solução democrático-burguesa; e lhe parecia que, cor­
respondentemente a este diagnóstico, visando a derrubada do fas­
cismo, a tática adequada seria a de frente de todas as forças proletá­
rias e as enquadradas ou enquadráveis em uma plataforma republi­
cana, com a hegemonia da classe operária guiada pelo Partido Co­
munista.

1 O grifo é meu.

308
O VI Congresso, ao contrário, proclamou o encerramento da
fase "de direita” da internacional, e colocou uma pedra sobre a tá­
tica da “ frente única” . Havia, na brusca guinada, o reflexo das ás­
peras lutas internas no partido bolchevique soviético. Stalin havia
liquidado, com o apoio de- Bukharin, o bloco da oposição (Zino-
viev. Trotski, Kamenev), mas agora devia se livrar da dissidência de
Bukharin, que se alinhara còm Tomskí e Rykòv na “ oposição de di­
reita". Desde 1926 que Bukharin ocupava a presidência da Interna­
cional, em substituição a Zinoviev. O VI Congresso aboliu o cargo
je presidente. Depois, a 23 de abril de 1929, o Comitê Central do
Partido Comunista Soviético excluiu Bukharin do Bureau Político e
do Presidium da Internacional. Assim, do debate das questões so­
viéticas (e da luta pelo poder que acompanhava o debate, empreen­
dida por Stalin com extrema intransigência) derivava toda uma
nova orientação da internacional, cujos pontos salientes eram: o re­
gime capitalista está à beira da catástrofe; por toda a parte, o pro­
testo proletário tende a radicalizar-se em sentido revolucionário; a
derrubada do poder burguês deve ser seguida imediatamente pela
ditadura do proleriado, sem fases intermediárias democrático-
burguesas; a social-democracia não é uma força revolucionária, a
burguesia se serve dela para deter o avanço revolucionário, é uma
forma da dominação burguesa, é social-fascismo. Eis porque a
nova diretiva dada aos partidos nacionais: ação “autônoma” , fora
de qualquer sistema de alianças, pela derrubada do regime capitalis­
ta; luta cerrada contra a social-democracia; luta para salvaguardar
os partidos do “ oportunismo", como eram definidos os desvios
desta linha.
Tratava-se de uma linha sectária quanto à equivalência social-
democracia/fascismo, de uma fantasia política generalizada porque
não derivada de uma correta análise das situações e simplesmente
absurda em relação à Itália, onde a reação fascista dispersara o
exército proletário, desfalcado pelas prisões e privado das suas or­
ganizações políticas e dos seus jornais, e não mais em condições de
rebelar-se contra a ditadura fascista sem ter como aliados o semi-
proletariado camponês e a pequena burguesia e a média burguesia
contrárias ao regime. A trilha de aproximação do Partido Comu­
nista da Itália a esta linha foi lenta e com interrupções. Togliatti
não encontrava eco em muitos dirigentes e uma boa parte dos qua­
dros intermediários nas suas tentativas de mudança de linha. “ A
discussão sobre as questões internacionais, que teve lugar na última
reunião do nosso Comitê Central” , admitia o Slato Operaio, a
309
publicação mensal do PCd’I, na edição de 3 de março de 1929. diri­
gido por Togliatti e impresso em Paris, “ revelou a existência, tam­
bém no seu interior, de uma diferenciação que se dá seguindo apro­
ximadamente as mesmas linhas das diferenciações que se deram, a
propósito da aceitação ou da interpretação das decisões do VI Con-
gresso mundial, em quase todos os outros partidos da Internacio­
nal” , O artigo intitulava-se o O Perigo do Oportunismo no Nosso 1
Partido, e reafirmava: “O proletariado coloca a sua candidatura à V
sucessão do fascismo porque o dilema histórico diante do qual se v
encontra a sociedade italiana não é entre um capitalismo progres­
sista (democracia burguesa) e um capitalismo que regride até a Ida­
de Média (fascismo), mas é o dilema entre a ditadura do capital e a
ditadura do proletariado” . O X Plenum (julho de 1929) aumentou a
pressão sobre o partido italiano. O afastamento de Bukharin e de
Humbert-Droz devia constituir um exemplo; e o Stato Operaio foi
bastante explícito a esse respeito no número de julho-agosto:

Sem uma depuração rigorosa nas nossas fileiras, sem


a libertação delas de todos aqueles que nelas exprimem a
influência de uma ideologia que não é a nossa, de todos
aqueles que tendem a trazer consigo a dúvida, a hesitação
e a confusão, não é possível a luta pela conquista da
maioria. Os órgãos dirigentes do nosso partido devem ti­
rar conclusões muito importantes das decisões do X Ple­
num... A luta contra o oportunismo deve assumir também
nas nossas fileiras a mesma aspereza que assumiu nas filei­
ras dos outros partidos da Internacional, isto ê, deve ser le­
vada sem hesitações até o fim.

As críticas do X Plenum ao partido italiano consistiam, como


informa o Stato Operaio, em: a) uma chamada no sentido de preci­
sar a linha política do partido, de acordo com as diretivas da Inter­
nacional e corrigindo alguns “erros” cometidos; b) uma chamada a
fim de dar à linha política do partido um maior relevo; c) uma cha­
mada no sentido de conduzir com maior intensidade, clareza e efi­
cácia a luta contra o oportunismo de direita, seja nos órgãos diri­
gentes como em todos os campos de atividade. Em setembro, Ange­
lo Tasca foi expulso do partido. Mas a resistência continuava. E em
março de 1930, o Bureau Político do PCd’I rachou. O documento
levado à votação afirmava:
310
A própria pressão que o fascismo exercita tende a
cultivar, em certos trabalhadores, a opinião de que, devi­
do à impossibilidade para o proletariado de abater rapi­
damente o fascismo, a melhor tática consiste em apoiar
um movimento da burguesia e da pequena burguesia que
se proponha a eliminar o fascismo da Itália sem uma re­
volução proletária,
lesta concepção era definida pelo documento como “radical­
mente falsa”: “A transformação do regime fascista em um regime
de democracia burguesa que deveria lhe suceder tem o único objeti­
vo de desviar as massas operárias e camponesas da luta revolucio­
nária. da preparação da insurreição e da guerra civil” . Togliatti,
Longo e Camilla Ravera votaram pela resolução; o dirigente da im­
prensa ilegal Alfonso Leonetti, o chefe do movimento sindical Pie-
tro Tresso, e o chefe do bureau de organização, Paolo Ravazzoli fo­
ram contra. Grieco e Silone estavam ausentes. Píetro Secchía, em­
bora tivesse, como representante da Federação Juvenil, direito a
um voto apenas consultivo, teve peso determinante na votação. Al­
guns meses depois, Leonetti, Tresso e Ravazzoli foram expulsos do
Bureau Político e do Comitê Central. Instaurou-se contra os três
uma violenta campanha difamatória. Todas as pessoas eram obri­
gadas a expressar publicamente a sua condenação. Também sobre
lunazio Silone, que desaprovava a mudança, foram exercidas pres­
sões para que se pronunciasse contra os três2.,
Gramsci estaria informado de tudo isso? Qual seria a sua opi-.
nião a respeito? Ninguém mais, além do seu irmão Gennaro, pode­
ria entrar ilegalmente na Itália, visitar Antonio na prisão de Turi e
interrogá-lo. Togliatti procurou Gennaro, que naquela época tra­
balhava em Paris, encarregando-o de colocar Antonio a par de tudo
e de, na volta, informar ao partido o seu ponto de vista. A 9 de ju­
nho de 1930, Leonetti, Tresso e Ravazzoli eram expulsos do parti­
do. Uma semana depois, a 16 de junho, Gennaro encontrava-se
com o irmão na prisão de Turi.
• “Gramsci, embora não podendo conhecer todos os particula­
res mas só a colocação geral da disputa” , afirmam Marcella e Mau-

N o seu últio rom ance, Uscita d i Sicurezza, (S a íd a d e S e g u r a n ç a ) Silo n e recorda


es im po rtan te s m o m e n to s o c o rrid o s p o u c o antes do seu afastam ento d o partido, e
,'Jo encontro co m T o glia tti na Suíça.

311
rizio Franca, “deu da prisão o seu apoio às medidas mais severas”.
Na realidade as coisas aconteceram de uma outra forma, pois Gen-
naro tratou de dar - veremos em seguida o motivo - a Togliatti uma
versão conveniente do encontro.
A conversa dos dois irmãos foi assistida por um agente de cus­
tódia sardo, original de Paulilatino, uma aldeia próxima a Ghilar-
z,a. “ Pudemos falar livremente” , disse-me Gennaro. Antonio ficou
muito impressionado. A linha do irmão era a de Leonetti, Tresso e
Ravazzoli. Não justificava a expulsão deles e rejeitava a nova orien­
tação da Internacional, compartilhada por Togliatti, na sua opi­
nião, muito apressadamente. Em julho, houve um segundo encon­
tro. Depois de ter estado em Ghilarza para visitar a família, Genna­
ro voltou a Turi. Era vigiado por um bando de policiais à paisana.
No restaurante onde comeu com Tatiana também percebeu estar
sendo observado. Desta vez quem assistiu ao encontro não foi um
guarda, mas sim o próprio secretário do estabelecimento penal, en­
carregado pelo diretor. Os dois irmãos tiveram de limitar-se às notí­
cias de caráter familiar. Gennaro voltou a Paris. “ Fui ao encontro
de Togliatti”, conta-me ele, “e lhe disse; ‘Nino está totalmente ali­
nhado com vocês’ ” , Não esperava esta conclusão e lhe perguntei a
razão. Gennaro não entendeu o meu espanto. Para ele, a resposta a
Togliatti foi a única conclusão lógica a um únicp raciocínio lógico,
e se explica: suspeitava que no calor da luta, decidido como o grupo
de Togliatti se mostrava na repressão a qualquer dissidência da li­
nha da Internacional, o irmão também fosse acusado de oportunis­
mo, se em Paris e em Moscou a sua verdadeira posição fosse conhe­
cida; por isso a dissimulou. “Se tivesse dado uma outra resposta”,
concluí, “nem mesmo Nino teria escapado da expulsão” .
Enquanto isso, na prisão, Gramsci encontrava-se dentro de um
turbilhão de pensamentos depois das informações recebidas de
Gennaro. Escreveu a Tatiana, no dia da primeira visita (16 de ju­
nho); “Encontrei-me faz pouco com meu irmão e isso determinou
uma corrida em zígue-zague dos meus pensamentos , Era urn zí-
gue-zague natural. Posteriormente, a reflexão sobre aquele conjun­
to de problemas e de acontecimentos não o induziu a mudar de li­
nha. Ao contrário, perto do final do ano, decidiu iniciar um novo
trabalho de educação política entre os companheiros da prisão e co­
meçou uma série de aulas no horário do passeio na pátio.
Sabemos, através de um relatório que Alhos Lisa escreveu a 22
de março de 1933 ao Centro do partido assim que saiu da prisão de
312
Turi, que Gramsci se propunha a formar novos quadros não atingi­
dos pelo sectarismo.

Na realidade - informa Lisa - ele não se cansava de


repetir que o partido estava atingido pelo maximalisrno e
que o trabalho de educação política que ele realizava en­
tre os companheiros devia levar, entre outras coisas, à
criaçao de um núcleo de elementos que deveriam encami­
nhar ao partido uma contribuição ideológica mais sã. No
partido era muito frequente, dizia ele, se ter medo de to­
das aquelas denominações que não fazem parte da velha
fraseologia maximalista... Toda ação tática que não esteja
em correspondência com o subjetivismo dos sonhadores é
considerada em geral como uma deformação da tática e
da estratégia da revolução. Assim, fala-se muito de revo­
lução sem ter a noção bem precisa do que é necessário
para realizá-la, dos meios para atingi-la. Não se sabe ade­
quar os meios às diversas situações históricas. Em geral,
se está mais propenso a se lançar mão de palavras do que
da ação política, ou se confunde urna coisa com a outra,
Este outro depoimento (de 1938) é de Giuseppe Ceresa:
indignava-se frente à superficialidade de certos com­
panheiros que em 1930 afirmavam ser iminente a queda
do fascismo (em dois ou três meses, no máximo neste in­
verno, afirmavam estes profetas da precipitação) e garan­
tiam que da ditadura fascista se passaria imediatamente à
ditadura do proletariado. Gramsci combatia estas posi­
ções mecânicas, abstratas, antimarxistas, que se basea­
vam em grande parte no fator “miséria” como decisivo
para fazer os movimentos de massa desembocarem na re­
volução proletária e na ditadura do proletariado. Ele di­
zia: “A miséria e a fome podem provocar sublevações, re­
voltas que chegam até a abalar o equilíbrio estabelecido,
mas são necessárias muitas outras condições parà destruir
o sistema capitalista” .

“Nós afirmamos” , declara Togliattí no VI Congresso da Inter­


nacional, “que a instauração do fascismo e a completa transforma­
ção reacionária que ele impõe à sociedade burguesa não abrem a
313
perspectiva de uma segunda revolução democrático-burguesa, mas
nos demonstram que a revolução proletária está madura, que nós
estamos atravessando o período de preparação política da revolu­
ção proletária e não o período de preparação de uma revolução de­
mocrático-burguesa.
“Gramsci conservava toda a sua fé na capacidade das massas” ,
observa Ceresa, “ mas não escondia que a capa de chumbo do fas­
cismo provocara inevitavelmente uma grande desorientação, uma
depressão no seu espírito de combatividade, e afirmava que nestas
condições as mansas aspiravam certamente à democracia” .
Stato Operaio, expressão do grupo que apoiava Togliatti, ha­
via escrito:

Nós excluímos a perspectiva de uma chamada “fase


transitória” isto é, de um período de revolução democrá­
tico-burguesa que preceda ao desenvolvimento da revolu­
ção proletária. Isto significa que não podemos e nem de­
vemos trabalhar com a perspectiva de que a situação se
desenvolverá de modo que será permitido às massas tra­
balhadoras e à sua vanguarda, o proletariado e o Partido
Comunista, um período de legalidade ou semilegalidade
do movimento, no qual será possível reorganizar as for­
ças sem ser, dia após dia, profundamente perturbados
pelo inimigo. Este período, que foi permitido aos bolche­
viques russos depois da vitória da revolução burguesa de
março de 1917, nós não teremos.

Gramsci afirmava (testemunha Cereza):


O fascismo empurrou o proletariado e todo o povo
italiano para posições mais atrasadas; o processo da luta
de classes na Itália se desenvolverá, portanto, na linha das
liberdades destruídas pelo fascismo... A pressão das mas­
sas poderá chegar mesmo a influenciar uma parte dos
próprios dirigentes fascistas que têm um contato mdor
com os trabalhadores. Ao mesmo tempo, se terá uma ati­
vação das correntes de oposição antifascista-burguesa e a
passagem à oposição das correntes “sustentadoras”, que
procurarão tirar vantagens da retomada do movimento
de massas, mantendo porém este movimento dentro dos
limites do Estado burguês. Pode-se falar, por conseguín-
314
te, em uma passagem direta da ditadura fascista à ditadu­
ra do proletariado? Não, não se pode falar nisso sem cair
no esquematismo.
STATO OPERAIO: Ouve-se repetir muitas vezes
esta afirmação: com o agravamento da crise econômica e
política da sociedade italiana assistiremos a um afasta­
mento do fascismo do seio da burguesia, que, impulsiona­
da pela própria situação, se tornará “antifascista” e livra­
rá o campo de uma grande parte das instituições, dos mé­
todos de governo, etc. em que consiste o atual regime
político reacionário italiano. À Concentração dos parti­
dos republicanos e todos os “democratas” baseiam a sua
política nesta perspectiva. Sem dúvida que essa concep­
ção, ou pelo menos reflexos dela, estão presentes em al­
guns setores das classes trabalhadoras italianas e até mes­
mo em elementos do nosso partido... Há uma coisa que
podemos, ou melhor devemos admitir, que é o fato de que
não se chega a uma situação aguda sem que se determi­
nem, pelo menos .em uma parte das classes dirigentes, es­
tados de pânico, ou também apenas falta de confiança
nas próprias forças... Mas se isto é verdade, por outro
lado ainda é mais seguro que nós cometeremos um gravís­
simo erro se, na base da nossa política e do nosso traba­
lho, tivermos esta perspectiva: que as manifestações de in­
certeza e de pânico levarão à constituição de um campo
“antifascista-burguês”, isto é, levarão a um alinhamento
antifascista destas classes dirigentes... A organização do
fascismo hoje é de tal monta que ele não pode ser batido a
não ser por um movimento de massa, e não existe ne­
nhum setor da burguesia ou da pequena-burguesia que
queira ou possa tomar a iniciativa de desencadear um
movimento desse tipo.

GRAMSC1 (relatório Lisa): É possível ao partido


desenvolver uma ação em comum com os partidos que lu­
tam contra o fasfcismo na Itália... As perspectivas revolu­
cionárias na Itália devem ser fixadas em dois pontos, isto
é, a perspectiva mais provável e a menos provável. Agora,
eu penso que a mais provável é a do período de transição.
Por isso, a tática do partido deve preparar-se para este
objetivo, sem ter medo de parecer pouco revolucionária.
315
STA TO OPERAIO: A Concentração e a social-
democracia falam de “plutocracia” ao invés de “capitalis­
mo” e de “imperialismo” , falam de “regime paternalista”
ao invés de “capitalismo de Estado” , de “ obscurantismo”
e de “prevalecimento de forças medievais” ao invés de
reação e ditadura do capital. A sua linguagem quer fazer
com que os operários esqueçam que a luta pela revolução
proletária, a luta para abater o regime capitalista, a luta
pelo socialismo é a tarefa que a história determina à clas­
se operária hoje e este ê o único conteúdo possível da luta
contra o fascismo. Qualquer concessão que nós façamos
neste terreno às teses políticas e históricas da Concentra­
ção e até mesmo ao seu fraseado equívoco e amortecedor,
qualquer concessão deste gênero é oportunismo, é um
desvio substancial da nossa linha política.
GRAMSC1 (relatório Lisa): A ação para a conquista
dos aliados torna-se para o proletariado uma coisa extre­
mamente delicada e difícil. Por outro lado, sem a conquis­
ta destes aliados, é vedado ao proletariado qualquer movi­
mento revolucionário sério \ Se se leva em conta as condi­
ções históricas particulares nos limites das quais é visto o
grau de desenvolvimento político dos estratos campone­
ses e pequeno-burgueses na Itália, é fácil compreender
como a conquista destes estratos implica em uma ação
particular para o partido, ação essa que, desenvolvendo-
se por etapas, torna-se acessível aos estratos sociais em
questão... Será fácil, hoje, fazer entender ao camponês do
Sul da Itália ou de uma outra região a inutilidade social
do Rei, mas não será tão fácil assim fazê-lo entender que
o trabalhador pode substituir este, do mesmo modo que
ele não acha possível substituir o patrão. O pequeno-
burguês, o oficial subalterno do Exército descontente
com a falta de primoção, com as precárias condições de
vida, etc., estará mais disposto a crer que as suas condi­
ções podem melhorar em um regime republicano do que
em um soviético. O primeiro passo através do qual é ne­
cessário conduzir estes estratos é aquele que os leve a pro-

J Os grifos são meus


316
nunciar-se sobre o problema constitucional e institucio­
nal. A inutilidade da Coroa já é compreendida por todos
os trabalhadores, incluindo os camponeses mais atrasa­
dos da Basilicata ou da Sardenha. O partido pode desen­
volver neste campo uma ação em comum com os partidos
que lutam contra o fascismo na Itália.

Em essência, o raciocínio de Gramsci se desenvolvia assim: 1)


mesmo nas condições mais favoráveis, o partido não poderá contar
senão com um máximo de 6 mil ativistas; 2) a tática mais conve­
niente não é o isolamento sectário, mas a busca dps alianças de clas­
se; 3) os camponeses atrasados e a pequena-burguesia descontente
com a sua situação são passíveis de se aliarem com a classe operá­
ria, mas só através da realização de um objetivo intermediário, a re­
cuperação das liberdades confiscadas pelo fascismo. Era preaiso
portanto promover e dirigir um vasto movimento antifátósta. “O
partido”, era esta a conclusão de Gramsci citada por Ceresa, “deve­
rá encontrar, a palavra de ordem capaz de mobilizar todas as forças
antifascistas para este movimento” .
À série de aulas aos companheiros de prisão durou duas sema­
nas. Nem todos compartilhavam das teses de Gramsci. O próprio
Lisa, por exemplo, e Angelo Scucchia, natural de La Spezzia, ti­
nham uma outra posição. Vinda à luz a divergênci^, “cada um dos
presentes à discussão” , relata Lisa, “ foi convidado a reexaminar a
questão para voltar a expor seu pensamento 15 dias depois. Este
reexame do problema não’foi mais possível porque Gramsci, sob a
influência de falsas informações,” relembra Lisa, “achava que as
discussões que ocorreríam entre os companheiros se deslocariam
para o terreno fracionístico”.
Não se tratava, porém, de falsas informações.

A verdade - observa Giovanni Lay - é que efetiva­


mente as discussões entre os companheiros de cela nem
sempre mantinham o caráter de discussão política. Mui­
tas vezes, demasiadamente no meu entender, elas desciam
ao nível de intrigas e até mesmo de calúnias, com aprecia­
ções pessoais sobre Gramsci que chegavam, às vezes, a
denegri-lo. Eu estava então em uma cela com Bruno Spa-
doni e Angelo Scucchia. Scucchia chegava a afirmar que
as posições de Gramsci eram suposições social-
democratas, que Gramsci não era mais comunista, que se
317
tornara crociano por oportunismo, que era preciso de­
nunciar a sua ação desagregadora ao partido, e que por­
tanto ele devia ser expulso do coletivo e do pátio de pas­
seio. Spadoni e eu, inicialmente, suportamos com paciên­
cia, na esperança de reconduzir este companheiro à r i-
zão, embora dizendo-lhe claramente que não permitiría­
mos que ele continuasse com sua ação reprovável, Qu.m-
do ficou claro que não havia nada a fazer, falamos m n
Gramsci. Ele nos disse logo que também em outras celas
as discussões muitas vezes degeneravam em apreciações
absurdas e levavam apenas à divisão entre os companhei­
ros.
A tensão era extrema. Porque Gramsci tentava convencer os
compenheiros a não discutir com os guardas da prisão, ex-
camponeses não diretamente responsáveis pela dureza da vida car­
cerária, “alguns o acusavam de excessivo legalismo e até mesmo de
medo de perder os privilégios que desfrutava, isto é, o privilégio de
poder dispor do material para escrever e obter seus livros” J.
Isolou-se. Certa vez disse a Lay: “ Muitas vezes tive de assumir
a ingrata tarefa de arranhar o verniz para ver o que havia embaixo.
Existem pessoas, e algumas vezes elas podem ser encontradas até
mesmo entre nós, que têm a aparência de personagens importantes
e não passam de tagarelas” .

4 () testem unho é ainda de Lay. G ra m sc i, em um a carta de 28 de m arço de 1931 ao


irm ão C a r io escrevia: " P a r a m anter rigidam ente a m inha co n d u ta de absoluta corre
ção ao subm eter-m e às necessidades da prisão, me desentendi com o u tro s presos e
rom pi relações p e ssoa is".

318
27.

Hm um desabafo de 3 de setembro de 1933, Gramsci dizia: “O


inspetor Saporiti, quando veio' me visitar, disse-me (e não sei de que
fonte pôde extrair esta afirmação) que o meu mal-estar foi influen­
ciado, além das razões físicas, especialmente por motivos psíquicos,
entre os quais a impressão de ter sido abandonado pelos meus (não
materialmente, mas por certos aspectos da vida interior que em um
intelectual têm um grande peso)” . Da metade de 1930 até o final de
1932, Gramsci passou dois anos e meio difíceis, agravados pela in­
termitência da correspondência.
Giulia sofria de um grave tipo de esgotamento psicofísico; An­
tónio soube disso não por ela, diretamente, mas por alusões e de­
pois, aos poucos, com algumas particularidades a mais, por volta
do final de 1930. Escreveu-lhe a 13 de janeiro de 1931:

Nestes últimos tempos fui informado, creio de modo


definitivo, sobre as suas condições de saúde. Parece-me
que este modo de agir vai acabar tornando as relações
recíprocas convencionais, bizantinas, sem espontaneida­
de e só reflete que os sentimentos suscitados por este cinto
de fios espetados nas relações tornam-se exasperados e
mórbidos. Nós havíamos prometido um ao outro ser
319
sempre francos e verdadeiros ao informar-nos sobre nós
mesmos, você se lembra? Por que nâo cumprimos com a.
nossa palavra?... Naturalmente fico muito feliz quando
recebo uma carta sua. Ela preenche muito do meu tempo
inútil e interrompe o meu isolamento da vida e do mun­
do. Mas acho também necessário que escreva por você
mesma, pois creio que também você está r olada da vida
e, escrevendo-me, possa sentir menos esm soúuao.

A doença de Giulia ajudava-o a entender os longos silêncios.


Voltou a ser terno:
Sinto-me impotente para fazer qualquer coisa de real
e eficaz em seu benefício. Debato-me entre o sentimento
de uma imensa ternura por você que me aparece como
uma fraqueza a ser consolada imediatamente com uma
carícia física e o sentimento de que é necessário da minha
parte uma grande força de vontade para lhe convencer, de
longe, com palavras frias e desbotadas, que, contudo, vo­
cê também é forte e pode e deve superar a crise... Acho
que a nossa maior desgraça foi a de termos ficado juntos
muito pouco, e sempre em condições gerais de anormali­
dade, afastados da vida real e concreta do dia-a-dia. De­
vemos agora, nas condições de força em que nos encon­
tramos, remediar estas lacunas do passado de modo a
manter na nossa- união toda a sua solidez moral e salvar
da crise aquilo que houve de belo no nosso passado e que
vive nos nossos filhos '.
Em metade de maio, recebeu uma longa carta de Giulia, dife­
rente das costumeiras. Nela se refletiam os sinais de recuperação do
esgotamento psicofísico, e que contribuía para afastar as nuvens
existentes entre marido e mulher. “ Acho que esta carta inicia um
novo período nas nossas relações e fico muito feliz com isso, porque
é preciso que eu lhe confesse que já começara a “me enroscar de no­
vo” por conta própria e estava me tornando mais hirsuto que um
porco espinho. Agora será você a me ajudar a voltar à forma” (18

Carta a Giulia de 9 de fevereiro de 1931.


320
de maio de 1931). Mas cartas de Giulia iguais àquela de 8 de maio
Gramsci não lerá mais. Novos silêncios e novas cartas apressadas,
poucas linhas convencionais sem a sombra de uma notícia concreta.
O que entendi da sua última carta é que também vo­
cê acha que há alguma coisa que não está bem nesta nossa
correspondência sem continuidade, aos pedaços, a inter­
valos de meses e meses. O pior é que não consigo achar
uma maneira de mudar o rumo das coisas. Nos longos in­
tervalos do seu silêncio reflito sobre esta situação que foi
se formando, tão diversa do que eu pensava, cinco anos
atrás, depois da minha prisão. Achava que ainda seria
possível uma certa comunhão na nossa vida, que você po­
deria me ajudar a não perder completamente o contato
com a vida do mundo, pelo menos com a sua vida e com a
dos meninos. Ao contrário, parece-me, e digo isso mesmo
sentindo um grande pesar, que você contribuiu para agra­
var o meu isolamento, fazendo com que eu o sentisse de
forma ainda mais amarga. Freqüentemente você insiste,
nas suas cartas, que nós “estamos fortemente unidos,
mais fortes”, mas isso exatamente cada vez me parece me­
nos verdadeiro. Acho que você mesma duvida disso e luta
com dúvidas no momento mesmo em que repete esta afir­
mação... Na realidade, não sei nada de você, não sei nem
sequer se retomou a sua atividade profissional. As suas
cartas são extremamente vagas. Não consigo imaginar
nada da sua vida. Tantas vezes procurei iniciar um diálo­
go com você, fiz-lhe perguntas, indiquei aquilo que seria
de sumo interesse para mim. Não consegui obter nenhum
resultado e justamente por isso entrei neste estado de âni­
mo no qual o ato de escrever é difícil e penoso. Esta carta
é uma nova tentativa que faço para reatar as nossas vidas.
Acho que ainda há possibilidade e tempo para tal.

Havia também, de ambos os lados, embora em intensidade di­


versa, complicações psicológicas de difícil solução. A sensação de
ser abandonada em uma fase difícil da sua vida (quando Tatiana
poderia ter se reunido a ela em Moscou para dar-lhe uma ajuda)
amargurava Giulia, da mesma forma que a sensação de estar sendo
esquecido perturbava Antonio. E nesta espiral, a crise se agravava.
321
Por outro lado. os m e m b r o s da família de G r a m sei não eram
assíduos c o m o A n t o n i o gostaria que fossem. Hm 1928 h o u v e a rup­
tura com Mario, e de Varese não vinham mais cartas. G e n n a r o , na
sua viagem a T u ri em 1930, havia prometido escrever com frequên­
cia. Logo após a visita, enviou uma carta de N a m u r , muito censura­
da. e depois mais n a d a . Cario atravessava u m a fase de grandes difi­
culdades. 1 o r a obrigado a fechar a loja de calçados em Ghilarza;
trabalhara durante muito tempo nas L e i t e r i a s Sociais de M a c o m e r .
No primeiro corte de pessoal, ficou sem emprego. Visitou Nino em
d u r i entre o final de setembro e o início de outubro de 1930; r e t o r ­
n a n d o a G h i l a r z a não lhe escreveu. “Cario não me escreveu mais
depois da sua viagem a T u r i (ou pelo menos eu não recebi as suas
cartas)“ [j 7 de n o v e m b r o de 1930). “Caríssima m a m ã e , não sei e x ­
plicar o que está acontecendo. Cario não me escreve há mais de três
meses... P e n s e i que de pudesse t e r t i d o a l g u m a b o r r e c i m e n t o por
minha causa e que não queira ou não saiba explicar-me seu descon­
certo ou hesitação" p 3 de dezembro de 19 3 Õ j . Procurou arranjar
um emprego para o irmão. Quem ainda podia ajudá-lo era 1’iero
Sraffa. há alguns anos docente de economia política em Cambndge.
S r a f f a j á lhe havia demonstrado a sua devota amizade em diversas
circunstâncias. H r a de q u e m m a n d a v a b r i n q u e d o s p a r a Delio e m
Roma; era de quem p a g a v a os l i v r o s q u e G r a m s c i e n c o m e n d a v a à
livraria milanesa desde os dias de desterro em Ustiea. Devido às
suas amizades, não s e r i a d i f í c i l a S r a f f a e n c o n t r a r c o l o c a ç ã o p a r a
( arlo. A n t o n i o l h e f e z o p e d i d o e a 2 6 d e j a n e i r o d e 1931 escreveu
ao irmão:

Piquei m u ito tem p o certo de que você estava em M i­


lão e por isso n ã o e n t e n d i a certas referências de T a t i a n a à
sua presença d u ra n te algum te m p o em Roma. S ó p o r a c a ­
so, a t r a v é s d e u m a c a r t a d e Grazietta se n ã o me e n g a n o ,
fiquei s a b e n d o q u e v o c ê t i n h a v o l t a d o a G h i l a r z a . D u r a n ­
te a l g u m t e m p o foi t u d o u m m i s t é r i o p a r a m i m e i s t o me
preocupava. P o r q u ê ? Temia q u e e m Milão, s o m e n t e p o r
causa do nome G r a m s c i , a polícia l h e tivesse feito algu­
mas b r i n c a d e i r a s d e m a l g o s t o , a p e s a r d e t o d o s o s s e u s
documentos, d a s suas o p i n i õ e s e d a s informações da
questura de C a g l i a r i . Sei do que estou falando porque vi e
senti na pele a fúria que esta polícia milanesa lançou con­
tra mim.
322
Cario chegou a Milão no inverno de 1931. Conseguira um em­
prego na Snia Viscosa. Visitou Nino em março. A 28 do mesmo
mês Antonio mais uma vez lhe pediu que escrevesse com assiduida­
de: “ Pelas razões que expus a viva voz durante o nosso encontro,
gostaria, que pelo menos nos meses em que você ficar em Milão, me
escreva sobre a sua vida e como você está indo” . Cario ficou muito
tempo sem escrever: “Cario ainda não me escreveu; se você tem o
endereço dele escreva-lhe dizendo que o seu modo de agir me ma­
goa muito; não escreve nem mesmo à mamãe, embora saiba das
suas condições de saúde” (4 de maio de 1931).
Esperava que pelo menos as mulheres da casa lhe escrevessem.
Não lhe era d i f í c i l , porém, imaginar a vida da mãe, já velha e doen­
te, de Teresina, trabalhando no correio e dos afazeres domésticos e
de Grazietta:
Lá de casa também não me escrevem há pelo menos
um mês. Mamãe não pode escrever e as minhas irmãs têm
muito o que fazer. De resto, conheço bem a vida delas por
ter participado dela por bastante tempo e imagino como
vão as coisas. Diariamente mamãe se queixa porque nin­
guém me escreve e que assim eu também não escrevo. To­
dos prometem escrever... no dia seguinte, mas cada um
pensa que o outro escreverá e assim as coisas acontecem
por um tempo. E uma vida bastante curiosa, um pouco à
chinesa e lembro-me perfeitamente que eu também levava
a vida assim 2.

Às vezes lamentava-se com a mãe:


Mas por que me deixam tanto tempo sem notícias?
Mesmo com malária se pode escrever algumas linhas e eu
me contentarei com um cartão postal. Eu também estou
ficando velho, entende? E, por isso, nervoso, mais irritá­
vel e mais impaciente. Eu raciocino desse modo: não se
escreve a um preso ou por indiferença ou por falta de
imaginação. No seu caso e no das outras pessoas de casa
creio que não pode se tratar de indiferença. Acho antes
que se trata de falta de imaginação. Vocês não conseguem•

• i a ria a Tatiana de I9 de junho de 1931.


323
imaginar exatamente como possa ser a vida da prisão e
que importância tem a correspondência, como ela enche
os dias e dá ainda um certo sabor à vida. Eu não falo nun­
ca do lado negativo da minha vida, antes de tudo porque
não quero ser lamentado: fui um combatente que não
teve sorte na luta imediata, e os combatentes não podem e
não devem ser lamentados, já que eles lutaram não por­
que foram obrigados, mas porque assim o quiseram cons­
cientemente. Mas isso não quer dizer que o lado negativo
da minha vida de prisão não exista e não seja muito pesa­
do e não possa pelp menos ser agravado pelas pessoas ca­
ras.

Era um discurso dirigido a Teresina, Grazietta, à sobrinha


Mea, então com 11 anos, não à mãe.
Sabia que a mãe não estava em condições de lhe escrever. U ma
carta que ela ditou a Teresina o comoveu:

Recebi a carta que você me mandou, escrita por Te­


resina. Acho que você deve escrever-me sempre. Senti na
carta todo o seu espírito, o seu modo de raciocinar. Era
mesmo uma carta sua e não uma carta de Teresina. Sabe
o que me veio à memória? Voltou claramente à minha
mente a recordação de quando eu estava na primeira ou
segunda série primária e você me corrigia os deveres.
Lembro-me perfeitamente que não conseguia nunca me
lembrar que “uccello” [pássaro] se escreve com dois c e
você me corrigiu pelo menos umas dez vezes. Assim, se
você nos ajudou a aprender a escrever... é justo que um de
nós lhe sirva de mão para escrever quando você não tem
mais forças suficientes... Você não pode imaginar quantas
coisas eu me lembro nas quais você aparece sempre como
uma força benéfica e cheia de ternura por nós. Se pensar­
mos bem em todas as questões da alma e da imortalidade
da alma ou do paraíso e do inferno elas não são no fundo
outra coisa senão um modo de ver este fato muito sim­
ples: que cada ação nossa transmite-se no segundo se­
guinte o seu valor, de bem e de mal, passa de pai para fi­
lho, de uma geração à outra em um movimento perpétuo.
Já que todas as recordações que temos de você são de
bondade e de força e você deu as suas forças para nos esti-
324
mular, isto significa que você já está, desde agora, no úni­
co paraíso real que existe, que para uma rnãe penso que é
o coração dos próprios filhos. Vê o que eu lhe escrevi?
Ainda que recebesse poucas cartas da Sardenha, Gramsci sábia
mais dos seus de Ghilarzu do que dos seus de Moscou: “ É claro que
conheço melhor os filhos de Teresina, que me escreveram muitas
vezes e sobre os quais Teresina me dá bastante informação para que
eu, conhecendo o quadro geral da sua vida por experiência direta,
possa corresponder. Ao contrário, imagino que para Delio e Giu-
liano eu deva ser como uma espécie de holandês voador” . Sentia-se
muito ligado a todas as crianças, procurando acompanhá-las e
orientá-las como podia. Uma vez escreveu a Teresina:

. Franco me parece muito vivo e inteligente. Acho que


ele já fala correntemente. Em que língua ele fala? Espero
que o deixem falar em sardo e não lhe reprimam quanto a
isso. Ao meu ver foi um erro não terem deixado que Ed-
mea falasse livremente o sardo desde pequenina. Isso pre­
judicou a sua formação intelectual e colocou uma camisa
de força na sua fantasia... Peço-lhe de coração que não
cometa um erro desses e deixe que os seus filhos suguem
todo o sardismo que queiram e se desenvolvam esponta­
neamente no ambiente natural em que nasceram.

Passava longos momentos na cela a comparar as fotografias


das crianças da família, estudando as identidades e as diferenças en­
tre Delio e Giuliano e os filhos de Teresina (Franco, Mimma e Did-
di) e a menina de Gennaro, M ea3.

"Recebi uma carta da minha irmã Teresina com a fotografia do seu filho Fran­
co, nascido alguns meses depois de Delio. Acho que os dois não se parecem em nada,
mas Delio é parecidíssimo com Edmea. Franco não tem os cabelos crespos e devem
ser castanho-escuro; além disso, Delio é certamente mais bonito.” “ Fiquei surpreso
que, pelo menos na fotografia. Franco se assemelhe muito pouco à nossa família.
Deve ser parecido com Paolo JFaulesu, marido de TeresinãJ e à sua estirpe campida-
npse e talvez até mesmo maurreddina. E Mimí, com quem se parece?” “Tatiana me
mandou há semanas algumas fotografias dos filhos de Teresina que me agradaram
muito. É verdade que Mimi se parece muito com Emma quando era pequena. É ma­
ravilhoso como esta