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BRASIL: VITÓRIA ELEITORAL DA EXTREMA-

DIREITA, ESCALADA DO NEOLIBERALISMO

Artigo escrito por Luiz Souto e Claudio Santana, para Herramienta, revista de crítica e
debate marxista: https://www.herramienta.com.ar/articulo.php?id=2930

Em 28 de outubro de 2018, foi eleito como presidente do Brasil, em segundo turno, Jair
Bolsonaro. Com 55% dos votos válidos, o novo presidente chega ao poder como
representante de uma vaga de crescimento da direita brasileira, tendo abandonado na
campanha toda hipocrisia em relação à democracia liberal burguesa, não só se recusando
a comparecer aos debates, mas utilizando de forma ampla e irrestrita de toda uma indústria
de mentiras e calúnias divulgadas pelas mídias sociais contra o seu adversário Fernando
Haddad (Partido dos Trabalhadores), financiada de forma ilegal por empresários.

Centrando a campanha em eixos calcados em pautas morais, conservadoras e mesmo


reacionárias em relação às mulheres, negros e LGBT, o ex-capitão (que se tornou
parlamentar em 1991 após sua saída do Exército por causa da acusação de planejamento
de ações terroristas para protestar contra os baixos salários) manteve o elogio à ditadura
militar e aos torturadores que sempre foi a sua marca registrada.

Alinhado com uma ala ultraliberal do capital financeiro, representada pelo seu assessor
para assuntos econômicos e já confirmado futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, e
tendo apostado na radicalização pela direita para ganhar apoio popular, Bolsonaro ao tomar
posse representará o fim do pacto de classes iniciado ao fim da ditadura militar em 1985 e
consolidado na Constituição de 1988, pacto este denominado Nova República.

O pano de fundo a ser considerado não pode ser outro que a crise estrutural do capital e
das transformações que realiza para buscar fazer frente a sua crise. Neste contexto o
capital transnacional sob hegemonia e comando de sua fração financeira (papel dinheiro e
dinheiro virtual que pode evaporar do dia para a noite) busca adquirir lastro na economia
real, transformando tudo mais que for possível em mercadoria, buscando formas mais
seguras e de maior extração de mais-valor.

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Com base nisso observa Silvia Adoue que:

“O modelo que se consolida no mundo exige a integração de todos os territórios às suas


cadeias de acumulação. Para isso, um novo padrão de dominação é desenhado, o que
exige mudanças bastante drásticas no uso da terra e nas formas de extrair valor. Ele precisa
criar novos campos de negócios antes impensáveis. Os estados são agentes que operam
essas transformações.” 1

O ataque aos nosso direitos sociais e trabalhistas (extinção da Constituição de 1988,


Constituição Cidadã e o fim da CLT, Consolidação das Leis Trabalhistas) e a apropriação
das nossas riquezas naturais (petróleo, água, entre outros recursos naturais) a partir do
avanço das privatizações, que atinge também às empresas estatais e, serviços públicos de
primeira necessidade (saúde, educação, saneamento básico), são uma tentativa de
superação da crise capitalista que se agravou a partir de 2008.
É por isso que:
“Agora sofremos a pressão de reformar o marco legal que rege as atividades econômicas
e as relações trabalhistas, necessárias à integração dos territórios ao novo modelo. E a
burguesia não obtém o consenso já obtido no Chile, no Paraguai e na Argentina. As razões
para essa particularidade devem ser buscadas no papel diferenciado que o Brasil, com
poder econômico relativamente maior, vem cumprindo na região, como plataforma de
exportação de capital e intermediário nas cadeias de acumulação. Não há setores com
poder econômico que não estejam convencidos do imperativo dessas contra-reformas. 2

Mas ainda que saibamos que o processo vivido pelo Brasil faz parte de uma avanço mundial
da direita, dentro do esforço do Capital de enfrentar sua crise, é de suma necessidade
entender como se deu este processo de deriva para a direita na sociedade brasileira,
capturando eleitoralmente uma parcela significativa da classe trabalhadora, mesmo se
considerarmos o alto percentual de abstenções que, somados a votos brancos e nulos,
atingiu o recorde de 30% dos eleitores.

É necessário também mapear quais são as frações de classes e agentes políticos


envolvidos nesta candidatura, que não só impediram o retorno ao poder dos setores de
esquerda reformista (PT e PCdoB) mas também impuseram uma derrota ao partido
tradicional da burguesia brasileira na Nova República, o PSDB.

O PROCESSO DE INSTABILIDADE POLÍTICA VIVIDO PELO BRASIL A PARTIR DE


2013

O ponto de inflexão na trajetória do pacto de governabilidade instituído em 1988, se dá em


2013, quando o Brasil é sacudido por inúmeras manifestações que criticam as políticas do
governo petista de patrocinar grandes eventos (Copa do Mundo e Olimpíadas) e levam às
ruas multidões exigindo melhoras dos serviços públicos mas também criticando o alto grau
de corrupção das instituições, parlamentares e partidos em geral.

Desde o início de 2013, houve protestos e manifestações de rua contra os aumentos de


passagens em várias capitais do país mas, após a repressão violenta à manifestação do
grupo Passe Livre contra os aumentos das passagens de ônibus de São Paulo em 13 de
junho de 2013, ocorreram novas manifestações contra os aumentos das passagens e
contra a violência policial que se espalharam pelas diversas cidades do país, ampliando as
demandas com a reivindicação de melhoria dos serviços públicos, contra os gastos públicos
nos grandes eventos internacionais e contra a corrupção de partidos e parlamentares.
2
As manifestações se tornam massivas no decorrer do mês de junho (alcançam 1,4 milhões
de manifestantes em 20 de junho em todo o país), grupos participantes passam a incluir
reivindicações específicas (como fim do foro privilegiado para políticos, contra a aprovação
de lei que autoriza tratamentos para “curar’ a homossexualidade, etc…); não existe uma
direção identificável do movimento mas observa-se um crescente repúdio a que bandeiras
de partidos e organizações políticas (mesmo de oposição ao governo) sejam exibidas
mostrando um sentimento anti-partidário em boa parcela dos manifestantes.

A despeito de se iniciarem de forma pacífica há um aumento da repressão policial sobre as


manifestações, tanto pelo governo federal do PT como pelos governos estaduais (inclusive
os comandados por partidos de oposição), com o surgimento de manifestantes reagindo
através da adoção das táticas black-block e o ataque às instituições símbolos do poder
econômico, como depredação de agências bancárias; ao mesmo tempo que as autoridades
denunciam “terrorismo” e “vandalismo” surgem denúncias de agentes provocadores
infiltrados nas manifestações.
Tanto o governo federal quanto os líderes dos diversos partidos reagem aprovando
medidas conciliatórias, articuladas ao redor de cinco “pactos” (saúde, transporte público,
reforma política, educação e responsabilidade fiscal) e avançam medidas como a
aprovação da ampliação da oferta de profissionais de saúde pelo Programa Mais Médicos,
promessa de destinar 100% dos royalties do petróleo à educação, derrota do projeto que
previa a redução do poder de investigação do Ministério Público; porém em pronunciamento
público Dilma Roussef defende os investimentos federais nos grandes eventos.

A partir do recrudescimento da repressão associado às ações institucionais ocorre um


refluxo do movimento que se encerra em fins de julho com ganhos pontuais mas sem que
em nenhum momento tenha existido uma pauta que contemplasse uma proposta articulada
de alternativa ao sistema institucional.

O CRESCENTE DESGASTE DO PT E O CRESCIMENTO DA DIREITA E DA EXTREMA-


DIREITA

O agravamento da crise econômica e o prosseguimento das denúncias de corrupção, e o


indiciamento de políticos pertencentes seja ao PT seja a partidos de sua base aliada (com
uma evidente seletividade do Judiciário) leva em 2014 a um acirramento da disputa na
campanha presidencial, onde se observa um crescimento de grupos e organizações de
direita que terminam por confluir no apoio à Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da
eleição.

A campanha dos adversários do PT é calcada na denúncia do partido como o principal


responsável pela corrupção, o colocando como o principal responsável pela crise
econômica, associando-o a um fraco controle das contas públicas, além de acusar o partido
de financiamento de movimentos populares com verbas públicas.

Dilma Roussef é eleita por pequena maioria, com o engajamento intenso do ex-presidente
Lula na campanha, e após sua eleição o resultado é contestado pelo PSDB que entra com
ação junto ao Supremo Tribunal Eleitoral solicitando a impugnação da eleição por uso de
financiamento ilícito.

Se as jornadas de junho marcam o ponto de inflexão na legitimidade popular da Nova


República a contestação da eleição de Dilma Roussef assinala o momento em que a

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parcela das classes dominantes mais alinhada ao neoliberalismo rompe com o acordo tácito
de que os resultados eleitorais para a presidência não seriam questionados.

A partir deste momento é feito um movimento pela oposição no Congresso para bloquear
as ações do governo (que não tem a maioria parlamentar), a sua base parlamentar é
erodida pelas investigações de corrupção contra líderes políticos aliados que terminam por
não encontrar no governo capacidade de interrompe-las e o alinhamento do governo Dilma
a uma política econômica de austeridade (assumindo implicitamente o programa do
candidato derrotado) alija o apoio de sua base popular.

Baseando-se em contestável interpretação jurídica de ações fiscais do primeiro mandato


de Dilma Roussef, é aberto contra ela um processo de impeachment, o qual é marcado por
um intenso ativismo de direita, seja através dos partidos burgueses seja através de
organizações que se apresentam como não-partidárias (Movimento Brasil Livre, Revoltados
Online, Vem pra Rua, etc…), com convocações de manifestações de rua que se
caracterizam pelo seu intenso anti-petismo, pela massiva participação de setores das
classes médias e altas, pelo uso de símbolos patrióticos ( especialmente as cores verde e
amarela, a bandeira nacional e a camisa da seleção de futebol) e pelos slogans anti-
corrupção; neste momento observa-se também um maior protagonismo do deputado Jair
Bolsonaro verbalizando o discurso contra o PT associado a sua tradicional pauta
conservadora nos costumes, além do surgimento de grupos minoritários pedindo
“intervenção militar”.

O IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEF, O APROFUNDAMENTO DA AGENDA


NEOLIBERAL NO BRASIL E A APARIÇÃO DE BOLSONARO NO CENÁRIO POLÍTICO

Com o impeachment de Dilma Roussef assume a presidência Brasil, seu vice, Michel Temer
(MDB), que traz para o governo o PSDB e aprofunda a aplicação da agenda neoliberal no
país, aprovando no Congresso: uma Reforma Trabalhista que retira direitos históricos dos
trabalhadores; uma Emenda Constitucional que impede o aumento do investimento público
acima da inflação por 20 anos e o fim às restrições à terceirização da força de trabalho.

A Reforma da Previdência Social, que retiraria direitos e precarizaria as aposentadorias,


não vai adiante em razão das inúmeras mobilizações nacionais por parte dos trabalhadores.

Com evidências de corrupção, através de áudios e da prisão de pessoas a ele ligadas,


Temer consegue escapar de ser impedido de exercer a Presidência através da compra de
votos no Congresso Nacional com verbas públicas para as emendas parlamentares. Em
virtude de tudo isso sua popularidade é a mais baixa de um presidente da República (97%
de rejeição), mas se mantém no poder pela cumplicidade dos parlamentares além da
conivência do Judiciário e da grande mídia.

Em todo o processo de desmoronamento da Nova República a partir de 2014, Jair


Bolsonaro passa a verbalizar a insatisfação contra o sistema de poder (do qual faz parte)
através de um discurso de extrema direita, onde associa reacionarismo moral à anti-
esquerdismo e anti-comunismo, apresentando-se como independente (apesar de 28 anos
no Congresso), como perseguido e boicotado pelos opositores (para justificar a sua pífia
atuação parlamentar) e como sendo capaz de mudar “tudo isso aí” (mas sem apresentar
propostas concretas).

Ao se iniciar 2018, apresenta-se com 20% das intenções de voto, ficando em segundo lugar
após Lula, mas com a prisão e posterior impedimento da candidatura Lula seu nome passa

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a aparecer como primeiro colocado, a despeito de alta rejeição. Com o naufrágio das
candidaturas burguesas mais tradicionais, apresenta um grande crescimento, com
migração de votos dos que veem nele a possibilidade de evitar a vitória do PT, representada
pela candidatura Fernando Haddad.

BOLSONARO ELEITO E A AGENDA ULTRA-LIBERAL A PARTIR DA IDEOLOGIA


LIBERTARIANA

A vitória de Bolsonaro, que não era o candidato mais provável ou desejado pelas forças
políticas burguesas tradicionais, significa uma alteração e rearranjo na correlação de forças
dentro das classes dominantes para conseguir manter a implementação de um programa
neoliberal e garantir a sua saída da crise com uma maior exploração da classe trabalhadora.

Esta nova configuração representa uma guinada para a extrema direita e para uma agenda
agressivamente neoliberal, podendo ser entendida como surgindo da confluência de três
eixos que, embora os atores que os representam apresentem um grau de heterogeneidade,
conseguiram se associar e capturar suficientemente o sentimento de frustração de parcela
significativa da população brasileira para levar Bolsonaro à presidência.

Estes eixos, como bem o coloca Luis Felipe Miguel 3, são o libertarianismo, o
fundamentalismo religioso e o anticomunismo reciclado como anti-petismo. É se apoiando
nos atores que encarnam cada um destes eixos que o governo Bolsonaro tentará cumprir
o papel que lhe foi designado de garantir a superação da crise interna a favor da burguesia
e de manter a inserção subordinada na economia mundial.

O libertarianismo constitui a ala ideologicamente mais radical do neo liberalismo,


reivindicando que o mercado é a melhor forma de alocação de recursos de qualquer setor
da sociedade e, portanto, defendendo a privatização total da educação, saúde, previdência
etc.

Seus defensores pregam um “Estado mínimo”, que significa que a função primordial do
Estado é a defesa da propriedade privada e assim se resume, em última instância, a um
Estado policial. Coerente com esta ideologia, são a favor da privatização de todas as
empresas públicas, o fim dos direitos trabalhistas (que seriam substituídos pela livre
negociação entre empregados e patrões) e pelo direito do empregador de determinar as
condições de trabalho e salário que desejar.

Dentro da ideologia libertariana, assim como no neoliberalismo em geral, os indivíduos são


entendidos como seres que agem para obter o maior benefício com suas ações e suas
interações se dão baseadas nestes interesses.

Esta lógica social mercantil faz com que o indivíduo seja visto (e deva se ver) como uma
empresa, sendo ao mesmo tempo o empresário de si mesmo, buscando a melhor
colocação no mercado. É dentro desta visão que surge a ideologia do empreendedorismo,
que minimiza ou exclui as determinações sociais sobre o resultado das ações, resumindo-
as à capacidade individual de atingir as metas determinadas. É também a ideologia em que
o sucesso ou insucesso é quantificado pela capacidade de consumo, em que o consumo e
sua exteriorização são o elemento objetivo a partir do qual mensurar o sucesso ou
insucesso social.

O pensamento econômico e ideológico neoliberal e sua vertente libertariana são divulgados


por think tanks como o Movimento Brasil Competitivo, o Instituto Millenium, Instituto Mises

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Brasil e por organizações de propaganda como o Movimento Brasil Livre (MBL). O setor da
burguesia em que a ideologia libertariana encontra maior ressonância é aquele ligado ao
capital financeiro, pela caracteristica de desterritorialização e abstração envolvida neste
setor do capital.

A despeito da utilização de instrumentos de Estado (como financiamentos públicos,


parcerias público-privadas,etc…) no Brasil setores do capital ligado á indústria e ao
agronegócio tem assumido bandeiras libertarianas, em especial relacionadas à
precarização das relações de trabalho e desoneração fiscal. Pelas suas características a
capacidade da ideologia libertariana de encontrar apoio nas classes populares é escassa,
já que esta é beneficiária em grande medida das políticas públicas de investimento social,
mas pode-se observar presença de apoio em setores médios (especialmente profissionais
liberais).

A INFLUÊNCIA DA RELIGIÃO NA REALIDADE POLÍTICA BRASILEIRA

O fundamentalismo religioso cristão (notadamente evangélico) passa a ter aumento


progressivo a partir da década de 1980, tendo seu grande crescimento a partir do final da
década de 1990.

O crescimento destas correntes religiosas, representadas em sua maioria por igrejas


pentecostais e neo-pentecostais, pode ser atribuido à perda da influência da Igreja Católica
que apresenta uma queda continuada de fiéis, mais acentuada a partir deste período.

É possível atribuir à derrota dentro da Igreja católica das correntes ligadas à Teologia da
Libertação o surgimento de um vácuo de identificação que foi sendo ocupado
progressivamente pelas denominações evangélicas.

Responsável pela aproximação da Igreja com as comunidades e fiéis através das


comunidades eclesiais de base, a derrota da Teologia da Libertação pelo setor conservador
católico significou o afastamento da instituição dos espaços de vida cotidiana dos fiéis,
reforçando a interação mediada pelos rituais e pelo espaço da igreja.

As igrejas evangélicas pentecostais e neo-pentecostais, valorizando a participação dos fiéis


no culto, atuando como intermediadoras para a resolução dos problemas cotidianos
(desemprego, subemprego, problemas familiares, uso de drogas etc.) seja pelos
mecanismos propriamente religiosos da prece e cultos coletivos, seja pela atuação próxima
dos pastores aos fiéis, se tornam um espaço que supre uma necessidade de acolhimento
a quem não tem amparo em instituições governamentais e não encontra espaço na Igreja
Católica.

Além disso as igrejas evangélicas constituem um espaço de inserção e ascensão social


negada em outros espaços. Comparando-se ao catolicismo a proporção de pastores negros
é claramente maior, são aceitas mulheres como pastoras e o prestígio associado à função
religiosa habitualmente ultrapassa a que o indivíduo tem na sua posição na sociedade. 4

O ataque das igrejas evangélicas fundamentalistas aos cultos afro-brasileiros faz parte
também da disputa de espaço, pois os terreiros sempre foram um espaço de socialização
das parcelas pobres da sociedade, em sincretismo com o catolicismo; a demonização dos
cultos e entidades afro-brasileiras foi uma necessidade das denominações evangélicas
fundamentalistas para derrotar ideologicamente um rival que atuava em campo simbólico
similar (daí a apropriação de termos derivados dos cultos afro, como descarrego).
6
O fundamentalismo religioso neo-pentecostal, além das suas características de pregar um
modo de vida que esteja baseado em uma interpretação dos preceitos bíblicos,
desenvolveu também uma ideologia consonante com o estágio neoliberal do capitalismo
denominada Teologia da Prosperidade.

Nesta a prova da benção de Deus é, para além dos ganhos subjetivos tradicionais de paz
ou tranquilidade, a conquista de ganhos materiais e estes são obtidos não só pela
observância dos preceitos religiosos mas, em uma clara relação comercial, pela
contribuição financeira do fiel à Deus pela intermediação da igreja a qual pertence.

Se no cristianismo tradicionalmente o fiel demonstrava sua fé e buscava a graça através do


sacrifício de sua corporeidade pelo jejum ou penitência agora, ainda que jejue ou se
penitencie, a fé é demonstrada pelo sacrifício de parte do seu ganho monetário.

A partir do final da década de 1980, há o progressivo crescimento das igrejas com a


consolidação de grandes organizações (Igreja Universal do Reino de Deus, Assembleia de
Deus, Igreja Internacional da Graça etc.).

Estas grandes igrejas adotam a estratégia de investir em espaço na programação de rádios


e TVs e adquirindo-os quando possível, como foi o caso da Universal que adquire a TV
Record, e obtendo a concessão de estações de rádio; em uma clara violação da lei de
concessões diversos canais de TV aberta vendem a maior parte de sua grade de
programação a igrejas para que veiculem seus programas.

Associado a isto, estas igrejas passam também a buscar espaço dentro do Legislativo,
patrocinando campanhas de candidatos ligados a elas e mesmo investindo na criação de
partidos políticos (caso do PRB, que em 2002, possuía metade de seus filiados
pertencentes à Universal).

Os parlamentares evangélicos, que a despeito de constituírem uma “bancada evangélica”


no Congresso apresentavam diferenças políticas que faziam uns serem apoio aos governos
do PT e outros oposição, estavam unidos na defesa de pautas conservadoras (contra o
aborto, contra os direitos dos LGBT etc.); a partir de 2015, com a perda do apoio popular
ao governo Dilma mesmo os segmentos evangélicos que apoiaram o PT (como a Universal)
passam para a oposição e posteriormente se aproximarão de Bolsonaro que assumiu
integralmente suas pautas morais.

Não surpreende que parte das lideranças fundamentalistas evangélicas se aproximem do


discurso libertariano, estabelecendo uma ponte com sua concepção teológica de graça,
mas também pelo interesse de ver as necessidades sociais que deixariam de ser supridas
pelos Estado passarem às mãos das instituições religiosas, o que se reflete no apoio de
parcela significativa dos parlamentares evangélicos às reformas neoliberais de Temer.

A AMEAÇA MILITAR, O QUESTIONAMENTO AOS DIREITOS HUMANOS E O ANTI-


ESQUERDISMO

A corrente de extrema-direita militarista que cresce a partir do processo de impeachment


de Dilma Roussef sempre teve Jair Bolsonaro como um de seus integrantes, tendo desde
o início de sua carreira parlamentar elogiado publicamente a ditadura militar, ter feito
apologia à tortura e a repressão política.

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A possibilidade de tal discurso ser tolerado deve-se ao fato de que o Brasil nunca realizou
um verdadeiro ajuste de contas com o legado da ditadura militar, nunca houve uma eficaz
contestação à lei da Anistia em que o regime militar se autoconcedeu anistia ao isentar de
culpa os agentes de Estado responsáveis pela repressão e tortura.

Mesmo a constituição de uma Comissão da Verdade que investigou os crimes cometidos


pela ditadura sofreu vetos das Forças Armadas, as quais conseguiram impedir que ela
tivesse poder de determinar punições aos agentes da repressão, e que construíram um
discurso de que ela era parcial por não investigar a violência “de ambos os lados” (igualando
o terrorismo de Estado à resistência dos opositores da ditadura), sendo fundamentalmente
“mentirosa”.

Além disso, a Lei de Segurança Nacional sancionada pela ditadura em 1983, não foi
revogada e na Constituição de 1988 as Forças Armadas conseguiram garantir, através do
artigo 142, a possibilidade de intervenção em caso de grave crise interna, desde que
convocada por um dos poderes da República. A utilização deste artigo progressivamente a
partir da década de 1990 em ações contra a criminalidade e em proteção de eventos (como
a Copa do Mundo) através de ações de Garantia da Lei e Ordem, serviu para naturalizar e
criar a imagem das Forças Armadas como capaz de garantir a ordem e a paz, ao mesmo
tempo que sua ineficácia em cumprir os objetivos era atribuída à ação dos “políticos” que
cerceavam sua ação.

Paralelo à sobrevivência de instrumentos autoritários no arcabouço jurídico da Nova


República foi construído no decorrer de anos, perante à criminalidade crescente, um
discurso de desvalorização e de negação dos direitos humanos que são acusados de
apenas “favorecerem bandidos”; esta ofensiva ideológica foi realizada principalmente
através de programas de rádio e TV policialescos que se caracterizam por enaltecimento
das ações de repressão policial e desmerecimento do processo legal e da defesa dos
direitos humanos.

Característicamente, os programas policialescos de maior audiência encontram-se nos


órgão de mídia sob controle de igrejas evangélicas ou políticos. O processo de
impeachment de Dilma Roussef permite que o discurso de extrema-direita militarista ganhe
maior espaço associando corrupção e criminalidade ao Partido dos Trabalhadores e este
ao comunismo, por sua vez o comunismo é reciclado como sendo sinônimo de
bolivarianismo. Ao mesmo tempo a estratégia “comunista” do PT e de seus aliados para
conseguir se perpetuar no poder seria, além da cooptação por corrupção, a destruição da
família tradicional e dos valores cristãos através de doutrinação nas escolas e apoio à
pautas identitárias, tudo isto reunido sob o termo “marxismo cultural” ou “gramscismo”
(porque teria sido teorizado por Antonio Gramsci).

Esta conjugação de paranoia, falácia e mentira consegue assumir progressivamente um


maior espaço por um lado pela aproximação das pautas conservadoras dos
fundamentalistas evangélicos e por outro devido a responder ao sentimento de insegurança
de significativa parcela da população quanto à violência endêmica apresentando um inimigo
facilmente identificável, moralmente desprezível e para o qual a restauração do “prestígio”
das Forças Armadas seria a solução.

A CONSTRUÇÃO DA CANDIDATURA DE BOLSONARO À PRESIDÊNCIA

Todos estes eixos já se combinavam na base de apoio à Bolsonaro desde 2014, que
constituía os 20% que declaravam sua intenção de voto para presidente, sendo que desde

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então ele já estava em franca campanha para a disputa presidencial de 2018, com seus
correligionários atuando em todas as redes sociais divulgando a palavra de ordem
“Bolsonaro 2018”.

No entanto não havia respaldo mesmo dentro de seu partido (Partido Progressista-PP),
nem contava com qualquer programa coerente ou com um eixo econômico programático,
resumindo a uma pauta negativa de ser “contra isto tudo aí”.

Em fins de 2017, dá-se o encontro entre Jair Bolsonaro e Paulo Guedes: um candidato em
busca de um economista, encontra um economista em busca de um candidato. Ciente do
fato de que não possuía qualquer assessoria para assuntos econômicos, Bolsonaro busca
Paulo Guedes após este tê-lo elogiado em artigo no jornal O Globo por representar uma
candidatura voltada para a “lei e a ordem”.

Por outro lado Guedes, que estava assessorando o apresentador de televisão Luciano Huck
em uma possível candidatura à presidência, viu a possibilidade de ingressar no comando
econômico de um governo ser frustrada pela desistência de Huck de efetivar a candidatura.

Paulo Guedes, economista com doutorado na Universidade de Chicago, neoliberal


convicto, assim como outros “Chicago Boys” trabalhou na faculdade de Economia do Chile
no inicio da década de 1980, sob a ditadura de Pinochet, embora não tenha ocupado cargos
governamentais como outros economistas da escola de Chicago.5 Atuando no mercado
financeiro tendo sido um dos fundadores do banco de investimento Pactual e atualmente
na direção do banco de investimentos Bozzano é também um dos fundadores do think tank
neoliberal Millenium, ligado a órgãos da grande mídia como as Organizações Globo e o
jornal Estado de São Paulo.6 Com a adesão de Guedes a candidatura Bolsonaro ganha
pedigree para ter acesso aos espaços do grande capital financeiro e comercial e passa a
ter um lastro de credibilidade para manter e aprofundar a agenda neoliberal iniciada pelo
governo Temer.

Com o desgaste e inviabilização das candidaturas mais “tradicionais” ligadas à agenda


neoliberal, notadamente a de Geraldo Alckmin do PSDB, associado à saída da candidatura
Lula por intervenção do Judiciário, a candidatura Bolsonaro passa a conquistar rapidamente
os apoios políticos e a se constituir no polo de agregação do sentimento anti-petista
construído no decorrer dos anos anteriores.

O apoio explícito das igrejas neopentecostais lhe garante o espaço dos cultos para a
propaganda eleitoral, além de espaço privilegiado na Rede Record de televisão após a
declaração pública de apoio por Edir Macedo, líder da Igreja Universal e dono da rede de
televisão.

Além disso, o atentado sofrido pelo candidato antes do primeiro turno o retira da campanha
de rua e dos debates (embora tenha antes do atentado declarado não querer participar
mais deles) mas isso não afeta a expansão de sua campanha, que se caracteriza pelo uso
intensivo e altamente profissional das redes sociais, especialmente o Whatsapp. Ainda que
a campanha tenha atuado fortemente nas redes como Twitter, Facebook e Instagram,
divulgando fake news e calúnias, além de atacar páginas adversárias com uso de robôs e
perfis fakes, a grande disseminação da campanha focada em uma pauta que misturava
medo, preconceito e ódio se deu através do Whatsapp.

Com um esquema profissional que era financiado ilegalmente por empresários, empresas
foram contratadas para realizar milhares de disparos diários para os milhares de grupos

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criados pelos organizadores da campanha, garantindo uma saturação de propaganda em
que a candidatura do PT e as pautas identitárias eram apresentadas como imorais,
corruptas, comunistas, geradoras de caos e violência.

A mídia tradicional era apresentada como sendo cooptada, via verbas de propaganda
oficial, para criticar e desmerecer Bolsonaro, não sendo por isso confiável: nesta teoria da
conspiração, o material recebido no celular era a resposta a uma rede de mentiras
divulgada pela imprensa.

Pela própria dinâmica das redes de Whatsapp, os participantes que recebiam este material
de propaganda o divulgavam para seus contatos mesmo fora dos grupos, permitindo uma
capilaridade e abrangência inédita para uma campanha de difamação. Ao mesmo tempo,
Bolsonaro se recusou a comparecer aos debates, negando um espaço público onde tivesse
que responder as críticas às suas propostas, e garantindo uma campanha onde os
questionamentos dos adversários eram bloqueados no espaço privado dos grupos de
Whatsapp.

O exemplo mais significativo da alta eficácia desta estratégia se deu quando da ocorrência
das manifestações de rua massivas pelo #Elenão, convocadas por coletivos de mulheres
contra a misoginia e machismo de Bolsonaro.

A despeito da cobertura da mídia tradicional, o que as pessoas receberam em seus


celulares foram imagens de manifestações em que santos católicos eram depredadas por
mulheres nuas ou de manifestações com mulheres de seios de fora, com mensagens
informando que as participantes das manifestações eram todas imorais e contra os valores
familiares, daí serem contra Bolsonaro.

Esta massiva campanha permitiu que, mesmo com o amplo movimento de repúdio, a
candidatura tivesse um aumento importante de intenção de votos após as manifestações.

O PT TAMBÉM TEM SUA RESPONSABILIDADE E NÃO É PEQUENA

É importante salientarmos a responsabilidade do PT nesse processo tanto no governo, mas


também como dirigente dos principais movimentos sociais no país. Pois ao entrar no
governo apenas completou seu processo de adaptação ao capital e ao regime democrático-
burguês. A famosa Carta aos Brasileiros (apelidada de “carta aos banqueiros”) divulgada
na campanha de 2001 demarca bem esse momento. Mas o PT já vinha de um longo
histórico de adaptação em prefeituras, governos estaduais e mandatos no Congresso.

No movimento sindical já predominava desde os anos 90 a política de parceria com as


empresas, visando não se opor e permitir a reestruturação das mesmas a fim de que se
tornassem rentáveis e viáveis no mercado mesmo que isso custasse o emprego, direitos e
salários dos trabalhadores. Além disso as mobilizações já mostravam seu objetivo de não
enfrentarem de fato as políticas neoliberais mas direcionarem o descontentamento para o
terreno eleitoral para o voto no PT.

No governo o PT desmobilizou por completo os movimentos sociais transformando-os em


correias de transmissão e apoio das políticas do governo federal e demais administrações.
Milhares de lideranças foram cooptadas para órgãos estatais, ONGs etc. O trabalho de
base foi abandonado e o governo apostava nos ganhos eleitorais no período de
crescimento da economia em que parecia que a burguesia toleraria ou seria obrigada a
tolerar o governo do PT indefinidamente. Mas como vimos acima, todo o processo de

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crescimento da economia mesmo que advindo em algum aspecto da gestão petista se deu
sob o signo do mérito individual e foi sendo canalizado pela direita e ultradireita. As
periferias ficaram abandonadas ao trabalho das igrejas evangélicas, do tráfico e de políticos
oportunistas. Sem mudanças profundas, a crise ao se aprofundar minou também as bases
do governo de conciliação de classes do PT e mais do que isso ainda, minou as bases da
própria Constituição de 88 em que o PT e a esquerda institucional se destacaram com a
aprovação de direitos sociais e políticos importantes, mas que já sãode um tempo passado
e agora drasticamente atacados.

Não podemos deixar também de citar que o PT ao se integrar e se adaptar ao regime


político corrupto assumiu as regras do jogo se envolvendo na corrupção o que também
pode ser usado na tendenciosa, seletiva e, em vários aspectos, ilegal Operação Lava Jato.
O fato é que um ciclo parece se encerrar: o da ilusão em um projeto reformista, de
transformações graduais do país através do estado burguês, mesmo que limitadas e que
pudesse ir pavimentando o caminho para um país mais independente em nível mundial e
menos injusto e com mais oportunidades internamente.

Isso caiu por terra com o impacto da crise no Brasil e o esgotamento das margens para
atender aos gordos lucros empresariais e as mesmo limitadas políticas sociais. O próprio
PT ao iniciar o segundo governo de Dilma assumiu a agenda neoliberal que havia
denunciado em seu oponente nas eleições (Aécio Neves – PSDB).

PARA NOVOS DESAFIOS É PRECISO UMA NOVA ESQUERDA

Primeiro queremos sublinhar a necessidade de um esforço coletivo de compreensão sobre


as mudanças geopolíticas, econômicas, sociais mas principalmente sobre a nova classe
trabalhadora que parece estar se tornando cada vez mais o padrão: instável, sem vínculos
empregatícios ou com vínculos precários, muitas vezes se relacionando diretamente no
mercado, uma classe trabalhadora ampla e sem limites muito claros a não ser que não
possuem o controle sobre o trabalho, seus bens etc. (alienação) e são muito explorados
pelo capital. Além disso do ponto de vista de sua subjetividade encontra-se desprovida dos
referenciais mínimos de luta e organização e ainda nesse momento em sua maioria adota
a consciência da classe inimiga.

É com base nessa nova realidade que será preciso construir uma nova esquerda pautada
prioritariamente nas lutas e manifestações diretas assim como no trabalho de base
constante, buscando formas concretas de aproximação, diálogo e inserção junto aos
movimentos e periferias, a partir do enfrentamento aos planos privatistas e de retirada de
direitos de Bolsonaro e do Congresso, destruição e privatização de serviços e recursos
naturais, mas também de construção de práticas e espaços alternativos geridos
coletivamente e que sejam capazes de serem mesmo que embrionariamente contrapontos
de luta, de cultura popular, de convivência e de organização para discutir e ver formas de
se enfrentar com o que vem por aí e mais do que isso de buscar a construção prática de
alternativas a partir da base. Para derrotar o avanço do capital é necessária a construção
de um programa propositivo para a esquerda, que se constitua como eixo de luta
anticapitalista, construção esta que deve necessariamente ser realizada através das
organizações e coletivos populares e não só dos partidos de esquerda.

Nesse sentido, a aposta em trabalhos e centros culturais, de demandas sociais, atividades


e concentrações públicas de saraus, batalhas de rap, etc. já são primeiros passos para se
gestar esse novo caldo de poder popular que vá ao mesmo tempo reunificando os ativistas

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e as correntes em torno de problemas práticos para a partir daí enquadrar as questões
teóricas em inter-relação.

As frentes de luta serão fundamentais para se combater os muitos ataques colocados na


realidade, ao mesmo tempo que buscar apresentar algumas alternativas práticas para os
problemas que as pessoas vivem como educação, transporte, emprego, alimentação, lazer
e convivência, etc. A Frente Povo Sem Medo, impulsionada por iniciativa do MTST em
especial parece ser um destaque em nível nacional. Mas nas regiões já surgem uma grande
variedade de Comitês em torno de muitas questões a partir da luta pela virada contra
Bolsonaro no 2º turno e do movimento #Elenão, Comitês Contra o Projeto Escola Sem
Partido, Comitês contra a Reforma da Previdência, etc.

Não podemos nos prender apenas a pautas de exigência ao Estado (embora essas
continuem tendo um papel), mas avançar para realizações por fora do controle do estado
e do mercado, são bons referenciais. Será preciso transcender as fronteiras entre as
demandas buscando agrupá-las em feixes (terminologia de Alain Bihr) e dessa forma partir
para discussões e referenciais mais amplos. Por exemplo a partir da luta contra o projeto
Escola Sem Partido pode se avançar para discutir também a Reforma do Ensino Médio e
que tipo de educação precisamos, as regras nas escolas, a educação extra-escolar, etc.

Enfim, é preciso que se discuta e se passe a pensar com uma outra cabeça, de que a luta
política da população trabalhadora não pode ser representada no terreno estatal, ela é por
excelência extra-parlamentar. Isso não significa a negação das lutas parlamentares e nem
das eleições como espaço (limitado) de expressão e expansão dos alcance das ideias e
propostas socialistas mas que elas devem estar subordinadas às lutas diretas e formas de
existência e organização do movimento que se articulem por objetivos para além das
eleições e do parlamento e gestões públicas estatais. Neste sentido é positivo o
crescimento que teve o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que constitui uma bancada
a esquerda do PT e uma referência nas demandas dos movimentos sociais. Mesmo com o
avanço eleitoral da direita o PSOL conseguiu quase dobrar sua bancada federal (passando
de seis para dez deputados), além de ter conseguido eleger uma bancada paritária em
termos de gênero e com representantes dos movimentos negros e LGBT. Significativo
também foi o resultado para a bancada estadual no Rio de Janeiro onde, embora tenha
sido eleito governador com grande votação o candidato fascista Wilson Witzel, quatro dos
seis parlamentares eleitos são mulheres negras ligadas ao movimento popular de favelas
e ao mandato da vereadora assassinada Marielle Franco.

A atuação nas escolas também deve ser repensada com a sua combinação entre aulas e
atividades críticas no interior das escolas e continuação/aprofundamento dos debates e de
formação de grupos por fora das escolas em praças, associações, etc. Esses grupos podem
agrupar pessoas da região e assim buscar saídas mais sustentáveis de práticas, projetos,
etc. Como circuito de filmes, oficinas de temas atuais, informações etc.

Nos sindicatos em que não for possível quebrar a orientação burocrática, apostar na
construção de frentes de oposição que também tenham vida própria e possibilitem ser
espaços reais de aglutinação de ativistas e das lutas, a partir de ferramentas e meios que
fujam ao controle da burocracia e da patronal, como reuniões periódicas, finanças próprias,
redes sociais, etc. Mesmo continuando a batalha pela derrubada das burocracias e para
revolucionar a estrutura dos sindicatos, sabemos que não será fácil e muitas vezes por
aspectos da própria categoria será fundamental romper com os obstáculos burocráticos
que impeçam ou dificultem as pessoas de participarem, buscando justamente o oposto,

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abrir espaços e canais em que as pessoas não apenas “participem” mas possam ser
sujeitos em coletividade.

Como disse um companheiro em uma reunião, “será preciso ressignificar o que é ser de
esquerda”.

Artigo elaborado a partir de discussões realizadas por “Para Um Novo Começo” – Centro
Político Marxista

1. ADOUE,Silvia. Travessia de Casandra 42 anos depois. Com o pé no acelerador mas


para onde vamos? https://herramienta.com.ar/articulo.php?id=2907

2. ibidem

3. MIGUEL. Luis Felipe. A reemergência da direita brasileira. In GALLEGO, Ester Solano


(Org.) O ódio como política. São Paulo: Boitempo. 2018

4. Declaração de Maria das Dores Campos Machado, do Núcleo de Religião, Gênero, Ação
Social e Política da Escola de Serviço Social da UFRJ ao jornal Valor Econômico: "Quantos
padres ou bispos negros católicos existem hoje?", questiona, para em seguida responder:
"Muito poucos". "As igrejas evangélicas buscam seus pastores diretamente nas populações
mais carentes. Há vários pastores negros e também mulheres pastoras e bispas. As igrejas
evangélicas criaram um caminho de inclusão e ascensão social." Disponível em:
https://www.valor.com.br/cultura/5341121/um-brasil-de-maioria-evangelica

5. GASPAR, Malu. O Fiador. Revista Piauí nº 144. Disponível em:


https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-fiador/

6. CASIMIRO, Flávio Henrique Calheiros. As classes dominantes e a nova direita no


Brasil contemporâneo. In GALLEGO, Ester Solano (Org.) O ódio como política. São
Paulo: Boitempo. 2018

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