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Capítulo 6

Dinâmica do Direito Constitucional


Jorge Bacelar GOUVEIA, Manual de Direito Constitucional, I,
pp. 625-653

TGPP - 2009 José Domingues 1


Capítulo 6
‰ O poder constituinte:
‰ Poder constituinte e nascimento da Constituição.
‰ As características do poder constituinte.
‰ Manifestações típicas do poder constituinte.
‰ As vicissitudes constitucionais:
‰ Factos normativo-constitucionais supervenientes.
‰ Modalidades de vicissitudes constitucionais.
‰ A revisão constitucional:
‰ A hiper-rigidez da Constituição Portuguesa.

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Capítulo 6
‰ O poder constituinte:
‰ Poder constituinte e nascimento da Constituição.
‰ As características do poder constituinte.
‰ Manifestações típicas do poder constituinte.
‰ As vicissitudes constitucionais:
‰ Factos normativo-constitucionais supervenientes.
‰ Modalidades de vicissitudes constitucionais.
‰ A revisão constitucional:
‰ A hiper-rigidez da Constituição Portuguesa.

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Poder Constituinte - tipologia
‰ Poder Constituinte – uma nova Constituição
surge a partir da actividade do poder constituinte,
que representa uma perene possibilidade de auto-
organização do Estado. Este poder nunca
desaparece (é perpétuo, mas a Constituição não é
perpétua), ficando latente em momentos não
constituintes => metáfora do vulcão.
‰ Manifestações:
‰ Poder constituinte inicial.
‰ Poder constituinte posterior.
‰ Relação umbilical: Estado – Poder Constituinte –
Constituição. =>
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Poder Constituinte
‰ Estado – Poder Constituinte – Constituição.
‰ Não há poder constituinte fora do Estado,
assim como não há Constituição fora da
realidade estadual (por isso, não será
apropriada a terminologia de Constituição
Europeia).
‰ Por outro lado, é elemento essencial do Estado
a manifestação de um poder constituinte.

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Âmbitos do Poder Constituinte
‰ Poder constituinte inicial – quando se exerce pela
primeira vez, porque o Estado aparece nesse
momento. Surge a 1.ª Constituição = casos de
independência política.
‰ Poder constituinte posterior – já teve ocasião de se
exercer anteriormente, quando a nova
Constituição revoga a Constituição antiga.
‰ Terceira alternativa [apenas histórica] – o nascimento
da Constituição não coincide com o momento da
criação do Estado, mas também não há revogação de
uma Ordem Constitucional anterior.
Ex. textos constitucionais do Liberalismo, na
passagem do Antigo Regime para o Estado
Constitucional Contemporâneo.
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Capítulo 6
‰ O poder constituinte:
‰ Poder constituinte e nascimento da Constituição.
‰ As características do poder constituinte.
‰ Manifestações típicas do poder constituinte.
‰ As vicissitudes constitucionais:
‰ Factos normativo-constitucionais supervenientes.
‰ Modalidades de vicissitudes constitucionais.
‰ A revisão constitucional:
‰ A hiper-rigidez da Constituição Portuguesa.

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Características do Poder Constituinte
‰ Poder Constituinte = poder dos poderes
‰ Originariedade (originário) – um poder primeiro,
não existindo outro antes dele.
‰ Independência (independente) – poder
hierarquicamente máximo, não se subordinando a
qualquer outro.
‰ Absolutidade (Absoluto) – poder materialmente
ilimitado, não se sujeitando a nenhuma outra
regra ou parâmetro. A partir dele é que derivam
os outros poderes.
[críticas =>]

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Limites ao Poder Constituinte
‰ Limitações impostas pelo Estado de Direito:
‰ Democraticamente legitimado – na sua qualidade
de poder supremo do Estado, jamais se pode
desvincular das exigências da soberania popular e
da legitimidade democrática.
‰ Culturalmente situado – adaptável ao evoluir da
sociedade, às mudanças que venham a ser
democraticamente decretadas.
‰ Materialmente limitado – o conceito de absoluto é
suavizado, existem limites ao poder constituinte.

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Limites ao Poder Constituinte
‰ Limites ao seu carácter absoluto:
‰ Limites transpositivos – que inferem com a legitimidade do
Direito em geral e com a procura da Justiça.
‰ Limites positivos estruturais – que se prendem com a
estrutura do Estado composto, situação em que os Estados
federados devem submeter-se, na elaboração das respectivas
Constituições, aos limites impostos pelas Constituições
federais, ainda que possam acrescentar outros limites
próprios.
‰ Limites positivos procedimentais – que se relacionam com a
expressão concreta de cada momento constituinte, que se vai
desenvolvendo rumo à redacção definitiva de um texto
constitucional.
‰ Em suma, o poder constituinte deve ser adaptável às mudanças
democraticamente decretadas.
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Capítulo 6
‰ O poder constituinte:
‰ Poder constituinte e nascimento da Constituição.
‰ As características do poder constituinte.
‰ Manifestações típicas do poder constituinte.
‰ As vicissitudes constitucionais:
‰ Factos normativo-constitucionais supervenientes.
‰ Modalidades de vicissitudes constitucionais.
‰ A revisão constitucional:
‰ A hiper-rigidez da Constituição Portuguesa.

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Manifestações Poder Constituinte
‰ Poder Constituinte = aparecimento de uma
nova Constituição = Vicissitudes
constitucionais totais:
‰ Independência constitucional – criação política de
um Estado. (poder constituinte inicial)
‰ Revolução constitucional – mudança da ideia de
Direito, aparecimento de novas opções
constitucionais, revogando a Ordem
Constitucional anterior. (poder constituinte
posterior)

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Manifestações Poder Constituinte
‰ Do ponto de vista procedimental:
‰ Poder constituinte material – espelha as opções de
conteúdo que explicitam a nova Ordem Constitucional a
implantar
‰ Poder constituinte formal – representa a formalização
desse conteúdo através da redacção da Constituição e dos
actos constituintes em que a respectiva aprovação se vai
consumando. (Actos Constituintes)

‰ Existe uma relação de subordinação do poder constituinte


formal ao poder constituinte material.

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Actos Constituintes
‰ O poder constituinte formal finaliza-se nos
actos constituintes, através dos quais
ocorre a edição de uma nova Constituição:
‰ Actos constituintes unilaterais simples.
‰ Actos constituintes unilaterais complexos.
‰ Actos constituintes bilaterais.

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Actos Constituintes
† Actos constituintes unilaterais simples: são actos
jurídico-públicos únicos de formalização da
Constituição e que provêm de uma só
legitimidade, seja monárquica na outorga de uma
Carta Constitucional (CC 1826), seja democrática
na aprovação parlamentar de um texto
constitucional.

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Actos Constituintes
‰ Actos constituintes unilaterais complexos:
são actos jurídico-públicos plurais de
formalização da Constituição e que
agregam várias vontades, convergentes
numa única legitimidade. Como sucede
com os procedimentos constituintes em
que a Constituição requer o concurso de
uma prévia vontade parlamentar de
aprovação e de um posterior referendo
popular.
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Actos Constituintes
‰ Actos constituintes bilaterais – são actos jurídico-públicos
necessariamente plurais, em que para a formalização da
Constituição concorrem as vontades de órgãos dotados de
diversas legitimidades, como sucede com as Constituições
pactuadas ou pactícias, aprovadas por parlamentos
democráticos e ulteriormente sancionadas por monarcas ou
por chefes de Estado eleitos.
‰ A Constituição de 1838 – existe uma dupla legitimidade
constitucional: legitimidade parlamentar, ao ser aprovada
pelas Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes, em 20
de Março de 1838; legitimidade régia, ao ser expressamente
sancionada pela rainha D. Maria II, em 4 de Abril de 1838,
que aceitou e jurou o texto constitucional.
‰ Por isso, é um texto pactuado que concilia a legitimidade
democrática (Cortes) e a legitimidade monárquica
(Rei/Rainha).

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Capítulo 6
‰ O poder constituinte:
‰ Poder constituinte e nascimento da Constituição.
‰ As características do poder constituinte.
‰ Manifestações típicas do poder constituinte.
‰ As vicissitudes constitucionais:
‰ Factos normativo-constitucionais supervenientes.
‰ Modalidades de vicissitudes constitucionais.
‰ A revisão constitucional:
‰ A hiper-rigidez da Constituição Portuguesa.

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Vicissitudes Constitucionais
‰ As Constituições não são imutáveis (não
existem leis perpétuas) e sofrem
vicissitudes, que se projectam sobre a
Ordem Constitucional, dando origem:
‰ À modificação da Constituição e das suas normas
e princípios. (vicissitudes constitucionais parciais
/ revisão constitucional)
‰ À cessação da Constituição e das suas normas e
princípios. (vicissitudes constitucionais totais)

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Efeitos da revisão constitucional
‰ Alteração de preceitos constitucionais.
‰ Supressão de preceitos constitucionais.
‰ Aditamento de preceitos constitucionais.
Mais raramente:
‰ Efeito suspensivo, paralisando a eficácia sem suprimir a fonte.
‰ Efeito repristinatório, operando a revigência de preceito já
eliminado.

=> A vicissitude constitucional pode coincidir com o poder


constituinte, dando origem a nova Constituição.

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Capítulo 6
‰ O poder constituinte:
‰ Poder constituinte e nascimento da Constituição.
‰ As características do poder constituinte.
‰ Manifestações típicas do poder constituinte.
‰ As vicissitudes constitucionais:
‰ Factos normativo-constitucionais supervenientes.
‰ Modalidades de vicissitudes constitucionais.
‰ A revisão constitucional:
‰ A hiper-rigidez da Constituição Portuguesa.

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Tipos de Vicissitudes - critérios
‰ Critério da direccionalidade dos efeitos – conforme os efeitos
sejam intencionalmente criados ou espontaneamente produzidos
(costume constitucional).
‰ Critério da duração dos efeitos – conforme se trate de efeitos
permanentes ou temporários (efeito suspensivo – excepção const.).
‰ Critério do alcance dos efeitos – conforme os efeitos sejam
normativos ou concretos e/ou individuais.
‰ Critério da projecção sobre a identidade constitucional material –
conforme os efeitos conservam ou aniquilam a identidade
constitucional material (revolução / revisão).
‰ Critério da conformidade constitucional – conforme os efeitos
sejam formalmente constitucionais ou formalmente desconformes à
Ordem constitucional.

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Tipos de Vicissitudes
‰ Revolução constitucional.
‰ Transição constitucional.
‰ Ruptura constitucional não revolucionária.
‰ Excepção constitucional.
‰ Derrogação constitucional, auto-ruptura ou ruptura
material constitucional.
‰ Costume constitucional.
‰ Caducidade constitucional.
‰ Revisão constitucional.

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Tipos de Vicissitudes
‰ Revolução constitucional – adopção de uma nova
Ordem Constitucional, violando e substituindo a
anterior. (vicissitude constitucional total)
‰ Transição constitucional – criação de uma nova Ordem
Constitucional, materialmente diversa da anterior, mas
utilizando os formalismos que esta previa para a
revisão constitucional, embora o resultado seja muito
mais do que isso, ao implicar uma nova Ordem
Constitucional. (vicissitude constitucional total)
‰ Ruptura constitucional não revolucionária –
aparecimento de normas e princípios constitucionais,
com violação da Ordem Constitucional, que nela se
integram por não ferirem o seu núcleo identitário
material.
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Tipos de Vicissitudes
‰ Excepção constitucional – alteração temporária da
Ordem Constitucional, que se pretende preservar, em
atenção a um padrão de normalidade constitucional
que se pretende rapidamente recuperar. [Estado de sítio ou
estado de emergência] (Art. 19º CRP)
‰ Derrogação constitucional, auto-ruptura ou ruptura
material constitucional – contradição ou enviusamento
de princípios fundamentais, numa aplicação concreta e,
por vezes, individual, de natureza definitiva, aprovada
por acto jurídico-público.

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Tipos de Vicissitudes
‰ Costume constitucional – produção espontânea de
efeitos constitucionais normativos, que afectam a
Ordem Constitucional nalgumas das suas normas.
‰ Caducidade constitucional – extinção de normas
constitucionais, por acção de circunstâncias ou nos
termos anteriormente previstos. (Art. 142º/f)
‰ Revisão constitucional – alteração da Ordem
Constitucional, em aspectos não atinentes ao seu
conteúdo essencial, segundo um procedimento
estabelecido para o efeito, através da edição de um acto
jurídico-público formalmente regular.
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Capítulo 6
‰ O poder constituinte:
‰ Poder constituinte e nascimento da Constituição.
‰ As características do poder constituinte.
‰ Manifestações típicas do poder constituinte.
‰ As vicissitudes constitucionais:
‰ Factos normativo-constitucionais supervenientes.
‰ Modalidades de vicissitudes constitucionais.
‰ A revisão constitucional:
‰ A revisão constitucional em geral.
‰ Limites materiais à revisão constitucional
‰ A hiper-rigidez da Constituição Portuguesa.

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Revisão Constitucional
‰ «A revisão constitucional, através do correspondente poder
de revisão, traduz-se na possibilidade da alteração da Ordem
Constitucional originariamente estabelecida, mas apenas com
um cunho secundário, porque limitado, quer em função das
opções fundamentais que caracterizam o projecto de Direito
que se tem em mãos, quer em função do estrito procedimento
legislativo que para a respectiva produção se encontra
estabelecido».
‰ A revisão constitucional é a válvula de segurança da
Constituição:
‰ Se não existisse o texto constitucional originário poderia
manter-se mais tempo.
‰ Mas induziria o recurso aos mecanismos violentos de
alteração da Ordem Constitucional (revolução
constitucional).

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Revisão Constitucional
‰ A revisão constitucional resulta sempre de
um poder constituído e não de um poder
constituinte, que implica o aparecimento
de uma nova Constituição.
‰ A revisão constitucional não se pode
confundir com as vicissitudes
constitucionais totais, que implicam o
aparecimento de uma nova Constituição.
‰ Poder de Revisão ≠ Poder Constituinte.

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Revisão Constitucional - Efeitos
‰ Formaliza-se na edição de uma lei constitucional,
com os seguintes efeitos:
‰ Efeito revogatório – o preceito constitucional cessa a sua
vigência.
‰ Efeito inovatório – há hum novo preceito constitucional
que é acrescentado.
‰ Efeito modificativo – o preceito constitucional existente
fica a apresentar uma nova formulação normativa.
‰ Efeito suspensivo – o preceito constitucional existente
deixa de vigorar durante um lapso de tempo
‰ Efeito repristinatório – colocando em vigor um preceito
já eliminado.

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Revisão Constitucional - Funções
‰ Actualizar a Ordem Constitucional – adequando-a
à realidade constitucional.
‰ Interpretar a Ordem Constitucional –
estabelecendo novos critérios de interpretação em
aspectos que tenham ficado por esclarecer e que,
em muitos casos, só a prática constitucional
permite detectar.
‰ Completar a Ordem Constitucional – suprindo
falhas e lacunas nas respectivas disposições, para
além de introduzir novos instrumentos. (Cfr. supra o
art. 5º - Território)

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Revisão Constitucional - Limites
‰ Limites orgânicos – atribuição do poder de revisão a certo órgão, em
regime de exclusividade dentro da partilha geral do poder legislativo
pelos órgãos de soberania. [AR]
‰ Limites temporais – impedem o exercício do poder de revisão a
qualquer momento, obedecendo a certos limites de tempo.
‰ Limites procedimentais – regras que introduzem particularidades em
determinadas fases do processo de revisão constitucional [maiorias
agravadas].
‰ Limites circunstanciais – regras que vedam a expressão do poder de
revisão constitucional na vigência de situações de excepção
constitucional, assim defendendo a verdade e o livre consentimento da
vontade de mudar a Constituição. [estado sítio ou emergência]
‰ Limites materiais – afastam do poder de revisão um conjunto de
matérias, valores, princípios ou institutos que integram o núcleo
essencial do texto constitucional, pondo em causa a identidade
constitucional
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Classificação Constituições
‰ Constituições flexíveis – Sem limites à
revisão.
‰ Constituições rígidas – apenas com limites
orgânicos, formais e temporais.
‰ Constituições hiper-rígidas – para além dos
limites orgânicos, procedimentais e
temporais, ostentam limites materiais e
circunstanciais (CRP).

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Capítulo 6
‰ O poder constituinte:
‰ Poder constituinte e nascimento da Constituição.
‰ As características do poder constituinte.
‰ Manifestações típicas do poder constituinte.
‰ As vicissitudes constitucionais:
‰ Factos normativo-constitucionais supervenientes.
‰ Modalidades de vicissitudes constitucionais.
‰ A revisão constitucional:
‰ A revisão constitucional em geral.
‰ Limites materiais à revisão constitucional
‰ A hiper-rigidez da Constituição Portuguesa.

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Limites Materiais da RC
‰ Força vinculativa das cláusulas de limites
materiais de revisão constitucional [oriundas
do poder constituinte (originário)] em relação aos
outros preceitos:
‰ Teoria da irrevisibilidade
‰ Teoria da revisibilidade
‰ Teoria da dupla revisibilidade (ou revisibilidade
faseada)
‰ Definição dos limites materiais insertos nas
cláusulas.
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Força Vinculativa Cláusulas de limites materiais

‰ Teoria da irrevisibilidade – sendo as


cláusulas sobre a revisão constitucional
criadas pelo poder constituinte originário, só
uma nova manifestação do mesmo poder
constituinte originário as poderia modificar
ou eliminar, nunca uma lei de revisão
constitucional, que é sempre, em relação
àquele, um poder constituído e não
constituinte.
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Força Vinculativa Cláusulas de limites materiais
† Teoria da revisibilidade – as cláusulas de revisão
constitucional não ostentam nenhuma força
especial em relação aos restantes preceitos
constitucionais e se a Constituição, na sua versão
original, admitiu o poder de revisão constitucional,
então deve daí concluir-se que o mesmo também se
exerce sobre o próprio regime de revisão
constitucional, ao mesmo tempo que se pode rever
o conteúdo que por elas se encontrava abrangido.

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Força Vinculativa Cláusulas de limites materiais

‰ Teoria da dupla revisibilidade (ou revisibilidade


faseada) – a modificação das matérias protegidas
pelas cláusulas de revisão constitucional deve
acontecer a dois tempos, primeiro eliminando-se a
cláusula que protege a matéria que se quer atingir e
só depois, numa outra revisão constitucional, se
poderia rever ou eliminar o instituto ou o princípio
que deixou de estar constitucionalmente protegido
pela cláusula de protecção entretanto revogada.

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Força Vinculativa Cláusulas de limites materiais

Autor – defende a teoria da irresivibilidade das


cláusulas que consagram os limites materiais à
revisão constitucional – “a criatura jamais pode
impor-se ao criador”.
† Mas essa teoria não pode acarretar uma
excessiva rigidez? Não.
† A consagração de um mecanismo de revisão é a
porta aberta ao aperfeiçoamento do sistema
constitucional.
† Ultrapassando essa revisão surgirá uma revolução
constitucional.
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Definição dos Limites materiais
‰ Limites materiais excessivos – quando, no
apuramento das matérias, o poder
constituinte (originário) comete erro quanto
à sua classificação como limites materiais.
‰ O que acontece?

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Limites materiais excessivos
As cláusulas de limites materiais de revisão
constitucional erradamente classificadas, se
desrespeitadas, podem originar quatro casos
distintos, conforme:
† Não existam cláusulas de limites materiais.
† Existam cláusulas de limites materiais.

† Situação diferente é a da mera alteração linguística.

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Limites materiais excessivos
† Não havendo cláusulas de limites materiais:
† Se a matéria não for de importância nuclear, ocorre
uma normal revisão constitucional.
† Se a matéria for considerada como integrando o
núcleo fundamental da Constituição, ainda que
ocorrendo uma revisão constitucional em sentido
formal, na realidade sucede uma transição
constitucional (vicissitude constitucional total),
com o aparecimento de uma nova Ordem
Constitucional, por adulteração daquele núcleo
identitário.

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Limites materiais excessivos
† havendo cláusulas de limites materiais:
† Se a matéria não for de importância nuclear, tendo a
cláusula sido erroneamente referenciada a um
assunto que não assume aquela dimensão, ocorre
uma ruptura não revolucionária, por preterição
formal daquela regra, embora não se afectando a
identidade constitucional, acto que só permanece se
lograr alcançar efectividade constitucional.
† Se a matéria for de importância nuclear, ocorre uma
revolução constitucional, por se afectar a
identidade da Constituição, ao mesmo tempo que
se quebra a constitucionalidade formal das
alterações admissíveis ao texto constitucional.
TGPP - 2009 José Domingues 43
Tipos de Vicissitudes (Diapositivo atrás)

† Revolução constitucional – adopção de uma nova Ordem


Constitucional, violando e substituindo a anterior. (vicissitude
constitucional total)
† Transição constitucional – criação de uma nova Ordem
Constitucional, materialmente diversa da anterior, mas
utilizando os formalismos que esta previa para a revisão
constitucional, embora o resultado seja muito mais do que isso,
ao implicar uma nova Ordem Constitucional. (vicissitude
constitucional total)
† Ruptura constitucional não revolucionária – aparecimento de
normas e princípios constitucionais, com violação da Ordem
Constitucional, que nela se integram por não ferirem o seu
núcleo identitário material.

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Alteração linguística
† As alterações meramente linguísticas dos
preceitos que estabelecem as cláusulas de
revisão constitucional (sem qualquer
alteração normativa) não se repercutem
sobre a validade da revisão constitucional.

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Capítulo 6
‰ O poder constituinte:
‰ Poder constituinte e nascimento da Constituição.
‰ As características do poder constituinte.
‰ Manifestações típicas do poder constituinte.
‰ As vicissitudes constitucionais:
‰ Factos normativo-constitucionais supervenientes.
‰ Modalidades de vicissitudes constitucionais.
‰ A revisão constitucional:
‰ A revisão constitucional em geral.
‰ Limites materiais à revisão constitucional
‰ A hiper-rigidez da Constituição Portuguesa.

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Classificação
‰ Constituições flexíveis – Sem limites à
revisão.
‰ Constituições rígidas – apenas com limites
orgânicos, formais e temporais.
‰ Constituições hiper-rígidas – para além dos
limites orgânicos, formais e temporais,
ostentam limites materiais e circunstanciais
(CRP).

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Hiper-rigides da CRP
‰ Procedimento de revisão constitucional:
‰ A iniciativa da lei de revisão constitucional apenas cabe
aos Deputados, individualmente considerados,
podendo, no entanto a subscrição de projectos de RC ser
feita por mais do que um (art. 285º/1 CRP).
‰ Apresentado um projecto de revisão, os restantes devem
ser entregues no prazo de 30 dias, evitando-se delongas
- princípio da condensação (art. 285º/2 CRP).
‰ A discussão e a deliberação das alterações
constitucionais são sempre feitas, na especialidade, no
plenário da AR. A maioria necessária é de dois terços
dos Deputados em efectividade de funções (art. 286º/1
CRP).

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Hiper-rigides da CRP
‰ Procedimento de revisão constitucional:
‰ A promulgação presidencial do decreto de revisão
constitucional não pode ser recusada, não havendo
lugar, ao contrário do que normalmente sucede (art.
286º/3 CRP), a veto político, embora possa haver
fiscalização preventiva da constitucionalidade (contra,
Jorge MIRANDA, Manual, II, p. 197 – apenas a admitindo em caso grave).
‰ A publicação das alterações à Constituição tem a
particularidade de ser acompanhada da
republicação de todo o texto constitucional já
revisto (art. 287º CRP), por uma necessidade de
segurança e dignidade no conhecimento da nova
versão da lei fundamental.
TGPP - 2009 José Domingues 49
Limites à Revisão Constitucional
‰ Limites orgânicos:
‰ O poder de revisão só é atribuído à AR e não é partilhado com
o Governo, nem com as Regiões Autónomas.
‰ Limites temporais [Art. 284º CRP]:
‰ A revisão constitucional ordinária só pode efectuar-se cinco
anos depois de publicada a última lei de revisão, guardando-se
assim um período de “defeso constitucional”.
‰ Por razão urgente, pode existir uma revisão constitucional
extraordinária em qualquer momento, mas para isso é necessária
uma maioria de quatro quintos dos Deputados em efectividade de
funções.
‰ Limites procedimentais (Cfr. os 2 diapositivos anteriores):
‰ Fase da iniciativa – apenas aos Deputados.
‰ Fase da promulgação – não havendo veto político.
‰ Maioria de aprovação terá que ser uma maioria agravada de
dois terços dos Deputados em efectividade de funções.

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Constituição hiper-rígida
‰ Limites materiais – a CRP não admite uma revisão
ilimitada ou para todas as matérias. Estabelece um
conjunto de 14 matérias (art. 288º CRP) que não
podem ser alvo de revisão, sob pena de uma nova
Constituição.
‰ Limites circunstanciais – proíbem a revisão
constitucional na vigência de estado de sítio e de
estado de emergência (art. 289º CRP).
‰ Medida cautelar, visando resguardar o poder de revisão
de manipulações que são mais frequentes nestes
períodos de instabilidade e conturbação institucional.
TGPP - 2009 José Domingues 51
Fim

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