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Apostila I

A PSICOLOGIA DOS
COMPLEXOS E TIPOLOGIA
SEGUNDO CARL G. JUNG

01/01/2017

Célia S. C. Franz CRTH-1161-ABRATH Célia S. C. Franz CRTH-1161-


ABRATH
A PSICOLOGIA DOS COMPLEXOS

Para entender um pouco da história da psicologia, vamos saber mais sobre Carl
Gustav Jung.
As suas teorias têm sido tanto fonte de controvérsia quanto de inspiração. Não é
a toa que ele é o fundador de uma escola do campo psicanalítico, a escola
de psicologia analítica, também denominada psicologia dos complexos e
psicologia profunda.

Durante muito tempo, Jung foi discípulo de Freud. No entanto, afastou-se dele
principalmente porque não estava de acordo com a sua teoria da sexualidade.
E assim, Jung postulou a existência de um “inconsciente coletivo“, que
antecedia o inconsciente individual.

Jung foi um intelectual inquieto, que se informou em várias fontes. Além da


neurologia e da psicanálise, as teorias de Jung receberam influência da
mitologia, astrologia, e até mesmo da religião e da parapsicologia. Uma das
suas grandes paixões foi a arqueologia, e é provavelmente dessa tendência que
emerge a construção da teoria dos arquétipos, ou símbolos universais que estão
presentes no inconsciente humano.

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A TEORIA DO ICEBRG

A Teoria do Iceberg foi criada pelo aclamado escritor Ernest Hemingway.


Sabe quando conhecemos uma pessoa e “o santo não bate”? Isso pode ser
explicado através dessa teoria.

Imagine um iceberg. Só vemos a ponta do mesmo na superfície do mar. Ele,


no entanto, tem uma base de sustentação muito maior que fica submersa. Para
Hemingway, isso também acontece com nossa mente.

Percebemos o que vemos apenas superficialmente: o restante da informação é


absorvida sem que tenhamos noção disso. Ou seja, uma parte é percebida
conscientemente enquanto a outra é registrada inconscientemente.

Voltando ao exemplo da pessoa cujo santo não bate com o seu, isso acontece
por um sem-número de informações (que podem incluir traços físicos,
detalhes da personalidade ou até mesmo a voz ou ritmo de fala) que seu
inconsciente pode ter percebido em outras situações desfavoráveis e replicado
a sensação de desconforto ao ter contato com essa pessoa. Mesmo com todo
esse extenso processo ocorrendo, o que chega à consciência é simplesmente
um sentimento inexplicável de ter algo errado com quem você conheceu.

Essa teoria é largamente utilizada na área de marketing, negócios e psicologia.

Segundo Jung:

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Jung também utilizou a teoria do iceberg como analogia para exemplificar e
facilitar a compreensão da mente humana.

Para Jung, o inconsciente é dividido em dois níveis, o inconsciente pessoal e o


inconsciente coletivo. Na primeira camada, encontram-se todas aquelas
informações que as pessoas absorvem e se esquecem ou não possuem mais
contato, mas podem ser acessadas caso tenham energia suficiente para chegar
ao subconsciente, que é o limiar da consciência.

Já a segunda camada, de inconsciente coletivo, é algo impessoal. “Sua


particularidade mais inerente é o caráter mítico. É como se pertencesse à
humanidade em geral, e não a uma determinada psique individual” (JUNG,
2008).

Sua definição para o inconsciente é a seguinte: “O inconsciente retrata um


estado de coisas extremamente fluido: tudo o que eu sei, mas em que não
estou pensando no momento; tudo aquilo de que um dia eu estava consciente,
mas de que atualmente estou esquecido; tudo o que meus sentidos percebem,
mas minha mente consciente não considera; tudo o que sinto, penso, recordo,
desejo e faço involuntariamente e sem prestar atenção; todas as coisas futuras
que se formam dentro de mim e somente mais tarde chegarão à consciência;
tudo isto são conteúdos do inconsciente”.

 O que é o Inconsciente:

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Jung define o inconsciente como sendo “um conceito-limite psicológico que
abrange todos os conteúdos ou processos psíquicos que não são conscientes,
isto é, que não estão relacionados com o eu de modo perceptível” (JUNG,
2008a, p.424). Como se pode notar, o inconsciente foi definido por exclusão,
justamente por ser algo desconhecido em sua essência. Segundo o autor, tudo
que podemos conhecer sobre o inconsciente fazemos por meio do nosso
consciente, de sorte que no máximo é possível tecer considerações a partir dos
efeitos daquele que se fazem notar na consciência.
“Tudo o que conhecemos a respeito do inconsciente foi-nos transmitido pelo
próprio consciente. A psique inconsciente, cuja natureza é completamente
desconhecida, sempre se exprime através de elementos conscientes e em
termos de consciência, sendo esse o único elemento fornecedor de dados para
a nossa ação” (JUNG, 2008c, p. 3)
Por esta perspectiva, a nossa vida consciente estaria para a ponta de um
iceberg, assim como o inconsciente estaria para a parte submersa daquele,
imensurável e indefinível em sua forma. Jung (2008a) entende que pela
impossibilidade de se conhecer o inconsciente diretamente, e pela experiência
das inúmeras manifestações deste, pode-se afirmar que o Ego, o centro da
parte consciente da psique, seria uma pequena parte imersa num vasto
inconsciente.
Pela experiência em psicoterapia, Jung (2008a) acredita que os conteúdos do
inconsciente podem ser originários do Inconsciente pessoal e do Inconsciente
Coletivo.
Apesar de que não é possível determinar a origem destes conteúdos, Jung
acredita que seus produtos podem ser classificados desta forma.

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 O que é Inconsciente pessoal:

É a camada superficial do inconsciente, e é constituído de conteúdos que já


foram conscientes.
Parte dos conteúdos que foram rejeitados pela consciência são conteúdos que
não atenderam aos ideais da consciência, incompatíveis com a moralidade do
indivíduo, discordantes do contexto social em que vive o indivíduo.
Isto é, conteúdos que destoam dos objetivos da consciência e que, assim, são
separados do contato com o ego.
Jung assim o define:

“Daqui se segue que o inconsciente é o receptáculo de todas as lembranças


perdidas e de todos aqueles conteúdos que ainda são muito débeis para se
tornarem conscientes. Estes conteúdos são produzidos pela atividade
associativa inconsciente que dá origem aos sonhos. Além destes conteúdos,
devemos considerar também todas aquelas repressões mais ou menos
intencionais de pensamentos e impressões incômodas. À soma de todos estes
conteúdos dou o nome de Inconsciente Pessoal. (Carl Gustav Jung: A
natureza da psique-§430).

Assim, o Inconsciente Pessoal consiste em experiências que anteriormente


foram conscientes, porém agora se encontram reprimidas pela não aceitação

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do ego, esquecidas e também em experiências passadas fracas demais para
deixar uma impressão no indivíduo.
É a camada superficial do inconsciente e mais próxima da consciência e,
portanto, adjacente ao ego.
Quando conteúdos ou ideias carregados de emoção se aglomeram ou agrupam
no Inconsciente Pessoal surge o que Jung chamou de complexo.
O ego é um complexo.
O Inconsciente Pessoal “engloba as aquisições da existência pessoal: o
esquecido, o reprimido, o subliminarmente percebido, pensado e sentido.”
(JUNG, 2008a, p.426)
Os conteúdos reprimidos são aqueles aspectos desagradáveis que ao entrarem
na consciência são negados pelo ego, e passam a fazer parte do imenso
inconsciente. Este processo de armazenamento no inconsciente,
diferentemente da exclusão, pode ser verificado quando posteriormente estes
conteúdos ameaçam tomar a consciência de assalto, no processo de
compensação que posteriormente explicaremos.
Além dos conteúdos reprimidos, também seriam provenientes do Inconsciente
Pessoal materiais psicológicos que não chegaram a ter importância suficiente
para serem conscientes, mas que foram apreendidos pelo indivíduo. As
percepções subliminares dos sentidos são um bom exemplo deste material,
visto que uma pequena parcela de tudo que percebemos por meio dos sentidos
chegam a nossa psique consciente, e não obstante, posteriormente é comum
conseguirmos acessar informações que não sabíamos que estavam guardadas.
Não só as percepções sensoriais, mas também pensamentos, sentimentos e
intuições que passam a beira da consciência podem ser legados ao
inconsciente por não terem importância suficiente, de sorte que sua presença
posterior na consciência é uma forma de se constatar que não foram
simplesmente descartados, mas ficaram ruminando em alguma parte da
psique.

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Também segundo o autor, os conteúdos que conseguiram atingir a
consciência, mas que por algum motivo perderam importância e podem passar
a fazer parte do Inconsciente Pessoal. Não precisaram ser reprimidos, mas
perderam a energia suficiente para permanecer conscientes, e foram
esquecidos. Nesta categoria estariam diversas informações, sentimentos,
sensações e pensamentos que ocupam nossa consciência em determinadas
situações, mas que são abandonados. Posteriormente, é possível acessá-las
novamente.

 O que é Inconsciente coletivo:

Com relação ao Inconsciente Coletivo, Jung (2008d) explica que é uma


camada mais profunda do inconsciente, cujos produtos seriam constituídos de
conteúdos que vão além da experiência pessoal de vida do indivíduo. Assim
como cada célula do corpo humano é uma célula nova, e seu DNA contém o
resultado de toda a evolução que a espécie sofreu desde o início dos tempos,
também a psique teria em sua constituição a habilidade de pensar de toda
história da humanidade, herdado em forma de categorias e/ou possibilidades.
Estes conteúdos foram chamados por Jung (2008d) de Arquétipos ou Imagens
Primordiais, e existem porque “nossa mente inconsciente, bem como nosso
corpo, é um depositário de relíquias e memórias do passado. Um estudo da

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estrutura do inconsciente coletivo revelaria as mesmas descobertas que se
fazem em anatomia comparada.” (JUNG, 2008c, p.36).
Jung (2008d) constatou que estes conteúdos de caráter universal não poderiam
vir da experiência pessoal de quem os apresentou, pois em muitos casos seria
impossível que certos indivíduos tivessem acesso consciente a tais materiais,
seja porque nunca ouviram ou leram algo do tipo, seja porque não fazem parte
de sua cultura. Além disso, percebeu que essas categorias de pensamento se
repetiam nos contos de fadas, nas lendas de vários povos, e também nos
sonhos de diversos pacientes, pois o Inconsciente Coletivo,
“como estrutura cerebral generalizada, é um espírito “onipresente” e
“onisciente” que tudo pervade.
Conhece o ser humano como ele sempre foi e não como é neste exato
momento. Conhece-o como mito. É por isso também que a relação com o
inconsciente supra-pessoal ou Inconsciente Coletivo vem a ser uma expansão
do ser humano para além de si mesmo, uma morte de seu ser pessoal e um
renascer para uma nova dimensão, segundo nos informa a literatura de
certos mistérios antigos.” (JUNG, 2007a, p.15)
Estas evidências foram matéria prima para que formulasse a existência de uma
camada da psique, existente em todos os seres humanos, na qual houvesse
categorias de pensamento e possibilidades de conteúdos comuns a todos os
povos e épocas da humanidade.
Desta forma, todos os seres humanos podem viver as categorias arquetípicas
dentro das diversas possibilidades de suas próprias experiências pessoais.
Exemplo dos arquétipos são o arquétipo materno, o arquétipo paterno, o
arquétipo de velho sábio e o arquétipo do herói. Estas categorias são comuns a
todas as pessoas, pois a princípio todos fomos gerados por um pai e uma mãe,
todos entramos em contato com algum tipo de conhecimento/sabedoria, todos
vivemos algum tipo de situação que nos levou rumo ao fortalecimento de
nossos poderes pessoais.

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 Função Compensatória do Inconsciente

Para Jung, a psique é “a totalidade dos processos psíquicos, tanto conscientes


quanto inconscientes” (JUNG, 2008a, p.388). Durante muitos anos a
psicologia acreditou que a psique se limitaria ao que podemos vivenciar
conscientemente.
As pesquisas de autores como Freud, Adler e Jung revelaram a importância
desta outra parte da psique, o inconsciente. Especialmente para Jung (2008c),
o inconsciente tem importância igual, senão maior que o consciente.
Conforme exposto, não é possível conhecer exatamente a natureza da camada
inconsciente da psique, entretanto foi possível classificar a manifestação de
seus produtos na mente consciente. Sejam eles conteúdos pessoais
subliminares, esquecidos, ou reprimidos, sejam eles arquetípicos ou não, para
Jung (2007a) este material se manifesta na consciência em atitude autônoma e
de forma complementar à vida vivida conscientemente.
As características autônoma e complementar do inconsciente estão
diretamente relacionadas com a unilateralidade da vida consciente, sobre a
qual o autor diz que “quando a vida, por algum motivo, toma uma direção
unilateral, produz-se no inconsciente, por razões de auto-regulação do
organismo, um acúmulo de todos aqueles fatores que na vida consciente não
puderam ter suficiente voz nem vez.” (JUNG, 2007a, p.19).
Desta constatação Jung elaborou sua teoria da função compensatória do
inconsciente. Para ele, quanto mais a atitude consciente do indivíduo se
aproxima daquilo que é considerado ótimo tanto do ponto de vista social

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quando individual, os produtos emergidos do inconsciente se comportam de
maneira menos autônoma, manifestando simples possibilidades
complementares, ou até mesmo coincidentes com a vida vivida
conscientemente. Isto porque o inconsciente não é formado apenas de material
reprimido, pois “contém também as obscuras fontes do instinto e da intuição,
a imagem do homem como sempre foi desde tempos imemoriais, além
daquelas forças que a mera racionalidade, conveniência e sensatez de uma
vida burguesa jamais poderiam despertar para uma ação vital, aquelas forças
criativas que sempre de novo conseguem levar a vida do homem a novos
desdobramentos” (JUNG, 2007a, p.23)
Entretanto, quanto mais o rumo da vida do indivíduo se torna de alguma
forma unilateral, desconsiderando aspectos importantes da personalidade, ou
até mesmo da coletividade, progressivamente os conteúdos emergidos do
inconsciente vão ganhando autonomia, e aparecem em evidente oposição à
sua atitude consciente. Segundo Jung (2007a), todos estes conteúdos não
vividos agem de forma compensatória, até que a atitude consciente seja tão
unilateral que passam a agir em clara oposição a esta atitude. Daí a origem das
diversas doenças psíquicas e físicas, que para o autor, são justamente a
manifestação desta cisão interna no indivíduo.

 Self e Individuação

Dos processos do inconsciente, ora em atitude de compensação, ora em


movimento de oposição a atividade consciente, Jung (2008b) constatou que

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existe como pano de fundo na vida dos indivíduos uma força que os leva a
realizar a totalidade do ser. Para ele, os processos inconscientes se relacionam
de forma complementar a atitude consciente para que seja formada a
totalidade que chamou de si-mesmo, ou self.
Dessa forma, quando adoecemos fisicamente ou psicologicamente, por trás
destes acontecimentos estaria a realização do propósito do Self, que “abarca
não só a psique consciente, como a inconsciente, sendo portanto, por assim
dizer, uma personalidade que também somos” (JUNG, 2008b, p.53)
Este movimento de realização do Self é chamado por Jung de processo de
individuação, sendo um caminho contínuo. Para o autor, “é impossível chegar
a uma consciência aproximada do si-mesmo, porque por mais que ampliemos
nosso campo de consciência, sempre haverá uma quantidade indeterminada e
indeterminável de material inconsciente, que pertence à totalidade do si-
mesmo.
Este é o motivo pelo qual o si-mesmo sempre constituirá uma grandeza que
nos ultrapassa.” (JUNG, 2008b, p.53)
E ainda:
“Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do
autoconhecimento, atuando conseqüentemente, tanto mais se reduzirá a
camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo.
Desta forma, vai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho,
susceptível e pessoal do eu, aberta para a livre participação de um mundo
mais amplo de interesses objetivos” (JUNG, 2008b, p.53).
Diante do exposto, vemos que por ser um processo, a individuação é
constante, não é um lugar em que o indivíduo chega, mas um processo que
passa a viver, de forma contínua, justamente porque o inconsciente é
imensurável.
Além disso, individuação esta diretamente relacionada à diferenciação do
coletivo, integrando o inconsciente pessoal, reconhecendo o inconsciente
coletivo e posteriormente se diferenciando deste. Sobre isto Jung escreveu

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que: “para diferenciar o eu do não-eu é indispensável que o homem – na
função de eu – se conserve em terra firme, isto é, cumpra sue dever em
relação à vida e, em todos os sentidos, manifesta sua vitalidade como membro
ativo da sociedade humana. Tudo quanto deixar de fazer nesse sentido cairá
no inconsciente e reforçará a posição do mesmo. E ainda por cima ele se
arrisca a ser engolido pelo inconsciente.” (2007b, p.65)

ARQUÉTIPOS

O termo “arquétipo” tem suas origens na Grécia antiga, as palavras raiz são
archein que significa “original ou velho” e typos que significa “padrão,
modelo ou tipo”, o significado combinado é “padrão original” do qual todas as
outras pessoas similares, objetos ou conceitos são derivados, copiados,
modelados, ou emulados.
O psicólogo Carl Gustav Jung usou o conceito de arquétipo em sua teoria da
psique humana, ele acreditava que arquétipos de míticos personagens
universais residiam no interior do inconsciente coletivo das pessoas em todo o
mundo, arquétipos representam motivos humanos fundamentais de nossa
experiência como nós evoluímos consequentemente eles evocam emoções
profundas.

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A parte herdada da PSIQUE; padrões de estruturação do desempenho
psicológico ligados ao INSTINTO; uma entidade hipotética irrepresentável
em si mesma e evidente somente através de suas manifestações.

A teoria dos arquétipos, de Jung, desenvolveu-se em três estágios. Em 1912


ele escreveu sobre imagens primordiais que reconhecia na vida inconsciente
de seus pacientes, como também em sua própria auto-análise.
Essas imagens eram semelhantes a motivos repetidos em toda parte e por toda
a história, porém seus aspectos principais eram sua numinosidade,
inconsciência e autonomia. Na concepção de Jung, o INCONSCIENTE
coletivo promove tais imagens.
Foi em 1919 que pela primeira vez fez uso do termo arquétipo, a fim de evitar
qualquer sugestão de que era o conteúdo e não o esboço ou padrão
inconsciente e irrepresentável que era fundamental. São feitas referências ao
arquétipo per se para que fosse claramente distinguido de uma IMAGEM
arquetípica compreensível (ou compreendida) pelo homem.
O arquétipo é um conceito psicossomático, unindo corpo e psique, instinto e
imagem. Para Jung isso era importante, pois ele não considerava a psicologia
e imagens como correlatos ou reflexos de impulsos biológicos. Sua asserção
de que as imagens evocam o objetivo dos instintos implica que elas merecem
um lugar de igual importância.
Os arquétipos são percebidos em comportamentos externos, especialmente
aqueles que se aglomeram em torno de experiências básicas e universais da
vida, tais como nascimento, casamento, maternidade, morte e separação.
Também se aderem à estrutura da própria psique humana e são observáveis na
relação com a vida interior ou psíquica, revelando-se por meio de figuras tais
como ANIMA, SOMBRA, PERSONA, e outras mais. Teoricamente, poderia
existir qualquer número de arquétipos.
Padrões arquetípicos esperam o momento de se realizarem na personalidade,
são capazes de uma variação infinita, são dependentes da expressão individual

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e exercem uma fascinação reforçada pela expectativa tradicional ou cultural;
e, assim, portam uma forte carga de energia, potencialmente arrasadora a que
é difícil de se resistir (a capacidade de fazê-lo é dependente do estágio de
desenvolvimento e do estado de CONSCIÊNCIA). Os arquétipos suscitam o
AFETO, cegam o indivíduo para a realidade e tomam posse da VONTADE.
Viver arquetipicamente é viver sem limitações (INFLAÇÃO). Entretanto, dar
expressão arquetípica a alguma coisa pode ser interagir conscientemente com
a imagem COLETIVA, histórica, de forma tal a permitir oportunidade para o
jogo de polaridades intrínsecas: passado e presente, pessoal e coletivo, típico e
único.
Todas as imagens psíquicas compartilham, até certo ponto, do arquetípico.
Esta é a razão por que os sonhos e muitos outros fenômenos psíquicos
possuem numinosidade. Comportamentos arquetípicos têm a maior evidência
em tempos de crise, quando o EGO está vulnerável ao máximo. Qualidades
arquetípicas são encontradas em SÍMBOLOS e isso, em parte, responde por
sua fascinação, utilidade e recorrência. DEUSES são METÁFORAS de
comportamentos arquetípicos e MITOS são ENCENAÇÕES arquetípicas. Os
arquétipos não podem completamente ser integrados nem esgotados em forma
humana. A análise da vida implica uma conscientização crescente das
dimensões arquetípicas da vida de uma pessoa.
O conceito do arquétipo, de Jung, está na tradição das ideias Platônicas,
presentes nas mentes dos deuses, e que servem como modelos para todas as
entidades no reino humano. As categorias apriorísticas da percepção, de Kant,
e os protótipos de Schopenhauer também são conceitos precursores.
Em 1934, Jung escreveu:
Os princípios básicos, os archetypo, do inconsciente são indescritíveis em
virtude de sua riqueza de referência, muito embora recognoscíveis em si
mesmos. O intelecto discriminador naturalmente prossegue tentando
estabelecer-lhes significados únicos e, assim, perde o ponto essencial; pois
aquilo que, antes de tudo, podemos estabelecer como compatível com sua

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natureza é seu significado múltiplo, sua quase ilimitada riqueza de referência,
que torna impossível qualquer formulação unilateral (CW 9i, parág. 80).
Ellenberger (1970) identificou o arquétipo como uma das três principais
diferenças conceituais entre Jung e Freud na definição do conteúdo e do
comportamento do inconsciente. Seguindo Jung, Neumann (1954) via os
arquétipos recorrentes em cada geração, mas também adquirindo uma história
de formas baseada em uma ampliação da consciência humana.
Hillman, fundador da escola da Psicologia Arquetípica, cita o conceito de
arquétipo como o mais fundamental na obra de Jung, referindo-se a essas mais
profundas premissas do funcionamento psíquico como delineadoras do modo
pelo qual percebemos e nos relacionamos com o mundo (1975). Williams
argumentou que, se a estrutura arquetípica permanecer vazia sem uma
experiência pessoal para preenchê-la, a distinção entre dimensões pessoais e
coletivas da experiência ou categorias do inconsciente pode ser algo
acadêmica (1963a).
Noções de estrutura psicológica inata existem na psicanálise hodierna,
marcadamente na escola kleiniana; Isaacs (fantasia inconsciente), Bion
(preconcepção) e Money-Kyrle (cf. Money-Kyrle, 1978). A teoria dos
arquétipos, de Jung, também pode ser comparada ao pensamento estruturalista
(Samuels, 1983 a).
Com o uso crescente do termo, encontramos freqüentes referências a
fenômenos tais como “um necessário deslocamento do arquétipo paterno” ou
“o arquétipo em deslocamento da feminilidade”. A palavra foi incluída no
Dictionary of Modern Thought de Fontana, em 1977. O biólogo Sheldrake
encontra correspondência relevante entre a formulação de Jung e sua teoria
dos “campos morfogenéticos” (1981).

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 Numinosidade dos Arquétipos e Participação Mística

As características arrebatadoras e místicas relativas a anima e animus, a


personalidade mana e aos aspectos arquetípicos da sombra são devido a sua
natureza numinosa.
Jung fala que “cada vez que um arquétipo aparece em sonho, na fantasia ou na
vida, ele traz consigo uma influência específica ou uma força que lhe confere
um efeito numinoso e fascinante ou que impele à ação.” (2007b, p.61 e 62)
Para se ter idéia do efeito da numinosidade dos arquétipos, basta olhar a
irracionalidade e o aspecto de fixação religiosa com que pessoas que
vivenciam a personalidade-mana se julgam verdadeiros sábios, ou então o
sentimento de perfeição e fatalidade mortal que pessoas apaixonadas vivem ao
tomarem atitudes extremas e impensadas. Assim também acontece quando
projetam suas sombras em figuras externas, carregadas de características
arquetípicas, como exemplo das fogueiras da inquisição, ou no recente
aumento da hostilidade mundial relacionada aos originários de países com
maioria mulçumana.
Estas atitudes estão permeadas de uma identificação com as imagens
primordiais, e conseqüentemente da vivência característica com que estas
categorias arquetípicas foram preenchidas ao longo da história da
humanidade. Aqui estamos falando de conteúdo psíquico que extrapolam a
vida pessoal, e por isto, Jung diz que “essas imagens contêm não só o que há
de mais belo e grandioso no pensamento e sentimento humanos, mas também
as piores infâmias e os atos mais diabólicos que a humanidade foi capaz de

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cometer. Graças à sua energia específica (pois comportam-se como centros
autônomos carregados de energia), exercem um efeito fascinante e comovente
sobre o consciente e, conseqüentemente, podem provocar grandes alterações
no sujeito.” (2007b, p. 62)

Este poder numinoso e irresistível dos arquétipos pode levar ao que Jung
(2008a) chamou de Participação Mística.
Para o autor, “consiste em que o sujeito não consegue distinguir-se claramente
do objeto, mas com ele está ligado por relação direta que poderíamos chamar
identidade parcial.” (2008a, p.433). Este fenômeno está diretamente
relacionado com as camadas mais arcaicas de nossa pisque. Entre os povos
primitivos, conforme explicamos em capítulo anterior, a externalidade da
pisque e a identificação exagerada com forças mágicas e místicas, fez com
que vivessem a numinosidade dos arquétipos principalmente em sonhos e
rituais. A participação mística acontecia primordialmente na influência
mágica e identificação mística com objetos.
Apesar de ser um fenômeno tipicamente arcaico, este continua a acontecer na
atualidade, talvez de uma forma mais sorrateira. Isto porque a ausência de
rituais simbólicos, onde a participação mística tomava lugar intenso, não
existe mais, e dessa forma a identificação mágica ocorre não tanto com um
objeto, mas com a ideia que se faz dele, e frequentemente com relação a certos
ideais, como o de casamento.
Jung (2007a) diz que a primeira participação mística que vivemos acontece
com relação a nossos pais. Este processo é ambivalente no sentido de que
inconscientemente o filho se identifica com o pai e passa a agir como assim
fosse, e também o pai inconscientemente projeta suas aspirações, desejos,
frustrações e/ou qualidades no filho, num processo que se alimenta
mutuamente. Para lidar com esta participação mística, os povos primitivos
realizavam diversos rituais de iniciação, por meio dos quais esta identificação

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paterna era transferida para a tribo, para a sociedade, ou seja, uma instituição
mais coletiva, amenizando o poder numinoso do arquétipo.
Por último, é importante salientar que a participação mística também acontece
no que se refere à sombra. Uma vez que esta se compõe dos aspectos
negativos e inconscientes de um indivíduo, também se manifestará por meio
de projeção, processo no qual poderá acontecer a identificação característica
da participação mística. Ao projetar sua sombra num objeto, seja ela uma
pessoa, um ideal de vida ou a sociedade em geral, o indivíduo trará junto
aspectos negativos arquetípicos mesclados com aqueles de seu inconsciente
pessoal, e assim o resultado poderá ser a participação mística com relação à
esposa, ao casamento ou à sociedade, num claro processo de inconsciência e
coletivização inerente a este tipo de identificação.

 Anima/Animus e Persona

Em “O Eu e o Inconsciente” (2008b), Jung fala que a anima seria “a imagem


do sujeito, tal como se comporta em face dos conteúdos do inconsciente
coletivo ou então é uma expressão dos materiais inconscientes coletivos, que
são constelados inconscientemente pelo sujeito.” (2008b, p. 156).
Ou ainda que ela é “uma imagem coletiva de mulher no inconsciente do
homem, com o auxílio da qual ele pode compreender a natureza da mulher.”
(2008b, p.66).
Antes de tudo, é importante salientar que o autor chama a atenção para o fato
de que este é um conceito empírico, e não simplesmente intelectual (2008d).
Neste sentido, para se estudar a anima ou alma, e seu correspondente na

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psique feminina, o animus, Jung se valeu principalmente dos efeitos destes
sobre a consciência, experimentados em varias décadas em que atuou como
analista. Assim como os outros conteúdos do inconsciente, não seria possível
apreender exatamente a natureza da anima.
De acordo com a definição acima, a anima está interposta entre a esfera
pessoal e a esfera coletiva. Sendo a imagem do sujeito face aos conteúdos do
inconsciente, em primeiro lugar esta diretamente relacionada com o pessoal,
com a forma com que ele se vê e se apresenta diante de um coletivo (cf.
JUNG, 2008d). Ao mesmo tempo, leva em alta consideração aquilo que ele
acha que o coletivo acha dele, aquilo que ele sabe ou pensa,
inconscientemente, sobre a coletividade.
Veja que esta imagem se forma no âmbito do mundo interno, ela guia a
atitude interna, no mundo inconsciente, e por isso é formada diante da
estrutura coletiva do inconsciente do indivíduo, aquela formada pelas
categorias e possibilidades herdadas durante a evolução psíquica da história da
humanidade. É nesta realidade que se encontra a característica arquetípica da
anima, por meio da qual preenchemos com nossas experiências individuais as
possibilidades femininas herdadas de nossos ancestrais.
Na vida do homem, a primeira pessoa com quem experimenta a imagem de
anima é a mãe, sendo que para a mulher, o animus é vivenciado por meio dos
modelos masculinos do inconsciente da mãe, e depois do pai, a partir de dois
anos. Não por acaso, os preconceitos e expectativas do homem com relação à
mulher e da mulher com relação aos modelos masculinos estão diretamente
relacionados com suas experiências com os pais. Não é difícil imaginarmos
que quando entrarem no mundo dos relacionamentos homem/mulher, serão
em certa medida guiado por estas imagens, e constantemente a projetarão em
seus parceiros.
Para entender melhor esta imagem interna, Jung (2008a) conceituou em
oposição a ela uma imagem perante o mundo externo, chamada de Persona.

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 Persona:

É a nossa postura perante a sociedade em geral, nossa máscara, seja no


trabalho, na faculdade ou em outros grupos sociais. Quanto mais dissociada de
nosso eu interior, mais será utilizada como uma máscara, por meio da qual
vestiremos qualidades que na realidade não possuímos, mas que não obstante
atribuímos à nossa personalidade social. Sobre a persona e a anima, Jung diz
que “assim como a experiência diária nos autoriza a falar de uma
personalidade externa, também nos autoriza a aceitar a existência de uma
personalidade interna. Este é o modo como alguém comporta em relação aos
processos psíquicos internos, é atitude interna, o caráter que apresenta ao
inconsciente. Denomino persona a atitude externa, o caráter externo; e a
atitude interna denomino anima, alma.” (2008a, p. 391).
Ambas as atitudes, interna e externa, correspondem a um complexo funcional
(JUNG, 2008a), e neste sentido o eu pode se identificar com uma ou outra
atitude. Neste movimento, tanto a anima quanto a persona ganham
autonomia de complexos mais ou menos inconscientes, de forma que seria
“como se uma ou outra personalidade se tivesse apossado do indivíduo, como
se outro espírito tivesse entrado nele” (JUNG, 2008a, p. 391)
Desta forma, segundo Jung (2008d), esta imagem interior do homem tem
características femininas, em complementaridade ao seu consciente
masculino, chamando-se anima. Na mulher tem características masculinas,
chamando-se animus. Uma vez que estamos falando de conteúdos do
inconsciente, a anima e o animus abrangem disposições complementares a

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vida consciente do homem e da mulher respectivamente. Eles possuem todas
aquelas qualidades comuns que faltam à atitude consciente. Com relação ao
homem, “quanto mais viril sua atitude externa, mais suprimidos são os traços
femininos; aparecem, então, no inconsciente. Isto explica por que homens
bem masculinos estão sujeitos a certas fraquezas bem característica;
comportam-se para com as emoções do inconsciente com a determinabilidade
e impressionabilidade femininas (JUNG, 2008a, p.392).”

 Sobre as mulheres:

“As mais femininas apresentam quase sempre, em relação a certas coisas


internas, uma ignorância, teimosia e obstinação tão grandes que só
poderíamos encontrar na atitude externa do homem. São traços masculinos
que, excluídos da atitude externa feminina, se tornaram qualidades da alma.
(JUNG, 2008a, p. 392)”

Por este motivo, Jung fala da complementaridade da anima com relação a


persona, “o tirano, atormentado por maus sonhos, pressentimentos sombrios e
receios interiores, é figura típica. Externamente cruel, duro e inacessível, é
internamente vulnerável a qualquer sombra, sujeito a qualquer humor, como
se fosse o ser menos autônomo e mais maleável.” (JUNG, 2008a, p. 392).

 Sombra

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Encontramos na sombra os aspectos mais repugnantes de nosso ser, que por
não serem aceitos são relegados ao inconsciente. Quanto mais unilaterais
formos em olhar apenas paras as qualidades que julgamos ter, tanto mais
autônomos ficam os conteúdos sombrios que possuímos, surgindo do
inconsciente de onde foram relegados.
Para Jung, sombra “é a parte negativa da personalidade, isto é, a soma das
propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos
conteúdos do inconsciente pessoal” (2007b, p. 58)
O autor (JUNG, 2008d) fala que é importante para a economia psíquica
considerar o par complementar da consciência, o inconsciente. E neste
processo, o primeiro passo é olhar para o inconsciente e ver a sombra que está
encoberta pela persona. Esta ultima, que criamos para nos proteger do mundo
externo, também é utilizada para escondermos de nós a própria sombra, e é a
primeira que enxergamos ao olhar no espelho. Diante deste ato de coragem, se
formos mais além poderemos ver por trás da persona os aspectos de nossa
personalidade que consideramos malignos, e que fomos incapazes de assumir.
Lá estará nossa sombra.
A sombra nos fala do inconsciente pessoal, embora muitas vezes esteja
permeada de associações e projeções de elementos arquetípicos coletivos, o
que torna mais difícil o seu reconhecimento. Para Jung, “a sombra, porém, é
uma parte viva da personalidade e por isso quer comparecer de alguma
forma. Não é possível anulá-la argumentando, ou torná-la inofensiva através
da racionalização. Este problema é extremamente difícil, pois não desafia
apenas o homem total, mas também o adverte acerca do seu desamparo e
impotência” (JUNG, 2008d, p. 31)
Neste sentido, assim como os conteúdos do inconsciente, a sombra faz parte
de nós mesmos, por mais que a neguemos. Para Jung, é caminho necessário
para o autoconhecimento a confrontação com este mal que existe em nós. O
homem arcaico se defendia da sombra projetando em personalidades e objetos
coletivos, e quanto mais imersos na coletividade estiver, menos terá que

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enfrentar seus aspectos individuais sombrios. Entretanto, como vimos, o
homem dos tempos modernos perdeu muito em suas crenças místicas, sendo
que esta solução não está mais servindo para explicar o mal do mundo, e o
mal em si mesmo na forma de sombra. Neste processo, há ainda quem se
utiliza dos meios arcaicos de projeção do mal nas pessoas externas, e assim,
cada vez mais o homem negligencia o poder do mal e o relega ao
inconsciente. Este conteúdo se potencializa e se torna autônomo, e por isso o
homem moderno é chamado a olhar para si mesmo, e consequentemente a
confrontar-se com sua sombra. Para Jung, “desde que as estrelas caíram dos
céus e nossos símbolos mais altos empalideceram, uma vida secreta governa
o inconsciente. É por isso que temos hoje uma psicologia, e falamos do
inconsciente. Tudo seria supérfluo, e o é de fato, numa época e numa forma
de cultura que possui símbolos.” (JUNG, 2008d, p.33).

Sanford (1988), ao falar sobre o problema do mal na mitologia, explica que


como o homem arcaico personificava as forças malignas, tinha para com o
mal uma posição de respeito, bastante diferente de “nossa visão moderna, a
qual, por ser materialista e racionalista, nega a existência de deuses e
demônios, ignora a realidade da psique e, consequentemente, tende a
negligenciar o poder do mal” (1988, p. 25). A sombra não era tão real nas
personalidades arcaicas, pois estava projetada no mundo. Eva Pierrakos
(2005) também propõe um processo de autoconhecimento que se baseia em
olhar o mal do mundo na perspectiva da sombra. Para ela, o mal do mundo é a
soma do mal que existe em cada um, por mais que as pessoas insistentemente
queiram acreditar que este está sempre fora. Se todos fossem isentos do mal e
vítimas dele, onde estaria na realidade o mal? A resposta está na sombra de
cada um, e assim temos a possibilidade de acabar com o mal “do mundo”
reconhecendo e transmutando a própria sombra.
Portanto, ao olhar para sua sombra, estará o homem dando os primeiros passos
para conhecer a si mesmo e integrar os aspectos faltantes de sua

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personalidade. Reconhecerá também os aspectos sombrios de sua anima e de
sua persona, diminuindo o potencial autônomo destes complexos, e
consequentemente deixando de projetar suas próprias dificuldades no mundo
externo. Essa atitude mais honesta consigo mesmo, terá o alargamento da
consciência como consequência, assim como a diferenciação do coletivo.
Mas é preciso estar atento que, nem sempre a confrontação com o mal interno
gera crescimento. Sanford (1988) concorda que o desenvolvimento da vida
passa necessariamente pelo reconhecimento de nossa realidade sombria, mas
se este processo for impregnado de uma aceitação complacente e uma
identificação sombria, não terá o efeito de crescimento individual.
Além disso, apesar de estarmos nos referindo principalmente aos aspectos
negativos escondidos na sombra, esta também é composta por potencialidades
e qualidades negadas inconscientemente pelo indivíduo. Neste sentido, não
raramente a integração e reconhecimento de características que eram julgadas
negativas vem acompanhada do descobrimento e integração de qualidades
importantíssimas do ser que estavam igualmente negadas e associadas ao que
pensávamos ser desvios de caráter.

 Personalidade-Mana

Quando o homem é capaz de despontencializar a atuação da anima como um


complexo autônomo, se conscientizando dos seus conteúdos sombrios e de
seu simbolismo arquetípico, esta se transforma numa função de relação entre o
consciente e o inconsciente.
Jung (2008b) diz este processo faz a anima perder o seu caráter demoníaco de
possuidor do homem. Antes que este movimento aconteça, a anima é dotada
de qualidades mágicas e ocultas, poderes que Jung chamou de mana. Neste
sentido, seria a anima uma personalidade-mana enquanto atuar como
complexo autônomo do inconsciente.

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Enquanto complexo autônomo, a anima e o animus funcionam como fator de
perturbação que escapa ao controle da consciência, desestabilizando as
pretensões conscientes se manifestando indiretamente (JUNG, 2008b).
Surge então o problema de saber para onde teria fluído o mana depois do
alargamento da consciência e da desenergização da anima. O processo de
reconhecimento do inconsciente e de integração de seus conteúdos é
executado sem dúvidas pelo eu consciente, pelo ego, pela nossa única ilha de
consciência. Segundo Jung (2008b), é justamente o ego que se apodera da
personalidade-mana que outrora fora da anima. Para o autor, “esta última,
porém, é uma dominante do inconsciente coletivo: o conhecido arquétipo do
homem poderoso, sob a forma do herói, do cacique, do mago, do curandeiro e
do santo, senhor dos homens e dos espíritos, amigo de Deus.” (2008b, p.103).
O indivíduo que passa por este primeiro processo de assimilação da anima ou
do animus, acredita que está livre dos complexos, que seu eu consciente
tomou a posição central e dominadora de sua realidade, e que nada escapa ao
seu controle, com a firmeza de um super-homem ou de um perfeito sábio.
O que na verdade ocorre é uma identificação do ego com esta figura
arquetípica, de sorte que da mesma forma que outrora estava possuído pela
anima, agora é este arquétipo que possui o ego. Este se apropriou de
qualidades que não lhe pertencem. Para Jung, isto acontece porque o homem
que passa pelo processo de assimilação dos conteúdos da anima julga que a
dominou, que a subjugou, e dessa forma deduz seus poderes mágicos
arquetípicos e adiciona à sua personalidade. O que se segue a isto é que
novamente esta consciência se mescla com outro arquétipo, bem mais
poderoso desta vez. O arquétipo do velho sábio, do super-homem, uma
imagem que primeiramente foi atribuída ao pai.
A personalidade-mana que o ego julga possuir neste momento corresponde à
vivência destes arquétipos, “que se formaram na psique humana desde tempos
imemoriais, através de experiências que lhe correspondem” (JUNG, 2008b, p.
108). Jung comenta que este processo é duplo, pois acontece no sujeito que

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está possuído pelo arquétipo, e nas pessoas que o rodeiam, que projetam nele
as mesmas qualidades, reais ou imaginárias.
Para o autor, “Dificilmente fugiremos à tentação de admirar-nos a nós
mesmos por havermos encarado as coisas mais a fundo do que os outros;
estes, por seu lado, também sentem a necessidade de encontrar em alguma
parte um herói palpável ou um sábio superior, um guia e um pai, uma
autoridade indiscutível.” (JUNG, 2008b, p.108.

Esta questão é de suma importância para os terapeutas, não só no


tratamento de seus pacientes, mas principalmente na sua vivência pessoal,
pois estão constantemente tentados a serem possuídos por esta
personalidade-mana, alimentada pelas projeções de seus pacientes, e pelas
pretensões de seus próprios egos de terem dominado o inconsciente.

O poder do mana é intenso, e as pessoas possuídas pelos arquétipos se


transformam em figuras coletivas. Por trás disso fica atrofiado o
desenvolvimento de suas individualidades. Neste caso em questão, da
possessão do arquétipo de grande sábio, e do super-homem, há a peculiaridade
de serem arquétipos ligados a imagem de Deus. Por este motivo, os poderes
que o ego pretensamente adquiriu do inconsciente são de ordem gigantesca,
comparáveis a tudo aquilo que a humanidade coloca na conta de Deus.
Para desconstrução da possessão da personalidade-mana será preciso passar
pelo mesmo processo de despontecialização ocorrido com relação a anima e
ao animus. Será preciso passar pela conscientização dos conteúdos que
compõe seu arquétipo. Segundo Jung (2008b), este processo será como se
libertar pela segunda vez do pai, para o homem, e da mãe para a mulher.

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 Complexos

A noção de um complexo baseia-se em uma refutação de ideias monolíticas de


“personalidade”. Possuímos muitos selfs, como sabemos por experiência.
Embora seja um passo considerável desse ponto até a consideração de um
complexo como uma entidade autônoma dentro da psique, Jung asseverava
que os “complexos se comportam como seres independentes”.
Também argumentava que “não existe diferença, em princípio, entre uma
personalidade fragmentária e um complexo”, “complexos são psiques
parciais”
Um complexo é uma reunião de imagens e ideias, conglomeradas em torno de
um núcleo derivado de um ou mais arquétipos, e caracterizadas por uma
tonalidade emocional comum. Quando entram em ação (tornam-se
“constelados”), os complexos contribuem para o comportamento e são
marcados pelo AFETO, quer uma pessoa esteja ou não consciente deles. São
particularmente úteis na análise de sintomas neuróticos.
A ideia era tão importante para Jung que, em certo ponto, ele cogitou de
rotular suas ideias de “Psicologia Complexa”. Jung referia-se ao complexo
como “a via régia para o inconsciente” e como “o arquiteto dos sonhos”. Isso
sugeriria que os SONHOS e outras manifestações simbólicas estão
intimamente relacionados com os complexos.
O conceito possibilitou a Jung ligar os componentes pessoais e os arquetípicos
das várias experiências de um indivíduo. Além disso, sem este conceito, seria
difícil expressar o modo exato como a experiência se forma; a vida
psicológica seria uma série de incidentes desconectados. Mais ainda, de
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acordo com Jung, os complexos também afetam a memória. O “complexo de
pai” não somente contém uma imagem arquetípica de pai, mas também um
agregado de todas as intenções com o pai ao longo do tempo. Daí o complexo
de pai matizar a recordação de experiências precoces do pai real.
Por possuir um aspecto arquetípico, o EGO está situado no âmago de um
complexo de ego, uma história personalizada do desenvolvimento da
consciência e autoconscientização do indivíduo. O complexo de ego está em
relacionamento com os outros complexos, o que muitas vezes o envolve em
um conflito. Aí então existe o risco de este ou qualquer complexo se dissociar,
sendo a personalidade por ele dominada. Um complexo pode dominar o ego
(como na PSICOSE) ou o ego pode se identificar com o complexo.
Também é importante lembrar que os complexos são fenômenos bastante
naturais que se desenvolvem ao longo de linhas positivas como também
negativas. São ingredientes necessários da vida psíquica. Desde que ego pode
estabelecer um relacionamento viável com um complexo, uma personalidade
mais rica e mais diversificada emerge. Por exemplo, padrões de
relacionamento pessoal podem se alterar, enquanto percepções de outros
sofrem mudanças.
Jung desenvolveu suas ideias mediante o uso do TESTE DE ASSOCIAÇÃO
PALAVRAS entre 1904 e 1911. O uso de um psicogalvanômetro no teste
sugere que os complexos são radicados no corpo e expressam-se
somaticamente.
Alguns autores psicanalistas fizeram comentários sugerindo que a ênfase de
Jung sobre a autonomia do complexo fornece evidência de graves distúrbios
psiquiátricos nele (Atwood e Stolorow, 1979). Outros confirmam a
abordagem de Jung afirmando que “uma pessoa é um substantivo coletivo”
(Goldberg, 1980).
Na análise, pode-se fazer uso de PERSONIFICAÇÕES oriundas de
complexos; o paciente pode “nomear” as várias partes de si próprio. Um
interesse atual na teoria dos complexos surge de sua utilidade na descrição de

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como os eventos emocionais da fase mais precoce da vida se tornam fixados e
operantes na psique adulta. Finalmente, a ideia de “personalidades parciais” é
relevante para a atual reelaboração do conceito de SELF.

Os 8 tipos de personalidade, segundo Carl Jung

 Tipos Psicológicos:

A totalidade da psique engloba o inconsciente e o consciente, sendo o centro


deste ultimo o ego (JUNG, 2008c). Com relação ao ego, este é “um dado
complexo formado primeiramente por uma percepção geral do nosso corpo e
existência e a seguir, pelos registros de nossa memória (JUNG, 2008c, p.7).
Neste sentido, a consciência é nossa forma imediata de percepção do mundo e
de nós mesmo, por meio do ego, que ao longo de sua formação armazena os
registros de memória. Este ego é o que emerge do mar do inconsciente, e é o
que nos dá a noção de diferenciação, de sermos nós e não o outro.

As Atitudes:

As atitudes de unilateralidade da consciência são centradas no ego, em


desconsideração dos conteúdos do inconsciente, como se o ego fosse a
totalidade e sua diferenciação bastasse.

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As atitudes, extroversão e introversão, são as formas psicológicas de
adaptação do indivíduo ao mundo, quer seja exterior ou interior. Elas não
podem existir ao mesmo tempo na consciência, mas podem alternar-se.

Sendo assim, um indivíduo pode ser extrovertido numa situação e introvertido


em outra. Porém, uma dessas atitudes predominará, na vida do sujeito, por
toda a sua existência.

Na extroversão, uma atitude objetiva, o indivíduo foca sua atenção no


ambiente externo, adaptando-se com mais facilidade às situações do mundo
exterior, pois se preocupa em inteirar-se com as coisas e com as pessoas.
Já na introversão, que é uma atitude subjetiva, esse direcionamento se dá para
o mundo interior e para os seus processos internos, o que torna esse indivíduo
introspectivo e retraído.

Dessa forma, Jung observou que, a consciência desenvolveu essas diferentes


habilidades, as quais chamou de funções psicológicas: o pensamento; o
sentimento; a intuição; e a sensação (JUNG, 2008c).

As duas primeiras são utilizadas para julgamento, enquanto que as duas


ultimas são utilizadas para percepção. Além disso, cada uma das quatro
funções podem ser exercidas em atitude introvertida ou extrovertida.

Não obstante esta divisão ser constantemente chamada de tipos psicológicos,


Jung (2008a) enfatizou que mesmo considerando que cada indivíduo utiliza
predominantemente uma função, é arriscado classificá-lo como daquele tipo,
pois na verdade todos possuímos as quatro funções, nas duas atitudes cada
uma. O que diferencia realmente é a predominância que damos ao exercício
desta ou daquela função, e em que atitude a utilizamos.

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Tipos Psicológicos e as Funções:
As funções dividem-se em dois grupos:

1- RACIONAIS: pensamento e sentimento – baseiam-se num processo


reflexivo procurando avaliar e julgar internamente as suas relações com o
mundo.

Pensamento (ar): É a função cujo processo associativo de idéias busca


conceituar ou solucionar um problema.

Portanto, trata-se de uma função extremamente intelectual. Os indivíduos


pensamento são reflexivos, planejadores e julgam as coisas e situações através
da lógica.

Sentimento (água): Sendo uma função avaliadora aceita ou da rejeita uma


idéia, avaliando o sentimento agradável ou desagradável proporcionado por tal
idéia. Os indivíduos sentimento são discriminatórios e reflexivos e tomam as
decisões pelo julgamento de valores próprios como o certo ou o errado; o bom
ou o mau.

2- IRRACIONAIS: sensação e intuição – são estados mentais que crescem


através de estímulos atuantes no indivíduo, que percebe o mundo além da
lógica e da razão.

Sensação (terra): A percepção do mundo se dá através das experiências


conscientes que estimulam os cinco sentidos, além das sensações do interior
do corpo.

Intuição (fogo): É uma experiência imediata que não exige nenhum


julgamento e surge do nada. Os indivíduos vêem o que está no mundo interior,
percebendo o mundo através do inconsciente.

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As funções podem estar dominantes: superior, ou retraídas: inferior.

Função superior:

É aquela mais desenvolvida ou mais usada e está subordinada ao ego.

Função inferior:

É inconsciente e, portanto mais livre e independente. Uma faz oposição à


outra.

As funções auxiliares, sejam racionais ou irracionais, sempre diferem da


função principal ou superior.

Segundo Jung (2008a), cada indivíduo utiliza primordialmente uma das


funções conscientemente, em uma das atitudes, extrovertida ou introvertida.
Além disso, uma outra função é utilizada mais frequentemente como auxiliar
desta principal, e em atitude oposta.

Esta segunda função também precisa ser complementar, no sentido de que se a


principal for uma das funções de julgamento, a segunda função mais utilizada
conscientemente será uma das funções de percepção, visto que julgar e
perceber são atitudes excludentes. Como exemplo, suponha que alguém se

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utilize na maior parte das vezes, de forma consciente, da função perceptiva da
sensação, e em atitude extrovertida.

Então a função auxiliar deverá ser em atitude introvertida, e deverá também


ser uma das duas funções de julgamento, seja o pensamento, seja o
sentimento. Ou seja, a função auxiliar desta pessoa deverá ser pensamento
introvertido, ou sentimento introvertido. As outras funções são utilizadas de
forma mais inconsciente.

O interessante de estudar as funções é que elas mostram as formas com que os


conteúdos do inconsciente operam no consciente. Da mesma forma que uma
das funções é a mais utilizada conscientemente, o seu uso inibe a outra função
complementar de julgamento, ou de percepção, de forma que seu uso fica
relegado ao inconsciente se tornando a função inferior. Conforme vimos,
aqueles conteúdos faltantes da atitude consciente tendem a aparecer
subitamente na vida consciente, de forma compensatória, contrabalanceando a
sua ausência, e de forma complementar, ensejando uma atitude excludente,
chegando a oposição nos casos extremos.
Com as funções acontece coisa semelhante. Quando um indivíduo enxerga o
mundo unilateralmente por meio do julgamento lógico do pensamento, por
exemplo, esta atitude inibe a outra função de julgamento, o sentimento, que
será a função inferior.
O uso da função inferior então é relegado ao inconsciente, sendo que esta será
justamente a via por meio da qual estes conteúdos se manifestarão na maior
parte das vezes. Da mesma forma, se alguém se utiliza primordialmente da
função perceptiva da intuição, estará inibindo a outra função perceptiva, a
sensação.
Claro que esta divisão não é cartesiana, mas o que de fato é observado pela
experiência é que quanto mais inconsciente for o uso de uma função, tanto
mais será utilizada como caminho para manifestação dos conteúdos do
inconsciente.

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Veja que ao entender o funcionamento de nossa atitude consciente, é possível
identificar as forma com que, na maioria das vezes, nossos conteúdos
inconscientes se manifestarão.
Este entendimento serve como um mapa de diretriz, para se ter acesso indireto
ao nosso inconsciente. Se por exemplo perceber que a função principal é o
pensamento extrovertido, saberá que os conteúdos do inconsciente geralmente
usarão a via do sentimento introvertido para se expressar.
Quanto mais unilateral estiver se utilizando do julgamento lógico, típico do
pensamento, tanto mais autônomo e primitivo estarão se manifestando
conteúdos inconscientes por meio do julgamento sentimental.

Tipo extrovertido:

 O seu interesse foca-se primeiramente na realidade exterior, e só depois se


foca no mundo interior.

 As decisões são tomadas pensando no seu efeito na realidade exterior, em vez


de pensar na sua própria existência.

 As ações são realizadas em função do que os outros possam pensar sobre delas.

 A ética e a moral são construídas de acordo com o que predomina no mundo.

 São pessoas que se encaixam em quase qualquer ambiente, mas têm dificuldade
em realmente se adaptar.

 São sugestionáveis, influenciáveis e tendem a imitar os demais.

 Precisam que reparem neles e que sejam reconhecidos pelos outros.

Tipo introvertido

 Sente interesse por si mesmo, pelos seus sentimentos e pensamentos.

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 Orienta o seu comportamento de acordo com o que sente e pensa, mesmo que
isso vá contra a realidade exterior.

 Não se preocupa muito com o efeito que as suas ações possam causar ao seu
redor. Preocupa-se sobretudo com que as ações o satisfaçam interiormente.

 Tem dificuldades em se encaixar e adaptar aos diferentes ambientes. No


entanto, se conseguirem se adaptar, farão isso de forma verdadeira e criativa.

OS OITO TIPOS

Jung diz que todas as pessoas pertencem a um desses tipos:

1. Reflexivo(ou pensamento) extrovertido:

Corresponde aos indivíduos cerebrais e objetivos, que atuam


quase exclusivamente na base da razão.
Só dão como certo aquilo que se comprove com as devidas provas. São pouco
sensíveis e podem ser até mesmo prepotentes e manipuladores com os outros.
Têm a vida governada pelo pensamento.
São organizados e práticos.
Fazem os projetos funcionarem.
Têm como parâmetros as idéias, os ideais, as regras e os princípios objetivos.

São: Executivos, estrategistas.


Função Inferior: Sentimento Introvertido.

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2. Reflexivo(ou pensamento) introvertido

Com grande atividade intelectual, que, no entanto, tem dificuldade para se


relacionar com os outros.
Normalmente são pessoas teimosas e determinadas em alcançar as suas
objetivos. Por vezes é visto como inadaptados, inofensivos e ao mesmo tempo
interessantes.
Valorizam as idéias do ponto de vista do sujeito, não do objeto.
Interessam-se pela produção de idéias novas.
Facilmente se perdem no mundo da fantasia.
Não são práticos, são mais teóricos.
Não se deixam influenciar.

São: Pesquisadores; Matemáticos teóricos; Filósofos.


Função Inferior: Sentimento Extrovertido.

3. Sentimental extrovertido

Têm grande habilidade para entender os outros e para estabelecer relações


sociais. São os sentimentais extrovertidos.
No entanto, é muito difícil para eles se afastar do seu grupo e sofrem quando
são ignorados. Têm muita facilidade de comunicação.
Procuram relações harmoniosas com o ambiente.
São orientados pelos dados objetivos.
Não precisam pensar se algo ou alguém lhes importa; sabem.
O pensamento está subordinado ao sentimento.
São vulneráveis ao objeto amado.
Fazem amizades rapidamente, pois têm boa conversa.

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São: Relações públicas e atividades afim.
Função Inferior: Pensamento Introvertido.

4. Sentimental introvertido

Pessoas solitárias e com grande dificuldade para estabelecer relações com os


outros. Pode ser pouco sociável e melancólico. Faz todo o possível para passar
despercebido e gosta de permanecer em silêncio. Contudo, é muito sensível às
necessidades dos outros.
São difíceis de serem compreendidos, pois seu exterior pouco revela.
Dão a impressão de não possuírem nenhum sentimento.
São pessoas reservadas e de difícil acesso.
Têm aparência de autoridade.
Evitam festas e aglomerados, pois sua função avaliadora do sentimento
paralisa-se quando muitas coisas ocorrem ao mesmo tempo.
Podem parecer frios ou indiferentes.

São: Artistas de uma forma geral.

Função inferior: Pensamento Extrovertido

5. Perceptivo extrovertido

Eles têm uma fraqueza especial por objetos, ao ponto de lhes atribuir qualidades
mágicas, ainda que façam isso de modo inconsciente. Não são apaixonados
pelas ideias, a não ser que ganhem uma forma concreta. Procuram
o prazer acima de tudo.
Têm percepção dos fatos bem desenvolvida.
Suas reações dependem do próprio objeto.
Procuram pessoas ou situações que provoquem fortes sensações.

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O amor depende do atrativo físico da pessoa amada.
Têm bom gosto estético.
Não esquecem compromissos e são pontuais.
Adoram festas, esportes, comitês.

São: Atletas, Profissionais da moda, Homens de negócio, etc.


Função Inferior: Intuição Introvertida.

6. Perceptivo introvertido

Personalidade muito própria de músicos e artistas. As pessoas perceptivas


introvertidas colocam uma ênfase especial nas experiências sensoriais: dão
muito valor à cor, à forma, à textura…
O mundo deles é o mundo da forma, como fonte de experiências interiores.
São guiados pela intensidade da sensação subjetiva.
Pouco capazes da compreensão objetiva.
Tendem a recuar do mundo exterior e seus problemas.
Há uma ruptura entre a consciência e o corpo físico.
Têm pouca capacidade racional de julgamento para classificar coisas.
Não compreendem a si próprios.

São: Aqueles que têm fantasias proféticas sombrias.


Função Inferior: Intuição Extrovertida.

7. Intuitivo extrovertido

Corresponde ao típico aventureiro. As pessoas intuitivas extrovertidas são


muito ativas e inquietas. Elas precisam de vários estímulos diferentes. São

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determinadas a alcançar objetivos, e uma vez que conseguem, passam para o
próximo e esquecem o anterior. Elas não ligam muito para o bem-estar
daqueles que as rodeiam.
Têm grande capacidade de percepção.
Vêem através da camada externa.
Estão sempre à espreita de novas oportunidades.
Dão pouca atenção ao corpo, não percebendo quando estão cansados ou
famintos. Sentem-se prisioneiros de situações estáveis.

São: Empresários inovadores, capitães de indústria, corretores de valores,


estadistas.
Função Inferior: Sensação Introvertida.

8. Intuitivo introvertido

São extremamente sensíveis aos estímulos mais sutis. A personalidade intuitiva


introvertida corresponde ao tipo de pessoas que quase “adivinham” o que os
outros pensam, sentem ou se dispõem a fazer. São criativas, sonhadoras e
idealistas. É difícil para elas sair do mundo da lua e “colocar os pés no chão”.
Dirigem-se para os conteúdos do inconsciente.
Não se comunicam bem e são mal compreendidos.
São confusos, perdendo-se facilmente.
Esquecem compromissos e são desorganizados.
Têm vaga noção do seu próprio corpo físico.
Possuem uma misteriosa capacidade de pressentir o futuro.

São: Videntes, Profetas, Artistas, Xamãs.


Função Inferior: Sensação Extrovertida.

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OS 12 ARQUÉTIPOS COMUNS E AS QUATRO ORIENTAÇÕES
CARDEAIS

As quatro orientações cardeais definem quatro grupos, com cada grupo


contendo três tipos (como a roda de arquétipos acima ilustra), cada grupo é
motivado por seu respectivo foco orientador: satisfação do ego, liberdade,
socialidade e ordem.
Esta é uma variação nos grupos dos oito tipos anteriormente mencionados, no
entanto, todos os tipos dentro do Ego, Alma e Eu compartilham da mesma
fonte de condução, os tipos que compõem a orientação dos quatro grupos têm
diferentes unidades de origem, mas a mesma orientação de motivação, por
exemplo, o cuidador é impulsionado pela necessidade de cumprir agendas do
ego através do atendimento das necessidades dos outros que é uma orientação
social, considerando que o herói também é impulsionado pela necessidade de
cumprir agendas do ego o faz através de ação corajosa que comprova a
autoestima, compreender os agrupamentos ajudará na compreensão da
dinâmica de motivação e autopercepção de cada tipo.
Carl Golden.

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A maioria, se não todas as pessoas, têm vários arquétipos em jogo na
construção da sua personalidade, no entanto, um arquétipo tende a dominar a
personalidade em geral, ele pode ser útil para saber quais arquétipos estão em
jogo em si e nos outros, especialmente nos entes queridos, amigos e colegas
de trabalho a fim de obter uma visão pessoal sobre comportamentos e
motivações.

Os Tipos de Ego

1. O Inocente

Lema: Livre para ser você e eu


Desejo principal: Chegar ao paraíso
Objetivo: ser feliz
Maior medo: Ser punido por ter feito algo de ruim ou errado
Estratégia: Fazer as coisas certas
Fraqueza: Chato por toda a sua inocência ingênua
Talento: Fé e otimismo

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O Inocente também é conhecido como: utópico, tradicionalista, ingênuo,
místico, santo, romântico, sonhador.

2. O Cara Comum, o Órfão

Lema: Todos os homens e mulheres são iguais


Desejo central: Ligação com os outros
Objetivo: Fazer parte
Maior medo: Ficar de fora ou se destacar da multidão
Estratégia: Desenvolver sólidas virtudes comuns, seja para a Terra ou o
contato comum.
Fraqueza: Perder o próprio Eu em um esforço para se misturar ou por uma
questão de relações superficiais
Talento: O realismo, a empatia, a falta de pretensão
A pessoa normal também é conhecida como: O bom menino velho, o homem
comum, a pessoa da porta ao lado, o realista, o cidadão sólido, o trabalhador
rígido, o bom vizinho, a maioria silenciosa.

3. O Herói

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Lema: Onde há uma vontade, há um caminho
Desejo central: Provar o valor para alguém através de atos corajosos
Objetivo: Especialista em domínio de um modo que melhore o mundo
Maior medo: Fraqueza, vulnerabilidade, ser um “covarde”
Estratégia: Ser tão forte e competente quanto possível
Fraqueza: Arrogância, sempre precisando de mais uma batalha para lutar
Talento: Competência e coragem
O herói também é conhecido como: O guerreiro, o salvador, o super-herói, o
soldado, o matador de dragão, o vencedor e o jogador da equipe.

4. O Cuidador

Lema: Ame o seu próximo como a si mesmo


Desejo central: Proteger e cuidar dos outros
Objetivo: Ajudar os outros
Maior medo: Egoísmo e ingratidão
Estratégia: Fazer coisas para os outros
Fraqueza: Martírio e ser explorado
Talento: Compaixão e generosidade
O cuidador também é conhecido como: O santo, o altruísta, o pai, o ajudante, o
torcedor.

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Os Tipos de Alma

5. O Explorador

Lema: Não me cerque


Desejo central: A liberdade de descobrir quem é através da exploração do
mundo
Objetivo: A experiência de um mundo melhor, mais autêntico, mais gratificante
na vida
Maior medo: Ficar preso, conformidade e vazio interior
Estratégia: Viajar, procurar e experimentar coisas novas, fugir do tédio
Fraqueza: Perambular sem destino tornando-se um desajustado
Talento: Autonomia, ambição, ser fiel a sua alma
O explorador também é conhecido como: O candidato, o iconoclasta, o
andarilho, o individualista, o peregrino.

6. O Rebelde

Lema: As regras são feitas para serem quebradas


Desejo central: Vingança ou revolução
Objetivo: Derrubar o que não está funcionando
Maior medo: Ser impotente ou ineficaz
Estratégia: Interromper, destruir ou chocar

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Fraqueza: Cruzar para o lado negro do crime
Talento: Ousadia, liberdade radical
O rebelde também é conhecido como: O ilegal, o revolucionário, o homem
selvagem, o desajustado, o iconoclasta.

7. O Amante

Lema: Você é único


Desejo central: Intimidade e experiência
Objetivo: Estar em um relacionamento com as pessoas no trabalho e no
ambiente que eles amam
Maior medo: Ficar sozinho, ser um invisível, se indesejado, ser mal amado
Estratégia: Tornar-se cada vez mais atraente fisicamente e emocionalmente
Fraqueza: Com o desejo de agradar aos outros corre o risco de perder sua
identidade externa
Talento: Paixão, gratidão, valorização e compromisso
O amante também é conhecido como: O parceiro, o amigo íntimo, o entusiasta,
o sensualista, o cônjuge, o construtor de equipe.

8. O Criador

Lema: Se você pode imaginar algo, isso pode ser feito


Desejo central: Criar coisas de valor duradouro

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Objetivo: Realizar uma visão
Maior medo: A visão ou a execução medíocre
Estratégia: Desenvolver a habilidade e o controle artístico
Tarefa: Criar cultura, expressar a própria visão
Fraqueza: Perfeccionismo, soluções ruins
Talento: Criatividade e imaginação
O Criador também é conhecido como: O artista, o inventor, o inovador, o
músico, o escritor, o sonhador.

Os tipos de Eu
9. O Tolo

Lema: Só se vive uma vez


Desejo central: Viver para o momento com pleno gozo
Objetivo: Ter um grande momento e iluminar o mundo
Maior medo: Se aborrecer ou chatear os outros
Estratégia: Jogar, fazer piadas, ser engraçado
Fraqueza: Frivolidade, desperdício de tempo
Talento: Alegria
O tolo também é conhecido como: O bobo da corte, o malandro, o palhaço,
o brincalhão, o comediante.

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10. O Sábio

Lema: A verdade vos libertará


Desejo central: Encontrar a verdade
Objetivo: Usar a inteligência e a análise para compreender o mundo
Maior medo: Ser enganado, iludido, ou ser ignorante
Estratégia: Buscar informação e conhecimento, auto reflexão e
compreensão dos processos de pensamento
Fraqueza: Pode estudar detalhes para sempre e nunca agir
Talento: Sabedoria, inteligência
O Sábio também é conhecido como: O perito, o erudito, o detetive, o
conselheiro, o pensador, o filósofo, o acadêmico, o pesquisador, o
pensador, o planejador, o profissional, o mentor, o professor, o
contemplador.

11. O mágico

Lema: Eu faço as coisas acontecerem.


Desejo central: Compreensão das leis fundamentais do universo
Objetivo: Realizar sonhos

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Maior medo: Consequências negativas não intencionais
Estratégia: Desenvolver uma visão e viver por ela
Fraqueza: Se tornar manipulador
Talento: Encontrar soluções ganha-ganha
O mágico também é conhecido como: O visionário, o catalisador, o inventor,
o líder carismático, o xamã, o curandeiro, o feiticeiro.

 O Governante

Lema: O poder não é qualquer coisa, é a única coisa


Desejo central: Controle e poder
Objetivo: Criar uma família ou uma comunidade bem sucedida e próspera
Estratégia: Exercer o poder
Maior medo: O caos, ser destituído
Fraqueza: Ser autoritário, incapaz de delegar
Talento: Responsabilidade, liderança
O Governante é também conhecido como: O chefe, o líder, o ditador, o
aristocrata, o rei, a rainha, o político, o gerente, o administrador.

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REFERÊNCIAS:

Jung, C.G. (2008a). Tipos Psicológicos. Petrópolis, Vozes. (2008c).


_________________Fundamentos de Psicologia Analítica. Petrópolis, Vozes.
Rafael de Carvalho Oliveira.

Dicionário Crítico de Análise Junguiana


http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/arquetip.htm

Jung, C.G. ( 2008b). O Eu e o Inconsciente. Petrópolis, Vozes


_________. (2008d). Arquétipos do Inconsciente Coletivo. Petrópolis, Vozes.
Rafael de Carvalho Oliveira

Jung, C.G. (2007b) Psicologia do Inconsciente. Petrópolis, Vozes.

Jung, C.G. (2007a). Civilização em Transição. Petrópolis, Vozes.

Pierrakos, E. e Thesenga, D. (2005) Não Temas o Mal, São Paulo, 17 ed. Cultrix.

Sanford, J. (1986) Os parceiros invisíveis. São Paulo: Paulus.

Estudo com Tipos Psicológicos de Jung. Resumo da Tese de doutorado. RJ. 2002.
Disponível em: Acesso: julho de 2007.

SHARP, Daryl. Tipos de Personalidade: o modelo tipológico de Jung. São Paulo: Cultrix,
1991.

ZACHARIAS, José Jorge de Morais. Os Tipos Humanos. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2006.

Os doze arquétipos comuns e as quatro orientações cardeais: Origem: soulcraft


Tradução e Divulgação: A Luz é Invencível

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