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Violência e comunicação: os protestos de rua como

ação comunicativa e afirmação identitária1

PARKER, Marcelo Xavier2. Doutorando em Comunicação


e Informação na UFRGS, Rio Grande do Sul.

Resumo
O objetivo deste artigo é refletir sobre a violência durante manifestações de rua e o que ela tem
de comunicacional, além de mostrar sob quais enquadramentos os protestos recentes de ação direta contra
o Estado foram retratados pela mídia no Brasil a partir de junho de 2013. A análise é focada na relação
violenta entre manifestantes e o Estado, representado em primeira instância pelo aparelho repressivo.
Uma relação dialética movimenta estes atores sociais, determinando como as performances vão se
adaptando à atuação da polícia, e como os instrumentos e estratégias policiais vão se reformulando de
acordo com investigações sobre os ativistas, unindo contra estes o campo político, jurídico e a grande
imprensa, num raro consenso. Reflete-se também sobre os aspectos identitários que unem estes
manifestantes e os leva a adotar determinado comportamento, aceitando a violência como um elemento
fundamental na sua performance e no processo comunicativo por eles deflagrado.

Palavras-chave: COMUNICAÇÃO – VIOLÊNCIA – MOVIMENTOS


SOCIAIS

Algumas reflexões sobre violência e comunicação

A violência sempre expressa, sempre comunica,


mesmo que não gostemos da mensagem3

A violência é apenas um dos diversos elementos dignos de análise no que se


refere aos acontecimentos de junho de 2013 e todos os processos sócio-políticos deles
derivados. Foi escolhido como tema deste estudo pela ênfase dada neste aspecto pela
imprensa, normalmente no afã de condenar manifestantes e legitimar o uso da violência

1 Trabalho apresentado no GT de Historiografia da mídia, integrante do 10º Encontro Nacional de


História da Mídia, 2015.
2 Jornalista, mestre em História pela Unisinos. E-mail: marceloparker@yahoo.com.br.
3 SOLANO, Esther; MANSO, Bruno Paes; NOVAES, William. Mascarados: a verdadeira história dos
adeptos da tática Black Bloc. São Paulo: Geração Editorial, 2014. p. 31.
por parte do Estado, e também por servir como justificativa retórica na defesa de
medidas jurídicas que têm por objetivo freá-la – ainda que isso, do ponto de vista dos
direitos de cidadania, gere novas violências concretas e simbólicas. O foco aqui será
dado principalmente na violência física, no caráter de confronto que ela encerra, embora
o fenômeno da violência simbólica não seja desprezado, por entender-se que está muitas
vezes na origem do desencadeamento de ações de violência física.
Propõe-se ainda investigar o que a violência possui de comunicação, entendendo
esta como “um princípio explicativo dos próprios fenômenos humanos e sociais”
(ESTEVES, 2011, p. 18). A manifestação, seja em seu caráter não violento, seja na
explosão de raiva que gera ou que é gerada pelo confronto, busca comunicar algo. Ela
dialoga com as pessoas com quem cruza nas ruas, indo ou voltando do trabalho, mas
também com os poderes político e econômico, tidos como responsáveis pelos problemas
contra os quais a multidão se levanta. Ela se expressa por cartazes, cantos, palavras de
ordem, carros de som, nas camisetas, roupas, bonés, lenços, máscaras, bandeiras, nos
próprios corpos. Ela também comunica na escolha dos trajetos, na teatralidade da ação,
na manifestação performática.
Uma parte dessa multidão se expressa pela violência. Às vezes essa ação é
reativa à primeira resposta que suas demandas obtém do Estado, a primeira face do
poder político com que se confrontam: a força policial. É uma reação à violência
exercida por quem tem o monopólio legítimo do seu exercício. Se entendermos o
protesto, a passeata, como uma forma comunicativa, fica claro que a primeira resposta
do Estado a essa demanda, portanto, o que o Estado comunica, é a repressão, é a
condenação daquele ato. Mas nem toda a violência que vem dos manifestantes é reativa.
Certos grupos fazem dela não apenas um meio, mas às vezes também o próprio fim do
protesto, e têm na atuação violenta performática o momento ápice de uma complexa
conduta social. Embora normalmente destituída de qualquer caráter político nos relatos
do jornalismo diário, a violência é um fenômeno comunicativo. Ela manifesta um
desagrado, uma crítica social, e acontece no espaço público, em locais de grande
visibilidade, frente às câmeras profissionais e amadoras que registram estes
acontecimentos. Quem comunica quer ser visto, ouvido, quer fazer sentir sua força, seu
vigor, e por isso as recentes estratégias de ação direta ocorrem nas principais ruas das
principais cidades do país, por vezes nas sedes dos poderes políticos e econômicos.
Sociedades como a nossa, onde a racionalidade busca normatizar o
funcionamento do cotidiano, têm na comunicação o “medium por excelência para a
construção dos acordos indispensáveis a um normal funcionamento da vida coletiva –
em alternativa à força” (ESTEVES, 2011, p. 23). Entende-se a comunicação “enquanto
recurso simbólico capaz de garantir uma certa (e normal) continuidade ou regularidade
da vida coletiva” (Ibidem). O campo do poder4 possui canais de comunicação muito
eficazes de fazer com que suas mensagens cheguem à sociedade – servindo-se para isso,
quando necessário, das mais diversas mídias. O caminho inverso é bem mais difícil,
razão pela qual o protesto de rua passa a ser uma estratégia para se fazer ouvir vozes
que de outra maneira não seriam ouvidas. A ação comunicativa dos campos político e
econômico raramente é deliberativa, quase nunca convida ao diálogo. Ela normalmente
é informativa, ações são tomadas e então comunicadas. Aumentos nos combustíveis,
alterações em regras de impostos, negócios, reajustes nas tarifas dos transportes
coletivos. Não há nestes processos um fluxo de mão dupla. As decisões são informadas
para serem obedecidas. No momento da manifestação pode-se dizer que a ação coletiva
nas ruas reverte a desigualdade naturalizada dos fluxos desiguais da comunicação
cotidiana. O Estado busca compensar a desvantagem numérica momentânea com o uso
da força, apelando para o discurso da ordem. Esta retórica é bastante utilizada para
justificar cerceamentos de liberdades individuais. Conforme ressalta Albuquerque,
(2000, p. 3), “o princípio ‘democracia’, que em outras sociedades é entendido como
diretamente derivado do direito de participação do indivíduo nos negócios do Estado,
tende a ser associado, no Brasil, ao valor ‘ordem pública’”.
Para que não seja necessária a utilização da violência física, para que o aparelho
repressivo não tenha que lembrar diariamente aos cidadãos de que a democracia
republicana tem limites que não devem transcender o do sistema político representativo,
uma série de mecanismos do que Pierre Bourdieu chama de violência simbólica são

4 Utiliza-se aqui, conforme Bourdieu (1989), o conceito campo do poder no lugar do de classe
dominante. Dentro deste campo mais amplo, se situariam, entre outros, segundo o teórico francês, os
campos político e econômico. Incluo neste grupo o poder jurídico e o campo do jornalismo.
postos em ação. Alguns os percebem, outros não, Entre os que os percebem, alguns
reagem com participação política, outros não. Entre os que assumem a luta coletiva
através de alguma organização alguns rechaçam a violência como arma, outros não.
Quando a violência simbólica é percebida e gera uma ação social, além da polícia, o
Estado conta com os grandes veículos de comunicação para vencer os inimigos do
sistema:
Com o mecanismo da violência simbólica, a dominação tende a assumir a
forma de opressão mais eficaz e, nesse sentido, mais brutal. E quando
movimentos sociais ou indivíduos se rebelam contra essa sutil violência
simbólica que se manifesta de diversas maneiras no cotidiano, o braço
repressor deste sistema, a polícia, age com força bruta. E os grandes veículos
de comunicação, eles mesmos aparelhos legitimadores e reforçadores dessa
VS, mostram a ação como reação a atos de desobediência civil, tais como a
depredação de propriedades privadas ou públicas. Para isso, invertem a
cronologia dos acontecimentos, ocultam fatos e sobrevalorizam outros
(BOURDIEU, 1996, p.270, grifos meus).

O jornalismo praticado pelas grandes empresas de comunicação no Brasil, em


geral, trabalha pela manutenção do sistema. Por isso o apoio quase irrestrito
demonstrado desde 2013 às ações repressivas do Estado, à legislação restritiva a
protestos, a condenação e criminalização de manifestantes. Por ser percebida como
braço simbólico desse sistema socialmente violento, a mídia também foi alvo de críticas
nas ruas. Acusações de monopólio, de expor sistematicamente versões parciais, criar
mentiras, o passado de algumas empresas ligado à ditadura, tudo isso foi ventilado nos
protestos, ajudando a definir claramente, aos olhos midiáticos, os manifestantes como
inimigos do status quo do qual fazem parte de maneira tão inequívoca. Estes
acontecimentos mostraram uma imprensa refratária às mobilizações de rua com pautas
ideologicamente de esquerda. E apesar da retórica de apoio e até estímulo às
manifestações pacíficas, nas muitas vezes em que mesmo estas despertaram a ira
policial imperou o silêncio – rompido apenas pelos chamados midialivristas, ou net-
ativistas, fenômeno alçado a uma visibilidade muito grande nestes últimos dois anos.
Outra estratégia midiática é a desqualificação dos manifestantes através de
palavras como vândalos e baderneiros, repetidas à exaustão durante meses nos
principais veículos de comunicação do país a partir de junho de 2013. A influência desse
enquadramento e a força dessas expressões em camadas sociais importantes da
sociedade brasileira não podem ser ignoradas, “palavras como essas têm efeitos
políticos muito reais, pois privam uma ação coletiva de toda a credibilidade, reduzindo-
a à expressão única de uma violência supostamente brutal e irracional da juventude”
(DUPUIS-DÉRI, 2014, p. 31). A própria utilização da polícia como fonte principal
quanto a informações sobre os confrontos já denota uma parcialidade que desequilibra a
guerra discursiva em favor do sistema. A expressão segundo a polícia que costuma
introduzir uma informação sobre o número de pessoas nas ruas ou a razão de
determinado confronto deixa claro o lugar de fala da mídia neste embate. A polícia, por
sua vez, também requisita destes veículos imagens para investigar os manifestantes. A
relação entre as instituições se estreita com a eclosão de distúrbios sociais. A imprensa
acaba tendo acesso privilegiado inclusive a meandros dos processos jurídicos contra
ativistas, assumindo o papel de angariar o apoio da sociedade civil à repressão e
criminalização dos manifestantes.
E quanto à eficácia da violência de grupos para os quais elas não é reativa, mas
elemento de valor simbólico, performático e estético, como o Black Bloc?
Historicamente, os movimentos sociais brasileiros lutam não apenas contra os alvos das
suas demandas, mas também contra a invisibilidade a que são relegados pela imprensa.
Como então trabalhar a imagem junto à opinião pública, se os atos de ação direta são
apresentados como demonstrações gratuitas de revolta juvenil e delinquente?
Refletindo sobre os atos de violência nos subúrbios de Paris, em 2005, Zizek (2014, p.
70) escreveu que os manifestantes não possuíam nenhuma exigência concreta, eles
queriam apenas reconhecimento e visibilidade. Representavam assim “um grau zero de
protesto, um ato violento de manifestação que nada reivindica”. Quanto a validade ou
não do ato violento, principalmente para o reconhecimento de uma causa, cabe aqui
transcrever uma passagem do autor esloveno, ainda fazendo referência aos distúrbios de
Paris:
Não ofereciam uma solução nem constituíam um movimento em vista de
conseguirem uma solução. Seu objetivo era criar um problema, assinalar que
eram um problema que não podia continuar a ser ignorado. Era por isso que a
violência se tornava necessária. Se tivessem organizado uma manifestação ou
passeata não violenta, tudo o que teriam obtido não seria mais do que uma
pequena nota num jornal (Ibidem, p. 71).
Há realmente a necessidade de um ato violento para que ativistas ganhem
visibilidade? A abordagem da imprensa sobre atos violentos ocorridos numa
manifestação de rua tende normalmente a ver o ato no que ele encerra em si mesmo, não
como sintoma de uma violência sistêmica. “Num país de violência, porque umas, as
brutais, não geram reação social nenhuma? Por que outras, as do Black Bloc, mínimas
se comparadas com aquelas, geram todo um espetáculo social?” (SOLANO; MANSO;
NOVAES, 2014, p. 25). Mas a ação violenta também recebe críticas de outros campos
da sociedade. Muitas cenas já foram flagradas – e devidamente exploradas pelos
grandes atores midiáticos – de manifestantes brigando entre si, censurando um
comportamento violento, por vezes se enfrentando fisicamente para fazer valer seu
ponto de vista de uma ação violenta ou não. Além disso, autores da sociologia das
conflitualidades, que entendem o conflito não como algo desviante, mas, ao contrário,
como potencialmente gerador de laços sociais, também vêm os atos violentos como
obstruções à construção da democracia, da cidadania e ao reconhecimento do outro,
tornando a relação social inegociável (SANTOS, 2009).
Hannah Arendt discute a sua eficácia e legitimidade da violência como arma
política. Segundo ela,
existe um consenso entre os teóricos políticos da esquerda e da direita de que
a violência nada mais é do que a mais flagrante manifestação de poder; […]
O consenso é muito estranho; pois equacionar o poder político com a
'organização da violência” só faz sentido se se seguir a avaliação de Marx do
Estado como instrumento de opressão nas mãos das classes dominantes”
(ARENDT, 2001, p. 22).

Arendt fala aqui da violência praticada pelo Estado, aquela que vem justamente
do exercício do poder político. Sartre, Voltaire, C. Wright Mills, John Stuart Mill,
Marx... A pensadora alemã os traz para a discussão atribuindo a eles a mesma ideia de
que o poder equivale ao uso da violência, ou à possibilidade de se fazer uso dela.
Discordando desta tese, a autora discorre sobre os conceitos de poder, vigor, força,
autoridade e violência, diferenciando cada um deles. No caso da violência, ela entende
que o que a destaca dos demais conceitos é seu caráter instrumental, ou seja, aquilo que
é criado pela técnica para multiplicar o potencial de vigor dos homens que a utilizam. O
poder, para Arendt, está ligado a uma situação temporária, que inclui um certo consenso
para que determinada pessoa ou grupo desfrute desta condição. E dependendo do caráter
deste ou destes atores sociais em questão, a violência pode jamais ser empregada – ou,
pelo menos, não de uma forma concreta, física. E, no entanto, apesar de distingui-las,
Arendt afirma que nada é mais comum do que encontrar poder e violência associados na
prática social.
À medida que as grandes manifestações de rua foram se sucedendo ao longo da
segunda metade de 2013, uma série de medidas jurídicas foi sendo tomada pelo campo
do poder. Conforme alentado no resumo inicial, os poderes legislativos e executivos
municipal, estadual e federal, apoiados pelo judiciário e pela grande mídia, chegaram
desde o início dos levantes populares a um consenso raro em se tratando da realidade
sócio-histórica brasileira. Agremiações partidárias inimigas abandonaram suas
trincheiras e seus papéis transitórios de situação e oposição. Deixaram de lado rixas que
logo adiante seriam retomadas, em nome de evitar o que consideravam um mal maior,
exceção feita a alguns partidos de esquerda, sem grandes representações legislativas e
ausentes no comando dos poderes executivos. Estes denunciaram o que consideraram
abuso de poder e cerceamento de liberdade democráticas, mas sem força política de
fazer valer a sua voz – e sem a mesma visibilidade midiática proporcionada aos que
defendiam maior repressão. Algumas entidades importantes da sociedade civil, como a
OAB, se pronunciaram contra as leis de emergência criadas e votadas, às vezes, em
tempo recorde. Como será mostrado a seguir, esta aliança entre os distintos instâncias
do Estado e das elites político-econômicas, entre partidos historicamente rivais, vai ao
encontro do que aconteceu em outros países, mostrando um padrão de comportamento
comum dos campos de poder em diferentes nações ao lidar com as recentes ondas de
protesto que ganharam as ruas do mundo.
Conforme as polícias brasileiras iam investigando os ativistas e se preparando
melhor para os protestos, estes também iam mudando a forma de atuação. Entende-se,
assim, que uma relação dialética tem movido a ação destes dois atores sociais:
manifestantes e Estado. Desde a eclosão dos eventos de junho de 2013, assiste-se a um
aperfeiçoamento das forças repressivas, confrontadas que foram por um novo desafio
que, por vezes, assumiu ares de sublevação popular. Pode-se dizer que durante alguns
momentos nestes últimos dois anos, o crime organizado e o narcotráfico geraram menos
dor de cabeça às autoridades do que os manifestantes políticos. Do campo jurídico veio
o amparo legal para uma série de leis e restrições administrativas que têm sido desde
então colocadas para dificultar a realização de protestos de rua.
Povoam hoje o corpo de leis municipais, estaduais e nacionais medidas legais
como a proibição de máscaras e de certos artefatos, como o vinagre, utilizado para
minimizar os efeitos do gás lacrimogêneo. A polícia de São Paulo, particularmente, têm
incorporado novas táticas, tais como o uso de artes marciais no confronto corpo a corpo.
O governo paulista comprou quatorze tanques israelenses, de um modelo utilizado em
conflitos contra os palestinos. Os veículos podem jogar água, gás lacrimogêneo e tinta –
para identificar os manifestantes considerados violentos e facilitar sua captura em meio
aos tumultos que se formam durante os confrontos5.
Muitos entendem que a força desmedida da Polícia Militar de São Paulo contra
manifestantes e jornalistas na noite de 13 de junho de 2013 teria sido o estopim para as
grandes passeatas que acabaram se espalhando pelo Brasil. Da mesma forma, adeptos da
tática Black Bloc e pesquisadores do tema defendem que o aparecimento em cena destes
personagens tão sedutores ao gosto do jornalismo-espetáculo se deu como reação à ação
da polícia, “segundo as suas próprias narrativas, a maioria dos que aderiram à tática
Black Bloc nas ruas de São Paulo o fez depois das manifestações de junho, motivados
pelo que eles consideraram 'ação policial excessiva contra os manifestantes'”
(SOLANO; MANSO; NOVAES, 2014, p. 52). Seriam, portanto, um grupo reativo, uma
resposta à face brutal do Estado. Com o passar dos meses e o aumento da repressão,
envolvendo já não apenas as detenções durante os atos, mas ainda ações de busca e
apreensão nas casas de manifestantes e o uso de escutas eletrônicas em suas ligações
telefônicas, táticas de guerrilha urbana passaram a ser adotadas pelos ativistas, como o
fogo para assustar os cavalos das tropas. Passou a ser comum ver jovens com mochilas
nas costas, não apenas para carregar artefatos como garrafas de vinagre – e mesmo
artefatos de luta – , mas também para atenuar os golpes dos cassetetes. Era o lado

5 SP ou Faixa de Gaza? PM terá blindados israelenses para conter manifestações. SPRESSOSP, São
Paulo, 14 dez. 2014. Disponível em: <http://spressosp.com.br/2014/12/14/sp-ou-faixa-de-gaza-pm-tera
blindados-israelenses-para-conter-manifestacoes/>. Acesso em: 17 dez. 2014.
desafiante dos poderes constituídos tentando se adaptar a batalhas campais bastante
desiguais.
O comportamento do campo do poder no Brasil neste caso segue uma tendência
mundial. Só para citar alguns exemplos, em 2012 o presidente dos Estados Unidos
Barak Obama assinou o Trespass Bill, uma lei que proíbe manifestações nas
proximidades de eventos de importância nacional – como as conferências de
organismos internacionais. A lei proíbe ainda a obstrução de entrada de edifícios onde
estejam autoridades e qualquer tipo de entrave físico a encontros de negociações de
governo. Mais recentemente, na Espanha, uma lei similar foi aprovada, praticamente
inviabilizando a mobilização de centenas ou milhares de pessoas nas ruas. Ucrânia,
Turquia, Canadá, Egito, Chile, entre outros, seguiram o mesmo caminho6,
Cabe ressaltar que instituições como a imprensa e o judiciário, baluartes do
Estado de Direito, apoiam a repressão violenta contra os manifestantes acusados de
serem violentos. Não são, portanto, ideologicamente contrários à violência, e sim à
violência praticada por quem pretende desestabilizar os poderes constituídos. À
imprensa cabe então o papel de angariar apoio popular contra os manifestantes,
mostrando em seus noticiários, por exemplo, a loja de um pequeno comerciante
destruída por jovens mascarados, ou o carro de um trabalhador depredado. Imagens que
praticamente dispensam qualquer enunciado, tal a força emotiva que despertam como
símbolos de uma profunda injustiça pessoal de que é vítima o cidadão comum.
Retomemos então Hannah Arendt e sua reflexão sobre a violência. A autora
destaca a discrepância existente entre as condições do uso da violência por parte do
Estado se comparadas às que dispõem os que se opõem a ele.
O fato é que o vácuo entre os instrumentos de violência de propriedade do
Estado e os que as pessoas conseguem reunir por conta própria – desde latas
de cervejas até os coquetéis Molotov e as armas de fogo – tem sido sempre
tão enormes que as melhorias técnicas fazem pouca ou nenhuma diferença.
As instruções retiradas de manuais versando sobre “como fazer uma
revolução” passo a passo desde a dissensão à conspiração, da resistência ao
levante armado, baseiam-se todas elas na noção errada de que as revoluções
se “fazem”. Em uma competição de violência contra violência a
superioridade do governo tem sido sempre absoluta; porém esta

6 CALIXTO, Bruno; Durães, Natália. As leis anti-protestos no mundo. ÉPOCA, Rio de Janeiro, 31 jan.
2014. Disponível em: <http://blogdainseguranca.blogspot.com.br/2014/02/as-leis-antiprotesto-no-
mundo.html>. Acesso em: 18 nov. 2014.
superioridade só perdura enquanto continuar intacta a estrutura de poder do
governo – isto é, enquanto forem obedecidas as ordens, e o exército ou a
força policial estiverem dispostos a usar as suas armas. No caso contrário, a
situação se transforma abruptamente. Não apenas deixa a rebelião de ser
sufocada, mas as próprias armas passam para outras mãos (ARENDT, 2001,
p. 30).

As chances de vitória do Estado no confronto físico travado nas ruas são sempre
enormes. Como então entender a escolha feita por alguns manifestantes que
deliberadamente optam pela violência para expressar sua raiva, sua crítica, sua não
adaptação e concordância com as normas vigentes da vida social? Estaria a resposta,
conforme frisou Arendt no fim do trecho acima descrito, na esperança de que a
sociedade civil se junte a eles contra as formas de poder constituídas? Em plena
vigência de regimes democráticos representativos?

Black Blocs e a questão da identidade

Na última década do século XX, o breve século, como o definiu Eric


Hobsbawm, foi decretado o fim das ideologias. Importantes pensadores da pós-
modernidade apontaram as dificuldades do despertar para a luta política em uma
sociedade global neoliberal onde o individualismo faz parte das relações pessoais de
maneira tão definidora, onde a ideia de coletividades é desestimulada pelos mais
variados mecanismos de violência simbólica, notadamente a imprensa, a publicidade e
os sistemas de ensino. Como então explicar, à luz de tais diagnósticos que poucos
ousariam discordar publicamente há vinte anos, especialmente a esquerda ainda atônita
com o desmoronamento da Cortina de Ferro, o novo engajamento político que tem na
marcha do EZLN no México, em 1994, e nos protestos contra a reunião da OMC em
Seattle, em 1999, seus grandes paradigmas? Como entender que as gigantescas
manifestações alter-globalização do período 1999-2001 e as revoltas de 2010-2013 no
Oriente Médio, norte da África, Chile, Brasil, Estados Unidos e importantes nações da
Europa possam acontecer quando a vitória do capitalismo e o fim da participação
política das massas pareciam sacramentados?
Entende-se que para entender o processo atual de manifestações públicas e o uso
da violência por determinados grupos, seja importante entender os laços que unem estes
atores sociais no contexto da pós-modernidade, e que dão a estes processos um caráter
bastante particular, se comparados a outras épocas e outros ciclos de protestos, como os
do final da década de 1960. Talvez seja precipitado falar em novas, ou em uma nova
ideologia e devamos concordar com Céli Pinto (2012, p. 137, grifos meus), para quem
“a radicalização da democracia tomou o lugar das utopias de tipo socialista na
militância política”. Radicalização da democracia talvez seja uma expressão que defina
satisfatoriamente as recentes estratégias de ação direta que ganharam as ruas de
diferentes países do mundo nos últimos anos.
Segundo Zygmunt Bauman, consolidados os estados nacionais, no início da
modernidade, processo durante o qual a questão da identidade era preocupação central
dos governantes e abrangia elementos como a língua e a nacionalidade e símbolos como
os hinos e as bandeiras, hoje a liquidez nas relações sociais e o apequenamento do
Estado perante os organismos e empresas transnacionais fazem desmoronar as bases
sobre as quais a ideia de pertencimento patriótico se sustentava. Conforme o autor
polonês, “quando a identidade perde as âncoras sociais que a faziam parecer 'natural',
predeterminada e inegociável, a 'identificação' se torna cada vez mais importante para os
indivíduos que buscam desesperadamente um 'nós' a que possam pedir acesso”
(BAUMAN, 2005, p. 30).
Acredita-se que estes novos manifestantes estejam longe de configurar um grupo
homogêneo e que sejam heterogêneos também na concepção política. Muitos
possivelmente não tenham nenhuma, e sejam movidos mesmo pela adrenalina. Segundo
Bauman (Ibidem), em nossa época, por ele chamada de líquido-moderna, “as
identidades ganharam livre curso, e agora cabe a cada indivíduo, homem ou mulher,
capturá-las em pleno vôo, usando os seus próprios recursos e ferramentas”. Estas
identidades forjadas e às vezes sacramentadas no calor dos acontecimentos, incluem o
comportamento durante as ações diretas, o compartilhamento de valores semelhantes, o
descrédito nas autoridades políticas. Na narrativa de boa parte da grande imprensa, o
destaque é a imagem de um coquetel molotov arremessado contra uma viatura, no
detalhe da máscara, da expressão de raiva. É mais raro encontrar reportagens e artigos
que reflitam sobre as origens de tais ações, ou que concedam espaços generosos para
essas vozes que se opõem às autoridades e ao sistema, questionando a própria natureza
democrática da nossa democracia de fato.
Para Esteves (2011, p. 41), o agir coletivo está na raiz do processo comunicativo,
já que a dinâmica da comunicação “não é em qualquer caso redutível à existência
individual (isolada) destes mesmos indivíduos. Cada um de nós só pode assumir-se
como agente de comunicação/sujeito de discurso a partir do momento em que se
encontra inserido numa dada rede de sociabilidade”. Este processo de pertencimento, de
auto-afirmação de uma identidade é algo sempre em construção, “um processo nunca
completado" (HALL, 2000, p. 106). Incompletude e transformação também destacadas
por Esteves (2011, p. 39), para quem "o homem como ser de comunicação, não
estritamente determinado em termos biológicos, […] não se pode dar de uma vez por
todas (em qualquer circunstância) como constituído”
O encontro nas ruas, às vezes ´marcado pelas redes sociais virtuais, configura o
que Castells (2013, p. 128) chama de espaço híbrido, um espaço de autonomia, “uma
mistura de lugares, num determinado território, e espaço de fluxos na internet”. Outro
fator de união entre os manifestantes, segundo o autor espanhol, é a sensação de
empoderamento que toma conta dos participantes. Este sentimento coletivo de estar
atuando decisivamente na História é reforçado quando, na sequência dos dias em que os
protestos ocorrem, alcança-se vitórias perante o poder público – como as revogações
dos aumentos das tarifas de ônibus nas principais cidades brasileiras ainda em junho de
2013, no calor dos atos de rua. Ou ainda a queda de um presidente, como ocorreu na
África islâmica recentemente.
A manifestação torna-se também um acontecimento para o estreitamento de
laços de amizade, “um conceito que, de novo, não atravessa as cenas de manifestação-
guerra, mas que está no íntimo de todas elas. Paixão, amor, inclusive” (SOLANO;
MANSO; NOVAES, 2014 , p. 89). Os indivíduos encontram sua tribo, depois dos atos
descobrem que ouvem a mesma música e têm hábitos semelhantes na vida cotidiana,
tornam-se amigos, sentem-se atraídos uns pelos outros, se relacionam sexualmente, se
apaixonam... Agem, portanto, como diagnosticaram muitos teóricos da cultura na pós-
modernidade, com fluidez e sem ideologias rígidas que os norteiem. Mas, acima de
tudo, o que os torna tão atraentes aos olhos da mídia e das ciências sociais é o fato de
aceitarem a violência como elemento fundamental na sua atuação social, no que
comunicam ao mundo. Uma vez assumido o risco, têm eles de lidar não apenas com a
violência que programam e executam nas ruas das zonas centrais das grandes capitais,
mas também com aquela que recebem como resposta da polícia, e sobre a qual só
podem até certo ponto prever e administrar as consequências. Os perigos da detenção,
de ferimentos ou da própria morte tornam-se companheiros constantes.
A manifestação é o local e momento em que todas as coisas que os une se
solidifica em uma ação social que os marca não apenas para a opinião pública, mas
também para si próprios, marca a maneira com que passam a se ver. O protesto e o que
experienciam naquelas horas tão intensas afetam decisivamente seus próprios processos
de identificação subjetiva e coletiva. E muitas vezes aquilo do que a mídia os acusa,
todos os atributos ligados à violência que possivelmente mais os prejudiquem em
termos de imagem pública do que os favoreça, acabam sendo valores que eles
introjetam, sobre os quais sentem orgulho, e cada performance tem também o objetivo
de reforçar essa imagem. Um vidro de banco que estilhaça após resistir por mais de um
minuto, após várias várias pedradas de várias pessoas, é comemorado como um gol.
Gritos de satisfação, pequenas vitórias são saudadas. E tudo sempre filmado. A
visibilidade via postagem nas redes sociais da internet é um dos objetivos das ações. E
nesse sentido, a estética também é muito importante para estes grupos:
Um bloco preto, uniforme, ocupando a rua tem um poder estético inegável.
Um molotov jogado numa agência bancária do centro da cidade por um
garoto com uma bandeira preta na mão. Um carro de polícia virado, uma
pichação no muro da Prefeitura, o vidro de outra agência estilhaçado...
Definitivamente uma cenografia bem articulada. Muitos dos protestos Black
Bloc parecem cerimônias, seguindo suas formalidades, seus protocolos, suas
violências em lugares e momentos determinados, cada um cumprindo seu
papel. O policial em seu personagem. O manifestante no seu. O fotógrafo
onipresente, como insaciável, captando o omento da pedrada ou da bomba de
efeito moral. Toda uma mise-en-scène que atrai flashes, capas, manchetes...
Podia ser de outra forma numa sociedade que deglute os acontecimentos
como se fossem meros espetáculos? (SOLANO; MANSO; NOVAES, 2014,
p. 77-78, grifos dos autores).

Da mesma maneira que acontece com a cobertura da grande imprensa – pelo


menos dentro da perspectiva que está sendo aqui exposta -, no caso dos midialivristas
também não há imparcialidade. Eles são ativistas, fazem parte do movimento, produzem
sua própria informação e também selecionam o que mostrar ou não, levando sempre em
conta a guerra discursiva travada contra a visão jornalística mais tradicional,
republicana, que zela pela ordem e em nome da ordem justifica muitos de seus
posicionamentos. Para estes veículos, de propriedade de grandes empresas capitalistas
de informação, “os Black Blocs e seus aliados são descritos como produtos de um
desvio cultural combinado a uma patologia psicológica” (DUPUIS-DÉRI, 2014, p.
176). Atores sociais marginais, rotulados como vândalos, desajustados sociais. Na
prática da construção midiática do inimigo, grupos vão sendo estigmatizados
diariamente, condenados a priori e à margem de qualquer competência jurídica.
O debate é atropelado por um massacre diário de pequenas notas, grandes
reportagens, fotografias e imagens televisivas que ressaltam a violência a qual é
sintomaticamente associada a palavra baderna. Assim, através da violência discursiva
simbólica, o ativista vira terrorista, o manifestante se torna vândalo. Fabrica-se a
aversão da sociedade de bem a grupos marginais que agem fora dos linites das leis, da
ordem, do contrato social. Marginalidade como ameaça de ruína, como barbárie, jamais
como sintoma que deve ser seriamente investigado e socialmente enfrentado a partir do
que o gera.
A marginalidade é o lugar onde se podem ler os pontos de ruptura nas
estruturas sociais e os esboços da problemática nova no campo da economia
desejante coletiva. Trata-se de analisar a marginalidade, não como uma
manifestação psicopatológica, mas como a parte mais viva, a mais móvel das
coletividades humanas nas suas tentativas de encontrar respostas às
mudanças nas estruturas sociais e materiais. Mas a própria noção de
marginalidade permanece extremamente ambígua. De fato, ela implica
sempre a ideia de uma dependência secreta da sociedade pretensamente
normal. A marginalidade chama o recentramento, a recuperação
(GUATTARI, 1981, p.46).

Adeptos de “uma violência comunicativa, que exterioriza a crença de que os


canais de diálogo convencionais são inúteis, nulos, fracassaram porque o poder não está
disposto a escutar” (SOLANO; MANSO; NOVAES, 2014, p. 78), manifestantes
violentos têm o mérito de trazer à tona algumas faces reais do poder, normalmente
ocultas à grande parte da sociedade. Os poderes político e jurídico se revelam
autoritários, mostrando com clareza os limites da ordem democrática, até onde se pode
ir. Como bem escreveu Dupuis-Déry, (2014, p. 10), “o principal objetivo de um Black
Bloc é indicar a presença de uma crítica radical ao sistema político e econômico e
político”. Isso basta para as profundas reformulações necessárias no caminho para uma
sociedade mais justa? Possivelmente não, mas a sua existência registra um mal estar
civilizacional que talvez seja compartilhado por muito mais jovens do que o
relativamente discreto número dos que reúnem para quebrar vidraças durante as
manifestações. E como todos os fenômenos sociais, só poderá ser devidamente
compreendido com o andar da carruagem da História.

Referências

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