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Notas sobre o Conceito de Cidadania

Liszt Vieira.

O conceito de cidadania, como direito a os movimentos sociais uma força dinâmica


ter direitos, foi abordado de variadas pers­ necessária ao desenvolvimento dos direitos
pectivas. Em recente trabalho, Janoski de cidadania.
(1998) destaca três vertentes teóricas que se Para as teorias durkheimianas, a cidada­
ocupam de fenômenos relacionados à cida­ nia não se restringe àquela sancionada por lei
dania, quais sejam: a teoria de Marshall acer­ e tem na virtude cívica um outro aspecto ca­
ca dos direitos de cidadania; a abordagem de pital. Em decorrência desta concepção, abre-
Tocqueville/Durkheim a respeito da cultura se espaço para que, na esfera pública, grupos
cívica; e a teoria marxista/gramsciana acerca voluntários, privados e sem fins lucrativos,
da sociedade civil. formem a assim denominada sociedade civil.
Tornou-se clássica, como referência, a As teorias marxistas, por sua vez, enfa­
concepção de Thomas H. Marshall que, em tizam a reconstituição da sociedade civil -
1949, propôs a primeira teoria sociológica idéia primeiramente ventilada por Hegel,
de cidadania ao incluir os direitos e as obri­ retomada por Marx e de maneira significa­
gações inerentes à condição de cidadão. tiva revisitada por Gramsci, em 1920. Na
Centrado na realidade britânica da época, realidade, pode-se afirmar que Gramsci
em especial no conflito frontal entre capita­ opera uma mudança paradigmática com
lismo e igualdade, Marshall estabeleceu uma sua visão tripartite, Estado-Mercado-So-
tipologia dos direitos de cidadania: os direi­ ciedade Civil, uma vez que, para Marx e
tos civis, conquistados no século XVIII, os Hegel, a noção de sociedade civil abrangia
direitos políticos, no século XIX — ambos todas as organizações e atividades fora do
chamados direitos de primeira geração —e os Estado, inclusive as atividades econômicas
direitos sociais, alcançados no século XX, das empresas.
chamados direitos de segunda geração A atual referência à sociedade civil traz o
(Marshall 1967, Vieira, 1997). viés gramsciano de proteção contra os abu­
Posteriormente, autores diversos analisa­ sos estatais e do mercado. Esta terceira ver­
ram suas realidades nacionais valendo-se des­ tente teórica pode ser compreendida como
ta concepção, à qual acrescentaram nuanças uma intermediação entre o enfoque estatal
teóricas, como se vê em Reinhard Bendix adotado por Marshall e o enfoque da virtu­
(1964), que enfocou a ampliação da cidada­ de cívica centrada na sociedade, característi­
nia às classes trabalhadoras, através dos direi­ co das teorias durkeimianas.
tos de associação, educação e voto, bem Com o intuito de melhor compreender
como em Turner (1986), que, voltando sua a cidadania, contudo, vale lançar mão de ele­
atenção para a teoria do conflito, considera mentos de outras linhas teóricas.

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BIB, São Paulo, n° 51, Io semestre de 2001, pp. 35-47
Para Conceituar Cidadania des podem possuir seus próprios imperativos
morais, costumes ou mesmo direitos especí­
Não obstante constituir a língua franca ficos, mas estes só se tornarão direitos de ci­
da socialização, reivindicação de diversos dadania se forem universalmente aplicados e
movimentos sociais e mesmo palavra reitera- garantidos pelo Estado.
damente repetida em discursos, a cidadania O quarto elemento envolve a idéia de
não constitui idéia central nas ciências so­ que a cidadania é uma afirmação de igualda­
ciais. Buscando os atributos do termo, Ja- de, equilibrando-se direitos e deveres dentro
noski agrupa as perspectivas encontradas em de certos limites. A igualdade é formal, ga­
diversos dicionários - legal, normativa e das rantindo a possibilidade de acesso aos tribu­
ciências sociais —, considerando esta última nais, às legislaturas e às burocracias. Não se
mais própria a uma possível reconstrução de trata de igualdade completa, mas em geral
uma teoria da cidadania: “Cidadania é a per­ garante-se o aumento nos direitos dos subor­
tença passiva e ativa de indivíduos em um dinados em relação às elites dominantes.
Estado-nação com certos direitos e obriga­ A definição de cidadania fornecida pelas
ções universais em um específico nível de ciências sociais, conforme explicitada acima,
igualdade (Janoski, 1998)”. difere das demais, seja por não se restringir
Por pertença a um Estado-nação entende- ao processo de naturalização, como as defi­
se o estabelecimento de uma personalidade nições legais, por exemplo; seja por não se
em um território geográfico. Historicamente, esforçar em definir o que seja um “bom ci­
a cidadania foi concedida a restritos grupos de dadão”. E assim que Somers rejeita a cidada­
elite - homens ricos de Atenas e barões ingle­ nia como status e propõe sua definição como
ses do século XIII - e posteriormente estendi­ “processo” constituído por uma rede de rela­
da a uma grande porção dos residentes de um ções e idiomas políticos que acentuam a per­
país. Há, assim, duas possibilidades de per­ tença e os direitos e deveres universais em
tença: a interna, que pauta o modo pelo qual uma comunidade nacional (Somers, 1993).
um não-cidadão nos limites do Estado - gru­ Por sua vez, Turner considera a cidada­
pos estigmatizados por etnia, raça, gênero, nia um conjunto de práticas políticas, econô­
classe, entre outros - adquire direitos e reco­ micas, jurídicas e culturais que definem uma
nhecimento como cidadão; e a externa, que pessoa como membro competente da socie­
estabelece como estrangeiros fora do território dade. No entanto, a inclusão do elemento
nacional obtêm entrada e naturalização de “competência” no conceito é passível de críti­
forma a conquistar a cidadania. ca, uma vez que se podem encontrar em uma
Quanto ao segundo elemento da defi­ sociedade cidadãos que não se acham em
nição — a distinção entre direitos e deveres condições de exercer direitos políticos, e nem
ativos e passivos - pode-se dizer que a cida­ por isso perdem direitos civis ou sociais,
dania é constituída tanto por direitos passi­ como é o caso dos portadores de deficiências
vos de existência, legalmente limitados, mentais ou das pessoas em coma, por exem­
como por direitos ativos que propiciam a plo (Janoski, 1998).
capacidade presente e futura de influenciar Os direitos e as obrigações de cidadania
o poder político. existem, portanto, quando o Estado valida as
A terceira idéia-força da definição exclui normas de cidadania e adota medidas para
o caráter informal ou particularista dos direi­ implementá-las. Segundo essa visão, os pro­
tos de cidadania, que necessariamente de­ cessos de cidadania - lutas por poder entre
vem ser direitos universais promulgados em grupos e classes — não são necessariamente
lei e garantidos a todos. Pessoas e coletivida­ direitos de cidadania, mas constituem variá-

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veis independentes para sua formação. Em Constata-se, assim, que cidadania e so­
outras palavras, tais processos seriam partes ciedade civil são noções diferentes: a primei­
constitutivas da teoria, mas não do conceito ra é reforçada pelo Estado e a última abrange
definidor do termo. os grupos em harmonia ou conflito; ambas,
porém, são empiricamente contingentes. A
sociedade civil cria grupos e pressiona em
Cidadania e Sociedade Civil direção a determinadas opções políticas,
produzindo, conseqüentemente, estruturas
A cidadania concerne, deste modo, à re­ institucionais que favorecem a cidadania.
lação entre Estado e cidadão, especialmente Uma sociedade civil fraca, por outro lado,
no tocante a direitos e obrigações. Teorias será comumente dominada pelas esferas do
acerca da sociedade civil, preocupadas com Estado ou do mercado. Além disso, a socie­
as instituições mediadoras entre o cidadão e dade civil articula-se, primordialmente, na
o Estado, adicionam à compreensão desta esfera pública, onde associações e organiza­
relação uma gama mais variada de possibili­ ções se engajam em debates. Assim, a maior
dades. E importante observar, contudo, que, parte das lutas pela cidadania é realizada no
assim como a cidadania, a noção de socieda­ âmbito público em torno dos interesses de
de civil nunca foi uma idéia central nas ciên­ grupos sociais, embora - cabe a ressalva - a
cias sociais. sociedade civil não possa constituir o locus
Foram principalmente as construções dos direitos de cidadania, por não se tratar
teóricas de Habermas (espaço público) e de da esfera estatal, que assegura proteção ofi­
Cohen e Arato (reconstrução da sociedade cial mediante sanções legais.
civil), proporcionando a interação de qua­ A integração entre a teoria política e um
tro esferas da sociedade - privada, de mer­ viés mais empírico torna-se impositiva,
cado, pública e estatal -, que permitiram a quando se busca uma relação entre cidadania
conexão entre os conceitos de sociedade ci­ e sociedade civil. E preciso avaliar e comparar
vil e cidadania. as teorias políticas com os tipos particulares
O termo “sociedade civil”, da mesma de regimes, isto é, a teoria liberal com os re­
maneira que “cidadania”, também é alvo de gimes liberais, o comunitarismo com os regi­
discussão. Também aqui poderíamos isolar mes tradicionais e a teoria da democracia ex­
três perspectivas principais. Para a teoria tensiva com os regimes de social-democracia.
marxista, sociedade civil constitui uma esfe­ Para uma melhor compreensão das distinções
ra não-estatal de influência que emerge do entre tais regimes, é necessário se considerar
capitalismo e da industrialização. A defini­ os direitos e as obrigações do cidadão em
ção normativa, por sua vez, leva em conta o cada circunstância (Janoski, 1998).
desenvolvimento de efetiva proteção dos ci­
dadãos contra abusos de direitos. Já a pers­
pectiva das ciências sociais enfatiza a intera­ O Liberalismo e suas Críticas
ção entre grupos voluntários na esfera não-
estatal, conforme a definição: O liberalismo é a teoria dominante nos
países industrializados, especialmente anglo-
Sociedade civil representa uma esfera de dis­ saxões, onde tanto a teoria comunitarista
curso público dinâmico e participativo entre quanto a democrática extensiva (ou social-
o Estado, a esfera pública composta de orga­ democrata) têm menos simpatizantes. Com
nizações voluntárias, e a esfera do mercado ênfase no indivíduo, o liberalismo propõe
referente a empresas privadas e sindicatos.1 que a maioria dos direitos envolve liberdades

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inerentes a cada pessoa. Não obstante as pou­ reitos e liberdades iguais básicos”, e igual
cas obrigações de contrapartida, como o pa­ oportunidade combinada ao princípio da di­
gamento de impostos ou o serviço militar, as ferença, ou seja, “desigualdades sociais e eco­
liberdades civis e os direitos de propriedade nômicas somente são aceitas se operarem em
constituem pontos centrais. Os direitos indi­ favor dos membros menos beneficiados da
viduais são vitais para a liberdade de ação do sociedade” (Shafir, 1998).
indivíduo. Em contraposição, os direitos so­ De cunho liberal, esses princípios apre­
ciais ou os pertencentes a grupos representam sentam-se em ordem de prioridade. Somen­
uma violação aos princípios liberais, sendo te depois de garantidos os direitos e as liber­
assim evitados. Para o liberalismo, a relação dades básicos - os direitos civis de cidadania
entre direitos e obrigações é essencialmente —é que os direitos dos menos beneficiados —
contratual, trazendo em si uma forte carga de seus direitos sociais de cidadania — podem
reciprocidade: a cada direito corresponde em ser objeto de nossas preocupações.
geral uma obrigação. Rawls adverte, reiteradamente, que sua
Revisitando a posição liberal, em Uma teoria deve ser tida como uma teoria política
Teoria da Justiça (1971) e Liberalismo Político para uma cidadania democrática. A ênfase
(1993), o pensador norte-americano John na democracia justifica-se precisamente pelo
Rawls busca substituir, nos limites do libera­ fato de sua noção de justiça como eqüidade
lismo, a justificativa utilitária por uma mora­ proporcionar a possibilidade prática de um
lidade pública. O autor é liberal por acentuar consenso justaposto entre as diversas, e mesmo
a noção de indivíduo como portador de direi­ discordantes, doutrinas e princípios morais.
tos inalienáveis, mas diverge de outros liberais Partindo-se da premissa da diversidade,
por discutir tais direitos de liberdade e igual­ uma concepção única de justiça evidencia-
dade em um contexto de cooperação social. se inviável. “A força da sociedade liberal é
Tal modus de viver em sociedade justifi­ precisamente sua habilidade em tolerar a di­
ca-se apenas se a justiça for entendida como versidade, criando um domínio político
eqüidade: a cooperação entre indivíduos em auto-limitado de direitos individuais e esta­
uma realidade social ocorre pelo benefício belecendo uma estrutura institucional no
mútuo da própria cooperação. Esta mudan­ bojo da qual disputas são evitadas, permi­
ça de concepção é decisiva para o liberalis­ tindo a expressão política apenas de concep­
mo, uma vez que a justiça é permutada da ções de bem que não sejam monopolísticas”
esfera privada para a pública. (Shafir, 1998).
A contribuição de Rawls vai ainda mais Em decorrência, o cidadão é concebido,
além: considerando a diversidade inerente às pela teoria liberal, como um indivíduo dota­
sociedades democráticas contemporâneas, o do de liberdade e responsável pelo exercício
autor tece sua teoria tendo em consideração, de seus direitos. A cidadania encontra-se, as­
especialmente em Liberalismo Político, o fato sim, estreitamente relacionada à imagem pú­
de que nem todos os seres racionais e bem blica do indivíduo como cidadão livre e
informados possuem a mesma idéia de bem. igual, e não às características que determi­
É precisamente neste ponto que se localiza nam sua identidade.
seu esforço em conceber um modelo de so­ Não obstante a prioridade concedida
ciedade bem-ordenada, na qual se possa as­ aos direitos individuais, Rawls enfatiza a
segurar a cooperação na diversidade. idéia de cooperação, acrescentando que os
Tal é sua idéia de democracia constitu­ cidadãos possuem como que virtudes coope­
cional moderna, norteada por dois princí­ rativas, as quais possibilitam não apenas
pios centrais: um “esquema adequado de di­ parcerias e associações, mas também víncu-

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los fortes e estáveis entre os membros de A mais incisiva crítica realizada pela cor­
uma sociedade. A aceitação do princípio rente comunitarista ao liberalismo, quer em
moral de justiça como eqüidade, mediante sua versão utilitarista, ou mesmo na rawlsia-
um consenso justaposto, e não apenas ade­ na, deve-se ao fato de este apresentar forte
são aos aspectos formais da estrutura políci- acento individualista. O declínio da solida­
co-institucional, constitui para Rawls, na riedade entre os cidadãos e a ausência do
observação de inúmeros críticos, o funda­ senso de destino único estariam na raiz dos
mento da unidade social. grandes males da modernidade. Enquanto a
Dois aspectos devem ser ressaltados no visão liberal, individualista e legalista de ci­
quadro teórico apresentado por Rawls: uma dadania sofre influência do modelo de cida­
normatividade inerente à teoria —sociedade dania da Roma imperial - em que pese a
bem-ordenada, justa e ideal - aliada a um possível influência do modelo grego em
caráter histórico-contingente. De modo ge­ Rawls -, a visão comunitarista inspira-se vi­
ral, o corpo de idéias trazido pelo autor se sivelmente no ideal de cidadania da polis gre­
insere numa cultura política marcada pela ga e no republicanismo cívico, de inspiração
influência da tradição grega de cidadania, e aristotélica, que se afirma no Ocidente a par­
reconstituída na era moderna pela confluên­ tir do Renascimento.
cia da tolerância religiosa, após as guerras e Contudo, na visão comunitarista, bem
os conflitos de religião, da economia de mer­ como na liberal, a cidadania assume papel
cado e dos princípios constitucionais de go­ normativo, embora com características dife­
verno (Shafir, 1998). rentes. Por um lado, a perspectiva liberal lhe
confere o caráter acessório de status, em que a
A Crítica Comunitarista proteção dos direitos inalienáveis se dá em
contraprestação a tarefas políticas mínimas,
Ao assumir uma posição oposta ao libera­ como o voto periódico e o serviço militar, por
lismo, o comunitarismo prioriza a comunida­ exemplo. Por outro, os comunitaristas confe­
de, sociedade ou nação, invocando a solidarie­ rem à cidadania o caráter de virtude. Na visão
dade e o senso de um destino comum como liberal, a cidadania é um acessório, não um
pedra de toque da coesão social. Na perspecti­ valor em si mesmo. Na visão comunitarista,
va comunitarista, a sociedade sustenta-se pela os indivíduos são membros de unidades
ação e pelo apoio dos grupos, contrariamente maiores, e uma delas é a comunidade política.
às decisões atomistas do indivíduo no âmbito A comunidade política desempenha, na
liberal. Seu principal objetivo consiste em perspectiva comunitarista, papel central, ir­
construir uma comunidade baseada em valo­ redutível a outros elementos. É entendida,
res centrais, como identidade comum, solida­ de um lado, como relação que fornece ao ci­
riedade, participação e integração. dadão a sua identidade e, de outro, como
Por conseguinte, as obrigações tornam- unidade social e espaço para o exercício da
se predominantes em face dos direitos, os virtude de participação. A cidadania deve ser
quais se restringem oficialmente à proteção considerada uma atividade ou uma prática, e
contra o inimigo externo. Critica-se, assim, não - como sustentam os liberais - simples­
de forma pontual, a fixação nos direitos rea­ mente um status de pertença.2A precedência
lizada pelo liberalismo. Todavia, a reciproci­ deve ser concedida não aos direitos indivi­
dade entre direitos e obrigações é amenizada duais, mas à busca do bem comum.
para a perspectiva comunitarista: direitos são A cidadania, assim, somente pode ser
conferidos à medida que uma série de obri­ compreendida como prática, de modo que a
gações é cumprida. eterna balança entre direitos e bem comum

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pende, nesta perspectiva, para o último. Mas historicamente discriminados por sua classe,
como seria possível atingir o bem comum? gênero ou etnia. A teoria democrática ex­
Que projeto de comunidade de cidadãos pansiva reivindica o aumento da participa­
pode ser efetivamente oferecido a uma socie­ ção coletiva nas decisões e uma maior intera­
dade multiiacetada? ção entre o cidadão e as instituições.
Adrian Oldfield aponta dois modelos: Apesar de partilhar com o comunitaris-
no primeiro, encontram-se cidadãos enga­ mo a crítica à centralização liberal no indiví­
jados em contextos de revolução ou guerra duo, os representantes da teoria democrática
de liberação, contextos estes em que a cida­ expansiva enfatizam os direitos de participa­
dania passa a funcionar como identidade ção, resistindo em aceitar o papel secundário
política aglutinadora contra o inimigo. To­ delegado aos direitos por parte da perspecti­
davia, a efemeridade dos acontecimentos va comunitarista. Reivindicam um equilí­
impede que o endosso do coletivo perdure brio entre direitos individuais, direitos do
por muito tempo. No segundo, encontram- grupo e obrigações: o resultado é um com­
se formas de vida comunal em unidades po­ plexo sistema identitário, construído a partir
líticas menos extensas, caso em que se reco­ da noção do indivíduo como participante
nhece ser quase impossível a constituição das atividades da comunidade.
da comunidade em nível nacional. Assim, Já em 1949, data de publicação de Cida­
resta a questão de como compatibilizar as dania e Classe Social, Marshall vislumbrava a
minorias e a coesão da comunidade (Old­ cidadania como o verdadeiro elemento de mu­
field, in Shafir, 1998). dança social no contexto da realidade indus­
O filósofo alemão Jurgen Habermas criti­ trial e a correlata experiência do Welfare State
ca as perspectivas liberal e comunitarista de ci­ do pós-guerra. A expansão de direitos corres­
dadania. O papel do cidadão limita-se a uma ponderia primeiramente ao fortalecimento de
visão individualista e instrumental na tradição direitos previamente adquiridos, mas também
liberal do direito natural iniciada com Locke, à incorporação de novos grupos ao Estado.
enquanto uma compreensão comunitária e Observe-se aqui que a base territorial da
ética emerge na tradição de filosofia política cidadania transformou-se historicamente,
originária de Aristóteles. O modelo liberal fo­ passando na Antiguidade da polis grega ao
caliza principalmente direitos individuais e império romano, deste à cidade medieval e
tratamento igual, enquanto para a visão co­ finalmente ao Estado moderno, após o Re­
munitarista a participação no governo é a es­ nascimento. O processo de centralização do
sência da liberdade (Habermas, 1995). qual o Estado é produto corresponde preci­
Habermas busca ultrapassar a dicotomia samente à expansão da forma local para a
liberal versus comunitarista incorporando as institucional de cidadania. Deste ponto de
dimensões status e prática num modelo ana­ vista, a expansão dos direitos é parte de um
lítico próprio. processo de democratização, entendida
como aquisição por parte das classes inferio­
A Crítica Social-Democrata res dos direitos originalmente criados pela e
para as classes superiores.
Na visão de Janoski (1998), a teoria da Três gerações de direitos de cidadania
democracia expansiva3 constituiria uma ter­ podem ser, assim, descritas: civis, políticos e
ceira via, desvinculando-se de qualquer in­ sociais. Primeiramente, os direitos civis, cor­
termediação entre as visões liberal e comuni­ respondendo aos direitos necessários para o
tarista. Esta teoria preconiza a expansão de exercício das liberdades, originados no sécu­
direitos individuais ou coletivos a sujeitos lo XVIII; depois, os direitos políticos, consa-

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grados no século XIX, os quais garantem a teta da desigualdade social legitimada”. Tal
participação, tanto ativa quanto passiva, no ambigüidade ecoará, nas décadas posteriores,
processo político; c finalmente, já no século no debate entre marxistas e social-democratas.
XX, os direitos sociais de cidadania, corres­ Estudos empíricos demonstram a multi­
pondentes à aquisição de um padrão mínimo plicidade das relações entre diferentes tipos
de bem-estar e segurança sociais que deve pre­ de direitos em diversas formas de organiza­
valecer na sociedade. ção social. Coube a Nancy Fraser e Linda
E imprescindível, entretanto, evitar o Gordon (in Shafir, 1998) a análise dos direi­
habitual equívoco de equiparar os direitos de tos de cidadania nos contornos da realidade
welfare com a cidadania social: “os primeiros norte-americana, constatando que tal pro­
baseiam-se em meios e destacam os indiví­ cesso ocorreu em contraste com o modelo li­
duos vulneráveis que necessitam proteção; a near e evolucionista traçado por Marshall.
última é universal e adquirida como um di­ Nos Estados Unidos da América, a tra­
reito pelo fato de pertencer à comunidade” dicional luta pelos direitos civis obstou o
(Shafir, 1998). crescimento dos direitos sociais de cidada­
Considerando a potencialidade de confli­ nia. Em contrapartida, o fascismo e o comu­
to na expansão cumulativa de direitos, Mars­ nismo apresentaram-se como forma de con­
hall direciona sua atenção ao antagonismo quista da cidadania social em detrimento
existente entre direitos civis, os quais consa­ dos direitos civis e políticos. Mesmo a reali­
gram a proteção do indivíduo contra o Esta­ dade diferenciada das regiões da Grã-Breta-
do, e os direitos sociais, que devem garantir o nha desafia esta espécie de análise evolucio­
direito a uma renda real, sem considerar o va­ nista da cidadania.
lor de mercado, por meio de benefícios asse­ A vertente social democrata também foi
gurados pelo Estado. Por conseguinte, a cida­ criticada por deixar lacunas na crítica à pers­
dania social colide com as condições do capi­ pectiva liberal. Na realidade, restringiu seu
talismo e seu exercício gera conflito. olhar apenas à classe trabalhadora, em detri­
Marshall conclui que a cidadania social e mento de outros conflitos, como os de gêne­
o capitalismo estão em guerra. Ao mesmo ro, étnicos, nacionalistas etc.
tempo, argumenta que “cidadania e classe so­ A figura a seguir esquematiza, na visão
cial são compatíveis em nossa sociedade na de Janoski (1998), o confronto entre libera­
medida em que a cidadania tornou-se a arqui­ lismo, social-democracia e comunitarismo.

Liberalismo é baseado no individualismo; direitos


civis são contratualmente relacionados (troca restri­
ta) apenas a algumas obrigações mais essenciais.
Direitos > Obrigações

Democracia Social ou Expansiva é baseada na Comunitarismo é baseado em forte hierarquia


participação igualitária de grupos e indivíduos; comunitária; as obrigações da comunidade cor­
toda uma série de direitos e obrigações é balan­ respondem aos direitos em relações de longo
ceada por trocas restritas e generalizadas. prazo (troca generalizada) e têm prioridade na
Direitos = Obrigações salvaguarda do bem-estar da comunidade.
Direitos < Obrigações

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Ainda segundo Janoski, essas três teorias ça à comunidade e de herança comum. A ex­
políticas podem ser associadas a regimes es­ tensão dos direitos de cidadania acompa­
tatais: o liberalismo aos direitos civis nos re­ nhou a formação de instituições nacionais
gimes liberais; o comunitarismo e sua priori- (mercado, educação, planejamento), tornan­
zação das obrigações sobre os direitos aos re­ do-se o Estado-nação o agente garantidor
gimes tradicionais; e a democracia expansiva dos direitos de cidadania.
com seus altos níveis de direitos políticos, A expressão nação surge, com seu mo­
sociais e de participação aos regimes social- derno significado político, no bojo da
democráticos. erupção revolucionária francesa do fim do
Resulta daí o fato de a sociedade civil século XVIII. O diploma jurídico da Revo­
adquirir contornos particulares em cada um lução Francesa, a Declaração dos Direitos
dos regimes descritos: nos Estados conside­ do Homem e do Cidadão, trouxe em seu
rados liberais - Austrália, Canadá, Japão, texto duas bandeiras simultâneas: a sobera­
Suíça e Estados Unidos - há maior separação nia democrática da nação e os direitos civis
entre as esferas estatal, mercantil e pública. de cidadania.
Os regimes de cunho tradicional —Áustria, Além disso, a coincidência entre nacio­
Bélgica, França, Alemanha e Itália - utilizam nalidade e cidadania deve-se também à lon­
a perspectiva comunitarista para justificar ga existência do antigo regime francês que
uma ampla justaposição entre as esferas do levou a uma crescente homogenização da
mercado e pública, e muitas vezes também a população, desdobrada em processos diver­
estatal. Os regimes da social-democracia - sos, como administração pública, educação,
Dinamarca, Noruega, Suécia, Holanda, Fin­ forças armadas etc. Outro fator relevante foi
lândia - utilizam-se da teoria da democracia a visão cívica de cidadania do Iluminismo
expansiva para incentivar a participação so­ que forneceu um importante corpo de valo­
cial, tanto no governo quanto na economia. res fundamentando o nacionalismo liberal
(Janoski, 1998). (Brubaker in Shafir, 1998).
Tal modelo pode apresentar certa utili­ Por sua vez, no modelo alemão, baseado
dade analítica, mas não é isento de críticas. nos reinos e principados germânicos frag­
A separação entre social-democracia e comu­ mentados, a separação entre cidadania polí­
nitarismo parece excessivamente radical. tica e nação deu lugar ao nacionalismo ro­
Causa estranheza ainda a denominação de mântico de caráter étnico. Em vez da visão
“tradicionais” aos países de visível inspiração iluminista de nação como parceria entre ci­
republicana, como a França, por exemplo. dadãos com idênticos direitos civis univer­
Ao lado das vertentes comunitarista e so- sais, o Volk étnico foi situado como um cor­
cial-democrata, e de certo modo completan­ po orgânico com vida própria. Nações, no
do-as em sua crítica ao liberalismo, possibili­ nacionalismo romântico, são todas radical­
dades alternativas de cidadania são oferecidas mente diferentes umas das outras, pois seus
por outras correntes críticas, como o nacio­ membros possuem marcas culturais distin­
nalismo, o feminismo e o multiculturalismo. tas, como língua, religião e história.
O elemento nação vincula-se nesse mo­
A Crítica Nacionalista delo à identidade de seus membros, ou seja,
enquanto no modelo francês o indivíduo é
Na leitura nacionalista, a cidadania mo­ reconhecido por seus direitos, no alemão os
derna encontra-se diretamente relacionada à indivíduos são caracterizados por suas iden­
formação da consciência nacional, a qual tidades. É interessante observar que a diver­
imprime nos indivíduos um senso de perten­ sa caracterização da cidadania produz dife-

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rentes políticas de imigração. A política fran­ em geral, civis e sociais, e não os direitos po­
cesa de incorporação e assimilação a uma líticos —aos imigrantes, particularmente na
cultura nacional garante a cidadania jus soli, Europa, identificando o fenômeno contem­
ao passo que o nacionalismo étnico alemão porâneo de desacoplamento dos direitos de
adotou o critério do jus sangilinis, priorizan­ cidadania e identidade.
do a herança sangüínea. No interior do processo de globalização,
no qual o Estado-nação tende a declinar em
A Crítica Multiculturalista importância, Soysal vislumbra a transição
para um novo espaço de cidadania, que teria
Não obstante o esforço das tendências passado da polis ao império, à cidade, ao Es­
nacionalistas para que o Estado-nação se tado-nação e agora ao espaço global ou
mantivesse como espaço de uma cidadania transnacional. A consagração universal dos
homogênea, a realidade migratória global, direitos humanos sublinha a transição da ci­
mormente no pós-guerra, desafia os naciona- dadania vinculada aos direitos individuais
lismos em busca de uma constante extensão para cidadania vinculada à pessoa universal.
dos direitos de cidadania. Duas perspectivas, Vale ressaltar que, a despeito de sua ten­
potencialmente opostas, tentam dar conta dência ao declínio, o Estado-nação não esta­
das novas direções a serem tomadas pela cida­ ria desaparecendo; antes, sua estrutura é es­
dania, diante da acelerada erosão da homoge­ sencial para a garantia seja da cidadania na­
neidade nos limites do Estado-nação. cional, seja pós-nacional.
De um lado, a aspiração da cidadania
multicultural de Will Kymlicka tem seu foco A Crítica Feminista
central na diversidade étnica entre grupos
conviventes em uma mesma sociedade. Di­ Também o feminismo vem contribuir
reitos não devem ser garantidos somente a para a crítica do liberalismo. A cidadania li­
indivíduos, mas também a estes grupos, de­ beral perpetua as mulheres como cidadãs de
fendendo-se a necessidade de uma cidadania segunda classe, fato que constitui o ponto
diferenciada. O objetivo do critério identitá- comum entre as diversas críticas feministas.
rio, como no caso específico dos imigrantes, Persiste, mesmo nas democracias ocidentais,
não consiste em um movimento de auto-ex- a dicotomia, de inspiração grega, entre a es­
clusão do corpo social, mas antes em garan­ fera pública racional e masculina, e a esfera
tir sua inclusão, mantendo-se o respeito por privada como domínio emocional feminino.
sua cultura. Destarte, propõe-se uma exten­ Parte da crítica feminista prefere traba­
são do esquema linear de Marshall: a garan­ lhar com a questão dos direitos sociais de ci­
tia de uma quarta geração de direitos, ou dadania descritos por Marshall, por acreditar
melhor, dos direitos culturais de cidadania que sua garantia possa alterar a estratificação
(Kymlicka, 1995). de gênero. Outra parte propõe a noção de
Em sua formulação mais radical, a visão comunidade de mulheres, baseada em laços
multiculturalista sustenta que a cidadania voluntários primários entre suas constituin­
como identidade deve ter precedência sobre tes. Na realidade, surgiram diversas perspec­
a cidadania como status legal. Passaríamos, tivas femininistas — comunitaristas, social-
assim, da cidadania comum, típica das socie­ democratas, multiculturalistas e neo-liberais.
dades liberais, a uma cidadania diferenciada, Muitas delas começaram priorizando a ban­
concedida aos grupos de imigrantes. deira da igualdade, sofrendo posteriormente
Yasemin Soysal, por sua vez, constata a uma mudança paradigmática, para se deslo­
existência de alguma garantia de direitos - car em direção à bandeira da diferença.

43
A mais contundente oposição à perspec­ eqüidade. É preciso que se concretizem os
tiva liberal provém dos defensores do femi­ direitos em relação aos grupos sociais uma
nismo da diferença. íris Young, uma de suas vez que, sob os auspícios da universalidade,
principais representantes, lembra que a de­ a exclusão sempre existiu e continuará exis­
manda por direitos e liberdades iguais, ine­ tindo: “a igualdade formal, ironicamente,
rente ao liberalismo, nega as diferenças e re­ cria desigualdade substantiva” (Young, in
cria a situação paradoxal em que a igualdade Shafir, 1998).
se baseia na rejeição às necessidades e às ca­ Qualquer concepção de justiça como
racterísticas essenciais das mulheres (Young, eqüidade (como consta na proposta rawl-
in Shafir, 1998). siana) deve levar em conta a heterogeneida­
A cidadania, da Grécia à modernidade, de e a conseqüente multiplicidade de pers­
baseou-se em uma prática abstrata, na qual pectivas. Endossa-se, assim, a proposta de
as identidades concretas foram, de algum cidadania diferenciada de autoria de
modo, excluídas em nome de uma identida­ Kymlicka. No entanto, ao passo que este
de pública e universal. Em sua crítica, o fe­ propõe a cidadania em prol da representa­
minismo propõe a reconstrução da esfera ção das diferenças culturais, Young vislum­
pública de forma a incluir questões privadas bra sua aplicação mais precisamente em ra­
e pessoais de interesse das mulheres, contri­ zão dos grupos oprimidos, entre os quais
buindo, assim, para publicizar ou politizar encontram-se, no contexto norte-america­
questões até então consideradas privadas. no, mulheres, negros, indígenas, “chica-
nos”, porto-riquenhos, homossexuais, ido­
Múltiplas Cidadanias sos, trabalhadores, pobres, deficientes físi­
cos e mentais, entre outros.
Diante deste quadro, teórico e empíri­ Em segundo lugar, apresenta-se a alter­
co, a preocupação contemporânea direciona- nativa de Michael Walzer, para quem o cen­
se fundamentalmente para a busca de com­ tro desta diversidade de cidadanias reside
patibilizar a existência de diversas possibili­ precisamente em uma delas: a política. Ele­
dades e gradações de cidadania: a vida em gendo e comparando quatro “ideais de vida
pequenas comunidades, a reformulação da digna” - cidadão, produtor, consumidor e
cidadania no Estado-nação, ou mesmo em membro da nação - Walzer conclui pela pre­
nível global. dominância do primeiro no engajamento
A cidadania, no âmbito deste esforço público, rejeitando os outros discursos de ci­
coletivo, não pode mais ser vista como um dadania baseados nos outros três ideais de
conjunto de direitos lormais, mas como um vida digna.
modo de incorporação de indivíduos e gru­ E clara, na preeminência conferida por
pos ao contexto social. No intuito de solu­ Walzer à cidadania política, sua admiração
cionar a relação conflituosa entre as múlti­ pela tradição grega, na qual a participação
plas tradições de cidadania, baseadas em sta- política assume a mais alta forma de humani­
tus, participação e identidade, alguns autores dade como princípio de incorporação e uni­
pretendem formular um complexo sistema, dade social. Walzer explora ainda o conceito
com o acesso a direitos garantidos por insti­ de sociedade civil como arena de enfrenta-
tuições locais, nacionais ou transnacionais. mento: enquanto a cidadania é a base da
Duas abordagens principais serão aqui unidade social, a sociedade civil, ao permitir
destacadas. Primeiramente, para íris Young, o enfrentamento crítico das diversas reivin­
é importante a institucionalização de cidada­ dicações sociais, desempenha sua tarefa clás­
nias múltiplas, de forma a assegurar justiça e sica de gerar civilidade.

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O respeito à diversidade e ao pluralismo c) Dar margem à compreensão do nexo de so­
social deve ser parte integrante do discurso lidariedade que mantém o conjunto social.
da cidadania. Para Walzer, a cidadania polí­ A cidadania presume a existência de uma
tica é a arena onde se estabelece um mínimo sociedade civil inserida em redes e conexões
de unidade social (Walzer, 1992). entre pessoas e grupos, e ainda normas e va­
lores que exerçam papel significativo na
vida social. Afinal, a cidadania desenvolve-
À Guisa de Conclusão se em comunidades de cidadãos responsá­
veis através da estrutura da sociedade civil.
Encontramo-nos, sem dúvida, em um
momento de revitalização do conceito de ci­ Por fim, Janoski afirma que os indivíduos
dadania. Segundo Janoski (1998), o desen­ e seus grupos podem adotar valores diversos e
volvimento de uma teoria pertinente e cui­ “pós-modernos” e demandam ainda a aplica­
dadosamente elaborada se faz necessário, ção universalista de políticas estatais aos di­
com vista a três metas principais: versos grupos, de gênero, idade, classe ou et­
nia. Enquanto muitas das teorias de cidadania
a) Proporcionar a oportunidade de se anali­ requerem uma universalidade de direito e
sar os sistemas econômicos e políticos de obrigações, cada um destes direitos de fato be­
diversos países em uma perspectiva com­ neficia certos grupos mais do que outros.
parativa, de modo a auxiliar o desenvol­ Assim, a participação de uma diversida­
vimento dos direitos, sobretudo os direi­ de de cidadãos expressa reivindicações espe­
tos de participação. cíficas por cidadania; todavia, esses grupos
b) Possibilitar a explicação de aspectos da so­ “pós-modernos” poderiam lutar por novos
ciedade civil e da organização social. Uma direitos e obrigações não só de forma a se be­
teoria da cidadania tem o fito de organizar neficiarem especificamente, mas também a
as reivindicações dos diversos grupos so­ outros. É precisamente neste sentido que es­
ciais e prever os resultados dos conflitos ses direitos mantêm-se nas fronteiras de uma
das diversas bases ideológicas. cidadania universal.

Notas
1. Janoski (1998). Para a discussão do conceito de sociedade civil, consultar Vieira, Cida­
dania e Globalização, 1997.
2. Um exemplo recente da visão liberal que aqui criticamos pode ser encontrado em “A
Cidadania Multidimensional na Era dos Direitos” (Torres, 1999).
3. A expressão “democracia expansiva”, associada à social-democracia, foi adotada por
M arkW arren em 1992 no artigo “Democratic Theory and Sell-Transformation”, Ame­
rican Political Science Review, 86 (I): 8-23.

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45
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cracy, Londres, Verso.

Resumo

Notas sobre o Conceito de Cidadania


O artigo analisa o conceito de cidadania a partir de três linhas teóricas principais: a teoria de
Marshall acerca dos direitos de cidadania; a abordagem de Tocqueville/Durkheim a respeito
da cultura cívica; e a teoria marxista/gramsciana acerca da sociedade civil. Aborda-se, assim, a
inter-relação entre cidadania, sociedade civil e espaço público.

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A segunda parte trata da problemática da cidadania à luz do liberalismo e de suas principais
críticas. Analisam-se as críticas comunitarista, social-democrata, nacionalista, multiculturalis-
ta, feminista e a perspectiva de múltiplas cidadanias.
Palavras-chave: cidadania; sociedade civil; liberalismo x comunitarismo.

Abstract

Notes on the Concept of Citizenship


This article analyses the concept of citizenship based on three major theoretical lines: Mars­
hall theory about the rights of citizenship; the Tocqueville/Durkheim approach on civic cul­
ture; and the Marxist Gramsci theory on civil society. The relationship among citizenship, ci­
vil society and public space is thus approached.
A second part deals with the citizenship issue from the viewpoint of liberalism and of some
of its major criticisms. The communitarian, social-democrat, nationalist, multiculturalist, fe­
minist as well as the multiple citizenship perspective are then analysed.
Keywords: citizenship; civil society; liberalism x communitarianism.

Résumé

Notes à propos du Concept de Citoyenneté


L’article analyse le concept de citoyenneté à partir de trois lignes théoriques principales : la
théorie de Marshall à propos des droits de citoyenneté ; l’abordage de Tocqueville/Durkheim à
propos du respect de la culture civique ; et la théorie marxiste/gramscienne à propos de la
société civile. Nous abordons, ainsi l'interrelation entre la citoyenneté, la société civile et l’e­
space public. La seconde partie aborde le problème de la citoyenneté à la lumière du libéral­
isme et de ses principales critiques. Ainsi, sont analysées les critiques communiste, social-
démocrate, nationaliste, multiculturaliste, féministe et la perspective de multiples citoyennetés.
Mots-clés: citoyenneté ; société civile ; libéralisme x communisme.

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