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APOIO CULTURAL PATROCÍNIO

DIAÇÕES, MEDIAÇÕES,
CNOLOGIA TECNOLOGIA
SPAÇO E ESPAÇO
BLICO PÚBLICO
A CRÍTICO DA ARTE PANORAMA CRÍTICO DA ARTE
S MÓVEIS EM MÍDIAS MÓVEIS
Lucas Bambozzi, Marcus Bastos e Rodrigo Minelli Organização: Lucas Bambozzi, Marcus Bastos e Rodrigo Minelli
INTRO

8 Cronologia
coordenação e edição de texto Lucas Bambozzi e Marcus Bastos
direção de produção Luiza Thesin 21 Era uma vez na tela: breve introdução ao audiovisual na era da portabilidade
tradução Marcus Bastos, Juliana Caetano e Noemi Jaffe
lucas bambozzi, marcus bastos e rodrigo minelli
revisão Lizandra Almeida PARTE 1 CULTURA DIGITAL: CONTEXTO E EMERGÊNCIA DAS REDES MÓVEIS
pesquisa (cronologia) Lucas Bambozzi, Marcus Bastos e Monica Toledo
projeto gráfico Mono_ Julio Dui e Flavia Castanheira 35 Pensando a cultura nomádica: artes móveis e sociedade
capa foto de Paloma Oliveira, 2009 patrick lichty
45 Apontamentos sobre as mídias locativas
drew hemment
51 Fantasmagorias, vitrines, infiltrações: ensaio sobre as tecnologias e a cidade
conrad editora fábio duarte e polise de marchi
diretor editorial Rogério de Campos 65 Aproximações arriscadas entre site-specific e artes locativas
lucas bambozzi
coordenação editorial Marcelo Y. Salles
75 Cartografias líquidas: a cidade como escrita ou a escrita da cidade
edição Vivian Miwa Matshushita priscila arantes
preparação Erika Nakahata 87 Notas sobre a cultura e a arte da mobilidade (pensamentos nômades para hipóteses em fluxo)
revisão Naomi Yokoyama Edelbuttel giselle beiguelman

PARTE 2 MÍDIAS LOCATIVAS: DESDOBRAMENTOS SOCIAIS E POLÍTICOS

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) 99 45 revoluções por minuto (história da mídia em alta velocidade)
4 (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) armin medosch 5

Mediações, tecnologia e espaço público: panorama crítico da arte em 119 Vigilante canalha! Novas manifestações da vigilância de dados no início do século vinte e um
mídias móveis preemptive media
Organização: Lucas Bambozzi, Marcus Bastos e Rodrigo Minelli 143 Geografia experimental: da produção cultural à produção do espaço
São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2009
trevor paglen
Vários autores 153 Por uma arte contra a cartografia da vida cotidiana
isbn 978-85-7616-367-1 ryan griffis
1. Arte e ciência 2. Arte e tecnologia 3. Espaços públicos 4. Mediação 161 Arte e mídia locativa no Brasil
5. Meios de comunicação 6. Mídias digitais 7. Mídias portáteis andré lemos
8. Recursos audiovisuais 9. Sistemas de comunicação móvel
i. Bambozzi, Lucas ii. Bastos, Marcus iii. Minelli, Rodrigo
PARTE 3 ESTUDOS DE CASO: REDES EM ESPAÇOS URBANOS
09-12789 cdd 700.105
179 O debate sobre propriedade no espaço público sem fio
Índices para catálogo sistemático: jonah brucker-cohen
1. Arte e tecnologia 700.105
183 Transborder Immigrant Tool: um projeto artístico de perturbação da fronteira México/EUA
ricardo dominguez e brett staulbam
187 Em busca de uma performance de realidade mista do tamanho da cidade
Conrad Editora blast theory
Av. Alexandre Mackenzie, 619, Jaguaré 203 Kit de ferramentas para um Jardim Sonoro Tático [TSG, Tactical Sound Garden]
mark shepard
São Paulo, SP, Brazil CEP 05322-000
Tel: 55 11 2799 7799 POSFÁCIO
www.conradeditora.com.br
215 Um panorama crítico das mídias locativas
jorge laferla
218 Glossário
INTRO
6

INTRO
1891 >A Edison Laboratories, 1904 >Em Nova York, Landell >Lars Magnus Ericsson instala um 1925 >O cinesta russo Dziga
de Thomas Edison, demonstra o obtém patente para a transmissão telefone em seu carro. O modelo, Vertov declara que o cinema e o
protótipo do kinetoscópio (iniciado de ondas (radiofone), o telégrafo semimóvel, ainda depende de ca- rádio são passos intermediários
em 1888), antecessor do projetor de sem fio e o telefone através da luz, beamento para se conectar à rede para uma nova forma de arte (o
cinema, que permitia ver filmes de antevendo o princípio da fibra óptica. existente. Ao viajar de carro, torna- Radio Eye), que antecipa a televisão
forma individualizada. se possível parar o veículo em al- e um tipo de cinema-realidade.
gum ponto com telefonia, para
conectar-se à rede nacional.
1928 >Instalada em São Paulo a
primeira central de telefonia auto-
1912 >Marcel Duchamp cria o mática do Brasil, que funciona sem
Nu Descendo a Escada nº2, pintura precisar de uma operadora.
com imagens sobrepostas, simu-
1929 >Vertov finaliza O Homem

8
1906 >Landell descobre e foto- lando efeito estroboscópico. A obra
da Câmera, ensaio documental que
grafa a aura radioativa humana. é referência para várias manfesta-
consolida muitas possibilidades
ções artísticas contemporâenas.
> As instalações da Brasinisliche ainda atuais de montagem.
1892 >Edison recebe patente do
Elektricitats Gesellschraaft (Rio de 1913 >Luigi Russolo lança
telégrafo duplex, solicitada em 1874. 1931 >Movietone: a película de

CRONOLOGIA
Janeiro) são destruídas em incêndio A arte do ruído (The art of noise).
35mm combina áudio e imagem
1895 >Os irmãos Lumière são que interrrompe o serviço telefôni-
aclamados pela invenção do cine- co da cidade por sete meses. Os
1918 >Inauguradas até 1920 por processo de leitura óptica do
quatro novas centrais telefônicas no som no próprio negativo.
matógrafo, primeiro sistema de aparelhos de magneto são substitu-
Cronologias são sempre recortes parciais Rio de Janeiro: Beira-Mar (hoje Mu-
projeção de filmes bem-sucedido. ídos por novos, importados dos >O poeta italiano Filippo Marinetti
de processos cuja complexidade não pode seu do Telephone), Ipanema, Pieda-
A projeção foi demonstrada EUA. Com sistema de bateria cen- sugere “telas para televisão suspen-
de e Jardim do Méier. Em 1922, a
ser reduzida a uma simples linha do tempo. com dez filmes curtos realizados tral sem manivela, basta tirar o fone sas por aeronaves”, para exibir a
cidade tem 5 mil linhas e 30 mil tele-
pelos próprios Lumière. do gancho para acessar a telefonista. aeropintura futurista.
Datas e fatos são indicativos de um cenário fones, para 1,2 milhão de habitantes.
mais amplo, que se redesenha de formas nem
8 sempre claras e obriga exercícios constantes 1891/1902 1904/1910 1912/1923 1925/1932 9

de revisão, em busca de novas linhas de


força e genealogias antes não percebidas. >Albert Turpain envia e recebe seu >George Albert Smith patenteia 1919 >Walter Ruttman procla- 1932 >Inaugurados circuitos
primeiro sinal de rádio, usando o o kinemacolor, primeiro processo ma a arte da “pintura com o tem- radiotelefônicos do Rio para Bue-
O breve percurso pela história de como arte
código morse e alcançando 25 comercial para filmes coloridos. po”, afirmando a emergência de um nos Aires, Madri e Nova York.
e telecomunicação foram se aproximando, metros de amplitude. novo tipo de artista, que se define
1909 >Marconi (foto abaixo) entre a pintura e a música.
>Agora que o fonógrafo e o telefone
compilado a seguir, busca solucionar esse 1896 >Guglielmo Marconi envia e Karl Ferdinand Braun ganham são de uso doméstico, Bertolt Bre-
impasse assumindo sua provisoriedade. O e recebe o primeiro sinal de rádio, o Prêmio Nobel em reconhecimento >Hans Richter e Viking Eggeling cht (que profetizou os usos do rádio
com amplitude de 6 quilômetros. às suas contribuições para o desen- exploram as composições rítmicas um pouco antes de esses aparelhos
material foi compilado tendo em vista sua
No ano seguinte, ele testa um siste- volvimento da telegrafia sem fio. visuais baseadas na noção de con- se tornarem comuns nos lares euro-
relevância para um entendimento um pouco ma econômico de rádio capaz de traponto e afirmando o uso da mú- peus e da América do Norte) publi-
mais contextualizado de como as redes cobrir pequenas distâncias. sica como modelo para a realização ca o ensaio “O rádio como aparato
de filmes abstratos. comunicacional” (The radio as an
sem fio e as tecnologias audiovisuais foram apparatus of communication). No
se desenvolvendo, e como o universo da
1921 >Velimir Khlebnikov escre- texto, ele incita o uso interativo e
ve o ensaio “A rádio do futuro” (The
criativo do rádio, e sugere a impor-
arte e da comunicação as absorve e/ou as radio of the future), sobre a
1910 >É inaugurado entre o Rio possível evolução dos meios de
tância da audiência emancipada e
subverte. Retrato incompleto de uma história de Janeiro e Niterói, o primeiro cabo participante, assim como de formas
comunicação de massa.
que começa no final do século XIX, com o submarino para ligações nacionais. de comunicação dirigidos a ela.
Nessa época, 75% da base de tele- 1923 >É lançada pela Eastman
surgimento de inventos que vão estabelecer as
fones instalada no Brasil pertencia à Kodak a película de 16mm, primeiro
bases da telefonia, e desdobra-se no início do empresa Rio de Janeiro and São suporte da história do audiovisual
1902 >Landell de Moura inventa
milênio com o surgimento de interfaces cada Paulo Telephone Company. O res- para produção independente, bem
o telefone sem fio.
tante dos aparelhos disponíveis mais acessível que o filme de
vez mais aderentes ao mundo físico. distribuía-se por outras 50 empre- 35mm, com um conjunto de câmera
sas menores. Cine Kodak e projetor Kodascope.
1933 >Marinetti e Pino Masata 1938 >Orson Welles transmite A > A AT&T propõe ao Comitê Federal 1955 >Pager torna-se um pro- 1957 >Começa a Guerra Fria 1965 >As primeiras imagens
publicam o texto “La radia”. Guerra dos Mundos, uma radionove- de Comunicação dos EUA que um duto de comunicação via rádio, entre as grande potências da épo- digitais são feitas pela sonda Mari-
la baseada na obra de H. G. Wells grande número de frequências do usado em hospitais e fábricas. ca. EUA e URSS disputam a hege- ner 4, e registram a superfície de
1935 >A Companhia Telefônica (The War of the Worlds), sugerindo espectro de rádio seja reservada monia em terra e no espaço, com Marte. Com resolução de 0,04 me-
Brasileira (CTB) instala o primeiro >Lançados primeiros vídeos a co-
que a Costa Leste dos EUA estaria para a telefonia celular, para que se tecnologias similares no lançamen- gapixels (400 pixels), levaram qua-
telefone público na antiga Galeria res: BCE Coloer, pela Bing Crosby
sendo invadida por alienígenas, torne possível pesquisas na área. to de foguetes e mísseis no espaço. tro dias para chegar à Terra.
Cruzeiro (hoje Ed. Avenida Central, Entertainment; Simplex, desenvol-
causando pânico generalizado Os soviéticos lançam ao espaço o
no Rio de Janeiro). Em pouco tem-
e histeria em massa.
>William Schockley, Walter Brattain vido comercialmente pela RCA e
primeiro satélite. No mesmo ano,
1967 >O portapack, primeiro
po, o aparelho se torna presente e John Bardeen, inventam nos labo- usado para a gravação de imagens gravador portátil de video, é lança-
lançam o Sputnik II, com o primeiro
em bares, farmácias e mercearias. ratórios Bell, o transistor de junção ao vivo pela NBC; e Quadruplex, do pela Sony. O equipamento muda
ser vivo a deixar a órbita terrestre.
São importadas do Canadá cabines (pelo qual receberão o Prêmio No- desenvolvido pela Ampex Corpora- a linguagem do cinema e torna-se
telefônicas, que são instaladas nos bel de Física em 1956). tion, que torna-se padrão de grava- um marco da videoarte.
principais pontos públicos, como ção nos próximos vinte anos.
rodoviárias, praças e estações de
1948 >Lucio Fontana diz em seu 1969 >O primeiro CCD é desen-
segundo “Spazialismo” manifesto: >Navender Kapany (indiano natura- volvido pelos laboratórios Bell, com
trem. Os “orelhões” surgirão em
“Nós veicularemos formas de ex- lizado americano) demonstra o uso o nome de 201ADC. O componente
1972, e as fichas metálicas serão
pressão artística de uma nova espé- da fibra óptica como um meio de tem capacidade de capturar ima-
usadas até 1992.
cie, através do rádio e da televisão”. transmissão de baixa perda usando gens com resolução de 0,01 mega-
>Walter Benjamin escreve, em A sinais luminosos. pixels (100 pixels).
Obra de Arte na Era de Sua Reprodu-
1949 >Fontana torna vísivel suas
tibilidade Técnica: “por volta de
intervenções no espaço, usando 1956 >É nacionalizada a Compa- >A Guerra Fria expande-se também 1971 >Lançamento do formato
apenas imagens brancas (“Concetto nhia Telefônica Brasileira (CTB), no para a área de telecomunicações, U-Matic, pela Sony, para gravação
1900,a reprodução técnica atingiu
um padrão que permitiu reproduzir 1939 >A Companhia Telefônica spaziale”); mais tarde, em 1953, Rio de Janeiro. por meio de memorandos e pros- em vídeo. O U-Matic (ou ¾ de pole-
Brasileira (CTB) chega ao número leva adiante o mesmo conceito, ao pectos em que EUA e URSS explo- gada) passa a ser o padrão utilizado
todas as obras de arte e, portanto, >É introduzido o sistema de micro-
de 200 mil aparelhos automáticos desenvolver instalações de luz com ram as consequências estratégicas para a produção de imagens em
causar o mais profundo dos impac- -ondas e de Discagem Direta a
instalados no Brasil. tubos de neon. das tecnologias disponíveis. qualidade “broadcast”.
tos no público”. Distância (DDD).

10 1933/1936 1938/1947 1948/1954 1955/1956 1957/1964 1965/1973 11

>É criada pela Kodak a película de 1940 >O ano de 1940 foi bastan- 1951 >John Cage utiliza o rádio 1960 >O Brasil fabrica peças e 1972 >Os orelhões aparecem no
8mm, com custo de produção te significativo para a televisão. Foi como um instrumento musical na equipamentos telefônicos. A tecno- Rio de Janeiro, no aniversário da
e janela muito menores que a de feita uma das primeiras transmis- composição “Paisagem imaginária logia foi melhorada ao longo da cidade (20 de janeiro). Nesta data,
16mm. O 8mm consagra-se como sões ao vivo de longa duração (por 4” (Imaginary landscape n. 4), den- década, com a criação do Improved a CTB lança este novo tipo de cabi-
formato usual para produções inde- meio de cabo coaxial). A W2XBS tre outras obras. Mobile Telephone System (IMTS). ne de telefone público, em fibra de
pendentes; o filme de 8mm é vendi- (NBC de Nova York) cobre a con- vidro, cor de laranja e formato de
>Em1963, os EUA lançam a Arpa-
do em cartuchos e facilita a produ- venção nacional do partido Repu- concha que é usado até os dias
>Na década de 1950 são instalados net, rede de computadores milita-
ção cinematográfica (nos anos blicano por 33 horas, em um perío- atuais.
os sistemas conhecidos como push- res e acadêmicos.
1960 diversos cineastas constituem do de mais de cinco dias. No mes-
filmografias com essa linguagem, mo ano é anunciada a invenção da -to-talk. Usado, entre outros, nos 1973 >Surge a versão comercial
>Lançado o Echo, primeiro satélite
carros de polícia e táxis, utiliza um do CCD (ver 1969) feita pela Fair-
que ainda hoje é utilizada como um televisão em cores. passivo de comunicação. Ele reflete
só canal para transmissão e recep- child Imaging.
formato audiovisual experimental). sinais de rádio de volta para a Terra
1947 >Douglas Ring e W. Rae ção de voz (mas já permite a forma (em 1963, é colocado em órbita o >Martin Cooper, da Motorola, testa
1936 >Nas Olimpíadas de Berlim Young, da Bell, propõem células de comunicação bidirecional, mes- primeiro satélite de comunicação). um sistema celular real. O protótipo
a televisão faz sua estreia para hexagonais para telefones móveis 1952 >São criados até 1952 mo que de modo pontual). Dynamic Adaptive Total Area Cove-
o grande público, 25 emissoras em veículos. Philip Porter, da mes- protótipos artísticos para todos os >A televisão se torna o veículo de
>Lançamento do suporte magnéti- rage pesa cerca de 1 kg, tem 25 x 3 x
públicas veiculam a informação. ma companhia, propõe que torres desenvolvimentos subsequentes massa hegemônico, o que só mu-
co Videotape, inventado pela Am- 7 cm, e bateria que acaba depois de
celulares sejam posicionadas nas das três mídias principais mídias na dará nos anos 1990, com a internet.
pex. É o primeiro equipamento de 20 minutos de uso. O DynaTAC é
pontas dos hexágonos em vez de época: rádio, televisão e cinema.
no centro, permitindo a transmis- VT, que opera com rolos expostos, 1964 >A RCA cria o primeiro lançado comercialmente em 1983.
são em três direções, para células
1954 >É criada a primeira fita de gradualmente substituídos por circuito CMOS (Complementary
vídeo, manufaturada pela Bing cartuchos, até os anos 1970. O Vide- Metal Oxide Semiconductor), em-
adjacentes. Essa tecnologia ainda
Crosby Entertainment. otape modifica a forma como vai ser brião do CCD (Charged Coupled
não estava disponível, e as frequên-
cias não haviam sido alocadas (o feita a televisão, na medida em que Device), até hoje o responsável pela
que só acontecerá nos anos 1960). permite o uso de imagens gravadas. captura digital de imagens.
1975 >A Kodak experimenta >Kit Galloway e Sherry Rabinowitz >Surge a primeira geração de tele- >Tom Klinkowstein, em Amsterdam, 1983 >A Motorola lança o telefo- >O Electronic Cafe International
uma câmera que captura imagens realizam uma performance em fonia móvel (1G), com os sistemas e Robert Adrian, em Viena, realizam ne portátil, inaugurando a primeira (Communicions Access for Every-
usando CCD que digitaliza e grava a telepresença, composta interativa- NMT e AMPS, que utilizam a modu- a Telecommunications Performance geração de celulares (1G). O telefo- body), rede de criação interativa e
informação em uma fita cassete. O mente por imagens transmitidas via lação analógica de sinais em uma via fac-simile. Depois do intercâm- ne celular, que havia surgido na de comunicação onde os pontos de
sistema recebe os dados da fita, satélite. O projeto Satellite Arts portadora de radiofrequência, e bio de imagens previsto, o espaço é década de 1970, só agora começa a acesso são terminais que utilizam
interpola as 100 linhas de captura Projets foi feito em colaboração opera sobre redes com tecnologia aberto para o público, que pode ser comercializado. Surge também vídeo, informática e comunicações,
para 400 linhas e gera um sinal com a agência espacial americana de comutação de circuito. participar com o envio de textos, a primeira versão de acesso à inter- é o primeiro protótipo de um proje-
NTSC em um televisor (sem filme NASA. Trata-se de uma performan- desenhos e fotos polaroids. net, chamada WAP (Wireless Appli- to homônimo de Kit Galloway e
>Por meio de satélites, Kit Galloway
para capturar e nem cópia impressa ce entre dançarinos de Maryland e cation Protocol). O WAP surge Sherry Rabinowitz. Mais tarde se
para a visualização das fotos). Califórnia (EUA). O público vê os
e Sherry Rabinowitz criam Hole in 1982 >Telefonmusik é um even-
como um protocolo de comunica- tornará um espaço permanente em
Space, dispositivo com câmeras de to que conecta a BLIX (Robert
dois dançando juntos, apesar de ção de dados para redes sem fio Santa Monica (Califórnia), onde
>A Kodak apresenta o primeiro vídeo pelo qual o público se comu- Adrian e Helmut Mark), em Viena,
estarem em lugares diferentes. entre os dispositivos móveis. eles desenvolverão vários projetos.
protótipo de câmera sem filme nica entre Nova York e Los Angeles. Rainald Schumacher, em Berlim, e
Suas coreografias são transmitidas
baseado no CCD da Fairchild Ima- Artpool (J. Galantai), em Budapeste. >É inaugurado pela AT&T o AMPS >A Sony lança o formato 8mm (Hi-
de um lugar a outro, e mixadas em >Robert Adrian, da ARTBOX, utiliza o
ging. Ele pesa 4 kg e grava as ima- Advanced Mobile Phone Service, 8), para substituir o VHS e o U-
tempo real. I.P. Sharp (“caixa postal” eletrônica, >Em São Paulo, Julio Plaza coorde-
gens em uma fita cassete. sistema de telefonia móvel que Matic. Alguns anos depois, ressus-
depois chamada de ARTEX). Foi o na o Arte pelo Telefone, no Museu
opera na geração 1G, que torna-se cita o sistema de transporte Beta e
1976 >A Fairchild lança a pri- primeiro veículo que permitiu a artis- da Imagem e do Som (MIS). O pro-
o formato principal de telefonia cria o Betacam, com o propósito de
meira câmera sem filme para uso tas realizarem (à distância) intercâm- jeto, explora as possibilidades cria-
móvel até meados de 2000. substituir o U-Matic. O Betacam
comercial. A MV-101 é um experi- bio de informações por meio de tivas do videotexto, então a forma
traz um surpreendente avanço na
mento da Universidade de Calgary sistemas de telecomunicação. mais sofisticada de transmitir da- >Roy Ascott realiza La Plissure du
fabricação de fitas, de partículas
(Canadá), que obtém o status de dos. Participam Carmela Gross, Texte, um recital coletivo por
>Primeiro contato via fax entre metálicas, que adicionam o concei-
câmera digital por ser o primeiro Lenora de Barros, Leon Ferrari, intermédio de telescriptores, com
artistas no Brasil, realizado por to de Performance Superior (SP)
modelo a utilizar um microcompu- Mario Ramiro, Omar Khouri, Paulo participantes de diversas origens,
Paulo Bruscky, em Recife, e Roberto nos produtos do mercado, mais
tador, o Zilog Mcz1/25, para pro- Miranda, Paulo Leminski, Régis os quais construíram um texto via
Sandoval, em São Paulo. notadamente o Betacam-SP.
cessar as imagens capturadas. Bonvicino e Roberto Sandoval. IPSA.

12 1975/1977 1979/1980 1981 1982 1983/1984 1985 13

1977 >A AT&T Bell Labs testa em >É criado o laserdisk, pela LaserVi- >Roy Ascott realiza seu primeiro >O projeto de Nam June Paik, Good 1985 >A exposição Arte: Novos
Chicago um protótipo de sistema sion. Apesar de ter revolucionado projeto de telemática, o Terminal Morning Mr. Orwell (homenagem a Meios/Multimeios – Brasil 70/80
de telefonia celular. Com dez ante- os formatos de armazenamento Consciousness, entre a Inglaterra e 1984, de George Orwell), tem trans- (São Paulo) reúne projetos como
nas, constitui uma rede que abran- audiovisual, foi uma das várias os Estados Unidos; é o primeiro missão interativa via satélite entre Fac-Similarte, de Paulo Bruscky e
ge área de aproximadamente 34 mil mídias que teve um curto período projeto de teleconferência a utilizar Nova York – WNET- e Paris – FR3. Roberto Sandoval, e Arte/Video-
quilômetros quadrados. de existência. o sistema interativo informatizado. texto, de Julio Plaza, com a partici-
>O formato VHS-C é adaptado para pação de Alex Flemming, Alice Ruiz,
>Com a intenção de fazer a conexão 1979 >O Japão cria a primeira 1981 > Lançamento da primeira Augusto de Campos, Carmela
o uso em câmeras compactas. Sua
entre artistas ao redor do mundo, rede de telefonia celular, mas o câmera digital comercial, a Mavica,
qualidade é igual à do VHS, e fun- Gross, Leon Ferrari, Lenora de Bar-
através de meios eletrônicos, sistema só será ativado, nos EUA, criada pela Sony. Ela captura ima-
ciona em vídeos domésticos. ros, M. José Palo, Lucia Santaella,
Willoughby Sharp, Liza Bear e Keith em 1983. gens de 0,3 megapixels (300.000
Mônica Costa, Nina Moraes, Omar
Sonnier criam em Nova York o pixels). A Mavica armazena até >O uso crescente do U-Matic como Khouri, Paulo Leminski e Paulo
Send/Receive Satellite Network, cinquenta fotos em sua memória equipamento de vídeo profissional Miranda.
juntamente com uma rede de artis- interna (os Mavipaks, disquetes de reduz os registros em 16mm.
tas em São Francisco. São produzi- 2 polegadas percursores dos dis- >Roy Ascott concebe, durante a
das 15 horas de transmissão entre quetes de 3 ½ polegadas). >Projeto de comunicação interativa 1984 >Durante a Olimpíada de exposição Les Immatériaux, no
as duas cidades. de Fred Forest, La Bourse de Los Angeles, a Canon utiliza seu Centre Georges Pompidou, Organe
l’Imaginaire, no Centre Georges protótipo de câmera de vídeo está- et Fonction d’Alice au Pays des
>Douglas Davis, em colaboração Pompidou (Paris), utilizando tele- tico (em parceria com o jornal Yo- Merveilles, um videotexto no Mini-
com Nam June Paik e Joseph Beuys, 1980 >A Arpanet começa a ser mática, televisão, rádio e telefone. miuri Shimbum) para transmitir para tel, e Plissure du Texte, parte do
realiza, na inauguração da Docu- comercializada e passa a se chamar
>Intercâmbio de imagens artísticas o Japão, via telefone, fotos de 0,4 programa do Art Access.
menta 6, em Kassel (Alemanha), internet, tornando-se rapidamente
por slow-scan entre Paris e várias megapixels. As imagens levam
programa de televisão Satellite o principal meio de comunicação >A Sony lança o Video8, fita peque-
cidades dos EUA, organizado por meia hora para serem enviadas,
Telecast. A intervenção criada por contemporâneo. na para competir com a VHS-C
Don Foresta para a Bienal de Paris. enquanto os outros jornais depen-
Davis foi transmitida ao vivo, via compacta, com qualidade equiva-
diam de aviões para levar os filmes.
satélite, para mais de trinta países. lente ao VHS e ao Betamax. Em
poucos anos, torna-se obsoleto.
1986 >Atualização da Betacam >Mit Mitropoulos apresenta, na >Andreas Raab concebe o evento 1989 >Artur Matuck e Paulo >Em Video Cabines São Caixas >As câmeras digitais se tornam
para Betacam-SP. Esse novo forma- Bienal Mediterrânea (Grécia), Line fax 40000, e Sandro Dernini e Fran- Laurentiz coordenam o Faxarte I, Pretas, Sandra Kogut constrói cabi- populares. O modelo Dycam I tira
to se torna o padrão para veiculação of the Horizon. O projeto de arte co Meloni produzem Il Serponte de um intercâmbio entre a ECA (USP) e nes montadas em espaços públicos fotos em preto e branco (com 320 x
de imagens de vídeo e TV com geopolítica consiste na criação de Pietra para celebrar o 100° aniver- o Instituto de Artes (Unicamp). No no Rio de Janeiro, para gravações 240 pixels), e armazena até 32 ima-
qualidade “broadcast”. uma rede com 27 nós, para a qual sário da descoberta do eletromag- mesmo ano acontece o FaxArte II. em vídeo nas quais as pessoas po- gens em 1 MB de memória. A Kodak
os participantes enviam represen- netismo, por Nicolas Tesla, nas Coordenado por Artur Matuck, diam fazer o que quisessem diante lança os DCS (Digital Camera Sys-
tações de suas respectivas linhas de redes I.P. Sharp, Bitnet and EARN. Shirley Miki e Gilbertto Prado, o da câmera. A mesma estratégia tem), inicialmente para câmeras
horizonte, criando um horizonte projeto reúne artisas como Anna atinge dimensão quase global com Nikon, com disco rígido. O modelo
conceitual de escala global.
1988 >Surge a Radiolinja, pri- Barros, Lucia Fonseca, Marco do cabines em Tóquio, Paris, Nova DCS-200, em seis variações, tem
meira rede de GSM (Sistema Global
Valle, Milton Sogabe, Paulo Lauren- York, Dakar e Moscou. Essas ima- resolução de captura de 1,54 mega-
>Primeira transmissão com slow- para Comunicações Móveis).
tiz, Rejane Cantoni e Regina Silveira. gens são inserida em Parabolic pixel, quatro vezes mais que as
-scan no Brasil: o Sky Art Conferen-
>A Sony lança as Mavicas C1 e A10 people (imagem abaixo). No vídeo, câmeras existentes na época.
ce, entre o CAVS (Center for Advan- >Roy Ascott, com a colaboração de
Sound Mavica, com captura de a artista usa colagem e superposi-
> A Sony lança o primeiro formato ced Visuel Studies, coordenado por Peter Appleton, Mathias Fuchs, Ro- >A Moving Picture Experts Group
áudio, tornando a tecnologia digital ção simultânea de fragmentos de
de vídeo digital, conhecido como Otto Piene) e a ECA (Escola de Co- bert Pepperell e Miles Visman, con- cria o MPEG Audio Layer III, forma-
mais acessível ao consumidor. imagens para fazer um ensaio an-
D1. Nele, o vídeo era capturado municações e Artes, da Universida- cebe o projeto Aspects of Gaia, no to de áudio conhecido pela sigla
tropológico sobre as formas de
sem compressão. Por isso, o arqui- de de São Paulo, coordenada por >Mario Ramiro, em São Paulo, e Ars Electronica. Três continentes em MP3 que vai mudar os padrões de
comunicação planetária permitidas
vo resultante exigia grande perfor- José Wagner Garcia). Participam Eduardo Kac, no Rio de Janeiro, rede, em que artistas enviam ima- distribuição on-line de som.
pelas redes de televisão.
mance dos equipamentos existen- vários artistas americanos e brasilei- estabelecem um diálogo artístico gens digitais, textos e sons, gerando
>A US National Science Foundation
tes na época. ros, com a colaboração de Joe Davis. usando o fax. uma instalação pública interativa.
nomeia a NSI para administrar os
>A Panasonic lança o MII para com- 1987 >Stéphan Barron produz >Lançamento da D2, uma alternati- >Mit Mitropoulos realiza na Holan- domínios .com, .net e .org.
petir com a Betacam-SP. Tecnica- no Orient Express, 25 fotos polaroi- va mais acessível para a fita D1; ela da a instalação interativa Face a
>O primeiro sistema de telefonia
mente similar ao concorrente, o ds por hora durante viagem de trem codifica o vídeo digitalmente e Face 4, em que duas pessoas se
móvel celular, AMPS, é adotado no
formato usa fitas de metal para de Budapeste a Paris e as envia por suporta transmissão experimental comunicam interativamente por
Rio de Janeiro,
gravar vídeo composto. modem. em qualidade HD. meio de monitores de televisão.

14 1986 1987 1988 1989/1990 1991 1992/1993 15

>Roy Ascott, Don Foresta, Tom >Lançado o S-VHS, versão compac- >Primeiro cabo transatlântico de >Luiz Monforte organiza, na XX >Surge a segunda geração de celu- 1992 >A Nokia lança seu primei-
Sherman e Tomaso Trini organizam ta que logo fica obsoleta. fibra óptica entre EUA e Europa. Bienal de São Paulo, o I Studio Inter- lares (2G), que implementa várias ro celular GSM, o 1011.
o Planetary Network and Labora- nacional de Electrografia. tecnologias de transmissão. O
>O evento Intercities: São Paulo/
tory Ubiqua, e Maria Grazia Mattei FDMA é usado para a divisão da
Pittsburgh, realizado pelo IPAT >Surge o D1, sistema que opera
coordena as transmissões via fax do faixa de frequência em pequenos
(Instituto de Pesquisas em Arte e com largura de banda integral em
projeto Daily News, na Bienal de blocos, e sua utilização é feita com a
Tecnologia, coordenado por Artur componente digital, desenvolvido
Veneza. Mais de cem artistas de adoção de duas tecnologias de
Matuck, em colaboração com Paulo pela BTS. Até hoje o D1 é um forma-
três continentes interagem em rede acesso digital: TDMA (Time Division
>Surgem equipamentos mais por- Laurentiz, em São Paulo) e o DAX to de vídeo de alta qualidade. Em
de videotexto, slow-scan e fax. Multiple Access) e CDMA (Code
táteis, como o Hi-8. São formatos (Digital Art Exchange, Universidade seguida, a Sony e a Ampex desen-
Division Multiple Access). FDMA é
que se consolidam rápido, pois se de Carnegie-Mellon, coordenado volvem o D2, sistema de custo mais
uma tecnologia air interface analó-
tornam mais acessíveis a artistas e por Bruce Breland, em Pittsburgh), baixo, em composto digital.
gica, enquanto TDMA e CDMA são
pequenos produtores, democrati- promove intercâmbio de imagens >O serviço de mensagens de texto
zando a produção. via slow-scan e tem a participação
1990 >O Rio de Janeiro é a pri- digitais. Serviços 2G “puros” ofere-
SMS (Short Message Service) é
meira cidade brasileira a utilizar um cem taxa de transmissão de dados
dentre outros, do projeto Still Life/ incorporado ao telefone móvel. Em
>Hank Bull produz, durante a Docu- sistema de celular real. de até 14 Kbps.
Alive de Carlos Fadon Vicente. português, o recurso torna-se po-
menta 8, uma teleconferência, com
>Sadie Benning, de 15 anos, realiza 1991 >Os EUA vendem mais de pular com o nome de “torpedo”.
participantes do Banff Centre for
os vídeos If Every Girl Had a Diary e 4 bilhões de videocassetes.
>O Bras-de-fer Transatlantique, de
the Performing Arts (Banff), Massa- 1993 > A Toshiba cria o DVD.
Jollies, sobre sua descoberta sexual.
chusetts College of Arts, The Wes- >Os EUA têm 10 milhões de assi-
Mario Costa e Derrick de Kerckhove, Gravados com uma câmera de brin- >Kodak e Apple lançam a primeira
tern Front (British Columbia, Van- nantes de telefones celulares.
é implementado entre Paris e Toron- quedo Fisher-Price PXL2000, são os câmera digital still image.
couver), Carnegie-Mellon Universi-
to. O braço mecânico ativado por precursores dos videoblogs. >Jean Armour Polly cunha a frase
ty (Pittsburgh) e Electronic Cafe
computador e modem transmite a “surfando na net”.
(Nova York).
sensação da pressão exercida.
1994 >A Nokia vende 20 milhões >A Ricoh lança a RDC-1, primeira 1997 >Sancionada pelo presi- 1998 >Ativação dos primeiros 2000 >A terceira geração de >A Sony lança o formato MICROMV,
de unidades do modelo 2100. câmera digital a capturar imagens dente da República a Lei Geral das celulares digitais em São Paulo. celulares (3G) é digital, com recur- com fita do tamanho de uma caixa
em movimento com som. Telecomunicações (LGT nº 9.472), sos como UMTS e maior velocidade de fósforos. O software de edição é
>Primeiro anúncio na World Wide >A introdução do protocolo de
que regulamenta a quebra do mo- na transmissão de informações. O propriedade exclusiva da empresa,
Web (www), para a revista Wired. >Sony, JVC, Panasonic e outros conexão digital IEE1394 (Firewire
nopólio estatal do setor. Essa lei 3G começa com o sistema CDMA e e disponível apenas para Windows
produtores de câmeras de vídeo ou iLink) se torna padrão em com-
>A Olympus lança a Deltis VC-1100, autoriza o governo a privatizar todo evolui com o decorrer do tempo, (no entanto, programadores adep-
lançam a fita DV, com a variação putadores Macintosh e nas câmeras
câmera com um sistema de trans- o Sistema Telebrás e cria a Anatel transformando toda a rede de tele- tos do código aberto criaram uma
menor MiniDv. Esse formato, logo de vídeo padrão DV.
missão de fotos integrado, que – Agência Nacional de Telecomuni- fonia para o sistema GSM. versão Linux, não mais disponível
se torna o padrão para a produção
permite enviar as imagens por cações, que passa a exercer a função no mercado). O hardware não é
de vídeo doméstico e semiprofissio- >O Brasil disponibiliza o acesso à
modem, ligado a telefones fixos ou de órgão regulador da área. mais produzido, mas as fitas ainda
nal. As fitas MiniDV democratizam a internet via celular WAP.
celulares para outras câmeras ou estão à venda.
produção audiovisual, facilitando a >A Hitachi lança a MP-EG1. É a
computadores. >A geração 3G é adotada na Euro-
participação de diretores e jornalis- primeira câmera digital a produzir >Patrick Lichty faz a curadoria da
pa; a Anatel alinha-se para definir
tas independentes. vídeos no formato MPEG. exposição [re]distributions, explo-
os padrões no Brasil, denominados
rando o potencial expressivo de
>O DVD se torna padrão entre vá- >A sonda espacial Mars Pathfinder UMTS (Universal Mobile Telecom-
aparelhos como PDAs, pagers e
rios fabricantes, com diversos for- envia de Marte imagens para a Ter- munications System). Essa geração
telefones celulares.
matos: DVD vídeo, DVD-R, DVD- ra. É a primeira transmissão de ima- é uma rede de comutação de paco-
RW etc. Os discos DVD são vulnerá- gens digitais via satélite. >Surgem sistemas domésticos de tes (e não de circuitos) para acesso >Nessa exposição, Giselle Beiguel-
veis a arranhões e desgastes. edição: os hard drives IDE, mais wireless. Seu sistema alcança taxas man apresenta Wop Art, um dos
>A Sony lança a Cybershot DSC-
baratos que os SCSI utilizados em de transmissão de dados de até 2 primeiros trabalhos brasileiros con-
>A JVC lança a Digital-S, fita digital -MD1. É a primeira câmera que
estações Avid e Media100, mudam Mbps. O Brasil ainda não tem rede cebidos para celular, e explora as
similar à VHS, que suporta a exibi- grava imagens a laser, usando pe-
a forma de se produzir vídeo. de telefonia celular 3G; a Anatel possibilidades da tecnologia WAP.
>A DirecTV é o primeiro serviço de ção HD digital. Também chamada quenos discos plásticos como me-
hesita, com a infraestrutura e o
TV digital, nos EUA. D-9, é adotada pela emissora Fox mória. Com eles, é possível armaze- >A Panasonic lança o primeiro DVD >Em [re]distributions, Mark Ameri-
modelo ainda em aberto.
como formato de exibição. nar fotos no formato JPEG. player portátil. ka cria o primeiro e-book para Palm.
>EUA introduzem a TV interativa.

16 1994/1995 1996 1997 1998/1999 2000/2001 2002 17

>A Sony introduz o D5HD, padrão 1996 >Surge o formato DV de >Acontece na Casa das Rosas, sob a >A JVC lança a D-VHS, fita de padrão 2001 >Finalização da rede de >Comercialização do 3G pela ope-
digital 1080i baseado na fita D1. fitas para câmeras profissionais direção de José Roberto Aguilar, digital que aumenta a resolução da fibra óptica Emergia, que conecta radora japonesa NTT DoCoMo.
DVCam e DVCPRO. Criado pela Arte Suporte Computador. Com a fita VHS. O novo modelo suporta Estados Unidos e América Latina.
>É criado o browser Netscape. >Golan Levin apresenta o projeto
Sony, torna-se o formato padrão performance Time Capsule, de 1080p HD. Muitas unidades tam-
>O grupo inglês Blast Theory realiza Dialtones, no Festival Ars Electroni-
nas câmeras Panasonic. Eduardo Kac, a exposição, com bém suportam a captação via Fi-
a primeira performance pública de ca, e Linz. Trata-se de uma telesinfo-
curadoria de Lucas Bambozzi, foi rewire (IEEE1394).
>Mesmo com o advento da tecnolo- realidade mista. Usando recurso de nia executada em tempo real, e
transmitida pela TV Bandeirantes e
gia digital, a película de 35mm
apresenta trabalhos para a internet.
1999 >É lançada a câmera Digi- realidade aumentada, Can You See produzida pelo som dos celulares
continua sendo utilizada com um tal8, que usa fitas Hi8; a maioria me Now? envolve uma combinação do público, orquestrados a partir do
processo híbrido de composição dos modelos existentes lê os anti- de PDAs, dispositivo GPS e redes tipo de toque e de sua localização
digital e analógica, a partir da tele- gos formatos de fitas analógicas sem fio. Encenada em Sheffield na plateia.
cinagem e da kinescopia. O sistema Video8 e Hi8. Ela tem as mesmas como parte do projeto Shooting
>Primeira demonstração do Java.
digital passa a adotar os 24 quadros qualidades da MiniDv (ambas Live Artists, a obra foi o primeiro
2002 >O primeiro celular com
câmera fotográfica, o 7650, é lança-
>Acontece a primeira venda on-line, por segundo (FPS), buscando maior usam o formato DV) e, ainda que projeto de mídias locativas a rece-
do pela Nokia.
feita pela Pizza Hut. equivalência com a película. não ofereça recursos profissionais, ber o Golden Nica do Festival Ars
é utilizada para produzir televisão Electronica. >Com o aumento da capacidade de
1995 >Os EUA têm 25 milhões >Um celular de oito gramas é lança-
e cinema. O formato Hi8 mudou a produção de fotos e vídeos por
de assinantes de telefone celular. do pela Motorola. O StarTAC inau-
>É realizado o Kino Trem, em São estética do vídeo, por causa de sua meio das câmeras portáteis existen-
gura a era dos aparelhos mais leves.
>Criação da primeira loja virtual, a Paulo. Parte do Arte/Cidade II (pro- portabilidade. tes nos aparelhos celulares, tirar
Amazon.com. jeto de intervenções urbanas com fotos passa a ser uma forma de
>Surgem os primeiros videoblogs
curadoria de Nelson Brissac), pro- comentar o presente e de socializa-
>Surge a TV de tela plana, da Sony. na web. O pioneiro é Adam Kontras,
move por cerca de oito horas diárias ção (e não apenas um recurso de
que criou The Journey.
uma comunicação bilateral, móvel e registro da memória do usuário).
>É lançado o primeiro disco rígido
ao vivo entre os espaços expositivos
removível, o Zip Drive da Iomega.
e os bairros adjacentes.
2003 >Nacho Durán cria um dos 2006 >O YouTube é criado e rapi- >A qualidade da internet banda
primeiros videoblogs da América damente se torna o quinto site mais larga no Brasil é considerada uma
Latina, com fotos de webcam. importante da web, com 100 mi- das piores no mundo, de acordo
lhões de vídeos assistidos diaria- com a Folha de S.Paulo, e se mostra
>Sony, JVC, Canon e Sharp introdu-
mente e 65 mil novos vídeos publi- insuficiente para atender às neces-
zem o HDV, o primeiro formato
cados por dia. sidades dos usuários diante dos
acessível de alta definição que usa
recursos da chamada web 2.0.
as mesmas fitas MiniDV. >O número de telefones celulares
vendidos no mundo chega a 2,6 > Registradas no Brasil 100 milhões
>Hitachi é a única a produzir as
bilhões. de câmeras digitais com capacidade
câmeras Blu-ray Disc.
de gravar vídeo e áudio.
>Surgem os primeiros festivais
>O XDCAM é lançado pela Sony.
dedicados à arte em mídias móveis. 2009 >É comercializado o
Similar ao Blu-ray, tenta eliminar a
O arte.mov acontece de 5 a 8 de protocolo WiFi 802.11N. A transfe-
fita, substituindo-a por um disco
outubro em Belo Horizonte. Em rência de dados torna-se mais
óptico de 23 ou 50 GB.
novembro acontece o Mobilefest rápida. O acesso de laptops e celu-
2004 >É realizado em São Paulo em São Paulo. lares aproxima-se ao dos terminais
o Life Goes Mobile, como parte do fixos, e consolida o uso da internet
2007 >O GSM domina o merca- sem fio.
Sonar Sound. Participam duVa,
do, atingindo uma fatia de 80%.
Lucia Koch, Helga Stein, Giselle
>Segundo a Anatel, existem mais
Beiguelmam, Spetto, Angelo >Surgem celulares multifunções,
de 160 milhões de celulares em
Palumbo e Izo Levin, dentre outros com câmera para fotos, vídeo, vi-
operação no Brasil. Esse número,
interessados em explorar os deo conferência, Wi-Fi e GPS inte-
associado ao da telefonia fixa (42
celulares para produção criativa e grados. Os recursos de uma central
milhões), supera o número de habi-
artística. multimídia são democratizados.
tantes do país.

18 2003/2005 2007/2008 2009/2010 19

>O Flickr, site de armazenamento > A Anatel realiza leilão para o uso 2010 >Após processo gradual, a
de fotos é criado pela empresa das frequências de telefonia celular Nokia abre o código de seu sistema
canadense Luidcorp. de terceira geração (3G), tecnologia operacional, o Symbian. Dessa
que permite acesso à banda larga forma, torna-se possível a todos os
>O formato HDV é capaz de gravar
móvel a partir do celular. usuários modificar ou criar novos
até uma hora de HDTV MPEG-2,
recursos para os aparelhos da mar-
com qualidade muito próxima da 2008 > Apple lança o iPhone, ca, o que passa a ser gerenciado
exibição HD, usando fita MiniDV. smartphone com funções de iPod,
pela Linux Foundation. O desdobra-
câmera digital e internet. A trans-
2005 >O Flickr é comprado pelo missão de arquivos bluetooth e
mento, em sintonia com a febre de
Yahoo, que, através do Videoblog- criação para aplicativos de iPhone e
gravação de vídeo são bloqueadas
ging Group, alcança mais de mil o surgimento do Android, redese-
pelo fabricante.
membros. Hoje já aceita vídeos. nha o cenário das redes móveis,
tornando-o mais complexo e, em
>A busca da palavra “Microcinema” certa medida, acenando com possi-
revela mais de 160 mil resultados bilidades menos dependentes dos
nos sites de busca. protocolos corporativos típicos da
>Depois de uma estadia em Nova telefonia celular.
York, dois amigos franceses criam o A ser continuado.
Dailymotion, com o propósito de
postarem seus vídeos de viagem.

Fontes: A cronologia acima foi elaborada a partir de inúmeras fontes, mas vale destacar duas cronologias anteriores que foram
imprescindíveis para compilar os dados nela reunidos:
Cronologia de Experiências Artísticas nas Redes de Telecomunicações, de Gilbertto Prado
http://www.cap.eca.usp.br/wawrwt/version/textos/texto04.htm
At a distance. Precursors to Art and Activism on the Internet
http://www.fondation-langlois.org/html/e/page.php?NumPage=511
20

21
ERA UMA VEZ NA TELA: BREVE INTRODUÇÃO AO
AUDIOVISUAL NA ERA DA PORTABILIDADE
LUCAS BAMBOZZI, MARCUS BASTOS E RODRIGO MINELLI

As linguagens audiovisuais têm passado por modificações intensas. A combinação


de redes sem fio e aparelhos portáteis alavanca o surgimento de circuitos de
produção e distribuição bastante diferentes daqueles em que salas de cinema ou
galerias eram o destino mais evidente de filmes, vídeos e outros formatos
audiovisuais. Nesse contexto, a prática de “assistir” tornou-se tão íntima quanto a
leitura sempre o foi. Sons e imagens em movimento passam a fazer parte do
cotidiano individual, intensificando um processo de audiovisualização da cultura
que remonta aos anos 1980, com o aparecimento do videocassete e a crescente
proliferação de tecnologias mais acessíveis de captura, transmissão e recepção de
21

imagens. Esse processo leva à popularização de aparelhos de TV em espaços


públicos, mas também à invasão de bancos, metrôs e universidades por câmeras
de vigilância. No estágio atual, telefones celulares, iPods e os chamados sistemas
locativos aproximam do corpo dados e imagens antes mais ligados ao espaço da
cidade. De forma análoga, a produção individual ganha possibilidades de
distribuição nos novos contornos públicos que se formam nas redes. Existem
aspectos positivos e negativos nesse processo, no qual a democratização da mídia
está próxima da vigilância e do cerceamento de liberdades individuais.
No cenário atual, marcado pelo avanço contínuo da portabilidade, os custos
para a criação de filmes e vídeos diminuem significativamente. Como resultado,
observa-se o incremento de uma produção doméstica considerada por alguns uma
espécie de “artesanato digital”, conforme o termo cunhado por Richard Barbrook e
Pit Schultz em manifesto publicado na lista de discussões Nettime e multiplicado
pela web1. São trabalhos que se revelam bastante distintos da formalidade ou dos
compromissos de uma produção anterior, na medida em que flertam com uma
linguagem vernacular disseminada em escala global e, ao mesmo tempo,
rearticulam-se diante das facilidades digitais, que incluem novas formas de
indexação, interação e mesmo reedição, disponíveis atualmente em canais de Youku, hospedado em
http://www.youku.com:
vídeo como YouTube, Vimeo ou Blinkx. este site chinês para
“Internet-based amateur video delivery: the users and their requirements”2, de publicação de vídeos permite
Pekka Isomursu, Mikko Perala, Lassi Tasajärvi e Minna Isomursu, discute como esse hospedar longa-metragens;
o portal é polêmico por manter
circuito doméstico (antes restrito a cenas específicas, como a dos cineclubes) on-line filmes de diretores
amplia-se a partir do advento dos celulares com câmera de vídeo embutida. Um famosos e séries de televisão,
burlando a lógica de direitos
fenômeno mais eloquente, desse ponto de vista, é o surgimento de circuitos autorais apenas quando
dedicados ao chamado microcinema, em que as tecnologias digitais permitem veicula produtos não chineses
Imagem capturada do Website Youku.com
distribuir trabalhos com perfil diferente do esperado pelo circuito tradicional.
Outro aspecto é o uso da internet como mecanismo de memória do audiovisual,
em sites como Ubuweb3, que tem uma área totalmente voltada a filmes e vídeos escura e, hoje em dia, dos home theaters, não é compensada pela facilidade de
raros, ou Archive.org4, acervo de trabalhos de televisão, filmes educacionais e acesso. Dessa perspectiva, características como ubiquidade e potencial para
22 vídeos independentes, todos em domínio público ou com licenças open source. compartilhamento oferecem as possibilidades mais contundentes para o uso do 23

Mesmo programas alternativos, assinados por realizadores independentes, vêm vídeo em rede. Em “A arte sem fio”, Giselle Beiguelman resume o cerne desse
sendo veiculados para uma vasta audiência, seja por meio de licenças abertas com debate: “definir arte wireless como a arte da cultura da mobilidade é correto, mas
selos do tipo Creative Commons ou através de torrents em redes peer-to-peer. São demasiado genérico, fazendo com que se diluam particularidades e, com isso, a
formas de distribuição nem sempre autorizadas, mas com modo de disseminação capacidade de diferenciar arte para dispositivos móveis de arte com dispositivos
e alcance sem precedentes. móveis. A diferença não reside na preposição, mas nos formatos e objetivos de
Mas a ampla distribuição de material audiovisual, comumente desvinculada do proposição. No primeiro caso — arte para dispositivos móveis — a palavra-chave é
circuito tradicional, não é o aspecto mais surpreendente no universo das chamadas compartilhamento. No segundo, cibridismo (interconexão entre redes on e
mídias móveis. O uso de players, seja na internet ou em aparelhos portáteis, off-line)”5.
corresponde a um regime de exibição ainda modelado pela lógica do cinema ou Na cultura em curso, textos, imagens e sons tornam-se ubíquos com o
da TV. São telas menores, em que muitas vezes a perda do efeito imersivo da sala surgimento de aparelhos portáteis, como os PDAs e os cada vez mais turbinados
telefones celulares, explosivos em todos os sentidos da palavra. Na forma de gadgets,
1 BARBROOK, Richard e SCHULTZ, Pit. “The digital artisans manifesto”. http://www.imaginaryfutures.
net/2007/04/16/the-digital-artisans-manifesto-by-richard-barbrook-and-pit-schultz/. O texto também foi
itens de consumo fashion, pequenas centrais de produção multimídia, como
publicado na lista de discussão Nettime, em e-mail encaminhado por um usuário anônimo, a partir do endereço ferramentas de acesso e gerenciamento de informação ou como código, circulam
“nobody@replay.com”. http://www.nettime.org/Lists-Archives/nettime-l-9705/msg00120.html.
2 ISOMURSU, Pekka; PERALA, Mikko; TASAJÄRVI, Lassi e ISOMURSU, Minna. “Internet-based amateur video
por todo canto, nas mais variadas camadas sociais. Espalham-se próximos ao corpo,
delivery: the users and their requirements”. O artigo, de janeiro de 2004, foi publicado originalmente em http:// ou distribuem-se pelo espaço físico.
www.els.fi/publications/HICSSVideoDeliverywtxt.pdf. Atualmente, está disponível em http://search3.computer.
org/search/results?action=authorsearch&resultsPerPage=50&queryOption1=DC_CREATOR&sortOrder=descend
Nesta publicação, as possibilidades ligadas ao uso expressivo desses aparatos
ing&queryText1=Lassi Tasaj?rvi. interessam mais do que os demais usos. Os artigos apresentados oferecem
3 O endereço da Ubuweb é http://www.ubuweb.com. O acervo on-line de filmes disponíveis no site está
acessível a partir de http://www.ubu.com/film/.
4 O endereço do Archive.org é http://www.archive.org. 5 BEIGUELMAN, Giselle. “A arte sem fio”, Revista Trópico. http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2525,1.shl.
diferentes pontos de vista sobre o contexto em que a arte para dispositivos em música o burburinho de toques muitas vezes percebidos como incômodo, o
portáteis está inserida, além de compartilhar estudos de caso relevantes e espetáculo subverte o aviso de praxe: para assistir a Dialtones, recomenda-se ao
aprofundar-se em temas mais centrais da discussão. A seguir, encontra-se um público manter os aparelhos celulares ligados. Nas palavras do próprio Levin:
breve resumo desse universo, que será progressivamente ampliado pelos demais “Dialtones inverte nosso entendimento de som privado, espaço público, etiqueta
artigos, organizados em quatro partes, tendo como critério a proximidade eletromagnética, e a fábrica das redes de comunicação que nos conectam”8.
temática (Parte 1, Cultura Digital: Contexto e Emergência das Redes Móveis; Parte Lichty sustenta, no texto de curadoria de [re]distributions9, que a expansão das
2, Mídias Locativas: Desdobramentos Sociais e Políticos; Parte 3, Estudos de Caso: mídias móveis “em direção a uma cultura mais ampla parece ser uma forma de
Redes em Espaço Urbano). intervenção por si só”, na medida em que as redes de tecnologias portáteis conduzem
Em 2001, Patrick Lichty faz a curadoria de [re]distributions6 buscando justamente a uma cultura da distribuição, como resultado de um desvio “da tela à palma e ao
explorar o potencial expressivo de aparelhos como PDAs, pagers e telefones celulares. espaço”10. Essa abordagem será desenvolvida pelo próprio autor em “Pensando a
O projeto reúne o estado de uma arte de nômades digitais, por meio de textos, cultura nomádica: artes móveis e sociedade”, contextualizada por artigos como
imagens e vídeos criados para palms, e trabalhos que experimentam as possibilidades “Fantasmagorias, vitrines, infiltrações: ensaio sobre as tecnologias e a cidade”, de
de linguagem dos dispositivos de comunicação sem fio. Um dos destaques de Fábio Duarte e Polise De Marchi, e “Cartografias Líquidas”, de Priscila Arantes.
[re]distributions é o projeto Dialtones7 (Golan Levin, Gregory Shakar, Scott Gibbons e Entre os projetos presentes em [re]distributions, está Wop Art11, de Giselle
outros), , uma telesinfonia produzida pelo som dos celulares do público, coreografados Beiguelman, uma série de poemas criados para celulares com protocolo WAP.
a partir de sua localização e do tipo de toque. Essas informações podem ser conhecidas O trabalho explora as limitações da experiência on-line nos celulares da época,
previamente. Levin usou esse conhecimento prévio como base para compor, em tempo sugerindo formatos de leitura que emergem da fricção entre redes fixas e móveis.
real, uma música que inverte as noções de sons públicos e privados. Beiguelman entende que o estado de dispersão criado pelas situações entrópicas
24 em que são usados aparelhos portáteis, como palms e celulares, não é um 25

problema, mas sim um fator a ser levado em conta. Em vez da leitura concentrada
da cultura impressa, atualmente surge um formato de fruição distribuído, no qual o
entorno é um elemento incluído que, portanto, precisa ser considerado durante
a criação de conteúdo para essas mídias.
Dialtones foi apresentada pela
primeira vez em dois
Outro exemplo de trabalho que explora a relação entre redes on e off-line é Node
concertos consecutivos, Runner12, game criado por Yury Gitman e Carlos J. Gómez de Llarena. O jogo
realizados em setembro de transforma a cidade de Nova York num campo onde duas equipes devem se logar no
2001, em coprodução com o
Ars Electronica. A telesinfonia maior número possível de nós de internet wireless — os pontos são somados a partir
fratura os limites entre sons da publicação de fotos no blog do projeto. Node Runner trata o espaço público como
públicos e privados, ao
transformar ringtones em
interface e ressalta as conexões entre as redes de informação e o ambiente urbano.
fragmentos de uma Buscando ligações similares, entre espaços virtuais e reais, na configuração de
composição executada em uma espécie de ambiente híbrido, o grupo britânico Blast Theory criou o Can You
tempo real, conforme o artista
telefona para a plateia
Golan Levin, Gregory Shakar, Scott Gibbons, et al.
8 Cf. [re]distributions, em http://www.voyd.com/ia/wirelesslevin.htm.
Dialtones propõe investigar de que forma as redes possibilitam a geração de 9 Cf. “[re]distributions. Curator’s Statement”, em http://www.voyd.com/ia/curator1.htm.
10 Lichty nos amplia essa visão no artigo “Towards a Culture of Ubiquity”, em link a partir da apresentação de
padrões musicais inesperados e fenômenos sonoros imprevistos. Ao transformar [re]distributions: http://www.voyd.com/ia/essaylichty.htm.
11 O site de wopart é http://www.desvirtual.com/Wop Art.
12 Mais informações sobre o game Node Runner na página do YouTube de Yuri Gitman (http://www.youtube.
6 [re]distributions está disponível em http://www.voyd.com/ia. com/user/YuryGitman#play/all/uploads-all/2/7tz7sVLgoEA) e no site da med 44, em http://www.med44.com/
7 Mais informações sobre Dialtones no site de Golan Levin: http://www.flong.com/projects/telesymphony/. pages/noderunner.html.
See Me Now?13. Nesse jogo, desenvolvido em colaboração com o Mixed Reality Lab
da Universidade de Nottingham, jogadores on-line participam da ação, que se
passa tanto no espaço físico como num mapa virtual da cidade onde a partida
acontece. A posição relativa dos jogadores é rastreada por satélites e as
informações são enviadas para computadores de mão, conectados a unidades GPS
que permitem a localização do adversário. O texto “Em busca de uma performance
de realidade mista do tamanho da cidade” detalha as interfaces criadas pelo grupo
inglês durante o desenvolvimento deste que é um dos projetos mais celebrados na
área da arte com mídias móveis. CYSMK? foi apresentado em versão customizada
para o bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte (MG), em 2008, na terceira edição
do Vivo arte.mov — Festival Internacional de Arte em Mídias Móveis.
Uma tendência correlata é o mapeamento urbano por meio de dispositivos
de localização geográfica. Exemplo disso são os WikiMaps, mapas interativos de
cidades, como os de Linz, na Áustria14, e de Madri, na Espanha15. Posteriormente,
possibilidades de mapeamento como as sugeridas pelos WikiMaps foram
Imagem Retirada da Wikipedia
ampliadas por ferramentas como o Google Earth (em que se pese o fato de os
Rastros de GPS da cidade de Manchester, apelidada de Madchester quando o Hacienda mostrou ao mundo o
WikiMaps serem ferramentas comunitárias, ao contrário do software da Google, som do Happy Mondays, e agora conhecida como Mapchester, devido à ações como o fim-de-semana de
que é proprietário). Em mapas criados nesse contexto, é possível inserir textos, mapeamento coletivo organizado por Universidades e institutos locais em maio de 2006, durante o Festival
Futuresonic.. (fonte: http://wiki.openstreetmap.org/index.php/Mapchester#OSM_is_mapping_Manchester)
26 imagens e sons, transformando a cartografia num muro de recados distribuídos 27

e possibilitando a inserção de experiências e comentários individualizados, não


necessariamente “oficiais”. Por isso, subvertem a lógica dos mapas convencionais. produção do espaço”, e no artigo de Ryan Griffis, “Por uma arte contra a cartografia
Esse tipo de tecnologia foi usado em ações que se tornaram referência para o uso da vida cotidiana”). Segundo Brett Stalbaum, os artistas da informação que
atual, como a promovida em Manchester, usando como plataforma o sistema de trabalham com sistemas de localização geográfica estão diante do desafio de
código aberto OpenStreetMap (OSM)16. Em um fim de semana, nos dias de 13 e 14 entender de que forma a paisagem pode ser vista a partir de uma lógica de bancos
de maio de 2006, mais de 40 pessoas reuniram-se para coletar informações por de dados.
meio de receptores GPS — público expressivo naquele período, considerando-se O desafio é produzir sentido a partir do conjunto de informações reunidas17. A
que se tratava de uma tecnologia que se disseminou apenas nos últimos anos. lógica é sempre a mesma, e foi resumida por Patrick Lichty no texto curatorial de
Ao construir paisagens de texto, imagem e som, ou desenhos baseados em [re]distributions: a importância do que é produzido para dispositivos móveis é
rastros de dados, projetos como os descritos indicam algumas das possibilidades relativa, em comparação aos efeitos desses dispositivos na cultura como um todo,
narrativas e formas de visualização possíveis com sistemas de informação que se torna wireless.
geográfica. Essa tendência estabelece uma proximidade com práticas da geografia Nesse contexto de uma cultura sem fio, as redes ganham capilaridade, tornam-
e da geopolítica, conforme explorado em alguns artigos deste livro (especialmente -se potencialmente mais distribuídas e têm seu alcance multiplicado, o que implica
no texto de Trevor Paglen, “Geografia experimental: da produção cultural à tanto formas alternativas de produzir e circular textos, imagens e sons, como
métodos de vigilância cada vez mais intrusivos. Mas a tecnologia celular parece
13 A documentação de Can You See Me Know? está disponível em http://www.blasttheory.co.uk/bt/
sempre caminhar em sentidos ambíguos, nem sempre complementares. Ao
work_cysmn.html.
14 O endereço do WikiMap de Linz é http://wikimap.hotspotlinz.at/de/index.php.
15 O endereço do WikiMap de Madri é http://www.wikimap.es. 17 STALBAUM, Brett. “Database logic(s) and landscape art”. http://www.c5corp.com/research/databaselogic.
16 O endereço do Open Street Map é http://wiki.openstreetmap.org/index.php/Mapchester. shtml.
mesmo tempo em que dão nova amplitude aos processos de distribuição de ativista dos aparelhos portáteis (como será discutido em textos como “Vigilante
conteúdo, os dispositivos móveis incrementam mecanismos de localização e canalha! Novas manifestações da vigilância de dados no início do século vinte e um”,
restringem privacidades — assunto abordado sob vários pontos de vista nesta do próprio Preemptive Media, e “45 revoluções por minuto (história da mídia em alta
publicação. Em um momento em que as redes Wi-Fi de banda larga e as velocidade)”, de Armin Medosch).
possibilidades da rede 3G se ampliam e permitem trocar vídeos com relativa Resta, mesmo assim, o desafio de produzir conteúdo adequado para ser
facilidade, tal fenômeno preocupa executivos das indústrias fonográfica e transmitido em tempo real, um problema que persiste mesmo em conexões 3G ou
cinematográfica — no que diz respeito a direitos autorais —, os quais buscam de banda larga — que ainda não se mostra tão larga no Brasil em termos de
controlar seus negócios nesses novos setores. velocidade fornecida, de fato, ao usuário, principalmente considerando-se o custo-
Trata-se de um fenômeno mais complexo do que se supõe. Como exposto nas -benefício conforme o usuário se distancia dos grandes centros.
premissas do início deste texto, tem-se um processo de negociação que incorre em No caso da distribuição para celular, permanece o desafio de produzir para telas
aspectos negativos e positivos. Se em toda negociação há perdas ou ganhos, a pequenas, uma vez que nos dispositivos portáteis e sem fio esse tamanho deve se
distribuição de conteúdo pode ser vista como moeda de troca da vez, mesmo que o manter pequeno por um bom tempo (e essa é, talvez, uma das poucas propriedades
material oferecido não seja sempre desejado, mas segue marcado pela perspectiva relativamente estáveis nesse meio). Assim, somam-se outras características: ao invés
de fruição de serviços ou customização de produtos adquiridos e inseridos na lógica da sala escura e contemplativa, o vídeo enfrenta lugares claros, ruidosos, entrópicos.
do capital. No entanto, a noção de consumo assume outras nuances, e elementos Onde havia concentração, surge o estilhaçamento. Por um lado fica evidente que os
complicadores surgem a cada passo. Para Lassi Tasajärvi, por exemplo, um “número celulares ainda são, em parte, dispositivos de comunicação, em que pesem os
crescente de amadores do vídeo opera como ‘atores híbridos’: eles não estão recursos cada vez mais sofisticados, que os aproximam de plataformas portáteis para
satisfeitos com um único papel, mas atuam como consumidor, artista, edição e distribuição de áudio e vídeo. Esse aspecto reforça a perspectiva de fruição
28 desenvolvedor, usuário e criador de conteúdo em vários sites”. Essa facilidade para não exclusiva das mídias móveis atuais, já experimentada, por exemplo, em 29

elaborar vídeos estimula a repensar a fronteira entre o amador e o profissional, e videoinstalações e em outras situações de estilhaçamento do vídeo em suportes
discutir os parâmetros para a produção audiovisual em um contexto de câmeras variados (uso de projeções difusas, TVs portáteis e diferentes condições de baixa
acessíveis e telas de todos os tamanhos espalhadas pela cidade (e, muitas vezes, definição), que já haviam rompido com o formato estático da sala de exibição e/ou
conectadas entre si). Entre os aspectos supostamente “saudáveis”, estaria a forma com a geometria asséptica do cubo branco.
como essas ações descentralizadas perturbam os circuitos de distribuição Por outro lado, com a consolidação gradual das tecnologias 3G e a
tradicionais (como já foi sugerido no início deste texto). Videoblogs18 e serviços para popularização dos smartphones e de aparelhos mais robustos, com capacidade
publicação e compartilhamento de audiovisual (como sites que seguem a linha do efetivamente multimídia, o uso do celular como plataforma para navegação na
YouTube), bem como os vodcasts19, são bons exemplos. internet torna-se recorrente. Em alguns países (caso do Brasil e de Angola), esse
Ainda que muitas vezes tecnologias desse tipo funcionem apenas como cabide fator representa, aliás, uma possibilidade de oferecer acesso a camadas da
de arquivos de vídeo, o simples fato de oferecerem alternativas ao modelo fechado população que dificilmente conseguiriam conectar-se à rede por meio de
das redes de TV já é relevante. Por outro lado, “uma das vozes mais criativas da computadores pessoais. O preço do celular é mais acessível. E o Brasil nunca
emergente vlogosfera, o brasileiro radicado nos EUA, Rick Silva, adverte que ‘os superou por completo problemas de infraestrutura de telefonia e algumas
vlogues não são uma forma de integrar web e TV’, mas uma nova linha de ação de defasagens tecnológicas decorrentes das reservas de mercado instituídas no país
performance em rede”20. Essa perspectiva está em sintonia com projetos como o durante os anos 1980. Ironicamente, em vez de políticas públicas, é o sucesso de
Moblog, do Preemptive Media, e outras vertentes que costumam resvalar em um uso um produto como o telefone celular que parece equalizar um pouco esse
problema.
18 Ver também “O grande vídeo“, artigo de Marcus Bastos, disponível em http://p.php.uol.com.br/tropico/ A perspectiva de deslocamento seria mais um aspecto relevante das mídias
html/textos/2639,1.shl.
móveis. Esse estímulo ou promessa ocorre porque o “telefone celular não é
19 Cf. http://vodcasts.tv.
20 Cf. BASTOS, Marcus. Op. cit. ‘apenas’ um dispositivo de comunicação”, conforme observa Drew Hemment em
artigo de 200321. Seu uso não se restringe às conversas em trânsito para as quais elaborado. Hoje, as práticas descritas acontecem numa paisagem bem mais
foram criados. intrincada, e a discussão ganhou outras nuances, conforme torna-se mais tangível
Por isso, é ingênuo pensar as mídias móveis fora do contexto mais amplo de uma a chamada “internet das coisas”, conjunto de dispositivos físicos, geralmente
cultura de rede que gradualmente se capilariza. Um dos principais debates, nesse miniaturizados, como sensores, chips de identificação e nanotecnologia,
âmbito, diz respeito ao surgimento de formas de rastreamento e vigilância cada vez comandados a partir de redes de computação ubíquas.
mais sofisticadas. Em vez de tecnologias antipáticas, como as câmeras de circuito Os problemas apresentados persistem, e os questionamentos propostos
interno e os radares dos anos 1980, o rastreamento de informações se dá, atualmente, perduram para além da eventual obsolescência ou sucesso das tecnologias
por meio de aparelhos “amigáveis”, ou em processos prosaicos, como na assinatura abordadas. Um raciocínio semelhante pode ser aplicado aos demais artigos deste
de um determinado serviço on-line ou na compra de um livro ou CD com etiqueta livro. São textos cuja capacidade de imaginar futuros não é diminuída pela rapidez
RFID. O próprio Hemment coloca em pauta uma das discussões comuns nesse com que as tecnologias de que tratam são eventualmente substituídas.
universo: “O que acontece quando se torna fácil para todo mundo monitorar todo O público principal que este livro almeja está no Brasil (e na América Latina): ele
mundo, quando a vigilância pode ser afetada por tecnologias de balcão, no contexto terá a oportunidade de se familiarizar, em seu próprio idioma, com debates
de redes peer-to-peer que não podem ser roteadas por um ponto central?” (ver importantes para o entendimento da cultura contemporânea. Para esse público,
“Apontamentos sobre as mídias locativas”, artigo que abre este volume). também foram preparados uma cronologia e um glossário, que permitem
Para ensejar respostas, faz-se necessária uma melhor compreensão dos usos complementar a leitura dos textos com definições de termos especializados e
imprevistos de handhelds, receptores GPS e telefones celulares. Vários dos informações históricas capazes de balizar uma compreensão mais ampla dos
trabalhos apresentados e discutidos neste livro exemplificam formas de driblar as processos que levaram ao surgimento da arte em mídias móveis.
definições estritas de uso previstas para essas tecnologias por parte de fabricantes Esse redesenho constante da rede é um aspecto que foi levado em
30 e operadoras. São projetos que em algum momento, no contexto em que foram consideração na preparação deste livro. Sempre que possível, as notas que fazem 31

criados, sugeriram ao mundo um campo de tensão entre localização e referência a endereços de internet procuram remeter não apenas ao site em que
deslocamento, entre mobilidade e mobilização, inserindo pelas frestas das um texto foi originalmente publicado, mas também a uma fonte alternativa de
estratégias de consumo algumas possibilidades expressivas dissonantes. Cabe ao consulta. A volatilidade é uma característica notória da internet. Um livro que trata
leitor dos textos a seguir decidir se esse suposto otimismo, presente no discurso de do universo das redes não pode ser ingênuo ao acreditar que será capaz de
alguns realizadores relevantes para o cenário da produção de audiovisual e arte solucionar, no tempo expandido da preparação de um volume impresso, a
com mídias móveis, reflete, de fato, os rumos dessas tecnologias, ou se, como tendência a eventuais mudanças de endereços ou o desaparecimento de textos
acreditam outros, todo e qualquer tipo de uso desses aparelhos está sob suspeita que algum dia estiveram na rede. Mas, como forma de lidar com a questão, ao
de, em última instância, construir mundos novos nada admiráveis. menos busca ampliar as fontes de consulta disponíveis, tentando oferecer a seu
Os artigos foram selecionados por sua importância no debate sobre a forma leitor mais de uma alternativa, na esperança de que ele possa partir do livro para a
como aparelhos portáteis com recursos multimídia e de conectividade, cada vez rede sem os tropeços que fazem parte desse universo em constante reorganização.
mais sofisticados, estão modificando a cultura e a sociedade. Por se tratar de um
universo que muda com grande velocidade, alguns dos temas abordados precisam
ser entendidos no contexto original de publicação. Um exemplo é “Vigilante
canalha!”, do Preemptive Media. O texto discute o problema do rastreamento de
informações por meio de tecnologias AIDC (ver glossário) e aponta
desdobramentos como o RFID, ainda em implementação quando o artigo foi

21 O texto de Hemment está disponível em http://www.drewhemment.com/2003/mobile_phones_and_sur-


veillance.html.
dias locativas Mídias locativas

spaço público Arte e espaço público

RTE 2
Portabilidade

Redes sem fio


PARTE 1 Portabilidade

Redes sem fio


TÁTEIS CULTURA DIGITAL: CONTEXTO E EMERGÊNCIA DAS REDES MÓVEIS
álise, reflexão Conceito, contexto, análise, reflexão

e dispositivos Subversão de dispositivos

Site-specific Site-specific

, artes, mídia Interconexções_cinema, arquitetura, geografia, artes, mídia


34

35
PENSANDO A CULTURA NOMÁDICA:
ARTES MÓVEIS E SOCIEDADE
PATRICK LICHTY

Desde a invenção das primeiras telemídias, como o semáforo e o


heliógrafo, o impacto das tecnologias de comunicação sobre a arte e a
cultura foi profundo. Mídias remotas figuram de maneira proeminente
no trabalho das vanguardas do início do XX, incluindo o dadá e o
surrealismo, assim como o telégrafo, que é “morto por um tiro” na
peça Casamento na Torre Eiffel1, de Cocteau. Durante o século XX,
de Russolo a Rauschenberg, as tecnologias e mídias desempenham
um grande papel na arte contemporânea ocidental. E, à medida que
35

expandimos do desktop aos domínios das artes móveis, locativas e


integradas, a evolução da telemídia continua a se refletir nas formas
emergentes da arte para dispositivos móveis e da arte locativa.
Embora nada me desse mais prazer do que entrar numa exposição
histórica da genealogia da arte locativa e da arte para dispositivos
móveis, essa discussão provavelmente seria ampla o suficiente para

1 COCTEAU, Jean. “Casamento na Torre Eiffel” (1921). In: A máquina infernal: peça em quatro
atos. Petrópolis: Vozes, 1967.
preencher um livro. Portanto, este ensaio focará a relação entre a sociedade e a mesma forma, os nós com maior acúmulo de visitantes e colaborações também
cultura móvel, pelo exame de algumas de suas formas artísticas. criam “poços gravitacionais” no terreno. Então, penso que, na medida em que a
Ao levar em conta a natureza da malha multicamadas de redes que cria sociedade em rede é aquela onde há um número mais potencialmente infinito
a sociedade móvel, retorno aos escritos de Deleuze, McLuhan e Virilio, e ao de nós e interconexões, alguns dos nós e caminhos no mundo eletrônico têm
trabalho de Duchamp. A partir deles, acredito que a (inter-)rede rizomática maior peso, graças ao seu grau de história e tráfego.
expandiu-se em uma malha de múltiplas camadas que consiste nas
comunicações na aldeia global. Esta simultaneamente coloca espaços McLUHAN, ALDEIAS GLOBAIS & PRÓTESES
interpessoais em colapso, possivelmente nos pondo em uma armadilha Para entrar no tipo de espaço social criado pela miríade de redes geradas
resultante do nível crescente de disponibilidade através das telecomunicações. pela cultura móvel, McLuhan apresenta uma metáfora que pode nos servir.
Em soma aos autores citados, invoco o pensamento de Vilém Flusser2 ao Em seu pronunciamento sobre a aldeia global4, ele pensou originalmente
assumir um tom mais controverso em minha escrita e, esperando que este texto sobre as redes telemáticas consistindo em redes de telefone, satélites de TV,
receba sua aprovação, peço desculpas ao leitor que anseia por uma tese mais rádio e, provavelmente, vestígios da grande rede
(ou menos) formal. telegráfica. Hoje em dia, porém, temos várias
redes que estão interconectadas. Há grandes
DELEUZE: REDES & RIZOMAS malhas de comunicação entrelaçadas, incluindo
Em “Rhizome to tree”3, Gilles Deleuze escreve sobre o “achatamento” do IP, televisão, telefonia sem fio, redes ad hoc
rizoma como uma metáfora da natureza massivamente interconectada da e diversos tipo de tecnologias híbridas. Se é
informação na era da internet. A metáfora também descreve estruturas sociais possível desenhar uma metáfora do crescimento
36 on-line e os primeiros modos de distribuição de conteúdo na rede. No rizoma, de camadas de redes em que habitamos, basta 37

as formas societais profundas, incluindo informação, literatura etc., sacrificam imaginar cada uma dessas redes rizomáticas
qualquer profundidade de reflexão em favor do engajamento superficial da razoavelmente achatadas e, em contrapartida,
“net”. É possível argumentar que, talvez até o final dos anos 1990, a “net art” atadas umas às outras pela capacidade dos
ainda estava em seus estágios iniciais, lidando com os gestos e jogos sociais telefones celulares de receber vídeos ou enviar
possíveis nesse meio emergente. Até então, ela não tinha o construto de e-mails, e dos iPods de receber notas, músicas,
interações, obras de arte e história em geral necessário para constituir um banco vídeos, e assim por diante. Dessa forma, talvez a
de dados cultural como o descrito por Manovich. aldeia global de McLuhan seja a malha de redes
Uma expansão no tempo do rizoma de Deleuze pode cumprir o papel de com vários níveis de convergência de mídias entre
atribuir maior “peso” aos nós e caminhos na rede rizomática, como uma essas tecnologias. Não é uma ironia pequena
metáfora para áreas da rede em que se experimenta maior acúmulo de Capa do livro War and Peace in the Global
o fato de que, em lugares sem infraestrutura
“história” e quantidade de tráfego. Imagino esse conjunto de nós em que as Village: McLuhan experimentou, em telefônica de cobre, como o sudoeste da Ásia e
pessoas deixam algum artefato quando visitam, e esses rastros as conectam. parceria com o designer Quentin Fiore, partes da África e da América do Sul, as redes
formatos de publicação em que o uso de
Nessa grande rede de pontos de visitação, alguns rastros serão visitados com imagens e recursos gráficos pretendia sem fio tenham superado a rede terrestre, o
mais frequencia, e por isso serão inscritos profundamente na paisagem. Da resultar em livros em sintonia com a nova que implica um comentário interessante sobre
sensibilidade emergente na cultura
eletrônica
nomadismo e mobilidade em áreas do mundo em
2 FLUSSER, Vilém. “Essays”. In: STRÖHL, Andreas (ed.). Writings. Minneapolis: University of Minnesota
estão desenvolvimento.
Press, 2002.
3 DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. A thousand plateaus: capitalism and schizophrenia. Minneapolis:
University of Minnesota Press, 1987. A edição brasileira do livro foi publicada com o título de Mil platôs: 4 McLUHAN, Marshall. A galáxia de Gutenberg: a formação do homem tipográfico. São Paulo: Nacional/
capitalismo e esquizofrenia, pela Editora 34, em 1995. Edusp, 1972.
Um segundo aspecto do pensamento de McLuhan que se encaixa bem na cria uma cultura do acesso constante, na qual está implícita a exigência da
cultura móvel vindoura é o conceito de prótese tecnológica. Conforme a disponibilidade 24 horas por dia, sete dias por semana, fazendo com que as
engrenagem se amplia, talvez o telefone celular seja uma expansão da boca e pessoas nunca deixem seu local de trabalho. Há ainda a cultura da constante
do ouvido, e o iPod, uma extensão da memória e do ouvido. Talvez as mídias atualização de tecnologia, que criou vários depósitos de dejetos altamente
locativas e os equipamentos de GPS sejam extensões da memória semelhantes tóxicos, muitos dos quais são consequência do descarte de tecnologias
à das tábuas de memória (lukasa), na África5, que usam mapas e rosários “velhas”, que saíram de moda. Ao considerar esse aspecto, apenas atualizo meu
“localizados” como dispositivos mnemônicos. Minha argumentação aqui é telefone a cada quatro anos e pesquiso suas características com muito cuidado,
quase uma reiteração de McLuhan, e a diferença nas tecnologias que usamos de modo a manter um conjunto de configurações que perdure por bastante
para nos expandir não parece ter mudado tanto na forma, mas no modo e na tempo. Além disso, decidi desligar meu telefone por certos períodos, pois acho
saturação/pervasividade. Isso me leva à ideia de mídias ubíquas na sociedade a mentalidade “sempre on-line” exaustiva para o organismo humano.
contemporânea. Isso dito, esclareço que não sou adepto do luddismo7 nem do determinismo
tecnológico. A tecnologia é parte da existência humana, e será por milhares de
A CULTURA DA UBIQUIDADE anos. É nossa escolha sermos seduzidos, informados ou deleitados por nossas
Em 1998, escrevi um ensaio para o simpósio Emotional Architectures do Banff ferramentas. Pessoalmente, optei pela terceira estratégia deleuziana ao dizer
New Media Institute, intitulado “Building a culture of ubiquity”6 [Construindo que, no meu caso, a tecnologia é uma escolha, não uma ferramenta ou um
uma cultura da ubiquidade]. Esse ensaio elabora um cenário possível para a meio. Trata-se da cultura em que fui criado, e é tão natural para mim quanto o uso
propagação de mídias da tela a uma cultura mais ampla, em uma sociedade na da tábua de memória (lukasa) para a cultura Luba, na África8. É uma extensão
qual mídias ubíquas estariam presentes. Naquela ocasião, eu imaginava que cultural (prótese?) de minha cultura. Da mesma forma que são próteses
38 a trajetória lógica era as mídias migrarem para a mão, na forma de tecnologias tecnológicas, as mídias também são espelhos, através dos quais a humanidade 39

móveis como PDAs e telefones celulares, depois para o corpo, com tecidos transmite e armazena sua própria identidade para reflexão futura. Mas é a for-
inteligentes e computadores vestíveis, e então para “ambientes” inteligentes, ma que usamos nossas próteses — e às vezes o modo como nos valemos delas
painéis de grande escala e processamento integrado. Desde então, a realidade — que nos define, que nos oferece maior riqueza de conhecimento sobre
se tornou bem mais convergente, e aquelas tecnologias volumosas, como como a cultura tecnológica está nos modelando e para onde pode estar
telas do tamanho de uma parede, ainda estão distantes. Mais que isso, o uso conduzindo a cultura humana.
de etiquetas RFID e processamento integrado é mais predominante do que eu
imaginava, criando a chamada “Rede de Coisas”. ARTE: OBJETOS, CANAIS, NOMADISMO E PARALISIA
Esses desdobramentos criam grandes avanços, mas também problemas. Ao considerar os efeitos culturais da mobilidade, no contexto deste ensaio e de
Por exemplo, em áreas do mundo onde a infraestrutura de cabos de cobre não meu pensamento anterior, o melhor método de aproximação ao tema é por
existe ou se desenvolveu tardiamente, a tecnologia de telefonia celular causou meio da arte e do pensamento do século XX. Ao usar dispositivos móveis para
um efeito “cascata”, superando os métodos tradicionais de comunicação. As criar arte, a forma e a função destes, o modo como interagimos com eles e
comunicações tornam-se mais fáceis, as emergências podem ser resolvidas os efeitos sociais resultantes são como seu conteúdo. Os dispositivos móveis
mais rapidamente, o material escolar pode ficar mais acessível, e assim por desafiam muitos de nossos pressupostos fundamentais sobre arte, além de
diante. Por outro lado, o desenvolvimento de tecnologias móveis e integradas produzir novos terrenos sociais que estão sendo explorados. Os aparelhos

5 ROBERTS, Mary N. e ROBERTS, Allen F. Memory: Luba art and the making of history. Nova York: Prestel Pub 7 Movimento ocorrido na Inglaterra desde o início do século XIX. Contrário à mecanização do trabalho,
e Museum for African Art, 1996. tinha como proposta a destruição da máquina, que era responsabilizada pelo desemprego e pela miséria
6 LICHTY, Patrick. “Building a culture of ubiquity”. http://www.voyd.com. O texto também pode ser social.
encontrado em http://www.intelligentagent.com/archive/ia8_1_SocialFabrics_BuildingaCultureofUbiquity_ 8 ROBERTS, Mary N. e ROBERTS, Allen F. Memory: Luba art and the making of history. Nova York: Prestel Pub
Lichty.pdf. e Museum for African Art, 1996.
de mão e os computadores que podem ser vestidos criam canais de meio dos quais as pessoas podem
comunicação tanto quanto o estoque de objetos de arte; criam também uma compartilhar experiências. Nesse caso, em
rede pública (ou rizoma), que estimula uma linguagem comum entre seus trabalhos de telepresença com robôs, como
usuários. Ornitorrinco14, isso é feito à distância, por
Evidentemente, foi Duchamp quem mais recebeu os créditos por destruir o meio de canais de comunicação, como
objeto de arte com sua Fonte, de 19179, e seus readymades seguintes, criados a transmissões de vídeo, internet ou televisão
partir de objetos cotidianos, recontextualizados por sua beleza enquanto objetos slow scan. O mesmo vale para o artista Otávio
de arte. Além disso, Caixa-valise10, também elaborada por Duchamp, consistiu Donasci com seu Videocriaturas15, que funde
em um recipiente com numerosas reproduções de seu trabalho, que punha em performance ao vivo e aparelhos de televisão
debate a própria função do museu ao deixar que o artista viajasse com seu que transmitem ao vivo, criando outro canal
projeto de curadoria. Caixa-valise questiona de maneira precisa o papel da para esses dispositivos e, dessa forma,
instituição ao permitir que o artista assuma todos os papéis — administrador, descentrando
curador e artista. A partir dos aparelhos móveis, o recipiente portátil encontra o o dispositivo do objeto.
artista de mídia, com telefones e iPods que armazenam fotos, sons e vídeos com Talvez a tradição das artes telemáticas no
capacidade e qualidade cada vez maiores. Conforme os fabricantes desses Brasil, assim como a transmissão nos anos
aparelhos vendem seus dispositivos como se fossem objetos de design, e esses 1970 de arte pela TV nas Américas, possa nos
Foto Cedida por Eduardo Kac
objetos vão ganhando a capacidade de armazenar arte em mídia, as linhas entre informar sobre a operação do celular na arte
dispositivo e conteúdo se tornam tão problemáticas quanto na obra de O projeto Ornitorrinco, de Eduardo Kac, contemporânea. De várias formas, são canais
explorou as possibilidades da telerobótica
40 Duchamp. que funcionam como condutos para a 41
antes do surgimento da web: o sistema
Como resposta, criei uma edição de vídeo para iPods, gravada em laser, permitia, em 1989, a usuários em espaços experiência de um ou mais indivíduos, que se
chamada Valise-iPod11. Esses dois iPods, ambos com a frase “Ceci n’est pas une públicos e privados acessarem remotamente revelam específicos das tecnologias
um robô móvel e sem fio para alterar sua
iPod” (referência à Magritte)12 transformam o iPod em recipiente/exposição para localização remota envolvidas. Além do mais, isso também
o artista de mídia. No entanto, a modificação física do dispositivo coloca em sugere que esses canais são, eles mesmos,
questão o contexto desse iPod e a dúvida se a gravação recoloca o dispositivo mídias, pois abrigam e facilitam vários tipos
em termos de história da arte. Assim, ao evocar Duchamp e Magritte, será que de comunicação. Portanto, o dispositivo móvel pode ser entendido como tipo
Valise-iPod, com suas formas físicas recontextualizadas, do mesmo modo como de objeto ou de meio, dependendo de seu uso.
sua coleção de vídeos, sons e imagens de artista — que podem ser duplicados e Mas tão importante quanto a maneira como funcionam a arte e as mídias é a
removidos a gosto —, constitui uma obra de arte ou apenas uma elaborada forma como elas afetam o ser humano e suas estruturas sociais. Por exemplo, os
“moldura para imagens”? trabalhos de Christo e Jeanne-Claude redefinem completamente o espaço
O artista brasileiro Eduardo Kac, em seu livro Telepresence and bio art13, público no qual operam, com seus “embrulhos” e pontes que alteram de modo
descreve o uso de meios tecnológicos na arte como uma criação de canais, por profundo o relacionamento entre comunidade e espaço. Da mesma forma,
embora não de maneira análoga, o telefone celular criou eventos como as flash
9 DUCHAMP, Marcel. Fonte, 1917 (original perdido). Urinol readymade de porcelana. Réplicas feitas pelo
mobs, que permitiram o acontecimento de eventos sociais espontâneos,
próprio autor estão expostas em vários museus do mundo. baseados na interconexão de comunidades que possuem telefones celulares.
10 DUCHAMP, Marcel. Box in a valise, 1935-42. Réplicas feitas pelo próprio autor estão expostas em vários
museus do mundo.
Mais que isso, torpedos e SMS também mudam o modo como interagimos. É o
11 LICHTY, Patrick. Valise in an iPod. http://www.voyd.com/ValiseiPod.html
12 Na obra de Magritte, lê-se “Ceci n’est pas une pipe” (isto não é um cachimbo). (N. T.)
13 KAC, Eduardo. Telepresent and bio art: networking humans, rabbits & robots. Ann Arbor: University of 14 Ibidem, p. 129-35.
Michigan Press, 2005. 15 Ibidem, p. 41-6.
caso de um amigo meu, que se recusa a falar ao telefone, mas insiste em enviar Minha esperança é de que os artistas vejam essas mudanças como um terreno
torpedos para discutir se há algum assunto importante o suficiente para ser fértil para a investigação crítica e criem trabalhos que chamem atenção para
objeto de uma conversa. esses temas.
O indivíduo móvel é um nômade, que se move de um lugar para outro sem
perder contato com o coletivo da “aldeia” eletrônica. Desde que estejam em sua CONCLUSÃO
rede de recepção, eles ainda se encontram (presumivelmente) disponíveis. Nas últimas páginas, refleti sobre temas relacionados aos meus pensamentos
Além disso, tecnologias em desenvolvimento permitem ao indivíduo nômade o a respeito de cultura móvel, sua arte e seus efeitos sociais. Como no caso da
acesso a mídias locativas através de seus dispositivos móveis, recebendo maioria das tecnologias, há excitação e ansiedade, mas, com exceção das
informações sobre a paisagem local, ou mesmo prosa narrativa relacionada aos tecnologias em si, não há muita novidade no campo das novas mídias móveis.
arredores. Um exemplo é o Media Portrait of the Liberties [Retrato em mídia da Por muitos anos, existiram mídias móveis e redes sociais criadas por tecnologia;
Liberdade], de Valentina Nisi et al.16, em que histórias sobre o bairro da foi o modo que mudou e, portanto, se tornou objeto de meu interesse. Além
Liberdade em Dublin, Irlanda, são recuperadas por meio de PDAs Compaq iPAQ disso, a mudança tecnológica também estimula a transformação social, e,
sem fio, com unidades GPS. O interessante é que o indivíduo móvel está sempre como artistas, escritores, intelectuais, críticos etc., podemos ficar conscientes
enganchado em um universo mídia paralelo, que ele acessa conforme necessita dessas mudanças de forma a extrair delas o máximo possível de benefícios.
enquanto viaja ao redor do globo. Por outro lado, o uso de dispositivos móveis para a criação/distribuição/
Mas, de várias formas, o indivíduo móvel também está em estado de posse de arte coloca em questão muitos debates conceituais e formais que
paralisia. No ensaio “The third interval”17, Paul Virilio descreve a paralisia do estão em cena pelo menos nos últimos cem anos, aproximadamente. Por isso,
indivíduo em rede. Ele faz uma distinção interessante entre o paraplégico ainda que eu ofereça poucas “respostas” difíceis, espero que minha discussão
42 auxiliado por tecnologia e o indivíduo em rede que viaja pelas redes de apresente alguns insights sobre temas específicos da cultura móvel e suas artes. 43

comunicação. Ambos estão fisicamente paralisados, mas se movem por meio de Conforme a cultura móvel continua a mudar e se desenvolver, as artes que
redes na velocidade da informação, jorrando de caixas de entrada de e-mail, refletem sua natureza continuarão a derivar formas novas, fascinantes e mesmo
websites, blogs, e assim por diante. Então, de acordo com Virilio, há pouca problemáticas. Caso veja algo interessante, mande-me um torpedo. Eu estarei
diferença física entre os indivíduos em rede, na medida em que todos se tornam esperando, onde quer que esteja.
sujeitos de uma forma de paralisia física.
Isso continua no caso do indivíduo móvel. Embora não esteja mais sujeito à
paralisia física, ele está enraizado ao lugar onde se encontram seus dispositivos.
Não importa onde o indivíduo móvel se encontre, ele estará sempre no mesmo
lugar, localizável por seu número de telefone celular e por sua conta de e-mail.
Essa é a liberdade e a opressão da cultura móvel, a disponibilidade 24 horas por
dia, sete dias por semana, 365 dias por ano ali mesmo, no telefone ou endereço IP.
E, no meio disso, estão sendo introduzidas as tecnologias GPS geração 2000,
que permitem que o indivíduo móvel seja rastreado. Portanto, mesmo em
movimento, ele será passível de monitoramento de sua localização, movimentos
e hábitos. Se esse rastreamento vai ou não acontecer de fato, ainda não se sabe.

16 NISI, Valentina et al. “Media Portrait of the Liberties”. https://www.cs.tcd.ie/~nisiv/liberties.html. Também


disponível em https://www.cs.tcd.ie/publications/tech-reports/reports.08/TCD-CS-2008-34.pdf, p. 116-40.
17 VIRILIO, Paul. “The third interval”. In: CONLEY, Verena A. com apoio do Miami Theory Collective.
Rethinking technologies. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1993.
44

45
APONTAMENTOS SOBRE AS MÍDIAS LOCATIVAS
DREW HEMMENT

Em 2001, fiz a curadoria de uma exposição sobre vigilância chamada Broken


Channel, como parte da edição de 2003 do festival Futuresonic. Desde então,
mantive muitos dos interesses, curiosidades, preocupações e contatos que
surgiram na ocasião. Em 2003, tive a oportunidade de iniciar uma pesquisa e
propor um projeto nessa área. Como as mídias móveis sugeriam diversas questões
ligadas ao tema da vigilância e do controle, decidi me concentrar nesses aspectos
do debate. Na época, eu estava interessado no sistema conhecido como Celudar,
que é semelhante ao radar, mas usa emissões e infraestrutura de telefonia celular.
Tinha também interesse em fenômenos como o rastreamento GSM.
Meu primeiro contato pessoal com o grupo das mídias locativas — Ben Russell,
Marc Tuters e outros — foi no festival Next 5 Minutes, em Amsterdam, no ano de
45

2003. De certa forma, nessa época, as mídias locativas, para mim, eram definidas
por um grupo de pessoas que povoava a cena, mais do que qualquer outra coisa.
Eu estava fazendo essa pesquisa sobre mídias móveis e vigilância, e encontrei um
conjunto de pessoas interessadas nas mesmas tecnologias, e basicamente nos
mesmos usos dessas tecnologias, mas acentuando o ângulo oposto ao meu: suas
possibilidades criativas e benefícios. Na ocasião em que os conheci, eu seria o
último a falar na sessão de cartografia colaborativa. Depois do que ouvi, decidi dar
à minha apresentação o título de Antimapeamento (não tenho certeza se mais
alguém entendeu a piada).
O que me inspirou foi saber que existia um grupo de pessoas engajadas em Por causa dessas experiências, minha primeira impressão das “mídias
descobrir as possibilidades sociais dessas tecnologias, de um jeito construtivo, locativas” se deu a partir das sensações que elas causam. E claro que são muito
sem, naquele momento, levar em conta seu lado mais problemático, menos frias e distantes. Mas, ao mesmo tempo, oferecem um espaço em que esses meus
saudável. Desde então, a ambiguidade entre todo o emocionante potencial interesses antigos podem reviver. Muito do meu entusiasmo com as “mídias
criativo e social e as perspectivas sinistras, que estão presentes AO MESMO locativas” veio por perceber as possibilidades de conectar dispositivos locativos a
TEMPO nessas tecnologias, foi o que me manteve interessado no campo. ambientes de programação para redes sociais, ou pelo impacto social do
A expressão “mídias locativas” é nova e pode ser contestada energicamente, mapeamento coletivo, orientado ao usuário.
de perspectivas nem sempre construtivas. Tento interpretá-la de maneira solta e Mas não há muitas pesquisas desenvolvidas, na esfera das mídias locativas,
distinguir entre o conjunto de dispositivos e aparelhos disponíveis e o movimento sobre tatilidade, sobre as dimensões emocionais e hápticas da percepção. Não
tecnológico, social e artístico conhecido como “mídias locativas”. Entender a existe nada parecido com Crank the Web (2001), de Jonah Brucker-Cohen, ou
expressão de modo inclusivo, ao invés de excludente, às vezes implica o risco de Mobile Feelings (2002-03), de Christa Sommerer & Laurent Mignonneau, que
não diferenciar as mídias locativas de outras formas de envolvimento mediado exploram essas questões no contexto da internet. Esse é o motivo por que me
com a espacialidade. Ainda assim, é melhor do que engavetar o campo interesso por projetos como Sound Mapping (1998), de Iain Mott, ou Bio Mapping
prematuramente. (2004), de Christian Nold, que enfatizam o corpo no âmbito, ou para além, da
representação visual (apesar de ambos conterem o termo “mapeamento” no
título!). Foi por essa razão que, na exposição Mobile Connections, que curei para o
Futuresonic em 2004, projetos que não são entendidos como “mídias locativas”,
ou pelo menos que não cabem na definição exata do termo, como Oscillating
46 Windows (2003), de Katherine Moriwaki, e Sonic Interface (1999), de Akitsugu 47

Maebayashi, foram colocados lado a lado com projetos que são compreendidos
estritamente como “mídias locativas”.
Um diário em traços: Amsterdam
em Tempo Real, de Esther Polak e
NÃO BASTA DESVIAR OS USOS PREVISTOS DAS TECNOLOGIAS
Jeroen Kee é uma instalação GPS
criada com dados coletados por Há uma relação ampla entre conhecimento e poder, e quando esse conhecimento
moradores da cidade durante um se propaga no espaço e envolve a possibilidade de localizar em tempo real
período de dois meses, resultando
num mapa em que, em vez das indivíduos (ou os aparelhos que eles carregam), isso suscita muitas questões.
ruas e casas, só é possível ver o O modelo clássico de controle em sociedades modernas, industrializadas, é o
movimento das pessoas http://
realtime.waag.org/
pan-óptico, sobre o qual Foucault escreveu bastante. Nele, já havia a internalização
Imagem Retirada do Website do Projeto
do controle, em um processo no qual começamos a nos autopoliciar. Mais
Por muitos anos, estive interessado na relação entre espacialidade, percepção e recentemente, Deleuze argumentou que o controle se deslocou dos instrumentos
corpo. Isso vem da minha experiência com som e música. Eu me envolvi com tradicionais do poder do Estado, tendo se tornado um mecanismo intrínseco à
música como DJ e produtor de eventos de acid house, no final dos anos 1980. Os sociedade de consumo.
espaços sensórios e envolventes da cultura dance seguiram comigo, como uma Frequentemente, parte-se do pressuposto (não apenas no universo das mídias
metáfora para quando penso sobre arte, instalação, interação etc. Em 1999-2000, locativas) de que o ato de apropriação é suficiente — em outras palavras, que pegar
desenvolvi um projeto chamado SenseSonic, misturando som e espaço. Havia um as tecnologias desenvolvidas pelos militares e fazer alguma coisa diferente ou criativa
componente on-line, com a participação de pessoas como David Toop, Maryanne com elas é, por si só, subversivo. No entanto, não tenho certeza se isso pode ser
Amacher, Rolf Gehlhaar, Kaffe Matthews e Ansuman Biswas, e uma “club tour aceito como correto. Em primeiro lugar, os usuários mais qualificados podem, muitas
ambisônica” com Cristian Vogel. vezes, preparar o terreno para a introdução mais disseminada de algo que era
previamente considerado suscetível de objeções. Em segundo lugar, os projetos que arte, ou criar ações sociais), está se expondo ao risco de que seu projeto tenha
usam mídias locativas — com suas práticas de documentação (obsessiva ou consequências involuntárias que você vai detestar.
inadvertida) — contribuem para um processo em que o mundo é progressivamente A arte, aqui, pode desempenhar um papel importante ao apresentar essa
analisado e mapeado. O problema está em verificar até onde esse conhecimento é ambiguidade sem tentar fechá-la por meio de declarações simplistas. Sob esse
aberto, transparente e compartilhado. Uma questão central, portanto, é saber até ponto de vista, desempenha um papel utilitário a serviço da questão social. Por
que ponto é possível confiar no potencial subversivo dos projetos grassroots outro lado, a ambiguidade política oferece uma oportunidade de, em certo sentido,
(desenvolvidos pelos usuários por meio de tecnologias não corporativas e estimular uma arte bastante interessante. Para muitos, isso pode evocar sinais
metodologias comunitárias que privilegiam a espontaneidade e a ausência de perigosos. A arte “a serviço de” qualquer coisa é problemática para essas pessoas,
hierarquia) e até que ponto eles apenas aumentam a Consciência Informacional Total. nem tanto por geralmente resultar em trabalhos ruins, mas porque a ação política
Será que existe um contínuo no qual prevalecem muitos dos aspectos que podem ser requer declarações simples, que podem mobilizar indivíduos, e não meditações
percebidos como perturbadores no uso dessas mídias? Será que esses projetos de “indulgentes” ou ambiguidades.
base não estão, contraditoriamente, aumentando a eficiência e a resolução do Para mim, esses perigos gêmeos — e bastante reais — são a motivação que me
sistema, em vez de perturbar sua operação (conforme eles pretendem)? mantém no eixo. O papel do artista parece ser, por um lado, apontar os perigos e
Estamos assistindo a um desvio fundamental e ao surgimento de todo um novo contradições do meio, em termos de liberdades civis, e, por outro, agir como o
ambiente para o qual precisamos nos preparar. É central o fato de nos tornarmos os embaixador involuntário para a percepção das mídias como objetos descolados, o que
condutores da sociedade da vigilância. Isso é um efeito secundário de várias coisas ajuda sua inserção na consciência do consumo. E claro que isso pode ser dito a respeito
que, a despeito dos aspectos negativos, nós valorizamos. Ademais, estamos de projetos que destacam os temas do controle e da vigilância, tanto quanto sobre
marchando na direção de uma situação em que mais e mais facetas de nossas vidas projetos que ignoram completamente essas questões. É muito fácil para a indústria
48 se tornam, em princípio, potencialmente “conhecíveis”, ainda que quase anônimas. cultural deglutir qualquer distância crítica e transformar tudo em um “cool” aguçado, 49

Como há muita informação disponível, torna-se mais difícil que esses fatos que no final das contas neutraliza o próprio fim que o artista pretende atingir.
sejam, algum dia, processados. A base do pan-óptico consistia em não sabermos Isso é, na verdade, um debate que está bastante vivo no projeto Loca1. Estamos
se éramos observados ou não, de forma que agiríamos como se estivéssemos tentando sinalizar de que forma as novas práticas de vigilância pervasiva operam e
sendo vigiados o tempo todo. Com as tecnologias de rede, tem-se um novo de que modo elas podem ser entendidas como compartilhadas (peer-to-peer) ou
conjunto de variáveis que governam esse mesmo cenário, além de algumas sinápticas. De certa maneira, apenas mostramos o que já acontece, em vez de
questões completamente novas, como o fato de que, agora, deixamos rastros de inventar novas técnicas ou ambientes de vigilância. O perigo é que, ao causar uma
informação conforme usamos nossos equipamentos favoritos. pequena irritação ou arrepio, o projeto apresente um meio de controle às pessoas.
Existe uma resposta bastante imediata para essa situação. E existem, claro, E, assim, as ajude a aceitá-lo, antes que os casos mais perturbadores, que poderiam
temas maiores relacionados aos universos da arte, da política e do ativismo, afetar de fato suas vidas, sejam percebidos. Outro perigo é que o projeto em si seja
discussões suficientes para preencher vários livros. A resposta imediata é que, por visto como um tipo de marketing gonzo2.
causa de seus campos paralelos e intersecções, o mundo da vigilância e do Enfim, não acho que existam respostas fáceis sobre como evitar isso. Há uma
controle torna-se, de inúmeras formas, muito difícil de ser declarado como um longa tradição de tentar produzir arte que não pode ser incorporada, mas a
lugar neutro ou sem engajamento. De modo inverso (e por essa mesma razão), habilidade que a cultura contemporânea tem de deglutir tudo sempre derrotou os
surge uma ambiguidade, que a arte está equipada para enfrentar, de certa esforços dos artistas no sentido de evadir essa lógica. Quando o choque é grande
maneira.
Toda vez que há uma ambiguidade como essa, mensagens simples não fazem 1 Loca: set to discoverable é um projeto que problematiza questões de vigilância no universo das mídias
justiça à complexidade envolvida. Se você é muito direto em suas críticas, as portáteis, desenvolvido com tecnologias grassroots por John Evans (Reino Unido/Finlândia), Drew Hemment (Reino
Unido), Theo Humphries (Reino Unido) e Mike Raento (Finlândia). Mais informações em http://www.loca-lab.org.
pessoas vão ignorá-lo, porque elas são capazes de perceber o lado positivo da
2 O conceito estabelece um paralelo com o chamado jornalismo gonzo, remetendo a um marketing engajado,
questão. E se você foca apenas no lado positivo (ao desenvolver tecnologia, fazer subjetivo e parcial.
O pan-óptico, prisão projetada
por Jeremy Bentham, em 1785,
permitia a um único vigia olhar
na direção de todos os
prisioneiros: como não era
possível saber em que
momento alguém estava
sendo observado, o prédio
gerava “um sentimento de
onisciência invisível”, capaz de
produzir “um novo modo de
obter poder sobre a mente”

Domínio Público FANTASMAGORIAS, VITRINES, INFILTRAÇÕES:

51
demais para ser assimilado — como a pintura de Marcus Harvey, feita a partir de ENSAIO SOBRE AS TECNOLOGIAS E A CIDADE
mãos de crianças, retratando a assassina Myra Hindley, por exemplo —, o perigo, FÁBIO DUARTE E POLISE DE MARCHI
claro, é de que nada reste além do choque.
A abordagem do Loca é diferente. Queremos dar às pessoas pausas para INTRODUÇÃO
pensar, mas não estamos tentando chocar: somos cuidadosos para não sugerir que Inovações tecnológicas marcaram momentos decisivos de transformações de
o fenômeno que expomos só apresenta aspectos negativos. Um dos elementos em espacialidades urbanas no século XX. Os veículos com motores de explosão interna
jogo é ampliar a consciência sobre o problema e estimular o debate. Mas isso, expandiram a cidade, a energia elétrica transformou as temporalidades urbanas, as
provavelmente, não é suficiente por si só. A aspiração é que o projeto possa ter tecnologias de informação e comunicação, como campo de ação, romperam com a
50 outro tipo de impacto, seja ao contribuir para discussões sobre políticas e contiguidade territorial para a construção de redes urbanas globais. 51

salvaguardas legais, ou (talvez o objetivo mais importante e ambicioso) influenciar Mas como representar as mudanças sociais, culturais, políticas e econômicas
a emergência de protocolos do futuro. que as inovações tecnológicas trouxeram às cidades? E como se posicionar
O bluetooth, por exemplo, é ruim em termos de privacidade, porque permite a criticamente frente a tais profundas crises paradigmáticas?
varredura anônima. Esse aspecto não é resultado de uma conspiração, mas do fato de Não há como entender as espacialidades na cidade contemporânea do
o uso corrente não ter sido previsto quando os equipamentos foram desenvolvidos. mesmo modo como entendíamos, por espaço, no meio do século XX; e o meio do
Por isso, as proteções necessárias não foram construídas. Uma vez que uma século XX, antes mesmo de consolidar as mudanças paradigmáticas ocorridas na
plataforma está pronta, não é economicamente factível desativá-la e é fútil tentar passagem do século XIX para o XX, já portava os agentes das alterações que
argumentar que a desativação deveria ser levada a cabo. O que pode ser feito, no eclodiram no mundo urbano das décadas de transição para o século XXI.
entanto, é uma tentativa de debate econômico sobre como as companhias deveriam Pensar essas mudanças passa necessariamente por discutir como as alterações
investir em medidas para preservar a privacidade dos usuários dessas tecnologias. espaciais ligadas a inovações tecnológicas foram representadas, trabalhadas
Esse debate só pode ocorrer se houver demanda, mas provavelmente só acontecerá enquanto linguagem. Quando Charles Peirce (1977) afirma que o “mais elevado
se as pessoas tiverem conhecimento sobre o dilema das tecnologias de rede atuais. grau de realidade só é alcançado pelos signos”, podemos ler as linguagens como
Além disso, o tema tem de ser debatido fora da zona de conforto das galerias. aproximações dialéticas dos fenômenos, nas quais um evento novo desperta
Parte do problema é que, neste momento, a única opção para as pessoas articulações nunca feitas entre linguagens já conhecidas, até o ponto em que o
preocupadas com as implicações das recentes tecnologias de rede é desligá-las ou absolutamente novo incite explorações internas às próprias linguagens para
não usá-las. A política da nova mobilidade vai aparecer em algum lugar entre o torná-las aptas à percepção, compreensão e discussão desses fenômenos.
ligar e o desligar. O que somos capazes de representar é o que forma, constrói e conforma nossa
realidade dentro de nosso pensamento, e o projeta para a concretude de novas
experiências de mundo, sejam elas individuais e/ou coletivas.
Assim, a linguagem é o modo que temos de expressar a realidade a partir de ao mesmo tempo em que refletem um urbano em transformação, tornam-se parte
seu potencial de representação. dessa cidade como superfície comunicante.
Atuamos incessantemente num terreno por onde trafegam e se misturam Na cidade infiltrada buscamos as transformações não expostas. A eletricidade,
diferentes sistemas de signos. Esses diálogos entre linguagens são feitos por meio por exemplo, não deve ser vista na visualidade explícita dos letreiros, mas na
das interfaces. Segundo sugeriu Siegfried Zielinski (1995), as interfaces devem ser alteração dos tempos urbanos que mudaram relações socioeconômicas e culturais
entendidas como instrumentos e modelos conceituais com os quais se possa das cidades. Do mesmo modo, pensar a realidade virtual como nichos no mundo
operar através desses universos de linguagens diferenciadas. Esses instrumentos concreto seria intelectualmente cômodo, por se criar um mundo ideal não
tecnológicos não mudam apenas a maneira como representamos os espaços, mas contaminado pela imprevisibilidade real. O desafio é encontrar modos de
alteram completamente o que denominamos espaço. evidenciar as transformações urbanas a partir de inovações tecnológicas que se
Para pensar essas transformações, gostaríamos de propor justamente uma infiltram na materialidade da cidade a ponto de se tornarem invisíveis, mas
análise de como elas foram representadas e criaram, por vezes antecipadamente, o guardam o potencial de grandes transformações.
urbano que estava para se materializar.
Como hipótese inicial de investigação, propomos que as especulações sobre as FANTASMAGORIAS URBANAS
transformações do espaço urbano ligadas às inovações tecnológicas, mais do que Nas artes visuais, principalmente as cinéticas, a fantasmagoria está ligada ao
um caminho cronológico linear, poderiam ser agrupadas em categorias mágico, à produção de imagens sem preocupação com a racionalização moderna
conceituais que retornam em momentos específicos. Ou seja, mesmo que as da visibilidade, onde regras matemáticas e técnicas antecedem a própria
tecnologias se alterem, elas respondem a algumas categorias, que aqui lançamos apreensão do objeto por um aparelho.
como sendo fantasmagorias urbanas, cidade vitrine e cidade infiltrada. Como esclarece Marino Macedo (2004, p. 64), as fantasmagorias, sempre
52 Na categoria fantasmagorias urbanas presentes em atrações públicas no século XVIII, eram “uma forma mais elaborada 53

vemos momentos tecnológicos tão de entretenimento visual, onde se invocava o sobrenatural projetando imagens de
inovadores para a própria tecnologia que espíritos dos mortos em misteriosos ambientes, com encenações cuidadosamente
a única possibilidade de representar e dirigidas”.
pensar a cidade contemporânea em Nelas, a sensibilidade se sobrepunha à racionalidade (MIRANDA DA SILVA,
mutação implica a construção de 2004) quando os espectadores viam as imagens projetadas sem ter a consciência
imaginários urbanos nos quais as dos instrumentos que as geravam – o que era típico das máquinas de produzir
inovações tecnológicas têm papel imagem do século XVIII. O próprio nome de uma dessas máquinas,
seminal. Nessa categoria, analisamos fenaquitoscópio, como esclarece Miranda, designa, por seu radical grego, aquele
obras cinematográficas que despertam a que engana. Arlindo Machado (1997) entende que as fantasmagorias, as imagens
construção do imaginário de um urbano a ilusionistas ligadas ao sensível, foram tão importantes quanto e acompanharam o
se realizar, uma possibilidade de urbano desenvolvimento técnico dos aparelhos cinematográficos.
— por vezes assustadora. Narrando a experiência dos primeiros espectadores dessas projeções do
Na cidade vitrine as próprias pré-cinema, Miranda escreve:
representações, as próprias imagens da
Recriação moderna de um zootrópio: o disposi-
vida urbana em mutação são apropriadas As imagens começam a se movimentar. Os espectadores se “maravilham”. [...] Este
tivo desenvolvido por William Horner cria ilusão como parte da cidade: são as vitrines “maravilhamento” [mantém] uma transparência de seu processo de “iludir” com as
de movimento pela sucessão rápida de imagens iluminadas, os letreiros de néon, os imagens. [...] Mesmo hoje, acostumados às imagens em movimento do cinema e
estáticas
prédios-fachadas publicitárias, os imensos televisão, ao vermos um “brinquedo óptico” em funcionamento, esta sensação nos é
painéis digitais. As imagens tecnológicas, verdadeira. (MIRANDA DA SILVA, 2004, p. 12)
Fernando Fuão traz de Max Milner a força que teriam as fantasmagorias de A relação entre o cenário industrial e a vida das cidades modernas apontava
“instalar na percepção a incerteza do sonho ou realidade” (MILNER, 1990, apud para a construção de um imaginário urbano baseado em imagens que se
FUÃO, 1999, p. 12). estabeleciam na fronteira do fantástico e do real. Metrópolis foi projetada como
Assim, as fantasmagorias podem ser entendidas como a construção uma fantasmagoria urbana que metaforizava a relação entre espaço e sociedade
imaginária de algo; porém, apesar de se saber imaginária, guarda referências por meio de um conceito de cidade modelado pela condição urbana imposta pela
muito próximas com o real experimentado. Distorce-o, exacerbando algumas de industrialização.
suas características, ao mesmo tempo em que busca manter traços tão próximos
dele que por vezes induz à confusão entre esse real experimentado e a fantasia
— e, por isso, é frequentemente amedrontadora. Apoiando-se em Erick Felinto
(2006, p. 12), ao discutir as tecnologias audiovisuais como máquinas
fantasmagóricas, poder-se-ia dizer que as fantasmagorias guardam uma “relação
de estranheza com aquilo que é mais familiar”. E é justamente nessa sensação de
estranheza a algo tão familiar, nessa confusão entre a fantasia e o real
experimentado que a fantasmagoria tem sua força de avançar ideias que, ainda Metrópolis, de Fritz Lang: 0
não integralmente partes constituintes do cotidiano, já se apresentam, mas clássico do expressionismo
ainda são temidas por seu desconhecimento. leva às telas do cinema as
linhas verticais das cidades,
Pode-se buscar no cinema algumas obras que produziram fantasmagorias antecipando paisagens que o
sobre as inovações tecnológicas que prenunciam transformações drásticas no mundo em breve conheceria, a
partir do surgimento das
54 mundo urbano, mas que ainda não estavam (ou estão) claras para urbanistas, megacidades, um cenário de
55

teóricos ou práticos. arranha-céus e avenidas se


Metrópolis, de Fritz Lang (1927), Blade Runner (1982) e Matrix (1999) são alguns consolidaria em diversos
pontos do globo
filmes de grande sucesso que exploram as transformações do mundo urbano a Imagem Retirada da Wikipedia

partir de inovações tecnológicas.


Como toda fantasmagoria, Metrópolis, apesar de projetar um futuro urbano, Embora desde seu lançamento o filme tenha suscitado várias interpretações,
tem como origem a cidade contemporânea. Fritz Lang comentou que a ideia inicial seja de cunho político, religioso ou até mesmo erótico, marcou o imaginário
do filme veio de sua visita a Nova York em 1924, cujo trânsito, altas torres e luzes urbano de tal modo que é possível encontrar referências em várias outras criações
noturnas lhe deram a impressão de ser um mundo ilusório, de “perpétua que o sucederam ao longo do século XX, em que a tecnologia era associada a uma
ansiedade” (LANG apud LEMOS, 2008). visão macabra de uma realidade futura.
Em Metrópolis, Fritz Lang, com base em texto de Thea von Harbou (coautora do Pouco mais de 50 anos depois, a mesma cena de altas torres, circulação
roteiro), apresenta sua visão do futuro urbano, no qual uma classe de operários seria incessante de carros e aviões na cidade, com um distanciamento entre a cidade aérea
subjugada pela classe dominante, e todo contato se faria por máquinas opressoras: e a cidade subterrânea, é retomada como cenário de Blade Runner, de Ridley Scott.
a classe dominada vivia no subsolo, sem conexão com o mundo exterior. Máquinas, No filme de Scott, baseado no livro de Philip K. Dick, a história é centrada na
e depois robôs, substituíam o trabalho humano não para libertá-lo, mas para colocá- captura de um androide. Os replicantes (como os androides são chamados) foram
lo em sua inutilidade. No filme, um robô assume o lugar da própria heroína, Maria, criados pela Tyrell para substituírem o trabalho humano. Têm como características
para espionar os planos dos operários de uma eventual rebelião. O subsolo sombrio tornarem-se “inteligentes”, incorporando o aprendizado, inclusive criando
dos operários contrasta com o mundo da superfície, claro e aéreo: altas torres memória própria. Para evitar eventuais rebeliões, são programados para viverem
cruzadas por passarelas, grandes avenidas com tráfego intenso (sem humanos apenas quatro anos — e justamente contra essa limitação se insurgem, fazendo
caminhando) e aviões pelos céus como transporte urbano. com que um caçador de androides seja chamado.
Apesar da distância no tempo, as cenas urbanas parecem ser retomadas CIDADE VITRINE
de Metrópolis: um submundo sujo, úmido, sombrio, repleto de máquinas que A modernidade elétrica, na passagem do século XIX para o XX, transformou a
substituem ou se interpõem às interações humanas, enquanto a cena urbana é vida urbana. Arquitetos e artistas envolvidos com as transformações culturais e
tomada por altas torres, trânsito caótico, tanto na superfície quanto no céu. As sociais emergentes incorporaram a tecnologia em suas criações, fundindo tempo e
interposições de mídias às interações humanas e urbanas, nesse filme, alcançam espaço em novos signos da cidade moderna. Sobretudo a publicidade, ao mesmo
os próprios edifícios: a cidade é dominada por outdoors de alta definição, com tempo em que se apropriou desses novos recursos tecnológicos, encontrou na
propagandas em várias línguas, e personagens que se tornam parte da vida superfície dos edifícios o suporte para a comunicação de massa que se inaugurava
urbana. Como sugere Barbara Mennel (2008), “o fato de a cidade, o ambiente em diferentes períodos da vida urbana.
construído e vivido, alterar-se cotidianamente reflete uma falta de memória. No final dos anos 1920, os irmãos Luckhardt consideravam as fachadas de seus
Alegoricamente, o filme pergunta como nossas memórias humanas podem ser projetos comerciais como suportes de virtualidades efêmeras e mutáveis, passíveis
mantidas frente à incessante transformação urbana e da realidade virtual”. de serem concebidas à luz das mensagens provisórias da publicidade e do
Mas a presença da tecnologia nessa fantasmagoria é ainda maior, pois vai além comércio. A fachada curva do edifício Telschow-Haus, na Potsdamer Strasse, em
da substituição da força motora do ser humano por máquinas e robôs (como no Berlim, revestida com vidro branco leitoso era uma sutil interferência em
caso de Metrópolis). Os replicantes não apenas são criados à imagem e semelhança contrapartida à fachada para a praça, Potsdamer Platz, ponto de convergência da
dos humanos para se misturarem a eles indistintamente, têm também a dinâmica da metrópole alemã, onde o vidro opaco azul reduzia a fachada a uma
capacidade do aprendizado, da memória — e, com isso, de nutrirem sentimentos e superfície para a comunicação comercial e suporte para o letreiro luminoso.
vontades. Tornam-se, assim, perigosos. A fantasmagoria urbana, nesse caso, não Ainda na primeira metade do século XX, Oscar Nitzchke, na Maison de la
diz respeito somente à cidade e à presença de máquinas, mas à indistinção do ser Publicité, em Paris, levou à fachada do edifício o que os surrealistas apontavam no
56 humano em relação ao replicante. ambiente urbano como a possibilidade e liberdade de imaginação que uma mente 57

Em Matrix, de 1999, os irmãos Wachowski apresentam nova e contundente inventiva poderia produzir em meio à metamorfose de seu ambiente — traduzindo
visão do futuro. Se em Blade Runner há os humanos e os replicantes, e o perigo está em uma estrutura independente do próprio edifício, o suporte para uma superfície
nos replicantes, máquinas programadas para aprender e assumir todas as publicitária articulada entre signos visuais e gráficos, horizontais e verticais,
características humanas, em Matrix há uma confusão entre o que é “real” e o que é alternados entre dia e noite.
“programado”. Parece que essa postura dos arquitetos mantém-se sempre que novas formas
Quanto à cidade, diferentemente de Metrópolis ou da Los Angeles de Blade de apropriação de signos tecnológicos surgem — por vezes com estratégias
Runner, não há a exacerbação de um mundo urbano tomado pelas máquinas — idênticas, como quando Jean Nouvel, após um século, faz da fachada da Galeries
sejam elas veículos, interfaces de uso cotidiano e escala humana, ou interfaces que Lafayette, de Berlim, um grande painel com imagens eletrônicas. A fachada
se tornam elas mesmas objetos arquitetônicos. Pelo contrário, a cidade de Matrix esconde o que há por detrás, ao mesmo tempo em que revela o que nela é
é ordinária — ordinária ao extremo, com pátios entre blocos de apartamentos, projetado, como uma tela de cinema. Os signos comerciais e publicitários são
gramado, um banco, algumas aves. Mas tudo isso é programado. Tudo isso é assumidos por sua qualidade plástica em vez de somente serem apliques de valor
artificial — não tanto no sentido de ser falso, mas no de ser um artefato comercial ou simbólico (DUARTE; DE MARCHI, 2006).
tecnológico, como, aliás, a cidade. A fantasmagoria de Matrix está nisso: em Essas estratégias procuram fazer com que as imagens tecnológicas sejam parte
escancarar que o mundo urbano moderno é o acúmulo constante de objetos, do objeto arquitetônico. Porém, poucos buscam alterar ou estimular as relações
artefatos e relações mediadas por tecnologia e sua linguagem, a ponto de uma sociais ligadas às imagens tecnológicas, principalmente estabelecendo uma
imagem singela nos iludir por sua verossimilhança com algo pretensamente interação entre o público e o privado. Como prenunciou Melvin Webber (1964) no
“original” frente a um novo “artificial”, quando toda a cidade moderna é, inevitável início dos anos 1960, a essência da cidade não está no lugar físico, e sim na
e crescentemente, uma mediação tecnológica. interação promovida pela comunicação que permite a transcendência da
arquitetura e do urbano como linguagem.
(casa de cultura) de Graz não somente pontua a paisagem da cidade tradicional
por meio de uma forma inusitada para o local, como também propõe uma interface
entre o interior arquitetônico e a superfície comunicante de sua fachada para com
a cidade, mesclando tecnologia, informação e arquitetura.
O Urban Screens2, apresentado no arte.mov por Mirjam Struppek, aborda o
papel cultural urbano dos painéis eletrônicos destinados a usos comerciais. Os
projetos nele contidos buscam integrar as atuais tecnologias da informação e
Fachadas das Galeries
Lafayette em Berlim:
comunicação amplamente utilizadas para fins comerciais em todas as metrópoles
projeto de Jean Nouvel mundiais como suporte para o desenvolvimento de uma camada comunicacional
construído entre 1991 e da cidade. As intervenções do Urban Screens buscam criar espacialidades urbanas,
1995, é inaugurado em
1996 (fonte: http:// com características materiais e imateriais da vida contemporânea, atrelada a fluxos
commons.wikimedia.org/ de informações, signos e valores globais.
wiki/File:Galeries_
Lafayette_Berlin.jpg)
Nesse sentido, a realidade construída das cidades se estende para além de suas
Imagem Retirada da Wikipedia superfícies promovidas pela interatividade entre corpo e imagem e apropriação do
espaço material por seu par imaterial. Criam-se imagens do mesmo modo que
Alguns projetos contemporâneos procuram justamente trabalhar com as realidades mediadoras entre o corpo e a cidade concreta e, consequentemente, da
imagens tecnológicas como elementos constituintes da espacialidade urbana, cidade concreta e de seu outro imaterial.
tendo como princípio mais relevante o estímulo a interações entre os usuários
58 da cidade. CIDADE INFILTRADA 59

Considerando a mobilidade como possibilidade de troca de informação, o As tecnologias não são ferramentas que apenas substituem, com inovações
projeto Urban Garden, desenvolvido pelo Media Lab Smart Cities, criou paradas de materiais e de funcionamento, procedimentos e comportamentos sociais que
ônibus capazes de estabelecer interface entre a cidade e seus cidadãos, uma vez lhes são alheios. Pelo contrário, há uma interdependência entre as inovações
que são compreendidas como pontos urbanos de conexão, extrapolando a função tecnológicas e as transformações sociais. Assim, não se pode falar de
inicial de transporte. O projeto é uma interface gráfica para o usuário, baseada na “impacto” da tecnologia no social, tampouco encará-la como ferramenta isenta
metáfora de um jardim cujas plantas nascem e crescem de acordo com as de pressupostos culturais, econômicos ou políticos. Ao pensar nela, nós a
condições do ambiente. A fachada de LED da parada de ônibus disponibiliza entendemos como tecnologia em uso, para utilizar uma expressão de Edgerton
informações sobre o ambiente urbano e também abre espaço para interações (1998), em que a tecnologia se efetiva não em sua materialidade instrumental, mas
sociais, por meio de fóruns de discussão entre os cidadãos. Além disso, o projeto na práxis social, com transformações recíprocas.
arquitetônico do ponto de ônibus é desenvolvido por modelo paramétrico, no qual Uma das discussões contemporâneas é o fato de a implantação de redes
algoritmos permitem adaptar melhor a forma e a função interativa com o local de tecnológicas no ambiente urbano criar espaços de redes privilegiadas (Premium
implantação. Network Spaces), os quais são descolados do contexto urbano onde estão
Peter Cook e Colin Fournier realizaram em Graz, na Áustria, uma fachada capaz inseridos, formando redutos isolados nos quais comumente se concentram
de se comportar como uma “pele comunicativa” por meio da tecnologia BIX1: uma empresas ricas e com poucas articulações socioeconômicas com o restante da
matriz de 930 lâmpadas fluorescentes que, ajustadas manualmente, permitem cidade (GRAHAM, 2000).
transformar a fachada leste do edifício em um grande monitor de computador de Em escala cotidiana, podemos pensar nos hot spots, ambientes completamente
baixa resolução, que pode apresentar filmes, imagens e animações. A Kunsthaus conectados a redes digitais de informação, cujo acesso se dá pela simples entrada

1 O projeto pode ser visto em www.kunsthausgraz.at e em www.bix.at. 2 O projeto pode ser visto em www.urbanscreens.org.
no campo informacional hoje presente em aeroportos, cafés, universidades, um círculo de estímulos que alteram a espacialidade naquela porção do espaço.
empresas, regiões urbanas. Uma vez integrado a esse campo informacional, age-se Produzido em ambientes fechados de galerias, quando vai para a rua o VNS se
em qualquer ponto do espaço conectado. torna um dos projetos mais instigantes para trabalhar as tecnologias infiltradas nas
Evidentemente, essa integração a um espaço informacional depende de uma cidades contemporâneas. Em Potsdam, Alemanha, Rokeby cria uma espacialidade
infraestrutura tecnológica. Mas os objetos tecnológicos não são o que são em si virtual no meio da cidade. Mantém-se a paisagem trivial urbana, sem qualquer
mesmos, e sim as relações que propiciam com o contexto do qual fazem parte. Não interferência visual ou tecnológica aparente. Mas, assim que alguém passa por
há como compreender os aparatos tecnológicos nem, por consequência, suas essa porção de espaço ricamente equipada e ligada ao VNS, o espaço começa a
influências na maneira com que compreendemos e usamos o espaço, fora do soar, alterando imediatamente o comportamento daqueles que o vivenciam.
contexto de suas apropriações pela sociedade, sem considerá-los como frutos de O projeto lifeClipper3 aborda a mediação entre cidade, tecnologia e corpo.
relações sociais e historicamente construídas. Denominado por seus criadores de “um projeto de arte a céu aberto”, oferece uma
Como escrevemos (FIRMINO; DUARTE, 2008), “não há adendos informacionais experiência audiovisual de caminhar em meio a uma realidade virtual estendida.
ao espaço concreto”. O que temos é um espaço-total informado, malhado com Tecnicamente, o projeto comporta um computador portátil, uma câmera de vídeo,
ondas eletromagnéticas de múltiplas frequências que atravessam o espaço, que um HMD, um microfone, uma unidade de GPS e sensores de pressão.
nos atravessam. Não há como mudar de canal, separar os momentos de pensar A instalação tem como base promover a alteração nos modos de ver e ouvir por
e viver em um universo urbano e outro informacional. Ambos são cada vez mais meio da percepção audiovisual. A realidade é desafiada e situações do cotidiano se
indissociáveis, criando espacialidades híbridas. Contra os nichos virtuais, o que tornam uma aventura, uma vez que a realidade é apresentada pela virtualidade
temos é a cidade infiltrada. projetada e desenvolvida em percursos na cidade existente.
São as relações intangíveis entre o espaço concreto e o espaço informacional Nesse projeto, o usuário capta imagem e som, que em seguida recebem
60 — o que Lev Manovich chama de dataspace e Castells, de espaço de fluxos —, que tratamento em tempo real e são apresentadas no HMD. Enquanto os usuários 61

constituem a realidade ampliada. Essa ampliação está sempre pautada pelo captam as imagens e os sons, o modo como são tratados é definido pela
fenômeno de incorporação crescente e imperceptível das tecnologias da localização precisa identificada pelo equipamento de GPS, que permite a
informação e comunicação (ICTs) em vários sistemas e estruturas da vida urbana. realização das intervenções conforme a localização do usuário e,
É uma realidade híbrida, infiltrada por tecnologias que ampliam nossas consequentemente, em função daquilo que o usuário está, na realidade,
capacidades comunicativas e interativas, sem nos darmos conta das proporções “olhando”. Nesses pontos, os parâmetros de som e imagens são alterados e novos
dessa “infiltração”. materiais — como músicas, textos falados, documentos sampleados, fotos e vídeos
Um artista vem há décadas procurando revelar esse espaço prenhe de de documentários e ficção — são incorporados, de modo a estender a percepção
informação. Diferentemente das manifestações da cidade vitrine, que reforçam o dos usuários durante o trajeto do sítio percorrido.
uso dos signos tecnológicos para conceber novas espacialidades urbanas, David Os usuários se sentem como se estivessem assistindo a um filme, do qual fazem
Rokeby mantém seus projetos invisíveis. Ele cria apreensões sensoriais para os parte como ativos observadores e personagens com os quais o sistema interage.
fenômenos espaciais que quer apresentar e discutir com seus trabalhos, por vezes Ao caminharem e mudarem de posição, os parâmetros de imagem e som são
visíveis. Porém, é uma visibilidade momentânea: não nos permite, em nenhum igualmente alterados. Os fones e as molduras de borracha dos óculos do HMD
momento, perceber que a intenção do autor é ressaltar aspectos de características auxiliam na imersão do indivíduo nesse universo perceptivo estendido, uma vez
tecnológicas que não são aplicadas à cidade, mas são parte intrínseca dela. que a percepção direta da realidade é praticamente impossível.
Seu projeto mais contundente nesse sentido nos parece ser o Very Nervous O primeiro projeto foi executado em Basel, no vale Saint Alban, na Suíça. Esse
System (VNS). VNS é um sistema composto por uma câmera de vídeo e um sítio histórico permitiu que o projeto envolvesse a reflexão do passado, que, em
computador; a imagem de uma pessoa passando pelo foco da câmera é captada e muitos pontos do perímetro de intervenção, voltava como uma camada digital
registrada em um suporte informático codificado que, uma vez estimulado, reage
com sons, por exemplo; a pessoa reage a esse estímulo e, a partir daí, entra-se em 3 O projeto pode ser visto em www.torpus.com/lifeclipper.
WEBBER, Melvin M. “The urban place and the non-place urban realm”. In: WEBBER, Melvin M. DYCKMAN,
fantasmagórica, devido à sobreposição de tempos e espaços recriados John W. FOLEY, Donald L; GUTENBERG, Albert Z. WHEATON, William L. C. e WURSTER, Catherine B.
tecnologicamente, estabelecendo relações entre o conhecimento do existente Explorations into urban structure. Filadélfia: Universidade da Pensilvânia, 1964.
e de sua condição histórica. ZIELINSKI, Siegfried. “Paris revue virtuelle”. Forum Mem_brane. Cologne, 1995. www.khm.de/mem_
Os projetos que buscam representações, mesmo que momentâneas, para a brane/Forum/Phil/paris.html.
cidade infiltrada encaram o desafio de que pensar e viver o espaço contemporâneo
passa necessariamente por lidar com um híbrido entre os universos físico e
tecnológico, e de assumir que ambos são cada vez mais indissociáveis, infiltram-se
um no outro e constituem espacialidades múltiplas e mutáveis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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regional process. Oxford: Blackwell, 1989.
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Porto Alegre: Sulina, 2006.
62 DUARTE, Fábio. Crise das matrizes espaciais. São Paulo: Perspectiva, 2002. 63

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FIRMINO, Rodrigo e DUARTE, Fábio. “Cidade infiltrada, espaço ampliado: as tecnologias de informação e
comunicação e as representações das espacialidades contemporâneas”. Arquitextos 096.01; maio de
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SANTOS, Milton e SILVEIRA, Maria L. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro:
Record, 2001.
65
APROXIMAÇÕES ARRISCADAS ENTRE
SITE-SPECIFIC E ARTES LOCATIVAS
LUCAS BAMBOZZI

Gostaria de tratar, aqui, do lugar como campo de migrações semânticas, como


migrações que ocorrem em função de deslocamentos culturais, operações
linguísticas, influências tecnológicas, licenças poéticas ou digressões teóricas.
Convivemos com definições que poderiam ser aplicadas a muitos trabalhos
artísticos que dialogam com seu entorno: seriam obras site-related, context-specific,
contexto-relacionadas... site-oriented... Esses são os “lugares” da palavra, que
muitas vezes aprisiona e faz reverberar ao mesmo tempo.
Tais denominações compostas, que definem qualidades do lugar, encontram
curioso estado movediço ao serem relacionadas com os processos de fricção da
arte com a comunicação.
65

Os “des-locamentos” e ressalvas semânticas do lugar se iniciam, para os não


nativos na língua inglesa, na utilização do termo “site-specific” a partir da
literalidade a que é submetido na tradução para o português — incorrendo
também em riscos linguísticos. No projeto-texto “especificidade e (in)
traduzibilidade”, os artistas Jorge Mena Barreto e Raquel Garbelotti propõem que a
utilização do vocábulo no contexto brasileiro “deveria sofrer uma elaboração,
tradução ou canibalização, sob o risco de esvaziamento do teor de reflexão e crítica
implicados pelo termo”. De fato, uma tradução literal como “lugar específico” é
imprecisa e errônea, ao retirar o específico como “qualidade” da obra e colocá-lo
em relação ao lugar físico1.
Aproprio-me desse pensamento por compartilhar da vontade de esgarçamento
do termo “site-specific”, que nos serve, afinal, para as ligações que a obra mantém

1 Adotando a simplicidade da explicação de Barreto e Garbelotti: “No inglês, a expressão site-specific é usada
como um adjetivo para caracterizar a especificidade da obra de arte. A expressão ‘sítio específico’, em português,
qualifica o lugar físico como sendo específico, e não a obra. Funciona como um substantivo”.
com seu contexto, para além das relações de interioridade que, em meios plásticos do estudo do lugar na arte. Citando James Meyer, Kwon discorre sobre o lugar na
mais convencionais, seriam atribuídas a elementos formais envolvendo cor, condição funcional (“functional site”), como um processo, uma operação que
textura, composição — ou ainda profundidade de campo, montagem, narrativa, ocorre entre sites, delineando o lugar como um local onde se sobrepõem também
ritmo ou construção de sentido diegético, em meios audiovisuais. informações.
O que interessa aqui não é “re-buscar” mais uma discussão sobre “site-specific”, Para a autora, o lugar se torna funcional ao ser delineado como um campo de
mas enfatizar aspectos referentes à exterioridade da obra de arte em um entorno conhecimento, troca intelectual ou debate cultural (envolvendo eventualmente o
que envolve o espaço público compartilhável. Como dizem os artistas-autores, “é próprio embate enfrentado pelo sujeito/artista no espaço, diante de informações
na relação com seu contexto que a obra começa a formar seu significado e como textos, fotografias, vídeos, dados, elementos físicos e objetos). Pois esse é o
complexidade. É nas relações com seu entorno que o objeto ou instalação artística espaço teórico que nos permite rever o lugar em tempos de mobilidade e sob
alcança sua potencialidade”. influência de tecnologias de posicionamento e geolocalização.
Revendo artistas como Richard
Serra ou Robert Smithson, nos O AMBIENTE INFORMACIONAL E O LUGAR “COMUNICANTE”
deparamos com a imensa fisicalidade As frases de Barbara Kruger ou de Jenny Holzer “embrulhando” grandes fachadas,
com a qual seus trabalhos se valendo-se da estética “midiática” dos anos 1990 e inundando o espaço público
relacionam — e com a qual se que se fez através de um misto de arquitetura e comunicação, são exemplos de
apresentam. Passamos a entender um suposto des-locamento e desmaterialização do site diante da informação e da
que, nessas obras, tal magnitude tem comunicação visual.
motivo de ser, especialmente ao se As projeções em grande escala de Krzysztof Wodiczko também nos pontuam
66 aproximarem de elementos exteriores o quanto a informação imaterial pode estruturar o espaço público de forma tão 67

de grande escala. Desde os anos 1970, potente como a arquitetura construída fisicamente — inclusive em termos de
artistas como Hans Haacke apontaram construção de um espaço comum.
com seus trabalhos uma vertente São trabalhos em que o político se encontra em estado híbrido, em uma
próxima e, ao mesmo tempo, de outra presença imaterial e que se torna potente ao ir de encontro à fisicalidade de
ordem: a forma como o espaço espaços de circulação. Os projetos de vídeo de Dan Graham relacionados à
público se transforma com a influência arquitetura (desenhados para interação social em espaços públicos) também
dos meios de comunicação de massa e foram marcos no que se refere a um empacotamento entre o social, o espaço
de interesses comerciais privados. arquitetônico e a imaterialidade das imagens.
Foto © Andrew Dunn, 2005
Refiro-me a um suposto No entanto, sempre que pensamos o espaço físico tendemos a recair em
Fulcrum (1987), escultura “site-specific” movimento de desmaterialização da noções nostálgicas do lugar. Diríamos: “Nada como a fisicalidade, a ambiência...”
de Richard Serra, comissionada para noção de site que, a partir dos anos São formas nostálgicas de fruição do espaço, de localização, de intimidade, que
uma das entradas da estação Liverpool
Street em Londres 1970, passa a incorporar obras nas hoje se confundem com os estímulos que recebemos de informações ligadas a
quais “o mapeamento sociológico é esses lugares. Já não é tão simples distinguir a formação arquitetônica da
explícito” (FOSTER, 1996), tornando o site não mais algo estritamente físico, mas o idealização semiótica que se faz de um espaço, local ou da própria cidade.
incorporando de um sentido discursivo e social. Essas seriam as eficiências mais evidentes do chamado capitalismo
A noção de que o site não é definido como uma pré-condição, mas sim, “semiótico”, corporativo, tal como descrito por Maurizio Lazzarato, como uma
“determinado discursivamente” é uma das premissas de Miwon Kwon em “One forma de dominação global que “cria mundos cognitivos baseados em arranjos de
place after another: notes on site specificity” — um texto bastante utilizado percepção” (2000). Cabe a nós, usuários ou artistas, entender como se dão essas
recentemente por artistas e pesquisadores, que revela uma suposta revitalização relações — algo também feito por publicitários, na maioria das vezes em melhores
condições. As estratégias de representação desempenham um importante papel demais e tem infinitas luzes, que nunca chegaram a sua vizinhança. Para quem via a
na definição do que seria uma nova forma de alienação na sociedade atual, comunidade do alto do prédio distante, o ponto de chegada daquela luz, lá, era uma
resultado do acento semiótico de um capitalismo entranhado nas redes de explosão, um ponto imenso que devolvia com violência toda a energia do raio intenso
comunicação. que vinha do céu3.
Nesse assentamento de ilusões, vale entendermos o quanto o lugar, o espaço e
suas fisicalidades complementam o vazio que determinadas tecnologias causam Aqui surgem algumas questões: qual o específico desse trabalho? Com certeza não
(especialmente aquelas ligadas às virtualidades sugeridas na virada do século, que seria o raio laser, a tecnologia empregada e suas qualidades intrínsecas. Com que
nos prendem a telas e a redes exclusivamente tecnológicas). espaço ele se relaciona? Qual o lugar da obra? Não seria o prédio do Instituto
Em 2004, durante o SonarSound, um braço do Sonar de Barcelona em São Tomie Ohtake, nem a escola estadual em Paraisópolis. Mas talvez o vazio entre
Paulo2, tive a oportunidade de viabilizar um trabalho que me parece ainda hoje esses espaços, o que há de conectável entre eles.
emblemático com relação a questões de preenchimento de vazio e conexão de Se as tecnologias, a partir de sua mobilidade e ubiquidade (de poderem estar
espaços díspares e até mesmo contrastantes. E esse trabalho nos serve para pensar em todo lugar), estão se voltando para o espaço físico, então que se busquem
a dificuldade de categorização com relação à noção de lugar quando se envolvem formas de o relacionarmos com o espaço em sua vocação pública, tirando proveito
espaços mediados. dessas possibilidades de mediação.
O trabalho Coluna Infinita II — Opostos, de Daniel Lima, consistiu em uma
emissão de raios laser advindos de dois pontos distintos da cidade de São Paulo.
Uma fonte de laser originava-se do alto prédio do Instituto Tomie Ohtake (no bairro
de Pinheiros), onde ocorria a exposição multimídia que abrigava o projeto, e
68 apontava para a zona sul da cidade. Do “local-alvo”, uma escola estadual no bairro 69

de Paraisópolis, partia outra fonte de raios, esta direcionada ao Instituto Tomie


Ohtake. Entre os dois pontos existem sete quilômetros de espaços não contíguos
de área urbana, conectada por ruas e vias de acesso, mas com muito pouco em
comum, dado o contraste social entre os bairros. Por três dias, esse eixo horizontal
de luz conectou “fisicamente” os espaços (em aspecto expandido, na medida em O projeto Coluna Infinita II —
Opostos, de Daniel Lima:
que luz também é matéria). conectando as zonas oeste e
O trabalho ocorreu primordialmente fora do espaço expositivo. Mas, tanto sul da cidade de São Paulo
Foto: Daniel Lima
dentro da exposição como na escola pública no bairro distante, ambos os públicos
tiveram acesso ao registro do contexto imediato de seus arredores. Durante as três MÍDIAS LOCATIVAS
noites do evento, o raio de luz oscilou entre o concreto e o “imaterial” e lançou-se A expressão “mídias locativas” é nova, estranha, e às vezes pode ser contestada
como reação ao isolamento social imposto pela metrópole, como confraternização energicamente, de formas nem sempre construtivas. “É um conceito que pode ser
possível, como ponte temporária e simbólica entre isolamentos e exclusões que a problemático ou, no mínimo, impreciso.”4
cidade promove. A crítica e curadora de arte Daniela Labra assim o descreve: Em termos técnicos, o locativo é localizável, rastreável, tende a ser intrusivo,
serve a operações vigilantes e tem vocações disciplinadoras. Mas os desvios são
Nada de novo, mas as crianças moradoras de Paraisópolis, que subiram no topo do possíveis, e é interessante entender o desvio/aproximação da tecnologia no
prédio e viram como a luz chegava até seu bairro, descobriram que São Paulo é grande espaço urbano.

3 Texto crítico e independente, na forma de PDF, para a divulgação do trabalho produzido pelo artista.
2 A mostra multimídia e de projetos ligados à tecnologia celular teve uma curadoria local por mim conduzida, 4 BASTOS, Marcus e GRIFFIS, Ryan. “Beyond ‘generative/emergent’ and ‘locative/performative’”, 2007. In:
em estreita sintonia com a curadoria internacional de Oscar Abril Oscaso, da equipe do Sonar de Barcelona. Leonardo Electronic Almanac. http://leoalmanac.org/resources/lead/digiwild/mbastosrgriffis.asp.
As chamadas artes locativas (conforme definição de Drew Hemment) “estão reconhecimento de imagem fez com que as imagens “flutuassem” em lugares
simultaneamente abrindo novos caminhos para o engajamento no mundo e fixos, dando a sensação de uma presença virtual no ambiente.
mapeando seus próprios domínios e geopolíticas”5. Hemment propõe entender O funcionamento do trabalho envolveu caminhadas por rotas menos conhecidas
o termo de modo inclusivo, ao invés de excludente, destacando o risco de não do parque, bem como boa dose de observação, algo que não ocorria à maioria dos
diferenciar as mídias locativas de outras formas de envolvimento mediado com a transeuntes locais, que utilizavam o parque não como espaço de lazer, mas como uma
espacialidade. Mas ele nos incita a enfrentar o contexto em vez de engavetar o conexão rápida entre duas grandes avenidas da cidade. Uma vez aberto a esse tipo de
campo prematuramente6. exploração, o visitante buscava áreas “ativas”, sensíveis ao reconhecimento do local
pelo software e, assim, o programa identificava suas posições e inseria diferentes
Atualmente a única opção para as pessoas preocupadas com algumas das implicações personagens anônimos na tela, relacionados ao espaço, que apareciam sentados em
das novas tecnologias de rede é desligá-las ou nunca começar a usá-las, em primeiro bancos, deitados na grama ou próximos a pontos de fácil referência em função do
lugar. A política da nova mobilidade vai aparecer em algum lugar entre o ligamento posicionamento do visitante. Usuários de celulares com o sistema operacional S60 —
e o desligamento. (Drew Hemment, em palestra no arte.mov 2006) como os da Nseries, da Nokia — podiam instalar os programas em seus próprios
telefones e explorar o parque de maneira independente.
A construção de um redimensionamento da ideia de site-specific nos termos Uma intenção recorrente em mostras como essa tem sido agenciar as
colocados até o momento configura o “site” como um espaço de possibilidades possibilidades de reaproximação dos indivíduos do espaço urbano compartilhável,
não materiais, mas que apontam para espaços efetivos. muitas vezes através do caráter lúdico dos eventos criados, que, sendo também
Na mostra Deslocamentos: Desvios daTecnologia no Espaço Público (arte.mov organizados em grupo, evidenciam, por sua vez, o potencial de agenciamento
2007)7, foi possível pensar em um conjunto de projetos dentro da vertente coletivo de uso das tecnologias sem fio8, algo cada vez mais difícil de ocorrer
70 “locativa”, os quais, como elemento comum, apresentam uma inversão do espontaneamente nas grandes cidades. 71

procedimento militar de localização, explorando as possibilidades que surgem Em diversas ocasiões, ao trabalhar com meios de comunicação, o que muitos
entre redes móveis e espaço urbano. Os trabalhos foram montados levando-se em artistas buscam é a criação de ferramentas ou formas de explicitar condições já
consideração as características da cidade de Belo Horizonte e do Parque Municipal existentes (uma espécie de ready-made) em um mecanismo de espelhamento de
(que funcionou como um laboratório para as instalações locativas). Assim, trabalhos situações de conflito ou de confluências potencialmente relevantes (em termos de
criados originalmente para outros contextos, como Tactical Sound Garden, de Mark expressividade estética, social ou política) que já existem nas redes. Esse processo
Shepard, AIR, do grupo Preemptive Media, ou Motoboys, de Antoni Abad, tiveram reflete uma consideração do curador Steve Dietz, em que ele faz ecoar uma
componentes pensados e cuidadosamente adaptados para a nova situação. pergunta-chave sobre a pertinência de uma arte nas redes, ao assumir que “a
Já o projeto Invisíveis, de Bruno Viana, foi desenvolvido por meio de um internet é mais interessante do que a maioria dos trabalhos de net-arte” (2001).
comissionamento que resultou num trabalho estritamente específico, relacionado O projeto Descontínua Paisagem, de Fernando Velázquez, contemplado com o
a determinadas áreas do Parque Municipal, envolvendo suas histórias e prêmio Artes Locativas, criado pelo Vivo arte.mov em 2008, é uma contribuição
frequentadores. O projeto partiu dos conceitos de portabilidade e realidade que aponta para esse tipo de pensamento ao mesmo tempo em que desconstrói o
aumentada para proporcionar um passeio exploratório no parque, uma expedição caráter cartesiano ou didático que começa a ser associado a determinados projetos
em busca de personagens intimamente ligados àquele espaço. Os usuários ou baseados em tecnologias móveis.
participantes receberam celulares preparados com um aplicativo que, através de Nele, os participantes escolhem lugares a serem visualizados a partir de uma
máscaras, filtra a imagem ao vivo da câmera, sobrepondo fotos preexistentes de lista de coordenadas enviando uma mensagem SMS a um servidor. As locações
frequentadores do parque às imagens vistas no visor do celular. Um algoritmo de disponíveis são mapeadas a partir do site Degree Confluence Project

5 http://www.drewhemment.com/2004/locative_arts.html 8 A mostra incluiu ainda documentação de trabalhos como Os Duelistas (David Levine), Meu Nome é Ronaldo
6 Idem. (Antoni Abad), Paintersflat.net (Brett Stalbaum e Paula Poole), Manifeste-se (mm não é confete), Hundekopf (Brian
7 Desde 2006, o evento tem curadoria de Lucas Bambozzi, Marcus Bastos e Rodrigo Minelli. House com Knifeandfork), Can you see me now? (Blast Theory), Loca (Drew Hemment e grupo Loca) e outros.
contexto da web, a ânsia de mapeamento progressivo do planeta e, não menos
interessante, se relaciona também com a disposição e mobilidade dos tantos
indivíduos que colaboram com o projeto remotamente.
Os resultados são visualizados num conjunto de quatro projeções que formam
uma paisagem imaginária, descontínua, porém capaz de fazer expandir as noções
de lugar e espaço como territórios fixos, desprovidos de subjetividade.
O site Degree Confluence Outro projeto que se insere na cidade como proposta de exploração unindo
Project: o objetivo do projeto é
elementos físicos e informacionais é o HiperGps. Idealizado por Cícero Inacio Silva
visitar cada intersecção entre
graus de latitude e longitude e Brett Stalbaum, propõe aplicar o conceito de hipertexto à trama da cidade. Ao
de números inteiros no mundo caminhar pelas ruas das cidades, os participantes podem localizar, através de
e tirar fotos nesses lugares. As
fotos e histórias sobre essas celulares dotados de GPS, uma combinação de textos, imagens e sons pré-
visitas são postadas no site gravados no sistema. Apesar de ainda não implementado9, o projeto avança no
www.confluence.org
Imagem Capturada do Website Degree Confluence
sentido de pensar a cidade não como um intrincamento de coordenadas
geográficas e números (dados como latitude e longitude significam pouco para a
(www.confluence.org), que adquiriu notoriedade na internet ao convidar maioria das pessoas), mas como pontos e regiões sensíveis que podem levar as
indivíduos munidos de aparelho de GPS a dirigir-se aos pontos de encontro entre pessoas a compartilhar histórias e eventualmente encontrar situações em comum.
meridianos e paralelos, e fotografar o espaço circundante a partir desse ponto de A acessibilidade e a adoção do comum (o commons, tão usurpado pelos
vista específico, apontando a câmera para os pontos cardeais. O Degree poderes privados) são elementos vitais nas tênues práticas associadas à tecnologia
72 Confluence tem certa pretensão de fornecer “uma amostragem do planeta Terra móvel, que, exatamente por esse viés, talvez as torne menos um novo gadget de 73

mapeado geograficamente”, organizado de forma matemática e supostamente mediação e mais uma ferramenta de aproximação da realidade social — ou, ainda,
precisa. Como outras propostas de construção coletiva (Google, YouTube, uma forma de contato entre realidades sociais que, de outra forma, permaneceriam
Dailymotion, 12 seconds), sugere ao usuário a perspectiva de colocar-se como distantes entre si.
colaborador do projeto, com seus testemunhos (textos e imagens) de como Assim, pouco a pouco vemos o surgimento, talvez ainda tímido, de trabalhos
chegou aos pontos especificados e como os registrou. que lidam com grandes escalas e magnitudes (os parques, as cidades), ao mesmo
O projeto de Velázquez interage com esse dispositivo, buscando no Degree tempo em que se apresentam como intervenções quase invisíveis no espaço físico.
Confluence as imagens dos pontos existentes e trazendo-as para o contexto da São configurações de obras afiliadas a categorias instáveis e incertas, como o
exposição. Há uma interação que ocorre localmente no espaço expositivo e em são os conceitos ligados às locative media, mas que sugerem uma possível
seus arredores, mas que está localizada remotamente (no servidor do Degree) e se apropriação das ideias de “site-related” ou de “context-specific” — desprovidas de
refere a pontos ainda mais remotos. O visitante também pode, ele mesmo, sair em fisicalidade e, por isso, tão dependentes desta.
busca de um cruzamento de coordenadas nas próprias imediações onde o trabalho Não interessam muito as premonições, mas vale dizer que se trata de uma
acontece e introduzir uma paisagem mais local ou mais diretamente contextual no tecnologia que ganha respaldo e se legitima através da popularização de seu uso
trabalho. De um modo ou de outro, o projeto aborda a questão do lugar pela e aplicação. Nenhuma tecnologia se espalhou tão rapidamente como as mídias
negação de sua matemática, por se apropriar do olhar alheio, por traficar móveis estão se difundindo e se sedimentando nas estratificações mais populares
coordenadas de um espaço para outro, por introduzir elementos subjetivos e da sociedade.
embaralhar o específico. Assim, o lugar do “locativo” que nos interessa não é um slogan do tipo anytime,
A ideia de lugar existe o tempo todo no processo, inclusive de forma literal. Mas anywhere, everywhere, mas uma ideia que resulta da aproximação com práticas
com qual “lugar” específico o trabalho se relaciona? Não seria efetivamente o das
coordenadas. Com que contexto a obra dialoga? Presumidamente, talvez com o 9 O projeto foi apresentado para comissionamento junto ao Prêmio Artes Locativas do Vivo arte.mov 2008.
muito potentes no campo da arte, com questões que envolvem os espaços
físicos e suas especificidades, tensões e conflitos. Pode ser uma aproximação
arriscada equacionar trabalhos amplamente celebrados no circuito da arte com

75
esses que surgem e sequer são considerados arte pelos círculos mais
estabelecidos. Somente o tempo nos permitirá descobrir como colocar lado a
lado, num mesmo campo de práticas, a fisicalidade de algumas obras e a total
imaterialidade de outras. Caberiam a essa arte locativa, desgarrada e de lastros
frouxos, a busca e o risco de alguma afiliação a partir do que se produziu sob a
ideia de site-specific, de “site funcional”. Nos resta indagar que tipo de obras
ainda surgirão nesse novo e movediço “lugar” que toma forma no mundo. CARTOGRAFIAS LÍQUIDAS:
A CIDADE COMO ESCRITA OU A ESCRITA DA CIDADE
PRISCILA ARANTES
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Walter Benjamin é um autor lembrado com frequência, cujos textos são
ARNS, Inke. “Social technologies — Deconstruction, subversion, and the utopia of democratic sempre citados quando se trata de pensar a obra de arte e a estética
communication”, 2000. In: DANIELS, Dieter e FRIELING, Rudolf (org.). Media art net: survey of media contemporânea. “Pequena história da fotografia” e “A obra de arte na era de sua
art. Nova York: SpringerWien, 2004. http://www.medienkunstnetz.de/themes/overview_of_ reprodutibilidade técnica” tornaram-se textos seminais em nossa cultura para
media_art/society/16/ descrever as metamorfoses trazidas pelos avanços tecnológicos ao aparelho
74 BASTOS, Marcus e GRIFFIS, Ryan. “Beyond ‘generative/emergent’ and ‘locative/performative’”, 2007. perceptivo.
In: Leonardo Electronic Almanac. http://leoalmanac.org/resources/lead/digiwild/mbastosrgriffis. Longe de enxergar a história da arte apenas como a história dos conceitos
asp estéticos, o filósofo acentua a importância dos meios e técnicas que permitem
BARRETO, Jorge Mena e GARBELOTTI, Raquel. “Especificidade e (in)traduzibilidade”, 2008. Texto-base colocar esses conceitos em voga. As técnicas, de acordo com Benjamin,
para debate e oficina: Práticas artísticas contemporâneas em sistemas de movimentação ou o site- desencadeiam percepções e processos cognitivos que são, muitas vezes, os
-specific hoje, com Jorge Menna Barreto e Raquel Garbelotti. Arte e Esfera Pública, Centro Cultural motores das grandes transformações estéticas. Assim é sua descrição do
São Paulo e Fórum Permanente. http://www.arte-esferapublica.org/index.php?paged=2 cinema: o filme não somente instaura uma nova forma de percepção, distraída,
DIETZ, Steve. “Por que não tem havido grandes net-artistas?”, 2001. In: LEÃO, Lucia (ed.). Derivas: diversa daquela vinculada às produções anteriores, mas, através da técnica de
cartografias do ciberespaço. São Paulo: Anablume/Senac, 2004,pp. 137-47. montagem e reprodução, desintegra um valor estético caro à tradição — a aura,
FOSTER, Hal. The return of the real: the avant-garde at the end of the century: critical models in art and isto é, determinadas concepções espaço-temporais vinculadas à tradição.
theory since 1960. Londres: The MIT Press, 1996. A presença cada vez mais massiva dos meios de comunicação na sociedade
LAZZARATO, Maurizio. “Struggle, event, media”, 2003. In: http://www.republicart.net/disc/ levaria, de acordo com Vattimo (1996), a uma erosão do princípio de realidade e
representations/lazzarato01_en.htm a uma explosão da estética para fora dos limites que lhes eram estabelecidos
KWON, Miwon. “One place after another: notes on site specificity”, 2000. In: SUDERBURG, Erika (ed.). pela tradição. Nessa estetização do cotidiano, o que está implícito no
Space, site, intervention: situating installation art. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2000. pensamento de Vattimo é a importância do fenômeno estético para se pensar as
MEYER, James. “The functional site; or the transformation of site-specificity”, 2000. In: SUDERBURG, questões mais gerais da realidade social.
Erika (ed.). Space, site, intervention: situating installation art. Minneapolis: University of Minnesota Partindo desses dois princípios — de que a técnica determina os preceitos
Press, 2000. perceptivos e de que as questões estéticas estão atreladas às discussões mais
gerais da sociedade —, o presente artigo tem como objetivo discutir as
metamorfoses da percepção no contexto da contemporaneidade.
Se for certo que existe uma intrínseca relação entre estética, meios técnicos economia, na área da cultura, na área social, no
e sociedade, quais os formatos perceptivos engendrados a partir do advento da aparelho perceptivo, ou seja, na forma de nos
cibercultura e como as discussões espaço-temporais refletem o momento do relacionarmos com o tempo e o espaço.
capitalismo informacional de nosso tempo? A aceleração tecnológica põe em cena a
Partimos, neste trabalho, da hipótese de que as novas tecnologias midiáticas instantaneidade do tempo: tempo sem tempo,
instauram uma estética do fluxo, daquilo que se dá em trânsito e em contínuo que rompe com uma visão linear, irreversível,
devir. Fluxo é a qualidade, ato ou efeito de fluir. Diz respeito ao movimento de mensurável e previsível do tempo. Se, por um
um líquido e também à substância que facilita a fusão de outras. Por outro lado, lado, o culto ao instantâneo e ao efêmero aponta
constitui-se como característica primordial dos fluidos, representando aquilo para a fabricação do esquecimento, por outro,
que não tem forma fixa e durável. gera um incontrolável desejo de passado,
Zygmunt Bauman (2001) utiliza os termos liquidez e fluidez para descrever a colocando a memória e a amnésia como
cultura de nosso tempo. Sua concepção tem raízes em uma imagem cunhada há discussões centrais da atualidade.
um século e meio pelos autores do Manifesto Comunista para descrever a Diferentemente do espaço renascentista, cujo
sociedade burguesa: “Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é discurso se baseava na visão de um espaço
profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais homogêneo e mensurável e tinha no sujeito e na
sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com os outros homens”. visualidade seu ponto fundamental, o espaço
Derreter os sólidos, dissolver aquilo que persiste no tempo e é infenso a sua contemporâneo coloca em dúvida a noção de
passagem ou imune a seu fluxo é o espírito da nova fase na história da Imagem Retirada da Wikipedia
contiguidade física, instaurando noções como a
76 modernidade, segundo Bauman. da ubiquidade inerente a uma lógica de fluxos de 77
Estrutura criada em memória de Walter
Os valores morais enfraquecem em sua coerência, as instituições tornam-se Benjamin, na cidade de Portbou, onde o filósofo informação. De Lyotard a Paul Virilio (1993), o
cada vez mais “leves”, cada vez menos comprometidas com acordos de longa se suicidou após tentativa fracassada de cruzar espaço parece ter se esfarelado, trocando sua
a fronteira entre França e Espanha
duração, as relações afetivas fogem a contratos duradouros, as verdades deixam fixidez e imobilidade por um espaço em fluxo, que
de ser inquestionáveis. Nesse mundo — contrariamente ao pensamento coloca na conexão, na mobilidade e no sujeito em
moderno em que a razão dominava soberana e as verdades eram sólidas como trânsito seu eixo fundamental.
as certezas sobre as coisas — situamo-nos dentro da lógica da indeterminação, Na arte, a configuração dessas novas espacializações corresponde à prática
da não perenidade, daquilo que é volátil e efêmero, incerto, instável e dos deslocamentos, às desterritorializações, à crítica ao cubo branco e ao
passageiro. sistema da arte, à ruptura com os espaços expositivos tradicionais como museus
O conceito de fluxo como possibilidade para se pensar a estética e galerias de arte, às práticas de intervenções urbanas, às performances e
contemporânea surge, portanto, como contraponto aos discursos estéticos da happenings, às produções artísticas em rede, às experimentações em arte móvel,
tradição, que pregam a forma fixa e perene: índices da beleza, da objetividade enfim, às novas configurações espaciais da arte que foram engendradas desde o
e do princípio de verossimilhança. início do século passado pelas vanguardas históricas e se estendem à atualidade.
Em Formless, Rosalind Krauss e Yve-Alain Bois indicam essa direção. Partindo Se nos anos 1960 e 1970 as práticas de intervenções urbanas já reclamavam
de uma definição de Georges Bataille, utilizam o termo “informe” para colocar pela ruptura com o cubo branco, hoje a arte se abre para novas zonas de
em xeque os mitos fundadores do discurso modernista no campo das artes, experimentação, ocupando espaços virtuais e/ou cíbridos. Configuram-se eixos
instaurando conceitos como base materialism, pulse, horizontality e entropy. de ação em espaços coletivos e colaborativos que, muitas vezes, colocam em
A sociedade de nosso tempo é marcada pelos fluxos de informação e cena as questões mais gerais da sociedade contemporânea.
inovações tecnológicas. Mais que meros recursos técnicos, as tecnologias da Sem pretender traçar uma linha histórica, o presente artigo tem como
informação vêm provocando alterações profundas no mundo do trabalho, da objetivo discutir as estratégias empregadas na configuração dessas novas
cartografias, enfocando especialmente as investigações estéticas que se Nessa passagem, fica claro que a cidade ordenada e regular é metáfora do
apropriaram do espaço urbano. O que interessa é menos realizar um estudo pensamento racional: o arquiteto-filósofo deve rejeitar caminhos instáveis para
histórico sobre o conceito de espaço na arte, mas verificar como o discurso de alcançar a verdade, assim como a cidade deve ser construída por um único
um espaço móvel, em fluxo, interfaceado, que prevê a conexão, a mobilidade e mestre.
a comutação entre espaço físico e espaço de comunicação, é revelador de A ideia de que a cidade é uma metáfora para descrever as trajetórias do
determinados preceitos da cultura “líquida” e “fluida” de nosso tempo. pensamento não é recente. Já Platão, em A república, descreve a cidade ideal
tomando como paradigma os princípios epistemológicos de sua teoria das
A CIDADE COMO METÁFORA DO PENSAMENTO E A FIXIDEZ DO ideias. A república de Platão tem centro e ordem, dividindo-se em
ESPAÇO NO RENASCIMENTO compartimentos hierárquicos como uma pirâmide. Em seu topo encontramos
A perspectiva central, técnica empregada no século XV, pressupõe uma um governante: o filósofo-rei, único cidadão que tem acesso à verdade e ao
visão racional e sistemática do espaço, contrária ao espaço descontínuo e Bem. De forma semelhante, no Discurso do método, a topologia urbana revela
fragmentário da época medieval. A ordem divina das coisas é substituída por uma cidade do caminho certeiro: no centro encontramos seu arquiteto, o cogito
uma ordem racional e científica, e o espaço passa a ser criação da inteligência cartesiano, a explicitação, no campo filosófico, do sujeito imóvel e unilocular da
do artista-geômetra. perspectiva renascentista.
A perspectiva não é somente mero recurso técnico, mas princípio revelador
de determinados pressupostos culturais da época. Ela repousa no pressuposto A CIDADE COMO ESCRITURA
de que as retas do espaço convergem para um ponto de fuga único e gerador de Já Baudelaire, em O pintor da vida moderna, descreve o dândi, o burguês
ordem: o olho do sujeito, único e imóvel. A ligação entre individualismo e melancólico que andava pelo espaço da cidade. Do início do século passado,
78 perspectiva é relevante; não por acaso podemos dizer que a perspectiva é o podemos lembrar dos dadaístas com as excursões urbanas por lugares banais 79

substrato material indicador dos princípios cartesianos de racionalidade que e as deambulações aleatórias organizadas por Aragon, Breton e Picabia. Muitas
foram integrados ao projeto do Iluminismo — base epistemológica central para dessas deambulações enfocavam a experiência física da errância no espaço
a construção de todo o pensamento moderno. urbano, que foi não somente a base dos manifestos surrealistas, mas também
A concepção de espaço no Renascimento é reveladora de uma relação de Nadja (1928) e L’amour fou (1937), de André Breton, e Le paysan de Paris
profunda com os princípios cartesianos de racionalidade e com questões mais (1926), de Aragon, publicado no Brasil em 1996 como O camponês de Paris.
amplas da sociedade da época. Não por acaso, Descartes, na segunda parte de Longe de ser apenas cenário urbano para as idas e vindas do personagem de
seu Discurso do método, esboça os fundamentos seguros do pensamento pelo Le paysan de Paris, a cidade de Paris do início do século passado é metáfora,
paradigma espacial da fundação urbanística e arquitetônica: especialmente no “Prefácio a uma mitologia moderna”, do pensar surrealista e
da crítica à racionalidade cartesiana. Le paysan de Paris é, nesse sentido, uma
permanecia o dia inteiro fechado num quarto bem aquecido onde dispunha de manifestação, no campo da literatura, da crise dos preceitos metafísicos e
todo o vagar para me entreter com meus pensamentos. Entre eles, um dos filosóficos cartesianos, da crença nas verdades inquestionáveis e duradouras.
primeiros foi que me lembrei de considerar que, amiúde, não há tanta perfeição nas A cidade dos surrealistas não revela um espaço regrado e seguro como as
obras compostas de várias peças, e feitas pela mão de diversos mestres, como cidades de Platão e Descartes; não é metáfora das certezas e verdades
naquelas em que um só trabalhou [...] Assim, essas antigas cidades que, tendo sido prometidas pelos ideais da Razão, mas um espaço prenhe de sonhos, desejos,
no começo pequenos burgos, tornaram-se no correr do tempo grandes centros são cruzamentos insólitos, imagens dialéticas, ambiguidades e passagens que
ordinariamente tão mal compassadas, em comparação com essas praças regulares, devem ser decifradas. A cidade dos surrealistas revela espaços que, tais como os
traçadas por um engenheiro a sua fantasia numa planície [...]1 sonhos, trazem encruzilhadas, trechos contraditórios que se misturam,
produzindo, muitas vezes, curtos-circuitos iluminadores (iluminação profana).
1 DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Abril, 1979, Coleção Os Pensadores, p. 34. Seus meandros e ruelas não descrevem e não são fruto de um arquiteto
engenhoso, mas da vivência daqueles que, assim como Le paysan de Paris, INVESTIGAÇÕES POÉTICAS NO AMBIENTE URBANO
ousam caminhar por outras bifurcações que não aquelas impostas pela razão No Brasil, a utilização de espaços urbanos como meio expressivo eclode
instrumentalista. nos anos 1970 com a manifestação de grupos e práticas que reivindicavam
As errâncias surrealistas e as deambulações pelo espaço urbano são autonomia em relação ao mercado confinado da galeria e do museu.
retomados por Walter Benjamin sobretudo em Passagens. Nele, Benjamin evoca Contudo, não podemos esquecer que, já nos anos 1930, Flávio de
a ideia da cidade como escritura, pensando-a como um dispositivo autêntico da Carvalho, conhecedor dos surrealistas e de suas propostas deambulatórias,
história, das vozes, desejos, sonhos e memórias que compõem o cenário social. elabora projetos que batiza de Experiências; errâncias urbanas performáticas.
Também em Passagens encontramos a figura do flâneur, personagem Uma de suas experiências mais conhecidas, realizada em 1931, consistiu na
urbano que exprime o fenômeno da metrópole moderna. Pode-se dizer que o prática de uma deambulação, com um tipo de boné cobrindo a cabeça, no
personagem do Flâneur em Passagens encontra uma posição semelhante contrafluxo de uma procissão de Corpus Christi pelas ruas de São Paulo. Depois
ao personagem da Melancolia em A origem do drama barroco alemão. Ambas as de algum tempo a multidão se voltou contra ele, que precisou fugir e buscar
figuras são uma espécie de “ponto arquimediano” das respectivas obras abrigo em uma leiteria, contando com uma intervenção policial. As experiências
benjaminianas. Ao olhar da melancolia, no qual se expressam ao mesmo tempo de Flávio de Carvalho não somente estavam em sintonia com as propostas das
uma disposição meditativa e uma percepção muito aguda, correspondem no vanguardas que repensaram a noção de obra e objeto estético, desenvolvendo
flâneur um interesse pelo espetáculo da cidade, uma disposição ao ócio, ao andar experimentações alternativas, mas também com o papel do corpo como
vagabundo, e uma percepção dispersa e distraída — uma percepção em flânerie. potência poética, propositor de ações e poéticas performáticas.
Apesar do flâneur ser o protótipo do burguês entediado típico da Partindo de uma segunda perspectiva, podemos lembrar as investigações
modernidade, os situacionistas acabaram por contribuir para desenvolver de Artur Barrio que, no final dos anos 1960, executa ações no espaço urbano. A
80 muitas dessas ideias ao propor a noção de deriva urbana e da errância voluntária mais famosa, Situação, ocorreu em 1969, desdobrando-se no ano seguinte. A 81

pelo espaço urbano (BERENSTEIN, 2003). Criticando o movimento moderno ideia foi depositar, em diferentes locais do espaço público, trouxas com
em arquitetura e urbanismo, principalmente a racionalidade cartesiana de Le materiais orgânicos e inorgânicos, como cimento, borracha, carne e tecidos. O
Corbusier, os situacionistas criticavam a concepção da cidade como cidade- cheiro de carne apodrecida e o aspecto do sangue, que manchava a superfície
-espetáculo reclamando por um urbanismo mais participativo e por novas das trouxas, acabavam por gerar preocupações de ordem ideológica e política
formas de fruição do espaço urbano. O andar “sem rumo” e a relação mais relacionadas ao momento de ditadura militar por qual passava o país. Mas não
afetiva com o espaço urbano tinham como proposta romper com a visão fria se limitavam a isso. Colocavam em debate, também, a deterioração do sistema
e racionalista pregada pela arquitetura e pelo urbanismo modernos: de arte cuja única permanência fixa parece ser dada pela figura do artista.
Nelson Leirner, Cláudio Tozzi, Viajou sem Passaporte, o grupo Manga Rosa e
para tentar chegar a essa construção total de um ambiente, os situacionistas o 3Nós3 são alguns dos exemplos, dentre inúmeros outros, que nos anos 1980
criaram um procedimento ou método, a psicogeografia, e uma prática ou utilizaram a cidade como palco de experimentação estética. No caso do 3Nós3,
técnica,a deriva, que estavam diretamente relacionados. A psicogeografia foi a atuação do grupo era definida como “interversão” e não intervenção, já que o
definida como um estudo dos efeitos exatos do meio geográfico, conscientemente sentido de sua produção ligava-se ao conceito de inversão da percepção da
planejado ou não, que agem diretamente sobre o comportamento afetivo dos paisagem, muito mais do que à ideia de infiltrar-se nela simplesmente. No início
indivíduos2. de 1979, o 3Nós3 — composto por Hudinilson Jr., Rafael França e Mario Ramiro
— fez uma espécie de ataque:

uma noite, a partir de um roteiro previamente marcado num mapa (sempre


trabalhamos em cima da planta da cidade), saímos encapuzando com sacos de lixo
2 BERENSTEIN, Paola (org.). Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da
Palavra, 2003, p. 23. todas as estátuas que pudemos em São Paulo: no centro, no Ibirapuera, o
Monumento às Bandeiras, morrendo de medo; havia a ronda e até explicar era manifestação estética. Suas ações nos remetem ao programa político e estético
complicado. De manhã cedinho, telefonamos para todos os jornais, causando um dos situacionistas, que defendiam a união da dimensão estética com a
burburinho na imprensa; mas tivemos uma grande cobertura, e descobrimos que experiência social e política. É o caso de O Branco Invade a Cidade (1973),
os jornais servem como registro, apesar dos mal-entendidos. Tomamos gosto pela desenvolvida na época da Bienal Internacional de São Paulo. A ação consistiu
coisa, a ideia era a motivação plástica na paisagem, chamar a atenção das pessoas em sair pelo centro de São Paulo — do Largo do Arouche até a Praça da Sé —
que passam todos os dias e sequer veem as estátuas. Em seguida fizemos nosso “X simulando uma passeata com cerca de dez pessoas carregando cartazes em
Galeria”. Com fita-crepe, vedamos as portas das galerias em “X” e deixamos um branco. Centenas de curiosos aderiram à “passeata”, bloqueando o trânsito por
bilhete em cada uma: “O que está dentro fica, o que está fora se expande”3. várias horas. Forest foi preso pelo Dops e a organização da Bienal e a
embaixada da França tiveram de intervir a seu favor.
Em Avis de Recherche: Julia Margaret Cameron (1988), a ação consistiu em,
por várias semanas, colocar em jornais e outras formas de comunicação, tais
como grafites espalhados no espaço urbano de uma cidade no interior da
França, notícias sobre o desaparecimento de uma personagem fictícia. O
público era convidado a escrever sobre a personagem, ultrapassando a barreira
entre o real e o imaginário. Além de criar um circuito coletivo de informação, o
Sacos pretos encobrem
projeto instigava a imaginação do público, colocando em cena o fato de que
monumentos públicos,
em intervenção do grupo fazemos parte de uma sociedade comunicante (ARANTES, 2006).
3Nós3 que faz São Paulo De maneira análoga, durante a VII JAC (Jovem Arte Contemporânea), em
acordar com sua
82
paisagem modificada novembro de 1973, o artista organiza no MAC-USP o evento intitulado Passeio 83
Foto: Mário Ramiro
Sociológico pelo Bairro do Brooklin:
Para Ramiro, a manipulação da mídia, em paralelo à utilização da cidade como
palco das intervenções, é um dos diferenciadores das práticas do grupo em Acompanhado de estudantes transportando seus assentos individuais e dispondo
relação a outros grupos que atuavam no ambiente urbano. A intervenção de um equipamento da TV Cultura, ele registrou os encontros do grupo com
no espaço urbano só tinha sentido se pudesse, de alguma forma, reverberar no populares na rua e em estabelecimentos, criando situações de “guerilla video” e
espaço dos meios de comunicação, construindo uma espécie de rede entre diálogos inesperados para um estado de restrições à liberdade de pensamento.
o espaço urbano e o da mídia, e ampliando em escala a experimentação O incomum episódio de arte/comunicação foi vigiado pela polícia4.
desenvolvida no espaço físico.
Dentro de outra perspectiva, encontramos os trabalhos do argelino Fred
Forest, cujo ponto de partida é considerar a cidade (sociedade) como A ESCRITURA URBANA DAS POÉTICAS MIDIÁTICAS NA CULTURA LÍQUIDA
comunicação. Isso significa pensar a cidade/sociedade menos a partir de uma Tanto os trabalhos do grupo 3Nós3 quanto os de Fred Forest, apesar de suas
visão urbanista racionalista, mas considerá-la eminentemente um espaço de diferenças, põem em discussão pontos que parecem ser fundamentais: 1) a
relações comunicativas e afetivas, como um dispositivo de interlocução social. concepção de um espaço que se constrói a partir de contextos e interlocução
Para além de situar-se no espaço confinado do museu e da galeria, as ações sociais; 2) a comutação entre os espaços físicos/urbanos e comunicacionais.
de Forest, muitas vezes, se desenvolveram no espaço da realidade cotidiana, De certa forma, essas práticas colocam em questão a ideia da cidade como
em circuitos paralelos, extramuros, postulando um questionamento de escritura, da cidade pensada como um dispositivo que guarda desejos,
territórios estabelecidos e utilizando a cidade como protagonista da
4 ZANINI, Walter. “Primeiros tempos da arte/tecnologia no Brasil”. In: DOMINGUES, Diana (org.). A arte no
3 RAMIRO, Mario. “Grupo 3Nós3: the outside expands”. In: Parachute, 2004, p. 50. século XXI: a humanização das tecnologias. São Paulo: Editora Unesp, 1997, p. 237.
memórias e afetos. São experimentações que utilizam as linguagens midiáticas
para criar situações de interlocução social, provocando um diálogo do corpo
social com o corpo da cidade. São projetos que, de algum modo, enfocam o
mundo, evidenciando as lógicas e as estruturas que permeiam a sociedade
contemporânea.
Caso exemplar de projetos nessa linha são aqueles desenvolvidos por
Maurício Dias e Walter Riedweg. Muitos dos protagonistas de seus trabalhos são
grupos sociais que se situam à margem do universo supostamente garantido Tijuana Project: projeto
pelo capitalismo mundial. Os projetos de Dias e Riedweg produzem, muitas do artista polonês Krzystof
Wodiczko dá voz a mulheres
vezes, uma falha, um corte, uma interrupção na ordem dos sentidos e do curso operárias mexicanas, por
“natural” das coisas. Provocam uma iluminação — profana como diria Benjamin meio de projeções de vídeo
— ao evidenciar o esgarçamento e as tensões que compõem o cenário social. de larga escala, em espaços
públicos
Entre os trabalhos da dupla que atuam nesse sentido pode-se destacar Dentro Imagem Capturada do Website do Projeto

e Fora do Tubo (1988). Realizado a partir de depoimentos gravados com refugiados


de terras em conflito que viviam na Suíça à espera da legalização de seu asilo personagens anônimas que vivem à margem do sistema, por vezes
político, teve como proposta — a partir de uma intensa convivência com o grupo negligenciadas pelo curso da história oficial. O trabalho de Wodiczko nos
dos depoentes — a gravação de depoimentos orais, nos quais o imigrante convida a pensar nas questões da narrativa nos termos colocados por Walter
apresentava suas memórias do trajeto percorrido quando da saída de sua cidade Benjamin. Wodiczko mostra uma cidade que guarda fantasmas, casos
84 natal até a chegada à Suíça. Essas lembranças, vozes, memórias dos refugiados desconhecidos daqueles que vivem à margem do sistema. 85

foram colocados em walkie-talkies e espalhados, dentro de tubos, no espaço Sob outro ponto de vista, podemos destacar trabalhos tais como Amodal
urbano, disponíveis para a escuta da população. Trata-se, nesse caso, de colocar Suspension e Body Movies, do artista Rafael Lozano-Hemmer. Amodal
em destaque, publicamente, estados afetivos e experiências sensórias decorrentes Suspension era uma instalação em grande escala, desenhada para a
de situações específicas, resultantes dos processos de marginalização. inauguração do Yamaguchi Center for Art and Media (YCAM), no Japão, que
Um processo como esse nos remete, de certa forma, às experiências permitia ao participante enviar mensagens via telefone celular e internet ao
desenvolvidas pelo artista polonês Krzysztof Wodiczko, conhecido desde os espaço da cidade. As mensagens se codificavam em sequências de luz e eram
anos 1980 por trabalhar com projeções de vídeo em grande escala no espaço disparadas por canhões, permanecendo no céu até que fossem lidas pelo
público. Em Cecut Project (2000), realizado no Centro Cultural de Tijuana destinatário. Uma vez lidas, eram retiradas do céu e projetadas na fachada do
(Cecut), no México, o artista se utiliza de dispositivos midiáticos para dar voz edifício do YCAM. Nesse trabalho torna-se evidente a ideia da cidade como
a mulheres operárias da cidade de Tijuana. Nesse trabalho, o artista criou um dispositivo de comunicação e como mecanismo para trocas de afeto dentro da
capacete integrado a uma câmera e a um microfone que permitia gravar e perspectiva já desenhada pelos situacionistas. Além disso, o trabalho também
transmitir, em tempo real, a imagem e a voz da depoente na fachada do Centro coloca em debate a questão da mobilidade e das conexões em rede, um dos
Cultural. Os testemunhos das mulheres, ouvidos pelo público em uma praça temas mais destacados na cultura em liquefação. Mais que assinalar a fluidez do
pública, discorriam sobre abuso sexual, alcoolismo e violência doméstica. espaço na contemporaneidade e as comutações entre espaço físico e de
Walter Benjamin, em “O narrador”, esboça a ideia de uma narração comunicação, o projeto aponta para a ideia da rapidez dos “relacionamentos
construída em ruínas. O narrador não tem por alvo recolher os grandes feitos virtuais”. As conexões via internet, e-mail, SMS e telefone celular exigem
históricos ou a história dita oficial, mas tudo aquilo que é deixado para trás — os rapidez, sendo extremamente fácil sair dessas conexões; basta deixar de
cacos, os estilhaços — como algo que não tem significação, como algo com o responder a um e-mail ou apertar a tecla “apagar”. São relacionamentos que se
qual a história oficial não sabe o que fazer. Muitos desses feitos são relatos de acendem e se apagam com a velocidade da luz.
O que se percebe nesses trabalhos, não obstante suas diferenças, é a
construção de uma visão de espaços em movimento que, longe de serem

87
espaços racionalizantes e fixos como os da cultura renascentista, são fluídos,
reveladores dos meandros da cultura líquida de nossa época — uma cultura que
põe em questão certezas, visões estáveis e verdades duradouras.
Em vez de encontrar o “porto seguro” prometido pelo cogito cartesiano, o
sujeito contemporâneo parece se deparar com uma cidade de outro tipo. Nessa
cidade não existe mais lugar para a certeza e segurança encontradas pelo eu
cartesiano. Aqui nenhum lugar parece ser o locus privilegiado para a verdade e a
NOTAS SOBRE A CULTURA E A ARTE DA MOBILIDADE
segurança prometidas. Ao contrário: seus lugares estão prenhes de ambiguidades, (PENSAMENTOS NÔMADES PARA HIPÓTESES EM FLUXO)
passagens, vozes e escrituras de uma cultura em estado de liquefação. GISELLE BEIGUELMAN

Esse ensaio se divide em duas partes. Na primeira, apresento minhas notas sobre a
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS cultura e arte da mobilidade. Trata-se de uma reunião de pensamentos que venho
testando em projetos realizados ao longo de quase uma década1. Na segunda, um
ARAGON, Louis. O camponês de Paris. Rio de Janeiro: Imago, 1996. ensaio visual põe à prova algumas dessas notas, confrontando certas nuances de
ARANTES, Priscila. Arte e mídia: perspectivas da estética digital. São Paulo: Editora Senac, 2005. suas hipóteses.
ARANTES, Priscila. “Circuitos paralelos: restrospectiva Fred Forest”. In: BOUSSO, Vitoria D. (org.)
86 Circuitos paralelos: retrospectiva Fred Forest. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006. PARTE 1 — PENSAMENTOS NÔMADES 87

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. A cultura da mobilidade é um conjunto de práticas sociais e simbólicas que
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, vol. 1, Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1993. reestrutura as maneiras de ver e perceber o Outro e a nós mesmos. Atravessada
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Martins Fontes, 1996. olhar constantemente distribuído entre atividades simultâneas e não correlatas. A
VIRILIO, Paul. O espaço crítico e as perspectivas do tempo real. São Paulo: Editora 34, 1993. criação, nesse contexto, implica repensar as condições de legibilidade e as
convenções e formatos da comunicação e transmissão.
As ações ocorrem em espaços informacionais, lisos, fluidos, ocupados por
práticas nômades que reconfiguram noções de distância e localidade e os limites
entre os lugares da arte, da propaganda e da comunicação. Nesse contexto, o
processo de criação também requer, por isso, a compreensão dos meandros

1 http://www.desvirtual.com/category/mobile/
políticos, econômicos e ideológicos que se interpõem a essas condições de criação urbanas, adequadas a situações de trânsito, entropia e mobilidade. Já a arte com
e aos nomadismos tecnológicos. dispositivos móveis tende a ser coletiva e anônima. Caracteriza-se pela interação
A experiência nômade da cultura da mobilidade se realiza no ruído dos espaços entre dispositivos móveis com outros equipamentos de telecomunicação —
de produção e consumo das redes fixas e móveis. internet, painel eletrônico, rede elétrica —, e situações públicas e coletivas — como
O ruído da comunicação móvel é fruto não só das situações de trânsito em que shows e cinemas.
ela ocorre, mas também dos atritos e tensões com os dispositivos e os circuitos de Com ou para dispositivos móveis, a arte wireless faz repensar nossos parâmetros
circulação. de criação e recepção: é uma arte do “entre”, do hiato e do intervalo. Desafia os
Ao contrário do que houve com a internet baseada em linhas fixas, à qual as modelos de atenção, contemplação e concentração, por ser mediada por
empresas de informática se ligaram posteriormente, o contexto wireless já nasceu equipamentos que servem a “n” funções — tocar música, ver vídeo, acessar a conta
corporativo e é inteiramente mediado por operadoras e fabricantes de aparelhos. bancária, conferir a agenda, falar — e são utilizados quando estamos envolvidos em
Hoje, talvez mais do que nunca, é fundamental a consciência de que qualquer mais de uma ação, como ao pedir a conta no restaurante e usar o celular ao mesmo
opção tecnológica é ideológica. Manter a liberdade de criação e pensamento, tempo. É arte para não ser vista como arte, que se confunde com os dispositivos de
nesse âmbito, passa pelo abandono de posturas românticas fundadas na base da comunicação e se deixa ler entrecortada por inúmeros outros inputs.
divisão de trabalho entre os inspirados e os transpirados. Sem conhecer os Passa por um investimento sistemático na desespetacularização da arte,
fundamentos da programação e os circuitos de circulação que se dão nos fluxos catalisada pela confusão dos espaços que permitiam reconhecer, no passado, as
da cultura mobile, corre-se o risco de virar garoto-propaganda sem sequer saber do competências particulares do espaço da arte, da propaganda, da comunicação e
quê... da informação.
A arte criada com e para os dispositivos móveis é feita a partir de uma integração O aumento da capacidade de produzir, transmitir e visualizar imagens colocou
88 de repertórios estéticos, tecnológicos, culturais e da publicidade, conjugados a uma os dispositivos móveis no centro da experiência urbana, dando consistência às 89

nova valoração da obra de arte, desconectada de sua função objetal. artes nômades e fazendo emergir novos formatos de ação política. Bombas são
Não se trata apenas de arte imaterial. Trata-se de artes nômades, que operam no acionadas por celulares, é fato. Mas vídeos curtos e pequenas mensagens de texto
trânsito e em trânsito, de projetos concebidos para ambientes de redes que são validados atuam como instrumentos mobilizatórios de ações de micropolíticas democráticas.
apenas quando em fluxo, em relação a outras dinâmicas e conjuntos de dados. A cultura da mobilidade é cúmplice de um processo de desautorização dos
São artes as quais configuram uma criação que lida com diferentes tipos de circuitos de transmissão que consolida práticas de generosidade intelectual e
conexão, velocidade de tráfego, qualidade de monitor, resolução de tela e outras tangencia as rotinas de download, upload, envio e reenvio. Isso faz do cotidiano um
tantas instâncias que alteram as formas de recepção. O que se vê é resultado de processo de agenciamento de inúmeros layers, distribuídos entre telas e janelas de
incontáveis possibilidades de combinação entre programas distintos, sistemas redes de distintas naturezas. Define-se aí o que chamamos de configurações
operacionais, provedores de acesso, operadoras telefônicas, fabricantes de cíbridas: situações resultantes da experiência de interconexão de redes on e off-line.
aparelho e todas as suas inumeráveis formas de personalização. São experiências que se dão no trânsito e em trânsito, mediadas por sistemas
Criar nessas e para essas condições é, então, pensar uma estética da de gerenciamento de tráfego, equipamentos urbanos (painéis, relógios,
transmissão, do peso dos dados e da vulnerabilidade de seus fluxos. A arte das sinalizadores), celulares, intranets e hot spots. O mundo passa a ser visto através de
redes sem fio é um jogo constante de articulação do imponderável e do telas e janelas.
imprevisível, que impõem refletir acerca de estratégias de programação e A aceleração contínua e a entropia fazem com que um momento do dia pareça
publicação que tornem a obra legível, decodificável, sensível. um filme, que se apaga e se consome assim que se realiza, respondendo às
Arte para dispositivos móveis e arte com dispositivos móveis não são a mesma dinâmicas de fragmentação e aceleração que as produzem. A câmera do celular é o
coisa, mas são, ambas, modalidades da arte wireless. A primeira tende a ser mais terceiro olho ciborgue na palma da mão.
imperceptível e vivenciada individualmente. Ringtones, por exemplo, são arte para Na cultura da mobilidade, as inscrições se volatilizam, as interfaces se multiplicam
dispositivos móveis, e estão abrindo uma perspectiva interessante de músicas e a recepção é distribuída em superfícies eletrônicas conectadas a redes de
telecomunicação. Um mesmo conteúdo pode ser produzido para diferentes
dispositivos portáteis, adequados a inúmeras situações e contextos de deslocamento.
A lógica da clonagem que permeia a criação digital está em pauta nos
parâmetros de recepção das mensagens na experiência da mobilidade. Apesar de
poderem ser idênticas no formato e conteúdo informacional, as mensagens
produzidas no âmbito da mobilidade não o são no que diz respeito à fruição e
legibilidade. A cultura da mobilidade evidencia o mais fascinante aspecto da lógica
do clone: sua capacidade de ser idêntico sendo diferente.
Tudo que se cria pode ser visto e lido de forma completamente distinta, de
acordo com seu contexto de recepção, o que não é consequência do tamanho da tela
ou do tipo de superfície a que as imagens e textos momentaneamente aderem. As
escrituras nômades da cultura da mobilidade, por serem clonáveis e deslinkadas do
suporte, desmaterializam a mídia para fazer a interface se realizar como mensagem.
A reversibilidade das funções dos equipamentos torna-se permanente. Os
dispositivos móveis são convertidos, a partir da interface, em equipamentos
pontuais de fala, navegação, informação ou armazenamento. Mobile tags
transformam o celular em uma lente de aumento do real. Mídias locativas, em um
controle remoto de escala planetária. Lugares passam a ser modificados pelo fluxo
90 informacional, criando geografias temporárias. Macroescalas intangíveis são
produzidas apenas com mídias móveis e só podem se realizar em territórios
imaginários, mas não existem sem a prerrogativa dos espaços físicos.
A cultura da mobilidade tensiona as relações entre real e virtual,
redimensionando as sociabilidades e os espaços de compartilhamento. Os
nomadismos tecnológicos atualizam um princípio aristotélico: o homem é um ser
político, é um animal da pólis. Seu lugar é a rua, não a tela nem o escritório.

PARTE 2 — UMA HIPÓTESE EM FLUXO: A INTERFACE É A MENSAGEM


I Love Your GIF (2007)2 é um projeto que combina apostas prospectivas com
vestígios nostálgicos. Concebido para explorar os recursos de zoom do browser
“micromap”, para celular, utiliza uma técnica bastante antiga de produção de
imagem em movimento para a web: os GIFs animados. Roda perfeitamente no
desktop, adquirindo, porém, um sentido totalmente distinto, reconfigurado que é
pela interface. Aparece aqui em versão impressa, seguindo a lógica do clone que
permeia a cultura digital e seus “originais de segunda geração”3.

1 http://www.desvirtual.com/nostalgia-for-net-art/
2 LUNENFELD, Peter. “Art post-history — Digital photography & Electronic semiotics”. In: AMELUNXEN,
Hubertus v.; IGLHAUT, Stefan; RÖTZER, Florian, em colaboração com CASSEL, Alexis e SCHNEIDER, Nikolaus G.
Photography after Photography: Memory and Representation in the Digital Age. Amsterdam: G+B Arts, 1996, p. 92-8.
Ativismo Ativismo

Vigilância Vigilância

RTE 2
Fronteiras
96

Privacidade
PARTE 2 Fronteiras

Privacidade
97

S E POLÍTICOS MÍDIAS LOCATIVAS: DESDOBRAMENTOS SOCIAIS E POLÍTICOS


Psicogeografia Psicogeografia

ra, cartografia Interconexões_público/privado, arquitetura, cartografia


99
45 REVOLUÇÕES POR MINUTO
(HISTÓRIA DA MÍDIA EM ALTA VELOCIDADE)
ARMIN MEDOSCH

INTRODUÇÃO
Este texto versa sobre o tema das revoluções, mas referindo-se menos ao ato
político de uma classe lutando com outra por poder, e mais aos movimentos
cíclicos causados pelo jogo entre forças de motivação industrial, científica, cultural
e política. Essa abordagem desafia o ponto de vista prevalente de acordo com
o qual a luta de classes foi substituída pelas tecnologias de mídia como sujeito
da história em democracias de livre mercado tecnologicamente avançadas. No
lugar disso, tenta desenvolver uma compreensão mais complexa das forças que
formam a história ao trabalhar a relação dialética entre a racionalidade tecnológica
como um meio de poder e dominação e, ao mesmo tempo, como uma forma de
99

emancipação humana1.
Como princípio orientador, tem-se que “o feitiço sempre se volta contra o
feiticeiro”. Malcolm X aludiu a esse ditado quando a violência desencadeada pelos
Estados Unidos sobre o Vietnã voltou para assombrá-los sob a forma da inquietação
dos estudantes norte-americanos. Os pontos cegos de uma determinada sociedade
— como racismo, sexismo, opressão de povos ou classes — frequentemente
retornarão para lhe criar problemas ou mesmo levá-la à queda, ainda que
inicialmente esses problemas não sejam tidos como assuntos de grande relevância.
Por exemplo, a Revolução Francesa e a Revolução Americana foram consideradas
marcos no progresso da humanidade em sua trajetória rumo à liberdade. Entretanto,
a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão não se estendeu às
mulheres2, e doze dos signatários da Declaração da Independência dos Estados

3 O conteúdo deste texto foi originalmente desenvolvido para uma palestra intitulada “45 RPM”, e foi escolhido
para enfatizar o potencial de resistência e renovação continuada no formato do disco de vinil. A palestra ocorreu
em Graz, Salzburgo, Belo Horizonte, Barcelona e Novi Sad entre setembro de 2007 e junho de 2008.
4 Em 1791, Olympe de Gouges escreveu e publicou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã,
estendendo às mulheres os direitos previstos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (proclamada em
1789 pela Assembleia Nacional Constituinte da França), na qual ela se baseou. http://womenshistory.about.com/
library/weekly/aa071099.htm.
Unidos da América eram proprietários de escravos. mesmo tendo uma circulação pequena”5. A liberdade de imprensa na França
A revolução francesa trouxe à burguesia vitória revolucionária dependia da propriedade de uma prensa. Não é preciso muito
sobre a aristocracia, mas, ao mesmo tempo, como esforço de imaginação para comparar esses cidadãos jornalistas de 1790 à cena
observou Georg Lukács, “a liberdade em nome da política dos blogs observada atualmente. As revoluções burguesas estabeleceram
qual a burguesia entrara em luta contra o um modelo de liberdade de mídia que foi exportado globalmente e, apesar das
feudalismo foi transformada em uma nova forma modificações, ainda é aplicável às sociedades de mercado liberal de hoje. Nesse
de repressão”3. Supõe-se que as revoluções modelo, a liberdade de mídia baseia-se na posse da propriedade e ambas estão
burguesas deveriam conduzir ao “reino da razão”, intrinsecamente ligadas à democracia representativa. Enquanto, em princípio,
mas os valores de “verdade eterna, direito eterno todos têm liberdade de comandar seu próprio veículo de comunicação, os
e igualdade baseados na natureza e nos direitos conglomerados de mídia passaram a existir, o que favorece a concentração
inalienáveis do homem” foram reservados somente de grande poder nas mãos de alguns poucos proprietários privados. As vozes
para proprietários de terra brancos, e a prometida de Murdoch, Berlusconi e seus porta-vozes sufocam as de bilhões de outros.
Library of Congress / New York World-Telegram & Sun Collection liberdade de propriedade deu lugar, para muitos Conforme a mídia tradicional se torna cada vez mais dominada por interesses da
Malcom X: um dos principais que em breve se veriam despossuídos, a “uma iniciativa privada, a opinião dissidente tem encontrado expressão principalmente
ativistas que lutaram pela
emancipação dos descendentes de liberdade da propriedade”, explica Friedrich em revistas de pequena circulação e na rede.
africanos nos Estados Unidos Engels4. Quando, em 1791, inspirada pela
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, A(S) REVOLUÇÃO(ÕES) INDUSTRIAL(IS)
eclodiu uma rebelião de escravos na colônia A primeira Revolução Industrial consistiu em rápidas mudanças nas ideias de
100 francesa do Haiti, a qual foi bem-sucedida e deu origem à primeira república livre “inovação, investimento, produtos, comércio e assim por diante” e todos pareciam 101

pós-colonial de cidadãos descendentes de africanos, os Estados Unidos fracassaram ter evoluído rapidamente a partir de 17806. Justifica-se falar de uma “revolução”,
no apoio a essa jovem república. Em seguida, os haitianos emigraram para Nova segundo Freeman e Soete, porque “envolveu uma transformação organizacional
Orleans e Louisiana, ajudaram a manter localmente vivas as tradições do oeste muito fundamental”, a qual não ocorreria sem “mudanças e conflitos políticos,
africano, proporcionaram aos afro-americanos um exemplo de seu espírito igualitário e sem mudanças culturais, como a disciplina de trabalho das horas das fábricas
e independente e contribuíram significativamente para o desenvolvimento do jazz, e a supervisão”7. Após essa primeira revolução industrial, “sucessivas ondas de
que, ao longo do tempo, iria espalhar uma mensagem musical anti-hegemônica e revoluções industriais basearam-se na transformação qualitativa da economia por
emancipatória de ressonância global. novas tecnologias”, e não somente no crescimento quantitativo8. Essas “ondas
de revoluções sucessivas”9 são conceitualizadas tanto por economistas marxistas
LIBERDADE DA MÍDIA como por liberais, como se seguissem certo padrão cíclico. Os assim chamados
Na França, durante a primeira fase da Revolução de 1789, “184 novos jornais “longos ciclos” ou “longas ondas” são disparados por tecnologias pioneiras, que
haviam surgido em Paris e 34 nas províncias. [...] Quase todo revolucionário não só marcam uma mudança dentro de uma indústria, mas resultam em um novo
proeminente estava envolvido em escrever e publicar seus próprios panfletos e paradigma industrial e tecnológico. Dessa forma, por exemplo, a segunda “longa
jornais. Utilizando prensas de madeira manuais, uma pessoa poderia produzir um
7 BARBROOK, Richard. 1995. Media freedom: the contradictions of communication in the age of modernity.
jornal diário com cerca de 3 mil cópias”, escreveu Richard Barbrook, acrescentando Londres: Pluto Press, 1995, p. 14, citando Bellenger, C., Godechot, J., Guiral, P. e Terrou, F. (1969) Histoire générale
que “esses negócios de um homem só poderiam ser muito lucrativos até de la presse française. Tome 1: Des origines à 1814, Paris: Presses Universitaires de France, 1969, p. 436.
8 FREEMAN, Chris e SOETE, Luc. The economics of industrial innovation. Cambridge: MIT Press, 1997, p. 35,
citando SUPPLE,/1961, p. 35.
5 LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: WMF Martins 9 Ibidem, p. 35.
Fontes, 2003. 10 Ibidem, p. 20, citando SCHUMPETER.
6 ENGELS, Friedrich. “Socialism: utopian and scientific”. In: TUCKER, Robert (ed.). The Marx-Engels reader. Nova 11 SCHUMPETER, Joseph A. Business cycles: a theoretical, historical and statistical analysis of the capitalist process.
York: W.W. Norton & Company, 1978, p. 684-6. Nova York: McGraw-Hill, 1939.
onda” ou onde de Kondratieff, de 1840 a 1890, baseou-se DETERMINISMO TECNOLÓGICO
no vapor e nos trilhos, mas também precisou do telégrafo A aparência superficial das coisas leva tanto críticos quanto admiradores do
para possibilitar a coordenação da expansão do sistema progresso técnico a caír no determinismo tecnológico, ou “teoria da bola
ferroviário e para alimentar os mercados de ações, que de bilhar”, para explicar a mudança social. A tecnologia e a sociedade são
financiavam a expansão ferroviária. A terceira onde de compreendidas como sendo separadas uma da outra, e a nova tecnologia atinge
Kondratieff, de 1890 até a década de 1940, embora a sociedade como uma bola de bilhar, fazendo com que ela gire em uma nova
fundamentada principalmente na eletricidade e no aço, direção, por meio de seu “impacto”. A mudança é unidirecional e seu caráter,
também foi a era da primeira utopia sem fios, com novas totalmente determinado pela forma da tecnologia. Por exemplo, já no início do
tecnologias elétricas, como o telégrafo sem fio e, a partir século XIX acreditava-se que “melhorar a comunicação significa criar igualdade
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dos anos 1920, o rádio10; atualmente, estamos em meio a e democracia”12. Isso lembra os profetas da sociedade de rede nos anos 1990, as
Guglielmo Marconi: inventor italiano
uma nova longa onda, apoiada na microeletrônica e nas que recebeu o Prêmio Nobel por suas quais alegavam que a internet descentralizada iria automaticamente criar uma
redes de computador. Enquanto esses “longos ciclos”, contribuições para a comunicação sociedade não hierárquica, descentralizada.
sem fio via telégrafo
baseados em novas tecnologias, inicialmente favorecem
a sustentação de um extenso boom econômico, FETICHISMO DAS MERCADORIAS
inevitavelmente também vão levar a uma superacumulação, a uma taxa de lucro A não neutralidade da tecnologia não é tão facilmente compreendida, uma vez que
em queda e, por fim, a uma crise econômica. Compreender a natureza cíclica a tecnologia se apresenta como uma “racionalidade estranha”, ou seja, em forma
das “longas ondas” ajuda a conceitualizar a “inovação” não como algo natural fetichizada. No capitalismo de mercadorias, o produto do trabalho aparece sob
e espontâneo, mas como a emergência de tecnologias transformadoras de a forma de coisas ou mercadorias. Como escreveu Karl Marx: “Uma mercadoria
102 paradigmas ligadas ao lucro em queda e ao ciclo dos negócios como um todo. é, portanto, uma coisa misteriosa, simplesmente porque nela o caráter social do 103

trabalho do homem aparece para ele como um caráter objetivo, carimbado sobre
A NÃO NEUTRALIDADE DA TECNOLOGIA o produto daquele trabalho, porque a relação dos produtores com a soma total de
Karl Marx destacou a contradição entre o capital e o trabalho. Para que o capital seu próprio trabalho lhes é apresentada como uma relação social, que existe não
seja acumulado, um excedente de capital deve ser realizado em relação ao entre eles mesmos, mas entre os produtos de seu trabalho. É por essa razão que
investimento prévio. Esse excedente é atingido por meio da exploração de esforço os produtos do trabalho se tornam mercadorias, coisas sociais cujas qualidades
extra de trabalhadores assalariados. Parte do excedente produzido pelo trabalho são, ao mesmo tempo, perceptíveis e imperceptíveis aos sentidos”13. O fetichismo
é reinvestida em equipamentos. Como resultado, “o trabalhador é confrontado das mercadorias permite que o capitalismo mistifique as relações sociais que ele
com as potencialidades intelectuais do processo material de produção como produz. Ele também explica por que, após um período extenso de acumulação
propriedade de outro e como um poder que o governa”. Esse “processo de capitalista, seu produto combinado possa aparecer como uma “segunda
industrialização, à medida que atinge níveis cada vez mais avançados de progresso natureza”14. Estamos cercados por uma vida quase inteiramente “produzida”
tecnológico, coincide com um crescimento contínuo da autoridade capitalista”. pelo capitalismo, de uma forma ou de outra. Por isso, tendemos a naturalizar as
Portanto, “é precisamente o ‘despotismo’ capitalista que toma a forma da formas sociais e as hierarquias. Isso significa que, em vez de compreender os
racionalidade tecnológica”. Entretanto, no capitalismo, não somente as máquinas fenômenos como historicamente específicos, nós os interpretamos erroneamente
“mas também os ‘métodos’, técnicas organizacionais etc. [...] confrontam os como condições “naturais” da vida. Enquanto o fetichismo das mercadorias jogar
trabalhadores como capital: como uma ‘racionalidade’ estranha”, observou seu poder de ocultamento em torno de nós, o mundo parecerá ser governado
Raniero Panzieri na clássica análise sobre o uso capitalista das máquinas11.
14 MATTELART, Armand. The information society: an introduction. Londres: Sage, 2003, p. 31, citando CHEVA-
12 As séries dos ciclos Kondratieff usadas aqui baseiam-se em Freeman e Soete, op. cit., tabela 1.3, p. 19. LIER, 1837.
13 PANZIERI, Raniero. “The capitalist use of machinery: Marx versus the objectivists”. 1961. In: Quaderni Rossi, 15 MARX, Karl. O capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. Livro 1, seção 4.
disponível em: http://www.geocities.com/cordobakaf/panzieri.html. 16 LUKÁCS, op. cit.
por “coisas”, e as verdadeiras relações sociais podem permanecer veladas e não Estado e a experimentação foi limitada a alguns poucos institutos oficiais. O
desafiadas. espírito de garagem dos radioamadores norte-americanos precedeu a primeira
onda de hackers de computador e proporcionou um modelo de inovação fora do
A ERA DA ELETRIFICAÇÃO E DA MÍDIA MODERNA mecanismo de mercado. A Primeira Guerra Mundial e o desenvolvimento da rádio
Por volta de 1890, a terceira longa onda baseada na eletricidade e no aço comercial nos anos 1920 deram fim àquele espírito descompromissado.
começou a crescer. Com ela emergiu a mídia moderna, de início não detectada15. Os anos 1920 foram a época da ascensão dos bens de consumo elétricos — os
No lugar de compreender a emergência das novas mídias como um progresso receptores de rádio chegaram aos lares norte-americanos numa onda, com o
natural da ciência e da tecnologia, ou simplesmente como grandes feitos de refrigerador e a máquina de lavar, e as mesmas empresas que fabricavam os bens
grandes homens, sugere-se aqui compreender sua criação embutida no projeto de consumo elétricos também possuíam estações de rádio. O rádio se tornou
de eletrificação. Isso envolveu a construção de um novo sistema industrial, de indispensável para aquilo que Raymond Williams chama de “privatização móvel”16.
dimensões gigantescas, que consiste em estações de energia e uma grade elétrica Uma mobilidade crescente da classe trabalhadora andava par em par com a perda
que cobre cidades e nações. Para justificar essa expansão, uma busca permanente da identidade cultural e comunitária que o rádio pode em parte restaurar, embora
por aplicações da nova energia teve início. As inovações foram feitas por meio de dentro dos confins do espaço doméstico privado.
uma organização sistemática de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Inventores
altamente motivados, com visão empreendedora — tais como Edison, Tesla e AS VANGUARDAS
Marconi —, enfrentaram batalhas com marcas e patentes para se assegurarem O século XIX caracterizou-se por tecnologias progressistas e por uma cultura
dos privilégios econômicos por terem sido os “primeiros”. Esse processo geraria conservadora. Enquanto a burguesia explorava o uso da ciência e da tecnologia
novos líderes industriais, como Marconi na Inglaterra, GE nos Estados Unidos e para os negócios, preferia o historicismo e o classicismo para a arte, o design e
104 AEG na Alemanha, os quais, em determinado momento, quase formaram, juntos, a arquitetura. O Manifesto Futurista de 1909 declarou uma ruptura radical com 105

um monopólio mundial. O efeito combinado do projeto de eletrificação também esses parâmetros, elogiando “todas as tendências artísticas turbulentas da época”:
proporcionou uma mudança organizacional ao permitir a criação da burocracia a tecnologia, a velocidade, a violência, o caos da vida urbana e os eventos de
moderna e facilitar uma grande expansão no tamanho das corporações. massa17. Através do uso de novas tecnologias, as vanguardas históricas ansiavam
por romper as barreiras entre arte e vida, criar uma arte que resultaria em uma
UTOPIA SEM FIOS nova sociedade. Se por um lado as vanguardas históricas foram as primeiras a
A corrida econômica e tecnológica inspirou uma utopia sem fios na virada do compreender o potencial das novas tecnologias da mídia para a arte, por outro,
século passado. O inventor Nikola Tesla sonhava em transmitir energia. Na seus objetivos “totalizadores” também as tornaram suscetíveis a apoiar os sistemas
imaginação popular da época, essas tecnologias de comunicação eram vistas totalitários. O desejo dos artistas de conduzir a sociedade à maneira de uma
como possibilitadoras do socialismo e da verdadeira democracia. Mas foi Marconi vanguarda os infectou com visões “totais” em que um só decide por todos qual é a
quem criou o primeiro império de negócios sem fio, pois desenvolveu a telegrafia coisa certa a fazer. Na política revolucionária, isso era congruente com a doutrina
sem fios conforme a lógica industrial prevalente, ou seja, não como uma tecnologia leninista do partido de vanguarda. A estrutura da radiodifusão, em que um locutor
de consumo de mercado de massa, mas como aplicação industrial para dar é ouvido por muitos, permitiu que ditadores de esquerda e direita arrebatassem as
suporte a linhas de transporte globais e a mercados de ações. massas com seu carisma e as unissem no culto a seu respectivo líder.
Nos Estados Unidos, a tecnologia de rádio foi desenvolvida e experimentada
por um grande número de amadores de rádio entre 1890 e 1920. Em quase todas MÍDIA PARTICIPATIVA
as demais partes do mundo, o espaço do rádio foi rapidamente controlado pelo Conforme a mídia moderna se juntou ao carrossel das mercadorias fetichizadas,

17 Conforme os cientistas de mídia alemães, a palavra “mídia” na forma que usamos atualmente não era 18 WILLIAMS, Raymond. Television: technology and cultural form. Nova York: Schocken Books, 1975.
conhecida como um termo genérico no século XIX. MÜNKER, Stefan e ROESLER, Alexander. Was ist ein Medium? 19 HESSE, Eva. Die achse avantgarde-faschismus: reflexionen über Filippo Tommaso Marinetti und Ezra Pound.
Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2008. Zürich: Die Arche, 1991.
a dialética da mídia entrou no jogo. As mesmas dinâmicas tecnológicas que produtivo da arte como um todo, introduzindo novas formas para permitir que
podem aumentar os poderes de uma classe dominante também podem facilitar mais pessoas se expressassem e, assim, se emancipassem. A seguinte citação de
o acesso ao conhecimento e à autoemancipação. Enquanto os artistas temiam Brecht aponta na mesma direção:
que a fotografia traria o fim da arte, ela possibilitou que um número ainda
maior de pessoas visse imagens de obras de arte e as pendurasse na parede Não é nosso papel reavivar as bases ideológicas da ordem social existente por meio de
de suas cozinhas. As tecnologias de mídia aumentaram o poder da burocracia inovações, mas fazê-la desistir de suas bases através das nossas inovações [...] Através
corporativa, mas permitiram aos trabalhadores que se educassem com jornais de propostas contínuas e intermináveis sobre como utilizar melhor os aparatos no
baratos e publicações impressas. Ao mesmo tempo em que era usado para interesse do público geral, precisamos chacoalhar as bases sociais dos aparatos e
comandar exércitos, o rádio também criou um mercado para formas musicais desacreditar seu uso para o interesse de poucos20.
não elitistas, como o jazz e as músicas de protesto. Estabeleceu-se uma dinâmica
que contrapunha a democratização crescente de acesso à mídia aos poderes e Se o papel de desacreditar “o uso da mídia para o interesse da visão” ainda tem
doutrinas culturais da elite econômica. relevância, a noção de que as novas tecnologias podem ser desenvolvidas para
No final dos anos 1920, o dramaturgo de “chacoalhar as bases” da sociedade é particularmente interessante. Será que as
esquerda Bertolt Brecht exigiu que todos os tecnologias governadas por sonhos, desejos e objetivos racionalmente formulados
receptores de rádio também fossem transmissores. das comunidades de hackers politizados podem não somente romper com os
O rádio não deveria isolar as pessoas, mas colocá-las modelos de negócios de determinadas indústrias, mas minar as relações de forças
em contato umas com as outras. À medida que de produção de forma mais profunda? Será que elas podem revolucionar a base
investigou como as novas mídias mudavam a material para desmontar o capitalismo a partir de dentro?
106 percepção e o pensamento, Walter Benjamin 107

desenvolveu aquilo que é discutivelmente uma teoria A ERA ELETRÔNICA


da mídia precoce18. Benjamin também interrogou as A progressiva automatização e a regra combinada de fordismo e keynesianismo
relações entre a mídia e seu potencial para a permitiram uma fase prolongada de grande crescimento econômico entre as
instrumentalização política das massas. Reconheceu décadas de 1940 e 197021. Henry Ford não somente fora o pioneiro de uma
que o “fascismo resultava numa estetização da vida metodologia de produção, mas também reconheceu que as pessoas que
German Federal Archive / Domínio Público
política” e percebeu como os grandes eventos de produziam seus carros eram também seus principais clientes, o que tornou
Bertolt Brecht: “Mude o rádio, massa eram mais bem explorados para a propaganda necessário colocar dinheiro suficiente em seus bolsos e dar-lhes tempo para
de distribuição para “através das lentes e possibilidades da percepção consumir. O consenso do pós-guerra entre dinheiro e capital exigia moderação de
comunicação [...] ao submeter
sugestões constantes,
mecanizada do que ao vivo”. Para contrariar essas ambos os lados. Os trabalhadores obteriam melhores condições e salários,
incessantes, para melhorar o tendências, Benjamin recomendava que o autor e, em retribuição, concordariam com técnicas de produção cada vez mais
uso do aparelho para o bem como produtor deveria intervir no processo de alienantes em fábricas semiautomatizadas. A especulação financeira havia sido
geral, nós construímos suas
pedras fundantes sociais, produção, para transformar o aparato à maneira de colocada sob controle por um sistema de taxas de câmbio fixas, supervisionadas
questionando como ele está um engenheiro19. Em vez de buscar autores de pelas instituições apontadas pelo Acordo de Breton Woods — Banco Mundial e
sendo usado para ampliar os
interesses de poucos”
autoexpressão, ele deveria tentar mudar o sistema FMI. Por 25 anos, esse sistema garantiu estabilidade e crescimento nas sociedades
industriais altamente desenvolvidas.
20 BENJAMIN, Walter. The work of art in the age of mechanical reproduction. Londres: Penguin, 2008.
A televisão se tornou o meio emblemático da sociedade de consumo do
21 BENJAMIN, Walter. “The author as producer”. In: ARATO, Andrew e GEBHARDT, Eike. The Essential Frankfurt
school reader. Nova York: Continuum, 1982. Veja também COX, Geoff e KRYSA, Joasia. “Introduction to The autor
as (digital) producer”. In: COX, Geoff e KRYSA, Joasia. Engineering culture: on “The autor as (digital) producer”. Nova 22 BRECHT, Bertolt. 1932. Disponível em: http://www.medienkunstnetz.de/source-text/8/.
York: DATA Browser O2, 2005. 23 HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
pós-guerra. Seu principal problema não é somente o fato de ela, de alguma forma, “prótese” do sistema nervoso central, o qual, ao se exterioriza, era exposto a
distorcer a verdade por meio da “manipulação”, mas a limitação de sua estrutura poderosas forças de manipulação26. Mesmo proporcionando um estímulo
interna — composta de um transmissor e muitos receptores incapazes de importante para se pensar a mídia eletrônica sob novos aspectos, McLuhan
responder —, que espelha as condições básicas das sociedades, divididas entre também foi longe demais com o determinismo tecnológico. Quando a forma da
produtores e consumidores, aqueles que dão ordens e aqueles que as cumprem. tecnologia determina a direção e o caráter das mudanças, nega-se aos humanos
Em A Sociedade do Espetáculo22, os trabalhadores são confrontados com sua própria o poder de formar sua própria história. Há uma negatividade e um totalitarismo
impotência sob a forma de comunicações fetichizadas na tela da TV. nesse ponto de vista, que geralmente é subestimado. Na “arte experimental”,
Nos anos 1950, a introdução dos transistores tornou portáteis os receptores escreveu McLuhan, “os homens têm as especificações exatas da violência que se
de rádio. O novo meio da música pop estava se transformando em “privatização volta contra eles mesmos a partir de seus próprios inimigos ou tecnologias”27.
móvel” e retumbava dos rádios de automóveis; levado às calçadas e parques, Inicialmente, os artistas aderiram ao novo meio com um espírito saudável de
proporcionou a trilha sonora da era dos carros. Adorno e Horkheimer criticaram destruição. Nam June Paik “remixou” a imagem da televisão pelo uso de um ímã,
veementemente a forma como a indústria cultural transferia os métodos de Günter Uecker colocou pregos em aparelhos de TV e Wolf Vostell os esmagou e
produção das fábricas fordistas para a esfera cultural23. Enquanto sua poderosa enterrou no Central Park. Depois que a Sony introduziu o primeiro sistema de
polêmica ressoa com a crítica da mercadorização da cultura também em nossa vídeo portátil e de baixo custo, o Porta Pak, em 1965, muitos artistas começaram
época, abstém-se completamente de reconhecer o potencial emancipatório da a fazer experimentações com ele. Ocorreu um cisma: os artistas que abraçaram
assim chamada “mídia de massa”, que Benjamin destacou já nos anos 1930. plenamente o potencial emancipatório da câmera de vídeo portátil iniciaram
Infelizmente, a crítica unilateral de Adorno e Horkheimer definiu a maneira como projetos de mídia comunitária e terminaram abandonando o sitema da arte como
os “bons esquerdistas” deveriam interpretar a cultura da mídia de massas. O meio um todo28. Outros, que se juntaram a eles na experimentação temporária com o
108 da música pop podia ser não somente aquilo que a teoria crítica via neles, mas vídeo durante os anos 1960, mais tarde mudaram de lado e sacrificaram o poder 109

também uma forma de transmitir novas energias e formular novas identidades ao socialmente transformador do ativismo do vídeo por uma carreira artística.
tornar-se o foco da criatividade dos fãs. A indústria cultural não cria estilos, apenas
os explora — desde os anos 1950, novos estilos subculturais foram produzidos pela 1968
classe trabalhadora em seu tempo livre: mods e rockers, teddy boys e teddy girls, No meio dos anos 1960, enquanto no nível superficial da tela as coisas pareciam
rude boys e soul girls chacoalharam o mundo com novas atitudes, que eram relativamente quietas nas economias industriais mais desenvolvidas, a crítica
hedonistas e rebeldes ao mesmo tempo. da pobreza da vida cotidiana já tinha sido formulada nos bastidores por uma
A era eletrônica sofreu outra guinada com Marshall McLuhan em Os meios de esquerda pós-marxista não ortodoxa. Como mostra George Katsiaficas, “Maio de
comunicação como extensões do homem24. De acordo com McLuhan, mudanças 1968” não estava acontecendo somente em Paris, mas era um movimento global
na forma dominante do uso da mídia, em última instância, provocavam poderoso que trouxe The imagination of the New Left29 à superfície. Alimentada pelo
transformações na maneira como as pessoas percebiam e compreendiam a racismo, sexismo, militarismo e capitalismo consumista, a “classe em si mesma”
realidade. Depois da cultura do livro visualmente orientada de A galáxia de revolucionária de 1968 rejeitava a noção leninista da vanguarda revolucionária.
Gutenberg25, a mídia eletrônica de massas daria preferência à cultura oral e à Sua ideia de revolução era que o próprio poder deveria ser transformado em uma
tatilidade que tornariam as sociedades mais tribais e criariam uma aldeia global, “forma descentralizada e autogerida”. A vibração do movimento de 1968 também
alegava McLuhan. Ele também acreditava que a mídia de massas era uma estabeleceu um novo modelo de liberdade de mídia: em vez de consumir ou lutar

24 DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 1997. 28 Ibidem, p. 65.
25 ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de 29 Ibidem, p. 64-6.
Janeiro: Zahar, 1986. 30 HALLECK, DeeDee. Hand-held visions: the impossible possibilities of community media. Nova York: Fordham
26 McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1969. University Press, 2002.
27 McLUHAN, Marshall. A galáxia de Gutenberg: a formação do homem tipográfico. São Paulo: Nacional/Edusp, 1972. 31 KATSIAFICAS, George. The imagination of the New Left: a global analysis of 1968. Boston: South End Press, 1987.
contra a mídia de massas, todos deveriam tornar-se produtores de sua própria tornaram mais fácil para as corporações terceirizar atividades em países de baixa
mídia — produtores de folhetos ou pôsteres, inventores de slogans e caricaturas renda, um processo no qual as empresas norte-americanas de alta tecnologia
ou produtores de rádio. O modelo da mídia participativa se expressava em slogans haviam sido pioneiras na década de 1960. As multinacionais se beneficiaram
surrealistas, como “Poder para a imaginação”, nas paredes de Paris. Ao mesmo não somente do fato de a produção mudar-se para fora do país, mas também da
tempo em que 1968 fracassou em obter o poder político, formulou a necessidade possibilidade de ameaçar fazê-lo para reduzir o poder de trabalho nos países mais
de autogerenciamento em todas as áreas, estimulando, assim, novos movimentos ricos. A crescente transformação para tecnologias de informação e comunicação
sociais que, a longo prazo, transformaram atitudes sociais dominantes em (ICT, na sigla em inglês) deu-se ao mesmo tempo que a desregulamentação
questões como raça, gênero e meio ambiente. dos mercados financeiros e a ascensão da ideologia neoliberal. Possibilitou
a automação e semiautomação de áreas que anteriormente eram domínios
exclusivos do trabalho altamente especializado de colarinho branco. Indústrias
inteiras, como as de publicação e impressão de jornais, foram remodeladas,
criando desemprego em massa. O declínio do poder dos sindicatos comerciais
coincidiu com a defesa conservadora de uma sociedade pós-industrial por
autores como Daniel Bell32. Cada vez mais, a mídia, no lugar da luta de classes,
era vista como o principal agente da história. Na realidade, o previsto “fim das
ideologias” acabou levando a uma restauração maciça do poder das classes mais
Maio de 68: um mês em altas, como analisado por David Harvey33.
que as ruas de Paris
paralisadas tornaram-se
110
símbolo da possibilidade TECNOLOGIAS DE RUA 111

de mudar o mundo por Se as revoluções conservadoras lideradas por Thatcher e Reagan acabaram
meio de ações coletivas
com o poder dos movimentos trabalhistas, e as políticas monetaristas de Paul
de interesse comum
LIFE Photo Archive Volcker como presidente do Federal Reserve Bank norte-americano asseguraram
a “vitória” do neoliberalismo, o início dos anos 1980 assistiu a uma recessão.
COMPUTADORIZAÇÃO, NEOLIBERALISMO E PÓS-MODERNISMO Pressionadas pela concorrência crescente e por uma taxa de lucros em queda, as
O sucesso das economias concorrentes do Japão e da Alemanha em produzir empresas japonesas foram pioneiras na integração entre eletrônica e manufatura,
carros e bens de consumo — assim como o excesso de gastos dos Estados Unidos assim chamada de “mecatrônica”. Será mera coincidência a música eletrônica de
na guerra do Vietnã e as medidas keynesianas para estimular a economia — criou pista ter sido criada nos centros de manufatura avançada pela banda Yellow Magic
uma tensão imensurável e uma crise econômica no final dos anos 1960 e início dos Orchestra, em Tóquio, pelo Kraftwerk, em Düsseldorf — centro de investimento
anos 197030. Os Estados Unidos forçaram a ruptura com o sistema Breton Woods japonês na Alemanha —, e pelos produtores techno de Detroit, que fundiram o
de taxas de câmbio fixas e mercados financeiros regulados. É estranho pensar soul da Motown com a música eletrônica germano-japonesa? A “reestruturação”
nas conexões entre taxas de câmbio cada vez mais flutuantes e o ganho de poder das indústrias forçou as empresas a se livrarem de velhos equipamentos e
paralelo das teorias semióticas pós-modernas sobre “significantes flutuantes” e instalações. A cada nova onda de inovação industrial, a alta tecnologia se torna
sobre a importância dos “jogos de linguagem”31. A próxima onda de inovações baixa tecnologia ou tecnologia redundante e é descartada para a rua. Isso facilita
relacionadas à ciência começou a dar nova forma à base tecnológica da sociedade. um certo tipo de cultura cyberpunk — não cyberpunk como o gênero literário,
Os avanços em circuitos integrados, microchips e redes de telecomunicações mas como foi sintetizado na frase “a rua encontra seu próprio uso das coisas”.

34 BARBROOK, Richard. 2007. Futuros imaginários: das máquinas pensantes à aldeia global. São Paulo: Peirópolis,
32 BRENNER, Robert. O boom e a bolha: os Estados Unidos na economia mundial. Rio de Janeiro: Record, 2003. 2009.
33 HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1992, figura 2.5. 35 HARVEY, David. A brief history of neoliberalism. Oxford: Oxford University Press, 2005.
O gasto crescente com ICT diminuiu os preços e tornou consumíveis cultura remix da internet nos anos 1990. Mesmo sendo mal percebida, na época,
computadores domésticos e equipamentos de produção audiovisual, como fora dos círculos especializados, uma das “inovações” mais importantes dos
sintetizadores, samplers, câmeras de vídeo e equipamentos de edição. Os anos anos 1980 foi a fundação do movimento do software livre por Richard Stallman
1980 viram a ascensão de práticas de mídia contracultural amplas e diversificadas. e associados e o desenvolvimento do GNU General Public License (GPL), a
Intimamente associadas aos novos movimentos sociais, essas subcorrentes Licença Pública Geral. A dinâmica viral do GPL, que dá liberdade de inspecionar,
criativas visavam romper a hegemonia da mídia de massas usando as próprias modificar, utilizar e redistribuir softwares sem custo, sob a condição de que as
máquinas da mídia. Enquanto os situacionistas tinham transformado as imagens, mesmas condições sejam repassadas, abriu caminho para moldar as mudanças
as culturas de rua dos anos 1980 praticavam a “transformação tecnológica”, uma tecnológicas independentemente da lógica do capitalismo industrial.
guinada da tecnologia de consumo barata ou antiga alta tecnologia redundante
em meios de produção para as culturas jovens dissidentes, que agora ocupavam as O NEOLIBERALISMO E A REDE
ruínas da indústria cultural, literal e metaforicamente. A decisão da administração Clinton de abrir a internet coincidiu com um
boom econômico nos Estados Unidos, observado a partir de 1993. As políticas
econômicas da administração Clinton acabaram com a virada do neoliberalismo
que havia começado nos anos 1970 e favoreceram os mercados financeiros de
forma que uma bolha especulativa pôde crescer. Enquanto a internet se abriu para
O Chaos Computer Club, conforme texto
na Wikipedia, é uma organização de o uso público, inicialmente foi vista como um novo continente no ciberespaço, que
hackers sediada na Alemanha: com mais desafiava as leis econômicas da gravidade. Certo ou errado, o boom foi concebido
de 4.000 membros, o CCC se auto-
denomina uma “comunidade galática de
como uma “nova economia”.
112 seres-vidas, independentes de idade, sexo, Na década de 1990, a rede também foi vista como um meio ideal para os 113
raça ou orientação societal, que atua movimentos sociais que atacavam a hegemonia da mídia de massas e criavam seus
através de fronteiras em nome da liberdade
de informação”. Ao lado, foto de um próprios canais de comunicação global e organização. Não por coincidência, as
acampamento na região de Berlim, em ações do governo mexicano neoliberal de privatizar coletivamente a terra utilizada
2003. http://en.wikipedia.org/wiki/
Chaos_Computer_Club
por povos indígenas no Chiapas se tornaram o disparo inaugural para a primeira
Imagem Retirada da Wikipedia
“greve de rede” global, em 1994-95, combinando o boicote eletrônico dos
servidores do governo mexicano com protestos no mundo real em frente a muitas
A CULTURA HACKER embaixadas mexicanas no estrangeiro. Formas descentralizadas de organização,
Dentro desse cenário, os primeiros grupos de hackers, como o Chaos Computer ativismo social e hacking, que foram discutidos com termos como mídia tática,
Club (CCC) na Alemanha ou a 2600 Magazine em Nova York, formam um caso irromperam nas ruas quando um movimento sem líderes ou formas visíveis de
especial, uma vez que eles alimentam as inovações e a infraestrutura do complexo organização bloqueou as ruas de Londres no dia 18 de junho de 1999. Mais tarde,
militar industrial e, exatamente por isso, são conscientes dos perigos à sociedade no mesmo ano, o protesto contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle
caso a ICT saia do controle e seja utilizada para estimular somente os poderes de se tornou o momento fundador para o serviço alternativo de notícias Indymedia.
grupos elitistas e secretos. O hacking é uma mistura de busca desinteressada do Apesar de todo esse ativismo de base, os anos 1990 viram crescer o poder das
conhecimento guiada pela curiosidade, uma cultura competitiva principalmente corporações multinacionais. Se o capitalismo parecia perder seu “peso”, a
entre jovens homens demonstrando suas habilidades uns para os outros. Mas, característica principal daquele período era a confiança crescente no fetichismo
ao mesmo tempo, pode ser motivada por um forte sentido de preservação da das mercadorias e sua extensão para a informação e o conhecimento. À medida
liberdade humana em uma sociedade cada vez mais governada por sistemas de que os empregos de produção diminuíam, as administrações corporativas em
processamento de informação e redes eletrônicas. As práticas de mídia cultural cidades globais, como Nova York, Londres e São Paulo, tornavam-se cada vez mais
contra o establishment e o copyleft dos anos 1980 proporcionaram as bases para a rigorosas e cruéis, priorizando o “trabalho imaterial”, como pesquisa e
desenvolvimento (P&D), marketing e construção de marcas. Os anos 1990 mais para instalar a nova infraestrutura necessária, o que resultou na instalação
assistiram ao triunfo das marcas globalizadas, que buscavam o valor de excedente de torres de telefone móvel no topo de prédios do governo, hospitais e escolas.
geral e focavam no aumento dos investimentos em sua imagem, ao mesmo tempo O elevado custo do investimento inicial precisava ser repassado aos consumidores
em que espremiam os custos do trabalho. Esse cenário impulsionou uma demanda de modo que, atualmente, os usuários de telefone móvel pagam um alto preço
por membros da “classe criativa” para suprir o trabalho criativo sob condições de para a comunicação de texto e voz, e tarifas ainda maiores se forem clientes de
flexibilidade crescente. Se isso podia ser usufruído por alguns artistas da elite e banda larga móvel. Certo é que a forma adotada pelos governos para
designers, também foi vivido como uma “precariedade” crescente entre desregulamentar a telefonia móvel acabou tornando-se um imposto sobre as
trabalhadores, criativos ou não. comunicações. Além disso, muitas das prometidas aplicações de valor agregado
— como a televisão móvel — não são possíveis ou são proibitivamente caras. As
AS NOVAS REVOLUÇÕES SEM FIO empresas do setor parecem incapazes de concretizar todo o espectro de benefícios
Assim que a bolha da nova economia explodiu, outra revolução sem fio começou das tecnologias que detêm. Mesmo assim, a revolução da telefonia móvel tem sido
a se formar, mais ou menos cem anos após a primeira. Surgiu simultaneamente um sucesso em termos de número de usuários da rede e no quesito ganho
sob duas formas: a revolução Wi-Fi e a da terceira geração do telefone móvel (3G). econômico. Portanto, o contraste entre as redes comunitárias sem fio e a telefonia
Mesmo sendo, geralmente, mencionadas como derivadas do mesmo fôlego, essas móvel 3G se oferece como um sítio preferencial para compreender o fetichismo de
duas revoluções engendraram práticas sociais bastante diferentes. mercadorias no capitalismo de alta tecnologia.
O desenvolvimento do Wi-Fi foi possível após a desregulamentação de partes A contradição entre valor de uso e valor de troca, que está no coração do
do espectro de frequência do rádio conhecidas como bandas médicas, científicas e fetichismo de mercadoria, também é um estímulo a investir na aparência estética
industriais (ISM, na sigla em inglês) para comunicações de dados sem fio e sem do valor de uso, como o acadêmico alemão Wolfgang Fritz Haug a denominou em
114 licença. Isso impulsionou engenheiros na criação de protocolos para os padrões de seu profundo estudo, de 1971, sobre a estética das mercadorias34. Como explica 115

transferência de dados sem fio em 1997, e finalmente, em 1999, resultou em Haug, ela cria mundos próprios, esferas de jogo estético em que a pura aparência
tecnologias viáveis que atingiram níveis de transporte de dados de 11 Mbit/ tende a se descolar do objeto. Os usuários de redes sociais e de empresas de
segundo. Embora as ideias que governavam a invenção fossem comerciais, os telefonia móvel são, assim, seduzidos a comprar em mundos ilusionistas, que
entusiastas das redes de computador agarraram a oportunidade assim que o Wi-Fi vendem de volta suas próprias comunicações enquanto produto. A estética das
apareceu no mercado e encontraram meios de dobrar essa tecnologia e aplicá-la mercadorias baseia-se em alguma reciprocidade entre os meios estéticos usados
ao uso comunitário. Ao substituir o direito de propriedade de roteadores sem fio e para fazer com que o produto nos pareça “atraente” e o que consideramos que nos
cartões de rede baseados em Linux, eles puderam usar uma tecnologia projetada torna atraentes uns aos outros. A mercadoria nos olha “com os olhos de um
para pequenas redes internas e hot spots isolados, apropriando-se delas para criar amante”, empregando os mesmos truques utilizados pelos seres humanos para se
redes externas de tamanho e capacidade consideráveis. As redes comunitárias sem fazerem sexualmente sedutores. Essa estratégia convence os usuários de que, ao
fio apareceram em áreas urbanas como Londres, Nova York e Seattle, mas também comprar o fetiche (do telefone móvel), eles se tornarão, como num passe de
observou-se a formação de comunidades rurais na Catalunha, Indonésia e Nepal. mágica, sexualmente atraentes aos outros. Em relação aos bens de luxo, Haug
Seja nas grandes cidades ou no interior, as redes comunitárias sem fio são chama esse recurso de formação da sensualidade e, quando transcendida para um
construídas e mantidas a serviço das comunidades em uma base não lucrativa. regime, tecnocracia da sensualidade.
Mais ou menos na mesma época em que o Wi-Fi foi colocado no mercado pela Partindo dessa análise, eu denominaria o telefone móvel de a tecnologia da
primeira vez, as administrações nacionais decidiram liberar o espectro para a sociabilidade. Trata-se de uma condensação altamente fértil do fetichismo de
próxima geração de telefones móveis ao leiloá-lo para quem oferecesse mais por mercadoria no capitalismo high-tech. Como uma espécie de progresso mais
ele. Em alguns países, como a Inglaterra, o leilão trouxe belos lucros ao governo, recente desse capitalismo, ele carrega consigo muitos e muitos anos de
pois as empresas entraram na corrida de compra e levaram os preços a somas
astronômicas. Com o espectro obtido, as companhias precisaram investir ainda 36 HAUG, Wolfgang F. Crítica da estética da mercadoria. São Paulo: Editora Unesp, 1995.
desenvolvimento social, a vida inteira de cientistas, pesquisadores e relações que as produziram, na tecnocracia da sociabilidade nossa habilidade
programadores, o trabalho daqueles que produziram os aparelhos em fábricas humana básica de ser social está se reificando. Conforme os usuários se socializam
terceirizadas, e por último, mas não menos importante, matérias-primas como o nessas redes, nos bastidores dessas plataformas, sofisticadas ferramentas de
coltan35, cuja extração é feita sob condições desumanas em zonas de guerra civil análise de rede social acumulam conhecimento sobre eles, mapeando suas
no Congo. Mas o que enxergamos quando pensamos no celular é sua promessa relações e comportamentos e representando-os em “gráficos”. O capital social dos
de conexão e de nos tornar a pessoa projetada em nós, por meio de propagandas, usuários é transformado em conhecimento fetichizado — de início, um capital
pela indústria do telefone móvel. A propaganda, aqui, assume uma forma de meramente especulativo, que se converte em capital real indo para o mercado de
promessa de identidades, sugerindo modelos em que podemos nos ajustar do ações ou vendendo a empresa para uma indústria maior. Tanto as redes sociais
mesmo modo que a forma econômica do telefone móvel cabe em nossas mãos. como o celular — cujas interações se tornam cada vez mais próximas — fingem se
Em propagandas de 3G, encontramos mulheres conscientes de sua imagem, relacionar com a individualidade de seus usuários, colocando Eu, Meu ou Você no
exibindo um telefone cuja cor combina com a do batom, da sombra usada nos nome dos produtos, quando, na verdade, eles têm a ver com a acumulação de
olhos e das joias; e há o guerreiro do celular com sua barba por fazer, um capital. A mercadorização da internet como um todo pode ter sido um fracasso,
empresário jovem e confiante que não precisa usar um terno e pode ter certeza de expressado pela explosão da nova bolha econômica em 2000. Mas, agora, os
que estará “sempre conectado”. jardins murados das redes sociais e as redes dos proprietários de telefones
O fetichismo de mercadoria do telefone móvel produz modelos para a transformam a participação em espetáculo. A “liberdade” sentida pelos usuários
individualização de seus usuários. Ele promete que seremos alguém ao nos para se comunicarem de forma descentralizada torna-se a base de um novo regime
conectarmos, alguém que tem amigos, listas de companheiros, gostos específicos de acumulação, o qual cria poder e riqueza gigantescos. Quem adquire um
(uma boa coleção de seus MP3 favoritos em seu telefone), família (imagens de seus telefone móvel ou usa uma rede social compra um sistema de valor, uma hierarquia
116 amados) e contatos (uma lista importante de números de telefone relacionados ao de relações capitalistas que substituiu por um nível mais alto a ordem centralizada 117

trabalho, de pessoas para quem você nunca liga, mas cujos dados mantém da sociedade de televisão.
gravados). O processamento de imagens digitais usado nas propagandas de As redes comunitárias sem fio e o software livre e aberto não aparecem na TV ou
telefone móvel sublinha a conexão entre a estética e o fetichismo de mercadoria. em propagandas. Por serem operadas por seus usuários sem ganhos financeiros,
A chama potencial de um flerte rápido usando o SMS faz o novo modelo brilhar elas não são mercadorias, apenas têm valor de uso, puro e simples: existem fora do
com mais força — ele começa a dançar e cantar. A estética da mercadoria torna as sistema de fetiche das mercadorias. Entretanto, o interessante é que, como muitas
coisas cada vez mais humanas e as pessoas cada vez mais impotentes e tolas. pessoas se tornaram tão habituadas à segunda natureza de um mundo/coisa
A tecnocracia da sociabilidade também é praticada pela mídia social, como o fetichizado, as redes livres e o software livre não parecem atraí-las. Elas preferem
Facebook e o MySpace, os quais, parecem conferir o ideal do uso da mídia comprar uma ilusão e viver imersas nela.
participativa. Neste momento, finalmente, não apenas uma vanguarda de ativistas Continua.
de mídia, mas milhões de pessoas se envolvem em comunicações on-line, criam
suas próprias redes, socializam e fazem amigos. O sistema proporciona uma
constante tentação a ser social, fazer amizades, entreter-se com jogos, prestar
atenção. A principal questão é que todo o valor é criado pela interação dos
usuários, mas somente o host da plataforma se beneficia financeiramente — de
acordo com avaliações recentes, o Facebook vale fantásticos US$ 6,5 bilhões.
Enquanto no fetichismo de mercadoria tradicional as coisas escondem as

35 Combinação rara de dois minerais (columbita e tantalita), que pouco valiam até que fosse percebido seu uso
estratégico na produção de celulares, computadores, naves espaciais, entre outros.
VIGILANTE CANALHA!
NOVAS MANIFESTAÇÕES DA VIGILÂNCIA DE
DADOS NO INÍCIO DO SÉCULO VINTE E UM

119
PREEMPTIVE MEDIA (BEATRIZ DA COSTA, JAMIE SCHULTE E BROOKE SINGER)

Uma jovem vai a uma loja de bebidas para comprar uma garrafa de vinho. No
caixa, pedem para ela mostrar a carteira de motorista — o procedimento padrão
nos Estados Unidos para qualquer pessoa que pareça ter menos de trinta anos.
A jovem entrega a carteira para o balconista, mas o que acontece em seguida a
surpreende. Nesse dia, o procedimento não é o mesmo de sempre. Em vez de
118 olhar sua data de nascimento, o balconista passa a carteira de motorista por uma 119

pequena máquina embaixo da caixa registradora. A jovem faz uma checagem


rápida; será que ela entregou o cartão de crédito por engano? Quando recebe
a carteira de volta, a jovem a estuda cuidadosamente. Sim, com certeza, era a
carteira de motorista, mas pela primeira vez ela nota uma tarja magnética na parte
de trás, muito semelhante àquela do cartão de crédito.
Um monte de pensamentos corre por sua mente. Por que o balconista não
apenas olhou a carteira de motorista para conferir se ela era maior de idade? Que
informação a tarja contém, além de sua data de nascimento? Ela está apenas
sendo lida, ou o balconista também copiou a informação codificada? E se sua
informação foi salva, o que a loja vai fazer com ela, afinal?
Uma história muito parecida com essa inspirou as autoras deste ensaio a
examinar mais de perto as tecnologias de cartão para carteiras de motorista e a
família industrial a que elas pertencem: Identificação e Captura Automática de
Dados (AIDC, na sigla em inglês). O propósito de usar tecnologia de tarja
magnética — e tecnologias AIDC em geral — é identificar pessoas ou objetos por
meio de processos automatizados. Esse tipo de tecnologia está em ascensão,
sendo disseminado na maioria das tarefas rotineiras de nosso cotidiano. Como isso
aconteceu e qual a motivação por trás dessa tendência de implementar AIDC em
escala massiva?
Na história citada, por exemplo, o dono da loja de bebidas pode argumentar canalhice da vigilância, em cada faceta da vida contemporânea. Acreditamos que
que a leitura automática da tarja magnética torna o trabalho do balconista mais um acesso crítico e uma reação informada às tecnologias AIDC não devem ficar
fácil e, portanto, mais eficiente. O balconista não tem que se preocupar em manter restritos exclusivamente à comunidade de especialistas, pois o uso continuado de
outros clientes na fila enquanto rastreia a idade do cliente; uma máquina faz isso tecnologias AIDC tem potencial para transformar quase todos os aspectos de
com muito mais rapidez. A loja também pode alegar que uma tarja magnética é nosso cotidiano. No entanto, para permitir ao público uma oportunidade de
mais eficiente do que o rosto na carteira de motorista, pois torna mais fácil detectar debater seu desenvolvimento, uso e regulamentação, é necessário um pouco de
identidades falsas1. Tanto a eficiência quanto a prevenção de fraude, em última conhecimento sobre o assunto.
instância, economizam o dinheiro da empresa, já que uma loja de bebidas não
apenas quer atender os clientes o mais rápido possível como deseja evitar A INDÚSTRIA E AS TECNOLOGIAS AIDC: UM PANORAMA TÉCNICO
processos legais caros como resultado da venda de álcool para menores. Identificação Automática e Captura de Dados (AIDC) é uma família de tecnologias
Depois de uma breve investigação independente sobre o assunto, no entanto, para a identificação única de objetos físicos por meio de processos automáticos.
ficou claro para nós que a tecnologia é usada, em primeiro lugar, por motivos Essas tecnologias são projetadas para preencher a lacuna entre entidades
menos públicos. Uma vez que as tecnologias AIDC são propagandeadas como do mundo real e bancos de dados de computador que as descrevem. AIDC
verificadores de documento, é essa a história que as lojas contam para seus compreende um sistema de computadores com um conjunto de olhos que
clientes e o motivo pelo qual a tela da máquina mostra abertamente a idade da podem identificar objetos devidamente etiquetados. Algoritmos de computador
pessoa depois que uma identidade válida é verificada. Mas os benefícios ocultos — projetados para aumentar a eficiência podem, então, trabalhar com conhecimento
que ocorrem sem que vejamos — é a coleta, o cruzamento e a análise de dados. O direto e imediato do ambiente, em vez de processar informações estatísticas
presidente da Intellilink, fabricante de sistemas de verificação de documentos, coletadas prévia e manualmente.
120 afirma num artigo da indústria que “os revendedores [que usam nosso sistema] Aplicações da AIDC existem há tempos, e agora incluem checagem de vendas, 121

não estão apenas reclamando da lei por causa dos cartões, mas, ao mesmo tempo, inventário de estoque, gerenciamento de mercados, carteiras de motorista e
com sua conivência, também estão construindo bancos de dados de sistemas de entrada em prédios sem o uso de chave. A indústria AIDC lucra com a
informações”2. Essa base de dados, quase isenta de custo, que ordenadamente criação de sistemas de redução do esforço humano, necessário em tarefas de
coleta informação para construir uma base de clientes, pode ser entendida como reconhecimento de objetos. As tecnologias AIDC tiram os humanos do circuito e,
o benefício mais importante que a verificação por cartão traz para a empresa e, em portanto, diminuem os custos trabalhistas, aceleram o movimento de produtos e,
alguns casos, também para o governo dos Estados Unidos. em tese, reduzem o potencial de erro, fraude e sabotagem. Soma-se a isso o fato
Este ensaio explora usos correntes e propostos para as tecnologias AIDC, com de que, ao facilitar a coleta de dados, as tecnologias AIDC permitem o acúmulo de
foco principal nas práticas, já bastante difundidas nos Estados Unidos, de grandes volumes de informação.
escaneamento de carteira de motorista. Essa ação é um exemplo de nossas Por um lado, as tecnologias AIDC chamam atenção para um problema
maiores preocupações relacionadas às tecnologias AIDC: a natureza invisível ou tecnológico antigo: como os computadores podem identificar objetos no mundo
discreta da maioria delas; a falta de notificação e consentimento; as práticas de real? De 2005 para cá, as pesquisas em visão computacional ainda não chegaram
coleta de dados, predominantemente irregulares e difíceis de estimar, conduzidas perto de produzir sistemas capazes de reconhecer visualmente objetos em
pelos empresários norte-americanos; a interdependência de interesses de ambientes naturais, sem erro significativo. Mesmo que esses sistemas de visão
empresários e do governo; e o encorajamento ao que pode ser chamado de funcionem bem, um computador é incapaz de distinguir entre objetos diferentes,
mas com a mesma aparência. Para reduzir esse problema, as tecnologias AIDC
1 Esse pressuposto é incorreto. Ver “A indústria e as tecnologias AIDC: um panorama técnico”, neste artigo,
para uma abordagem mais elaborada.
focam técnicas que envolvem etiquetamento dos dados codificados, para que
2 WIEDERER, Dan. “Answering age-old questions: age verification systems help retailers stay on the right side sejam interpretados mais diretamente pelo computador. O exemplo mais antigo e
of the law”. In: Tobacco retailer, junho de 2002. www.cougarmtn.com/news/featureArticle/tobaccoRetailer_Jun02.
evidente de etiquetamento de objetos é o código de barra, impresso nos pacotes
asp. Hoje em dia o acesso à revista on-line passou a ser pago, dificultando a leitura do texto, acessível também a
partir da URL: http://www.accessmylibrary.com/coms2/summary_0286-2090150_ITM. de quase todos os produtos vendidos por grandes fornecedores nas modernas
economias industriais. Inovações mais recentes, como os cartões de fita magnética Desde os anos 1970, cartões de crédito com tarjas magnéticas tornaram-se
e os chamados cartões de visita inteligentes, são tipicamente usados para o método padrão de identificação automatizada. As tarjas magnéticas são
identificar os consumidores no lugar dos produtos. Estão, atualmente, em tecnologicamente semelhantes às fitas cassete, uma vez que seus dados são
desenvolvimento as etiquetas de identificação por radiofrequência (RFID, na sigla gravados numa superfície especial por meio da aplicação de um campo
em inglês), que se mostram promissoras como um método avançado de identificar, magnético, para leitura posterior por meio da passagem de um sensor magnético.
com esforço mínimo, tanto produtos quanto pessoas. No período em que as tarjas magnéticas foram introduzidas nos cartões de crédito,
Desde sua padronização nos anos 1970, o código de barra acelerou o fluxo de
produtos em configurações comerciais e industriais. Existem códigos de barra com As etiquetas de RFID
diversos tamanhos e codificações. As versões mais simples são capazes de são o padrão mais
recente de
representar apenas números curtos, enquanto as mais recentes podem codificar um armazenamento de
parágrafo curto de texto, em formato ASCII (sigla em inglês para American Standard informações de dados
para identificação
Code for Information Interchange — Código-Padrão Americano para o Intercâmbio automática
de Informações). Nos Estados Unidos, algo como um tubo de pasta de dentes é
codificado com um número UPC (código de identificação do produto, conhecido em
inglês como Universal Product Code). Em quase todo o resto do mundo, é usado o
sistema EAN (sistema europeu, conhecido em inglês como European Article
Number). Durante o pagamento por um item, o símbolo UPC indica apenas a marca
e o tipo do produto que foi escaneado, por meio do acesso à base de dados do
Imagem Retirada da Wikipedia
122 revendedor; o número fica armazenado em inventário e, em alguns casos, também o 123

histórico de compra do comumidor. Em ambientes de varejo, os sistemas de código os escâneres para fazer sua leitura eram suficientemente caros para desencorajar a
de barra são de implementação barata, porque a maioria dos produtos adquiridos já leitura de cartões com mídias magnéticas, feita de forma não autorizada ou
tem o símbolo UPC aplicado — mas os mesmos precisam ser escaneados imprópria. Agora, no entanto, as tarjas são usadas em diversas novas
cuidadosamente por um operador humano. Esquemas mais avançados de configurações, como carteiras de motorista, carteiras de estudante, crachás,
codificação, geralmente chamados de códigos de barra bidimensionais, consistem chaves e cartões de fidelidade de lojas, resultando em um grande mercado para os
em uma região quadrada preenchida com pequenos pixels pretos e brancos, que equipamentos de leitura e gravação de tarjas magnéticas. Esses dispositivos são
podem representar quantidade maior de informação. Códigos de barra relativamente baratos (custam cerca de US$ 500) e não requerem conhecimento
bidimensionais são usados em alguns cartões de identificação e pelo exército dos especializado para serem usados.
EUA, tendo sido adotados na China como padrão nacional para códigos de barra. Com isso, cria-se uma situação em que modificar a tarja magnética torna-se
A identificação única de pessoas e não de produtos, quando feita por mais fácil que alterar a informação impressa no cartão. Tanto os códigos de barra
máquinas, impõe uma série de desafios. Mesmo que essas tatuagens de código de quanto as fitas magnéticas são limitados pelo fato de que armazenam apenas uma
barra de fato existam, não são amplamente reconhecidas, e muitas pessoas vão pequena quantidade de informação. Como resultado, os códigos de barra e tarjas
contornar os sistemas de identificação quando tecnologicamente possível. No magnéticas geralmente armazenam pouco mais que um número de identidade
entanto, há casos de prisioneiros, animais e estudantes que foram marcados ligado a um registro de informações completas guardadas em outro lugar no
involuntariamente com adesivos, tornozeleiras, ou tiveram RFID subdérmico banco de dados. Outro resultado é o desenvolvimento dos sistemas de cartão
injetado em seus corpos. Para situações de identificação cotidiana, a solução tem inteligente AIDC para permitir o armazenamento de grandes quantidades de
sido normalmente fornecer às pessoas cartões de identificação que podem ser informação no próprio cartão. Cartões inteligentes são, de fato, pequenos
lidos por máquinas, pois são fáceis de esconder e, em algumas situações, difíceis computadores e não precisam apontar para uma entrada em um banco de dados
de serem modificados. remoto para revelar informação significativa. O risco de vazamento ainda existe,
mas técnicas de criptografia tornam a tarefa difícil, senão impossível. Cartões ser fisicamente menores e com custos de produção mais baixos que os de um
inteligentes são semelhantes na aparência aos cartões de fita magnética, mas são cartão de identificação, o que os torna adequados para muitos usos nos quais
diferenciados por um pequeno quadrado que contém contatos elétricos de ouro antes se empregavam códigos de barra. A distância de leitura das etiquetas RFID
que se conectam a um computador interno do cartão. depende do aplicativo e da tecnologia envolvidos, mas oscila de vários centímetros
Quando inserida na máquina de leitura, a memória interna do cartão pode ser a muitos metros.
lida e modificada. A comunicação bidirecional entre o computador interno do Os usos correntes incluem o pagamento automático de transporte público,
cartão e seu leitor permite interações sofisticadas, que possibilitam a ambos pedágio, gasolina e comida; rastreamento de peças em fábricas e galpões;
verificações mútuas para validar o dispositivo, autorizando-o a desempenhar uma identificação de rebanhos pecuários e de animais de estimação; e elaboração de
tarefa. Como resultado, um cartão inteligente permite armazenamento cartões de acesso e de identificação médica. A rede de varejo Walmart e o exército
razoavelmente seguro de moeda eletrônica, informações médicas e outras que seu dos EUA estão pressionando seus principais fornecedores para colocar etiquetas
projetista deseje controlar. RFID em seus produtos. À medida que se tornarem lugar-comum, os sistemas RFID
Como a tarja magnética ou o cartão inteligente não estão permanentemente identificarão, de maneira única, os itens em que estão afixados e, por extensão,
com seu portador, eles podem ser roubados ou trocados, levando a identificações poderão reconhecer a pessoa que o segura ou veste. A busca por formas menos
equivocadas. Para assegurar que o portador seja de fato seu usuário, várias trabalhosas e mais eficientes e convenientes de controle de estoques e vendas
técnicas de aferição foram utilizadas. Duas abordagens são solicitar, quando o criou o potencial para novas formas ocultas de vigilância individual de pessoas.
cartão é usado, uma assinatura (que deve ser igual à do cartão), e colocar no cartão
uma foto da pessoa (que deve guardar semelhança com seu usuário). Nenhum dos AIDC E A CARTEIRA DE MOTORISTA DOS EUA
métodos permite grande segurança, e o procedimento de aferição em ambos os Uma carteira de motorista é geralmente a forma de identificação mais solicitada
124 casos deve ser desempenhado por uma pessoa. Para resolver esse problema, tem nos Estados Unidos, o que a torna alvo primário da integração com tecnologias 125

sido inserida informação biométrica nos dados eletrônicos do cartão. No contexto AIDC. O documento, emitido pelos Departamentos de Veículos Motorizados (DMV,
da segurança das tecnologias AIDC, a biometria concentra-se na análise na sigla em inglês) para atestar que a pessoa pode dirigir um carro, tornou-se o
computacional das características dos indivíduos identificados. Para compatibilizar meio pelo qual os indivíduos têm acesso garantido a uma variedade de atividades
os dados do cartão com os de seu proprietário de forma segura e automática, as não relacionadas entre si, como preencher um cheque, comprar uma bebida ou
medidas preferidas são os padrões quase únicos das impressões digitais e dos embarcar em um avião. Revendedores, agências governamentais, companhias
vasos sanguíneos da íris. Outras técnicas menos comuns são a análise de voz e o de aviação comercial e outras que dependem da carteira de motorista para
reconhecimento facial. identificação pessoal procuram tecnologias AIDC — como a tarja magnética, o
Qualquer que seja o método adotado, algumas características quase únicas do código de barra e o cartão inteligente — para automatizar e validar esse processo.
portador são armazenadas na memória do cartão. A pessoa que tentar usá-lo Com o acréscimo de tecnologias AIDC, a carteira de motorista não se restringe à
posteriormente está sujeita à análise para determinar se suas características são ou identificação simples e confiável; também permite que revendedores, agências e
não semelhantes àquelas contidas no cartão. AIDC tem por meta reduzir o esforço empresas comerciais coletem quantidades massivas de dados sobre uma pessoa,
humano envolvido na identificação de objetos e pessoas, mas todas as tecnologias informação que se acumula cada vez que o cartão é usado.
descritas até agora precisam de formas de escaneamento explícito, que Companhias e agências governamentais que têm intenção de colher dados a
demandam trabalho. As etiquetas RFID são uma extensão do conceito de cartões partir de carteiras de motorista encontram dificuldades, no entanto, pela
inteligentes, na medida em que podem gravar e ler informações com segurança inexistência de padrões industriais vigentes. Como as licenças não são
em etiquetas eletrônicas. A maior inovação do RFID é usar a comunicação sem fio regulamentadas federalmente, cada estado determina seus padrões e monitora as
para eliminar a necessidade de o leitor tocar fisicamente o cartão. De fato, o licenças que emite. Assim, uma carteira de motorista do Maine não se parece com
escaneamento pode ser feito sem nenhum operador humano, já que a etiqueta uma de Utah, e frequentemente os documentos de um mesmo estado variam
precisa apenas passar próximo do leitor. As etiquetas ou transponders RFID podem bastante, por conta de mudanças ocorridas ao longo dos anos. Atualmente, 46 dos
50 estados usam algum tipo de tarja magnética ou tecnologia de código de barra Republicano da Virgínia) introduziram o H.R. 4633, ou Ato de Modernização da
(ou uma combinação de ambas), e os demais consideram ativamente ou já fazem Carteira de Motorista, de 20025, que reflete as recomendações da AAMVA e
planos para implementação3. Não apenas as tecnologias básicas das carteiras estabelece padrões nacionais para a emissão do documento. Esses padrões
variam de um estado para outro, mas também os métodos de codificação da incluem dados biométricos e um banco de dados centralizado de informações
informação,o que inviabilizava a leitura universal. Para tornar as coisas ainda mais provenientes das licenças de motorista. Os adeptos dessa legislação afirmam de
confusas, a quantidade e o tipo de informação codificada também são irregulares: maneira veemente que o objetivo primário é, evidentemente, a identificação
em alguns estados, a informação eletrônica na tarja magnética ou no código de segura, mas já há funções secundárias sendo propostas, como o uso do cartão
barra apenas espelha a informação impressa na frente do cartão, enquanto em inteligente na carteira de motorista para administrar vales-refeição e títulos de
outros casos dados adicionais, como o número do Seguro Social, impressões eleitor6. Essa legislação estabeleceria a carteira de motorista como um aparato
digitais e modelos de reconhecimento facial, ampliam a informação-padrão. para autenticação total e automática, análise e controle. Se o H.R. 4633 tornar-se
A Associação Americana dos Administradores de Veículos Motorizados lei, passar a carteira de motorista em dispositivos de tarja magnética não será mais
(AAMVA, na sigla em inglês), uma organização lobista das administrações uma ocorrência incomum, mas uma consequência esperada de se fazer parte da
estaduais de veículos, tem pressionado por mudanças nessa situação, a qual sociedade nos Estados Unidos.
considera uma ameaça à segurança nacional e um inconveniente para a América
corporativa4. No clima pós-11 de Setembro, o chamado da AAMVA por um padrão QUEM FAZ VARREDURA DE CARTEIRAS DE MOTORISTA HOJE?
universal está finalmente progredindo e ganhando apoio verbal de líderes da Assim como a iniciativa privada, oficiais do governo já estão usando
indústria, como Larry Ellison, da Oracle, e de importantes oficiais do governo, equipamentos computadorizados para ler informações da tarja magnética ou
como Tom Ridge, ex-diretor do Departamento de Segurança Interna dos Estados código de barra da carteira de motorista, sendo a polícia uma das primeiras a
126 Unidos. Qualquer proposta que remeta, ainda que de modo remoto, a um plano adotar o procedimento. Quando parado por excesso de velocidade, por exemplo, 127

para uma carteira de identidade nacional tem sido rotineiramente descartada nos um motorista deve mostrar sua habilitação. Antigamente, o oficial de polícia
Estados Unidos, dando início a críticas intensas de ambos os partidos políticos. Na deveria ligar para os quartéis em busca de informação. Hoje, é mais provável
atual crise da “guerra permanente”, entretanto, políticas tradicionalmente que leve a carteira até a viatura, execute uma varredura por meio de um escâner
impopulares são capazes de ganhar adesão pela promessa de um novo sentimento inserido no painel e cruze informações usando vários bancos de dados, como
de segurança. Outro exemplo de reconstrução política que ganhou espaço através o Centro Nacional de Informação sobre Crimes (NCIC, na sigla em inglês) e o
da retórica de segurança do 11 de Setembro é a recente Lei da Reforma da Sistema Nacional de Telecomunicação para Reforço da Lei (NLETS, na sigla em
Inteligência. Ela permite o compartilhamento de dados e contato crescente entre inglês). Instantaneamente, o oficial descobrirá, por exemplo, se o motorista tem
as agências de inteligência e de reforço da lei, algo estritamente proibido desde os um registro anterior de desrespeito às leis de trânsito ou ficha criminal.
anos 1970, quando os programas de contrainteligência do FBI e técnicas O Coplink, sistema de banco de dados que permite aos policiais norte-americanos
exageradas de vigilância tornaram-se públicos. acessar e trocar informações, foi especificamente projetado para facilitar esse
Em maio de 2002, o plano da AAMVA obteve seu maior impulso: os procedimento.
representantes James Moran (Partido Democrata da Virgínia) e Tom Davis (Partido Lojas de bebidas e cigarros, casas noturnas e bares foram os primeiros
estabelecimentos comerciais a perceber os benefícios desse tipo de sistema. Esses
3 Para uma tabela de referência lançada pela Associação Americana dos Administradores de Veículos (AAMVA),
ver “Current and planned technologies for U.S. Jurisdictions”, no site da AAMVA, em www.aamva.org/standards/
locais, obrigados por lei a verificar a idade de seus clientes, voltaram-se para
stdUSLicenseTech.asp. O endereço citado no texto original refere-se à tabela publicada na ocasião de sua escrita. equipamentos de varredura a fim de automatizar um procedimento necessário.
Uma versão atualizada pode ser encontrada em http://www.aamva.org/KnowledgeCenter/Standards/IDSecuri-
tyTechnologies/uslicensetechnology.htm. De acordo com essa tabela, o número de estados que utilizam algum tipo
de tarja magnética ou tecnologia de código de barra aumentou dos 46 citados no artigo, para atuais 49 dos 50 5 Mais informações sobre o Ato de Modernização da Carteira de Motorista podem ser encontradas em
estados. http://thomas.loc.gov/cgi-bin/query/z?c107:H.R.4633:.
4 AAMVA. “AAMVA Helps Secure a Safer America”, 14 de janeiro de 2002. www.aamva.org/About/PressRoom/ 6 WELSH, William. “Driver’s license bills: reduce speed ahead”. Washington Technology, 18 de setembro
PressReleases/AAMVAHelpsSecureSaferAmerican_01142002.htm. de 2002. http://washingtontechnology.com/articles/2002/09/18/drivers-license-bills-reduce-speed-ahead.aspx.
Conforme vimos, no entanto, a motivação real para a compra e manutenção de mergulho. Quanto mais essa informação estiver detalhada, organizada e
sistemas desse tipo pode não ser apenas a eficiência ou o cumprimento da lei de digitalizada, mais fácil será para os agentes as solicitarem, receberem e utilizarem.
maneira mais efetiva, mas, pelo contrário, a construção de bases de dados Semanas depois do 11 de Setembro, um supermercado entregou
detalhadas e valiosas sobre consumidores, sem o menor custo. Com exceção de voluntariamente seu banco de dados de clientes, com histórico completo de
dois estados (New Hampshire e Texas), nos Estados Unidos não há restrições compras, para investigadores federais. Essa ação não aconteceu em resposta a
contra o armazenamento de informação, desde que ela tenha sido obtida de uma um pedido, segundo afirmou um porta-voz da loja — parece ter sido algum tipo
licença de motorista. Assim, as companhias que fornecem o hardware tornam a de gesto patriótico9.
coleta de dados o mais fácil possível a seus clientes, agregando a seus produtos Além disso, o uso de tecnologias AIDC tornou-se tão disseminado que oficiais
programas de bancos de dados sobre consumidores. do governo não apenas as estão utilizando para solicitar informações que
Os programas embutidos nos escâneres de licença explicitam o que as solucionem crimes cometidos, mas também para estabelecer bancos de dados
empresas podem fazer com as informações uma vez que elas sejam colhidas. para transações comerciais em caso de comportamento criminoso futuro. Um
Tipicamente, são softwares que permitem às empresas atingir vários objetivos exemplo ocorre na Pensilvânia. Quando uma identidade é escaneada em uma loja
diferentes: podem arquivar em bases de dados informações de consumidores e pública de bebidas do estado, a compra e a informação de identificação são
históricos de transações; examinar informações baseadas em palavras-chave; adicionadas ao banco de dados eletrônico da Câmara de Controle de Bebidas da
analisar transações de consumidores a partir de dados demográficos ou Pensilvânia (PLCB, na sigla em inglês), em Harrisburg10. A base de dados da PLCB é
estatísticos; exportar informações para uso em outros aplicativos; imprimir cartas, preemptiva: foi estabelecida para ajudar a polícia em casos criminais ainda por
etiquetas e relatórios; e programar alertas para indivíduos específicos, de forma serem cometidos. De forma a subvencionar esse conforto à polícia, no entanto,
que uma mensagem seja exibida em tempo real quando suas identidades forem cada morador da Pensilvânia tem seu histórico de compra de bebidas alcoólicas
128 detectadas7. Qualquer empresa pode encontrar usos valiosos para esse tipo de monitorado e registrado. Por esse motivo, não é possível comprar garrafas de 129

programa, ainda que os benefícios mais óbvios sejam atender a objetivos de vinho ou bebidas alcoólicas em qualquer outro lugar que não seja uma loja
marketing. Uma base de dados também é importante por outros motivos, como controlada pelo estado. Não há opções para contornar essa vigilância, exceto se a
analisar um grupo de consumidores para planejamento estratégico ou fornecer pessoa comprar bebida fora do estado. Escâneres de documentos têm sido usados
dados para investidores de forma a justificar projetos futuros. nas lojas de bebida da Pensilvânia desde 1997 e atualmente estão instalados em
Houve apenas algumas poucas instâncias em que os estados impediram a todos os 638 estabelecimentos existentes, geridos pelo governo.
varredura de carteiras de motorista por meio de mecanismos legais, e, de modo Aeroportos, hospitais e prédios do governo são os locais que mais recentemente
geral, isso aconteceu em resposta a protestos de cidadãos, sustentando que a adotaram escâneres de carteira de motorista, conforme notícia do New York Times
prática violava o Ato de Proteção de Privacidade do Motorista8. Existem, contudo, publicada em 2002. “O aeroporto Logan, em Boston, está usando máquinas [de
razões convincentes pelas quais o governo permitiria a continuidade de tais escanear carteiras de motorista] para checar a identidade dos passageiros. O
práticas, fazendo vista grossa. A aplicação da lei, por exemplo, do âmbito local ao Hospital da Universidade de Nova York faz a varredura e armazena informações de
federal, gera grandes benefícios a empresas que coletam dados de transações, carteira de motorista. O estado de Delaware instalou máquinas para visualizar os
pois eles podem ser usados em investigações e intimações futuras. Mais visitantes da assembleia estadual e seus principais prédios oficiais”11. Com a maioria
recentemente, na chamada guerra contra o terror, agentes federais solicitaram dos DMVs emitindo informação codificada nas carteiras de motorista, e o custo do
históricos de transações de livrarias e lojas que vendem equipamentos de equipamento de varredura tão baixo que mesmo um novato em computadores

9 BAARD, Erik. “Buying trouble: your grocery list could spark a terror probe”, Village Voice, 23 de julho de 2002.
7 O manual on-line da TriCom, “Visitor manager software”, produto vendido com o ID-E, leitor portátil da www.villagevoice.com/news/0230,baard,36760,1.html.
carteira de motorista, descreve essas capacidades. TriCom Card Technologies, “Visitor management software 10 BERRY, William. “Cops use ID info in criminal cases”, The Digital Collegian, 9 de abril de 2003. www.collegian.
introduction”. www.tricomcard.com/manuals. psu.edu/archive/2003/04/04-09-03tdc/04-09-03dnews-08.asp.
8 DANDURANT, Karen. “License scanning now illegal”, Seacoast Online, 3 de maio de 2002. www.seacoastonli- 11 LEE, Jennifer. “Welcome to the database lounge”, The New York Times, 21 de março de 2002. www.nytimes.
ne.com/2002news/exeter/05032002/news/2731.htm. com/2002/03/21/technology/welcome-to-the-database-lounge.html.
poderia gerenciá-lo, muitas empresas e agências do governo estão adotando ou encontrados erros, os indivíduos se deparam com a tarefa quase impossível de
considerando usar cartões e coletar informações pessoais. rastrear sua origem e retificar o problema em vários bancos de dados. Quantidades
substanciais de tempo, dinheiro e conhecimento são necessárias para completar
VARREDURA DE CARTEIRA DE MOTORISTA E DADOS DIGITAIS: essa tarefa tediosa.
INFORMAÇÕES OCULTAS E ERROS DE BANCOS DE DADOS Armazéns de dados, isto é, empresas que consolidam informações de várias
A varredura de documentos costuma ocorrer fora do campo de visão do portador fontes e as revendem a terceiros, correm o risco de perpetuar informação falsa.
do cartão. Oficiais de polícia levam carteiras de motoristas para checagem Supõe-se que essas companhias deveriam prestar atenção considerável na
dentro de suas viaturas, e escâneres de cartão frequentemente são colocados verificação de todos os dados que distribuem, mas infelizmente este nem sempre
embaixo do balcão de lojas de conveniência e bebidas, sendo, portanto, invisíveis é o caso. ChoicePoint, um armazém de dados bastante conhecido nos Estados
aos olhos do consumidor. Mesmo que um cliente veja o escâner de cartão em uso, Unidos, tem consciência de suas próprias lacunas de informação e não se
isso não necessariamente torna o processo transparente: não só o consumidor responsabiliza pela precisão de seus dados13. Isso parece particularmente
pode não se dar conta do que está acontecendo, como geralmente não sabe perturbador, já que o ChoicePoint é o fornecedor comercial líder do governo
que informação está armazenada no cartão, nem o que será feito com os dados federal dos Estados Unidos. Possui contas multimilionárias com 35 diferentes
coletados. Se um cliente questiona o estabelecimento sobre o que será feito com agências, incluindo FBI, IRS (a Receita Federal americana) e o Departamento de
essa informação, normalmente os balconistas apenas dão de ombros, pois não são Justiça. Em 2002, o ChoicePoint foi finalmente processado por uma corte de Nova
treinados para entender de que forma a base de dados da loja opera. Os clientes York em função de suas práticas precárias de verificação, tendo sido condenado a
estão, assim, impotentes diante da inserção de suas informações pessoais em um pagar US$ 450 mil à parte pleiteante.
sistema de computador cujos objetivos e funções permanecem nebulosos para ele Por uma taxa de US$ 20, o ChoicePoint oferece aos indivíduos a oportunidade
130 — a situação não permite uma troca útil de informações; não há possibilidade de de revisar as informações mantidas a seu respeito no banco de dados da empresa. 131

evitá -la nem de verificar se a informação está correta. O especialista em privacidade David Smith fez exatamente isso e descobriu que
Erros humanos que resultam em entradas falsas não são incomuns. No caso do havia mais informações erradas do que corretas sobre ele; em seguida, soube que
registro da carteira de motorista, o arquivo de uma pessoa começa após um essas informações não poderiam ser excluídas do conjunto de dados pessoais do
funcionário do DMV inserir informações manualmente em um formulário, as quais ChoicePoint14. O ChoicePoint sugere que, se alguém encontrar informações
acabam codificadas na licença de motorista. Falhas, evidentemente, acontecem; é imprecisas em seus arquivos, deve contatar quem gerou os dados para corrigir o
humano. Em nossa experiência fazendo varredura de carteiras de motorista, vimos problema, direcionando a pessoa a um labirinto de escritórios públicos, empresas
cartões em que a informação estava correta na face da carteira, enquanto os dados comerciais e agências de crédito fornecedoras de dados.
codificados digitalmente eram diferentes e falsos. Mesmo assim, uma vez que a
entrada é feita e enviada a outros bancos de dados, a informação falsa adquire A RETÓRICA DA CONVENIÊNCIA VERSUS PRIVACIDADE
legitimidade pelo simples fato de ser replicada. Às vezes, erros em bases de dados Mais de cinquenta anos depois da publicação de 1984, de George Orwell, a
não resultam de erros de digitação, mas de confusão entre identidades. Se o nome metáfora do Big Brother ainda predomina na cultura popular para descrever
de duas pessoas é semelhante ou se elas possuem números de Seguro Social quase sociedades de vigilância. Hoje em dia, ao menos nos Estados Unidos, essa
idênticos, suas informações podem ser facilmente trocadas. Estudo sobre relatórios metáfora é menos útil e mesmo enganadora na descrição da sociedade
de crédito feito pelo Grupo de Pesquisa dos Interesses Públicos nos EUA (U.S. PIRG, contemporânea de vigilância. Conforme afirma David Lyon, “a visão antiutópica
na sigla em inglês), por exemplo, descobriu que 70% desses relatórios continham
erros e 29% resultavam de relatos sobre contas de outro consumidor12. Quando são 13 As FAQs sobre privacidade do ChoicePoint podem ser encontradas em www.autotrackxp.com/privacy_faqs.
htm#correct. Também é possível acessar o conteúdo sobre política de privacidade do site em http://www.
choicepoint.com/privacy.html.
12 GOLINGER, Jon e MIERZWINSKI, Edmund. “Mistakes do happen: credit report errors mean consumers lose”. 14 Electronic Privacy Information Center (EPIC). “Epic Digest at Privacy.org”. 8 a 15 de maio de 2001. www.
Março de 1998. http://static.uspirg.org/reports/mistakesdohappen3_98.pdf. privacy.org/digest/epic-digest05.15.01.html. Privacy.org é um projeto conjunto do EPIC e da Privacy International.
de Orwell era dominada pelo Estado centralizador. Ele nunca supôs como o Pode funcionar, por exemplo, da
consumismo descentralizado se tornaria significativo para o controle social”15. mesma forma que os cartões de
Os exemplos que esboçamos até agora — como acontece com a maioria das telefone descartáveis, disponíveis
tecnologias AIDC — não são uma questão de coerção do Estado, mas sim de na maioria das lojas de
situações consensuais das quais o indivíduo deseja participar (em grande parte das conveniência. Esse cartão seria
vezes, através do consumo) e, como resultado, submete-se a algum tipo de sistema comprado por um certo valor, que
de vigilância controlado comercialmente. Essa condição costuma ser descrita pela diminuiria conforme o uso, até
oposição entre conveniência e privacidade. As pessoas são levadas a acreditar que, zerar, tornando-se inválido. Os
quando usam as inovações tecnológicas mais recentes (telefones celulares, etiquetas departamentos de transporte
E-ZPass, cartões de fidelidade de supermercados), os benefícios inevitavelmente são público ainda se beneficiariam
acompanhados de possibilidades de vigilância desagradáveis, e que os luxos desse sistema de débito automático
modernos impõem certas condições. Os luxos modernos, claro, rapidamente se E-Z Pass: monitoramento de veículos permite vantagens
(da mesma forma que fazem hoje
transformam em necessidades e, com a proliferação de tecnologias AIDC, mesmo como pedágio de passagem livre, mas, em contra- com as informações do E-ZPass),
prazeres básicos — como comprar uma garrafa de vinho — colocam a pessoa diante -partida, coloca os motoristas sob vigilância intermitnte usando informações anônimas para
do dilema da conveniência ou da privacidade. conduzir pesquisas de padrão de
O E-ZPass (nome do sistema de pedágio automático dos EUA) é uma dessas trânsito voltadas a melhorias futuras
facilidades modernas que, para muitas pessoas que vivem na região nordeste dos das estradas. No entanto, o sistema de E-ZPass descartável não permitiria o
Estados Unidos, levantam a questão da conveniência versus privacidade. O E-ZPass policiamento e controle, através de etiquetas RFID exclusivas, às companhias
132 é um dispositivo opcional que deve ser fixado no para-brisa do carro; ao passar donas do sistema. Os sistemas descartáveis poderiam, assim, eliminar o dilema da 133

pela cabine de pedágio em autoestradas, lança automaticamente um débito em conveniência versus privacidade ao possibilitar a conveniência sem aumentar o
uma conta eletrônica — a conveniência é o menor tempo de espera no pedágio. controle corporativo.
Esse sistema particular de coleta (que não é exclusivo dos Estados Unidos) consiste
de uma etiqueta RFID, que transmite a identidade única do carro a um receptor, DEPENDÊNCIA ENTRE GOVERNO E CORPORAÇÕES
instalado no posto de pedágio. A informação é transferida para um banco de dados O cenário do E-ZPass não só ilustra a forma como as corporações estão se
de clientes, que debita a tarifa da conta do consumidor. Junto com o balanço das tornando cada vez mais forças de policiamento, como demonstra de que maneira
transações, também registra local, hora e valor. Outros fatores como velocidade empresas privadas (E-ZPass) compartilham dados com o governo (departamento
média podem ser interpolados usando dois pontos de entrada na base de dados. de transporte público) por uma causa comum (melhorar os problemas de
Essa valiosa informação tem sido usada não apenas para débito em conta, mas congestionamento pela integração do E-ZPass ao sistema de autoestradas). Esse
também para fins policiais, como a emissão de multas por excesso de velocidade compartilhamento de informação entre os setores público e privado para benefício
e o aumento no valor do seguro16. das duas partes não é incomum ou restrito às tecnologias AIDC. Outro exemplo
Não há, certamente, razão alguma para que o E-ZPass limite-se ao motorista. recente envolveu a entrega dos registros de consumidores da empresa aérea
JetBlue para a Administração de Segurança do Transporte (TSA, na sigla em inglês).
15 LYON, David. The electronic eye: the rise of surveillance society. Minneapolis: University of Minnesota Press,
1994, p. 78.
A JetBlue liberou os dados de seus clientes conforme solicitado, sem notificar ou
16 O amigo de um dos autores mudou-se do norte do estado de Nova York para a cidade de Nova York e não receber consentimento das pessoas envolvidas, algo que claramente viola sua
notificou de imediato sua companhia de seguro sobre a mudança. Posteriormente, ele comprou um E-ZPass para
seu trajeto de trabalho — um deslocamento que passou a fazer diariamente. Semanas após a mudança, sua
própria política de privacidade. A TSA queria a informação para um experimento de
companhia de seguro lhe enviou um aviso informando que sua taxa de seguro havia mais que duplicado com base exploração de dados cujo objetivo era reduzir o risco de encontrar terroristas entre
em sua nova residência. Quando ligou para a seguradora para discutir uma tarifa justa, ele perguntou como eles
sabiam da mudança. O operador disse que eles se basearam em informações colhidas rotineiramente nos E-ZPass.
Para as FAQs sobre o E-ZPass, ver http://www.ezpass.com/static/faq/index.shtml.
os passageiros17. Esse tipo de tática deixa os consumidores com a desconfortável O uso de características como idade, gênero ou renda para pesquisa de mercado é
sensação de que os dados originalmente colhidos por um motivo podem chamado demografia. Com o aumento da capacidade de armazenamento de dados
facilmente ser usados para outros, sem seu o conhecimento. e a facilidade de acesso à informação pública pela internet, a análise demográfica se
Há outros casos, como vimos com o ChoicePoint, em que o objetivo todo de um tornou massivamente acelerada. Esse tipo de uso comercial da informação pública
negócio é abastecer o governo com informações. Aqui, o fator motivador não é uma mina seu objetivo original — dados divulgados para tornar as burocracias do
parceria público-privada comum — gira quase exclusivamente em torno do lucro. governo mais visíveis e, portanto, justificáveis a seus cidadãos, em vez disso, estão
O governo, por exemplo, não costuma buscar armazéns comerciais porque eles têm sendo usados pelo mercado para estudar os consumidores, como forma de buscar
acesso a informações especiais; os dados do ChoicePoint são extraídos de registros lucros corporativos.
públicos e combinados a informações fornecidas pela mídia, por empresas de
análise de crédito e, em alguns casos, por detetives particulares. Com frequência, CONSEQUÊNCIAS DA AIDC
agências estatais recorrem a companhias privadas e fontes externas de coleta de À luz das novas tecnologias, incluindo a AIDC, há uma necessidade urgente
dados para contornar o Ato de Privacidade de 1974. Essa lei restringe a coleta, o uso de reconsiderar mais amplamente as práticas de coleta e uso de dados nos
e a disseminação de informações pessoais por e entre agências do governo, mas não Estados Unidos. A situação desses dados já é árida (como nossos exemplos
coloca limites ao setor privado. Mesmo depois que o Ato Patriótico dos EUA foi sugerem) e corre-se o risco de que se torne exponencialmente pior. AIDC não
aprovado, em 2001, legalizando o aprimoramento da coleta e análise de informações cria uma situação ruim, mas agrava uma que permanece sem controle suficiente
governamentais para checagens e balanços, o Estado continuou se apoiando no (tecnológico ou governamental) e sem entendimento público satisfatório para
setor privado para desenvolver com agilidade atividades de “observação”18. permitir uma implementação justa.
Talvez o uso mais questionável de dados comerciais por setores do governo em Uma discussão profunda das implicações sociais das tecnologias AIDC
134 anos recentes seja o ocorrido em 1998, quando o legislativo do estado da Flórida encontra-se fora do escopo deste ensaio, mas gostaríamos de listar alguns 135

tomou a decisão sem precedentes de varrer cidadãos sem condições de votar — na exemplos, especificamente levando em conta o papel das tecnologias AIDC na
maioria ex-presos — da lista de registro de eleitores do estado, com base em intensificação do desenvolvimento de perfis de consumidores e na criação do
informações compradas de firmas comerciais. O legislativo alega que foi uma medo e da sensação permanente de culpa. O desenvolvimento de perfis de
resposta necessária a uma corrida por maioria em Miami, em que numerosos votos consumidores é o registro e a classificação de comportamentos a partir do
ilegais foram computados. Mas o contrato de US$ 4 milhões foi firmado com o agrupamento de dados. Essa prática está relacionada à demografia, mas tem por
ChoicePoint, e estima-se que milhares de eleitores — desproporcionalmente alvo um indivíduo baseado em dados não anônimos, às vezes embutidos em
negros — tenham tido seu direito de voto cassado na eleição presidencial, como informações mais gerais, como o censo. Cartões de fidelidade usados em lojas de
resultado de informação falha, não verificada19. conveniência, por exemplo, permitem colher dados sobre compras individuais,
Sem dúvida, os dados fluem também na outra direção: do corpo governamental que são analisados e, em última instância, usados para marketing direto. O
para os bancos de dados corporativos. A iniciativa privada passou a usar dados do desenvolvimento de perfis de consumidor refina as estratégias de marketing e
censo e de outros registros públicos, disponibilizados gratuitamente pelo governo dos aumenta o lucro das lojas; as consequências são, rotineiramente, anúncios
EUA, para tomar decisões sobre futuros locais de lojas ou sobre preços de produtos. publicitários ou cupons de desconto individualizados, recebidos na hora de pagar
as contas em uma mercearia. Esse tipo de anúncio ou cupom pode ser bem
17 “Betraying one’s passengers.” The New York Times. 23 de setembro de 2003. www.nytimes.com/2003/09/23/
sucedido em alguns casos e em outros não, mas o aspecto importante não é a
opinion/23TUE2.html. oferta adicional feita a grupos específicos de pessoas, e sim o limite de escolhas
18 Electronic Frontier Foundation. “The EFF analysis of the provisions of the USA Patriot Act that relate to online
activities”. 27 de outubro de 2003. www.eff.org/Privacy/Surveillance/Terrorism/20011031_eff_usa_patriot_analy-
disponíveis para quem está fora do grupo alvo. O limite por faixas de renda e outros
sis.php. grupos determinados pelas lojas são criados e reforçados, acentuando-se com o
19 Gregory Palast é um jornalista que investiga extensivamente esse incidente. Ver seu artigo “Florida’s Flawed
tempo. Ainda que esse fenômeno não seja novo e ocorra sem a existência de AIDC,
‘Voter-Cleansing’ Program”. Salon, 4 de dezembro de 2000. http://archive.salon.com/politics/
feature/2000/12/04/voter_file/print.html. os cartões de fidelidade aceleram o processo e o individualizam.
Muitas pessoas pensam que esses cartões de lojas produzem grandes próprios dados: deslocadas, inseguras e impotentes. Os que trabalham dentro da
descontos, e resistências à adesão resultam em observações do tipo “Você tem burocracia geralmente estão inseguros também, o que leva a erros danosos e à
algo a esconder?”20. A maioria de nós não acha que tem coisas a esconder, mas já possibilidade de que a informação possa acabar em mãos erradas. Se as tecnologias
não é possível saber. Basta lembrar o caso do homem que, ao fazer compras em AIDC são usadas para seguros de saúde (como no Canadá e como foi proposto nos
uma loja de conveniência Vons, escorregou e caiu em uma poça de iogurte21. EUA), não há sistemas confiáveis para lidar com esse fluxo de informações delicadas.
Quando tentou processar o estabelecimento para compensar seu prejuízo, dor e Nos EUA, as informações médicas das pessoas são, de fato, desprotegidas na
sofrimento, a Vons ameaçou usar informações de seu cartão de fidelidade contra medida em que existem negócios como o Serviço de Marketing Médico, cujo único
ele no tribunal. A loja alegou que o consumidor comprou uma quantidade absurda objetivo é vender listas com o nome de pessoas que sofrem de diversos tipos de
de álcool. Mais tarde ficou claro que o álcool não foi responsável pelo acidente, e a doenças. Empregar qualquer tecnologia para facilitar a distribuição de informação
ameaça feita pela Vons foi finalmente retirada. A mensagem implícita, entretanto, é médica sensível nos Estados Unidos seria imprudente, pelo menos até que mais
clara: seus dados podem ser usados seletivamente para desenhar uma certa garantias sejam construídas nos sistemas judicial e de saúde23.
biografia informacional (ou endossar um ponto de vista particular), e o uso dos As tecnologias AIDC facilitam não apenas a coleta de informações pessoais,
dados de uma pessoa para intimidá-la — mesmo quando a informação é para análise e uso imediatos, mas também o arquivamento de informação como
razoavelmente inócua — sempre permanece como uma possibilidade. forma de monitorar a pessoa em caso de futuros desvios. Esse aspecto das
É evidente que, em muitas ocasiões, os dados não são inócuos, mas de fato tecnologias AIDC pode ser chamado de “culpado até que se prove inocente”. Isso é
delicados. Foi o que ocorreu no caso Doe contra a Autoridade de Transporte do certamente verdadeiro no caso da Câmara de Controle de Bebidas da Pensilvânia,
Sudoeste da Pensilvânia (SEPTA, na sigla em inglês), em que um médico garantiu que registra cada venda individual de bebida alcóolica efetivada no estado em um
ao paciente (Doe) que sua companhia de seguro (SEPTA) não lhe questionaria banco de dados separado, como forma de antecipar futuros crimes resultantes do
136 sobre os remédios que ele estava tomando, prescritos para tratar HIV. Apesar de a consumo excessivo de álcool. Um dos autores deste artigo foi encorajado a 137

SEPTA não ter perguntado sobre o assunto, ainda assim a companhia farmacêutica participar de um programa do tipo “culpado até que se prove inocente” quando
Rite-Aid a proveu de uma lista de remédios que ele usava. O médico avisou o trabalhava para um museu. Após vários roubos, o museu propôs registrar a
paciente sobre isso, e Doe teve medo de que seu empregador (que pagava pelo impressão digital de cada membro da equipe, dizendo aos empregados que isso
seguro) já estivesse consciente do fato. Doe abriu um processo, mas a corte automaticamente os livraria de implicações em problemas futuros. Em essência, o
decidiu que a invasão de sua privacidade era mínima. Como Daniel Solove museu estava dizendo a sua equipe que não confiava em ninguém e que somente
comenta, “[a corte] ignorou a natureza da reclamação de Doe. Desconsiderando o suas impressões digitais poderiam inocentá-los de crimes futuros. As tecnologias
que ele imaginava sobre a forma como seus parceiros de trabalho o tratavam, ele AIDC não foram implementadas, mas a atitude da administração do museu
estava de fato sofrendo de um medo real e palpável. Sua verdadeira ferida era a resultou de uma razão comum, pois as companhias voltam-se para tecnologias do
impotência por não ter ideia de quem mais sabia que ele era portador de HIV, o gênero e decidem usá-las. Trata-se de uma nova condição da vida nos EUA: as
que seu empregador pensava dele ou como a informação poderia ser usada contra pessoas são mantidas como suspeitas até que possam oferecer dados para provar
ele. Esse sentimento de desconforto mudou a forma como ele percebia tudo em sua inocência.
seu lugar de trabalho”22. Um lugar onde os habitantes dos Estados Unidos se acostumaram a ser
Essa situação enfatiza a maneira como as pessoas se relacionam com seus tratados como suspeitos até que mostrem sua identidade, respondam a algumas
perguntas e sejam interrogados é o aeroporto. Depois do 11 de Setembro, a
20 O argumento de que esses cartões proporcionam economia foi provado falso. Ver artigo de Katy McLaughlin, segurança dos aeroportos norte-americanos foi revista e intensificada. Algumas
“The discount grocery cards that don’t save you money”. The Wall Street Journal, 21 de janeiro de 2003. http://
online.wsj.com/article/SB1043006872628231744.html.
mudanças fazem sentido. A proibição de pessoas embarcarem portando pequenas
21 VOGEL, Jennifer. “Getting to know all about you”, Salon, 14 de outubro de 1998. http://archive.salon.
com/21st/feature/1998/10/14featureb.html.
22 SOLOVE, Daniel J. “Privacy and power: computer databases and metaphors for information privacy”, Stanford 23 Para saber mais sobre dados médicos e questões de privacidade nos Estados Unidos, ver pesquisa de Latanya
Law Review, Vol. 53, julho de 2001, p. 1438. Sweeney em http://privacy.cs.cmu.edu/people/sweeney/index.html.
facas ou canivetes pode realmente ampliar a segurança nos voos, sem impacto à categoria de ameaça não foram divulgados. É claro, os oficiais alegam que, por
liberdade de movimento dos passageiros. Mas traçar o perfil dos passageiros e, razões de segurança, o processo deve permanecer em segredo. No entanto,
mais especificamente, usar a segunda geração de Sistema Assistido por baseando-se em um sistema automatizado de dados não verificados, o governo
Computador de Pré-Verificação de Passageiros (CAPPS II, na sigla em inglês) são controla quem pode se mover livremente pelo país, mas sem oferecer nenhuma
procedimentos que precisam ser reavaliados de perto, pois estão repletos de segurança real. A situação só pode levar ao desastre e ao mau uso.
problemas como os que afetam as tecnologias AIDC. O CAPPS II é um sistema
baseado em dados que assimila eletronicamente cada reserva de passageiro, AUMENTO DE CONSCIÊNCIA, ABORDAGEM DE SOLUÇÕES
autentica a identidade de cada viajante e, finalmente, cria um perfil detalhado do Até o momento, tentamos, neste ensaio, dar um panorama das tecnologias AIDC e
cliente. O projeto, supervisionado pela TSA, é um cruzamento de dados (e não um chamar a atenção para algumas implicações sociais relacionadas. Contudo, como
projeto de garimpagem de dados), o que significa que as informações sobre praticantes da mídia tática e artistas interdisciplinares, estamos interessados em
passageiros são verificadas em bases de dados externas, para confirmar se as desenvolver projetos que usem formas comunicativas diferentes das palavras
pessoas são quem dizem ser (verificação de identidade) e atribuir a elas um índice para tratar de nossas preocupações. Swipe (do inglês, “furtar”) — um projeto
de risco de terrorismo (cruzamento de dados). Nesse sistema, quando fazem uma em três etapas que consiste em uma performance, uma oficina e um site — foi
reserva, os passageiros são solicitados a fornecer informação de identificação, nossa resposta participativa para as várias controvérsias associadas às praticas de
como nome e endereço, além de passaporte, número do Seguro Social e números varredura da carteira de motorista e coleta de dados.
dos voos habituais. Esses detalhes são, então, cruzados com informações O projeto Swipe é, em primeiro lugar, educativo, na medida em que informa os
fornecidas por empresas privadas de dados. Como resultado, cada viajante recebe cidadãos sobre uma prática particular e oferece oportunidade para discuti-la
uma cor que o identifica conforme a avaliação de sua taxa de risco. Desse modo, publicamente. A performance acontece em um bar que serve bebidas alcoólicas,
138 verde significa “voe livremente”, amarelo quer dizer “checagem extra de onde a pessoa pega um drinque e um recibo impresso comum. O recibo contém 139

segurança”, e vermelho indica “impedido de embarcar”. O Departamento de toda a informação que furtamos de sua carteira de motorista ao escaneá-la no
Segurança Interna solicitou o uso urgente do CAPPS II, a partir do verão de 2004, ponto de venda, além de qualquer informação adicional que possamos obter na
em todos os voos comerciais originários dos Estados Unidos, e supostamente está internet e em bancos de dados arquivados enquanto a bebida do consumidor
testando o programa em voos selecionados da Delta Airlines desde a primavera de estava sendo preparada. O workshop oferece uma demonstração que desmistifica
2003. a coleta de informação e os negócios dos armazéns de dados, apresentando os
O CAPPS II — até onde se pode supor, alimentado com poucas informações bastidores do que ocorre no bar. O site, lançado em fevereiro de 2004, contém um
— forneceria ao governo americano um mecanismo de controle centralizado, conjunto de ferramentas para atividades culturalmente motivadas. Nele, os
capaz de restringir o movimento de uma pessoa nos Estados Unidos. Uma usuários podem decifrar códigos de barra bidimensionais em uma carteira de
ferramenta dessa magnitude representa grande ameaça às liberdades civis. motorista por meio de um programa disponível para download, determinar o valor
O governo pode, a qualquer momento, mudar os parâmetros do sistema (quem é da informação pessoal no mercado livre utilizando uma calculadora de dados, e
alvo e quando), influenciando imediatamente a vida de milhões de cidadãos. Uma solicitar arquivos de grandes armazéns de dados como o ChoicePoint. A partir de
pessoa que, por infelicidade, for incluída num grupo-alvo pode sofrer sérios um sistema de quadro de avisos, os usuários podem divulgar quantos erros
impactos sem a menor justificativa. Por exemplo, uma mulher que depende de aparecerem nos arquivos e acompanhar o tempo de resposta dos armazéns de
viagens aéreas para viver pode ser prejudicada profissionalmente se for detida dados até efetivar as correções solicitadas24.
com frequência e perder reuniões. Diante de problemas do gênero, a mulher de Educar e aumentar a consciência são, evidentemente, muito importantes.
negócios não pode questionar por que é alvo e como pode deixar de ser um, já Apenas com discernimento pode haver uma reação pública, e somente por meio
que, no momento, o governo dos Estados Unidos não tem nenhum sistema que da persistente indignação pública haverá razão para o governo e a indústria
torne possível contestar uma avaliação percebida como erro. Além disso, os
métodos usados para verificar os dados e estabelecer as regras que determinam a 24 Para uma descrição completa e a documentação do projeto, acessar o site dos autores: www.we-swipe.us.
mudarem suas práticas. Resistência em nível e leis, Sweeney menciona, deveriam ser considerados e desenvolvidos durante o
individual também ajuda. Algumas surgimento das tecnologias. As políticas de privacidade nos Estados Unidos foram
estratégias comuns são pagar em dinheiro escritas em resposta a falhas no sistema e funcionam como curativos para
em vez de usar o E-ZPass ou usar um cartão problemas imediatos. Esses reparos nunca estão completos e, muitas vezes, são
de fidelidade de outra pessoa para adicionar tão fáceis de contornar quanto de ignorar completamente. Direito de privacidade,
ruídos ao banco de dados da loja. Como justiça social e igualdade devem ser tratados como o começo da pesquisa e
parte do projeto Swipe, distribuímos desenvolvimento de tecnologias AIDC em vez de serem jogados no meio de
adesivos para as pessoas colarem sobre as diferentes projetos apenas depois que surgem problemas.
tarjas magnéticas ou códigos de barra em Claramente, as tecnologias AIDC são atraentes do ponto de vista econômico:
suas carteiras de motorista, com slogans elas reduzem os custos trabalhistas e ajudam a inserção de informações sobre
como “Tire seus peões de meu corpo de processos comerciais e industriais diretamente em seus próprios computadores,
dados” ou “Eu paro de comprar quando você que podem, dessa forma, delinear seu sistema. Quando o alvo do AIDC é o
Imagem Retirada do Website do Projeto
começar a varredura”. Esses adesivos consumidor, criam-se bancos de dados massivos que, em contrapartida, podem
Swipe discute o fenômeno do
acúmulo de dados sobre uma desabilitam temporariamente as tecnologias ser usados na tentativa de modelar o comportamento humano a padrões
pessoa que tem sua carteira de AIDC, e garantem que a informação de uma predeterminados, conforme conjuntos de grupos demográficos, condições
motorista constantemente médicas e supostas inclinações terroristas. Por causa das leis e políticas atuais
pessoa não seja escaneada sem notificação
escaneada, combinando
performance, oficina e site ou consentimento. Os adesivos têm sobre meio ambiente, está florescendo um determinismo dos dados, e qualquer
potencial para criar situações interessantes proteção percebida contra esse tipo de atividade é simplesmente ilusória. Nosso
140 quando um vendedor ou policial nota o adesivo e tem um momento de empatia objetivo foi descrever as tecnologias AIDC e destacar como encorajam um amplo 141

(verbal ou não verbal) com o portador do cartão. espectro de ações de vigilância, as quais têm sido tema de críticas crescentes.
Em termos de soluções de longo prazo, sentimos que as respostas precisam ser Esperamos que essa perspectiva possa beneficiar a participação contra novas
encontradas tanto na tecnologia como na política. Há ajustes tecnológicos para formas de vigilância, em configurações legais, políticas e ativistas.
alguns dos problemas que identificamos em coletas de dados. Por exemplo, a
pesquisa de Latanya Sweeney sobre o fechamento do controle computacional
produziu vários programas de computador que removem de bases de dados o
nome de pessoas e outros identificadores exclusivos, sem tornar suas informações
inúteis para fins de pesquisa. Há, claro, momentos em que identificar uma pessoa
é necessário; Sweeney comenta que, “apesar da possível efetividade desses
sistemas e outros não mencionados aqui, dados completamente anônimos podem
não conter detalhes suficientes para todos os usos, então é preciso tomar cuidado
quando a informação divulgada puder identificar indivíduos — cuidado este que
deve ser reforçado por políticas e procedimentos coerentes. O risco para os
indivíduos pode ser extremo e irreparável e pode acontecer sem o seu próprio
conhecimento. O remédio contra os abusos, entretanto, fica fora do escopo desses
sistemas e reside nos contratos e leis”25. Os contratos, procedimentos operacionais

25 SWEENEY, Latanya. “Privacy and confidentiality, in particular, computational disclosure control”, Carnegie
Mellon University Data Privacy Lab. http://privacy.cs.cmu.edu/people/sweeney/confidentiality.html.
142
143
GEOGRAFIA EXPERIMENTAL: DA PRODUÇÃO
CULTURAL À PRODUÇÃO DO ESPAÇO
TREVOR PAGLEN

Quando a maioria das pessoas pensa em geografia, pensa em mapas. Muitos


mapas. Mapas com capitais de estados e territórios nacionais, mapas mostrando
montanhas e rios, florestas e lagos, ou mapas mostrando padrões de distribuição
de população e migrações. E, de fato, essa não é uma ideia totalmente imprecisa
do campo — é verdade que a geografia moderna e a confecção de mapas foram
uma vez inseparáveis.
Geógrafos renascentistas como Henricus Martellus Germanus e Pedro Reinel,
tendo descoberto textos gregos sobre geografia (sendo “Geografia de Ptolomeu” o
mais importante), colocaram o conhecimento ancestral para trabalhar a serviço
dos impérios espanhol e português. Os mapas de Martellus, do final do século XV,
143

atualizaram as antigas projeções cartográficas gregas, incluindo as explorações de


Marco Polo pelo Oriente, assim como as investidas portuguesas ao longo da costa
africana. Os mapas portulanos de Reinel são algumas das cartas naúticas
modernas mais antigas. A cartografia, assim, configurou-se como uma ferramenta
indispensável para a expansão imperial: se novos territórios deveriam ser
controlados, eles precisavam ser mapeados. Em algumas décadas, as cartografias
monárquicas preencheram as manchas brancas dos velhos mapas. Em 1500, Juan
de la Cosa, que acompanhou Colombo em três viagens como capitão da Santa
Maria, produziu o mapa-múndi, o primeiro mapa que se conhece a representar o
Novo Mundo. A geografia foi um instrumento tão importante para o colonialismo
espanhol e português que os primeiros mapas modernos estavam entre os
grandes segredos desses impérios. Quem fosse pego bisbilhotando um mapa para
um poder externo podia ser punido com a morte.
Em nosso próprio tempo, outro renascimento cartográfico está acontecendo. haverá pessoas estudando de tudo, da química atmosférica do período pré-
Na cultura popular, programas de computador gratuitos como o Google Earth e o -holoceno no norte da Groenlândia aos efeitos dos fundos financeiros soberanos
MapQuest se tornaram partes quase imprescindíveis de nossa vida cotidiana: no mercado de capitais de Hong Kong, passando por emissões de clorido de metil
usamos mapas on-line para conseguir rotas até endereços desconhecidos e para em salinas costeiras e políticas raciais nos movimentos trabalhistas na Califórnia do
“explorar” o globo de forma virtual, com a ajuda de imagens de satélite século XIX. Nos Estados Unidos pós-guerra, oficiais de universidades
publicamente disponíveis. Sistemas de posicionamento global (GPS) disponíveis rotineiramente relacionavam a falta sistemática de metodologia e normas
para consumo incorporaram coordenadas de latitude e longitude ao vernáculo discursivas da disciplina a uma ausência de seriedade ou rigor, uma percepção que
cultural. Nas artes, legiões de produtores culturais têm exercitado o poder de fez com que inúmeros departamentos
mapeamento. Exposições em museus e galerias são dedicadas a toda variedade de fossem fechados por não ter apoio
cartografia criativa; as “mídias locativas” emergiram como uma forma de techno- institucional. O fim da geografia em
-site-specificity1; nos mercados de antiguidade, mapas velhos atingiram preços sem Harvard foi típico do que acontecia no
precedente histórico em leilões. A academia, igualmente, foi tomada pelos novos campo: oficiais da universidade
poderes da confecção de mapas: sistemas de informação geográfica (GIS) se fecharam seu departamento de
tornaram uma nova língua franca da coleta, colagem e representação de dados em geografia em 1948, conforme relata o
campos tão diversos quanto arqueologia, biologia, climatologia, demografia, geógrafo Neil Smith, da Universidade
epidemologia, e assim por diante, até a zoologia. Na cabeça de muitos, um da Cidade de Nova York, depois de
interesse recém-descoberto pela geografia tomou conta da cultura popular, das terem ficado desorientados por sua
artes e da academia. Mas será que a proliferação de tecnologias e práticas de “incapacidade de extrair uma definição
144 mapeamento realmente aponta para uma nova geografia cultural, a priori? Não clara do tema, de tocar a substância da 145

necessariamente. Ainda que a geografia e a cartografia tenham ancestrais práticos geografia ou determinar seus limites
e intelectuais comuns, e estejam frequentemente localizadas nos mesmos Imagem Retirada da Wikipedia
com outras disciplinas”. A cúpula
departamentos em universidades, elas podem sugerir formas bem diferentes de Túmulo de Jackson Pollock: sua obra explorou acadêmica “via o campo como
o acaso e a aleatoriedade, produzindo telas
olhar e entender o mundo. desesperançosamente amorfo”. Mas
em que os traços são ecos do movimento do
A geografia contemporânea tem pouco mais que um relacionamento corpo em movimento essa “deformidade sem esperança” é,
superficial com todas as variedades de cartografia. De fato, a maioria dos de fato, a grande força da disciplina.
geógrafos críticos tem um ceticismo saudável em relação ao ponto de vista “olho Não importa quão diversa e multidisciplinar a geografia possa parecer — e
de Deus” implícito em tantas práticas cartográficas. Por mais úteis que os mapas realmente é; todavia, alguns axiomas unificam a vasta maioria dos trabalhos de
possam ser, eles conseguem fornecer apenas orientações grosseiras para o que geógrafos contemporâneos. Esses axiomas se sustentam como verdade para a
constitui um espaço particular. “ciência dura” em laboratórios de universidade, assim como para geógrafos que
A geografia é uma disciplina curiosamente e poderosamente transdisciplinar. estudam os trabalhos imprevisíveis da cultura e da sociedade. As maiores
Ao observar departamentos de geografia, em pelo menos um deles possivelmente aquisições teóricas da geografia vêm de duas ideias correlatas: materialismo e
produção do espaço.
1 O termo techno-site-specificity é de difícil tradução, por isso foi feita a opção de mantê-lo como no original.
Na tradição filosófica, o materialismo é a ideia simples de que o mundo é feito
A expressão refere-se a site-specific, conceito cunhado no contexto da land art para se referir a trabalhos em que os de “coisas”, e, mais ainda, que o mundo é apenas feito de “coisas”. Todos os
resultados obtidos dependiam da especificidade do lugar escolhido para seu desenvolvimento, ou seja, obras em
que o contexto era incorporado ao procedimento artístico. Em inglês, site-specificity significa “especificidade do
fenômenos, então, de dinâmicas atmosféricas a quadros de Jackson Pollock,
lugar”, e faz referência ao conceito de site-specific. A expressão techno-site-specificity sugere a existência de uma emergem de interações de materiais no mundo. Na tradição ocidental, o
especificidade do lugar decorrente da sobreposição entre tecnologia e espaço físico. Para uma discussão mais
materialismo filosófico remete a pensadores da Grécia antiga, como Demócrito,
longa sobre o tema, ver o artigo de Lucas Bambozzi neste livro, “Aproximações arriscadas entre site-specific e
mídias locativas”. (N. T.) Anaxágoras e Epicuro, cujas concepções de realidade diferiam agudamente da
metafísica de Platão. Posteriormente, filósofos como Thomas Hobbes, David Muito bom. Mas o que tudo isso tem a ver com arte? Qual a relação com
Hume, Ludwig Feuerbach e Karl Marx desenvolveriam filosofias materialistas em “produção cultural”?
contra posição ao dualismo cartesiano e ao idealismo germânico. Os axiomas teóricos e metodológicos da geografia contemporânea não devem
Metodologicamente, o materialismo sugere uma abordagem empírica (embora ficar restritos a limites disciplinares, quaisquer que sejam eles (uma fonte de muita
não necessariamente positivista) para o entendimento do mundo. No clima confusão em Harvard nos idos dos anos 1940). É possível aplicá-los a quase tudo.
intelectual contemporâneo, a abordagem materialista toma o relacional como Assim como os geógrafos físicos implicitamente usam a ideia de produção do
princípio, mas uma abordagem analítica insiste em que “coisas” podem levar a espaço quando investigam a relação entre emissões de carbono feitas pelo homem
uma forma poderosa de circunscrever ou temperar as tendências quase solipsistas e crostas de gelo que se desprendem na Antártida, ou quando investigam a ligação
encontradas em algumas correntes vulgares do pós-estruturalismo. entre turismo e preservação de florestas tanzanianas, os axiomas da geografia
O segundo axioma geral tem a ver com o que geralmente é chamado de podem guiar todo tipo de prática e investigação, incluindo a arte e a cultura. Uma
“produção do espaço”. Ainda que esse conceito seja frequentemente atribuído abordagem geográfica para a arte, no entanto, destoaria da maior parte da história
ao geógrafo-filósofo Henri Lefebvre, cujo livro La production de l’espace (1974) e da crítica da arte convencional. A diferença de abordagem emergeria das formas
introduziu o termo para um grande número de pessoas, as ideias que dão alma a em que várias disciplinas se apoiam em distintas concepções subjacentes de
esse trabalho têm uma história bem mais longa. Como o materialismo, é uma mundo. Um geógrafo olhando para a arte começaria com premissas bastante
ideia relativamente fácil, mesmo óbvia, mas com implicações profundas. De diferentes daquelas do crítico de arte.
forma resumida, diz que os humanos criam o mundo a sua volta e são, em troca, Para falar de modo bastante genérico, a moldura conceitual que organiza
criados por ele. Em outras palavras, a condição humana é caracterizada por um grande parte da história da arte e da crítica é a da “leitura da cultura”, na qual
loop que se retroalimenta de atividades humanas e seu entorno material. Nessa questões e problemas de representação (e suas consequências) são uma
146 visão, o espaço não é um recipiente onde ocorrem as atividades humanas, mas preocupação primeira. No modelo tradicional, a tarefa do crítico é descrever, 147

é “produzido” por meio de atividade humana. Os espaços produzidos pelos elaborar, explicar, interpretar, avaliar e criticar trabalhos culturais previamente
homens, um após o outro, colocam restrições sobre as atividades subsequentes. dados. Em certo sentido, o papel do crítico de arte é atuar como um consumidor
Para ilustrar essa ideia, podemos tomar como exemplo a universidade onde perspicaz de cultura, apoiado no discernimento. Não há nada de errado com isso,
estou, no momento, escrevendo este texto. Num primeiro olhar, ela pode se mas esse modelo de crítica de arte precisa (de novo, num sentido bem amplo)
parecer com pouco mais que uma coleção de prédios: bibliotecas, laboratórios e tacitamente assumir uma ontologia da “arte” para ter um ponto de partida
salas de aula com localizações distintas no espaço. É com isso que a universidade inteligível para a leitura, crítica e discussão. Um bom geógrafo, no entanto, pode
se parece num mapa ou no Google Earth. Mas essa é uma visão excepcionalmente usar os axiomas analíticos de sua disciplina para abordar o problema da “arte” de
parcial da instituição. A universidade não é algo inerte: ela não “acontece” até que forma decididamente diferente.
alunos cheguem para assistir às aulas, até que professores se tranquem para fazer Em vez de perguntar o que é arte ou se determinada obra é bem-sucedida, um
pesquisa, funcionários administrativos paguem contas e registrem os estudantes, bom geógrafo poderia apresentar questionamentos na linha de “Como o espaço
legisladores estaduais destinem recursos para as operações do campus e equipes chamado ‘arte’ é produzido?”. Em outras palavras, quais são as conjunções
de manutenção mantenham a infraestrutura física da instituição em boas históricas, econômicas, culturais e discursivas específicas que se reúnem para
condições. A universidade, então, não pode ser separada das pessoas que circulam formar algo chamado “arte” e, sobretudo, para produzir um espaço que nós,
“produzindo-a” dia após dia. Por sua vez, ela também esculpe atividade humana: coloquialmente, conhecemos como “mundo da arte”? A questão geográfica não é
sua estrutura física e burocrática cria condições para que os estudantes assistam a “o que é arte”, mas “como é a arte”. Da perspectiva de uma crítica geográfica, a
palestras, leiam livros, escrevam artigos, participem de discussões e ganhem noção de uma obra de arte autossuficiente se pareceria com o efeito fetichista de
notas. A atividade humana produz a universidade, mas as atividades humanas são, um processo de produção. No lugar da abordagem sob o ponto de vista do
em troca, modeladas pela universidade. Nesse loop que se retroalimenta, vemos a consumidor, um geógrafo crítico poderia recolocar a questão da arte em termos de
produção do espaço em funcionamento. prática espacial.
Podemos levar essa linha de raciocínio ainda mais adiante. Em vez de usar própria prática. Se as atividades humanas são inextrincavelmente espaciais, as
axiomas geográficos para fomentar uma abordagem “interpretativa” alternativa novas formas de liberdade e democracia só podem emergir em relação dialética
para a arte (como sugeri no parágrafo anterior), podemos utilizá-los em sentido com a produção de novos espaços. Eu, deliberadamente, uso uma das palavras-
normativo. Sejamos geógrafos, artistas, escritores, curadores, críticos ou tenhamos -chave do modernismo, “experimental”, por dois motivos. Primeiro, para endossar
qualquer outra atividade, podemos usar os axiomas geográficos de maneira e afirmar a noção modernista de que as coisas podem ser melhores, de que
autorreflexiva para informar nossa própria produção. os homens são capazes de melhorar suas condições para deixar o cinismo e o
Se aceitarmos o argumento de Marx de que a característica fundamental da
existência humana é “a produção da vida material em si” (os homens produzem sua
própria existência em relação dialética com o resto do mundo), e, seguindo Lefebvre Legend
(e Marx), que a produção é fundamentalmente uma prática espacial, então, a Well
produção cultural (como toda produção) é uma prática espacial. Quando escrevo um River
ensaio como este, consigo publicá-lo em um livro e o coloco em uma prateleira de
Lake
livraria ou museu, estou participando de um espaço de produção. O mesmo é
verdadeiro para a produção da arte: quando produzo imagens e as coloco em uma
galeria ou museu ou as vendo para colecionadores, estou ajudando a produzir um
espaço que alguns chamam de “mundo da arte”. O mesmo é verdadeiro para a
“geografia”: quando estudo geografia, escrevo sobre geografia, ensino geografia,
vou a conferências sobre geografia e faço parte de um departamento de geografia,
148 estou ajudando a produzir um espaço chamado “geografia”. Nenhum desses 149

exemplos é uma metáfora: o “espaço” da cultura não é mais apenas a “estrutura do


sentimento” de Raymond Williams, mas, como meus amigos Ruth Wilson Gilmore e
2 km
Clayton Rosati sublinham, uma “infraestrutura do sentimento”.
Meu ponto é que, se alguém leva a produção do espaço a sério, o conceito se Imagem Retirada da Wikipedia

aplica não apenas a “objetos” de estudo ou crítica, mas às formas como as ações Uma mapa em vetor, usado na Wikipédia como exemplo dos
sistemas de informação geográfica atualmente disponíveis
de uma pessoa participam desse processo. A geografia, então, não é apenas um
método de investigação, mas define necessariamente a investigação da produção
de espaço. Os geógrafos podem estudar a produção do espaço, mas, com esse derrotismo sem fôlego. Além disso, experimentação significa produção
estudo, também estão produzindo espaço. De forma simples, os geógrafos não sem garantias, e produzir novas formas de espaço certamente implica ausência de
estudam geografia, eles criam geografias. garantias. O espaço não é determinista, e a produção de novos espaços não é fácil.
O mesmo vale para qualquer outro campo e qualquer outra forma de prática. Pensar sobre geografia experimental engloba, sobretudo em relação à
Tomar isso ao pé da letra e incorporar na prática de alguém é o que entendo por produção cultural, reconhecer que é proveitoso retomar Walter Benjamin, que
“geografia experimental”. previu essas ideias em um ensaio de 1934 intitulado “O autor como produtor”.
Geografia experimental engloba práticas que tomam a produção do espaço em Durante grande parte dos anos 1930, época em que esteve exilado em Paris
forma autorreflexiva, práticas que reconhecem que a produção cultural e a devido à ascensão do regime nazista, seus pensamentos voltaram repetidamente à
produção do espaço não podem ser separadas uma da outra, e que a produção questão da produção cultural. Para Benjamin, o status da produção cultural como
intelectual e cultural são práticas espaciais. Além disso, geografia experimental não uma empreitada intrinsecamente política era evidente por si só. A tarefa intelectual
significa apenas ver a produção do espaço como uma condição ontológica, mas que ele tomou para si foi teorizar como a produção cultural poderia ser parte de
experimentar ativamente a produção do espaço como uma forma integral da um amplo projeto antifascista. Em suas meditações sobre as possibilidades
transformadoras da cultura, Benjamin identificou um momento político chave em tomem uma “posição” no âmbito das políticas da experiência vivida. Seguindo
trabalhos culturais acontecendo no processo de produção. Benjamin, a geografia experimental toma como certo o fato de que não pode haver
Em seu texto “O autor como produtor”, ele antecipou o pensamento geográfico um “lado de fora” da política, porque não pode haver um “fora” da produção de
contemporâneo quando se recusou a assumir que o trabalho cultural existia enquanto espaço (e esta é, ipso facto, política). Além disso, a geografia experimental é um
coisa-em-si-mesma: “A abordagem dialética”, ele escreveu, “absolutamente não tem chamado para levar a sério e finalmente ir além das teorias culturais que igualam
qualquer utilidade para coisas rígidas e isoladas como obras, livros, novelas. É preciso novas enunciações e novas subjetividades como fins políticos em si. Quando
inseri-los no contexto social vivo”. Bem ali, Benjamin rejeitou o pressuposto de que dissociados da produção de novos espaços, eles são muito facilmente assimilados
trabalhos culturais têm qualquer tipo de estabilidade ontológica e, em vez disso, nos ciclos infinitos de destruição e reconstituição que caracterizam o
sugeriu uma forma relacional de pensar sobre eles. Benjamin seguiu adiante com neoliberalismo, uma repetição que Benjamin apelidou de “inferno”.
uma distinção entre trabalhos que possuem uma “atitude” na direção da política e A tarefa da geografia experimental, então, é proporcionar as oportunidades
trabalhos que habitam uma “posição” em seu âmbito. “Em vez de perguntar ‘Qual é a que se apresentam em práticas espaciais de cultura. Ir além da reflexão crítica, da
atitude do trabalho com as relações de produção de seu tempo?’, eu gostaria de crítica isolada e das “atitudes” políticas no âmbito da prática. Experimentar com a
perguntar ‘Qual sua posição em relação a eles?’”, escreveu. Benjamin, em outras produção de novos espaços, novas formas de ser.
palavras, estava identificando as relações de produção que permitem o surgimento O que está em jogo? Literalmente, tudo.

150 151

Aplicativo GIS vale-se de


camadas para descrever a
sobreposição entre topologia e
arquitetura, representando, por
meio de cores a presença de
lagos, estradas e florestas,
utilizando convenções que
permitem aos especialistas
entender as relações entre todos
os componentes da área
representada
Imagem Retirada da Wikipedia

de trabalhos culturais como um momento político crucial. Para ele, produzir trabalhos
culturais verdadeiramente radicais ou libertadores significava produzir espaços
libertadores a partir dos quais esses trabalhos culturais pudessem emergir. Ecoando
Marx, ele sugeriu que a tarefa da produção cultural transformadora era reconfigurar
as relações e os aparatos de produção cultural, reinventar a “infraestrutura” dos
sentimentos de maneiras produzir o máximo de liberdade humana. O “conteúdo”
efetivo da obra era secundário.
A geografia experimental expande o chamado de Benjamin para que os
trabalhadores culturais se movam para além da “crítica” como um fim em si e
153
POR UMA ARTE CONTRA A CARTOGRAFIA
DA VIDA COTIDIANA
RYAN GRIFFIS

Em termos simples, a vida cotidiana pode ser o nome do desejo


de totalidade nos tempos pós-modernos.
(Ben Highmore, Everyday life and cultural theory*)

Deveríamos falar agora não de pessoas fazendo sua própria


história, mas de pessoas fazendo sua própria geografia.
(John Urry, Social relations and spatial structures**)

O título deste ensaio é um remix do título de um ensaio da artista Martha Rosler1


publicado originalmente em 1979, “Por uma arte contra a mitologia da vida
cotidiana”. O texto de Rosler se engaja com o que, na época, era o contexto
emergente, hoje frequentemente denominado “globalização pós-industrial”.
Mais especificamente, é um engajamento da perspectiva de alguém tentando
152 fazer coisas — obras de arte — que podem “abordar essas questões banalmente 153

profundas da vida cotidiana, revelando, assim, o público e o político existente no


pessoal”. Ela estava interessada, em particular, nos aspectos ao mesmo tempo
opressivos e potenciamente libertadores das “mídias de massa”. Aqui, quero
retomar de onde Rosler parou, discutindo o potencial da arte e da tecnologia, para
“dar um passo na direção de mudar razoável e humanamente o mundo” e usando
o exemplo do que costuma ser descrito como “mídias locativas”2.
O rótulo “mídia locativa” tem sido utilizado para descrever aplicações de
tecnologias de consciência geoespacial, sejam elas comerciais ou de vanguarda
“crítica”. Ambas compartilham, com frequência, da predileção por revelar a
experiência individual da “vida cotidiana” e conectá-la a formas de experiência
mais amplas, mediadas em rede e socialmente. As mídias locativas se apoiam na
colocação e movimentação de dispositivos com capacidade computacional, que
transmitem sua localização para outros dispositivos, igualmente conectados, como
computadores. Em uma esfera cultural mais ampla, isso se torna visível com a

* HIGHMORE, Ben. Everyday life and cultural theory. Londres: Routledge, 2001.
** GREGORY, Derek e URRY, John. “Spatial relations and spatial structures”. In: Social relations and spatial
structures. Nova York: St. Martin’s Press, 1985.
1 ROSLER, Martha. Decoys and disruptions: selected writings, 1975-2001. Cambridge: MIT Press, 2006.
2 http://en.wikipedia.org/wiki/Locative_media.
proliferação da tecnologia GPS3 (sigla em inglês para Sistema de Posicionamento Na afirmação de Tran, percebemos, por todas as “comunidades”
Geográfico), que está se tornando cada vez mais comum em aparelhos como tecnologicamente facilitadas que agora podemos criar, que elas não parecem tão
telefones celulares e automóveis. As mídias locativas se beneficiam dessa diferentes daquelas divididas por linhas vermelhas “racializadas”, criadas por
implantação de tecnologias de comunicação enquanto “ubíquas” — presentes em gerações anteriores9 de aplicações GIS10. Retornarei a algumas implicações dessa
todo lugar, o tempo todo e muitas vezes despercebidas e inacessíveis. Tais noções inscrição tecnológica mais adiante, mas gostaria de desviar para uma discussão
de ubiquidade não podem senão fazer intersecção com as noções de “cotidiano” sobre as mídias locativas como são praticadas e celebradas na esfera da vanguarda
— onde mais acontece o “todo dia” senão “em todo lugar”? cultural e, mais especificamente, na arte contemporânea.
Rosler começa “Por uma arte contra a mitologia da vida cotidiana” com a Um trabalho de arte contemporânea com mídias
pergunta “De onde vêm as ideias?”. Imediatamente, ela responde à pergunta: locativas que recebeu bastante atenção (o Golden Nica
“Todos os mitos da vida cotidiana costurados juntos formam um envelope Award de 2005, no Ars Electronica11, e a participação na
imperceptível de ideologia, a conta falsa dos trabalhos do mundo”. Noções do mostra Making Things Public12, no ZKM) foi o Milk,
“cotidiano” como lugar de resistência, dissenso e criatividade têm sido celebradas projeto de mapeamento de Esther Polak, Ieva Auzina e
por corporificar o que Michel de Certeau4 denominava “táticas”. Essa também do RIXC — Center for New Media Culture, em
representação um tanto utópica do “fazer coisas” diante dos regimes de poder, no Riga, Letônia. Criado entre 2003 e 2005, Milk
entanto, pode igualmente servir para reforçar os “mitos da vida cotidiana” que acompanha a produção e distribuição de queijo, de
Rosler quer tornar conhecidos. A condição de sempre agir taticamente requer um fazendas de leite da Letônia aos mercados de Utrecht,
Imagem Cedida por Esther Polak
estado constante de sublimação e postura reacionária, que, enquanto é libertadora nos Países Baixos13. Seguindo os movimentos de nove
Milk, de Esther Polak, faz o
perante a opressão de curto prazo, não pode jamais responder adequadamente às mapeamento do leite em seu trânsito,
“participantes” (selecionados entre pessoas que
154 desigualdades. dos fazendeiros que o produzem até produzem, transportam e consomem queijo), por meio 155

No lado comercial, o elo ideológico entre vida e consumo é ainda mais distribuidores e consumidores do uso de dispositivos GPS entregues a eles, o projeto
transparente que antes. O aspecto utópico disso é representado pela imagem de propõe iluminar a construção social e espacial do queijo.
uma rede infinita de consumidores, que recentemente receberam o poder de Os conteúdos noticiosos gerados pelo próprio Milk o posicionam como “projeto de
compartilhar em público suas experiências e encontros com produtos e lugares. mapeamento em arte locativa, o qual explora as possibilidades visuais e
Mas estaria essa rede de consumidores mudando os desejos que modelaram documentais da tecnologia GPS”14.
séculos de violenta desigualdade? Para uma resposta, podemos observar a Os componentes básicos do projeto consistem em um pouco de texto, vídeo e
popularidade de aplicações de mapeamento que facilitam transações comerciais imagens fotográficas que registram o movimento dos fazendeiros, vendedores e
reais, como HousingMaps.com5, que conecta a Craigslist6 ao Google Maps. compradores de queijo. A partir dessas mediações, os artistas representam
A afirmação a seguir, de Thai Tran, um gerente de produtos do Google Maps, histórias especiais e conhecimentos que são, para todas as finalidades práticas, de
comentando o lançamento de uma interface panorâmica e baseada em fotos7, é outra forma inacessíveis e invisíveis no material do queijo. Milk reapresenta o
reveladora: “Um dia estávamos olhando para os dois mashups originais do Google queijo como um corpo de conhecimento que pode ser empregado em escala
Maps, HousingMaps.com e ChicagoCrime.org8, e nos demos conta de que seria humana, por meio de ações e pensamentos das pessoas envolvidas em sua
ainda mais útil se eles pudessem se combinar, pois a maioria das pessoas não quer produção, e, numa escala maior, por meio de visualizações que revelam distâncias
viver em áreas de alta criminalidade”. geográficas e tempos ligados a sua materialização.

3 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_de_Posicionamento_Global. 9 http://www.geography.wisc.edu/histcart/v6initiative/11cloud.pdf.
4 CERTEAU, Michel de. The practice of everyday life. Berkeley: University of California Press, 1984. 10 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_de_informa%C3%A7%C3%A3o_geogr%C3%A1fica.
5 http://www.housingmaps.com. 11 http://www.aec.at/de/index.asp.
6 http://sfbay.craigslist.org/hhh. 12 http://on1.zkm.de/zkm/stories/storyReader$4581.
7 http://news.com.com/Google+Maps+takes+it+to+the+streets/2100-1038_3-6187254.html. 13 http://www.milkproject.net.
8 http://ChicagoCrime.org. 14 http://www.milkproject.net/press/press9.html.
Não surpreende que uma das influências primárias na criação do projeto, realidades invisíveis ou imaginárias. O projeto [murmur]18, de Toronto, por exemplo,
segundo Esther Polak, tenha sido sua lembrança15 de Let us now praise famous produz histórias em áudio sobre lugares específicos. Nesses locais, é instalado o
men16, livro de 1941 do poeta James Agee e do fotógrafo Walker Evans que símbolo do projeto, no qual está indicado o número de telefone que permite a
documenta a vida rural, retratando fazendeiros pobres no sul dos Estados Unidos. quem passa por essas áreas acessar as histórias produzidas — uma tentativa de
O projeto de Evans e Agee começou como um trabalho para a revista Fortune em “mudar a forma como as pessoas pensam aqueles lugares” ao trazer “esse
1936, e é, em vários aspectos, um exemplo clássico dos documentários comuns importante arquivo para as ruas”.
realizados na época do New Deal, combinando a sensibilidade estética de ambos De várias formas, é possível encontrar nas práticas locativas contemporâneas
os artistas e os valores políticos progressistas do emergente Estado de bem-estar uma resposta aos críticos dos modelos arquivísticos e documentais, dada por Rosler
social. Como Polak e outros comentaristas observaram, Let us now praise famous e outros, como o artista e teórico Allan Sekula. Em [murmur], a criação de um
men é um livro tão celebrado quanto criticado17 por seu método “experimental” e arquivo alternativo de Toronto, por exemplo, pode ser lida como uma resposta à
“difícil” de combinar texto e imagem. Polak chega a chamá-lo de “experimento máxima de Sekula de que “o arquivo deve ser lido de baixo para cima, de uma
tecnológico”, ecoando outras impressões comuns de que o trabalho é “desafiador” posição de solidariedade com os deslocados, deformados, silenciados ou tornados
e rejeitando “qualquer visão de que o mundo é claramente compreensível e invisíveis pelas máquinas de lucro e progresso”19.
ordenado”. Essa leitura da colaboração de Agee e Evans fornece a Polak, e a seu Se as mídias locativas têm intenção de fornecer ferramentas para a criação e a
público estimado, um antecessor de Milk — a criação de uma narrativa recepção de contra-arquivos, permitindo acesso aos vários meios de produção (e,
experimental, ainda que universalizante, da existência cotidiana dos fazendeiros. portanto, história) do conhecimento, isso de fato parece uma virada emancipatória em
Ambos compartilham do conhecido objetivo documental de tornar visível para sua direção à autorrepresentação. Mas os meios através dos quais as mídias locativas
audiência as histórias de pessoas e lugares marginalizados. operam também devem ser considerados. Em debates recentes sobre o capital cultural
156 Essa identificação com o documentário não deveria ser surpreendente, assim que as mídias locativas têm atraído, críticas niveladas por suas instâncias mais visíveis 157

como não deveria conferir importância exagerada às intenções dos artistas. Ela as acusaram de cumplicidade com o espetáculo capitalista e, pior, com a pesquisa
fornece, no entanto, uma lente através da qual é possível ver a materialização dos cultural e o desenvolvimento das indústrias de vigilância e exploração de dados.
sentidos que as mídias locativas representam, sentidos que, eu argumento, podem Muitos atacaram essa cumplicidade e as históricas conexões entre as tecnologias
ser produtivamente lidos como um desenvolvimento mais amplo da produção de contemporâneas de visualização geográfica e o exército dos Estados Unidos20.
imagens documentais. É importante notar que, ao mesmo tempo em que algumas Por outro lado, o significado da arte feita com tecnologias de localização pode
instâncias das mídias locativas são mais facilmente relacionáveis com as tradições ser analisado criticamente a partir da moldura estabelecida da representação;
do documentário, como no caso de Milk, outras práticas locativas não começam ou usando as ferramentas de estudos culturais e visuais, podemos chegar a uma leitura
terminam com essas tradições. de como o conteúdo das mídias locativas se encaixa nos paradigmas vigentes da
A diferença que praticantes e proponentes de mídias locativas podem apontar produção de conhecimento, significação e sentido — ou de como rompe com eles.
entre seus trabalhos e documentários convencionais é seu desejo e habilidade para Como Anne Galloway e Matthew Ward expuseram, podemos ver as mídias locativas
explanar o espaço — para ligar suas narrativas a contextos geográficos e como uma extensão das “tecnologias de representação”, “em última análise,
específicos. Muitos projetos de mídias locativas usam tecnologia geoespacial para entendidas como coleções de artefatos culturais”21.
vincular histórias, sons e relacionamentos a lugares em que a intersecção entre Mas isso seria ver as mídias locativas apenas como um mecanismo de
espaços virtuais/em rede e espaços geográficos pode ser usada para visualizar
18 http://murmurtoronto.ca/about.php.
19 SEKULA, Allan. “Reading an archive”. In: WALLIS, Brian (ed.). Blasted Allegories: an anthology of writings by
contemporary artists. Cambridge: MIT Press, 1987, p. 184.
15 http://www.beelddiktee.nl/projects/GPS-projects/milk/Artist-statement-EP-eng.htm. 20 http://www.turbulence.org/blog/archives/000493.html.
16 AGEE, James e EVANS, Walker. Let us now praise famous men. Boston: Houghton Mifflin Company, 1941. 21 GALLOWAY, Anne e WARD, Matthew. Locative media as socialising and spatialising practices: learning from
17 COOGLE, Matt. “The historical significance of Let us now praise famous men”. In: http://history.hanover.edu/ archaeology (draft)”. In: Leonardo Electronic Almanac, MIT Press, 2005. http://www.purselipssquarejaw.org/
hhr/hhr93_6.html. papers/galloway_ward_draft.pdf.
representação, deixando de lado as qualidades afetivas da tecnologia A validação de conhecimento e espaço requer a fusão simultânea desse
propriamente dita. Sem ignorar a importância da representação e evitando uma conhecimento com privilégios da mobilidade e do acesso tecnológico. O espaço
análise tecnológica redutiva e determinista, é possível olhar para o modo como as mediado se torna um arquivo, não de contestação política, mas de narrativas
mídias locativas podem ser lidas através da noção de “sociedade de controle”22 de acessíveis apenas àqueles que podem se beneficiar dos processos voluntários de
Gilles Deleuze, na qual acesso e mobilidade são vigilância. Esta não é a vigilância pan-óptica da sociedade disciplinar foucaultiana,
projetados na forma de sistemas, em vez de mas a vigilância dos cartões de fidelidade de supermercados, do pedágio
reforçados por meios disciplinares. Essa leitura automático, de sistemas de rastreamento de automóveis por GPS e do controle
poderia começar, por exemplo, com a história biométrico das companhias aéreas.
material dos Sistemas de Informação Geográfica O coletivo italiano Multiplicity fornece uma instância significativamente
(GIS, na sigla em inglês), mapeamento das diferente da consciência de localização, por meio da qual as geografias da
informações espaciais quantificáveis sobre desigualdade são visualizadas e experimentadas. Em um projeto chamado Road
populações e ambientes, com sua origem na Map, o grupo fez duas viagens de distância semelhante em territórios controlados
combinação dos Sistemas Militares de Informação por Israel e Palestina: em uma delas, usando um passaporte israelense e, na outra,
Geográfica (MGIS, na sigla em inglês) da era da utilizando um passaporte palestino. Ambas foram mapeadas e gravadas em vídeo,
Guerra Fria23 e formas anteriores de mapear a crise documentando a disparidade de duração entre elas— aproximadamente uma hora
habitacional urbana usadas durante a Grande Imagem Retirada do Website do Projeto
com o passaporte israelense, e mais de cinco horas com os documentos palestinos.
Depressão, e até mesmo exemplos mais antigos, Temporary Travel Office: projeto de Ryan Em oposição à visão de espaço apresentada em Milk, por meio de imagens de GPS
Griffis que produz vários serviços
como o mapa de uma epidemia de cólera em de uma representação abstrata e pixelizada da Europa — o que Michael Curry
relacionados com turismo e tecnologia,
158 Londres, feito por John Snow na metade do com o objetivo de explorar conexões não chamou de “visão de lugar nenhum”26 —, Road Map expõe um entendimento do 159

século XIX. As tecnologias GIS se tornaram relacionais entre espaços públicos e espaço como inevitavelmente ligado aos sistemas que o modelam. Não há solo
privados
ferramentas valiosas na guerra doméstica contra a neutro sobre o qual projetar movimentos narrativos, apenas um chão delineado
pobreza urbana, em curso sob a guisa de “renovação com marcas e zonas reguladas para alguns e estradas de passagem para outros.
urbana”, dissecando cidades com autoestradas e Não há um mapa, mas (ao menos) dois.
outras formas do que Mike Davis chamou de “terceira fronteira”24. Reconhecendo os limites deslocados entre o espaço que consideramos
Sob essa luz, as ferramentas contemporâneas de georrastreamento podem ser inabitável e esses espaços computadorizados, a noção de que estamos nos
vistas como parte do que o geógrafo Stephen Graham chama de “geografias movendo através do espaço criado por satélites e centros de controle, a milhas de
classificadas por software”25, nas quais o arranjo de privilégios sociais é obtido não distância de nossa localização percebida, torna-se concebível. E, se podemos nos
por meio de comandos forçados, mas de uma seleção preemptiva das condições mover por esses espaços, nossos movimentos podem igualmente ser regulados
de permissão, adquiridas por meio de softwares reguladores em espaços de por eles. Além disso, assim como eles se tornam parte estabelecida das
conflito potencial. Assim como muros e autoestradas podem servir para controlar o concepções de “cotidiano”, da mesma forma eles alteram os limites do
movimento entre regiões de uma cidade, softwares, quando conectados a pontos conhecimento, seja abrindo ou selando o envelope da ideologia. O teórico das
mecânicos de acesso, podem ser usados para regular o acesso a transporte, novas mídias Drew Hemment sugeriu que as mídias locativas seriam mais bem
construção e serviços. nomeadas pela expressão “mídias integradas”27 em reconhecimento a sua
“cumplicidade inerente com a operação do poder”, referindo-se, claro, à prática
22 http://libcom.org/library/postscript-on-the-societies-of-control-gilles-deleuze.
23 CLOUD, John. “American cartographic transformations during the Cold War”. In: Cartography and geographic
recente de jornalistas “integrados” ao exército dos Estados Unidos. Essa noção de
information science. Vol. 29, n. 3, 2002, p. 261-82. http://www.geography.wisc.edu/histcart/v6initiative/11cloud.
pdf. 26 CURRY, Michael. Digital places: living with geographic information technologies. Nova York: Routledge, 1998,
24 http://www.colorlines.com/article.php?ID=331 p. 52.
25 http://eprints.dur.ac.uk/archive/00000057/01/Graham_software.pdf 27 http://makeworlds.net/node/76.
mídias locativas “integradas” transforma os cidadãos em “prosumidores” (o
neologismo popular referente a consumidores produtivos) de conteúdo
localizável, o qual é projetado tanto para analisar seus movimentos e hábitos
como para entretê-los e educá-los. É possível dizer que os protegidos do Rei
tomaram para si a tarefa de escrever um Domesday Book contemporâneo28. Só que
o Rei não é mais uma entidade simples, é, em vez disso, uma quimera confusa de
Estado e interesses corporativos.
Parece importante perguntar se é suficiente apenas reconhecer a
cumplicidade, aceitar a dialética das visões utópicas/distópicas. Em outro texto ARTE E MÍDIA LOCATIVA NO BRASIL
sobre documentário e fotografia, Rosler questiona as representações do poder que
ANDRÉ LEMOS
desafiam a análise causal29:

161
A internet já começou a escorrer sobre o mundo real.
Se não há vítima — ou se, o que dá no mesmo, somos todos igualmente vítimas —, Ben Russel (1999)
então não há opressores. A desigualdade social parece ser produzida por um sistema
sem agentes humanos ou remédios coletivos [...] no atual mapa do mundo, a mesma DOWNLOAD DO CIBERESPAÇO NOS TERRITÓRIOS INFORMACIONAIS
foto parece simplesmente poder ser lida como uma imagem do movimento browniano A discussão sobre a relação entre espacialidade e mídia não é nova. São bem
aleatório de indivíduos presentes na mesma unidade espaço-tempo, cuja soma são conhecidas as formas de produção social do espaço pelas mídias de massa
apenas números, não a “sociedade”. (jornais, rádio, TV, telefone, telégrafo, correios). As mídias conformam a percepção
160 do espaço e a própria subjetividade em um jogo de espelhos, mostrando nosso 161

A tecnologia pode, além disso, fazer a mediação entre poder e controle — e, em lugar no mundo (em relação a outros lugares no mundo) e nossa identidade (em
muitos sentidos, incorporá-los fisicamente. Mas será que ela substitui a ideologia? relação a outras culturas), além de organizar o arranjo espacial da sociedade, das
Será que a perspectiva entra em colapso sob o peso de 24 satélites? Michael Curry cidades e das instituições. O lugar deve, desde sempre, ser entendido como fluxo,
sugere que a “visão de lugar nenhum” ocupa e sempre ocupou uma posição de evento (THRIFT, 1999; MASSEY, 1997; SHIELDS, 1991; DOURISH et al., 2007),
interesse, mas o interesse se torna cada vez mais localizado a partir do lugar do cruzamento de territorialidades, permanentemente aberto e sujeito aos
poder — nesse caso, literalmente no espaço30. Se a tendência da sociedade de agenciamentos midiáticos. Novas mídias produzem novas espacialidades.
controle é integrar ideologia a mecanismos de dominação, essencialmente A cibercultura trouxe, em seus primórdios, questões ligadas ao espaço, a
colocando a opressão numa caixa-preta, como esta pode ser aberta e seus ponto de muitos autores a considerarem a cultura do “ciber-espaço”, do espaço
conteúdos, documentados? eletrônico. Desde o surgimento da internet, a discussão se pautou no espaço
virtual, nas relações estabelecidas nas comunidades virtuais, na virtualização das
Artigo publicado em Re-public: re-imagining democracy. Versão em inglês instituições, na webarte, na educação à distância, no e-commerce, no
disponível em http://www.re-public.gr/en/?p=176.
e-government e na democracia eletrônica, no webjornalismo, ou seja, na
“desmaterialização” da cultura e em sua “subida” ao ciberespaço. Na primeira
fase, a ênfase é o upload de informação para esse espaço eletrônico, entendido
aqui como a transposição de coisas (relações sociais, instituições, processos e
28 Considerado o primeiro documento público inglês, o Domesday Book foi criado em 1085, quando Guilherme I,
informações) para o ciberespaço fora do “mundo real”. Essa concepção, embora
o Conquistador — que havia dominado a Inglaterra —, financiou um grande levantamento sobre os recursos do exagerada e incorreta (não há nada fora do “mundo real”), tornou-se hegemônica,
país para, assim, estabelecer meios de taxá-los. (N. T.)
levando autores a afirmar a morte da geografia, o fim das relações face a face, do
29 ROSLER, Martha. Decoys and disruptions: selected writings, 1975-2001. Cambridge: MIT Press, 2006, p. 177.
30 CURRY, Michael. Digital places: living with geographic information technologies. Nova York: Routledge, 1998, p. 52. corpo, da sala de aula, dos livros e jornais impressos, em suma, a “virtualização”
do mundo fora do lugar. Se essa posição já era difícil de sustentar com o upload de internet das coisas e fazem com que o ciberespaço “desça” para os lugares e os
informações (e a questionamos em LEMOS, 2002-04), agora ela parece ter sido objetos do dia a dia. A informação eletrônica passa a ser acessada, consumida,
completamente soterrada1. produzida e distribuída de todo e qualquer lugar, a partir dos mais diferentes
Podemos definir as mídias locativas como dispositivos, sensores e redes digitais objetos e dispositivos. O ciberespaço começa, assim, a “baixar” para coisas e
sem fio e seus respectivos bancos de dados, “atentos” a lugares e contextos. Dizer lugares, a “pingar” no “mundo real”. A metáfora do download mostra bem a atual
que essas mídias são atentas a lugares e contextos significa que reagem ênfase da localização e da mobilidade física e informacional de pessoas, objetos e
informacionalmente a eles, compostos, por sua vez, de pessoas, objetos e/ou informações, ressaltando relações espaciais concretas nos lugares (públicos e
informação, fixos ou em movimento. O que conta, a partir da mobilidade física e privados). O download do ciberespaço produz uma nova territorialização do
informacional (KELLERMAN, 2006), é a relação dinâmica desses dispositivos com espaço, a territorialidade informacional. O lugar não é mais um problema para
o lugar e as trocas infocomunicacionais daí advindas. Emergem aqui duas acesso e trocas de informação no ciberespaço “lá em cima”, mas uma
dimensões fundamentais da cibercultura: localização e mobilidade. oportunidade para acessar informação a partir das coisas “aqui embaixo”.
A característica fundamental das mídias locativas2 é que elas aliam,
paradoxalmente, localização e mobilidade. Movimentar é sempre “deslocar”, o MOBILIDADE E TERRITORIALIDADE
que poderia levar rapidamente à ideia de um apagamento dos lugares. No Com a computação ubíqua e disseminada em lugares e objetos a partir dos LBS e
entanto, o deslocamento (mobilidade física e informacional) não significa, LBT, emerge a nova territorialização informacional, que amplia, transforma e/ou
necessariamente, o desaparecimento da dimensão espacial em sua materialidade modifica antigas funções dos lugares. Um café, uma praça, um mercado, dotados
e em suas dimensões sociais, políticas e econômicas. Antes, as mídias locativas, de sensores, dispositivos e redes sem fio continuam sendo um café, uma praça ou
pelas trocas informacionais no espaço urbano, criam novos sentidos dos lugares. um mercado, só que transformados pela territorialidade informacional emergente.
162 Se a mobilidade era um problema na fase do upload do ciberespaço (ir ou sair do Esse território informacional pode ser entendido pela imagem do ciberespaço 163

local de conexão), a atual fase do download (ou da internet das coisas3), a “pingando” nas coisas, como uma membrana, uma pele eletrônico-digital
mobilidade é uma oportunidade para usos e apropriações do espaço para acoplada aos lugares4, gerando novas heterotopias (FOUCAULT, 2006). Surge,
diversos fins e de lazer, comerciais, políticos, policiais, artísticos. Aqui, mobilidade desse modo, uma relação particular do mundo “real” com bancos de dados, redes
informacional, aliada à mobilidade física, não apaga os lugares, mas os e dispositivos eletrônicos sem fio incrustrados nas coisas3.
redimensionam. Com o ciberespaço “pingando” nas coisas, não se trata mais de Comprovando a existência desses novos territórios informacionais, autores
conexão em “pontos de presença”, mas de expansão da computação ubíqua em falam de espaço híbrido, bolha ou território digital (BESLAY E HAKALA, 2007),
“ambientes de conexão” em todos os lugares. Devemos definir os lugares, de espaço intersticial (SANTAELLA, 2008), realidade híbrida, aumentada ou cellspace
agora em diante, como uma complexidade de dimensões físicas, simbólicas, (MANOVICH, 2005), parede ou muro virtual (KAPADIA et al., 2007). Todas essas
econômicas, políticas, aliadas a banco de dados eletrônicos, dispositivos e imagens descrevem fronteiras informacionais criadas pelo download do
sensores sem fio, portáteis e eletrônicos, ativados a partir da localização e da ciberespaço, apontando para uma fusão dos espaços eletrônico e físico. O conceito
movimentação do usuário. Essa nova territorialidade compõe, nos lugares, o de território nos é útil, pois dirige a compreensão para uma nova ontologia dos
território informacional2. lugares. Território, aqui, é uma zona de controle informacional cercada por bordas
As tecnologias móveis, os sensores invasivos (tipo RFID) e as redes sem fio de ou fronteiras invisíveis (a bolha, a parede, a célula, o interstício), que emergem dos
acesso à internet (Wi-Fi, WiMAX, 3G) criam a computação ubíqua da era da lugares oferecendo possibilidades de acesso, produção e distribuição de
informação. Já podemos sentir seus impactos sociais, culturais, artísticos e
1 Reforcei essa posição em conferência do II Simpósio Nacional da ABCiber, PUC-SP, 2008.
políticos na atual expansão dos telefones celulares, do acesso à internet sem fio, da
2 Locative media — expressão criada por artistas para se diferenciarem de projetos comerciais. Trata-se de banalização de dispositivos de localização tipo GPS, na implantação de sensores
tecnologias e serviços baseados em localização: location-based technology (LBT) e location-based services (LBS)
(KARIMI E HAMMAD, 2004). Locative media é a crítica dos LBT e LBS. A expressão foi proposta em 2003 por Karlis
Kalnins (RUSSELL, 1999; BENFORD, 2005; POPE, 2005). 3 Ciberespaço é, aqui, o nome genérico para as redes telemáticas.
RFID e assim por diante. É importante salientar que é na ruptura dessas bordas que diversas, vinculando informações como fotos, textos, vídeos e sons a mapas ou
emergem formas atuais de vigilância, controle e monitoramento (LEMOS, 2009a). conjunto de mapas. (Neighbornode10, Peuplade11, CitIX12).
Explicamos (LEMOS, 2009b) que, para a compreensão dos aspectos 3. redes sociais móveis (mobile social networking) — sistemas de localização de
comunicacionais, políticos e sociais das mídias locativas, é fundamental entender pessoas criando possibilidades de encontro e/ou troca de informação em mobilidade
que a sociedade da informação cria zonas de controle informacional, através de smartphones (Imity14, Dodgeball13, Citysense14, Google Latitude15).
territorializações e funções eletrônico-digitais nos lugares do “mundo real”. Todo 4. jogos computacionais de rua (pervasive computacional games) — jogos de
lugar é composto por linhas de fuga, movimentos, fluxos e tensões entre diversos diversas modalidades nos quais parte importante da trama se dá no espaço
níveis de controle, ou seja, territorializações (THRIFT, 1999; CRESSWELL, 2004), e urbano, com o uso de LBT e LBS (Geocaching16, Uncle Roy All Around You17, Can
todo território é uma zona de controle no interior de fronteiras. Estas devem ser You See Me Now?18, Pac-Manhattan19).
entendidas de forma polissêmica (física, econômica, subjetiva, política, cultural, 5. mobilizações inteligentes (smart e flash mobs) — mobilizações políticas e/ou
pessoal...). É na tensão entre diversas fronteiras que emerge a dimensão local. estéticas utilizando LBT e LBS para organizar reuniões efêmeras no espaço público
Essa tensão se configura por processos de socialização. Ou lugares são (RHEINGOLD, 2003).
produzidos pela sociedade em sua relação territorial (e desterritorializante),
mediando nossa relação material e simbólica com o mundo (LYMAN E SCOTT, Para o escopo deste artigo, analisaremos projetos de arte com mídia locativa
1967; GOTTMANN, 1973; SACK, 1986; DELANEY, 2005; PRED, 1984). A nova (locative media art) no Brasil a partir dessas cinco categorias. Após termos visto a
tensão de fronteira informacional (o território informacional) vai, assim, adicionar dinâmica do upload e do download do ciberespaço, e termos definido as mídias
uma camada de tensão na constituição dos atuais lugares do espaço urbano. A locativas, os territórios informacionais e as novas tensões na produção social dos
internet, ao pingar nas coisas, cria um território informacional através de controle lugares, vamos olhar com mais atenção para a situação brasileira.
164 de dados eletrônicos no interior de novas fronteiras nos lugares (como acesso, 165

firewall, bolhas digitais e paredes virtuais), ressignificando-os. MÍDIAS LOCATIVAS NO BRASIL


Empresas e governos utilizam as mídias locativas para criar serviços de LBS e LBT estão em expansão no Brasil. No entanto, o debate sobre as mídias
localização, ambientes inteligentes, computação ubíqua, ações de marketing e locativas ainda engatinha e o país sofre de graves problemas de exclusão (entre os
publicidade, jogos e diversas experiências associadas à mobilidade e à localização quais a exclusão digital). Temos, atualmente, 138,4 milhões de celulares e uma
de pessoas, objetos e informação. Projetos incluem redes sociais móveis, densidade de 72,09 aparelhos/100 habitantes, sendo 80% deles celulares pré-pagos
anotações urbanas, mapas e georreferenciamento, jogos de rua, mobilizações (segundo dados de agosto de 2008 da Agência Nacional de Telecomunicações —
artísticas e/ou políticas. O espectro é bastante amplo e está em expansão. Como Anatel), o que demonstra pouca capacidade de investimento pessoal em novos
mostramos em outros trabalhos (LEMOS, 2007, 2008, 2009, 2009b), os projetos serviços. As redes 3G crescem no território nacional e estudos mostram que a
com as mídias locativas podem ser agrupados em cinco categorias: internet móvel já ultrapassa padrões de países desenvolvidos. O acesso via
dispositivos móveis já chega a 9% do total de 8,1 milhões de usuários de banda larga
1. anotações urbanas eletrônicas (geoannotation) — escrita eletrônica no espaço, (nos Estados Unidos, esse índice cai para 6%). O Brasil está em segundo lugar entre
indexando dados a um determinado lugar com conteúdo diverso (Yellow Arrow4,
Sonic City5, [murmur]6, Node Explorer7, GPS Drawing8, Real Time Rome9). 10 www.neighbornode.net.
11 www.peuplade.fr/home.
2. mapeamento — etiquetas geográficas (geotags) e produção de cartografias 12 www.citix.net/pages/sobre.
13 www.dodgeball.com.
4 http://yellowarrow.net/index2.php. 14 www.citysense.com.
5 www.tii.se/reform/projects/pps/soniccity/index.html. 20 www.google.com/latitude/intro.html.
6 http://murmurtoronto.ca. 21 www.geocaching.com.
7 www.nodeexplore.com/news.php?newsid=187. 22 www.uncleroyallaroundyou.co.uk/street.php.
8 www.gpsdrawing.com. 23 www.canyouseemenow.co.uk.
9 http://senseable.mit.edu/realtimerome. 24 http://pacmanhattan.com/index.php.
as nações com mais interesse em mobilidade (em comparação com França, Estados ARTE COM MÍDIAS LOCATIVAS NO BRASIL27
Unidos, Itália, Grã-Bretanha, Espanha e Alemanha), perdendo apenas para o México.
São 950 mil conexões à internet via rede 3G, como minimodens, representando 10%
de todos os tipos de conexão. E isso em pouquíssimo tempo20.
As redes sem fio — Wi-Fi e WiMAX — também estão em expansão. De acordo Os projetos em mídias locativas mais instigantes têm sido
com o Ministério das Comunicações, trinta cidades têm projetos implantados ou aqueles que se realizam no território da arte, apresentando
em implantação. O Programa Nacional de Cidades Digitais quer levar banda larga propostas estéticas que despertam nossas reflexões.
a todo o país, articular ações de inclusão digital (como as redes sem fio) e Lucia Santaella (2008)
implementar 160 Cidades Digitais, espalhadas por todo o Brasil.
Em relação aos LBS e LBT, já há experiências nacionais de mercado com serviços
corporativos para acesso a redes Wi-Fi bluetooth e Wi-Fi marketing, RFID e pervasive Estive no último arte.mov, em Belo Horizonte, em novembro de 2008. Durante o
games, aliados principalmente a marketing de filmes (como em Meu Nome Não é festival, visitei o mercado popular de rua na Avenida Afonso Pena (em frente ao
Johnny), empresas de telefonia (Oi) ou de petróleo (Petrobras, com o Mobile Racing), local do evento), o qual usarei como exemplo hipotético para falar das artes com as
serviços de localização por meio de smartphones, como o Vivo Localiza ou o Vivo mídias locativas no Brasil.
Copiloto, ou serviços de localização como o Mapas & Rotas da Nextel. Há um grande Logo ao chegar, uma mídia locativa me chamou a atenção. De maneira muito
desenvolvimento de GPS (embarcado nos carros) e celulares 3G (hoje são 500 mil eficiente pude observar que ela produzia espacialização: mediava relações,
usuários no Brasil)21, além de sistemas de informação geográfica (GIS, na sigla em ordenava o espaço e produzia comunicação massiva informando sobre serviços e
inglês) e mapas digitalizados. Aparecem os primeiros usos de QR Code (o jornal A problemas do lugar. Essa mídia locativa, embora sem nenhuma característica
166 Tarde, de Salvador, foi o primeiro a usar em sua versão impressa). Cresce a implantação digital, era uma “rádio-poste”, local e comunitária, que divulgava em tempo real 167

de etiquetas RFID no comércio e também no trânsito. Desde 2007, o governo brasileiro notícias sobre equipamentos urbanos e documentos perdidos, questões de
vem implementando um chip nas placas dos carros (ação iniciada a partir de São segurança e novidades da feira. Ou seja, uma mídia locativa analógica com
Paulo), tendo como meta estendê-la a todo o país22. O número de câmeras IP de informação massiva vinculada ao contexto local.30 A “rádio-poste” era aqui mídia
vigilância pública e privada está em crescimento geométrico. Em suma, o quadro geral de massa locativa. Pelos alto-falantes espalhados pelo mercado ela emitia
mostra que os LBS e LBT devem se expandir muito no Brasil nos próximos anos. informações massivas, não reagia aos visitantes de forma “inteligente”
Para além do uso comercial e corporativo, há poucos casos de emprego das (eletronicamente) e não produzia ou estocava informações em banco de dados.
mídias locativas para apropriação do espaço urbano, fortalecimento comunitário e Não havia, por assim dizer, territorialização informacional. Mesmo sendo uma
tensionamento de questões políticas e/ou estéticas. Os melhores exemplos vêm, mídia locativa analógica, como toda mídia, ela produzia sentido social de lugar, ela
como sempre, dos artistas, mostrando as potencialidades e perigos dessa produzia espacialização28.
utilização. Deve-se ressaltar que alguns festivais têm estimulado o debate no Brasil. Comecei a imaginar, então, como seria esse mesmo mercado dotado de
Os dois mais importantes são o arte.mov23 e o Mobilefest24. Há também o territorialização informacional com LBS e LBT. O sentido de lugar se perderia?
Motomix25 e o Nokia Trends26. Como o mercado reagiria à disseminação de mídias locativas, digitais, ubíquas e
“atentas” eletronicamente a seu contexto?
25 http://idgnow.uol.com.br/telecom/2008/08/14/brasil-tem-950-mil-conexoes-a-internet-via-redes-3g-
Vejamos de forma hipotética. Com celulares, sensores e redes sem fio
estima-accenture. vinculados a bases de dados locais, informações poderiam ser disparadas de forma
26 www.mundogeo.com.br/noticias-diarias.php?id_noticia=4246.
27 http://alertatotal.blogspot.com/2008/07/lula-insiste-no-inconstitucional-chip.html.
“inteligente”, de acordo com a localização do cidadão. Ao entrar no mercado, uma
28 www.artemov.net.
29 www.mobilefest.org. 32 Alguns projetos aqui citados não são artísticos, mas políticos e/ou comerciais. Eles foram citados para
30 www.motorolamotomix.com.br. exemplificar com casos brasileiros algumas categorias.
31 www.nokiatrends.com.br. 33 Sobre mídias locativas analógicas ver Lemos, 2008.
emissão via bluetooth daria as boas-vindas nos celulares dos visitantes, mostrando ANOTAÇÕES URBANAS ELETRÔNICAS
sua história com vídeo, textos e fotos; um mapa indicaria a posição exata do Nesta categoria, temos trabalhos com GPS, realidade aumentada, performances
usuário e suas opções pelos setores e equipamentos; informações cidadãs sobre sonoras e teleintervenções. Sur-viv-all (2008)29, de André Lemos, Mari Fiorelli e Rob
encontros, datas importantes e documentos extraviados seriam enviadas via SMS; Shields, foi realizado em Edmonton, no Canadá, escrevendo a palavra em quarenta
visitantes encontrariam conhecidos por meio de sistemas de rede social móvel; quilômetros da cidade. A escrita eletrônica buscou ressaltar o imaginário
transeuntes deixariam suas impressões “anotando” eletronicamente determinados canadense a partir do livro Survival, de Margaret Atwood. Identité30 (2008) foi
pontos do lugar; jogos com celulares, palms e GPS, como gincana, criariam uma realizado por André Lemos, de bicicleta, em catorze quilômetros em Montreal,
atmosfera lúdica... O sentido de lugar não se perderia e, mais ainda, poderia ser apontando para uma das questões centrais do Quebec e do Canadá, a identidade.
reforçado. A territorialização informacional abriria possibilidades para intervenções Locative Painting31 (2008), de Martha Gabriel, é uma pintura feita com GPS de
livres e abertas. acordo com as posições geográficas de usuários, baseada nos dados do interator
(cor da pele, nome, cidade, país, gênero etc.). GPSart (2008)32, de Cícero Silva, é
ARTE LOCATIVA NO MERCADO uma aplicação para produzir imagens com GPS a partir de um celular. Os projetos
E se propuséssemos aos artistas brasileiros a utilização do mercado como um com GPS poderiam servir como exemplo para mapear percursos e mostrar usos
playground? Se os artistas brasileiros tomassem a feira como um espaço de dos espaços ressaltando regiões (usadas e descartadas), e como forma eletrônica
experimentação, poderíamos ver pinturas e escritas com GPS, como o Locative de escrita para destacar aspectos do mercado.
Painting, GPSart, Sur-viv-all ou Identité; derivas musicais por GPS, como na Outra forma interessante de escrita eletrônica é o uso da realidade aumentada
performance Burro sem Rabo, do grupo Hapax; encontros com personagens (WELLNER et al. 1993), como no projeto Invisíveis (2007), de Bruno Viana.
históricos em realidade aumentada, como no projeto Invisíveis; imagens Fundindo personagens virtuais em espaços reais de Belo Horizonte, Invisíveis foi
168 projetadas em outdoors via celulares, como em Poétrica; fotos e vídeos feitos por apresentado em 2007 no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, onde 169

feirantes ou motoboys; divulgação de notícias de interesse local, como no projeto pessoas passeavam olhando a câmera do celular e visualizando diversos
Alô Cidadão!; jogos de rua, como Senhor da Guerra ou Alien Revolt; mapas de personagens que representavam frequentadores históricos do parque. O projeto
inscrições ou problemas sociais, como Stickers Map, Wikicrimes ou CitIX; estímulo funde passado e futuro, realidade física e eletrônica. Invisíveis poderia muito bem
a conexão de pessoas, como o GPSface. Vejamos essas experiências a partir das colocar personagens históricos no ambiente do mercado, criando um sentido de
cinco categorias propostas. história e pertencimento.
Já o grupo carioca Hapax realizaria suas performances sonoras e
deambulações pelo espaço do mercado, com celulares, computadores e GPS.
A performance Burro sem Rabo (2006)33, mesclando alta tecnologia e sucata,
produz uma onda sonora no espaço urbano de acordo com o deslocamento do
veículo. O posicionamento é controlado pelo GPS e convertido em sons. O DJ
é o percurso.
Trabalhos de teleintervenção por dispositivos móveis poderiam criar tensões
entre o espaço publicitário e a produção de conteúdo dos visitantes do mercado.
Locative Painting: trabalho
Poétrica (2002)34, de Giselle Beiguelman, propunha, através da web ou de telefones
de Martha Gabriel que usa
o CEP como forma de 34 http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/survivall.
identificar o lugar a partir 35 www.andrelemos.info/identite.
de onde usuários do site 36 www.locativepainting.com.br.
do projeto disparam 37 www.gpsart.net.
Imagem Retirada do Website do Projeto pinceladas geolocalizadas 38 http://hapax.com.br/performances/burro-sem-rabo.
39 www.poetrica.net.
celulares, inscrições em painéis eletrônicos urbanos que dialogam com o entorno, O projeto Sticker Map (2008)37, de alunos da Pontifícia Universidade Católica
a Radial Leste, em São Paulo. Da mesma forma, em Egoscópio (2002)35, a artista de São Paulo (PUC-SP), utiliza redes sem fio, mapeamento e QR Codes para
explora o fluxo de informações da internet e convida o público a des/organizar a destacar os stickers das ruas de São Paulo. O mapeamento fotográfico foi realizado
autobiografia coletiva do personagem-título. Os endereços dos sites enviados na Avenida Paulista em 2008, usando redes Wi-Fi ou 3G para fazer o upload em
foram projetados num painel eletrônico na Avenida Brigadeiro Faria Lima, também tempo real com coordenadas GPS. Depois, foram colocados QR Codes, que
em São Paulo. Algo similar poderia ser pensado para o mercado, onde inscrições direcionam o visitante para o mapa na web. Esse tipo de ação poderia ser feito na
do público ocupariam painéis publicitários, criando tensões entre o mercado e o região do mercado, registrando inscrições urbanas e adicionando mais um
“mundo da vida”. elemento para a produção de informações ligadas ao mercado.
WikiCrimes (2007)38 e CitIX (2007)41 mapeiam crimes em regiões do Brasil. O
MAPEAMENTO CitIX tem como base a cidade de Recife, permitindo que os usuários acrescentem
Podemos citar, nesta categoria, cinco trabalhos — dois artísticos e três mais comentários sobre locais da cidade. O projeto conta com uma parceria entre o
voltados para produção de conteúdo. Os dois primeiros são os projetos Motoboys Ministério Público Federal e o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife
e Sticker Map, e os outros três são o WikiCrimes, o CitIX e o Wi-fi Salvador. (CESAR). O WikiCrimes, desenvolvido na Universidade de Fortaleza (Unifor), tem o
O projeto Motoboys (2007), do Zex36 poderia muito bem ser adaptado para o mesmo objetivo, só que para todo o território nacional. Já o Wi-fi Salvador (2007)39
bairro central ao redor do mercado. Em São Paulo, os motoboys percorrem é um trabalho de mapeamento de hot spot em Salvador realizado pelo Grupo de
espaços públicos da cidade carregando consigo celulares — fotografam, filmam e Pesquisa em Cibercidade (GPC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em que
publicam, em tempo real, suas impressões. Eles usam a potência locativa para dar qualquer pessoa pode adicionar novos pontos, fazer comentários, inserir links,
sentido a seus percursos e registrar crônicas visuais do cotidiano. Imaginem fotos ou vídeos. Projetos afins poderiam ser feitos no mercado, propondo
170 ambulantes circulando pelo mercado, registrando flagrantes, criando suas mapeamentos diversos (pontos interessantes, barracas, violência etc.) com 171

próprias crônicas. comentários dos visitantes de forma aberta e participativa.40

REDES SOCIAIS MÓVEIS


As mídias locativas permitem que pessoas que se conhecem e compartilham
eventualmente um mesmo lugar possam interagir, trocar informações e até se
encontrar. No mercado em BH, pessoas poderiam encontrar amigos por meio do
GPSface (2007)41, de Cícero Silva, reforçando encontros e laços sociais. O GPSface é
uma rede social on-line que conecta pessoas ao redor do mundo, mostrando no
Google Maps a posição do interator no telefone celular.

Canal Motoboy: projeto do


artista catalão Antoni Abad MOBILIZAÇÃO INTELIGENTE
incentiva a criação de um Flash mobs, manifestações-relâmpago para realização de performances, têm sido
canal de comunicação
entre os moradores de São
apresentadas no Brasil desde 2003, como aconteceu na Avenida Paulista em
Paulo e os motoboys, novembro de 2008, em protesto contra o projeto de cibercrimes proposto pelo
como forma de modificar a
imagem negativa que eles
têm. 42 www.flickr.com/people/stickermap.
Imagem Retirada do Website do Projeto 43 www.wikicrimes.org/main.html;jsessionid=3F205FA5F00B5746C9855DDA26024B12.
44 www.citix.net/index.
40 www.desvirtual.com/egoscopio/english/tec.htm. 45 www.wifisalvador.facom.ufba.br.
41 www.zexe.net/SAOPAULO/intro.php?qt. 46 www.gpsface.com.
senador Eduardo Azeredo, em tramitação na Câmara dos Deputados. O espaço do CONCLUSÃO
mercado seria muito apropriado para esse tipo de manifestação. A fase atual do download do ciberespaço vincula mobilidade e localização,
O projeto Alô Cidadão!42, parceria entre a ONG Instituto Hartmann Regueira e o reforçando paradoxalmente o sentido dos lugares. Isso vai contra a ideia, difundida
Instituto Telemar, oferece informações sobre cidadania,43 buscando ajudar pessoas na fase do upload do ciberespaço e das mídias de massa, de que as novas
de baixa renda a encontrar emprego, obter informações locais gerais sobre cultura, tecnologias seriam desterritorializantes e apagariam o sentido de lugar,
educação, campanhas de vacinação, entre outras. Desenvolvido para os comunidade e espaço público (MEYROWITZ, 1985). As mídias locativas parecem
moradores da comunidade Pedreira Prado Lopes, em Belo Horizonte, o sistema produzir novos sentidos dos lugares.
tem se mostrado popular, com replicação das mensagens recebidas entre Vimos, neste curto artigo, a definição de mídias locativas, o download do
familiares e amigos. O uso de um sistema similar no mercado poderia muito bem ciberespaço, os novos territórios informacionais, a situação de LBT e LBS, bem
servir como ferramenta de cidadania e para organização de manifestações de como da arte locativa no Brasil. A situação nacional está em expansão, mas há
moradores e visitantes, como uma smart mob. muito por fazer. A ausência de mais experiências artísticas pode deixar um campo
aberto para intervenções apenas comerciais, que não levariam em conta o
JOGOS COMPUTACIONAIS DE RUA potencial de criação de conteúdo e de colaboração, de apropriação e
Os jogos de rua com mídias locativas no Brasil têm um desenvolvimento tímido, ressignificação dos lugares. Perigos como monitoramento, vigilância e invasão da
mais ligado a empresas como ferramenta de marketing. Não há ainda experiências privacidade também estão no horizonte. Só uma apropriação crítica, tática
artísticas que mereçam destaque. Apenas como exemplo histórico apontamos os (CERTEAU, 1984), ao mesmo tempo política, social e estética, poderá evitar a
dois mais conhecidos: Alien Revolt (2005)44 e Senhor da Guerra (2003)45. Alien instrumentalização comercial e policial das mídias locativas, que manteriam o
Revolt é uma guerra entre caçadores e aliens em que é possível, por radar, usuário na posição de simples receptor massivo.
172 identificar jogadores em um raio de até três quilômetros. Senhor da Guerra, o O mercado de rua da Avenida Afonso Pena foi usado como exemplo para 173

primeiro do Brasil, com mais de 500 mil jogadores cadastrados, é uma adaptação mostrar que um lugar real pode ser o terreno de experimentação das mídias
do clássico War: o jogador deve conquistar regiões espalhadas pelo país, desde locativas e de criação e produção social do espaço, reforçando sociabilidades e
que haja cobertura e que ele esteja fisicamente próximo ao local.46 No caso do vínculos comunitários. Entretanto, devemos salientar que o desejo de tudo
mercado, esses jogos poderiam transformar o lugar em uma esfera lúdica com encontrar e localizar é uma maneira de racionalizar o espaço e de não enfrentar as
jogos de localização ou de resolução de mistérios, ligados a questões próprias ao surpresas do inusitado, isto é, uma forma de sucumbir ao medo do desconhecido e
mercado e à região da cidade. do imponderável. Mesmo vislumbrando potencialidades com as mídias locativas,
O exemplo hipotético do mercado de rua de BH mostra a territorialização viver o mercado como ele é, se perder entre suas barracas e encontrar
informacional criada pelas mídias locativas. Como fluxo entre territorialidades, o desconhecidos ou amigos ao acaso são uma excelente maneira de se apropriar do
lugar ganharia potência comunicacional e social pela conexão e pela mobilidade espaço. A deriva sem orientação e caótica é uma forma de encontro com o espaço.
informacional. As mídias locativas atualizariam potencialidades e o mercado, A rigor, não precisamos de nenhuma ferramenta de localização ou de informação
embora diferente, continuaria a ser o mercado da Avenida Afonso Pena. “inteligente” para viver o mercado. Sem celular ou GPS me deixei levar pelas cores,
pelos aromas e pelos sons da “rádio-poste”. Flanando, fiz do mercado um lugar
também meu.

47 www.institutohr.org.br/noticias/not6_alocidadao.html.
48 Não se trata de smart mob, mas, por ser ligado à cidadania, resolvemos incluí-lo aqui.
49 www.alienrevolt.com/pt.
50 www.senhordaguerra.com.br.
51 www.inova.unicamp.br/inventabrasil/senhorwar.htm.
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Realidade mista Realidade mista

Espaço urbano Espaço urbano

ARTE 3
Interface
176pervasiva

Arquiteturas fluidas
PARTE 3 Interface pervasiva

Arquiteturas fluidas
177

ESPAÇOS URBANOS ESTUDO DE CASOS: REDES EM ESPAÇOS URBANOS


Geolocalização Geolocalização

Computação ubíqua Computação ubíqua

s_arte, mídia, games Interconexões_arte, mídia, games


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O DEBATE SOBRE PROPRIEDADE NO
ESPAÇO PÚBLICO SEM FIO
JONAH BRUCKER-COHEN

Ao transferir a sociabilidade para o âmbito das redes sem fio, a ideia de espaço
público e propriedade de recursos comunitários vem para o primeiro plano.
Apesar da percepção de esfera pública como um nivelador social que permite
a coexistência de indivíduos com diferentes experiências, a penetração das
redes nesses espaços se dá em uma brecha entre organizações comunitárias
e provedores corporativos. No sentido tradicional, a discussão de “esfera
pública burguesa”1 proposta por Jürgen Habermas define um espaço público
no qual cidadãos privados se reúnem para impedir que o Estado interfira em
empreendimentos privados e interesses públicos. A explicação de Habermas
para o conceito de opinião pública foca em como o “consenso” é formulado
179

pelos cidadãos servindo aos interesses da comunidade, e não em qualquer


intervenção patrocinada pelo governo ou Estado. No entanto, ele concorda que as
mídias de massa e o excesso de publicidade minam a esfera pública e podem ser
vistas como “publicidade manipuladora”, que, em última análise, contribui para
formar as opiniões das pessoas em seus próprios espaços. Dois aspectos-chave
caracterizam o sucesso da esfera pública: a “extensão do acesso” por cidadãos
ordinários deveria ser universal e também a “rejeição da hierarquia”, ou a tentativa
de dissolução da estratificação social. Conforme as redes sem fio pervagam espaço
adentro, ambas as condições são desafiadas.

1 HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
Particularmente, ao examinar a esfera pública, é importante discutir o de transmissão privados, públicos e comerciais (ou pagos) começam a interferir
relacionamento que Habermas delineia em sua definição de esfera pública uns nos outros. Essa encruzilhada entre espaços de redes móveis está causando
burguesa no que diz respeito ao debate sobre a ocupação do espaço público versus brechas e conflitos, particularmente no que se refere a questões de propriedade,
a ocupação do espaço privado. políticas de uso aceitáveis e instalação pública de pontos de acesso sem fio. Por
exemplo, cidadãos ficam insatisfeitos com os domínio das corporações sobre
A esfera pública burguesa pode ser entendida inicialmente como a esfera das pessoas pontos de acesso em áreas de alto tráfego, ao passo que, simultaneamente, elas se
privadas reunidas em público; elas reivindicam esta esfera pública regulamentada pela apressam para popularizar esses espaços com redes gratuitas. Enquanto isso, as
autoridade, mas diretamente contra a própria autoridade, a fim de discutir com ela as redes corporativas, com mais recursos e financiamento, estão instalando antenas
leis gerais da troca na esfera fundamentalmente privada, mas publicamente relevante, de transmissão de alta potência, que interferem nos pontos de acesso locais, livres
as leis do intercâmbio de mercadorias e do trabalho social. O meio de confrontação e de baixa potência. Essa tensão está se intensificando a ponto de novos tipos de
política foi peculiar e sem precedentes históricos: o uso público da razão feito pelos intervenção serem necessários para aliviar o choque de faixas no espectro. Há uma
intervenientes (öffentliches Räsonnement). Em nosso uso [alemão], este termo necessidade de examinar os padrões de uso e avaliar como essas tensões podem
(Räsonnement), sem dúvida, preserva as nuances polêmicas em ambos os lados: ser externalizadas para fomentar um diálogo aberto.
simultaneamente, a invocação da razão e seu desprezo desdenhoso como uma mera
compreensão descontente2.

Habermas apresentou esse cenário para explicar que, em vez de todas as pessoas
associadas a esse espaço manterem suas identidades privadas, elas se tornam
180 parte de uma consciência pública. Meyrowitz também argumenta que a 181

penetração das novas tecnologias na esfera pública levou a um sentido disperso de


identidade de grupo que não o existente antes de sua adoção. “Sustento que, pelo
fato de as mídias eletrônicas fundirem esferas públicas antes distintas, borrarem a
linha divisória entre comportamentos públicos e privados, e acentuarem os elos
tradicionais entre espaço físico e ‘lugar’ social, testemunhamos como resultado a
difusão de identidades de grupo, uma fusão de diferentes estágios de socialização
e um achatamento de hieraquias”3. Relacionando o argumento de Meyrowitz com
o caso do acesso público a pontos de internet sem fio, o acesso aberto universal
desprovido de suas conotações de hierarquia econômica e intelectual não está
tipicamente garantido. Em particular, conforme as redes sem fio tornam-se mais
pervasivas em espaços urbanos públicos e privados, a batalha pela propriedade,
pelo controle e pelo uso desses sinais, além do fornecimento de seu acesso, está se
tornando um ponto de discórdia. Uma vez que o espectro de 2.4 GHz é aberto e
sem licença e os roteadores ficam cada vez mais baratos e fáceis de configurar, os
pontos de acesso sem fio estão congestionando esse alcance limitado. Esse
aspecto é especialmente predominante em espaços urbanos densos, onde sinais

2 Ibidem, p. 42.
3 MEYROWITZ, Joshua. No sense of place: the impact of electronic media on social behavior. Nova York: Oxford
University Press, 1985, p. 8.
182

183
TRANSBORDER IMMIGRANT TOOL:
UM PROJETO ARTÍSTICO DE PERTURBAÇÃO
DA FRONTEIRA MÉXICO/EUA
RICARDO DOMINGUEZ E BRETT STAULBAUM

A fronteira entre Estados Unidos e México se moveu entre o virtual e o muito real
desde antes do nascimento dos dois Estados-nações. Isso permitiu a formação
de um arquivo profundo sobre movimentos suspeitos por essa fronteira, para
ser rastreado e catalogado — especificamente ancorado em corpos imigrantes
movendo-se rumo ao norte, e menos em corpos imigrantes movendo-se para
o sul. O perigo de se deslocar em direção ao norte através dessa fronteira não
é uma questão de política, mas de geografia vertiginosa. Centenas de pessoas
morreram cruzando a fronteira México/EUA por não serem capazes de dizer onde
183

estavam em relação ao local onde haviam estado, e qual rota precisavam seguir
para atingir seu destino com segurança. Agora, com a ascensão de sistemas de
informação geoespacial multiplamente distribuídos (como o projeto Google Earth,
por exemplo), o GPS (Sistema de Posicionamento Global) e o desenvolvimento
do Virtual Hiker Algorithm (Mochileiro Virtual) pelo artista Brett Stalbaum, torna-se
possível desenvolver ferramentas de imigração transfronteiras para que sejam
implementadas e distribuídas em celulares Nextel modificados. Isso permitirá à
geografia virtual marcar novas trilhas e rotas potencialmente mais seguras através
desse deserto do real.
As tecnologias de Sistemas de Dados Espaciais e GPS habilitaram um Inicialmente, andaríamos para o sul em direção ao México e, depois,
relacionamento inteiramente novo com a paisagem na forma de suas aplicações caminharíamos de volta rumo ao norte, nos EUA, na tradição das esculturas
para simulação, vigilância, alocamento de recursos, gerenciamento de redes andantes de Richard Long, dos gestos de psicogeografia situacionista e das obras
cooperativas e de padrões pré-deslocamento (como o algoritmo Virtual Hiker), de arte x-border do artista Heath Bunting;
modelando um algoritmo que mapeia uma trilha potencial ou sugerida para um 5) distribuição da Ferramenta para Imigrantes Transfronteiras a comunidades
(ou mais de um) mochileiro real seguir. A Ferramenta para Imigrantes de imigrantes nos dois lados da fronteira, para uso no desenvolvimento do projeto.
Transfronteiras (Transborder Immigrant Tool) adicionaria uma nova camada de Cada ferramenta receberia uma etiqueta de projeto de arte desenvolvido pelo
agenciamento a essa geografia virtual emergente, permitindo a segmentos da Electronic Disturbance Theater e pelo b.a.n.g lab (bang.calit2.net). Seria solicitado
sociedade global que geralmente estão fora dessa grade emergente de que todos os usuários devolvessem o dispositivo, uma vez que tivessem atingido
hipergeopoder de mapeamento ganhar acesso rápido e simples a sistemas GPS. com segurança um dos pontos de apoio, para atualizações e distribuição posterior.
A Ferramenta para Imigrantes Transfronteiras não iria oferecer acesso apenas a essa
economia emergente de mapeamento total, mas acrescentaria um agente Projeto financiado pelo Arts and Humanities (Transborder Grant 2007-8),
da Universidade de San Diego na Califórnia.
algoritmo inteligente que discriminaria as melhores rotas e trilhas naquele dia e Desenvolvido em parceria por Electronic Disturbance Theater e b.a.n.g lab
hora para os imigrantes cruzarem aquela paisagem vertiginosa com a maior Pesquisadores líderes: Micha Cardenas e Jason Najarro
segurança possível.

Esse projeto de arte seria desenvolvido em cinco etapas:


1) três a quatro semanas para mapear com GPS ambos os lados da fronteira
184 México/EUA; esse mapeamento nos permitiria identificar as coordenadas exatas 185

necessárias para ancorar as triangulações que delimitariam o começo e os demais


pontos para a Ferramenta para Imigrantes Transfronteiras;
2) três meses para pesquisar as redes e infraestruturas atuais e “preemptivas”
— como as atividades do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos,
os projetos de segurança de fronteiriça da Halliburton1, as atividades do controle
alfandegário e dos Minutemen2, e pontos de apoio com água/comida criados por
comunidades ao longo da fronteira — com o objetivo de aprimorar as chances de
segurança do imigrante e determinar quais dos rumos computacionalmente
mediados têm mais chance de serem úteis;
3) cinco a seis meses para desenvolver o código algorítmico da Ferramenta
para Imigrantes Transfronteiras, testar as coordenadas GPS e desenvolver
interfaces em inglês e espanhol e instruções de uso;
4) uma semana para caminhada-teste do algoritmo da Ferramenta para
Imigrantes Transfronteiras pelos principais pesquisadores e artistas convidados.

1 Empresa de serviços para campos petrolíferos que teve como presidente Dick Cheney, vice-presidente dos
Estados Unidos durante o governo de George W. Bush. Foi contratada em 2005 para construir campos de
detenção temporária nos Estados Unidos, voltados à retenção de imigrantes.
2 Milícia composta por voluntários armados, cuja atividade é caçar imigrantes ilegais que tentam transpor a
fronteira entre o México e os EUA.
186
187
EM BUSCA DE UMA PERFORMANCE DE
REALIDADE MISTA DO TAMANHO DA CIDADE
BLAST THEORY

INTRODUÇÃO
O projeto Citywide explora o potencial das tecnologias móveis de realidade mista
para criar performances que atravessam a cidade. Participantes nas ruas
experimentarão eventos que acontecem num mundo virtual paralelo, conectado e
sobreposto à cidade de várias formas. Ao mesmo tempo, participantes on-line que
estão acessando o mundo virtual pela internet vão experimentar eventos que
acontecerão nas ruas.
Citywide explora a cidade como uma área culturalmente impregnada e com
grande potencial criativo. Artisticamente, o projeto pretende articular os espaços
187

entre realidades mundanas (como andar de ônibus ou metrô) e projeções fantásticas


(em geral, derivadas do cinema e da televisão) de enredos e ações, nos quais a cidade
está inscrita por possibilidades não imaginadas. Tecnicamente, o projeto pretende
gerar novas interfaces móveis de realidade mista, capazes de servir de suporte para
interações ricas e dinâmicas entre os mundos físico e virtual, tanto em ambientes
internos quanto em ambientes externos, na escala física da cidade. A longo prazo,
somos orientados pelas amplas discussões de pesquisa listadas a seguir:

• de que forma a emergência de tecnologias móveis de realidade mista


combinadas a mudanças nos modos de percepção cultural criam
oportunidades para novas formas culturais?
• de que forma a cidade é inscrita por narrativas ficcionais, particularmente
filmes, e como isso pode ser usado para desenvolver experiências interativas ao
redor da cidade?
• como as experiências de realidade mista móvel podem ser estruturadas e que
tecnologias devem ser desenvolvidas para dar suporte a esse processo?
• que papel os artistas podem ter no desenvolvimento das tecnologias móveis tecnologias que emergiram dos primeiros workshops e fornecerem um panorama
emergentes? de Can You See Me Now?. A partir disso, discutiremos algumas das lições e
questões de design que surgiram dessas experiências.
O projeto envolve a colaboração entre o Equator, pesquisa interdisciplinar
financiada pelo Engineering and Physical Sciences Research Council (EPSRC), e o TESTANDO INTERFACES PARA A CIDADE
grupo de artistas Blast Theory. O Equator é um programa de pesquisa com duração Começamos com o problema desafiador de acessar um ambiente virtual como se
de seis anos, que investiga “o entrelaçamento entre interação física e digital”1. ele estivesse sobreposto à cidade; em outras palavras, dar suporte, nas ruas da
Iniciado em 2001, envolve pesquisadores de ciências sociais e da computação, cidade, à realidade aumentada (AR, na sigla em inglês). A abordagem arquetípica
eletrônica, psicologia, arte e design, espalhados por oito organizações acadêmicas para AR usa dispositivos “vestíveis” ou portáteis para completar uma experiência
no Reino Unido. O Blast Theory é um grupo de artistas sediado em Londres que faz do ambiente físico pelo participante. Por exemplo, é possível utilizar um
apresentações ao vivo em teatros, clubes, galerias e ruas2. Os quatro membros do computador vestível com dispositivos especializados de entrada e saída e
Blast Theory desenvolveram projetos cross-platform com tecnologia de mecanismos de rastreamento (como um capacete que funciona como tela). Isso
computação e vídeo. Seus trabalhos anteriores incluem 10 Backwards, Kidnap e permite aos participantes receber ou recuperar informações relevantes ao
Something American. contexto, sobrepostas à experiência física normal dos espaços e/ou artefatos.
Citywide leva adiante a colaboração anterior entre o Blast Theory e os Como alternativa, eles podem carregar um dispositivo portátil. Uma aplicação
pesquisadores de Nottingham, que resultou em Desert Rain, uma performance de típica para esse tipo de sistema foi a produção de guias eletrônicos, em que
realidade mista em que, a cada vez, seis participantes interagiam em um ambiente visitantes recebem informações sobre o lugar em que se encontram. Essa classe de
colaborativo virtual, projetado numa “cortina de chuva, uma tela criada com jatos produto vai de sistemas baseados em museus5 a guias de cidades e regiões mais
188 d’água que podia ser atravessada pelos participantes e performers (mais amplas6. 189

conceitualmente, um exemplo de “interface transpassável”). Estudos etnográficos Experiências anteriores com realidade aumentada em espaços externos
de Desert Rain, em sua turnê pela Europa, levaram a insights sobre o processo de resultaram em um número de desafios de design de solução complicada. Por
orquestração — o modo como performers e equipe modelaram as experiências dos exemplo, Azuma7 descreve monitores de difícil visualização na presença de luz
participantes e como as tecnologias envolvidas ajudaram e obstruíram esse solar, rastreadores com precisão variável e limites para a portabilidade,
processo3. especialmente em função das especificações de energia.
O novo projeto Citywide está ativo desde 2001. A primeira fase (de fevereiro a Nossas primeiras oficinas do projeto Citywide exploraram a forma de criar
outubro de 2001) compreendeu uma série de oficinas intensivas, com duração de performances diante dessas restrições. Também proporcionaram sessões de
uma semana, para propor e rapidamente testar diferentes técnicas e tecnologias brainstorming e modelaram abordagens alternativas para aumentar as ruas da
para sobrepor um ambiente virtual na cidade. A fase seguinte envolveu uma cidade, de modo que pudessem ser especialmente talhadas para aplicações
primeira performance pública chamada Can You See Me Now?4, encenada em artísticas. A seguir, descrevemos brevemente seis interfaces que emergiram desses
Sheffield, em 30 de novembro e 1º de dezembro, como parte do Shooting Live workshops iniciais:
Artists, uma nova iniciativa estratégica entre Arts Council England, BBC, Studio of
the North e b.tv, estes dois últimos ligados à Yorkshire Media Production Agency. • o uso de orelhões para criar túneis de áudio entre mundos físicos e virtuais;
Neste artigo, resumiremos o progresso de Citywide até hoje, apresentamos as
5 BENELLI, Giuliano; BIANCHI, Alberto; MARTI, Patrizia; NOT, Elena e SENNATI, David. “HIPS: Hyper-interac-
1 www.equator.ac.uk. tion within physical space”. In: IEEE International Conference on Multimedia Computing and Systems (ICMCS’99).
2 www.blasttheory.co.uk. Washington: IEEE Computer Society, 1999, v. 2, p. 1075.
3 KOLEVA, Boriana; TAYLOR, Ian; BENFORD, Steve; ROW-FARR, Ju; ADAMS, Matt, et al “Orchestrating a mixed 6 CHEVERST, Keith et al. “Developing a context-aware electronic tourist guide: some issues and experiences”.
reality performance”. In: Proceedings of the SIGCHI Conference on human factors in computing systems. Nova York: In: Proceedings of the CHI 2000 Conference on human factors in computing systems. Nova York: ACM, 2000, p. 17-24.
ACM, 2001, p. 38-45. 7 AZUMA, Ronald. “The challenge of making augmented reality work outdoors”. In: OHTA, Yuichi e TAMURA,
4 www.canyouseemenow.co.uk. Hideyuki (ed.). Mixed reality: merging real and virtual worlds. Tóquio/Nova York: Ohmsha/Springer, 1999.
• a extensão deles para telefones móveis; túnel de áudio entre os mundos físico e digital.
• a combinação de PDA, dispositivo de GPS e redes sem fio para criar um
medidor de atividade digital, uma interface para localizar pontos ativos em TÚNEIS DE ÁUDIO USANDO CELULARES
mundos virtuais paralelos e exibi-los numa tela de radar; Os telefones celulares são amplamente utilizados, em especial na Europa, na
• um segundo medidor de atividade digital que produz uma “sonificação”, América do Norte e na Costa do Pacífico. Assim como os telefones fixos, são
gerando áudio em vez de exibição visual; tecnologias já estabelecidas, que podem ser apropriadas para dar suporte à
• uma tela portátil montada sobre tripé chamada “augurscópio”, pela qual os realidade aumentada, no lugar de um dispositivo completamente novo. Em nosso
usuários podem enxergar atividades virtuais em espaços externos; segundo protótipo, um celular foi acessado do mundo virtual do mesmo modo que
• a projeção de um mundo virtual no espaço público, na forma de sombras no exemplo anterior — ou seja, um participante virtual pôde efetuar uma chamada
virtuais. para um telefone celular ao chocar-se com ele. Além disso, equipando o aparelho
com uma tecnologia de rastreamento, foi possível que mudanças em sua posição
Cada interface estabelece um tipo de relacionamento entre o ambiente físico e um se refletissem no mundo físico. Como resultado, o usuário do telefone celular pôde
mundo virtual sobreposto. E cada uma responde de maneira diferente a um se deparar com objetos virtuais enquanto se movia pela cidade, ou encontrar
espectro de questões secundárias de design, como será discutido mais adiante. outros participantes e receber chamadas deles.
Há trabalhos em andamento sobre o posicionamento de telefones usando apenas
TÚNEIS DE ÁUDIO USANDO ORELHÕES a amplitude do sinal de rádio de
Em nosso primeiro protótipo de interface, um usuário on-line, movendo-se por um sua rede para, por exemplo,
mundo virtual, aproxima-se de um orelhão virtual. Essa aproximação permitir serviços de emergência
190 automaticamente dispara uma ligação para o orelhão físico correspondente, em ligações locais; contudo, essa 191

estabelecendo um canal de áudio entre ele e a parte análoga do mundo virtual informação geralmente não está
paralelo. A figura 1 mostra um avatar se aproximando do telefone no mundo virtual disponível (por motivos de
para fazer uma chamada. segurança e privacidade). Em vez
disso, a abordagem que testamos
Esse exemplo mostra que a realidade aumentada pode explorar dispositivos baseou-se no uso de um receptor
que já estão inseridos no mundo físico GPS e um PDA (um PalmPilot),
como uma forma de permitir aumentos. conectados a um telefone celular,
Figura 2: telefone celular com PDA e receptor GPS
Orelhões são um componente que notifica o mundo virtual por
estabelecido em muitas paisagens meio de uma mensagem SMS
urbanas, permitindo uma ponte potencial quando o celular se move fisicamente. A figura 2 mostra o equipamento móvel
entre espaços físicos e virtuais. As carregado pelo usuário (à esquerda) e uma imagem correspondente de seu avatar em
localizações de orelhões podem ser um ambiente virtual (à direita) em que o túnel de áudio está ativo (conforme indicado
determinadas com antecedência e usadas pela presença da pirâmide amarela sobre sua cabeça).
para permitir atividades no mundo virtual,
as quais serão ouvidas no mundo físico. UM MEDIDOR DE ATIVIDADE DIGITAL COM TELA DE RADAR
Imagens Cedidas pelo Blast Theory
Essa comunicação também pode ocorrer Há vários dispositivos, na ficção e na realidade, especialmente elaborados para
Figura 1: usuário virtual se aproxima de
um orelhão para estabelecer um túnel em duas vias, com a informação em áudio situar objetos, lugares e atividades no mundo físico. Contadores Geiger são usados
de áudio com o mundo físico do orelhão ficando disponível para para localizar fontes de radioatividade; medidores de energia psicocinética são
usuários virtuais. O resultado cria um utilizados por investigadores paranormais para detectar presenças e atividades de
outro mundo; e medidores de resistividade são empregados por arqueólogos para sua posição atual no mundo virtual, de acordo com o rastreamento GPS.
localizar artefatos e prédios históricos.
Inspirados por esses aparelhos, criamos dois “medidores de atividade digital” O “AUGURSCÓPIO” — UMA TELA PORTÁTIL SOBRE TRIPÉ
portáteis. Eles avisam o usuário no caso de atividade digital próxima, como avatares O augurscópio (figura 5) é uma interface portátil de realidade aumentada para uso
ou objetos virtuais em um mundo virtual paralelo. Essas interfaces são projetadas por grupos pequenos em lugares abertos (interiores ou exteriores)10. É utilizado
para dar suporte a atividades de busca — permitem, por exemplo, que um para visualizar, diretamente, mundos
participante se hospede em conteúdos digitais dentro de paralelos virtuais, como após a localização
um espaço mais amplo, porém menos aumentado, como de conteúdos particulares por meio de um
uma cidade. Figura 4: medidor de atividade digital.
localizando
Nosso primeiro protótipo combina um PDA (um O augurscópio consiste em um laptop,
parte de uma
Compaq iPAQ), um receptor GPS para determinar a tigela virtual montado sobre um tripé. Um receptor GPS
posição física do usuário, e uma rede sem fio 802.11b (para uso externo) e um compasso eletrônico
para comunicação com o servidor do mundo virtual. Ele fornecem informações de localização global.
fornece ao usuário uma tela em estilo radar, que aponta Um acelerômetro e um codificador rotatório
posições relativas de artefatos e avatares próximos no permitem que o ponto de vista virtual seja
mundo virtual. A figura 3 mostra o radar indicando a manipulado interativamente por movimentos
Figura 3: medidor de presença de dois avatares próximos, simbolizados por do dispositivo físico sobre o tripé. De acordo
atividade digital, com
tela do radar virtual pontos no círculo central. com o movimento, a tela do laptop muda para
192 exibindo avatares exibir a vista equivalente do mundo virtual, 193
próximos
UM MEDIDOR DE ATIVIDADE DIGITAL COM possibilitando aos usuários visualizar o mundo
TELA SONORA virtual ao lado da parte correspondente do
Nosso segundo protótipo emprega um medidor abstrato de áudio em vez de gráficos mundo físico. O augurscópio é um dispositivo
2D para dar ao usuário informações sobre objetos virtuais próximos. Cada um desses público projetado para que um pequeno
objetos é associado a seu próprio som. Conforme eles se movem pelo ambiente grupo de usuários possa se reunir em torno de
físico, o usuário ouve uma mistura de tons que indica a sua proximidade relativa uma vista para um mundo virtual. Nossa
Figura 5: o augurscópio em uso
(cada som aumenta em volume e frequência quando o objeto se aproxima). primeira aplicação-teste teve como proposta
A busca é geralmente um elemento único de sistemas de realidade aumentada do permitir que membros do público vissem um
tipo guia ou propósito geral (como descrito por Cheverst8). Em contrapartida, essas modelo 3D do castelo medieval de Nottingham conforme eles se movimentavam em
interfaces permitem procurar uma atividade em si, e buscar pode ser tão significativo torno do lugar onde está seu primeiro substituto do século XVIII11.
quanto encontrar. Um teste inicial da aplicação foi baseado em uma experiência de
arqueologia virtual, em que usuários procuraram artefatos virtuais “escondidos”, e os SOMBRAS VIRTUAIS COMO PROJEÇÕES PÚBLICAS
“trouxeram de volta” a uma instalação física para vê-los em detalhe9. A figura 4 mostra Nosso protótipo final de interface foi inspirado nas sombras do dia a dia. Elas
dois usuários no mundo físico (à esquerda), buscando um objeto virtual — um proporcionam projeções indiretas de atividades e objetos físicos em superfícies
fragmento de tigela — no mundo virtual paralelo (à direita). O avatar à direita mostra públicas, tipicamente ambientes externos, formando figuras ao mesmo tempo

8 CHEVERST, Keith et al. Op. cit. 10 SCHNÄDELBACH, Holger et al. “The augurscope: a mixed reality interface for outdoors”. In: Proceedings of the
9 BENFORD, Steve; BOWERS, John et al. “Unearthing virtual history: using diverse interfaces to reveal hidden SIGCHI conference on human factors in computing systems: changing our world, changing ourselves. Nova York: ACM,
virtual worlds”. In: Ubicomp 2001: ubiquitous computing. Berlim: Springer, 2001, Série Lecture Notes in 2002, p. 9-16.
Computer Science. 11 SCHNÄDELBACH, Holger et al. Op. cit.
familiares e distorcidas (e potencialmente de estética interessante). Em momentos atraente e também para explorar questões a respeito do desdobramento público.
anteriores, vários artistas incorporaram sombras como telas secundárias de Era central para Can You See Me Now? o relacionamento entre os até vinte
atividade virtual em instalações reais (ver, por exemplo, a instalação de 1995 de jogadores on-line (membros do público usando a internet), que se moviam pelo
Char Davies chamada Osmose)12. mapa de Sheffield, e os três corredores (membros do Blast Theory), que se
Nossas oficinas resultaram em experiências com sombras virtuais, projeções de deslocavam pelas ruas de Sheffield. Os corredores perseguiam os jogadores. E
mundos virtuais em espaços públicos que são deliberadamente simplificados e estes evitavam ser “vistos”.
distorcidos (como uma sombra) para propiciar um sentido de presença e atividade A experiência dos jogadores começava na homepage de Can You See Me Now?,
virtual sem a necessidade de posicionamento preciso ou gráficos 3D sobrepostos. na qual eles escolhiam um nome para si mesmos como resposta à mensagem
O objetivo primeiro é criar um ambiente ou uma tela impressionista, “Quem você está procurando?”. Eles, então, juntavam-se à fila do jogo e,
particularmente voltada a passantes e grupos maiores ou multidões, que não são finalmente, de lá eram soltos no mapa de Sheffield. Os jogadores usavam as setas
tipicamente dirigidos pelas interfaces AR atuais. Uma projeção de sombra pode ser do teclado para se mover pelo mapa e não podiam sair dele nem entrar em prédios
percebida como um panorama numa localização particular dentro de um mundo sólidos e outras áreas restritas.
virtual, o qual é, então, projetado em um lugar (público) que normalmente O jogador era representado por um par de ícones no mapa. Um ícone branco
corresponde a sua localização virtual. Conforme os usuários e objetos se movem no simples mostrava sua posição naquele momento, de acordo com o cliente local,
mundo virtual, as sombras projetadas no mundo físico mudam, seguindo o mesmo fornecendo informações imediatas sobre seu movimento. Um ícone azul indicava
padrão de movimento. Por exemplo, conforme meu avatar passa por um lugar sua posição em relação ao servidor do jogo, movendo-se no rastro do ícone branco
específico numa rua virtual, sua sombra aparece na localização correspondente na com uma defasagem de alguns poucos segundos (em função do atraso na
rua física. Sombras virtuais podem ser complementadas por projeções sonoras que comunicação entre o cliente e o servidor na internet, e do tempo necessário para
194 transmitam a atividade em áudio de objetos virtuais enquanto eles passam. processar os movimentos dos jogadores no servidor). Outros jogadores eram 195

A figura 6 mostra um exemplo de projeção de sombras virtuais de avatares na lateral representados por ícones azuis. Já os corredores apareciam como ícones laranjas.
de um prédio alto. Essas sombras foram projetadas à distância de aproximadamente Cada jogador podia trocar mensagens de texto com os demais. Além disso, o
200 metros, usando-se um projetor equipado com lente de longo alcance. áudio dos walkie-talkies dos corredores era transmitido para os jogadores pela
Ao contrário da maioria das interfaces descritas até agora, os dispositivos que internet para que eles pudessem ouvir suas comunicações (o que, claro, era um
produzem projeções de sombras são tipicamente fixos e embutidos no ambiente, e diálogo encenado, criado deliberadamente como parte da performance). Os
não móveis. No entanto, também experimentamos uma abordagem intermediária jogadores continuavam a se deslocar e a enviar torpedos até que um corredor
(semimóvel), rodando projetores e PCs da parte traseira de uma van estacionada, chegasse perto o suficiente para que eles fossem vistos. Nesse ponto, eram
por meio de um gerador de energia. Outra possibilidade seria usar projetores e
câmeras direcionáveis, conforme descrito por Pinhanez13.

CAN YOU SEE ME NOW?


Após nossas oficinas exploratórias iniciais, a segunda fase do projeto Citywide consistiu
na montagem de uma primeira performance pública, chamada Can You See Me Now?
[Você pode me ver agora?]. Nossa intenção era escolher uma abordagem para criar
uma performance de realidade mista do tamanho da cidade, refiná-la e testá-la
publicamente, para determinar se poderíamos criar uma experiência excitante e Figura 6 (acima): sombras virtuais
projetadas em um edifício
12 www.immersence.com.
13 PINHANEZ, Claudio. “Using a steerable projector and camera to transform surfaces into interactive displays”. Figura 7 (à direita): tela da interface vista
In: CHI 2001 Extended abstracts on human factors in computing systems. Nova York: ACM, 2001, p. 369-70. pelos jogadores
removidos do jogo (mesmo que pudessem entrar novamente na fila). A interface participaram pela internet. Desses, 135 foram pegos, 76 saíram e 3 nunca foram
dos jogadores foi implementada como um filme shockwave conectado a um pegos. A melhor “pontuação” (tempo sem ser pego) foi 50 minutos. A pior foi 13
servidor FuseLite em Nottingham. A figura 7 mostra uma tela da interface dos segundos.
jogadores a partir de um cliente shockwave. O mecanismo primário para obter retorno do público foi o website. Além disso,
Os corredores também viam o mapa de Sheffield mostrando suas posições, dois etnógrafos observaram brevemente a performance de sábado, tomando notas e
assim como a posição dos jogadores e suas mensagens de texto. Ao contrário do fazendo filmagens para análise posterior. Também preparamos nosso software para
mapa dos jogadores, o dos corredores permitia dar zoom entre uma posição global registrar todos os movimentos dos jogadores e corredores, de forma que depois eles
e o close de uma visão local, centralizada com base em sua posição naquele pudessem ser estatisticamente avaliados. No momento da redação deste artigo, a
momento. Essa interface foi fornecida a eles num Compaq iPAQ a partir de um análise etnográfica e estatística ainda está em andamento. Todavia, nossa percepção
servidor em um prédio vizinho, por meio de uma rede local 802.11b. A performance inicial (e informal), apoiada em algum retorno do público, é de que houve momentos
aconteceu numa área de Sheffield de mais ou menos 1,3 quilômetro quadrado, que em que a experiência foi genuinamente excitante para os jogadores on-line (ela
consistia em uma mistura de espaços abertos e ruas estreitas, cortadas por prédios certamente o foi para os corredores!). Nas palavras de dois jogadores:
altos. Para estabelecer uma rede sem fio com amplitude e
cobertura suficientes, tivemos de colocar uma antena omni de Joguei e achei que foi fantástico. Fui realmente tomado pela adrenalina, o que me
alta potência e com 8 metros de altura no topo de um prédio, e surpreendeu.
complementá-la com uma omni aérea menor e de menos
potência, de modo a reforçar a cobertura no nível das ruas. Um Só consegui chegar ao mapa uma vez, por cerca de quinze minutos. Não lembro o
receptor GPS plugado na porta serial do iPAQ rastreava a nome que usei, mas foi bastante enervante ouvi-lo pela primeira vez.
posição dos corredores enquanto eles se moviam pelas ruas 197

— essa informação era enviada para o servidor por meio da rede A seguir, vamos explorar mais profundamente alguns fatores que contribuíram
sem fio. A dupla iPAQ e GPS foi fixada em uma prancha de para isso, assim como outras questões de projeto que emergiram em Can You See
madeira que podia ser colocada numa sacola plástica para Me Now? e nos primeiros workshops.
aumentar a rugosidade, facilitar o transporte e permitir proteção
mínima contra umidade. Os corredores também usaram walkie- QUESTÕES EMERGENTES
Figura 8: um corredor talkies com fones de ouvido e microfones, e carregaram câmeras Citywide é claramente um trabalho em progresso. Esta seção reflete sobre algumas
digitais para fotografar os lugares em que cada jogador era das principais lições aprendidas até agora.
pego. As imagens resultantes estão sendo usadas para construir
um arquivo final no site dessa performance. A figura 8 mostra COMBINANDO DIFERENTES INTERFACES
um dos corredores com o kit, pronto para partir. Já a figura 9 Começamos por refletir sobre as funções potenciais das várias interfaces testadas
apresenta a interface do mapa de um corredor a partir de um até hoje para a criação de performances espalhadas pela cidade. De diferentes
iPAQ. formas, cada interface chama a atenção para um conjunto de questões de design:
A performance aconteceu entre 17h30 e 21h da sexta-feira
13 de novembro (período de escuridão em Sheffield nessa • que tipo de atividade essa interface suporta melhor (por exemplo, alertar um
época do ano) e no sábado 1º de dezembro, em dois horários, participante sobre uma atividade virtual nos arredores, buscar atividades numa
das 13h às 14h30 e das 15h30 às 17h (a maior parte do tempo área maior, observar essa atividade, ou servir como uma tela periférica para
sob a luz, com a escuridão começando apenas no final do transeuntes)?
Figura 9: interface de um período). Portanto, ao todo foram seis horas e meia de tempo • quantos usuários compartilham a interface ao mesmo tempo (seu uso
iPAQ exibida aos corredores de performance ao vivo. Durante esse tempo, 214 jogadores poderia ser individual, por pequenos grupos ou por uma multidão)?
• é uma facilidade tecnológica a qual se espera que os participantes tragam ORQUESTRAÇÃO
consigo, está disponível no ambiente ou trata-se de uma tecnologia Em Computers as theatre, Brenda Laurel propôs uma abordagem para interação na
desenvolvida sob medida, que será fornecida por seus produtores? qual computadores são considerados uma forma de teatro em vez de uma
• a interface está fixada no ambiente ou é móvel e, portanto, pode ser ferramenta, e em que o foco do projeto é envolver os usuários com conteúdo e não
transportada pelos participantes? com tecnologia14. Desse modo, Laurel descreveu como várias atividades de
• que rede e sistema de rastreamento são usados e como o dispositivo é bastidores são necessárias para manter o engajamento e orquestrar as
alimentado? experiências de usuários. As performances mediadas por computadores são, por
certo, literalmente computador como teatro — e, assim, é preciso enfrentar de
túnel de áudio túnel de áudio augurscópio medidor de medidor de sombra fente a questão da orquestração de frente.
orelhão celular atividade visual atividade sonora
Experiências anteriores com programas de TV e teatro exibidos on-line, em
atividade Alertar/Ouvir Alertar/Ouvir Alertar/Ouvir Buscar Buscar Periférico
ambientes virtuais colaborativos, desenvolveram ferramentas de orquestração que
número de Individual Individual Grupo Individual Grupo Multidão permitem à equipe de produção monitorar e interferir nas atividades do mundo
usuários virtual15, 16. Estudos etnográficos de Desert Rain revelaram como os performers
disponível/ Dispon. Dispon. Forn. Forn. Dispon./Forn. Forn. podem monitorar eventos, intervir e comunicar, tanto em espaços virtuais como
fornecido
fixo/ móvel Fixo Móvel Móvel Móvel Móvel Fixo
físicos, para orquestrar performances de realidade mista17. Esses processos
tornaram-se mais complexos nas performances de Citywide por causa da natureza
rede Telefone em rede Celular / SMS 802.11 LAN 802.11 LAN 802.11 LAN Internet sem fio distribuída dos participantes e dos espaços pelos quais eles se movem —
participantes físicos podem estar espalhados pela cidade e participantes on-line
rastreamento Nenhum GPS GPS + acelerador GPS GPS Nenhum
198 rotatório podem estar em qualquer lugar na internet. Movimentos pela cidade duram um 199

energia Própria Bateria Bateria Bateria Bateria Principal/gerada tempo potencialmente longo e imprevisível, o que se soma à dificuldade de
coordenar ações.
Para orquestrar Can You See Me Now?, criamos uma sala de controle em
Propomos que uma performance espalhada pela cidade precisa combinar um Sheffield, de onde o evento era gerenciado. Estas eram algumas das tecnologias de
amplo espectro de dispositivos em apenas uma experiência, para integrar monitoramento:
diferentes tipos de participantes e atividades (como a opção entre atrair
transeuntes para que se envolvam versus dar suporte a participantes ativos que • interface dedicada ao gerenciamento de jogo, que mostrava a posição de
estão em busca de conteúdo virtual) e identificar restrições locais em diferentes todos os jogadores e corredores no mapa;
partes da cidade (o GPS funciona bem? Este lugar é uma ilha com conexão • computador monitorando informação GPS dos corredores e outro
802.11b? Tem fonte de energia disponível?). Por exemplo, as projeções de sombra monitorando a força de seus sinais LAN;
e os orelhões podem fornecer aos passantes alguma amostra da experiência ou • laptop rodando com um jogador-padrão, de modo a permitir que as pessoas
atraí-los para dentro. Interfaces baseadas em celulares podem, então, permitir que presentes na sala de controle entrassem no jogo.
eles naveguem para locais-chave na cidade, onde interfaces elaboradas sob
medida oferecem uma experiência mais rica do mundo virtual. Em contrapartida, 14 LAUREL, Brenda. Computers as theatre. Upper Saddle River: Addison-Wesley, 1993.
essa abordagem requer o suporte de uma plataforma de software que seja capaz 15 DROZD, Adam et al. “Collaboratively improvising magic: an approach to managing participation in an
on-line drama”. In: European conference on computer-supported cooperative work (ECSCW’01). Norwell: Kluwer, 2001,
de integrar diferentes tipos de interfaces fixas e móveis com um mundo virtual. A p. 159-78.
plataforma para esta finalidade está atualmente sendo desenvolvida pelo Equator, 16 GREENHALGH, Chris M.; BENFORD, Steve; TAYLOR, Ian; BOWERS, John; WALKER, Graham e WYVER, John.
“Creating a live broadcast from a virtual environment”. In: Proceedings of the 26th Annual Conference on Computer
o que pode ser observado em seu site.
Graphics (SIGGRAPH’99). Nova York: ACM, 1999, p. 375-84.
17 KOLEVA, Boriana; TAYLOR, Ian; BENFORD, Steve; ROW-FARR, Ju; ADAMS, Matt et al. Op. cit.
Os corredores usaram uma segunda frequência nos walkie-talkies para O áudio desempenhou dois papéis vitais em Can You See Me Now?. Primeiro,
comunicação privada com a sala de controle, não transmitida aos jogadores. foi o mecanismo primário por meio do qual os performers provocaram suspense e
Telefones celulares foram utilizados como segunda opção e também para contato excitação nos jogadores (como observado no segundo depoimento do intertítulo
com a base em Nottingham. Intervenções eram possíveis pela interface de Can You See Me Now?). Segundo, os performers usaram o áudio para descrever o
gerenciamento do jogo (em ações como a remoção de um jogador), pelo áudio cenário das condições nas ruas de Sheffield. Conversas por walkie-talkies foram
transmitido ou pela entrada de um membro do time de controle no jogo. Um time construídas deliberadamente para mostrar, por exemplo, a presença de trânsito,
de controle típico incluía uma pessoa monitorando o jogo, uma monitorando as morros, muros e outros obstáculos do mundo real. Os performers também
redes GPS e LAN sem fio, e uma terceira responsável por ajudar os jogadores com escolheram revelar aspectos de infraestrutura, como imprecisões nas informações
os kits conforme eles entravam no jogo e por trocar regularmente as baterias de rastreadas por GPS ou problemas com bateria. Jogadores que estivessem sensíveis
seus dispositivos sem fio. a essa performance podiam usar tais dicas para afinar e ajustar sua táticas
Ao avaliar essa configuração, acreditamos que poderia ter sido melhorada em adequadamente (como atravessar ruas ou subir morros). Nesse caso, o fluxo de
vários aspectos. Não havia, provavelmente, informação disponível suficiente sobre áudio compensava a falta de detalhes no mapa. Todavia, todos os mapas e
o número de pessoas pedindo para entrar no jogo e sobre seu status (ter mais modelos 3D, não importando quão detalhados fossem, são abstrações da
informações poderia ter apontado antecipadamente alguns problemas no realidade; logo, o uso de áudio em tempo real parece oferecer, dessa forma, uma
servidor). O gerenciamento de bateria para os corredores foi a principal dor de maneira efetiva e dramática de condições de comunicação em solo para uma série
cabeça, e dados de telemetria que mostrassem sua disponibilidade de energia de aplicações performáticas.
teriam ajudado.
Olhando para o futuro, seria interessante explorar interfaces de orquestração RESUMO E TRABALHO FUTURO
200 mais integradas (como uma projeção compartilhada na sala de controle, Até agora, nosso trabalho gerou novas interfaces de realidade mista para 201

mostrando o status dos corredores e jogadores de maneira mais integrada). Outra exteriores; identificou questões-chave a ser abordadas na encenação de
possibilidade é trabalhar com interfaces móveis de orquestração que possam performances de larga escala; e nos convenceu de que é possível criar experiências
cobrir uma área mais ampla da cidade. Chegamos a experimentar brevemente excitantes baseadas no relacionamento entre participantes on-line e outros nas
uma interface do tipo em nossos primeiros workshops, quando foi oferecida uma ruas da cidade. Os passos para o futuro envolvem mais duas performances
rede 802.11b de uma van (uma “LAN em uma van”) e participantes foram públicas. A primeira, Bystander, foi planejada para ocorrer em Duisberg,
monitorados nas ruas, por GPS, a partir da interface de um laptop. Alemanha, em junho de 2002, como parte do festival Theater der Welt. Os planos
atuais são colocar as interfaces móveis nas mãos do público e criar uma
A IMPORTÂNCIA DO ÁUDIO EM TEMPO REAL experiência mais variada com base em uma viagem pela cidade. Planejamos,
As apresentações teatrais e programas de TV on-line anteriores demonstraram a então, migrar para uma performance que cubra toda uma cidade, a ser realizada
importância crítica do áudio em tempo real como um meio primário através do em Londres, em 2003.
qual a performance é alcançada e o conteúdo, transferido para eventos on-line18.
Isso se deve, talvez, à natureza empobrecida dos gráficos 3D em tempo real em REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ADICIONAL
comparação à riqueza do filme e do vídeo; os avatares ainda são bastante duros, o HÖLLERER, Tobias et al. “Exploring MARS: developing indoor and outdoor user interfaces to a mobile aug-
que torna a voz o principal meio de expressão. Estudos de Desert Rain apontaram mented reality system”. In: Computers & Graphics. Mariland Hights: Elsevier Publishers, 1999, v. 23, p.
um segundo papel para o áudio: um meio pelo qual os performers podem emitir 779-85.
instruções aos participantes inseridos em uma performance dramática, e
sutilmente orquestrar sua experiência.
Este trabalho foi apoiado pelo Engineering and Physical Sciences Research Council (EPSRC) através da Equator,
pela EU através do projeto Shape (como parte da Disappearing Computer Initiative) e pelo Arts Humanities Re-
18 DROZD, Adam et al. Op. cit. search Board através da bolsa AR13714.
202

203
KIT DE FERRAMENTAS PARA UM JARDIM SONORO TÁTICO
[TSG, TACTICAL SOUND GARDEN]
MARK SHEPARD

Dada a ubiquidade dos dispositivos móveis e das redes sem fio, e sua proliferação
por áreas urbanas cada vez mais diversas e, às vezes, inesperadas, que
oportunidades — e dilemas — emergem para o projeto de espaços públicos nas
cidades contemporâneas?
O Tactical Sound Garden (TSG) é uma plataforma de software livre para o cultivo
de jardins sonoros em cidades contemporâneas. Apoia-se na cultura da jardinagem
comunitária para oferecer um ambiente participativo no qual podem ser
exploradas e avaliadas novas práticas espaciais para interação social em ambiente
mediado tecnologicamente. Levando em conta o impacto de aparelhos de áudio
como o iPod, o projeto examina gradações de privacidade e publicalidade no
203

âmbito do espaço público contemporâneo.


O kit de ferramentas TSG permite a qualquer pessoa que viva em hot zones com
conexão sem fio 802.11 (Wi-Fi) instalar um jardim sonoro para uso público.
Utilizando um aparelho móvel com Wi-Fi ativo (PDA, laptop, telefone celular), os
participantes plantam sons dentro de um ambiente de áudio posicional. Essas
plantações são mapeadas de acordo com as coordenadas de sua localização física
por um mecanismo de áudio 3D comum a jogos de computador — sobrepondo
uma paisagem sonora construída publicamente a um espaço urbano específico.
Com fones de ouvido conectados a um aparelho com Wi-Fi ativo, os participantes
flutuam por jardins sonoros virtuais plantados por outros conforme se movem pela
cidade.
O SOM E A CIDADE funciona de maneira muito diferente da visão ao longo da vida cotidiana do
A dimensão sonora das cidades ainda não foi devidamente examinada em terrenos habitante mediano das cidades. Não precisamos dirigir nossa atenção a sua fonte
públicos. Atualmente, na maioria das vezes, pensamos em como as cidades são para ouvi-lo. Se a visão tem a tendência de focar objetos, o som é bem menos
barulhentas e disruptivas, e tentamos controlar seus sons com leis. Trânsito, tangível. Ele move-se entre nós mais fisicamente que a visão, o que favorece a
sirenes de polícia, alarmes de carro que disparam por negligência, pedreiros operacionalização de um senso mais prático de distância. Como observou André
consertando com marteladas matinais um hidrante que jorra, ou vizinhos mais Malraux: “Ouve-se a voz dos outros com os ouvidos, e a própria com a garganta”2.
velhos com dificuldades de audição vendo televisão em volume mais alto — cada O som é simultaneamente sentido pelo corpo e entendido pela mente. Ele é
um a sua maneira amparado por alguma lei ou estudo de impacto ambiental (ou, pervasivo de um jeito que o visual não é. O som é ouvido em um espaço
ocasionalmente, pela intervenção de outros vizinhos). Ao mesmo tempo, existem compartilhado, de modo que todos os ouvidos contidos em determinada área
práticas cotidianas comuns por meio das quais o espaço sônico da cidade é sofrem o impacto das mesmas ondas sonoras. O som difere da visão na forma
ocupado e negociado. “Hackear” o espaço sonoro da cidade é uma prática tão como os relacionamentos entre sujeito e objeto se estabelecem, e no alocamento e
antiga quanto a performance de rua, ou tão recente quanto o veículo com estéreo espaçamento da experiência urbana. É um espaço em que não basta fechar os
potente e subwoofers do tamanho do porta-malas, o Mitzvah Tank. Performances olhos. Enquanto nossas pupilas e pescoço permitem desviar o olhar (mas não o
ad hoc divertem audiências cativas nos metrôs durante o trajeto matinal, e a olhar alheio), recorremos a implantes protéticos como fones de ouvido ou
microeconomia se desenvolve. Mais recentemente, o uso de aparelhos móveis de protetores auriculares para controlar o que ouvimos.
áudio, como o walkman e seu descendente, o iPod, oferece modos alternativos A relação entre o som e as interações públicas na organização social e
pelos quais a experiência auricular da cidade é aumentada e gerenciada por meio econômica da cidade é duradoura. A torre do sino e o muezim3 na torre da mesquita
de implantes protéticos como os fones de ouvido. são dois exemplos. Ao marcar o tempo por meio do som — e usá-lo para convocar
204 Do ponto de vista histórico, o trabalho teórico sobre a experiência urbana focou ações (trabalhar, rezar) —, esses recursos forneceram às corporações mercantis e 205

predominantemente o aspecto visual, no qual o sujeito urbano é tipicamente religiosas uma ferramenta de controle e estabelecimento de hábitos sociais. As
situado no âmbito de teorias a respeito do olhar e do espetáculo. Enquanto a torres com relógios foram especialmente importantes nas cidades europeias
crítica óptico-centrista está bem documentada, a cultura auditiva das cidades é engajadas na manufatura têxtil de larga escala, por exemplo, já que permitiam um
considerada apenas de maneira elíptica. Georg Simmel, um dos maiores teóricos meio uniforme de organizar o comportamento tanto dos trabalhadores quanto dos
da metrópole moderna a surgir na filosofia e nas ciências sociais alemãs da virada
do século XX, afirma:

Os relacionamentos interpessoais dos habitantes das grandes cidades são Diagrama conceitual
caracterizados por uma ênfase marcadamente acentuada no uso dos olhos em vez dos do TSG, em instalação
típica numa esquina
ouvidos. Isso pode ser atribuído à instituição dos transportes públicos. Antes de
ônibus, rodovias e trens se tornarem amplamente consagrados, durante o século XX,
as pessoas nunca haviam estado numa posição em que precisavam se fitar por
minutos ou mesmo horas a fio sem trocar uma única palavra1.

Indicando uma experiência comum que surgiu com a introdução dos transportes
de massa nas cidades, Simmel coloca o visual acima do auricular como fator
dominante na formatação da experiência. Entretanto, será isso preciso? O som Imagem Cedida por Mark Shepard

2 GODARD, Jean-Luc. Godard on Godard. Nova York: Da Capo Press, 1972, p. 241.
1 BENJAMIN, Walter. Illuminations. Nova York: Harcourt, Brace & World, 1968. 3 Pessoa que, do alto da torre da mesquita, convoca os muçulmanos às orações. (N.T.)
cidadãos. No século XIV, em Brussels, havia diferentes tipos de sino (werkeclockes) estaduais e municipais. No entanto, as atividades dessas organizações são
soando em diferentes horários, para sinalizar o início e o fim da jornada de trabalho bastante desarticuladas e a aplicação da legislação existente para controle de ruído
para cada grupo de fiandeiros, trançadores, tecelões, trabalhadores do segmento é, na melhor das hipóteses, esporádica — em alguns casos, inexistente.
tapeceiro e serralheiros4. No Iraque contemporâneo, o muezim serviu não apenas
para identificar os chamados à reza islâmica, mas também para transmitir NAÇÃO iPOD
mensagens, organizando a resistência social ao poder dos ocupadores. Com o lançamento do walkman, pela Sony, em 1979, as políticas da dimensão
A metrópole moderna trouxe uma série de novos sons ao ambiente público. auricular do espaço público migraram da regulamentação centralizada por meio
A cidade ofereceu trilhas sonoras marcadamente diferentes das observadas da torre do sino, do muezim e das tentativas modernas de legislação, para um
nas cidades pré-industriais. Mais barulhenta e menos controlável, é esta a cidade modelo descentralizado, baseado em aparelhos de som portáteis e pessoais, que
que futuristas como Luigi Russolo tomam como inspiração: criam ambientes sonoros de uso individual. O walkman fornece um meio de
personalizar a experiência auditiva no espaço público no decorrer da vida diária.
A vida antiga era só silêncio. No século XIX, com a invenção da máquina, nasce o ruído. Ao mesmo tempo, esses aparelhos colocam novas questões referentes aos
Hoje, o ruído triunfa e reina supremo sobre as sensibilidades dos homens5. protocolos sociais no âmbito do espaço público. O projeto original do walkman, da
Sony, incluía duas entradas para fones de ouvido e um botão laranja-claro (no qual
John Cage apropriou-se do chamado ruído em sua peça silenciosa 4’33”. Escrita havia a indicação talk), que interrompia temporariamente o som vindo do aparelho
em 1952, a composição emoldura temporariamente os sons ambientes que para permitir conversas entre pessoas que o estivessem ouvindo.
rodeavam uma dada performance (um avião acima da cabeça, sons de trânsito e Hoje, o iPod substitui o walkman como “aparelho da vez”, e sua penetração de
sons involuntários do público) de uma peça silenciosa em três movimentos. A peça mercado nos ambientes urbanos foi notada. O que se discute com menos
206 4’33” foi, em parte, inspirada pela visita de Cage à câmara anecoica de Harvard, frequência é como o aparelho e seu uso no contexto urbano estão gerando novas 207

projetada para eliminar todo som; mas, em vez do silêncio esperado, Cage ouvia a práticas espaciais e protocolos sociais no curso da vida cotidiana. Oferecendo uma
pulsação de seu sangue e o assobio de seus nervos. Um ano antes, ele havia escrito camada de privacidade no âmbito do espaço público, o iPod mitiga a cacofonia
Imaginary Landscape nº 4 para 24 performers, cada um ajustando o volume ou a dos ambientes urbanos ao permitir que seus usuários personalizem a experiência
sintonia de uma dúzia de rádios; ainda que a configuração dos botões fosse do espaço público com sua própria trilha sonora. Efetivamente, os aparelhos
completamente prescrita, o resultado dependia das frequências e formatos de tornam-se ferramentas para organizar o espaço, o tempo e os limites ao redor do
estações locais. corpo no espaço público.
A ecologia política de som, silêncio e ruído na vida cotidiana das cidades Usar fones de ouvido em público não apenas fornece um meio de manter
modernas também foi uma preocupação dos desenvolvedores de políticas. O distância do mundo, mas também oferece um grau de escolha pessoal na criação
Congresso americano tentou definir uma política nacional do ruído ao aprovar o de uma experiência auditiva da cidade. Seja no ônibus, no estacionamento durante
Ato de Controle do Ruído de 1972. O ato atribuía à Agência de Proteção Ambiental o almoço, ao fazer compras na loja de conveniência — a cidade se torna um filme
(EPA, na sigla em inglês) o papel de líder na coordenação de todos os programas para o qual podemos compor a trilha sonora:
federais relacionados às pesquisas sobre ruído, assim como ao seu controle. Dez
anos mais tarde (1982), todos os fundos para controle do ruído foram retirados da Entro no ônibus indo para casa. Estou ouvindo rap. Pensando nos filmes a que assisti.
EPA, e hoje o país não tem uma política efetiva e abrangente para tratar do tema. Tentando encontrar em Os bons companheiros coisas que já vi em outros filmes. A
A responsabilidade residual pelo controle do ruído ocupacional e ambiental recai, viagem demora muito por causa do trânsito. Fico tão tenso que acabo me tornando
atualmente, sobre uma dúzia de agências do governo federal, assim como órgãos um personagem de Os bons companheiros por quinze minutos. Chego à Our Price.
Desligo o som, e tudo bem ser um personagem6.
4 CORBETT, J. Martin. “Sound organisation: a brief history of psychosonic management”. In: Ephemera, vol. 3,
n. 4. http://www.ephemeraweb.org/journal/3-4/3-4corbett.pdf.
5 RUSSOLO, Luigi. The art of noises. Nova York: Pendragon Press, 1986. 6 BULL, Michael. Sounding out the city: personal stereos and the management of everyday life. Oxford: Berg, 2000, p. 92.
Colocar fones de ouvido também garante certa licença social, pois permite que o computação tendo em vista a ocupação organizada do espaço público8. Dos
usuário se movimente pelo espaço público sem necessariamente se envolver protestos anti-WTO de 1999 — em que grupos de manifestantes independentes,
demais, e o libera da responsabilidade de responder ao que está acontecendo a sua porém em rede, usaram táticas de enxame, telefones celulares, laptops e PDAs para
volta. Algumas pessoas usam seus fones de ouvido para esquivar-se de atenção vencer a batalha de Seatlle — à tomada do governo filipino em 2001, resultante da
indesejada, achando mais fácil evitar respostas por parecerem ocupadas. Diante de mobilização de milhões de manifestantes via mensagens de texto enviadas por
duas pessoas na calçada, pediremos informações àquela que não está com fones. Do celular, a multidão de hoje está fortalecida de formas antes não imaginadas.
mesmo modo, tirá-los durante uma conversa é como uma saudação a quem fala.
Mais ainda, o fenômeno do compartilhamento de playlists destaca novas formas de
interação social, algo previsto pelo design original do walkman, com suas duas
entradas para fones de ouvido. O compartilhamento de playlists fornece um modo
alternativo de comunicar a esfera pessoal.

O FLÂNEUR, O SITUACIONISTA E A TURBA INTELIGENTE

A multidão é o véu através do qual a cidade habitada faz um sinal para o flâneur com o Mapa de pontos de
acesso Wi-Fi nos
olhar, como uma fantasmagoria. Na multidão, a cidade é ora paisagem, ora loja. Depois,
Estados Unidos
ambas vêm a constituir o armazém com o qual a própria flânerie torna-se utilizável para a (cortesia WiGLE.net)
troca das mercadorias. O armazém é o último lugar aonde vai o flâneur7.
208 COMPUTAÇÃO UBÍQUA E INFRAESTRUTURAS LOCATIVAS 209

Sozinho na multidão, em casa na multidão — hoje somos levados ao shopping.


Enquanto seria problemático simplesmente mapear usuários de iPod a partir de Os “aplicativos matadores” da indústria móvel infocom de amanhã não serão
modelos históricos como o flâneur e o situacionista — para apontar apenas um aspecto, dispositivos de hardware ou software, mas práticas sociais. As mudanças de maior
ambos ocupam-se predominantemente do visual —, pode ser construtivo revisitar esses alcance virão, como sempre, de tipos de relacionamentos, empreendimentos,
dois personagens à luz de questões mais amplas a respeito da habitação do espaço comunidades e mercados que a infraestrutura torna possíveis9.
público nas cidades contemporâneas. Se o flâneur apresenta-se como ponto de
referência para um observador móvel a quem a estetização do urbano é uma prática Se muito do discurso do século XX a respeito de espaço público e redes de
simultaneamente liberadora e alienante, a deriva situacionista sugere uma prática informação enfatiza a produção de espaços de fluxo globais, virtuais e sem lugar, a
espacial de liberar-se de uma mercantilização alienante da cidade. Hoje, negociar ubiquidade das redes sem fio e das comunicações móveis revitalizou um interesse
nossas vidas diárias na cidade e através dela envolve manobras cada vez mais sutis entre em espaços de informações locativas, baseados em lugares. Descoladas do
público e privado, virtual e concreto. O alocamento e espaçamento da experiência computador de mesa conectado à internet por cabo, as pessoas estão interagindo
urbana estão dispersos por ambientes radicalmente diferentes. O olhar das multidões com mais frequência com (e através de) dispositivos móveis e redes sem fio
foi substituído pelo das câmeras de vigilância; as atrações psicogeográficas do terreno enquanto se deslocam pela cidade. Em calçadas, lobbies, cruzando parques e
tornaram-se esquizogeografias de redes e cruzamentos de sinais. praças públicas, em ônibus, estações de metrô e trem, o cidadão móvel negocia
Ao mesmo tempo, a multidão se tornou bem mais sofisticada em termos de constantemente entre desejos casuais, redes virtuais de informação e as atrações
habilidade de organização, cooperação e mobilização. Howard Rheingold descreve a infinitamente matizadas nos terrenos da cidade contemporânea.
emergência de turbas inteligentes que usam tecnologias de comunicação móvel e
8 RHEINGOLD, Howard. Smart mobs: the next social revolution. Nova York: Basic Books, 2003, p. 158.
7 BENJAMIN, Walter. Reflections: essays, aphorisms, autobiographical writings. Nova York: Schocken Books, 1978, p. 156. 9 Ibidem, p. xii.
Nesses ambientes interconectados sem fio, os chamados serviços de informação EM BUSCA DE UM URBANISMO PROPAGATIVO
baseados em localização estão se tornando comuns. Esses serviços provêem
informação customizada a partir da localização no espaço físico. Entre os exemplos Eu chamo de “tática”, por outro lado, um cálculo que não pode contar com “limite”
estão sistemas de navegação nos painéis de automóveis, caminhadas sonoras (espacial ou institucional), nem, portanto, com uma fronteira que distinga o outro
conscientes do contexto, acessadas por meio de telefones celulares, ou guias como uma totalidade visível. O lugar da tática pertence ao outro. Uma tática se insinua
eletrônicos da cidade que fornecem informações para PDAs, detalhando várias no lugar do outro, fragmentariamente, sem tomá-lo em sua completude, sem ser
amenidades ou atrações encontradas nas proximidades. Todos esses serviços capaz de mantê-lo a distância. [...] O “limite” é uma vitória do espaço sobre o tempo.
dependem de algum tipo de infraestrutura locativa, que calcula a posição dos Pelo contrário, como não tem um lugar, a tática depende do tempo — ela está sempre
aparelhos móveis no espaço físico e alimenta o serviço com coordenadas através das à espreita de oportunidades que precisam ser aproveitadas “em curso”12.
quais se pode transmitir informação filtrada geoespacialmente para o usuário.
Infraestruturas locativas surgem com diversos sabores. Talvez a mais sofisticada Na medida em que conglomerados de mídia e agências federais são responsáveis
seja o Sistema de Posicionamento Global (conhecido como GPS, sigla em inglês pelo desenvolvimento dessas novas infraestruturas, podemos esperar ver novas
para Global Positioning System), desenvolvido pelo Departamento de Defesa dos práticas de vigilância e consumo ganhar força. A atual luta de poder em torno do
Estados Unidos em 1994. Esse sistema determina a localização ao medir o tempo compartilhamento de arquivos, da proteção antipirataria e da regulamentação do
que sinais de rádio demoram para viajar de satélites transmissores para receptores espectro das redes sem fio destaca o dilema. Até que ponto os usuários de
terrestres. Pela comparação de pelo menos quatro desses sinais, a localização tecnologias terão poder de compartilhar, participar e criar utilizando essas novas
pode ser estabelecida no raio de poucos metros. Outros sistemas foram infraestruturas? Até que ponto eles serão limitados a meros consumidores?
desenvolvidos para áreas internas, nas quais o sistema GPS e sinais de rádio são O kit de ferramentas TSG é uma tecnologia parasitária. Ele se alimenta da
210 bloqueados pelo chão, por paredes e telhados de prédios. propagação de pontos de acesso Wi-Fi em ambientes urbanos densos, tomados 211

O sistema Cricket, desenvolvido no Media Lab do Massachusetts Institute como infraestrutura locativa, gratuita e pronta para uso, para o cultivo de jardins
of Technology (MIT), usa balizas que emitem tanto sinais de rádio quanto sonoros comunitários no espaço público contemoporâneo. O conceito toma
pulsos ultrassônicos para calcular a posição a partir da proximidade em relação impulso no fato de que os protocolos para redes Wi-Fi requerem pontos de acesso
ao sinalizador mais próximo, que, por sua vez, é identificado com uma sala para transmitir publicamente seu conjunto de identificadores de série (SSID, na
sigla em inglês). Pontos de acesso produzindo os sinais Wi-Fi usados para
determinar a localização de um participante podem ser abertos ou encriptados, e
não precisam ser de propriedade dos desenvolvedores do sistema TSG. Como o
Proliferação dos pontos componente de hardware da infraestrutura está amarrado à propagação de redes
de acesso Wi-Fi na Wi-Fi, a extensão dos jardins é moldada em uma relação parasitária como a de um
cidade de Nova York
protocolo wireless específico. Onde a presença de pontos de acesso Wi-Fi é
(cortesia WiFiMaps.com)
Imagem Retirada do Website Wigle.Net mínima, os jardins podem consistir simplesmente em plantações ao longo de uma
calçada. Já onde existe uma densidade local de cruzamento de sinais, os jardins
específica10. O departamento de pesquisas da Intel, em Seattle, desenvolveu têm potencial para assumir a escala de toda a vizinhança. Em cidades onde as
um sistema que usa redes sem fio 802.11 (Wi-Fi) existentes e funciona tanto em redes Wi-Fi são ubíquas, os jardins se estendem potencialmente por toda a cidade.
espaços internos como externos11.

10 PRIYANTHA, Nissanka B.; CHAKRABORTY, Anit e BALAKRISHNAN, Hari. “The Cricket location-support system”.
In: Proceedings of the 6th annual international conference on mobile computing and networking. Boston: ACM, 2000.
11 LAMARCA, Antonhy et al. “Place lab: device positioning using radio beacons in the wild”. In: Pervasive Computing:
third international conference (Pervasive 2005). Berlim: Springer, 2005, Série Lecture Notes in Computer Science. 12 CERTEAU, Michel de. The practice of everyday life. Berkeley: University of California Press, 1984, p. xix.
ÁCIO POSFÁCIO
215
214

UM PANORAMA CRÍTICO DAS MÍDIAS LOCATIVAS


JORGE LAFERLA

Lembramos a primeira década do terceiro milênio pelo predomínio do dispositivo


digital no campo audiovisual e a paulatina transferência do computador pessoal
para dispositivos portáteis, em que confluem o computador, o GPS e a telefonia
celular, como variantes culturais complexas.
A confluência dos meios de comunicação em ferramentas artísticas torna
necessário seguir pensando essas máquinas semióticas como ideológicas, numa
conjuntura em que os dispositivos geralmente apresentam-se como produtos, e
com suas marcas de origem. São mercadorias, desenvolvidas de forma comercial
e corporativa, que ultrapassa definitivamente a dimensão do nacional, em
seu contexto de projeto e fabricação. Os cientistas, inventores e empresários
independentes do século XIX, em vias de desaparecimento, foram substituídos por
engenheiros, técnicos e projetistas, assalariados anônimos sempre ligados
a companhias e empresas.
As obras e figuras lendárias de Andy Warhol, ligadas aos equipamentos categorias em si mesmo nômades em um capitalismo informacional que propõe
Norelco ou Commodore Amiga, a obra de Nam June Paik, vinculada à Sony e uma ideia de cibercultura dinâmica, em movimento.
Samsung, ou a de Jean-Luc Godard, relacionada com a Aaton, são ingênuas e O critério do trabalho de compilação que orienta esta obra oferece um
anedóticas comparadas com o uso atual de dispositivos de grandes marcas por panorama amplo, que estabelece um diálogo crítico entre os diferentes textos
parte de alguns artistas que trabalham com mídias locativas. As atividades lúdicas e autores em uma coletânea que é um trabalho de escritura, pois aborda
amenas, ao vivo, os festivais audiovisuais pensados a partir dos dispositivos analiticamente, em conjunto, o campo complexo das artes e meios móveis.
móveis, passando pela entrega demagógica de aparatos a comunidades carentes, A desilusão diante das promessas não cumpridas das novas tecnologias supera,
normalmente são percebidos como bem-vindos pelas empresas dedicadas à nesta publicação, o discurso banal do novo, para propor um panorama crítico
fabricação de celulares ou que oferecem serviços de comunicação, já que os usos analítico transcendente sobre o impacto ideológico e formal profundo das novas
amigáveis desses bens de consumo massivos e globais, propostos por certos tecnologias de comunicação na arte e na cultura.
artistas, resultam em um panorama utilitário.
Por outro lado, há uma tradição de certas vertentes da academia brasileira,
algumas inspiradas no pensamento de Vilém Flusser, os quais vêm estudando
questões que levam a uma práxis crítica da combinação arte/ciência. A revisão da
história das artes e da tecnologia, a partir dos chamados meios portáteis, leva a
uma análise crítica dos usos dos dispositivos tecnológicos que questiona os usos
corporativos e pseudoartísticos habituais.
Este projeto editorial, Mediações, Tecnologia e Espaço Público, é de relevância,
216 pois concebe uma antologia crítica de textos que aprofundam questões 217

transcendentes, os quais traçam um panorama crítico das mídias locativas,


destacando temas que repensam aspectos cruciais do uso desses meios:
mecanismos de vigilância do sistema transferidos aos próprios indivíduos, a
reformulação de ideias de representação gráfica como mapas de deslocamentos
e da espacialidade (que introduzem o conceito de geografia experimental),
reexame espaço público analisando diversas manifestações ativistas e desvios
nos usos de fábrica por meio de práticas artísticas. Considerar a prática da
mobilidade no audiovisual implica, também, reformular o vocabulário crítico,
partindo do próprio questionamento de termos como locativo, mobilidade e
portabilidade.
A aura progressista, contida no aspecto vanguardista das artes midiáticas,
encontra um espaço de conflito na era dos dispositivos wireless, em geral credores
de sua marca de origem, e por constituírem-se eles mesmos símbolos de uma
atualidade duvidosa e questionável da globalização, particularmente depois da
crise financeira do fim da primeira década do terceiro milênio.
Por sua vez, surge uma análise de diversas categorias operativas da
espacialidade urbana mediatizada, com base em novas representações dos
territórios e fronteiras simbólicas, que reformulam a ideia de estrangeirismo
fundada em novos espaços de circulação de fluxos informacionais, e de estéticas,
GPS (Global Positioning System ou Sistema de objetos, para fins de informação e entretenimento.
Posicionamento Global) São serviços que permitem encontrar um caixa
Malha de satélites criada pelo governo dos Estados eletrônico próximo, ou detectar a posição de um
Unidos para indicar a posição de lugares no conhecido que está em um café nas imediações. Os
planeta. O sistema GPS emprega entre 24 e 34 Serviços Baseados em Localização constroem um
satélites na órbita terrestre. O cálculo da distância tecido de informações sobrepostas ao espaço físico,
entre um ponto específico e a posição de pelo que amplia, transforma e modifica o modo como as
menos quatro desses satélites possibilita definir de pessoas se relacionam com seu ambiente e a
maneira confiável sua localização tridimensional maneira como enxergam a paisagem ao seu redor.

218
(latitude, longitude e altitude), assim como o
tempo em que acontece o deslocamento entre um Mídias locativas
ponto e outro. Os receptores GPS podem ser Expressão criada para designar o conjunto de
usados por pessoas, ou em veículos, como forma práticas relacionadas aos usos das tecnologias
de localização de seu posicionamento, geralmente portáteis para localização, em um contexto não
para fins de navegação. Há dois tipos de aparelho: comercial. Geram formas de envolvimento
os que armazenam mapas preexistentes e os que mediado com o entorno e mesmo com espaços

GLOSSÁRIO permitem a atualização em tempo real dos dados,


assim como a gravação de pontos e trilhas
percorridos. O uso cada vez mais cotidiano do GPS
distantes. As práticas com mídias locativas
abrangem a criação e a recepção, em trânsito, de
textos imagens, sons e vídeos, possibilitando
tem modificado os métodos de mapeamento e acesso distribuído aos meios de produção de
RFID (Radio Frequency Identification ou AIDC (Automatic Identification and Data Capture orientação geográfica. As tecnologias GPS também conteúdo. Elas se beneficiam das tecnologias de
Identificação por Radiofrequência) ou Identificação Automática e Captura de Dados) proporcionam uma nova relação com a paisagem e comunicação ubíquas, presentes em todo lugar,
218 Etiquetas de identificação criadas para embutir Conjunto de métodos e tecnologias de obtenção a coleta de dados, bastante explorada por artistas o tempo todo. Seu uso gera um paradoxo entre as 219
informações em produtos por meio de ondas de de dados, especialmente por meio da análise de interessados em pesquisar formas de convergência práticas de localização e a mobilidade considerada
rádio. Algumas podem ser detectadas à distância, imagens, sons e vídeos. Alguns exemplos de entre arte e geografia (como paisagens de dados e típica da cultura que surge com a popularização de
permitindo que suas informações sejam lidas sem o tecnologias AIDC são os códigos de barra, as tarjas desenhos gerados por GPS). Há outros sistemas de aparelhos portáteis e redes sem fio.
conhecimento do portador. As etiquetas RFID são magnéticas usadas em cartões de crédito e cartões localização de coordenadas geográficas por
construídas com dois componentes: um circuito de fidelidade, os dispositivos de reconhecimento satélite, como o sistema europeu de navegação Artes locativas
integrado, responsável por armazenar e processar óptico, os aparelhos biométricos, alguns global por satélite, conhecido como Galileo. Apropriação das mídias locativas para o
informação, e uma antena, que recebe e transmite mecanismos de reconhecimento de voz e as engajamento criativo ou práticas artísticas
sinal. Há três tipos de etiqueta: as ativas possuem etiquetas RFID. As tecnologias AIDC permitem a GIS (Geographic Information System ou Sistema desenvolvidas a partir de ambientes permeados
bateria e podem transmitir o sinal com autonomia; identificação automática de objetos e a coleta de de Informação Geográfica) por serviços de localização.
as passivas não têm bateria e demandam uma fonte informações a seu respeito, geralmente resultando Sistema de coleta e representação de dados em
externa para provocar a transmissão; e as etiquetas em bancos de dados sobre seus usuários. campos diversos, como arqueologia, biologia, Flash mobs
BAP (sigla em inglês que significa passivas climatologia, demografia, epidemiologia. O Mobilizações políticas, estéticas e coletivas que
induzidas por bateria) demandam uma fonte PDA (Personal Digital Assistant ou Assistente Sistema de Informação Geográfica é constituído utilizam mídias portáteis para organizar reuniões
externa para ativação, mas apresentam autonomia Pessoal Digital) por ferramentas como, por exemplo, softwares de efêmeras no espaço público. Eventos que
significativa, possibilitando grande amplitude de Aparelhos portáteis que surgiram como formas mapeamento, tecnologias de sensoreamento exploram características do telefone celular e
transmissão. Usos correntes das etiquetas RFID sofisticadas de agenda e, conforme evoluíram, remoto e fotografia aérea. permitem coordenar ações, espontâneas ou
incluem o transporte público e o rastreamento de tornaram-se pequenos computadores de bolso. motivadas, geralmente resultantes das
peças em fábricas, entre outros. A busca por Permitem que seus usuários, a qualquer momento e LBS (Location-Based Services ou Serviços possibilidades de conexão entre pessoas e da troca
mecanismos de controle de inventário e vendas em qualquer lugar, acessem e alterem as Baseados em Localização) instantânea de informações por meio de
criou o potencial para formas ocultas de vigilância informações que armazenam. Geralmente, os PDAs Tecnologias que utilizam sensores, aparelhos “mensagens SMS (popularmente conhecidas
individual. Um exemplo é o uso do RFID para comportam a instalação de softwares para edição de portáteis e redes sem fio com o objetivo de como “torpedos”)”.
identificar animais de estimação ou prisioneiros. texto, planilhas de cálculo e outros de uso cotidiano. estabelecer a localização de pessoas, lugares e
WAP (Wireless Application Protocol ou Protocolo “aumentados” com dados geram lugares informações visíveis apenas para eles e ligadas ao Cibercultura
de Acesso sem Fio) ambíguos, na medida em que fraturam a geografia entorno, o que resulta em um conjunto de relações Cultura do espaço digital que, por ocasião de seu
Padrão internacional aberto que gera uma camada por meio de malhas imateriais nas quais a entre espaço concreto e espaço informacional. surgimento, foi bastante denominada pelo termo
de aplicativos para comunicação em rede em configuração material não responde totalmente “cibernético”. Nesse contexto, o objetivo era
ambiente wireless (sem fio). Seu uso mais comum pelos fluxos ali possíveis. Neles, há fronteiras Computação ubíqua indicar a emergência de uma cultura baseada na
foi na telefonia celular, como forma de acesso à invisíveis, ao mesmo tempo em que se torna viável Sistemas computacionais que possibilitam a interação entre homens e máquinas, motivo pelo
internet por meio de navegadores em que os transpor limites físicos. O lugar deixa de ser limite interação com dados distribuídos para acesso qual palavras como “cibernética” e “cibercultura”
recursos de acesso eram simplificados de acordo para o acesso e para as trocas de informações e remoto. Por darem a sensação de que seus foram ganhando conotações amplas, nem sempre
com restrições, como o tamanho reduzido da tela. transforma-se em um campo difuso, onde navegar usuários podem estar presentes em lugares ligadas ao conceito cunhado por Norbert Wiener
A sigla também pode ser usada com o sentido de é possível. distantes de forma mediada, geram a impressão de em livros como Cybernetics: or control and
Wireless Access Point, ou Ponto de Acesso sem Fio. ubiquidade. Ao contrário dos sistemas locativos, a communication in the animal and the machine ou
O padrão WAP tornou-se obsoleto com o Psicogeografia computacão ubíqua permite um deslocamento The human use of human beings: cybernetics and
surgimento dos protocolos 2G e 3G, e com a Termo criado pelos situacionistas para explicar sua “sem movimento”: o usuário permanece fixo, mas society. A partir do advento da internet, inicia-se
popularização das redes Wi-Fi. noção de deriva e de errância voluntária pelo pode acessar lugares e sistemas remotos. É um processo de digitalização da cultura, com a
espaço urbano como forma de investigar a relação comum falar em uma cultura da ubiquidade que publicação de documentos de todos os tipos em
WikiMaps entre o espaço arquitetônico e o comportamento surge conforme as tecnologias para acesso remoto redes de computador, especialmente a internet.
Mapas gerados com tecnologia Wiki. Por ser humano. A definição mais conhecida de tornam-se cenário para uma multiplicação de Como resultado, ocorre uma transposição de
gratuita, a plataforma Wiki permite que seus psicogeografia aparece no texto “Introduction to a dados distribuídos. relações (sociais, institucionais, processos e
usuários construam cartografias colaborativas e critique of urban geography” (Guy Debord, 1955): informações) para contextos de mediação por
comunitárias, incluindo textos, imagens e sons “estudo das leis precisas e dos efeitos específicos Site-specific meio de aparelhos digitais em rede.
nesses mapas. do ambiente geográfico, conscientemente Obras que dialogam com o contexto em que são
organizado ou não, nas emoções e criadas, a ponto de só fazerem sentido naquele Blog
220 Redes peer-to-peer comportamento dos indivíduos”. lugar específico. O termo foi criado pelo artista Contração de web log. Site que permite a qualquer 221
Redes entre dois ou mais computadores, não californiano Robert Irwin e adotado por críticos usuário criar uma conta para publicação e
roteadas por um servidor central. Possibilita a troca Cultura líquida, cartografias líquidas como Lucy Lippard e Catherine Howett. O conceito administração de conteúdo, geralmente
de arquivos de tipos diversos entre seus usuários, Cultura que surge no contexto do estado de tornou-se bastante comum a partir dos anos 1970, organizado na forma de entradas curtas, criadas
que ficam conectados entre si. “liquefação” que Zygmunt Bauman considera especialmente em função de trabalhos que com certa regularidade (os chamados posts, em
marcar a sociedade contemporânea. O termo surgiram em áreas urbanas amplas, combinando termo inglês já incorporado ao vocabulário dos
Hot spots “líquido” é bastante usado pelo sociólogo, sediado componentes da paisagem com estruturas fixas usuários de internet). Os blogs oferecem a
Pontos de conexão para acesso a redes sem fio. São na Polônia, para descrever o caráter cada vez mais inseridas como componentes de tensão ou diálogo. possibilidade de atualização rápida. Funcionam
encontrados em aeroportos, cafés, universidades, fluido das relações sociais, de trabalho, afetivas e como diários on-line que combinam textos,
empresas etc. O aumento do número de hot spots outras. Tornou-se uma metáfora comum para Rede rizomática imagens e links que levam a blogs e páginas da
resulta em uma malha que amplia a internet, já que representar os efeitos de conexões via internet, O “achatamento” do rizoma é uma metáfora de web, entre outros. Os blogs tornaram-se
permite acesso à rede fora de escritórios e cibercafés. e-mail, SMS e celular nas formas de organização Gilles Deleuze para a natureza massivamente conhecidos porque permitem que qualquer pessoa
social que elas engendram, na medida em que são interconectada da informação: no rizoma, a expresse sua opinião sobre um assunto, seja ao
Dataspace situações que exigem rapidez e resultam em informação e a literatura sacrificam qualquer publicar entradas ou pelo envio de comentários. O
Termo usado para designar espaços onde há dados conjunturas efêmeras. profundidade de relações em favor de uma conjuto de blogs existentes na internet costuma
disponíveis para o acesso, geralmente por meio de estrutura superficial e horizontal, e não ser chamado de “blogosfera”.
tecnologias de realidade aumentada ou acesso a Realidades mistas (também denominadas hierarquizada. A internet pode ser considerada um
redes sem fio. É um conceito que surge com realidades híbridas) exemplo de rede rizomática, por sua configuração Vlog ou videoblogs
diversos nomes, conforme o contexto: desde os Situações construídas a partir do uso de interfaces expandida numa malha de múltiplas camadas, que Blogs para publicação de vídeos, bastante usados
cenários futuristas nos livros de ficção científica de de acesso a componentes virtuais inseridos em provoca o colapso dos espaços interpessoais até como forma de reunir desde conteúdo jornalístico
William Gibson ao uso de termos como datascape estruturas arquitetônicas e outros elementos de então existentes e acentua as possibilidades de a viagens domésticas, antes do surgimento de
(paisagem de dados), data pool (piscina de dados) espaços públicos ou privados. Os sistemas de atuação em contextos mundializados. plataformas como o Vimeo e o YouTube. Em
ou territórios informacionais. Esses espaços realidade mista permitem a seus usuários acessar analogia à “blogosfera”, costuma-se falar também
em “vlogosfera” para se referir ao conjunto de links e facilidade para integrar novos elementos. dados; além disso, é um método alternativo de acesso rápido à internet deram a artistas de todas
videoblogs disponíveis on-line. distribuição no qual computadores menores as idades e habilidades a oportunidade de fazerem
Urban screens (telas urbanas) podem participar de grandes transferências de seus próprios filmes, discos, livros ou outros
Sistemas pervasivos Telas eletrônicas e digitais, que incluem monitores dados. Nele, um usuário provedor (seed, que conteúdos, e de disseminá-los na rede, em sites ou
Redes distribuídas pelo espaço público. São de plasma, LEDs, painéis eletrônicos e terminais de significa “semente”) disponibiliza um arquivo na por meio de métodos de distribuição viral,
rastreáveis e tendem a ser intrusivas. Funcionam informação, entre outros. A expressão é usada, em internet para outros usuários (peers, que significa tornando-os autossuficientes.
como uma malha tecnológica sobre o espaço geral, para descrever superfícies de projeção de “parceiros”), que podem transferi-lo para seu
urbano. Resultam do uso crescente de dispositivos grande escala, inseridas em configurações computador em pacotes progressivos. Quanto Copyleft
móveis de pequeno tamanho, conexão sem fio e arquitetônicas complexas, nas quais as telas mais “sementes”, mais rápido o processo. Por isso, Trocadilho com o termo copyright (usado para
alimentação por bateria. São os chamados dialogam com o contexto espacial. As telas a distribuição de conteúdo via torrent representa indicar quem é o detentor dos direitos autorais de
sistemas pervasivos, ambientes com computação e urbanas resultam em uma camada audiovisual considerável otimização da largura de banda um texto, uma música, um filme etc.). O termo
comunicação integradas que geram espaços embutida na cidade, gerando espaços complexos disponível. Além disso, reduz a dependência do copyleft é utilizado para conteúdos publicados
mistos, formados por máquinas e humanos. que combinam elementos materiais e imateriais. distribuidor original ao disponibilizar uma fonte sob licenças que permitem sua distribuição de
Possibilitam criar regiões de realidade mista. Em alguns casos, há telas urbanas conectadas a para arquivos que geralmente é temporária. Por forma gratuita, desde que sejam preservados os
redes ou sistemas de informação, constituindo um isso, é mais difícil de ser rastreada, e seu download créditos definidos na fonte. Os conteúdos copyleft
Tecnologia wireless tecido multimídia global para compartilhamento, continua possível mesmo que o arquivo original estabelecem que suas modificações ou extensões
Também conhecida como Wi-Fi (Wireless Fidelity). em praça pública, de conteúdos, experiências, esteja em um computador temporariamente fora devem continuar livres para cópia e manipulação,
Redes sem fio não limitadas pelo uso de cabos, o ideias, inovações e possibilidades emergentes. Seu do ar (desde que existam espelhos do arquivo de forma a permitir colaborações em processo
que lhes permite maior mobilidade; no lugar dos uso comercial está ligado ao urbanismo e à disponíveis em máquinas de usuários “parceiros”). continuado.
cabos, o meio de transmissão é o ar, pelo qual são arquitetura. É comum o emprego de telas urbanas
emitidas ondas de rádio e luz infravermelha. São em projetos de arte que exploram a capacidade do Détournement technologique
flexíveis, de fácil configuração e com boa espaço público de servir de plataforma expressiva Deslocamento tecnológico subversivo, desviante.
222 conectividade. Para uma conexão sem fio é de comunidades multiculturais e de engajamento Refere-se à mídia deslocada de um contexto para 223
necessário o uso de um roteador apto à público em temas sociais, culturais e de outro, em que assume novo sentido. O termo
comunicação wireless. Com a popularização do sustentabilidade ambiental. détournement foi cunhado pelos situacionistas,
formato, boa parte dos computadores e para definir suas práticas de apropriação feitas
dispositivos portáteis passou a ser fabricadas com Grassroots como forma de crítica aos formatos de linguagem
sistema de comunicação wireless embutido. Movimento comunitário que implica uma convencionais e estabilizados.
organização política espontânea. Geralmente,
Internet of things ocorre em nível local, com voluntários que DIY (do it yourself)
Termo que aparece no livro homônimo de Rob van promovem reuniões, encontros, abordagens Faça você mesmo. Refere-se ao fazer
Kranenburg para designar possibilidades de públicas, petições, demonstrações e levantamento independente, desenvolvido com poucos recursos,
conexão que surgem no contexto das pesquisas de fundos para campanhas políticas. O termo tem em contraposição aos modos industriais de
voltadas ao desenvolvimento de ambientes sido bastante usado para designar o uso de produção. Esse uso surgiu para designar fanzines,
inteligentes, com seus potenciais e perigos. O tecnologias gratuitas e de código aberto com o discos independentes e demais formatos da
conceito surge conforme torna-se possível equipar objetivo de gerar resultados “de baixo para cima”. cultura urbana alternativos aos meios de
todo tipo de objeto físico (lata, livro, sapato, comunicação corporativos. O movimento DIY
iogurte, automóvel) com dispositivos de Torrents questiona a suposta unicidade do conhecimento
identificação, o que permite transformá-los em nós Tecnologia desenvolvida para distribuição de de peritos e promove a habilidade do indivíduo
de armazenamento e transmissão de dados. A ideia dados na internet, a partir do protocolo BitTorrent, ordinário de aprender mais do que se pensava
de uma internet que se propaga a partir das coisas um tipo de compartilhamento de arquivos peer-to- possível. O termo ganhou força como lema
fomenta a utopia de um mundo por onde transitam -peer. Esse tipo de distribuição permite o anticonsumista da cultura punk, que pregava a
entidades autônomas e inteligentes ou objetos que compartilhamento viral de um arquivo. O rejeição à necessidade de adquirir bens ou de se
agem de forma interoperante e se auto-organizam. protocolo BitTorrent oferece aos usuários a enquadrar em sistemas preestabelecidos. Os
Além disso, sugere uma imensa diversidade de possibilidade de receber grande quantidade de avanços das mídias e softwares e a proliferação do
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