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Cultura e Consciência de classe

Na década de 60, um grupo de intelectuais fundam a Escola de Estudos Culturais, na Grã-Bretanha.


Em suas análises, Hall, Willams e outros tentam superar o paradigma marxiano de cultura como
mera superestrutura da ideologia dominante. Para eles, parte dos equívocos dos marxistas do início
do século XX era uma incompreensão do papel da linguagem e cultura na luta de classes. Estes
equívocos culminaram nos discursos de Kruschev sobre Stalin e numa necessidade de autoanálise –
dando origem ao que se conhece por New-left.

Historicamente, a luta de classes implica, como já discorreu Gramsci nos seus Cadernos do Cárcere,
num domínio não só do poder político-econômico como também no numa hegemonia ideológica.
Esta última se dá através da atividade de igrejas, jornais, escolas, associações de bairro, entre
outros. Para Gramsci, a tomada do poder pode coroar uma nova classe Dominante. Conduto, não
sendo antes a classe Dirigente, seu poder na sociedade estará enfraquecido. Como exemplo, ele cita
a posição da Nobreza e da Igreja Católica. Durante séculos, estes foram a classe dirigente, e
aqueles, a dominante. A ascensão da Burguesia modificou em muito pouco o “folclore”, conceito do
autor italiano para definir o senso comum – sistema de símbolos, signos que moldam as
expectativas das populações numa sociedade. Em grande parte da Europa, a sociedade do século
XIX viu uma aliança entre Igreja (como dirigente) e a Burguesia (como dominante).

Nesta época, um aluno de Hegel analisa a lógica interna daquele novo sistema que suplantava a
nobreza feudal. Entendendo essas relações econômicas como motor da história, Karl Marx descreve
como a a humanidade passara por diferentes estágios conforme essas relações se modificavam.
Corretamente, Marx descreve como a Ideologia é um instrumento de subjugação das classes
dominadas por parte das dominantes. A Burguesia tinha como visão de mundo uma conciliação
entre o positivismo ascendente e a religião cristã. Esta estranha síntese pode ser vista em Napoleão:
devolvendo em parte o poder e influência da Igreja e instituindo na educação o ensino baseado nos
Enciclopedistas do iluminismo e patriotismo.

A análise marxiana influenciou fortemente as lutas sindicais das décadas seguintes. Naquele
ambiente, intelectuais, estudantes e lideranças proletárias discutiam os novos rumos da luta
trabalhista. Surge então o problema: como um proletariado sem consciência de si poderia começar
uma revolução? Lukács aborda mais profundamente esta questão em “História e consciência de
classe”. Definindo que a burguesia tem apenas uma “falsa consciência”, o autor descreve o
proletariado como o único que, no ato de exercer a consciência de classe, une práxis e teoria –
entende enquanto age e age enquanto entende seu papel histórico.

Fortemente influenciados pelas gerações anteriores, intelectuais da Escola de Frankfurt inauguram


na Teoria crítica um novo enfoque teórico. Estuda-se profundamente as raízes da ideologia
burguesa. Em “Dialética do Esclarecimento”, Horkheimer e Adorno dissecam como a razão
instrumental iluminista transforma, dialeticamente, as ideias da Revolução Francesa no Fascismo.
Segundo os autores, a concepção de uma sociedade “científica” nos moldes do positivismo mexe na
Natureza: esta passa a ser mero instrumento do sistema produtivo. Não só a Natureza, mas também
os homens se tornam engrenagens do sistema de produção. Se a gestão política deve ser regida
também por “leis científicas” a sociedade não tem espaço para “erros” e “defeitos”. O ideal de
eugenia nazista, controle do trabalho e dos sindicatos e supressão de greves brotam desta concepção
de mundo. Adorno também expõe a indústria cultural como uma padronização do consumo e o lazer
e estilo de vida do trabalhador como mecanismo do sistema econômico.
Fortemente influenciados pela escola de Frankfurt, os autores da Escola de Estudos Culturais
aprofundam as ideias de controle do folclore pelas classes dirigentes (Gramsci) e da indústria de
massa e razão instrumental burguesa como método de opressão cultural.

Em Williams, conceitua-se cultura em dois aspectos: de um lado como domínio de ideias, de outro
como práticas sociais. Na primeira, busca-se entender como se dá uma relação de opressão. Na
segnuda, denuncia-se a segregação de cultura e não-cultura de um grupo dominante. Esta
perspectiva leva o autor a superar a ideia marxiana de “cultura como superestrutura”. A cultura é o
campo mesmo onde todas as atividades humanas ocorrem.

Já em Hall, quando um burguês enxerga Wagner e Tchaikovsky como cultura enquanto desdenha de
manifestações populares como o Blues ou Reggae, ele está exercendo sua hegemonia, criando um
consenso. Hall acrescenta esse poder é estruturado na linguagem e comunicação: a indústria cultural
constrói o discurso que é assimilado pelo dominado. Na televisão, por exemplo, ele descreve um
processo de codificação/decodificação. Com sua Teoria da Recepção, define três diferentes
decodificações possíveis: na primeira (posição hegemônica-dominante), a mensagem é assimilada
como foi intencionada. Na segunda (posição do código negociado), aceita-se a legitimidade dos
conceitos sem no entanto assentir com a ação – é uma posição marcada por contradições. Na
terceira (posição globalmente contrária), o receptor entende o sentido e a intenção da mensagem,
mas contexta e reage de forma oposta ao projeto do emissor. Um exemplo deste último caso foram
as manifestações de 2013 (Passe Livre): a mídia anunciava o “protesto dos 20 centavos” como
“vandalismo” e boa parte da população apoiou o grupo nas reinvindicações – levando cartazes de
“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!” compreendendo como a imprensa ligada ao grande
capital tentava colocar o povo contra os manifestantes.

Transcendendo a noção de dominação apenas em classes, o sociólogo jamaicano leva o debate a


novos ambientes: fala-se da dominação entre sexos, etnias, entre outros. A hegemonia cultural não é
somente a opressão de um patrão inglês sobre seu empregado branco, mas também da
discriminação de um operário branco inglês a um imigrante. Um exemplo trágico é o crescimento
da cultura Skinhead: derivados da cultura “mod” e influenciados pelo estilo dos “rude boys”
jamaicanos, no fim dos anos 60, muitos dos membros da cultura Skinhead eram simples
trabalhadores brancos ingleses, amigos de imigrantes da Jamaica, ostentando suas roupas de
operários (botas e suspensório), amor ao futebol e hábito de beber cerveja. Com a crise econômica
da década de 1970 e ascensão do National Front (partido de extrema-direita britânica) a subcultura
Skinhead se tornou majoritariamente composta de proletários britânicos xenofóbicos, violentos e
hostis. Muitos casos de agressão a imigrantes foram noticiados, brigas de hooligans, surgimento da
cultura nazi-punk.

Hoje, no Brasil, a internet, whatsapp e as ditas “fake news” ditam os rumos da política:
desorientados e inconscientes de si, grande parte do proletariado e das minorias do Brasil tem
acatado à posição hegemônica-dominante: operários contra as lutas sindicais, mulheres contra o
feminismo, negros contra o movimento negro, gays e trans contra os direitos LGBTQQICAPF2K+.
As teorias desenvolvidas pela Escola de Estudos Culturais fornecem importantes ferramentas no
diagnóstico dos rumos da cultura, política e economia do mundo contemporâneo. A ignorância a
respeito desses autores está diretamente ligada à falta de consciência de classe ao redor do globo.