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O CORPO, RELIGIÃO E A PSICANÁLISE

Parte I
Conteudista
Prof.ª Esp. Susana Zaniolo Scotton
Dentre as lendas chinesas sobre a origem do arroz, há uma que conta
que, há muitos anos, na China, havia um reino muito poderoso sob o governo
de um rei magnânimo, sentimental e justo, que amava o seu povo e era por ele
amado. A rainha, sua esposa, também era muito querida por todos pelo seu
coração bom, sempre afeito à prática de boas obras.
O rei, um velho chinês, amava muito as crianças e procurava fazer de
tudo para alegrá-las e vê-las felizes nos seus folguedos e nas suas pequeninas
ambições infantis. Entretanto, o casal real não conseguia gerar filhos. Eles
possuíam um reino e um palácio maravilhosos, mas faltava-lhes o ruído, a
graça e o sorriso de uma criança.
Eles, então, resolveram adotar uma menina loura, muito meiga e bonita. A
menina loura, que não pertencia à etnia chinesa, tornou-se uma das jovens
mais lindas e admiradas de todo o reino. Sempre meiga, obediente e
companheira, amiga de todas as horas de seus velhos pais, ela era o encanto
e o centro das principais atenções do rei e da rainha. Lina, como a chamavam,
entretanto, nunca pode se adaptar à alimentação que lhe davam. Ela sempre
se queixava dos alimentos servidos e o que conseguia comer mal dava para
mantê-la em pé, tão fraco era o seu organismo e o seu estado geral, dia a dia,
perdendo saúde e resistência.
Como o rei e a rainha a amavam profundamente e era de grande
preocupação dos pais o seu estado de fraqueza, para alegrá-la, fizeram-na
princesa da Corte. Enquanto isso, eles chamaram a serviço do reino os
melhores cozinheiros então conhecidos a fim de que dessem à princesa os
alimentos mais raros e apetitosos que fossem de seu gosto.
Os mestres da cozinha se esmeravam na apresentação dos melhores
pratos que podiam imaginar e preparar; mas todos eram recusados por Lina,
que não podia adaptar-se ao sistema e ao sabor, para ela, esquisitos da
alimentação oriental.
Não obstante, dona do coração e da vontade de seus amados pais, Lina
cada vez mais fraca veio a falecer, encaminhando-se para outro reino
desconhecido, onde repousam os mortos. A morte da menina loura encheu de
grande amargura todo reino e de inconsolável tristeza os seus dedicados e
amorosos pais.
O rei nunca se esqueceu de sua amada filha e, passado algum tempo, ele
tomou as maiores providências para que os cozinheiros e os técnicos em

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alimentação de todo o reino descobrissem um alimento que, pelo seu sabor,
pela facilidade de seu preparo, pela abundância de sua colheita, fosse
apreciado e preferido por todos e constituísse o alimento primeiro de todas as
mesas, o prato favorito, do agrado e do interesse de todas as pessoas e,
principalmente, de todas as crianças do mundo.
O tempo passava e todas as providências se multiplicavam para que a
vontade do rei fosse alcançada. Aos poucos, todas as providências e iniciativas
foram sendo abandonadas, enquanto o rei, tristonho e abatido, acompanhava o
insucesso e o lento desmoronar do seu sonho.
Um dia, porém, uma notícia maravilhosa se espalhou por todo reino: junto
ao túmulo da princesa Lina, nasceu uma plantinha muito verde, esguia, que
cresceu de tal forma e se encheu de cachos louros, os quais abrigavam uma
pequena semente, muito branca e muito saborosa, que se tornou o alimento
preferido de todos; era, enfim, o “alimento ideal”, que o rei tanto procurava em
memória de sua princesa adorada. Essa plantinha era o arroz.
A partir de então, também, o arroz, como alimento venerado e divino, é
oferecido aos mortos. Um antigo rito chinês consiste em colocar uma tigela de
arroz cozido, com um par de pauzinhos (fachis) espetados na posição vertical
aos pés do morto, para que ele possa se alimentar em sua viagem para o além.
***

Essa lenda chinesa nos serve de exemplo para ilustrar as possíveis


relações estabelecidas entre o corpo humano e o olhar que se tem sobre ele e
a relação que o homem estabelece com a alimentação. Lina, filha dos reis
chineses, não conseguia se adaptar à alimentação chinesa, negando-se a
comer. Essa situação figurativiza as relações entre corpo e alimentação que
perpassam pela cultura, pelas diferentes concepções que temos sobre o que
seria um corpo saudável, quais alimentos são bons ou ruins, como deve ser a
alimentação, etc.
As relações estabelecidas com a alimentação rememoram a relação entre
a criança e seus pais, na forma como ela foi alimentada nos primeiros
momentos de vida. Nesses momentos, o alimento ingerido já tem uma carga
afetiva que se expressa pela linguagem entre a mãe e o bebê: são os toques,
os olhares, a paciência e tudo mais que a mãe pode oferecer ao filho em
conjunção com o alimento. Quaisquer perturbações nesse diálogo podem

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acarretar problemas nesse processo futuramente. Alimentar-se é desde
sempre um ato pleno de significados.
Por meio da lenda, podemos ainda vislumbrar a ligação entre o alimento e
o sagrado. É como se a morte de Lina fertilizasse a terra para o crescimento do
arroz e, assim, o alimento foi, a partir de então, oferecido aos mortos. As
sementes douradas da planta simbolizam o cabelo louro de Lina e a dor de sua
perda pode ser ressignificada por meio da importância que esse alimento
passou a ter.
Nas mais diferentes culturas, é possível perceber que se alimentar é
estabelecer relações com o divino. Quebrar algumas regras de alimentação,
em alguns casos, pode acarretar problemas sérios à vida comunitária. O
alimento é semantizado na medida em que a nutrição que oferece atravessa
simplesmente o físico, químico e o biológico para se transmutar em força
espiritual, aquele que ingere determinado alimento ganha em força espiritual.
Assim, falaremos em princípio de algumas dimensões que suplantam a relação
entre o corpo, a estética do corpo e a alimentação.

I. O corpo e a alimentação: formas de diálogo.


De acordo com Nakamura (2004), o corpo humano não é compreensível
fora da construção social da realidade, é, antes, um produto da socialização. O
corpo humano é fisio, psico e sociologicamente determinado, não
necessariamente em função de ser apreendido por essas diferentes
perspectivas, mas porque há fundamentalmente uma inter-relação do físico, do
individual e do social no corpo humano. Uma vez na dinâmica da vida, não é
mais possível identificar o que se deve à natureza e o que seria próprio da
cultura.
A imagem de um corpo remete ao modo como os indivíduos conceituam e
experimentam seus corpos, de forma consciente ou não, inseridos em atitudes
coletivas, vivenciando sentimentos e fantasias. A imagem do corpo reflete
ainda a forma como as pessoas aprenderam a organizar e a integrar suas
experiências corporais. Nesse sentido, o corpo humano veicula informações e
mensagens sobre a sociedade e sua cultura, haja vista que as noções de
beleza, tamanho, formas ideais, higienização, etc. do corpo são culturalmente
definidas.

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Para os Bororos1 (VIETLER, 2000), por exemplo, para ser bonito, não é
preciso apenas comer a dieta adequada, mas saber também consumi-la,
controlando a gula e saber até a vomitar os excessos quando preciso. Os
Bororos desvalorizam quem come muito e os que possuem barrigas e
adiposidades, por isso prescrevem os vômitos como técnicas de purificação e
de fortalecimento do corpo. O ideal de beleza, para eles, é de um homem forte,
magro, leve e elegante, um ideal que se relaciona intrinsecamente às
qualidades necessárias a uma aldeia de caçadores. Já para a sociedade alto-
xinguana, que desempenha mais a horticultura e a pesca, portanto mais
sedentária, o ideal de beleza se relaciona a um corpo maciço, arredondado.
Ou seja, nessas sociedades, o ideal corresponde a uma função específica
de sobrevivência. As categorias de padrão de beleza só adquirem algum
significado, porque estão inseridas na comunidade e relacionadas à história,
aos valores e aos padrões de conduta que tornam viável a vida comunitária. A
relação entre o homem e o preparo de seu alimento é a relação estabelecida
entre o homem e a natureza e, consequentemente, com o sagrado.
A relação entre a estética dos corpos se relaciona de forma profunda com
a dieta da tribo. Os Bororos não gostam das coisas moles e soltas, sem recato,
sendo considerado bonito tudo o que for firme e rijo, bem preparado, com
tempo de maturação. Do mesmo modo que a comida precisa ser bem cozida e
cheirosa, bem servida em potes e bandejas ornamentadas, os indivíduos
também devem se apresentar com boa aparência física, cuidados, perfumados,
limpos, bem compostos, enrijecidos pelas práticas físicas que correspondem ao
bem estar de toda tribo, para, assim, serem recebidos em seu meio social
(VIETLER, 2000).
As práticas de alimentação assim como a percepção dos corpos até
mesmo em sociedades silvícolas deixam de ser definidas exclusivamente pelas
características fisiológicas, pelas necessidades instintivas e naturais (fome,
sede, saciedade) para se vincularem às experiências socioculturais: “Como
ocorre em todas as populações humanas, os índios brasileiros também
possuem ideais de beleza corporal e valores estéticos, cujo verdadeiro sentido
só pode ser compreendido à luz da visão de mundo e da cultura que lhes é
peculiar” (VIETLER, 2000, p.155).

1
Os Bororos são índios brasileiros da bacia do rio São Lourenço e do rio das Garças, no estado
do Mato Grosso.
5
Mesmo que se alimentar seja um processo biológico, no patamar das
necessidades mais básicas, é também uma necessidade cultural: os alimentos
frequentemente são classificados como puros ou impuros, permitidos ou
proibidos, sagrados ou profanos. Há uma profunda relação entre os alimentos e
a religiosidade: na religião cristã, o fiel ingere o corpo e o sangue de Cristo,
representados pela hóstia e pelo vinho; nas religiões de étimo africano, os
orixás são referendados com comidas específicas que denotam significados
próprios, etc.. A alimentação é, sobretudo, um ato social que implica uma forma
de comunicação (NAKAMURA, 2004), a refeição é um ato de linguagem
fundamental da condição humana. Diz Nakamura (2004, p. 24):
A antropologia tem mostrado como os grupos culturais
diferem nas suas crenças e práticas relacionadas à
alimentação: o que é considerado alimento e o que não é;
alimentos permitidos / alimentos proibidos; como os alimentos
são cultivados, colhidos, preparados e comidos; quem prepara
e quem serve os alimentos para quem; que indivíduos ou
grupos comem juntos, onde e em que ocasiões. Há regras
culturais implícitas no consumo dos alimentos que fazem parte
do modo de vida das comunidades e que devem ser
apreendidas.

Para Nakamura (2004), a relação que o homem estabelece com a comida


e consequentemente com seu próprio corpo revela as condições de saúde e
doença nas diversas sociedades. Assim, segundo a autora, os processos de
saúde e doença devem ser compreendidos na cultura da comunidade por meio
da qual os homens percebem e interpretam o mundo, e dos sistemas de saúde
em que os doentes são reconhecidos e tratados.
Dentro do quadro de desordens relacionadas à alimentação e à estética
dos corpos e sua relação com a cultura, Nakamura (2004) destaca a obesidade
como uma doença muito comum nas culturas ocidentais, principalmente nos
Estados Unidos e na Europa, e que é praticamente desconhecida ou muito rara
nas sociedades tradicionais não-ocidentais. Essa doença estabelece relação
também com o tipo de alimentação cheia de carboidratos e gorduras, segundo
aspectos e hábitos específicos de determinadas sociedades. Claro que há
também, nessa dinâmica, aspectos biológicos, econômicos e psicológicos que
correspondem às particularidades da vida de cada obeso.

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A obesidade é a forma mais comum de desnutrição no Ocidente. Trata-se
de uma doença que não está relacionada apenas à estética, mas ao risco de
morte precoce e ao desencadeamento de uma série de outras doenças.
Atualmente, a preocupação maior está ligada ao aumento da obesidade infantil
com consequências sérias à qualidade de vida dos infantes.
Outros extremos relacionados à saúde e alimentação são a anorexia e a
bulimia nervosa, consideradas verdadeiras epidemias nas sociedades
industrializadas, conforme Ballone (apud NAKAMURA, 2004), atingindo
sobremaneira as mulheres adolescentes e jovens adultas. No entanto, a
anorexia, principalmente, talvez tenha suas raízes históricas datadas
principalmente na Idade Média, o que caracterizaria seu aspecto psicológico
profundo.
Esses dois transtornos, anorexia e bulimia, são duas patologias
intimamente relacionadas por apresentarem representações alteradas da
imagem corporal, preocupação excessiva com o peso e medo patológico de
engordar. Nos dois, os pacientes apresentam um julgamento de si mesmos
baseados no aspecto físico, com mudança da imagem corpórea e
autopercepção da forma e ou do tamanho de seus corpos de modo distorcido.
Há ainda uma insatisfação imensa com a própria imagem que acompanha
esses transtornos.
De qualquer modo, hoje se considera a origem e a manutenção dos
transtornos alimentares como multifatorial e cujas bases envolvem fatores
biológicos, psicológicos e sociais. Alguns autores citados por Nakamura como,
por exemplo, Ballone (2001), Appolinário e Claudino (2000), Polhemus (1978)
falam dos aspectos psicossociais nos transtornos alimentares com ênfase a
certa cultura do corpo ou a busca pelo corpo perfeito, nas sociedades
ocidentais e cujo padrão estético de beleza exerce forte pressão para a
magreza: “Num mundo marcado pela efemeridade das imagens, o corpo deve
se submeter a adequações e transformações constantes, não sem sacrifícios,
sobretudo em determinadas profissões” (NAKAMURA, 2004, p.18).
Se a alimentação é um ato de linguagem, o que é dito pelo corpo neste
ato? Quais as relações estabelecidas entre alimento, corpo, estética e cultura?
Se há em todos os povos um ideal de beleza, qual a imagem que deve ser
alcançada que circunda nosso imaginário? A partir dessas informações,
propomos a análise de algumas imagens para que possamos perceber qual é a

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comunicação implícita na estética dos corpos, nos alimentos ingeridos nas
diferentes culturas, a partir daquilo que é considerado belo e feio. A partir das
imagens, propomos a percepção da saúde e da doença, daquilo que o corpo
comunica em sua linguagem visual, gestual, na indumentária.

II. Entre corpos, culturas, imagens: mensagens.


a. Imagens.
A imagem não está restrita somente ao universo das coisas retidas pela
visão. O ser humano é capaz de criar imagens mentais que, talvez, nunca se
materializem diante dos seus olhos. Para Mircea Eliade (1996, p.12-13) “a mais
pálida das existências está repleta de símbolos, o homem mais realista vive de
imagens”. Chamamos esse conjunto de imagens “mentais” “imaginário”.
Segundo Klein (2005), o imaginário não se restringe à ficção, pois as imagens
produzidas pelo homem terminam por recriá-lo: “o que vemos, portanto, pode
ser aquilo que nos olha [...]. Depois de criar nossos deuses, delegamos a eles
o poder de nos criar” (KLEIN, 2005, p.177, 178). O imaginário, enquanto
antagonista e complemento da “realidade”, possibilita exatamente o “real” para
o homem. As imagens oníricas do mundo dos sonhos (em momentos de vigília
ou não), do mundo impossível, representam, para Freud (apud KLEIN, 2005),
nossos desejos, aspirações, medos, frustrações, necessidades etc. de modo
que, uma vez criados ou recriados pelo imaginário, podemos nos “libertar” de
tais sensações. E, para Bystrina apud Klein (2005), é, por isso que, o sonho,
visto como uma “segunda realidade”, é uma das raízes transformadoras da
cultura.
O imaginário pode ser concretizado nos objetos da arte e da religião, pois
está ligado profundamente ao pensamento mágico e religioso do homem 2 .
Pinturas, desenhos, esculturas adquiriram a forma de nossos pesadelos e
aspirações. Ou seja, a imaginação transcendeu a virtualidade mental para se
tornar visível em nossa realidade material.
Cada sociedade, em sua cultura, contém um imaginário que rege também
as concepções individuais de beleza, de estética dos corpos. Estar dentro de

2
De acordo com Klein (2005), talvez, a religiosidade, na pré-história, esteja relacionada, ao
problema do surgimento das primeiras imagens mentais, porque, muitas vezes, foi a partir delas que os
temas mitológicos surgiram.
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um padrão estético corresponderia, em princípio, ao estado de saúde de uma
população, sendo que a beleza teria, em alguma medida, relação com a saúde.

b. Mensagens
A música, a dança, e as artes plásticas dos índios brasileiros estão
vinculadas profundamente ao mundo mágico-religioso, que está, por sua vez,
ligado às atividades produtivas. Os mitos compõem o imaginário das tribos,
servindo como exemplos de conduta e ideais de beleza. O canto, por exemplo,
na tribo Bororo, acompanha todas as atividades de pesca e canto e têm como
objetivo pedir respeitosamente aos espíritos e aos ancestrais que liberem as
várias espécies de caças e peixes para seu consumo.
Assim, é considerado extremamente belo alguém que saiba cantar. O
canto tem uma conotação mítico-religiosa e é de extrema importância para os
índios bororos. A beleza dos cantadores provém do garbo e da graça com que
entoam os cantos, que aprenderam com os mais velhos. Os cantadores, que
acabam por ficar exaustos de tanto aprimorar seu canto, são belos ainda por se
sacrificarem em prol da tribo: belo é o homem que antes de tudo é generoso,
protetor e provedor de seus semelhantes (VIERTLER, 2000):
Ao ser indagado por que havia escolhido determinada
mulher para esposa, um velho bororo respondeu que, ainda
hoje, a sua mulher é desejável porque sabe chorar. Isso
significa que apesar de gorda e envelhecida, ela continua
realizando os prantos rituais com grande perfeição; postura de
corpo expressando profunda tristeza, movimentos ondulantes
da grande cabeleira preta, voz cheia oscilando entre soluços,
murmúrios e gritos lancinantes braços e corpo desenhados por
cortes e cicatrizes feitos durante funerais (VIERTLER, 2000, p.
175).

Ou seja, para esses índios, é belo também o corpo que expressa com
fidelidade o que sente, que sabe representar sua história, sua cultura, sua tribo.
Um homem velho, por exemplo, pode ser considerado extremamente belo, pois
tem em si o senso de responsabilidade pleno e amadurecido, seja em relação a
si mesmo, seja em relação aos outros que o rodeiam. Seu corpo é visto como
belo, porque ele é a expressão do investimento dos cuidados, do carinho, do

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amor e de todos os recursos que seu grupo de parentes próximos nele
depositou.

Ver imagem em: http://brasil.wikia.com/wiki/Arquivo:Bororo-Boe_.jpg

Assim, para os índios de modo geral, ser belo só passa a ser socialmente
significativo quando implicar o bom, o saudável, o socialmente esperado. A
beleza só é beleza quando corresponder a uma beleza amorosa. A beleza
verdadeira, além de sedução e gozo, “é fecundidade amorosa engendrando
alimento que, com calor e entusiasmo, nutre a memória dos homens”
(VIERTLER, 2000, p.179). Em sua concepção de beleza, além do Eros,
sensualidade, os índios consideram o Agápe, que significa literalmente comer
junto de todos e com todos, num partilhar amoroso da comida.
Claro que os índios têm seus preconceitos. Aquilo que para eles é
diferente ou estranho em relação a sua cultura é visto como feio, por exemplo.
O homem civilizado é feio, para os bororos, porque não comunga de sua
realidade e preceitos.
A cultura bororo nos serve não enquanto ideal a ser seguido ou mesmo
como aquilo que é certo. Nossa ideia não é comparar culturas. Serve, talvez,
para que nos lembremos de nós mesmos, afinal também acreditamos que a
beleza está ligada à harmonia, à saúde, ao afeto, à construção de uma história
de vida individual e coletiva, Entretanto, em algum momento, nós nos
esquecemos da ligação efetiva e afetiva do alimento com sagrado, em sua
representação do coletivo. Perdemos a beleza do percurso de nossas histórias
de vida para uma alienação que culmina numa beleza anônima e sem história,
que desvincula a aparência física do organismo humano das suas virtudes e
dos modos de ser de seu dono.
O imaginário que permeia muitas vezes nossas concepções de beleza e
estética do corpo são desprovidos de “substância”, de carne e sangue; são

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antes criações fantasiosas de perfeitas “estátuas de cera”, mulheres
andróginas, infantilizadas:

Imagens retiradas do livro de Bussi (2004, Anorexia, Bulimia, Obesidade).

Se pudéssemos colocar rótulos ou mensagens subjetivas nessas


imagens, talvez pudéssemos dizer: O que será que lhe disseram que você
deveria ser que o limitou em sua percepção de mundo? O que será que lhe
disseram que você não poderia fazer que fez com que você se perdesse do
que você poderia ser?
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Os obesos, os anoréxicos, os bulímicos, nesse sentido, não são seres
analisáveis fora de nosso contexto social – claro que com suas especificidades
individuais – são, antes, sintomas de nossa cultura. Os degraus que nos
separam são mínimos. Tais imagens são por nós olhadas, mas também nos
olham, como os homens que criam os deuses e esses a partir daí passam a
nos guiar.
Os obesos se alimentam demais sem de fato se nutrir, os anoréxicos não
se alimentam e os bulímicos se alimentam de forma desenfreada para depois
se desfazerem em vômitos.

b.1) Os obesos

Ver imagem em: http://ricardopassos.blogspot.com.br/2010/06/mentes-gordas-almas-


magras.html

Qual o afeto que se procura em meio a tantos alimentos que não


alimentam de fato? Por que nunca há satisfação? Mas no obeso parece ainda
haver gozo na vida, vontade de experimentar, de “por a boca”, de “por na
boca”. As obesas nem sempre foram discriminadas. Em algumas épocas, as
mulheres rechonchudas – o que talvez ainda não seja obesidade – eram
consideradas musas.

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Imagens retiradas do livro de Bussi (2004, Anorexia, Bulimia, Obesidade).

O que terá acontecido no decorrer do tempo para que essas mulheres


sejam tão mal vistas hoje?

b.2.) Os anoréxicos e os bulímicos


Na anorexia, o que faltou na infância, nos primeiros momentos com a
mãe, que tornou o ato de se alimentar tão precário? Qual é o alimento que
tanto se rejeita? Por que ter formas pode ser perigoso? Qual é o grande medo
da vida?

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Ver imagem em: http://ladyscomics.com.br/tag/pin-up/page/2

Na bulimia, como ser voraz e ao mesmo tempo negar a voracidade por


meio do vômito?
Essas imagens compõem hoje nossa realidade e nosso imaginário. São
imagens deformadas do potencial orgânico e espiritual do ser humano. Atestam
a desarmonia presente na doença.
Se alimentar-se é um ato de comunicação, qual a mensagem que
estamos compartilhando, enquanto educadores, enquanto nutricionistas,
psicólogos, pais? Qual a imagem transmitida quando se pensa, fala ou propõe
algo em relação à alimentação? Alimentar-se envolve mais que aspectos
nutricionais.
***

Na lenda chinesa, no início do texto, o rei manda chamar os melhores


cozinheiros e técnicos em alimentação para descobrir um alimento universal
que pudesse agradar a todos. O alimento descoberto foi, em verdade, o afeto.
Foi o afeto que fez com que o rei empreendesse sua busca e a natureza assim
pode lhe devolver uma resposta. O afeto é o que adoça o leite nos primeiros
momentos da alimentação de um filho. É o afeto no olhar dos cuidadores que
assegura o conforto da criança.
Assim como os Bororos, talvez, pudéssemos pensar a alimentação de
forma coletiva, como parte da comunhão de cuidados que devemos ter para
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com os mais jovens; unir o Agápe à beleza física. Apreciar-se em seus
atributos físicos, mas também em suas virtudes, desejos, história de vida,
erros... apreciar-se como parte de um todo, que coopera para o bem estar das
diferentes partes que o compõem o coletivo.

Ver imagem em: http://semiedu2013.blogspot.com.br/2013_03_01_archive.html

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REFERÊNCIAS

ELIADE, M. Imagens e simbolismo mágico. Ensaio sobre o simbolismo


mágico-religioso. Trad: Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

KLEIN, A. Imagem: arqueologia e conceitos. In: Significação. São Paulo,


Annablume editora, 2005.

NAKAMURA, E. Representações sobre o corpo e hábitos alimentares: o


olhar antropológico sobre os aspectos relacionados aos transtornos
alimentares. In: BUSSE, S.R. (Org). Anorexia, Bulimia e Obesidade. Barueri,
SP: Manole, 2004.

VIERTLER, R. B. As aldeias Bororo. Alguns aspectos de sua organização


social. Edição do fundo de pesquisa do museu paulista da Universidade de São
Paulo, USP: São Paulo, 1976.

VIERTLER, R. B. A beleza do corpo entre os índios brasileiros. In:


QUEIROZ, R. S. (Org.). O corpo do brasileiro, estudos de estética e beleza.
São Paulo: Editora SENAC, 2000.

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