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JOÃO CALVINO NO BRASIL

ou

CAMINHOS DA PROVIDÊNCIA

Valter Graciano Martins


Neste livro cativante, Valter Graciano Martins, incansável tradutor de
Calvino, presenteia-nos com uma “autobiografia” teológica, apologética e
polemista. Relembrando a sua história, escrita e predeterminada pelo Senhor
Deus da História, o Rev. Valter discute os erros do romanismo, apresenta a
gloriosa doutrina da predestinação e a ilusão do livre-arbítrio humano, e de
igual modo nos narra como sua vida — envolvendo decepções, agruras e
dificuldades as mais diversas — foi e continua sendo os Caminhos da
Providência soberanamente concretizados na história. Ao final, ele ainda nos
brinda com uma bela biografia de João Calvino.
Duas coisas são claramente percebíveis ao longo dos capítulos: a honestidade
do autor e seu amor pelo Reino de Deus. É comovente a descrição das
tribulações e privações que enfrentou, tanto nos pastorados que exerceu
quanto nas lides editoriais. Todavia, sem ocultar os próprios erros, o Rev.
Valter mostra-nos, num olhar em retrospectiva, como o Senhor conduziu os
seus passos pela sua santa e por vezes misteriosa Providência, fazendo com
que todas as coisas concorressem para o bem de seu tradutor eleito.
É, pois, não somente um prazer, mas uma honra publicar esta obra e tornar
um pouco mais conhecido o divulgador do Reformador de Genebra em terra
dos Brasis. E que as gerações futuras se inspirem nesse relato, sabendo que
Deus escolheu as coisas pequenas deste mundo para realizar grandes feitos
em prol do seu inabalável Reino.

— Felipe Sabino
O Editor
Ter nas mãos um livro traduzido pelo Rev. Valter Graciano Martins é ter a
certeza de lermos um texto cuja fidelidade é o máximo anelo desse tradutor
que, ao contrário do que reza o dito italiano, não trai o autor do original. Suas
traduções não são fruto do mero esforço de alinhavar palavras e sentidos de
um idioma em outro, antes resultam do compromisso de servir a Deus em
favor de sua igreja; é trabalho forjado no cadinho da oração aquecido nas
chamas do zelo e da qualidade. Não obstante sua reconhecida modéstia, seu
nome de tradutor avulta entre tantos e tão competentes pares do universo
editorial reformado brasileiro por estar histórica e especialmente atrelado ao
pioneirismo das traduções dos comentários bíblicos do reformador João
Calvino, e mais recentemente à tradução da primeira edição de suas célebres
Institutas — além de tantas outras obras de mesmo gênero. A história da
tradução de Calvino no Brasil é, em grande medida (e bota grande nisso!), a
história desse seu principal tradutor. Louvamos a Deus e somos-lhe gratos
pela vida e labor desse seu precioso servo que no cumprimento de seu
ministério profícuo e incansável tem legado à igreja lusofalante uma bênção
cuja perenidade se estenderá ainda por muitas décadas além de sua própria
existência. Só Deus poderá recompensar em justa medida seu servo fiel,
Valter Graciano Martins, para a glória exclusiva de seu nome e edificação de
seu povo. Soli Deo Gloria.
— Marcos Vasconcelos
Tradutor juramentado
O século XVI, o da Reforma, foi também o século da imprensa, o século da
produção em grande escala de livros através da prensa de Guttenberg. Neste
tempo, o papel do editor impressor era tão importante que ele era considerado
um verdadeiro artesão do livro, tendo seu nome honrado nas páginas de rosto
dos livros exemplares produzidos.
Ora, Valter Martins é um artesão do livro. Ele representa pra nós, hoje, o que
esses heróis pouco conhecidos da Reforma representaram em seus dias. Da
tradução à impressão, do projeto ao livro, do sonho à realidade, Valter fez
Calvino falar português e fez redivivos incontáveis heróis da fé do passado
através por meio de sua incansável produção literária.
De uma inquietação tenaz, ao ponto da teimosia, faz ainda hoje, já perto dos
seus 80 anos, um trabalho impressionante na produção de livros. Sem dúvida,
uma inspiração e modelo para o povo de Deus em sua disposição de servir a
igreja de Cristo e a causa do evangelho.

— Tiago Santos
Editor-chefe da Editora Fiel
Copyright @ 2019, de Valter Graciano Martins

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por


EDITORA MONERGISMO
SCRN 712/713, Bloco B, Loja 28 — Ed. Francisco Morato
Brasília, DF, Brasil — CEP 70.760-620
www.editoramonergismo.com.br

1ª edição, 2019

Revisão: Felipe Sabino de Araújo Neto


Capa: Bárbara Lima Vasconcelos
Desenhos da capa: Marcos Rodrigues
Diagramação: Marcos Jundurian

PROIBIDA A REPRODUÇÃO POR QUAISQUER MEIOS, SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.

Todas as citações bíblicas foram extraídas da


versão Almeida Revista e Atualizada (ARA),
salvo indicação em contrário.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Martins, Valter Graciano

João Calvino no Brasil ou Caminhos da Providência / Valter Graciano Martins — Brasília, DF: Editora Monergismo,
2019.

ISBN 978-85-69980-88-9

1. Biografia — Valter Graciano Martins 2. Biografia — João Calvino 3. Teologia cristã I. Título

CDD 920
Sumário
Prefácio
Nota introdutória
Primeira Parte: Primórdios
1. Meu primeiro mundo
2. Minha família
3. Crenças religiosas
4. Primeira menção da Bíblia
5. Guardado e preparado pelo Espírito do Senhor
6. Fragmentação da família
7. Dispersão final da família
8. Encontro dramático
Segunda Parte: Descobrindo o Evangelho
1. A providência segue seu curso
2. A primeira Bíblia
3. Primeira revista dominical
4. Cultura estagnada
5. Quanto aos sonhos futuros
Terceira Parte: Estudante de teologia
1. Chegada a Patrocínio
2. Primeiro contato auditivo com as Institutas
Quarta Parte: Experiência missionária
1. Histórico
2. O pastor como profeta de Deus
Quinta Parte: Outra encruzilhada decisiva
1. Trajetória cultural de Cremilda
2. Meu encontro com a Comissão Executiva do Presbitério de Goiânia
Sexta Parte: Impacto de cosmovisões
1. Erro que gera acerto
2. Igreja de Rialma
Sétima Parte: Nascem Edições Parakletos
1. Primeiro computador
2. Primeiro Livro
Oitava Parte: Perfil de João Calvino
João Calvino — o homem
João Calvino — Pastor e Pregador
João Calvino — o escritor
João Calvino — o Reformador
Nona Parte: De regresso a Goiânia
1. Novo impacto de cosmovisão
2. Tentativas inglórias
Pós-escrito
Sobre o autor
PREFÁCIO
O caro leitor tem nas mãos uma grande obra. Sincera, franca e muito
inspiradora. Sua publicação documenta uma realidade que precisa ser
conhecida, reconhecida e divulgada. Realidade conhecida por poucos e talvez
até desprezada por alguns desses poucos! Mas agora, por essas páginas
impressas, a posteridade saberá esse assunto, e com convicção poderá
divulgá-lo.
Conhecer e reconhecer o que aqui está escrito têm sido para mim um
sagrado privilégio. Desde o começo do meu ministério tenho sido
privilegiado pelo autor das páginas desse livro. Sempre fui privilegiado com
suas tantas traduções das obras que não podemos negligenciar, e nesses
últimos anos tenho desfrutado de sua amizade que tanto me inspira. Conhecer
e ser amigo do autor desse livro tem sido uma bênção na minha vida.
Doravante esse privilégio que desfruto está estendido aos que absorverem
o conteúdo dessas páginas. Por elas o caro leitor conhecerá melhor o grande
Reformador genebrino e como ele veio a ser conhecido e tem sido influente
em nosso rincão de fala portuguesa. Aqui nessas páginas se conhece como o
grande Reformador veio a falar nossa língua, talvez até tardiamente, mas
ainda em tempo para nossa geração e, com certeza, para os tempos vindouros.
Essas páginas contam o percurso dessa trajetória que a providência divina
tem usado para privilegiar a muitos.
O Reformador genebrino no seu tempo nos enviou missionários que
inclusive deram suas vidas em martírio aqui no nosso país, e não pôde ver
tanto progresso no envio de seus compatriotas, e nem pôde presenciar a
divulgação de seus escritos aqui em nosso território; mas, no tempo de Deus,
Ele mesmo designou outro reformador nato, para que tornasse o Reformador
Calvino acessível aos estudiosos da Sagrada Escritura — João Calvino no
Brasil ou Caminhos da Providência agora documentados nessas linhas, onde
o Reformador e seu intérprete divulgador nos são apresentados.
Ler e reler essas páginas me foi até difícil. Algumas partes talvez
não li direito, pois estava com mais intensidade revivendo os fatos, momentos
esses que, além do texto, me envolvi com as cenas descritas, e aí o coração
perde o compasso e os olhos embaçam em lágrimas e fica difícil continuar...
Mas é muito proveitoso, através dessas páginas, conhecer o Reformador, sua
pessoa e obra, e também o instrumento reformado que tem sido usado pelo
Deus providente que nos proporciona ler as grandes obras da Reforma.
Aqui nesta obra o autor se apresenta com franqueza e sinceridade,
com os acordes de seu coração inflamado pelo Reino de Deus e fascinado
com o Reformador João Calvino, do qual tem sido intérprete fiel e labutador.
Também nos impressiona a obra da providência divina em chamar o ferreiro
matuto a abandonar o martelo e a bigorna, para empunhar o mais poderoso
instrumento modelador; não de peças metálicas, mas de vidas e vidas para o
reino de Deus — a Santa Escritura —, e isso nos moldes devidamente
delineados pelo coração e mente santos do Reformador Calvino. Bendito
momento foi aquele que o jovem ferreiro depositou o martelo sobre a
bigorna, se despediu da antiga ferraria e seguiu na estrada longa e poeirenta
rumo ao IBEL para ali começar o preparo que lhe faria no futuro o intérprete
do Reformador! Somente os desígnios da providência divina podem realizar
feitos assim, contrariando, inclusive, os pareceres da lógica humana.
Neste mês em que comemoramos mais um ano da Reforma
Protestante, somos presenteados com esse relato inspirador. Louvamos a
Deus por João Calvino e também por seu intérprete para o povo de fala
portuguesa. Cinco séculos separam os dois, mas a providência divina os une
nessas páginas para nosso proveito hoje e para a posteridade. Dos
instrumentos produzidos outrora pelo jovem ferreiro talvez não exista
nenhum em uso, mas das obras tão antigas de Calvino e de outras tantas de
cunho reformado, temos tantas em uso e atualizadas, na nossa língua, graças
ao seu entusiasmado tradutor Rev. Valter. Vale a pena conhecer a história
dessa história.
Portanto, a Deus toda a glória, ao Reformador e seu intérprete, o
sincero reconhecimento e a gratidão pela obra no Reino! Bendito seja Deus
por nos proporcionar João Calvino no Brasil, para os brasileiros e os demais
de fala portuguesa!

— Rev. Prof. Salvador Moisés da Fonseca


Ministro do Evangelho, Teólogo, Escritor e Professor no
Instituto Bíblico Eduardo Lane.
E, sobretudo, meu leal e particular amigo.
Outubro de 2018
NOTA INTRODUTÓRIA

Há tempo que este tema — João Calvino no Brasil, ou Caminhos da


Providência — vem ocupando minha mente e coração, impelindo-me dia e
noite a escrever não uma mera autobiografia, o que seria de bem pouco
proveito ou de quase nenhuma importância para os leitores; e sim o que o
Senhor tem feito em minha vida e através de minha modesta pessoa como seu
instrumento de um modo muitíssimo específico e quase único. Com certeza,
eu jamais escreveria uma mera autobiografia. Quem iria lê-la? Que valor
prático teria? Que importância os leitores veriam em minha história pessoal
ou particular? O que escrevo, porém, visa a deixar impresso e expresso que
foi através de minha instrumentalidade que o Reformador João Calvino
praticamente foi introduzido no Brasil de modo legível e completo, como se
ele mesmo estivesse conversando conosco. É verdade que tenho traduzido
algumas dezenas de outras obras preciosas no campo da cultura teológica;
porém, minha prioridade e foco sempre foi o Reformador genebrino. É
verdade ainda que, quando comecei a traduzir suas obras, já havia uma
tradução de suas Institutas, porém quase de nenhum valor real, porquanto sua
leitura veio a ser totalmente inviável e ilegível para os leitores de língua
portuguesa.
Quando digo “minha prioridade e foco”, não é uma menção fortuita;
senão que desde o ponto de partida de minha experiência com o evangelho
nascia também em mim e comigo, de um modo muito acentuado,
humanamente inexplicável, esse lampejo no tocante à pessoa e obra do
Reformador; ainda quando nem tivesse qualquer noção de sua existência e
suas obras. No entanto, isso jazia latente em minha mente e alma, só
percebendo-o e interpretando-o mais tarde. Jamais pude e jamais terei como
explicar esse fenômeno; faz parte das coisas que vão além da experiência,
noção e explicação humanas. Na esfera divina, não existe meada sem ponta,
porquanto ele é o próprio autor da meada; já na esfera humana, há muitas
meadas cujas pontas se perdem em um emaranhado sem fim. Essa intuição
surgiu e foi crescendo sem qualquer imposição nem influência vindas de fora,
pois em minha trajetória nunca encontrei alguém que fosse admirador
consciente e leitor assíduo do grande Reformador, mesmo porque ainda não
havia nada dele no vernáculo. Sempre se falava e se celebrava Martinho
Lutero, e com justiça, porém muito pouco ou quase nada no tocante a João
Calvino. A Casa Editora Presbiteriana publicou outrora um volume de
Vicente Temudo Lessa, Calvino: sua vida e sua obra,[1] cuja data de
publicação nem se acha impressa no livro. Lembro-me bem que, assim que
esta obra apareceu em público, eu a adquiri e a li toda mais de uma vez.
Meu sogro costumava dizer-me: “Sou admirador de Martinho Lutero,
porém não de João Calvino. Não gosto dele”. E foi esta a influência e
informação que ele recebeu desde o início de sua fé, através de seus pastores,
pois ele sempre ouvia falar de Lutero, e quase nada de Calvino. Pior: o que
ele ouvia do Reformador genebrino era quase sempre negativo e distorcido
como é sua figura e fama em todo o Brasil. Nunca me assentei com algum
erudito que me dissesse: “Estou lendo uma obra de João Calvino ou sua
biografia”. Sempre estive, desde cedo, em contato direto com grandes
teólogos de formação reformada, mas nenhum deles insistia comigo sobre o
assunto. No íntimo, sua fé teológica era correta; mas, quanto a explanar suas
convicções a respeito para a instrução de outros, omitiam totalmente essa
sacra tarefa atinente a eles, pastores e mestres. E assim o povo evangélico
brasileiro continuava jejuno do conhecimento da pessoa e obra do
Reformador até há bem pouco tempo.
Desde o início, já nos campos missionários, tomei ciência da história
do primeiro missionário presbiteriano no Brasil — Ashbel Green Simonton.
Mesmo assim, não havia aquela ênfase insistente sobre a formação teológica
do missionário. Foi bem mais tarde que passei a ler e a ouvir que Simonton
fora aluno do grande teólogo calvinista Charles Hodge. Entretanto, João
Calvino nunca fazia parte do foco. A tônica era posta no evangelismo; mas, e
a doutrina ministrada aos neófitos procedentes desse evangelismo? O que
eles recebiam de sua instrução doutrinária? Muitas igrejas foram instruídas
por seus pastores e mestres com base em uma fonte mais arminiana do que
calvinista. Daí a miscelânea doutrinária com forte tendência para o
anticalvinismo.
As novas gerações de estudantes de teologia têm hoje o privilégio de já
começar seu ministério compendiando João Calvino no vernáculo, caso o
queiram; no entanto, isso se deve à insistência de um missionário caipira, sem
“cultura acadêmica” e sem condição de efetuar tal proeza; mas que,
praticamente sozinho, pôs a “mão na massa” e nunca mais se deteve, ainda
que sem o apoio e o auxílio daqueles que são detentores da nata da cultura
teológica.
De igual modo, desde cedo meus olhos focaram um texto que para
mim, em particular, é muito especial, o qual retrata e enquadra bem o que o
Senhor se propôs fazer em mim e por meu intermédio, ao longo dos anos. O
texto se encontra na Primeira Epístola aos Coríntios 1.26-29. Ali o apóstolo
chama a atenção dos cristãos coríntios, e extensivamente a atenção de todos
os cristãos em todos os lugares e épocas, para a vocação divina de homens e
mulheres com vistas à expansão de seu reino neste mundo. É verdade que o
evangelho costuma atingir e lograr avanço nos corações e mentes de muitos
“grandes”, “poderosos” e “nobres”, e a história o demonstra. É óbvio que
muitos dentre essas classes abraçam o evangelho e são salvos pela mesma
graça que penetra todos os níveis e camadas da sociedade humana como um
santo levedo. Na história da Igreja têm havido muitos ricos, poderosos e
eruditos que vieram a ser grandes no reino de Deus. Aliás, quando a cultura,
a riqueza, o poder e a nobreza se aliam à verdadeira conversão e vocação
cristãs, e introduzem a humildade nos corações dos “grandes”, esta costuma
ser uma associação de grande valor e vantagem para a Igreja. Não obstante,
estes nunca suplantam em número a grande massa daqueles que são
destituídos de lustre. Ao contrário:
Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os
sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo, para envergonhar
as fortes; e ele escolheu as coisas humildes do mundo, e as
desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que
são [ou que parecem ser].[2]
E ele dá a razão para esse comportamento divino: “a fim de que
ninguém se vanglorie na presença de Deus”. Isto é, o que Deus almeja é que
seu próprio Nome seja glorioso e glorificado em todo o orbe, especialmente
pelos que o servem de todo o coração. Todo o programa de Deus visa à sua
própria glorificação, e não à do homem; a do homem deve ser em decorrência
da de Deus; pois o homem só será glorificado na pessoa de Cristo, no qual
encontrará também a fonte da verdadeira e eterna felicidade. É assim que o
Breve catecismo de Westminster se abre: “O fim principal do homem é
glorificar a Deus e desfrutar dele para sempre”.
Portanto, “para que ninguém se vanglorie na presença de Deus”, é uma
frase recorrente. Por quê? Porque todos são servos e servas, instrumentos e
ferramentas nas mãos daquele que quer ser o único glorificado, porque ele é
o único que é, a saber, o único eterno e auto-existente; ele é o único que pôde
e pode dizer “Eu Sou”. Caso eu passe a fazer uma obra de grande dimensão
em seu reino, isso se deve à vocação soberana que se estende a quem ele
quer, e não ao valor e importância intrínsecos ou pessoais. Ele é quem me
chamou à realização de tal obra para que, por meio dela, ele mesmo seja
ainda mais conhecido, temido, amado e engrandecido, e não aquele que a
realiza, o qual não passa de instrumento de seu eterno propósito. Se bem que
no último dia este mesmo ouvirá dos lábios do Supremo Juiz: “Muito bem,
servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no
gozo do teu senhor” (Mt 25.23). Mas este é o galardão e convite da graça que
encobre os defeitos dos servos e do que estes fazem para ele, e não porque
porventura mereçam tal galardão.
Entendi isso desde cedo, olhando para mim mesmo e tentando ver em
minha pessoa algo de valor extrínseco e intrínseco que justificasse a
realização de uma obra a que chamo singular, em razão de sua perfeita
excelência. Se há no mundo um homem ou uma mulher que jamais poderia
vangloriar-se diante de Deus ou dos homens, esse alguém sou eu. Não existe
em mim absolutamente nada que se possa chamar “grande” e “nobre”, nem
mesmo quando alguns, equivocadamente, olhando só para meus feitos
externos, chegam a chamar-me de “grande”. Porque, na verdade, a baixeza
humana está sempre de espreita e se esgueirando ao meu redor, furtivamente,
insinuando-se e me vigiando, dia e noite. E a lembrança de meu tenebroso
passado me afunda no pó e na cinza. A única coisa em mim que tanto desejo
que triunfe é que a glória de meu Senhor se sobressaia por meu intermédio;
isto é, naquilo que faço; não propriamente em minha insignificância, mas na
obra que ele mesmo me deu para fazer. Quanto ao resto, na verdade não
passa de resto! No fim, somente ele receberá a glorificação de toda a Igreja.
Pretendo revelar um pouco de minha própria história meramente
visando ao foco principal, que é minha instrumentalidade nas mãos do
Senhor, dentro de sua sapientíssima Providência, e não minha própria pessoa.
Sem esse algo grande que o Senhor pôs em minhas mãos para fazer, eu seria
mais um imerso em total anonimato. O que me projetou na história não foi e
não é minha pessoa em si, mas aquilo que passei a fazer impelido pela
Providência divina. Quando se pronuncia meu nome, ou quando se lê meu
nome nos livros, meu real intuito é que a glória do Senhor da Igreja se realce;
pois nunca tive outro propósito em minha vida atribulada, minha vida
peregrina, senão que, por meu intermédio, o Senhor Jesus seja visualizado e
glorificado. Creio ser esta a razão de não me sobrepor a ninguém; ao
contrário, o que se sobressai em mim é a insignificância e, pela graça em
mim, se sobressai a grandeza de Deus e de sua obra na edificação de sua
Igreja. Aprendi isso no Santo Livro e com João Calvino.
E o grande mistério em tudo isso é que o grande se associou ao
pequeno formando um todo no quadro dos milagres do Senhor da Glória.
Pois, como veremos no lugar próprio, humanamente falando, era impossível
que eu fizesse o que passei a fazer no âmbito da história e das obras do
grande Reformador genebrino.
Sem dinheiro, sem cultura, com poucos amigos, um homem avulso,
sem quase nenhum apoio humano, estou deixando para a Igreja de nosso
Senhor um legado imenso, perpétuo e único; um tesouro para o qual a Igreja,
hoje, ainda não tem qualquer critério de avaliação para julgar. Creio que,
após minha partida deste mundo (a qual pode estar bem perto), vai ser
possível uma visão mais nítida da grandeza que o Brasil e os países de língua
portuguesa estão recebendo por intermédio do pequeno que o Senhor tomou
para concretizar o grande e, assim, exaltar o Supremo.
Com essa visão no espírito, vejo, sim, os momentos de glória que
sempre cercaram meu obscuro ministério, porém vejo com mais nitidez meus
momentos de humilhação, privações, carências e frustrações das quais o
Senhor não quis me livrar totalmente. O Senhor sempre massacrou meu ego
para que ele seja visto em mim e no que faço. E, assim, volvo meus olhos
para o alto e noto, pela fé, que o Senhor da Igreja tem sido engrandecido
através de meu duro empenho e desempenho em meio às fraquezas da carne
que labutam contra o espírito. Sempre compreendi que não foi por mérito
meu que venci, até então, todas as barreiras postas por Satanás e os homens; e
sim pelo mérito da ação constante do Espírito de Deus, usando este vaso de
barro, trincado, sim, para a consecução de seu eterno desígnio em usar o
instrumento que ele quer usar e soberanamente usa. E, no tocante a mim, o
vaso é não só de barro, mas também envolto de rachaduras e escoriações, sem
qualquer vislumbre de arte e beleza externas a fascinar os usuários ou os
colecionadores de antiquários. Este é o método de Deus! E é isto que espanta
os homens que são chamados para seu serviço: o mistério da Providência que
permeia a vida e a vereda dos que o servem com alegria.
Outro texto bíblico que se tem identificado comigo se encontra na
Segunda Epístola aos Coríntios 12.7-10. Ali Paulo nos informa que labutou
com muito empenho para livrar-se de um espinho solerte que sempre o
importunava; e que por três vezes rogou ao Senhor que o livrasse dele. Mas a
resposta divina, sempre recorrente, era que sua graça é suficiente e se
sobrepõe quando um espinho atrapalha seu servo ou sua serva. Então, o
apóstolo se gloriava nas fraquezas para que a graça fosse nele mais abundante
e exuberante e se sobressaísse com mais glória, e seu poder aperfeiçoasse sua
vida em santificação. Em comparação a mim, o apóstolo foi privilegiado,
pois labutava contra um espinho; enquanto que, no que toca a mim, vejo a
digladiarem comigo diversos espinhos. É por isso que sempre respondo à
pergunta, “Como vai?”, com esta afirmação, “Estou melhor do que mereço!”.
O que seria de mim se o Senhor me desse o que realmente mereço?! Que o
leitor responda para si.
Então, se me vejo vitorioso em meio a tantos percalços, para quem
olharei? Para os montes? Para mim? Para algum objeto valioso? Não! Jamais!
“Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus”, a quem
tenho servido ao longo de mais de meio século (Hb 12.1-3). E neste livro
meu desejo mais profundo é mostrar o quanto a ação divina é misteriosa nas
vidas de seus servos e servas em quem nada se vê que fascine aos que olham
só o exterior. E, assim, não venhamos a desesperar-nos, porquanto sua
Providência está no comando.
No entanto, proponho-me deixar impressa e expressa, nesta nota
introdutória, a estrita razão por que desejo tanto registrar minha história com
o Reformador genebrino. É muito simples: quem dentre os doutos se disporia
a escrever minha história? Se até então ninguém se dispusera a traduzir as
obras do grande Reformador, por achá-las destituídas de relevância, por que
alguém se disporia a escrever minha história relacionada com João Calvino?
É provável que, para os doutos, isto nem se qualifique como “história”, senão
uns alinhavos sem um arremate calcado na elegância.
Tenho certeza que, se João Calvino falasse nosso idioma através de um
erudito no pleno desfrute de prestígio e capacidade no meio dos grandes,
membro de uma academia de eruditos, esta história seria relevante e
certamente seria lida e apreciada por milhares. Como não pertenço e jamais
pertencerei a uma academia de eruditos, tudo quanto eu fizer no campo
literário, mesmo que eu consiga fazer bem feito, contudo terá sido feito por
um amador isolado ou avulso, sem aquela “formação acadêmica” tão
necessária na evolução cultural dos indivíduos e da sociedade. Por isso
mesmo, crendo na relevância de se ter uma história escrita dessa façanha, eu
mesmo decidi fazê-lo, talvez sem vê-la um dia publicada. E, como costuma
ocorrer com frequência, pode ser que, após minha partida deste mundo,
alguém descubra a relevância de se publicar um livro como este para que o
Brasil saiba que João Calvino ficou conhecido em nossa pátria através de um
homem sem expressão, sem ser membro de uma academia de eruditos, nem
mesmo sendo ele erudito, e sim um perene leigo; porém que desde o início
creu na grande relevância de João Calvino ser lido pelos estudiosos de fala
portuguesa como uma fonte direta de pesquisa, informação e instrução. Esta é
e será minha gloriosa recompensa! Aliás, em parte já desfruto a antevisão
deste milagre!
A ele somente toda honra e glória.

— Valter Graciano Martins


Goiânia, outubro de 2018
O menor servidor de Jesus Cristo
Dedicatória

Ao Instituto Bíblico Eduardo Lane,


abençoada escola que, partindo dali,
redirecionou toda minha vida.
PRIMEIRA PARTE: PRIMÓRDIOS
1. Meu primeiro mundo

Poderíamos chamar este capítulo A origem de uma vida aparentemente


sem importância, mesclada com outras vidas evidentemente muito mais
importantes, e que deu origem a algo de suma importância e relevância no
seio da Igreja de nosso Senhor.
Que importância teria a vida de um garoto que nasce e cresce
perambulando pelos campos, usando apenas um short puído e sujo, cabelos
cortados a zero, que a própria mãe cortava a esmo, usando apenas a tesoura,
todo queimado do sol, pés descalços, atolados na poeira ou na lama das
estradas, das trilhas e do brejo lamacento? Quase sempre era visto com um
estilingue no pescoço e os bolsos cheios de pedrinhas para atirar nas aves que
existiam aos bandos. A sorte das aves estava na péssima pontaria do atirador.
Raras vezes ele conseguia acertar uma rolinha, uma pomba descuidada que
comia dos restos da colheita de milho e arroz, ou outra ave não comestível, só
pelo gosto de vê-la cair por terra para depois contar aos colegas a façanha
com detalhes e acréscimos exagerados.
Aquele garoto se irmanava com outros e assim perambulavam a esmo
pelos campos em busca de frutas silvestres, que havia em abundância na
região. No tempo de mangas, então, que existiam até pelos campos abertos,
voltavam para casa completamente lambuzados e empanturrados. Isso
durante os fins de semana, pois durante a semana ele e os irmãos estavam
com o pai no cultivo da terra, fosse plantando, fosse carpindo as ervas
daninhas que infestavam a lavoura, e durante o período da safra. O quanto
pudesse, corria com alguns irmãos para o ribeirão a fim de nadar em algum
poço largo e fundo. No tempo das chuvas, ele e os irmãos pescavam bagres,
enguias e lambaris nos fundos da casa. De vez em quando voltavam para casa
com uma boa fieira de peixes que fritavam e comiam com a gulodice própria
de menino.
Não havia preocupação com as coisas, com a vida, com o futuro.
Sonhos? Só depois de alguns anos é que começariam a incomodar sua mente
adolescente e jovem. Ambição? A vida que a família levava era boa e
suficiente para não pensar muito em posses, em estudos, em romances, em
estabilidade. O problema é que aquela terra era alheia. O pai não era o
proprietário. Mais dias, menos dias, a família teria que sair dali em busca de
outra terra onde morar e trabalhar. Mas aquele menino nem mesmo sabia
desse detalhe. Para ele, aquela era sua terra e viveria ali para sempre.
2. Minha família

Manoel Graciano Martins (conhecido por todos da região pela alcunha


“Mané Cota”) e Joana Rosa (ambos há tempo falecidos) geraram nove filhos:
um faleceu logo após o nascimento; os outros, de cima para baixo, trazem o
prenome: Maurício (já falecido), Maurílio, Maria, Valter, Marcely,
Marcelúcio, Manoel (também já falecido) e Marília.
Cada um constituiu sua própria família, em seu próprio universo:
Maurício casou-se com Alzira, gerando Marilda, Márcia, Mara e Maurício;
Maurílio casou-se com Lourdes, gerando Silvânia, Tânia e Jane; Maria
casou-se com José Magalhães, gerando Wellington, Draile, Débora e Deise;
Valter casou-se com Cremilda, gerando Sóstenes, Wânia, Simonton, Eline e
Wander; Marcely casou-se com Maria Inody, gerando Marcos (já falecido) e
Marcelo; Marcelúcio casou-se com Wânia, gerando Fernando, Daniela e
Lucas; Manoel casou-se com Andreia, gerando Jean e Laura; Marília casou-
se com José Natal, gerando Leandro, Leonardo e Tunísia.

2.1. Cada um tecendo sua própria história

Cada irmão foi aos poucos tecendo sua própria história, de formação,
de família, de profissão e de religião. Ainda que, em questão religiosa, Valter
e Marcelúcio tomaram outro curso, os outros seguiram em frente e buscaram
a concretização de seus ideais pessoais e conservaram-se na prática de sua
religião do berço.
O grande mistério é que cada ser humano que vem ao mundo já existia
eternamente na mente e propósito do Criador. Ninguém vem à existência sem
seguir a predeterminação do Senhor da vida. Isto é, ninguém nasce por conta
ou vontade própria nem traça seus planos sem o concurso do Criador; daí a
nulidade do livre-arbítrio humano e o ilusório dístico “querer é poder”.
Estritamente falando, estes dois conceitos só existem na ilusão humana.
Quando pensamos que nossa vontade está se concretizando, na verdade é a
vontade do Eterno que está dando forma e curso aos seus próprios desígnios.
Quem poderia querer vir à existência antes que seu ego fosse criado pelo
Eterno? Se querer é poder, então não ficaríamos doentes, não ficaríamos
pobres, não teríamos problemas familiais, não seríamos infelizes,
impediríamos a chegada da velhice e da morte. Quem quer essas coisas para
si? E quem não possui, em alguma medida, essas coisas? Temos poder para
impedi-las? Nosso ilusório livre-arbítrio pode impedi-las? Quantas vezes
ocorre que justamente o que não queremos é o que nos acontece? Quantas
vezes exclamamos: “Ah! Se eu pudesse! Se estivesse em mim!”. Por isso,
toda a Santa Escritura nos incita à confiança na Providência do Eterno. Na
verdade, nossa impotência é alarmante! Os cristãos sabem que existe oculto
um tremendo e misterioso poder que nos mantém vivos e em pé.
Assim, quando cada um de nós é registrado no livro dos vivos, de
antemão a mão do Criador dera forma à sua vontade decretiva e criativa. No
dizer de um amigo: “Cada um vem ao mundo nu, sem dentes e chorando”.
Significando que ninguém nasce feito e decide sua própria sorte. Esta já está
dinamicamente determinada pela sapiência do Eterno. Mesmo os pais são
impotentes quanto à sorte de cada filho. Por mais que recorram aos adivinhos
ou falsos profetas para conhecer sua vida futura, esta é uma caixinha de
segredo que depende inteiramente do eterno, infinito e onipotente Criador. E
assim descobrem que os adivinhos ou falsos profetas na verdade não sabem
nada, nem mesmo sobre sua própria vida. Não têm conhecimento nem a
respeito de si próprios. Vivem enganados, enganando a si próprios e aos
outros.
Já nascemos totalmente dependentes: em termos imediatos, visíveis e
tangíveis, dependemos totalmente do cuidado dos pais; se deixados à deriva,
certamente perecemos. Em termos mediatos, invisíveis e intangíveis,
dependemos, querendo ou não, crendo ou não, do Criador que destina cada
um à sua individualidade e ao seu modo de existência. Ninguém pode dizer
com sabedoria: “Eu sou o senhor de meu próprio destino”. É verdade que
muitos dizem isso, porém sem qualquer laivo de sabedoria e discernimento.
Esses podem ser considerados dementes. Esta é uma crassa ilusão; e é uma
ilusão mui prejudicial. Mais cedo ou mais tarde vamos descobrir que a plena
verdade é que “Deus tem o mundo em suas mãos” e faz dele segundo seus
sapientíssimos desígnios. Deveríamos, antes, seguir o conselho do grande
santo de Deus, Tiago: “Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã,
iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos
lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois
apenas como neblina que aparece por um instante e logo se dissipa. Em vez
disso, deveríeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também
faremos isto ou aquilo” (Tg 4.13-15). Porquanto, nosso “destino” lhe
pertence; somos guiados por sua sapientíssima Providência.
Particularmente, dou graças a ele por isso ser assim. Levantamo-nos
cada manhã sem sabermos absolutamente nada do que vai acontecer-nos
durante a trajetória do dia. Presumimos, planejamos, e podemos e devemos
fazer isso. No entanto, não temos certeza alguma do sucesso de nossos planos
e da continuação de nossa vida. Quantos se levantam, elaboram seus planos
para o dia, em meio ao percurso caem por terra e a morte os arrebata!
Estritamente falando, não podemos dizer, como fazem muitos, “tenho certeza
absoluta” de que será assim. Ninguém tem como nutrir certeza absoluta de
nada, a não ser de uma única coisa: a morte. Mesmo assim, ninguém sabe que
tipo de morte terá ou em que dia ela virá. Quem tem a morte sob seu
controle?! Somente o Deus eterno. A morte também obedece à Providência
divina.

2.2. Local de origem

Eu e meus irmãos nascemos e crescemos numa região denominada


Boqueirão, a qual é cortada por um ribeirão que nasce na base de uma serra
no município de Tupaciguara, no Triângulo Mineiro, entre esta cidade e a de
Itumbiara, Goiás, cuja divisa maior é delineada pelo Rio Paranaíba. Aquele
foi nosso primeiro mundo. Ali aprendemos as primeiras letras e a fazer contas
numa escolinha rural; ali tivemos nossas primeiras experiências de vida. Foi
ali que minha consciência existencial acordou para o mundo e a vida. E
aquele era um mundo encantador. No tocante particularmente a mim, não
tinha nenhuma noção do futuro. Meu futuro era o amanhecer de cada dia. Se
alguém me perguntasse o que gostaria de ser quando crescesse, não saberia
que resposta dar. Talvez alguém me fizesse essa pergunta, porém não guardo
disso a menor lembrança. Provavelmente, gostaria de continuar vivendo ali
mesmo até o fim da vida. E por que não? Ali tínhamos de tudo para a
sobrevivência e uma vida feliz. Mas o querer não equivale poder. Nosso
pseudo livre-arbítrio é frustrado continuamente. Nascemos e morremos
querendo muita coisa sem jamais adquiri-la. Temos que querer, porém não
temos os elementos indispensáveis para podermos ser ou ter o que
almejamos. O Criador tem o mundo em suas mãos; ele é quem governa o
mundo físico e o mundo vivo, bem como o mundo metafísico e intangível.
Considero nossa vida terrena como um grande e misterioso milagre divino. A
uns ele mantém a saúde até o fim; a outros, ele manda doenças variadas. Uns
nascem sadios e viçosos; outros nascem com deformidade. A uns ele dá a
bênção da longevidade; a outros, arrebata a vida ainda no útero, ou com
poucos anos de vida, ou na mocidade etc.

2.3. Princípios ou normas de vida

A despeito da vida campestre e muito modesta, tínhamos fartura; pois


nosso pai, embora homem pobre, que nem sequer era o proprietário daquelas
terras, trabalhava de sol a sol e colhia mais que o suficiente para a
manutenção da família de dez pessoas e a família do próprio dono da terra.
Mal soletrava as palavras mais simples e fazia umas contas básicas. Nossa
mãe era dinâmica em providenciar nosso alimento, nossas roupas e calçados,
os quais ela mesma comprava com o dinheiro que ganhava na venda de
frangos e ovos, escolhendo o que era da máxima singeleza. Muitas vezes
usávamos aquilo que era feito no tear que muitas famílias ainda possuíam em
casa. Plantava-se o algodão; colhia-o; retirava as sementes; cardava-o; fiava-
o; tecia-o no tear de madeira. Era um processo formidável; rústico, porém
funcional e providencial.
Ela era completamente analfabeta. Não lia nem escrevia nada. Mas
ambos nos passaram certos princípios de vida em comunidade, e esses
princípios norteariam em boa medida nosso modo de viver. Primavam pela
honestidade, pela palavra franca; sem o saber, passavam-nos um princípio
básico do bom viver, ou seja, o respeito que se deve ao próximo. Daí
crescermos sem a discriminação social e racial de preto, branco, mulato, rico
ou pobre; todos são igualmente seres humanos. O que importava e importa é
que cada um seja íntegro e viva fazendo o bem. Sempre tive como algo muito
estranho a barreira que a sociedade cria entre uns e outros. Por exemplo, uma
raça é mais pura, mais importante que outra. O rico é maior que o pobre e o
letrado mais importante que o analfabeto — esse tipo de coisa. Não consigo
ver nenhum sentido nessas tolices humanas. Um só é o Criador de todos os
seres humanos e todos nós formamos uma sociedade de humanos; e todos
nós, igualmente, prestaremos contas diante do tribunal divino.
Eles nos criaram fomentando o respeito paterno, materno e fraterno.
Assim que levantávamos, nos dirigíamos a eles com reverência: “a bênção,
pai; a bênção, mãe”. E eles, por sua vez, respondiam também com reverência:
“Que Deus o abençoe, meu filho!”. Isto é, eles evocavam a bênção divina
sobre os filhos.
Em minha opinião, esta é uma das coisas mais benéficas que o
cristianismo legou à família. Nós evangélicos perdemos de vista estes
preceitos preciosos oriundos da Santa Bíblia. Infelizmente, hoje os filhos se
dirigem aos pais: “Bom dia a você, pai; bom dia a você, mãe”. Isso, quando o
fazem. Em muitos lares, nem existe “bom dia!”, pois se deitam mal-
humorados e se levantam pior ainda. Eles se sentem em pé de igualdade com
os pais. A hierarquia foi banida. O respeito filial desapareceu de vez. Sem o
percebermos, cultivamos hábitos que solapam aos poucos o respeito que a
Santa Escritura ensina que se deve praticar entre os pais e entre os irmãos.
Nós evangélicos deveríamos ponderar seriamente sobre essas coisas e
perguntarmos: Como Deus quer que procedamos para com os pais? E para
com os irmãos entre si? Por que, embora crentes e salvos pela graça divina,
nossa família está desestruturada? Os filhos já não creem em nada? A aliança
divina foi rejeitada e ignorada? As novas gerações se sentem orgulhosas de
ter a “liberdade” de fazer o que bem querem de sua vida! Daí a falência da
sociedade moderna, porque não cremos e nem praticamos as coisas simples
da vida em família ensinadas no Livro Divino.

2.4. Cultura caipira

Nunca imaginei meu pai usando um terno completo com um bom par
de sapatos. Era o matuto nato. Para mim, meus melhores momentos eram
aqueles quando me assentava com ele e o ouvia em seu linguajar caipira. Sua
expressão era simples, natural, sincera e sem embaraço. Eu puxava conversa
só para ouvi-lo em silêncio em seu jeito de matuto. Achava fascinante seu
vocabulário próprio, fluente, despreocupado com a correção gramatical.
Como apreciava aquilo! Aliás, embora eu haja perdido a origem do linguajar
caipira com os estudos, nunca deixei de apreciar o modo caipira de falar e
viver das pessoas do campo. De certo modo, o caipira se expressa melhor que
os que usam uma linguagem correta e empolada, pois ele não se preocupa se
o que fala gramaticalmente é ou não correto. Há mais hipocrisia na sociedade
urbana e culta do que na sociedade rural e inculta.
2.5. Vida rústica

Quer nas lavouras durante a semana, quer nos campos aos sábados e
domingos, quer frequentando a escolinha da vizinhança, a vida passava sem
que eu tivesse a menor noção do amanhã. Meu irmão malungo, Marcely,
estava sempre comigo, quer nas diversões, quer nas brigas. Éramos os mais
próximos em idade, pois acima de mim havia uma irmã, com quem não podia
brincar e pouco falávamos; e abaixo de Marcely nascera o Marcelúcio, bem
mais novo que nós. Por isso, estávamos sempre juntos mesmo que fosse para
brigar.
3. Crenças religiosas

Eu sabia, por informação religiosa da família e vizinhos, que existia um


Deus, existiam santos, anjos e espíritos desencarnados que assombravam as
pessoas e desciam nas seções espíritas. Eu aprendi mais sobre os santos,
anjos e assombração do que de Deus mesmo. A ideia de Deus era muito vaga,
obscura e remota. Ele estava embutido num misto de crenças confusas. Só se
pronunciava a palavra “Deus” sem qualquer nexo, como uma mera expressão
habitual: “meu Deus!”, “Deus me livre!”, “se Deus quiser!” etc. Na verdade,
não recebi nenhuma noção de seu Ser, de sua Revelação, de sua vontade.
Aliás, há em nossa natureza uma propensão natural ou inerente de crer
e praticar os elementos da superstição, que é uma interminável mistura de
crenças. A religião de Jesus não é um composto de crenças confusas; é um
corpo de doutrinas bem delineadas. Somos naturalmente supersticiosos. Já
nascemos prontos para a prática da superstição. Não a aprendemos numa
escola; nem é preciso escola para aprendê-la; ela não demanda professores,
pois ela é a própria mestra. Se não nascermos e crescermos sob a influência
direta do ensino bíblico, toda nossa vida irá armazenar as influências nocivas
e destrutivas da superstição sem Deus; e esta superstição constitui um
universo escuro em nosso espírito, sem a luz de Deus. Ela é o produto de
nossa alienação do Criador. A genuína fé em Cristo, oriunda da Santa
Escritura, expulsa toda e qualquer superstição. Este Santo Livro é um jorro
daquela luz que ilumina todos os cantos de nosso ser. Sem a Santa Escritura,
o que aprendemos de religião é totalmente distorcido e contrário ao
conhecimento real de Deus. Abençoados os filhos que nascem em um lar que
mantém a Santa Bíblia aberta para ser lida e meditada constantemente. Esta é
a suprema fonte daquele conhecimento de Deus que expulsa toda e qualquer
superstição. Esse bendito conhecimento limpa o céu de nossa alma. Deixa
tudo claro.
A família praticava sofrivelmente duas religiões: para os batismos e
casamentos, todos nós íamos ao templo da igreja romana; na prática
cotidiana, de vez em quando tínhamos sessões espíritas em casa ou na
vizinhança. Na região havia homens e mulheres médiuns, e eram eles que
reuniam a vizinhança para essas práticas religiosas que nada ensinavam.
Quando havia na família algumas doenças tidas como místicas, para isso
havia também os benzedores.
Inclusive tive um tio que era perito nessa prática. Quantas vezes ele me
benzeu de cobreiro, ao qual se dava o nome de “cobreiro brabo”, isto é, só se
curava por meio dessas rezas; éramos benzidos também de ventre virado,
mau olhado, quebranto etc. Por exemplo, o “cobreiro brabo” que não fosse
benzido não sarava. A única cura era por meio do benzedor. Ninguém nunca
ouvia o que ele dizia só com o movimento dos lábios. Ninguém sabia se ele
invocava a Deus ou a algum demônio. Na exata acepção do termo e da ideia,
aquilo não era uma oração. Era algo que ele aprendeu sabe-se lá quando,
como e com quem. No caso do cobreiro, por exemplo, ele balbuciava aquela
reza com um raminho de certa planta, o qual ele movia de um lado para o
outro. De vez em quando quebrava o silêncio com a pergunta: “De que te
corto?”. E o benzido respondia: “De cobreiro brabo”. Isso se repetia não sei
quantas vezes.
Na verdade, essa era uma prática de feitiçaria, porém tolerado e
relevado pela Igreja de Roma, ainda quando ela condene tais práticas em seus
livros. Ela não se preocupa em corrigir essas aberrações pagãs no povo, as
quais se perpetuam como sendo a plena verdade de Deus. Para ela, quanto
mais ignorante for o povo, mais estará sob seu domínio. Em tudo isto existe
um terrível pragmatismo: “O que importa é que funcione”. E assim o povo
nasce, cresce e morre na prática dessas coisas. Se um demônio fizer algum
milagre, então nos valhamos dele. Não importa quem o faça, contanto que o
milagre seja feito.
Ao mesmo tempo, na temporada de congada, esse mesmo tio fazia
parte dela com um pandeiro e vestido a caráter. Se alguém lhe perguntasse
qual era sua religião, a resposta seria: sou católico romano. Da religião de
Jesus, propriamente dita, como se encontra na Sagrada Escritura, ele não
conhecia praticamente nada, além de uma mínima e precária noção.
Assim também nós da família. De Jesus, o que sabíamos vinha da
tradição da festa de Santos Reis. Essa tradição, comparada com o ensino
bíblico, não passa de um paganismo mascarado. Tem muito pouco de
cristianismo. Por exemplo, nela se pede esmola para Santos Reis. Ora, se eles
foram reis, por que precisariam de esmolas? Eles é que deram presentes a
Jesus. Mas, na congada, eles recebem doações dos “fiéis”.
Se as chuvas tardavam e a seca prejudicava as pastagens e as lavouras,
havia uma procissão promovida pela vizinhança, em determinado lugar onde
houvesse um cruzeiro (cruz de madeira fincada em algum lugar); caminhando
e rezando com cânticos plangentes, levando cada um uma pedra pesada sobre
a cabeça, portando uma garrafa de água para ser derramada aos pés do
cruzeiro, depondo também ali aquelas pedras, simulando um sacrifício para
que Deus mandasse chuva.
Na verdade, para a crença popular, quem manda chuva não é Deus, e
sim São Pedro. Quantas vezes eu ouvi meu pai, no preparo da terra para o
plantio, olhar para o céu sem nuvem e sol escaldante, e de repente formavam
no horizonte nuvens promissoras de chuva, elevava ao céu um grito bem alto:
“Manda chuva, mãe de Deus”; ou “Manda chuva, São Pedro”. E se a chuva
chegava, rezávamos, atribuindo a bênção a algum santo, principalmente a São
Pedro, o santo que faz chover; o santo portador das chaves que abrem todas
as portas — do céu e da terra. Ninguém atinava para o fato de que, antes que
São Pedro ou a “mãe de Deus” viessem ao mundo, quem mandava chuva?
Quem fazia chover? E assim Deus era privado do louvor daquelas bênçãos
que promanam unicamente dele como o onipotente Criador e Mantenedor de
todas as coisas, e não dos anjos ou dos santos que são meras criaturas. E
assim as criaturas são glorificadas no lugar do Criador, contrariando todo o
ensino da Santa Escritura.
A Bíblia afirma que essa blasfêmia é imperdoável. Lemos no profeta
Isaías que Deus não permite que sua glória seja dada ou atribuída a outrem, a
saber, a uma criatura (Is 42.8). No entanto, sem o Santo Livro aberto e lido
não é possível discernir estas grandes verdades a fim de espantar as trevas da
ignorância. Minha alma exulta quando me vem à mente aquele dia em que
comecei a ler e a conhecer a Santa Escritura e bani de vez as superstições
pagãs de minha vida.
Por exemplo, gostava de ver os religiosos traquejados desfiarem o
rosário. Iam passando as contas e rezando “padre” nosso, Ave Maria, Salve
Rainha etc. Achava admirável ver a habilidade desses religiosos que repetem
essas coisas como papagaio. Sem o conhecimento da Santa Bíblia, eu não
tinha a menor noção se aquilo era de fato legítimo na religião de Jesus. Eu
cria que sim. Somente quando vim a conhecer a revelação divina nos
patriarcas, nos profetas e nos apóstolos é que cheguei à conclusão da
brutalidade desse costume inserido numa religião que é tida como a única e
verdadeira Igreja de nosso Senhor. Então tentei visualizar os apóstolos
desfiando o rosário, passando cada conta e rezando “Padre” nosso, Ave
Maria, Salve Rainha. Só de pensar causa estupor. As orações deles eram
simplesmente feitas ao Deus Eterno em nome do Senhor Jesus. Foi assim que
o povo de Deus aprendeu dos patriarcas e dos profetas. Sobretudo do próprio
nosso Senhor.
Quando os apóstolos sentiram a necessidade de orar corretamente,
pediram e o Senhor atendeu, passando-lhes um modelo de oração simples e
de extrema beleza e exatidão. Sem mistura, sem sequer um laivo de
superstição, aprenderam simplesmente a dizer: “Pai nosso que estás no céu”
etc. Que crime medonho mesclar aquela tão bela oração com a invenção dos
homens sem escrúpulos. Mais ainda: “os romanistas rezam “Padre” nosso,
mantendo a forma latina da palavra Pai, com o intuito de manter seu povo
impressionado com esta forma da palavra para assim a identificarem com os
ministros da religião romana com o fim de atrair para si mais misticismo e
autoridade. A palavra para nós, brasileiros, não é “Padre”, e sim Pai. No dizer
de Paulo: “Abba, Pai!”, isto é, “Papai ou Paizinho”. Isso revela a origem da
religião romana; a cristã é totalmente diferente.
Em certo velório, para surpresa minha, os filhos do pai falecido
solicitaram-me que abrisse a Santa Bíblia, lesse, falasse e, por fim, orasse.
Com muito tato, terminei solicitando a todos que me acompanhassem na
repetição do Pai nosso. Ao terminar, ouviu-se uma voz afetada pela
indignação, quase aos gritos, rezando a Ave Maria. Para aquela mulher, em
sua plena ignorância da Santa Bíblia e com os vícios pagãos do romanismo,
terminar aquele momento só com o Pai nosso ensinado por Jesus era
revoltante. Sem saber, ela praticava ali uma das invenções pagãs mais
revoltantes do romanismo. Passando os olhos de raspão, vi algumas mulheres
desfiando cada uma seu rosário. Com isso, sem o saber, estavam desprezando
a Palavra de Deus lida e explicada e a própria oração que Jesus ensinou aos
discípulos e, extensivamente, a todos nós.
Sem tecer muito comentário acerca da “semana santa”, cuja prática do
povo, principalmente naquela época, estarrece até mesmo àquele que possui
um elementar conhecimento da Santa Bíblia, vou apenas mencionar o trivial.
Em minha infância, na “sexta feira da paixão” não se banhava, não se cortava
unha, não se penteavam os cabelos, não se varria a casa, não se ordenhavam
as vacas, pois a crença era que, em vez de leite, saía sangue das tetas das
vacas; não se podia assoviar, muito menos cantar as canções da época; não se
podia matar sequer uma pulga. Sem falar de comer carne, pois nem se podia
imaginar tal monstruosidade. Todos tinham que comparecer à procissão do
“Senhor Morto”. Os mais carolas exibiam todos os tipos de mortificações ou
flagelações, inclusive percorrer longa distância se arrastando de joelhos.
Aquelas procissões constituíam um verdadeiro teatro.
A igreja romana manteve o povo nessa cegueira por séculos e mais
séculos, até hoje. E, assim, aquele não era um “dia santo”, e sim um dia de
tortura, pois ninguém sabia ao certo que “lei de Deus” estaria transgredindo.
Ninguém sabia que aquela não era a lei de Deus, e sim uma tradição romana.
Mas, o que mais afetava o povo era a espera do “sábado de aleluia”.
Aliás, toda a sexta feira santa transcorria como se fosse um pesadelo. Era um
período pesado demais! O que todos queriam mesmo era aquele sábado em
que se queimava o “Judas”. Fazia-se um boneco ao qual davam o nome de
“Judas”. Fazia-se uma grande fogueira em torno daquele boneco e festejava-
se em torno dele com instrumentos e danças, com gritos e xingamentos contra
a pobre figura que nem mesmo podia responder. Era uma turba em algazarra
que outra coisa não era senão “Judas”, pois não possuíam o verdadeiro Jesus
que salva, e por isso seguiam em frente como o Judas da história que se foi e
se perdeu para sempre. Ao queimarem o “Judas”, queriam dizer que jamais
teriam vendido o Senhor Jesus. É preciso uma ignorância muito intensa para
chegar-se a tal conclusão.
Ninguém aprendia que, na verdadeira história, Judas foi uma figura que
arranca do leitor do Santo Livro comiseração e não folguedo. Nossa vontade
é de saltar aquelas páginas que falam dele. E por quê? Porque cada um de nós
tem um pouco do Judas bíblico que traiu e vendeu nosso Senhor.
Quando passei a ler a Santa Bíblia e cheguei a essas páginas, qual não
foi meu susto! Então percebi em que oceano de cegueira e iniquidade os
religiosos são mantidos pela Igreja de Roma — e eu era um deles! Em vez de
lerem o Santo Livro, de se quebrantarem, de se penitenciarem genuinamente,
de buscarem o perdão divino, seguem em frente em sua ignorância,
praticando aquelas tradições com suas aberrações que não levam a nenhum
conhecimento cristão que edifica a alma.

3.1. Pouca noção de Deus e nenhuma da Bíblia

No entanto, esse foi o substrato religioso que eu e toda a família


recebemos desde a infância. Não tínhamos nenhum conhecimento consistente
de Deus e de sua religião na Bíblia. Na verdade, era tudo muito nebuloso e
sem explicação. Estritamente falando, ninguém orava, apenas repetia, como
papagaio, as rezas que haviam aprendido sem qualquer discernimento, só
porque essa era a “tradição” da igreja; só porque todos faziam as mesmas
coisas. Se uma prática é antiga, então é verdadeira. Nos dias de Jesus, os
judeus também tinham suas tradições, as quais tinham como sendo
verdadeiras por sua antiguidade, e ele as condenou severamente: “E assim
invalidastes a palavra de Deus, por causa de vossa tradição” (Mt 15.6). De
fato, quando depositamos nossa confiança nas tradições humanas, o ensino
do Santo Livro é substituído e destruído.
O homem natural odeia a Palavra de Deus e põe todo seu coração nas
invenções religiosas. O romanismo é sinônimo de “tradição”, e o que o
mantém em pé é essa “tradição”, e não a viva Palavra de Deus. Ela substituiu
a verdadeira Palavra de Deus constante nas páginas do Santo Livro e manteve
somente a tradição, levando o povo a amá-la como sendo a verdade de Deus,
quando não passa de mentira engendrada ao longo dos séculos! Os religiosos
não suportam a Palavra de Deus, pois esta é frontalmente contra as invenções
humanas no campo da religião. E assim não passam de escravos de um
sistema romano de religião.
Aquela era uma genuína miscelânea religiosa. A verdade, propriamente
dita, continuava sepultada nesse amontoado de crença e prática religiosa. O
fanatismo religioso sem o conhecimento racional da verdade é desastroso e
destrutivo. Não é sem motivo que alguém chamou a ignorância de “a mãe da
superstição”. Aquele era o mundo religioso que não deixava nenhuma cultura
realmente cristã na vida do povo. Todos se aferravam a essas crendices,
praticadas todos os anos, e criam que elas eram a plena expressão da verdade
divina. Todos nós íamos para a cama, levantávamos de manhã, labutávamos
o dia inteiro, numa rotina sem fim, sem jamais conhecer e praticar sequer
uma frase do Santo Livro. Os sacerdotes não estimulavam o povo a ler este
Livro maravilhoso. Hoje, pelo menos, distribuem-se porções selecionadas da
Bíblia. É óbvio que não é suficiente, pois eles mantêm o povo fora da Palavra
de Deus em sua totalidade, porém o povo tem o que não tínhamos naquele
tempo.

3.2. Ausência de curiosidade


Desde cedo comecei a indagar por que os religiosos não perguntam se
o que creem é certo ou errado. Não fazem certas perguntas básicas cujas
respostas corrigiriam suas aberrações religiosas. Com o tempo, eu aprenderia
que seu comportamento é oriundo do ensino da igreja romana; a saber, o
“fiel” não precisa indagar sobre nada existente na religião, pois a igreja
romana é infalível; não pode errar; o que ela ensina é a plena verdade.
Quando ela ensina uma coisa, cabe ao “fiel” obedecer sem fazer pergunta se é
certo ou não, pois tudo o que ela ensina é correto. Ela tem a inspiração do
Espírito Santo para ensinar o que quiser; e o que ela quer, isso é compulsório.
A Igreja de Roma chama isso de “fé implícita”, isto é, fé na igreja. Aliás,
aprendem que a curiosidade na esfera da religião é pecaminosa. Quando
alguém se mostra curioso, significa que Satanás está por trás insinuando a
dúvida. Este é um dos artifícios da Igreja de Roma para manter os “fiéis” em
seu redil, cegados e enganados. À luz da Santa Escritura, aprendi que tal
ensino é diabólico, pois barra o religioso de ir direto à fonte — a Santa
Escritura. Basta ler Atos dos Apóstolos 17.10-15, o que fizeram os bereanos
quando ouviram Paulo pregar o evangelho. E o apóstolo não os teve por
desrespeitosos para com sua pregação. Ao contrário, aquelas pessoas foram
tidas por “nobres”. Querer saber e aprender o certo não é blasfemo; pelo
contrário, é nobreza de espírito gerada pelo Espírito de Deus. Blasfemo é
aferrar-se ao erro sem querer aprender o certo.
Esse é um ensino terrível perpetrado na e pela igreja romana, pois
elimina da pessoa o interesse em aprender o certo e expurgar os erros
religiosos de sua vida. E assim o religioso segue seu caminho mergulhado nas
trevas espirituais, sem nunca aprender aquela verdade bíblica que a igreja
romana diz possuir, porém não pode dar, porque de fato não a possui e ainda
veta o acesso direto à Santa Escritura. Sim, as porções bíblicas que hoje são
distribuídas com os praticantes da religião são bem selecionadas, cujo intuito
é manter os “fiéis” afastados da inteireza do Santo Livro, pois neste Livro há
doutrinas que esmagam a crença dos meros religiosos. E assim o ensino dos
patriarcas, dos profetas, dos apóstolos, particularmente de nosso Senhor Jesus
Cristo, em sua inteireza, é em grande medida barrado pelas trevas da
ignorância. O Senhor quis tirar-me de lá e guiar-me por um caminho
totalmente diferente e novo: o conhecimento de sua Palavra diretamente da
fonte. Era a divina Providência que guiava meus passos.
4. Primeira menção da Bíblia

4.1. Formação religiosa de Tupaciguara

Tupaciguara, que significa “terra da mãe de Deus”, como até hoje, é


uma cidade que segue estritamente o ensino da Igreja de Roma. Seu templo é
uma verdadeira obra de arte. Depois que nos mudamos para a cidade,
esporadicamente eu frequentava as missas, as quermesses, as procissões, as
quais não me ensinavam praticamente nada de valor realmente espiritual e
perene. A única vez que ouvi e guardei algo durante uma missa foi a leitura
bíblica e explanação que um jovem padre fez da parábola da ovelha perdida.
Minha necessidade espiritual era tão profunda e desértica, que nunca esqueci
até mesmo a aparência e os gestos daquele jovem sacerdote. No entanto, nada
entendi do propósito daquele santo ensino de nosso Senhor, porque nunca
mais ouvi ali uma leitura e explanação como aquela. Toda a missa era feita
em latim. O povo permanecia jejuno da verdade bíblica.
Certa vez, quando menino, ouvi a menção da “Sagrada Escritura” —
“como está escrito na Sagrada Escritura” —, porém não entendi o que a
expressão significava. Repito, minha carência espiritual era tão intensa, que
aquela simples menção jamais saiu de minha mente, ainda quando nada
entendesse e não houvesse nenhuma outra referência a ela e ninguém abrisse
a boca para explicar-me, uma vez que também ninguém o entendia. Fiquei
com a expressão bailando em meu espírito — “Sagrada Escritura”. Por que
Sagrada? Por que Escritura? Se é sagrada, por que ninguém conhecia esse
livro e nem mesmo o via? Por que ninguém o possuía em casa? Na verdade,
na concepção da cúria romana, basta que a igreja possua o santo volume,
fechado como um talismã mágico; ele é tão sagrado, que mesmo fechado
abençoa e espanta os males da casa e das pessoas. Isto constitui uma crassa
superstição. E assim o povo não tem como entender seu conteúdo e continua
possuindo um conceito supersticioso da Bíblia. Ensinava-se que somente os
sacerdotes têm acesso a esse santo conteúdo — e é suficiente. E o povo
aceitasse isso como suficiente.
Tive que conviver com essas indagações até aos dezoito anos, quando
pude ter diante dos olhos e em minhas mãos a “Sagrada Escritura” e lê-la
pessoal e livremente. Mas ela não me foi dada pela Igreja de Roma, que é
sempre tida como a única e verdadeira religião de Jesus Cristo, a única
depositária da verdade eterna, a única que pode, com toda veracidade,
explicar o conteúdo desta “Sagrada Escritura”. Certamente, se eu
permanecesse nela, jamais teria conhecido a plena verdade como conheço
hoje! Portanto, toda a herança espiritual e bíblica que recebi foi fora dos
muros da Igreja de Roma.
Bem mais tarde, quando já me encontrava sozinho, certo crente
mencionou a Sagrada Escritura para condenar-me por ser cantor de música
caipira. Ele me disse: “A Sagrada Escritura diz: Ai dos cantadores e
encantadores”. Até hoje estou à procura deste texto bíblico, e ainda não o
encontrei. Os crentes devem ter o máximo cuidado de não citar erroneamente
algum texto da Sagrada Escritura. Esse descuido gera confusão na mente de
quem ouve. Mas a Providência guiava meus passos.

4.2. Profundo e inerente senso religioso

Vale dizer ainda que eu sempre tive acentuado senso religioso. Havia
na religião coisas que me assustavam; mas é como se eu quisesse aprofundar-
me nos estudos da religião. No entanto, o tempo passava e eu não conseguia
deparar-me com algo direto e consistente no campo de alguma religião. De
muitos ouvia coisas que para mim nunca se tornavam concretas e reais e não
me satisfaziam plenamente.
Era como aquela ciganinha criada por uma família não cigana, a qual
subia a uma elevação próxima à casa para olhar ao longe e meditar sobre algo
que ela mesma não conseguia discernir. Pois não sabia que era cigana. Em
seu ser inerente, ela sentia saudade de algo que lhe era totalmente
desconhecido das cognições mentais, mas que lhe era conhecido das
cognições da alma e natureza.
5. Guardado e preparado pelo Espírito do Senhor

Mais tarde passei a ponderar sobre o grande mistério de Deus não ter
pressa que alguns aprendam logo a verdade de sua revelação. A pergunta: Por
que Deus demorou tanto? Resposta: É porque “tudo tem o seu tempo
determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Ec 3.1). Nesse
ínterim, ele me poupava de cultivar ou de devotar-me a uma religião humana
qualquer, que não proviesse de sua ação direta e de seus eternos propósitos.
Daí, até então eu não aderira a nenhuma seita religiosa. Todavia, ele não
permitiu que eu continuasse na obscuridade e ignorância de seu Ser e de sua
Verdade revelada.
Outro detalhe importantíssimo: quando me deparei com a verdade
divina, não procrastinei por causa de minhas crenças anteriores, como muitos
fazem, me apegando teimosamente às crenças de meus pais e às tradições da
Igreja de Roma. Creio que desde a infância ele me preparava e também
preparava o solo de meu futuro para desenvolver em mim algo consistente e
perene. Digamos que tudo me encaminhava para a realização de algo muito
grande, mas eu teria, antes de tudo, que decidir sobre algo supremo. E que
algo grande seria esse? Ser o tradutor de obras teológicas de cunho
reformado, principalmente as do Reformador João Calvino. E que algo
supremo seria esse? Conhecê-lo como ele é na revelação divina; conhecê-lo
na salvação pessoal e no serviço a ele prestado. No entanto, nesse tempo eu
não tinha e nem poderia ter a menor noção dessas duas coisas.

5.1. Preparação para a vida

O adágio, “ninguém nasce feito”, certamente é o produto da


ponderação dos antigos. Usando um exemplo, Moisés viveu 40 anos no
palácio de Faraó, mais 40 anos no deserto como pastor dos rebanhos de seu
sogro Jetro, antes de assumir, por mais 40 anos, o pastoreio do povo de Israel
pelo deserto até as proximidades da Terra Prometida.
Jesus chamou homens que o acompanhassem por três anos como seus
alunos; depois disso tiveram que ser revestidos pelo poder e sabedoria do
Espírito Santo, antes de saírem pelo mundo anunciando o evangelho e as
doutrinas do divino Mestre e arrebanhando outros alunos. Eles mesmos
tiveram em sua escola alunos que aprendessem os profundos mistérios da
religião de Jesus.
Saulo de Tarso teve que frequentar o seminário do deserto da Arábia,
antes de ser o grande Apóstolo dos gentios (Gl 1.17, 18). Aquele que se diz
chamado e sai logo para a realização de algo no reino de Cristo, sem o devido
amadurecimento, não passa de leviano e equivocado. É outra voz que o
chama, e não a do sapientíssimo Espírito do Senhor.

5.2. Separado para uma obra especial

Outro detalhe de muita relevância foi o fato de que, quando a verdade


veio ao meu encontro e entranhou mente e coração, saturando minha alma, eu
não tive ninguém que contestasse a reversão de meu novo caminho. Enfrentei
críticas esparsas. Não estava na companhia de alguém que porventura
alegasse e dissesse, com autoridade, que eu não devia fazer aquilo. Isto é, eu
não tinha em meu caminho nenhum empecilho que obstruísse meus passos
rumo ao Cristo verdadeiro e à sua eterna Palavra revelada e escrita. É óbvio
que o Espírito do Senhor pode remover qualquer obstáculo imediatamente, e
isso às vezes ocorre, como no caso de seus primeiros discípulos; em meu
caso, porém, nada foi imediato; houve a preparação do caminho. A
Providência estava sempre permeando minha trajetória aparente ou
humanamente confusa. Pois as operações divinas costumam ser feitas no
meio das confusões humanas.
6. Fragmentação da família

6.1. Ponto de partida

Para se compreender melhor o que digo, meus pais não conseguiram


continuar juntos. Assim que nos mudamos do campo para a cidade, então
começou também a desastrosa descida morro abaixo rumo ao esfacelamento
irreversível da família. Ele alugou uma casa, nos colocou ali e voltou sozinho
para o campo. Sua vida solitária, distanciada de esposa e filhos, foi
desagregando paulatinamente também os laços e afetos familiais. A princípio,
ele abastecia a casa; mas, com o passar do tempo, isso foi rareando cada vez
mais, até que já não tínhamos o que comer, pois nenhum de nós tinha ainda
uma profissão certa, definida e rentável. Com isso, houve também a
desagregação dos laços fraternos entre os irmãos, pois os mais velhos foram
saindo de casa, um após o outro, em busca de sustentação e da composição da
própria história. Três saíram de casa e cinco ficaram com a mãe que lutava de
todas as formas para dar aos filhos o pão de cada dia. Estritamente falando, às
vezes nem mesmo o “pão de hoje” nos era dado.

6.2. Empregos e desempregos

Nesse ínterim, eu me sentia à deriva; trabalhei numa frutaria, e o patrão


me despachou para não continuar comendo suas frutas, pois a fome me
forçava a isso. Trabalhei em um mercado, cujo proprietário também me
despachou quando me apanhou enfiando a mão na gaveta do dinheiro.
Foi então que um colega que trabalhava numa ferraria me aconselhou
que procurasse o proprietário e lhe pedisse emprego. E assim passei a
trabalhar naquela oficina onde aprendi o ofício de ferreiro. Trabalhei ali
durante cerca de seis anos. Ganhava muito pouco. De vez em quando
chegava em casa e não encontrava nada para comer. Voltava para a oficina de
estômago vazio, acabrunhado e sem esperança. Às vezes um colega ou outro
me dava alguma coisa para comer. Então, foi nesse tempo que meu pai veio à
nossa casa para propor à nossa mãe separação definitiva.
7. Dispersão final da família

Esse foi um tempo de desfibramento psicológico e existencial. É


quando um adolescente não consegue ver nada de positivo diante de si.
Então, costuma-se tomar o caminho que conduz à destruição por meio dos
ambientes nocivos, das drogas e tantos outros vícios que corrompem e
destroem toda a natureza. Se bem que tentei o vício da bebida, do tabaco e da
gatunagem. Aliás, eu tive tudo para seguir o caminho da marginalidade e
delinquência. Naquela encruzilhada, eu poderia seguir qualquer das três
direções que jaziam diante de mim. Nunca tive dúvida de que em tal
encruzilhada a mão do Senhor estava me envolvendo de todos os lados para
que não tomasse um rumo irreversível. Ele tinha um propósito para minha
paupérrima vida, e assim torná-la uma vida virtuosa e frutífera no caminho do
bem. Eu era dele, sem que o soubesse. Uma multidão vive assim até
encontrar a definitiva via de salvação. Outra multidão segue em frente e
continua sua via de completo esfacelamento da vida.

7.1. Senso de horror

Quando os dois discutiram e decidiram, à revelia, pela ótica deles,


como viveriam doravante, e o que fazer dos filhos, até hoje me lembro disso
com horror. Uma coisa é que os filhos fiquem com um dos dois; outra é que
não possam ficar com nenhum. E isso se deu com dois dos filhos.
Naquele momento, foi como se minha alma morresse dentro de mim.
Foi o momento mais tenebroso de minha existência terrena. Os três acima de
mim, Maurício, Maurílio e Maria, já viviam suas vidas mais ou menos
independentes; dois, Marcelúcio e Manoel, ficariam com o pai; e Marília, a
caçula, ficaria com a mãe. Era o máximo que podiam fazer.

7.2. O que fazer dos outros dois filhos?

Sim, e os dois filhos do meio — Valter e Marcely? O que fazer deles?


Provavelmente confabularam sobre isso. Marcely era aprendiz do ofício de
sapateiro; e Valter, do ofício de ferreiro. No entanto, nenhum dos dois tinha
subsistência própria e suficiente. Ambos eram componentes da família;
ambos necessitavam do apoio paterno e materno; ambos eram ainda
adolescentes. Como não podíamos viver com o pai nem com a mãe, ele se
ajeitou na cidade e eu fui levado para uma fazenda, à revelia, sem poder
tomar parte na decisão, sem propriamente ser consultado, sem nem mesmo
expressar sua opinião e vontade.
O pai combinou com o fazendeiro e fui deixado ali, sem qualquer
orientação e planejamento; na verdade, sem entender nada. Fui deixado
naquela casa estranha, entre pessoas que não tinham nada a ver comigo,
como um intruso. Nem mesmo éramos conhecidos. Obviamente, nada havia
que contribuísse para dar certo; e realmente não deu certo. Aquele homem,
com razão, sem nenhuma cultura para compreender o garoto, disse a meu pai
que me levasse dali. Mas, para onde? Ele havia encontrado meu ex-patrão na
cidade, informando-lhe que gostaria que eu voltasse. Temerariamente, peguei
minha “trouxa”, tomei um ônibus e voltei para a cidade.
Até hoje me estarreço só em lembrar o que aconteceu na trajetória.
Naquele tempo, criança não pagava passagem. Mesmo adolescente, minha
estatura era pequena para a idade. Entrei e me sentei em uma poltrona da
“jardineira” — designação que naquele tempo se dava a um ônibus de
pequeno porte. Então, veio o cobrador e foi me entregando a passagem.
Estremeci. Disse-lhe que não tinha dinheiro. Então, gritou ao motorista que
parasse o ônibus para eu descer. Estávamos em pleno cerrado. Não se via
nenhuma casa. Tomei minha “trouxa”, levantei-me e me dirigi à porta do
ônibus já estacionado. Nesse ínterim, uma voz masculina ecoou dentro do
veículo. “Um momento! Vocês vão deixar esse menino sozinho na estrada
deserta?” O cobrador respondeu: “Isso é problema dele. Devia ter trazido
dinheiro para pagar a passagem”. Então, aquela voz ecoou pela segunda vez:
“Sigam a viagem, porque eu pago a passagem desse menino, pois me sinto
envergonhado com o ato de vocês”. Olhei pela primeira e única vez aquele
benfeitor, ao qual nem pude dizer “obrigado”, pois estava profundamente
aterrado. Nunca mais eu veria aquele homem.

7.3. De volta à ferraria

Ao chegar à cidade, procurei o dono da oficina de ferraria e pedi que


me deixasse trabalhar ali novamente, e lhe expliquei minha situação. E assim
acertei com ele certo salário. Muito bem, e onde comer e dormir?
Inicialmente, um colega de oficina me levava para tomar refeição em sua
casa, aborrecendo sua bondosa e caridosa mãe. Nesse ínterim, encontrei uma
pensão onde podia pelo menos dormir. Sem dúvida, era impossível que
aquele colega continuasse fazendo aquela caridade perenemente; então passei
a tomar refeição também naquela modesta pensão sem condições de quitar o
valor mensal da hospedagem. Tive que emendar o dia com a noite, com
trabalho extra, a fim de ressarcir a dona da pensão. Como meu salário ainda
não era suficiente para cobrir toda a despesa, meu patrão, informado de
minha situação, sentindo pena de mim, “esticou” meu salário, completando o
que faltava para a despesa da pensão.
Eu haveria de trabalhar naquela oficina mais ou menos de 1954 a 1960.
Residi naquela pensão de 1955 a 1960. Meu patrão era um homem muito
promíscuo e sovina, porém o Senhor vergou seu coração para que usasse de
bondade para comigo. Quantos na história, ainda que péssimas pessoas, o
Senhor moveu e move o coração para estender a mão a alguém que era ou é
alvo dos planos divinos?! A imagem daquele homem ainda está impressa em
minha mente como parte desse misterioso plano. Eu não sabia; tampouco ele!
São as misteriosas veredas da Providência, previamente desconhecidas
daquele que é alvo da misericórdia divina.

7.4. Amigo Zico

Trabalhava duro e imerso numa profunda mágoa existencial e total


desilusão. Meu único amigo era o Zico, vizinho, o qual exercia a mecânica
com o padrasto. Era um moço muito simples, muito religioso; desde garotos
cultivamos amizade, indo eu para sua casa todo fim de semana a fim de
fazermos alguma coisa juntos. Aos domingos, saíamos para os campos, ou
passeando, ou procurando frutas silvestres, ou pescando em algum ribeirão,
ou simplesmente gastando o tempo, pois ele também tinha sua cota de
reclamações da vida, porquanto tinha por pai o padrasto e vivia sua
adolescência destituída da compreensão inclusive no seio da própria família.

7.5. Dupla caipira

Nesse ínterim, resolvemos aprender viola e violão e formar uma dupla


caipira. Nossa voz era boa, bem afinada, ele fazendo a primeira e eu a
segunda voz. E assim fizemos. Ele comprou uma viola muito simples e eu,
um violão, mais simples ainda. Treinamos muito, entoando canções caipiras
da época. Agora tínhamos algo mais concreto para fazer. De sábado para
domingo, fazíamos serenata para algumas moças que conhecíamos e não
tínhamos coragem de declarar nosso místico afeto. Creio que elas nunca
souberam nem ouviam aquelas serenatas. Os seresteiros continuavam no
anonimato, cantando para as estrelas! De vez em quando cantávamos nos
comícios políticos e nos “pagodes” da zona rural. Fazíamos tudo isso de
graça; ninguém pagava nada. Só paramos quando abracei a nova fé.
E assim a casa do Zico se tornou a minha casa, além da pensão. E ele
se tornou meu irmão mais próximo que meus próprios irmãos. Na época, eu
não tinha vivência com nenhum de meus irmãos. A mãe mudou-se, o pai
vivia na zona rural; e os irmãos, cada um lidava com sua cota pessoal de
dificuldades em busca da sobrevivência e de um futuro mais promissor.
Quantas vezes eu tive vontade de encontrar um deles para rirmos ou
chorarmos juntos! Mais tarde aprendi aquele adágio que reza: “Onde o filho
chora e a mãe não vê”. Com toda a certeza, minha mãe também chorava por
lá e eu não via! E eu chorava por cá, e ela nem mesmo ficava sabendo.
Quanto ao pai, raramente o via na cidade; e, quando acontecia de vê-lo, era
muito rápido. Não me lembro de sequer uma vez ele pôr em minhas mãos
algum dinheiro.
8. Encontro dramático

Sentindo muita tristeza e saudades da velha mãe, certo dia eu resolvi


sair às cegas à sua procura e da irmã caçula. Soube que moravam na cidade
goiana chamada Morrinhos. Tomei um ônibus e cheguei lá. Não havia a
mínima referência de endereço. Teria que procurar a esmo. Havia certa
perplexidade e inclusive temeridade, porém forte esperança de que
conseguiria. Uma vez em Morrinhos, teria que fazer duas coisas, e uma delas
me convencia de que iria facilitar minhas buscas.
A primeira etapa era procurar a estação de rádio para noticiar à minha
mãe que eu estava à sua procura. Chegando ali, escrevi a mensagem: “Dona
Joana Rosa, seu filho Valter está à sua procura”. Quando ia pagar o custo da
mensagem, saiu o diretor e me olhou atentamente, e disse: “Eu me lembro de
você; é o Valter filho do senhor Manoel Cota (era o apelido de meu pai onde
era conhecido)”. Meu susto foi tamanho, que nem sabia o que responder.
Estava atônito. Como era possível alguém ali me conhecer? Naquela cidade
eu era totalmente estranho. Quem é você? — perguntei. “Eu sou seu colega
de infância, lá no Boqueirão, filho de fulano de tal. Não se lembra? Eu sou o
Valterly.” Aquilo era demais para meu coração e mente. Sem articular sequer
uma palavra, nos abraçamos com intensa emoção e não consegui sufocar o
pranto. Então lhe expliquei minha presença ali. Foi logo dizendo à moça do
guichê: “Este é meu velho amigo. Ele não paga! E esta mensagem deve ser
transmitida com urgência e repetidamente até que ele encontre sua mãe”. E
me levou para sua sala a fim de conversarmos, pois ele tinha também sua
própria cota de aventura, e queria que eu o ouvisse.
A segunda coisa a fazer era um depósito bancário. Entrei na agência do
Banco do Brasil, fiz a transação e me sentei, porque lá fora caía um pesado
“pé d’água”. Enquanto a chuva descia torrencialmente do céu, sentou-se
junto a mim um senhor de uns cinquenta anos de idade, que me dirigiu a
palavra: “Perdoe-me, moço, sou daqui e conheço quase todas as pessoas;
você me parece estranho. Sem querer ser indiscreto, posso perguntar de onde
você é e o que faz em Morrinhos?”. Quando me encontro só não costumo
falar com estranhos, mas havia naquele homem algo indecifrável que me
encorajava a atender à sua indagação.
Então relatei por alto de onde era e o que viera fazer naquela cidade.
Nenhum dos dois tinha pressa, pois a chuva continuava renitente.
Aprofundamos a conversa, e contei-lhe que minha mãe morava com um
homem que era funcionário de uma empresa de construção de rodovia. Ele
disse que conhecia aquela empresa, e que me levaria lá a fim de encontrar
aquele homem. Cedi à minha natural timidez e entrei em seu carro e lá fomos
nós. Chegando lá e indagando, ele descobriu que minha mãe morava numa
das casas de sua propriedade. Então, perplexo, disse-me emocionado: “Moço,
esta história mexeu comigo; eu o levarei à casa de sua mãe”.
Assim que chegamos à casa, ela vinha atravessando a rua em nossa
direção, saindo da casa de sua amiga vizinha, onde ouvia o rádio e chorava,
lamentando que fazia tanto tempo que não via nenhum de seus filhos.
Enquanto lamentava e chorava para a vizinha, com o rádio ligado, ouvindo
músicas antigas e saudosas, num estalo, se noticiou: “Dona Joana Rosa, seu
filho Valter está na cidade à sua procura”. Atônita, ela saiu correndo para sua
casa e já nos encontrou no meio da rua. A vizinha também veio para conhecer
o misterioso filho que aparecia de uma maneira tão prodigiosa.
E foi assim que, depois de tanto tempo, encontrei minha velha mãe e
minha irmã caçula, Marília, em meio aos milagres da vida. E digo ainda que
narro isto sem exagero, pois tenho que resumir a história para não ocupar
muito espaço. Nuca mais veria aquele misterioso homem, que fora
instrumento da Providência. Só me lembro que ele era empresário,
proprietário de uma cerâmica. Mas posso dizer que nunca mais iria ver uma
pessoa totalmente estranha chorar comigo como se fosse meu velho amigo ou
irmão. Despedimo-nos com ele me afirmando que contaria a história à sua
família e acertaria uns impasses difíceis em sua própria casa. Eu nunca soube
do resultado.

8.1. A mão do Eterno

Hoje, fazendo um retrospecto, percebo que o Deus eterno abençoava a


mim e a meus irmãos. Apesar de tantas peripécias, nenhum de nós mergulhou
nos vícios destrutivos deste mundo tenebroso. Todos buscaram viver e vencer
as dificuldades no exercício de sua profissão. Um de um modo, o outro de
outro, sendo todos abençoados e guardados pelo Onipotente juntamente com
suas famílias. Mui raramente nos encontrávamos. Em nome da verdade, se
nos encontrávamos era porque eu me esforçava para ir ao encontro deles. Eu
procurava estar presente com eles quando alguém se casava, quando alguém
adoecia, quando alguém morria. Misteriosamente, não estive presente na
morte de meu pai e de minha mãe; mas isso se deu por força de circunstância.
Nenhum deles, exceto Marcelúcio, que um dia passou a fazer parte de minha
família e minha fé, me conhecia realmente. Até hoje, eles são perenes
desconhecidos meus e eu um perene desconhecido deles. Alguns deles nunca
entraram e jamais entrarão em minha casa. Nunca conheci seus caminhos,
nem eles os meus.

8.2. Isolamento

Deixo impresso ainda nestas páginas um fator muitíssimo doloroso.


Em razão do afastamento quase completo, todos nós não conseguimos
fomentar ou cultivar amizade e muito menos o amor fraterno. Nunca houve
em nós afeição real de irmão para com irmão, mesmo nos esforçando.
Por exemplo, certa vez minha irmã caçula, Marília, lamentou-me que
não sentia nenhum afeto filial por nosso pai. Ela não tinha consciência da
razão para tal disparidade, pois nunca teve vivência com ele. Ela sempre
vivera com nossa mãe. Significando que ela, na prática, nunca teve um pai
presente. E isso mexia com ela, pois não tinha tal coisa como normal. Ela
queria amar ao nosso pai comum, porém não conseguia. Enquanto falava,
notei nela uma terrível perplexidade.
Encontrar um irmão era pouco mais que encontrar um amigo, e logo
sentia que já não havia assunto nem interesse de continuarmos juntos. Para se
ter uma ideia, quando me casei, nenhum irmão ou irmã, nem pai e nem mãe
estava presente. Com a chegada da nova fé, então, o quadro piorou ainda
mais, pois todos eles me tinham como um religioso que traíra a verdadeira
religião, que abandonara a religião dos pais e dos antepassados. A princípio,
meu pai foi o mais observador. Passou a notar que minha religião não podia
ser ruim. Chegou a falar com alguns dos filhos a respeito. Mas isso foi nos
bastidores; eu só soube bem mais tarde.

8.3. Os desígnios divinos

Hoje, retrocedendo ao tempo, percebo nitidamente que o Senhor me


encaminhava para um universo completamente diferente. Ele me abria uma
porta inesperada e totalmente nova. Esta porta me levaria a caminhar por uma
estrada também nova e grandiosa. Lemos em Provérbios que “o coração do
homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do SENHOR”
(Pv 16.1). Nenhum escolhido escapa à mão diretora do Supremo Criador. Ele
dirige a todos sem exceção, porém conduz os eleitos de um modo totalmente
exclusivo. Ele governa toda a raça humana com mão e propósito soberanos,
porém conduz os eleitos pela mão, até que alcancem sua meta final e não se
percam pelo caminho. Enquanto imaginamos que estamos sozinhos e longe
do Senhor, seus anjos, de diversas maneiras, sempre às suas ordens, estão ao
nosso redor cumprindo seu mando a nosso respeito (Hb 1.14). Mesmo nos
piores momentos, não estamos sozinhos nem longe dele. Não somos nós que
vamos ao seu encontro, pois não saberíamos fazer isso; antes, é ele mesmo
que vem encontrar-se conosco tanto nas estradas aplanadas como nas cheias
de curvas e ásperas.

8.4. “O Senhor é o meu Pastor”

Retrocedendo a um passado já longínquo, nebuloso, meio apagado,


compreendo que ele me conduzia o tempo todo. Ele me preparava o tempo
todo. Ele tinha algo grande e importante para eu fazer, quando eu sequer
tinha a mínima consciência disso. Durante um tempo em que nem mesmo
esperava por ele, ele velava por mim e me conduzia pela mão a fim de tornar-
me maduro para uma grande obra. Todos os percalços que eu enfrentava
vinham dele, como seu aluno em sua divina escola, e ele como meu Supremo
Professor. Como está escrito: “O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará” (Sl
23.1). Ora, nos faltam tantas coisas; como entender esta declaração de fé?
Significa que, tudo quanto nos basta para a sobrevivência, ele no-lo dá, pois,
na realidade, necessitamos apenas de uma coisa: que o Senhor eterno seja o
nosso Deus! E ele era o Deus do salmista. De que mais ele necessitava?
Tendo o Senhor como o nosso Deus, temos tudo! Seu pastoreio é zeloso e
leal. Ele não falha.
SEGUNDA PARTE: DESCOBRINDO O EVANGELHO
Depois de viver naquela pensão cerca de três anos, passei a aceitar
aquela casa como minha própria casa, e cheguei à conclusão de que aquela
pensão seria minha moradia por muito tempo. Quero dizer que esta ideia se
aninhou em minha alma. Às vezes ocorria que no fim do mês eu não tinha o
suficiente para quitar completamente a mensalidade. Às vezes ficava devendo
um pouco; e às vezes a dona da pensão tinha que lembrar-me da dívida. Na
verdade, dona Carmelinda (“Bilinda” para a família) era mui paciente para
comigo. O sustento de sua família dependia daquela hospedaria. Então eu
tinha que fazer uma tarefa extra na oficina para também ganhar um dinheiro
extra. E assim se passaram cerca de cinco anos, de 1956 a 1960. Tudo estava
encaixado em Os caminhos da Providência. E esta Providência me impelia
sempre para frente.
Esses foram anos longos e difíceis. Mas o Senhor tinha minha mão
bem firmada na sua. No momento, porém, eu não via nada de positivo. Não
conhecia o exercício da verdadeira fé e a Providência era um elemento
totalmente estranho em meu viver. Era tudo escuro e indefinido. Mais tarde
aprendi que o Senhor nos guia no escuro sem que o percebamos. Ele está
conosco, porém não o sentimos. Para seus filhos, não existem túneis sem um
filete de luz no final, nem beco sem saída, a menos que eles sejam míopes.
Daí ser impossível que alguém tire a própria vida quando sua mão está segura
na mão divina e confia em sua bendita Providência. Somente um desespero
incontrolável e dolorosa cegueira para com essa Providência levam alguém a
dar cabo da própria vida. Para os filhos de Deus, sempre há um fio de
esperança que acaba sendo seu livramento. Eles não têm razão para se deixar
dominar por um desespero extremo.
1. A providência segue seu curso

1.1. Retrospecto

Mas, recuando um pouco, logo descobri, com muito desgosto, que


aquela família era evangélica. Quase toda a família pertencia a uma pequena
congregação da Igreja Presbiteriana do Brasil, fundada e sustentada pela
missão norte-americana denominada Missão Oeste do Brasil. A metodologia
desta Missão era o uso de evangelistas leigos; homens formados em um
colégio bíblico denominado Instituto Bíblico Eduardo Lane (IBEL); o qual
mantinha um curso bíblico de preparação para esse tipo de ministério
insipiente, porém eficiente, o qual revelou seu valor na implantação e
preparação de novos grupos para que, no futuro, viessem a ser igrejas bem
constituídas. E isso aconteceu em várias partes do país, inclusive comigo
mais tarde.
Nesse tempo, a Missão assumira a responsabilidade daquela
congregação com um missionário sediado na cidade de Ituiutaba, também no
Triângulo Mineiro, e um evangelista leigo sediado em Tupaciguara. Não
conheço bem os primórdios daquela igreja. Assim que cresceu e assumiu a
forma constitucional de igreja, então um pastor também assumiu o comando
e a Missão a entregou ao presbitério mais próximo. Em meu tempo, passaram
por aquela congregação quatro evangelistas (se minha memória não me trai):
Armando Bonilha, Francisco Maia, Jair Pires e Waldemar Rose. O primeiro
pastor ordenado a assumir aquela igreja foi o Rev. Abel Corte. Mas isso
aconteceu quando eu já não estava ali.
Portanto, creio que o Evangelista Armando Bonilha foi o primeiro
deles. Era um homem realmente evangelista e mais pastor do que muitos
pastores. Tão zeloso era, que bem cedinho batia à porta dos membros da
igreja para uma visita com cafezinho, oração e leitura da Santa Escritura. Era
um homem expansivo, brincalhão e muito simples. Tanto que chegava às
raias do exagero. Não o conheci bem durante aquele tempo, pois quando me
ingressei na igreja ele já havia saído, e fora substituído pelo evangelista
recém-formado no IBEL, Francisco Maia, natural de Ituiutaba, cidade vizinha
de Tupaciguara.
No entanto, de vez em quando eu via o vulto de Armando Bonilha
entrando naquela pensão para sua visitação rotineira. Assim que o via, eu saía
pelos fundos e só voltava depois de calcular bem que ele já havia ido embora.
Tão profunda era minha timidez e aversão por qualquer religião que não
fosse a católico-romana. Digo isso para que ninguém conclua que o que eu
fizera, mudando de religião, foi um impensado ato de leviandade ou de
interesse escuso. De tal modo que nunca o encontrei em nenhuma de suas
visitas àquela pensão. Só o conheci e me relacionei com ele bem mais tarde,
quando das reuniões anuais da Missão, e isso depois que eu também já era
evangelista.

1.2. Encontro “fortuito” com dois livrinhos

Certo domingo, os dois filhos da proprietária da pensão chegaram da


igreja com dois livrinhos, os quais me entregaram para que eu os lesse — o
Evangelho de São João e o Evangelho de São Marcos — era o que se lia nas
capas. Não me lembro precisamente como, mas desde criança eu aprendera
que havia certa “reza braba” que os benzedores usavam — assim diziam —
chamada “Oração de São Marques”. Evidentemente, essa reza não fora
extraída de São Marcos, o segundo Evangelho canônico que compõe os
quatro Evangelhos que abrem o Novo Testamento, mas eu ainda não tinha tal
conhecimento; e assim misturei os dois “santos” e senti medo daqueles dois
livrinhos. Imaginei que poderiam ser livros de feitiçaria ou coisa parecida,
muito embora desde criança eu vivesse envolvido com essas coisas religiosas.
Aqueles meninos nunca souberam, mas às escondidas joguei fora os dois
livrinhos sem ler sequer uma vírgula em seu interior, nem mesmo os
folheando; só li o que constava na capa.
Mais tarde compreendi que quem distribui alguma literatura bíblica
precisa cultivar muita paciência e habilidade ao passar o evangelho às mãos
das pessoas que vivem em profunda superstição e pertencem a uma religião
que não ensina a verdade divina, retendo o povo na ignorância. O fanatismo
religioso cega os olhos da alma dos incrédulos, mantendo-os na escuridão.

1.3. A paciência e persistência divinas

O fato doloroso é que continuei na ignorância da Palavra de Deus, pois


ainda não havia chegado o tempo. Segui em frente sem imaginar, nem de
leve, que meu “destino” era justamente aquele — aprender e ensinar o
conteúdo dos Evangelhos. Na verdade, o que aqueles meninos fizeram não
foi em vão. Com seu gesto, eles deixaram em minha alma uma marca
indelevelmente impressa em minha consciência. Mais tarde eu tomaria posse
do conteúdo de São Marcos e São João e os ensinaria com largueza a
milhares de pessoas. Desde cedo compreendi o quanto Deus é paciente para
com seus eleitos ainda perdidos, aqueles que na eternidade foram destinados
à salvação eterna, cujos nomes já estão escritos no Livro da Vida, mas que,
no curso do tempo, continuam ainda nas densas trevas da ignorância e
perdição. Já são candidatos à glória eterna, porém não o sabem e inclusive
relutam por algum tempo em aceitar. Para quem conheceu de antemão Saulo
de Tarso, era impossível prever que ele já fosse um predestinado de Deus
para a glória eterna e para tornar o cristianismo mui glorioso sobre a terra e,
assim, glorificar o Nome de Jesus Cristo. Naquele tempo, se alguém
profetizasse que eu viria a ser um servo de Cristo, eu gritaria que tal coisa
jamais aconteceria.

1.4. Perseguição

Como aconteceu nos primeiros dias do cristianismo, quando o mundo


inventava todo tipo de conceito absurdo acerca dos cristãos primitivos, assim
também um dos recursos diabólicos da religião subjacente, nos dias de minha
juventude, era que os crentes evangélicos são seguidores do diabo; por isso e
por outras razões, eu fomentava em meu íntimo profunda aversão pelos
“crentes”; melhor, eu nutria profunda aversão pela religião deles. Foi-me
ensinado diretamente, com todas as letras, por minha família, meus amigos e
pela Igreja de Roma, que ficasse longe dessa praga maldita. Aprendi que não
existe religião verdadeira fora da Igreja de Roma. De vez em quando chegava
às minhas mãos folheto difamando e caluniando os “protestantes” (assim
então conhecidos). Os sacerdotes escreviam coisas horríveis sobre os
“protestantes” para manter seus paroquianos longe da verdade cristalina da
Santa Bíblia. Sempre encontrei alguém que afirmasse de uma maneira
contundente que a única religião verdadeira, que existia, existe e existirá para
sempre, séculos após séculos, é a Igreja Católica Apostólica Romana. Não
importa se você sabe muito ou nada de religião; o que importa é que você
creia na Igreja Romana e lha obedeça como nossa mãe, porquanto ela é nossa
única mãe espiritual. Aprendi ainda que fora dela é impossível que alguém
encontre a salvação.
Pior, aqueles que me falavam essas coisas eram pessoas perdidas em
densas trevas, que não tinham nada de verdadeiro para me ensinar. Eram
pessoas que nada sabiam do Jesus Cristo dos Evangelhos. O Cristo que
conheciam era o do crucifixo, eternamente pendente da cruz. Era como o
Cristo do Corcovado, eternamente de braços abertos, porém sem ser outra
coisa além de um bloco inerte de pedra. O Cristo vivo, proclamado pelos
apóstolos e depois pela Igreja Primitiva, lido nas páginas da Santa Bíblia, era
um perene desconhecido, como o Deus anunciado por Paulo em Atenas: “O
Deus Desconhecido” (At 17.23). Esse mesmo Deus continua sendo
desconhecido em todo o Brasil. Infelizmente, nossa pátria é pagã, com pouca
exceção. Não é a maioria que segue a Igreja de Roma, e sim a minoria.

1.5. O doloroso efeito da superstição

Eu ainda não havia tomado ciência da verdade de Deus contida na


Santa Escritura. Só mais tarde é que penetrou em minha mente a luz do
Espírito Santo. Eu não sabia que a superstição destrói qualquer conhecimento
da revelação escrita de Deus. Ela é inimiga da verdade divina. Não havia
atinado ainda que o romanismo é sinônimo de superstição e de adulteração da
religião de nosso Senhor Jesus Cristo. Para o romanismo, a religião de Jesus
Cristo, em sua pureza, não representa a verdade revelada de Deus na Santa
Escritura e em Jesus Cristo; para ele, esta não é a religião pura de nosso
Senhor. Para ele, a religião de Jesus é a Igreja Católica Apostólica Romana e
suas tradições; ponto final.
Ao longo dos séculos, o romanismo foi perdendo a herança da verdade.
O que inventou no campo da religião foi aos poucos substituindo a verdade
pura registrada na Santa Escritura. Com o passar dos séculos, ele foi
deixando de ser o cristianismo apostólico. A verdade cristalina é que eu vivia
fugindo da verdade real que liberta, que sara, que ilumina, que guia na vereda
certa e que nos conduz ao Senhor Jesus. Viver em densas trevas espirituais é
viver sem Jesus Cristo, que disse: “Eu sou a luz do mundo”. Ele não disse
“eu sou um dos luzeiros do mundo”; ele usou os artigos definidos a e o: a luz,
o caminho, a verdade, a vida. Ele não disse: Busquem a luz, ou o caminho,
ou a verdade, ou a vida em minha igreja; somente ela pode conceder essas
gloriosas verdades. Mas eu não sabia disso; tampouco a Igreja de Roma me
ensinou isso. Tive que esperar o tempo de Deus para aprender e degustar isso
pessoalmente nas páginas da Santa Escritura.

1.6. Instrumento de Deus

O fato é que vivi naquela pensão sem nunca deixar-me “contaminar”


por outra crença, além do espiritismo e romanismo, estreitamente irmanados,
até o dia em que a irmã da proprietária da pensão, Avelina, me surpreendeu
com o convite para acompanhá-la à sua igreja, pois estava sem companhia e
ela não queria fazer aquele percurso sozinha. No momento, não podia
perceber que ela usava de um artifício sugerido pelo Espírito de Deus para
levar-me ao templo onde ela e sua igreja cultuavam ao Deus vivo.
Aquela moça veio a ser para mim uma irmã que eu não tinha presente.
Na verdade, eu tinha duas. Uma já havia desaparecido há muitos anos; só a
encontrei depois que eu já era estudante de teologia. A outra era bem pequena
e vivia com a mãe. Mais tarde nos encontramos umas poucas vezes. A única
vez que ela e minha mãe entraram em minha casa foi depois que eu já era
obreiro de Deus, já nos campos missionários e já casado. Aliás, alguns de
meus irmãos nunca entraram em minha casa. Sem falar nos sobrinhos, de
minha parte, dentre os quais poucos entraram uma vez e outra em nossa casa.
Portanto, dizer não para a Avelina me parecia uma rematada ingratidão
e descortesia, ainda quando havia aprendido muito pouco destas duas
virtudes. Eu lhe respondi com um sim. Era um sábado à noite; a reunião era
da mocidade da Igreja Presbiteriana, pois quase toda aquela família era
presbiteriana. Lembro-me bem que senti muita dificuldade em adentrar
aquele ambiente. Antes de tudo, sempre fui muito tímido — até hoje! Em
segundo lugar, eu não queria entrar ali. Não cria que aquele fosse um
ambiente saudável. Tinha receio de ser mal influenciado e desencaminhado
de minha religião (a qual eu cria ser minha religião!).
Então acompanhei Avelina torcendo para que o templo estivesse
fechado, ou que não comparecesse ninguém, ou que minha amiga resolvesse
voltar no meio do caminho. A Providência iluminava minha vereda; impelia-
me para frente a contragosto. Nem de longe imaginava que aquela seria a
primeira vez e para sempre! Ali estava o que eu procurava, sem saber o que
procurava.
1.7. O primeiro encontro com jovens crentes

A custo entrei ali e me deparei com um salão nos fundos com um bom
número de jovens. Fui apresentado por Avelina. Todos vieram cumprimentar-
me com alegria bem estampada em seus rostos. O embaraço foi
constrangedor, pois todos eram alinhados e eu nem mesmo tinha roupa e
calçados decentes para aquele encontro. Isso se deu em meados de 1958, com
meus dezenove anos de idade. Portanto, o evangelho veio ao meu encontro,
em vez de eu ir ao encontro dele. Ele não ficou à espera de minha reação e
decisão ou de minha iniciativa. Enquanto procurava a verdade, ela veio ao
meu encontro. Esse é sempre o procedimento de Deus, e não podemos mudar
esta ordem. Deixada à sua vontade ou livre-arbítrio, ninguém tem como
preparar-se para abraçar a verdade divina. Foi assim que mais tarde li no
Evangelho de João estas palavras ditas diretamente por nosso Senhor e as
quais abracei como sendo a plena verdade, inclusive para minha experiência
pessoal: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim,
de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37).
Mais: “E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de
todos os que me deu” (Jo 6 .39).
Mais:“Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o
trouxer” (Jo 6.44).
A causa de irmos a ele é a eleição. Somos impelidos a ir a ele pelo
Espírito Santo; a iniciativa não é nossa, é sempre dele. Espiritualmente,
estamos, por natureza, mortos em delitos e pecados (Ef 2.1). Se o Espírito
não nos vivificar primeiro, jamais teremos disposição de ir a ele e abraçar sua
salvação.

1.8. A vontade regenerada

Tudo isto li e aprendi bem mais tarde, quando já consciente da


soberania do Deus que salva a quem quer, onde quer, como quer e quando
quer. Tudo isto se encaixava perfeitamente enquanto a verdade divina se
solidificava em minha alma. Costumo dizer que nasci de novo já “calvinista”;
ou seja, já com aquela convicção e visão da Santa Escritura que Calvino tanto
enfatizou. Aquela experiência foi tal que não conseguiria crer de outra forma.
Daí, a interpretação e abordagem que Calvino fez da Santa Escritura foram de
tal contundência, que dificilmente algum outro conseguiria, em razão de sua
experiência da impossibilidade humana de o pecador, por si só, crer sozinho,
com ou sem o auxílio do Espírito Santo. Para ele, e para tantos outros como
ele, o ato da salvação é soberanamente divino e independe da vontade do
pecador. O pecador não tem como tomar parte nele, porquanto sua vontade
está morta para com Deus. Ele tem a liberdade e vontade de buscar muitas
coisas na esfera terrena, porém é totalmente impotente de querer e poder
salvar-se sozinho sem a intuição e ação do Espírito de Deus. Tudo isso é
muito forte e contrário aos nossos conceitos humanos, mas é a perfeita
interpretação do estado do ser humano antes que sua vontade seja regenerada.
O mesmo Deus que ordenou e tudo foi feito, é o Deus que ordena a salvação
de seus eleitos e a vontade humana não consegue resistir. Creio plenamente
que o Espírito do Senhor é soberano no chamado de pecadores para
abraçarem a salvação. O que suplanta na aceitação do evangelho por
pecadores não é a vontade do homem, e sim a vontade soberana do Eterno
sobre a vontade do homem. Louvo a ele por ser assim, pois, do contrário, eu
jamais teria abraçado o evangelho.
O pecado começou na vontade do homem e partiu daí, a qual foi
espiritualmente morta já no paraíso. O ser humano continua querendo muita
coisa, porém sem querer e poder adquirir por si só a salvação eterna. A
regeneração operada pelo Espírito de Deus também começa e parte da
vontade humana que é transformada para querer o que antes não queria e
poder adquirir o que antes não podia. Aliás, a regeneração espiritual restaura
a vontade humana para escolher corretamente o que não poderia fazê-lo antes
dessa regeneração. Em outras palavras, a imagem divina, implantada no
homem na criação, foi destruída ou danificada pelo pecado. Na regeneração
espiritual, operada pelo Espírito de Deus, essa imagem é restaurada em
conformidade com a imagem do próprio Filho de Deus (Rm 8.29). Aliás, ser
regenerado é justamente ter a imagem outrora deformada, agora transformada
em conformidade com a própria imagem do Filho de Deus.
Cem por cento, o ato de conversão de Saulo de Tarso foi um ato
exclusivamente do Espírito. Ele não tomou parte em sequer um por cento.
Como ele poderia participar do ato de sua própria conversão, se sua fúria
contra os cristãos o impedia de querer tal coisa? Pelo contrário, se o Espírito
não agisse, regenerando-o interior e completamente, ele jamais teria crido,
partindo dele. Seria um rematado equívoco afirmar que o Espírito Santo
violou a vontade de Saulo? Deixado por conta própria, ele teria crido, ou
destruído a religião de Jesus como tanto desejava? Aliás, sua vontade
maligna foi esmagada e transformada para que dali nascesse uma vontade
nova e santa. Somente depois é que ele poderia querer fazer a vontade do
Senhor da Igreja. Antes, ele queria destruir; agora, ele quer construir o que
tanto desejara destruir. E isso sempre pesava em seu espírito: “Porque eu sou
o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo,
pois persegui a igreja de Deus” (1Co 15.9). Que glorioso milagre!
Guardo ainda aquela experiência, a qual chamaria de estranha
experiência. Aquela era uma encruzilhada determinante, de onde teria que
decidir minha vida: se continuaria em frente, ou se tomaria uma decisão para
a qual não haveria volta. Senti que aquele viria a ser meu novo universo
gerado pelo Espírito de Deus. Era impossível retroceder. Tinha que seguir em
frente. Agora, eu queria seguir em frente. Vale dizer que, daquela experiência
em diante, toda aquela gama de superstição que cultivara desde minha
infância foi sendo aos poucos demolida até desaparecer completamente.
Entendo isso como que uma lavagem que o Espírito Santo opera para que o
passado ceda lugar a um agora e doravante. Desde que aceitei o evangelho e
abracei a Cristo tudo foi se encaixando e começou-se uma nova construção e
surgiu daí um novo edifício.

1.9. O terreno estava pronto

Na verdade, eu não tinha absolutamente ninguém a tolher meus passos:


tinha apenas um amigo, o Zico, mas ele não barraria meu caminho; minha
família já não me representava nenhum empecilho, pois nem sequer sabiam
por onde eu andava ou como vivia; se era um santo ou um diabo; se era um
bandido ou um homem bem encaminhado. Aliás, se me tornasse um
marginal, quem poderia censurar meus atos? Fui deixado entregue ao meu
próprio destino. Na verdade, alguém tinha meu destino na palma de sua mão.
Sua providência permeava todo meu viver. É que o tempo ainda não estava
maduro. Então, eu já não tinha, por assim dizer, um cordão umbilical a ligar-
me ao passado. Tinha somente a Providência a guiar meus passos sempre
para frente.
Digo isto porque, daquele momento em diante, não mais queria deixar
de frequentar aquelas reuniões de jovens. Também fui associando-me a
alguns deles de um modo mais pessoal. Entrelacei-me de tal forma com a
família Faria, a família Pereira, que se tornaram como minhas próprias
famílias. Houve um jovem que se interessou por mim e quis ajudar-me a
entender o sentido da nova “religião”. Ele sabia bem pouco, porém sabia
muito mais que eu. Ele me ensinou o abc do manuseio da Bíblia, isto é,
ensinou-me como encontrar com rapidez os livros e as passagens mais vitais
para meus começos. Ele fazia parte da Providência divina.
Certo dia, resolvi ir à escola dominical e ao culto vespertino, pois até
então frequentava somente as reuniões dos jovens. Tudo era muito simples,
mas havia uma ordem e vivacidade que jamais encontrara em qualquer outro
ambiente. Quem entrasse ali via bem de frente um pequeno quadro na parede
com a frase: “Silêncio e oração”. Outro quadro: “Guarda o teu pé quando
entrares na casa de Deus”. E isso era praticado pela igreja. Aquele ambiente
me convidava à meditação e reverência. Inspirava o sossego da alma. Todos
entravam pé ante pé e se sentavam. Se alguém orava em voz alta ou se fazia
uma leitura bíblica, quem entrasse se detinha até que terminasse a oração ou a
leitura. Ouvir a exposição de uma lição bíblica dominical e o sermão no culto
vespertino me fez raciocinar e ver a vida de outra perspectiva. A Providência
divina triunfava.
2. A primeira Bíblia

Ainda não possuía uma Bíblia. Olhava ao redor e via os crentes


manuseando suas bíblias com destreza. Então, desejei ter minha própria
Bíblia. O pastor, Rev. Francisco Maia, costumava ter bíblias disponíveis para
quem quisesse adquirir uma. Eu não tinha dinheiro, mas ele fez questão de
me passar às mãos uma Bíblia e receber o pagamento quando eu pudesse. E
assim a aquisição de minha primeira Bíblia foi à base do “fiado”. Foi assim
que tomei em minhas mãos, pela primeira vez, uma Bíblia que doravante
seria a minha Bíblia. Quando me vi sozinho, eu a abri a esmo, com uma
atitude quase adorativa. Folheava-a, imaginava como seria quando tomasse
posse dela inteiramente. Havia sofreguidão em minha alma. Era muita coisa
para aprender e, depois, ensinar.
Era um ponto de partida absolutamente zero. Deus sequer pôs em
minhas mãos dinheiro para começar minha nova vida! Nem mesmo me
lembro como quitei a dívida. Só tenho certeza de que a quitei, e com certeza
foi à base de sacrifício financeiro, pois do salário mensal não me sobrava
quase nada. Mas a Providência agia nos bastidores.

2.1. Ponto de partida zero

É difícil imaginar um começo mais humilde que esse. Razão por que
desde então passei a considerar o reino de Deus como absolutamente gracioso
e misericordioso. Tudo quanto fizermos nele ainda é pouco diante da
incomensurabilidade da misericórdia de Deus. Ele não quer que ninguém se
ufane de algo! Nunca consegui visualizar algo em mim de que pudesse me
vangloriar, e me causa estranheza que haja pessoas que se vangloriam de
tanta coisa. Atribuo tudo quanto sou e tenho como vindo absolutamente de
Deus, como a única fonte dos bens temporais e eternos. Desde cedo aprendi
que tudo quanto eu viesse a ser ou a fazer seria pela mera mercê de Deus.
Portanto, eu nasci de novo já “calvinista”, pois foi assim que ensinou o
Reformador João Calvino, em cuja companhia eu viveria até o fim da vida
terrena anos depois.
Minha vida foi tomada nas mãos do Eterno para ser um vaso de barro,
moldado por ele, trincado, sim, e arranhado, mas que, por intermédio dele
mesmo, ele fosse o único glorificado. Nada mais importava e importa! E digo
mais: ainda hoje eu nutro o mesmo sentimento, ainda que mais intensificado,
pois considero minha vida atual como que destituída do amparo humano; sem
prestígio, sem muitas amizades, sem um púlpito donde ensinar as sãs
doutrinas; vagando de uma igreja a outra, sigo minha peregrinação
praticamente sem nada! Mas a Providência continua agindo.

2.2. O conhecimento da Bíblia produz profunda tensão

O fato é que aquela primeira Bíblia me trouxe uma profunda tensão de


ansiedade e expectativa. Ansiedade, porque não sabia manuseá-la;
expectativa, porque via os jovens treinando seu uso da Bíblia com uma
desenvoltura que eu estava longe de adquirir, mas que queria chegar lá. Em
suas reuniões, havia o momento de perguntas e respostas. Por exemplo, qual
é o menor capítulo da Bíblia? Qual o maior ou o menor versículo? Quantos
capítulos tem o livro de Isaías? Quantos livros tem o Antigo Testamento? E o
Novo? Eu sentia uma dolorosa ansiedade, porque não os acompanhava;
sentia uma ansiosa expectativa, porque não desistia de esperar o dia em que
me igualasse a eles. Sinto-me estarrecido vendo e ouvindo os crentes
modernos afirmando que não leem muito sua Bíblia por ser um livro extenso
e complexo demais e lhes falta tempo. Naquele tempo, os crentes amavam e
liam a Bíblia, e por isso tinham tempo para ela; hoje, os crentes não amam a
Bíblia, por isso não a leem para tomar posse dela. Todavia, eles sempre têm
alguma desculpa covarde e culposa em defesa de sua negligência.
Certo dia alguém me abordou durante o estudo bíblico, perguntando
por que o Deus eterno mandou escrever somente este livro — a Bíblia.
Perguntou ainda por que o Senhor não nos deu informações mais extensas e
detalhadas. Então lhe perguntei: Meu jovem, quantas vezes você já leu esta
sua Bíblia, que ora se encontra em suas mãos? Não respondeu de imediato.
Fiquei esperando a resposta. Então, respondeu honestamente: “Nem uma vez
completa”. Por minha vez, lhe perguntei: Você está reclamando do quê, meu
jovem, se não leu nem esse pouco que o Senhor lhe deu para ler? Houve um
silêncio desconcertante. O doloroso fato é que os cristãos modernos têm
tempo para tudo do que gostam, menos para o Livro do Senhor, porque não o
amam o suficiente.
2.3. Professor do abc bíblico

Aqui, volto àquele amigo já citado. Ele exerceu importante papel em


meu rudimentar início. Com paciência, ajudava-me a achar os textos mais
belos, a memorizá-los, a encontrar novos. Foi ele quem me ensinou a usar
uma régua e uma caneta fina para sublinhar esses textos. Esse hábito me
ajudava, nos lapsos da memória, a situar os livros, até que aos poucos eu
pudesse mentalizar onde encontrar cada um deles. Quando terminava meu dia
de suado trabalho na oficina, refugiava-me em meu quarto da pensão e ali
abria minha Bíblia, folheando-a, repetindo mentalmente ou vocalmente os
nomes dos livros. Era ali que ia memorizando os versículos prediletos até tê-
los na ponta da língua. Por exemplo, jamais poderia esquecer onde se
encontrava o versículo: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz
para o meu caminho” (Sl 119.105). “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia
nele, e o mais ele fará” (Sl 37.5). “Vinde a mim todos os que estais cansados
e sobrecarregados e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). “Eu sou o caminho, e a
verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Para
qualquer membro veterano da igreja, esses textos já não exercem tanto
impacto quanto exerceram em meu mundo espiritualmente árido. À medida
que esses textos foram aumentando em número e os repetia sem cessar, as
ideias contidas neles foram se entranhando em minha mente, coração e alma.
Até meu corpo experimentava suas benéficas influências, pois sentia que ia-
me tornando mais sereno e confiante, situando-me no universo de Deus e
conscientizando-me de que eu era dele. Uma das ideias mais diabólicas que
ouvi logo no início de meu convívio com a Bíblia foi esta: “Ler muito a
Bíblia deixa a pessoa louca”. Tal blasfêmia me abominava. Ao contrário, a
verdade é que quanto mais lemos a Santa Bíblia nossa alma cresce em
serenidade e paulatinamente nos tornamos mais sábios e confiantes. O fato é
que Satanás tentava todos os meios para me dissuadir de tomar posse do
Livro de Deus. Mas a Providência divina cuidava de mim.

2.4. O hábito de frequentar o templo

Aquela primeira Bíblia foi o ponto de partida para algo muito grande,
algo que nem de longe conseguia imaginar a dimensão. Às quartas feiras
tomava minha Bíblia nas mãos e seguia rumo ao templo para o estudo bíblico
com o Rev. Francisco Maia. Naquele tempo, não tive um curso sistematizado
de doutrina ou de discipulado, comumente chamado catecúmeno. Não me
lembro de haver naquela igreja uma classe de catecúmenos, que é de extrema
necessidade. A diferença da catequese da igreja romana é que esta é
ministrada para ensinar o sistema católico-romano de religião; a nossa visa a
ensinar o conteúdo da Santa Escritura. No domingo, de manhã e à noite, de
novo tomava minha Bíblia e entrava no templo para cultivar mais
conhecimento prático. De manhã era a Escola Dominical e à noite era o culto
de adoração.

2.5. Conhecimento elementar e deficitário

Aliás, que o leitor atente bem que em minha trajetória nunca obtive
nenhum conhecimento sistematizado. Tudo girou em torno do ensino auto-
adquirido. Nunca tive um começo doutrinário segundo as normas de ingresso
à membresia de uma igreja local. Nunca tive cultura secular de alto nível, ou
seja, cultura acadêmica. Nunca tive acesso a um seminário de nível
acadêmico na qualidade de aluno. Nunca fiz um curso de música. Nunca fiz
um curso de datilografia. Nunca fiz um curso de línguas; portanto, nunca fiz
um curso de tradução. Resumindo, nunca tive cultura teológica nem
“experiência acadêmica”. Passei a fazer tudo isso sozinho: meu gabinete
pastoral (a que chamo de “oficina”) passou a ser meu seminário. Foi ali que
aprendi meu próprio idioma, inglês e espanhol; foi ali que aprendi teologia;
foi ali que aprendi música em um instrumento presenteado; foi ali que
aprendi datilografia numa máquina que comprei a duras penas; foi ali que
aprendi tradução. Minha “oficina” veio a ser minha universidade. Sou
autodidata em tudo. Sinto pesar, porém não vergonha. Quisera ser doutor em
diversas ciências, principalmente em teologia. Por isso vivo entre muitos
doutores mesmo sem ser um deles.
É difícil imaginar um doutor em tradução que tenha traduzido mais
livros que eu, um mero autodidata. Em minha ótica, tudo isso é muito
estranho; é novelesco e inclusive milagroso. Quanto mais tento entender o
que o Senhor fez comigo e de mim, mais penetro em um universo
fantasmagórico. Eu lutei com todas as forças por isso? Na verdade, não. Veio
naturalmente, sem que eu forçasse nenhuma porta. Creio que foi consequente
de uma determinação em aprender a Santa Bíblia e tudo em torno dela, como
tanto desejei em meus humildes começos. Na verdade, nunca me imaginei no
ponto em que cheguei. Nunca me vi envolto por uma nuvem de tanta
realização. Mas a Providência guiava meus passos.

2.6. As honras humanas são terrenas

Uso esta frase, “experiência acadêmica” entre aspas de propósito, pois


este “estigma” me perseguiria a vida inteira: o homem que realiza uma
grande obra literária, porém não tem “experiência acadêmica”; isto é, um
homem sem o devido preparo e que faz uma coisa própria de “gente grande”;
portanto, esse homem jamais pode ser condecorado com algum título
honorífico, nem visualizado como um entre os “grandes” e olhado de viés.
Sempre me esbarrei nesse obstáculo que me impediria de receber alguma
honra elevada. Por quê? Porque tudo indica que o Senhor me quer assim: que
termine minha peregrinação sem as honrarias humanas, para aprender a
depender dele e a ser honrado somente por ele, porquanto esta é a honra de
todas as honras. As honras humanas são entremeadas de hipocrisia. Daí eu
aceitar isso sem tergiversar e sem rancor, pois meus olhos estão postos na
Providência divina.
3. Primeira revista dominical

Foi nesse período que recebi pela primeira vez uma revista de estudo
bíblico usada na Escola Dominical. Recebi aquela revista com um senso
místico. Tudo era muito novo para meu espírito. Nunca vira antes algo
semelhante. Eram periódicos trimestrais. Minha cultura era muito elementar
para absorver as lições. Havia tarefas que não conseguia assimilar. Fui
aprendendo aos poucos com a participação dos jovens da igreja com quem eu
tinha convivência constante.

3.1. Papel primordial da família Faria

Depois da jovem Avelina, a Elza Faria foi minha amiga mais de perto e
mais constante. Andávamos juntos, quer visitando pessoas interessadas em
nossa fé, ou os próprios membros da igreja. Elza era um esteio naquela igreja,
e mais tarde eu soube que ela continuou assim numa das igrejas de
Uberlândia. Aliás, sua mãe passou a ser minha mãe. Dona Olga teve uma
fulminante experiência de conversão antes da minha. Como gostava de
assentar-me com ela para ouvi-la contar suas histórias! Ela nutria uma sólida
convicção cristã. Amava a igreja. Amava e lia sem cessar sua Bíblia surrada.
Então, aquela casa veio a ser também minha casa e minha família. Ela e Elza
me ajudaram muito a compreender melhor as coisas da igreja. Havia outros
membros da família, por exemplo, a Selma, a Dijanira, o Sílvio, e outra irmã
cujo nome já não recordo bem, mas esses não me eram tão achegados.

3.2. Primeira lição

Conservo ainda algumas daquelas revistas: Revista do Curso Popular


de 1959, primeiro semestre, lição 1: Deus, o Criador. Soletrando, fui aos
poucos dominando as ideias contidas nessas revistas. Ao longo do tempo,
mandei encadernar aqueles preciosos periódicos. Hoje, tenho um grande
acervo deles lindamente encadernados e completos. Mal sabia que um dia eu
também faria parte na produção desses periódicos. Mas isso foi muito depois.
Naquele tempo, era algo impossível de se imaginar; era absurdo até mesmo
visualizar a não ser pelo prisma da Providência divina.
4. Cultura estagnada

Por falar em soletrar, esse foi um de meus mais dolorosos dramas —


não tinha nem o primário completo. Pior, havia estudado na zona rural.
Quando fomos morar na zona urbana de Tupaciguara, nunca mais frequentei
escola. O pouco que aprendi na zona rural foi quase totalmente tragado pelo
desleixo na cidade. A única literatura que eu lia era gibi ou revista em
quadrinhos. Aliás, nem mesmo tinha qualquer aspiração em direção ao
cultivo intelectual. De que me serviria estudar mais? — pensava. Isso
também fazia parte da Providência divina.

4.1. A igreja como escola

Como costuma acontecer, conheci e conheço muitas pessoas, como eu,


que adquirem boa cultura na igreja, lendo e relendo sua Bíblia, soletrando,
ouvindo os sermões, os estudos bíblicos, observando a bela redação bíblica e
lendo livros e revistas. Então descobri que a religião de Jesus, além da
salvação eterna, traz benefícios múltiplos na esfera social e cultural. A fé
realmente evangélica é imensamente rica. Até alguns analfabetos costumam
dominar o conhecimento geral da Bíblia; outros costumam sair do
analfabetismo e adquirir uma razoável cultura própria e prática. Na Bíblia,
me familiarizei com geografia, história, aritmética, gramática entre outras
ciências. Logo meu estado bruto foi sendo lapidado e burilado, e de repente
até eu mesmo me surpreendia com os avanços. As pessoas de meu
relacionamento não queriam acreditar que fosse eu mesmo. Com muita
economia, cheguei a comprar calçados e roupas mais decentes, e meu visual
externo foi também aos poucos mudando (não mudou mais porque não havia
jeito!).

4.2. Período de imitação

Eu via duas coisas nas pessoas da igreja, principalmente no pastor: o


modo de se vestir e a maneira de falar. Pessoas simples, a maioria pobre, mas
havia uma diferença notável das pessoas de minha convivência diária. A
linguagem era agradável e saudável; não usavam a linguagem indecente que
meus ouvidos se acostumaram a ouvir; falavam com uma fluência que ia
além do meu costume ver e ouvir. O pastor, então, em meu paupérrimo
discernimento, falava sem erro gramatical. Além de aprender a Bíblia com
ele, aprendi também um pouco de gramática. Aquele era um período de
imitação. Até então, eu imitara o que era de má qualidade; doravante, eu
imitaria o que é da melhor qualidade, instrutivo e edificativo.

4.3. Timidez inerente

Tenho ainda que colocar a tônica em minha timidez. Desde menino, eu


me escondia das pessoas estranhas, principalmente do sexo oposto. Até hoje
sinto-me embaraçado na presença do outro sexo, vendo-o como um ser
místico, mais distante. Na igreja, então, meu embaraço era visível.
Assentava-me separado dos outros, em um lugar bem discreto. Levei tempo
para articular a primeira oração pública. Em uma visita com os jovens, um
deles pediu-me que orasse. Senti o chão fugir de debaixo de meus pés; a vista
se ofuscou e a voz não saía. Todos ficaram esperando a oração. O tempo
passava, e então articulei algumas palavras, e os demais disseram amém. Em
seguida, não conseguia erguer a cabeça, tal era a frustração e vergonha.
Fiquei horrorizado quando me escalaram para dirigir uma reunião; e mais
horrorizado ainda quando me escalaram para lecionar uma classe infantil. Era
o fim do mundo. A igreja não pode fazer isso. Isso não pode dar certo. Mas
tudo isso fazia parte dos componentes da Providência divina.
5. Quanto aos sonhos futuros

5.1. Estava sendo burilado

Por mais que eu me pusesse a sonhar com algo, era impossível


imaginar mesmo de leve que tipo de futuro me aguardava. Invejava as outras
pessoas que tinham sonhos e ideais; quanto a mim, não tinha nem de leve
uma ideia mais nítida de meu futuro. Desde então, um texto passou a ser
minha meta e me fez compreender um pouco que o Espírito Santo é quem
burila uma pedra bruta até que se torne uma gema útil na composição dos
trabalhadores na Seara do Senhor Jesus. Esse texto se encontra na Primeira
Epístola aos Coríntios 1.26-29.

5.2. Esse é o meu texto predileto

Irmãos, reparai, pois, em vossa vocação; visto que não foram


chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos de nobre
nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo
para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para
envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e
as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a
fim de que ninguém se glorie na presença de Deus.

5.3. Sem motivo para vanglória

Deus determinou consigo não chamar muitos sábios, nem muitos


poderosos, nem muitos nobres. É claro que ele chamou e tem chamado para
servi-lo alguns sábios, alguns nobres e alguns poderosos. Isto consta na
história. Mas esses são apenas exceção à regra. A grande maioria se compõe
de coisas loucas, coisas fracas, coisas humildes, desprezadas e que nem
mesmo têm aparência de ser. E assim ninguém terá motivo justo para se
gloriar, senão na cruz de nosso Senhor (Gl 6.14). Quem faz a diferença é o
Eterno. Eu absorvi isso desde cedo: tudo o que eu sou e tenho, sou e tenho
pela doação graciosa do Eterno. Daí, como me gloriar de ou em alguma coisa
como se sua origem estivesse em mim mesmo? Todo dom vem dele e
devemos doar-lhe tudo em serviço que o glorifique.

5.4. A múltipla função da salvação

Sempre me considerei parte das coisas que nem mesmo são. Isto é, são
zero. Quando faço um retrospecto, vejo que sou o produto do “lixo”, da
“borra”, “matéria repugnante”. Sem dúvida, por conta dos homens, eu jamais
seria chamado para compor o quadro dos mestres da Santa Escritura. Daí,
desde cedo não poderia conhecer outra teologia, senão aquela a que dão o
nome de reformada ou calvinista. A teologia arminiana não se enquadraria
no perfil de um jovem anulado pela pobreza; pela ignorância; pelo
isolamento; pela incredulidade; pela impotência; e pela teimosia de não
querer aquilo que deveria ser exatamente o objeto de minha fé. Quem poria
os olhos em mim para alguma realização nobre, como é o ensino do
evangelho de nosso Senhor? Mas a igreja me recebeu e me deu guarida e me
ajudou a mudar os rumos de minha figura. Aliás, isto não poderia ser de outro
modo, pois o papel da igreja é buscar a salvação não só da alma para a
eternidade feliz, mas também do corpo temporal e transitório. A fé em Cristo
traz mudanças materiais, físicas e na linguagem. A fé em Cristo espanta os
vícios deletérios que são a causa da destruição de pessoas que, de outro
modo, poderiam ser uma bênção para outros.

5.5. Salvação integral

Não aprecio a designação “salvação da alma”, embora figure em nossas


versões portuguesas da Bíblia; pois o dever da igreja é lavar a sujeira e
alimentar os Lázaros da vida terrena, aplicando o sangue de Jesus Cristo,
tanto no corpo como na alma. Haja vista a ressurreição do corpo no último
dia, pois este sozinho não compõe o indivíduo, nem a alma sozinha é
independentemente completa. Hoje, o céu das almas ainda não é aquele céu
eterno e definitivo em que viverá o indivíduo completo após a ressurreição.
Agora, o céu das almas desencarnadas é “o seio de Abraão” e “embaixo do
altar”. Do último dia em diante, ele será “o novo céu e a nova terra”, o lugar
ou estado permanente da pessoa completa. Hoje temos uma situação
transitória tanto do corpo como da alma. Os dois se separam e jazem
separados até o último dia. O corpo jaz inerte no túmulo e em estado de
paulatina putrefação; a alma jaz consciente na presença de Deus em delicioso
repouso (Ec 12.7), porém anseia tomar de novo seu corpo para a vida plena
na eternidade celestial. Não suspiramos por morrer, e sim por viver! Nossa
alma não aspira viver sem seu corpo, mas que este enfim ressuscite para que
seja de novo seu glorioso e eterno recipiente.

5.6. Paradoxo

O que aquele jovem que acabara de se ingressar na igreja, que ainda


continuaria junto de uma bigorna e com um martelo em punho, malhando
ferro; sim, o que aquele jovem teria a ver com a literatura, principalmente a
literatura reformada, e mais particularmente a literatura clássica de João
Calvino? Pelo mero esforço humano, daquele jovem sairia alguma coisa boa?
O texto de Paulo não se enquadra com justeza em meu caso? O Senhor se
apossou de um zero, que sozinho significa nada, para fazer dele uma
multiplicidade, como planejara e determinara na eternidade. É verdade que
continuei e ainda continuo sendo pouco mais que zero, em minha pessoa, em
meu ser intrínseco; mas um dia ele tomaria esse zero e dele produziria algo
mui grandioso que glorificaria seu santo Nome e enalteceria a Igreja do
humilde Nazareno, que a partir de sua ressurreição passou a ser o Senhor da
Glória. Ele faria de mim não um homem glorioso, e sim um servo valioso.
Comigo ninguém aprenderá a exaltar-se, e sim a humilhar-se, porquanto
minha história não possui nada que me torne exaltado. Pois se hoje eu sou
“santo”, “justo” e “íntegro”, isso se deve ao que aconteceu perante o tribunal
divino, perante o qual eu recebi minha justificação naquele que disse no
Gólgota: “Está consumado!”
Desde então, sua justiça veio a ser minha justiça. Eu não tenho justiça
própria, quer no âmbito da caridade, quer no âmbito da equidade. Pois a
justiça que o Eterno exige de mim, para ser válida, é a justiça perfeita, sem
mancha, sem transgressão. Para os salvos pela graça em Cristo, o
cumprimento da lei de Deus não é a causa da salvação, e sim o efeito dessa
gloriosa e gratuita salvação. Ele não cumpre a lei para ser salvo, e sim
porque já está salvo. Ele glorifica a lei de Deus, sim, e com prazer, porém
glorifica acima de tudo a graça divina em Cristo que o salva para sempre. A
lei de Deus é a norma do viver cristão; mas o salvo vive perenemente pela
graça de Deus em Cristo. Quem quiser se justificar pela lei terá perenemente
o senso de estar perdido. Somente quem descansa na graça de Deus em Cristo
é que poderá dizer que está salvo para sempre a fim de obedecer aqui e agora
à santa lei de Deus. É a Graça que nos possibilita o cumprimento da Lei. E o
que falta nesse cumprimento da Lei a Graça supre.

5.7. A mercê que nos sublima

De fato, nossa grandeza não é inerente à nossa própria natureza; ela


está jungida à grandeza de outro. Na realidade, esse outro é toda nossa razão
de termos sido destinados à glória eterna. É um doloroso equívoco imaginar
que o Senhor da Glória veja em um ser humano belezas que o encantem e o
façam escolher-nos para a vida eterna. Segundo essa ideia, não somos nós
que nos sentimos fascinados por ele, e sim ele é que se sente fascinado por
nós. Para muitos, Deus lhes tira seu chapéu. E assim a ordem bíblica é
invertida e equivale a inverter os papéis: somos suficientemente bons e
maravilhosos para constranger Deus a nos aceitar. O que nos deixa perplexos
é exatamente o oposto: ele não vê em nós absolutamente nada que o encante
e o faça escolher-nos e salvar-nos. Aliás, ele nos escolheu quando nem
mesmo existíamos concretamente. Somos produtos de seus decretos e de sua
divina Providência.
A visão que o mundo tem de Deus é completamente distorcida,
porquanto ele não pode perceber o ensino bíblico acerca do pecado que
matou e conspurcou o ser humano desde o Éden. Espiritualmente, o mais
glorioso dentre os seres humanos está morto e não pode decidir seu destino
eterno. Daí eu renunciar o arminianismo como um modo de rebaixar Deus e
elevar ao céu o ser humano por sua própria virtude. É verdade que Deus quis
descer ao nosso nível e elevar-nos a si, porém isso se deve à sua infinita
mercê em transformar nossa miséria em glória. Ele fez isso na pessoa de seu
Filho Jesus Cristo. Ele quis transformar-nos à imagem de seu bendito Filho.
É absurdo pensar que o Deus infinitamente perfeito visualize beleza perfeita
no homem irremediavelmente imperfeito. O glorioso é que o Deus perfeito
queira para si um ser inerentemente abjeto e ofereça em sacrifício a seu
próprio Filho, que é Deus perfeito, para gerar vida num ser alienado dele. O
mérito não é do homem; é daquele Deus cujo amor infinito se deu para dar
vida eterna a um ser perdido e longe dele. Não foi o homem que o buscou; foi
ele mesmo, movido por seu amor perfeito, que quis graciosamente buscá-lo.
A iniciativa não pode ser do homem; tem de ser de Deus mesmo. É por isso
que eu o tenho glorificado e o glorificarei para sempre com minha pobre vida
que ele mesmo quis enriquecer.

VOCAÇÃO DIVINA
1. Reversão vertiginosa

O que pode levar uma pessoa a gostar do que antes detestava; a mudar
de rumo sem um planejamento prévio, seguindo a direção oposta e
indesejada; a interessar-se pelo que antes desconhecia completamente; a
descobrir que a felicidade não estava onde pensava estar; e que seu futuro lhe
era completamente diferente daquele que outrora almejara? Resposta: A
Providência divina.

1.1. O ser humano possui realmente livre-arbítrio?

Se eu fosse deixado à minha própria decisão quanto ao futuro com


Deus, que o leitor pondere comigo, certamente não teria escolhido a verdade
divina como se acha registrada na Santa Escritura. Deixado à revelia de meu
“livre-arbítrio”, o que eu seria hoje (o só pensar me estremece e estarrece!)?
É verdade que algumas pessoas viram as costas para a felicidade e a buscam
onde ela não está e se destroem, quando, seguindo em frente, teriam se
salvado para sempre. Elas voltam atrás e seguem o caminho da perdição
depois de algum tempo haver seguido a vereda da salvação eterna. A
conversão deles era falsa e temporária. Pois é mais fácil perder-se do que
salvar-se, pois nosso Senhor disse que a porta e o caminho da perdição são
largos e espaçosos; e a porta e o caminho da vida são mui estreitos e difíceis.
Ninguém tem que se esforçar para escolher o caminho da perdição,
pois já nascemos nele. Esse é um raciocínio que contraria a muitos. Ninguém
precisa se esforçar na prática do mal; isso é natural a todos desde a geração
uterina. A maioria certamente discorda dessa afirmação; pois para esta o ser
humano nasce no caminho do bem ou nasce bom, e depois segue o caminho
do mal se tornando mau. No entanto, a plena verdade está do lado oposto,
pois o que causa dor e muito esforço em todos nós não é praticar o mal; isso
vem naturalmente; e sim praticar o bem, que é contrário à nossa natureza. Já
nascemos com a inclinação natural para o mal; quão difícil é a escola do bem!
Quando aspiramos ao bem, significa que o Espírito do Senhor já opera em
nosso ser interior. Esta verdade pode ser auferida pela própria observação da
experiência, sem necessidade de examinar as páginas da Santa Escritura, a
qual a ensina isto do começo ao fim.
O caminho da salvação só pode ser achado por nós pelo dedo de Deus
que aponta nitidamente o rumo que não queríamos nem ora queremos seguir.
Deus me dera a infinita graça de passar a querer o que antes não queria; a
descobrir que a fonte da felicidade estava justamente onde eu me recusava
recorrer. Pois, se o Espírito de Deus não mudar a disposição interior de uma
pessoa, esta jamais tomará, pela própria iniciativa, a decisão certa em relação
a Deus e ao seu destino eterno. O segredo está na Providência divina.
O ser humano é muitíssimo inteligente. Existem, inclusive, gênios que
nos causam espanto com sua singular inteligência. Tomemos como exemplo,
a esfera da ciência. Tecnologicamente, a humanidade deu um grande salto no
campo do progresso humano. Na esfera das descobertas astronômicas, ou da
medicina, ou dos inventos práticos que facilitam tanto a vida da sociedade,
por exemplo, a internet, é assustador quando analisada pelas pessoas de uma
geração mais antiga. Para tanto, a ciência se vale da mente privilegiada de
homens e mulheres que trabalham incansavelmente inventando e
aperfeiçoando o modus operandi da sociedade para sua sobrevivência.
A visão calvinista dessas coisas é que a providência divina faculta aos
inteligentes meios e introspecções para facilitar, com seus inventos, a vida da
raça humana. A medicina moderna tem feito “milagres” espantosos. Dentre
os que lutam arduamente pelo bem estar da saúde humana se encontram
muitos agnósticos. Para eles, não estão a serviço de nenhuma divindade, e
sim da mera humanidade. Nem mesmo acreditam no Criador do universo, do
qual são servos sem que o saibam. No entanto, o fato real é que estão a
serviço do Deus que inspira homens e mulheres para sanear a sociedade e
estabelecer seu bem estar. Do contrário, a humanidade há muito já teria
perecido. Chamamos isso de Providência divina.
Todavia, com toda a capacidade tecnológica dos seres humanos,
ninguém consegue interessar-se naturalmente pelas coisas espirituais de
Deus, especialmente pela salvação eterna, se o Espírito Santo não transformar
e iluminar suas mentes nesse rumo, para que vejam o que antes não viam.
Espiritualmente, esses gênios estão mortos em delitos e pecados na prática de
um agnosticismo exacerbado; entregues à sua própria iniciativa, jamais
achariam o caminho da vida eterna. Entregues ao seu “livre-arbítrio”, nenhum
deles encontraria esse bendito caminho. São servos de Deus no que tange ao
serviço que prestam à sociedade pelo impulso do Espírito Santo na área das
coisas terrenas, de acordo com os desígnios de Deus. Porém, jamais serão
conscientemente servos de Deus no que tange às coisas espirituais e eternas.
Para isso, eles têm que contar com o concurso direto do Espírito de Deus.
Muitos cientistas são cristãos convictos porque o Espírito de Deus lhes abriu
os olhos da alma e agora veem o que jamais veriam deixados à sua vontade.
O calvinismo glorifica o Espírito Santo na regeneração do pecador.

1.2. O livre-arbítrio divino

Foi isso que aconteceu ao meu universo interior. O Espírito de Deus


abriu os olhos de minha alma e me fez ver o que antes não via; mudou minha
mente, para que eu pudesse pensar o que nunca pensara; mudou minha
sensibilidade, para que eu pudesse sentir o que jamais havia sentido; mudou
minha vontade para querer o que até então eu não queria. Oh! glorioso
milagre! Nenhum milagre físico se compara a este. O milagre físico é
temporário; o espiritual é eterno. Por exemplo, a ressurreição de um corpo
morto não impede que esse corpo torne a morrer. A verdadeira ressurreição é
aquela que faz voltar à vida um corpo antes morto para viver eternamente.
Saulo de Tarso queria de todo o coração e vontade destruir os cristãos
completamente. Jamais havia imaginado que um dia ele passaria para o lado
desses seres repugnantes com o fim de corroborar não seu extermínio, e sim
seu triunfo. De repente, de destruidor ele passou a ser o glorioso construtor
da igreja. Doravante, Saulo surgiu como Paulo o apóstolo dos gentios. Ao
amar Jesus Cristo, ele o fez com todas as forças de sua nova natureza!
Deus, porém, não fez isso com todos os inimigos de seu povo. Ele
deixou que muitos deles seguissem seu velho caminho e caíssem no abismo
da destruição eterna. Por quê? Porque ele não podia fazer com que
quisessem? Não, ao contrário, ele não quis fazê-lo. É terrível pensar assim de
Deus? Sim, é terrível em nossa ótica; porém, mais terrível ainda é fazer dele
um Deus impotente que não pode salvar o pecador que não quer ser salvo. Se
realmente ele é onipotente, e todos nós sabemos que sim, então ele pode
salvar ou deixar de salvar. “Agindo eu, quem o impedirá?” (Is 43.11). Não é
que ele não possa salvar o pecador que não queira; a verdade plena é que
ninguém, como está, pode querer ser salvo, se o Espírito do Senhor não
transformar sua mente, coração e vontade. A causa da salvação eterna não
está no querer humano, e sim no querer divino, isto é, na eleição divina.
Essa é uma doutrina plenamente bíblica. Os que não a aceitam se deve
ao fato de não suportarem a ideia de nossa vontade ser violentada por Deus.
Para eles, nossa vontade é intocável. Deus não pode violentá-la. Pois, em
minha ótica e fé bíblica, intocável, imutável e absolutamente soberana é a
vontade do Eterno. Longe de mim crer que a vontade do homem não pode
ser violentada nem mesmo pelo Criador! Longe de mim crer que a vontade
do Eterno pode e é violentada pela criatura morta em delitos e pecados. Não
conheço tal doutrina, e jamais poderei crer nela. O fato é que a Bíblia é um
livro terrível! Seus leitores vivem tropeçando em afirmações que ela faz e
que o assustam. Não é fácil crer na Bíblia pela ótica humana. Crer na Bíblia
é penetrar um universo antes desconhecido. Somente uma mente renovada
pelo Espírito de Deus pode confessar crer em seu conteúdo.
No caso de Saulo de Tarso, o Espírito fez uma reviravolta em seu
interior para que ele não tivesse como continuar resistindo ao Espírito Santo.
Todo pecador que continua resistindo à ação do Espírito, isso se deve ao fato
de que o Espírito, por alguma razão secreta, não quis mudar sua disposição
como fez com a de Saulo de Tarso. É possível que algum leitor feche este
livro, o dê de presente ou o jogue no lixo por não suportar esta exposição,
como sendo absurda e até mesmo blasfema. Em minha ótica, blasfêmia é
afirmar que Deus não pode salvar a quem não quer. Não é blasfêmia, muito
pelo contrário, dizer e crer que o Criador do universo é onipotente, infinito,
justo, verdadeiro, que possui uma vontade irresistível e que pode destruir
todo o universo para criar outro sem cometer a mais leve injustiça. Tudo é
dele, e ele faz o que bem quiser do que lhe pertence. Blasfêmia é limitar o
Deus infinito em seu Ser em respeito a um ser que não passa de pó e cinza.
De que vale os teólogos fazerem volteios no tocante a Isaías 6.9-10?
Pois o que o profeta diz ali revela justamente a soberania absoluta de Deus
em mudar a quem quer mudar, e a não mudar a quem não quer mudar. Eu
creio nisso e o adoro. Pois nosso Senhor Jesus Cristo citou este texto, como
autoritativo, em seu discurso sobre as parábolas, em Mateus 13.14-15,
abonando a palavra profética do profeta.

1.3. A vontade divina esmaga a vontade humana


Reiterando, num ponto bem pequeno, eu não queria, e de repente quis.
Ele poderia continuar a manter-me não querendo. E isso me estremece até a
medula. Conheço uma multidão que segue seu caminho sem querer a graça
salvadora de Deus, até o fim. Morrem assim. São indiferentes e insensíveis.
Nossa visão superficial conclui que o Espírito não pôde fazê-los querer,
porque a vontade humana é superior à vontade divina. Longe de mim tal
pensamento! Nunca pretendi ofender assim meu eterno Senhor! Prefiro o
próprio inferno do que concluir que a vontade do meu Deus seja inferior à
vontade de seres humanos mortos em pecado e delito (Ef 2.1). A profunda e
misteriosa verdade é bem outra. Em vez de Deus não poder, o fato
indiscutível é que ele não quer segundo o teor de seu eterno decreto (Rm
9.15,16). Isto estarrece nosso pobre raciocínio? Claro que sim. Sempre
estarreceu o meu. Nunca tive facilidade em entender ou em aceitar tal coisa.
Principalmente nestes tempos em que predomina um humanismo agnóstico.
Há coisas na Santa Escritura que nos estarrecem e escandalizam (Is 6.10). Por
isso muitos estão, hoje, tirando da Santa Bíblia aquilo que os aborrece. De
que adiantará? Com a Bíblia completa, ou mutilada, sem a regeneração
espiritual do Espírito de Deus ninguém se salvará, mesmo que a decore e a
recite, pois sempre estará faltando alguma coisa para que creiam, adorem e
aceitem a Escritura na íntegra.
Então, os adeptos do “livre-arbítrio” humano declaram que Jesus Cristo
veio ao mundo para salvar a todos os seres humanos, igualmente, sem
exceção. E ele sofre muito quando tantos negam sua graciosa salvação. É
como se seu sacrifício fosse frustrado. Muitos chegam a proclamar que ele
inclusive chora de tristeza quando vê os pecadores dizendo “não” à sua
graciosa oferta de salvação. Aliás, imagino que a maioria dos cristãos crê
assim. Eles têm dificuldade com certas afirmações do próprio Jesus. “Porque
muitos são chamados, e poucos escolhidos” (Mt 22.14). E o que dizer dos
muitos que nem mesmo são chamados pelo evangelho? Terrível, sim, é a
declaração serena do Supremo Salvador em Mateus: “Toda planta que meu
Pai não plantou, essa será arrancada” (Mt 15.13). E ele não disse isso
chorando, mas com um espírito sereno e saturado de majestade divina. Pela
ótica da eterna eleição, Jesus veio buscar e salvar somente aqueles cujos
nomes se encontram registrados no Livro da Vida. Fora isso, é inventar
doutrina ou modificar a sã doutrina.
Vemos soberania em Jesus enquanto faz declarações desse tipo.
Portanto, cabe-nos ler o capítulo 10 de João, o qual gera em nosso íntimo um
conflito profundo. O calvinista lê, louva e adora com naturalidade; o
arminiano lê e inventa argumentos para sair de seu marasmo criado por ele
mesmo. “O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (v. 11). “Conheço as minhas
ovelhas” (v. 14). “Dou minha vida pelas ovelhas” (v. 15). “Vós não credes,
porque não sois de minhas ovelhas” (v. 26). Este último versículo é muito
contundente e estarrecedor. Aliás, assusta aquele que o lê. Nosso Senhor faz a
fé salvadora depender da eleição. Aqui, a causa não é a fé, e sim a eleição.
Através da proclamação do evangelho, um cabrito eleito se transforma numa
ovelha do Bom Pastor, crendo nele e sendo eternamente salvo. “As minhas
ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço [conhecimento eletivo e
salvífico], e elas me seguem [mente, coração e vontade transformados pelo
Espírito Santo]” (v. 27). “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e
ninguém as arrebatará de minha mão” (v. 28). “Aquilo que meu Pai me deu é
maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (v. 29). Além
da eleição, aqui se proclama a eterna segurança dos salvos na palma da mão
do Pai. A eleição não vem da vontade do homem, nem a perseverança na
salvação. Tudo isso vem do próprio Pai. O que triunfa não é a vontade do
homem pecador, e sim a vontade livre e soberana do Deus Eterno. Deixadas à
vontade de seu suposto livre-arbítrio, as ovelhas não teriam como vencer
todos os seus inimigos: a carne, o pecado e o diabo.

2. Contexto do pecado

2.1. O parâmetro supremo

Infelizmente, as ovelhas do Bom Pastor continuam inseridas no


contexto do pecado. Elas terão que lutar contra o pecado a vida inteira,
durante toda sua peregrinação. Deus quis salvar-nos assim. Por isso, a vida
terrena é uma grande escola. Eu mesmo continuei com minhas imperfeições
de antes, porém como aluno do divino Professor. Cheguei a crer que elas
desapareceriam com o tempo. Com uma grande diferença: agora eu tinha um
parâmetro ou padrão para seguir ou confrontar com meus erros, e minha
consciência foi iluminada pelo Espírito Santo. Antes, eu não tinha nada.
Quem não tem a Santa Escritura como parâmetro de vida, não sabe o que
fazer de sua vida. Este santo Livro é o dedo de Deus que aponta o rumo certo
e o juiz que julga nossos erros. O Senhor tirou seu povo do Egito; ele o fez
andar pelo deserto como peregrino rumo à Terra Prometida; porém não
eliminou o joio do meio do trigo nem eliminou de cada um a natural
propensão para o pecado. Confesso que, desde cedo, este fato me deixou
atordoado. Eu via nos outros e em mim forte tendência para errar. No início,
cheguei a pensar que os crentes não mais errariam depois da conversão. Que
decepção! Que ilusão!

2.2. Campo de batalha

Este seria um tremendo campo de batalha. Paulo diz em Gálatas que “a


carne milita [luta] contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne” (Gl 5.17).
No entanto, o Espírito de Deus me deu as armas com as quais eu pudesse
combater meus hábitos ruins formados desde o nascimento. Sempre que lia a
Bíblia, o dedo do Espírito indicava uma arma de combate contra algum
hábito que havia se formado em meu interior. Em certo sentido, minha vida
piorou, pois agora os indicadores bíblicos abriam meus olhos e fustigavam
cada vez mais minha consciência. Agora havia um parâmetro de confronto
entre o mal e o bem. Ao ler os livros da lei, minha alma se sentia condenada
por não poder cumprir cem por cento a santa lei do Senhor; ao ler os Salmos,
eu sentia lenitivo para a alma; ao ler os profetas, eu via sempre um dedo em
riste a acusar-me e a exortar-me a retornar para o Eterno. Ao ler os
Evangelhos, passei a conhecer a história do glorioso Nazareno que a si
mesmo se deu para salvar míseros pecadores — e eu era o pior de todos; ao
ler as Epístolas, passei a conhecer a sã doutrina que me norteava em minha
peregrinação. Ilustrando, elas são como os sinais de trânsito às margens das
rodovias. Se forem lidos e observados com presteza, dificilmente haverá
acidente. Ao ler Apocalipse, eu vi que há neste mundo uma grande batalha do
Dragão contra o Rei dos reis e Senhor dos senhores; um se digladiando para
sua destruição e o outro, para sua conservação. Ali eu tomei ciência de que a
história humana terá um fim e o temporal cederá ao atemporal. Passei a ver
que minha vida não se limita a este mundo tenebroso — “esperamos nova
terra e novo céu”. Então, valia a pena lutar até o fim, pois estava inserido na
Providência divina.
3. Pressão vinda do mundo

3.1. Críticas

Outro fator agravante eram as críticas dos colegas de pensão e de


oficina, não só com o intuito de humilhar-me, mas também para dissuadir-me
de prosseguir na nova fé. Inventavam todo tipo de brincadeira jocosa e
indecente, quer diretamente, quer por meio de insinuações. Eram
instrumentos do Inimigo, mesmo sem o saber. Confesso que aquilo era para
mim como a própria morte. É preferível ser preso por causa do evangelho do
que ser ridicularizado por sua causa sem chance e sem argumento de defesa.
Sozinho, sem nenhum defensor, tive que enfrentar tudo e todos sem qualquer
proteção humana. De vez em quando eu mesmo me perguntava se porventura
eles não tinham razão e eu estava de fato errado. Quem sabe eu me enganara
e comecei a trilhar um caminho falso!

3.2. O argumento da Palavra

Meu refúgio era abrir o santo Livro e ler principalmente os Salmos.


Que argumento eu usaria contra aquelas investidas diabólicas? Nunca fui
bom no manejo de argumentos. Naquele tempo, minha língua era muito mais
trôpega que hoje; as palavras não eram bem articuladas e, quando nervoso,
elas não fluíam, só gaguejava. Pior, ainda não tomara posse de um sólido
conhecimento bíblico; era pouco mais que zero. O desamparo era terrível; era
como se Deus nem me visse e se pusesse longe de mim ignorando minhas
misérias. Quando sozinho com a Bíblia aberta, então entendia claramente que
ele estava comigo e cabia-me enfrentar os dardos do diabo com a força do
Espírito, com paciência e calado, exercitando a paciência e a perseverança.

3.3. Artimanha do diabo

Quando ainda professava a religião “romana”, ninguém citava minha


crença como a razão de meus erros; agora, porém, que era “crente”, havia
sempre um dedo em riste a apontar para meus erros e uma palavra acusativa a
condenar-me porque ainda errava. “Você não pode fazer isso”, diziam;
“agora você é crente, e os crentes não podem errar” — mas eles podiam! O
incrédulo tem o direito de errar e viver sem ser interpelado e importunado; o
crente, porém, não tem esse direito e nem liberdade para isso. Logo passei a
entender que essa era uma das indicações de que agora eu trilhava o caminho
certo. Tive que lidar com isso durante todo o tempo em que continuei naquela
pensão e naquela oficina. Ninguém tinha olhos para as diferenças positivas,
embora fossem poucas.

3.4. Trajetória para o templo

Para ir ao templo, eu tinha que percorrer a rua em que se situava a zona


de meretrício. Com a Bíblia na mão, olhar firme, eu fazia minha trajetória
rumo ao templo, ou para a escola dominical, ou para o culto vespertino. Eu
notava que nenhuma mulher me importunava. Certo dia soube que a razão
disso era que elas, além de acharem belo meu comportamento, também me
respeitavam por eu ser praticante sincero de uma religião. Algumas delas,
inclusive, foram membros de alguma igreja evangélica no passado, como me
segredou uma que queria ouvir minha opinião e para chorar seu desditoso
destino. Nasceu em um lar evangélico, porém a dureza do pai presbítero a
empurrou à vida de promiscuidade. Não muito tempo depois disso, ela foi
encontrada pendurada no galho de uma árvore do bosque.
Nem sempre era assim, pois de vez em quando eu tinha que me
defrontar com os blasfemadores diabólicos que me afrontavam com o peso
máximo das palavras escarnecedoras. Enquanto era respeitado por meretrizes,
os tidos por religiosos me escarneciam e blasfemavam da Bíblia. Nem
mesmo posso mencionar o que eles referiam acerca do santo Livro. Eu teria
que aprender que não há meio termo: ou a pessoa é temente a Deus, ou ela
odeia a Deus e as coisas de Deus, principalmente a Bíblia e a Igreja. Em
minha ótica, existe o ódio passivo e o ativo. O passivo é a indiferença para
com a Bíblia e a fé cristã; simplesmente as despreza como algo destituído de
valor real. Não assalta com violência, mas vira as costas e segue adiante com
descaso. O ódio ativo age e responde com violência furiosa. Enquanto o ódio
passivo diz: viva e deixe-me viver, o ativo quer destruir e matar a quem quer
viver bem.

4. Afastamento da família e dos amigos


4.1. Ataques verbais

Tive que enfrentar ambos esses ódios no seio da própria família que,
embora por muito tempo distante de mim, agora ficou ainda mais distante. Eu
ainda tinha uma família, mas, embora algum laço familial ainda existisse,
doravante foi de vez rompido. Por algum tempo, eu tive vivência mais
próxima com minha mãe. Nesse período, ela me dizia com indignação,
vociferando que não podia viver bem com quem não cria em “nossa
senhora”; era como se não tivesse mãe. “Ela é nossa mãe”, dizia-me ela com
fúria. Ela nada sabia de religião, mas aprendeu a lição ensinada por outros.
Um “amigo” disse que quem muda de religião não tem caráter; é leviano; não
tem firmeza em nada. É como mudar de roupa. Amanhã pode abraçar outra
religião. Ainda outro disse que uma religião recente não pode ser verdadeira,
e que a religião “romana” é a mais antiga; portanto, a verdadeira. Aprendiam
tudo isso dos lábios de outros, sem qualquer convicção real. Eles mesmos não
tinham religião. Não sabiam estavam sendo instrumentos do Inimigo de
nossas almas.

4.2. Instrumentos de Satã

Todos esses falavam essas coisas como papagaio; decoravam e


declamavam, sem qualquer profissão de fé real. Não tinham consciência de
que eram atiçados invisível e imperceptivelmente pelo diabo. Eles mesmos
não tinham nada de bom em seu mundo interior. Não passavam de conchas
vazias. Não tinham nada para dar em troca. Os perdidos costumam
amaldiçoar os abençoados por Deus. São piores que o falso profeta Balaão
que não quis amaldiçoar Israel por ser este um povo já abençoado por Iavé.
Ele dizia que era um “homem de olhos abertos”, pois Iavé havia aberto seus
olhos para que visse com clareza. Enquanto os incrédulos de nosso tempo
têm seus olhos fechados para a verdade divina. Só sabem acuar os que têm os
olhos abertos pelo Espírito do Senhor. E não pode ser diferente, pois os
incrédulos não podem avaliar corretamente o que procede do Deus que eles
não conhecem.

4.3. A participação da igreja romana


Era assim que os padres ensinavam ao seu povo, desde o potente alto-
falante na torre da igreja até o altar de seus templos; e as freiras, nas escolas,
ensinavam discretamente todo tipo de perversão contra os “protestantes”,
assim denominados na época, praticando o que hoje se denomina de bulling,
porquanto os alunos crentes eram martirizados, satirizados e estigmatizados
nas escolas pelos próprios professores, mesmo que dissimuladamente.
Cremilda conta que seus colegas de escola gritavam para ela e seus irmãos:
“Protestante, cara de elefante” — entre outras coisas que não é possível
referir; enquanto todos os demais gargalhavam de modo diabólico. E não
eram corrigidos pelos professores. E isso era feito pela maioria. Pode-se
chamar isso de martírio espiritual, moral e psicológico. O pecado do povo é
perdoável, mas o pecado dos que o lideram é imperdoável, pois bem sabiam e
sabem que estão mentindo para seus paroquianos com o fim de proteger seu
rebanho contra o som do evangelho que ecoa com o poder do Espírito. E
assim a Providência seguia seu curso.

5. As exceções

O fato é que todos aprendiam esses “argumentos” ou nos sermões dos


sacerdotes, diretamente, ou com os mestres nas escolas, indiretamente, ou
com os parentes e carolas, frontalmente. Já meu pai ponderava que uma
religião que muda o comportamento só pode ser boa e verdadeira; e
aconselhava que era preciso observar com atenção a religião do “Valter”. Há
muito mais sabedoria neste último argumento, e creio que o Espírito Santo já
falava por intermédio dele, visto que mais tarde meu velho pai viria também a
tornar-se membro da igreja; e que o diabo inspirava e se refestelava no que o
povo religioso inventava. Pois os sacerdotes sempre ensinaram ao povo que
mentir para o bem e proteção da igreja não é pecado, e sim um ato que
merece o louvor e a bênção de Deus. Esse ensino diabólico é muito antigo. A
Igreja de Roma sempre usou tais artifícios diabólicos e conseguiu grande
vitória entre aqueles que nunca tiveram a propensão de crer e abraçar a plena
verdade do evangelho. Há na história do evangelismo no Brasil casos
terríveis de perseguição com paus, pedras e fogo. Igrejas eram destruídas e os
cristãos evangélicos eram escorraçados. Sem falar nos pastores que eram
estigmatizados de uma forma cruel e diabólica e às vezes tinham que fugir
para não serem mortos. No futuro eu iria ter essas mesmas experiências.
6. Conhecimento e vocação

6.1. Um novo caminho se descortinava

Tudo isso constituía o abc de minha vocação ministerial. À medida que


lia aquela Bíblia que comprei “fiado”, ia convencendo-me paulatinamente
que eu também poderia tornar-me pastor ou intérprete da Bíblia para outros.
Conhecer os patriarcas, os profetas, os apóstolos e, sobretudo, o Senhor
Jesus, e aprender com eles e deles, é o anelo mais santo e primoroso que uma
pessoa pode experimentar e fomentar. Além de a vocação vir secretamente do
Espírito de Deus, ela é também adubada pelo conhecimento bíblico e testada
pelos servos de Satã, pois a cada dia descobria que eu estava certo. Todos os
engodos do Inimigo foram ficando às margens do caminho. Ainda não tinha
consciência de que dava os primeiros passos numa trajetória reta e sem volta.
Uma vez mergulhado nas santas páginas, já não havia mais volta. Muitos
fazem, posteriormente, uma desditosa guinada, voltando atrás. Eu, ao
contrário, aprendi o abc bíblico com um jovem da igreja que, depois,
abandonou tudo, retrocedeu e seguiu o caminho de outrora. Esse é um
mistério da divina Providência.

6.2. O exemplo de Judas Iscariotes

Infelizmente, isso acontece com muita frequência! É difícil um relato


mais sombrio e doloroso de se ler do que o de Judas Iscariotes. O crente
chega ali e sente vontade de saltar as páginas, principalmente quando lê que
“o diabo entrou em Judas”, um apóstolo chamado diretamente pelo próprio
Senhor Jesus. E Pedro diz com todas as letras que a porca depois de bem
lavada volta ao espojadouro lamacento; e que o cão volta a deglutir o que
regurgitara (2Pe 2.22). Eu continuava a sublinhar esses grandes textos
bíblicos que avisam bem àqueles que tomam a vereda da fé e do serviço do
Senhor. Eu mesmo me sentia avisado, e até mesmo importunado por textos
tão severos. Foram escritos para que servissem de outdoors à margem das
ruas e estradas, e ser lidos pelos transeuntes.

6.3. Os indicadores divinos


Tudo o que lia na Bíblia e na revista dominical me encaminhava para a
vocação ministerial, que não foi uma vocação verbal, direta e repentina, mas
como que uma secreta insuflação do Espírito. Olhava para o pastor, olhava
para os autores das lições bíblicas daquele tempo, como, por exemplo,
Rodolfo Anders, Waldemar Gomes de Figueiredo, Antônio Almeida, Galdino
Moreira, entre outros grandes vultos da igreja. Iniciava-se um período de
querer imitar outros, de ser igual àqueles que nem mesmo conhecia,
tampouco jamais conheceria pessoalmente. Em minha vida de isolamento,
desejava conhecer o que nunca imaginara que existisse. Isso tem seus riscos,
pois muitos passam a imitar pessoas que mais tarde se revelam falsas e
perniciosas. Vemos isso não só nas páginas da Santa Escritura, mas também
em nosso próprio contexto existencial. Grandes homens, grandes mulheres,
que no momento transpiram confiança, logo depois revelam que não eram o
que pensávamos ser. Daí, minha advertência: cuidado com as aparências.
“Não atentes para sua aparência, nem para sua altura, porque o rejeitei;
porque o SENHOR não vê como o vê o homem. O homem vê o exterior; porém
o SENHOR, o coração” (1Sm 16.7), falando da casa de Jessé quando da escolha
de Davi.
Muitos atentam demasiadamente para o elemento humano. Sempre
ensinei: não atente demais para o pastor, sua esposa, um líder influente.
Tenha Jesus como sua visão perene. O melhor dos seres humanos costuma
nos enganar e decepcionar. Quantos saem da igreja e quantos até mesmo
perdem sua fé porque foram decepcionados por alguém na igreja a quem
tanto admiravam e em quem tanto confiavam. Por esse mundo há grandes
luminares que vivem a fascinar as multidões. São homens e mulheres que
fascinam e atraem outros para si, e não para o Senhor Jesus. São ouvidos sem
qualquer reserva. São esses aqueles referidos por nosso Senhor quando de sua
volta: “Senhor! Senhor!... Não vos conheço”; isto é, “vocês não fazem parte
de meu verdadeiro rebanho”.

6.4. Diretrizes

Sou emotivo e romântico de nascença; com os atropelos da vida, meus


sentimentos ficavam confusos entre o pesar, a tristeza e a desesperança. Era
uma sensação terrível. Agora, ao encontrar o evangelho, ou, melhor, ao ser
encontrado pelo Espírito de nosso Senhor, meus sentimentos foram se
amainando e encontrando uma esperança sólida e bem consciente. O Santo
Livro foi me dando aos poucos uma nova diretriz, ainda que não muito clara,
do futuro. Nascia em minha alma uma nova aspiração, ainda que indefinida
ou imprecisa. O Espírito operava através de minha ignorância. De certo
modo, a vida cristã é como a vida de uma criancinha em sua geração,
gestação, nascimento e progresso. E isso não se dá sem o devido esforço. A
salvação eterna provém da divina graça; mas a vida cristã depende de muito
esforço e luta de nossa parte, com a assistência do Espírito Santo. A vida
cristã se desenrola como que numa escola. Somos alunos na escola de Jesus.
O Espírito Santo é nosso supremo Professor. A Providência é a força motriz
na vida secreta de cada um de nós.

7. Apego à denominação

Deixo registrado que desde o início meu coração se encheu de afeto


pela denominação. De início aprendera a amar a todos os que professam e
amam a verdade de nosso Senhor. Sentia profunda alegria quando conhecia
crentes de outras denominações cristãs. Havia “comunhão dos santos”. O
calvinismo nos ensina essa santa atitude. Mas meu coração se arraigava, cada
vez mais, nos irmãos da própria denominação. Eu queria conhecer ao
máximo aquilo que levaria anos até que minha percepção pessoal atingisse
maior maturação.
Eu me informava na penumbra, pois vivia em quase total reclusão.
Como gostaria de conhecer aqueles vultos, homens e mulheres, que
constituíam a “nata” da igreja, segundo minha ótica. Quando algum desses
vultos visitava nossa igreja, sentia-me fascinado e recebia deles influências
profundas e perenes. Alguma coisa se movia em meu universo interior que eu
não conseguia dar nem rosto nem nome. A cada dia, minha vocação
amadurecia de modo imperceptível. Tudo apontava na mesma direção. Eu era
um perene aluno na escola de Jesus da qual nunca receberia um diploma e
nunca deixaria de ser aluno. É assim que age a divina Providência.

8. Ano do centenário da Igreja

Aquele era o ano do primeiro centenário da Igreja Presbiteriana do


Brasil — 1959. Recebíamos as informações do andamento das festividades
através de nosso pastor, Rev. Francisco Maia. Aprendemos a cantar com
entusiasmo o Hino do Centenário (NC 59, Hino de Gratidão), da autoria de
Renato Ribeiro dos Santos e arranjos de Norah Bayers. Nunca conheci
pessoalmente estes dois proeminentes vultos da igreja. Como desejei
conhecê-los! Através das palavras e da música tão bela do hino, percebia que
havia muita sabedoria e conhecimento nessas duas pessoas.

8.1. Revista informativa

Na época, a IPB publicou uma preciosa revista informativa, ilustrada,


contendo o avanço do presbiterianismo no Brasil desde seus primórdios — os
templos, as instituições, a obra missionária, os grandes vultos que
comandavam a igreja nacional; ainda conservo esta revista e de vez em
quando a manuseio. Minha pergunta era se um dia eu viria a ser um vulto da
igreja que merecesse algum encômio. Mas isso era algo fora de meu alcance.
Ainda vivia em meio ao nevoeiro inicial de uma nova experiência. Olhava
para mim e só via zero! Depois de velho, chego à conclusão de que, no
tocante à minha pessoa, tudo não passava de ilusão, pois continuo sendo a
mesma pessoa reclusa e avulsa no reino de Cristo, sem projeção, cuja
história, creio eu, jamais seria escrita por um bom escritor. Durante anos
estive entre os grandes vultos da igreja, sim, porém nunca me associei a eles,
pois meu passado nunca me abandonou, até mesmo em meu aspecto externo;
talvez por isso esses “grandes” me discriminavam, e hoje continuo
discriminado. Vivíamos juntos, porém nunca fui sócio de seu clube, pois bem
sabiam que eu era um homem completamente destituído de “experiência
acadêmica”. Querendo nós ou não, até na igreja existe bairrismo cultural,
social e econômico; nesse aspecto, a igreja não é diferente do mundo, pois ela
se compõe de seres humanos reais. O membro da igreja que não tenha esta
visão corre o risco de soçobrar em sua fé.

8.2. Uma sombra sempre a perseguir

Sempre me vejo ao lado daquela velha bigorna, com aquele martelo


ainda em minha mão, malhando ferro e consertando máquinas agrícolas, todo
lambuzado de graxa e outras sujeiras. Pode ser que algum psicólogo me
convença por a+b que estou equivocado. Possivelmente, mas assim é e assim
haverá de ser em toda minha trajetória. No entanto, ainda hoje entendo que o
Senhor determinou que eu o servisse sem nenhum adorno de cultura e
importância humanas. E dou-lhe graças por isso, porquanto sua glória me
basta e será minha eterna glória.

9. Manuseio prático da Bíblia

Eu frequentava assiduamente os cultos vespertinos. Ouvia as pregações


do pastor com atenção, embora, a princípio, não entendesse quase nada por
falta de embasamento e orientação. Com a Bíblia na mão, de início não
encontrava os textos dos sermões lidos pelo pregador. Ficava nervoso e
frustrado. Olhava, e sentia inveja dos outros. Encantava-me ver os jovens e
até mesmo as crianças folheando sua Bíblia com habilidade e agilidade e
encontrando os textos citados. De vez em quando alguém se sentava junto a
mim para orientar-me, pois via meu embaraço. Aos poucos, fui melhorando e
me familiarizando com o Santo Escrito. Meu profundo desejo era dominar de
tal forma o uso de toda a Bíblia, que um dia pudesse ensinar isso a outros. E
assim se deu, porque mais tarde passei a exercer esse domínio de modo
invejável. Mas para isso houve sacrifício, constância e persistência. A
Providência não soltava minha mão.

10. A vocação se intensifica

10.1. Visão angustiante

Foi assim que, aos poucos, nascia o profundo desejo de um dia ser
ministro da Palavra. Angustiava-me, pois olhava para frente e divisava uma
trajetória longa e difícil demais. A jornada era acidentada e tortuosa. Não
conseguia ver o final dela. Isso nascia e aumentava paulatinamente pela
observação que eu mantinha de nosso pastor, Rev. Francisco Maia, homem
polido, de linguagem correta e fluente. Ainda pela observação de que havia
poucas pessoas para ensinar o conteúdo do Santo Escrito. Mas, como fazer
isso se meu conhecimento dele era pouco acima de zero? Mas tudo isso fazia
parte da Providência divina.
10.2. Escola penosa

Declarei isso ao pastor e a outras pessoas de destaque na igreja. Alguns


se calavam; outros me estimulavam; e ainda outros tentavam tirar-me desse
rumo, e humanamente tinham razão. Era testado na escola do supremo
Professor. Sem oposição não há amadurecimento. Nenhuma criancinha se
desenvolve dentro de uma redoma. Não existe cristão genuíno com seus
braços cruzados. Estão redondamente enganados os que creem que, se de fato
existe eleição ou predestinação, então os eleitos ou predestinados podem
viver sempre com seus braços cruzados. O Senhor jamais elegeria ou
predestinaria alguém para viver no ócio. Aliás, os que vivem no ócio, ou
estão testificando que nunca foram eleitos ou predestinados para a vida
eterna, ou que ainda lhes falta a experiência da conversão.
Sempre que a Bíblia fala dos eleitos ou predestinados, também fala que
são homens e mulheres responsáveis diante do Senhor que elege ou
predestina. A meta do eleito é longa, espinhosa e envolve muito sacrifício. O
eleito também deseja profundamente viver para aquele que o elegeu para a
glória eterna. O eleito, após sua conversão, passa a ser aluno na escola de
Jesus, em preparação para o serviço. É impossível imaginar um eleito que
não se torne também servo. O cristão que não é servo precisa ser
evangelizado de novo a fim de integrar-se no serviço do Senhor. Não existe
cristão verdadeiro que também não seja um servo verdadeiro dedicado ao
serviço de expansão do reino de nosso Senhor. Quando o eleito abraça o
evangelho, seu coração é inflamado de amor pela causa de nosso Senhor e é
guiado pela Providência divina.

10.3. Obstáculos de difícil remoção

Em certo sentido, os últimos tinham razão mais lógica, porque,


humanamente, eu não possuía nada que levasse as pessoas a acreditarem em
mim. Eu vinha de um universo vazio de valores e saturado de dramas
tenebrosos. Nesse tempo já fazia cinco anos que vivia sozinho, longe dos pais
e irmãos. Então, eu era um jovem quase sem referência existencial. Inclusive,
era difícil explicar e indicar quem eram meus pais e irmãos. Evidentemente,
não tinha o menor embasamento financeiro para meu custeio no seminário.
Minha igreja era pequena e pobre, mal conseguia custear o básico. Minha
“cultura” era quase nula, porque, depois de estudar em escolas rurais, não tive
mais contato com escolas. A lógica dizia que eu era um aspirante ao
seminário cuja vocação morreria na praia. Nessas condições, não encontraria
quem me abonasse, nem tutor que me acompanhasse. Eu tinha diante dos
olhos o impossível que só podia ser removido por um milagre celestial. E é
claro que o milagre veio! A Providência divina estava em ação.

11. Visita de um Anjo

11.1. Uma mão se estende

Esse desejo aumentava dia a dia, até que a igreja recebesse a visita de
uma missionária, professora no Instituto Bíblico Eduardo Lane (IBEL), de
nome Vivian Hodges, que, dialogando comigo sobre o assunto, sentiu-se
interessada por minha pessoa e futuro; ao voltar para Patrocínio, ela agilizou
minha ida para aquele santo colégio. As portas iam aos poucos se abrindo e
as imagens confusas e nebulosas do futuro começavam a tomar forma.
Minhas expectativas foram se despertando e, como janelas bem amplas,
faziam-me ver com mais otimismo que, possivelmente, Deus estava me
direcionando para o ministério da Palavra. Seria uma trajetória alucinante. Se
olhasse para o horizonte distante ou ao redor, como fez Pedro, minha
coragem se esfriaria e eu desistiria no próprio ponto de partida, por isso eu
decidi olhar firmemente para frente sem ignorar o presente.

11.2. O mistério da vocação divina

Em minha experiência pessoal, a vocação para o ministério da Palavra


é um mistério profundo e insondável; não dá para explicá-la racionalmente.
Não se vê nada de concreto. Em nossa ótica, ela é como uma colcha de
retalhos, como o tabuleiro do jogo de xadrez. É uma encruzilhada em que se
pode tomar um rumo equivocado. É aqui que muitos fracassam, pois
acreditam que são vocacionados, quando de fato não o são. E os realmente
vocacionados têm dificuldade em discernir por que sentem esse estranho,
constante e irresistível impulso.
Nossa vocação é diferente daquela dos antigos profetas e apóstolos.
Pois seu chamado era direto, verbal e pessoal. Hoje não é assim. Não discuto
se esse processo divino se repete hoje em alguém. Conheço alguns que fazem
essa reivindicação e logo depois a realidade se revela diferente, pois não
permanecem nessa vocação sobre a qual põem tanta ênfase. Repetidas vezes
somos enganados pelas percepções humanas de nossa alma. Em meu caso, a
vocação não foi imediatamente perceptível. Houve luta e relutância. Vivia
num contexto mais de impossibilidade do que de possibilidade.
Prefiro a vocação que vai aos poucos amadurecendo até ser sazonada,
para não dizer ilusoriamente: “estou sendo chamado”, quando, na verdade,
não passa de percepções carnais equivocadas. Aquele que chama manterá
inviolável e irreversível sua vocação. Nesse universo tem havido dolorosos
prejuízos para a Igreja de nosso Senhor. É preferível uma vocação que
enfrenta conflitos àquela que é fácil e de pouca duração. E a verdadeira
vocação não se constitui primeiramente de elementos externos; ela se revela
com o tempo mediante aqueles elementos internos e invisíveis que vão se
exteriorizando aos poucos em nossa intuição. E os realmente vocacionados
costumam demonstrar externamente motivos para dúvida da parte daqueles
que têm convivência com eles. A perseverança dos que são vocacionados é o
elemento preponderante em sua vocação. Labutam em meio aos elementos
negativos e os vencem. O Senhor põe obstáculos em nosso caminho para
testar-nos; ele costuma dificultar nossos passos, porém estará sempre conosco
a segurar-nos pela mão e a guiar-nos sempre em frente. Sua Providência pode
delongar, porém é infalível!

11.3. Exemplos nos profetas

Haja vista aquela genuína vocação do profeta Jeremias. Ele relutou de


todas as formas para convencer a Deus de que ele não podia exercer o ofício
de profeta, porque não passava de uma criança, já que não sabia falar (Jr 1.6).
Retrocedendo a Êxodo, vemos Moisés se digladiando com Deus contra a
vocação divina. Primeiro, ele diz “quem sou eu?” (Êx 3.11); segundo, “que
lhes direi?” (Êx 3.13); terceiro, “mas não crerão, nem acudirão à minha voz”
(Êx 4.1); quarto, “Ah! SENHOR! Eu nunca fui eloquente, nem outrora, nem
depois que falaste ao teu servo, pois sou pesado de boca e pesado de língua”
(Êx 4.10); quinto, “Ah! SENHOR! Envia aquele que hás de enviar, menos a
mim” (Êx 4.13).
É preferível este que procrastina e reluta, do que aqueles a quem
Jeremias se reporta: “Não mandei estes profetas, todavia eles foram correndo;
não lhes falei a eles, contudo profetizaram” (Jr 23.21). Resumo: É preferível
“brigar” com Deus do que ser leviano para com ele e brincar com vocação
divina.

12. Prós e contras

Rev. Francisco Maia veio a ser meu espelho, meu referencial, e o


Espírito de Deus usou aquele moço para injetar em mim, aos poucos, um
profundo anseio de ser como ele, de aprender a pregar como ele pregava.
Francisco acabara de sair do IBEL, onde se formara para o serviço de
evangelista leigo sob o patrocínio da Missão Presbiteriana no Brasil, com a
qual eu mesmo trabalharia por quatorze anos no futuro. Ele me falava muito
desse IBEL, despertando em mim profundo anseio de ir lá e fazer o curso que
ele fizera. Eu queria mudar de cidade, mudar de vida, experimentar algo bem
diferente. Ali eu revivia minha vida pregressa; trabalhava na mesma oficina;
mantinha vivência com as mesmas pessoas; era criticado por pessoas
perversas e ignorantes, as quais me conheciam bem e as quais tentavam
convencer-me de que eu estava num barco furado; que a religião que ora
abraçava era vazia de toda a verdade, fabricada por homens perversos,
inventada não há muito tempo. Mas tudo isso era parte da Providência divina.

12.1. Astúcia de Satã

Um padre chegou a dizer-me que deixar a santa igreja católica era


assinar a própria condenação eterna; que mudar de religião equivale a
desgraçar a vida. Jesus não estava em nenhum outro lugar senão na santa
madre igreja católica. Que o papa era nosso pai, o pai da igreja, a igreja
romana, que é nossa mãe. Permanecer nela é viver na cidade de Deus. Sair
dela é viver sem Maria, a Mãe Celestial, sem o Papa, nosso bendito Pai;
portanto, era o mesmo que conhecer de antemão o inferno eterno.
No entanto, enquanto permaneci nela, eu vivi sem Jesus Cristo, o único
Salvador; sem a Bíblia, a única verdade escrita; sem a verdadeira igreja, que é
de fato nossa mãe; enfim, sem a vida real e eterna, sem a verdade e sem a luz
da vida. Não conhecia o Pai celestial nem seu Filho Jesus Cristo. Eu lhe
perguntei: Se eu morrer hoje, para onde eu vou? Ele me disse que ninguém
podia saber. E lhe perguntei de novo: Se a igreja romana é nossa mãe, então
ela deve garantir-nos que jamais nos perderemos, permanecendo em seu seio.
O padre ficou sem assunto.

12.2. Confronto

Certo dia, recebi um folheto de um colega de oficina, com o título:


“Por que não posso ser protestante”. Na igreja, eu havia recebido uma réplica
desse mesmo folheto, com o título: “Por que não posso ser católico romano”.
Então troquei figurinha com aquele amado colega. Disse-lhe que havia lido
atentamente seu folheto, e que ele lesse o meu. Assim fizemos. Ele nunca
mais tocou no assunto.

12.3. Amigo na outra barricada

Enquanto no IBEL, escrevi uma carta ao bom amigo Francisco, o do


folheto, católico fervoroso, porém aceitou minha sugestão de ter sua Bíblia e
lê-la com afinco. Anos depois, eu o visitei e então me mostrou aquela carta
que guardara com carinho, dizendo-me que passara a ler sua Bíblia e veio a
ser o líder do grupo de estudo bíblico de sua paróquia. O fato é que meu
colega de oficina, Francisco, veio a ser meu grande amigo, deixando-se
influenciar por mim e minha fé, mesmo sem deixar a igreja papal. Naquele
momento, ele me confessou que eu fora uma grande bênção em sua vida; que
lhe ensinara a amar e a ler a Bíblia com toda seriedade e sinceridade; que
tinha por mim elevada consideração; que, para ele, eu era seu irmão; que
sempre me citava nas reuniões de casais que ele dirigia; que um dia gostaria
de convidar-me a ministrar um estudo bíblico a seu grupo. Naturalmente, isso
não aconteceu e jamais aconteceria, pois teria que enfrentar os padres de sua
paróquia.

13. Transição

Meu bom amigo e orientador, Francisco Maia, foi transferido de


Tupaciguara e para lá, em seu lugar, foi outro evangelista, Jair Pires. Homem
estudioso, também inteligente, cuja esposa muito generosa, cujo irmão, José
Silvério, mais tarde seria meu companheiro de campo missionário. Vendo
minha situação, e tendo em sua casa um cômodo nos fundos onde eu pudesse
morar por algum tempo, convidaram-me e eu aceitei residir ali. Aquele foi
meu melhor tempo em minha cidade. Rev. Jair e dona Maria do Carmo
jamais terão a devida noção do profundo bem que me fizeram. Eram
carinhosos comigo e de vez em quando eu me sentava com eles em torno de
sua abençoada mesa de refeição. Foi dali que saí rumo ao IBEL. Sendo
ambos ex-ibelinos, passaram então a incentivar-me a que fosse lá para um dia
ser também evangelista. Depois de Francisco, aquele casal passou a ser em
minha vida um marco decisivo. Sou muitíssimo grato a eles e rogo ao
Supremo Senhor do universo que os abençoe e os guarde na palma de sua
mão. Pois eles também eram instrumentos da Providência.

14. A vocação continua se intensificando

14.1. Definição

Então assentei firme e resolutamente no coração que também seria


ibelino, e que um dia também haveria de servir ao Senhor Jesus. No entanto,
me faltava literalmente tudo para alcançar esse santo ideal, como já disse.
Mas uma coisa não me faltava: ânimo, um sonho e ideal, a vontade, a visão
de fé e um coração palpitante de amor pelo reino de Deus, a despeito da
imensa ignorância que ainda persistia em mim. Tal ideia me impelia cada vez
mais. Passou a ser uma obsessão. Dia e noite me via ali, estudando,
saturando-me de conhecimento, preparando-me bem para ser um obreiro de
Jesus Cristo. Eu havia decorado aquele versículo de Paulo a Timóteo:
“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se
envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15). Como
naquele momento eu era completamente despreparado, sem saber nem
mesmo ler a Bíblia para alguém, de falar de Jesus Cristo como nossa eterna e
infalível esperança, eu tinha que me preparar bem para isso. E a Providência
guiava meus passos.

14.2. Preparação

Uma jovem professora, cuja mãe crente, dona Diva, um vivo exemplo
de dedicação cristã, se ofereceu a ajudar-me com algumas aulas extraídas de
um livro intitulado Exame de admissão. Naquele livro havia todo o programa
do ensino básico. E assim ela me instruiu em algumas matérias básicas que,
provavelmente, seriam parte da prova inicial que o IBEL costuma dar aos
novos alunos. No entanto, aquelas poucas aulas não me ajudaram totalmente,
pois ainda continuava extremamente carente de cultura básica. Sinto-me
pesaroso por haver esquecido o nome daquela jovem professora para citá-lo
aqui. A misteriosa Providência usa meios estranhos.

15. Destino: Patrocínio

15.1. Festa de despedida

Por fim, chegou o tempo próprio da concretização de meu sonho.


Apesar do pouco recurso financeiro, a igreja foi amorosa para comigo. Fez
uma festinha de despedida. Recebi de alguns irmãos coisas pessoais e
práticas que viriam a ser de muita valia no primeiro período ali. Eu me senti
muito emocionado com tudo aquilo, vendo pessoas enxugando as lágrimas e
se despedindo de mim, crendo que nunca mais eu voltaria para ficar. Virar as
costas para aquela família na fé era como rasgar o próprio peito. Aquela
igreja não sabe, mas ela veio a ser para mim, perenemente, uma mãe que
acalenta o filho que se desenvolve lentamente.

15.2. Acertos de contas

E assim acertei com meu patrão, virei as costas para aquela modesta
oficina que fora a fonte de meu sustento durante cinco ou seis anos, coloquei
o martelo sobre aquela velha e surrada bigorna, acertei minha dívida com a
pensão, onde morara por cinco anos, sobrou-me dinheiro suficiente para
chegar a Patrocínio e quitar minha despesa inicial; acenei para minha igreja
na rodoviária, entre lágrimas e orações, onde havia encontrado a felicidade e
a paz com Deus; entrei no ônibus e parti rumo ao IBEL — para mim, um
mundo totalmente desconhecido. No entanto, a Providência me guiava sem
cessar.

15.3. Nunca mais


Aquela era outra encruzilhada em minha história que exigia de mim a
tomada da direção certa. Era uma decisão irreversível. Se errasse, estaria tudo
perdido. Jamais voltaria atrás. Jamais seria o mesmo. Minha história seria
totalmente outra. Eu tinha tudo para abortar este ideal. Humanamente
falando, eu não tinha nada para manter essa disparatada decisão. Era quase
zero. Lá fui eu, um jovem que seria perenemente um vulto avulso, sem
qualquer laço político com nenhum concílio da igreja. Aliás, nenhum
presbitério tinha conhecimento de minha pessoa e de minha decisão. Aquela
igreja era missionária. E eu era um anônimo; um completo desconhecido da
Igreja nacional. Oficialmente, a Igreja nacional só teve contato comigo depois
da ordenação.

15.4. Livre agência

Fazendo uma retrospectiva, não existe em minha história e vida nada


que fosse compatível com o suposto “livre-arbítrio”. Eu tive que decidir?
Sim. Eu tive que agir? Também sim. Eu tive que querer? Claro que sim.
Temos que fazer tudo isso. Esse é o lado humano. Não somos marionetes
nem robôs. Somos seres dotados por Deus com livre agência. No entanto,
nossa vontade não é soberana ou plenamente livre em tudo. Concernente a
Deus, portanto, ela é cega e inoperante. Ela está jungida às circunstâncias da
vida. Em razão do pecado, ela está morta para as decisões concernentes ao
reino de Cristo. Todos nós devemos escolher e decidir. Temos a
responsabilidade de fazer isso. Mas o resultado de todas as nossas escolhas e
decisões remonta unicamente à decisão soberana de Deus, que é secreta,
invisível e intangível e está jungida ao seu governo e às circunstâncias
terrenas. Nosso ilusório livre-arbítrio se desvanece totalmente em meio à
decisão secreta do Espírito de Deus. É a Providência divina que de fato
governa. É o livre-arbítrio divino que real e finalmente decide.

15.5. Querer nem sempre significa poder

Estritamente falando, querer não é poder. Obviamente, temos que


querer e queremos. Mas somos impotentes em relação ao futuro e aos
resultados. Não temos como determinar nosso futuro e os resultados. Estamos
atados às contingências da vida terrena. Há uma infinidade de coisas
invisíveis que barram ou liberam nossa trajetória. Em toda minha ignorância,
eu já entendia a essência disso. Então, desde cedo, pela própria experiência,
nunca descansei sobre o ilusório livre-arbítrio humano, isto é, a soberania de
nossa própria vontade. Nossa vontade está jungida ainda à nossa decadência
moral e espiritual. Toda a tendência de nossa vontade é contra a vontade
absoluta de Deus. Não temos a inclinação inerente de obedecer a Deus.
Desde cedo aprendi a descansar na soberania da vontade e providência de
Deus. Esta é a única vereda que nos conduz a um final feliz. E eu estava
caminhando nessa direção. Daí poder sentir uma segurança que outrora não
conheci.

15.6. Adeus vida pregressa

À medida que o ônibus percorria a estrada poeirenta, aumentava a


distância, mais me sentia adentrar um universo de onde jamais poderia achar
o caminho de volta à velha vida. Adeus velha pensão, adeus velha oficina,
adeus querida igreja, adeus minha Tupaciguara! Este seu filho parte para
sempre! Estrada de chão, a poeira se elevando ao céu, densa, lenta e rubra
como o sangue; via minha cidade sumir no horizonte; sentia minha vida
pregressa se dissipar como fumaça; sentia minha alma ofegar; sentia um laivo
de medo e confusão mental; olhava para frente, nada via senão um mundo
desconhecido; no entanto a fé me impelia para frente, para nunca mais voltar
atrás. Aquele moço de outrora morria e renascia um novo homem, cheio de
uma esperança que não podia ser ilusão; aquela esperança bíblica que jamais
morre havia de concretizar-se um dia. Meu coração se apertava e meus olhos
marejavam movidos pela visão retrospectiva e pela visão prospectiva: nada
voltaria a ser o que fora; o futuro me era totalmente desconhecido. Minha
visão introspectiva era de total desamparo humano. Sentia-me levado por um
caudal violento que me arrastava sem o concurso de minha vontade. Na
verdade, era como se eu pairasse no ar, sem um ponto sólido onde repousar
meus pés. Minha esperança se digladiava com a dúvida. Era um profundo e
doloroso conflito existencial. Em silêncio, minha alma clamava ao Eterno
com pavor.

15.7. Esperando contra a esperança


É assim que entendo as palavras de Paulo, “esperando contra a
esperança”, falando do patriarca Abraão que se agarrara à providência divina
como a uma âncora bem fincada numa rocha no fundo de um rio ou do mar.
Mas, concretamente, ele não via absolutamente nada. Não havia algo
concreto em que firmar sua esperança; daí, ele “esperava contra a própria
esperança”, isto é, sua esperança aparentava impossibilidade e aparentemente
absurda. Ela estava fundada unicamente numa voz que lhe falava. No
entanto, ele deixou sua terra sem saber aonde ia. E foi em obediência à voz
divina. Com quem falasse a respeito, seria tido como louco.

15.8. Rumo ao desconhecido

Assim também eu. Partira e seguia rumo a um mundo desconhecido.


Teoricamente, sabia onde ficava e o nome. Concretamente, era totalmente
ignorante. Presumivelmente, muitos de meus conhecidos me tinham como
louco; no mínimo, como um aventureiro inconsciente. Quem sabe alguém
dissesse: “Isso não tem nada para dar certo. Logo o veremos de novo”.
Tupaciguara, propriamente dita, nunca me viu, porquanto fui poucas vezes
àquela igreja. Mas minha cidade nunca teve consciência disso. Nunca soube
que seu filho pisou outra vez em suas ruas. No entanto, Abraão nunca mais
nem mesmo pisou de leve as ruas de Ur dos Caldeus. Ao virar as costas para
Ur, ele o fez uma vez para sempre. Bem sabia que nunca mais voltaria ao seu
mundo e à sua família. Aliás, sua família doravante seria completamente
outra.

15.9. Honra, e não desonra

No entanto, o filho de Tupaciguara e daquela querida igreja saiu com o


destino de honrar a ambas; saiu para ser não apenas um cidadão brasileiro, e
sim um cidadão universal. O que ele faria haveria de ter uma repercussão em
todos os países de língua portuguesa. Ele não saiu para denegrir sua cidade e
igreja, mas para abençoar vidas. Tupaciguara não sabia disso; a igreja
também não; muito menos ele mesmo. Partiu sem ter ideia do que sua vida
viria a ser. Seu Senhor sabia, e isso era suficiente. E deu certo! A Providência
divina seguia seu curso.
TERCEIRA PARTE: ESTUDANTE DE TEOLOGIA
1. Chegada a Patrocínio

Aquele ônibus estacionou-se na rodoviária de Patrocínio; era o destino


final da viagem. Enfim, eu chegava ao IBEL. Para mim, aquele era um novo
universo. Minha mente e coração fremiam de ansiedade e curiosidade. Meu
coração palpitava a mil. Até então, não havia visto nem experimentado nada
parecido e jamais pensei em experimentar. O choque existencial foi terrível; o
contraste, chocante. Ao deixar o interior do ônibus, empunhando uma
malinha surrada e de péssima aparência, deparei-me com um bando de
pássaros em algazarra: eram ibelinos de todos os recantos que ali chegavam
para ou o início ou o reinício das aulas. Os veteranos festejavam o
reencontro; os novatos se esquivavam emudecidos ante o inusitado. Ninguém
era conhecido. Aos poucos, fui avistando alguns dos professores. Ao
encontro dos alunos na rodoviária foram a missionária Frances Hesser e a
professora Ana Alvarenga. Aquela, a psicóloga de todos; e esta, a conselheira
das moças. Há tempo que ambas viviam ali, e há tempo também que ambas
abriram passagem rumo à morada dos santos, deixando para trás um rastro de
luz que jamais deixará de refulgir. E assim a Providência me introduzia
naquela santa casa de profetas.

1.1. Vultos eminentes

Jamais imaginara que houvesse no mundo pessoas como aquelas. Na


verdade, eram seres humanos como todos; eram pecadores como todos; não
eram “santos”, como aqueles fabricados na forja da igreja romana e
beatificados pelos papas. A diferença estava numa vida disciplinada,
metódica e piedosa, otimista e alegre, de intimidade com Deus. Eram
homens e mulheres dedicados ao Senhor da Igreja. James Woodson e sua
esposa Jessie, Frances Hesser, Marta Little, Vivian Hodges, Ana Alvarenga,
Nazaré Pimenta, Maria do Carmo de Castro, Saulo de Castro Ferreira, Bill
Smith, Donald Kaller, Loyde Emerick, entre outros. Erravam também, porém
suas vidas inspiravam nos alunos uma nova conduta, uma nova visão
existencial, de amor pelo reino de Deus, pela Bíblia, pelas almas perdidas, de
respeito mútuo, do desejo de ser santo e justo. É muito interessante o que li
no livro de Frank L. Arnold, Uma longa jornada missionária.
1.2. Histórico

Já mencionamos o Dr. Alva Hardie como o missionário


que, em 1926, reuniu rapazes e os treinou, tanto em classe
como no campo, para serem evangelistas leigos e
professores. Hardie vivia em Patrocínio naquela época e,
a partir daquele modesto princípio, nasceu um forte
instituto bíblico. Ele tem formado centenas de jovens,
rapazes e moças, como evangelistas e professores para as
Missões e para a Igreja Presbiteriana do Brasil. Um pastor
destacado disse o seguinte sobre o trabalho dos
evangelistas leigos em seu campo: “Não existe escola
igual à de Patrocínio para preparar obreiros para
evangelizar o interior do Brasil. Esse é o tipo de escola
que precisamos”. O Dr. Edward Epes Lane, filho do
missionário pioneiro Edward Lane, junto com a
missionária Srta. Frances Hesser, mais tarde consolidou a
pequena escola, transformando-a no Instituto Bíblico que
leva o seu nome.[3]

1.3. Eduardo Lane e James Robertson Woodson

E o Rev. Wilson Castro Ferreira escreveu o seguinte:

Destaca-se na obra missionária do casal Lane a fundação


definitiva do Instituto Bíblico, em Patrocínio, velho sonho que a
Missão alimentou por muitos anos adiando sua realização, em
várias oportunidades, em virtude de dificuldades, tais como
escassez de obreiros, mas que, afinal, teve seu início em 1933,
dois anos após a chegada do casal a Patrocínio.

Como já vimos, o Rev. James Woodson lançou as bases da


escola com seu curso para evangelistas, ministrando-o em sua
própria casa; mas coube ao casal Lane o estabelecimento e
consolidação da obra em alicerces permanentes, dando à
instituição dez anos, nos quais o Instituto se agigantou. Hoje o
nome Eduardo Lane se perpetua na escola a que tanto zelo e
esforço consagrou o casal.[4]

1.4. Diretores

Seus diretores, até o presente momento, foram os seguintes: Eduardo


Lane (1933-1941); George Hurst (1942-1959); James Woodson (1960-
1963); Donald Kaller (1964-1972); Olson Pemberton, Jr. (1972-1973); e
Roberto Brasileiro (1988 até hoje). De todos estes, foi com o Rev. James
Woodson que tive uma experiência de ampla dimensão, a qual redirecionou
minha vida de uma vez por todas. Sobre a pessoa do Rev. James Woodson, a
observação do Rev. Wilson Castro Ferreira se coaduna precisamente com
minha experiência pessoal.

1.5. Caráter de James Woodson


Destaca-se em James Woodson sua piedade, seu zelo
missionário, sua humildade, sua paciência e sua tolerância
em face de sofrimentos morais e humilhações.

Estudioso e culto, sempre informado do pensamento


teológico no mundo, bom pregador — eloquente e às
vezes dramático —, reunia ao saber a piedade, ao trabalho
dinâmico o amor à Causa.

Recebi dele muitas lições, aprendi muito da convivência


com os Woodson; trago comigo a lembrança grata do
varão de Deus que aprendi a admirar.[5]

1.6. Minha experiência pessoal com ele

Minha experiência pessoal com o Rev. Woodson é descrita neste


capítulo em lugar próprio, corroborando a experiência pessoal que o Rev.
Wilson teve também com ele. Como veremos, Rev. Woodson, com sua
índole de intensa piedade, foi quem me tolerou no IBEL quando despido de
qualquer possibilidade real de fazer aquele curso. Em parte, ele é a razão que
me levou a sentir que seria justo dedicar este modesto livro ao Instituto
Bíblico Eduardo Lane.
No tocante ao corpo docente e administrativo do IBEL em meu tempo,
digo que todos esses e os outros eram homens e mulheres largamente cultos,
experientes e comprometidos com “a fé que uma vez por todas foi entregue
aos santos” (Jd 1.3). Sua fé teológica era calvinista, reformada, ortodoxa,
exemplar, sólida e de profunda convicção. Os alunos não saíam de lá com
algum conhecimento confuso ou distorcido da Bíblia. Eles incrementavam a
busca por um conhecimento profundo da fé cristã. Suas aulas eram
inspiradoras. Sua vivência era amorosa e dinâmica. Sua moralidade era
exemplar. Vivi três anos intensos naquela instituição e na companhia dessas
pessoas. Minha vivência ali haveria de ser de valor perene. Aquele ambiente
moldaria minha vida de maneira irreversível.
Desde seu nascedouro, muitas igrejas foram plantadas que hoje
constituem um movimento missionário de difícil equiparação. Todos os anos
se formam jovens vindos de todas as partes do país em busca de
conhecimento e habilidade para o serviço do Senhor da Igreja. O que era
informal e pequeno veio a ser gigantesco e bem estruturado. Em quase sua
totalidade, os jovens preparados ali passam a dar um testemunho robusto da
fé cristã. São ensinados e aprendem o manejo da Santa Escritura quase nos
moldes do puritanismo antigo. Seu conhecimento, habilidade, conduta moral
e estrutura espiritual são reconhecidos por todos os rincões do Brasil.
Dali saíram muitos homens e mulheres que se tornaram figuras
proeminentes nos vários setores da sociedade, não só da igreja. Na cidade de
Patrocínio, os ibelinos desfrutavam e creio que ainda desfrutam de muita
regalia e confiança por sua conduta honesta, com rara exceção. Aquela
entidade não tem como aquilatar com exatidão o volume de influência
benéfica que passou a semear desde então. Os que são aprovados se
estabelecem nas cidades onde ou ainda não há igrejas, ou existem, porém
sem estrutura. Aquelas cidades que ainda recebem em seu seio aqueles
moços ou moças preparados no IBEL recebem também sua benéfica
influência de saneamento moral, espiritual e intelectual. Em muitos lugares
se tornaram e ainda se tornam figuras eminentes em vários setores da cidade.
Por exemplo, o primeiro aluno ali, Rev. Dr. Divino José de Oliveira, além de
um grande político, chegou a ser prefeito da antiga Cidade de Goiás. E assim
muitos outros deixaram marcante influência de vidas retas numa sociedade
depauperada pelos vícios morais.
Cerca de trinta anos depois de seu nascimento cheguei ali com o
mesmo ideal. Minha vivência era com muitos moços e moças que haviam
deixado para trás suas famílias, igrejas, profissões e círculos sociais para se
prepararem com o fim de servir ao reino de Deus com mais habilidade. A
impressão que tive dos moços veteranos é indescritível. José Siqueira,
Clovis, Benjamim, Amadeu, Orlando, Samuel, Arnaldo, Frederico,
Valdevino, Belmiro, entre tantos outros, sem mencionar nominalmente as
mulheres, que eram tantas, e a memória já não ajuda muito, pois já se
passaram 55 anos.
Todos esses já haviam estudado bastante, já haviam enfrentado diversos
campos. Eu os invejava por já serem pessoas com um preparo do qual eu
ainda estava muito longe de atingir (e de alguns nunca consegui nem chegar
perto). Eram polidos, simpáticos, amigos, crentes, estudiosos, muito
diferentes de mim. Falavam de suas realizações nas igrejas durante as férias.
No início do ano letivo, apresentavam relatórios fascinantes. Falavam de
suas leituras e aulas de teologia. Sua conversação era de gente instruída, séria
e idealista. Falavam e articulavam seus pensamentos com fluência.
Perguntava-me: Será que vou chegar lá? Diante deles, minha timidez era
alarmante. Como quando criança, eu queria esconder-me. Só de tentar
visualizar-me naquele ambiente, perdia o fôlego, não conseguia acreditar que
tivera a coragem de chegar ali sem a mínima condição. Não estou
empregando nenhuma hipérbole; é a pura realidade. Aliás, creio que a
realidade mesma era ainda mais profunda. Sentia isso de tal modo que
procurava viver afastado de todos. Quase não falava, nem com os colegas de
quarto. A timidez era avassaladora e a dicção pior ainda. Comparava-me à
coruja que fica a observar quase o tempo todo. A expectativa era angustiante.
Houve momento escuro e cheio de desesperança e até mesmo de desespero.
Mesmo diante de meus colegas de classe, todos se avantajavam a mim. Eles
já tinham certa cultura, enquanto que eu não possuía quase nada.

1.7. Nosso dormitório

O prédio dos moços fora apelidado de “fariseu”. Na verdade, era uma


antiga residência transformada em internato. Ao lado ficava o campo
esportivo, onde se jogava futebol, voleibol e outras diversões. Também ao
lado ficavam algumas jabuticabeiras, as quais propiciavam uma verdadeira
festa no tempo de frutas, com a atenta supervisão de miss Frances Hesser.
Junto a elas havia um lindo flamboyant, extasiante no tempo de flores. Antes
de meu tempo, não guardei o nome, uma das alunas escreveu uma
composição que ficou na história por muito tempo, com este título: “Quando
o flamboyant florir é tempo de partir”. Ainda tenho fotos tiradas com a
árvore ao fundo coberta de flores.
Havia no prédio principal uma sacada acima da cozinha e refeitório
onde me postava todos os dias após o jantar, ao pôr do sol, sozinho a
meditar. Lá embaixo havia muita gente em algazarra, contudo eu me sentia
sozinho. Era tudo muito belo, porém me trazia profunda lembrança e
nostalgia. No tempo do flamboyant florido, eu olhava demoradamente para o
pôr do sol, sumindo por detrás da serra, e para aquela árvore. Havia também
um caramanchão lindo e aconchegante com alguns bancos rústicos embaixo.
Era ali que, depois de meditar naquela sacada, me recolhia à fraca luz de
lâmpadas para minhas leituras. Enquanto os alunos festejavam no salão do
pingue-pongue, com seus furtivos e deliciosos flertes, eu estudava ou a
matéria da ocasião ou um livro escolhido a esmo ou indicado por um
professor.

1.8. Nossa classe

Minha classe, começando pelos homens, era composta de Albertino,


Edvar, Wilson, Antonio, Benedito, Eunício, Floramante e, evidentemente,
eu. Desses, dois já faleceram: Antonio faleceu na função de pastor; Benedito
faleceu na função de um mísero famigerado, mergulhado no mundo do
crime. A última notícia de Edvar é que se tornou pastor batista; não tenho
certeza de sua veracidade; Floramante veio a ser um vigoroso pastor; de
Eunício nunca mais tivemos notícia (como gostaria de saber seu paradeiro!);
Albertino e Wilson se tornaram presbíteros ativos. Das mulheres: Cremilda,
Diva, Domingas, Celcina, Claudete, Ivaneide, Luzia, Aparecida, Maria Cruz,
Aldaíza, e algumas outras que não ficaram até o fim do curso. A maioria das
mulheres perdeu para sempre o contato conosco. Foi com Cremilda que mais
tarde me casaria. Fui eleito o presidente de minha classe, a despeito de toda
minha timidez e despreparo. Mas tudo aquilo fazia parte de meu preparo e
amadurecimento para a vida de obreiro de Cristo — fazia parte da
Providência que se mantinha em constante atividade.

1.9. Duas mulheres excepcionais

1.9.1. Frances Hesser


Uma das pessoas mais extraordinárias que conheci em toda minha vida
era então a mentora da instituição: miss Frances Hesser. Haver conhecido
aquela mulher foi para mim uma das experiências mais ditosas. Era a mãe do
equilíbrio, da simpatia, da serenidade, da percepção da alma humana, de uma
simpatia singular e de uma boa dose de perspicácia. Ela olhava para dentro
da gente. Nunca se alterava; nunca perdia aquele sorriso místico, com uma
gargalhada discreta e breve. Quando ficava séria, era dura e calculista. Suas
perguntas pausadas e bem colocadas deixavam o aluno mudo, desconcertado
e indisposto a tergiversar.

1.9.2. Ana Alvarenga

Outra mulher singular foi dona Ana Alvarenga. A pessoa que a teve por
mestra e desfrutou seu convívio deveria considerar-se altamente privilegiada.
Eu me considero assim. Sua matéria muito prática denominava-se A
montanha. Ali se encontrava tudo o que é prático e conveniente a alguém
que quisesse formar-se bem para o serviço da Igreja. A gente aprendia como
se portar no púlpito, desde o sentar-se até o postar-se por detrás dele; como
sentar-se à mesa de refeição e como usar os talheres. Ai do grupo que
durante a semana a tivesse encabeçando a mesa. Era uma penúria quase
interminável — e insuportável. Era difícil até mesmo para comer. Lembro-
me que no início queimei a boca várias vezes com comida ou com o leite
com café.
Muito do que aprendi com dona Ana Alvarenga veio a ser um hábito
perene. Por exemplo, até hoje não consigo sentar-me ao púlpito e cruzar as
pernas. Não consigo ministrar um estudo ou pregar no púlpito sem usar pelo
menos a gravata. O moto de toda a matéria era: “Hei de encarar este monte
difícil de transpor com o coração cheio de coragem”. E, quando se sentava
ao piano para os prelúdios e poslúdios do culto e acompanhar os louvores,
ela dedilhava suas músicas prediletas com uma maestria só dela! Eu chegava
mais cedo, sôfrego, a fim de meditar (e frequentemente chorar) aos sons
daqueles acordes divinais que revolucionavam minha alma. Se o culto fosse
interrompido ali, sentia que já havia adorado o Senhor do universo. A gente
via em dona Ana Alvarenga um ar místico, com seu sorriso misterioso,
quando não queria responder a uma pergunta despropositada. Ah! como
gostaria de conhecer mais a fundo sua história pessoal! Espero que um dia
um historiador escreva um livro sobre ela.

1.10. Investigação preliminar


Assim que cheguei, miss Frances Hesser passou a assediar-me
discretamente, fazendo-me perguntas acerca de minha pessoa, família,
cultura e finanças. Com certeza ela passava para o diretor o que ia colhendo
de minhas respostas. Mais tarde foi a vez do próprio diretor, que quis saber
quem era meu tutor, quem iria pagar a conta e como eu pensava vencer a
falta de cultura: queria saber qual fora meu embasamento cultural. Com
ingenuidade quase simplória, eu respondia a tudo: não tinha nenhum tutor —
aliás, nem mesmo conhecia o sentido de tal palavra; não tinha dinheiro
nenhum, e contei parte de minha vida; minha cultura era quase uma nulidade.
Estava ali porque senti profundo desejo de aprender a ganhar almas para
Cristo e de edificar a Igreja com o ensino da Santa Escritura.
Então perguntou: “Valter, como é possível você permanecer aqui nesse
estado? Esta escola sobrevive com o dinheiro dos alunos; cada um tem
alguém responsável como seu orientador e acompanhante da vida e dos
estudos; o aluno que não tem cultura básica não pode suportar a carga de
aulas programadas. Sinto muito, mas tenho que mandá-lo de volta para
casa”.
Com estremecimento causado pela emoção, lhe respondi: Rev., eu
entendo tudo isso; se o senhor me despedir daqui, tenho que lhe dar razão.
No entanto, há algo que o senhor precisa saber: se hoje me despedir desta
instituição, não terei para onde ir. Ninguém me espera em lugar nenhum! Já
estou afeiçoado a esta escola: como será minha vida sem ela? Expressei isso
com a mais profunda emoção já com os olhos ofuscados pelas lágrimas. Era
o grito de uma alma desesperada que vê algo escapar-lhe da mão, impotente
para reter.
Nunca fui informado satisfatoriamente sobre o Rev. James Woodson;
ele estivera em Tupaciguara uma vez e eu o vi de relance. Naquele tempo,
era para mim um total desconhecido. Era homem de coração extremamente
sensível. Explosivo, sim, porém sentia e chorava facilmente com outros.
Naquele momento, ele chorou comigo! Pediu-me que aguardasse uns dias.
Mas a Providência continuava seu curso.

1.11. Situação decisiva

Chegando ao quarto, informei aos colegas que estava fazendo a mala


para deixar aquela bendita escola que já se tornara meu lar. Disse isso em
total desespero. Os colegas choraram comigo. De mãos dadas, oramos para
que o Senhor da Igreja provesse para mim uma maneira de não sair dali.
Aquele tempo foi para mim uma eternidade cheia de sombras e medo. Sair
dali para ir aonde? Não tinha dinheiro, não tinha destino definido. De fato,
ninguém me esperava em lugar nenhum. Como sobreviver se minha
profissão era extremamente humilde e dificilmente encontraria uma oficina
que me recebesse para trabalhar e assim prover meu sustento?
Cerca de uma semana após aquele diálogo, ele me chamou outra vez ao
seu gabinete. Então eu disse a meus colegas: Hoje é o dia de minha
despedida do IBEL. Vou sentir muito a falta de vocês. Falei isso à beira do
pânico; segurava para não gritar. Tentava imaginar minha vida lá fora outra
vez. Em minha simplicidade, nem mesmo conseguia orar devidamente sobre
o assunto. Era um jovem sem norte.
Ao adentrar o gabinete do diretor, minha surpresa foi chocante. Com
muita emoção, com um sorriso largo, ele me disse: “Valter, você já não
precisa ir embora! Consegui-lhe uma bolsa para dois anos. O restante deste
ano eu mesmo pagarei de meu próprio bolso”. Amei aquele homem; aprendi
muito com ele! Em meus campos de trabalho, no futuro, muitas vezes
transigi demasiadamente em relação a alguém em situação semelhante por
lembrar-me dos gestos e atos daquele homem tão extraordinário. Ele me
passou a ideia de que quem serve a Cristo deve cultivar a solidariedade, a
compreensão, a sensibilidade; seu coração tem de ser tangido pelo coração
do Senhor da Igreja; seu coração tem que bater com o dos outros.

1.12. Memorização do Breve Catecismo


Como substrato teológico, o diretor promoveu a memorização do Breve
Catecismo, com um prêmio no final, dado por ele mesmo, Rev. Dr. James
Woodson. Meu afã foi tão intenso, que em poucos dias sabia o livrinho na
ponta da língua. Enquanto caminhava, enquanto descansava, enquanto todos
se divertiam eu estava com o livrinho aberto diante dos olhos e repetindo
cada pergunta e cada resposta. Depois de decorado, repassei muitas vezes
seu conteúdo.
Toda a classe reunida, ele perguntou: Quem está pronto a recitar o
Breve Catecismo? Não me lembro bem, mas creio que eu fui o único aluno a
pôr-se de pé e ir à frente. Trêmulo, gaguejante, cuja excitação me sufocava,
recitei-o em público, para a classe, e depois para todo o IBEL. Ele fazia as
perguntas e eu respondia. A coisa foi feita com tanta precisão, que arrancou
aplausos e emoção de todos. Havia uma contagiante alegria estampada nos
rostos e olhos a marejar. Aquele moço matuto e desnorteado, de condição
quase zero, praticara aquela façanha! Creio que meu benfeitor Rev. Woodson
percebeu que valera a pena confiar e ajudar aquele jovem desnorteado.

1.13. Prêmio

Como prêmio, recebi das mãos do diretor, emocionados ele e eu, sob o
olhar perplexo de todos, contagiando toda aquela santa assembleia de
estudantes e mestres, o livro Salmos e Hinos com músicas sacras, com a
rubrica de próprio punho, com a data: 15 de junho de 1961, um dia após meu
aniversário: 22 anos de idade. Eu conservo íntegro esse livro de cânticos,
bem encadernado, até hoje. Foi nele que eu aprendi os primeiros acordes e
rudimentos da música sacra, cujos hinos mais tarde seriam entoados nas
igrejas de meu pastorado e sob minha execução e regência.
Conservo também aquele mesmo livrinho cujo conteúdo um dia
memorizei para nunca mais esquecer. São dois símbolos preciosos que me
acompanham como emblemas de meu modesto desenvolvimento nas lidas da
Igreja de nosso Senhor — um deles, o fundamento da sã doutrina; o outro,
um oceano de cânticos de louvor ao Deus eterno e trino. Repetir essas coisas
sempre me foi motivo de alegria, emoção, saudade e gratidão, de como o
Senhor da Igreja nos conduz passo a passo na grande escalada da vida cristã.
Ao recordar estas coisas tão especiais, para mim constitui um castigo para
meus pobres olhos, os quais eu tenho que esfregar vezes sem conta para
estancar as lágrimas quentes e saturadas de saudade de uma vida que ficou
tão longe. Considero a lembrança dessas coisas como um milagre divino,
com meus 79 anos de idade.
Costumo testificar que, depois de memorizar e recitar o Breve
Catecismo, jamais poderia crer diferente. O livrinho moldou e determinou
para sempre meu pensamento teológico. Dou-lhe um valor extremo. Creio
que, se toda igreja o ensinasse a partir da infância, aos novos crentes que se
ingressam nas igrejas, aos oficiais, aos professores da Bíblia para toda idade;
e se todo ministro da palavra o soubesse de memória, o povo de Deus seria
outro. Ao contrário disso, após jurar fidelidade à Confissão de Fé e
Catecismos, o ministro da Palavra não só esquece que fez tal juramento
diante de Deus e da igreja, mas cada um deles passa a ensinar o que quer e
ainda declara, como um deles fez a mim há muito tempo, sem corar de
vergonha: “Que tenho eu com Confissão de Fé e Catecismos? Meu
compromisso é com a Bíblia”. A verdade, a plena verdade, é bem outra: tal
ministro não tem compromisso nem mesmo com o conteúdo da Santa Bíblia,
porquanto quem comete perjúrio dificilmente tem qualquer relacionamento
com o Deus da Bíblia e da Igreja, e o que ele ensina no lugar não é de melhor
qualidade; ao contrário, geralmente é de péssima qualidade, porque é fruto
de uma mente desleal e soberba, visto que não tem nem mesmo coragem de
confessar sua indolência. De antemão afirmo que jamais me desviei para
outro caminho, nem jamais pensei ser isso necessário. O calvinismo haveria
de perenizar em minha vida e ministério pastoral. Mais tarde eu mostraria,
em termos práticos, que essa era a plena verdade, pois a Providência me
encaminhava para trazer João Calvino para o Brasil.

1.14. A programação do Instituto

O IBEL tinha um programa bem traçado para os alunos, quer para fins
de semana, quer para os períodos de férias. A cada fim de semana, todos
saíam para alguma região a realizar algum programa em alguma igreja.
Estive em várias igrejas da região em meus fins de semana. E fui para igrejas
distantes em julho ou de dezembro a janeiro. Trabalhava com as crianças,
com os jovens e com toda a igreja. Às vezes ia para uma grande igreja ajudar
em alguma área dela; às vezes ia para uma pequena congregação ou para um
trabalho totalmente insipiente. Era muito penoso tentar fazer o que ainda não
aprendera. Duas igrejas que me marcaram muito foram Lagoa Formosa e
Paracatu. Muito embora fosse ainda muito “verde”, aquelas igrejas me
receberam bem e me trataram acima do que eu merecia. Tudo aquilo era
muito inusitado para mim, que até então vivera em um mundo pequeno e
mesquinho. Mas fazia parte da escola da vida e determinaria meu futuro
como obreiro de Cristo. Era a Providência em ação.
Todos nós tínhamos um grande envolvimento com a igreja local. O
pastor era o grande vulto de nome Saulo de Castro Ferreira. Era também
nosso professor. Ouvir aquele homem me fazia um profundo bem à alma,
mas também me arrancava inveja e fazia com que eu me visse pequeno
demais. Da igreja me lembro de poucas pessoas. Uma das marcas profundas
foram meus atritos com um jovem líder da mocidade local, chamado Silas
Brasileiro. É claro que o culpado dos atritos era eu mesmo, turrão e
ignorante. Mas tenho uma grata lembrança daquele bom e nobre irmão.
Creio que ele nem se lembra que eu existo. Ele tinha um irmão menor, garoto
naquele tempo, chamado Roberto Brasileiro. Olhando para aquele garoto,
quem de nós diria ou mesmo imaginaria que ele seria o que é hoje? Há
muitos anos ele passou a ser patrimônio não só do IBEL, como seu diretor,
mas da própria IPB, como reiterado presidente do Supremo Concílio. O
quanto o presbiterianismo nacional deve a esse seu vulto tão eminente e fiel!
A Providência sempre guiou seus passos, em um rumo, como os meus, em
outro rumo.
2. Primeiro contato auditivo com as Institutas

Foi ali no IBEL, logo no início, que ouvi pela primeira vez a menção da
grande obra do Reformador João Calvino, As Institutas. Enquanto os
veteranos comentavam entre si sobre a aula teológica que tiveram e a
menção deste grandioso livro, eu estava por perto ouvindo aquele diálogo.
Foi então que me acendeu um profundo interesse de lê-lo. Ainda hoje fico a
analisar aquele misterioso interesse por uma obra literária que no futuro viria
a ser o empreendimento máximo de minha vida. Aquele fato ficou muito
longe e já meio apagado, como que numa penumbra nos recônditos da
memória; mas é impossível ignorá-lo, pois faria parte integrante e perene de
toda minha vida. Era quase que uma menção “profética”. Isso mostra quão
misteriosa é a Providência divina!
Ao solicitar aos colegas que me mostrassem tal livro para que eu o
pudesse ler, todos se puseram a rir de minha ingenuidade; e responderam que
esse livro não fora traduzido para nosso idioma, que eles mesmos nunca o
viram nem leram sequer uma frase. Horrorizado, perguntei: Como?! Esse
livro não está disponível em nosso idioma? Aquilo me soou muito estranho.
Como é possível que tal livro não esteja ao nosso alcance, dada sua
fundamental importância? Acaso ele não é a principal obra do
presbiterianismo?
A partir de então meu coração sentia um profundo pesar por não poder
compendiar As Institutas e pessoalmente conhecer o pensamento teológico
do Reformador. Mal sabia que aquele jovem rústico, de conhecimento
muitíssimo insipiente e precário, sem nenhum futuro delineado e garantido,
era o predestinado para fazer Calvino falar nosso idioma. Eu, um ibelino, o
mais bronco de todos, estava destinado a levar os brasileiros a lerem as obras
de João Calvino. Se alguém ali profetizasse que eu seria tal homem, sem a
menor sombra de dúvida o chamaria de “falso profeta”. Quão misteriosa é a
Providência divina!
De fato, este foi o ponto de partida de minha longa caminhada futura
lado a lado com o maior dos Reformadores protestantes. Ainda levaria tempo
até que me defrontasse com as obras do Reformador genebrino. Mas aquele
abrupto começo, numa escola tão abençoada como o IBEL, determinaria
minha jornada como obreiro leigo, ansioso por adquirir cultura,
principalmente o conhecimento teológico.
Hoje percebo nitidamente que aquele encontro tão informe com o
Reformador me levou a cultivar a leitura dos livros que, a duras penas, eu
adquiriria para mim mesmo, sem qualquer condição financeira para adquiri-
los. A família sofria as consequências dessa minha “obsessão”. Chegava a
trazer desconforto principalmente à minha esposa que sentia mais que
qualquer outro membro da família as carências da cozinha ou de vestuário e
outras necessidades. Mas eu tinha que fazer isso! Cheguei a juntar uma boa
biblioteca. Com o tempo fui adquirindo o apelido de “o homem do livro”.
Isso me valeu muito para o futuro, um futuro incerto, nebuloso, aliás, eu
mesmo nada via. Só com o passar do tempo é que pude compreender que o
Eterno não tem pressa. Além de intrinsecamente eterno, ele está dentro da
eternidade e da temporalidade e as governa de modo perfeito.
Minha vida foi pautada dentro deste padrão divino. Eu seria um perene
aluno de sua escola. Nunca seria um aluno destacado pela inteligência, nem
pelos aspectos externos de minha pessoa. Seria sempre um aluno discreto,
tímido e sem projeção, porém persistente. O Espírito seria meu perene
Professor; a Santa Escritura seria minha cartilha; o mundo seria meu campo
de semeadura; a igreja seria minha escola, meu seminário, minha academia
que por diversas vezes me desanimaria, me irritaria e me levaria quase a
retroceder.

3. Um colega chamado Benedito

Em minha classe havia um aluno muito especial chamado Benedito


Meneses; esse homem viera das bandas do Rio de Janeiro. Estava ali como
uma tentativa de se transformar em um homem de Deus. Fora grande
celerado, chefe de gangue, preso muitas vezes, abraçara o evangelho não
sabemos como, pois sua história pregressa permaneceu numa penumbra
distante e indecifrável. No peito esquerdo faltava-lhe uma costela, arrancada
por uma facada de inimigo, isso dentro do próprio presídio, rezava o pouco
que conhecemos e o que ele pessoalmente me segredou. Eu via nele uma
grande vontade de superar o passado. Aproximei-me dele e fizemos uma
forte amizade. Ele, porém, criava problemas com todos os alunos. Todos
tinham medo dele e o evitavam. Quando furioso, víamos em sua face um
lampejo de fúria só contida pelo temor de Deus que então cultivava.
3.1. Fúria contida

Certa vez, Rev. Woodson pediu minha opinião sobre o Benedito,


porquanto eu era o presidente da classe. “Valter, meu desejo é mandar o
Benedito de volta para casa, pois tenho medo que esse homem crie um caso
muito grave para esta instituição. Quero sua opinião como presidente da
classe”. Lembro-me como se fosse hoje da resposta, ingênua, porém sincera,
que lhe dei acerca do amado colega. Rev. James, mandar o Benedito de volta
para que casa? Ele é como eu; ele também não tem casa! Para onde esse
homem irá e o que será dele fora dos “muros” do IBEL? Ele ficará sem
qualquer proteção espiritual. Faça com ele o que o senhor fez comigo.
Vamos aguentar um pouco mais para o bem dele.
O fato é que o Benedito não foi despachado do IBEL. Eu era então o
livreiro. Houve um contratempo com a conta do Benedito, pois sempre fui
péssimo em matemática. Não me lembro mais se a causa estava em mim ou
nele; já faz muito tempo. Aconteceu de discutirmos acirradamente, e ele
partiu para cima de mim como uma fera enfurecida. Quando me deparei com
aquele enorme muro de carne vindo para cima de mim, e eu franzino e sem
traquejo, vi meu barco fazer água. Sucedeu de o Rev. Woodson estar por
perto e interveio em tempo. Pondo-se entre nós, gritou que ele não fizesse
nada contra mim. Por sua vez, ele gritou que eu era o protegido do diretor.
Então este lhe contou o que até então ele não sabia: que ele ainda estava no
IBEL porque eu havia intercedido por sua permanência. Ao ouvir isso, ele se
empalideceu, recuou e foi para seu quarto. Fui após ele. Ao entrar em seu
quarto, porquanto vivia sozinho, pois ninguém se atrevia a morar com ele, o
encontrei em pranto. Ao me ver ali, me abraçou, dizendo que se sentia um
miserável, pois tinha em mim seu único amigo e não levou isso em conta.
“Valter, eu sou um homem desgraçado!” Juntos choramos abraçados. Então
ele orou aos gritos que Deus o perdoasse e que usasse de misericórdia (pois a
palavra literal foi essa) para com ele, pois não passava de um grande crápula.

3.2. O destino do Benedito

Benedito deu tanto trabalho à direção daquela escola, que a cadeira em


que se assentava diante do diretor com tanta frequência passou a chamar-se
“Benedita”. Dizem que até hoje aquela cadeira conserva a memorável
alcunha. Pode ser que hoje ninguém ali conheça a história original da
“Benedita”, porém é uma história bem minha, porquanto me assentei
também várias vezes ali e vivi bem junto do próprio Benedito que lhe
emprestou o nome.
O doloroso fato é que Benedito não se acertou nos campos das igrejas
que tentaram ajudá-lo. Por fim, deixou tudo e veio morar em Goiânia e se
envolveu de novo na vida bandida e morreu nas ruas da capital goiana,
assassinado por um anônimo, cujo crime nunca foi desvendado. Guardo
ainda em meus arquivos o jornal noticioso com sua foto. Então se levanta a
hipótese: Benedito era ou não um dos eleitos de Deus? Teria ele confessado
a fé salvífica no último momento, como fez diversas vezes em vida? Por
exemplo, ele teria dado aquele mesmo grito que deu junto a mim naquele dia
de fúria, “Ó Deus, tem misericórdia de mim”? Para nós, seres finitos, é
impossível afirmar com certeza, nem temos que fazer isso, já que o Eterno é
que nos tem na palma de sua mão e usa para conosco de juízo ou de
salvação. No entanto, quero deixar registrado nestas páginas que a figura do
Benedito nunca desocupou minha mente.

4. Minha luta com os livros

Ciente de minha grande carência de cultura, de experiência, de traquejo


para o ministério, isso me proporcionou o intenso desejo de adquirir, ali, o
máximo de conhecimento e de experiência. Tinha que aproveitar cada
instante de minha permanência naquela casa. Enquanto todos se espaireciam
nos intervalos, eu me aferrava aos livros e às lições de classe. Não porque eu
amasse a leitura; aliás, minha mente nem estava afeita ao hábito da leitura.
Até hoje os velhos colegas de IBEL, quando me encontram, se lembram
desse cenário: em geral debaixo de um caramanchão aconchegante e de uma
ramagem sempre florida e perfumosa, sozinho, sobraçando um ou outro
compêndio, aberto, e de lado umas folhas em branco para anotações. Embora
não tivesse a mente sempre disposta à leitura, às vezes nem queria ler, mas
era movido pela necessidade de superar o tempo perdido sem o convívio com
alguma literatura. Sabia muito bem que meu tempo era limitado naquela
santa casa, e esse tempo se escoava e cada vez mais se encurtava. O que viria
depois? Não tinha a menor ideia. Meu futuro continuava obscuro. Sabia
ainda que, para que desfrutasse alguma confiança da parte de quem me
quisesse para algum trabalho em sua igreja, era preciso que estivesse o mais
bem preparado possível.

4.1. Problemas com minha língua

Infelizmente, nasci com certo defeito na língua, o qual dificultava a


articulação das palavras, principalmente de algumas delas. Por exemplo, não
conseguia pronunciar com desembaraço as palavras três, treze, templo,
exemplo etc. Desde menino, era alvo de riso de adultos e crianças,
principalmente de meus irmãos. Na escola, a professora tentou todos os
meios para ajudar-me a corrigir tal defeito. E assim minha dicção era
inviável para ser orador. A Prof.ª Loyde Emerick, nossa mestra de português,
lutou muito comigo para corrigir esses vícios de linguagem. “Valter, o
pregador não pode falar assim!” Eu nasci assim, professora, e vou morrer
assim. “Não é verdade. Todos nós corrigimos os defeitos de nascença. Se
você tiver paciência, e deixar-me ajudá-lo, garanto que terá sucesso.” De
fato, aqueles insistentes conselhos da Prof.ª Loyde deram resultado positivo:
consegui corrigir muitas coisas. No entanto, as pessoas mais atentas notarão
que ainda conservo esta grande dificuldade. Creio ser este um dos tantos
espinhos que os servos de Deus conservam para que não se exaltem. Depois
de velho, esse defeito piorou muito, a ponto de levar-me a desistir de falar
em público.

4.2. Problema com a inveja

Tenho que confessar aqui um de meus dolorosos pecados, a saber, a


inveja. Ao ouvir uma pessoa prendada na oratória, de dicção perfeita, com
um verbo fluente e postura atraente, sinto-me tomado de dolorosa inveja,
pois gostaria tanto que o Criador me dotasse desse bendito pendor. Sinto
certo pesar que às vezes se converte em tristeza por não ser um orador
prendado, porém o Senhor me compensou com outros dons que trazem um
bom equilíbrio para o que me falta. Era a mão da Providência.

5. Dura “profecia”
Quando preguei meu sermão de prova — chamar aquilo de “sermão” é
mera hipérbole! —, Rev. Saulo de Castro Ferreira era nosso professor de
homilética. Durante a crítica, ele me afirmou com todas as letras: “Valter,
vou lhe dar cem anos para você aprender a pregar, e sinceramente sinto que
nem assim vai conseguir tal proeza”. Ele exprimiu isto com certa indignação.
Era uma reprovação literal. E ele estava certíssimo, porque nunca aprendi a
arte da oratória. Procurei sublimar essa carência com outros recursos. Anos
depois, tive o grande privilégio de tê-lo como companheiro de concílio. Um
dos homens mais nobres, piedosos e extraordinários que conheci. Mas
aprendi que não devemos nos dirigir às pessoas em fase de prova fazendo uso
de termos tão escabrosos. Se possível, façamos menção de alguma vantagem
que porventura haja. Se não, maneiremos o peso da crítica. No futuro,
durante os concílios, quando havia algum candidato à ordenação, ao ouvir seu
sermão procurava mais o que era de bom nele a fim de injetar-lhe ânimo,
caso o sermão não contivesse alguma heresia. Até hoje, alguns desses colegas
ainda se lembram de minhas críticas dosadas com uma boa palavra.

6. A música em meu ministério

Sempre fui cultor da música, e a usei como um desses recursos.


Aprendi os rudimentos da arte para empregar nas igrejas. Formamos ali no
IBEL um quarteto masculino, com Albertino, como regente, Edvar, Wilson e
eu. Chegamos a viajar para cá e para lá cantando nas igrejas. Havia muito
entusiasmo e sonhos para quando saíssemos dali. Aferrei-me de tal modo a
esta arte que, no final, o diretor, Rev. James Woodson, me informou que do
dinheiro da bolsa havia sobrado certa quantia. Quando chegasse no campo, o
missionário me passaria às mãos aquele dinheiro para a compra de um
instrumento.

6.1. Meu primeiro instrumento musical

Assim se deu, pois o primeiro missionário com quem trabalhei, Rev.


Robert Litton, de saudosa memória, recebeu aquele dinheiro, trouxe de São
Paulo um catálogo de Harmônios de fole e disse que eu escolhesse o
tamanho que quisesse. Escolhi o médio, um lindo instrumento, porém o
preço era bem superior à quantia que havia sobrado. Ele mesmo completou
aquele dinheiro e comprou o número de que gostei, ele mesmo o transportou
em seu veículo e deixou o instrumento dentro de nossa casa. Ainda me
lembro bem da emoção que aquilo me causou. Era um sonho do qual não
queria acordar. Que som lindo ele tinha! No dizer do salmista, fiquei como
quem sonha! Agora podia dedicar parte de meu tempo e desenvolver meu
dom para música, o que me valeu a alcunha de “evangelista cantor”. Naquele
tempo, a IPB usava o livro de hinos emprestado dos metodistas, Hinário
Evangélico. Aprendi a tocar e a cantar todos os 500 hinos. Quem ouvisse
esta história, costumava expressar dúvida, e com razão, pois eu mesmo
nunca ouvira que alguém conseguisse tal proeza. Era também parte da
Providência que guia os servos de Deus.

6.2. O ateu que gostava de ouvir hinos

Muito depois, já pastor no campo de Paraíso do Norte (atual


Tocantins), tivemos um vizinho ateu confesso, senhor Rondon, que se
assentava todas as tardes à porta de sua casa, enquanto todas as tardes eu
também me punha ao harmônio, tocava e cantava a peito aberto os grandes
hinos. Certa tarde ele acenou para que me achegasse à porta de sua casa,
onde jazia assentado. Então me perguntou: “Pastor, você sabe por que todas
as tardes eu me assento aqui?” Claro que sei, senhor Rondon; é para
refrescar-se do intenso calor. “Errado”, disse ele. “Eu me assento aqui fora
para ouvi-lo tocar aquele instrumento e cantar! Você deve ser parente de
canarinho.” Sem dúvida, era exagero dele. Que proveito concreto teria o
senhor Rondon extraído daquelas cantorias? Só o Eterno sabe! Esse detalhe
também fazia parte da divina Providência.

6.3. Louvor que nasce na alma

De fato, eu sempre cantava não só com o peito e a boca, mas com o


coração e com a alma. Hoje eu só recordo de tudo aquilo, porque já nem
canto com a boca, e sim só com a alma! Tudo passa e os impulsos da vida
vão se escasseando e desabando; de repente, o que mais gostávamos de fazer,
deixamos de lado. Só vai ficando um rastro de dolorosas reminiscências. O
vigor da vida murcha e o sofrimento forma calosidade, e tudo vai ficando tão
longe, que só resta o distante eco de uma vida que não volta mais. Olhamos
para o horizonte distante e só vemos sombras já indistintas, e o que
recordamos não passa de retalhos desconexos.

6.4. Descaso que fere

Muitos daqueles com quem tivemos vivência já partiram, e a nova


geração nem sequer se esforça para conhecer a história de sua comunidade
cristã. Se no culto há algum idoso, já não recebe nenhuma atenção; já não
canta; já não é notado; já não é ouvido; emudece e jaz no esquecimento,
enquanto toda a juventude canta jubilosa para a glória de Deus! Aos setenta e
nove anos, muita água já passou por debaixo da ponte! O vigor juvenil se foi
em boa medida e poucos se detêm para ouvir minhas reminiscências. Ali está
apenas um velho, uma velha, não um arsenal de história e experiência e que
merece atenção. Ninguém para a fim de indagar de um idoso qual o hino que
mais gostava de cantar. Nunca vi em culto de adoração ao Deus Eterno um
dirigente se reportar aos idosos e perguntar: que hino antigo o senhor (ou a
senhora) quer que cantemos? Primeiro, vamos ouvir a voz somente de nossos
irmãos idosos; depois, todos nós, até as crianças, vamos unir nossas vozes
numa só, entoando este belo hino para o louvor do Deus de todas as idades
— no dizer do grande hino: ele é o Deus dos Antigos.

6.5. O louvor que agrada a Deus — indagações metafísicas

Seria esse o louvor que o Senhor do universo espera que lhe entoemos?
Tenho muito receio de que aquilo a que chamamos “louvor” seja uma mera
vazão de nossa natureza carnal e satisfação de nossas predileções musicais.
Quando alguém diz que frequenta tal igreja porque o “louvor” ali é muito
deleitoso e caloroso, então percebo que é deleitoso e caloroso para nossa
natureza humana, e não porque sentimos que Deus fica satisfeito.
Aliás, os compositores e cantores modernos nunca perguntam se Deus
está satisfeito com a expressão musical da igreja moderna. Refletir sobre isto
é da máxima importância, pois pode acontecer que Deus não esteja
recebendo nem aceitando nosso “louvor”. Estamos tentando impingir-lhe o
que é de nosso gosto, e não o que é de seu gosto. Acho isso muitíssimo sério.
A quem estamos de fato louvando? Ao Deus Eterno ou aos nossos gostos e
predileções? Se os cristãos atuais buscassem em Apocalipse 4 e 5 o modelo
litúrgico para os cultos de adoração aqui e agora, creio que muita coisa se
encaixaria nesta área da vida cristã. Quando nos reunimos para o culto, a
quem queremos agradar — os nossos gostos, ou os gostos do Senhor Eterno?
Estamos louvando à nossa própria natureza, ou ao nosso Eterno Deus?
QUARTA PARTE: EXPERIÊNCIA MISSIONÁRIA
1. Histórico

No final de 1963 eu recebia o diploma de evangelista leigo e voltava as


costas àquela abençoada casa que veio a ser minha casa e minha família
durante aqueles três anos tão felizes. Em razão ainda da pouca cultura,
levava para o campo pouco recurso. Mesmo assim, procurei cultivar, ampliar
e intensificar tudo quanto aprendera ali. No entanto, assim que parti com o
convite da Missão Oeste do Brasil para assumir um campo de trabalho ainda
de caráter missionário, tive a nítida noção de que não estava preparado para
tal empreendimento. Tive medo. Essa consciência me valeu muito, pois me
forçou a buscar o cultivo da humildade (virtude que andava e ainda anda
longe de mim!) e do estudo sem trégua, porém desordenado, pois não podia
contar com alguém que me desse a devida orientação sobre a metodologia de
estudo e trabalho de modo bem ordenado e frutífero. Tive que criar minha
própria meta e metodologia, ainda que muito imperfeita.
Vale dizer que o missionário norte-americano com quem o obreiro
trabalhasse não lhe passava nenhuma instrução propriamente dita, só exigia
dele resultado prático; ainda mais que nem mesmo dominava o idioma
brasileiro; a única coisa que a Missão esperava do obreiro era que produzisse
os devidos frutos, isto é, números de novos membros; sem resultado
concreto, era dispensado. Isso me levou a programar a vida cotidiana, quer
pessoal, quer familial, quer ministerial. Levantava-me de manhãzinha e lia a
Bíblia durante horas, memorizando e sublinhando textos; lia também outros
livros, mas, além de poucos, eu não tinha ainda uma disciplina de assuntos;
por isso me vi forçado a comprar livros e mais livros, pois os que eu levara
do IBEL eram pouco mais de uma dúzia, contando com a Bíblia.
Um dos livros que me acompanharam a vida inteira, até hoje o
examino, foi o dicionário bíblico de John Davis, adquirido durante a vida no
IBEL; hoje, anotado, sublinhado e sovado de tanto uso, porém ainda em bom
estado, já o aposentei, pois adquiri uma versão atualizada dele, e muitos
outros dicionários e enciclopédias bíblicos, nos quais faço pesquisa contínua.
Naquele tempo, os auxílios que hoje temos em mãos eram muito raros, caros
e de curto alcance. Devorava tudo o que vinha às minhas mãos. Dava o
maior valor a qualquer livrinho, porém ainda não tinha a devida diretriz no
que diz respeito à qualidade teológica, pois ainda não havia recebido
nenhuma orientação sobre literatura reformada, e naquele tempo era ainda
raridade. Todos os professores do IBEL eram de convicção reformada,
porém não davam a devida ênfase sobre a matéria. Ao sair de lá, não podia
afirmar verbalmente que era calvinista, pois não recebera a devida orientação
a respeito.
E assim procurei preparar-me bem, fosse para o sermão, fosse para o
estudo, tendo sempre em mente a advertência “profética” do Rev. Saulo de
Castro Ferreira de que, possivelmente, em cem anos eu aprenderia a pregar.
Com o passar do tempo descobri que não havia nascido com o dom da
oratória, e que jamais seria um pregador fluente e atraente. O antigo mestre
estava certo. Contudo, sempre tive em mente que cada um tem seus dons
divinos. Para realizar uma obra consistente e duradoura não precisa ser um
orador de primeira linha. O que cada um de nós tem a fazer é preparar-se
bem para que não ensine heresia e faça o povo entender claramente sua
interpretação bíblica. Portanto, nunca me envergonhei de não ser um orador
fluente e eloquente; só queria ser convincente. Sim, o que me importava era
convencer os ouvintes com a exposição da verdade de Deus.
2. O pastor como profeta de Deus

E assim eu li e estudei muitos livros importantes, particularmente de


oratória. Li minha Bíblia até consumi-la, dezenas de vezes, e então comprava
outra. À tarde saía a dar assistência “pastoral” ao rebanho e interessados no
evangelho. Para isso, estudava livros sobre “como ganhar almas para Cristo”.
Preparei vasto acervo de estudos bíblicos; e para isso escarafunchando toda a
Bíblia. Adquiri um grande traquejo no manuseio prático da Bíblia e na
citação de memória de muitos textos relacionados com diversos assuntos.
Costumava decorar quase tudo o que marcava nela. Sempre tive a nítida
visão de que um obreiro eficiente tinha de ser o homem mais bem preparado
da comunidade. Ele representava a igreja na sociedade em que esta estava
inserida. Ou a enobrecia, ou a empobrecia de vez; ela estava nele, homem de
Deus, como seu profeta, mestre e representante. Se a representasse mal,
então ela sucumbiria ou permaneceria no anonimato. Este era meu lema: a
igreja estava incorporada em minha vida e ministério.
O pastor, quando sobe ao púlpito, tem de ter a consciência de ser
profeta de Deus. Aquele que não tem o elemento profético de interpretar
corretamente a Bíblia e aplicá-la à vida do rebanho deve procurar outra coisa
para fazer na igreja. Muitos hoje estão pastoreando igrejas sem que sejam
realmente pastores. O rebanho vê seu pastor no púlpito. Durante a semana
ele desaparece. Nem mesmo responde aos telefonemas das ovelhas que
enfrentam algum problema. O verdadeiro pastor conhece bem suas ovelhas;
conhece sua problemática; conhece bem as que geram dificuldades ao seu
pastoreio. Há as descuidadas, as agressivas, as que mais parecem bodes que
ovelhas. Ele não pode gastar mais tempo com algumas ovelhas favoritas do
que outras que lhe são desagradáveis. Aliás, se tiver de fazer discriminação,
que seja gastando mais tempo com as problemáticas. Em sua maioria, as
igrejas modernas são rebanhos que não têm pastores. Muitos dos pastores são
meros profissionais que cumprem uma tabela e no fim do mês recebem seu
salário. Isso é desastroso! Algumas ovelhas podem até mesmo crescer em
conhecimento, porém seu espírito vai definhar desnutrido do pão celestial. O
conhecimento tem de estar associado à função pastoral de apascentar as
ovelhas. Ele lhes ministro conhecimento e o conforto que nos advém do pão
da vida e da água viva.
3. O pastor como apologeta de Deus
Uma área do pastorado que naquele tempo exigia muito do obreiro de
Cristo era a apologética. Isso me preocupava, pois me faltava o devido
traquejo para lidar com as seitas que já se proliferavam com extrema rapidez
e com indivíduos de espírito polêmico em prejuízo do rebanho. Eu os
encontrava nas ruas, nos lares, no templo durante os estudos semanais, no
período de escola bíblica dominical e nos cultos vespertinos. Quase sempre
eles estavam aí para testar o ministro da Palavra com suas indagações
sofísticas e capciosas, com seu intuito diabólico e solerte, principalmente se
o ministro mantinha ainda a aparência de neófito. Não pertencem à Igreja de
nosso Senhor; não nutrem o menor interesse pelo avanço do reino de Deus,
porém o Senhor da Igreja os deixa em nosso caminho e em nossa faina para
forçar-nos ao estudo da sã doutrina. O joio força o trigo a manter sua
identidade como tal.
Os apóstolos tiveram que enfrentar os mesmos tipos de pessoas. Elas
estavam presentes durante o ministério dos profetas, de Jesus e dos
apóstolos. Lemos na história da igreja que esses indivíduos estavam sempre
presentes enquanto a igreja se desenvolvia teológica e eclesiasticamente.
Deus sempre deixou essas ervas daninhas em sua igreja como um terrível
teste para os obreiros e a própria igreja; ou, no dizer de nosso Senhor Jesus
Cristo, o maldito joio no meio do bendito trigo, com o intuito de destruir a
obra do Senhor, sempre associado ao trigo de maneira solerte. Por exemplo,
por que ele não impediu nem impede o surgimento e crescimento das seitas
heréticas que trazem tanto dano e perturbação à igreja genuína? Para manter
a igreja desperta e preparada para enfrentá-las e instruir com profundidade na
sã doutrina o verdadeiro rebanho do Senhor. E também para servir de teste
aos falsos e aos verdadeiros crentes. De vez em quando é bom que haja
sangria, para que o sangue contaminado drene e o resto seja purificado e
conservado. Quero dizer que o afastamento voluntário de certas pessoas do
seio de uma igreja local pode ser saudável para esta. Ruim é quando tal
afastamento visa e consegue levar consigo outros e tumultue todo o
rebanho.
Eu tinha consciência de que meu dever era esse. No entanto, eu estava
muito aquém de um obreiro bem preparado no manejo da palavra da
verdade. Aliás, um de meus textos prediletos era justamente este de Paulo a
Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem
de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15).
Memorizei-o bem e o repetia dia e noite. Em minha primeira Bíblia de
obreiro, que durou pouco em razão do constante uso, sublinhei este versículo
e fiz dele como que um pivô em meu preparo para instruir a igreja e para
confrontá-la com os membros de seitas heréticas ou os aventureiros avulsos
que não amam, nem creem, nem nutrem interesse algum pelo conteúdo da
Santa Escritura. Seu intuito é envergonhar e confundir os obreiros de nosso
Senhor. Se bem me lembro, nunca fui vergonhosamente derrotado por essa
plêiade de ministros do erro. Repito, eu usava toda a manhã para a leitura da
Bíblia, para a leitura de livros teológicos e para a leitura de livros de auxílio
que nos ensinam como enfrentar os membros de seitas. E aprendi cedo que
muitos desses representantes de seitas se preparam bem; falam bem; são de
boa aparência. Subestimá-los é cometer um sério erro de cálculo; é agir com
leviandade. Foi para isso que adquiri já naquele tempo muitas “ferramentas”,
até formar uma boa biblioteca. Muitos perguntavam à minha esposa se eu
tinha na mente a Bíblia de cor e se tinha bom salário para adquirir tanto
livro.
Tive que enfrentar os membros da Congregação Cristã do Brasil,
outros indivíduos da mesma linha que naquele tempo eram muito mais
proselitistas do que hoje. Outro grupo de atitude sutil eram os adventistas, na
pessoa de seus vendedores ambulantes, principalmente das obras de Hellen
G. White e sobre saúde. A princípio, eram “irmãos”; “arranchavam-se” em
nossa casa, comiam à nossa mesa e nos tratavam como se fôssemos seus
irmãos em Cristo, e faziam isso para economizar a hospedagem em um hotel;
no final, tentavam dar o golpe sectário. Se eles entravam em casas de
presbiterianos, por exemplo, sussurravam secretamente em seus ouvidos o
mandamento do sábado, alertando que quem não guarda esse mandamento
perfeitamente está perdido para sempre. Ao descobrir essas artimanhas, eu os
espantei de nosso convívio e instruí minha igreja sobre essa matéria. A
Providência usava todos esses indivíduos como meus professores. Eles me
forçavam a estudar com afinco.
Vale dizer que muitos dentre os adventistas são pessoas crentes e boas;
que a própria Igreja Adventista possui muito de positivo no campo social e
musical. Generalizar é correr o risco de cometer injustiça. Aqueles que
creem em Cristo de todo o coração, mesmo com um ensino bíblico legalista e
prejudicial, certamente fazem parte da Igreja de nosso Senhor. Conheci
muitos deles com quem eu me detinha por bom tempo em colóquio bíblico e
fraterno e creio que deixei neles boa influência.
Fiz amizade com alguns espíritas, doutos em seu sistema religioso. Fiz
amizade com o João da farmácia, atencioso e prestativo, correndo à minha
casa até mesmo para aplicar uma injeção num doente. Espírita confesso, ele
tentava provar que a Bíblia era um livro extremamente falho e pouco
confiável; que sua origem era meramente humana, e que não possui nenhum
valor para estabelecer doutrina. Com habilidade e sem destruir nossa
amizade, mostrei ao João que a Bíblia era o livro mais miraculoso de toda a
história humana. Resultou que ele passou a marcar em sua Bíblia o que eu
ministrava, e sussurrava à minha esposa que não conseguia “dobrar-me”.
Pode ser que ele morreu sem conhecer e abraçar a graça de Deus em Jesus
Cristo; se for assim, no último dia não poderá dizer que eu não o avisei. Mas
também pode ser que ele tenha feito isso e se salvado eternamente; e espero
de todo o coração que seja assim. Tive amigos ateus que tentavam provar
que Deus é uma quimera inventada pelas mentes religiosas. Eu os enfrentava
com dois livros: a Bíblia e a Natureza. Já que não criam na veracidade da
Bíblia, então os volvia para a natureza, procurando saber deles como é
possível toda esta grandeza inexplorada vir à existência sem uma Mente
suprema a dar-lhe origem. Deixei alguns deles desnorteados com seu
ceticismo.
Reitero: todos estes foram, de certo modo, meus professores. Eles me
forçavam a ler, reler e memorizar os textos correlativos a todas essas seitas e
ideias heréticas. O Senhor me deu a graça de não me envergonhar nem
envergonhar o evangelho e a igreja por meu intermédio. Ainda que não fosse
um ministro ordenado, sem a devida autoridade para exercer o santo
ministério completo, contudo eu agia como pastor. Não ministrava a Ceia,
nem batizava os recém-convertidos e seus filhos, nem impetrava a Bênção
Apostólica; todavia, dava uma genuína assistência pastoral a todo o rebanho.
Levantava-me a qualquer hora da noite para dar assistência aos afligidos por
algum mal físico ou espiritual. Fiz isso durante toda minha vida pastoral,
pois creio que o homem que não age assim dificilmente pode ser
denominado de “pastor”. Não existe pastor que só atende em seu gabinete. O
que age assim não passa de profissional religioso.
Não obstante, não pretendo que o leitor creia que meu ministério foi
perfeito. Errei em muitas coisas. Aliás, sempre digo que o que mais ocupa
minha mente não são os acertos, e sim os erros de minha pessoa e meu
ministério. Deixei para trás um grande número de pessoas que não gostariam
de sequer ouvir a menção de meu nome. Escandalizei alguns, decepcionei
outros, feri o coração de muitos. Bem sabemos que a mesma pessoa que é
“anjo de Deus” para alguns, é “anjo do diabo” para outros. Quando faço um
retrospecto, meu coração transborda de tristeza e pesar por não ter realizado
um ministério mais perfeito. Até mesmo alguns colegas de ministério
guardam perene mágoa de mim. Muitos deles me evitam até hoje. Tudo isso
constitui um pesado fardo que tenho de carregar dia e noite até o fim de
minha modesta vida. Ah! como gostaria de fazer o relógio do tempo
retroceder! No entanto, bem sei que tal coisa é impossível; e, mesmo que
fosse possível, quem sabe eu iria corrigir uns erros e cometer outros? Sou um
homem com incrível facilidade de errar. Se Paulo tinha tristes lembranças de
seu passado, o que me sobra?!

4. Primeiro campo

Meu primeiro campo missionário foi Iturama; naquele tempo, uma


cidadezinha do pontal mineiro, o último município (em 1964) do Triângulo
Mineiro. Quase todo o predomínio religioso ali era romanista. O padre da
paróquia era antigo ali e dominava a consciência religiosa de quase toda a
população. Bitolado, sem cultura sólida, mas com a mesma sanha da “santa
inquisição” da igreja romana, mantinha os “fiéis” na máxima ignorância
religiosa. Com isso, o evangelismo era dificultado e o povo seguia seu
caminho ignorante da plena veracidade da religião de Jesus registrada na
Santa Bíblia. E a Providência me colocou ali.
Em um encontro entre nós dois, aquele padre me disse com aspecto de
senhorio, olhando de cima para baixo, que a maior desgraça na vida de uma
pessoa é ela mudar de religião. E eu lhe respondi que a maior desgraça na
vida de uma pessoa é ela morrer sem a luz da verdade de Cristo; e que, se eu
não tivesse deixado o romanismo e não tivesse abraçado o evangelho
límpido, então, sim, minha vida teria sido uma desgraça. O assunto morreu
ali.
Para manter os “fiéis” sob o jugo do Vaticano, a igreja romana
engendrou um artifício diabólico: “Mentir para o bem da igreja não constitui
pecado”. Portanto, para proteger o rebanho contra os “lobos” — antigo
conceito para levar o rebanho a crer que os cristãos que não fazem parte do
redil da igreja romana são os lobos que procuram matar o rebanho —, os
sacerdotes podiam, sem nenhuma culpa diante de Deus, torcer a verdade. No
entanto, nós cristãos bíblicos aprendemos nas santas páginas que essas
artimanhas não passam de engodo do Inimigo. Os que ensinam isso são
justamente os falsos profetas que querem destruir o rebanho do Senhor. São
lobos travestidos de sacerdotes do Senhor.

CASAMENTO
Nesse ínterim, há um elo que liga meu ministério inicial com um fato
de suma importância: assumi aquele ministério insipiente ainda solteiro, para
logo depois ir à casa da noiva e voltar casado.
Ainda no IBEL, amei uma jovem da mesma classe, Cremilda, e ela
correspondeu. Então nos comprometemos de unir nossas vidas para
seguirmos juntos no trabalho do Senhor. Tudo foi feito com muito critério e
ponderação, de cá e de lá, e nada se fez com precipitação. A ação da
Providência divina nos introduzia ali juntos, na mesma classe, para estarmos
constantemente em contato um com o outro. Na primeira metade do curso
nem percebemos isso.

1. Encontro inesperado

Ela era mineira, natural de Lagamar, Minas Gerais, e ora residente em


Formosa, uma das cidades goianas mais antigas, limítrofe com o Distrito
Federal. Em fevereiro de 1961, ela saía de seu lar em Formosa rumo a
Patrocínio, Minas, e eu saía de Tupaciguara, também Minas. Nenhum dos
dois nem mesmo tinha a mínima noção da existência do outro. Duas vidas
completamente estranhas e de formação completamente adversa. Como
chamaríamos de coincidência esse tipo de acontecimento? Coincidência fala
de acontecimentos fortuitos, sem nenhum planejamento ou propósito. É
evidente que de nossa parte não houve planejamento; no entanto, houve
propósito e planejamento da parte do Senhor do Universo, o qual governa
tudo com seu desígnio sapientíssimo. Para com Deus, nosso encontro não foi
fortuito ou casual. O grande hino que entoamos nas igrejas declara: “Para
mim, o acaso não haverá”. Nem acaso, nem destino, e sim Providência sábia
e perfeita. Para nós, nada é fortuito, nada é coincidente, nada é casual. Já na
eternidade o Eterno nos destinou um para o outro. Esta é a visão que mantém
um casal unido até o fim, a despeito das grandes diferenças, dificuldades e
choques existenciais. Os que ajuntam o que o Eterno não ajuntou verão seus
planos dolorosamente desfeitos.

2. Origem e formação

Senhor Clarindo Fernandes Caixeta e dona Rosa Araújo, ambos de


Lagamar, se casaram em 1940, gerando dessa união Otávio, Cremilda, João,
Antônio, Nilson e Nilda. Esta faleceu ainda na infância e Cremilda ficou
sendo a única mulher no rol de irmãos.
Sua formação cultural tem seu ponto de partida com seus sete anos de
idade, quando a família se mudou para o município de Unaí, Minas Gerais,
passando a residir nas proximidades da Fazendo Ribeirão, propriedade de
José Mariano, ele e família já crentes, onde a Missão Oeste do Brasil fundara
uma escola primária. Foi nessa escola rural e evangélica que Cremilda
aprendeu as primeiras letras. Nisso há semelhança entre ela e eu, pois
também aprendi as primeiras letras numa escola rural. Com a diferença que
ela começou numa escola evangélica e eu numa escola católico-romana.

3. Primeira professora

Sua primeira professora, de nome Ana Correia, cuja influência norteou


profundamente sua vida futura, e cuja vida foi dedicada inteiramente ao
trabalho do Senhor desde jovem, deixou naquela região rural uma marca
indelével de exemplo e influência cristã. Cremilda conta que Ana Correia era
uma moça linda e meiga. Ela cuidava de todos os que vinham de fora e
moravam em cabanas que chegaram a formar uma pequena vila. Vale dizer
que naquela escola rural estudaram, ao mesmo tempo, pessoas de renome no
trabalho do Senhor; por exemplo, José Gonçalves de Siqueira, Otávio Alves
Caixeta, Alcy Barros, entre outros. Esta estudou no IBEL antes de nós; já
nosso querido “Siqueira” (assim chamado pelos amigos e colegas) e meu
cunhado Otávio foram nossos contemporâneos. São vidas cuja história se
entrelaçam desde a infância e depois se estreitam ou se afastam para sempre.
Por exemplo, Cremilda conta que bem mais tarde ela e Ana Correia, já
então Ana Correia Marçal, pois se casara com Manoel Marçal, nosso colega
de lidas missionárias, encontraram-se no Acampamento Boa Esperança,
Goiânia, numa reunião de professores da Missão Oeste do Brasil; ela,
diretora da escola da Missão em Uruana, Goiás; e Cremilda, também diretora
da escola da Missão, em Paraíso do Norte de Goiás, hoje Paraíso do
Tocantins. Ambas se abraçaram e se lembraram emocionadas daquele tempo
em que esta, ainda menina, fora aluna daquela. Num amplexo repassado de
emoção, lembraram-se daquela bendita influência que Cremilda recebera, na
infância, desta mestra cuja vida fora inteiramente devotada ao serviço do
Senhor durante toda sua vida. O reino de Cristo é maravilhoso e congraça
pessoas com laços inquebráveis de uma perene e bendita união. No reino do
Senhor, um influencia o outro, numa corrente ininterrupta. Daí ser
especialmente abençoada a vida que se dedica inteiramente ao serviço do
Reino.
Senhor Clarindo era um homem de espírito cigano, arrastando a família
de um lado para o outro, quase sem cessar. Talvez nem ele mesmo tivesse
noção de todos os lugares onde moraram. O fato é que no contexto desta
história de casamento eles moravam em Formosa, e foi ali que os conheci e
foi ali que nos casamos.

4. Fascinante descoberta

Recuando um pouco, começamos e terminamos o curso bíblico juntos,


em novembro de 1963. Sua formação cultural e doméstica era muito superior
à minha. Pai, mãe e quatro irmãos homens, todos crentes e sempre juntos,
formando uma abençoada família. Enquanto que eu, há anos vivia sozinho,
longe de pai, de mãe e dos sete irmãos. Uma formação completamente oposta
à outra. O desejo dela era preparar-se bem e ser uma auxiliadora apta na
igreja; à semelhança de Ana Correia Marçal, sua mãe espiritual, essa
aspiração se concretizou, não do modo como ela imaginara, e sim como o
Eterno lhe delineara imperceptivelmente. Ela não teve nenhuma dificuldade
em passar no teste inicial do IBEL ministrado aos novatos; enquanto que eu
não fui bem sucedido no mesmo teste, mas fui ajudado pela mão divina e pela
simpatia humana. Eram duas vidas completamente opostas. Não havia nada
em nós e em nossa história para esse consórcio dar certo, exceto a graça
divina que sempre assiste aos carentes e dependentes dela. Até então, nunca
tinha havido uma demonstração visível de qualquer interesse um pelo outro,
porém sentíamos certa atração secreta, imperceptível, inexplicável,
indecifrável. Este é um dos mistérios da Providência, e é assim que esta
triunfa.

5. Fisgado por um par de olhos negros

Em meado de 1962, com um olhar furtivo e místico, ela de lá e eu de


cá, sem qualquer intenção velada, nasceu entre nós um amor profundo e
perene. Comparo isso a um pescador hábil que fisga o peixe de tal modo que
este faz tudo o que pode para escapar, porém nada consegue, senão que o
anzol finca cada vez mais fundo e firme na boca do peixe. Ela me fisgou; e eu
a fisguei. Então entendi que essa era a moça de meus sonhos; eu jamais
conseguiria entender o que ela viu em mim. Eu, feio e desengonçado de
nascença, tímido e sem qualquer atrativo; ela recebeu de herança da parte do
Criador uma forma belíssima, contornos perfeitos, sorriso largo e encantador.
Senti-me totalmente cativado, fisgado, de repente, por sua beleza externa e
interna, ou seja, beleza de corpo e alma.
Uma vez iniciado assim, nosso namoro durou o resto do tempo no
IBEL, isto é, um ano e meio. Ao percebermos que nosso “destino” fora
ligado e selado pela mão celestial, então procuramos nos conhecer melhor,
esperando com paciência e sabedoria na boa mão de Deus. Passamos a orar
no sentido de um dia nos unirmos para seguirmos juntos pelo resto de nossa
vida. E esse sonho era extremamente difícil. Ela tinha poucos recursos; e eu
não tinha nenhum.

6. Regime severo

Quando digo “paciência e sabedoria”, tenho em vista o duro regime do


IBEL em nosso tempo no tocante ao namoro em seus recessos e as
consequências. Era um regime nos moldes “puritanos”, sem chance nem
meios termos. Quem transgredisse tal regra era “convidado” a pegar suas
coisas e voltar para casa. Minha agravante é que nem casa eu tinha.
Curiosamente, naquele mesmo tempo a congregação do IBEL resolveu fazer
um teste com os alunos. Durante certo período, os namorados podiam
encontrar-se na casa de um dos professores a fim de discutir e ampliar seus
planos futuros. Sem auto-bajulação, nós dois cumprimos à risca a regra,
porém outros transgrediram; além de voltarem para casa, a regra perdeu a
validade e voltou com mais rigor.

7. Peço a mão de sua filha

Nesse ínterim, porém, terminava nosso tempo ali e voltamos para casa,
porém já com planos e preparativos para o casório. No período de namoro,
ainda nos recessos do IBEL, fui a Formosa conhecer os futuros sogros e
cunhados. Ainda naquele tempo, havia um costume muitíssimo salutar e
respeitoso, a saber, o noivado só era “sacramentado” quando o moço ia à casa
da moça pedir a seus pais sua mão em casamento. Era quase que um
sacramento. Quase toda a juventude moderna dirá que tal costume era muito
“brega” ou ridículo. Ele foi substituído por qual costume? Um muito melhor?
É claro que não! Hoje os pais nem tomam conhecimento dos “planos” dos
filhos. De repente, as coisas já aconteceram e descobre-se que não haverá
casamento, e sim “ajuntamento”. Resultado? Há poucas famílias bem
estruturadas e felizes, porque muitos valores foram substituídos por outros
destrutíveis. Quanto aos filhos, é impossível que sejam bem ajustados e se
sintam ladeados pelo pai e pela mãe. O que é ainda mais pavoroso, isso se dá
no seio da Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo! Sem a bênção e participação
paternas e maternas, a formação de um bom lar é quase impossível. Os jovens
leem a Bíblia; meditam nela; estudam-na; confessam com os lábios que
creem nela. Na prática, porém, creem em alguma parte dela, e não em sua
totalidade.
Então, todos reunidos na modesta casa em Formosa, pais e irmãos, o
pastor da igreja, Rev. Manoel Cavalcante de Melo, no espírito de culto
divino, com o coração aos saltos, solicitei verbalmente da família o direito e
liberdade de casar-me com sua filha e irmã, com o fim de fazer parte da
mesma família. “Senhor Clarindo e dona Rosa, desejo muito casar-me com
sua filha Cremilda. Ambos, com o endosso dos filhos, concordariam e
abençoariam nossa união? Todos já sabem que eu não possuo materialmente
nada. Não tenho dinheiro nem para as alianças. No entanto, já tenho
compromisso de campo para trabalhar e sustentar nossa vida inicial. Não
prometo nada, senão que serei um membro respeitoso e afetuoso desta
família.”
Inicial e naturalmente, houve certa relutância e constrangimento. Quem
era esse moço que não tinha dinheiro nem mesmo para comprar as alianças?
Quem era ele que só tinha casa para morar porque a Missão já o havia
convidado para um campo que já possuía casa pastoral? Quem era esse moço
que sequer tinha dinheiro para comprar a mobília da primeira moradia?
Quem era esse moço de cuja família nem mesmo ele tinha sequer notícia?
Quem era ele senão um moço estranho, sem ponto de referência ou
procedência, como um “João Ninguém” que chegou para fazer o curso no
IBEL como aventureiro, vindo do nada? Criaram aquela filha única dentre
quatro filhos homens para entregá-la a alguém de existência tão duvidosa?
Pus-me no lugar deles e compreendi o drama.
Creio que eu só tinha uma vantagem em tudo isso: Otávio, seu irmão,
foi cursar o IBEL um ano depois de nós, em 1962. Embora entre nós não
houvesse qualquer semelhança além da fé em Cristo, o resto de nossas
personalidades e histórias era totalmente diferente; contudo, ele já sabia um
pouco a meu respeito: que eu era um moço estudioso, determinado, idealista,
que já tinha um campo para exercer seu ministério leigo, que sempre
desfrutou o respeito e estima do corpo regente e docente do Instituto, e
inclusive da estima de boa parte do corpo discente. O fato é que, naquele
momento, nos recessos daquela casa modesta, porém bem estruturada, recebi
“sinal verde” para ingressar-me na família — a mão de Cremilda me foi dada
em meio a orações e leitura da Santa Bíblia. No entanto, tive que seguir à
risca o regime severo daquela família. Nem podíamos sair sozinhos para
curtir nosso namoro. Daí haver, inicialmente, alguns atritos e decepções.

8. Substituição difícil

Já era fim de ano, e tínhamos que nos casar logo, pois nosso primeiro
campo nos aguardava — Iturama. Cabe-me dizer, neste ponto, que iria
substituir um obreiro muito dinâmico e querido, já com certa experiência e
prestígio — senhor Vicente Almeida. Casado com dona Eva, aquele casal
realizara ali um trabalho de profundas raízes que durou cinco anos. Aliás, eles
foram os obreiros fundadores daquela congregação, isto é, os pioneiros, já
com uma escola primária, que era uma das metas da Missão Presbiteriana no
Brasil: em cada igreja, uma escola. Eles iriam para outro campo e nós
assumiríamos seu lugar, como “marinheiros de primeira viagem”, tanto na
vida conjugal quanto na vida ministerial. Bem mais tarde, eu e aquele
abençoado obreiro nos encontraríamos em outras circunstâncias.
Chegou fevereiro de 1964 e já me encontrava instalado no campo de
Iturama. Logo depois retornei a Formosa a fim de retornar ao campo tendo
ao lado aquela moça que seria minha companheira por mais de meio século.
Solicitei de meu sogro um empréstimo para a aquisição das alianças. Mais
tarde um de meus cunhados me lançaria isso em rosto como desabafo: “Você
não é nada, pois nem dinheiro teve para comprar as alianças”. De minha
parte, não houve nenhuma contribuição nas despesas da festa. Houve, sim,
muito constrangimento. Festa? Que festa? Meu sogro fez mais um hercúleo
esforço e deu à filha uma modesta festinha de casamento naquele dia 08 de
fevereiro de 1964.

9. Beleza na singeleza

Creio ser impossível imaginar uma cerimônia mais modesta que a de


nosso casamento. No entanto, havia certa beleza e solidez que já não se veem
hoje. O que se vê hoje é um aparato que ofusca os olhos físicos dos
presentes; aparato que custa o que o casal às vezes nem possui. Muitos já
começam a vida a dois casados também com dívidas; e quase sempre essas
dívidas são deixadas para os pais pagarem. O predomínio não é da fé e
compromisso, e sim da impactante beleza externa. Esta nada garante que a
união seja abençoada pelo Eterno! Pelo contrário. Desse fato advém que
muitos casamentos não são abençoados pelo Eterno. Ao longo de minha
trajetória, vi e participei de muitos casamentos sem esta bênção divina que a
tudo cimenta. Como ministro do evangelho, nunca fui propriamente contra
certa ofuscação de beleza nos casamentos, a qual dá vazão à vaidade humana
natural, desde que tudo seja feito dentro do racional e na dependência da
bênção do Altíssimo. Infelizmente, os lares não se estruturam bem porque o
que se busca primeiramente não é o reino de Deus e sua justiça, e sim as
enganosas fascinações deste mundo alienado de Deus, com o intuito de
mostrar aos presentes uma importância quimérica. Até os cristãos caem nesta
esparrela do maligno. Quantas cerimônias nupciais eu realizei e que foram de
pouco ou nenhum efeito duradouro. Mais tarde, o grande número de
paraninfos testemunha um lar desfeito. Isto é de grande peso negativo na
vida de um ministro do evangelho e de uma igreja local.
O ministro de nossas núpcias foi um dos homens de Deus que mais me
influenciaram e me abençoaram em toda minha vida pessoal e ministerial.
Nunca conheci bem a história do Rev. Manoel Cavalcanti de Melo e sua
esposa dona Odete. Mas o pouco que conheci dele valeu a pena. Raramente
se vê hoje pastores como aquele. Coração amplo, alma transparente, palavra
franca e direta, porém entremeada de discernimento, sabedoria, prudência e
mansidão. Aquela família nos marcou profundamente. Para Cremilda, eles
eram como que segundos pais e vieram a ser assim também para mim.
O outro detalhe foi a presença maciça de três grupos: os amigos, os
parentes da família dela e a igreja propriamente dita. Portanto, nosso
casamento foi ladeado por uma multidão invejável, pois social e
economicamente sua família era modesta.

10. O que aconteceu com o fotógrafo?

Para que fique registrado com mais propriedade no tocante à modéstia


de nosso casamento, no momento não havia nem mesmo um fotógrafo
amador para tirar algumas fotos; e não estava presente ninguém de minha
família; literalmente, ninguém! Ainda literalmente, eu era um moço
completamente destituído de amparo da família e de amigos. Por isso,
doravante a família Caixeta veio a ser minha família. E provamos isso ao
longo de nosso convívio. Embora houvesse diferenças marcantes entre eu e
os irmãos de Cremilda, inclusive seus pais, todavia sempre vencemos essas
diferenças e conseguimos dar sequência à nossa trajetória como bons amigos
e companheiros. Tudo isso devemos à Providência divina. Esta estava sempre
em ação a nosso favor.
Não quero estender-me muito sobre a mobília doméstica com que
começamos nossa vida a dois. Além de ser uma descrição penosa, não há
muito que descrever, pois era tudo tão pouco e modesto, que causaria
constrangimento até mesmo nos leitores desta história. Foi depois de casados
que fomos aos poucos adquirindo coisas mais dignas e completando o básico
que nos faltava. Pela primeira vez, tive um salário mais digno da parte da
Missão, e Cremilda teve seu salário proveniente da escola da igreja. Vale
lembrar ainda que não havia ninguém por perto, seja família ou amigos de
outrora, que nos apoiasse no que faltava no tocante ao sustento. Nada podia
ir além da receita mensal.
11. Abençoados a despeito das falhas

No entanto, a despeito de tudo isso, Deus abençoou nossa união que,


através do tempo, não obstante tantas fraquezas e falhas, mais minhas que
dela, ultrapassamos meio século de vida a dois, irmanados no mesmo ideal
cristão: servir juntos ao Senhor da Igreja. Ao longo de todo esse tempo,
iríamos experimentar muitos solavancos da parte de colegas de ministérios e
de membros de igreja. Nosso campo de batalha não seria lá fora no mundo;
seria no interior do corpo de Cristo, a igreja, como nosso Senhor
experimentou da própria igreja que ele veio salvar: “veio para o que era seu, e
os seus não o receberam” (Jo 1.11). Nunca fomos perseguidos pela sociedade
na qual fomos inseridos. Toda nossa peleja foi e seria no interior dos muros
da cidadela de Deus.

12. Retalhos de história da família de Cremilda

Como eu já disse, Cremilda é filha de Clarindo Fernandes Caixeta e


Rosa Alves Caixeta; e irmã única de Otávio, João, Antônio e Nilson. Mais
tarde Otávio e Antônio seriam também pastores.
Em sequência, registro a composição das famílias de seus irmãos.
Otávio casou-se com Fleurilene, gerando Clarirose, Vívian, Éber, Otávio Jr.
e Marcos. João casou-se com Maria, gerando Jônatas e Varlete. Antônio
casou-se com Laura, gerando Aline, Alisson e Ailane. Nilson casou-se com
Benedita, gerando Jefster Farlei e Jefster Fania. É oportuno registrar que
Otávio ficou viúvo e casou-se segunda vez com Sheyla sem deixar filhos. No
entanto, todos os filhos de seus irmãos constituíram suas próprias famílias.

12.1. Tela de fundo


No tocante à dona Rosa, filha de Jerônimo Alves de Araújo e Amélia
Alves de Araújo, naturais de Lagamar, Minas Gerais, sua história pessoal se
perde nas brumas do tempo, cuja memória é difícil até mesmo para eles.
Desde a adolescência, ela já se afeiçoara ao Clarindo, também adolescente, e
era correspondida. Em certa festa de romaria na cidade da Lapa,
posteriormente Vazante, que era e continua sendo sede de garimpo e de
romaria, aproveitando a visita do sacerdote que residia em outra cidade,
resolveram casar-se — ela com dezessete e ele com dezoito anos.

12.2. Conversão de Clarindo Fernandes Caixeta

No tocante ao senhor Clarindo, sua história mereceria ser escrita com


mais detalhes, o que ocuparia um espaço além do permitido neste livro. Ele
era filho de Antônio Fernandes Caixeta e Augusta Rangel da Silveira. Como
já disse, ele nasceu em Lagamar, Minas Gerais, conheceu o evangelho mais
ou menos com 21 anos de idade, em 1942, já casado e já pai de Otávio e
Cremilda. Esse conhecimento do evangelho se deu através de um obreiro
leigo chamado Francisco Tolentino Caixeta, também professor numa escola
rural. No entanto, só professou sua fé seis anos depois, em 1948, pela
ministração do Rev. Augusto Silva Dourado, professando sua nova fé e
batizando seus três filhos, Otávio, Cremilda e João.
Quando Cremilda nasceu, a mudança espiritual de seu pai já havia
ocorrido. Tanto que na ocasião ela nem pôde ser batizada pelo ministro
evangélico, e sim pelo padre da paróquia por imposição da mãe e da avó
paterna. E assim ela nasceu em plena guerra doméstica e religiosa. De um
lado e do outro imperava um romanismo exacerbado regido pela superstição,
sem aquele glorioso conhecimento que provém da leitura da Santa Bíblia.
Nem o sacerdote nem sua mãe, nem seus avós e nem qualquer outro tinham a
visão nítida da Providência divina. Quiseram abortar essa Providência. Mas
quando o Senhor age, nenhuma tentativa humana pode intervir. E assim seus
esforços de nada valeram para desviar o curso da história daquela família,
especialmente de Cremilda. Estava escrito que ela seria minha companheira
na mesma fé, no mesmo testemunho genuinamente cristão e no trabalho do
Senhor. Como está escrito: “Agindo eu, quem me impedirá?” (Is 43.13). Não
há força humana nem diabólica que anule os propósitos do Eterno!
Sua aceitação do evangelho foi muito abrupta e incomum, quando
ninguém nas duas famílias ainda era evangélico. Além do mais, havia uma
antipatia feroz da parte do romanismo nutrida contra os “protestantes”.
Naquela época, quem era “protestante” estava sujeito até mesmo a ser
apedrejado, cuspido, escorraçado da família e da roda de amigos. Senhor
Clarindo teve que enfrentar a fúria da família e de amigos. Certo
farmacêutico chamado José Rego poetou com ironia: “Lagamar, terra
distante, reduto dos protestantes, onde não se adora Maria. Vai mudando
desta terra, mancando de uma perna, o profeta João Elias”. Naturalmente, a
alcunha de “profeta” se devia ao fato de ser ele “protestante”. Era sinônimo
de alegria para a cidade quando um crente se mudava do lugar para outro.
Por exemplo, falando-se de perseguição, lemos no registro histórico da Igreja
Presbiteriana de Lagamar o seguinte relato:

Em 1942 tentou-se a construção de um templo em proporções


maiores, numa área cedida pela Prefeitura de Presidente
Olegário. Na época, o prefeito... orientado pelo pároco...
embargou a obra, uma vez que ela se daria em terreno público.
Foram duras tentativas de obtenção do terreno, porém em vão.

Consciente de que a prefeitura e o pároco não cederiam espaço


para a construção do novo templo, José Américo adquiriu um
terreno ao lado da igrejinha original, e por conta própria iniciou
essa construção. Aos pouco, conseguiu o apoio de outros
fazendeiros locais.

E o registro segue informando que a prefeitura, aliada ao sacerdote,


continuaram sua perseguição, tentando de todos os modos barrar os
“protestantes” de terem seu próprio templo, porém não conseguiram, pois
cada vez mais surgia e aumentava o interesse dos fazendeiros em favor dos
“protestantes”. E assim o novo templo pôde ser concluído e o legítimo povo
de Deus pôde também ter seu santuário para os cultos de adoração e para o
ensino da Palavra.
Naquela época ocorria coisa muito pior dirigida aos protestantes. Mas
era mui proveitoso, pois a perseguição tornava a igreja forte e com muito
menos cizânia, a qual é semeada hoje com muito mais proficiência e então
prospera. Hoje já não somos chamados protestantes, não somos perseguidos
como outrora, porém perdemos em grande medida a qualidade e vitalidade
da vida cristã. Hoje, os escândalos campeiam livre e abertamente no seio da
igreja. Outrora havia diferença em ser “protestante”; hoje, pode-se dizer com
doloroso pesar que quase não há diferença, quando não ocorre que esta
diferença seja em detrimento da fé cristã. A luz se ofuscou e o sal perdeu seu
sabor.
13. O Evangelho em Lagamar

Como em Ceres, Goiás, a história da igreja e da cidade se entrelaça por


laços tão fortes, que as duas histórias não podem dissociar-se sem que uma
seja danificada.
Por exemplo, sintetizando uma pesquisa feita pelo Rev. Salvador
Moisés Fonseca, a pedido, homem que, além de professor no IBEL, é
profundo conhecedor de toda aquela vasta região, lança mão de uma
monografia de Viviane Ribeiro e Carlos Henrique de Carvalho. Então, Rev.
Salvador fornece abaixo o seguinte informe:

Os primeiros documentos referentes às terras, onde se situa o


município de Lagamar, datam de 1931, época em que o local
pertencia a Patos de Minas. Antes denominada fazenda Carrapato,
Lagamar recebeu tal denominação pelo fato de ter havido nas
proximidades do município uma lagoa de água salobre.
O desenvolvimento da Vila de Lagamar se deu a partir de 1938,
quando ali se instalou o Sr. Porfiro Rodrigues Rosa, que objetivava
abrir uma estrada que ligasse o povoado de São Pedro da Ponte
Firme a Vazante, passando pela fazenda Carrapato...

Em dezembro de 1938, o povoado foi elevado à categoria de


distrito... com o nome de Lagamar; passando assim a pertencer ao
município de Presidente Olegário. Sua emancipação ocorreu em 30
de dezembro de 1962...

Para a instalação do município, foi nomeado intendente o Sr. José


Américo Ferreira, até que se realizassem as eleições para eleger
oficialmente um prefeito. O Sr. José Américo Ferreira era um
fazendeiro influente na região e foi o fundador da comunidade
presbiteriana em Lagamar.[6]

13.1. Dr. Alva Hardie

Como em muitos lugares, a história do evangelho em Lagamar é


fascinante e daria um livro volumoso. Como ficou registrado muito pouco
dessa história, a não ser palidamente nos livros de atas da igreja que se
radicou ali, os mais antigos fazem alusões provavelmente corretas. Por
exemplo, alguns se lembram da história de boca a boca de que o primeiro
missionário que andou por ali fazendo picada para posterior proclamação do
evangelho foi o Dr. Alva Hardie, grande e vigoroso missionário da Missão
Oeste do Brasil que passou a residir em Patrocínio e percorria toda aquela
ampla região mineira. Um relato feito pelo Rev. Wilson Castro Ferreira
parece endossar tal probabilidade. Por exemplo, ele registra que

Em 1922, Alva Hardie, em companhia de Robert Daffin,


empreendeu uma longa viagem pelos campos do Presbitério de
Minas... a vasta região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba,
estendendo-se até Patos de Minas, Carmo do Paranaíba e
Paracatu.[7]
Tudo aponta para a possibilidade de que o Dr. Alva Hardie passou pela
região de Porto de Pilar segunda vez na década de 30. Isso é corroborado
pelo registro histórico da IP de Lagamar após sua organização.
No entanto, valendo-me da pesquisa criteriosa feita pelo Professor
supracitado, Rev. Salvador, capto a seguinte informação:

Como vimos anteriormente, o trabalho religioso no Triângulo


Mineiro e no Alto Paranaíba teve início com John Boyle. No
entanto, sua atuação neste campo, incluindo Lagamar, foi
efêmera... Houve então um intervalo de mais ou menos 20 anos,
em que o trabalho religioso no Triângulo Mineiro e Alto
Paranaíba ficou por conta da população recentemente
convertida. A segunda fase do trabalho missionário tem início
em 1923 com a chegada de novos missionários norte-americanos
na cidade de Patrocínio, que retomaram o trabalho religioso na
região.

Contudo, durante a fase de interregno, os crentes do município


de Lagamar se uniam para ler a Bíblia e orar. Mas a
consolidação da comunidade presbiteriana no município de
Lagamar só ocorre após a conversão do fazendeiro José
Américo Ferreira.
Portanto, há probabilidade de que o Dr. Alva Hardie e Rev. John Boyle
tenham passado por ali em tempos mais remotos do que a fundação da igreja
propriamente dita. É apenas cogitação, mas há elemento bastante
comprobatório para se pensar assim.

13.2. Antonio Leão

Mas, antes de abordarmos a epopeia em torno dessa figura histórica,


isto é, José Américo Ferreira, fala-se também de um homem fugitivo da
guerra chamado Antonio Leão que teria se radicado naquela região. Ele teria
se casado com uma irmã de Antonio Fernandes Caixeta, pai de Clarindo
Fernandes Caixeta. Sendo crente, passou a distribuir literatura evangélica e a
pregar o evangelho às pessoas dali. Esse homem teria sido o primeiro a lançar
as sementes do evangelho no coração do fazendeiro José Américo Ferreira
antes de sua decisão definitiva que teria sido feita através do professor
residente em sua fazenda, Francisco Tolentino Caixeta. Possivelmente, ele
teria encontrado por lá os efeitos discretos da passagem do Dr. Alva Hardie e
John Boyle em tempos idos. Esses são os caminhos da Providência no uso
dos meios para a disseminação do evangelho que é como semente em terra
boa que logo germina e frutifica. E nenhuma cizânia é capaz de impedir a
proliferação da boa semente e a implantação de comunidades realmente
evangélicas.
Isso se coaduna bem com a história daquela igreja; e assim os efeitos
do evangelho cumpririam com perfeição a parábola de nosso Senhor acerca
do fermento que aos poucos leveda toda a massa. Pois com o passar dos anos
surgiu naquela região uma das igrejas mais fortes do que até mesmo muitas
das existentes nas grandes cidades. E isso tem a intervenção daquele homem
que a Prof.ª Viviane diz ter sido “intendente do município” e “fazendeiro
influente”. Até hoje naquela região fala-se desse homem um tanto misterioso
e de sua conversão à fé presbiteriana, cuja história se estende um pouco
mais.

13.3. Francisco Tolentino Caixeta

Após receber no coração a semente do evangelho através de Antonio


Leão, o senhor José Américo teria tido com o senhor Francisco Tolentino
Caixeta, professor em sua própria fazenda e crente notável, um diálogo
determinante. Ouvindo ele a pregação do evangelho através de Francisco
Tolentino em um culto em sua própria casa, veio a crer, com sua família, em
um clima dramático, pois lemos no livro do Evangelista João Soares
Branquinho, Dias abençoados, que aquele encontro de Francisco Tolentino
com José Américo foi de caráter novelesco. Porque, após ouvir a mensagem,
José Américo quis ter com Francisco Tolentino um diálogo reservado. Abriu
uma gaveta, retirou dela uma caderneta com o nome de três fazendeiros, e
em seguida lhe perguntou:

Senhor Francisco, será que depois que eu matar estes três


homens, Deus ainda me aceita como crente?

Senhor Francisco Tolentino lhe respondeu incisivamente:

O que eu vou lhe dizer é muito duro; mas não tenho nenhuma
outra alternativa. Se o senhor matá-los, Deus não o aceitará
jamais. E vou lhe dizer mais: o Espírito Santo tocou
profundamente seu coração e lhe mostrou a salvação em Jesus
Cristo. Se o senhor adiar a aceitação de Jesus como seu único
Salvador, cometerá o pecado de blasfêmia contra o Espírito
Santo. E Jesus ensina que este pecado não tem perdão. Portanto,
o que o senhor tem a fazer é queimar essa caderneta e aceitar a
salvação que Jesus está lhe oferecendo agora, e assim se tornará
uma nova criatura: um homem pacífico, humilde, manso etc. O
senhor está numa encruzilhada: a esquerda conduz ao inferno; e
a direita, aos céus. A decisão é sua.

“Sendo assim”, disse o senhor José Américo, “eu vou para a direita”.[8]
Isso mostra quão preciosa tem sido na história da igreja a participação
de alguns leigos, homens e mulheres, os quais se envolvem na propagação do
evangelho da graça de Deus de um modo direto e eficiente. Quantos têm
recebido o perdão eterno em Cristo pelo serviço prestado por esses modestos
servos de Deus! Em todo meu longo ministério sempre dei muito valor à
participação do elemento leigo na igreja. Os leigos precisam se despertar e se
preparar para que o Espírito do Senhor os use em larga escala. Isso sucedeu
a José Américo e foi determinante, pois este homem seria na história da
igreja em Lagamar um fator histórico no desenvolvimento do evangelho em
toda aquela região. A Providência divina usou esse homem como uma
bênção. Vejamos isso com atenção.

13.4. José Américo Ferreira

O senhor José Américo se ingressou na igreja com a família e


permaneceu nela até sua morte. Eu o conheci, pois era tio de Cremilda.
Através de sua aceitação da fé evangélica, muitos daquela região também
aderiram à igreja através de seu esforço. Dali em diante, a história da igreja é
quase que a história daquele fazendeiro que não aposentou sua arma de fogo
“a serviço do evangelho” nem abandonou totalmente os lados obscuros de
sua vida pregressa. Digo “a serviço do evangelho” entre aspas porque ele
passou a defender os crentes contra os esquemas assassinos do padre que
insuflava seus adeptos contra os crentes os quais às vezes se negavam a
ceder aos gritos do sacerdote, se mostrando mais humanos que o próprio
líder da igreja.
Ele custeava do próprio bolso as despesas do trabalho presbiteriano
numa vasta região, espalhando congregações, adquirindo terreno para a
construção de salão e depois do próprio templo. A Providência divina estava
no comando na implantação de uma grande igreja na região de Lagamar. No
entanto, prosseguindo com a pesquisa feita pelo Rev. Salvador, ele conclui
com esta nota:

Portanto, o Sr. José Américo Ferreira foi o responsável pelo


desenvolvimento da comunidade de Lagamar, durante o período
em que as Missões estiveram ausentes deste campo. E, por conta
própria, em favor da “nova” religião, passou a criar escolas no
meio rural, alfabetizando crianças e adolescentes, inclusive de
pais “incrédulos”.

13.5. Primeiros obreiros

O fato é que aquela igreja se agigantou, sendo implantada e


disseminada até mesmo antes que a própria igreja romana fosse instituída ali.
Ela atraiu missionários e obreiros leigos que vieram e deram-lhe assistência
com empenho dobrado. Por ali passaram os missionários Estevão Sloop,
James Woodson, Milton Daugherty, Joseph Wood; e os pastores brasileiros,
Augusto Silva Dourado, Nelson Armando Bonilha (o mesmo que estava em
Tupaciguara antes que eu viesse a conhecer o evangelho), Saulo Miranda e
Wilson Castro Ferreira. O primeiro evangelista leigo a residir ali teria sido
Adão Bomtempo, meu “velho” amigo, e o primeiro pastor brasileiro que
pastoreou aquela igreja foi o Rev. Graciano Chagas dos Reis, cujo pastorado
tão efêmero terminou logo com sua morte prematura. Tive o privilégio de
conhecê-lo pessoalmente durante meu tempo no IBEL.

13.6. Clarindo Fernandes Caixeta

Cremilda nasceu quando o senhor Clarindo se ingressava naquela


igreja. Assim que foi recebido à comunhão da igreja, também foram
batizados Otávio e Cremilda pela ministração do Rev. Augusto Silva
Dourado, pastor da igreja de Patos de Minas. Obviamente, dona Rosa ficou
fora por algum tempo. Mesmo em meio a tanta perseguição, aquela igreja
vicejou e veio a ser uma igreja numerosa e forte.
A história do senhor Clarindo e sua família é muito complexa e
dramática. Com ele falecido, se torna mais difícil descrever aqueles transes
que marcaram sua trajetória. Tenho-me valido da privilegiada memória de
Cremilda para restaurar um pouco da história da família. Mas uma coisa é
indubitável: sua experiência de conversão mostra o quanto é verídica a
doutrina da eleição divina. Aliás, em minha opinião pessoal, creio que, se os
cristãos fossem instruídos e sinceramente conscientes e gratos por sua
eleição e predestinação, a igreja de nosso Senhor seria muito mais forte em
fé e obras. Ter consciência de que o meu e o seu nome estão registrados no
Livro da Vida gera em nosso ser um turbilhão de sentimento e reação. Ser
grato pelo sustento material é um dever de cada cristão; mas, ser grato pelo
destino eterno, bem definido e seguro nas mãos do Eterno, constitui uma
bendita reação oriunda da graça do Deus soberano.

13.7. Evangelista dinâmico


Houve um período em sua vida que o senhor Clarindo trabalhou
comigo como evangelista no campo de Rialma, enquanto eu era o pastor da
igreja de Ceres, ambas em Goiás, apenas divididas pelo Rio das Almas.
Impetuoso, e às vezes chegando às raias da temeridade, ele me causou alguns
problemas administrativos e doutrinários. Certo dia, ele chegou à minha
casa, nervoso e agitado, dizendo que ia pular uma lição bíblica dada na
Escola Dominical, porque na verdade, para ele, não era bíblica, e que
aprendera a ensinar somente o que estava na Bíblia. Foi avisar-me que não
ensinaria aquela lição, pois discordava daquela doutrina. E qual era mesmo a
doutrina? Predestinação.
Ouvi toda sua queixa em silêncio e respondi-lhe com firmeza: Senhor
Clarindo, eu o tenho na conta não de mero sogro; para mim o senhor tem
sido meu segundo pai; e o tenho tratado assim. Caso o senhor queira ser
franco e sincero comigo, então tem que me ouvir. O senhor diz que esta
doutrina é antibíblica, enquanto que, se ela fosse removida da Santa Bíblia,
esta perderia todo seu sentido, pois esta doutrina é a coluna dorsal de toda a
Bíblia; ela começa no céu e termina no céu. Creio nesta santa doutrina, e
para mim ela é mui cara, não apenas porque a IPB crê nela e a confessa, mas
porque ela está em toda a Santa Bíblia; em alguns lugares, gráfica e
enfaticamente. Se o senhor não quiser ensinar esta doutrina na igreja de
Rialma, então não serve para ser meu auxiliar neste trabalho tão abençoado.
O senhor pode procurar outro campo, pois não trabalho com quem nega uma
doutrina tão explícita em toda a Santa Bíblia, pois eu creio e confesso aceitar
a totalidade da Bíblia, sem qualquer reserva. O senhor não tem qualquer
autoridade para escolher a doutrina em que quer crer. Este tem sido o pecado
de grande multidão de cristãos, mas não pode ser nosso pecado.
Resumindo, ele se retratou e continuou comigo por mais uns tempos.
Ele realizou um bom trabalho na região de Rialma, de Palmital e, mais tarde,
na igreja de Campinorte. Posteriormente, ele me confessaria que aquele
tempo em Rialma foi um dos períodos mais felizes de sua vida. Muitas
pessoas evangelizadas por ele vieram para a igreja e permanecem fiéis até
hoje. O que quero dizer é que o senhor Clarindo repensou sobre a doutrina da
predestinação e passou a crer nela e a ensiná-la.

13.8. Conselho pastoral


Meu conselho pastoral sempre foi que ninguém negue uma doutrina
claramente bíblica só porque não a entende e a vê pela ótica carnal e pessoal.
Sempre ensinei à igreja e principalmente aos neófitos que se ingressam na
igreja que o dever do cristão genuinamente evangélico é abraçar toda a
Bíblia, incondicionalmente. Não cabe a nenhum de nós, mesmo os mais
sábios, escolher na Bíblia aquilo em que quer crer. Foi o Espírito do Senhor
quem inspirou toda a Bíblia para que seu povo a tivesse como normativa e
diretiva. Conheço “cristãos”, e inclusive denominações “cristãs”, que odeiam
esta santa doutrina. Por que a odeiam? Porque ou não a entendem ou a
entendem mal. Uma doutrina distorcida é suficiente para que o resto da
Bíblia seja comprometido e visto de modo também distorcido. A teologia
reformada é biblicamente sólida porque não permite qualquer negação
doutrinal. Ela parte da soberania absoluta de Deus. O seu Deus é que é
soberano, e não o homem. Portanto, negar e odiar a doutrina da
predestinação equivale a violentar a revelação divina dada pelo Espírito
Santo. Equivale a dar-me um direito que não me pertence. Meu dever
sagrado é crer e abraçar toda a Santa Escritura como a revelação escrita de
Deus. Tudo o que se encontra nela procede do Deus que quis revelar-se ao
seu povo. Tudo o que se encontra nela provém de sua soberana graça.

14. Um fim doloroso

Bem mais tarde, perdendo as forças e a saúde, passando a residir em


Aparecida de Goiânia, estando Cremilda já aposentada de sua função no
Instituto Mackenzie, e eu, sem igreja, e podendo fazer minhas traduções em
qualquer lugar do país, com o advento da internet, combinamos então sair da
capital paulista e vir morar em Aparecida de Goiânia para que ela pudesse
assumir todo o cuidado de seus pais.

14.1. Filha que se converte em mãe

Fomos morar vizinhos, podendo assim prestar-lhes assistência


constante. Foi essa mesma filha única que passou a ser a “mãe” dos próprios
pais até sua morte. Senhor Clarindo morreu em nossa casa, num quarto pré-
hospitalar, e dona Rosa poucos anos depois, também sob o intenso cuidado
de sua filha. Fui testemunha ocular de uma vida que é consumida pelo
cuidado dos pais, dia e noite, sem cessar e sem reclamar.
Há em toda esta história final na vida do casal detalhes que prefiro
deixar sem nenhum registro em meus arquivos; e gostaria inclusive que
fossem apagados dos registros de meu próprio cérebro; e espero
ardentemente que o Deus de misericórdia já tenha apagado todos eles dos
livros de registros das obras dos santos com seu infinito perdão baseado no
sangue de nosso Senhor Jesus Cristo; porquanto são detalhes mui dolorosos e
sombrios para que sejam lembrados.

14.2. Cumprimento do dever

Acompanhei dia e noite o grande esforço de minha querida esposa para


amenizar o sofrimento dos velhos pais. Eu tinha que continuar meu trabalho
literário que naquele tempo era volumoso. Com muita fadiga, ela conseguiu
cumprir com seu dever até o fim. Frágil, quase sempre com problema de
saúde, heroicamente seguiu em frente até que tudo se consolidasse. Em tudo
damos graças ao único que é perfeito: o Deus de toda a glória e de
sapientíssima Providência. E esta Providência nos assistiu dia e noite. Muitas
de minhas traduções, feitas naquele período, poderiam testificar quão grande
luta foi aquela, do lado dela e do meu lado. Para isso, tivemos que passar por
alto muita coisa.

15. Otávio Alves Caixeta

Este veio a ser um grande evangelista, inicialmente leigo, mais tarde


sagrado ao ministério completo. Por todos os lugares por onde perambulou
como missionário, ele deixou um trabalho de raízes bem fincadas e
duradouras. Espírito missionário nato, naturalmente espirituoso, seu nome e
sua história mereceriam ser escritos até mesmo com detalhes. Creio que o
nome e obras missionárias do Rev. Otávio Alves Caixeta se acham
registrados, primeiramente, no Livro da Vida; e, em segundo lugar, nos livros
dos feitos daqueles que consagraram suas vidas para a expansão do reino de
nosso Senhor Jesus Cristo, ainda quando não se escreva aqui sequer uma
linha sobre ele.

16. Antonio Caixeta Neto


Antonio Caixeta Neto veio a ser teólogo culturalmente mais avançado
que Otávio, pois fez seminário, se doutorou em psicanálise e seu nome está
inserido numa amplitude mais completa no campo da cultura humana e
divina.
Sobre este cunhado, porém, deixo um registro muito particular em
conexão com minha vida pessoal e ministerial. Foi ele quem me presenteou,
quando no Seminário Presbiteriano do Sul, com um livrinho muitíssimo
precioso editado pela Editora Fiel, intitulado Deus é soberano. Li e reli
aquele livro e senti o desejo de partilhar minha experiência com a própria
Editora Fiel. Jamais imaginaria que minha carta fosse traduzida para o inglês
e convertida num tipo de circular em muitas igrejas relacionadas com a
Editora Fiel. Isso me pôs em contato direto com o fundador daquela Editora,
Dr. Richard Denham, de quem me tornei amigo e, no futuro, companheiro
nas lidas literárias. Significando que aquele livrinho, presenteado por meu
cunhado Rev. Dr. Antonio Caixeta Neto, mudaria os rumos de toda minha
vida, como se poderá ler no capítulo sobre a Editora Fiel e eu. Digo ainda
que esse cunhado doou boa parte de sua biblioteca pessoal à minha,
tornando-se esta ainda mais rica de obras de muita relevância. Além de
preciosas, elas têm me propiciado um arsenal de pesquisas constantes em
minhas lidas literárias. De um modo particular, tenho para com esse cunhado
uma dívida perene; e desejo, como sempre desejei, que ele termine sua
trajetória terrena sempre abençoado e guardado pelas mãos do Eterno.
Apesar das grandes diferenças de temperamento, personalidade e
formação que houve e há entre nós, sou eternamente grato à família de minha
esposa Cremilda. Na verdade, o beneficiado sempre fui eu mesmo, e sinto no
âmago de minha alma que o Senhor da Igreja me tirou do nada para usar-me
numa grande obra e me deu pessoas que me trouxeram muita riqueza
espiritual. Minha vida e meu ministério nada seriam sem elas. Esse é o
método do Eterno: usar seres humanos como bênçãos uns para os outros.
Ninguém pode ser uma ilha, se quiser servir bem ao Eterno. Aliás, servir ao
Senhor aqui é servir a pessoas como nós.

MINISTÉRIO EM ITURAMA

Após o casamento viajamos rumo a Iturama, nosso primeiro campo.


Não houve tempo e dinheiro nem mesmo para um período de lua de mel. Na
verdade, nossa lua de mel foi consumada em plena atividade. Nossa
mudança foi levada em uma Kombi. O que faltava compramos aos poucos
com nossos salários de evangelista e de professora.
Nossa permanência em Iturama durou cinco anos. Durante esse tempo
nasceram nossos primeiros três filhos: Sóstenes, Wânia e Simonton. Havia
na congregação uma escola primária, e Cremilda era a diretora e professora,
além de me acompanhar na assistência à congregação, inicialmente a pé,
mais tarde numa vespa e em seguida numa lambreta, e terminamos nosso
tempo numa moto enguiçada. O fato é que aquela escola rendeu muito para
nosso trabalho. Através dela, muitas pessoas vieram para a igreja e eram
instruídas na sã doutrina, embora o mestre fosse um mero novato, porém um
novato esforçado.

1. Perseguição

O grupo cresceu e tivemos que quebrar algumas paredes. No entanto,


enfrentamos os inimigos da fé, como já relatei previamente. Pode parecer
incrível, mas não foram os romanistas nossos algozes, e sim os membros da
Congregação Cristã do Brasil. Tudo faziam para minar nosso esforço,
afastando os interessados e arrebatando-os para si; conseguiram levar uns
poucos, porém não muitos, porquanto me esmerei para confrontar as seitas
com a igreja genuína. E aquela seita conta com duas armas terríveis, à
primeira vista eficazes, embora de modo algum bíblicas. A primeira arma é o
uso que a igreja faz do dízimo. Ela condena o dízimo na dispensação da
graça. Proclama abertamente que os dízimos das igrejas dizimistas são para o
uso pessoal dos pastores, com o fim de viverem na pompa. E a outra arma é a
inexistência de pastor na igreja. A Igreja do Novo Testamento, dizem eles,
não tem pastor, e sim cooperador e ancião. Pastor é invenção de homens que
querem escravizar pessoas para seu próprio proveito. Ora, os “cristãos”, que
por algum motivo passam a detestar os pastores e o dízimo, vão correndo
para essas seitas, sem saberem que lá também existem liderança e
contribuição financeira. Artimanhas de Satanás! Mas venci tudo isso com as
armas da Verdade. E o verdadeiro povo de Deus também vence esses
inimigos da fé genuína.
2. Cristãos fortes

Encontramos na congregação de Iturama crentes fortes e viriam outros


também de fé robusta. O primeiro contato foi com uma senhora chamada
Terezinha, mãe de quatro filhos, Esdras, Éder, Edson e Édina, e cujo esposo,
José Prudência de Queiroz, mais conhecido em toda a região pela alcunha
José Carneiro; este ainda não era crente professo, porém frequentava a igreja
com sua família. Aquela família e a minha estavam destinadas a uma
amizade perene, mais de cinquenta anos transcorridos. Ele faleceu membro
professo daquela igreja; ela continua ali como um marco de fé com seus
quatro filhos.
A outra família foi a de Josafá, comerciante liberal que ajudou muito
com suas rendas na edificação principalmente do templo de Iturama. Família
numerosa, porém, até onde eu sei, só sobrou uns poucos dela no aprisco do
Senhor. Esta é uma nota dolorosa, porém real! “Muitos são chamados, mas
poucos escolhidos.”
A outra família, também numerosa, porém muito humilde, se
compunha de Iraci e seus filhos; seu esposo nunca abraçou o evangelho.
Aquela senhora e alguns de seus filhos persistiram na igreja até o fim.
Outra família que veio já em nosso tempo, e que rendeu bem, foi a de
Salvilina e alguns filhos. Numa quarta-feira, culto doutrinário, aquela
senhora entrou no templo com uma ou duas filhas. Assentaram-se e
participaram do estudo bíblico. Ela veio com Bíblia em punho.
Surpreendentemente, no final do culto ela pediu a palavra para dar seu
testemunho. Disse que determinara em sua mente e coração ser crente e
serva do Senhor. Saiu em busca de uma igreja que satisfizesse seus anseios.
Visitou várias delas, porém não se sentiu devidamente convicta. Ao entrar
ali, sentiu que doravante aquela seria sua igreja. Isso nos trouxe espanto,
perguntando se havia algo de verdadeiro no relato. Aquela senhora de vida
ardorosa tem sido até hoje um dos arrimos daquela igreja.

3. José Inocêncio

Tivemos outra experiência chocante com um homem chamado José


Inocêncio. Era pedreiro, seus filhos passaram a ser alunos de nossa escola,
por isso Cremilda e eu fomos visitá-los. Não sabíamos que ele era espírita
confesso. Ele já ficou armado para o caso de surgir o assunto religioso. Mas
ficou surpreso por não termos tocado nesse assunto. Outras visitas se
sucederam. Numa delas, perguntei-lhe se era religioso e qual era sua religião.
Ele disse: Eu sou espírita, declarou com toda a ênfase; e buscou uma pilha de
livros espíritas e pôs em minhas mãos, dizendo: Eu sou espírita, vindo de
Uberaba, discípulo direto de Chico Xavier. Manuseei os livros e os devolvi,
dizendo: tudo bem, senhor José, podem ser livros bons, mas noto a ausência
do livro mais precioso. Ele perguntou: Qual? A Bíblia, respondi. Meio
desajeitado, respondeu que possuíra uma, mas que, por ser de letra muito
miúda, a presenteara a um amigo. Senhor José, o senhor pode ler qualquer
livro, mas se não ler o Livro dos livros, nunca irá aprender a plena verdade
de Deus. Se eu lhe der de presente uma Bíblia de letra mais graúda, o senhor
aceita? Aceito, respondeu. E assim eu fiz; dei-lhe uma Bíblia e dei-lhe as
coordenadas de como lê-la com proveito.
Ele começou a frequentar os cultos de quarta-feira, portando sua nova
Bíblia. Em nossos estudos, chegou o momento de falarmos sobre a
ressurreição dos mortos. Para aquele homem, isso soou como uma bomba. A
leitura foi de 1 Coríntios 15. Questionou a veracidade da doutrina, e disse
que havia aprendido que não existe ressurreição dos mortos, que é um
absurdo e uma impossibilidade; existe, sim, reencarnação. Em pleno estudo,
ele levantou-se e foi embora, murmurando que não creria naquilo que
contrariava sua crença desde a mocidade. Que não iria aprender uma coisa
nova que até então havia crido ser falsa. Naquele momento, a congregação
reunida sentiu certo desconforto. Eu mesmo tive dificuldade em concluir o
estudo e encerrar o culto.
À tardinha da semana seguinte, estando eu em casa, vi chegar à porta
aquele mesmo senhor, perguntando se podia entrar e falar comigo. Assentou-
se e me falou mais ou menos assim: O senhor começou a “bagunçar” minha
vida, e agora precisa endireitar. Há muitos anos aprendi que a doutrina
correta é a reencarnação; e agora o senhor ensina que reencarnação é
invenção humana, e que a doutrina que Cristo e os apóstolos ensinaram é a
ressurreição dos mortos. Para mim, esta doutrina é absurda.
Então lhe disse que não podemos crer corretamente nas coisas de Deus
senão pelo Livro que ele nos entregou através dos patriarcas, dos profetas e
dos apóstolos como sendo a revelação suprema de Deus ao seu povo.
Mostrei-lhe que o espiritismo não é a religião de Jesus; é uma religião criada
pela mente humana que não aceita a revelação divina. Se de fato ele quisesse
aprender a verdade de Deus, teria que mudar de fonte. Em vez de beber da
fonte contaminada e cavada pelos homens, precisava beber da fonte que
Deus mesmo criou, água límpida de uma fonte pura, que é a Santa Escritura.
Fora desta fonte, ele iria terminar muito mal. Para conhecer a eterna salvação
em Cristo, esta é a única fonte divina. Ele levantou-se em pranto e disse:
Tudo isso é forte demais para mim; não sei se vou suportar. Despediu-se e se
foi. A única coisa que podia fazer no momento era orar e esperar. Na
próxima quarta-feira, eis que entrava o senhor José, agora com sua família.
Durante o estudo, ele pediu a palavra para dizer que agora cria na Santa
Escritura e queria ser membro daquela igreja com toda sua família.
E assim se deu; preparei a família e a recebi: ele, sua esposa e seus
filhos. Agora passou a ser meu discípulo, não mais de Chico Xavier; deixou
de seguir Allan Kardec para seguir Jesus Cristo. Ajuntou seus livros e os pôs
em minhas mãos, declarando que nunca mais os leria.
Aquela congregação ganhava mais uma família numerosa em seu seio.
Homem muito pobre, com imensa dificuldade para sustentar tantos filhos,
tivemos que ajudá-lo a vencer; ele passou a ser uma bênção para a igreja e
vice-versa. Ele exercia a profissão de pedreiro, que não é pouco rentável,
porém não era suficiente para uma família numerosa. Pelo menos boa parte
de seus filhos permaneceu na igreja. Bem mais tarde encontrei um dos filhos,
o Carlos, cursando o Seminário Presbiteriano do Sul de Campinas, São
Paulo.

4. Dr. Lourenço Martins Maia

Naquele ínterim, de vez em quando aparecia em nossos cultos um


senhor bem aparentado vindo de Carneirinhos, a uns 60 quilômetros de
Iturama, para participar do culto, pois ali ainda não existia igreja. Dr.
Lourenço Martins Maia se radicara naquela região e era o único protético
conhecido num raio de muitos quilômetros. Ele viveu muitos anos dando sua
assistência científica nas vilas e campos. Seu nome se agigantou e passou a
ser uma das principais figuras por toda aquela região, não só por seus
serviços, mas sobretudo por sua integridade. De certa forma, ele foi um dos
fundadores da Vila Carneirinhos. Esse homem viria ser um dos vultos que
mais marcaram minha vida de ministro do evangelho. Para mim, ele é irmão
duas vezes — na carne e no espírito. A Providência usou aquele irmão e sua
família como uma lâmpada resplandecente que lança chispas de luz para
todos os lados.
Certo dia visitamos Carneirinhos para conhecer melhor o Dr. Lourenço
e sua esposa dona Clarinda, e planejar a fundação de uma congregação ali. E
tudo foi acontecendo de tal maneira que um membro da família Carneiro,
senhor Marcondes, não evangélico, doou um terreno para a construção do
templo. Quem o construiu? O senhor José Inocência e nós com ele como
serventes. Praticamente, não havia mulher crente ali; mas a esposa do Dr.
Lourenço, dona Clarinda, que veio a crer mais tarde, juntamente com umas
parentas, nos proveram de alimento e outras comodidades. O fato é que não
muito depois disso o templo estava erguido e já estávamos cultuando o
Senhor em sua modesta nave. Aquela congregação foi fundada sobre
lágrimas e orações e leituras da Santa Bíblia. É muito difícil descrever certas
coisas e escrever sobre elas. O espírito fica tumultuado, o coração se derrete e
a mente fica confusa ao retroceder a um tempo que ficou tão longe!

5. A família Carneiro

A origem desta vila remonta a uma grande e famosa família da região


intitulada “os Carneiros”. É uma história imensa, antiga e complexa. Apenas
menciono uns poucos dados para falar um pouco da Congregação
Presbiteriana ali. Esta é justamente a família de José Prudência de Queiroz,
nosso amado irmão José Carneiro, já mencionado. Senhor Juvenal, o pai, com
quem muitas vezes eu me privei em diálogos preciosos sobre sua vida e
história, pai de muitos filhos, dentre os quais destaco três: José Carneiro, que
se tornou membro da congregação de Iturama com esposa e quatro filhos;
senhor Marcondes, que nos doou o terreno para a construção do templo, o
qual nunca confessou a fé evangélica, mas era de espírito caritativo; e a irmã
deles, dona Ovídia e seu esposo, senhor Emídio, em cuja casa nasceu aquela
congregação, quando eles mesmos jamais chegaram a ser membros dela. Ele
continuou católico romano e ela abraçou uma crença criada por certo padre,
chamada “Santa Avó Rosa”. O único crente na família era o senhor José
Carneiro, e foi ele um dos que nos ajudaram a plantar aquela congregação.
Portanto, aquele grupo de crentes nasceu dentro da casa de uma família
“Carneiro” e o terreno doado por outro dessa grande família, mas que
somente um deles abraçou a fé presbiteriana. Como já disse, o pivô de tudo
isso foi o Dr. Lourenço Martins e Maia e sua esposa dona Clarinda.
E assim, irmanados com fé e grande vigor, aproveitamos o terreno
doado pelo senhor Marcondes Carneiro, a casa de dona Ovídia e senhor
Emídio, o entusiasmo do Dr. Lourenço, do senhor José Carneiro, senhor José
Inocêncio e outro senhor, de quem só me lembro o pré-nome, senhor
Manoel, com a disposição da esposa do Dr. Lourenço, dona Clarinda, para
nos prover alimento e descanso, começamos a construir o templo de
Carneirinhos. Isso se deu em meio a muita tribulação, pois nossa semeadura
era seguida pela Congregação Cristã do Brasil, cujos líderes vinham e
tentavam arrancar ou danificar o que íamos plantando. O fato é que, a
despeito de tudo, quem logrou vitória foi o Espírito do Senhor. Ali ficou
plantada uma congregação que existe até hoje.
Quando se conta uma história antiga e sem registro, é impossível evitar
as omissões. E essas omissões costumam gerar profundas raízes de
frustração e queixa. Nossa história já ultrapassou 50 anos. Nem eu nem
aqueles cristãos antigos ainda vivos conseguimos trazer à tona a memória de
tudo o que aconteceu naquele tempo. Mas o fato é que, ao longo de cinco
anos, Cremilda e eu, sempre lado a lado, conseguimos, em meio a mais erros
do que acertos, pela graça do Eterno, deixar uma congregação forte em
Iturama e outra nascente em Carneirinhos; que hoje é uma pujante cidade do
Triângulo Mineiro e a igreja continua viva.

OUTROS CAMPOS

1. Pirapora

Expirado o quinto ano no campo de Iturama, de 1964 a 1968, em 1969


a Missão me transferiu para Pirapora, Minas Gerais, às margens do Rio São
Francisco. Cidade portuária, dali descia e subia o rio uma frota de barcos a
vapor; com isso, ela veio a ser, de certo modo, uma pequena cidade
cosmopolita. Ali nasceu uma igreja cujos primórdios se perderam nas
brumas do tempo, pelo menos em minha ótica e conhecimento.

1.1. Manoel Ferreira


Por ali passara um dos homens mais humildes, sofredores e
conhecedores da Santa Escritura que já conheci. Falo do evangelista (mais
tarde Rev.) Manoel Ferreira. Meu conhecimento de sua pessoa e obra
missionária é muito pouco. De vez em quando nos encontrávamos nas
reuniões da Missão e mais demoradamente quando ele foi obreiro na cidade
de Formosa, Goiás, onde foi ordenado pastor. Foi aí que participei de alguns
estudos bíblicos ministrados por ele. Voz mansa e pausada, passeando pela
Escritura com maestria, revelava que era um atento estudioso do Santo
Livro. Vale dizer que este homem era quase cego. Ele lia livros e, sobretudo,
a santa Escritura com uma lupa. Manoel Ferreira é um dos tantos servos do
Senhor que a igreja não tomou e jamais tomará conhecimento. Há uma
multidão de homens e mulheres de vida consagrada ao Senhor que até
mesmo seus rastros são apagados e seus nomes jamais figurarão em algum
livro. Todavia, lemos no livro do Apocalipse:

Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém


podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em
pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras
brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz,
dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro,
pertence a salvação (Ap 7.9, 10).

Eu pergunto: realmente importa que nosso nome seja conhecido aqui e


agora? O que realmente importa é que os nomes dos santos sejam conhecidos
do Eterno e estejam escritos no Livro da Vida do Cordeiro (Lc 10.20; Ap
21.27). Seja-me suficiente que meu nome se misture com os nomes daqueles
milhares de milhares que no último dia prorromperão em louvores ao
ocupante do trono e ao Cordeiro a quem pertence nossa salvação. Um desses
nomes glorificados pelo Cordeiro eterno está o de Manoel Ferreira, que de
vez em quando chegava à casa de meus sogros e pedia asilo, juntando-se a
eles à mesa para saciar sua fome. Há anos que sua alma se juntou às almas
que se acham debaixo do altar celestial (Ap 6.9-11), ou no seio de Abraão
(Lc 16.23), ou no paraíso (Lc 23.43) em pleno repouso consciente e feliz, até
o dia da ressurreição de seus corpos mortos.
Há uma vasta multidão de grandes homens e mulheres cuja história
terrena a igreja não consegue tomar ciência, pois não houve e não há quem a
escreva. Meu intuito neste livro é, além do mais, pelo menos mencionar
alguns desses santos personagens com os quais esbarrei pelas andanças e
lidas missionárias. Por isso, menciono com honra, ainda que pouco, a pessoa
e obra desse gigante da fé — Manoel Ferreira —, que passou por Pirapora
antes de mim, e voltou depois de mim, deixando ali uma influência secreta
com seus candentes sermões e estudos bíblicos. Mesmo em meio aos seus
mais cruciantes sofrimentos, ele manteve sua fidelidade a Cristo até o fim.

1.2. Sofrimento e fraqueza

Em Pirapora, eu e família estávamos destinados a sofrer provações e


privações terríveis e perenes em decorrência do juízo de pessoas
inescrupulosas arroladas àquela igreja. Ali, nossas tribulações chegaram às
raias do desespero. Neste mundo, há coisas que o melhor a fazer é esquecê-
las, para que no futuro nossa vida não continue amarga e não guardemos na
memória aquilo que é preferível esquecer do que lembrar.

1.3. Enquanto neste mundo, a Igreja é mista

Ali experimentaríamos o quanto a igreja terrena tem um misterioso


misto de santidade e perversidade; no dizer de Jesus, de trigo e cizânia. Os
santos batem em seus peitos com horror de si mesmos, sem ter ciência de
que são os santos de Deus; e os perversos se arvoram de ser os santos de
Deus, contudo não têm ciência de que são perversos e que estarão à esquerda
do Supremo Juiz, e não à sua direita. Não temos como julgar com exatidão
os santos e os perversos com base em sua vida exterior, pois nossa ótica é
extremamente falha.
Por exemplo, pela ótica moderna, quem diria que o Lázaro da história,
contada por Jesus, fosse filho de Abraão? Externamente, o abençoado era o
rico, e não Lázaro. O que havia na vida exterior de Lázaro que fizesse dele
um filho de Abraão, isto é, filho da fé herdada por Abraão ou filho de Deus?
No entanto, nosso Senhor esmaga o ego do ser humano para mostrar que a
salvação de cada um de nós é secreta, misteriosa e surpreendente. Ela
depende unicamente da eleição da graça, no dizer de Paulo aos Romanos
(Rm 11.5). Todavia, Jesus fala ainda dos frutos ou de um coração mau ou de
um coração bom, isto é, regenerado pelo Espírito Santo. Até certo ponto, é
possível sabermos se uma pessoa é de Deus ou não. No entanto, o melhor a
fazer é nos abstermos de julgar àqueles que nos cercam.

1.4. Fatores determinantes


Nosso tempo em Pirapora foi muito curto em razão de dois fatores: o
primeiro consiste no que certas pessoas fizeram de mal a nós. Essas pessoas
quase destruíram minha vida de obreiro e a de minha família. E a outra razão
foi a morte do missionário e quase toda sua família num acidente aéreo,
quando de regresso da América do Norte no desfruto de suas férias. Ficou
em seu lugar um pastor brasileiro. Então, a Missão concordou que eu não
deveria ficar ali e me transferiu para João Pinheiro, cidade que margeia a BR
Brasília/Belo Horizonte.

1.5. Anjos de Deus


Não obstante, vale muitíssimo trazer à lembrança alguns benefícios que
recebemos em Pirapora. Primeiro, veio justamente da esposa de um
presbítero paranoico, enfermeira habilidosa e generosa, juntamente com
outra enfermeira, Onã, que foram os anjos de Deus quando nossa filha Eline
nasceu. Enquanto seu esposo nos massacrava inexoravelmente, dona Maria
de Oliveira, prima do Rev. Dr. Divino José de Oliveira, que mais tarde seria
meu tutor ministerial em Goiânia; sim, dona Maria, um dos primeiros alunos
do Instituto Bíblico Eduardo Lane (IBEL), mulher santa e mui caridosa, foi
um anjo de Deus em nossa vida, cuidando de Cremilda e Eline, recém-
nascida, quase abortada pela violência de seu esposo.

1.6. Amigos especiais

1.6.1. Osvaldo

Outra bênção em nossa vida ali foi um jovem de nome Osvaldo, que
conseguiu fazer-me sentir um obreiro de Deus. Moço crente, humilde, de
vida retilínea, em grande medida foi instruído por mim. Hoje mora em
Goiânia e é membro de uma das igrejas presbiterianas e prossegue na vereda
da vida eterna.

1.6.2. Nátson
Outro elemento que para mim veio a ser muito gratificante, a saber, fui
pastor de um menino, cujo nome é Nátsan P. Matias, filho de Natalino e
Sandra. Hoje ministro do evangelho em Goiânia, homem estudioso,
habilidoso observador dos problemas sociais não só da igreja, mas também
da própria sociedade humana, passou a escrever livros sobre assuntos
momentosos. Hoje, Rev. Nátsan é um homem posicionado na barricada da
verdade, e uma eminente figura no Seminário Presbiteriano Brasil Central
como um de seus professores. E sinto que de alguma forma eu tenho um
pouco a ver com a formação deste talentoso ministro da Palavra, de uma
maneira secreta, misteriosa, como a somatória do ministério da Palavra.
Quando cremos que nosso ministério foi de nenhum valor em determinado
lugar, estamos enganados, pois existe nele o lado implícito, secreto, o qual só
pode ser visualizado pelo Espírito Santo. Aliás, o próprio Espírito é o autor
de tudo isso.

1.6.3. Gecy

Gecy foi criado em Pirapora com uma irmã e seu cunhado. Em razão
da incompreensão de seu cunhado e por possuir um defeito físico, tornou-se
um adolescente revoltado, dominado pelo senso de inferioridade e briguento.
Ele mesmo conta que “aos treze anos, para não ser expulso da escola onde
estudava, em decorrência de meu comportamento violento, pois brigava com
todos e até mesmo com as professoras, passei um período sem estudar. Foi
quando tive a oportunidade de estudar na Escola Presbiteriana da igreja
local”.
Ele continua narrando que foi ali que pela primeira vez teve contato
com o evangelho, e aos poucos foi recebendo “mudanças radicais em meu
comportamento pessoal e social”. “Em 1966, tive o privilégio de me formar
na escola primária, recebendo meu primeiro diploma.” Ele conta que essa
vitória se deveu, em primeiro lugar, ao “meu Deus”; e, em segundo lugar, ao
Rev. Estevão Sloop, missionário americano e pastor daquela igreja. Este
homem “foi usado como instrumento nas mãos de Deus para meu encontro
com Cristo”. Ele diz que isso se deu em 1968, no Acampamento Boa
Esperança, em Goiânia. Vale lembrar que eu estava presente naquele evento
que se deu no ABE e me lembro bem daquele encontro com ele em virtude
das músicas que ele tocou no violão e entoou.
Para Gecy, seu impulso inicial para ser pastor surgiu das pregações de
Manoel Ferreira, então obreiro leigo naquela igreja, e esse sentimento
aumentava paulatinamente até se tornar um sonho mais estruturado. E foi
nessa época que ele conheceu a missionária Martha Little, supervisora das
Escolas da Missão. Em seus primeiros contatos com esta santa missionária,
surgiu da parte dela interesse pela situação e pessoa de Gecy com seus
problemas existenciais e físicos. Ela providenciou meios para que Gecy fosse
operado das pernas. E foi ela ainda que, combinando com Rev. Estevão
Sloop, programou a ida de Gecy para o IBEL.
Foi nesse tempo que fui transferido de Iturama para Pirapora, 1968,
campo de minhas mais renhidas lutas como obreiro de Cristo. Numa
programação dos jovens, ele ficou incumbido de falar da vida de Estevão,
primeiro mártir da Igreja Primitiva. Ele tinha que apresentar uma mensagem
sobre aquele santo varão. É ele que conta de minhas palavras expressas após
sua mensagem: “Olhe, o que você fez foi um verdadeiro sermão”.
Resumindo, Gecy conta que havia desistido de fazer o IBEL porque
não tinha nada. Ele não revelou que esse nada era nada mesmo. Então, se
tornou inviável e impossível realizar seu sonho de cursar o IBEL. Cremilda,
liderando as senhoras da igreja, promoveu uma festinha de despedida de
Gecy e outra jovem da igreja, Marlene, que também faria o IBEL. Naquele
programa, ambos receberam tantas coisas e dinheiro, que possibilitaram a
concretização de seu sonho. Ainda hoje ele conta isto com visível emoção.
Finalmente, ele foi cursar o IBEL em 1969, e eu continuei em Pirapora
até meados de 1970, quando da morte do missionário Robert Litton. Durante
esse tempo, acompanhei a vida de Gecy no IBEL com orientação e
assistência espiritual. Ele conta essas coisas; em minha mente, porém, nada
ficou gravado. Depois de terminado seu curso bíblico, seu primeiro campo
foi Inhumas, onde se casou com Maria, cuja celebração foi feita por mim.
Sempre estivemos juntos, quer física, quer espiritualmente. Tanto é que mais
tarde ele foi assessorar-me na Editora Cultura Cristã quando eu era seu
diretor editor.
Concluindo, afirmo que o Rev. Gecy Soares de Macedo se tornou um
grande ministro do evangelho, superando a mim em projeção, integridade e
cultura. Desde a instituição de Edições Parakletos e publicação de algumas
das obras de João Calvino, ele sempre esteve comigo em meio às maiores
lutas existenciais e ministeriais que tive de enfrentar. Foi sempre um amigo
discreto e até silencioso quando eu caminhava pelo vale da sombra e da
morte. Tenho poucos amigos como ele. Aliás, posso contá-los nos dedos das
mãos e pode ser que ainda sobrem dedos.

1.7. O efeito de uma acusação injusta


É muito difícil quando você é acusado de um delito do qual
absolutamente não é o autor, nem mesmo teve consciência de sua existência
nos bastidores, porém passa para a história como sendo seu autor. Não há
nada que você faça para provar sua inocência. Seus argumentos são
nulificados ante a aparência externa dos argumentos contrários. Tudo
concorre para a “verdade” do outro lado. Ver a mentira prevalecer e triunfar
causa um profundo abatimento na alma. Você se sente impotente e tem que
observar as pessoas olhando como que para uma pessoa indiscutivelmente
culpada. Davi fugia de Absalão, seu filho, e à margem do caminho Simei
seguia “xingando” e amaldiçoando Davi. Quando um de seus oficiais
perguntou se o rei queria que ele fosse lá e cortasse o pescoço do agressor,
Davi respondeu: Se o Senhor lhe ordenou que faça isso comigo, quem sou eu
para o impedir? Davi falava da soberania de Deus que pune os santos quando
estes pecam, fazendo uso dos filhos de Belial para trazer-lhes amargura,
arrependimento e restauração. Esta é uma dura disciplina divina na escola da
vida.

1.8. O que temos a imitar

O que nos alenta é que no dia final se lerão os relatórios sobre a vida
dos santos e a verdade será clarificada. Então, o que fazer no ínterim? Depois
que nosso Senhor, no estertor do Gólgota, rogou: “Pai, perdoa-lhes, porque
não sabem o que fazem”, o que nos sobra ou nos cabe fazer? Menos que
isto? Não há como ou por que não perdoar as ofensas que nos são feitas aqui,
pois nós também temos nossa cota de ofensa lançada sobre outros. É isso que
os teólogos chamam de “solidariedade do pecado”. Você é pecador e eu
também! Se aquele que não conheceu pecado perdoou e perdoa os pecadores,
por que não devo, sobretudo, perdoar os que erram contra mim? Visto que eu
também desejo ser perdoado pelos ofendidos por mim.
Infelizmente, não há como apagar da memória as coisas negativas que
nos aconteceram mesmo em um passado já longínquo. O coração já não
odeia, porém a mente se recusa a esquecer. Paulo se lembrava das
perseguições que lançara sobre a Igreja de Deus; no entanto, ele diz:
“esquecendo-me das coisas que para trás ficam”, sem cometer qualquer
contradição sobre “lembrar” e “esquecer”. Lembrar é um ato da memória;
esquecer significa já não levar em conta o que passou. A lição que fica é que
o melhor a fazer é não condenar a ninguém por seus erros, porquanto nem
mesmo sabemos definir “erros”, sejam os nossos, sejam os de outros.

1.9. Provação particular


Com sua morte prematura, o missionário Robert Litton foi substituído
por um brasileiro, cujo nome omito por conta da justiça, pois aquele homem
foi um grande servo de Deus, e o mal que nos fez pensava ser bem. No
entanto, eu nunca soube a que ele mais se dedicava: se à Igreja de Jesus
Cristo, ou à Maçonaria. Lançou mão de todos os meios para “converter-me”.
Como minha filosofia, desde que me ingressei na Igreja de Jesus Cristo, era
servir a ele só, de todo o coração, e nunca me envolver nas coisas deste
mundo, por isso nunca me tornei membro do Rotary, nem do Lyons, nem da
Maçonaria. Tampouco me envolvi com partidos políticos. Sempre vi nessas
entidades a promoção do bem social da comunidade aqui e agora; nunca as
condenei, nem do púlpito e nem em particular. No entanto, sempre cri que os
filhos de Deus não precisam de tais expedientes ou muletas; aliás, quase
sempre são prejudicados quando tentam harmonizar tais elementos profanos
com o santo reino de Deus. É costumeiro ocorrer que são mais fiéis à
entidade profana do que à santa igreja, e a parte mais prejudicada costuma
ser a igreja. Esta tem todos os recursos para a prática do bem, com mais
completude, em conformidade com as normas bíblicas. Ela é plena; possui
elementos que nenhuma outra entidade humana possui. Ela deve ser
abraçada neste mundo, de tal modo, que todos encontrem nela algo a imitar.
Se uma igreja local for pior que alguma outra corporação social não
religiosa, então ela deixa de ser Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo
a igreja de Laodiceia foi denominada pelo próprio Senhor Jesus de “minha
igreja”. Fui pastor de muitos membros da Maçonaria, sócios de Lyons e
Rotary; nunca tivemos desavença, porque minha visão estava em outro rumo,
era voltada para o alto, e eles eram adultos e aptos a prestar contas ao
Supremo Juiz.
Mas aquele nobre pastor não se conformou com minhas recusas.
Aproveitou uma brecha e me denunciou à Missão, porque decidi aprimorar-
me um pouco mais na escola secular. Uma das leis da Missão era que o
obreiro não tinha o direito de fazer isso. Então ela, na pessoa de seu
presidente, me intimou e disse: “Ou você desiste do estudo, ou será
demitido!”. Minha resposta pronta e direta foi: “Então que me demitam, pois
não vou recuar-me agora. A Missão não se importa com o futuro de seus
obreiros, mas eu me preocupo com o futuro meu e de minha família. E
quando eu alcançar o que tanto desejo, não vou poder dizer-lhes: Muito
obrigado!”.
Havia algo de profético nesta última expressão; mas, naquele
momento, não passou de mero desabafo. O fato é bem outro: quando
alcancei aquilo pelo que anelava, ainda que indefinida e inconscientemente,
não deixei de ser grato àquele nobre servo de Deus nem à Missão. Esta foi
muito humana para comigo. Meu coração só tem boas lembranças na
companhia daqueles nobres irmãos de outros rincões. Aprendi muito com
eles. O lado fraco da Missão era coisa dos homens, praticada por todos em
todos os países crendo ser o certo. O equívoco daquele nobre colega de
ministério é bem comum em todos nós. Eu mesmo já o cometi várias vezes
contra alguém, mesmo quando a intenção não fosse prejudicar.
Bem mais tarde, eu e ele nos encontramos numa situação bem adversa,
quando eu estava no comando e ele carecia de ser comandado; então lhe
mostrei que nunca deixara de amá-lo e de respeitá-lo em Cristo, estendendo-
lhe a destra de companheiro e dando-lhe campo. No momento da posse, eu
disse à igreja: Eis aqui um homem valoroso que merece ser amado e
respeitado. Tenho certeza que ele realizará aqui um grande ministério. Penso
que os pastores de almas devem agir assim uns para com os outros. Quando
aquele colega faleceu, confesso que senti profundo pesar. Ele fora um
homem valoroso na Igreja; merece ser bem lembrado e deveria ter sido mais
valorizado pelo comando supremo da Igreja. Ele tinha certas qualidades
positivas que eu nunca possuí, e nisso fui influenciado por ele.

2. João Pinheiro

Com a morte do missionário Robert Litton, repito, a Missão me


transferiu para João Pinheiro, Minas Gerais, ficando em Pirapora apenas um
ano e meio e em João Pinheiro um ano e meio. Meu senso ministerial ia
diminuindo paulatinamente. Era mais ou menos como o profeta Elias quando
buscou asilo numa caverna. Se porventura alguém me perguntasse por que
estava ali, não saberia que resposta dar. E se alguém me perguntar, hoje, se
houve ali algum fruto proveniente de meu pobre ministério, minha
dificuldade em responder seria a mesma. Creio que hoje ninguém ali se
lembra de mim e e da minha família. Creio ainda que nada ficou registrado
nos anais daquela igreja a respeito de nosso ministério e nossas vidas. Meu
ministério ali só teve sentido nos desígnios do Altíssimo.

2.1. João Batista

Um dos membros daquela igreja era o Dr. João Batista, advogado,


professor de francês em um dos colégios, portanto meu professor desse
idioma ali. Havia cursado o IBEL antes de mim e Cremilda. Também sua
esposa, Maria Pacheco, era ibelina, ambos bons amigos; ele, porém, uma
pedra em meu sapato; não que assim o quisesse, mas porque era muito mais
culto que eu. Não só uma vez, mas diversas, com polidez, elegância e
traquejo corrigia meus equívocos na interpretação de algum texto bíblico.
Jamais conseguiria esquecer aquele casal tão ilustre e amigo.

2.2. Amadeu Rocha

Outro ibelino, contemporâneo nosso no IBEL, foi Amadeu Rocha, bom


companheiro, tesoureiro da igreja, o qual mais de uma vez me socorria em
minhas aperturas financeiras. Salvo engano da memória, no natal de 1970,
surpreendi nosso filho Sóstenes observando um menino da vizinhança
pedalando pela rua seu velocípede novo. Sem ser visto, notei que Sóstenes
gostaria de fazer o que aquele menino fazia, porém seu pai não podia
adquirir-lhe nem mesmo um velocípede velho em uma sucata. Senti o
coração trucidado e contei para Amadeu. Ele chorou comigo e me deu
dinheiro extra para passar o natal. Sempre nutri por aquele colega profundo
respeito e admiração. É difícil imaginar alguém mais reto na vida. Ele
também já abriu caminho para a glória.

3. Goiânia
Acusado pelo pastor do campo perante a Missão, então esta resolveu
dar-me uma última chance, transferindo-me para Goiânia a fim de ser vigiado
bem de perto pelo missionário Rev. Sherwood Taylor. Fui colocado em duas
congregações, Betel e Vila União. Em Pirapora, eu tinha uma bicicleta para
subir e descer os morros; em João Pinheiro, eu realizava o trabalho a pé.
Também em Goiânia, por algum tempo, realizei o trabalho das congregações
valendo-me de ônibus.
O velho missionário, Sherwood Taylor, era o mesmo diante de quem
professara minha fé em 1959, quando pastor da igreja de Ituiutaba, Minas
Gerais. Rev. Taylor era um homem muito íntegro, porém de difícil
relacionamento, em decorrência de sua austeridade e meticulosidade. Não sei
qual de nós dois ganhava do outro nessas “virtudes”. Mas tudo indica que tais
“virtudes” comuns nos uniram. Surpreendentemente, ele foi generoso para
conosco, nos socorrendo diversas vezes com recurso financeiro extra. Sua
esposa, dona Mirian, era mulher de coração amplo, voz linda, perene
participante do trabalho nas igrejas ao lado do marido. Quando terminaram
sua trajetória missionária no Brasil, e voltaram para sua pátria, eles moravam
em Ceres já conosco ali; portanto, éramos vizinhos. Misteriosamente, em
1959 ele me recebia na igreja em profissão de fé; agora eles se despedem
definitivamente de nós depois de muitos anos, quando eu também exercia o
ministério sagrado em pé de igualdade com ele, em se tratando do ofício.

3.1. Igreja Presbiteriana União


Meu irmão congênito, Marcelúcio, membro dessa igreja há quarenta
anos, nos informa que esta grande igreja teve seus primórdios no espírito bem
missionário, debaixo de uma árvore, com a assistência de um membro da
primeira igreja chamado Abimael, moço dinâmico, de coração aceso para a
obra do Senhor. Aos domingos, ele reunia crianças para ouvirem as histórias
bíblicas, distribuindo balas e outras guloseimas, atraindo assim muitas
crianças. Com a ascensão daquele trabalho, a Missão Presbiteriana no Brasil
resolveu construir ali uma capela, sob o comando do Rev. Ângelo Scarel e
sob a direção profissional do pedreiro senhor Talmo Gonçalves Medeiros.
Isso se deu em torno dos anos 1969 a 1971. A primeira Ata do Conselho da
Igreja Presbiteriana União reza que o primeiro obreiro daquela igreja foi o
Rev. Ângelo Scarel e o segundo foi o evangelista Valter Graciano Martins,
enquanto ainda no caráter de congregação.
No entanto, fazem parte da história desta grande igreja uma plêiade de
obreiros, começando com missionários da Missão Presbiteriana no Brasil:
Revs. Sherwood Taylor, Paul Long, Bill Rawlins (engenheiro), Ethelbert
Gartrell; o apoio maciço da Igreja Presbiteriana Central com seus pastores.
Os dois obreiros brasileiros efetivos foram Ângelo Scarel e Valter Graciano
Martins.
Substituí o Rev. Ângelo Scarel em 1972, isto é, no ano seguinte à
fundação daquele trabalho, e permaneci ali até 1974, quando fui ordenado ao
ministério sagrado pelo Presbitério de Goiânia. Tenho na lembrança que
quase nada produzi com meu modesto ministério. Não creio que naquele
período houvesse acréscimo numérico no rol de membros. Lembro-me bem
que a Congregação já era dinâmica e numerosa. Estava pronta para ser
organizada em pessoa jurídica.

3.2. Igreja Presbiteriana Betel


Na mesma época fui incumbido de outra congregação de nome Betel.
Esta é de história menos conhecida, cuja origem se perde nas brumas do
tempo. Mas foi aí que gastei dois anos e meio de minha vida ministerial.

3.2.1. Reminiscência

No entanto, há algo que posso registrar em sã consciência: nunca dividi


igreja; nunca causei prejuízo a qualquer setor da igreja; nunca trabalhei
contra qualquer das sociedades domésticas; nunca criei atrito com os
presbíteros e os diáconos. Minha filosofia de trabalho sempre foi que nenhum
pastor tem o direito de destruir ou substituir um órgão instituído pelo
Supremo Concílio. A lei menor nunca deve sobrepujar a maior, do contrário
o que impera é a anarquia. Muitos tentam suprimir ou a SAF, ou a UPH, ou a
UMP, ou algum outro órgão interno, dando-lhes outros nomes ou criando
algo muito diferente; ou eliminando de vez, crendo que estão trazendo uma
grande contribuição para o bem da igreja. Nunca deixei de dar meu apoio a
cada um desses órgãos. Uma de minhas más famas é que sou inimigo desses
órgãos internos da igreja. Uma dolorosa calúnia. Já fui secretário presbiterial
e sinodal do trabalho feminino. Estive presente em muitos conclaves de
homens. Meu ministério sempre foi abençoado pela participação dessas
sociedades internas. Sempre tive a SAF como de vital importância em meu
ministério pastoral; e esta sociedade sempre me honrou em todo o estado de
Goiás por onde passei outrora.
E em minha filosofia pastoral defendo ainda que qualquer pastor que
tenta desenvolver seu programa ministerial ao arrepio do Conselho, seria
preferível que ele fizesse suas malas e procurasse outro campo. Igreja nunca
se divide quando pastor e Conselho trabalham em conjunção e em boa
sintonia. Logo se verá que sempre pratiquei esse sistema nas igrejas por onde
passei.
Se alguém me perguntar se fiz algo relevante nessas duas
congregações, não saberia responder. Minha tendência é lembrar mais do
negativo do que do positivo no que diz respeito a mim e ao meu ministério. E
em todo meu ministério cometi muitos erros. Aliás, creio que nem somos
lembrados pelos membros antigos dessas duas igrejas. Somos quase
totalmente desconhecidos delas. Nossa passagem por aqui mais se assemelha
à fumaça que se dissolve no ar. No entanto, foi aqui que nos aconteceram
grandes coisas. Goiânia veio a ser uma de minhas encruzilhadas.

3.2.2. Rev. Ângelo Scarel

No entanto, deixo registrado, de memória, uma experiência pessoal que


serviu e tem servido para humilhar o espírito de um ministro do evangelho
que sente que realmente foi vocacionado para o ministério sagrado. E creio
que este relato servirá de advertência a qualquer que queira servir bem ao
Senhor da Igreja. Se este fato não servisse para nada, certamente não o
escreveria para que alguém o leia.
Isto se deu entre mim e o Rev. Ângelo Scarel, o pastor fundador da
Congregação União. Avizinhando-se o aniversário daquela congregação, os
líderes propuseram que o orador da ocasião fosse o Rev. Ângelo, e com muita
razão, pois era um homem muito querido e respeitado por todos. De minha
parte, porém, cabia-me lembrar aos líderes que não fazia muito tempo houve
atrito do mencionado pastor com a Missão, e que esta congregação ainda era
supervisionada pela Missão. Não seria o caso de a Missão se sentir ofendida
com tal escolha? Todos garantiram que não. Foi só isso; nada mais que isso.
Sempre tive esse pastor na máxima estima e admiração. Eu mesmo
redigi a carta/convite, fui à sua casa na qualidade de embaixador. Mas alguém
já havia noticiado ao nobre pastor aquela decisão, dando aos fatos uma versão
distorcida. Sem esticar muito, é óbvio que ele não me recebeu bem. Aquilo
caiu sobre minha cabeça como uma grande e esmagadora pedra; como uma
bomba destrutiva. Mais uma vez fiquei desarmado, sem argumento em defesa
própria.
Chegando o dia da ordenação de meu cunhado Antônio Caixeta, no
templo da Igreja Presbiteriana Maranata, lá estava o amado pastor, Rev.
Ângelo. Chamou-me de lado e disse: “Valter, naquele dia eu o ofendi em
minha própria casa, injustamente. Só mais tarde me inteirei da veracidade dos
fatos. Você poderia perdoar-me?”.
É muito difícil fazer isso. Meu Deus, como é difícil! Nosso orgulho
pecaminoso é avesso a esse tipo de atitude. Por isso, Jesus e os apóstolos
insistiram muito sobre o assunto. Eu, em particular, tenho muita dificuldade
em fazer isso. É preciso um poderoso revestimento do Espírito de Deus.
Nosso orgulho tem de ser esmagado. Nossa natureza não combina bem com
essa atitude cristã. Nosso Senhor deu o exemplo, bem o sabemos, porém
relutamos contra essa virtude tão bela. Não sei bem o que é mais difícil: pedir
perdão ou perdoar. Já que pedir causa mais humilhação, então perdoar se
torna mais fácil, pois não envolve humilhação, e sim nobreza.
Como réplica, respondi-lhe: Rev. Ângelo, é verdade que sofri muito
por aquela injúria que não foi o senhor quem fez, e sim outro; mas, naquele
mesmo dia, entrando em escritório, de joelhos dobrados em terra, com
lágrimas e profunda tristeza, eu o perdoei; por isso, não posso dizer que agora
o perdoo, pois já fiz isso. Abraçamo-nos ali e passei a tê-lo em minha
admiração mais que antes.

3.2.3. Tal pai tal filha

Tanto é que sua filha, Dra. Ângela Scarel, veio a ser, aqui em Goiânia,
uma boa amiga e companheira de Cremilda no trabalho feminino.
Acompanhada de outra amiga, Dra. Ana Lúcia, de vez em quando nos
visitam em nosso lar, quando ocorre de nos confidenciarmos reciprocamente
as dificuldades e bênçãos comuns de cá e de lá. Aliás, digo mais: essas duas
senhoras têm contribuído para amainar as asperezas de nossa jornada nesta
cidade, onde praticamente somos hoje desconhecidos e onde me sinto um
exilado. Suas visitas se constituem numa bênção mui preciosa, quer na
alegria quer na tristeza. Principalmente Dra. Ângela que me denomina de
“meu pastor”. Ela nunca saberá o quanto é positivo o efeito dessa atitude
cristã.

3.2.4. Dois fatos inesquecíveis


Caso alguém exija de mim pelo menos um fato positivo ocasionado por
minha passagem por aquelas duas congregações como obreiro, duas coisas
me marcaram profundamente e de modo irreversível: primeira, Marcelúcio,
meu irmão, que há tempo passara a morar conosco, como parte da família, e
abraçara a mesma fé, conheceu Wânia, filha do senhor Talmo e dona
Lindaura, e com ela se casou e são felizes até hoje, gerando três filhos e três
netas. Ele passou a ser não só membro da igreja, mas também presbítero e um
dos mestres de teologia naquela grande igreja. A outra é que em Betel
encontrei dois homens que foram meu arrimo financeiro: Wilson de Castro e
Eduardo Quirino. Todo mês punham dinheiro em meu bolso, sem saber que
este estava vazio e também nossa despensa! Isso nos poupou de dolorosos
constrangimentos. Somente coração generoso se porta assim para com os
impotentes. São “anjos” de Deus a amenizar o sofrimento de alguém.

4. Igreja Presbiteriana de Novo Horizonte

Foi nesse tempo que nasceu a Igreja Presbiteriana de Novo Horizonte,


bairro de Goiânia. O primeiro culto foi celebrado na casa de um presbítero
vindo de São Paulo, taxista, chamado Hélio. O missionário com quem eu
trabalhava nesse tempo era neófito no Brasil e não dominava bem nosso
idioma; seu nome era Jaime Revis, de quem ganhei meu primeiro volume das
Institutas de João Calvino em inglês. Com um pequeno harmônio portátil, de
pedal, presenteado pela missionária miss Frances Hesser, entoamos os
primeiros cânticos e preguei o primeiro sermão. Nem me lembro o tema e
texto do sermão. Creio que ninguém hoje se lembra disso; é bem provável
que já esteja sepultado no esquecimento, como sucede com tanta frequência.
O curioso é que hoje de vez em quando participo dos cultos e escolas
dominicais daquela mesma igreja.
Foi nesse tempo que nasceu nosso quinto e último filho, Wander. E foi
nesse tempo que conheci o grande homem e ministro do evangelho, Rev. Dr.
Divino José de Oliveira, cuja irmã, enfermeira, dona Berenice, entraria para
nossa história como grande benfeitora e amiga. Escrever e descrever o que
ela representa em nossa vida é uma tarefa que reclamaria a composição de
outro livro. Outro grande amigo foi o Presbítero Luiz Mateus. Certo dia
aquele bom homem supriu miraculosamente nossa despensa, sem nem
mesmo saber que naquele momento ela estava vazia!
QUINTA PARTE: OUTRA ENCRUZILHADA DECISIVA
Foi em Goiânia que minha vida ministerial sofreu uma forte e decisiva
guinada. E toda guinada que ela sofria visava a preparar-me para um
empreendimento de dimensão gigantesca: minha vida com João Calvino. E
foi aqui que tive o primeiro contato com as Institutas em inglês,
supramencionado. Até então, eu fora obreiro leigo da Missão Oeste do Brasil
— onze anos. Durante todo esse tempo, estive sujeito à supervisão de um
missionário norte-americano. Não tenho boas lembranças da totalidade da
vida missionária que tive durante todo esse tempo no que tange à vida
pessoal e familial. Embora fosse muito gratificante, contudo foi muito
penosa e saturada de carência e constrangimento.
Minha vida sempre esteve envolta por variadas carências. Cinco filhos;
sete pessoas ao todo. O salário de evangelista sempre fora muito diminuto;
para um casal, até que daria para viver convenientemente; mas, para sete
pessoas, carecia do milagre divino da multiplicação. Esse foi o método
divino direto nos dias dos profetas e de nosso Senhor Jesus Cristo. Hoje, seu
método é indireto e um tanto velado, se desenrolando imperceptivelmente.
Vem um novo dia, entramos em uma nova noite, a vida segue seu curso e os
milagres são efetuados nas entrelinhas de nosso livro. Daí a profunda tensão
que enfrentamos em nossa peregrinação. Tensão, digo, o paradoxo do aqui e
agora com toda sua gama de realidade. Hoje somos dirigidos pelo Espírito
invisível e pela Escritura visível. Dependendo dos traumas, nossa vista
espiritual é ofuscada e parece que estamos à deriva. Olhamos ao redor e nada
vemos de positivo. Somente na dependência do Espírito e da Escritura é que
sobrevivemos e continuamos nutrindo a esperança que não pode morrer. A
não ser que queiramos envolver-nos com as ondas do misticismo
“evangélico”. Ao olharmos para trás, percebemos nitidamente que o Senhor
segurava nossa mão e indicava a vereda certa a seguir. Mais que o milagre
físico, carecemos do milagre psicológico; isto é, otimismo em meio ao
marasmo do cotidiano.
1. Trajetória cultural de Cremilda

Cremilda nem sempre exerceu o ofício pedagógico. No entanto, foi


aqui em Goiânia, em meio a duras penas, que a missionária Vivian Hodges, a
mesma que me ajudara a ingressar no IBEL em 1960, a ajudou e a estimulou
aos estudos. Colhi do Rev. Wilson Castro Ferreira a seguinte afirmação sobre
essa mulher solitária e misteriosa:

Miss Hodges tinha facilidade singular de fazer amizades com


brasileiros e colocar-se ao lado deles, quando sentia que com
eles estava a verdade.[9]

Na verdade, foi ela, miss Vivian Hodges, quem custeou, aqui em


Goiânia, a conclusão do curso médio de Cremilda, provando seu espírito
humanitário. E Cremilda faria a faculdade de pedagogia em Ceres, e em
seguida faria também pós-graduação na PUC de Belo Horizonte. Conto isto
por ser da mais vital importância em nossa dolorosa trajetória, pois não
muito tempo depois ela estaria engajada no Instituto Mackenzie. Foi daí que
chegamos a adquirir um apartamento na capital paulista, pois até então
nenhum nômade ganharia de nós em questão de mudança; cada ano
fincávamos nossa tenda em outro lugar: só na grande São Paulo, seis vezes e
mais onze vezes nos campos missionários. Genuína vida peregrina.
Portanto, devemos à miss Vivian Hodges nossos triunfos estudantis em
Goiás. E aproveito o gancho para informar mais uma vez o quanto a
Providência cuidou de nós em todas as nossas trajetórias. Sempre tínhamos
um “anjo” de Deus a estender-nos a mão. Enquanto sufocávamos um gemido
incontido víamos a seguir uma manifestação sutil da condução divina. Por
isso, aprendemos a buscar o socorro divino nos piores momentos de nosso
viver. Cremos e nos deleitamos em todas as sãs doutrinas da Escritura, de
todo o coração; mas foi a Providência divina que sempre se mostrou mais
real em nossos momentos de aperturas.

1.1. Duas faces da mesma história

E foi aqui em Goiânia que minha história foi então dividida em duas
etapas distintas: até então e a partir de então. Pois até então eu servira ao
Senhor Jesus na Missão Oeste do Brasil durante onze anos completos. Em
todo esse tempo, eu estivera sob o comando de missionários estrangeiros;
não tinha liberdade de ação e o ministério era incompleto: não podia celebrar
os sacramentos. Quando a Missão queria e lhe era conveniente, ela
remanejava seus obreiros leigos, à revelia, sem consulta prévia a eles.
Querendo ou não, com gosto ou desgosto, chegava a ordem e cada um
obedecia. Com frequência, isso gerava algum distúrbio. Em geral, um
missionário se engraçava com um obreiro e o queria em seu campo. Se ele se
desgostasse de um deles, esse tal ficava prejudicado; como se deu comigo
em Pirapora, já narrado. Deu-se o mesmo também em Iturama, pois eu sentia
que o obreiro não queria sair de lá, e teve que sair. Se não queria sair, o
obreiro se indispunha com o colega que chegava para ocupar seu lugar.
Aconteceu comigo e aconteceu com muitos colegas. Sem interferência de
minha parte, a Missão me transferiu de João Pinheiro para Goiânia, com
vistas a trabalhar com estas duas congregações: União e Betel. Digo isto
porque foi de vital importância em minha trajetória rumo ao pico mais alto
de minha vida com o Reformador João Calvino.

1.2. Visita do Dr. Divino José de Oliveira

A outra etapa, nessa dramática trajetória, é a partir de Goiânia. Certo


homem chamado Divino José de Oliveira, pastor e advogado, visitou-nos
juntamente com sua esposa, dona Filhinha, florescendo daí uma rica e
promissora amizade. Uma disparidade, pois ele era grande e importante, e eu
era pequeno e destituído de qualquer importância. Já não me lembro dos
detalhes por que o casal nos fez aquela visita; quase ninguém me visitava,
pois era quase totalmente desconhecido. Ele era um homem muito influente:
o primeiro aluno na história do Instituto Bíblico Eduardo Lane (IBEL);
pastor por muitos anos; chegou a ser prefeito da antiga capital goiana,
Cidade de Goiás; era muito conhecido em Goiânia nas lidas políticas e
grande vulto nas igrejas goianas. Resumindo, era um homem mui eminente
para adentrar nossa modesta moradia. Mas isso aconteceu.

1.3. Mudança de trajetória


Naquela visita misteriosa, ele quis conhecer meu “gabinete pastoral”
— designação que ele mesmo dera à minha “oficina” — pois esse foi sempre
o título que dei a este cômodo, em nossas moradias — “oficina”. Entrou em
minha oficina e ficou em silêncio por vários minutos, olhando os livros nas
estantes. “Fantástico!”, por fim exclamou. “Poucos pastores possuem uma
biblioteca tão rica. Você quer ser ordenado ministro do evangelho, Valter?
Se você quiser, vou providenciar.”
Na verdade, houve muitos rodeios neste diálogo, mas tenho que
resumir. Expliquei-lhe que gostaria muito, porém não nas condições em que
me achava naquele momento. Como evangelista, eu me saía mais ou menos;
como pastor, é preciso muito mais do que ora possuía. Disse-lhe mais que,
para ser pastor, teria que cursar teologia num seminário. O fato é que os dois
se foram e eu continuei minha rotina diária e esqueci aquela visita.

1.4. Minha visão pessoal do ofício pastoral

Sempre olhei o pastor de modo ascendente. Em minha ótica, sempre o


via num ponto muito elevado. O pastor deve ser o supra-sumo da sociedade
em que vive. Ele representa a igreja em todos os quadrantes das lidas
humanas. Não só sua vida moral e espiritual deve ser muito elevada, mas
também sua cultura. Ele tem de exercer predomínio na sociedade, ao menos
de um modo geral, em todas as áreas do conhecimento humano. Quanto a
mim, não me via muito mais alto do que quando deixei o IBEL. O
evangelista leigo exercia sua função em campos missionários, tendo vivência
somente com os missionários e com o povo da terra; os missionários não se
interessavam pela cultura do obreiro, e sim por seu trabalho. Por isso, meus
estudos eram irregulares e informais, sem seguir uma meta mais acadêmica.
Já possuía e lia compêndios de teologia, porém não seguia uma diretriz bem
coordenada de suas várias ciências. Eu seria sempre considerado um homem
sem “experiência acadêmica”. Em toda minha vida, eu não passaria disso e
jamais seria visto de outro modo. Enfatizo isso por causa do que um dia eu
viria fazer.
Resumindo, aquele preclaro pastor não se deixou convencer por
minhas escusas. Em uma das reuniões da Executiva do Presbitério de
Goiânia ele falou de mim; tanto é que, não muito depois, recebi um convite
da Executiva para apresentar-me no caráter de visitante. Queriam me
conhecer melhor, falar comigo e me ouvir. Vale dizer que não movi sequer
um dedo para chegar a esse ponto. A Providência cuidava de tudo.

1.5. Arranjos políticos

Aliás, nossa meta sempre foi nunca forçar uma porta para ter acesso a
outra situação, em prejuízo de alguém. Sempre cultivei horror pelo que via
nos bastidores da igreja: pastores fazendo finca pé para não deixar seu
pastorado para outro colega; pastores politicando nos bastidores para assumir
o pastorado de uma igreja importante, tudo fazendo para remover dali seu
próprio colega de ministério; conselhos se reunindo secretamente para traçar
metas às costas do pastor em exercício; pessoas politicando nos bastidores
para assumir algum cargo na igreja etc. Minha visão bíblica da ação do
Espírito de Deus que governa a igreja me leva a reagir a esse estado
pecaminoso nas igrejas de nosso Senhor. Sinto-me indignado com o jogo de
cintura, “arranjos” e ação política. Muita coisa se consegue por meios pouco
recomendáveis; para piorar as coisas, costuma-se dizer que foi o Espírito de
Deus que conquistou a vitória. Ora-se rogando que o Senhor faça sua
vontade, presidindo às decisões humanas; no entanto, nos bastidores, por
meios escusos, os arranjos humanos é que prevalecem. “Senhor, elege aquele
que tens em mente” — é nossa oração em nome de Jesus. Todavia, nos
bastidores, já elegemos aqueles que queremos.
Sempre encarei esse comportamento nas igrejas com muita dificuldade.
Vejo tudo isso com muito escrúpulo. Considero-me um grande pecador, mas
esse tipo de atitude me causa estranheza, quando nossa confissão é que o
Senhor age por meio de sua Providência nas tramitações de uma igreja local,
de um concílio ou de uma entidade da igreja. Quando agimos nos bastidores
para que nossos desejos sejam satisfeitos, estamos pecando contra o Espírito
do Senhor que governa a igreja. É óbvio que temos de avaliar e julgar e
decidir. É óbvio que no ínterim temos de investigar e fazer consultas. Mas
temos que fazer isso no temor de Deus. Nos bastidores, quando alguém
menciona alguém, devemos orar para que a vontade do Senhor seja feita. Os
complôs, os cochichos, as visitas eleitoreiras equivalem a uma atitude que
contraria a ação providencial do Espírito Santo na igreja. Naturalmente, eu
falo isso em termos gerais. Não estou envolvendo toda a igreja. Aliás, quero
crer que o elemento negativo é a exceção, e não a regra. Mas essa exceção, se
não for corrigida, pode contaminar e prejudicará todo o corpo, como
aconteceu no deserto com Coré, Datã e Abirão. Como aconteceu com os
filhos do sumo sacerdote Arão, Nadabe e Abiú, que ofereceram fogo estranho
no altar do Senhor, trazendo ruína a todo o povo.

1.6. Minha filosofia pessoal

Sempre odiei esses expedientes profanos e pecaminosos, os quais são


próprios de um mundo sem Deus. O ministro da Palavra não pode seguir essa
vereda promíscua. Ele tem de confiar plenamente na Providência divina, na
diretriz do Espírito de Deus. Muita coisa nas igrejas não produz bom
resultado em razão da atitude pecaminosa de ministros, conselhos e demais
líderes. Deus pune esse pecado. Em meu caso com aquela Executiva, não
houve tal expediente e nem poderia haver. Apenas oramos, de cá e de lá.
Eles queriam, e eu não queria. No entanto, o Espírito de Deus me deu
discernimento para entender que jamais poderia cursar teologia em um
seminário em razão da família já numerosa e de minha cultura ser
incompleta. Iria acarretar um grande volume de inquietação e transtorno.
2. Meu encontro com a Comissão Executiva do Presbitério de Goiânia

Isso se deu em meado de 1974. Não me lembro de todos os membros


do concílio; eu já conhecia o Rev. Divino José de Oliveira, o Presbítero José
Costa, o Rev. Álvaro Almeida Campos e o Rev. Jairo Gomes de Miranda. Fui
interrogado sobre o desejo de ser pastor. Respondi de novo que não podia
aceitar essa incumbência antes de ir ao seminário, informando que fizera
somente o IBEL e que minha cultura era muito deficitária para dar um passo
como aquele.
O que os cativou foi minha exposição do que eu pensava do ministério
pastoral. Eu tinha bom conhecimento disso, porém não podia pôr em prática
sem o devido preparo. De fato, não passava por minha mente que naquele
momento eu já estivesse preparado para tão terrível responsabilidade. Nunca
fora leviano a esse respeito. Repetindo, eu via o pastor como a pessoa mais
importante, mais culta, mais visada da sociedade humana. Não era o prefeito,
nem o médico, nem o professor, nem o juiz, nem o advogado; é o pastor que
exerce predomínio em todos os setores da comunidade. Eu ainda não possuía
os requisitos indispensáveis para tanto.

2.1. Decisão da Comissão Executiva

Nada os demoveu da ideia de me fazer pastor. A despeito de todas as


minhas justificativas, fui recebido como candidato à ordenação pelo
Presbitério de Goiânia; nomearam o próprio Rev. Dr. Divino José de
Oliveira como meu tutor e me deram a incumbência de elaborar uma tese
(designação que naquela época se dava a uma monografia moderna), a
exegese de um texto bíblico, um curriculum vitæ e um sermão pregado no
púlpito da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia perante a ordinária do
Presbitério.
Meu mundo virou de ponta cabeça. Sobreveio-me profunda ansiedade.
Recebendo um prazo limitado para tanto, fui dispensado dos trabalhos das
igrejas, por certo período, a fim de elaborar esses trabalhos. Alan Mullins era
então o diretor do Acampamento Boa Esperança (ABE), e me ofereceu suas
dependências para ali isolar-me. E assim fiz.
2.1.1. Monografia

Dentre os temas da Confissão de Fé, escolhi O juízo final. Se


porventura alguém ler este relato, certamente me qualificará, e com razão, de
“sem juízo”. Como alguém de tão pouco preparo cultural e teológico podia
dar-se ao luxo de desenvolver uma tese sobre tal assunto? Eu tinha bastante
material para isso, e a incumbência me forçou a empregar toda minha
capacidade e conhecimento nisso. Nesse tempo já não conseguia seguir lado
a lado com os conceitos escatológicos vigentes, porquanto havia
desenvolvido o hábito de questionar à luz da Bíblia e dos conceitos
presbiterianos qualquer tema teológico, principalmente escatológico. O
conceito que já predominava nas igrejas era vários tipos de pré-milenismo, e
já percebera que a teologia calvinista não comporta os conceitos quiliásticos.
Além do mais, nunca me vi como um homem inteligente, mas simplesmente
esforçado e persistente. Creio que consegui o intento, visto que eu mesmo
cheguei a gostar do resultado, quando dificilmente gosto do que faço.
É oportuno dizer que não tive a assistência de nenhum professor em
teologia. Havia muitos em Goiânia. O seminário de Goiânia só veio à
existência mais tarde. Os pastores, muito mais bem preparados do que eu,
cada um tinha suas tarefas ministeriais. Não tinham tempo disponível para
assessorar-me. Tampouco recorri a um deles para ajudar-me. Ainda não
havia as ferramentas que o povo de Deus possui hoje, quer na forma de livro
físico, quer na forma tecnológica da internet. Hoje você clica as teclas de
uma “maquininha” e encontra ali todo tipo de recurso acadêmico e
tecnológico. Nas dependências do Acampamento Boa Esperança, só podia
contar com a assistência do Espírito de Deus e da literatura que fui
acumulando através do tempo e levei comigo para lá.

2.1.2. Exegese

Quanto à exegese, é evidente que não poderia usar os recursos


acadêmicos, porquanto pouca noção tinha de hebraico ou de grego como
hoje tenho. Escolhi para isso Hebreus 1, texto que sempre atraía minha
atenção e me causava forte impacto por sua grandeza. Eu queria discorrer
sobre a deidade de Jesus Cristo, aquele a quem amo e sirvo; aquele que eu
teria que engrandecer na função de pastor. As duas experiências foram
profundas para minha modesta pessoa. Paulo dizia que nada mais lhe
importava senão a pessoa e obra do eterno Filho de Deus. “Para mim o viver
é Cristo”. Esse era também meu profundo desejo — viver com Cristo; viver
em Cristo; viver por Cristo; viver para Cristo.

2.1.3. Curriculum Vitæ

As duas obras estavam prontas; mas, como elaborar um curriculum


vitæ sem experiência escolar e sem diplomas? Até mesmo minha história era
ainda muito pobre. Os currículos que havia lido eram riquíssimos, detalhados,
longos, pomposos. Há currículos que levam a gente a desistir da leitura. E eu
estava destinado a nunca ter um currículo acadêmico. Ainda hoje não
conseguiria compor meu currículo. Daquela época para cá sou quase o
mesmo homem. Aliás, meu único currículo e diploma são minhas traduções e
meus escritos. Não posso colocá-los em uma bela moldura e afixá-los numa
parede; se encontram nas prateleiras. Continuo sem “experiência acadêmica”.
Aproveito o “gancho” para dar conta de minha “cultura” (ou, melhor,
minha falta de cultura!) naquela época. Na infância, estudei em escolas
rurais, o equivalente ao primeiro grau. Mais tarde, fiz o supletivo do segundo
grau. Passei em todas as matérias, menos em matemática. Por isso, não
recebi o diploma. Nunca pude fazer um curso acadêmico, por mais que fosse
essa minha aspiração. Não deixei de explicar isso ao Presbitério de Goiânia.
Aliás, nunca escondo isso de ninguém, nem vejo razão plausível para ocultá-
lo. Sentia-me pesaroso, porém não envergonhado. Só mais tarde eu faria um
curso teológico por extensão (COSE) assessorado pelo eminente teólogo e
meu amigo Rev. Dr. José Martins, que me visitava periodicamente. O que
fazer, então? Assim, decidi contar minha modesta história, documentando,
com ilustração, o quanto podia, os transes de minha vida peregrina. Deu uma
apostila razoável.

2.1.4. Sermão de prova

Ainda faltava o último trabalho: o sermão de prova que seria enunciado


perante o Presbitério reunido em sua Reunião Ordinária no final de 1974, nos
recintos da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia. O texto escolhido com
muito critério foi Colossenses 1.27: Cristo, a esperança da glória. Outra
loucura! Durante a avaliação, um dos pastores me aconselhou a jamais
pregar aquele sermão em qualquer igreja. Obedeci sem nunca procurar saber
o porquê. Nunca soube se o sermão foi erudito ou teológico demais, ou se foi
confuso, e mais parecido com aquele que preguei no IBEL no final de 1963,
como sermão de prova; ou se foi herético (o que dificilmente teria se dado,
visto que nunca abracei qualquer heresia, e o Presbitério teria então me
reprovado). Ele não disse, e eu não perguntei. O fato é que o sermão
desapareceu e nunca mais preguei naquele texto. Não me lembro nem do
esquema nem do conteúdo do sermão.
Registro ainda que, naquele tempo, é óbvio, não havia computador.
Tinha uma maquininha datilográfica de onde eu extraía meus escritos. O
texto ficava bem feio com as correções feitas através de uma fita corretiva.
Todos os escritos eram rascunhados e, depois, datilografados. Inclusive
minhas traduções, posteriormente, no início, foram feitas com o uso deste
critério.

3. Aprovação

Aprovado, o concílio descobriu que eu não podia ser ordenado sem


primeiro passar pelo crivo da Comissão Especial de Seminário da IPB. Minha
ordenação foi adiada, e fui encaminhado à Reunião da Comissão Executiva
do Supremo Concílio em Brasília. Uma pessoa que sempre esteve comigo de
modo carinhoso e solícito foi o Presbítero José Costa; e vale dizer que nunca
havíamos tido qualquer afinidade prévia. Ele era então tesoureiro do
Supremo, e fez questão que eu fosse a Brasília em sua companhia. “Deixe
tudo comigo. Vou falar diretamente com Rev. Boanerges Ribeiro sobre
você.” (É assim que as coisas funcionam na cúpula da IPB, e às vezes dão
certo!) Aquele homem poderoso, Rev. Boanerges Ribeiro, se deparou comigo
nos corredores do prédio e me disse com voz de trovão (até então não o
conhecia pessoalmente): “Já me falaram de você, e falaram bem; fique
tranquilo que tudo vai dar certo.” Aquele vozeirão me deixou ainda mais
tímido. Muitos anos depois, lhe referi aquele momento, e então se calou por
alguns segundos, e declarou de modo pausado e com emoção: “Eu me
lembro; tempo bom aquele!”
Aproveito o “gancho” para informar ao leitor que meus sucessos nunca
se deram como que num passo de mágica. Todos eles vieram no meio de um
torvelinho e de “ventos contrários”. Sempre houve milagres em minha
trajetória, mas esses milagres nunca foram ostensivos; sempre vieram
discretamente e às vezes até mesmo com aparência contrária. Eles estão
acontecendo e eu estou me debatendo diante do trono da graça às vezes com
indignação porque as coisas não me acontecem como ocorrem com outros.
Se você se encontra no meio de um tsunami e não é tragado por ele, saindo
dali ileso enquanto os demais são mortos, então pode considerar isto como
um milagre divino. É a mão divina que o arrebata das guelras da morte. Para
comigo, os milagres divinos são assim. No entanto, a Providência não
falhava para comigo.

4. Comissão especial de Seminário

Então chegou o momento de me defrontar com aquela temível


Comissão. Havia uma mesa enorme, circundada por figuras as mais
eminentes e imponentes, não só na sociedade brasileira, mas a própria nata da
IPB. O presidente era o Coronel Renato Guimarães. Havia até General
(Jardim). Eu mais parecia Davi diante de vários Golias, com a diferença que
me faltava sua coragem, não portava nenhuma funda, nem pedrinhas do
ribeiro, nem espada emprestada, e aqueles Golias não eram inimigos da Igreja
de Jesus. Minha única visão era da Providência celestial.
Minha surpresa se converteu em espanto, quando o presidente falou aos
companheiros que lera meus escritos (pois tinha leitura dinâmica), e me
perguntou onde encontrara tantos livros para bibliografia tão rica.
“Emprestados?” Não! Todos pertencem à minha modesta biblioteca! “Como
conseguiu isso? Pelo que sei, você é um obreiro caipira.” Respondi: Quase
deixando de comer. Ele fez menção de meu currículo: “Nunca li nada igual!”
De novo respondi: Tenho certeza de que o senhor jamais lerá algo igual! Ele
se interrompeu com voz embargada e enxugou as lágrimas, e manteve um
minuto de silêncio, dizendo depois: “Há muita coisa aí que se parece com
minha própria história.” Não conseguia continuar. E a reunião quase acabou
aí. O Coronel declarou aos componentes da mesa que estava profundamente
impressionado com tudo aquilo. Houve naquela mesa profundo e comovente
silêncio. Lembro-me que o Rev. Osvaldo Hack me dirigiu perguntas de
cunho teológico, torcendo de propósito, para me provar, um dos pontos do
TULIP, o que corrigi de modo franco e simples, dizendo que meu modo de
ver o assunto tinha o seguinte reparo, e o expus como cria. Estava aprovado
com aplausos.
Aproveito outro “gancho” para declarar que, possivelmente, o leitor vai
se identificar de tal modo comigo, como se eu estivesse discorrendo sobre
sua própria história. Pois meu intuito não é contar uma história novelesca
como se fosse única. Eu me pareço com você em muitas coisas, pois vivi
uma vida comum e me considero um homem comum. Não existe em mim
nada de especial; o que faço é que é especial. Sempre me vejo no espelho da
realidade, e não da fantasia. Tenho tendência para a megalomania, sim, mas
o Senhor também sempre me deu o dom de refrear tal fantasia. Sempre me
vejo no meio da multidão comum como um homem avulso e anônimo. Se
você é pessoa comum, então pense em mim como também um homem
comum. Por isso, procuro não perder de vista minha verdadeira identidade
com o passado: minha procedência rural, o exercício de uma das profissões
mais humildes que existem, a de ferreiro, a luta penosa por uma cultura
fragmentária e destituída de adornos, minha trajetória em quase total
anonimato.

ORDENAÇÃO E PROSPECTO

1. Retrospectiva

Até então, eu havia passado por quatro campos — Iturama, Pirapora,


João Pinheiro e a própria Goiânia. Os quatro últimos foram quase
infrutíferos. A história nos narra com frequência que alguém enfrentou
determinada circunstância em que não conseguiu perceber quase nada de
importância concreta. É como atravessar um deserto cujo percurso deixa
rastros que logo se apagam e nada fica para contar a história. É como perder
parte de sua própria vida. É um hiato que poderia ser excluído de nossa
biografia sem fazer falta alguma. Às vezes me pergunto por que exerci parte
de meu ministério em quatro lugares onde nunca consegui ver praticamente
nada. Iturama foi de grande proveito. Em Pirapora e João Pinheiro não deixei
rastro. Meu período em Goiânia por fim terminou com algo que me faz ver a
razão de ter vivido aqui. No calendário do Eterno pode ser que houvesse
razão plausível para esse período aparentemente estéril. É só lembrar o
glorioso texto de Isaías:
Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos,
nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR;
porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim
são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e
os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.
(Is 55.8, 9)

Crendo e experimentando pessoalmente esta antítese, então não posso


afirmar que minha vida nesses quatro campos de trabalho foi inútil, pois o
Senhor me preparava para algo de valor imenso, porém eu não sabia. Daí
viver dois anos e meio em Goiânia sem ver frutos como vira em Iturama e
veria em Paraíso, e daí em diante. Forçando um pouco, hoje consigo ver a
razão por que passei por esse período aparente desértico. O mistério da
Providência é imprevisível.

2. Prospectiva

Então, chegou a ocasião da ordenação ao sagrado ministério.


Pessoalmente, eu visualizava tudo aquilo como grande demais para mim. A
visão daquela bigorna e daquele martelo, naquela modesta oficina, nunca me
deixou, e o futuro me mostraria que tal visão jamais me deixaria;
assemelhava-se a Paulo que sempre se lembrava que fora perseguidor da
Igreja de Deus. Na verdade, eu tinha medo da dura realidade do ofício
pastoral. Sentia-me inseguro, e com razão. Tinha medo de fracassar e levar
uma igreja ao fracasso. Minha timidez natural e a responsabilidade chegavam
ao ponto de me atormentar. Às vezes queria voltar atrás. Vencer é muito
bom; fracassar é preferível morrer.
E ainda me perseguia a perene tendência de desistir facilmente. Eu
teria que aprender que “todo aquele que desiste de lutar nunca tem razão”.
Como evangelista, eu poderia parar a qualquer momento; mas, como pastor,
entendia que não há meia volta ou volta completa. Em meu conceito pessoal,
a ordenação divina não permite retroceder. Eu teria que seguir em frente; e o
futuro é misterioso, secreto e velado; é inesperado. Não visualizamos nada
através do nevoeiro do tempo. Depois de assumir o pastorado eu teria que
mostrar determinação e resistência. Tentava ver a dimensão de minha fé e
não conseguia; inclusive me perguntava se realmente estava exercendo fé no
Senhor da Igreja e confiança em mim mesmo, e a resposta tendia para a
negativa. Na verdade, nunca me vi como um homem de fé vigorosa; de amor
profundo; de conhecimento abrangente; confiável à igreja e à sociedade. Via-
me mais como pusilânime do que como corajoso e determinado. Mas uma
força misteriosa não me deixava parar no meio do caminho.
Lembrei-me de ler sobre aquele ministro novato que assomou o púlpito
de um pastor ancião, crendo que iria “arrasar”. Terminado o culto, desceu do
púlpito “arrasado”. Então indagou do pastor ancião: “Por que sinto o sabor
do fracasso?”. E o ancião: “Se você tivesse subido como desceu, então teria
descido como subiu”.
Procurando conhecer-me, percebia claramente em mim a presença de
forte tendência para a megalomania. Sim, eu sempre fui alvo de minha
própria grandeza. Havia lido que o complexo de inferioridade na verdade não
é mais que a luta contra o espírito de superioridade. O que fazer com isso? O
viver diário de pastor, entre as ovelhas, me ensinaria esta lição de casa. E
tive que aprendê-la a duras penas, contudo ainda não sou mestre, pois
continuo com a mesma tendência, só que mais calejada, desiludida,
mortificada.

3. Ordenação

As igrejas de Betel e União solicitaram do Presbitério de Goiânia que a


cerimônia de ordenação fosse realizada no templo da Igreja União, por ser o
maior. Em 9 de fevereiro de 1975, um dia após o décimo primeiro aniversário
de casamento; reunidas as duas igrejas e fazendo-se presente uma comissão
de ordenação; com uma cerimônia muito bela e de profunda espiritualidade,
recebi do Presbitério de Goiânia a imposição das mãos, e a declaração de que,
doravante, eu seria o Rev. Valter Graciano Martins.
Habituei-me a tratar os pastores evangélicos com o título Reverendo.
Nunca trato assim somente os pastores presbiterianos, mas também os
pastores de outras denominações realmente evangélicas; tampouco somente
os mais velhos, mas a quantos já receberam a imposição das mãos de um
Presbitério, quer mais idosos, quer mais jovens. Entendo que o tratamento
visa ao título e ofício, e não à pessoa que os recebe. Creio que esse título de
reverência é justo naqueles cujas vidas são consagradas à proclamação do
santo evangelho. Todavia, no que diz respeito à minha pessoa, tal título é
pomposo demais. Em vez de sentir-me exaltado, senti-me esmagado por ele.
Em meio aos sorrisos de todos, às orações, aos louvores e, sobretudo, à
proclamação da Palavra de Deus, eu estava sagrado ministro da Palavra de
Deus pela imposição de mãos. Nem me lembro quem foi o orador, nem do
texto bíblico e o tema do sermão. Tudo ficou tão longe, que a memória já
não retém os detalhes.
As duas congregações estavam juntas naquele evento. Boa parte do
Presbitério se fez presente. O único parente meu que se fez presente nesse
evento foi meu irmão Marcelúcio, e isso porque também havia abraçado a
mesma fé e nesse tempo morava conosco. Minha família, estritamente
falando, nunca se empenhou em estar comigo nas ocasiões de celebração.
Aliás, meus irmãos, com a exceção de Marcelo, não conhecem nada de
minha história. Neste sentido, sou para eles um perene desconhecido. Caso
lhes seja indagado: “Quem é o Valter?”. A resposta certamente será:
“Sabemos que temos o mesmo sangue, mas nada sabemos a respeito de sua
vida e história”. Para eles, sou quase que um proscrito.

4. Emprestado à Missão Oeste do Brasil

A Missão Presbiteriana no Brasil tem uma história mais que centenária.


Começou com o Rev. Ashbel Green Simonton e chegou até nós. No entanto,
esta Missão se dividira no passado com o intuito de atender melhor aos
reclamos de um país cujo território físico é imenso. A nós coube receber a
ação daquela parte que se chamou Missão Oeste do Brasil. Até este ponto de
minha história no trabalho do Senhor, já se passara onze anos. Até então,
servira ao Senhor como evangelista leigo, semeando, plantando e fazendo
crescer igrejas que hoje são grandes e bem estabelecidas. No entanto, meu
serviço missionário é totalmente ignorado pela Igreja atual. É como se não
existisse no quadro de obreiros missionários. Como eu, muitos outros ficaram
sepultados em um passado ignoto. Somente o Senhor da Seara é quem os
conhece.
E já de antemão a Missão solicitou do Presbitério de Goiânia que,
assim que eu fosse ordenado, este me emprestasse a ela a fim de preparar a
congregação de Paraíso do Norte de Goiás (hoje Paraíso do Tocantins) para a
organização eclesiástica. Estipulou o tempo de três anos para o empréstimo.
Aquela mesma Missão que se agastara com minha pessoa e trabalho,
dando ouvidos a um homem equivocado, agora quer minha pessoa e meu
trabalho, com todo apreço, empenho e confiança. O Presbitério assentiu ao
pedido, cedendo-me à Missão Oeste do Brasil com vistas à Congregação
Presbiteriana de Paraíso, de 1975 a 1977.
De repente, minha condição e trajetória se reverteram, vendo-me assim
investido de autoridade e de mais autonomia. No dizer do apóstolo Paulo,
senti um peso de glória e nova responsabilidade. No mesmo dia da
ordenação, recebi minha Carteira de Ministro, preenchida e assinada por um
dos vultos mais proeminentes da IPB, que sempre fora alvo de meu mais
profundo respeito, e que mais tarde se tornaria meu amigo íntimo e
companheiro de trabalho a nível de Supremo Concílio, Rev. Álvaro Almeida
Campos.
A despeito do júbilo de poder doravante exercer o ministério completo,
nunca deixei que a megalomania inerente à minha personalidade subisse à
minha cabeça e me tornasse arrogante e presunçoso, exteriormente, de
acordo com minha natureza latente. Ao longo de minha vida, cunharam-me
de “arrogante”. Essa falsa fama campeou por toda parte. Desenvolvi o senso
de autocrítica, e nunca escondi meus defeitos, porém nunca consegui ver-me
como “arrogante”. O dicionário diz que o “arrogante” é soberbo, atrevido,
presunçoso, insolente, altaneiro, que menospreza os demais e não admite
estar errado. Se me chamarem de franco, às vezes até rude, concordo; se
disserem que sou um homem “esquisito”, digo que também me vejo assim.
Tem sido difícil acostumar-me com essas coisas. O arrogante não se
reconhece como miserável, e eu me reconheço como o pior dos homens. No
meio dos colegas de ministério, vejo-me como “o menor em Cristo”. Certo
dia um amigo me advertiu, dizendo: “Se você quiser ser respeitado; se quiser
impor-se; se quiser ser visto como grande, então terá que impor-se para se
sobressair; do contrário, será sempre visto de cima para baixo. Se quiser ser
respeitado e valorizado, terá que aceitar os títulos que você granjeou através
do tempo”. Por mais verossímil fosse aquele conselho, não o pus em prática.
As pessoas me dão títulos; mas nunca assino qualquer escrito ou documento
prefixando meu nome com título. Ajo assim somente comigo; nunca com os
outros.

5. Aluno do Professor João Calvino


Aprendi com João Calvino que deu ordem sobre seu túmulo: que fosse
sepultado junto aos túmulos mais comuns da cidade. Obedeceram. Até hoje
ninguém sabe onde seu corpo está sepultado; somente no dia do Juízo Final,
quando ocorrer a ressurreição de todos os corpos já sepultados, é que talvez
se saberá o local onde jazem seus ossos. É verdade que seu corpo físico
desapareceu; mas desde então seria perenemente impossível reter a fama
daquele homem. Enquanto seu corpo físico jaz, usando sua própria
linguagem, “recôndito”, sua pessoa e influência eclodiram pelo mundo todo.
Aprendendo com ele e dele, digo que a única coisa que gostaria que ficasse
de mim não é minha fama, que não possuo e jamais possuirei; e sim o
produto de minha vida peregrina — um legado imperecível que deixo à Igreja
de nosso Senhor, na qualidade de servo!
Nossa vida terrena é envolta de ilusão. O real não se manifesta a olhos
nus em sua plenitude. A cada dia me sinto imbuído da realidade humana. A
velhice nos desencanta e nos esmaga com o terrível peso da realidade.
Vestuário, riqueza material, fama, beleza física — tudo isso não passa de
quimera. No dizer de um filósofo, “a beleza é um esqueleto bem vestido”. A
única riqueza real; a única beleza perene; a única fama que vale a pena
possuir, serão as glórias por vir após a ressurreição deste corpo
fantasmagórico que nasce, cresce, envelhece e então escapa à visão dos vivos
com a chegada e transporte da morte. A vida terrena não passa de um frágil
fio que de repente arrebenta. Aqueles que se gloriam em seu exterior
deveriam ter em mente, indelevelmente, que a qualquer momento sua vida
terrena será extinta. Segundo a bela descrição poética do escritor de
Eclesiastes: “antes que se rompa o fio de ouro, e se quebre o cântaro junto à
fonte, e se desfaça a roda junto ao poço, e o pó volte à terra como o era, e o
espírito volte a Deus, que o deu” (Ec 12.6,7). Calvino sempre usa uma ideia
recorrente em suas obras: nosso corpo é um doloroso peso e apodrece
facilmente; com a morte, a alma se liberta e voa para o “seio de Abraão”.

6. Tempo de ministério

Sempre contei o tempo de trabalho leigo como sendo um ministério


legítimo. Quando alguém me pergunta quanto tempo tenho de ministério
pastoral, respondo que ele começou em janeiro de 1964, muito embora não
pudesse, nesse tempo, ministrar os sacramentos e outros deveres do pastorado
pertinente exclusivamente ao ministro da Palavra. Trabalhei cinco anos em
Iturama, um ano e meio em Pirapora, um ano e meio em João Pinheiro e três
anos em Goiânia, somando 11 anos de ministério leigo. Durante esse tempo,
estive à frente de igrejas, ajudei a fundar congregações, preguei centenas de
sermões em cidades, vilas, fazendas e em lugares quase inacessíveis, dormi
em cabanas cheias de todo tipo de insetos; celebrei dezenas e mais dezenas de
cerimônias (bênção nupcial, ofício fúnebre e outros eventos); atendi a
diversos convites para conferências em igrejas pequenas e grandes, sempre
com a fama de “evangelista cantor”; pois, naquele tempo, desenvolvi um rico
ministério de música tendo ao lado minha esposa Cremilda, duetando e
tangendo meu instrumento portátil pelas regiões campestres. Certamente,
naquele tempo não se usava a parafernália de sons eletrônicos modernos.
Cantávamos com o peito e garganta abertos, acompanhados pelo som de um
harmônio de fole que eu mesmo tocava.

7. Pastorado modesto, porém leal

Nunca fui um obreiro talentoso, eloquente, como dizem hoje, explosivo


na proclamação do evangelho. Sempre lutei pela unidade das igrejas, pela
coesão dos conselhos e pelo aprofundamento na sã doutrina. Nunca suportei
ver e ouvir distorção de qualquer doutrina sem uma reação fulminante. Nunca
fiz igrejas crescerem explosivamente, mas também nunca dividi igrejas.
Sempre tive horror a essa epidemia que infesta a igreja moderna. Sempre me
firmei na sã doutrina pela ótica da Igreja Presbiteriana do Brasil, em sua
confissão da fé reformada ou calvinista. Nunca proclamei: “a igreja vê e
pensa assim; mas eu vejo e penso diferentemente; não concordo com a igreja
neste ponto, para mim ela está errada”. Pensar ou declarar isso seria genuína
presunção, pois eu estaria sendo mais sábio que a igreja, e o que penso e
ensino seria mais perfeito do que o pensamento e o ensino da igreja. Muitos
querem corrigir os “erros” doutrinários da igreja sem a mínima cultura
teológica e filosófica para isso. Pior, evocam o Espírito do Senhor como
sendo o co-autor desses disparates. Longe de mim tais coisas!
Gostaria de partir deste mundo sendo conhecido como o homem
plenamente fiel à sã doutrina. Um homem compromissado com a plena
verdade revelada na Santa Escritura, sem dobrar ou para a direita ou para a
esquerda; mas que seguiu em frente como um verdadeiro soldado de nosso
Senhor Jesus Cristo. Sou um homem de muitos defeitos, porém defeitos de
cunho humano. Por isso nunca defendi minha pessoa quando acusado; porém
vezes sem conta fui visto defendendo com unhas e dentes a sã doutrina.
Sempre mereceu meu repúdio quem se mostra desleal para com a estrutura
da igreja. Mais de uma vez desejei abjurar a IPB por questões políticas e
administrativas. De vez em quando me sinto injuriado com certas coisas
existentes nela em razão de seu lado humano. Mas sempre superei esses
momentos de delírio e segui em frente resolutamente. Quando se discute a
respeito da IPB, sempre a defendi; sempre que se discute a respeito do
Supremo Concílio, nunca o vitupero; nunca vilipendiei os governantes da
Igreja do púlpito; nunca saí de lar em lar difamando os que governam a
Igreja; nunca escrevi um documento e o pusesse na internet para execrar os
dirigentes dos concílios ou algum pastor em particular. Tudo quanto faço no
seio da Igreja visa a enobrecer toda ela. Desejo que ela seja abençoada e
aperfeiçoada e toda minha luta é para vê-la enriquecida. É somente isso que
quero! Que o Eterno me perdoe quando, cedendo à indignação ante os erros
humanos dos que regem a igreja nacional, sou levado a censurar e a me
expressar indevidamente contra essas autoridades eclesiásticas.

8. Convicção reformada

Meu ser é tão entranhado do espírito reformado ou calvinista de pensar


e sentir, que não saberia ser outra coisa. Sou visceralmente contra indivíduos
que abjuram o calvinismo para criar “monstros” no lugar de igrejas. Certa vez
alguns colegas me sugeriram que criássemos nossa própria denominação.
Minha resposta contundente foi: “Que este seja o último pecado que eu
cometeria contra o meu Deus”. Portanto, nunca usei o púlpito para denegrir a
Igreja de nosso Senhor em defesa própria. Sempre vi a Igreja em seu aspecto
duplo: a igreja visível, tangível, humana, portanto falha, que ainda peregrina
por este mundo; e a igreja real, invisível, intangível, divina, composta não só
de presbiterianos, mas de todos os eleitos que compõem as diversas
denominações realmente cristãs e de muitos que jamais terão a chance de
desfrutar a “comunhão dos santos” neste mundo, em razão das circunstâncias
e em seu aspecto externo. Esta Igreja se compõe de ex: covardes, incrédulos,
abomináveis, assassinos, impuros, feiticeiros, idólatras, mentirosos (Ap 22.8).
São eleitos e destinados à glória eterna no lar de nosso Senhor Jesus Cristo
(Jo 14.2).

9. Luta contra a megalomania

Visto que guardo ainda em minha personalidade muito de


megalomania, declaro que dificilmente alguém chegou a um conhecimento
mais pleno e profundo da interpretação bíblica pela ótica do calvinismo do
que eu. E isso tem contribuído para um doloroso senso de mágoa e tristeza de
ver o estado atual da igreja, no campo da doutrina, do governo e da liturgia.
Há negação discreta e pública da sã doutrina; há distorção no governo da
igreja; a liturgia, em minha visão, tem sido feita de modo irresponsável, sem
perguntar se o Criador do universo concorda ou não com a “cantoria” que
ecoa nas igrejas. Em minha visão, as igrejas não estão louvando a Deus, e sim
a si mesmas. Não estão buscando primeiramente seu reino e sua justiça, mas
o agrado de sua própria natureza humana e ainda depravada, ou seja, a carne.
Não temos Apocalipse 4 e 5 como modelo para nossas liturgias. De que vale
encher um templo de pessoas por meio dos cânticos, se não houver a unção
do Espírito nem o ensino perfeito da sã doutrina? Se não houver aquela fé dos
santos que ultrapassa a todo entendimento? De que vale encher um templo
quando o centro é o louvor e não o púlpito como a bigorna e a Palavra
proclamada a partir dele como o martelo que esmiúça a penha? Uma igreja
que não tem a Palavra de Deus como o centro de sua existência, dificilmente
pode ser chamada de “Igreja de Deus”. Tudo o que acontece na liturgia são
componentes que adornam a proclamação da Palavra. Reunir-se para cantar
“louvores” sem a centralidade da Palavra de Deus é de pouco valor, a menos
que os cânticos estejam recheados de elementos doutrinais.

10. O sacro dever da Igreja

A igreja tem que lutar e relutar contra aquela ímpia dicotomia que
confessa a Cristo com os lábios e o nega com suas obras. Ela tem que
confessar com a vida o que Jesus nos preceituou no Sermão do Monte: “Sim,
sim, não, não; o que passa disso vem do maligno” (Mt 5.37). Há muita
leviandade na esfera litúrgica das igrejas locais. As seitas têm sido mestras
das igrejas genuinamente cristãs. Elas têm sido fontes donde emana todo tipo
de vícios e costumes que se têm introduzido em nossos cultos. Até mesmo os
pastores aderem a essas coisas que ontem estavam ausentes, só porque
contribuem para fazer crescer o número de pessoas que vêm para a
membresia das igrejas. Não importa o que façamos; o que importa mesmo é
que elas cresçam em número. Essa é uma temeridade que deveria ser repelida
com todas as nossas forças. Somente três coisas deveriam fazer uma igreja
crescer: o evangelho puro, proclamado segundo o teor bíblico, convidando os
pecadores a abraçarem a eterna salvação; a sã doutrina que nos ensina como
viver vidas puras para o Senhor da Igreja; e a genuína celebração dos
sacramentos. Somente estas coisas é que produzem um verdadeiro culto
praticado de acordo com as normas bíblicas de adorar o Senhor em espírito e
em verdade (Jo 4.23,24).
Muitas pessoas têm toda razão de me censurar por questões pessoais;
mas creio que ninguém poderá se apresentar em público e dizer com plena
razão que estou crendo e ensinando heresia. Meu grande “mal” é que não
nasci com aqueles talentos que abrilhantam a tantos homens e mulheres no
seio da igreja. No entanto, ele me tomou como sou para a glória de seu
Nome, e tenho tentado corresponder. Cada dia que passa só me importa uma
coisa: engrandecer meu glorioso Senhor e Deus. Minha pessoa pode e deve
ser descartada.

PRIMEIRO PASTOREIO COMPLETO

1. Paraíso do Norte de Goiás (hoje do Tocantins)

1.1. Cidades e igrejas

Com a construção da rodovia Belém/Brasília, BR 153, foram nascendo


vilas às suas margens e proximidades, das quais algumas vieram a ser
cidades florescentes. Paraíso foi uma dessas, hoje uma grande e importante
cidade do Estado do Tocantins. A Missão Oeste do Brasil, com sua
metodologia de se valer de obreiros leigos para a expansão do evangelho
onde ele ainda não fora ouvido e implantado, acompanhou o nascimento e
crescimento dessas cidades para implantar igrejas e escolas. Ceres/Rialma,
Nova Glória, Rubiataba, Uruaçu, Campinorte, São Miguel, Formoso,
Porangatu, Gurupi, Paraíso, Miranorte, Colinas, Araguaína entre outras.
Obreiros de renome fundaram igrejas naquelas regiões; e outros, em seguida,
passaram por elas, dando-lhes forma e estabilidade. Alguns deles eu nem
mesmo cheguei a conhecer, exceto de nome; outros, eu conheci, e bem.

1.2. Igrejas e seus pastores

Lembro-me bem que meu colega de IBEL, José Gonçalves de Siqueira,


saiu de lá e já foi pastorear a Congregação de Paraíso e ser professor na
escola que nasceu com a igreja. Em seguida também nossa colega de IBEL,
Rute, terminou seu curso e foi ser professora em Paraíso. E foi assim que se
casaram e se tornaram um abençoado casal missionário. Sua história em
Paraíso daria um livro massudo. No entanto, sei que muitos outros obreiros
passaram por lá antes e depois. Lembro-me bem do casal Rev. Joaquim de
Brito Cabral e Prof.ª Nicolina, sua esposa. Mas fui informado, e ainda me
faltam os dados reais, que o primeiro obreiro que andou por lá foi o grande
homem de espírito missionário e meu colega de outrora, Rev. Silas Ramos.
Tenho lembrança de que ele mesmo deu-me algumas informações sobre suas
andanças pelo norte de Goiás, hoje o Estado do Tocantins. No entanto, essas
informações ficaram no espaço sem serem escritas na época.
Cheguei ali para substituir meu pai na fé, Rev. Francisco Maia. Era
ainda uma congregação, embora um tanto crescida. No mesmo mês de minha
ordenação, fevereiro de 1975, eu e família entramos em Paraíso com a
mudança. Paramos no alto, de onde se tem uma vista exuberante da cidade, e
então, em meu coração, orei para que o Senhor da Igreja me desse a bênção
de pastorear não só a igreja, mas também a cidade. E foi isso que aconteceu.

1.3. Problemas colaterais

Fomos chegando e os problemas vieram ao nosso encontro como um


torpedo. Como pastor, agora podia enfrentá-los com mais autonomia, porém
me vali de alguns líderes com os quais constituí uma mesa diretora, sem
respaldo constitucional, apenas para que eu não assumisse sozinho todas as
decisões. Em alguma medida, esse expediente me valeu muito.
Pela determinação da Missão, Cremilda seria doravante a diretora da
escola. Todavia, esta escola já tinha sua diretora, cujo tempo ali já se
expirava; no entanto, ela não recebeu bem a pessoa de Cremilda e criou sério
embaraço. Agora, como a única autoridade escudada pela Constituição da
Igreja, eu podia decidir. Confesso que não soube nortear bem a situação e
houve um rompimento desconcertante, com ofensas de ambos os lados. Até
hoje sinto o sabor amargo de meus primeiros erros no exercício pastoral.
Havia outra via, mas não soube tomá-la. É muito difícil quando temos de
forçar as circunstâncias que envolvem pessoas que merecem nossa honra e
participamos de seu constrangimento. Certamente, deixei ali uns desacertos
que me valeram a perda de amizade e prestígio. Renascem tristezas e pesares
o só recordar alguns detalhes dos impactos. Não era para ser assim.
Com isso, a trajetória teve um início difícil, porém me ensinou grandes
lições para um futuro incerto. Eu teria que vencer; teria que exercer o
pastorado como sempre idealizara: visitando todos os membros da igreja;
visitando as cidades e vilas vizinhas; ouvindo queixas e ensinando a palavra
a partir do púlpito e nos lares. Criei uma classe de catecúmenos, da qual um
dos alunos era um adolescente de nome Jadiel Bispo de Souza, que mais
tarde faria história entrelaçada com a minha.

1.4. Igreja e escola aos olhos da cidade

Descobri que a cidade considerava muito aquela igreja e a escola em


razão do respeito adquirido pelos pastores e professores anteriores e atuais.
Eles viveram em constante contato com a polícia, com a prefeitura, com a
liderança das escolas e de outras instituições. A título de exemplo, tive que
comprar alguns móveis e o dinheiro não era suficiente para compra à vista.
Entrei numa loja de móveis e me apresentei, perguntando se o proprietário
confiaria em vender-me com parcelamento. Ele então me perguntou: “Você
quer comprar toda esta loja fiado?”. Não quero tanto, respondi. Por que o
senhor me venderia toda a loja fiado? Então explicou: “Todos os pastores
presbiterianos que estiveram em Paraíso eram homens da mais fina educação
e trato. Sempre me compraram e nunca deixei de receber”. Essa era a tônica
em toda a cidade. Ao chegar, incluíram-me no rol da liderança da cidade.
Portanto, não confiavam propriamente em minha pessoa que era ainda
estranha, e sim na pessoa dos que representaram bem o evangelho de nosso
Senhor em toda a região. Essa era a visão que todos tinham dos ministros do
evangelho na cidade de Paraíso. Por isso, minha filosofia prática é que todos
os ministros do evangelho, no exercício de pastorado, têm de agir no seio da
sociedade com a máxima lisura. Se ele fizer isso, toda a igreja será também
respeitada pela sociedade que a circunda.

1.5. Homenagem

Ficamos ali três anos, durante os quais eu e minha esposa Cremilda,


entre cooperação e perseguição, exercemos um grande ministério, na área
eclesiástica e na área escolar, pois aquela igreja possui até hoje uma grande
escola anexa ao templo; aliás, hoje ela ocupa todo um quarteirão e se tornou
uma escola de renome. Tanto é que, no final, a prefeitura me conferiu o título
e diploma de “cidadão paraisense”.
Isso se deu porque, querendo a prefeitura celebrar os 14 anos de
emancipação da cidade, sendo que até então esse evento nunca fora
realizado, por isso reuniu a liderança eclesiástica e escolar para a formação
de uma comissão do festejo. Evidentemente, eu e Cremilda representamos
nossa escola. O prefeito explicou o desejo e objetivo da prefeitura de realizar
esse evento. No final, propôs que se formasse uma comissão. Lembro-me
bem que uma freira se levantou e propôs que eu fosse o presidente da
comissão. Estava sentado, senão teria caído. Estar presente ali era uma
obrigação nossa, mas era somente isso. Protestei com veemência. Sem
rodeios, ignorando meu protesto, aquele auditório aplaudiu a proposta da
freira e minha nomeação foi unilateral. Resumindo, aquele festejo teve
sucesso redondo.
Eu havia composto um cântico para ser entoado durante as festividades
da primeira celebração do aniversário da cidade de seus 14 anos de
emancipação. No final, a prefeitura solicitou cessão dos direitos autorais
sobre esse cântico para que viesse a ser doravante o hino oficial do
município. Eu e minha esposa nos tornamos importantes e perenes figuras
em Paraíso do Tocantins. Hoje quase ninguém nos conhece, embora nos
perpetuássemos na história e nos arquivos do município.
Isso se deveu à vida consagrada de vários servos de Cristo antes de nós,
estrangeiros e brasileiros. Sem me lembrar de todos, talvez os que mais
marcaram aquela igreja e escola tenham sido o Rev. José Gonçalves de
Siqueira e sua esposa Prof.ª Rute Siqueira. Ambos são ainda lembrados e
intitulados de Professor e Professora. Então aprendi que a melhor coisa que
possa acontecer na vida de um servo ou serva de Deus é substituir pessoas
que só deixam um rastro fulgurante de vida e testemunho no serviço prestado
a uma comunidade, no santo nome de Jesus Cristo. Isso nos impele a fazer o
mesmo. A maior parte de minhas substituições foi assim: meus antecessores
viveram uma vida de testemunho sólido e indisputável. Quanto a mim, não
posso dizer o mesmo. Creio que deixei para trás, para meus sucessores, mais
motivo de tristeza e queixa do que de alegria. Quando faço uma
retrospectiva, vejo meu caminho entulhado de falhas que foram encobertas
pela infinita graça do Senhor da Igreja e o perdão das pessoas ofendidas.
Com certeza, algumas jamais me perdoaram e jamais me perdoarão — e com
razão!

2. Miranorte

Rev. Francisco Maia havia iniciado uma congregação na cidade de


Miranorte, mais ao norte de Paraíso, à margem da rodovia BR 153. Dei
continuidade àquele bom trabalho que resultou numa igreja ativa. Senhor
Francisco Mendes, farmacêutico, e sua bondosa esposa, dona Maria, eram
meus anfitriões. Eles não aceitavam que algum outro hospedasse o pastor;
era um compromisso deles junto com Deus.
Senhor Francisco me passou um raro exemplo de reverência prestada
aos ministros do evangelho. Eu sentia que ele estava sempre emocionado e
gratificado em hospedar-me debaixo de seu teto. Sua polidez era singular.
Nunca mais encontrei um exemplo igual. O que se vê, mesmo no seio da
igreja, é uma atitude de indiferença para com os ministros da Palavra. De vez
em quando se vê até mesmo um modo agressivo, e inclusive desdenhoso.
Quantos eu encontrei que acreditavam que o ministro da Palavra tem pouco
conhecimento teológico. Por isso, não raro me deparei com cristãos que
quiseram corrigir-me em algum ponto doutrinário, falando com uma
autoridade que não possuíam.
Em certa congregação rural, enquanto eu ensinava a Palavra na Escola
Dominical, um senhor se pôs de pé e virou-se para o grupo reunido e disse:
“O pastor está errado. A doutrina correta é assim”. Nunca permiti que
passasse impune tal atitude para com a autoridade do ministro da Palavra.
Além de corrigir severamente aquele senhor, repeti aquele ensino
pausadamente e repetindo que aquele senhor, além de crer erroneamente na
doutrina, era desrespeitoso para com quem possui a autoridade de ensinar.
Para isso, o ministro da Palavra precisa possuir autoridade “real”. A pergunta
que sempre me fiz tem sido: Qual a fonte ou causa que levaria tantas pessoas
a nutrir tal atitude para com os ministros do evangelho? A causa está nas
pessoas, ou no próprio ministro da Palavra? A igreja tem de olhar para o
ministro da Palavra como sendo um homem que detém conhecimento
autoritativo. Para isso, o ministro tem de ser um homem muito estudioso e
atento ao seu dever.
Certo dia eu dava assistência pastoral à congregação de Miranorte, e
certo jovem me parou à porta do templo e me dirigiu a seguinte pergunta:
“Você é o pastor da igreja?”. Respondi que sim. Então me falou: “Abra sua
Bíblia e me mostre algum texto, e eu lhe direi se é verdadeiro ou falso”.
Respondi-lhe de chofre, impelido por meu temperamento nato: “Moço, você
não diz nenhuma novidade, porque o diabo já tentou de tudo para convencer-
me disso, e muitos servos humanos dele têm feito o mesmo”. Quando subi ao
púlpito, olhei para os presentes e vi aquele moço assentado em um dos
bancos diante de mim, acompanhando em silêncio o estudo da Palavra.
Tempos depois, convidado para um dos aniversários daquela igreja, descobri
que aquele mesmo homem figurava em seu rol de membros. Se você tentar
entender e explicar fatos desse gênero, descobrirá que eles não têm
explicação racional ou natural. São coisas do Espírito do Senhor.

3. Nova Rosalândia

Da mesma forma, demos continuidade aos trabalhos de Nova


Rosalândia, uma vila cortada pela rodovia BR 153, Belém/Brasília, cujo lote
fora doado pelo proprietário de toda aquela terra em que a vila fora
construída. Ali nasceu uma escola dirigida pela de Paraíso, com duas
professoras e uma boa assistência. Construímos um templo junto ao prédio
escolar. Assim, ali passou a funcionar escola e igreja. E então se cumpria o
propósito da Missão: em cada igreja, uma escola. Infelizmente, não era assim
em todas as igrejas. Somente em umas poucas a escola prosperou.

4. Miracema

Havia também em Miracema, às margens do Rio Tocantins, um médico


crente, Dr. Franklin Sayão, com uma família numerosa e todos crentes, os
quais saíam de lá para congregar conosco em Miranorte. Esse homem era
notável por seu espírito filantrópico e missionário. Seu sonho era ser
médico/missionário. Mais tarde se cumpriu seu ideal, tornando-se médico na
antiga e grande Missão Caiuá, como era sua aspiração.
Foi numa de minhas visitas a Miracema, à sua casa, que me deparei
com um adolescente de férias, sobrinho daquele médico, que se sentou
comigo para discutir teologia. Adolescente, já membro de uma igreja batista,
o ardor pelo conhecimento bíblico havia se assenhoreado de seu coração. Seu
sonho era tornar-se teólogo. Fiquei impressionado com aquele garoto
inteligente, crente, questionador, bem adiantado à sua faixa etária em questão
de fé e conhecimento bíblico. Certo dia eles passaram por minha casa em
Ceres, Goiás. Lembro-me que, ao entrar em meu gabinete pastoral, deparei-
me com aquele jovem escarafunchando alguns livros. Jamais iria imaginar
que aquele mesmo garoto seria mais tarde o grande hebraísta já de renome,
figurando em muitos livros, de nome Luiz Alberto Sayão. Mal sabia que
aquele adolescente um dia seria meu próprio mestre, porquanto sou ledor de
sua boa literatura, ouvinte de suas conferências, recebendo de sua produção
teológica orientação prestimosa. Aquele adolescente viria a ser um vulto de
fama internacional. É muito gratificante passar pela vida e experimentar
casos como esse.
O missionário da Missão que correspondia comigo em Paraíso era o
grande homem de Deus chamado Robert Camenisch. Homem admirável por
seu zelo e ardor missionário, justo, generoso, diligente, porém irascível ou,
como se costuma dizer, de “estopim curto” (e quem me conhece sabe que me
enquadro bem nessa categoria!). Tive uma grande experiência no convívio
com esse homem franco e sincero.
Certo dia ele passou por Paraíso enquanto eu visitava o campo. Ele viu
algo que o desagradou e deixou para mim um bilhete muito incisivo. Ao
chegar e ler o bilhete, respondi-lhe por carta que meu cargo pastoral naquela
igreja estava à disposição, porquanto não aceito as grosserias de missionário
que não toma conhecimento dos fatos e me deixa bilhete atrevido. Quando
tomou pé da situação real, ele me respondeu pedindo mil perdões. Mais
tarde, passando por sua casa, antes de dizer “bom dia”, ele me abraçou e,
chorando, reiterou o pedido de perdão.
Esse tipo de atitude é muito difícil de praticar. Eu mesmo tive que
praticá-lo muitas vezes, porém com muita dificuldade. E assim eu passei a
conhecer mais uma virtude daquele homem admirável: a humildade. Esta
virtude é que contrabalança e tempera aqueles que sofrem de suscetibilidade,
como é meu caso.
Conta-se que um aluno de um grande sábio lhe perguntou: “Mestre,
qual é a principal das virtudes?”. Ele respondeu prontamente: “A
humildade”. Então o aluno tornou a perguntar-lhe: “E a segunda?” Ouviu a
mesma resposta: “A humildade”. E, finalmente, perguntou-lhe de novo: “E a
terceira?”. E ouviu a mesma resposta: “A humildade”. Nosso Senhor disse
que era “manso e humilde de coração” (Mt 11.29). E ele provou isso na
prática. O orgulho humano sempre impede que uma pessoa aja com
humildade e, assim, vença. Essa é uma das tarefas cristãs que mais me
desafia. Não nasci humilde e continuo debatendo em meu interior para
cultivar essa virtude. Creio que vou partir deste mundo sem haver alcançado
este ponto da grande montanha da vida cristã.

5. Porto Nacional

Passei a visitar esta cidade ribeirinha por causa de uma família já


conhecida de longa data. A providência punha em meu caminho, mais uma
vez, um membro da grande família Tolentino, agora uma filha. Dona Maria
Tolentino, residente em Porto, reclamou minhas visitas pastorais. Atendi e
foi muito bom. Celebrei alguns cultos naquela casa durante meu pastorado
em Paraíso.

6. Rastro da providência

6.1. Evangelista Joca

Em Paraíso fui indelevelmente marcado pelo envolvimento com


algumas pessoas em particular. Uma delas foi o senhor José Joaquim de
Oliveira, “Joca” para os íntimos, meu companheiro inseparável, nos
trabalhos da Igreja. Homem humilde, chefe de uma família numerosa, cuja
esposa, dona Eurides, mulher prestimosa e crente, todos firmes na Igreja e na
leitura da Bíblia. A esse homem devo muito de meus sucessos naquele
grande campo. Ele era meu substituto nas lidas missionárias. Visitava o
campo e eu ficava na sede, ou ele ficava enquanto eu dava assistência
pastoral àquele grande campo. Guardo boas lembranças de meu amigo e
companheiro Joca.

6.2. Companheiro Roque

Outra família numerosa, impossível de esquecer, é a do senhor Roque e


sua esposa, dona Levina. Composta de pessoas muito humildes, porém de
uma dignidade ímpar, cristãos muito raros de se ver, foram nossos
companheiros durante aqueles três anos ali. Ainda hoje tenho a visão nítida
daquelas pessoas que tanto marcaram nossa vida. Dentre aquelas crianças, de
vez em quando encontro alguns bons líderes na igreja.

6.3. Guilherme Bispo de Souza

Havia uma família também numerosa na Igreja de Paraíso, a do senhor


Guilherme Bispo de Souza, esposo e pai daquela grande família. Antes de
tudo, sua filha Aldenir foi professora naquela escola. O preparo e profissão
de fé de seu filho de quinze anos, Jadiel, se deram sob minha ministração.
No mistério da providência divina, Jadiel morreu ainda jovem, chegando a
cursar o mestrado em teologia, a ser diretor do seminário de Goiânia e a
escrever um livro. Eu fui o editor de seu livro quando possuía ainda Edições
Parakletos — Charles Finney e a secularização da Igreja. Dessa fonte surgiu
muita polêmica contra ele e contra mim que o editei. Maria Helena, sua
esposa, veio a ser para mim outra filha e seus filhos, meus netos. O casal
Bispo de Souza gerou ainda outro filho pastor, Rev. Guilherme. Hoje, ele e
eu pertencemos ao mesmo Presbitério. O ministro da Palavra se envelhece e
se depara continuamente com esses frutos de seu ministério pregresso. É esse
tipo de coisas que não nos deixa soçobrar na trajetória, pois tudo isso nos faz
ver que vale a pena seguir avante nossa vocação divina.
Gostaria muito, neste ponto, de falar de todos os homens e mulheres
que não só conheci naquela vasta região, mas com quem tive larga
experiência. São tantos, que a tentativa seria abortiva, e correria o grave risco
de cometer omissão, o que às vezes é pior que ignorar a todos. Digo isso
porque sempre cultivei profundo afeto pelos colegas de ministérios, e seria
injusto dizer que não houve da parte deles algum tipo de contribuição em
minhas lidas pastorais. Mesmo assim, disponho-me a correr esse risco,
vasculhando minha memória, com a ajuda de algumas fontes de informação,
faço menção pelo menos de seus nomes.

7. Colegas de ministério

Naquele tempo, minha convivência mais próxima foi com estes


grandes pastores: Joaquim e José de Brito Cabral; José Gonçalves de
Siqueira; Silas Ramos; Jurandir Orestes de Meneses; Waldemar Rose; José
Gonçalves (nosso querido Zezé); Edson e seu irmão Ostílio Souza; Gecy
Soares de Macedo; Anésio Martins; Amadeu Rocha; Gidelson Firmo; Antil
de Moura; Vicente Almeida (ordenado sob minha tutela); Crisogno Coelho;
Antônio Olímpio dos Reis (também ordenado sob minha tutela); Saulo de
Castro Ferreira; Wilco Antônio; Carlito Silva; Cláudio César de Melo; Celso
Soares de Oliveira; Adolfo Potenciano; Robert Camenisch; Sherwood
Taylor; Ricardo Taylor; Carlos Cobb; George Hurst; Luiz do Lago; Adão
Bontempo; Manoel Marçal; Davi Bastos; Crispim Pires; Osmar Dias da
Silva; David Rosa de Oliveira; José Silvério; Ângelo Scarel; Sebastião
Tillman; Amador Meneses; Serafim da Rocha Barbosa; Adalberto Borges
Faria; Eurípedes Flogêncio; Anézio Cunha; Samuel Vieira; Washington
Ferreira da Silva; José Bessa Macedo; Edson Souza Gonçalves (os dois
últimos, meus tutelados); Lourival Luiz do Prado; meus cunhados, Antônio e
Otávio Caixeta. Alguns tiveram comigo um relacionamento muito rápido e
não consigo lembrar nem mesmo de sua fisionomia, muito menos os nomes.
Outros, bem mais recentemente, e não fizeram parte daquele grande quadro
de meu passado.
Naturalmente, estes homens (extensivamente suas esposas) são aqueles
que caminharam comigo nas veredas do ministério sagrado ao longo de
muitos anos. De um modo ou de outro, foram meus companheiros no que
chamo “campo santo”. Estou citando alguns nomes de homens que nem
mesmo sentiam ou sentem simpatia por mim. Talvez nem mesmo gostassem
que seus nomes figurem aqui. O que faço, não o faço por predileção, e sim
por justiça e verdade, pois foi assim que aconteceu e foi assim que aprendi a
proceder. E se porventura ocorrer de haver omitido alguém que deveria ser
citado aqui, que o mesmo perdoe a oscilante memória de um idoso.
7.1. “Pastor briguento”
No entanto, vale rememorar que naquele tempo recebi a alcunha de
“pastor briguento”, em razão de meu zelo pelo bem-estar das igrejas. Para
muitos, essa alcunha era um emblema negativo; para outros, era mais uma
expressão de carinho e reconhecimento. Enquanto na Comissão Executiva
dos Presbitérios, eu ia longe com o intuito de resolver “encrencas” suscitadas
principalmente na administração eclesiástica das igrejas. Creio que muitos
dos envolvidos ainda não gostam nem mesmo de lembrar meu nome. Fiquem
sabendo que eu os perdoo em nome de Jesus, nosso Senhor, como também
espero que me perdoem no mesmo santo nome.

7.2. Casal Mullins

Sou impelido a citar um casal que, por amor à justiça, embora ele não
seja pastor, contudo ambos exerceram (e ainda exercem) um ministério tão
rico na área de evento cristão, que supera ao ministério de qualquer pastor.
Refiro-me ao casal Alan e Ézia Mullins. Foi com eles que meu filho
primogênito, Sóstenes (Tote, para os íntimos) aprendeu a fazer o que hoje faz
na mesma esfera e com a mesma maestria. As igrejas evangélicas têm uma
dívida irresgatável para com este abençoado casal e obreiros do Senhor. Que
sempre foram abençoados, isso se pode ver nos ricos e concretos resultados
por onde eles têm passado. Eu, particularmente, tenho um perene gesto de
gratidão por sermos amigos desde quando ainda eram solteiros. Mas esta é
outra história.

7.3. Colegas mais recentes

Posteriormente, vieram outros pastores, em grande número, cujos


nomes ainda não constavam no rol de meus companheiros de ministérios.
Seria meu dever citá-los nominalmente, mas só iria meter-me em um enorme
labirinto, tentando descobrir seus nomes, e ainda cometeria o pecado da
omissão. Deveria citar nominalmente os grandes presbíteros daquele tempo,
companheiros nas reuniões dos concílios; as grandes mulheres missionárias
que serviram também, de todo o coração, na Seara do Senhor, cujos nomes eu
deveria citar aqui, porém só cometeria injustiça, pois alguma ficaria sem ser
lembrada. Além do mais, toda essa grandiosa história já é tão remota, que não
me lembro bem dos detalhes.

7.4. Esposas heroínas

Juntamente com esses denodados obreiros estão suas esposas,


verdadeiras guerreiras e heroínas. Por falta de espaço, e pela complexidade
do relato, deixo de citar seus nomes, porém estão em nossa mente de maneira
indelével. Muitas delas se tornaram viúvas, e muitas dentre elas também já
partiram para a glória e já desfrutam o descanso perene no “seio de Abraão”.
Outras, já envelhecidas, ainda se encontram nas lidas do reino de nosso
Senhor com a mesma fidelidade. Todas elas merecem que sua história fosse
escrita — e bem escrita!

8. Dolorosa omissão

De outros omito propositadamente os nomes; pois minha consciência


não me permite exaltá-los como servos de Cristo em pé de igualdade com os
fiéis; porquanto abandonaram sua primeira vocação e abraçaram uma
vocação equivocada, carnal, em detrimento da religião genuína, a qual eles
não tiveram a competência, sensatez e hombridade de conhecer e manter
impoluta em seus corações. Pior ainda: alguns cometeram perjúrio,
porquanto renegaram por escrito o solene juramento que um dia fizeram
perante Deus e a Igreja em sua ordenação por um presbitério; outros
apostataram de vez. Alguns renunciaram a fé presbiteriana com reverência e
respeito, porém outros o fizeram com atitude de menosprezo, desdenhando
sua profissão de fé e seu ofício de ministros do evangelho. Todos os profetas
e todos os apóstolos, principalmente nosso Senhor Jesus Cristo, tiveram que
enfrentar essa falange de apóstatas. Quando um pastor peca, meu coração
chora; isso ainda se dá porque todos nós somos pecadores e inclinados aos
mesmos feitos da carne. Mas, quando um comete apostasia, além das
lágrimas de tristeza vem também a santa indignação.

9. Heróis esquecidos

Alguns jazem envelhecidos e encostados em algum canto sem que


sejam nem mesmo lembrados para receber uma visita cordial de um amigo
de outrora. Não me agrada ofender àqueles que estão acima de mim em
autoridade e posição; apenas provoco neles emulação, para que sejam mais
precavidos na administração da Igreja de nosso Senhor. Não me refiro à
liderança suprema, e sim à liderança local. É inadmissível que um concílio
descuide de seus heróis e heroínas na área de sua administração. Deve haver
uma programação de assistência constante. Creio que alguns concílios fazem
isso; quem sabe todos já estão praticando essa caridade! Se esse é o caso,
então minha observação fica sem efeito!
Mas que fique bem gravado em nossa memória que ninguém até hoje
conseguiu descobrir quem foi o autor da Epístola aos Hebreus, um dos
escritos mais notáveis de toda a Bíblia. Com certeza, sendo muito mais
humilde que eu, ele não quis ser lembrado nominalmente, para que a glória
fosse unicamente do Senhor da Igreja. Nenhum servo de Cristo é ou será
ignorado no céu! Não só o Senhor tem nossos nomes inscritos no Livro da
Vida, mas os próprios anjos nos conhecem, são nossos companheiros e
labutam em nosso favor e ao nosso lado, ainda que invisível e
imperceptivelmente (Hb 1.14). Que os esquecidos pela Igreja perdoem nossa
negligência e ingratidão. Todavia, saibam eles que estão eternamente
gravados na memória celestial.

10. Querido professor de teologia

Um homem em particular deixou em mim marcas profundas e


indeléveis: o Rev. Dr. Joseph Martin, para nós, seus conhecidos e amigos, o
mui querido professor de teologia José (ou Joe) Martins. Ele foi aquele que
me deu assistência no COSE (Curso de Seminário por Extensão). Em nossos
encontros, eu pude beber daquela fonte imensurável de conhecimento, e um
excelente conhecimento, pois ele sempre foi um homem de convicções fiéis
à fé reformada. Talvez sem o saber, com isso ele me fez ainda mais
calvinista. Até hoje mantemos correspondência. Sua personalidade íntegra
entranhou-se na minha, de modo que grande medida do que sou devo àquele
homem extraordinário. Bendigo ao Senhor da Igreja por ele, porquanto faz
parte de minha vida com João Calvino.

11. Presbitérios
Foi nesse tempo que o Presbitério de Goiânia se desdobrou, formando o
Presbitério de Anápolis (PANA). Fiquei vinculado ao novo Presbitério, e
passei para sua história como um de seus fundadores. Não me lembro bem,
mas creio que fui um de seus secretários, portanto participante de sua
organização. Mais adiante veremos que minha história em desdobramento de
Presbitérios não parou aqui, pois no futuro eu faria parte da organização do
Presbitério de Ceres, do qual seria secretário executivo e presidente. Já no
ocaso de minha lida em Goiás, compus a comissão que desdobrou o
Presbitério de Ceres, criando o Presbitério do Tocantins. Este também foi
organizado em 1987 por uma comissão de cujos componentes eu fazia parte.
Além disso, fiz parte da organização eclesiástica de várias congregações em
igrejas. Portanto, faço parte da história de várias igrejas por estes vastos
estados de Goiás e Tocantins.
Portanto, antes de envolver-me com as obras de João Calvino, formei
um grande e forte lastro histórico no desempenho de meu modesto ministério,
congraçando-me com muitos outros obreiros do Senhor em abrir picadas, em
arar a terra, em plantar a semente e em colher o produto da lavoura. Bendigo
o Senhor que nos irmana nessa sagrada tarefa. Considero-me igual a todos
eles. Quero deixar registrado que sempre os amei como fiéis ministros do
Senhor e que sem eles eu não teria história para contar ou escrever. Mais
ainda, eu os tenho como superiores a mim em tudo: em fé, em moral, em
cultura e no exercício do ministério.

11.1. Reminiscência

O tempo passa e creio que não mais sou lembrado. Isso não me magoa,
pois a memória de todos nós se arrefece e já não nos lembramos de muitas
coisas e pessoas que mereceriam ser lembradas com mais justeza. Por onde
andei, depois disto, nunca me esqueci do labor humilde, porém vigoroso, na
disseminação do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Nunca fui visto
como plantador de igrejas nem como orador, mas como adubador, a saber,
aquele que fortalece e forma os trabalhadores da Seara. Esse foi sempre meu
dom. Não nasci para sobressair-me ante as multidões nem para arrancar seus
aplausos. Minha “paixão” particular é dissecar as grandes doutrinas, todas
elas, sem exceção, e demorar-me sobre sua análise, ensinando-as como
oriundas do Supremo Espírito Santo. Fui antipático a muitos que detestam
certas doutrinas bíblicas; por exemplo, a doutrina dos decretos eternos, tanto
da eleição como da predestinação. No passado, andei longe, a convite, para
discutir estas doutrinas. Hoje, talvez devido à idade, já não sou lembrado para
falar delas. No entanto, sinto-me venturoso quando vejo jovens ministros,
saindo dos seminários e recebendo a imposição das mãos do Presbitério,
empenhados em ensinar zelosamente todo o Santo Livro (At 20.20).
Espero ver ainda, antes de minha partida, a Igreja de nosso Senhor
empenhada não só em evangelizar, mas também em doutrinar principalmente
os neófitos que vêm para a igreja local e são treinados nas doutrinas mais
profundas do Santo Livro, ministradas não apenas pelos ministros zelosos,
mas inclusive por leigos estudiosos e bem treinados no ensino da sã doutrina.
Espero ver ainda todos os pastores ensinando todas as doutrinas, sem pôr em
dúvida nenhuma delas. Que o calvinismo triunfe não só nas igrejas históricas,
mas em todas as novas denominações que nascem para o serviço do Senhor,
cujo interesse seja o conhecimento de Deus que deve encher o mundo como
as águas cobrem o mar. Que se descubra que o único sistema genuíno de
doutrina é o calvinismo. Essa tem sido minha meta franca e publicamente
confessada. Não tenho dado trégua a quem confessa o calvinismo e logo a
seguir nega o calvinismo, negando doutrinas enfatizadas pelo calvinismo e ao
implantar suas próprias ideias, as quais estão longe da qualidade da
interpretação que a fé calvinista faz da Santa Escritura.

11.2. Confrontação

Certa vez um moço se levantou furioso e me contestou enquanto


explanava a doutrina da predestinação. Afirmou com profunda indignação
que, se de fato esta doutrina existe, então Deus é muito injusto, e ele não cria
em um Deus injusto que faz acepção de pessoas; por isso mesmo renegava tal
doutrina como não sendo realmente bíblica e inspirada pelo Espírito Santo.
Ao terminar, eu lhe disse que ele estava olhando para a pessoa errada, que
volvesse os olhos para o céu e falasse tudo isso ao Autor da doutrina, que é o
Espírito Santo, porquanto eu não sou o autor da Bíblia; simplesmente creio
em tudo o que está escrito nela. A partir desse momento, aquele moço não
disse sequer uma palavra. Minha esperança é que tenha crido na inteireza do
Santo Livro. Deploro a existência de cristãos que acreditam ter a liberdade de
escolher em que creem ou não creem no Santo Livro.
Ao falar dessas doutrinas, sempre me escudei no fato de que a Igreja
Presbiteriana, e muitas outras denominações cristãs sérias, creem nelas e as
ensinam, porque fazem parte integrante de toda a Bíblia. Nós as encontramos
nitidamente grafadas nas páginas de Gênesis a Apocalipse. Negar estas
doutrinas equivale negar toda a Bíblia. Aliás, é desmantelar a Santa Bíblia, no
dizer de um grande teólogo: “A eleição é a coluna dorsal de toda a Bíblia”. Se
for removida dali, nada fica em pé. Sim, de fato a doutrina da eleição ou
predestinação é a causa de todo o propósito divino na história da raça
humana, particularmente da Igreja.

11.3. Apologia

Minha apologia sempre foi que nosso dever é crer na totalidade da


Bíblia, mesmo quando não entendamos muitas coisas nela escritas. Ninguém
tem o direito de erguer-se e contestar uma doutrina claramente expressa e
impressa na Bíblia. Custa aos servos de Cristo um preço elevado ser fiéis ao
conteúdo da Santa Bíblia e ensiná-lo com reverência. Este é o dever sagrado
de todos os que se autodenominam de “servos de Jesus Cristo”. Somos servos
e não inquisidores. Quem escolhe doutrina para ensinar e ignora o resto, ou
omite doutrinas intencionalmente, vai criar igrejas sem estrutura sólida e vai
inspirar outros a fazer o mesmo, além de um dia ter que prestar contas ao
Supremo Juiz. Esses tais se arvoram como mais sábios ou tendo mais
autoridade que o Espírito do Senhor. Sem a devida consciência, na verdade
estão negando é a Bíblia toda. E quem nega a Santa Bíblia, em matéria de
religião, não tem nada a ensinar como sendo a plena verdade de Deus. Na
verdade, esses tais estão transmitindo suas próprias ideias, e não o ensino
bíblico.
Ao tomar a Santa Bíblia pela primeira vez em minhas mãos, eu disse
ao Senhor: “Meu Deus, desvenda-me os profundos mistérios deste Livro e eu
o ensinarei tal como ele é”. Não suporto diante de mim aqueles que se acham
acima do Espírito Santo e se arvoram em juízes do Deus Trino. Nem mesmo
o falso profeta Balaão se atreveu a tanto! Aliás, aquele falso profeta se
revelou muito mais reverente para com Iavé do que muitos dos israelitas e
muitos dos chamados cristãos.
O fato é que eu já estava me avizinhando daquela encruzilhada que
determinaria outra fase de minha vida dentro da qual eu labutaria para fazer
João Calvino falar português. Creio que todo meu passado me “empurrava”
para esse ponto de suprema importância. Todavia, eu ainda não tinha a menor
noção do que estava por vir. Mas o próprio Senhor preparava meu caminho
para essa suprema realização de meu modesto ministério.

IGREJA PRESBITERIANA DE CERES

É impossível pensar e falar da Igreja Presbiteriana de Ceres sem falar


da própria cidade de Ceres, porquanto ambas nasceram juntas e se
entrelaçaram por laços fortes e se desenvolveram lado a lado como dois
elementos corroborantes. Tanto é que o majestoso templo da Igreja se
encontra bem no centro daquela linda cidade. Por isso sou impelido a
escrever um resumo bem sucinto de ambas — cidade e igreja.

1. Breve histórico

Para a geração mais antiga da região, falar de Ceres é falar de Bernardo


Sayão. E escrever sobre Bernardo Sayão é um dos maiores desafios que
enfrenta qualquer escritor, pois sua história é quase interminável e cheia de
meandros. Quem saberia o início e o fim dela? Pois foi no início dos anos 40
que ele, com sua equipe, desbravou a região do Vale de São Patrício, cortado
pelo Rio das Almas. Ele fez com que Ceres viesse a ser a sede da CANG —
Colônia Agrícola Nacional de Goiás.
Mas há um personagem na história de Ceres que precede a pessoa de
Bernardo Sayão e é determinante em sua história. Extraio do livro de um
filho de Ceres, Dr. Valter Melo: Um ceresino, de sua própria autoria, o texto
inicial de seu livro: “Dr. Pedro Ludovico Teixeira, interventor de Goiás,
assina o decreto-lei nº 3.704 de novembro de 1940, doando as terras do
estado de Goiás para a criação da Colônia Agrícola Nacional de Goiás —
CANG — nas matas do Vale do São Patrício”.[10]

2. Três gigantes

É então que Bernardo Sayão entra em cena para implantar aquela


Colônia. Mas ele recua ainda mais e narra que quem implantou a CANG
como autoridade máxima foi o “interventor brasileiro, Getúlio Dorneles
Vargas”. Daí, na ordem descendente, seguem estas três autoridades na
história de Ceres: Getúlio Dorneles Vargas, Pedro Ludovico Teixeira e
Bernardo Sayão.

3. Ceres — Deusa da Agricultura

Foi em 1953 que a Colônia foi emancipada, recebendo o nome de


“Ceres — a Deusa da Agricultura, conforme a mitologia greco-romana”.[11]
Uma pena que fosse glorificada uma deusa grega no lugar do Deus Criador
do universo! É ele quem abençoa a terra para produzir nosso pão de cada dia.
É ele que fez surgir Ceres no mapa brasileiro. Mas é possível que seus
idealizadores não tivessem a intenção de ofender o único e verdadeiro Deus
do universo, atendo-se simplesmente a um emblema antigo.

4. Grandes personagens

Falar de Ceres é falar de grandes personagens que, como colunas de


sustentação, surgiram no cenário da Colônia a corroborar sua bela história.
Na esfera cultural, surge no cenário de Ceres o grande vulto de Álvaro de
Melo, perpetrando seu nome e fama na grande e abençoada escola “Colégio
Álvaro de Melo”; Helena Andrade Araújo e Walter Marques Dourado,
grandes educadores que deixaram sua indelével imagem e influência na vida
das gerações futuras. Na esfera científica, nomes como Domingos Mendes da
Silva e Jair Dinoah Araújo, fazendo parte da história do Hospital Pio XII. Na
esfera humanitária, uma mulher de nome Úrsula Hautp, cuja história já se
acha um tanto apagada da memória dos ceresinos, e o nome de Mirma Maria
de Moura.
Em torno de cada esfera surgem vultos eminentes que entreteceram os
liames da história de Ceres. E aqui certamente vou cometer o “crime” da
omissão, pois há grandes vultos misturados aos citados que compuseram a
grande orquestra cujo Maestro com certeza não foi Ceres, a deusa greco-
romana, e sim o Eterno Criador e Sustentador que mantém e rege
soberanamente a história da humanidade como uma sinfonia celestial.
Especificamos adiante.

4.1. Na esfera científica


4.1.1. Dr. Jair Dinoah Araújo

O Dr. Jair nasceu em Fortaleza, Ceará, no dia quinze do ano de 1916.


Aos doze anos, ele mudou-se para Recife, Pernambuco, onde estudou o
ginasial no Colégio Salesiano. Em 1937, ele se ingressou na Faculdade de
Medicina do Recife, concluindo seu curso em 1942.
Em 1944, ele recebeu o convite do Dr. Bernardo Sayão para conhecer a
recém implantada Cang, a fim de estudar e detectar que espécie de epidemia
grassava em toda a região. E, posteriormente à análise, o Dr. Jair descobriu
que era a febre amarela e malária. No dia dez de março de 1945, sentindo-se
encantado com a região, fundou o primeiro ambulatório em uma pequena
casa de madeira, onde atendia toda a região com a assistência de três
enfermeiras formadas. Em 1946, inaugura-se a primeira etapa do hospital da
Cang (hoje o Hospital Pio Décimo), que realizava pequenas cirurgias. O
hospital foi concluído em 1950.
Casado com a Prof.ª Helena Andrade de Araújo, oriunda da família
Gueiros, tradicionalmente presbiteriana, nascendo dessa união cinco lindos
filhos: Lenir, Liane, Lúcia, Luiz Roberto e Jair Júnior.
Em 1953, com a Colônia no processo de emancipação, o hospital foi
entregue à Diocese da Cidade de Goiás, permanecendo assim até hoje. Sendo
o Dr. Jair presbiteriano de convicção e de formação, afastou-se
definitivamente do mesmo. A partir de então, ele iniciou a construção de seu
próprio hospital — Hospital São Lucas —, o qual veio a ser uma grande
bênção para toda a região. Homem de vida simples, não se preocupava com
luxo, pregava muito a integridade e dignidade humanas. Ele veio a ser um
dos membros fundadores da Igreja Presbiteriana de Ceres.

4.1.2. Dr. Domingos Mendes da Silva

Folheando o livro organizado e editado pela Prof.ª Nair Leal de


Andrade, Memórias e depoimentos, descobri que o Dr. Domingos, um dos
fundadores da Igreja Batista de Ceres, fundou também o Hospital das
Clínicas Centro Goiano. Foi um grande líder político, um grande cristão e um
grande médico. Tive com ele as experiências mais notáveis de minha vida.
Era meu hospital. Ele era meu amigo pessoal. Falar dele por completo é uma
tarefa praticamente impossível.
Na ata de organização da IP de Ceres, Livro I, página 2, do ano de
1950, registra-se a presença do Dr. Domingos Mendes da Silva como
representante oficial da Igreja Batista de Ceres.

4.2. Na esfera filantrópica

4.2.1. Mirma Maria de Moura

Esta, embora fosse membro da Igreja Presbiteriana, portanto minha


ovelha; mesmo tendo com ela uma longa vivência, descuidei e não guardei
bem sua história. Mas era chamada “a dama dos pobres”. Grande política,
mas se destacava como a mulher que dia e noite cuidava literalmente dos
necessitados. Dona Mirma fazia parte do alto escalão político e era conhecida
por toda a Goiânia no que diz respeito à medicina, pois trazia para cá pessoas
com todos os tipos de problemas epidêmicos. Cidadã ceresina, deixou um
nome e renome por toda a região. A cidade, principalmente os pobres, chorou
sua morte.

4.2.2. Úrsula Hautp

Cujas histórias no campo da filantropia daria um livro, porém que as


fontes de informação me foram tão escassas que não pude estender sua
história como bem merece.

4.3. Na esfera cultural

4.3.1. Walter Marques Dourado

“O senhor chegou em Ceres, quando?”, pergunta o Rev. Edson e o


Prof. Walter responde numa entrevista: “Vim da Bahia, primeiro para
Anápolis, mas depois para Ceres, e fiquei hospedado no Hotel Beira Rio, que
ficava perto da antiga Estação Rodoviária de Ceres. Cheguei aqui em 21 de
abril de 1948. Uma curiosidade: no mesmo dia de minha chegada, fui
convidado pela Diretora Geral da Escola da CANG, Prof.ª Helena Andrade
Araújo, para fazer uma palestra alusiva à data, a saber, ‘Dia de Tiradentes’”.
[12]
Portanto, seu desempenho cultural não se limitou à esfera secular, pois
seria superintendente da EBD e professor da Santa Escritura e até mesmo
pregador e um dos fundadores da Igreja Presbiteriana ali. Mas é preciso
registrar ainda, com muita honra, que ele foi por cinco mandatos Secretário
de Educação do município ceresino; e a nível estadual, ele foi Delegado de
Ensino que abrangia vinte e cinco municípios.

4.3.2. Helena Andrade Araújo

Segundo relato do Prof. Walter Marques Dourado, Prof.ª Helena,


esposa do Dr. Jair Dinoah Araújo, exerceu vasta influência na esfera cultural
da região de Ceres, ocupando o cargo de Diretora Geral da Escola da CANG,
por ocasião da chegada do Prof. Walter.[13] Em meu tempo de pastorado ali,
ela ainda exercia a função de professora de cultura inglesa na Faculdade de
Filosofia Vale do São Patrício, foi inspetora de ensino na Cang, professora e
diretora de colégios ceresinos; crente fiel, era ativa no trabalho feminino da
Igreja.

4.3.3. Martha Little

Leio ainda no livro do Rev. Frank L. Arnold que “em 1959, o fim do
período que está sendo considerado aqui, a Missão mantinha 37 escolas
primárias, com 52 jovens professoras que ensinavam aproximadamente 2.000
alunos. A partir de 1947, a Prof.ª Martha Little, cuja carreira com a Missão
Oeste do Brasil se estenderia por 40 anos, supervisionava todas essas escolas
de maneira muito eficiente”.[14]
Além de minha professora no Instituto Bíblico Eduardo Lane, Prof.ª
Martha Little morou conosco em Ceres, supervisionando muitas escolas,
principalmente a de Palmital, parte de meu pastorado, quando terminou sua
lida missionária e regressou de vez para os EUA. Tivemos juntos uma longa
trajetória de muita e gratificante experiência.

5. História do presbiterianismo na Região de Ceres

Mas, falar de Ceres sem falar da Igreja Presbiteriana inserida na


história da região é como mutilar uma história e uma cidade. Igualmente,
falar da Igreja Presbiteriana ali sem mencionar a Missão Oeste do Brasil é
tentar fazer sobreviver um corpo sem cabeça. Tentar fazer isso é ignorar por
completo aquela divina Providência que governa o cosmo e a história da
humanidade, particularmente a história da Igreja do Cordeiro.
Ao ler dois livros, Pequena história da Missão Oeste do Brasil, do
Rev. Wilson Castro Ferreira, e Uma longa jornada missionária, de Frank L.
Arnold, minha vontade foi escrever uma história por demais longa, pois
minha história pessoal está entrelaçada com a história de muitos dos
missionários estrangeiros e pastores brasileiros narrados nestes dois livros. A
bem da verdade, gastei quatorze de meus anos lado a lado com esta Missão,
cuja consumação se deu comigo em seu seio. Esse tempo começou em
Iturama e terminou em Paraíso, não o celestial, porquanto já se passaram
muitos anos de lá para cá, mas Paraíso do Tocantins (hoje, pois naquele
tempo ainda era Paraíso do Norte de Goiás).

5.1. História complexa

Falar ou escrever sobre a Missão Presbiteriana Oeste do Brasil é uma


tarefa tão complexa, que eu teria que escrever um livro à parte. Sua esfera de
trabalho é tão ampla que envolve muitos estados brasileiros. O que ora nos
cabe é falar daquela parte que se radicou em Goiás; e assim mesmo nem tudo
o que ela fez neste grande Estado, pois é muito grande; mas somente aquela
parte que se radicou na Colônia Agrícola Nacional de Goiás, fazendo dali um
grande centro de irradiação do evangelho na implantação e expansão de
igrejas mais para o norte do Estado.

5.2. Igrejas e missionários entrelaçados com IP de Ceres

5.2.1. Rev. James Woodson

No entanto, recuando um pouco, causou-me forte impacto quando li no


livro do Rev. Wilson Castro Ferreira, Pequena história da Missão Oeste do
Brasil: “Rev. Jaime, que foi providencialmente guiado por Deus na sua
decisão de ir para Goiânia, aceita o desafio dos novos campos que se abriam
em Goiás”.[15] E: “O casal Woodson, no entanto, viveu ainda dois anos
(1955-1956) em Uruana, completando mais uma etapa no trabalho frutífero
daquela parte de Goiás”.[16]
Ele está falando de Uruana, nossa cidade goiana próxima de Ceres,
nacionalmente conhecida como a capital da melancia, cujo seio recebeu o
evangelho antes mesmo da implantação da IP de Ceres. E ele está falando de
um casal que marcou minha vida pessoal de modo profundo e decisivo —
Rev. Jaime Robertson Woodson e dona Jessie, sua esposa; aquele mesmo
homem que em 1961 se condoeu de mim em minha miséria quando resolveu
despachar-me do IBEL pela carência de cultura, de dinheiro, de família, de
tutor e de referência! Ele me deu uma chance irrecusável de permanecer ali e
concluir meus estudos, desde que estudasse incessantemente. Como gostaria
que ele estivesse vivo para declarar-lhe: o que o senhor fez por mim valeu a
pena; e estou retribuindo na forma de uma literatura de valor perpétuo para os
obreiros e as igrejas de nosso país. A Providência continuava no comando do
povo de Deus e particularmente em minha pessoa.
No mesmo livro, Rev. Wilson narra:

Talvez se possa dizer que a ação missionária pioneira da WBM


[West Brazil Mission ou Missão Oeste do Brasil] se encerrou
com o extraordinário avanço realizado por Rev. Jaime Woodson
em Goiás, e alguns de seus bravos sucessores, partindo de
Uruana em direção a Ceres, cobrindo Mata Azul, atingindo
Morro Agudo, Rubiataba, Xixá etc., onde em curto espaço de
tempo surgiram igrejas fortes e consolidadas. Dentre os
continuadores dessa arrancada heroica contamos os Revs. Paulo
Coblentz, Ricardo Taylor, Paulo Smith, Etelberto Gartrell entre
os outros.[17]

Todos estes pioneiros foram meus conhecidos e companheiros nas lidas


missionárias, além do mui querido Rev. Robert Camenisch e Sherwood
Taylor. Todos esses homens e mulheres estavam solidamente inseridos
naquela divina Providência que permeia toda a história do povo de Deus.

5.2.2. Escola Bandeirante

Para que houvesse adequação nos estudos escolares dos filhos dos
missionários, a Missão Oeste construiu uma escola para seus filhos com
professores da própria Missão — Escola Bandeirante. Lemos no relato de
Frank L. Arnold:

Anos mais tarde, a Missão Oeste do Brasil fundou em Ceres,


Goiás, uma escola de língua inglesa para filhos de missionários
que oferecia o Ensino Fundamental e Médio, e tinha internato. A
Escola Bandeirante era amplamente utilizada pelos missionários,
mesmo por alguns que moravam muito longe de Ceres. Muitos
filhos de missionários presbiterianos e outras denominações
passaram por suas portas até o ano de 1982, quando o número de
crianças que precisavam da escola se tornou muito pequeno para
justificar sua existência.[18]

Fiz parte da vida daquela escola já em seu final, lecionando matérias


atinentes à cultura brasileira e pastoreando aqueles alunos, como pastor e
amigo deles. De fato, testemunhei o encerramento da escola com a formatura
de apenas dois alunos: Joyce e Michel. A primeira presbiteriana e o segundo
batista.

6. Acampamento Presbiteriano de Ceres

Portanto, vale dizer que esta Escola fechou suas portas quando eu ainda
era o pastor da Igreja, relacionando-me bem com os alunos daquela época,
inclusive filhos do autor do livro Uma longa jornada missionária, o Dr.
Frank L. Arnold, com o qual mantive boa amizade. A propriedade dessa
mesma Escola veio a ser mais tarde, também em meu tempo ali, o
Acampamento Presbiteriano de Ceres, propriedade doada pela Missão à IPB,
e atualmente à Igreja Presbiteriana de Ceres. Fui seu primeiro presidente,
enquanto o casal Mullins, Alan e Ézia, era o diretor do mesmo.
Valendo-me de três boletins elaborados pelo pastor atual da Igreja,
Rev. Edson Souza Gonçalves, dois contendo uma entrevista feita com o casal
Prof. Walter Marques Dourado e Prof.ª Wanda de Oliveira Dourado, e o
outro um histórico elaborado pelo mesmo pastor, extraí o que segue.

7. Como nasceu a Igreja Presbiteriana de Ceres


A Igreja Presbiteriana de Ceres teve início na Colônia Agrícola
Nacional de Goiás em 1942. Ocasião em que o evangelista Waldemar Rose,
obreiro da Missão Oeste do Brasil... residindo em Uruana, viajando a pé,
visitou a Colônia Agrícola em 2 de fevereiro de 1942. Com culto e pregação
da Palavra de Deus, na residência do Sr. Joaquim Alcides, teve início o
trabalho presbiteriano nesta Colônia, futura cidade de Ceres. Daí em diante
seguiram-se visitas mensais e regulares pelo evangelista. Com o
desenvolvimento da Colônia, especialmente Ceres e Rialma, a Missão
resolveu designar o evangelista Waldemar Rose e sua esposa Maria Litoudo,
que fixaram residência em definitivo na Colônia, no final de 1949.
No dia 5 de fevereiro de 1950, em um salão alugado, com a presença
de 206 pessoas, incluindo missionários, um coral de Anápolis e visitantes de
outras denominações, foi oficialmente inaugurado o trabalho presbiteriano
em Ceres. Em 12 de agosto de 1950, foi inaugurada a Escola Dominical,
sendo eleito para a superintendência o jovem Walter Marques Dourado. Em
23 de setembro de 1950, a congregação foi emancipada, ou seja, organizada
em Igreja, com 83 membros comungantes com os primeiros presbíteros:
Astolfo Portes Sandeville, Álvaro Gonçalves Chaves, Waldemar Rose e
Walter Marques Dourado. Primeiros diáconos: Daniel Francisco Rosa,
Tenório Marques Dourado, Gamaliel Castro Dourado e Joaquim de Souza.
Somente em 29 de agosto de 1952 é que a Igreja Presbiteriana de Ceres
teve seu primeiro pastor residente, o Rev. Reichardt Taylor, que recebeu o
trabalho com cerca de 400 membros, sendo que somente 100 eram membros
da IP de Ceres; o restante [eram membros] das congregações que ficavam nas
imediações; muitas das quais se tornaram igrejas que compõem nosso
presbitério atual. Nesse mesmo dia (29 de agosto de 1952), o Evangelista
Waldemar Rose e família mudam-se para Uruaçu, a fim de iniciar o trabalho
presbiteriano na região.
A construção do templo teve início em 8 de março de 1956, orientada
por uma comissão de construção que trouxe um arquiteto de Anápolis com a
planta do sonhado templo. [Esse templo ainda em construção figura na
revista de O presbiterianismo no Brasil.[19]]
O novo templo começou a ser utilizado em julho de 1959. Porém,
somente em 23 de setembro de 1965, após 15 anos de organização e várias
obras complementares, foi oficialmente inaugurado o novo templo, em cuja
cerimônia festiva pregou o Rev. Benon Wanderley Paes. Reformada e sempre
se reformando, ampliando e caminhando no Senhor, [esta Igreja] tem
alcançado abençoados objetivos, para o desenvolvimento do Reino de Deus,
e para a honra e glória do Senhor Jesus. Tudo foi feito com a máxima
dedicação. Da rodovia, quem passa e olha para a cidade do outro lado do Rio
das Almas, contempla, majestoso e imponente, aquele templo que muitos o
confundem uma catedral católico-romana.
A Igreja Presbiteriana de Ceres tornou-se mãe de muitas outras igrejas
que [outrora] foram suas congregações. Centenas de crentes convertidos e
preparados por ela serviram e ainda servem a Jesus em outras igrejas,
principalmente na capital do estado. Estes dariam para formar uma gigantesca
igreja.

7.1. Pastores filhos da IP de Ceres

Alguns filhos de nossa Igreja são hoje pastores; por exemplo, Rev.
Edson Souza Gonçalves, Rev. Júlio César Dourado [sendo eu tutor de
ambos], Rev. Euclides Oliveira, Rev. Gilvânio Castro Barbosa, Rev. Renato
Duarte e alguns missionários. Não tenho conhecimento que algum deles
envergonhasse a vocação para o ministério. Creio que todos ainda se
encontram na ativa.

7.2. Igrejas filhas da IP de Ceres

“A Igreja Presbiteriana Central de Ceres organizou recentemente mais


duas novas igrejas na cidade, a saber, Igreja Presbiteriana do Jardim Sorriso e
Igreja Presbiteriana do Jardim Petrópolis.”[20]

7.3. Pioneiro abençoado

Falar de Ceres e da Igreja Presbiteriana de Ceres sem falar de Walter


Marques Dourado é omitir uma das peças que compõem o tabuleiro do jogo
de Xadrez e equivaleria ignorar aquela Providência que permeia toda a
história do povo de Deus.
Segundo o boletim de 18/09/16 da Igreja Presbiteriana Central de
Ceres, na entrevista feita pelo Rev. Edson ao casal de professores Walter e
Wanda, ele veio da Bahia, inicialmente para Anápolis, e em seguida para
Ceres, chegando no dia 21 de abril de 1948. Curiosamente, no mesmo dia de
sua chegada, ele foi convidado pela Diretora Geral da Escola da CANG,
Prof.ª Helena Andrade Araújo, para fazer uma palestra alusiva ao “Dia de
Tiradentes”. Ele veio na qualidade de professor de história. Ao lado de sua
esposa, Prof.ª Wanda, o Prof. Walter M. Dourado chegou a ser não só uma
figura proeminente na região ceresina, mas também a nível nacional. Foi
condecorado por grandes vultos do governo brasileiro como um herói
nacional. Hoje ele conta com 94 anos de idade, ainda de mente lúcida e de
corpo e palavra firmes.
Ele foi o primeiro superintendente da Escola Dominical e um dos
primeiros presbíteros da IP de Ceres. Em meu pastorado de 1978 a 1985, ele
ainda era um presbítero ativo ao lado de outros grandes presbíteros: Edward
Barbosa (Sr. Divas), Marcos Antônio Argôlo, Adão José de Oliveira, Edson
França, Norival Monteiro, Xisto Correia da Silva, Geraldo Rocha. Digo isto
porque tive o privilégio de fazer parte da longa história deste homem
extraordinário, e tenho sua maravilhosa família como se fosse minha própria
família. Fui tutor eclesiástico do filho Rev. Júlio César Dourado durante todo
o período de seu curso teológico no Seminário Presbiteriano de Campinas,
SP.

7.4. Galeria de pastores

Falar da Igreja Presbiteriana de Ceres é falar do grande elenco de


pastores que compõem sua história: Waldemar Rose (1942-1948, itinerante; e
1949-1952, evangelista residente); Reichard Taylor (efetivo, 1952-1955 e
1958-1963); Robert Camenisch (efetivo, 1956-1957 e 1968); Ângelo Scarel
(efetivo, 1964-1967); Amador A. de Meneses (efetivo, 1968-1971); Sebastião
Tillman (efetivo, 1972-1977); Valter Graciano Martins (efetivo, 1978-1985);
Otávio Alves Caixeta (efetivo, 1986-1990); Dalzir R. Silva (efetivo, 1991-
1992); Jadiel Martins Souza (efetivo, 1993-1997); Antônio Caixeta Neto
(efetivo, 1998-2001); Romildo da Silva (auxiliar, 1998-1999); Hebert S.
Gonçalves (auxiliar, 2000-2001; 2009-2012); Eliaquim Félix Batista
(auxiliar, 2000); José Joaquim Pereira (auxiliar, 2005-2006); Renato Duarte
Silva (auxiliar, 2009); Douglas Boaventura (efetivo, 2002-2012); Hugo
Machado (efetivo, 2013); Júlio César Dourado (auxiliar, 2015). Pastor atual:
Edson Souza Gonçalves (auxiliar, 1995, e efetivo, 2014-2016); Hassen
Borges Jamaleddine (auxiliar, 2016).

6.5. Waldemar Rose

Em minha visão missionária e pastoral, procuro fazer justiça


principalmente aos esquecidos. Nunca conheci a história e trajetória desse
homem tão vigoroso nas lidas missionárias. No passado cheguei a privar-me
com ele para ouvir um pouco de suas histórias ministeriais. No entanto, por
negligência, deixei escapar o fio da meada, e hoje desejo tanto resgatar um
pouco da pessoa e história desse obreiro do Senhor e me faltam dados.
Em nossos diálogos, lembro-me da menção de sua cidade: Santa Rita
de Viterbo. Não consigo lembrar-me de sua origem racial. Se der ouvido a
um sininho em meu cérebro, que pode soar falso, ele é de origem
dinamarquesa. O fato é que ele veio a dedicar sua vida ao evangelismo
brasileiro, passando por muitas cidades e sertões e plantando muitas igrejas.
Lembro-me dele em Tupaciguara (minha cidade), Lagamar, Brasília,
Waldelândia — ele mesmo me narrou sua odisseia nessa cidade, que leva seu
nome e o nome da filha do prefeito da época em razão de um casamento
projetado entre os dois. Crendo o pai que a filha por fim se casaria com o
evangelista Waldemar Rose, por isso mesmo deu à cidade o nome de
Waldelândia, uma associação de Waldemar e Orlândia.
Conta-se história dele em Formoso das Trombas, quando da revolução
projetada por Jango. Não sei se ele mesmo ou se foi um missionário, mas
fiquei sabendo que, inclusive, ele viajou uma distância astronômica, a pé,
para avisar o missionário que uma guarnição de soldados se dirigia para lá a
fim de prendê-lo; e o missionário teve tempo de fugir e escapar. Os crentes
antigos daquela vasta região ainda se lembram dele visitando e plantando
igrejas.
Em meu tempo em Ceres propus ao Conselho da Igreja que
convidássemos o Rev. Waldemar Rose para estar conosco um fim de semana,
porquanto foi ele que deu forma àquela igreja em seus primórdios. Ele
aceitou e pregou durante aquela semana. Na próxima reunião do Conselho,
um dos presbíteros censurou minha iniciativa e perguntou se não havia
alguém melhor para estar em um importante evento de aniversário da igreja.
O que senti foi como que um coice de mula. Não queria acreditar que
na igreja haja tanta ingratidão para com seus velhos heróis. Aquele homem
merecia uma medalha de honra ou mesmo que lhe fosse erigida uma estátua.
Em vez disso, hoje ele é um total desconhecido. Minha pergunta inquietante
é: esse sentimento ou falta dele tem sua origem no ensino do evangelho de
nosso Senhor Jesus Cristo ou em outra fonte? Temos muito que aprender
com o “velho” Paulo nas cartas pastorais sobre a gratidão que se deve nutrir
pelos que servem ao Senhor da Igreja. A igreja romana deifica seus “santos”
e “santas”; a igreja protestante os ignora e às vezes os injuria. Os extremos
sempre são danosos e procedem do trono de Satã. Hoje sinto na pele o
mesmo espírito de ingratidão que permeia a igreja moderna.

7.6. Falta de espaço

Torna-se impossível, devido ao espaço limitado deste livro, mencionar


nominalmente todos os oficiais que têm composto o grande Conselho desta
Igreja e a Junta Diaconal. Muitos deles já repousam no “seio de Abraão”. E
se fosse mencionar toda a grande liderança leiga desta Igreja, careceria ainda
de mais espaço, desde a liderança infantil, juvenil, de homens e mulheres
(UPA, UMP, UPH e SAF).
Uma das entidades internas da IP de Ceres mais dinâmicas sempre foi a
Sociedade Auxiliadora Feminina (SAF). É praticamente impossível registrar
todo o trabalho dinâmico que essa sociedade realizou e ainda realiza naquela
cidade e região. Senhoras de várias faixas etárias, todas irmanadas em um só
pensamento: fazer o nome e a obra de nosso Senhor Jesus Cristo conhecidos
e amados por todos. Durante meu pastorado ali, essa entidade seguiu comigo
de mãos dadas em todos os trabalhos da Igreja.

8. Eu e a IP de Ceres

Sinto-me honrado de fazer parte de um elenco tão vasto e rico de


ministros da Palavra que passaram e têm passado por esta grande Igreja.
Deixado à minha vontade, certamente eu estaria residindo em Ceres e
frequentando esta igreja até o fim de minha modesta vida.
Minha história com a IP de Ceres começa com o Rev. Sebastião
Tillman, venerando pastor de larga experiência na Seara do Senhor. Suas
experiências, se contadas, dariam um bom livro. Muito antes de conhecê-lo,
ouvi histórias estupendas a respeito de sua pessoa e de seu ministério.
Pessoalmente, eu o conheci numa das reuniões da Missão Oeste no
Acampamento Boa Esperança (ABE), Goiânia. De imediato me
impressionou seu porte sereno e majestoso, bem como seu modo pausado de
falar; era diferente dos demais. Havia reverência e nobreza em seu porte e
gestos. Esse homem me encantou, porém secretamente. Não obstante, nunca
nos assentamos de frente para discutir algum assunto. Em meu conceito, ele
sequer tinha consciência de que eu existisse. No entanto, eu estava muito
enganado.

8.1. Convite

Chegando o tempo de sua jubilação, Rev. Tillman resolveu voltar para


sua terra, Araguari, Minas Gerais, e o Conselho da igreja solicitou dele a
indicação de um pastor apto para substituí-lo no pastorado. Era meado de
1977, sendo ainda pastor em Paraíso, quando recebi daquele Conselho,
representado por seu pastor, convite para pregar ali e ser conhecido e
confrontado sobre minhas convicções e procedimentos.
A carta/convite estava assinada pelo venerando pastor. Aceitei o
convite e permaneci ali um fim de semana. Preguei, lecionei, discuti
acaloradamente com um dos presentes sobre a pessoa de Chico Xavier, o
grande guru espírita de Uberaba, Minas Gerais. Falei com uma franqueza
que dissuadiria qualquer Conselho de ter no pastorado de uma igreja um
homem sem papas na língua. Não obstante, o Conselho se reuniu comigo e
ouvi suas exigências, falando-lhe com franqueza e espírito aberto sobre mim
e meu ministério, sem subterfúgio, o que sempre foi uma de minhas marcas
registradas.
Voltei para minha casa em Paraíso crendo que o assunto estava
encerrado. O que eu possuía para estimular aquele Conselho a confiar em
mim para seu pastorado? No entanto, posteriormente aquele Conselho
comunicou-me que estava aceito para o pastorado a partir de 1978.
Não obstante, narro que naquele ínterim, estando eu hospedado em sua
casa, indaguei do Rev. Tillman: “O senhor nem mesmo me conhece; o que
leva o senhor a assumir tal risco?”. Eis sua resposta direta e franca: “É
engano seu; eu o conheço muito bem; e, no momento, não vejo outro pastor
com perfil mais apropriado para este delicado pastorado. Vejo em você o
perfil de um homem sério e estudioso. Creio que você pode fazer isso muito
bem”.

8.2. Ministério intenso

Uma opinião como esta injeta no pastor o profundo senso de que não
pode fracassar. E pastoreei aquela igreja durante oito anos frutíferos, de 78 a
85. Teria que escrever um livro para descrever meu ministério ali. Além de
pastorear uma grande igreja local, dei assistência pastoral, interinamente, a
diversas outras igrejas da região na vacância de pastor: Formoso das
Trombas, Nova Glória, Rubiataba, Rialma, Rianápolis, Minaçu e suas vastas
regiões. Se porventura alguém ler estes alinhavos, não pense que fiz tudo
muito certinho. Ao contrário disso, o Senhor da Igreja sempre aceitou meu
modesto ministério com base em sua mercê e a graciosa operação do
Espírito, e não na perfeição do realizador. Muito ao contrário, em sua graça
ele teve que aperfeiçoar minha vida e ministério, não só ali, mas em todo
lugar por onde eu passava.

8.3. Professor de teologia

Fui professor de teologia na Faculdade de Filosofia de Ceres por quase


oito anos. Nosso livro-texto era a própria Bíblia. Centenas de pessoas
estiveram diante de mim na qualidade de mestre da Bíblia. Muitos se
converteram. Tornei-me conselheiro de muitos deles, pessoalmente ou via
telefone. Dessa forma fiquei bem conhecido em toda aquela vasta região.
Como sempre, sentia-me pastor não só da igreja, mas também de toda a
cidade e região. Minha esposa Cremilda vivia assoberbada na área da
educação. Fez ali o curso de Pedagogia e depois fez especialização em Belo
Horizonte. Nossos filhos cresceram e se educaram ali. De minha parte,
jamais deixaria aquela cidade e região. Amo Ceres até hoje. Usando as
palavras do Dr. Sandro Dutra, “deixei Ceres, porém Ceres não me deixou”.
Mas o verdadeiro pastor não é dono de sua vida e obra. Chega o dia em que
baixa a fronte, verte lágrimas, porém tem que partir. Isso aconteceu comigo!

8.4. Pastorado incansável


Em Ceres e região celebrei dezenas e mais dezenas de casamentos, a
ponto de ser apelidado de “pastor casamenteiro”. Batizei dezenas e mais
dezenas de criancinhas em meus braços, pois era assim que eu fazia,
porquanto sempre cri que o P de Pastor é o mesmo P de Pai. Aqueles
pequeninos seriam objetos de minha assistência pastoral. Eu, como seu
pastor, acompanharia seu crescimento e desenvolvimento. Muitos e muitos
dos filhos da igreja e outros que vieram de fora professaram sua fé em Cristo
diante de mim. Visitava periodicamente todas as famílias, especialmente os
idosos. Eu era o conselheiro de crentes e descrentes. Jovens saíam dali para
cursar ciências humanas e teológicas, eu os acompanhava e, quando
voltavam de férias, eu tinha que aparar as arestas que traziam de seus estudos
acadêmicos. Hoje há deles pastores, médicos, dentistas, professores
pedagógicos, entre outras coisas. Fui tutor de alguns seminaristas que,
depois, vieram a ser bons pastores, como o Rev. Edson Souza Gonçalves,
Rev. Júlio César Dourado, Rev. Antônio Olímpio dos Reis, Rev. Vicente
Almeida, os quais se encontram engajados nos labores da Seara. Tive,
porém, que despachar a alguns tutelados, granjeando com isso inúmeras e
amargas inimizades da parte deles e de seus familiares. Creio que há muitas
pessoas, por toda parte, que jamais iriam querer rever meu rosto nem ouvir
meu nome. Aliás, a simples lembrança de minha pessoa os desgosta. No
entanto, nunca me expulsaram como fez Genebra a João Calvino! É muito
difícil, para não dizer impossível, agradar a todos com uma administração
imparcial.

9. Congregação de Palmital

Havia na zona rural uma boa congregação com uma boa escola
primária, numa região chamada Palmital. Justamente dona Martha Little
(que, no dizer do Rev. Wilson Castro Ferreira, “Marta Little, porém não tão
little, mas, na realidade, grande”[21] — porquanto a palavra little significa
pequeno ou pequena), minha professora de outrora no IBEL, era a
supervisora daquela escola. Ela residia em Ceres, nossa vizinha de lado.
Fosse na Escola Dominical, ou no culto noturno, chegava a hora e
surgiam de todos os lados crentes que deixavam suas casas para aquele santo
momento. Guardo com saudade aqueles tempos de vivência com aqueles
cristãos ruralistas, simples, francos, leais, responsáveis. Parece que ainda
vejo as luzes despontando no crepúsculo, de todas as direções, lanternas,
lampiões e até mesmo candeias.
Aquela igreja e escola foram sustentadas por duas mulheres
admiráveis: Marly Luzia de Oliveira Azevedo e Susete Maria dos Santos
Xavier. Aquela região deve muito a essas mulheres especiais. Suas vidas
dariam uma boa história. Sem elas ali, há muito só haveria vestígio daquela
igreja e escola. Aliás, conta-se que hoje realmente só existe um tênue
vestígio daquela igreja e escola depois que elas saíram. Nunca mais voltei lá
para não ter o coração toldado com profunda tristeza e dolorosas lembranças.
Sempre tive por aquelas duas professoras o mais profundo apreço e respeito.
Para mim, são irmãs duas vezes. Vão viver perenemente em meu coração. E
espero que o Eterno jamais deixe de tê-las sob a proteção de sua dadivosa
mão.

10. Samar

Em Rubiataba, não distante de Ceres, há uma instituição da igreja


chamada Samar. Aquela entidade foi por muito tempo governada por um
conselho, cujo presidente fora outrora obreiro da Missão Presbiteriana no
Brasil chamado José Macedo, um dos presbíteros pioneiros do conselho da
igreja daquela cidade. Este homem gastou boa parte de sua vida lutando pela
sobrevivência daquela entidade. Ali se abrigavam muitas crianças daquela
vasta região. Durante todo meu tempo em Ceres, estive de algum modo
envolvido com aquela entidade.

10.1. Antônio Olímpio dos Reis

Nesse tempo veio de Minas, para ser diretor da SAMAR um homem


que fora pastor da Assembleia de Deus e que havia renunciado aquela
convicção e se tornara presbiteriano. Antônio Olímpio dos Reis dedicou seu
tempo ali por diversos anos, vindo a ser recebido pelo Presbitério de Ceres
como ministro presbiteriano, sob minha tutela. Creio não ser fácil de ver a
mudança que operou naquele homem, no tocante à sua convicção
doutrinária. É difícil ver um presbiteriano tornar-se tão consciente e apto,
mesmo nascido nos arraiais de nossa denominação. Mais difícil ainda é
tornar-se convicto de um pensamento que não era o seu. Rev. Antônio
Olímpio (para mim, em particular, Rev. Toninho) é um desses raros casos.
Hoje é um paladino da fé reformada, não só porque decidisse sê-lo, e sim por
conhecimento de causa. Não são muitos os presbiterianos que conhecem a fé
reformada como aquele homem. Fui seu tutor, e ele se lembra ainda do que
eu lhe disse na época: “Se você não se tornar um presbiteriano de verdade,
minha mão será a primeira a levantar-se contra você”. Parecia a imprecação
de Farel lançada contra João Calvino. Só que eu não era Farel, nem ele João
Calvino.

10.2. Amizade perene

Há uma boa coleção de textos em Provérbios que fala da verdadeira


amizade. Por exemplo, “O olhar de amigo alegra o coração” (Pv 15.30); “Em
todo o tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão” (Pv 17.17); “O
homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado
que um irmão” (Pv 18.24); “Como o óleo e o perfume alegram o coração,
assim o amigo encontra doçura no conselho cordial” (Pv 27.9).
Tudo isso faz crer que essa foi a experiência constante do proverbista.
Igualmente todos nós temos mais ou menos essa mesma experiência com
pessoas que nos dedicam uma amizade incondicional. Dentre os amigos que
se enquadram nesse perfil considero o Rev. Antônio Olímpio dos Reis. É um
amigo a toda prova. Ele não é meu amigo porque eu seja bom para com ele;
é amigo porque é amigo! Louvo ao Senhor por essa amizade tão salutar. Ele
deu prova disso em meus mais dolorosos percalços. Como exemplo, no dia
de meu aniversário, ele liga bem de manhãzinha para ser o primeiro. Deixo
isso registrado como exemplo a outros para que cultivemos um círculo mais
amplo de boas amizades enquanto os “anjos do abismo” atormentam a
sociedade humana dia e noite.

11. Presbitério e acampamento presbiteriano de Ceres

Fui fundador intelectual e burocrático do Presbitério de Ceres, como


seu primeiro secretário executivo, e do Acampamento Presbiteriano de
Ceres, como seu primeiro presidente. Até hoje me chamam o pai dessas duas
entidades. Anos depois recebi daquele presbitério uma comenda honorífica
pelo vasto serviço prestado à região. De vez em quando volto lá para alguma
conferência.
Todavia, nunca deixei de ser um homem polêmico. Nunca consegui ser
uma pessoa agradável, sociável, popular; sou mais antipático do que
simpático; retraio mais do que atraio. Infelizmente, nasci assim, e a má
formação desde o ventre materno me trouxe muita ruína e prejuízo à
personalidade e à execução de meu ofício pastoral. Tento ser diferente,
porém não consigo. Quando menos, resvalo o pé. Paulo tinha um espinho na
carne; julgo que os meus são inúmeros. Por isso, minha vida pastoral nunca
foi expansiva. A despeito de tudo isso, sou muito conhecido por todo o
estado de Goiás como o homem que sustenta a doutrina reformada com
unhas e dentes — um ferrenho calvinista. Não significa que as igrejas me
preferissem como seu pastor, pois continuo sustentando por lá a alcunha de
“pastor briguento”. Quase todas me rejeitariam, se houvesse uma indicação
ou eleição.
Mas uma coisa é indiscutível: desfruto o respeito de quase todos,
mesmo dos que não nutrem simpatia por mim. Sempre levei o trabalho da
igreja muito a sério. Sempre vivi para a igreja, sendo pastor de todos. Como
já disse, levo o estigma de ser “arrogante”, porém nunca deixei de voltar
atrás sempre que errava e sempre que erro, e faço isso publicamente, quando
público é também meu erro. Uma deficiência real que, infelizmente, eu tenho
é a suscetibilidade, a excentricidade e, daí, a precipitação no agir e falar. Isso
me tem custado um alto preço. De vez em quando deixo marca funda em
decorrência desse borrão em meu caráter. Essas qualidades são danosas na
vida de um servo de Cristo. Com frequência lastimo possuí-las em meu ser
intrínseco. Queria arrancá-las com todas as raízes, mas é como se ainda mais
se aprofundassem no subsolo de meu ego! É um pesadelo do qual você quer
acordar e não consegue. Você sabe que está ofendendo a Deus e às pessoas.
Por isso mesmo passei a admirar em outros aquelas qualidades das quais o
Senhor da vida me privou, certamente em reparo de minhas dolorosas
tendências. O que me consola é o que está escrito no Santo Livro: “para que
somente o Senhor seja glorificado”. O Senhor me ama e me quis a despeito
de mim. Isso basta!

12. Lição de casa

Certa vez ofendi um membro da igreja ceresina com meu modo


desajeitado; obviamente, toda a família se pôs contra mim. E essa família,
além de grande, era e ainda é vital na vida daquela igreja. Depois de pensar
muito e de modo isento, resolvi entrar na casa daquele homem e falar com
ele olho no olho. Quando me viu chegar, disse-me laconicamente: “Minha
família não está; volte outro dia”. Então lhe disse: Eu vim falar é com o
senhor mesmo. Senti nele perplexidade. Olhou-me demoradamente por sobre
os óculos. Cheguei a pensar que iria me expulsar. Passados uns segundos,
convidou-me a entrar e perguntou o que eu queria lhe dizer. Então lhe disse
que meu modo para com ele, naquela manhã dominical, foi impróprio para
um ministro do evangelho. Portanto, lhe pedia encarecidamente que me
perdoasse. O impasse foi doloroso. Houve silêncio e comoção. Ficou pasmo
por um instante e então me falou: “Olha, pastor, o que você está fazendo é
muito difícil de fazer; não sei se eu o faria. É verdade que você me ofendeu
profundamente, a ponto de pensar que jamais o perdoaria. Não só está
perdoado, mas, se o admirava antes, doravante o admirarei mais ainda”. Ali
nos abraçamos e oramos juntos. Realmente é muito difícil fazer essas coisas.
Nunca tive inclinação nem dom para praticar estas duas virtudes
cristãs. Se a graça não nos preceder e não nos fortalecer, com certeza não as
praticaremos. Mas creio que é assim que a igreja é abençoada. Depois que
nosso Senhor foi ao Calvário, ele eliminou de nós todo e qualquer pretexto
de isenção ou escape. Se ele, o Senhor, rogou que o Pai perdoasse a seus
algozes, porque não sabiam o que faziam, se bem que o sabiam, o que nos
sobra senão beijar o pó? Se bem que está escrito que, depois de agirmos
corretamente, nos sobrevém a paz. No entanto, não quero que o irmão ou
irmã pense que tenho facilidade de agir bem neste território tão espinhoso.
Meu coração não é natural e inerentemente humilde! Acrescento ainda que
na próxima oportunidade eu dirigi à Igreja em culto público minha confissão
do que aconteceu entre mim e aquele homem. O maior problema do ser
humano pecador não é errar, e sim permanecer no erro.[22]
SEXTA PARTE: IMPACTO DE COSMOVISÕES
1. Erro que gera acerto

Em meado de 1985, o Conselho da Igreja de Ceres me fez um grande


agravo que gerou em mim profundo desgosto e indignação. Talvez outro não
houvesse se ofendido tanto com aquele procedimento, mas para mim foi
terrível devido às minhas confusas idiossincrasias. Conheço pastores que
fazem finca pé por um problema muito mais forte e grave do que o que me
ocorreu ali. Conheço alguns que teriam ficado e dividido Conselho e Igreja. E
ainda arrotam que tudo fazem para a glória de Jesus Cristo. Certo ministro
me afirmou: “Meu colega, se eu não ‘embirrar’, a igreja não será
prejudicada”. Ele não sabia, ou fingia não saber, que era ele quem
prejudicava a igreja com sua megalomania. Sempre nutri horror por esse
comportamento. Tanto que até hoje aquela igreja não compreendeu o que me
levou a renunciar prematuramente meu último pastorado ali. Fiz isso não só
uma vez, mas diversas.
Faltava um ano para o final de meu terceiro mandato de três anos cada
um, isto é, nove anos. Lavrei um documento de renúncia em caráter
irreversível e acertei com o Conselho a vinda de outro pastor. No momento,
todos ficaram atônitos e constrangidos. Creio que não esperavam aquela
reação. O pastor escolhido foi meu próprio cunhado, Rev. Otávio Alves
Caixeta, que realizou ali um grande ministério. Ao aceitar substituir-me no
pastorado, é óbvio que ele também cria que o errado era eu. Fiz tudo o que
me cumpria fazer para terminar bem o ano. Com minha discrição, mantive a
Igreja e o Conselho unidos. Fechei aquele ano, afastei-me em silêncio e quase
ninguém mais me via em público, uma vez que tive de permanecer em Ceres
por questão familial. O Conselho, preocupado, indagou se eu já tinha um
campo em vista para tomar aquela medida tão drástica. Minha resposta foi
“não!”. Estava disposto a ficar sem os proventos necessários do que servir de
estorvo à igreja local.

1.1. Mudança dramática

Ainda não tinha nada de concreto com a Editora Fiel; havia até mesmo
esquecido daquele breve começo; e não havia nenhuma perspectiva de novo
campo. Deus costuma usar esses fatores para gerar um profundo e decisivo
impacto. É nas tensões psicológicas que aprendemos as lições de casa. Ele se
ofende com nossos males? É evidente que sim. Se ele está no meio
temperando tudo, então não existe motivo algum para rancor ou retaliação. É
ele que fecha uma porta para que entremos por outra aberta também por ele.
Nesse processo, ele usa pessoas de nosso relacionamento, para o bem e para o
mal. Ora, se ele é o Autor supremo, por que eu iria guardar mágoa de alguém
a quem ele usou? Por que eu iria perseguir a alguém a quem ele deu ordem
em prol de meu bem futuro? A ferida dói no momento em que é feita, mas o
resultado posterior nos acalenta e nos leva a dar graças diante do Trono da
Graça. Segundo o provérbio popular: “O tempo cura até mesmo as feridas
mais profundas”. Eu teria que aprender isso no desenrolar misterioso da
Providência divina. Essa Providência é a escola do Espírito Santo na qual,
como seus alunos, aprendemos a paciência.

1.2. Em nome da verdade

Mas é preciso deixar expresso e impresso meu conceito pessoal


daquele Conselho. Composto de homens crentes, sérios em seu ministério
administrativo daquela grande igreja, querendo acertar, e não errar, se
deparou com um pastor de “pavio curto”; infelizmente, chegaram o fogo
perto demais e irrompeu uma grande explosão. Tanto que nunca ficamos
inimizados. Hoje ainda há naquela igreja e naquele Conselho remanescentes
daqueles grandes homens. A Providência está sempre no comando.

1.3. Resultado pacífico

Houve muito abalo de ambos os lados, porém procurei ser leal no


cumprimento de meus deveres até o fim. Creio que consegui. Aliás, foi assim
que sempre concebi o pastorado: enquanto tudo corre bem, que o pastor fique
quieto; mas, se for conveniente, é preferível rasgar, lacerar, prejudicar alguma
parte, do que insistir em ficar para “o bem da igreja”, como fazem tantos
“embirrados”, quase sempre prejudicando o todo. Tampouco narro essas
coisas com outro intuito, senão para deixar registrado como Deus usa homens
e mulheres frágeis para a expansão de seu reino. O lado humano da igreja é
sempre assim. Mas o que a torna vitoriosa é seu lado divino e eterno na
operação de sua Providência.
2. Igreja de Rialma

Não conheço os primórdios históricos daquela igreja, mas creio que sua
história e a de Ceres são praticamente a mesma. O fato é que ali se ergueu um
belo templo e já existiu uma grande igreja.
A Providência divina nos encaminhou para a IP de Rialma. O
Acampamento cedeu-me uma de suas moradias que no momento jazia
desocupada dentro de seu perímetro fechado. O Presbitério, em concordância
com a Igreja de Rialma, deu-me esta igreja para pastorear em 1986. Aquele
foi um ano sereno. Aquela igreja me tratou com o máximo respeito e apreço.
Uma igreja sofrida; e na verdade tinha diversas razões pregressas para sentir
antipatia por mim, como era o caso na maioria das igrejas. No entanto,
misteriosamente, ninguém protestou contra, ao menos que eu soubesse;
ninguém a abandonou por minha causa; todos mantiveram firmeza até o fim.
Tanto que passei a amar aquela igreja perenemente. Lembro-me daquele
convívio com gratidão. Não fiz nada de extraordinário ali. Creio que minha
breve passagem por aquela igreja só é lembrada por um pequeno
remanescente, que aos poucos vai desaparecendo. Mas a Providência tinha
algo diferente para nós.

3. Decisão inesperada

Foi nesse tempo que a Editora Fiel voltou à carga para que eu
trabalhasse com ela na esfera literária. Nesse tempo eu já era assíduo às
conferências teológicas daquela Editora. Fui lá e discuti o assunto com seu
fundador, Dr. Richard Denham. Mas ainda não era o tempo certo de nossa
parceria. Para que algo dê certo em nossas decisões, é preciso que atentemos
bem para o andamento do propósito divino. Nas grandes ou pequenas
decisões, a leviandade é uma terrível inimiga nossa. Ela nos leva a cometer
equívocos que costumam ser irreparáveis e desastrosos. Quantos dentre nós
se equivocam crendo que uma porta se abre quando continua fechada e não
percebem. Expressões, “O Senhor está mandando”; “sinto-me chamado por
ele para tal obra”; “uma porta está se abrindo”; “tenho que obedecer à voz do
Senhor”, etc. costumam ser meras ilusões. O Senhor permite que essas vozes
nos enganem e nos desorientem. Se nos parece ouvir uma voz da parte dele,
não precipitemos; não o ofendemos se tivermos dúvida. Quantos dos antigos
profetas tiveram dúvidas? Todos ou quase todos eles relutaram antes que
compreendessem que realmente o Senhor os chamava. Esta é uma questão
extremamente vital. Creio que nos lembramos bem do texto de Jeremias:
“Não mandei esses profetas; todavia, eles foram correndo; não lhes falei a
eles; contudo profetizaram” (Jr 23.21). Eles ouviam um chamado? Claro que
ouviam. Todavia, não era o chamado do Senhor. Então, de quem era? Que o
leitor mesmo pondere e responda. Em geral, as seitas surgem dessa maneira:
seus líderes tiveram uma “revelação” ilusória.

4. Visita à Editora Fiel

O fato é que o presidente e fundador daquela obra, Dr. Denham,


convidou-me a ir a Atibaia, onde estavam sediadas a Editora e as
conferências teológicas. Ele mesmo apanhou a mim e à Cremilda na
rodoviária e conduziu-nos a Atibaia. Não tivemos despesas. Só tivemos
solidariedade e afeto. Fomos lá como estranhos, porém fomos recebidos
como se já fôssemos conhecidos e amigos. Sentimos profundo conforto.
Vimos braços abertos e sorrisos francos e fraternos. Sentimo-nos em casa.
Esse foi o primeiro contato pessoal que tive com o eminente fundador
daquela Editora, Dr. Denham, extensivamente com sua esposa, dona Pérola.
Ali nascia uma perene amizade que mais tarde redundaria em muitos frutos
para o reino de Deus.

5. A mão da providência

Em meu quarto de hotel alojou-se também um homem muito amigo do


presidente do Supremo Concílio, de nome Deneval Lizardo. Aqueles foram
uns dos momentos mais deleitosos para minha alma. Éramos totalmente
desconhecidos até então. Entre tantas outras coisas, falei-lhe de meu interesse
em trabalhar na Editora Fiel. Ele ouviu atentamente e me afirmou com
convicção plena: “Você não irá trabalhar nesta Editora. A nossa precisa de
você mais do que esta. Vou falar com o presidente do Supremo; ele é meu
amigo e não me negará um pedido desses. Vou lutar para ver você como um
dos diretores da Casa Editora Presbiteriana”. (O “nome fantasia” da Editora
Cultura Cristã; este título só veio à existência posteriormente, já em meu
tempo ali; fiz parte de sua escolha.) Tudo isso me soou como uma bomba.
Ouvi atentamente, porém com espírito cético. Meu novo amigo estava
dizendo coisas absurdas, sem nexo. Mas a Providência estava no comando.

5.1. Desacertos
Defrontando-me com o Dr. Denham, logo descobri que aquele não era,
e talvez nunca, o tempo de Deus. Não via nenhum encaixe para mim nas
exigências daquele homem austero. Na verdade, descobri que não era ele que
queria meus serviços, e sim o casal que me visitara em Ceres, Ronald e Thaís.
O Dr. Denham já tinha sua equipe bem formada. Por que iria querer a
colaboração de um homem sem qualquer experiência no ramo de fazer
livros? Discutimos, argumentamos, confrontamos e decidimos não continuar
com as tentativas. Para mim, aquele seria um mundo totalmente
desconhecido e chocante; para ele, eu tinha “problemas” que ele não admitia
na vida de quem trabalhava com ele naquela Editora: eu pertencia a uma
igreja que batiza crianças e tolera em seu seio a maçonaria. Insistir seria
tentar misturar água e óleo. Mas a Providência não dormitava.
Voltei para casa, ponderei com Cremilda os prós e os contras, víamos
mais contras do que prós. Escrevi-lhe uma longa carta, explicando ser
impossível um consórcio pacífico. Não concordava com a maçonaria na
igreja, porém, de fato, pertencia a uma igreja que batiza crianças. Entre uma e
outra convicção havia pouco para se esperar boa concórdia. Nesse caso,
conservaríamos apenas a amizade. Esqueci a Editora Fiel, nesse sentido. Mas
aconteceu algo muito especial — na conferência seguinte, veio-me um
comunicado da parte do Dr. Denham que queria ver-me lá com as despesas
pagas. Fui. Abraçou-me efusivamente, como era seu costume com todos os
seus amigos pessoais. Nossa amizade ficou selada. Doravante, aquele homem
seria um dos vultos que mais me influenciaram em minha dura peregrinação,
porque a Providência está sempre no comando.

5.2. Resposta dramática

Nesse ínterim, eu recebia uma carta do irmão e amigo Deneval


Lizardo, que me chamava a São Paulo para avistar-me com o presidente do
Supremo e as autoridades daquela entidade, a saber, a Casa Editora
Presbiteriana. Obviamente, senti-me atônito. Fiquei como quem sonha. Passei
aqueles dias, trêmulo e confuso. Cremilda também quase não tinha o que
dizer. Não sabíamos o que pensar. É em momentos como esses que
costumamos recorrer ao Trono da Graça com mais frequência e com o
coração saturado de angústia e dúvida. Essa encruzilhada nos assustava.
Havia a possibilidade de dizer “não” e seguir em frente, e havia a de
dobrarmos à esquerda ou à direita. Uma pergunta bailava em nossas mentes:
É razoável dizer “não” a uma chance que pode mudar nossas vidas totalmente
e para sempre? Ainda outra pergunta surgia: Se dissermos “não”, haverá
outra chance semelhante a esta? Tínhamos uma vaga ideia do que seria
vermo-nos diante de uma cosmovisão completamente diferente da atual, e
tínhamos medo daquela, pois já estávamos acostumados com esta.

5.3. Mediadores providenciais

Há muito na história da humanidade e da Igreja, em particular, de uma


pessoa que surge como o pivô de uma grande mudança na trajetória de um
povo, de um indivíduo ou de uma entidade. Farel é um exemplo disso, na
história de João Calvino e da Reforma Protestante em Genebra e no mundo.
Deneval é outro exemplo disso na mudança não só de minha vida, mas
também da vida de minha família e de função dentro do corpo eclesiástico
para o benefício ou prejuízo do mesmo. Há aqueles que, com suas sugestões,
contribuem para a desgraça; e há aqueles que contribuem para o triunfo da
graça na sociedade e, particularmente, na igreja. Tudo é dirigido pela
Providência.
Entre uma correspondência e outra, em meio a temores e esperança, de
repente minha trajetória sofreu a mais determinante de todas as guinadas que
até então experimentara. Até então, eu fora um simples pastor de igrejas
locais. Minha intenção era seguir em frente sem retroceder até a velhice. No
entanto, nem mesmo cheguei a pressentir que aquele apego aos livros me
resultaria em algo tão determinante. Tampouco poderia imaginar que aquele
livrinho presenteado por meu cunhado, Rev. Dr. Antonio Caixeta Neto, seria
o pivô de uma vertiginosa mudança. Sentindo-me fraco e sem cultura, aliás,
sem a devida “experiência acadêmica”, na verdade era visto como alguém
que realmente era de muita cultura, porém foi essa a ideia que prevaleceu na
mente de quem me conhecia; aliás, que mal me conhecia.
É preferível ser tido como inferior, estando na realidade mais alto, do
que ser tido como superior, estando na realidade mais baixo. Eu sofria com
este último preconceito. Muitos me olhavam de baixo para cima, quando, na
realidade, deveriam visualizar-me de cima para baixo. Se porventura eu for
visto como inferior, estando um pouco acima, então tenho como provar o
equívoco; se for o contrário, então eu fico sem recurso para provar que sou
um pouco mais. Digo isto porque, em parte, fui levado para Editora oficial da
Igreja por ser tido como mais apto do que na verdade o era.

5.4. “O homem do livro”

Em Goiás, cheguei a ser apelidado de “o homem do livro”. Não tanto


porque eu sentisse demasiada fome e aptidão à leitura, mas, sobretudo,
porque sentia perene e profunda necessidade de aprender para o bom
desempenho do pastorado e, assim, compensar minha falta de “experiência
acadêmica”. Não obstante tudo isso, jamais imaginara que um dia seria
produtor de livros, para nunca mais voltar atrás. Mais sério ainda, estava
destinado a verter as obras do Reformador João Calvino para nosso idioma,
quando o Senhor fizesse de mim “doutor” em João Calvino, ainda quando
não fosse doutor em qualquer ciência acadêmica. Estava destinado a exercer
um papel preponderante na formação da fé reformada do povo evangélico
brasileiro. Sem o imaginar, faria notável contribuição para a formação
teológica de nossos pastores, mesmo quando continuasse sendo um homem
sem a devida cultura. Creio que essa será uma alcunha perpétua.

5.5. Predestinado

O Senhor da Igreja havia me predestinado para algo muito grande,


muito maior que eu mesmo. Com toda franqueza e sinceridade, para tudo isso
não movi sequer um dedo com o fim de alcançar o alvo, pois, naquele tempo,
este não era de fato meu alvo. Tudo foi fluindo de modo muito natural. Portas
foram se abrindo, as quais jamais eu nem sequer imaginara que existissem.
Elas iam se abrindo pela mão do Senhor da Igreja. E não foi algo abrupto,
precipitado, fruto de leviandade, impulso da vaidade humana. Quando me
abdiquei do pastorado de Ceres, nem mesmo tinha qualquer certeza de que
houvesse tal possibilidade em nossa vida. Nada foi montado ou maquinado;
não houve conchavo de minha parte; houve, sim, do outro lado da barricada.
De lá, a política funcionava; de cá, funcionava um espírito simplório, sem
malícia. Desde o início, não houve nenhuma maquinação de minha parte,
nem mesmo poderia ter havido. O que eu buscava era continuar a vida
pastoral em algum lugar.

5.6. Acertos finais

E assim fui a São Paulo avistar-me com o presidente do Supremo


Concílio e os diretores da Casa Editora Presbiteriana. Deneval Lizardo foi
meu cicerone. O presidente, Rev. Edésio Chequer, chegou a cogitar que eu
assumisse a Superintendência de Educação Cristã da IPB. Eu disse “não!”.
Tudo era fabuloso demais para inventar alguma outra coisa; cada lance me
apavorava; fiquei literalmente aturdido; era como um sonho do qual não se
consegue acordar. Sentia que não podia recuar, nem retroceder, a despeito do
temor, para não dizer assombro. Se eu dissesse “não”, teria desmantelado
tudo. E todos nós sabemos que ninguém pode frustrar os desígnios do
Altíssimo. Mesmo uma leve tentativa resulta em ruína e desventura. Em sua
providência flexível, maleável, dinâmica, ele costuma deixar nossa
insistência prevalecer para punir nossa temeridade. No entanto, em sua
providência imutável ou decretiva, ele não permite nossa interferência. Esses
fatos da revelação divina escrita ainda me deixam atemorizado.

5.7. A família Rocha

Em nossa chegada a Ceres, em janeiro de 1978, um casal, Geraldo e


Terezinha Rocha, nos recebeu de madrugada e esteve conosco até o fim de
nossa permanência ali. Durante todo nosso tempo em Ceres, esse mesmo
casal não se apartou de nós. Aguentavam os solavancos ombro a ombro.
Nunca nos dirigiram sequer uma palavra de arrepio ou agravo. Agora, de
novo, ali estava conosco o mesmo casal na partida de Ceres para a capital
paulista, os quatro abraçados, orando, chorando e nos despedindo. Temos
este casal no número dos que mais nos marcaram naquela querida cidade e
igreja. Sempre que voltamos lá temos que beber o café de dona Terezinha e
papear com o querido presbítero Geraldo e seus queridos filhos. De nossa
parte, sentimos como se fôssemos uma só família.
5.8. Rastros saudosos

Deixamos para trás amizades, vínculos estreitos, uma vidinha serena e


segura, em um mundo de estilo campestre. Agora, com a nova cosmovisão,
sentíamos medo, insegurança, porém não conseguíamos agir de outra forma,
pois tudo parecia muito forte e bem delineado para voltarmos atrás. Nada
fazíamos sem depositar nossos planos ante o Trono da Graça. Eu e família
cultivamos um perene hábito de confiar na Providência todas as
circunstâncias da vida. Nunca nos deixávamos empolgar com demasia.
Quando surgia algo muito grande, recorríamos ao Trono da Graça e ali
depúnhamos nossa preocupação e esperávamos. Agora não era diferente; pelo
contrário, nos esforçamos ainda mais para que recebêssemos do Senhor um
filete de luz orientadora. E ele assim fez. Esteve sempre conosco, a despeito
de nós. Deu-nos perene assistência mesmo quando agíamos contrário à sua
vontade. Cada vez mais, experimentávamos os efeitos dessa divina
Providência.

5.9. Sacrifício financeiro

É oportuno dizer que, para a mudança, gastamos quase tudo o que


tínhamos. Vendemos nosso primeiro veículo para custear as despesas de
mudança. O que sobrou era muito pouco. No lugar próprio relatarei a
dolorosa experiência quando apresentei a conta de reembolso ao presidente
da Editora, segundo o combinado com o próprio Supremo Concílio. Conto as
venturas e desventuras com o intuito de o leitor se inteirar de como nossa
vida foi difícil antes daquela determinante encruzilhada donde tomamos o
rumo de publicar as obras de João Calvino, porque a Providência estava no
comando.

PEREGRINAÇÃO PELAS IGREJAS PAULISTANAS

1. Santo André

Acordados por antecipação, adentramos a capital paulista rumo


diretamente a Santo André, cidade imensa que compõe a Grande São Paulo.
Paramos diante de uma casa que seria nossa residência durante aquele ano de
1987. Antes de apresentar-me à diretoria da Editora, apresentei-me ao pastor
da Primeira Igreja Presbiteriana de Santo André. Aquela igreja pagaria meu
aluguel em troca de meus serviços que lhe seriam prestados. Isto fora
acordado entre mim, o pastor e o conselho. Naturalmente, a igreja foi
informada e já nos aguardava. Até poderia imaginar que tipo de informação
aquela igreja recebera: “Está vindo aí um pastor caipira para ajudar-nos;
vamos recebê-lo como gente boa; embora não seja nosso ideal, contudo
esperamos que dê certo”.

1.1 Choque existencial


Enquanto ajeitávamos nossa mudança naquela casa, não somente eu,
mas toda a família, sentimo-nos atordoados com o terrível impacto entre duas
cosmovisões tão opostas — a anterior, pastoreio campestre; e a nova, pastor e
diretor numa selva de pedra. Esta seria uma longa trajetória de adaptação.
Este seria um tempo de pesado desgaste emocional. Começávamos como
novos alunos de uma nova escola. Evidentemente, logo esposa e filhos se
adaptariam. Quanto a mim, “pastor caipira”, acostumado às cidades pequenas
em Minas e Goiás, viveria todo o tempo futuro, cerca de vinte anos, sem
jamais acostumar-me plenamente. Na verdade, aquela foi uma vida em que
“o filho chora e a mãe não vê”. E praticamente foi assim. Terrível escola seria
aquela! Ninguém é professor sem que antes seja aluno. No entanto, a
Providência estava no comando.
A sensação que tivemos a princípio foi de estarmos numa grande
floresta, formada não de rios, bela fauna e flora, a céu aberto e límpido,
sentido aquele aroma que promana da abençoada natureza. Era, sim, uma
floresta de prédios, de veículos se cruzando velozmente, de naves aéreas
descendo nos aeroportos, de fumaça fétida e todo tipo de poluições. O ruído
dos motores começava de madrugada para depois misturar-se com todos os
demais tipos de estrondos, só diminuindo de madrugada, porque São Paulo é
a cidade que nunca dorme.

1.2. Cremilda sem trabalho e filhos sem escola

Cremilda já não tinha uma escola onde trabalhar; os filhos já não


tinham uma escola familiar onde estudar; eu tinha que viajar quilômetros e
mais quilômetros rumo à Editora no Bairro do Cambuci. Eu sentia na família
certo espanto e angústia. Os únicos conhecidos eram o pastor e sua família,
mas era como se fossem desconhecidos, pois ficaram de longe.

1.3. Meio de transporte


Havia outro fator que agravava ainda mais a situação. A Editora tinha
veículos para os trabalhos próprios dela. De manhã e à tarde aqueles veículos
serviam para distribuir muitos dos funcionários. Não houve a menor
cogitação sobre minha locomoção. Era como se eu não existisse; não estava
no programa de distribuição de funcionários. Tinha que me valer de ônibus
ou trens. Esse detalhe me trouxe um profundo desgaste emocional e
psicológico. Confesso que minha sensação era de quase desespero total.
Sentia-me num deserto sem socorro. Mais ainda, sentia-me no meio de uma
multidão para a qual ninguém é ninguém, composta de indivíduos avulsos
sem qualquer familiaridade ou afinidade. Era menos arriscado estar numa
grande e densa floresta cheia de animais ferozes.

1.4. Discriminação e isolamento

Nesse início traumatizante tive vontade de desistir e voltar para meu


Goiás. Eu estava sujeito ao horário como todos os funcionários. A única
exceção era quando a diretoria se reunia, não podendo fazer isso sem minha
presença e participação. No tocante às decisões, meu voto era praticamente
nulo: era um contra dois. Quanto ao mais, era tratado como um mero
funcionário. Aos poucos tomava pé de minha situação: aquela diretoria
protestou contra minha inclusão nela; para os dois colegas, minha função
tinha de ser meramente a de funcionário. Quando o Supremo prevaleceu,
então descontaram em mim, fazendo-me sentir que realmente não passava de
um funcionário entre os demais. Eu teria que enfrentar esse clima até que
expirasse nosso mandato de quatro anos, quando aqueles dois colegas saíram
e eu fiquei. Não quero narrar com detalhes que dura escola foi aquela para
mim e família. O bulling ainda não tinha sido normatizado!

1.5. Atividade na IP de Santo André


Sobre minha função na Primeira Igreja Presbiteriana de Santo André,
de início fui informado que eu iria ajudar o pastor nos cultos semanais de
estudos bíblicos. Então ele me avisou: “Os crentes desta igreja gostam de
fazer perguntas. Eu não dou brecha. Vá logo cortando esse costume. Não
atenda às suas indagações e insinuações. Esse é o meu modo de agir, e quero
que você faça o mesmo”. Eu não lhe disse que minha metodologia era
justamente oposta à dele. De certo modo, isso contribuiu para certa
divergência dissimulada entre ele e eu. Aos poucos, isso foi se agravando.

1.6. Política eclesiástica

Quanto à Editora, fui posto ali pelo Supremo Concílio, contra a


vontade dos outros dois diretores. E eles tinham razão: eu não era conhecido
de ninguém ali, não tinha as devidas qualificações, e eles mesmos tinham
seus próprios candidatos. Portanto, nada havia para um consórcio feliz.
Assim descobri que tudo ali funcionava pelo impulso da política e
conveniência. Por isso fui tratado como mero funcionário, de modo ríspido,
às vezes com uma ponta de desdém mal dissimulado. Por exemplo, quando
falavam das questões atuais da igreja ou da nação, usavam um vocabulário
próprio e empolado, olhando um para o outro, sem incluir-me em seus
diálogos. Quando cercados pelos amigos também eruditos, eu procurava uma
brecha para afastar-me discretamente, porquanto notava que não fazia parte
de seus assuntos. Eles pouco falavam de teologia; seu assunto predileto era
política civil e eclesiástica. Citavam os grandes vultos que comandavam a
sociedade e aqueles que comandavam a Igreja. E assim eu me sentia um
peixe fora d’água. Quando citavam os grandes vultos da Igreja, faziam isso
com desdém e deboche. As críticas que faziam detonavam com minha visão
simplista do reino de Deus. Cheguei a pensar que, se ficasse muito tempo ali,
me tornaria totalmente cético.
De pronto entendi que estava ali como uma figura decorativa, porém já
não havia como retroceder. Perguntava ao Trono da Graça: “Senhor, o que
de fato está acontecendo? Qual a finalidade de estar aqui?”.
Minha firme esperança é que estes relatos não sejam confundidos com
desabafo e rancor. Hoje não tenho nenhum motivo para desabafo contra
empresa e contra pessoas. Tudo era direcionado pela mão do Altíssimo para
minha formação em seu propósito de fazer João Calvino falar português.
Esta era minha universidade; teria que lutar antes de receber a colação de
grau sem receber qualquer diploma. No entanto, ao registrar tudo isso (e
grande parte é omitida por falta de espaço e por não ser conveniente), espero
que sirva de lição a alguém que também seja aluno de sua própria
universidade, porquanto serviu a mim e à família.
Então me lembrei com profunda reflexão do profeta Eliseu, quando ia
passando e os garotos apupando: “Sobe, calvo! Sobe calvo!” (2Rs 2.23). Por
quê? Porque Eliseu era uma figura deprimente à vista dos grandes da
sociedade e da cultura e, como profeta, atacava frontalmente a política da
época. Além do mais, naquele tempo eu já era membro do clube dos calvos.
Com a diferença que eu não tinha o poder nem me era permitido ordenar a
ursos que exterminassem garotos brincalhões!
Cremilda já não tinha seu emprego para aumentar os proventos; os
filhos precisavam de escola; eu precisava de transporte; o pastor da igreja,
conhecido de muitos anos, não se revelou amistoso e solidário; ditava as
normas, e esperava resultado. De repente me vi trabalhando para os dois, ou,
melhor, para os três (diretores e pastor), sem afinidade, sem ter neles amigos
solícitos para com minha sorte. Estávamos sozinhos naquela selva de pedras.
Todavia, o divino Professor nos ensinava as lições de casa e sua Providência
estava sempre no comando. Ela me preparava para algo muito grande!

1.7. Renda insuficiente

Meu salário de diretor não era tão pequeno, mas se tornou pequeno, por
ser o único a trabalhar e porque os gastos foram multiplicados. Quando
apresentei a conta da mudança ao diretor-presidente, atrás da mesa a
escrever, ali ficou sem nem mesmo me olhar. Respondeu fria e rispidamente:
“Olha, moço, esta Editora nunca ressarciu mudança de ninguém, e você não
será o primeiro”. Então eu disse que o Supremo Concílio havia prometido.
Sua resposta foi: “Aqui quem manda sou eu, e não o Supremo Concílio”.
Continuou a escrever e eu voltei para minha sala profundamente abatido.
Para mim, não era pouco dinheiro. Sem aquela quantia, não tinha a menor
ideia de como resolver meu grande problema financeiro. Não tinha nenhuma
fonte à qual recorrer. Se o dinheiro acabasse, a família enfrentaria a escassez.
Há detalhes terríveis nesta história. Prefiro omiti-los. Aqui, meu intuito é
mostrar quão difícil é ser aluno na escola do Senhor da Igreja, visto que os
piores inimigos são os próprios colegas de escola. Todavia, em meio às
tempestades, ele não deixa o aluno sem assistência; no fim de ano, a nota dá
para passar para o outro ano! A Providência nunca descuida dos filhos e
servos de Deus.

1.8. Subserviência

De diretor, passei a ser mero revisor do editor. Este passava às minhas


mãos todas as revistas e livros e me ensinava, sem muito rodeio, como
revisar os textos. De vez em quando devolvia tudo como estando ruim (e de
fato estava!). Eu tinha que refazer tudo. Algumas vezes censurava meu
trabalho de modo ríspido. Aquele novo ambiente passou a ser um deserto
solitário destituído de oásis; aquela distância a percorrer de manhã e à tarde
me assombrava; o ambiente da igreja era totalmente novo e vago; o dinheiro
se escasseava: cinco filhos, a esposa e eu mesmo para comer, vestir, suprir de
remédios, custear os transportes etc. Nenhuma mão se estendia. Nenhuma
boca me perguntava como estava a saúde da família: nem o pastor, nem os
colegas de Editora. Na igreja, todos eram desconhecidos e estranhos.
No ínterim, Cremilda tentava enquadrar-se em alguma escola como
pedagoga. Por sua vez, recebeu da direção de muitas escolas uma recusa
desdenhosa: “Você vem da cultura goiana? Não; você não se enquadra em
nossa cultura” — e daí por diante. Voltava para casa arrasada. Sentia-se
tratada como uma criatura desprezível. É nesse tipo de encruzilhada que a
gente se sente pior que vermes. Toda a auto-estima se evapora e vira lixo.
Aquela nova cosmovisão nos esmagava. Se na esfera do mundo as pessoas
costumam vencer, por que não nós, que estamos na esfera do reino de Cristo?
Esse era nosso modo de filosofar diante das dificuldades. Mas o que vence é
a Providência.

1.9. Guiados pela Providência


Neste espaço, deixo expressa e impressa, mais uma vez, nossa
confiança se firmava nesta prodigiosa Providência. Desde o início minha
casa aprendeu a confiar tudo a esta Providência. Minha esposa e meus filhos
se anuíram a mim nesta mesma confiança, ao longo de toda nossa vida
difícil. Por isso mesmo nunca forcei nenhuma circunstância para tirar algum
proveito. No dizer de Paulo, “dos pecadores, eu sou o principal”; porém,
nunca consegui fazer certas coisas que se veem praticadas no seio da Igreja
de nosso Senhor. Não por ser melhor que os outros, mas por questão de
escrúpulo, princípios e consciência bíblica. Uma dessas coisas é o uso de
manobra em benefício próprio e de alguém de seu círculo, em prejuízo de
outrem. Eu estava ali, naquela entidade da igreja, porém Deus é minha
testemunha de que nunca forcei uma circunstância para algo dar certo. Eu
sabia, e minha esposa também, que estávamos ali pela Providência, e essa
mesma Providência nos socorreria.
Não passamos fome, não nos faltaram os recursos necessários para o
básico da vida. Mantive a serenidade e marchei adiante. Nosso socorro viria
de alguma fonte e de alguma maneira. Em toda nossa peregrinação sempre
surgiu alguém com mão estendida. Mais ainda, nossa experiência não é
única. Uma multidão de pessoas experimentou e tem experimentado os
efeitos da Providência divina, vencendo todos os obstáculos até que se veja
radiante diante de si o Sol da Justiça e um tempo mais promissor.

1.10. Casal amigo e inesquecível

De fato, o Senhor nos deu um casal da igreja de Santo André: Osmar e


Marília, ambos filhos de pastores, portanto bem escolados sobre a penúria
dos que servem a Deus na obra de seu Reino. Ambos se propuseram a
aproximar-se de nós com afeição sincera. Iam à nossa casa, convidavam-nos
a ir à sua. No primeiro natal, chegaram à nossa casa com uma grande cesta
composta de tudo. De vez em quando ele punha algo em meu bolso: era
dinheiro! Quando eu tinha que pregar em algum lugar distante e
desconhecido, ali estavam eles se oferecendo e me levando sem nunca
receber reembolso. Aqueles dois irmãos e amigos jamais saberão, enquanto
aqui na terra, o quanto nos confortaram em tempo de grandes aflições.
Enquanto os companheiros de trabalho e de vida me ignoravam e me
negavam o de direito, eles iam além do direito e exerciam a misericórdia e a
fraternidade. Esses são os genuínos representantes da igreja, não aqueles.
Muitos estão na igreja como meros administradores; são outros que a
edificam.

1.11. O perigo da insensibilidade

Corremos um grande risco de perder a sensibilidade quando tudo nos


corre bem, deixando de ver e sentir a situação miserável de nosso próximo.
Ainda mais, o Senhor com frequência nos deixa enfrentar o que nosso
próximo enfrenta para derreter o gelo de nosso coração indiferente e
aprendermos a solidariedade. Não devemos fazer o que reprovamos em
outros. Daí, aquela escola era extremamente necessária no preparo para o
futuro, pois encontraríamos em pessoas amigas a mesma disposição que há
em nosso Senhor de abençoar os desesperados e desesperançados. Aos
poucos iríamos encontrar pelo caminho aqueles com quem nos privaríamos
na grande obra de fazer João Calvino falar nosso idioma. Para alguns, o
sofrimento petrifica os corações; para outros, ele amolece e serve de lição
prática. Para os que ainda não passaram pela experiência da conversão, ele é
petrificante; mas, para os que já conhecem o coração de nosso Senhor Jesus
Cristo, ele amacia e apara a aspereza dos espinhos pontiagudos.

1.12. Conflitos administrativos


Os conflitos administrativos chegaram bem cedo, na área da igreja em
Santo André. As pessoas foram se afeiçoando a nós; gostavam de ouvir o
“pastor caipira”; a reunião semanal para estudo bíblico começou a crescer
em número. O salão provisório não cabia mais. Meus métodos de estudo
agradavam às pessoas em geral, porém causou desprazer naquele que deveria
ser meu amigo. No entanto, eu tive que suportar por muito tempo um
presbítero que se sentava nos fundos do salão para torcer o nariz durante meu
estudo, provavelmente por ouvir minha sofrível gramática e dicção. Com o
passar do tempo, aquele mesmo presbítero — José André — viria a ser meu
amigo e meu colaborador nas revisões de minhas traduções de João Calvino.
Portanto, cabe-nos parar e observar o quanto a vida nos prega peça. Há uma
canção popular brasileira que diz: “Hoje é o meu dia, amanhã será o seu”.
Isto é, ninguém conhece sua história futura; ninguém conhece de antemão
quais serão as lições da vida. E eu sempre fui um aluno que aprende depressa
as lições de casa; e, como já disse, desde cedo cultivamos a confiança na
divina Providência.

1.13. Decisão bem definida

No meio daquele primeiro ano, fiz um documento para o pastor,


extensivo ao conselho, dizendo que em 1988 declinaria a permanência ali.
Tive que enfrentar uma forte tempestade. Para amenizar o estado de ânimo,
voluntariamente me comprometi a dar assistência a duas congregações
daquela igreja. Fiz isso durante o ano inteiro, com despesas de meu próprio
bolso. Ninguém me perguntava quanto gastava com as viagens. Tudo era
muito longe. Em silêncio, nunca deixei de visitar e dar assistência àquelas
congregações sem qualquer vínculo eclesiástico. Nesse ínterim, eu já estava
vinculado à igreja de São Bernardo do Campo. Tinha que me desdobrar em
razão da grande distância que tinha que percorrer. Porém, venci com a graça
do Senhor e impelido pela Providência.
Na Editora, continuava a enfrentar o mesmo espírito de retaliação e
indiferença. Vendo o exemplo dos diretores no tratamento que me davam,
alguns funcionários me ignoravam como autoridade. Tive que conviver com
esse espírito todo aquele tempo em que permaneci subalterno a eles.
Quando a Comissão da Bíblia de Genebra veio ao Brasil para negociar
sua publicação, eu era então o diretor-editor por direito do ofício. O
presidente os recebeu, começou a acertar o modus operandi de sua
publicação, sem me chamar. Só fui chamado porque a própria Comissão
norte americana perguntou se a Editora tinha um editor. Aprendi uma grande
lição da fragilidade dos cristãos quando se trata da religião prática. Muitos,
quando se encontram nos templos, são santos; quando saem fora, são diabos.
Mas a Providência havia, mais uma vez, tomado a dianteira. Portanto, a
publicação daquela Bíblia começou comigo como editor. Graças ao Eterno,
eu saí para a entrada de um editor de fato capaz para dar sequência àquele
trabalho tão delicado.

2. IP São Bernardo do Campo

São Bernardo do Campo é outra das grandes cidades satélites da capital


paulista. Acompanhando o relato do Presbítero Lauro Benedito Medeiros da
Silva, a pedido, com a pergunta: “Como o presbiterianismo chegou a São
Bernardo do Campo?”, faço uma síntese histórica desta Igreja.

2.1. Família Lalli

Como tantas outras igrejas, a de São Bernardo do Campo tem seu


ponto de partida com a conversão da família do senhor Cármine Lalli e sua
esposa dona Palmira, residentes em Sorocaba, em meado de 1930. Católicos
praticantes, bem conhecidos do bispo, ele moveleiro, cuja oficina funcionava
em um salão cedido pela paróquia. Ambos, cada um com sua própria história
e com reação diferente, têm contato com o evangelho por meio de uma amiga
de dona Palmira.
Com a firme decisão de se tornarem presbiterianos, ele perdeu o direito
de usar aquele salão para sua oficina. O bispo, enfurecido, além de não mais
ceder aquele salão, impedia as pessoas de usar os serviços da família
“quebra-santo” — era o apelido dos crentes naquela época. Foi assim que, em
face das dificuldades financeiras, “o senhor Cármine se viu obrigado a vender
suas máquinas e a mudar-se de localidade”. A graça divina assistiu aquela
família, que veio a instalar-se em São Bernardo do Campo e se tornaram
membros da Igreja Presbiteriana de Santo André, porquanto, na época, ainda
não havia igreja em São Bernardo do Campo.

2.2. Família Bergamaschi

No entanto, o ponto de partida preciso da existência daquela grande


igreja se deu com outra família, por volta de 1945, a saber, senhor João e
dona Guilhermina Bergamaschi, os quais vieram a ser os membros pioneiros
daquele trabalho insipiente. Mas, assim que o senhor Cármine se instalou em
São Bernardo do Campo, e tendo contato com a família Bergamaschi, ele e
esposa resolveram fazer de sua casa um ponto de pregação com a família
Bergamaschi. Logo a seguir se deu a conversão da família de Mauro Lalli, e
o trabalho, então elementar, veio a ser uma promissora congregação, com a
adesão de outras pessoas da vizinhança.

2.3. Nasce uma congregação

Com o empenho de todos, logo a congregação passou a ter suas


atividades normais de igreja, com estudos bíblicos às terças feiras e cultos aos
domingos, num salão alugado e com a assistência do licenciado Francisco
Cruz; mas, por questão financeira, tiveram que reunir-se na casa do senhor
Calvino Sales, até que pudessem adquirir um terreno para construção de seu
templo, o que se deu em 1950, com o lançamento da pedra fundamental e a
construção do templo pelo pedreiro João Bergamaschi. A celebração de
inauguração do templo se deu em setembro de 1950, presidida pelo pastor da
IP de São Caetano do Sul, Rev. Gerson Meyer. A congregação permaneceu
ali até 1961.

2.4. Organizada a IP de São Bernardo

Em 16 de abril de 1961, o Presbitério Paulistano organizou a


Congregação Presbiteriana de São Bernardo do Campo em Igreja, com os
primeiros presbíteros: Nicola Lalli, Onofre Nelas Neto, Antônio do Amaral
Campos Jr. e José Ferreira Sobrinho; e os diáconos: Azôr Frutuoso de
Campos, Ercílio Soares de Almeida, João Bergamaschi e Joaquim Ribeiro de
Almeida. Sendo os Bergamaschi a primeira família fundadora e os Lalli a
família que acolheu em sua casa o trabalho insipiente. Portanto, estas duas
famílias são de importância vital na história desta grande igreja.

2.5. Primeiros pastores

Os primeiros pastores indicados pelo Presbitério Paulistano (de 1961 a


1970): Revs. Oscar Chaves, Daniel Silveira, Manuel Barbosa de Souza e
Jacob Silva. Os primeiros eleitos pela igreja (a partir de 1970): Revs.
Sebastião Bitencourt dos Passos, Ataídes da Costa, Magnus Galeno Felga
Fialho, Wilson Roberto Bonadio, Alceu Davi Cunha e Donizeti Rodrigues
Ladeia (pastor atual).

2.6. Meu ingresso na história daquela igreja


É aqui que entro na história da IP de São Bernardo do Campo. Durante
o período em que permaneci na IP de Santo André como pastor auxiliar, eu
soube que o pastorado da Primeira IP de São Bernardo do Campo ficaria
vacante em 1988. Não conheço bem a história desse impasse. O grande e
piedoso ministro do evangelho, Rev. Ataídes da Costa, homem que sempre
exercera em mim profunda impressão e influência, estava deixando aquele
pastorado, e o Conselho não encontrara em tempo hábil outro com o perfil
adequado ao pastoreio daquela grande e forte igreja.
Informado disso, liguei para o vice-presidente do Conselho a fim de
consultá-lo da possibilidade de eu prestar colaboração oficiosa aquele ano.
Como houve demora na resposta, tornei a telefonar, dizendo que estava
desistindo daquela pretensão, uma vez que eu era um homem desconhecido
daquela igreja; e, possivelmente, estava causando embaraço aos membros do
Conselho que queriam encontrar um pastor qualificado. Então, o vice-
presidente respondeu que já ia ligar confirmando nosso encontro com vistas
a um acordo. De fato, houve o encontro e acertamos que eu ajudaria a igreja
durante aquele ano em troca de moradia. Para mim, era suficiente. Como
ninguém ali me conhecia, deixei-os livres para indagar a meu respeito. Esse
era meu segundo ano na Editora Cultura Cristã.
Então, foi alugada uma casa e nos mudamos para ali. O vice-presidente
é quem coordenava nossa mudança, pois fora ele que assumira a
responsabilidade do aluguel. Ocorreu um dos casos mais estranhos em toda
minha vida. Chegamos com a mudança, introduzimos a chave na fechadura,
a porta se abriu e começamos a despejar as coisas. Não muito depois, chegou
o vice-presidente do Conselho, correndo esbaforido e assustado, dizendo que
a casa não era aquela, e sim a vizinha. Ficamos atônitos. Fomos com a
mesma chave, introduzimos na fechadura e a porta se abriu. Abreviando a
história, a igreja teve que arcar com as consequências para com o dono da
primeira casa, que se aproveitou para reformá-la toda.
Em seguida, apresentei-me à igreja na qualidade de mero coadjuvante.
Nunca seria o pastor titular. No momento da posse, o vice-presidente soprou
em meus ouvidos que eu dissesse à igreja que minha presença ali seria
oficiosa e somente aquele ano. Esse tipo de atitude me deixa fulminado. De
fato, eu disse à igreja que ficaria ali somente aquele ano, não só em razão do
pedido do presbítero (e repeti verbal e enfaticamente as palavras do pedido e
seu nome por extenso), mas porque essa sempre foi também minha conduta.
Nosso acerto foi que eu colaboraria somente um ano, e assim foi.

2.7. Entrosamento afetivo

A igreja não tinha pastor efetivo, mas apenas um pastor presente ali a
dar-lhe assistência e suporte pastorais. O Conselho sempre me convidava a
presidir suas reuniões. E assim nasceu entre nós um forte laço de amizade e
confiança recíproca. Tínhamos pela frente uma longa história juntos, uma
história que duraria treze anos. Daí nascer em mim um forte afeto para com
aqueles irmãos, afeto profundo e perene. Boa parte de minha história e de
minha família, na capital paulista, gira em torno daquela grande igreja. Como
veremos, foi ali que nasceu a história de João Calvino falando nosso idioma.
Aquela igreja foi generosa para comigo e minha família. Foi um ano de
muita luta, porém de sucesso. Em meado do ano, era preciso prover a igreja
de pastor efetivo; então o Conselho me consultou se eu não gostaria de
permanecer ali mais um ano. Minha resposta foi que o vice-presidente
insistira que eu fizesse aquela declaração, por isso eu a manteria: não ficaria!
Repeti à igreja, com todas as letras, aquela solicitação, com o cidadão
presente.

2.8. Virtude ou defeito?

Compreendo ser este um dos tantos borrões de meu caráter. Creio que
outro, em meu lugar, teria reavaliado a situação, e por certo teria agido bem.
Mas quando afirmo uma coisa, costumo não voltar atrás, principalmente se
houver certa relevância. Não que eu goste disso. Não uma só vez ocorreu de
haver prejuízo para ambas as partes. Entre dar prejuízo e ter prejuízo, prefiro
esta última alternativa. É possível que alguém denomine isto de orgulho, e é
possível que realmente seja; mas este comportamento é uma de minhas
marcas registradas. Quem poderia concordar com isso? Nem os filhos nem a
esposa! Sem dúvida, sempre fico sozinho! Consequentemente, a família, de
alguma forma, sempre sofreu os efeitos negativos de tal comportamento!
Como veremos, voltaríamos para aquela igreja mais tarde.

3. IP São Caetano do Sul

A Igreja Presbiteriana de Vila Paula, fundada pelo “velho” plantador de


igrejas, Rev. Ludgero de Moraes, grande vulto no seio da IPB, me descobriu
e queria que eu fosse seu pastor efetivo, não cooperador ou auxiliar. Aliás, a
bem da verdade, quem me apresentou àquela igreja foi seu próprio pastor que
ora deixava vacante seu pastorado, o Rev. Fôlton Nogueira, o qual nem
mesmo tinha ideia que eu existisse neste mundo. Em minha opinião, ele
estava cometendo uma temeridade.

3.1. Eleição

Este homem e eu estaríamos juntos em outras encruzilhadas. Ele nunca


soube o quanto o admiro profundamente como um homem nobre e probo e
dentre os mais inteligentes que conheci em meu caminho. Houve negociação
e acerto para 1989. Mudamo-nos de São Bernardo para São Caetano, terceira
mudança em dois anos. O acerto é que eu ficaria ali como seu pastor apenas
aquele ano. No entanto, foi um ano tão bem-sucedido, que permiti que a
igreja fizesse eleição. Nunca havia sucedido comigo, nem me lembro de
haver sucedido assim com outro, de uma igreja votar em massa em favor de
um pastor, sem sequer um voto contrário. Estava eleito para os anos 1990 e
1991.
Mas, quando atingimos meado do ano 1990, percebi que minha
permanência ali seria prejudicial à igreja. O trabalho da Editora era intenso e
exaustivo. Reuni o Conselho e apresentei minha carta/renúncia relativa a
1991. Houve muito aborrecimento por parte do Conselho e da igreja, crendo
estar sendo lesados em sua confiança depositada em minha pessoa. Mesmo
assim persisti em meu propósito, e apresentei um pastor já amigo de longa
data, Rev. Ruben Castro. Esse consórcio foi tão bem-sucedido, que a igreja
perdoou-me de minha retirada prematura. Abençoamos aquela igreja, e ela,
por sua vez, nos abençoou.

3.2. Contratempo no Presbitério

Deixo registrado ainda que os concílios pelos quais passei nunca foram
amistosos comigo, com pequena exceção. Foram sempre arredios, e eu
ficava ali ocioso, porquanto nenhum me dava qualquer encargo. Somente um
resolveu me nomear secretário de educação religiosa. Fiz amizade com
alguns indivíduos desprendidos que me aceitavam com minhas
idiossincrasias. A impressão que tenho é que nenhum daqueles presbitérios
se lembra de mim.

3.3. Carta anônima

Certa vez, no Presbitério de São Caetano, surgiu uma carta anônima


dirigindo ofensas ao concílio. Eu estava presente, quando discutiram o
assunto com agastamento. Quando me deram a palavra, pronunciei minha
estranheza que um cristão escreva algo sem apor sua assinatura. Minha tese
sempre foi esta: ou eu escrevo e assino, ou não escrevo e não digo nada.
Rev. Fôlton era o presidente e estava presidindo. Após minha
declaração, eis a surpresa: ele se ergueu, e me falou assim: “Valter Martins,
quero que o concílio registre minhas palavras sobre o senhor. Eu cria
piamente que o senhor fosse o autor da carta. Por isso, peço que me perdoe”.
Foi um momento constrangedor e embaraçoso, e eu estava surpreso. Então
eu disse ao concílio: Isso prova o quanto os senhores me desconhecem. Sou
um homem simples e de difícil relacionamento, porém não covarde. Sou
sempre leal à igreja a que sirvo e ao concílio a que pertenço. Nunca escrevi
algo que não pudesse assinar, pois essa atitude é imprópria até mesmo para o
mundo; muito menos para os filhos de Deus.
Ele me abraçou e doravante nos tornamos bons amigos. O que aquele
homem fez é digno de menção honrosa. Esse tipo de confissão é próprio das
pessoas sinceras, corajosas e ilibadas. Aliás, é a única atitude que
biblicamente se enquadra nos cristãos. Guardar rancor e fomentar desavença
têm trazido grande prejuízo ao povo de Deus.

4. De volta a São Bernardo do Campo

Sem igreja, eu e Cremilda resolvemos voltar para São Bernardo do


Campo como meros visitantes, sem qualquer compromisso. Era longe, mas
já tínhamos filhos ali, e a igreja já era muito amiga. Naquele tempo,
passaram por aquela igreja dois pastores que não cumpriram seu mandato
completo. Cada um deles tinha sua própria cota de problemas pessoais.
Como eu disse, voltamos a frequentar aquela igreja porque era
composta de amigos. Não tínhamos muitos amigos. Não deixamos amigos
nas outras igrejas. Nossa passagem era sempre rápida. E estava registrado na
Providência que ficaríamos por muito tempo naquela igreja (cerca de treze
anos ao todo). Ali tive uma grande classe composta de adultos na nave do
templo para estudos teológicos de minha escolha. Lembro-me que durante
um ano inteiro estudei o livro do Apocalipse com aquela classe. E ali tive
boas histórias.

IMPASSE NA EDITORA CULTURA CRISTÃ

1. Avaliação positiva

Nesse ínterim, a vida na Editora era ativa e cheia de percalços.


Participava das reuniões da diretoria timidamente. Fazia em silêncio aquilo
que o editor me mandava. Na realidade, as decisões eram feitas a dois, pois
que adiantaria a palavra de um só? Lutei muito para não ceder ao desânimo.
Há lances em toda esta história que, registrados, aumentariam muito a
extensão deste livro e trariam desgosto aos parentes e amigos do lado de lá.
Depois de muito tempo enfrentando as dificuldades de transporte, senhor
Agnaldo, funcionário da empresa e presbítero na Primeira IP de São
Caetano, por ordem do presidente, assumiu o comando de um dos veículos
da empresa e então me apanhava e me deixava em casa.
Houve um grande avanço. A hostilidade dos colegas se abrandava com
o passar do tempo. Perceberam que eu só queria trabalhar e não causar-lhes
dificuldade. Já havia me acostumado com o novo ambiente. Filhos e esposa
já estavam mais ambientados. Eles conseguiram matricular-se nas escolas
próximas de casa. O arrocho financeiro ainda era forte. Na Editora, eu já
tinha minha sala específica onde lia, estudava, revisava para o editor e
treinava tradução. Há coisas que passo por alto em razão de sua
complexidade e porque são detalhes mais meus que do leitor.

2. Retrospecto

Neste ponto é preciso retroceder um pouco para compreender-se o que


veio depois. Em 1986, enquanto curtia a angústia da saída prematura da
igreja de Ceres, e labutava na igreja de Rialma, decidi traduzir um precioso
livro presenteado pelo amigo já citado, Rev. Ronald Edmonds, que fora
discípulo de Martyn Loyd-Jones na Capela de Westminster, ora nos Estados
Unidos como pastor de uma Igreja Batista da Reforma. Ele me enviara
muitos livros dos grandes teólogos reformados, William Hendriksen e Simon
Kistemaker entre outros. Essa amizade e esse gesto mudariam
vertiginosamente minha vida particular. Dentre os livros, encontrava-se um
em especial, Mais que vencedores, estudo no livro do Apocalipse. Devo
muito àquele casal, Ronald Edmonds e sua esposa Thaís.
Em meus ermos, li e muito apreciei aquele livro. Com a ajuda do casal
Mullins, Alan e Ézia, amigos de longa data, residentes em Ceres e diretores
do Acampamento Presbiteriano de Ceres, fui traduzindo e eles, re-
traduzindo. No final, o livro ficou razoável (por causa deles). Esta foi minha
primeira “tradução”, e foi aprovada pelo editor e publicada pela Editora
Cultura Cristã; uma publicação muito deficitária, por isso mais tarde o livro
foi re-traduzido com primor pelo grande ministro do evangelho e meu amigo,
Rev. Dr. Wadislau Gomes.

3. Rev. Sabatini Lalli — amigo e mestre

Neste ponto, tenho que fazer justiça a um homem em especial, citando-


o nominalmente, o que tenho evitado até então. Rev. Sabatini Lalli era um
homem muito culto. Poliglota, exímio escritor, tradutor e polemista invejável
e respeitado, às vezes se excedia e se deixava levar pelos amigos,
prejudicando-se a si próprio; a despeito de tudo isso, era um homem bom e
justo. Suguei dele o máximo que pude. Aprendi com ele muita coisa vital
para o que faço hoje. A ele devo o que me tornaria no futuro, inclusive sua
influência em meu estilo literário. A despeito de toda a luta que travamos
juntos naquela instituição, positiva e negativa, nunca deixei de nutrir para
com ele afeição e respeito. Depois que nos separamos de modo tumultuoso,
sempre que o encontrava lhe perguntava como estava vivendo. Certo dia, ele
me olhou demoradamente e me perguntou, já dentro de seu veículo, à porta
da 1ª IP de São Bernardo do Campo, sua igreja de origem: “Valter, eu sinto
que você de fato se importa comigo”. Minha resposta foi: E o senhor ainda
tem alguma dúvida? Vi lágrimas brotarem de seus olhos. E certa vez o visitei
em São José dos Campos, guiado por seu irmão Presb. Paulo Lalli e outros.
A despeito da dificuldade que eu causo aos que mantêm vivência
comigo, em decorrência de minhas idiossincrasias um tanto complexas,
tenho tentado sublimar isso, não guardando rancor de ninguém e sendo um
amigo leal. E digo mais: nunca persegui a alguém; nunca busquei solapar o
prestígio de alguém; nunca me alegrei quando algum desafeto fracassa. Se
puder, lhe estendo ambas as mãos. Já fiz isso várias vezes. Com isso não
estou tentando justificar-me nem engrandecer-me como se eu fosse bom e
perfeito, pois tenho muitos outros defeitos, voluntários e involuntários, que
enfeiam minha vida, os quais me têm causado muito prejuízo, e com isso
tornando minha fama muito ruim. Mais afasto as pessoas de mim do que as
atraio. Nunca consegui muitas amizades. As que tenho, isso se deve ao bom
coração dos que não se afastam de mim e me aceitam como sou.
Reiterando, a despeito de muitas dificuldades de relacionamento, Rev.
Sabatini e eu conseguimos ser amigos. Creio que ele não faleceu com mágoa
de mim. Eu lhe dedicava grande admiração e afeto pelo que ele era e fazia.
Sua esposa e filhos eram e são pessoas maravilhosas e íntegras. Na manhã do
falecimento de sua esposa, uma das filhas me ligou e me disse: “Papai me
pediu que não me esquecesse de avisá-lo que minha mãe acaba de falecer”.
Lá fui eu. Ao chegar, ele me abraçou e me disse: “Valter, que bom vê-lo aqui
conosco neste momento dramático”. Choramos juntos em silêncio e
abraçados. O coração de Jesus Cristo triunfava mais uma vez. Quando seu
filho Flávio, casado com uma irmã de Ayrton Senna, morreu por acidente de
moto, mais uma vez choramos juntos.

4. Transição dramática

O ano de 1990 foi dramático para a Editora. Era a reunião ordinária do


Supremo Concílio. Os dois colegas foram exonerados por razões de
incompatibilidade entre eles e o Supremo; e eu fiquei por não ter nenhuma
incompatibilidade com eles e porque foram solidários comigo, visto que eu
não teria nenhuma fonte de renda, pois não exercia o pastorado. Os dois
compreendiam, porém não aceitavam os fatos, e me envolveram no mesmo
“pacote”.
Eu havia tomado parte na elaboração do hinário com músicas como
integrante da Comissão do Hinário; havia participado também na edição da
gramática grega do Dr. Waldir Carvalho Luz; igualmente na edição das
Institutas, traduzidas por ele. Fui alijado completamente das comemorações
e lançamentos dessas obras. Nem informado fui. Nos convites, apunham
somente seus nomes como se fossem os únicos diretores. Os dois lançavam
mão do que queriam para si e para presentear aos amigos. Até funcionários
recebiam livros de presente. No tocante a mim, só depois que haviam saído é
que consegui exemplares dessas obras por direito do ofício.
Suportava tudo em silêncio, porém com a alma amargurada. A
princípio, eu os acompanhava nas viagens que a diretoria fazia às igrejas e
concílios. Uma vez lá, ninguém ficava sabendo que eu era também diretor.
Os dois eram celebrados, subiam aos púlpitos, discursavam, enquanto eu,
incógnito, nem sequer era mencionado nem por eles nem pelos pastores das
igrejas locais. Para todos, a diretoria se compunha dos dois. Mais tarde, iam
os dois, e eu ficava. Mesmo assim, não me faziam nenhuma recomendação.
Havia um funcionário que agia como diretor e tinha nas mãos todo o controle
da empresa. Esse mesmo funcionário, em virtude da atitude dos dois
diretores, agia como se eu não existisse ou se fosse outro funcionário. Não
me dava ordem porque era bem esperto; agia daquela forma porque era
recomendado pelo presidente.
Deixo registrado, não por mágoa ou retaliação, e sim como lição
oportuna, que naquele tempo minha fé, se não fosse um dom provindo do
Trono da Graça, teria soçobrado e se definhado de vez. Costuma-se haver no
mundo mais respeito às hierarquias do que na Igreja do Deus vivo. Se
alguém me perguntar por que não reagia, até nisso fui impossibilitado, pois
aqueles a quem eu poderia recorrer como que desapareceram de minha vista
e de meu alcance. Sempre soube que havia na Igreja do Deus vivo muita
maldade, mas nunca havia experimentado tanta na própria pele. Esse é o lado
humano da igreja; não é a igreja propriamente dita. Toda a história da igreja
nos apresenta este quadro em cores vivas. O Senhor faz isso para provar-nos
e burilar os eleitos. No entanto, digo que este quadro histórico não representa
realmente a igreja como um todo. A igreja era conduzida de modo justo e
honesto. Sua liderança se compunha de homens e mulheres tementes a Deus.
Daí ser este fator de muita relevância em minhas vitórias ali. Difícil é quando
a maioria se conspurca. Digo ainda que nunca fui maltratado pelos membros
do Supremo Concílio. Aliás, estes nem mesmo sabiam o que ocorria nos
bastidores daquela Editora.
O que me chama a atenção em todo esse marasmo, é que os homens
tentam obstruir nosso caminho com uma infinidade de obstáculos. Não
ponderam que o caminho de cada um é traçado pelo Eterno e que de nada
vale tentar impedir o avanço de alguém que está sob o comando da
Providência. Em primeiro lugar, Deus não impede que nosso caminho seja
entulhado de obstáculos que outros põem; em segundo lugar, ele mesmo
remove esses obstáculos para desimpedir nossa trajetória. Por isso, quando
eu quiser barrar a passagem de alguém, deveria antes ponderar sobre a
Providência em relação a esse alguém. Como quero que a Providência me
abençoe, devo querer igualmente que ela abençoe os que andam próximos a
mim ou estejam relacionados comigo. Creio que parte do temor de Deus é
não impedir o avanço de outros; ao contrário, minha mão deve ajudar alguém
a ter seu caminho desobstruído. Digo isso porque muitos dos que quiseram
barrar meu caminho já partiram deste mundo ou foram arredados do
caminho, e eu continuo seguindo em frente. Isso se dá comigo como também
se dá com você e com todos nós. Nossa mão não deve ser usada para lançar
obstáculos no caminho de alguém. Está escrito: “Abençoai os que vos
perseguem, abençoai e não amaldiçoeis” (Rm 12.14). Nossa função neste
mundo é sempre abençoar, e nunca amaldiçoar.

5. Crise na literatura pedagógica


Aquele foi também um período de crise na literatura pedagógica da
Igreja. Um superintendente entrava e logo saía; vinha outro e não ia longe.
Houve momento em que eu tive que assumir de vez a responsabilidade de
todo o preparo das revistas. Não há necessidade de dizer muito que toda a
literatura didática da igreja nacional se empobreceu e quase se definhou de
vez. Só depois que eu saí e assumiu meu posto o Rev. Dr. Claudio Marra é
que toda a literatura foi caindo nos eixos.
Afirmo que a sala dos Superintendentes de Educação Cristã era anexa à
minha. Daí eu acompanhar todo o drama desse departamento da Igreja.
Poderia citar de memória todos os Superintendentes de meu tempo, mas
prefiro manter silêncio sobre isso. Todo meu tempo na Editora Cultura Cristã
esteve envolto por decadência, principalmente o segundo período, de meado
de 1990 a meado de 1994, quando aquela diretoria foi deposta pelo Supremo
Concílio.

6. O hinário com letras

Ocorreu que, quando foi lançado o hinário só com letras, os erros


foram tantos, que as igrejas não puderam usá-lo. Foi quando se decidiu
chamar a Prof.ª Atenilde Cunha para, comigo, o editor, corrigir tais erros. Ela
veio do Recife e, juntos, ela e eu, trabalhamos incansavelmente vários dias.
Assentados em torno de uma mesa, fomos corrigindo, lentamente, estrofe
após estrofe e hino após hino até que ficasse plenamente certo. Ficamos
assustados com tantos erros. Terminado nosso trabalho, o hinário corrigido
foi de novo impresso e permanece até hoje, intocável, como deixado por nós.
E assim pude conhecer de perto aquela mulher extraordinária e fazer parte da
história do hinário da igreja.

7. SAF em revista
A publicação da SAF em revista estava longe da revista moderna e em
tudo bela que o trabalho feminino compendia hoje. Tudo era feito
artesanalmente. Não havia computador na empresa. Havia, sim, uma boa
equipe de artistas que elaborava revistas e livros com o que tinha em mãos. E
a direção máxima do trabalho feminino, a nível nacional, que me visitava
periodicamente, era composta de senhoras “fechadas”. Não lidavam comigo
de modo amistoso como companheiros de uma mesma equipe. Elas me viam
de cima para baixo. Tudo era de caráter profissional. Algumas nem
permitiam que eu fizesse qualquer mudança na estrutura e texto para
melhorar. Nenhuma daquelas senhoras jamais me disse “obrigado” por me
empenhar em prol de sua modesta revista. Aliás, a cúpula do trabalho
feminino atual nem mesmo tem ciência de que ainda estou vivo e que fiz
parte de sua trajetória; mais ainda, nem sabem quem eu sou. O que guardei
em meu coração foi uma dolorosa lembrança que tenho tentado apagar pela
graça do Senhor.
No entanto, uma figura aparou bem muitas arestas — Prof.ª Mirthes
Silva, membro da Primeira Igreja Presbiteriana de São Bernardo do Campo.
No final do culto, quando eu pregava, ela costumava dizer: “Volto para casa
com a alma nutrida”. Das senhoras, membros da cúpula nacional do trabalho
feminino, lembro-me de todas, mas foi esta grande dama que mais me
marcou positivamente. Vou repetir o que já afirmei em outro lugar: o Senhor
sempre põe em nosso caminho alguém que produz em nós profundo
conforto. É a ação daquela Providência que nos impele para frente e nos
impede de desistir.

8. Rev. Álvaro Almeida Campos

Um dos vultos mais proeminentes postos ali pelo Supremo, como


Superintendente de Educação Cristã, foi precisamente o homem que em
1975 preenchera e assinara minha carteira de ministro: Rev. Álvaro Almeida
Campos. Aquela Editora foi palco do horrível tratamento que aquele humilde
homem sofreu ali. Penso que o Supremo Concílio nunca teve ciência disto e
não tem pleno conhecimento da grandeza e nobreza daquele “varão sem
dolo”, bem como do sofrimento que enfrentou ali. Até hoje costumo
denominá-lo de “Natanael”. Foi ele que me ajudou a re-traduzir a Confissão
de Fé e os Catecismos e de programar essas obras como se encontram hoje.
As referências bíblicas por extenso e numeradas, como contêm hoje, foram
organizadas e inseridas por mim, com a ajuda do Rev. Álvaro. Tenho certeza
que ninguém hoje conhece esses dramas, daí eu registrá-los para que não
pereçam, pois além de ser testemunha ocular dos mesmos, eu mesmo estava
vivamente presente naquele palco; aliás, fazia parte de seu elenco.
Seu programa para as escolas dominicais era ótimo, porém foi
rejeitado. Aquele nobre homem tentou realizar uma obra impossível,
porquanto foi completamente alijado. Vê-lo sendo ridicularizado, inclusive
com deboche, me causou, além de náusea, um profundo conflito de fé e
credibilidade no que tange ao lado humano da igreja. Precisei desenvolver
técnica pessoal para vencer tais conflitos, ou seja, jamais confundir indivíduo
com entidade ou corporação. A igreja, como corporação, é instituição divina,
porém é composta de indivíduos distintos que, com frequência, agem como
se estivessem a serviço de Satã e não de Jesus Cristo. Mesmo assim, sentia
como se minha alma fosse aos poucos secando. Foi quando me deparei com
o texto de Isaías e demorei-me em sua meditação, o qual sempre me
assustou:

Pelo que o direito se retirou, e a justiça se pôs de longe; porque a


verdade anda tropeçando pelas praças, e a retidão não pode
entrar. Sim, a verdade sumiu, e quem se desvia do mal é tratado
como presa. O SENHOR viu isso e desaprovou o não haver justiça
(Is 59.14,15).

E também Habacuque:

Por esta causa, a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta;


porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida (Hb 1.4).

Para nossa advertência, os dois profetas não se referem ao mundo


pagão que não tem o temor de Deus. Está em pauta a própria igreja de Israel
que havia apostatado do Senhor. Vale dizer que Israel não percebia nem
admitia que estava agindo contra o Senhor. Quando os profetas surgiam
como arautos do juízo parcial do Senhor, eram desdenhados e perseguidos
como sendo injustos para com a Igreja de Iavé e mentirosos quanto ao seu
modo de julgar a nação.
9. O temor do Senhor

Cabe dizer ainda que nem todos agiam injustamente. Em minha visão,
esses compunham a minoria. A maioria persistia em viver no temor do
Senhor. E esses são a razão de a igreja continuar sendo a Igreja do Senhor.
Quando nosso Senhor veio, havia em Israel um remanescente bem pequeno
que representava o povo de Iavé. Esses eram mais raros no alto escalão do
que entre a plebe. Os do alto escalão podiam ser contados nos dedos da mão.
Sabemos ainda que entre os sacerdotes, os ministros dos sacrifícios e da
instrução do povo, havia bem poucos que eram tementes ao Senhor. Graças
ao Senhor, hoje, em minha ótica, é a maioria que persiste fiel. Infelizmente,
nossa atenção quase sempre está voltada para o lado negativo, a saber, as
ações da minoria, pois às vezes são ações por demais fortes. Posso estar
equivocado, mas não vejo a totalidade da Igreja como conspurcada pela
apostasia. Concordo que a maioria tem brincado de religião. Os concílios e
conselhos precisam trabalhar esse setor. Portanto, isto é motivo para crermos
e esperarmos que dias melhores ainda virão. É possível lutar e diminuir a
cizânia entre o trigo? Creio que sim.
A cúpula de cada setor da igreja corre um grande risco de perder a
sensibilidade espiritual. A tendência é o endurecimento. Os que lideram
precisam ter em mente que são vistos como o exemplo de piedade cristã para
o povo que é liderado. Se a liderança crer e ensinar errado, é certo que os
liderados também seguirão esse exemplo. Quando se mostram insensíveis, os
liderados são afetados e passam a agir da mesma forma. Quanta necessidade
há hoje de piedade cristã entre os líderes do povo de Deus!

CREMILDA NO MACKENZIE

1. Três gigantes da fé

Vale dizer que foi nesse período dramático que passaram a assessorar-
nos três vultos importantíssimos no seio da igreja — doutores/presbíteros:
Dr. Éder Acorse, Dr. Hélio Conceição e Dr. Ciro Aguiar. Eram todos
homens tementes a Deus e da mais ilibada seriedade, pelo menos em minha
ótica. Enquanto alguns amargam a vida de outros, pessoas como estes três
homens amenizam suas asperezas; e há muitos deles na Igreja. São de um
tipo que faz a gente ver o reino de Deus como algo real pelo qual vale a pena
lutar. Além do mais, os três me viam e me tratavam como merecedor de
respeito. Recebi deles o que não havia recebido de outros. Um deles, o Dr.
Hélio Conceição, de vez em quando ainda me telefona só pelo gosto de ouvir
minha voz e falar comigo. Sempre que me liga, me saúda nestes termos:
“Grande mestre!”. Então, sei que é ele.
Aqueles três homens nunca poderiam ter uma visão concreta da
influência que exerceram sobre mim. Machucado, estropiado, quase já
calejado e insensibilizado pelo sofrimento, eles surgiram como se fossem um
oásis em pleno deserto. Sua polidez, cultura, espírito solidário e fraterno,
devoção ao reino de Cristo, eles passavam nitidamente uma confiança e
lealdade que eu vira pouco naquele ambiente. Eu sentia que eles se
interessavam em falar comigo. Não eram como alguns que tudo faziam para
ignorar-me e alijar-me em meu próprio universo.

2. Dr. Ciro Aguiar

Logo o Dr. Ciro Aguiar foi convocado a assumir a presidência do


Instituto Mackenzie, e deixou nossa companhia. Pouco depois, numa de suas
visitas à Editora, ele me fez a seguinte pergunta: “Valter, há algo que eu
possa fazer por você ou sua família?”. Então lhe respondi: Minha esposa
Cremilda é pedagoga e procura trabalho, porém é rejeitada pelas escolas, só
porque seus diplomas são de Goiás e de Minas Gerais. Ela inclusive fez
especialização na área da pedagogia; mas, para São Paulo, tudo isso não
passa de lixo. Então respondeu de modo sucinto e cortês, como lhe era
peculiar: “Encaminhe-me seu currículo o mais depressa possível”.
Resumindo, poucos dias depois, Cremilda passou a ser funcionária do grande
Instituto Mackenzie, e lá permaneceu por mais de dezesseis anos. Agora seu
salário era maior que o meu. Em termos financeiros, nossa vida mudou
consideravelmente.
A figura do Dr. Ciro Aguiar se projetou no cenário de nossa vida
familial de uma maneira gigantesca. Nunca nos inteiramos de sua grandiosa
história pessoal, porquanto residia em Piracicaba e era presbítero de uma das
igrejas ali. Nossa oração sempre foi que ele e família fossem abençoados
pelo Senhor da Igreja. Nem sabemos se ele ainda é vivo.
3. Sob o domínio de ímpios

Cremilda e eu nem de longe imaginávamos em que campo de batalha


ardente ela se ingressava. A cosmovisão em que ela vivera até então como
professora sofreu uma terrível reviravolta. Ali ela viveria outro universo
cultural; provaria as amargas setas da perseguição, da discriminação feita
pelos ímpios, os quais eram postos acima dos justos; esses se aproveitavam
de seu posto superior para massacrar, anular e destruir os que pensavam
diferentemente, em particular os que professavam a fé evangélica. Naquela
escola de origem tão gloriosa e edificante, calcada nos moldes e princípios
evangélicos, jamais pensamos que vicejasse e dominasse todo gênero de mal.
Ali os santos eram massacrados pelas mãos férreas dos perversos que eram
postos como seus superiores. Não era a instituição propriamente dita que agia
assim, e sim alguns dos que ela punha em postos de grande culminância. Dito
com propriedade, a direção não se componha de pessoas de real temor de
Deus.
No entanto, Cremilda deixou ali uma profunda influência de retidão e
perseverança na vereda do bem e do testemunho cristão. Aqueles algozes que
tanto a pisaram tiveram seu tempo de punição. Tudo indica que o Mackenzie
aprendeu a dura lição de deixar suas rédeas nas mãos de pessoas perversas e
as entregou nas mãos de homens e mulheres tementes a Deus. Aprendemos
nas histórias dos reis de Israel que, quando se levantava um rei perverso e
que pervertia a religião e o direito da nação, todo o povo gemia; e quando se
sentava no trono um rei piedoso e temente a Deus, a nação também
descansava e prosperava pela regência da boa mão de Deus.

4. Retoque oportuno

Cabe-me afirmar com justiça que o Mackenzie, como instituição, veio a


ser uma grande bênção em nossa vida. Além do mais, com o salário
razoavelmente bom que Cremilda recebia, ela economizou para a aquisição
de nossa primeira moradia. Adquirimos nosso apartamento na Rua Clélia, no
grande bairro da Lapa, e isso com o abençoado salário que ela recebeu dos
cofres do Mackenzie. Somos gratos a Deus, acima de tudo, ao Dr. Ciro
Aguiar, ao próprio Instituto Mackenzie, pela grande oportunidade que ela
teve ali de dar testemunho de uma fé robusta e genuinamente cristã,
desconhecida de tantos. Somos gratos ainda porque nossa filha Wânia
continua ali como professora, com a mesma arma da fé e bom testemunho
com que ela tem exemplificado. Hoje nossa filha Eline é também funcionária
do Mackenzie do Tamboré e três de nossos netos são alunos naquela
abençoada instituição. O lado negativo que narrei não se deve à instituição, e
sim a funcionários que ela manteve ali no passado e que coube à Cremilda
enfrentar como parte da escola de nosso Senhor Jesus Cristo. Ao universo
Mackenzie tiro o chapéu com reverência. Quer no Instituto, quer na
Universidade, tenho alguns amigos.
Quero crer que nas bibliotecas daquelas entidades figuram algumas de
minhas traduções, as quais são compendiadas pelos alunos principalmente do
Andrew Jumper. Sendo assim, minha colaboração com a educação teológica
chega também aos grandes centros educacionais do país. Isso foi sendo feito
pela divina Providência que nunca é insone para com os que esperam por ela.

FALÊNCIA DA

EDITORA CULTURA CRISTÃ

1. Transição conturbada

1.1. Declaração necessária


Cumpre-me confessar que o presidente do período anterior conduzira a
casa com muita habilidade administrativa. Saiu deixando tudo em ordem.
Inclusive voltou atrás e me reembolsou da mudança de Goiás para São
Paulo, depois que coloquei as cartas outra vez sobre sua mesa, numa
circunstância bem distinta e favorável.

1.2. Nova diretoria

Então o Supremo nomeou para a presidência da editora um homem de


muitos requisitos, doutor em administração, porém de um comportamento
extremamente estranho na gerência da casa. Posso viver mil vidas que jamais
conseguiria compreender a filosofia e administração daquele preclaro
homem, e nem como o Supremo teve a ideia de colocá-lo como
diretor/presidente daquela casa. Quando pensava ver a casa prosperar, eu a
via soçobrar. Depois de estar ali por quatro anos, sabia suficientemente bem
do que ela precisava para prosperar. Nossas reuniões eram pesadas. Ver o
diretor/comercial se digladiando com o presidente, e eu no meio do tiroteio,
para mim era um verdadeiro martírio.

1.3. Importante papel da política eclesiástica

A administração de qualquer instituição sem o uso da política é


praticamente impossível. Política em si é uma ciência, é boa e necessária.
Aliás, o dicionário diz que política é a “ciência de governar; governo,
administração”.[23] O mal da política é quando de ciência administrativa ela
se converte em manejo da instituição para benefício particular. É uma lógica
massacrante que uma instituição mal administrada, em vez de prosperar,
mergulha no caos e, por fim, se esfacela. De onde se tira sem repor pelo
menos o equivalente tirado, é impossível evitar que o rombo aumente. E isso
foi o que sucedeu com a Editora Cultura Cristã em minha última etapa ali.
Ainda quando eu fosse o diretor/editor, não posso eximir-me de igual culpa
em sua falência. Ainda quando eu visse que o barco fazia água, contudo
estava indo para o fundo juntamente com os outros diretores e toda a casa.

1.4. Honestidade sem capacidade

Cabe-me dizer com justeza que aquele homem não era mal-
intencionado nem desonesto. Não era incapaz. Era visionário e não conhecia
a realidade da empresa. Ele interpretou mal a instituição a que ia governar e
deu-lhe uma diretriz totalmente errônea. No dizer de Jesus, ele não se
assentou para calcular bem a capacidade real da instituição. Ele agiu como
um autocrata e ignorou a participação dos outros diretores. Por exemplo,
antes de chegar, por telefone passou-me ordem como seu subalterno. Isso
nunca funciona positivamente. Pois assim que chegou já me encontrou
indisposto para com ele.
O fato é que ali mesmo teve início o declínio daquela abençoada
instituição, declínio que continuou com sua destituição e a nomeação de
outro. Este também não teve capacidade nem condição de aprumar as
finanças da editora. Quase só cuidava de manejo político. Tudo o que
fazíamos servia para piorar ainda mais a situação, até que veio a bancarrota
completa, e a Editora Cultura Cristã faliu fragorosamente. Na verdade, não
fechou suas portas, mas ela teve que destituir-nos como seus diretores e
nomear outros, começando da estaca zero. Não houve improbidade
administrativa, e sim incapacidade de dirimir seus erros acumulados. A única
coisa viável que o Conselho Administrativo da Editora tinha que fazer ele
fez: reportar-se ao Supremo Concílio para que fôssemos destituídos. Até aí,
tudo bem.

1.5. Novo personagem em meu caminho


Naquele período conturbado, porém, uma figura de destaque em minha
vida e ministério, desde muitos anos, foi a pessoa do Rev. Gecy Soares de
Macedo. Quando de minha passagem pela igreja de Pirapora, Minas Gerais,
lá estava ele, querendo cursar o IBEL, e fez isso com todo nosso apoio.
Desde então, passamos a ser um para o outro não apenas amigos, mas
irmãos. Celebrei seu casamento; acompanhei-o no seminário; acompanhei-o
em seus campos; levei-o a trabalhar comigo na Editora, como meu auxiliar.
É difícil conceber uma pessoa mais constante em sua meta do que o Rev.
Gecy. Mesmo depois de minha saída daquela casa, ele continuou lado a lado
comigo em minhas tribulações — e que tribulações! Ele nunca levou em
conta minhas rudes ofensas contra sua pessoa, em meus momentos de
desvario e desterro. Ele ajudou-me a sair de um dos piores problemas que
podem atingir a vida de um homem, particularmente a vida de um homem
que está a serviço do Eterno. Em meus momentos mais escuros, lá estava ele,
sempre com uma palavra de ânimo, sem jamais me recriminar. Ele sempre
acreditou em minha idoneidade. Nunca soube que ele buscasse meu
descrédito.

1.6. Membro do Conselho de Imprensa

Durante aquele período escuro, eu chegara a ser membro do Conselho


de Imprensa. O jornal Brasil Presbiteriano também sofrera uma refrega
desastrosa. Ficou de mãos em mãos, sem encontrar solução plausível. Passou
a ser usado como mero instrumento de uma política ruim. E eu, o diretor-
editor sertanejo, fiquei aí no meio do tiroteio. Se não houvera aprendido a
olhar para mais longe, para o futuro e para o alto, teria sucumbido. Mas
sempre me afeiçoei à história de José, que olhava para o futuro em todos
seus transes desesperadores, esperando dias melhores e mais claros.
Posso chamar aquele período de penosa escola onde se aprende os
deveres de casa. Não posso e nem quero entrar naqueles detalhes que
destroem não só uma instituição, mas os próprios indivíduos. Estes
costumam perder perenemente seu prestígio. E quando se perde este tesouro,
chamado prestígio, perde-se quase tudo. Se os bons feitos costumam ser
esquecidos, os malfeitos costumam ser lembrados para sempre. O perdão
perfeito só tem uma fonte — o Deus infinitamente compassivo. Ninguém
perdoa perfeitamente, porquanto somos imperfeitos ao longo de toda nossa
trajetória terrena. A Santa Escritura afirma que Deus perdoa e esquece (Sl
103.3,12). Mesmo assim, o Senhor perdoa para sempre a culpa do pecado, e
não suas consequências. Essas nós levamos conosco para o futuro como
alunos de sua escola. No tocante aos seres humanos, seu perdão é
demasiadamente deficitário, pois estes não esquecem o mal recebido. Dizem:
“Está perdoado”. Porém não param de se queixar daquelas ofensas que
declaram haver perdoado. Digo isto porque, depois daquelas coisas, fiquei
estigmatizado para sempre à vista de um grande número de pessoas
importantes.

2. Algo grande jazia à minha espera

Eu sentia que tudo aquilo não era meu “destino” definido e final; era
apenas uma transição passageira; o Senhor da Igreja me preparava para algo
maior, ainda que não o compreendesse no momento. Vivia constantemente
tentando responder a este tipo de perguntas: Por que fui empurrado para cá?
Teria sido por acaso? Porventura não há uma razão definida para tudo isso?
O sofrimento humano tem um fim em si mesmo? Pois me sentia como que
em um cadinho a derreter-me, a consumir-me, sem entender imediatamente o
porquê de tudo aquilo. No entanto, quando deixei aquela instituição, as
coisas já estavam em melhores mãos. O Senhor tinha um propósito para a
Editora e igualmente para cada um de nós, diretores e funcionários.

3. O substrato de minha preparação


3.1. Antecedente editorial

Depois de passar a ser o editor legalmente autorizado, procurei realizar


aquilo que não conseguira até então. Foi quando dei início a um programa de
obras reformadas, partindo da publicação da coleção de Comentários do
Novo Testamento, de William Hendriksen. Cheguei a traduzir e publicar
Romanos, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses (traduzido por Ézia
Cunha Mullins), Tessalonicenses (com participação de Hope Silva) e
Pastorais, e deixei traduzido Mateus (2 volumes). Traduzi ainda seu livro de
estudos escatológicos, A vida futura segundo a Bíblia. Depois de minha
saída ainda traduzi Lucas (2 volumes) e Apocalipse de Simon Kistemaker e
revisei o Evangelho de João para o novo editor que me substituiu.
Lembrando que minha primeira tradução foi Mais que vencedores. Fiquei
animado quando soube que o editor que me sucedeu, muito mais apto que eu,
graças ao Senhor da Igreja, dera seguimento ao meu programa. Hoje me
emociona contemplar na estante toda a obra do NT completada, dos grandes
teólogos William Hendriksen e Simon Kistemaker. Valeu a pena meu
empreendimento tão elementar.
3.2. Confissão necessária

Deixo registrada aqui minha confissão de que jamais pensei que estava
apto para a tarefa de fazer livros. Saí do nada, fiz minha trajetória no quase
total anonimato; comecei a produzir livros como um homem totalmente às
sombras. Apenas sei que o Senhor me chamou para realizar algo grandioso, e
não para ser conhecido e reconhecido. Sempre me considerei um leigo e
trabalhador braçal. É assim que me denomino até hoje. Mas sempre nutrira e
ainda nutro um ideal que suplantava ao de todos os editores daquela Editora
até então: publicar as obras de João Calvino.

3.3. Falta de respaldo

Sim, havia algo que eu queria fazer e nunca tive o respaldo de alguém
para fazê-lo. Todo livro que eu publicasse, ou mesmo traduzisse, ainda não
me acalentava. Havia outro livro a ser publicado; e com quem falasse a
respeito, era desestimulado, como que tentando o impossível e inclusive
desnecessário. A própria Igreja nacional sempre viu isso como uma
impossibilidade. Mas eu estava destinado a cumprir essa minha meta depois
que saísse dos domínios da Editora Cultura Cristã. Por isso sempre dei
graças, e ainda faço isso, ao Senhor por minha saída daquela amada
instituição mesmo sendo tumultuada. Aquela escola durou oito longos e
dolorosos anos. Pior, nunca fui um bom aluno. No entanto, todos foram meus
professores, quer bons, quer ruins!

3.4. Fim de curso sem diploma

Retrocedendo a um passado já distante, compreendo que minha


continuação ali já não era necessária; meu período de aprendizado chegava
ao fim. Fui correta e ditosamente substituído por alguém que possuía e
possui todas as qualificações de um genuíno editor; e eu, por minha vez,
fiquei livre para fazer a última tentativa de ver concretizado meu antigo
sonho. Como poderia eu guardar mágoa de alguém, se Aquele que estava
acima de todos me destinara à concretização de um sonho acalentado há
tantos anos, e que humanamente era impossível? E então chegou o tempo de
Deus. A Providência conquistava a vitória.

4. Deposição tumultuada

Foi nas dependências da Universidade Mackenzie que se reuniu a


Ordinária do Supremo Concílio em meado de 1994, quando a diretoria da
Editora Cultura Cristã, de 1990 a 1994, foi dissolvida e punida. Ao saber que
eu estava sendo punido pelo Supremo por um crime que não havia cometido;
isto é, não participara de nenhum esbulho do erário alheio, nem eu nem meus
colegas; o que houve foi incapacidade administrativa de reverter uma
situação já criada por outros, então decidi afastar-me do seio de minha
amada Igreja Presbiteriana, entregando minha carteira de ministro,
solicitando minha exoneração do ministério sagrado e a exclusão de sua
membresia. Continuaria presbiteriano, sim, no coração, porém me afastaria
daquela igreja que fora minha mãe desde meu encontro com o evangelho em
1958.

4.1. Punição injusta


O plenário já havia aprovado o documento punitivo: em quatro anos
não poderíamos exercer nenhuma função em qualquer área da Igreja. Ao ser
informado disso, gritei furioso que doravante continuaria presbiteriano sem
ser membro da IPB, porquanto minha alma sentia repugnância de tamanha
injúria. Não que eu pretendesse exercer alguma função futura em algum setor
da Igreja, porquanto meu coração não está posto nessas coisas. Aliás, sou
completamente avesso à política hierárquica.
E assim, furioso, deixei o pátio do Mackenzie determinado a tomar
uma medida drástica. Ao ser informada de minha reação, houve um reboliço
na Mesa. O Plenário repensou e voltou atrás de sua decisão. E eu continuei
na Igreja que um dia me acolhera e me abraçara na nova fé. Mesmo assim,
doravante me tornaria ainda mais arredio e frustrado no que tange à política
eclesiástica.
Não obstante, deixo aqui expresso e impresso, para que minha amada
Igreja tenha ciência, que nunca me vali do púlpito para desabafar-me contra
sua direção máxima. Não sinto mágoa de ninguém, sinto tristeza por hoje ser
tratado de modo discriminativo por quase todos, de viver uma vida cristã
reclusa e quase proscrita, de viver como um exilado. Na verdade, fiquei para
sempre estigmatizado.

4.2. Companheira solidão

Vivo praticamente sozinho, em minha “oficina”, elaborando meus


livros. Não sou o único. Lemos de Beethoven que morreu sozinho, tido como
louco, enquanto produzia as mais belas e clássicas composições musicais que
o mundo já conheceu. Talvez um dia perguntem: “Quem traduziu todas estas
obras de João Calvino?”. Alguém responderá: “Foi um maluco!”. “Ele já
morreu?”, perguntarão. “Ainda não, mas jaz em algum canto curtindo a
velhice no anonimato como um exilado. Nem se tem notícia dele.” Ou: “Sim,
morreu há muito tempo, mas nos deixou esse tesouro literário. Dele, só isto
restou”. Os que tiveram comigo uma convivência mais estreita dirão que
“aquele homem só era suportado pela esposa em cumprimento de seu
ofício”.
Uma das canções brasileiras mais belas que já ouvi e ainda ouço é
aquela que veio a ser o hino da cidade de Piracicaba, SP, cujo compositor
quase nem é lembrado: Newton de A. Mello. Em diálogo com um amigo
piracicabano deste homem, cujo nome se tornou famoso, o qual nos legou
uma tão bela canção de amor à sua querida cidade, este amigo me afirmou
que, já idoso, ele costumava caminhar pelas calçadas sem sequer ser saudado
pelas novas gerações piracicabanas. Todavia, esta canção, uma das mais
belas e dolentes já compostas, tem sido entoada por grande parte dos
cantores do Brasil. Newton é hoje praticamente desconhecido, mesmo na
cidade de Piracicaba, porém legou algo perpétuo, de eterna memória, não só
à sua cidade, mas a todos os amantes da boa música: “Piracicaba que adoro
tanto!”.

4.3. Senso de desespero

Ao ver-me fora daquela Editora, todo o universo despencou sobre


minha cabeça e bateu-me o desespero. A tendência era o cultivo do
ostracismo. Então, experimentei o que significa ver o mundo com olhos
céticos e de desencanto. Foi quando senti que a pessoa que exerce aquela fé
única, cuja fonte de informação é a Santa Escritura; aquela fé que olha
fixamente para Jesus; sim, esta é a única pessoa que pode contar com a
vitória. O texto completo reza:

Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual,


em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não
fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.
Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição
dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis,
desmaiando em vossas almas (Hb 12.2, 3).

4.4. A fonte divina que sara

Costumo dizer que não existe depressão humana que resista a uma
leitura detida e constante deste glorioso texto. Jesus suportou em si mesmo
toda nossa carga de sofrimento no Gólgota e fora do Gólgota. Ele fez isso
com o intuito de sarar-nos, restaurar-nos, suplantar todos os obstáculos do
caminho. E alguém disse com razão que os períodos de serenidade não nos
ensinam nada. Que somente as lições pesadas da vida é que nos deixam
lições instrutivas. Estas são os crivos que tendem a burilar-nos o caráter. Dou
graças ao Senhor por esses crivos saudáveis, os quais, no momento, são
difíceis de enfrentar e passar por eles. E esses crivos nos fazem entender o
quanto somos frágeis. Aliás, nossa vida não passa de um fio mui fácil de
arrebentar. É nos profundos conflitos da vida terrena que descobrimos se
realmente procede o conceito de que o ser humano é glorioso, poderoso,
inclusive soberano em sua liberdade e vontade. Alguém bate no peito, olha
ao redor com olhares airosos e afirma com toda segurança e confiança: “Eu
sou livre; faço de minha vida o que bem quiser; ninguém me impede; eu sou
meu próprio senhor”. Logo adiante tropeça em um nada e morre. Na
realidade, somos senhores de nada! Nada é realmente nosso. Nossa liberdade
não passa de uma quimera, uma miserável ilusão. O que faremos de nossas
glórias depois de mortos? Que poder temos sobre nossa vida depois que
nosso corpo baixar à sepultura e nossa alma voar para Deus?

5. De volta a São Bernardo do Campo

Como eu já disse, ao deixar a Editora, senti-me esmagado por um peso


que me era impossível carregar. Se eu estava em casa, queria sair; se saía,
queria voltar. Olhava para o horizonte, e nada via que me alentasse. Pior,
sem salário, tinha que ver minha esposa sustentando a vida familial. Ela me
passou às mãos cartão e talão bancários. Caducaram, pois nunca os usei.
Quem pagava a conta do combustível era ela; quem pagava todas as demais
contas era ela; quem punha o pão na mesa era ela. Economizei muito não
comprando roupas e calçados novos. Deixei de fazer o que mais gostava —
comprar novos livros. Tínhamos piano em casa. Eu passava horas a fio
“arranhando” no teclado aquelas músicas que tanto apreciava. As que mais
eu tocava eram aquelas que tangiam meu coração com mais profundidade.

5.1. Sustentáculo da Providência

Foi nesse tempo que a Primeira Igreja Presbiteriana de São Bernardo


do Campo me convidou para que fosse outra vez seu pastor auxiliar. Estive
lado a lado com o Rev. Magnos, com o Rev. Wilson Bonadio; ambos
renunciaram antes de completado seu pastorado. Em todos aqueles
contratempos, eu estava ali conciliando as crises. Naquele meio tempo, o
conselho chegou a convidar-me que fosse seu pastor titular. Recusei
terminantemente. Foi então que lhe sugeri que convidassem o Rev. Alceu
Davi Cunha, que ora era pastor em Santo Amaro. Ele pastoreia aquela igreja
até hoje. E foi assim que aquela igreja veio a ser meu lenitivo e refúgio. Fiz
um vasto lastro de amizade com muitos; amizade que perdura ainda.

5.2. Amigos nas grandes crises

O Conselho era composto de homens probos e amigos. Até hoje tenho


aquela igreja como a minha igreja. Estivemos ali mais ou menos treze anos, e
de vez em quando volto a receber convite para alguma preleção em seu
púlpito só para estarmos juntos. Três desses presbíteros fariam história
comigo. Primeiro, é Moisés Bergamaschi, daquela mesma família fundadora
da igreja, que, órfão de pai e mãe, em um dia dos pais me abraçou e disse:
“Pastor, decidi adotar o senhor como seu pai”. Tenho também a Lívia, sua
esposa, como minha filha e suas filhas, Rebeca e Júlia, como minhas netas.
Os outros dois são Lauro Benedito Medeiros da Silva e Denivaldo Bahia de
Melo, que viriam a fazer parte do projeto João Calvino. Isto, porém, pertence
a um capítulo específico.
SÉTIMA PARTE: NASCEM EDIÇÕES PARAKLETOS
1. Primeiro computador

Salvo engano da memória, foi em meu aniversário de 1995 que


Cremilda me presenteou com o primeiro computador. Evidentemente, era
ainda uma máquina de muito menos recurso do que a de hoje. O modo de
gravar era por meio de disquete, frágil e de pouca duração. Passei um bom
período treinando como operar aquele inusitado tipo de máquina.
Acostumado com a máquina datilográfica, operar naquele novo aparelho era
algo assustador e um martírio. Aliás, foi um período de muita labuta,
porquanto sou até hoje avesso à nova tecnologia com sua infindável
complexidade. Mas, aos poucos, fui descobrindo que a mente humana não
tem limite para a criatividade. Aos poucos fui dominando a operação daquela
máquina. A Providência continuava permeando tudo e me encaminhando
para o clímax.
2. Primeiro Livro

Sempre nutrira o desejo de escrever um livrinho, porém sempre


embaraçado pelo terrível pessimismo quanto à minha capacidade. Há na
Bíblia uma metáfora que desde cedo me fascinara: a figura do Livro da Vida,
no qual se acham registrados, desde a eternidade, os nomes de todos quantos
haviam de ser salvos (At 13.48) pelo Cordeiro de Deus. Tudo o que lia sobre
esta metáfora não me satisfazia. Não havia uma resposta para o amplo e
profundo significado dela. Mesmo os reformadores não falam detidamente
sobre ela. Sentia que havia muito mais a dizer sobre nosso nome estar ali
registrado. Era aquilo que os teólogos chamam de “corolário”. (Proposição
que deriva, em um encadeamento dedutivo, de uma asserção precedente,
produzindo um acréscimo de conhecimento por meio da explicitação de
aspectos que, no enunciado anterior, se mantinham latentes ou obscuros.)[24]
Passei a esboçar e a desenvolver aquela ideia. De repente, ali estava um
livrinho até razoável. Mas não tinha recursos para publicá-lo. Naquele
momento, eu nem mesmo podia contar com Lauro e Denivaldo, pois ainda
não haviam surgido em minha vida como associados. Edições Parakletos
ainda não haviam vindo à existência. Cremilda, mais uma vez, economizou e
custeou sua publicação. Assim, estava diante de todos nós meu primeiro
livrinho. Como nunca desfrutara de popularidade e nunca inspirara confiança
na maioria das pessoas, o livrinho foi ignorado. Levou tempo para esgotar-
se. Foi então que descobri o quanto era desconhecido, mas também o quanto
era sem prestígio. Mas ali estava um humilde começo, usando a metáfora do
profeta (Zc 4.10). Hoje eu o reescrevi e o reeditei com mais consistência e
mais amplitude. No lugar certo abordarei o assunto com mais completude.

3. Primeira publicação de João Calvino

3.1. Motivação

Sinto o dever de abrir este espaço com uma explicação oportuna e


indispensável. Tenho que responder eu mesmo a uma pergunta que
possivelmente baile na mente de algum leitor: Por que minha insistência em
publicar as obras de João Calvino? É uma pergunta que eu mesmo fiz
durante tantos anos já passados. Com quem eu falasse a respeito, fomentava-
se a ideia de que eu sou fanático pelo Reformador genebrino. Por incrível
que possa parecer, essa não é a resposta correta. Não me considero
“fanático” por João Calvino. O dicionário define fanatismo assim:
“facciosismo; adesão incondicional; partidarismo; devotamento; zelo
excessivo; paixão desvairada; arrebatamento; frenesi; obstinação; teimosia”.
[25]
Algumas definições se enquadram bem em meu desejo e empenho,
porém outras são excludentes. Por exemplo, minha adesão à ideia desde cedo
foi incondicional; e meu devotamento foi de corpo e alma. No entanto, não
me lancei à obra de olhos fechados; nunca cri e ensinei que João Calvino
fosse infalível em sua interpretação da Bíblia. Aliás, há muitos detalhes em
sua visão bíblica e teológica que discrepam da investigação moderna, ainda
que em detalhes irrelevantes. No entanto, essas discrepâncias em nada ferem
seu ensino das grandes doutrinas. O mundo teológico ainda considera João
Calvino como o teólogo por excelência, o exegeta ímpar, o apologeta
irresistível. Considera-se que, depois de Paulo, ou, talvez, depois de
Agostinho, Calvino foi o teólogo mais fiel ao sentido da Santa Escritura.
Todos os que o contestaram tiveram e têm problemas em justificar sua tese.
Um detalhe que sempre me impelia a ver as obras do Reformador em
nosso idioma é seu aspecto controverso. Ninguém fala de Martinho Lutero o
que falam de João Calvino. Ao longo da história, este homem foi alvo de
todo tipo de acusações, desde as pequenas até as criminosas. Ele tem sido
culpado de ser o assassino de Miguel Serveto, de ser o pai do capitalismo e
de ser o inventor da predestinação. Em minha visão pessoal, essa é uma
maneira mesquinha de focalizar o grande Reformador. Para que tenhamos
fontes diretas em defesa de tais acusações, nada mais preferível do que o
exame de suas próprias obras em nosso idioma. Eu o tenho como o maior
teólogo depois de Paulo; considero-o como um dos cristãos mais piedosos e
humildes que a religião de Jesus já produziu; vejo-o, ao lado dos demais
reformadores, como um homem de caráter ilibado.
Então, meu desejo lúcido sempre foi que o Reformador genebrino fosse
lido na própria fonte a fim de que, quem quiser discordar dele, e para que
todos tenham o direito de fazê-lo, então que o façam de acordo com o adágio
popular e rústico: “Eu mato a cobra, e mostro o instrumento com que eu a
matei”. Nem a história, nem suas obras e nem seus intérpretes abonam
invenções tão infamatórias. Este é um produto proveniente da mentalidade
obsessiva e avessa de seus inimigos.
Tenho ainda como justificativa a fé calvinista dos presbiterianos, de
muitos batistas, por exemplo, existe no Brasil a Igreja Batista da Graça, que é
tão calvinista como nós; a Igreja Cristã Reformada e muitos calvinistas
avulsos, que se encontram em igrejas de confissão arminiana, porém já não
conseguem crer dessa forma. Além do mais, faço isso com o intuito de dar
oportunidade a muitos cristãos que, com a leitura do Reformador, poderão
ver que nossa interpretação da Bíblia é a mais bíblica que existe.
Por último, tenho sido acusado de ressuscitar “velharias”. Já me
disseram que eu faria bem em deixar as coisas antigas em paz. Tudo isso me
assusta pela estupidez de tais ideias, pois existem entidades que buscam
restaurar as literaturas antigas, e fazem isso com um zelo e empenho
admiráveis, e ninguém os censura. Para essas entidades, quanto mais antiga é
uma obra literária, mais valiosa é. Além do mais, nunca vi alguém criticar o
empreendimento da cultura brasileira por publicar no vernáculo as obras dos
grandes pensadores antigos e modernos. Por exemplo, os pensadores gregos
já estão editados em nosso idioma e têm corroborado com nossa cultura
acadêmica. Nunca vi alguém criticar a igreja romana por verter as obras dos
antigos teólogos, chamados “Pais da Igreja”, como Agostinho, Tomás de
Aquino, entre tantos outros. Nunca soube de alguém que criticasse a Igreja
Luterana por verter as grandes obras do gigante da Reforma, Martinho
Lutero. Por que João Calvino deveria ser o único clássico a permanecer no
cenário antigo, em silêncio, sem ser conhecido pessoalmente através de suas
obras grandiosas? Tenho sabido que muitos dentre os sacerdotes romanos
estudiosos têm compendiado João Calvino em português. Mais grave ainda,
a crítica contra publicar as obras do Reformador é oriunda dos domésticos da
fé reformada, a saber, os de casa!
Portanto, creio que terei o endosso de todos os estudiosos cristãos e não
cristãos por facultar a todos a leitura de João Calvino em nosso vernáculo.
Quem me declarou isso foi um dentre os doutores da igreja, da máxima
erudição e seriedade, agradecendo meu empenho e enaltecendo nossa época
por poder ler o Reformador genebrino no vernáculo.
Isso reforça minha declaração por toda parte neste livro de que meu
pesar é que suas obras estejam sendo vertidas para o vernáculo não por mãos
de eruditos, e sim de um leigo; não por uma editora oficial, e sim numa
“oficina de fundo de quintal”. Apesar das imperfeições de meu trabalho,
creio que, mesmo assim, é uma grande bênção para os estudiosos já terem
em suas estantes muitos volumes das obras do Reformador genebrino.
Finalmente, tenho descoberto que no mundo inteiro de fala portuguesa
milhões de pessoas estão compendiando João Calvino através do livro físico
e da mídia. Minha esperança é cooperar para agigantar a fé dos calvinistas e
servir de ponte para que os cristãos que pensam diferentemente façam um
exame mais detido e demorado, e assim corrijam e melhorem sua visão
teológica, a fim de que a sã doutrina ainda triunfe antes que o Senhor da
Igreja venha! Na opinião de um erudito e grande amigo, o Brasil ainda será
palco de uma grandiosa reforma através de João Calvino.

3.2. Primeiro passo

Entrou o ano de 1995 e eu não tinha mais uma fonte de renda e nem
compromisso fixo com nenhuma empresa ou igreja. E assim, vendo-me livre,
idealizei traduzir o primeiro compêndio de João Calvino. O leitor perceberá
que não houve de antemão nenhum projeto elaborado. No momento, não
havia ninguém comigo. Não formei um conselho editorial para discutir
futuras publicações. Simplesmente partilhei a ideia com alguns amigos
íntimos, apenas com o intuito de revelar meu desejo. Não havia em mim
nenhuma pretensão além de ver como ficaria em português uma das obras do
Reformador, uma vez que a primeira versão das Institutas deixou a igreja
como estava, a saber, jejuna das obras do Reformador. Quem aspirasse ler
João Calvino, continuaria com a mera vontade. Não me assentei com
ninguém para discutir e delinear o futuro. Nem imaginava que aquela
tradução pudesse ser publicada um dia. Portanto, hoje, olhando para trás,
percebo que, naquela informalidade, havia um perene começo que nenhum
ser humano poderia nem de leve perceber. Era uma ideia e um ato isolados,
quase que únicos. A igreja, propriamente dita, nem sonhava que algum
aventureiro tomara a iniciativa para executar uma obra tão grande. Aquela
iniciativa estava imersa na nulidade. Não havia nenhuma possibilidade
humana que apontasse para esse rumo. Não havia a cultura necessária, nem
poder aquisitivo, nem espaço suficiente, nem estímulo vindo de fora. Os
poucos amigos que me ouviam, apenas ouviam em silêncio. Ninguém me
falou ou sugeriu nada. Não havia um dedo a indicar o rumo a seguir.
Tampouco eu ouvia uma voz vinda do alto a dar-me as coordenadas. Havia
simplesmente em meu interior uma vontade irrefreável de agir. Eu nunca
disse: Sonhei! Ou: O Senhor me falou. Eu tive uma revelação! Alguém me
profetizou! Não! Creio que o Espírito de Deus operava nas penumbras de
minha mente e coração sem nenhuma manifestação miraculosa. Ele
fertilizava minha vontade de fazer algo que ele queria que eu fizesse. Foi
assim que nasceu o primeiro volume das obras do Reformador genebrino:
como que do nada!

3.3. Segunda Epístola aos Coríntios

Não sei exatamente por que, mas tomei o volume da Segunda Epístola
aos Coríntios dentre alguns poucos comentários do Reformador que eu
possuía nas estantes e comecei um arremedo de tradução; no entanto, sua
linguagem era muito difícil, visto que a linguagem inglesa de suas obras é
clássica, antiga e muito pesada. Como é uma das obras do Reformador
menos extensas, concluí que iria cansar-me menos, pois meu inglês naquele
momento era sofrível. Antes de tudo, abri aquele volume, passei os olhos
nele por inteiro, ponderada e demoradamente, e imaginei pessoas e mais
pessoas lendo-o no vernáculo. Lembro-me que a emoção foi dominando
minha alma e de repente me vi chorando.
Lembrei-me dos dias da infância, lendo um livrinho escolar, tendo
numa das páginas três gravuras muito sugestivas, as quais jamais saíram de
minha mente. Na primeira gravura, aí se veem dois burrinhos amarrados
pelos pescoços, tentando alcançar uma moita de capim em cada extremo,
cada um tentando arrastar o outro, mas eram impedidos pelo tamanho da
corda — era muito curta. Na segunda, os dois burrinhos, de frente um para o
outro, se põem a confabular para encontrar uma solução viável para um
problema tão premente — saciarem sua fome. Na terceira, os dois, lado a
lado, comem uma moita de cada vez — e assim sua fome foi saciada. Quanto
a mim, a diferença é que eu era um burrinho sozinho, a moita de capim era
uma só e a corda estava atada a um tronco, e não ao pescoço de outro
burrinho. Era preciso uma mão forte para desatar a corda e juntar-se a mim
naquele trabalho humanamente impossível. No início, eu não via ninguém
perto de mim. Sentia-me em um ermo árido. Portanto, informo a todos os
meus leitores que João Calvino em português nasceu na mais plena solidão
de um indivíduo que nem tinha condições e capacidade para a realização de
sonho tão quimérico.

3.4. Entram em cena dois grandes amigos

O empreendimento era de caráter amador, pois nem mesmo eu cria que


um dia seria possível publicar aquele modesto trabalho. À medida que
avançava, partilhava com os colegas presbíteros, Lauro e Denivaldo, minhas
peripécias de tradução. Sem que eu percebesse, aqueles diálogos foram se
entranhando neles e os motivando (ou, quem sabe, os apiedando de minha
sorte!). Trocando ideias entre si, resolveram ajudar-me a publicar aquele
volume. Na época, Denivaldo possuía uma livraria, o que facilitaria a
estocagem e a vendagem. Certo dia, eles me chamaram para trocarmos ideia
sobre aquela tradução. Então me disseram: Você traduz e nós custeamos.
Financiaremos a despesa de gráfica.

3.5. Injeção de ânimo

Aquela proposta me injetou um novo entusiasmo. Minha mente


começou a idealizar um futuro mais promissor. Minha vista se alongou e
pude ver um horizonte mais amplo e límpido. Meu coração se encheu de
esperança. Até então, causava-me angústia ver que tal façanha era possível,
porém me via impossibilitado pelo despreparo e pela escassez de recursos. O
Senhor não me dera nem preparo intelectual nem recursos financeiros. Não
estaria publicando livrinhos, e sim livros de grande porte. Os que podiam
fazer este trabalho com perfeição não acreditavam em sua exequibilidade e
utilidade. Já havia discutido com alguns doutores da Igreja, e eles viam
minha ideia como simples quimera. Não riam de mim por mero respeito. O
único valor, diziam, que poderia haver seria na esfera acadêmica, e mesmo
assim muito pequeno. Quem produzisse um material como este ficaria com
um estoque a apodrecer num depósito. Eu não via assim, porém não
conseguia fazê-los ver com a mesma clareza que estava dentro de mim, pois
nunca fui bom de argumento verbal. O inusitado é que aqueles dois colegas
presbíteros acreditavam em mim e decidiram se irmanar comigo. O Senhor
punha em seu interior a mesma visão que sempre tive. Eles são minhas
testemunhas de que a iniciativa para tal empreendimento não procedeu de
nenhuma editora; mas de um homem avulso, desconhecido, de formação
campestre e rude.

3.6. Impacto de cosmovisões

Então, diante daquele pequeno computador, escarafunchando uma coisa


e outra, dei início e avancei na tradução do comentário de Calvino, em
inglês, da Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios. Foi-me aterrador
compendiar um livro num idioma praticamente impossível de assimilar. Meu
pobre inglês ainda estava longe de realizar tal façanha, muito embora já
houvesse traduzido cerca de quinze volumes de outros livros. Visualizava
meu pobre universo existencial e volvia os olhos para o universo da erudição
do grande Reformador genebrino. Pensava: Sem um milagre divino, é
impossível adentrar o universo desse gigante da Reforma.
Viriam dias em que eu choraria com profunda tristeza minha carência
de uma cultura acadêmica. Nem mesmo Cremilda assistia meu abatimento de
espírito, pensando na amplitude das obras do Reformador genebrino. Era
algo demasiadamente grande. Não era uma pequena coleção de livrinhos. Só
os comentários bíblicos somam uma coleção de 22 volumes de cerca de mil
páginas cada volume, fora seus tratados e sermões. É impossível descrever
meu drama íntimo naquele começo lúgubre, nostálgico e absurdo. Sim, quem
se opunha àquela façanha humanamente impossível estava coberto de razão.
Daí alguns, plausivelmente, me chamarem de “maluco”. E eu concordava
com eles. Somente um louco empreenderia, sozinho, uma jornada dessas.
Literalmente, aquela estaca era literalmente o marco zero.

3.7. Chegada dos primeiros parceiros

Passei a ler página após página; abri uma pasta no computador e


comecei a verter linha após linha; página após página, lentamente. Primeiro,
eu rascunhava manualmente; depois, digitava em minha máquina
datilográfica. O trabalho era duplicado. Desmantelei vários dicionários
inglês/português. Mostrava aquilo ao Rev. Gecy e aos dois presbíteros,
Lauro e Denivaldo. Eles davam sua opinião e eu acatava. A luz de nossa fé e
esperança ia aumentando o lume à medida que me familiarizava com aquela
linguagem. Havia momento de profundo desânimo. Só prosseguia porque
visualizava alguém compendiando, no futuro, aquele precioso volume. Hoje,
quem compendia aquele primeiro volume, não tem como fazer uma ideia
precisa de minha jornada até vê-lo assim como o vemos hoje. O fato é que eu
propiciava aos leitores a grande chance de compendiar João Calvino. Por
meu intermédio, hoje quem quiser tem acesso à literatura clássica da
Reforma do século XVI. E este era meu sonho antigo que ora se concretiza.

3.8. Minha sócia e companheira

Eu mesmo traduzia e revisava a obra, lendo e relendo diversas vezes,


mudando e ajustando. Não tinha dinheiro para pagar alguém que pudesse ou
quisesse revisar meu precário trabalho. Minha filha Eline havia feito o curso
de artes gráficas, e se juntou a mim para formatar aquele primeiro
comentário de Calvino em português. Uma vez pronto, procuramos a
Imprensa da Fé, cujo diretor, Mauro Wanderley Terrengui, já meu amigo,
que se mostrou entusiasmado em ajudar, facilitando o pagamento. E assim,
após uma dolorosa espera, vimos sair da gráfica aquele volume. Senti-me
estonteado com o primeiro fruto de nosso mútuo empenho de “fazer João
Calvino falar português”. E quem foi que apôs seu prefácio àquele primeiro
volume? Rev. Alceu Davi Cunha. Ele corria o risco de comprometer seu
nome e prestígio associando-se a uma obra tão elementar. Porém o fez com
alegria e entusiasmo.

3.9. Produzida a primeira publicação

Na quarta capa, registramos o moto de João Calvino: “O meu coração


te ofereço, ó Senhor”. Extraí do livro do Rev. Wilson de Castro Ferreira,
Calvino: vida, influência e teologia,

Sua confissão — nós e Deus: Não nos pertencemos: portanto,


não tomemos como nosso alvo supremo a busca daquelas coisas
que nos são agradáveis. Não nos pertencemos: portanto, até
onde nos for possível, esqueçamos de nós mesmos e das coisas
que são nossas. Por outro lado, pertencemos a Deus: portanto,
sua sabedoria e vontade dominem tudo o que é nosso.
Pertencemos a Deus: a ele, pois, como o único, legítimo e
supremo alvo, sejam dirigidas nossas vidas em todos os seus
aspectos.

Nós e Cristo: Encontramos força em seu governo; pureza em sua


concepção; indulgência em sua natividade; redenção em sua
paixão; livramento em sua condenação; remissão na maldição de
sua cruz; satisfação em seu sacrifício; purificação em seu
sangue; imortalidade em sua redenção.

3.10. Primeiros associados

É preciso registrar que desde o início surgiram amigos dentre os


eruditos que nos animaram e acompanharam o desenrolar do trabalho. O
primeiro foi o grande amigo Rev. Alceu Davi Cunha, que se prontificou em
deixar seu aval escrito na forma de prefácio. E assim esse nobre homem fez
parte e se fez presente desde o ponto de partida, demonstrando acreditar
piamente que este era o caminho. Chegou a “profetizar” que João Calvino
ainda seria o reformador do Brasil.
Outro amigo que nos acompanhou, inclusive na divulgação, foi o Rev.
Dr. Hermisten Maia, mais tarde prefaciando a tradução de Romanos, com um
prefácio digno da nobreza e erudição do grande reformador genebrino. Este
não se envergonhava de nosso modesto começo.
Mais tarde surgiu até mesmo o Rev. Dr. Boanerges Ribeiro que
prefaciou a tradução dos Salmos. Minha experiência pessoal com aquele
gigante do reino de Cristo é até mesmo difícil de descrever. Ele se
prontificou e até mesmo confessou que fez uma discreta tentativa de traduzir
as Institutas durante seus dias de juventude.
Estavam sempre conosco o Rev. Dr. Cleómenes A. de Figueiredo,
prefaciando a Epístola aos Hebreus; Rev. Carlos Aranha Neto, prefaciando a
Epístola aos Efésios; Rev. Álvaro Almeida Campos, prefaciando a Epístola
aos Gálatas; Rev. Dr. Ademar de Oliveira Godoy, prefaciando as Pastorais.
Cito ainda o Rev. Wilson Santana, Rev. Jamil entre outros, ministros e
oficiais, sempre presentes nos lançamentos, cujos nomes já me fogem da
lembrança.
Um homem que muito ajudou-me até mesmo nas revisões foi o Presb.
Dr. José André, membro da Igreja Presbiteriana de Santo André. Estava
sempre presente, demonstrando entusiasmo em poder participar dessa obra
gigantesca. Seu nome aparece principalmente nos Salmos na qualidade de
revisor.

3.11. Primeiras críticas

O primeiro a fazer uma apreciação (ou depreciação?) de nosso modesto


trabalho foi o Rev. Celcino Gama, a quem reputo como sendo um dos
luminares da Igreja. Ao oferecer-lhe um exemplar de Segunda aos Coríntios,
ele olhou demoradamente para o livro, o abriu e folheou, olhou bem para
mim e me perguntou: “Valter, por que logo Segunda aos Coríntios? Esta é
uma carta bem pouco comentada pelos doutos da igreja”. Havia em suas
poucas palavras, na forma de pergunta, um universo de sentidos. Penso que
entendi o que ele quis dizer, e lhe respondi com simplicidade e franqueza:
“Talvez seja por isso mesmo!”. Mantendo em minha resposta outro universo
de sentidos.
Um presidente de Sínodo, portanto membro da Executiva do Supremo
Concílio, nos devolveu o exemplar que lhe oferecemos, com desdém, se
expressando mais ou menos assim: “Senhores, isto ficou muito longe, é
muito antigo, já não tem qualquer validade ou relevância para hoje!”. É
óbvio que nem formulamos qualquer resposta, em razão do inesperado.
Outro, de modo chistoso, perguntou se estávamos psicografando João
Calvino. Todos não tinham a devida coragem de perguntar direta e
honestamente: “Quem é Valter Graciano Martins para aventurar-se a
publicar João Calvino em português?”. Esses preclaros líderes agiriam assim
se a iniciativa fosse de um órgão oficial da Igreja ou da parte de um erudito?
Não oscilo em dizer que certamente não agiriam dessa maneira.
Humanamente, eles tinham razão! Só não tinham razão em sua covardia,
podendo eles mesmos fazê-lo, e não o faziam! Pior ainda: Taxavam de
“maluco” àquele que sabia não possuir tal capacidade, porém que se
aventurava a fazê-lo com o pouco que o Senhor da Igreja lhe dera. É muito
difícil realizar uma grande obra sendo pequeno e destituído de prestígio. A
grande obra é embaçada pela falta de lustre do realizador! Então aprendi o
seguinte: Só tem o direito de criticar a quem faz, se o crítico fizer o mesmo
ou melhor! Aquele que não faz o que faz o criticado, o tal não merece nem
mesmo atenção. Aprendi ainda que a crítica é necessária, pois ela avalia
aquilo que carece de correção ou que já é perfeito, exprimindo-o
publicamente visando ao bem do que é criticado. A crítica desdenhosa não
cabe no cérebro nem na boca de uma pessoa nobre, muito menos daquele que
se declara ministro da Palavra de Deus.

4. Reminiscência

4.1. Experiência no IBEL


É justamente neste ponto que expresso minha honesta confissão a
respeito desse empreendimento. Meu sonho de ver João Calvino falando
português nasceu naquele dia em que meus colegas ibelinos falaram-me das
Institutas. Desde então, em meu espírito, delineava-se algo informe, mas que
persistiu durante todo meu percurso futuro. Por onde quer que eu andasse
bailava em minha alma tal pensamento: é preciso fazer João Calvino falar
nosso idioma; é preciso pôr nas mãos dos leitores a própria fonte. Não que eu
mesmo quisesse fazê-lo, mas queria que meus ideais fossem concretizados
através dos eruditos da Igreja. É a eles que cabe empreendimento desse
vulto, e não àqueles em quem não há o devido preparo para tal.

4.2. Encontro com Dr. Odayr Olivetti

Certa vez encontrei-me com um dos homens que mais influenciaram


minha modesta trajetória. É claro que ele nunca teve consciência disso. O
fato é que me achei diante do gigante Rev. Dr. Odayr Olivetti. Era um
conclave da Missão Oeste, junto à qual trabalhei durante quatorze anos, no
IBEL, Patrocínio, e estava lá com ele o Rev. Atael Costa, então diretor da
Casa Editora Presbiteriana. Eu quis saber por que as Institutas de Calvino
não foram ainda vertidas para o português. A resposta de ambos é que, além
de ser uma obra de alto custo, era também de pouco valor prático, porquanto
bem poucos tirariam tempo ou iriam dispor-se a ler tal obra, além da esfera
acadêmica.
Mais tarde eu ouviria muitas vezes esse mesmo argumento, o qual, para
mim, não podia ser procedente. Ora, eu entendia que um dos homens da
Igreja que poderiam realizar tal façanha era precisamente o Dr. Olivetti.
Anos depois, a Providência nos uniria nesse bendito empreendimento. Havia
muitos outros, porém nenhum tinha ou disposição ou condição ou
oportunidade. Muito mais tarde ficou registrada no prefácio aos Salmos de
Calvino a declaração de que outro doutor da Igreja, Boanerges Ribeiro,
desejou muito empreender tal obra, chegando a fazer um arremedo de
tradução das Institutas, como confessou em seu prefácio aos Salmos.

4.3. Versão das Institutas em espanhol

Enquanto pastor em Ceres, Goiás, eu recebi da Holanda as Institutas na


língua espanhola. Consegui ler essa versão duas vezes consecutivas,
sublinhando e memorizando. Isso aguçou ainda mais meu desejo que já era
intenso. Por momentos e mais momentos eu ficava a fitar as páginas daquela
versão, imaginando que estivesse diante de mim uma versão portuguesa; que
estava lendo não em outro idioma, e sim em meu próprio idioma. Não só
isso, mas que tantos outros leitores brasileiros seriam abençoados com
aquela leitura. Cheguei a rascunhar um arremedo de tradução daquelas
páginas. Mas não deveria ser eu a fazê-lo, e sim aqueles que realmente
sabem fazê-lo. Quantos homens e mulheres no seio da igreja poderiam fazer
uma tradução perfeita desta obra a partir de seu original francês ou latim.
Certamente muitos brasileiros seriam beneficiados. Eu seria o primeiro a lê-
la, como fui um dos primeiros a ler, mais tarde, a versão do Rev. Dr. Waldir
Carvalho Luz.
4.4. Institutas condensadas

Nesse meio tempo, a PES (Publicações Evangélicas Selecionadas)


lançou um belo resumo das Institutas elaborado por J. P. Wiles e prefaciado
por J. I. Packer, por sinal muito bem feito. Adquiri meu exemplar e li, reli
muitas e muitas vezes. Tive aí uma noção da grandeza da obra do grande
Reformador. Isso ateava mais fogo na fogueira de minha mente e coração.
Meu Deus, seria o caso de eu mesmo ter que realizar tal tarefa?! Não! Isso é
impossível.

4.5. Tradução do Dr. Waldir Carvalho Luz

Quando foi publicado o primeiro volume da tradução das Institutas


feita pelo Dr. Waldir Carvalho Luz, eu ainda estava em Ceres, e o recebi
pelo correio, e com sofreguidão o abri e passei a ler. O mundo foi
despencando sobre minha cabeça, pois comparava as duas redações,
espanhola e portuguesa, sendo pouco a pouco dominado pela descrença,
perguntando-me se era possível que a leitura em outra língua pudesse ser
mais fácil que ler em meu próprio idioma.
Passei a perceber que o Brasil continuaria jejuno da grande obra do
reformador. Quando toda a obra foi concluída, eu já estava nos recessos da
Editora Cultura Cristã como um de seus diretores. Vi a obra sendo lançada e
o povo adquirindo e, logo a seguir, alguns vendendo aos sebos, alguns
jogando fora, ou deixando, em seu estado virgem, na prateleira de sua
biblioteca pessoal. Quanto a mim, tive que ler até o fim, pois tinha que
responder às inquirições dos que desejavam ler aquela obra tão preciosa.
Houve no seio da igreja um profundo desalento, pois ninguém conseguia ler
as Institutas de João Calvino. Isso confirmava a crença de muitos de que a
publicação das obras de Calvino era dispensável. Creio que, se ele
ressuscitasse e se pusesse entre nós e lesse algumas linhas de sua grande
obra, provavelmente teria dito: “Eu não escrevi assim. Eu escrevi para o
povo leigo entender”.

5. João Calvino não estava em boas mãos

O que sempre concebi de mim mesmo é catastrófico. Nunca me vi


como a pessoa talhada para um empreendimento desse porte e nem de
espírito diplomático. Nunca pensei de mim grande; sempre pequeno. E para
traduzir as obras do reformador era preciso ser grande. Mas os grandes não
faziam, porque não criam como eu cria.

5.1. Uma visão mais elevada

Quando traduzi a Segunda Epístola aos Coríntios, meu intuito não era
continuar, e sim convencer os eruditos da Igreja de que é possível e
exequível publicar tudo de Calvino para o povo brasileiro. De repente me vi
cercado por alguns eruditos, dando-me sua destra e seu aval, sem
constrangimento, para que eu mesmo continuasse. Eram as pessoas certas,
pois podiam avaliar bem as condições de meu trabalho. De cada um fui
recebendo alento e estímulo.
5.2. Primeiro encontro com Rev. Dr. Boanerges Ribeiro

Por exemplo, quando desejei que os Salmos fossem prefaciados pelo


Rev. Dr. Boanerges Ribeiro, eu o procurei pessoalmente, um tanto cético, e
lhe falei: Rev. Boanerges, o senhor não me conhece, nem sou um homem de
seu nível, nem mesmo temos afinidade, mas gostaria muito de ver seu
prefácio no comentário de Calvino sobre o Livro dos Salmos. Se o senhor
responder na negativa, vou achar mais plausível do que se responder na
positiva.
Sua resposta foi pronta, surpreendente e memorável: “Você erra em
pensar que eu não o conheça. Primeiro, eu o conheço e muito bem. Tenho
acompanhado sua vida e labor. Segundo, você erra crendo que eu recusaria
apor meu aval em sua tradução dos Salmos”. E escreveu no prefácio: “Eis
que a providência divina chama o Rev. Valter Graciano Martins para traduzir
Calvino, e dá-lhe um grupo dedicado de companheiros para editar suas
traduções”. Mais adiante: “Graciano dá-nos Calvino simples, natural: sua
tradução não é um labirinto, é clara fonte; descobrimos encantados que ler
Calvino em português é, além do mais, agradável”. Hoje estou radiante em
ver que a Editora Fiel conservou seu belo prefácio na reedição do primeiro
volume dos Salmos.
Ao ler tudo isso, não conseguia crer que eu fosse o predestinado de
Deus para fazer João Calvino, um dos homens mais eruditos e eminentes de
toda a história humana e cristã, falar nosso idioma através de suas obras. Eu
me via por detrás daquela bigorna, ainda com martelo na mão, naquela
humilde oficina, mais tarde nos campos missionários, sem traquejo, sem
conhecimento suficiente, ignorado do mundo e da igreja. Como, meu Deus, é
possível um leigo deficitário fazer isso? Ainda mais, teria que traduzir suas
obras de tradução, porquanto nem mesmo domino o francês ou o latim para
ir diretamente à fonte. Todas as críticas neste respeito procedem. Embora a
fonte que eu uso seja aquela citada no mundo inteiro pelos próprios eruditos,
por ser uma tradução estritamente fiel aos originais, porém foi feita por
eruditos, homens que confrontaram sua tradução com outras obras do
reformador, ou em francês, ou em latim. Deixaram apensas notas preciosas
de cunho ou crítico ou elucidativo. Houve momento em que me arrependia
de haver começado aquela atividade!
5.3. João Calvino segue em frente

O fato é que a Providência não nos deixou parar aí; de repente, eis aí
mais Calvino: além de 2 Coríntios, vieram Romanos, 1 Coríntios, Gálatas,
Efésios, Pastorais, Hebreus, Daniel (2 volumes), Salmos (3 volumes —
ficou faltando o 4º volume que mais tarde seria publicado pela Editora Fiel).
E fomos vendendo. Romanos e 1 Coríntios se esgotaram, então reeditamos.

5.4. Registrada a empresa

Registramos a empresa com o título Edições Parakletos. O conselho era


composto pelos Presbíteros Denivaldo e Lauro, por mim e por minha filha
Eline. A princípio, Denivaldo depositava tudo em sua própria livraria. Por
fim, tornou-se impossível continuar assim: tivemos que alugar um depósito.
A situação foi se agravando cada vez mais. O dinheiro arrecadado mal
bastava para outra edição, e assim eu e Eline ficávamos sem dinheiro. Mais
de uma vez, os dois colegas tiveram que enfiar a mão no bolso para socorrer
compromissos com a imprensa, sem nem mesmo saberem se um dia eles
seriam reembolsados.

5.5. Companheiros constantes

Cabe-me falar aqui de uma pessoa de papel vital em Edições


Parakletos: Eline Alves Martins, minha filha, assumiu a meu lado a função
editorial e comercial. Ela fazia toda a parte de formatação, de arte e de
vendas. Creio que, sem Eline, dificilmente Edições Parakletos teria surgido.
Capaz e disposta, ela estava comigo todo o tempo. Não se queixava quando
não sobrava dinheiro para nós mesmos. Pois tudo o que entrava era para
pagar aluguel, gráfica e outros expedientes. Aquele foi um tempo de grandes
provações para ela, sendo que, ao mesmo tempo, ela passaria para a história
de Calvino no Brasil.

5.6. Edições Parakletos enfrentam dificuldades

A dívida que contraímos com Denivaldo e Lauro foi perdoada por


ambos. Esses dois leais companheiros nunca nos deixaram ao léu. Eles nos
deram perenemente a destra de apoio. No entanto, minha filha casou-se e
veio a ser mãe, e a empresa começou a rolar morro abaixo. Nunca apareceu
uma mão extra a socorrer-nos. Quando alguém solicitou de um grande
empresário da igreja que nos socorresse, ele respondeu: “Não tenho dinheiro
para essas coisas”. Nem digo isto com mágoa, pois sempre compreendemos
que o que fazíamos era difícil de crer que tivesse um futuro seguro.
E assim caímos num corredor que se estreitava cada vez mais. Nosso
maior cliente nem eram os presbiterianos, e sim as Assembleias de Deus.
Isso pode parecer surpreendente, mas é um fato comprovado de que muitos
pentecostais estão lendo João Calvino mais que os presbiterianos. Outro
grupo que sempre nos leu são os batistas das várias confissões. De vez em
quando recebíamos expressões de apreço pelo trabalho tão dispendioso.

5.7. Viagens com João Calvino

Esse período foi de muitas conferências. Eu era convidado para falar de


Calvino. Nunca dizia que conhecia bem o grande Reformador genebrino,
simplesmente ia lá para falar dele e falava. Só na capital paulista houve
diversos confrontos, em igrejas, em presbitérios, em sínodos. Fomos a
Salvador, a Governador Valadares, a Cachoeiro do Itapemirim, a Santos, a
Rio Verde de Goiás, a uma cidade interiorana da Bahia, cujo nome já nem
me lembro, entre outros lugares. Já faz muito tempo.
Éramos quatro os componentes dessa caravana: Rev. Alceu Davi
Cunha, Denivaldo, Lauro e eu. Eles não me deixavam na mão; eles me
punham em um de seus carros e saíamos estrada fora. Nem se importavam
com meus discursos sem qualidade. Acumulamos muitas histórias
interessantes nessa trajetória. Enchíamos o carro de livros, ou por
transportadoras; o fato é que levávamos Calvino conosco pelos rincões
brasileiros. Juntos, arrostamos todo tipo de aventuras, as quais, se fôssemos
narrá-las em livro, seria este de bom tamanho. Foi um tempo de muito
movimento e experiência. Houve boas vindas e más vindas; houve aplauso e
apupo.
Em certa cidade, não apareceu ninguém para nos ouvir. O programa era
de nível presbiterial. O pastor que fez o plano de nossa visita não sabia o que
fazer com sua vergonha. De fato, o que me faltava era crédito. Calvino não
estava em boas mãos. Muitos dentre os que agiram assim haverão de se
lembrar do dia em que, a despeito de sua atitude, João Calvino logrou êxito
no Brasil. Creio que muitos dos que fizeram pouco caso de nosso humilde
começo estão hoje lendo as obras do Reformador em nosso idioma.

6. Igreja Presbiteriana Unida

Foi nesse período que resolvemos deixar a IP de São Bernardo e


frequentar outra igreja em razão da distância e de outros detalhes.
Experimentamos algumas e desistimos. A Igreja Presbiteriana Unida não
ficava longe de casa. Cremilda e eu resolvemos fazer uma experiência. Já
conhecíamos seu pastor, Rev. Carlos Aranha. Então, pela primeira vez,
adentramos aquele santuário esplendoroso. Entramos a medo. Assentamo-
nos bem atrás. De nada adiantou. Logo fomos vistos pelo pastor. Ele nos
apresentou nominalmente à igreja e participamos de sua aula. A igreja
mostrou-se afetiva e solidária. Resumindo, resolvemos ficar aí, e ficamos.
Não muito depois de chegarmos, Rev. Carlos arranjou uma classe para
eu lecionar e as senhoras estenderam os braços para Cremilda. Aquela foi
uma das igrejas mais fraternas que encontramos. Logo o Presbitério Unido
solicitou do Presbitério Sul Paulistano minha transferência para ele. Esta
veio e chegou o momento de ser recebido no novo Presbitério. Qual não foi
meu susto: fui recebido com aplausos, todos em pé e sorrindo para mim. Era
algo assustador. Literalmente, senti-me perplexo e amedrontado. Na igreja,
logo estava no púlpito com o pastor enfiado dentro de uma linda toga. Não
ficou aí, pois fui feito seu auxiliar no pastorado daquela grande e histórica
igreja.
Ao notar que o pastor e igreja tinham planos mui elevados para mim e
Cremilda, isso nos assustou e nos causou medo. Estavam olhando
erradamente para nós: todos nos viam em um pedestal muito elevado e na
verdade estávamos bem mais baixo. Foi quando Cremilda e eu resolvemos
mudar-nos para Goiânia a fim de cuidar de seus velhos pais. Isso deixou
frustrados aquela igreja e aquele bom pastor. Em certas circunstâncias, às
vezes é preferível sermos desconsiderados do que considerados demais. Para
menos, há recursos; para mais, ficamos sem recursos.

NOVAS EDIÇÕES DAS INSTITUTAS DE


JOÃO CALVINO

1. Grande Dilema

Ao ver o fracasso da primeira tradução e edição das Institutas, meu


espírito, além de atordoado, agitou-se com o acúmulo de ideias que passaram
a fervilhar em minha mente. Perguntava o que eu poderia fazer para a solução
do problema. Então, mesmo trabalhando de forma tão precária, maquinei
fazer uma edição legível das Institutas de João Calvino. No entanto, havia
dois entraves que antes de tudo eu tinha que vencer: um deles era a falta de
condição financeira para um empreendimento desse porte; o outro, é que eu
não era o homem talhado para tanto. Isso requeria a ação de uma mente
erudita. Uma coisa é traduzir os comentários do Reformador; outra bem
diferente é traduzir uma obra como suas Institutas.
Em minha visão, aquela edição feita pelo Dr. Waldir e editada pela
Editora Cultura Cristã traiu a confiança dos leitores na própria validade de se
editar ou de se ler suas obras em nosso idioma. Era como se os que me
recriminavam, em minha tentativa de produzir as obras do Reformador,
tivessem toda a razão para agirem assim; eu é que estava errado em meus
cálculos. Se as Institutas eram isso que a primeira edição mostrava, então era
impossível lê-las mesmo que fossem vertidas por uma multidão de eruditos.
Seria o caso de que elas fossem de fato ilegíveis? Elas foram escritas para
ninguém ler? Eu mesmo me via como um visionário, e esse era o conceito
dos que me conheciam. E por um longo período vivi desalentado em ver
frustrado um empreendimento que teve tudo para dar certo. Ao pensar nos
leitores de Calvino ainda jejunos de suas obras, a aflição me dominava, e até
mesmo me desesperava. O que fazer? Via-me muito aquém da possibilidade
de empreender tal tarefa. E eu via a liderança maior da igreja completamente
desinteressada em resolver o problema. Não vislumbrava nenhum interesse
em João Calvino. Como se quisessem dizer: a igreja sobreviveu até aqui sem
Calvino; por que haveríamos de tê-lo em nosso idioma? Que diferença isso
faria na estrutura da igreja?

2. O caminho certo
Certo dia adentrei a sala do editor da Editora Cultura Cristã e me
assentei com ele e falamos diretamente do caso em pauta. “Dr., creio ser de
vocês o dever moral perante o público leitor de produzir uma nova edição
das Institutas. Foram publicadas por esta casa, e o Brasil continua jejuno
delas. Se hoje o senhor me disser que não tem nenhum interesse nisso, então
vou tentar produzi-las, sem saber como fazê-lo.” Ele me fitou pensativo, e
respondeu que aquela era uma boa hora para uma séria tomada de decisão.
“Sim, eu vou empreender essa grande tarefa, e você vai traduzi-las para
mim”, disse-me com toda firmeza. Eu me recusei, dizendo que não havia
ninguém mais apto para tal empreendimento do que o Rev. Dr. Odayr
Olivetti. No outro dia, aquele editor me ligou para notificar que o Dr. Olivetti
aceitara, eufórico, empreender a tradução das Institutas. Certamente, isso
trouxe regozijo à minha alma. Com isso, conseguia três façanhas: uma, a de
ver uma nova edição das Institutas; a outra, de envolver aquele grande
erudito nessa tarefa tão grandiosa e tão necessária; terceira, então poderia ver
o povo de Deus compendiando com entusiasmo a obra-prima do Reformador
genebrino. Ergui as mãos para o céu e agradeci ao Senhor da Seara.

3. De novo frente a frente com o Dr. Olivetti

E este foi o ponto de partida na história da edição vigente das Institutas


traduzidas pelo Dr. Olivetti. Depois de muitos anos, eis de novo eu e o Dr.
Olivetti envolvidos numa obra que, naquele tempo, naquela reunião da
Missão Presbiteriana no Brasil, realizada no IBEL, em sua ótica era
inexequível. Senti um forte alento vendo aquela grandiosa obra nas mãos de
um homem do quilate do Dr. Olivetti. E aqui é preciso ressaltar bem que
mais uma vez eu era usado pelo Senhor da Igreja para que João Calvino
falasse nosso idioma.

4. Traduzindo a tradução do Dr. Waldir

Não passaram muitos dias, recebi uma ligação telefônica do editor da


Editora Cultura Cristã, solicitando que eu fosse à sua sala para uma
conferência entre os dois. Atendi e me pus diante dele novamente. Então me
disse: “O Conselho Editorial da Cultura Cristã decidiu fazer justiça ao
grande esforço do Rev. Dr. Waldir Carvalho Luz, reeditando sua tradução
das Institutas. No entanto, todos nós, com ele, concordamos que não seria
possível fazer isso sem desembaralhar aquele emaranhado de vocábulos e
construções gramaticais às avessas. Ele nos deu sua permissão, e então
pensamos ser você a pessoa talhada para realizar tal façanha”. No momento,
fiquei aturdido com a proposta. Talvez fosse o maior desafio que já enfrentei
em minha modesta trajetória. Pedi uma semana de prazo para decidir.
Aquela foi uma semana difícil, pois bem sabia que ali estava uma faca
de duplo fio. Se fosse bem-sucedido, poderia vir a ser herói; se fracassasse,
poderia tornar-me um terrível vilão, e teria que enfrentar o ridículo da
incapacidade. No fundo, sabia que ali estava uma grande oportunidade de
envolver-me ainda mais com João Calvino no Brasil. Quanto ao outro lado
da mesma moeda, nunca me importei em ser visto ou tido como vilão. O que
está em pauta não é minha pessoa, e sim o Nome de Jesus Cristo e seu reino.
Tudo o que mais quero é que nosso Senhor seja cada vez mais glorificado
através do labor de cada servo.
A Cultura teve que digitar toda a obra, pois nada ficara de gravação da
primeira edição. Uma vez digitada, assentei-me diante daquele modesto
computador, e no espírito de oração, bem sabendo que grande e terrível
tarefa me envolvia; passei a trabalhar aquele emaranhado confuso, frase por
frase, parágrafo por parágrafo, capítulo por capítulo, até ver o primeiro
volume terminado. E, usando o mesmo processo, até ver toda a obra
completada. Notifico que usei duas versões para comparação: a versão
inglesa feita por Henry Beveridge de 1957 e a versão espanhola feita por
Cipriano de Valera de 1597.

5. O que foi feito

Devo dizer francamente que sempre tive o Rev. Dr. Waldir Carvalho
Luz não só como um dos homens mais doutos da Igreja, mas também como
um varão íntegro e santo, de quem eu nunca seria digno nem mesmo de
desatar os cadarços de seus sapatos. Creio que essa foi a dificuldade mais
séria que tive de enfrentar: tocar aquela obra que levou anos para ser
concluída pelo incansável labor desse santo varão. E qual seria de fato minha
tarefa? Desembaralhar a difícil construção gramatical, retirando todos
aqueles colchetes e italicando a matéria que estava dentro, substituindo todos
aqueles termos já em desuso, retirando todas aquelas notas de rodapé que,
somadas, dariam para formar um livro à parte, e tantos outros detalhes que
dificultavam a legibilidade da leitura.

6. Recompensa pelo trabalho prestado

Levei cerca de um ano. Durante aquele tempo pequei muito contra o


Senhor da Igreja e contra um homem muito mais santo do que eu, por aquela
obra haver sido feita daquela forma, perdendo o autor uma grande chance de
fazê-la da forma certa e definitiva. Sofri um grande desgaste emocional e
mental. Foi um trabalho pior do que se fizesse uma tradução direta. Naquele
tempo surgiu o adágio de que eu estava traduzindo Waldir Carvalho Luz. E
os autores deste adágio não estavam longe da verdade. Se eu não escrevesse
esta história, tudo isso ficaria no perene anonimato.
E, no final, recebi da Editora Cultura Cristã um grande prêmio: a
completa omissão, no prefácio, de como a coisa foi feita. Nem sequer fez a
mais leve menção. Apareço meramente como revisor. Não fui mero revisor.
Mas compreendo bem a razão para tal omissão: como poderia eu, um leigo e
trabalhador braçal, figurar-me lado a lado com os doutores ali mencionados,
os quais nem mesmo tocaram aquela obra? São coisas dos homens! Aos
poucos aprendia que a igreja de fato é composta do lado humano e do lado
divino durante todo o tempo de sua peregrinação terrena. Seu lado humano
quase não é distinguível de qualquer outra entidade no seio da sociedade
humana. Às vezes, uma igreja local perde em qualidade para uma entidade
que nada tem a ver com o reino de Deus.
Essa omissão continuaria em outras obras que eu faria para aquela
egrégia instituição. Repito, não confundo indivíduo com a corporação.
Repito ainda, não narro isto como mero desabafo ou mágoa, e sim como
lição para todos no futuro. Aquele editor desfruta, de minha parte, o mais
elevado conceito, seja em sua pessoa, seja na execução de sua profissão. Não
faz muito tempo respondi a uma inquirição se aquele editor deveria ou não
continuar naquela entidade em sua função de seu editor. Minha resposta
categórica foi: “Vocês não podem tirar aquele homem daquele posto. A casa
poderia desmoronar-se sem ele”.

7. Ferida efetuada pelo descaso


Em todas essas peripécias aprendi que o descaso fere mais radicalmente
do que uma afronta direta, franca, aberta. A definição de descaso é
“Procedimento próprio daquele que não dá importância ou atenção a;
desconsideração, desdém, desprezo” (Dicionário de Houaiss). Por toda parte
tenho sido alvo do descaso. E é muito difícil lidar com esse procedimento
humano. Pela ótica de alguém de posição, você é quase nada. É
discriminado; é ignorado; sua pessoa e nome são omitidos intencionalmente
sem sequer pedir desculpas. Lamento, porém aceito a realidade de ser um
homem avulso, isolado, desvinculado da política eclesial. O que importa é o
fato de que o Senhor da Igreja decretou usar-me, tal como sou, na qualidade
de seu instrumento na elaboração de uma obra de caráter único no Brasil. Se
um dia você quiser ser usado da mesma forma, então terá que despir-se de si
mesmo, sufocar seu ego, erguer a cabeça ao céu e dizer: “Eis-me aqui,
Senhor, usa-me a mim como quiseres”. Se mantiver seus olhos fixos nos
homens e esperar deles que o honrem de uma maneira justa, então você não
irá longe. Logo desistirá. Os homens têm pouco a dar-nos em recompensa.
Aliás, os homens nem mesmo sabem recompensar com equidade. Mas a
recompensa do Senhor da Igreja é infalível e grande!
Seja como for, o fato é que me senti e ainda me sinto feliz e
generosamente galardoado por, mais uma vez, fazer o Reformador falar
nosso idioma naquela versão das Institutas feita pelo Dr. Waldir. Pasma-me
lembrar que, assim, tornei-me seu associado, porquanto seu nome continua
figurando como o primeiro tradutor das Institutas de João Calvino. Digamos:
ele começou, e eu dei meu empurrão. E deu certo, pois, hoje, há uma
multidão lendo as Institutas na tradução do Dr. Odayr e do Dr. Waldir. Sem
falar com expansão da versão publicada pela UNESP e patrocinada pelo
Banco Itaú. Hoje só não lê as Institutas quem não quiser, pois temos delas
três versões bem legíveis. E Deus me fez partícipe da história de João
Calvino no Brasil. Com certeza, no futuro haverá tentativas de eliminar meu
nome completamente desta obra tão bem-feita!

8. Celebração do aniversário do Reformador


No ano de 2009 houve festividade por todo o Brasil pelo aniversário de
500 anos do Reformador genebrino. Fiquei sabendo que houve grandes
reuniões em cidades estratégicas em que o Senhor da Igreja foi celebrado
como aquele que usa homens e mulheres em sua obra para o
engrandecimento de seu Nome e maior expansão de sua Igreja. Senti-me
feliz por saber que por lá minhas traduções do Reformador estariam
presentes, a reforçar uma festividade tão oportuna. Certamente, não digo
apenas que meu nome nem foi mencionado, mas nem mesmo foi lembrado
pela humilde contribuição, não meramente com obras sobre o Reformador,
mas, sim, com as próprias obras dele. Que o Senhor perdoe minha
megalomania inerente! Mas tenho certeza de que, se esse gigantesco trabalho
tivesse sido efetuado pela editora oficial da Igreja, ou por um dos muitos
eruditos em seu seio, certamente teria sido especialmente convidado e
enaltecido e condecorado pelo gigantesco empenho pela grandiosa
colaboração com a fé reformada. O que está em pauta não é a mera pessoa de
um homem ou mulher; é o que alguém fez ou tem feito que enobrece toda a
sociedade.
Um exemplo disso: há anos que o tradutor de João Calvino reside em
Goiânia. No entanto, ele é perene desconhecido. Todo ano se efetua em
Goiânia uma grande conferência da fé reformada. As obras de João Calvino
já em nosso idioma, bem como tantas outras traduções de cunho teológico e
reformado cobrem as mesas que se expõem muitas centenas de livros,
inclusive as obras do Reformador. Ninguém nem mesmo cogita que seu
tradutor reside nesta capital. O descaso é ferino! E por que isso é assim?
Simplesmente porque o tradutor deste vasto material teológico é um mero
leigo; um limitado autodidata; um homem sem envolvimento político; uma
figura ambígua e sem lustre.
Quantas vezes eu entro em uma grande igreja onde outrora era
conhecido. Entro e saio sem que alguém o perceba. Sou uma figura avulsa e
sem nenhum prestígio. Não faço parte do clube dos que realizam grandes
coisas. Foi aqui que outrora prestei meus humildes serviços pastorais; foi
aqui que recebi a imposição das mãos de um presbitério em ordenação para o
sagrado ministério. É aqui que eu esperava pelo menos a destra de comunhão
dos santos. E Goiânia veio a ser meu exílio!

EDITORA FIEL

1. Primórdios
Em meu profundo abatimento por ter que interromper meu precioso
trabalho com João Calvino, desatinado e sem saber o que fazer, vendo o
depósito de livros fechado e o aluguel sendo pago todo mês, certo dia o
telefone tocou e atendi. Do outro lado soava justamente a voz do fundador da
Editora Fiel, Dr. Richard Denham. Lembro-me como hoje que senti-me
aturdido, pois não sou homem de frequentes sucessos grandes e repentinos.
O Senhor age em mim e através de mim de maneira muito discreta e
imperceptível. Não sou daqueles que têm sonhos e sensações frequentes e
fortes. Muito menos daqueles que têm histórias mirabolantes para narrar
acerca de suas pessoas.
Conhecemo-nos na primeira Conferência Fiel para Pastores e Líderes
em 1985. Aliás, naquela época ganhei a hospedagem naquele evento como
uma tentativa entre as duas partes para que eu servisse àquela entidade na
área literária. Na época já mencionada em um capítulo à parte, não surtiu
nenhum resultado positivo. Aliás, foi dolorosamente frustrante. Em minha
mente, ele não sentira por mim nenhuma simpatia, e com razão, pois ele
estava cercado de homens e mulheres da mais elevada qualificação para o
desenvolvimento de seu ideal literário. Aliás, ele teria visto em mim um
mero aventureiro sem “experiência acadêmica” e pertencente a uma
denominação que tem alguns detalhes discrepantes com sua filosofia pessoal
e de trabalho. E assim procurei esquecer aquele episódio e seguir em frente.
Creio ser importante, neste espaço, demorar-me um pouco nesta grande
e consagrada Editora; não só na publicação de literatura de cunho reformado,
mas também no campo da educação teológica e a profunda e benéfica
influência que ela tem injetado nas vidas de milhões de pessoas no mundo
inteiro, com suas publicações fiéis, suas conferências teológicas e
distribuições gratuitas de literatura, aliás, aos milhares.
Escrever a história, nem digo toda a história, do casal Denham, Ricardo
e Pérola, mas ao menos a história da Editora Fiel é um empreendimento
difícil até mesmo para os que estiveram e ainda estão diretamente envolvidos
durante todo o período de empreendimento do Dr. Richard Denham e suas
bem qualificadas equipes. Pois tudo na vida daquele casal é grande demais, e
sinto-me constrangido até mesmo em mencionar. Mas, como tenho uma
pequena parcela nesta história, por isso sinto-me impelido a expressar ao
menos esse pouco a seu respeito. Para isso, além de me valer da memória de
minha experiência pregressa com o casal em Atibaia, SP, quando eu e
Cremilda estivemos em sua estância, em meado dos anos 80, lanço mão
também de um volume que foi editado em 2010 pelo Dr. Franklin Ferreira e
publicado pela Editora Fiel, com o título A glória da graça de Deus, pelo
aniversário dos 58 anos de ministério que este eminente casal desempenhou
no Brasil.

2. Modesta participação

O Senhor da Igreja me privilegiou com uma pequena participação


nesse livro, escrevendo a segunda apresentação, a pedido do editor da
Editora Fiel, Rev. Tiago Santos Filho. Em nome da franqueza, ao ler a
primeira apresentação de seu próprio filho, Dr. James Richard Denham III, e
o grande relato da lavra do Rev. Gilson Carlos de Souza Santos, meu
impulso imediato foi pôr o cursor do computador na pasta desta minha pobre
história e apagar tudo e esquecer que tenho uma história para contar, ou
escrever, porém tão pobre que deveria continuar no anonimato.

3. Menção histórica
O amado irmão e colega Rev. Gilson escreve:
Em 1973 e 1974, a família Denham estava ocupada na
construção do escritório e do depósito da Editora em Atibaia,
São Paulo. Ali a Editora começou a ganhar força e crescer.[26]
Quero entender que foi aí propriamente que a Editora Fiel estendeu sua
fronde bem firmada sobre raízes fortes e profundas. Não foi da noite para o
dia, mas seguiu uma trajetória penosa e longa. Em minha história pessoal de
obreiro de Cristo, aliás, o menor de todos eles, passei a relacionar-me com
esta Editora Fiel desde seus primórdios, adquirindo dela alguma literatura
cujos títulos já não me lembro, e não os guardei na prateleira porque sempre
formei o hábito de ler e logo em seguida doar aqueles livros que me
edificavam, para que edificassem a outros. Daí, nosso relacionamento perene
e pessoal viria alguns anos depois.
Foi no início dos anos 80 que tive meu primeiro contato direto com a
Editora Fiel e o Dr. Denham, através da leitura do livro Deus é soberano, de
A. W. Pink. Mas vale a pena descrever abaixo a história de meu primeiro
contato com este livro.
Quando ainda seminarista, meu cunhado Antonio Caixeta Neto leu o
livro, empolgou-se e me presenteou com um volume. De igual modo, li, reli,
escrevi uma carta ao Dr. Denham apreciando o livro e o efeito que ele me
causara. Ele respondeu que tomara a liberdade de traduzir aquela carta para o
inglês e enviá-la a várias igrejas nos Estados Unidos como um tipo de
circular, e que me convidava para a primeira Conferência Fiel para Pastores
e Líderes, com hospedagem paga de antemão. Tanto é que o Rev. Gilson se
reporta a este evento, dizendo:
Os preletores convidados foram Bill Clark e Edgar Andrews...
Nesta primeira conferência, que contou com cerca de oitenta
participantes, pregaram ainda os irmãos Francisco Solano
Portela Neto e Valter Graciano Martins.[27]
Significando que estou inserido tanto na história da Editora Fiel quanto
na história da Conferência Fiel para Pastores e Líderes. Quando esta nasceu,
eu estava lá. Tanto que a cada ano o Dr. Denham me convidava e pagava
minha hospedagem para as conferências seguintes. Portanto, minha história e
a da Editora Fiel têm um ponto em comum. Além de ser leitor assíduo e
sistemático de sua literatura, a qual corroborou em grande medida para
minha formação reformada, possuindo na época praticamente tudo o que ela
editava, em certa encruzilhada nossa história haveria de misturar-se para
sempre.

4. Licença
Tendo da parte do Dr. Richard Denham III, atual presidente da Editora
Fiel, e de seu editor, meu “velho” amigo e companheiro, Rev. Tiago Santos
Filho, autorização para fazer uso de suas fontes de informação, valho-me de
uma parte da própria apresentação que escrevi nesse livro, A glória da graça
de Deus.
“O homem que tem muitos amigos sai perdendo, mas há amigo mais
chegado que um irmão” (Pv 18.24). “Em todo tempo ama o amigo, e na
angústia se faz o irmão” (Pv 17.17). Enquanto o “irmão” do primeiro texto é
consanguíneo, o do segundo é “irmão” de crença, de fé, de bandeira.
Enquanto o primeiro realce está no “amigo”, o segundo realce está no
“irmão”. Ora, quem é o verdadeiro amigo? É aquele que se torna mais
chegado que um irmão consanguíneo. Todos têm muitos amigos, porém nem
todos têm muitos irmãos. Amigo/irmão pode ser contado nos dedos das
mãos, e pode ser que ainda sobrem alguns dedos. O cadinho que depura uma
verdadeira amizade é a “angústia”, a adversidade, a tribulação, a
encruzilhada penosa, a dependência.
Foi assim que nasceu a grande amizade entre mim e Dr. Richard
Denham. A “angústia” não era dele, e sim minha. Pois ela nasceu quando eu
enfrentava uma terrível encruzilhada existencial. Eu precisava dele, e não ele
de mim. Aliás, naquele tempo ele nem mesmo sabia de minha existência. Fui
encaminhado a ele com o expresso pedido que me recebesse como
cooperador em sua Editora. Não era então seu amigo nem um profissional
habilitado para tanto. Ele não me recusou diretamente; porém impôs
condição, pois intuiu minha inabilidade para o momento. Para mim,
condição difícil de aceitar; para ele, era a única lógica. Foi duro, direto, sem
rodeios, sem dissimulação; porém cordial, sincero, amoroso. Houve
franqueza de lá para cá e de cá para lá. O acerto era impossível naquele
momento. Mais tarde descobri que de fato aquele não era o momento de
Deus. O de Deus foi prorrogado por mais vinte anos. Nesse ínterim, porém,
nossa amizade deitou raízes, subiu como uma haste viçosa, expandiram-se os
ramos e produziu-se uma bela fronde e vieram flores e frutos. Ele de lá e eu
de cá. O esforço foi mais dele. Por meu natural temperamento e retraimento,
se dependesse de mim aquela amizade teria se esvaído já no ponto de partida.
É como se ele escrevesse meu nome em seu caderninho de amigos pessoais,
orando e pensando em mim, convidando-me para suas conferências e me
abraçando forte e amorosamente durante nossos poucos e breves encontros.
Ele sempre se valia da seguinte expressão: “Eu amo o irmão”. E de fato
amava!
Esse homem deixou implantada em mim uma múltipla influência. Eu
via nele uma fidelidade rara para com a obra do Senhor. Quando mergulhei
no universo de João Calvino, então passei a ver Richard Denham como um
Calvino no Brasil. Uma vida inteiramente devotada à obra de Jesus Cristo.
Daí seu profundo interesse pelo reformador genebrino. Outra influência foi
sua franqueza firme, porém leal e amorosa. Eu já era um homem franco,
porém rude; com ele aprendi a ser franco transpirando afeto e respeito. A
franqueza não é o mesmo que desabafo. Ele discordava de mim, e eu, dele.
No primeiro minuto, fiquei chocado; com o passar do tempo, fiquei
encantado. Desde então, ele passou a ser-me uma figura admirável e
grandiosa. Ricardo Denham representa uma estirpe que surge no mundo aqui
e ali, sem se proliferar muito — infelizmente!
Quando chegou o tempo de Deus, com encontros esporádicos neste
intervalo, ele se manifestou interessado em trabalharmos juntos na
elaboração e publicação de João Calvino em nosso idioma. Uma vez mais
veio à tona a franqueza. Ele apresentou seus planos; e eu lhe disse: “Só me
serve assim”. De repente, Edições Parakletos deixaram de existir, e a Editora
Fiel assumiu a direção para “fazer João Calvino falar nosso idioma”. Ele,
porém, me disse: “Eu gostaria que você continuasse traduzindo as obras de
João Calvino para nós e que seja um dos conselheiros consultivos da Editora
Fiel”.[28]

5. Gratidão perene
Se o Senhor da Igreja me desse viver mil vidas neste mundo, jamais
conseguiria compreender um coração e intuição tão imensos e profundos! E
assim, de repente, a Editora Fiel passou a fazer por mim o trabalho que
jamais eu poderia concretizar, muito embora sempre fosse esse meu sonho.
Ela, na pessoa de Ricardo Denham, doravante passou a concretizar meu
sonho de ver “João Calvino falando português” para o povo brasileiro. Eu
amo o que faço, e jamais o faria sem a participação da Editora Fiel, na
pessoa de Ricardo Denham. Meu sonho é concretizado através da equipe da
Editora Fiel e, particularmente, da graciosa amizade do saudoso amigo
Ricardo Denham. Além do mais, a Editora Fiel passou a endossar minhas
modestas traduções, que hoje são vestidas com uma roupagem muito bela.

6. Encontro histórico
Agora posso fechar o parêntese que abri no início deste capítulo. Do
outro lado do fone, o Dr. Denham me convidava para um encontro com vistas
a discutir a continuação das obras de João Calvino que eu havia interrompido.
Combinamos dia e horário. Juntamente com Eline, filha e sócia, fomos a São
José dos Campos para aquele encontro sem sabermos absolutamente nada do
que se tratava especificamente. Na companhia do editor, Rev. Tiago Santos,
os quatro, em torno de uma mesa de churrascaria, comendo e conversando,
ele nos propôs um trabalho conjunto, dizendo mais ou menos isto:
Valter, tenho acompanhado seu trabalho de fazer João Calvino
falar português. Gostaria que esse trabalho não fosse
interrompido. Fale de suas dificuldades e eu, por minha vez,
tenho uma proposta a fazer-lhe.
Eu e Eline falamos longamente de nossa impossibilidade de dar
sequência ao plano inicial de publicar as obras do Reformador. Finalmente,
ele apresentou um plano de fazermos coedição. Então lhe disse: “Não quero
envolver-me em coedição. Acho isso muito complicado. Na verdade, eu e
Eline viemos aqui propor-lhe a venda de todo nosso estoque e a partir de
então a Editora Fiel dará sequência à publicação dessas obras”.
Senti no rosto do Dr. Denham e do Rev. Tiago um laivo de espanto.
Creio que jamais esperariam uma proposta tão abrupta. Mas de início declarei
ser aquela a única proposta viável que tínhamos a apresentar. Afirmei ainda
que eu acreditava que ele, depois de pensar detidamente, descobriria que era
possível e viável fecharmos o negócio. Ele alegou os grandes gastos que no
momento enfrentava com a construção da sede da Editora. Alegou ainda que
teria que continuar editando as obras do Reformador, embora isso se
encaixasse bem na visão ministerial da Editora Fiel, que era publicar obras de
cunho reformado. E publicar João Calvino equivale a publicar a própria fonte
da fé reformada.
Depois de trocarmos ideia a respeito, num dado momento ele propôs
que levantássemos a quantidade de livros no estoque e a quantia envolvida
para que ele pudesse avaliar seu orçamento. Rapidamente, fizemos tudo o que
ele nos propôs. Depois de passar-lhe os valores do estoque, acertamos que
seríamos reembolsados durante dois anos. E nossa resposta foi positiva.

7. Negócio fechado

A partir de então, as publicações das obras de Calvino passaram para


outra esfera. A Editora Fiel passou a reeditar as obras já editadas por Edições
Parakletos: Romanos, Coríntios, Gálatas, Efésios, Pastorais, Hebreus, os três
volumes dos Salmos e os dois volumes de Daniel. A partir daí, ela editou o
quarto volume de Salmos, as Cartas Gerais e as de Paulo — Filipenses,
Colossenses e Filemom —, bem como o Evangelho de João.
Mas o processo era extremamente lento. Minha aflição era lancinante.
Meu estímulo para dar sequência às traduções era seriamente ameaçado.
Olhava para o horizonte e nada visualizava. Olhava para o grande volume de
obras ainda por publicar e me via dominado pelo desalento. Não contava com
amigos íntimos que me injetassem ânimo ou que pelo menos me
compreendessem, falando-me palavras de esperança. Olhava para a extensão
da obra, olhava para cada uma delas e para o todo e sentia-me desfalecido.
Não vou conseguir, pensava. Olhava no espelho e via a velhice estampada de
modo inexorável. O tempo não para. Logo a morte chegará e me levará e não
verei a totalidade do fruto de meu grande empenho. Porém, li em algum lugar
que “aquele que desiste de lutar nunca tem razão”.
O royalty que recebia da Fiel era muito pouco; não dava nem para a
manutenção do computador. Com o uso contínuo e extremo, de vez em
quando tinha que comprar outro computador; se estragava alguma peça cara,
tinha que esperar algum tempo, pois minha aposentadoria é muito irrisória.
Meu “velho” amigo de São Paulo, Dr. Lauro Benedito Medeiros da Silva e
sua bondosa esposa, dona Conceição, enviavam-me dinheiro para a aquisição
de algum equipamento. Era um trabalho totalmente solitário, e não solidário.
Tenho poucos amigos com quem partilhar minha aventura. Como disse,
Goiânia se tornou meu exílio. Quando um deles me visita, sofre o peso de
minhas histórias e desabafos. Traduzir tanto para receber por ano tão pouco
resultado. Ainda não vejo cem traduções prontas nas prateleiras, e já
completei cerca de cento e cinquenta. Minha vida tem sido consumida nesse
labor tão árduo. Mesmo assim sinto-me abençoado pelo Senhor da Igreja.

8. Calvino e outras obras

É difícil e quase impossível descrever minha trajetória na tradução das


obras de Calvino e de outras dezenas que eu entremeava. Cheguei a traduzir
para a PES (Publicações Evangélicas Selecionadas); por certo tempo
continuei traduzindo para a Editora Cultura Cristã, para a Editora Academia
Cristã, que nem mesmo é de cunho reformado, e para a Editora Os Puritanos.
Traduzi uma obra excepcional para a Editora Primícias, sediada em Goiânia,
Calvinismo e arminianismo. Em meio a toda essa efervescência, encontrei no
Senhor ânimo suficiente para não me deter sequer um dia. Mas a história
completa jamais ousaria narrar, em razão do imenso volume de obras e do
tempo que transcorreu até aqui. Minha querida esposa, Cremilda, foi sempre
minha testemunha ocular e arrimo da grandeza da tarefa, mesmo que fosse
empreendida por um homem de cultura equivalente à do Reformador e dos
muitos escritores com quem tenho mantido convívio.
Quando olho para o volume de traduções e revisões, a emoção se
extrapola. Em minha labuta, porém, o Senhor nunca soltou plenamente o
freio de mão. Ele o mantém sempre puxado para que eu não desça ladeira
abaixo sem controle. Minha natural e interior megalomania é muito
acentuada. Eu mesmo tenho que corrigir conscientemente essa doença que
atinge mais a uns do que a outros. Quando alguém declara que me vê como
sendo um homem humilde, eu lhe respondo: “Na verdade, isso prova que
você não sabe nada a meu respeito”. A realidade só é conhecida daquele que
a tudo vê e perscruta.
Então avalio este particular como a aumentar o “peso de glória” sobre
alguém que não possui o menor vestígio de competência concreta, que nunca
se assentou nos bancos de uma universidade. Costumo dizer que tudo o que
tenho feito provém de um milagre divino. Sem este milagre, nada em minha
vida teria sentido. Ora, ninguém deve vangloriar-se de merecer um milagre;
se é milagre divino, então não pode ser merecido, senão que vem unicamente
pela graça divina.

9. Editora Fiel e Editora Clire: confronto


Registro ainda meu impasse com a Editora Fiel. Com profundo
constrangimento expresso aqui meu ato de adesão à Editora Clire na
publicação das obras de João Calvino. Há alguns anos recebi em minha casa,
em Goiânia, a visita de dois queridos e preclaros amigos e irmãos, Dr.
Manoel Canuto e Rev. Josafá Vasconcelos. Seu propósito era que a Editora
Os Puritanos participasse também da publicação das obras do Reformador
genebrino. Discutimos longamente os prós e os contras de tal parceria.
Naquele momento isso era impossível, porquanto eu estava atado à Editora
Fiel por meio de um compromisso de exclusividade. Disse-lhes que somente
a Editora Fiel poderia romper esse compromisso. Então, daqui eles foram a
São José dos Campos com vistas a negociar com aquela Editora. Resumindo,
de sua parte, a Fiel não cedeu. Voltaram para casa e o caso foi quase
esquecido.
Os anos se passaram, e no ínterim eu era abordado pelo editor da
Editora Clire, culminando em um telefonema de seu editor, Waldemir
Magalhães, me apertando:
Gostaríamos muito de publicar suas traduções do Reformador
genebrino. Já que não recebemos “bandeira branca”, resolvemos
fazer nossa própria tradução e publicação. Já preparamos nossas
equipas. Estou apenas comunicando o fato.
Fiquei em polvorosa. Grande parte de meu trabalho já feito iria para o
ralo. Aquele foi um momento de profunda indecisão e angústia. Passei o dia e
a noite com a mente latejando. Meu apreço e gratidão pela Fiel são notórios a
todos os que se relacionam com aquela Editora e comigo. Pedi ao querido
irmão Waldemir uma semana de prazo para resolver o assunto.
Depois de martirizar meu espírito durante aquela semana, então resolvi
agir com extremo rigor para com a Fiel. As publicações de Calvino eram
extremamente lentas e o volume das obras já traduzidas era imenso. Calculei
que ainda levaria uns vinte anos para o término de todo o material. Meu
maior conflito nem era o rompimento do compromisso, e sim meu apreço por
aquela Editora, companheira de longos anos. Durante muitos anos formamos
um laço de amizade e relacionamento muito forte. Por outro lado, minha vida
está se esgotando. Não está longe de atingir oitenta anos de idade. Quase
quinze anos envolvido com a Fiel.
Passei a semana olhando para o céu e indagando: “Meu Deus, que devo
fazer? Se eu perder essa chance com a Editora Clire, e esta porta se fechar,
nunca mais verei outra porta aberta. Por outro lado, com toda probabilidade
perderei a confiabilidade da Editora Fiel”. A luta interior foi muito grande e
penosa.
Por fim, decidi passar para a Editora Clire o Exateuco e os Profetas
Maiores, enfeixando algumas obras extras do Reformador; por exemplo,
Obras Seletas: A necessidade reformar a igreja, Réplica ao Cardeal
Sadoleto, Psicopaniquia, Providência secreta de Deus e Catecismo e
Confissão de fé de Genebra. Passei para ela ainda o Rei Davi, Jesus Cristo,
Sermões em Efésios. Deixando com a Fiel os Profetas menores, o término do
Novo Testamento, Breve tratado sobre a santa ceia e As Institutas versão de
1536. Então, escrevi decididamente à Editora Fiel e expus o que eu queria
doravante. Entrei em contato com o editor da Clire, Waldemir Magalhães, e
passei o que pensava ser possível. Ele concordou, com certas condições entre
ambas as partes. Firmamos compromisso. Aquela editora já trabalha de vento
em poupa na elaboração das obras do Reformador.
A Diretoria da Editora Fiel me escreveu. Não satisfeita, veio a Goiânia
e entrou em minha casa. Em torno de uma mesa com suculento lanche
preparado por Cremilda, Dr. Denham, presidente, Rev. Tiago, editor, e
Waldemar, gerente, discutimos francamente o assunto. Foi muito saudável.
No entanto, não cedi em minha resolução. Tenho consciência de que aqueles
irmãos e companheiros de jornada cristã não sentem por mim a mesma
amizade e confiabilidade. Creio, inclusive, que entre eles houve um
rompimento definitivo. Hoje labuto interiormente com o sabor de um grande
conflito que tudo isso me tem causado. Nem mesmo sei qual será o resultado
final. O fato é que sinto minha vida terrena sendo rapidamente consumida
pela exaustão de uma obra tão imensa.
OITAVA PARTE: PERFIL DE JOÃO CALVINO

Em suas obras,
na análise de outros e
em minha visão pessoal
João Calvino — o homem

Depois que este livro já estava praticamente terminado, senti um


impulso natural de apresentar, em poucas penadas, minha ótica da pessoa,
vida e obra de João Calvino, em minha longa e exaustiva experiência em sua
companhia diurna e noturnamente. Ao esboçar a matéria, minha tendência foi
desistir da tarefa, pois falar deste homem só é exequível a um especialista da
matéria. No entanto, sinto que não posso recuar em traçar, mesmo que
tortuosamente, um perfil dele em minha ótica ao longo desta trajetória de
vertê-lo para o vernáculo. Andei com ele durante estes últimos anos de minha
vida, passo a passo, folheando cada página de suas obras, vertendo cada
sentença até chegar quase ao final de todas as suas obras escritas. E assim
aventuro-me a traçar:

1. Seu caráter

Como ponto de partida, desejo descrever seu caráter ou formação. Os


especialistas têm dificuldade em tratar deste assunto, pela exiguidade de
informação, sem entrar também na esfera da especulação, ou seja, ver o
homem nas entrelinhas ou através da imaginação lógica. Porquanto, em suas
próprias obras, ele quase não fala de si mesmo. Seu foco era bem outro: fazer
conhecido o Eterno e explanar a Santa Escritura com a máxima inteireza, sem
pôr em evidência a pessoa que servia de mero instrumento.

1.1. Seu mundo — Genebra antes de Calvino

Genebra é um pequeno mundo muito antigo. Júlio César fez menção


dela em seus comentários quando rodou o mundo de então. Quando Calvino
veio à existência, ela já era governada por um sistema representativo, o qual
era exercido “através de quatro concílios, a saber: (1) Pequeno Conselho, que
se compunha de vinte e cinco elementos e que poderia atingir até sessenta,
que a princípio eram eleitos pelo Conselho Geral ou Assembleia; (2) os
Síndicos, pequeno Conselho de apenas quatro elementos, que resolvia as
questões de Justiça Criminal. Julgavam os criminosos, à semelhança de
nossos jurados modernos, quando constituídos em Tribunal do Júri.
Representava o Juiz um ‘Tenente de Justiça’, que também era eleito pelo
Grande Conselho (Assembleia), com alguns auxiliares; (3) Conselho dos
Duzentos, cujo nome já indica o número de sua composição. Ficava entre o
pequeno e o grande Conselho. Este Concílio foi criado bem mais tarde, já em
1526. Quando foi criado, algumas atribuições do Grande Conselho passaram
para ele: por exemplo, a eleição do Pequeno Conselho. O Pequeno Conselho,
além de suas atribuições, que não eram muitas, executava as resoluções dos
Concílios superiores. Era um tipo de ‘Poder Executivo’, falando-se em
linguagem moderna; (4) o Grande Conselho, Conselho Geral, ou Assembleia,
como era chamado. Era todo o povo reunido, exercendo sua autoridade
suprema, ora legislando, ora elegendo outros concílios, outorgando-lhes
poder para legislar. Era o poder supremo. Este Concílio, quer direta ou
indiretamente, elegia todos os outros menores”.[29]
E o mesmo autor continua afirmando que “João Calvino, com
fundamento em sua teologia, aperfeiçoou e aprofundou esse sistema de
governo com tanta perspicácia e eficiência, que até hoje é o sistema de
governo presbiteriano; e, com algumas modificações secundárias, porém
mantendo as mesmas bases, é o sistema de governo adotado por todos os
países que realmente são democráticos”.[30]

1.2. Os pré-Reformadores — sua motivação

João Calvino veio ao mundo num cenário de domínio católico


absoluto, de guerras, de descobertas de novas terras, de invenções científicas
(astronomia, imprensa etc.) e já com movimentos de reforma religiosa em
vários países.[31] Não fazia muito tempo, a história assistiu o impacto de
grandes vultos que buscaram reformar a igreja: Pedro Valdo, na Itália; João
Hus, na Boêmia; Jerônimo Savonarola, também na Itália; tradutores da
Bíblia, como John Wycliffe, Inglaterra; William Tyndale, Inglaterra. Esses
homens foram eliminados pela Igreja de Roma, porém deixaram uma
influência de relevância tão imensa, que a igreja papal não conseguiu
destruir.

1.3. Devassidão da Igreja

Além de guerras intermitentes, a busca de poder absoluto,


possivelmente o que mais abalava o mundo de então fosse a profunda
devassidão moral e política não só do clero romano, mas inclusive do trono
papal. A religião havia chegado ao ponto mais torpe de sua história. Não
havia ficado praticamente nada da religião do sublime Nazareno. Aquela
religião apostólica simples e poderosa em obras havia desaparecido. Em seu
lugar, surgiu um cristianismo romanizado; ou, melhor, paganizado. Pois a
igreja havia adotado todo o sistema religioso e político do Império Romano.
Nesse tempo, a Igreja de Roma e a Bíblia tinham pouco em comum, para não
dizer nada.

1.4. Decadência generalizada

Lendo seu tratado sobre A necessidade reformar a igreja, deparamos


com estas palavras:

No tempo em que a divina verdade jaz sepultada sob esta vasta e


densa nuvem de trevas — quando a religião foi conspurcada por
tantas superstições ímpias —, quando por meio de horríveis
blasfêmias o culto divino foi corrompido e sua glória, prostrada
—, quando por meio de uma multidão de opiniões perversas o
benefício da redenção foi frustrado, e os homens, inebriados
com uma fatal confiança nas obras [humanas], buscavam a
salvação em qualquer parte, menos em Cristo —, quando a
ministração dos sacramentos foi em parte mutilada e rasgada,
em parte adulterada pelo misto de numerosas ficções, e em parte
profanada pelo tráfico lucrativo —, quando o governo da Igreja
se degenerou em mera confusão e devastação —, quando os que
se assentaram na cadeira dos pastores, primeiramente fizeram
injúria mui vital à Igreja pela degradação de suas vidas, e, em
segundo lugar, exerceram uma tirania cruel e nociva sobre as
almas com todo tipo de erro, levando os homens como ovelhas
para o matadouro —, então, ergueu-se Lutero, e depois dele
outros, os quais com conselhos unificados buscaram os meios e
os métodos pelos quais a religião pudesse ser purgada de todas
essas conspurcações, a doutrina da piedade foi restaurada à sua
integridade e a Igreja se ergueu de sua condição calamitosa para
uma condição um tanto mais tolerável.[32]

E quando apresenta sua réplica ao Cardeal Tiago Sadoleto, ele diz:

Deveras, ó Sadoleto, não negamos que aqueles aos quais


presides sejam igrejas de Cristo, porém afirmamos que o
pontífice romano, com todo seu bando de pseudobispos, que têm
açambarcado o ofício de pastor, são lobos vorazes, cujo único
empenho até aqui tem sido dispersar e pisotear o reino de Cristo,
enchendo-o com ruína e devastação. Pois a iniquidade alcançou
seu auge, e agora aqueles lúgubres prelados, por quem crês que
a Igreja fica de pé ou perece, e por quem afirmamos que ela tem
sido cruelmente rasgada e mutilada, e levada à beira da
destruição, não se podem ouvir seus vícios nem curá-los. Pois
em todos os lugares onde prevalece a tirania do pontífice
romano, raramente verás outra coisa senão tantos becos e
vestígios esparsos de defeitos, pelos quais poderás julgar que as
igrejas jazem como que semi-sepultadas.[33]

1.5. Torpe superstição

Calvino sentia horror de tudo quanto se podia denominar de


superstição. Tudo quanto não se enquadra na revelação divina da Escritura,
que viola a glória de Deus, que desvia a pessoa da verdadeira fé ele tinha, e
com razão, como sendo superstição. A Igreja de Roma havia caído na mais
torpe crendice que suplantava até mesmo as religiões pagãs.

Naqueles dias, o povo se dispunha a crer em qualquer coisa. A


igreja dizia que havia alguns cabelos de João Batista, um dente
do Senhor, um pedaço de maná do Antigo Testamento, e
algumas migalhas que sobraram da primeira multiplicação dos
pães. Havia na catedral um fragmento da coroa de espinhos.
Havia, também, relíquias de menor importância, tais como os
restos de um tal Santo Elói. Os monges do mosteiro e os padres
da catedral sempre discutiam sobre a verdadeira localização dos
ossos daquele santo: se no mosteiro ou na catedral.[34]

Este era o cenário, descrito com muita parcimônia, do mundo e da


igreja nos dias em que eclodiu a Reforma Protestante. Era impossível que os
verdadeiros santos olhassem tudo aquilo com espírito impassível.

2. Sua formação doméstica

Foi nesse cenário de revoluções e transformações sociais e religiosas


que nosso Reformador nasceu e cresceu. Tudo o que lemos sobre este tema
nos leva a entender que o menino Calvino vivia quase que direta e
diariamente junto de sua mãe, em casa ou fora de casa, e muito pouco ou
quase nada com o pai. Sua mãe, mulher íntegra e muito religiosa, e
profundamente piedosa, criava seu filho Calvino com o mesmo teor de crença
e piedade. Além dos deveres domésticos, ela atendia também e, sobretudo,
aos deveres religiosos, conduzindo pela mão a seus filhos às missas e às
orações domésticas. O fato é que toda a vida de Calvino esteve envolta por
uma aura de misticismo religioso, sobretudo das superstições subjacentes.
Recebia de seus pais, principalmente de sua mãe, o princípio de obediência a
Deus e a eles. Essa formação seria de vital importância para aquele menino e
para o futuro da Igreja de nosso Senhor.

2.1. Pais de Calvino

Irwin tem um pequeno parágrafo que sumaria bem as ocupações do pai


de Calvino: “Seu pai, Gerardo Calvino, era notário apostólico, procurador
fiscal do condado, escrivão do tribunal eclesiástico e secretário diocesano.
Era conselheiro do clero e da nobreza. Admitido como burguês em 1497, se
casou com Jeanne le Franc, filha de um burguês da cidade. Era, pois, um
homem de posição privilegiada”.[35] Com toda a certeza, não tinha muito
tempo para sua família. Pergunta-se: Isso teria sido positivo na vida do
Reformador?

2.2. Tela de fundo religiosa

E assim Calvino nasceu e cresceu sob a atmosfera religiosa de seu lar


em virtude de sua mãe. Todavia, suas inclinações profissionais teriam tido a
influência de seu pai. Conclusão: bebe da fonte religiosa de sua mãe e da
fonte profissional de seu pai. Com sua mãe, ele recebe as influências
religiosas místicas da época; com seu pai, ele recebe as influências da
ambição material, como um profissional competente, abrangente e de espírito
independente e anticlerical.[36]

3. Sua formação cultural

3.1. Aluno nas melhores escolas

Neste ponto sua mãe desaparece e entra em cena seu pai, dominado
pela ambição cultural e profissional que destinara ao filho. Calvino foi
estudante em grandes escolas e esteve diante de grandes mestres das ciências
humanas. A princípio, seu pai queria que ele estudasse teologia em razão das
vantagens econômicas;[37] depois, resolveu que ele estudasse jurisprudência.
E assim ele se aperfeiçoou na gramática latina, hebraica, grega, além de seu
próprio idioma. Marturin Cordier “adotara métodos modernos para o ensino
da língua, pois usava o que hoje chamaríamos o método direto, em que os
alunos aprendiam a língua falando, conversando sobre coisas práticas, sobre
assuntos da vida diária, versando sobre temas familiares. A ele se atribui a
perfeição e elegância que Calvino exibia. Na opinião de Le Franc, professor
do colégio de Paris, Cordier fez dele um clássico comparado a Rebelais. É
ainda Marturin Cordier que fez de Calvino o latinista perfeito, igual aos
clássicos dos tempos de Sêneca”.[38]

3.2. Primeiras influências protestantes

E Thea segue dizendo que “havia em Orleans um homem chamado


Wolmar, de origem germânica e com inclinações luteranas, excelente
professor de grego. Calvino solicitou-lhe aulas na matéria. Aprendendo a
língua do Novo Testamento, ele podia agora ler os seus livros na língua
original. Lia com a mesma avidez outros escritos gregos”.[39]
Ao embrenhar-se nos estudos de humanidades, isto é, filosofia, ao
aperfeiçoamento de hebraico, latim e grego, além do aperfeiçoamento de seu
próprio idioma, Calvino se qualificava para algo que nem ele mesmo tinha,
no momento, consciência do que seria. Todas as suas obras se acham
calcadas na lógica filosófica com seus silogismos. Quando em suas obras ele
faz menção “do maior para o menor”, ou vice-versa, ele está evocando os
silogismos da lógica. E o estudo da jurisprudência lhe granjeou um grande
potencial para sua interpretação e exposição das próprias leis mosaicas que se
expandem por toda a Santa Escritura. Vale a pena ler seus poderosos e
detalhados comentários sobre os quatro livros da lei, a saber, de Êxodo a
Deuteronômio; e também sua exposição da lei em suas Institutas.

4. Sua experiência de conversão

Quase sempre, numa experiência de conversão, subjaz uma tela de


fundo significativa de influências variadas e vitais no cenário da vida
cotidiana. O Senhor usa pessoas em nosso caminho para nos passar essas
influências, as quais determinam nosso futuro e guiam nossos passos às vezes
sem nem mesmo perceberem.

4.1. Novo Testamento na língua francesa

No caso de Calvino, Briçonet influenciou a Lefèvre, que traduziu o


Novo Testamento para o francês, que influenciou a Guilherme Farel, que
começou a espalhar o santo Escrito entre o povo: “os cardadores de lã, os
tecelões, os camponeses e os viticultores... liam e conversavam sobre a
Bíblia. Suas igrejas se transformaram. Suas vidas também”.[40]
Com esse substrato, Calvino teve também acesso aos escritos de
Lutero, e sua vida sofreu uma profunda reversão. Enquanto os escritores se
sentem aturdidos por falta de fontes que revelem os primórdios da conversão
do Reformador, é ele mesmo que nos fornece essa chave, na dedicatória de
seus comentários aos Salmos.

... mas Deus, pela secreta orientação de sua providência,


finalmente deu uma direção diferente ao meu curso.
Inicialmente, visto eu me achar tão obstinadamente devotado às
superstições do papado, para que pudesse desvencilhar-me com
facilidade de tão profundo abismo de lama, Deus, por um ato
súbito de conversão, subjugou e trouxe minha mente a uma
disposição suscetível, a qual era mais empedernida em tais
matérias do que se poderia esperar de mim naquele primeiro
período de minha vida. Tendo assim recebido alguma
experiência e conhecimento da verdadeira piedade,
imediatamente me senti inflamado de um desejo tão intenso de
progredir nesse novo caminho que, embora não tivesse
abandonado totalmente os outros estudos, me ocupei deles com
menos ardor.[41]

5. Sua experiência de vocação

Pelo que sabemos de seus biógrafos e suas obras, ele não sentiu um
chamado definido para empreender algo também definido antes de sua
hospedagem em Genebra e a visita que recebeu de Farel na hospedaria. Aliás,
de sua relutância diante do convite de Farel a permanecer em Genebra,
percebemos que seu intuito era aprofundar-se nos estudos para adquirir mero
conhecimento intelectual e espiritual. Aliás, de seu “intenso e inflamado
desejo de progredir nesse novo caminho”, ele está se referindo ao progresso
nos estudos dos Pais da Igreja, porquanto fala do arrefecimento do ardor
pelos estudos filosóficos. Tudo indica que ele se deixou inflamar pelo desejo
de aprofundar-se no conhecimento da Santa Escritura, porém sem uma
vocação definida para fazer algum empreendimento no reino de Cristo, além
disso.

5.1. Encontro com Farel

Ele mesmo, em sua dedicatória ao comentário dos Salmos, revela-nos


como foi visitado por Farel e impactado pelas palavras candentes daquele
homem impetuoso:

Nisso, Farel, que ardia com um inusitado zelo pelo avanço do


evangelho, imediatamente pôs em ação toda sua energia a fim de
deter-me. E, ao descobrir que meu coração estava
completamente devotado aos meus próprios estudos pessoais,
para os quais desejava conservar-me livre de quaisquer outras
ocupações, e percebendo ele que nada lucraria com seus rogos,
então lançou sobre mim sua imprecação, dizendo que Deus
haveria de amaldiçoar meu isolamento e a tranquilidade dos
estudos que eu tanto buscava, caso me esquivasse e recusasse a
dar minha assistência, quando a necessidade era em extremo
premente. Sob o impacto de tal imprecação, eu me senti tão
abalado de terror, que desisti da viagem que havia começado.[42]

5.2. Relutância

Ele segue dizendo que a decisão de ajudar Farel não foi tomada
imediatamente, senão à vista do avanço dos problemas oriundos de um falso
amigo e dos anabatistas. Deus foi canalizando os eventos de tal modo que ele
passou a sentir que ali estava seu campo de batalha e que o Senhor o queria
como seu obreiro.

6. Sua piedade

É muito difícil falar da piedade de Calvino quando uma multidão o tem


na conta de déspota, carrancudo, ou mal-humorado, um vulto impiedoso que
reduziu o homem a nada, que acreditava e ensinava que o não eleito pode
gritar junto dos portões celestiais, sem cessar, que jamais será ouvido. Esta é
uma infame caricaturização da pessoa e teologia do grande Reformador
genebrino.
Somos informados (ou mal informados) que ele mandou matar um
herege que não era tão mau assim; que dominou Genebra com punho de
ferro; e que foi o inventor da predestinação e o pai do capitalismo.
Ao longo dos anos, vertendo suas obras para o vernáculo, passei a ter
com o Reformador uma convivência diurna e noturna. Estou com ele quando
vou para o leito e quando me levanto. Estou com ele diariamente em minha
oficina de trabalho e na rua. Estou com ele quando adentro os templos;
quando assomo o púlpito como expositor da Santa Escritura, abrindo-a para
alimentar o povo e anunciar o evangelho da salvação. Estou com ele quando
dialogo com as pessoas a seu respeito.
Enquanto verto seus escritos para o vernáculo, com frequência me
detenho, emocionado, olho para o alto e rendo graças ao Senhor pela
interpretação e exposição daquele homem misterioso que via nas entrelinhas
da Santa Escritura o que comumente os expositores desatentos não
conseguem notar.
Assento-me nos bancos da Igreja de São Pedro para ouvir seus
ardorosos sermões; e que sermões! Olho ao redor e vejo todos estatelados
nele; e de vez em quando alguém enxuga as lágrimas. Assento-me ao redor
de uma grande mesa para receber de suas mãos o sacramento da Ceia e
quando ele ministrava o sacramento do batismo.
Tenho a permissão de assentar-me nas cadeiras da Universidade de
Genebra para ouvir suas dissertações sobre assuntos variados e profundos, as
quais contribuíram para mudar o modo de pensar do mundo. Durante aquele
período, vejo jovens vindos das diferentes partes do mundo para estudar as
ciências teológicas aos pés do próprio Calvino e de tantos outros grandes e
santos mestres.
Vou inclusive à sua casa, e ele deixa que eu adentre seu quarto,
enquanto, em meio a dores lancinantes, recostado em travesseiros, escreve
suas cartas e seus tratados, sem cessar; sua cama está sempre abarrotada de
papéis espalhados e caídos à revelia pelo chão; era como se aquele momento
lhe fosse o último de sua vida terrena.
Ou me ponho ao lado de sua escrivaninha esfumaçada enquanto, à luz
de um velho candeeiro ou velas, ele escreve, afoito, revirando seus
compêndios encardidos; compondo seus comentários e revisando suas
Institutas e demais escritos; preparando seus sermões e delineando teses em
defesa da plena verdade.
Ando pelas ruas, ao seu lado, enquanto os moradores instigam seus
cães contra ele, chamando-os pelo nome do Reformador com o fim de
insultá-lo e intensificar sua ignomínia. O que vejo? Seguindo sempre em
frente, ignorando tudo, como se diante de seus olhos ele só visse a glória
celestial de seu Supremo Senhor e sua missão de reformador de sua Igreja.
Acompanho suas ardentes orações, feitas como se estivesse
diretamente diante do tribunal divino. Orações candentes, saindo do coração
de um profeta e se detendo diante do trono da Graça. Descobri que ele
terminava cada sermão com uma oração, sempre chamando seu Deus de
Onipotente.
Inclusive, fiz uma boa caminhada com ele quando expulso de Genebra
e estabelecia temporariamente sua residência em Estrasburgo por três anos.
Ali ele desenvolveu muitos de seus escritos. Ali ele encontrou aquele lenitivo
que não tinha em Genebra e foi aí que ele decidiu casar-se com Idelete.
Estava com ele quando uma delegação genebrina foi buscá-lo de volta.
Que cenário dramático! Ainda ouço suas ardentes palavras de perplexidade e
lamento, dizendo que não queria, mas tinha que obedecer ao impulso do
Espírito Santo e regressar ao seu “inferno”, isto é, Genebra. Voltou e
recomeçou sua obra sem dobrar para a direita ou para a esquerda. Eu estava
lá quando ele pregou seu primeiro sermão, partindo do mesmo texto que
interrompera com a expulsão.
Eu estava lá, em torno da mesa do Senhor, quando ele se levantou e
enfrentou os libertinos que queriam tomar a Ceia com extrema indignidade.
Estava com ele quando pediu ao conselho da igreja que não sinalizasse
seu túmulo para que ninguém jamais soubesse onde fora sepultado o mais
indigno servo de Jesus Cristo. Porquanto dizia: “Não quero ser exaltado no
lugar de meu único Senhor!”.
Por meio da tradução de seus escritos, tenho sido testemunha quase
ocular da piedade daquele santo varão genebrino. Cada página de seus
escritos transpira sua piedade. Detenho-me com muita frequência para
enxugar as lágrimas de emoção ao verter suas palavras tão candentes e
repassadas de profunda compaixão e ardor. Ele sentia profunda e ardente
paixão por seu Deus.

6.1. Ele já era piedoso —

6.1.1. Em sua infância:

Podia-se ver sua piedade desde quando levado pela mão de sua devota
mãe que frequentemente visitava os templos suntuosos.
Seus primeiros passos na piedade foram junto de sua mãe, segurando
sua mão: quando ela o instruía no lar, quando orava com ele, quando o
aconselhava, quando o afagava no leito. Ela fazia isso dia e noite.

6.1.2. Em sua experiência de conversão:

É em seus comentários aos Salmos que lemos de sua confissão quando


se converteu à fé evangélica. Aliás, os biógrafos dele têm dificuldade em
encontrar material substancioso sobre sua experiência nesta área. Ele quase
não falava de si mesmo.
Temos aqui um exemplo de sua piedade, pois sua missão não era falar
dele mesmo, e sim de seu bendito Senhor que o chamara para seu serviço.
Não era sua pessoa que estava em pauta, e sim a Pessoa de seu Deus.
Calvino seguiu a mesma meta dos profetas, cuja missão não era falar
deles mesmos, e sim daquele que os enviara. Sua mensagem não visava à sua
experiência, e sim à vontade de quem lhes confiara a tarefa de transmitir uma
mensagem ao povo na qualidade de meros arautos da verdade celestial.
Ele mesmo, falando de sua experiência de conversão, declara:

Tendo-me assim recebido alguma experiência e conhecimento


da verdadeira piedade, imediatamente me senti inflamado de um
desejo tão intenso de progredir nesse novo caminho.[43]

Ao comentar Gálatas 4.6, ele faz esta afirmação:

O fundamento de nossa vocação [para a vida eterna] é a eleição


divina gratuita pela qual fomos ordenados para a vida antes que
fôssemos nascidos. Desse fato depende nossa vocação, nossa fé,
a concretização de nossa salvação.

Ele quer dizer que atribuía unicamente a Deus toda a causa de sua
conversão e salvação. Em parte alguma ele atribui a si sequer uma partícula
de mérito pessoal. E a vocação para o ministério sagrado depende de e segue
a vocação para a vida eterna.
Aliás, possivelmente este seja o gonzo em torno do qual girava toda
sua vida cristã. Pois temer a Deus é justamente ver nele toda a existência e o
governo de tudo. Eis suas próprias palavras: “Chamo piedade à reverência
associada com o amor de Deus que nos faculta o conhecimento de seus
benefícios”.[44]

6.1.3. Em sua consagração pessoal:

“Porque sei que não sou meu próprio mestre, ofereço meu coração
como um sacrifício verdadeiro ao Senhor.”[45] E: “Meu coração te ofereço, ó
Senhor, com prontidão e sinceridade”.[46]
Todas as suas declarações escritas são de profunda devoção e piedade.
Para ele, o que importa é Deus, e o que vem dele deve retornar para ele na
forma de obediência, serviço e glorificação. Sua afirmação contínua era:
“Duas coisas estão unidas... ensino e oração”. E: “doutrina sem zelo é como
uma espada na mão de um louco; serve para uma ostentação vã e perversa”.
[47]
Seus sermões começavam sempre com a oração:

Concede-nos, ó Senhor, que meditemos sobre os mistérios


celestiais de tua sabedoria, com verdadeiro progresso na
piedade, para tua glória e nossa edificação. Amém.[48]

E ensinou amplamente: Teologia é conhecer quem e o que Deus é;


piedade é abraçar atitudes corretas para com ele e fazer o que ele quer.

A verdadeira piedade consiste em um sincero senso de amar a


Deus como Pai, enquanto o teme e o reverencia como Senhor,
abraça sua justiça e teme ofendê-lo mais que a própria morte.[49]

O homem pio confessa: Somos de Deus: vivamos, pois, para ele


e morramos para ele. Somos de Deus: então, que sua sabedoria e
vontade governem todas as nossas ações. Somos de Deus: então,
que todas as partes de nossa vida se empenhem
concomitantemente em prol dele como nosso único alvo
legítimo.[50]

Comentando Jeremias 26.4, ele declara: “... a única maneira de


vivermos piedosa, justa, santa e retamente é deixando-nos governar pelo
Senhor”.[51]
E diz com muita frequência que a fé que não leva a uma vida de oração
e piedade não pode ser a fé genuína.

6.1.4. Em sua visão de Deus:


Foi sua visão de Deus que fez dele um homem profundamente piedoso.
Ao comentar o terceiro versículo do primeiro capítulo de seu comentário ao
profeta Ezequiel, ele faz esta afirmação tão sublime:

Daí requerer-se que todos os mestres da Igreja, antes de tudo,


tenham sido estudantes e alunos, de modo que somente Deus
retenha seus próprios direitos e seja o único Senhor e Mestre.[52]

Como, pois, a suprema autoridade reside exclusivamente em


Deus, quando os profetas desejam ser ouvidos, não professam
oferecer seus próprios comentários, mas anunciam fielmente a
mensagem de Deus.[53]

6.1.5. Em sua visão da Bíblia:

A Escritura é a escola do Espírito Santo na qual nada se omite


que não seja benéfico ou útil; nela nada há que devamos ignorar.
[54]

Os pregadores devem ser como pais que dividem o pão, em


pequenos pedaços, para alimentar os filhos.[55]

E sabemos que nada é mais valioso e aprovado por Deus do que


uma sincera atenção para com a piedade; daí a Igreja ser
instruída, na primeira tábua da Lei, como ele deve ser cultuado.
[56]

Ele costumava dizer, reiteradamente, que a Santa Escritura é a cartilha


de Deus para que seu povo conheça aí sua eterna vontade.
E diz ainda que toda novidade em questão de religião é falsa, porque
nada, além da Bíblia, deve ser crido acerca da vontade de Deus.

6.1.6. Em sua visão de Reformador da Igreja:


Ele mesmo narra de quando, passando por Genebra, Farel o abordou
para que ficasse na cidade e empreendesse ali uma reforma religiosa:

William Farel me deteve em Genebra, movido por uma


fulminante imprecação, a qual me fez sentir como se Deus
pessoalmente, lá do céu, houvera estendido sua poderosa mão
sobre mim e me aprisionasse.

E, ao descobrir que meu coração estava completamente


devotado aos meus próprios estudos, para os quais desejava
conservar-me livre de quaisquer outras ocupações, e percebendo
ele que nada lucrava com seus rogos, então lançou sobre mim
sua imprecação: “Que Deus amaldiçoe seu isolamento e a
tranquilidade dos estudos que você tanto busca”.[57]

6.1.7. Na defesa da fé e da sã doutrina:

Calvino dizia que o pastor tem duas vozes: uma, para apascentar as
ovelhas; a outra, para espantar os lobos.
Esse grande Reformador era incansável na defesa da fé e na exposição
da sã doutrina. Aliás, ele nada mais queria fazer senão uma exposição fiel da
Santa Escritura que fizesse o povo de Deus volver-se para suas santas
páginas, cresse, fosse edificado e a proclamasse aos outros.
Por isso mesmo ele dizia que toda especulação fora das páginas do
Santo Livro é blasfema e só serve para desviar os fiéis.

6.1.8. Em suas correspondências:

Temos aqui um imenso oceano. Em toda sua azáfama, ele encontrava


tempo para escrever a reis, a príncipes, a magistrados, a prelados, a papa, a
colegas de ministério, aos mantidos nas masmorras por causa do Nome de
Cristo.
Ele escreve a Martinho Lutero:

Ao excelentíssimo pastor da igreja cristã, Dr. M. Lutero, meu


respeitadíssimo pai.[58]

A Melanchton:

Quisera que o sentimento de solidariedade, que me permite


compadecer de você e partilhar de sua aflição, tivesse também,
de algum modo, o poder de aliviar sua tristeza.[59]

A William Farel:

A graça do Senhor seja com você, irmão, cujo coração é


irrepreensível.[60]

Aos presos por causa de sua fé. Ele descia também às masmorras para
falar aos corações dos irmãos que foram lançados ali pelas mãos da “Santa
Inquisição”:

Meus irmãos: Passamos alguns dias em ansiedade profunda e


tristeza inigualável ao ouvirmos sobre a solução tomada pelos
inimigos da verdade. Aguardamos o evento conforme aprouver a
Deus, suplicando-lhe que os sustente e não permita que
apostatem.[61]

6.1.9. Em sua austeridade:

6.1.9.1. Quanto ao homem em si mesmo:

Severidade quanto ao próprio ser humano em sua natureza decaída.


Uma das coisas que desgostam os grandes pensadores acerca de João Calvino
é como ele encarava e avaliava o ser humano.
“A menos que haja alguma restrição, a condição das bestas selvagens é
melhor e mais desejável que a nossa.”[62]
Ao terminar cada obra com Soli Deo Gloria, ele não permitia que o
homem recebesse qualquer glória, a não ser em Cristo. O homem sem Cristo
é o ser mais abjeto da face da terra.
6.1.9.2. Quanto ao caso de Miguel Serveto:

Aqui não há como estender-me sobre a experiência de Calvino no caso


Serveto. É muito complexo e reclama uma abordagem específica. Apenas
direi algumas coisas que provam a piedade do Reformador até mesmo em um
caso que lhe granjeou a fama de “assassino e monstro”.
Quando viu que o Pequeno Conselho não o atendia para mudar o
método da execução, da fogueira para a decapitação, ele visitou Serveto e lhe
disse:

Creia-me, jamais tive a intenção de processá-lo por causa de


alguma ofensa pessoal contra mim. Há dezenove anos,
colocando em perigo minha vida, quis encontrar-me com você
em Paris e ganhá-lo para nosso Senhor.

E, depois, enquanto você vivia como um fugitivo, quis


novamente mostrar-lhe o caminho certo através de minhas
cartas, até que você começou a odiar-me por causa de minha
firmeza. Mas peça perdão ao Deus perene contra quem você tem
blasfemado. Reconcilie-se com o Filho de Deus, o Salvador.[63]

Na introdução de suas cartas, traduzidas e editadas por Editora Cultura


Cristã, lemos o seguinte:

Calvino não foi mais culpado do que seus concidadãos, nem


mais culpado do que as igrejas protestantes e a hierarquia
católico-romana que exigiam a execução de Serveto.[64]

É preciso lembrar bem que Calvino nunca fez condenar a nenhum


católico romano por questão religiosa. No caso de Miguel Serveto, é
indispensável perguntar: Por que o Reformador se mostrou tão feroz contra
aquele homem? Havia algo terribilíssimo naquele blasfemo que era
insuportável tanto para a igreja papal quanto para a Igreja Reformada: ele
blasfemava da Trindade com palavras execráveis que reclamavam punição
máxima.
6.1.9.3. Seu confronto com Tiago Sadoleto:
Em sua réplica ao cardeal Tiago Sadoleto, encontramos no início
expressões que revelam sua majestosa figura defendendo seu povo contra a
investida de um inimigo astuto, poderoso e de grande erudição. Ali, ele diz:

Confio que, depois de explicar a natureza de meu


empreendimento, não só serei isentado de toda culpa, mas não
haverá sequer um indivíduo que não admitirá que a causa que
tenho empreendido não poderia, por essa conta, ser abandonada
sem que vilmente estivesse desertando-me de meu dever.

E, logo adiante, ele se expressa com todo o requinte de beleza literária


e humildade de espírito:

Todavia, se me houveras atacado em meu caráter privado,


facilmente eu poderia ter perdoado o ataque em consideração de
tua erudição, e em honra das letras.

Mas quando vejo meu ministério, o qual estou certo de ser


apoiado e sancionado pela vocação divina, ser ferido em meu
peito, seria perfídia, não paciência, ficasse eu aqui em silêncio e
conivência.

Não foi sem razão que o grande teólogo Karl Barth escreveu sobre
João Calvino:

Calvino é uma catarata, uma floresta primitiva, um poder


demoníaco, algo vindo diretamente do Himalaia, absolutamente
chinês, estranho, mitológico; perco completamente o meio, as
ventosas, mesmo para assimilar esse fenômeno, sem falar para
apresentá-lo satisfatoriamente. O que recebo é apenas um
pequeno e tênue jorro e o que posso dar em retorno é apenas
uma porção ainda menor desse pequeno jorro. Eu poderia feliz e
proveitosamente assentar-me e passar o resto de minha vida
somente com Calvino.[65]
Naturalmente, ele não se reportava somente à inteligência e capacidade
do Reformador, mas também a todo seu caráter. Pois ele foi um gigante não
apenas em sua capacidade literária, mas, sobretudo, em seu caráter de cristão
piedoso e servo de Jesus Cristo.

7. Sua determinação

Um dos aspectos em nosso Reformador é sua determinação gerada por


uma profunda convicção de que ele fora chamado para ser o reformador de
Genebra. Encontramos por toda parte de suas obras sua afirmação de que não
podia retroceder. E ensinava aos seus leitores a que procedessem da mesma
forma. Suas cartas estão saturadas desse espírito.
Por exemplo, após retornar a Genebra depois de ser expulso, lemos que
ele “abriu a Bíblia na mesma página em que havia fechado três anos e meio
antes, tomou a página seguinte como seu texto e procedeu à exposição como
se nada a tivesse interrompido”.[66]
À luz desta determinação, notamos em suas obras algo inusitado: ele
nunca permitiu que sua exposição fosse mais pobre em um lugar e mais rica
em outro. Ele mantém um padrão uniforme em suas exposições. Com
frequência, ele reitera o que diz em tantos lugares: “Sendo que já expus este
assunto em outro lugar, não vou gastar mais tempo com ele, para não cansar
os leitores”. E segue em frente sem ceder à exaustão.
Ele não retrocedia diante de nenhum obstáculo. Nada e ninguém o
faziam deter-se. Ao ser expulso pelo Conselho, saiu da cidade e se foi em seu
caminho. Ao ser buscado, ele voltou e seguiu em frente no mesmo nível que
havia começado. Não retrocedia diante das contradições feitas aos seus
escritos. Quando afirmava uma doutrina, fazia-o de tal modo que não se
retratava por não ter de que se retratar, pois seguia em frente com a mesma
convicção de antes.
João Calvino — Pastor e Pregador

Duas das facetas mais dramáticas e grandiosas na reforma empreendida


por João Calvino são a do pastoreio e da nutrição do rebanho com a palavra
da verdade conjugadas, pois é praticamente impossível exercer o ministério
cristão sem o duplo exercício do cuidado do rebanho: assistência pastoral e
nutrição com a exposição da Palavra. Ele levava ao extremo estas duas
facetas de sua reforma genebrina.

1. O pastoreio do rebanho

Especificamente, tratamos primeiro do pastoreio em si antes da


exposição da Palavra, ainda que as duas funções estejam intrinsecamente
jungidas uma à outra e a Palavra da verdade seja usada como remédio e
alimento. O pastoreio consiste no governo e vivência constante com o
rebanho; a exposição é feita do púlpito ou fora dele com vistas à orientação,
conhecimento e aplicação das verdades bíblicas.
Uma boa análise de João Calvino como pastor se encontra no livro de
Ronald Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, capítulos 12 a 14. Ali
Wallace diz que o pastor é um curador de almas, um guia e conselheiro.
Equivale dizer, o pastor é um médico de almas; ele pastoreia e apascenta o
rebanho de Jesus Cristo. Ele busca, por todos os meios, a salvação eterna, a
cura e a boa preservação das pessoas doentes, no mais profundo de seus
seres.
Ele diz que “o verdadeiro pastor tem duas vozes diferentes — uma para
chamar a ovelha e a outra para espantar os lobos vorazes”.[67]
Definindo termo.
Comentando Romanos 15.16, Calvino afirma que:

O sacerdócio do pastor cristão consiste em oferecer os homens


em sacrifício a Deus, ao conduzi-los à obediência do evangelho,
e não, como os papistas até agora arrogantemente ostentam, em
oferecer Cristo [em sacrifício] para reconciliar os homens com
Deus. Não obstante, Paulo aqui não faz referência aos pastores
da Igreja simplesmente como sacerdotes, como se devessem
levar o título a eles referido perpetuamente, mas que tomou a
oportunidade para fazer uso desta metáfora, posto que ele
desejava enaltecer a dignidade e a eficácia do ministério.[68]

Portanto, para ele, a suma do ministério pastoral é proclamar o


evangelho ao mundo, arrebanhar os conversos por meio dessa proclamação,
formar grupos ou igrejas para a ministração dos sacramentos, para o ensino
da Palavra e a disciplina dos fiéis na fé. Aliás, ele sempre ensinou que há três
marcas numa igreja genuína: o correto ensino da Palavra, a correta
celebração dos sacramentos e a correta aplicação da disciplina aos membros
da igreja. Os dois primeiros sinais cabem ao exercício pastoral; e o terceiro
cabe ao conselho da igreja.
Para ele, há na Santa Escritura quatro ofícios: pastor, mestre/doutor,
presbítero e diácono. O pastor deve ser “um presbítero ordenado
compromissado com a pregação e o ensino da palavra de Deus, com a oração
intercessória e a supervisão da ministração dos sacramentos do batismo e da
ceia do Senhor”. E mais:

O mestre/doutor tem de se concentrar no treinamento acadêmico


dos pastores, provendo aulas regulares de teologia e
resguardando a pureza doutrinária da igreja.

O presbítero deve ser leigo ordenado e separado para oferecer


supervisão à igreja, guiando e pastoreando o rebanho, ao mesmo
tempo que se engaja em oração intercessória consistente e,
quando necessário, implementa a disciplina.

Calvino dividiu o ofício de diácono em duas ordens: uma


gerencia os recursos da igreja e fornece supervisão
administrativa; a outra cuida dos enfermos e necessitados,
liderando a igreja no ministério de misericórdia.[69]

2. Vocação e preparo

A conversão e a vocação ministerial de Calvino são bem pouco


focalizadas. De sua conversão, lemos em seu prefácio ao comentário dos
Salmos:

Por meio de uma conversão repentina, Deus subjugou e


preparou minha mente para ser ensinada a respeito das coisas
espirituais, o que aconteceu de forma mais intensa do que se
esperaria de uma pessoa de minha idade. Tendo, desse modo,
recebido uma amostra e algum entendimento da verdadeira
piedade, fui imediatamente estimulado com um desejo tão
intenso de fazer progresso neste conhecimento que, embora não
tenha abandonado por completo os outros estudos, eu os buscava
com menos fervor.[70]

Tudo indica que sua vocação ministerial se achava atrelada à própria


conversão, à semelhança de Saulo de Tarso que, logo após seu encontro com
o Cristo glorioso, se sentiu também impelido ao ministério apostólico. O fato
é que Calvino se converteu já com a “mão na massa”. Assim que seu coração
se inflamou, não teve nada mais em mente senão tomar posse do pleno
conteúdo da Santa Escritura e ensiná-lo com a máxima precisão. Poucos
homens, no seio da Igreja de Cristo, tiveram o mais amplo domínio da Bíblia
como Calvino o teve. A ponto de afirmar que “qualquer coisa que não
estivesse alicerçada na Palavra de Deus era futilidade e ostentação efêmera; e
o homem que não confia nas Escrituras deve ser destituído de seu título de
honra”.[71] “O alvo de um bom professor é fazer com que os homens tirem os
olhos do mundo a fim de olharem para o céu.” “O dever do teólogo não é
entreter os ouvidos com algazarra, e sim fortalecer as consciências através do
ensino de coisas verdadeiras, certas e proveitosas.”[72]
Ele ensinava com muita frequência que “o pastor tem duas vozes: uma,
para guiar as ovelhas; e a outra, para espantar os lobos”.
Quanto a guiar as ovelhas com a voz profética, de fato raramente há
um pastor, hoje, que guie tão bem seu rebanho, que o alimente, que o oriente,
que lhe dê segurança neste mundo tenebroso, como fez João Calvino. Ele
viveu intensamente não só em prol de seu próprio rebanho, mas escrevia suas
cartas a pessoas desde o trono até os guetos, escrevia suas apologias, suas
teologias, seus comentários fielmente bíblicos para o bem do rebanho
universal do Senhor Jesus. Se houvera vivido mais teria comentado toda a
Bíblia. Mas tão cedo silenciou-se a voz profética desse grandioso pastor. Sua
voz acalentou não só os rebanhos de seus dias, mas continua acalentando os
rebanhos de todos os tempos. Ele escreveu suas Institutas principalmente
para orientar bem seu rebanho. Por muito tempo, esse livro foi o parceiro da
Bíblia nas mãos dos crentes leigos como um manual de devoção. Ele ajudou
a formar crentes fortes e aguerridos no seio das igrejas. As pessoas
individualmente e as igrejas eram fortes porque amavam o conhecimento de
Deus nas Escrituras. Hoje as igrejas se divertem com entretenimentos
variados, e os pastores se comprazem com teatro no lugar de culto, crendo
que Deus se apraz com esses panegíricos. O culto bíblico foi substituído por
formas religiosas ecléticas e o ensino bíblico genuíno e profundo foi
substituído por mensagens que agradem os ouvidos de religiosos vazios de
conteúdo bíblico.
Quanto à voz que espanta os lobos, isso ele fez de modo exuberante.
Em todos os seus escritos há poderosas faíscas que estilhaçam o poder dos
perseguidores do rebanho de Deus. Seu primeiro escrito como pastor foi
Psicopaniquia. Ali ele dissipa a antiga heresia de que, após a morte da
pessoa, sua alma dorme com o corpo, até o dia do Juízo Final. E hoje
enfrentamos a mesma heresia com uma máscara de veracidade, e é aceita e
professada por milhares de pessoas.
Mais tarde escreveu Réplica ao Cardeal Sadoleto, que queria repatriar
o rebanho genebrino ao seio da Igreja Mãe, a Santa Igreja Católica
Apostólica Romana. E o teria conseguido, se aquele feroz pastor, com o qual
o Cardeal não contava, não saísse como que de sua torre de vigia, com cacete,
com pedras, com gritos, com poder, com ferocidade, brandindo sua espada
cortante de ambos os lados, bem longa, afiada ao máximo, espantando aquele
lobo solerte e bem preparado, fazendo-o voltar assustado, com o rabo entre as
pernas, para o meio de sua caterva (para usar a própria terminologia de
Calvino).
Respondeu às expectativas de seu rebanho contra a incredulidade do
mundo, escrevendo sua tese sobre Jacó e Esaú, Eleição e reprovação;
discutiu sobre A providência secreta de Deus (seus decretos eletivos); sobre a
A necessidade reformar a igreja; compôs uma Confissão de fé e Catecismos;
defendeu a pureza dos dois sacramentos em Breve tratado sobre a santa
Ceia; para mostrar o grande risco que o crente corre ante as tentações da
carne, ele pregou sobre a Queda e restauração do Rei Davi; pregou vários
sermões sobre A pessoa e obra de Jesus Cristo. Ele pregou 159 sermões em
todo o livro de Jó; 48 sermões em Efésios; 43 sermões em Gálatas.
Calvino teve a máxima preocupação com o preparo dos ministros da
Palavra. Para ele, o ministro é o arauto do reino de Deus; o embaixador de
Cristo entre todas as nações; ele é o ministro, o sacerdote da Igreja de Cristo;
o hermeneuta fiel e imparcial da Palavra de Deus escrita. Ele não tem vontade
própria; sua vontade é a de Cristo, o Senhor da Igreja. Ele representa o eterno
dentro do temporal. Todo conhecimento para o ministro do evangelho resulta
sendo ainda pouco. Não há limite para seu conhecimento. E ele usa todo esse
conhecimento na expansão da Igreja e a glória de Cristo. Ele leva consigo a
majestade de Cristo. Quando sobe ao púlpito para explanar a Palavra de
Deus, os cristãos reunidos devem perceber nele a mesma majestade que há no
Filho de Deus. O homem que não tenha tal consciência deve exercer alguma
outra ocupação na igreja, porém não a de ministro do evangelho.
Seu preparo teológico deve ser o mais esmerado possível. Um ministro
que não exerce pleno domínio do conhecimento bíblico traz mais desdita do
que bênção à igreja e à sociedade em que vive, pois vai anunciar muita coisa
equivocada. Ele deve ser excelente em todas as ciências teológicas. E quando
prega do púlpito, ou de algum outro lugar, ele ou granjeia autoridade pela
demonstração de conhecimento, ou denigre a si e ao seu próprio ministério.
Pois ele não pode ensinar o que pense ou queira; sua função é ser um fiel e
exato hermeneuta e exegeta da Palavra. À medida que você lê seus
comentários, vai percebendo que de fato Calvino detinha a posse da Palavra
de Deus. Descobrimos que, quando ele chegava a pregar um sermão, já havia
lido, relido, revirado de ponta cabeça o texto de seu sermão, e isso nas
línguas originais. Enquanto não tivesse pleno domínio daquele texto, ele não
delineava sua mensagem. Hoje temos mais pregadores repentistas do que
dominadores da Palavra de Deus. E ainda, cinicamente, alegam que têm o
Espírito Santo em sua vanguarda, quando ele não vem nem na retaguarda.
Além da incompetência, soma-se a ela o cinismo. Daí, os rebanhos estão
famélicos, cambaleantes, dispersantes em busca de alimento; encontram
refugos, e creem que agora estão sendo bem nutridos pelas bolotas das seitas,
só porque não acham no próprio pasto, ou no próprio aprisco, quem os
alimente, porque são poucos que estão de fato pastoreando e apascentando o
rebanho de Cristo. “Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque
estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36).
O que ocorre com tanta frequência é que as ovelhas se dispersam e
buscam lobos travestidos de pastores, pois nem mesmo sabem distinguir um
pastor verdadeiro do falso. Se o verdadeiro não exerce seu ofício, e o falso o
exerce, então a ovelha é fadada a perder-se ou, ao menos, a se danificar com
alimento falsificado.

3. O arauto da Palavra

A Editora Fiel lançou um excelente livrinho de Steven J. Lawson,


intitulado A arte expositiva de João Calvino. É digno de ser lido e relido. O
que ele expõe ali se acha esparso nas próprias obras do Reformador. Você vai
lendo suas Institutas, seus tratados, seus comentários e suas correspondências
e se depara com esses ensinamentos aqui, ali e acolá.
Mas uma coisa é certa, o conceito que ele nutria pelo púlpito ou tribuna
da Palavra de Deus é algo inusitado; hoje quase já não existe. O Rev. Abdias
Nobre, em seu livro, Manual do pregador, traduziu bem o sentimento de
Calvino pela mensagem divina que ecoava do púlpito:

O púlpito é a Cátedra Sagrada, donde o pregador atira para o


meio das multidões as preciosas mensagens do céu.[73]

Baluarte da verdade, pedestal da justiça, tribunal das


consciências, escola do bem, o púlpito deve refletir sempre os
valores divinais e as virtudes celestiais. A tribuna sagrada tem
sido, para todos os povos cultos, civilizados e cristãos o oráculo
divino, donde tem ecoado a profecia inspirada e verdadeira a
revelar a vontade de Deus em favor dos homens.[74]

A tribuna sagrada é o escudo que mete terror a todas as tiranias,


porque dela partem os raios que aniquilam o erro, dissipam as
trevas, desfazem os grilhões dos cativos, rechaçam os inimigos
da verdade eterna. Dela o pregador, à semelhança do semeador,
vai lançando a semente das ideias que hão de germinar nos
corações, nas mentes, nas consciências, para formar as opiniões,
as correntes doutrinárias que conduzirão a humanidade a
melhores dias e destinos definitivos.[75]
Assim era o púlpito de Genebra.

Em seu prefácio, Lawson diz que “ir ao púlpito é pisar em terra santa”.
[76]
E que “a exposição da Palavra está sendo substituída por entretenimento,
a pregação da Palavra, por espetáculos teatrais, a doutrina, por obras
dramáticas e a teologia, por manifestações artísticas”.[77] E, ao conclamar uma
reforma na igreja moderna, ele diz que “somente um púlpito reformado torna
possível uma igreja reformada”.[78] E, falando do ministério dos grandes
pregadores pós-Reforma, ele diz que “bem no centro destes ministérios
extraordinários havia púlpitos firmados na Palavra”.[79]
Ao volver-se para Calvino, Lawson diz que “ele é ainda hoje o mais
influente ministro da Palavra de Deus que o mundo já viu. Nenhum homem
antes ou depois dele foi tão prolífico e tão profundo no lidar com as
Escrituras”.[80] Calvino costumava dizer que, “quando subimos ao púlpito,
não levamos conosco nossos sonhos e nossas fantasias”.[81] Por quê? Porque
“a Bíblia é a competente, inspirada, inerrante e infalível Palavra de Deus”.[82]
E arremata: “qualquer professor da Bíblia, independentemente de ser humilde
ou notável, que decide ‘misturar suas invenções à Palavra de Deus, ou que
sugere qualquer coisa que não faça parte dela, deve ser rejeitado, por mais
ilustre que seja sua posição’”.[83] “Ele só se via sob a autoridade da
Palavra.”[84] Tinha consciência de que era seu ministro chamado do alto. Para
ele, “a mensagem das Escrituras é soberana: soberana sobre a congregação e
soberana sobre o pregador”.[85] Ele declarava que, “quando a Palavra é
pregada, o próprio Deus está, de fato, presente”.[86] “Onde quer que seja
pregado o evangelho, é como se o próprio Deus viesse para o meio de
nós.”[87]
Quando comenta os primeiros capítulos do livro de Ezequiel, ele faz
esta declaração:

Que os pastores enfrentem todas as coisas sem medo, por meio


da Palavra de Deus, da qual foram constituídos administradores.
Que eles reúnam todo o poder, toda a glória e excelência do
mundo a fim de conferir a primazia à divina majestade desta
Palavra. Que, por meio dela, comandem a todos, desde a pessoa
mais notável até a mais simples. Que edifiquem o corpo de
Cristo. Que devastem o reino de Satanás. Que apascentem as
ovelhas, matem os lobos, instruam e exortem os rebeldes. Que
juntem e separem, que clamem com veemência, se for
necessário, mas que façam todas as coisas de acordo com a
Palavra de Deus.[88]
E ao comentar sobre aquelas duas pedras que faziam parte do peitoral
do sumo sacerdote, chamadas Urim e Tumim, ele diz que muitas coisas já
não sabemos sobre aquelas pedras, mas uma coisa é certa: “o sacerdote
portava os filhos de Abraão como que em seu coração, não só para os
apresentar a Deus, mas também para manter a consciência de que eles
existiam e para fomentar solicitude por seu bem-estar”.

4. O sacerdote dos sacramentos

Calvino nutria o mais intenso respeito e apreço pelos sacramentos.


Tanto que, quando teve de enfrentar o conselho de Genebra que queria que a
Ceia fosse liberada a certos celerados, chamados “libertinos”, ele os
enfrentou e disse:

Vocês podem esmagar estas mãos, podem cortar estes braços, podem
tirar minha vida, meu sangue é de vocês, podem derramá-lo, porém
jamais me forçarão a dar as coisas sagradas ao profano e desonrar a
mesa de meu Deus.[89]

Seu apreço pela santa Ceia era tão imenso, que escreveu um
compêndio em sua defesa. Um compêndio que, pelo título, Breve tratado
sobre a santa Ceia, pareceria pequeno, na verdade é composto de umas 500
páginas. Ali ele discute com celerados, com blasfemos, com papistas, com
luteranos, entre outros.
Ele confronta a Escritura com as teorias humanas da transubstanciação,
da consubstanciação, mantendo que o pão e o vinho não se transformam no
corpo real de Cristo, nem existe ubiquidade do corpo real de Cristo que, na
realidade, está assentado à destra do Pai. Isto é, seu corpo não pode estar sob,
ou no meio, ou sobre o pão e o vinho na Ceia. Ele afirmava que, de fato,
Cristo está presente na Ceia, porém em sua deidade transcendente.
Nem concorda com Zuinglio, que afirmava que a Ceia não passa de
uma mera memória. Enquanto que aqueles esvaziam o céu, trazendo Cristo
para a Ceia, ou o sacrificam num altar imaginário, este esvazia a própria Ceia,
deixando Cristo lá e nos deixando cá sem ele.
Ao comentar a instituição da Ceia, em 1 Coríntios 11, ele diz que a
única Ceia verídica está calcada na autoridade do próprio Senhor Jesus. Por
isso todo seu empenho foi descobrir nas entrelinhas a real intenção do Senhor
ao instituir a Ceia e a interpretação que deram dela os apóstolos. Daí dizer:
“Por isso, quando volvemos nossas costas às normas que os homens
engendram, então a autoridade exclusiva de Cristo permanece inabalável”. E
diz ainda que “o propósito do sacramento [da Ceia] é que sejamos
confirmados na bênção que a morte de Cristo confere”.
Para ele, o pastor é ministro da mesa do Senhor, é sacerdote, sim, não
para sacrificar outra vez a Cristo, e sim para proclamar o Cristo já
crucificado, redivivo e aclamado nos mais altos céus.

5. A autoridade na disciplina

Para Calvino, todo escândalo no seio de uma igreja tem de ser


corrigido pelo conselho da mesma, e que em certos casos é preciso levar o
assunto para a assembleia. Tanto que ele tem este aspecto como sendo uma
das marcas de uma igreja genuinamente cristã. No entanto, para ele há crimes
que merecem uma disciplina sumária.
Em primeiro lugar, ele se preocupa quando a pureza da própria religião
é posta em xeque em razão de ser, de alguma forma, corrompida. Ao
focalizar o capítulo 10 de Levítico, no caso de Nadabe e Abiu, filhos de Arão,
diz ele que ali tentaram conspurcar o culto de Deus, oferecendo fogo
estranho, isto é, um fogo não ordenado por Deus. “Seu crime é especificado,
a saber, ofereceram incenso de uma maneira diferente daquela que Deus
havia prescrito e, consequentemente, embora errassem por ignorância,
contudo condenados, pelo mandamento de Deus, de haverem,
negligentemente, apresentado o que era digno de maior atenção.” “Fogo
estranho é o oposto de fogo santo, o qual ficava perenemente queimando no
altar; não miraculosamente, como pensam alguns, mas pela constante
vigilância dos sacerdotes.” “Aprendamos, pois, a atentar bem para o
mandamento de Deus, não corrompendo seu culto com quaisquer invenções
profanas” — por mais agradáveis que sejam aos nossos sentidos.
Ele censura a Igreja de Roma de apresentar a Deus “fogo estranho” em
suas missas. Se ele vivesse hoje teria que lançar suas abrasadoras invectivas
contra o povo chamado “evangélico”, cujo culto quase não tem qualquer
semelhança com o culto prescrito por Deus.
Em seguida, ele focaliza a vida imoral dos cristãos, discutindo isso no
capítulo 5 de 1 Coríntios, acerca do homem que vivia maritalmente com a
própria madrasta. Nossa atenção se volve para o fato de que, numa igreja
local, é possível gerar-se o crime mais hediondo, como a prática da sodomia,
do estupro, da pedofilia, do incesto, como é o caso aqui. Esse é o lado
humano da igreja que, intrinsecamente, é uma instituição divina.
Primeiro, ele diz que a igreja e o conselho estavam desatentos, ainda
quando o caso fosse notório a todos. Estavam ensoberbecidos, não choravam,
e o profano continuava em plena comunhão com a igreja; assentava-se com a
congregação para a celebração da Ceia do Senhor; participava das decisões
administrativas.
Ele une seu espírito com o espírito da igreja, isto é, une as duas
autoridades, apostólica e eclesiástica, no uso do poder das chaves, para ele
não o fazer sozinho e nem a igreja o fizesse sem o endosso apostólico, “no
nome de nosso Senhor”, no poder dele, “seja entregue a Satanás para a
destruição da carne”.
Ele diz que, para que uma reunião seja celebrada “no nome de Cristo”,
demandam-se duas coisas: (1) que a reunião tenha início com a invocação do
nome de Cristo, o Senhor da Igreja; (2) não se deve fazer nada que não esteja
em conformidade com a sua Palavra.

Portanto, que os cristãos reunidos estejam comprometidos de só


agir depois que o Senhor [da Igreja] seja invocado com toda
sinceridade, rogando que sejam guiados por seu Espírito, e que
todos seus planos sejam, por sua graça, dirigidos rumo a
resultados benéficos.

Para que se faça uma boa abertura, devem igualmente ‘consultar


sua boca’, no dizer do profeta (Is 30.2); em outros termos, após
consultar seus oráculos, devem entregar-se a si e a todos seus
planos em completa obediência à sua vontade.

Ao usar o termo “excomunhão”, ele afirma que essa “excomunhão é


uma ordenança de Deus mesmo, e não do homem; portanto, sempre que a
usarmos, em que ponto devamos começar, senão em Deus?”. E, ao falar do
poder de Deus com os crentes congregados, diz ele: “quão importante é a
excomunhão legítima aos olhos de Deus, visto que ela depende do poder de
dele”.
Ele diz que os “excomungados” são entregues a Satanás, não porque
lhe pertençam, mas para que sejam corrigidos por ele como um azorrague, e
interpreta isto assim: “entregar a Satanás é uma forma adequada de
descrever a excomunhão; visto que, enquanto Cristo reina dentro da Igreja,
Satanás reina fora dela”. Isto é, entregar a Satanás nada mais é que tirar do
excomungado, temporariamente, a proteção dos muros da cidade santa, a
Igreja. Ele cita Agostinho: “em virtude de sermos recebidos à comunhão da
Igreja e de permanecermos nela na condição de que estamos sob a proteção e
responsabilidade de Cristo, afirmo que a pessoa que é afastada da Igreja está,
de certa forma, entregue a Satanás, porquanto se acha alienada e excluída do
reino de Cristo”.

Para a destruição da carne é adicionado à moda de mitigação.


Porquanto Paulo não pretende dizer que a pessoa, ao ser
corrigida, está sendo entregue a Satanás para completa
[definitiva ou sumária] destruição, ou que se fez escrava dele
para sempre, mas que sua sentença é temporária e, ainda mais,
que isso será para seu bem. Visto que, no que concerne ao
espírito, tanto sua salvação quanto sua reprovação são eternas,
ele toma a condenação da carne como sendo temporária.

E parafraseia: “Nós o condenaremos por um período de tempo, neste


mundo, a fim de que o Senhor o conserve em seu reino”.
Isso elimina a calúnia de que Calvino era inclemente e inflexível; que
ele sentia mais prazer em lançar no inferno do que no céu. Por todas as suas
obras percebemos nitidamente seu espírito generoso, clemente, compassivo,
perdoador, chegando a ser quase liberal demais, asseverando sempre que os
crentes precisam ser compreendidos pelas autoridades da Igreja,
principalmente pelo pastor. Dizendo que, se houver rigor demasiado na
disciplina, ninguém se assentará à mesa do Senhor. E que, se passar um pente
por demais fino na membresia da Igreja, ninguém entrará no céu. E que
aqueles que vivem de dedo em riste contra as falhas dos crentes não passam
de fariseus. No púlpito, o pastor é um rigoroso arauto e profeta; no convívio
com os cristãos, ele é um curador, um médico brando e amigo, rindo-se com
os que riem; chorando com os que choram; sofrendo profundamente com e
por seu rebanho. Quando é duro, o faz em razão de seu ofício; quando é
brando, o faz em razão do perdão que emana do próprio Cristo, o supremo
Pastor de seu rebanho; e também porque ele mesmo não é superior
moralmente do que as próprias ovelhas.
Amados irmãos e amigos pastores, que o Senhor da Igreja nos
transforme em verdadeiros pastores de seu rebanho nestes dias de
deformação e decadência; que ele transforme nossos púlpitos em tribuna de
sua eterna salvação e de seus inexoráveis juízos, sim, mas também de uma
genuína “comunhão dos santos”.

JOÃO CALVINO — O TEÓLOGO

1. Método de acomodação divina

Um dos pontos na teologia de Calvino que mais trazem elucidação para


uma boa compreensão da Santa Escritura, em minha opinião e experiência
pessoal, é sua ênfase sobre o método divino de acomodação à capacidade e
circunstâncias humanas enquanto se revela. Eu me valho principalmente da
obra de Edward A. Dowey, Jr., a qual estou traduzindo, intitulada O
conhecimento de Deus na teologia de Calvino. Depois que tomei posse desse
aspecto da revelação divina, passei a compreender muito mais o modo de
Deus revelar-se ao ser humano, especialmente a seu povo.

1.1. Definição de termos

Diz Edward: “O termo acomodação se refere ao processo pelo qual


Deus se reduz ou ajusta às capacidades humanas o que ele quer revelar dos
mistérios infinitos de seu Ser, os quais, por sua própria natureza, estão
[infinitamente] além dos poderes de a mente humana apreender”.[90]
Depois da queda, perdendo o homem quase toda a imagem divina, ou
ficando esta danificada pela corrupção de sua natureza, Deus continua
querendo comunicar-se com ele, agora não só verbalmente, mas também
visivelmente, em razão de sua grande dificuldade em apreender o Ser e o agir
de Deus. Calvino diz que a mente do homem tornou-se tão obtusa e
indisposta para com Deus, que é impossível de, por si só, receber a
manifestação divina. Aliás, em sua maioria, o homem está tão alienado do
Senhor do universo que, se Deus não se lhe manifestar, ele não dará sequer
um passo em direção ao Senhor, nem jamais entenderá quem está se
manifestando; pensará ser Deus um mero fantasma. Mesmo seus filhos,
crentes nele e em sua revelação, não têm a capacidade de ouvir Deus lhes
falando de maneira bem direta. Lemos de patriarcas, profetas e apóstolos
apavorados só porque viam uma leve manifestação do Ser divino.
Young afirma com justeza que:

Deus, o transcendente, incompreensível, usando linguagem


retórica, se condescende, na Escritura, em acomodar-se a eles
[aos crentes], o princípio de acomodação se torna
profundamente importante para a interpretação apropriada dos
textos bíblicos. Nossos exames dos casos em que Calvino apelou
para este princípio deixará claro por que isto é assim. Nos
comentários, nos sermões e nas Institutas, Calvino,
reiteradamente, enfatiza o fato de que Deus se acomoda à nossa
limitada capacidade, a fim de entendermos sua mensagem. Ele
realçava constantemente que Deus, o Espírito Santo, ou os
autores humanos da Escritura, particularmente Moisés, Davi ou
os profetas, se acomodavam, nos atos e na linguagem, aos
ouvintes ou leitores da Escritura. Calvino falava daquela
acomodação como uma “condescendência”, “descida”,
“adaptação”, “Deus se rebaixando de suas alturas”, ou
“chegando mais perto das criaturas decaídas” que eram descritas
variadamente como “multidão sem instrução”, “homens
iletrados”, “rudes e broncos” ou “pessoas humildes e indoutas”,
“infantes” ou “pequeninos”. Porque não passamos de criaturas
broncas em comparação com o infinito Criador do céu e terra,
somos uma plebe de capacidade limitada. Calvino falava assim
de Deus ou dos escritores bíblicos como se acomodando à
“capacidade dos homens”, “a capacidade da idade”, “a
capacidade comum de cada pessoa em sua simplicidade”, “a
capacidade do povo”, “a capacidade dos indoutos”, “nossas
frágeis capacidades”, “as capacidades mutáveis e diversificadas
do homem”, “nossa capacidade”, “nossas ínfimas capacidades”
ou “nossa limitada capacidade”.[91]

Comentando Ezequiel 9.3, diz Calvino: “Deus não pode ser


compreendido por nós exceto à medida que ele se acomoda ao nosso padrão”.
[92]
Discorrendo sobre o livro do Gênesis, ele afirma, em 3.8:

Pois, visto que em si mesmo é compreensível, ele assume,


quando deseja manifestar-se aos homens, aquelas marcas pelas
quais possa ser conhecido.[93]

E, ao discorrer sobre Romanos 1.19, afirma que

Isto subtende que não podemos conhecer plenamente a Deus, em


toda sua grandeza, mas que há certos limites dentro dos quais os
homens devem manter-se, embora Deus acomode à nossa
tacanha capacidade toda declaração que ele faz de si mesmo.[94]

E, em 1 Coríntios 2.7, ele afirma que “Deus se acomoda à nossa


capacidade quando nos fala”.[95]

Quando discorre sobre Êxodo 3.2, declara que:

Era necessário que ele assumisse uma forma visível, para que
fosse visto por Moisés, não como era em sua essência, mas
como a fragilidade da mente humana pudesse compreender. Pois
assim cremos que, sempre que Deus aparecia aos santos
patriarcas, de alguma forma descia de sua santidade, para
revelar-se enquanto fosse útil e o quanto a compreensão deles o
permitisse.[96]

Quando escreve a Timóteo (1Tm 6.16), Paulo apresenta três elementos


na subsistência eterna de Deus: imortalidade, inacessibilidade e
invisibilidade.

... o único que possui imortalidade, que habita em luz


inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de
ver. A ele honra e poder eterno. Amém.

1. “O único que possui imortalidade”, isto é, imortalidade essencial,


eterna, não derivada, como o é a nossa; a dele é inerente à sua natureza
infinita. Daí a expressão bíblica reiterada tantas vezes: “o Deus vivo”,
“aquele que vive”, isto é, “aquele que vive para sempre” em si e por si
mesmo. Aqui, Calvino afirma que “Paulo está preocupado em demonstrar
que à parte de Deus não há felicidade real e perene, nem dignidade, nem
excelência, nem vida. Ele então afirma que Deus é o único realmente imortal,
e devemos saber que nós, bem como todas as criaturas, não possuímos vida
inerente em nós mesmos, senão a que recebemos dele” como a fonte de vida
real.[97]
2. “Habita em luz inacessível.” Muito embora Calvino diga que “ele
[Paulo] tem em mente duas coisas: que Deus está oculto de nós, e, no entanto,
a causa de sua obscuridade não está nele, como se estivesse envolto em
trevas, mas em nós, em não podermos ter acesso à sua luz em virtude da
debilidade de nossa percepção, ou, melhor, do embotamento de nossa
mente”,[98] contudo cremos que, por sua própria natureza, mesmo o homem
antes da queda não poderia deparar-se com essa inacessibilidade, porquanto a
luz que recebemos dele não passa de chispas daquela luz suprema e infinita.
Nesse sentido, nem mesmo os anjos a seu serviço têm pleno acesso a essa luz
inacessível. Daí lermos em Isaías 6 que os serafins tinham três pares de asas:
com um par voavam, com um par cobriam seus rostos e com o outro par
cobriam seus pés. Significando que nem mesmo eles têm pleno acesso, de
olhos nus, à glória inerente e plena de Deus, senão meramente à sua
refulgência. À semelhança do sol: nenhum olho nu seria capaz de fitá-lo de
perto. Ora, se este, uma coisa criada, possui tal natureza, o que dizer de seu
Criador?
Também nesse sentido cremos que nem mesmo após a ressurreição
final teremos acesso a essa luz em sua plenitude. Se ele não descer a nós em
termos de acomodação, como subiremos a ele? O que veremos de Deus será a
forma humana que Cristo assumiu para sempre.
3. “A quem homem algum jamais viu.” Diz Calvino: “que os homens
aprendam a contemplar, pela fé, àquele cuja face eles não podem ver com
seus olhos carnais, ou mesmo com o discernimento de suas mentes”.[99]
Embora esteja escrito em 1 João 3.2, “sabemos que, quando ele se manifestar,
seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é”, todavia,
por certo que isso se refere à vivência com seu esplendor externo, na pessoa
de Jesus Cristo, e não à sua essência substancial e inerente, com a qual só as
pessoas da Deidade podem ter plena comunhão. “Porque o Espírito a todas as
coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 2.10).
“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do
Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18). Ninguém precisa preocupar-se por não
conseguir mirar diretamente Deus em sua essência infinita. Eis as palavras de
Calvino: “o conhecimento de Deus é a porta pela qual temos acesso ao
usufruto de todas as bênçãos. Portanto, visto que Deus se nos revela
exclusivamente por meio de Cristo, segue-se que temos de buscar todas as
coisas somente em Cristo”.[100] Ele diz ainda que “tal expressão não deve ser
entendida como uma referência à visão externa dos olhos físicos”.[101] Ele
quer dizer, em termos gerais, que, já que Deus habita em luz inacessível
(1Tm 6.16), ele não pode ser conhecido senão em Cristo, que é sua imagem
viva.” No dizer do escritor da carta aos Hebreus: “Ele, que é o resplendor da
glória e a expressão exata de seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra
de seu poder...” (Hb 1.3).

1.2. O paradoxo de infinito e finito

Segundo Calvino, visto que a essência de Deus é desconhecida e


inacessível a nós, toda e qualquer especulação sobre ela é blasfema. É
impossível a mente finita apreender a essência infinita de Deus. Somente a
Trindade se compreende, se discerne, se perscruta, se conhece e se comunica
essencialmente. Daí ser impossível formar uma imagem visível ou concreta,
mesmo conceitual, de Deus como se ele subsistisse nessa forma. Razão por
que ele proibiu que se fizesse dele qualquer imagem ou forma visível.
Nenhuma imaginação humana pode apreender a essência divina. Por isso
mesmo ele diz a Moisés, quando pergunta sobre seu nome: “Eu Sou o que
Sou”. Isto é, Eu Sou indescritível e aquele que existe por si mesmo. Nesse
sentido, somente ele é ou existe. Tudo mais é feito; somente ele não foi feito.
A Confissão de fé de Westminster não pergunta Quem é Deus, pois ele,
estritamente falando, é indescritível, e sim O que é Deus. Pois ele só pode ser
conhecido através de seus atributos, e estes, mesmo assim, em atividade,
quando e como manifestados. Pois ele nunca se manifestou através de um
atributo plena e exaustivamente manifestado, pois todos os seus atributos são
infinitos. Embora em Jesus Cristo tenhamos a manifestação máxima de seu
amor, contudo este amor nunca se manifestou em toda sua inteireza; mesmo
no Calvário, isso se deu de modo um tanto nebuloso, em relação a nós.
Quando estivermos com ele em glória, esse amor continuará a revelar-se
infinita e eternamente, sem jamais esgotar-se. Ele se desvendará a nós
continuamente em seus atos de comunhão conosco. Jamais entendemos nem
entenderemos a plenitude e infinitude do amor de Deus em Cristo.

1.3. Acomodação pela voz

Deus é o Ser que se comunica vocalmente com suas criaturas especiais.


Ele fala com elas; e fala usando o próprio idioma delas. Em toda a Escritura
lemos: “Disse Deus”. O terceiro versículo de Gênesis registra justamente
“Disse Deus”. E já que João registra que “No princípio era o Verbo, e o
Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, que “todas as coisas foram
feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1, 3),
entendemos que é este Verbo que está em ação em Gênesis 1.3.
Quando Calvino comenta este texto de Gênesis 1.3, fazendo menção de
Serveto, diz: “Este imundo sofista assevera que o ponto de partida da
existência da Palavra [Verbo] de Deus foi quando este ordenou que a luz
viesse à existência; como se realmente a causa não fosse anterior ao efeito.
Não obstante, já que pela Palavra de Deus as coisas que não existiam de
repente vieram a existir, devemos antes inferir a eternidade de sua existência.
Serveto imagina uma nova qualidade [ou atributo] em Deus, e sem a qual este
jamais poderia existir”.[102] Isto é, a Palavra, ou o Verbo, e Deus são um só,
porque ela não poderia existir sem ele, e este não poderia existir sem aquela.
E, comentando o texto de João, Calvino declara:

O evangelista denomina o Filho de Deus de a Palavra [Sermo]


simplesmente porque, primeiro, ele é a eterna Sabedoria e
Vontade de Deus; e, segundo, porque ele é a imagem expressa
do propósito divino. Pois assim como no homem se denomina a
linguagem como sendo “a expressão dos pensamentos”, então
não é fora de propósito aplicar isso a Deus e dizer que ele nos é
expresso por meio de sua Palavra [ou Verbo].[103]

No capítulo dois de Gênesis, lemos que Deus criou o homem e falou


com ele. No capítulo três houve aquele diálogo judicial, quando Deus julga o
casal e a serpente, falando, expressando sua vontade e sentimento. Desde
então ele sempre falou com seus servos, patriarcas, profetas, magistrados,
reis, pessoas particulares, com os apóstolos e, especialmente, pelos lábios do
Filho: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de diversas maneiras,
aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho” (Hb 1.1, 2).
Não sabemos em que idioma Deus falou ao homem e vice-versa, mas
isso nos ensina que ele, não satisfeito com simplesmente exercer no homem a
influência interior do Espírito Santo, quis manter colóquio pessoal e verbal
com o homem. Seu interesse em manter colóquio com o homem é tão grande,
que o autor de Hebreus disse que outrora ele falou, diversas vezes, aos pais
(1) por meio dos profetas; agora, (2) por meio do próprio Filho (a Palavra ou
Verbo eterno).
Calvino bate firme e constantemente nesta tecla: sem a Palavra de
Deus, tudo é morto. É esta Palavra que a tudo vivifica; é ela que nos dá vida
dentre os mortos. Sem esta Palavra não existe evangelho, nem igreja, nem
sacramentos, nem vida por vir. Em seu compêndio sobre a santa Ceia, ele
discute com a Igreja de Roma acerca do sacramento da santa Ceia, e diz que a
ceia romana é sem vida, porquanto não possui a Palavra que vivifica, mas
simplesmente um cochicho do sacerdote sem qualquer sentido sacro e
pedagógico, além de superstição pagã. Ali ninguém é vivificado, porquanto
ninguém ouve a Palavra viva.
Seja como for, o fato de Deus usar a voz para falar com a pessoa a
quem se revela constitui uma figura ou símbolo, porquanto ele não precisa
articular nenhuma palavra para revelar-se. Ele, porém, quer que tenhamos
certeza de que falou conosco, para que não imaginemos que a influência
subjetiva teria vindo de outra fonte, porquanto Satanás também nos fala ou
nos influencia.

1.4. Acomodação pela Escritura


Além de Deus falar pessoalmente, seu Espírito quis dar, perene e
inalteravelmente, sua Palavra escrita. Nela Deus nos fala, nos expõe sua
vontade, nos dá diretrizes, nos aponta o futuro. Para que pudéssemos ter sua
Palavra registrada, ele usou nossa própria linguagem, com suas deficiências,
suas complexidades, suas ambiguidades, suas interpretações. Ele se valeu de
figuras de linguagem, tais como hipérboles, metáforas, metonímias,
sinédoques, anacolutos, pleonasmos, paralelismos, sinônimos, antíteses,
sínteses, provérbios, poesias, prosas, parábolas, alegorias, símbolos, enigmas,
ironias, prosopopeias, tipos etc., etc.

1.5. Uso de antropopatismo

Do grego, antropopathos, “atribuição de características humanas a


elementos da natureza, animais e divindades”. Segundo os teólogos, no caso
bíblico significa atribuir a Deus características humanas. Ele se acomoda às
volições, emoções e mutações humanas. Calvino bate nesta tecla, dizendo
que os cristãos precisam precaver-se de não pensar que Deus realmente se
arrepende, muda seus planos, se ira, se vinga como fazem os homens, é
lançado para cá e para lá por nossas orações e vontades. Ele diz que Deus
desce ao nosso nível para comunicar-se conosco. E diz ainda que isso denota
uma profunda e infinita complacência divina em interessar-se por nós,
míseros pecadores. Do contrário permaneceria eternamente recôndito e
jamais seria conhecido. Lembremo-nos: ele desce ao nosso nível a fim de
comunicar-se conosco. Quando atende nossas orações, em vez de estar
fazendo nossa própria vontade, na verdade tudo está concretizando sua
própria e eterna vontade. Por isso, nossas orações devem acomodar-se à sua
vontade, e não à nossa. “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no
céu.”

1.6. Uso de antropomorfismo

Do grego antropomorfos, “de forma humana”. Atribuição de formas


humanas ao ser divino, ou a ideia de que Deus possui alguma espécie de
formato, semelhante à anatomia humana. Ele tem boca, mãos, braços, pés,
cabeça, cabelos brancos, olhos. Lemos que “Deus é Espírito”, é difícil
imaginar um espírito tendo formas ou membros humanos. De novo Calvino
diz que Deus assim age para manter conosco companheirismo. Ele sempre
chama isso de complacência divina.

1.7. Uso de teofanias

Esse termo foi cunhado pelos teólogos para expressar “uma


manifestação visível de Deus”. Particularmente, as teofanias constituem algo
extraordinário em Deus. Ele apareceu a Abraão, em forma humana, comeu,
bebeu, dialogou com ele. Bastaria que ele falasse a Abraão, mas preferiu, em
sua complacência, falar pessoalmente em forma de homem. Era Deus
discutindo com Abraão pessoalmente, porquanto, na opinião de Calvino, este
de fato era o Senhor, ou seja, o Filho de Deus agindo como Mediador entre
Deus e os homens. Neste caso, entre Abraão e o Deus que o chamou.
De novo lemos que Deus agiu pessoalmente no caso de Jacó no Vale
de Jaboque (Gn 32). “Ficando ele só; e lutava com ele um homem, até o
romper do dia.” “Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, pois como príncipe
lutaste contra Deus...” “Vi a Deus face a face, e minha vida foi salva.” O que
é que Calvino fala deste caso?

Que aqui Moisés chame homem àquele de quem logo depois


declara ser Deus é uma forma de linguagem suficientemente
usual. Pois já que Deus apareceu sob a forma de homem, daí se
pressupõe o nome; justamente como, em razão do símbolo
visível, o Espírito é chamado pomba; e, por seu turno, o nome
do Espírito é transferido para a pomba.[104]

O Espírito de modo algum é pomba; ele se mostrou na forma de


pomba; esta forma foi tomada momentaneamente por ele em sua
complacência. Depois de a forma ser usada, ela desaparecia. Depois que o
Senhor e os anjos usaram aqueles corpos em relação a Abraão e Ló, eles
desapareceram.

Moisés fala à maneira dos homens. Pois sabemos que Deus,


quando desce de sua majestade a nós, costuma transferir para si
as propriedades da natureza humana.[105]
Falando do propósito divino de fazer Jacó manco, Calvino diz:

Por este sinal se faz manifesto a todos os fiéis que eles só podem
sair-se vencedores em suas tentações, se forem prejudicados e
feridos no conflito. Pois sabemos que o poder de Deus se
aperfeiçoa em nossa fraqueza, a fim de que nossa exaltação
esteja vinculada à humildade; pois se nossa própria força
permanecesse inteira, e não se produzisse prejuízo e
deslocamento, imediatamente a carne se tornaria arrogante, e
nos esqueceríamos de que vencemos pelo auxílio de Deus. Mas
a ferida recebida, e a fraqueza decorrente daí, nos compelem a
sermos modestos.

Falando daquele Anjo que apareceu a Josué (5.13-15), Calvino afirma:


“As palavras, ao mesmo tempo, implicam que não estava ali um anjo
ordinário, e sim um de excelência especial. Ele é indiscriminadamente
chamado anjo, e distinguido pelo título de ‘o Deus eterno’. Deste fato Paulo é
uma competente testemunha, que declara distintamente que ele [o Anjo] era
Cristo (1Co 10.4)”.[106]
E assim poderíamos estender-nos a muitos outros casos semelhantes,
como Moisés no deserto, Isaías no templo, Daniel no palácio, Ezequiel no
cativeiro e João na Ilha de Patmos. Em todos os casos veterotestamentários,
ou neotestamentários, Deus se acomodava à fragilidade do ser humano,
descendo de sua majestade aos homens a nivelar-se a eles para que o
percebessem.

1.8. Uso de tipos

Particularmente, os tipos, como meios de comunicação divina, ou,


melhor, como antecipações da glória maior de Deus, principalmente em
Cristo, foram usados amplamente para socorrer a obtusidade do homem,
servindo de ilustração do que havia de suceder no futuro.
Por exemplo, coisas como a arca de Noé, o Monte Sinai, a coluna de
fogo de noite, a nuvem umbrosa de dia, o maná, e tantas outras coisas,
serviram de tipos das coisas reais, porém invisíveis, que se manifestariam no
futuro. Pessoas como Noé, Moisés, Davi foram tipos de Cristo. Todos
serviram de antecipação para a vinda da figura maior e real, Jesus Cristo. Era
Deus se acomodando à nossa fragilidade, porquanto, como somos, e como ele
é, a disparidade é tão incomensurável, que jamais o perceberíamos na
totalidade de sua grandeza. Em consequência, ele continuaria recôndito para
conosco. Calvino diria abscôndito ou absconso, isto é, escondido, invisível,
secreto.
A conclusão a que chegamos é que a complacência, a compaixão de
Deus para com o homem caído, apostatado, alienado do Ser divino é
incomensurável, insondável, inescrutável, infinita. Poderíamos viver
eternamente tentando entender por que ele quis manter colóquio conosco, nos
dando os patriarcas, os profetas, os apóstolos, a Igreja, o céu eterno,
sobretudo seu próprio Filho, e jamais chegaríamos ao fundo de tal abismo.
Por que Cristo nos foi dado, e ele mesmo se nos deu, é algo tão profundo, tão
insondável, tão abismante, tão assustador, que nos deixa atônitos, pasmos,
mudos, diluídos, confusos. Daí Pedro, sentindo-se fulminado diante da
majestade e do poder de nosso Senhor, faz uma oração tão estranha à nossa
imaginação: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou pecador”.
Que essas poucas ponderações despertem nossa mente para que
meditemos bem sobre a grandeza de Deus se manifestando à nossa pequenez.
A única coisa que nos resta fazer é adorar, confessar, louvar agradecidos e
esperar nele. A ele, honra e glória para todo o sempre.

2. Sua fidelidade à Bíblia

Ele cumpriu o slogan da Reforma: “A Bíblia, e somente a Bíblia, é a


religião dos protestantes”.
Para ele, a Bíblia é o único fundamento sobre o qual se assenta o
edifício da teologia bíblica. Ele diz que, “quando subimos ao púlpito, não
levamos conosco nossos sonhos e nossas fantasias”.[107] Nesse mesmo
sentido, ele afirma que “qualquer coisa que não estivesse alicerçada na
Palavra de Deus era futilidade e ostentação efêmera; e o homem que não
confiasse nas Escrituras deveria ser destituído de seu título de honra”.[108]
Para ele, “a mensagem das Escrituras é soberana, soberana sobre a
congregação e soberana sobre o pregador”.[109]
Ele cria firmemente que, quando a Bíblia fala, Deus fala.[110]
Para ele, somente por meio da Santa Escritura é que os servos de Cristo
possuem aquela autoridade que “edifica o corpo de Cristo, devasta o reino de
Satanás, apascenta as ovelhas, mata os lobos, instrua e exorte os rebeldes,
junta e separa, clama com veemência, se for necessário, mas que eles tudo
façam de acordo com a Palavra de Deus”.[111]
Para ele, os intérpretes da Bíblia possuem uma excelência única,
porque “o que Deus tem a dizer ao homem é infinitamente mais importante
do que as coisas que o homem tem a dizer a Deus”.[112] E ele faz isso através
de sua Palavra escrita.

Certamente existe uma igreja de Deus onde vemos sua Palavra


ser pregada e ouvida com exatidão, e onde vemos os
sacramentos serem administrados de acordo com o que Cristo
estabeleceu. ... uma assembleia na qual não se ouve a pregação
da doutrina sagrada não merece ser reconhecida como igreja. ...
a exposição da Bíblia deveria ocupar o primeiro lugar no culto
de adoração. ... A verdade de Deus é mantida pela pregação
autêntica do evangelho. ... a igreja só pode ser edificada por
meio da pregação do evangelho, o qual está repleto de um tipo
de majestade sólida.[113]

A elevada visão que Calvino possuía acerca da pregação era


sustentada por uma visão elevada de Deus, uma visão elevada
das Escrituras e uma visão correta do homem.[114]

E, ao comentar a expressão “toda a Escritura”, em 2 Timóteo 3.16ss.,


afirma: “Ele agora explica mais plenamente sua breve recomendação.
Primeiro, recomenda a Escritura por causa de sua autoridade; e, a seguir, por
causa do benefício que dela advém. Para asseverar sua autoridade, ele ensina
que ela é inspirada por Deus. Porque, se esse é o caso, então fica além de
toda e qualquer dúvida que os homens devem recebê-la com reverência. Eis
aqui o princípio que distingue nossa religião de todas as demais, ou seja:
sabemos que Deus nos falou e estamos plenamente convencidos de que os
profetas não falaram de si próprios, mas que, como órgãos do Espírito Santo,
pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu comissionados a
declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se das Escrituras devem antes
aceitar isto como um princípio estabelecido, a saber: que a lei e os profetas
não são ensinos passados adiante ao bel-prazer dos homens ou produzidos
pelas mentes humanas como sua fonte, senão que foram ditados pelo Espírito
Santo.

3. Sua amplitude

Foi Young que me chamou a atenção para a vasta extensão do


pensamento de João Calvino, aliás, um precioso presente de um antigo amigo
e ovelha, desde sua adolescência, Dr. Sandro Dutra e Silva.[115] O livro de
Young é de grande valia para encontrar os comentários do Reformador que
eu mesmo traduzi, mas que se acham esparsos por todas as suas obras,
tornando meu trabalho penoso sem o auxílio desse precioso livro. Young
chama a atenção para as abordagens que Calvino faz dos fenômenos da
natureza, tais como: a forma de ambiente físico em que vivemos, as estrelas,
o sol, a lua, a terra, o mar, as rochas, as pedras preciosas, os terremotos, os
montes, as árvores, os frutos, as ceifas, a erva, as aves, os peixes, os leões, os
ursos, os cães, as serpentes, as formigas, a música, as artes liberais, as
descobertas científicas, a cultura em geral e daí por diante. Ele atribui tudo
isso ao conhecimento humano, o maior dom de Deus dado ao homem.

3.1. Na esfera das ciências, das artes e da cultura:

Suponhamos os homens revestidos, não só com profunda


claridade mental, mas também com o conhecimento de todas as
ciências; sejam filósofos, sejam médicos, sejam jurisconsultos,
nada lhes faltando, exceto que não possuem o verdadeiro
conhecimento da vida eterna — acaso não lhes seria preferível
ser um animal irracional do que ser assim sábios, exercitando
suas mentes por breve tempo sobre coisas evanescentes, e
sabendo que todo o seu valiosíssimo tesouro perecerá com sua
vida? Seguramente, ser assim sábio é muito mais miserável do
que se os homens fossem totalmente destituídos de
entendimento.[116]
Guiado por sua razão, o homem não alcança ou não consegue ter
acesso a Deus; e, assim, toda sua inteligência não prima a
direção alguma senão rumo à vaidade, onde se deduz que não há
qualquer esperança para a salvação dos homens, a menos que
Deus lhe proveja um novo recurso.[117]
Por sabedoria, Paulo quer dizer, aqui, tudo quanto o homem
pode compreender, não só por sua habilidade mental e natural,
mas também pelo auxílio da experiência, escolaridade e
conhecimento das artes.[118]

Calvino tinha a plena convicção de que o conhecimento que os


incrédulos possuem é um dom provindo de Deus, e cita outro autor de que
Calvino cria que toda a investigação científica era dada por Deus para o uso e
proveito do homem.[119] Ele ensinava que “qualquer conhecimento válido é
revelatório”, e diz que “Cristo só condena aquela investigação que vai além
dos limites da revelação de Deus”.[120]
Ao citar Reid, ele insere “também Calvino, de que Deus dera o dom da
ciência para nosso uso e proveito. As artes e as ciências são louváveis não
simplesmente porque são dons de Deus, mas também porque são úteis e
valiosas à vida humana. As ciências liberais geram ‘um grande número de
produtos raros’”.[121]

3.2. O trabalho dos filósofos

A admiração de Calvino pela ciência não se restringia a


generalidades amplas. Ele não se assemelhava aos indivíduos de
nossos dias que boquejam dizendo que prestam serviço à ciência
e desejam ser tidos como pessoas de mente científica, enquanto
aproveitam a oportunidade de anunciar que rejeitam as
explicações teóricas fundamentais que têm se desenvolvido a
duras penas pela comunidade científica. Naturalmente, não
havia cientistas como temos hoje. O conhecimento era cotejado
por estudiosos que demonstravam grande interesse nas amplas
pesquisas científicas. Calvino e outros geralmente se referiam a
estes estudiosos como os “filósofos”.[122]

Muitos leitores de Calvino confundem sua adesão ao conhecimento


humano com sua severidade em não permitir que a ciência humana suplante
ou seja o carro chefe da revelação de Deus, sujeitando esta àquela. Sua
posição real é que “o primeiro efeito consiste em que não há ninguém que
entenda”. O homem, em quem não há o conhecimento de Deus, seja qual for
a cultura que venha ele de alguma forma possuir, será inútil; e até mesmo as
próprias ciências e artes, as quais em si mesmas são boas, tornam-se vazias
de conteúdo real quando lhes falta este fundamento”.[123] Ele segue em frente
afirmando que, “como Paulo, Calvino advertia que o conhecimento natural
era de nenhum valor quando deixa de adquirir a sabedoria espiritual”.[124]
“Sem Cristo, as ciências, em cada departamento, são vãs; e ‘o homem que se
acha bem fundado em cada aspecto da cultura, porém continua ignorante de
Deus, nada possui’.”[125]
Para Calvino, os filósofos não avançam mais em razão de sua
incredulidade, porquanto pairam somente por sobre seu mundo filosófico
contraditório. Eles se ensoberbecem em seu conhecimento descartando o
supremo fundamento do mesmo, a saber, Deus. O verdadeiro filósofo ou
cientista veneram o Filósofo dos filósofos e o Cientista dos cientistas —
Deus! Removido esse fundamento, o conhecimento que os homens adquirem
aqui, por mais invejável que seja, termina em fumaça.
Calvino enaltece aquele conhecimento que tem seu ponto de partida
verticalmente, e então horizontalmente. Aquele que busca o conhecimento de
Deus passa a descobrir um mundo ignoto saturado de um conhecimento que
começa com o próprio homem e continua com a criação divina; a saber, com
tudo quanto o Eterno criou para o próprio homem. O pecado alienou o
homem de Deus. E todo conhecimento à parte do Criador se converte em
farelo.
Todos os filósofos, cientistas, artistas e eruditos em cultura buscaram
enaltecer primeiro a Deus e tiveram o ser humano como seu alvo a quem
favorecer. Um cientista cético pode viver sua vida beneficiando a
humanidade; mas não terá um vínculo vertical com o qual se relacionar, e sua
vida termina aqui.
Para Calvino, tudo quanto os seres humanos façam, devem eles fazer
visando antes de tudo à glória do Criador; e, então, o bem do semelhante,
mesmo fazendo-o visando a que o Eterno seja glorificado. Ele diz que a
ciência por si só não pode conduzir a Deus. E ele está certo, porquanto parte
do que os homens fazem visa somente ao aspecto horizontal. Nunca passa
disso. Deus, porém, em sua sabedoria, usa o que o cético faz para revertê-lo
em benefício da raça humana. Nesse sentido é que todos os que labutam em
prol do bem humano são ministros de Deus. Os governantes, os magistrados,
os médicos, os cientistas, os filósofos, os gramáticos, os professores etc., etc.
são todos servos de Deus, querendo ou não. Crendo ou não. Nisto jaz a
soberania de Deus. Não pode haver profissão profana, exceto aquela que é
feita à parte do bem público. Toda profissão benéfica é divina, mesma aquela
exercida por céticos.
Se não seguimos em frente sobre o tema, é devido à exiguidade de
espaço. Em todas as suas obras ele toca de leve todas as esferas da vida
cósmica. Todavia, até onde podemos ler nas Escrituras.
João Calvino — o escritor

Com toda a certeza, Calvino possuiu um dos intelectos mais


penetrantes e uma das penas mais poderosas entre as grandes
mentes, sejam cristãs ou seculares, que já surgiram entre os
homens, como os mais elevados picos dos grandes montes da
sapiência humana, durante os séculos desta era da graça.[126]

A muitos pode parecer exagero, porém não para aqueles que têm lidado
com o Reformador, dentre os quais se contam homens e mulheres da mais
fina erudição de nossa sociedade contemporânea. É verdade que entre os que
o odeiam têm surgido muitos que têm feito tudo para denegri-lo, desde
aqueles que o situam na esfera do estudo paleontológico até aqueles que o
têm como um completo ignorante, cuja cultura foi forjada em algum canto de
França.

1. Autodidata em teologia

Os estudiosos que têm investigado a vida e obras do Reformador não


se cansam de admirá-lo e de enaltecê-lo como um homem quase insuperável
em sua habilidade e acuidade no manuseio e conhecimento dos grandes
clássicos da cultura filosófica. Por capricho da ironia, a única ciência humana
da qual ele foi tido como “autodidata” é a teologia. “Calvino estava se
tornando um grande teólogo autodidata.”[127] Significa que ele não se
doutorara numa faculdade de teologia. Nesta esfera, ele não teve “experiência
acadêmica”, significando que ele nunca foi doutor em teologia e nem poderia
fundar uma academia teológica, muito menos lecionar ali. A diferença entre
ele e eu é que, em seu caso, ele era autodidata em teologia; e eu sou
autodidata em tudo; e foi com muito esforço que consegui verter suas obras
para o vernáculo, enquanto que ele escrevia com a máxima facilidade.

1.1. Irônico, porém verdadeiro

Não é de fato irônico? O teólogo de todos os teólogos após os


apóstolos era “leigo” em teologia. E nem temos conhecimento de que ele
tenha recebido um diploma de “Dr. Honoris Causa”. Em seu laicato em
teologia, ele superou a todos os teólogos. No entanto, ele viria ser um dos
escritores mais lidos do mundo e um mestre que seria procurado por alunos
do mundo inteiro e em todos os tempos. Certamente, não estou pensando em
literatura forjada numa oficina de “fundo de quintal”, como a minha,
publicada aos milhares sem conteúdo sólido; isto é, literatura que visa às
superficialidades e caprichos dos leitores de pouco nível cultural e que estão
buscando alívio para seus estresses cotidianos. Falamos aqui de um dos
teólogos mais profundos de todos os tempos. Ele não para de surpreender o
mundo teológico. Querendo ou não, até mesmo quem o detesta se vê forçado
a citá-lo em seus escritos.

1.2. Opinião de outros

Phillip R. Johnson se expressou muito bem quando escreve:

João Calvino foi excelente em todo o dever ministerial em que


se envolvera. Ele se destacou em sua própria geração pelo
evidente poder de sua pregação e seu admirável domínio das
Escrituras. Sua habilidade como exegeta e comentador bíblico
superou qualquer outro na história da igreja. Sua competência
como professor de teologia também superou a todos os que
vieram antes dele. Sua influência como discipulador de jovens
produziu frutos que ainda se multiplicam em nossos dias. Ele era
famoso por sua competência como líder eclesiástico, sua
autoridade como apologista da verdade e sua notável capacidade
de educar e motivar os outros. Nas palavras de William
Cunningham, “Calvino foi o maior de todos os reformadores no
que diz respeito aos talentos que possuía, à influência que
exercia e aos serviços que prestou no estabelecimento e difusão
de verdades importantes”. No entanto, de todos os dons
extraordinários de Calvino, sua aptidão como escritor foi o que
mais ampliou todos os outros e garantiu sua posição na história.
[128]
2. O Senhor deu-me um privilégio singular

Para mim, homem de poucos recursos mnemônicos e de poucas letras,


de formação acadêmica mui deficitária, superficial e de auto-aquisição, sinto-
me pasmo ante a grandeza desse homem a quem denomino de “misterioso”.
O Senhor da Igreja deu-me a graça de lidar com os escritos desse
gigante no reino de Jesus Cristo. Creio que, no Brasil, de todos os que lidam
com o grande Reformador e seus escritos, devo ser o mais privilegiado dentre
eles, porquanto recebi do alto a incumbência de verter para o vernáculo quase
todas as obras que levam o nome de João Calvino. E garanto, por experiência
pessoal, ser impossível exagerar neste respeito.
Dei início à tradução das obras do Reformador no ano de 1995, isto é,
22 anos atrás, a verter as primeiras linhas da Epístola de Segunda aos
Coríntios. Palavra após palavra, linha após linha, página após página,
capítulo após capítulo, livro após livro; com aquela paciência que o Criador
não quis dotar-me como um dom divino. Sou um homem impaciente, ansioso
ao extremo, imediatista e nervoso — sim, muito nervoso! Quem me conhece
nunca conseguiu entender como pude, durante tantos anos, realizar uma
façanha humanamente incomensurável. Não foi um volume de duas mil
páginas. Entre outras obras traduzidas por mim, creio que já abeira cinquenta
mil páginas. Mais de trinta mil só do Reformador. Então, o que digo provém
da própria e constante experiência com ele e seus escritos.

3. Ponto de partida em sua trajetória de escritor

Ele tinha apenas 27 anos de idade quando publicou sua primeira versão
das Institutas, em 1536.[129] Lemos ainda que “as obras de Calvino reunidas
enchem 59 grandes volumes no Corpus Reformatorum... mais 12 volumes
adicionais, sob o título Supplementa Calviniana”.[130]

3.1. O maciço de suas obras

De todas essas obras, traduzi os 22 volumes de seus comentários


bíblicos, com cerca de mil páginas cada volume. Traduzi ainda a primeira
edição de suas Institutas publicadas em 1536, que constituem o gérmen da
grande obra A instituição da religião cristã que temos hoje. Verti também sua
obra sobre a ceia do Senhor, anexando-lhe sua apologética em favor do
verdadeiro conteúdo e verdadeira celebração da ceia, vindo a ser uma obra
bem volumosa. Seus sermões sobre o rei Davi, sobre a vida e obra de nosso
Senhor, sobre Jacó e Esaú, sobre a Epístola aos Efésios. Os pequenos tratados
sobre A necessidade reformar a igreja, Réplica ao Cardeal Sadoleto,
Psicopaniquia, A providência secreta de Deus e Catecismo e Confissão de fé
de Genebra, publicados pela Editora Clire, em um só volume com o título:
Obras Seletas de João Calvino. Estou trabalhando em seu Tratado sobre as
relíquias, seus Sermões no Salmo 119, seus Sermões na Epístola aos Gálatas.
Mas a última façanha que tanto aspiro concretizar é a tradução de seus
Sermões no livro de Jó. Por enquanto, é uma obra em facsímile de 1574. Para
realizar tal façanha terei que reaprender o idioma de Shakespeare; porém não
desisti do sonho, mesmo em idade já avançada.
Somos informados que “em seus anos mais prolíficos, Calvino
publicou meio milhão de palavras”.[131] Ele mesmo faz uma declaração muito
relevante: “Não tenho muito tempo para escrever, mas [um escriba] anota
tudo à medida que eu dito e, depois, organiza-o em casa. Eu o leio, e, se há
alguma coisa que ele não entendeu a respeito do que eu quis dizer, corrijo-o”.
[132]
Esse escriba era um taquígrafo que anotava os discursos do Reformador
com os símbolos da arte e depois ele mesmo convertia para os caracteres
normais e o Reformador lia e corrigia antes de ser publicado.

3.2. Sua obra prima

Falando de suas Institutas, somos informados que “sua edição final, em


latim, foi publicada em 1559 (cinco anos antes de sua morte), e sua própria
tradução para o francês, no ano seguinte”. E aqui já não se trata de seu
pequeno compêndio de 1536, e sim de uma obra volumosa e permanente.
Neste ponto é oportuno afirmar que Calvino, quando escreveu sua
primeira edição das Institutas, e descobriu assustado o impacto que a pequena
obra causara na multidão de leitores, resolveu, ele mesmo, ampliar aquele
primeiro material, sem alterá-lo, porém dando-lhe mais conteúdo, diversas
vezes, até a última versão supramencionada, em 1559. E aqui aprendemos
duas coisas. Primeiro, além dos sermões diários que pregava, dos tratados
apologéticos, dos comentários bíblicos, das centenas de cartas que escrevia,
ele encontrava tempo para dar maior corpo à sua obra prima — A instituição
da religião cristã. Segundo, ele mesmo traduzia esta obra do latim para o
francês, sua língua mãe; isto é, um trabalho dobrado, ou mais que dobrado.
Com frequência, sou indagado sobre “como aquele homem franzino,
enfermiço, com uma atividade enorme, ainda achava tempo para traduzir suas
próprias obras para outros idiomas”. Minha resposta é: “Não sei!”. Uma coisa
é indisputável: ao longo de minha lida com as obras do Reformador, sempre
me senti um verme e não homem!

3.3. Seus sermões

Falando de seus sermões, lemos o seguinte: “Os sermões de Calvino


revelam a perfeita combinação de uma mente persuasiva e um coração
pastoral”.[133] E sei, por experiência, que isto é um fato indiscutível. O poder
persuasivo do Reformador era algo que chegava às raias do “mistério”. Seu
coração pastoral, em seus sermões, era tão visível, que todos os ouvintes
eram consolados por suas palavras repassadas de amor pastoral pelas ovelhas.
Ele olhava para seu rebanho como que necessitado de profundo conforto,
orientação e nutrição espiritual para suas vidas diárias. Além de verdadeiro
pregador, ele era um genuíno pastor. Ele pastoreava seu rebanho não apenas
do púlpito. Lemos que ele vivia com seu rebanho como um pastor de amor
extremado e sempre presente.
Isso fez de seus escritos, compêndios manuseados por milhões de
pessoas pelo mundo inteiro, até hoje. Aliás, a tendência, hoje, é a
intensificação da leitura de suas obras por pessoas que se acham exaustas e
enfadadas com as bolotas dos pregadores, pastores e escritores de mentiras.
Há um prospecto de que o mundo cristão está se volvendo outra vez para os
pensamentos teológicos do Reformador genebrino.

4. O que Deus tem feito através de um jovem ferreiro

Declaro sem qualquer laivo de presunção que ainda espero ver


multidões deixando de anunciar e de crer em superficialidades e futilidades e
buscando nos escritos do Reformador já em nosso idioma o alimento sólido
de uma interpretação bíblica sem distorção, antes que chegue o grande Dia do
Juízo Final. É preciso parar de brincar com a Bíblia. No espírito de humilde
adoração, afirmo com toda convicção e experiência que os esforços daquele
jovem que empunhava um martelo, batendo forte numa bigorna, naquela
modesta oficina em Tupaciguara, Triângulo Mineiro, têm produzido e ainda
produzirão fruto na nova formação teológica de jovens cristãos e estudantes
de teologia que cada vez mais se imbuem da riqueza teológica do grande
Reformador João Calvino. Esses atuais e futuros pastores e teólogos
manusearão incansavelmente os compêndios dos escritos do Reformador,
sem se cansarem de tentar entender outro idioma para ter acesso ao seu
pensamento teológico. Tenho visto vezes e mais vezes que aqueles que uma
vez examinam os escritos de João Calvino não mais se detêm.
Tenho dito que meu trabalho de verter os escritos do Reformador não
visa a mudar alguém de sua denominação, mas que o mesmo fique lá e faça
como tenho feito: “Amarrando feixes secos às caudas de raposas com o fim
de semear fogo na seara dos filisteus como fez Sansão”.
Que o desejo de todos os calvinistas seja este: que a verdade, uma vez
confrontada com a falsidade, leve os eleitos do Eterno cada vez mais a
buscarem purificar seus falsos conceitos teológicos e, inflamados de santo
zelo, proclamem somente a sã doutrina. O coração do Reformador se
inflamava dia e noite de zelo pelo Reino de nosso Senhor. Daí ele dedicar sua
pena também dia e noite na interpretação profunda e séria do Santo Escrito de
autoria do Espírito Santo. Com sua pena, ele veio a ser o intérprete dos
intérpretes. E seu esforço valeu a pena.

5. Conclusão

Quero fechar este capítulo pondo em cena os obstáculos externos que o


Reformador enfrentava diariamente, dificultando assim sua tarefa de escrever
acerca da fé pura e bíblica oriunda do Espírito de Deus. O Senhor não lhe deu
uma vida sossegada e saudável, porém lhe deu a força irresistível do Espírito
Santo e uma vontade inquebrantável de vencer na implantação da Reforma
em um mundo saturado de vil superstição.
Tenho sido interrogado com frequência como é possível que aquele
homem enfermiço, ocupadíssimo, perseguido de diversas formas, pudesse pôr
em prática um fenômeno tão estupendo de escrever tanto em tão pouco
tempo. Minha resposta recorrente tem sido: não sei. De fato, não sei mesmo
como isso foi possível.
5.1. Ocupações variadas

Ele mesmo nos informa: “‘Mais de uma vez o que eu apresentava às 7


horas não estava pronto antes das 3 ou 5 horas’.” Em certa ocasião, ele até
mesmo desmarcou uma aula porque não estava completamente preparado”.
[134]
Além do mais, ele vivia seu dia a dia envolvido com os deveres e
labores pastorais. Atendia constantemente sua própria igreja com
aconselhamento, com orientação, com o alimento da Palavra. Dava
assistência constante à faculdade que estabelecera em Genebra, como um de
seus professores. Dava assistência aos refugiados vindos de outras partes
fugindo da perseguição da “Santa Inquisição” romana. Tantos outros eram
atingidos pela praga que grassava por toda aquela região.
É em Thea que lemos o seguinte:

Deus me dirigiu por tantas voltas e mudanças, que ele nunca


permitiu que eu descansasse em qualquer lugar.[135]

Significa que sua peregrinação era incansável, desde que assumira seu
compromisso de seguir e servir ao glorioso Senhor da Igreja. Antes de seu
compromisso de reformar Genebra, ele pregava e servia a Ceia primeiro em
um bosque e mais tarde em uma caverna iluminada pela luz de archotes.[136]
Depois que conheceu a fé bíblica e se embrenhou pelas veredas da
reforma genebrina, Calvino nunca mais teve descanso. Além de todas as suas
atividades na qualidade de pastor e reformador, ele passou a usar a pena
incessantemente. Seu primeiro escrito foi Psicopaniquia. “Nesta obra
Calvino escreveu contra aqueles que acreditavam que a alma dorme depois da
morte até o último dia.” Neste escrito, Calvino afirma que “a alma está viva e
acordada... embora tenha deixado o corpo”.[137]
Desde então, ele não mais se deteve e sua pena não mais repousou. Ele
cria que a reforma estava em grande medida na defesa da verdadeira fé por
meio de escritos. Ele elaborava e pregava seus sermões do púlpito da Igreja
de Pedro. Seus sermões outra coisa não eram senão sua bem programada
exposição dos livros da Bíblia. Em todo o Hexateuto; em todos os Salmos;
em todos os profetas maiores e menores, com a exceção de Ezequiel do
capítulo 20 em diante; em todo o Novo Testamento, exceto 3 João e
Apocalipse. Ele queria que o povo estivesse em constante contato com as
Santas Escrituras.
Com seus 27 anos de idade, ele apresentou ao público o protótipo de
sua grande obra A instituição da religião cristã. Quando percebeu seu êxito,
ele mesmo a ampliou várias vezes e a traduziu do latim para o francês. Esta
obra tinha inicialmente uma dupla função: apologética e educativa. Nela ele
defendia a sã doutrina e instruía o povo nessa sã doutrina. Ele queria uma
igreja solidamente radicada em toda a Santa Escritura.

5.2. Falta de recursos tecnológicos

Fazendo uma comparação do tempo dos reformadores com o nosso,


sentimo-nos abismados ante o fato de que produziram muito mais do que
muitos de nós, hoje, produzimos, em questão de volume e qualidade. Eles
não tinham nem mesmo máquina datilográfica. Com certeza usavam um
tinteiro e pesa de ganso.
Não tinham ao seu dispor as ferramentas que temos hoje, por exemplo:
as chaves bíblicas tão completas que nos auxiliam a achar os textos por toda a
Bíblia. Eles vasculhavam a Escritura para achar aqueles textos de que
precisavam empregar com exatidão. Passa-se a ideia de que tinham a Bíblia
sob seu pleno controle. Os interlineares que ajudam os estudantes e escritores
a harmonizarem as referências com mais facilidade pelo uso do hebraico e
grego. Os dicionários e enciclopédias que ajudam a definir a linguagem
bíblica, passando-nos informações preciosas sobre os vários assuntos, como
geografia, história, ciência, matemática, flora e fauna etc. Calvino cita toda a
Bíblia não a esmo, mas de uma maneira plenamente concatenada.
Perguntamos: como ele e os outros faziam isso?
A imprensa acabava de ser inventada e ainda era muitíssima rústica e
estava em processo de experiência. Seu método de pesquisa era muito
rudimentar. Tinham que usar luz de vela ou candeia. É verdade que já havia
aquele recurso que se denomina de taquigrafia. Enquanto pregava, um
taquígrafo copiava seus sermões ou discursos pelo uso de sinais que depois
eles mesmos convertiam nos caracteres normais. Mas é também verdade que
Calvino não permitia que aquilo fosse impresso sem antes passar pelo pente
fino de sua supervisão.
5.3. Perseguição

Tinha que enfrentar a fúria da população genebrina, no que diz respeito


aos libertinos. Ele enfrenta o próprio governo de Genebra que a princípio
discordava dele em diversos assuntos. Sem falar na perseguição da população
genebrina que instigava seus cães contra o Reformador e lhes punham por
nome o próprio nome de Calvino. Significa que ele era alvo do ódio daqueles
que se sentiam prejudicado com a administração severa do Reformador.
Thea nos informa ainda que “o homem atarefado na rua do Canhão
estava só. ‘Verdadeiramente, não é ordinária a minha dor’, escreveu a Viret
uma semana depois. ‘Fui privado da melhor companhia da minha vida.’ Fala
da viuvez. E a Farel: ‘Faço o possível para não ficar assoberbado pela
tristeza. Meus amigos não deixam de fazer tudo que possam para contribuir
para aliviar meu sofrimento mental... Que o Senhor Jesus... me sustente...
nesta pesada aflição, a qual certamente me teria dominado se ele, que levanta
os prostrados, fortalece os fracos, e reanima os fatigados, não tivesse
estendido sua mão para mim”.[138]
Ele enfrentava tudo sem desistir de compor seus escritos em prol da
igreja. E nossa pergunta é: como é possível que alguém escreva nos moldes
em que escreveu o Reformador João Calvino, com a mesma profundidade e
amplitude? Valho-me de mim mesmo como exemplo: por muito menos,
desligo o computador e desisto de continuar minhas composições literárias.
Com a mente perturbada pelas turbulências da vida cotidiana, fica difícil
manter o mesmo nível de meditação sobre qualquer assunto.

5.4. Exílio

Foi expulso pelo Conselho. Teve que interromper seu programa de


reforma em Genebra. Radicou-se em Estrasburgo. Enquanto em Estrasburgo,
sua pena não teve descanso. Creio, pela própria experiência, ser difícil
enfrentar o antagonismo de outras pessoas para com a nossa. Mas a expulsão
deve ser muitíssimo mais terrível. Até hoje não experimentei essa terrível
tentação.
Extraio de Timothy George estes trechos daquele período atribulado de
Calvino:
Em abril de 1538, Calvino e Farel foram expulsos da cidade.
Após outra breve estada em Basiléia, Calvino foi persuadido a
mudar-se para Estrasburgo.

Calvino passou três anos em Estrasburgo, e sem dúvida aqueles


dias foram os mais felizes de sua vida. Foram, também, talvez,
os anos mais decisivos para seu desenvolvimento como
reformador e teólogo.[139]

E Timothy alinha cinco situações vitais na vida do Reformador durante


aquele período:

Primeiro, Calvino como pastor; segundo, Calvino como


professor; terceiro, Calvino era um escritor; quarto, Calvino era
um estadista da igreja; quinto, Calvino tornou-se um marido.[140]

Significa que Calvino jamais descansava onde estivesse. Ele só tinha


uma vida para gastar na tarefa predestinada pelo Senhor da Igreja. Aprendeu
a esquivar-se de seus problemas e a dar sequência à sua obra de Reformador
da igreja.

5.5. Suas correspondências

Todas as suas correspondências ocupam cinco volumes massudos,


sendo quase impossível para alguém lê-las todas. Aproveitava qualquer
brecha para dirigir-se a alguém com suas cartas. Ele escrevia a todos, desde
os reis até aos príncipes, rainhas e princesas; até os que jaziam nas
masmorras por causa da perseguição contra os fiéis filhos e servos de Deus.
Escreveu a amigos e até mesmo a inimigos, como Miguel Serveto. Não tinha
descanso nem de dia nem de noite. Sua pena também não conheceu tréguas.

5.6. Acossado incessantemente pelos inimigos da fé

Isso tem seu lado positivo e o negativo. O positivo é que os confrontos


com os inimigos da fé ortodoxa produziram um vasto e precioso acervo de
apologética. O negativo é que esses confrontos lhe traziam constante estresse
e angústia. Era como o pastor que não descuida de seu rebanho. Com a
seguinte diferença: os lobos literais arrebatam uma ovelha e se vão; se forem
pegos, são feridos ou mortos sem consequência. Enquanto que os lobos
figurados nos inimigos da fé ortodoxa não deixam o rebanho enquanto não
fizerem muito dano e causando transtornos aos que zelam pelo rebanho de
Cristo. Calvino participou somente da morte de um deles — Miguel Serveto.
Mais ainda, os lobos vorazes que buscam destruir os rebanhos são não apenas
solertes, mas também muito bem preparados. Para vencê-los, é preciso maior
astúcia e conhecimento.
Haja visto o caso do cardeal Sadoleto. Quem lê sua enganosa carta
dirigida à Igreja de Genebra fica encantado com a beleza e aparente
procedência do argumento do grande cardeal. Ele não levou em conta que o
calejado pastor de Genebra era muito mais habilidoso do que ele. Aliás, este
escrito do Reformador é digno de sua fama. Além de traduzi-lo, já o li várias
vezes e o lerei muito mais vezes doravante. E a grande diferença entre os dois
era que o escrito do cardeal era enganoso e matreiro; o do Reformador era,
além do mais, bafejado pelo Espírito do Senhor da Igreja.
No caso da apologética, os inimigos propiciavam recursos de defesa
escrita. Mesmo assim, esse redemoinho de intrigas causava terrível estresse
nos Reformadores. Figurativamente, viviam insones, em constante vigilância
e incansável desempenho de seu pastorado para que suas ovelhas não fossem
arrebatadas.

5.7. Sofrimento físico e emocional

Ele era atormentado dia e noite por todo tipo de doenças físicas.
Infelizmente, tenho em minha biblioteca uma obra que descreve com minúcia
um “rico” catálogo de doenças que aquele homem possuía e enfrentava, obra
esta que se acha perdida entre meus livros. No entanto, lemos numa boa
fonte:

Bolsec também afirmou que a doença crônica de Calvino era


castigo de Deus; o fato de “seu corpo inteiro estar sendo comido
por piolhos e vermes” era a punição divina de sua heresia.[141]

Assim também pensam hoje os defensores de doutrinas forjadas nos


cérebros dos que não conhecem o temor de Deus, os quais afirmam, não à luz
da Santa Escritura, ser impossível que pessoas como o Reformador sejam
abençoadas pelo Deus Eterno. Nem sequer se lembram da história que Jesus
contou sobre um homem chamado Lázaro que era “coberto de chagas” e
esmolava constantemente para obter o pão diário. Nem se lembram que o
amaldiçoado não era Lázaro, e sim o pseudo-rico.
Mas a indagação é: como é possível que aquele homem encontrasse
alento e mente equilibrada para usar na composição literária, quando esta
requeria a mais plena concentração. Sentimos que a vida daquele servo de
Jesus Cristo foi posta no altar do sacrifício, oferecida a Deus como uma
oferenda agradável. Seu empreendimento era o que mais lhe importava, por
isso ele vencia toda tentação externa e desvanecimento interno.
Em razão de suas doenças, ele teve morte prematura. Já no fim, ele era
carregado por homens piedosos para o cumprimento de seus deveres e de
volta à casa. Nada o fazia deter-se. Ele tinha somente aquela vida para gastar
na obra do Senhor.
Quero crer que as palavras finais do comentário ao Profeta Ezequiel
foram inseridas pelo tradutor para a língua inglesa, Thomas Myers, como se
encontra abaixo:

Depois de concluir esta última preleção, aquele mui eminente


homem, João Calvino, o teólogo, que previamente adoecera,
então começou a ficar tão enfraquecido que se viu compelido a
reclinar em um leito e não mais pôde prosseguir com a
explanação de Ezequiel. Por esta conta, ele se deteve no final do
capítulo vinte [faltando apenas os cinco versículos finais para
concluí-lo], e não pôde terminar a obra tão auspiciosamente
iniciada. Nada resta, bondoso leitor, senão que recebas mui
favorável e graciosamente o que agora é apresentado ao mundo.

Quero entender ainda que a oração com que ele encerra sua última
preleção foi também uma de suas últimas orações antes de entregar o espírito:

Ó Deus Onipotente, visto que já entramos na esperança, no


limiar de nossa eterna herança, e sabemos que há para nós uma
indubitável mansão no céu, depois que Cristo receber-nos ali, o
qual é nossa cabeça e as primícias de nossa salvação — oh!
concede, rogo-te, que avancemos mais e mais no curso de tua
santa vocação, até que, por fim, atinjamos o alvo, e então
desfrutemos aquela eterna glória da qual nos propiciaste uma
leve degustação neste mundo, pelo nome de Cristo, nosso
Senhor. Amém.

5.8. Reta final

Selecionei do livro de Thea A. van Halsema alguns trechos das


palavras finais de sua vida:
O homem togado de preto, caminhando pela rua estreita, parecia
mais morto do que vivo, com exceção dos olhos que luziam tão
brilhantemente quanto antes. O corpo estava meio morto,
estropiado, protestando e recusando-se a fazer a sua vontade.
Mas o Espírito invencível exigia que o corpo fizesse suas rondas
diárias. A mente por detrás dos olhos penetrantes não havia
perdido nada de sua vivacidade.[142]
Sobre a porta pela qual deixou o prédio dos conselhos de
representantes estava o lema no escudo de Genebra: Post
Tenebras Lux: “Luz após trevas”. Mais do que qualquer outro
homem, Calvino tinha tornado em realidade aquela legenda na
cidade junto ao lago.[143]
Era o domingo da páscoa, dia 2 de abril. Calvino foi carregado
na sua cadeira de sua casa na Rua do Canhão e colocado perto
do púlpito donde tinha pregado centenas de sermões. Beza
pregava agora. Celebrou-se a Ceia do Senhor. Calvino recebeu
os elementos das mãos de Beza.[144]
A congregação ergueu-se para entoar o último hino. O uníssono
comovente vibrou por todos os cantos da igreja. Calvino entoou
também com júbilo em sua face. “Agora, Senhor, despede em
paz o teu servo, segundo a tua palavra.” — foi este o hino final.
[145]

No dia 30 de abril, o Pequeno Conselho, togado em cortejo


solene, veio à Rua do Canhão, agrupando-se ao redor do leito de
Calvino. Este agradeceu-lhes novamente por todas as suas
demonstrações de bondade. Pediu-lhes perdão pelos seus
momentos de raiva e pelos outros pecados cometidos durante os
anos em que tinha servido. Aconselhou-os, advertindo e
encorajando-os. “Lembrai-vos sempre”, falou-lhes, “que é Deus
somente que dá forças a estados e cidades”. Deu a cada homem
a destra de despedida. Os homens saíram do quarto, chorando
como se tivessem recebido a derradeira bênção de um pai. Os
ministros vieram no dia seguinte.[146]
“Meus pecados sempre me desgostaram... Rogo-vos que me
perdoeis o mal, e se porventura tenha havido algum bem, ...
fazei dele um exemplo”. “Quanto à minha doutrina, ensinei com
fidelidade, e Deus deu-me a graça de escrever... tão fielmente
quanto estava em meu poder. Vivi nesta doutrina e nela quero
morrer. Perseverai nela, todos vós. Amai-vos uns aos outros.
Que não haja inveja”.[147]
Calvino viveu até o dia 27 de maio. Orava continuamente, em
voz alta ou silenciosamente, movimentando os lábios. Nos
estertores, atribulado pela dor, clamava com frequência: “Por
quanto tempo, ó Senhor?” Ou: “Senhor, tu me esmagas, mas eu
me conformo do que seja a tua mão”.[148]
Morreu em paz como alguém que pega no sono. Numa noite de
sábado — o fim do dia, o fim da semana, o fim de uma vida. Um
grande servo estava agora com o seu Mestre.[149]
Calvino tinha pedido no seu testamento que “meu corpo... seja
enterrado na maneira usual, para aguardar o dia da bendita
ressurreição”. Não houve, por conseguinte, palavras junto à
sepultura. Nenhuma pedra foi colocada para marcar o lugar. Em
pouco tempo, ninguém sabia onde jazia o corpo de Calvino. A
sepultura continua desconhecida até hoje.[150]
João Calvino — o Reformador

Falar do Reformador João Calvino é reportar-se a Jesus Cristo, à


Trindade Santíssima e à soberania absoluta de Deus. Porquanto em todos
seus escritos vemos claramente o enaltecimento de Deus o Pai, de Deus o
Filho e de Deus o Espírito Santo como sendo absolutamente unos. Falar de
João Calvino é reportar-se à Santa Escritura e à interpretação bíblica mais
detalhada, profunda e perfeita que qualquer outro fizesse depois dos
apóstolos. “... a missão prioritária de Calvino era explicar e aplicar as
Sagradas Escrituras”.[151]
Ele jamais usou textos bíblicos para fundamentar seus próprios
conceitos teológicos; isto é, ele nunca interpretou a Santa Escritura com o fim
de negar alguma doutrina ou impor-lhe suas próprias ideias preconcebidas.
Ele não tinha um a priori bíblico em sua mente; ele tinha o volume sagrado
da Bíblia diante de si. Ele a interpretou com mente isenta. Só lhe importava
uma coisa: descobrir nela a plenitude de sua verdade revelada. De fato, em
certa medida, ele se escudou nos Pais da Igreja, mas somente com o intuito
de encontrar neles o amparo da antiguidade e para que ninguém o acusasse de
inventar doutrina nova. Tanto é que, quando necessário, ele se recusava a
aceitar a interpretação deles que não se coadunasse com a Santa Escritura.
Ele não buscava uma doutrina nova; ele queria, sim, descobrir nas santas
páginas a antiga doutrina dos patriarcas, dos profetas e dos apóstolos e,
assim, fazer a igreja retroceder à verdade eterna. Seu intuito era reformar a
igreja, e não inventar uma nova igreja.
Ao aceitar a tarefa de reformar religiosamente a igreja de Genebra, ele
assumiu a responsabilidade de ser plenamente fiel ao conteúdo da Santa
Escritura. Decidiu pagar o preço de uma reforma radical. Aliás, ele foi o
reformador mais radical de todos os outros. E isso, de certo modo, lhe
granjeou antipatia e muita perseguição. Pela ótica da incredulidade, ser fiel ao
conteúdo da Bíblia é ser biblista, radical, fanático, exagerado, antipático. O
mundo ama os moderados, equilibrados, conciliadores e pacificadores mesmo
que negociem algumas verdades bíblicas. Calvino procurava ser pacificador
na exposição da Santa Escritura; porém não negociava a verdade de Deus
revelada nela.

1. Genebra e Calvino
Genebra não era diferente do resto da Europa com suas corrupções,
evoluções e imposições principalmente da parte da Igreja de Roma. Lendo o
valioso capítulo 5 de A vida de João Calvino, de Alister McGrath, ele nos
informa que “falar de Calvino é falar de Genebra. Calvino iria influenciar e
ser influenciado por Genebra”.[152]
O mesmo escritor, no subtítulo do capítulo 5, Genebra antes de
Calvino, nos traz muitas informações acerca daquela cidade que seria a arena
da reforma de Calvino. Havia sido governada por bispos; sua prosperidade
vinha das feiras que se centralizavam em Genebra, atraindo diversos países e
cidades com seu movimento; seus negócios eram governados pelo ducado
vizinho de Sabóia. Com a evolução das coisas, a Igreja de Roma foi aos
poucos perdendo o controle da região, e com isso Genebra foi ganhando sua
emancipação. De modo que já nos dias do Reformador ela era praticamente
independente.[153]
Ele segue nos informando que, de certo modo, Calvino copiou as
administrações de Genebra e as aperfeiçoou para, depois, Genebra
estabelecer o formato administrado criado por Calvino.[154]

2. O coração de Calvino posto em Genebra

2.1. Antes de Genebra, o altar de Deus

Toda sua vida, depois de sua conversão, foi posta no altar divino da
adoração do Deus Trino, do estudo e exposição da Santa Escritura, da oração,
do bem geral do ser humano e do serviço prestado à causa de nosso Senhor e
Salvador Jesus Cristo, o Senhor da Igreja.
É ele mesmo, pela experiência pessoal, que afirma com plena
convicção: “... é notório que o homem jamais chega ao puro conhecimento de
si mesmo, até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão dele
desça a examinar a si próprio”.[155]
Com isso ele põe o homem diante do trono de Deus para que comece a
ter uma visão nítida de si e da glória de Deus. Encontramos essa mesma ideia
em todos os seus comentários bíblicos, seus tratados, seus sermões e suas
correspondências. É impossível extrair tudo o que ele fala sobre o assunto em
todos os seus escritos.

2.2. Mas é preciso, antes, visualizar sua visão do próprio homem, a saber,
dele mesmo:

2.2.1. Calvino foi um homem — nem “santo” nem “diabo”.

Os extremos sempre prejudicam. Em se tratando de Deus, não há como


exagerar; em se tratando do homem, corre-se o risco de exagerar para a
direita ou para a esquerda.
Sobre a pessoa de Calvino, os dois extremos têm estado sempre
presentes e em evidência. Há quem o admira, quem o ignora e quem o odeia.
Isso se dá com quase todos nós, mas com Calvino se tornou um ponto muito
saliente em toda sua vida. O homem ou a mulher que queira servir
sinceramente ao Senhor da Igreja não poderá escapar a esse drama
existencial. Nosso Senhor mesmo foi amado, evitado e odiado.
Quanto a Calvino, extraímos de Timothy George o seguinte:

Poucas pessoas na história do cristianismo têm sido tão


supremamente estimadas ou tão mesquinhamente desprezadas
quanto João Calvino. A maioria dos cristãos, dentre a qual
grande parte dos protestantes, conhece apenas dois aspectos a
respeito dele: acreditava na predestinação e ordenou que Serveto
fosse queimado vivo. Desses dois fatos, ambos verdadeiros,
emerge a caricatura usual de Calvino como o grande inquisidor
do protestantismo, o tirano cruel de Genebra, uma figura
rabugenta, rancorosa e completamente desumana.[156]

... quando os cônegos da Catedral de Noyon, cidade natal de


Calvino, receberam a notícia da morte do reformador,
comemoraram e deram graças a Deus por tirar aquele famoso
herege de seu meio. A alegria durou pouco, entretanto, quando
descobriram que os boatos acerca de sua morte haviam sido
prematuros. Ainda teriam de suportar Calvino por mais treze
anos![157]

Com isso, através dos tempos, criaram-se dois conceitos extremados


sobre a pessoa e obras de Calvino: a calvinofobia e a calvinolatria. E sabemos
que qualquer extremo no tocante ao ser humano não é positivo, e sim
negativo. Calvino, enfim, era homem falível em sua pessoa e em suas obras.
Este fato torna a figura de Calvino ainda mais bela e excitante. Lendo
suas Institutas, seus comentários, seus tratados ou suas cartas, sua figura se
sobressai com matizes impressionantes. Pela ótica de alguns, ele era odioso;
de outros, era repelente; de outros, era atraente; ainda de outros, era
fascinante.
Sua ternura às vezes se choca com sua severidade; sua tolerância, com
sua intolerância; sua humildade, com sua aspereza; sua exclusividade, com
sua solidariedade; sua simplicidade, com sua profundidade. Ele era o que
realmente era, porém visto e analisado pela ótica e conceito muito distintos.
Então, o problema não estava propriamente nele, e sim na análise e ótica de
cada um, até hoje. Enquanto você é maravilhoso para uns, é odioso para
outros. Para uns, você é sábio; para outros, é ignorante e estúpido. A pessoa
que se torna um vulto público é impossível ser de outro modo. A avaliação de
um às vezes é totalmente discrepante com a de outro. Querendo ou não,
estamos sendo constantemente avaliados pelas pessoas circundantes. Sinto-
me amado por alguns que festejam o encontro; no entanto, sou detestado por
outros, os quais viram-me as costas. Os dois grupos têm razão? Depende da
perspectiva e da experiência.

2.2.2. Amava profundamente a Deus.

Foi a partir da visão de Deus e do homem que Calvino estabeleceu, em


seu pensamento teológico, a soberania de Deus e a miséria do homem.
Antítese que satura todas as suas obras literárias. Estas duas faces da mesma
moeda são chocantes. Enquanto esta ideia fascina uns, escandaliza outros.
Por exemplo:

... o homem não é jamais tangido e afetado suficientemente pelo


senso de sua indignidade, senão depois de comparar-se com a
majestade de Deus.[158]

Por isso ele diz ser impossível que o homem queira por si só a salvação
eterna: ele não se regenera a si mesmo, não se converte, não se salva.
Espiritualmente, está morto, perdido, confuso, vive alienado da glória e
majestade de Deus. Isso choca a muitos como a expressão do exagero. Os que
veem o ser humano como inerentemente bom, justo, merecedor da atenção
positiva de Deus se enojam do conceito do grande Reformador genebrino.
Para compreendê-lo, é preciso ir à própria raiz da natureza humana. À luz da
santidade e justiça de Deus, o homem é um ser nauseante.
Por isso, Deus decidiu salvar o homem com base exclusivamente em
seu amor isento e soberano. A vontade de Deus é a fonte de nossa eleição;
Cristo é o fundamento; o amor é a força propulsora; em nós Deus não viu
absolutamente nada que o movesse a salvar-nos. Para quem vê o homem
como um ser maravilhoso, na superfície, Calvino foi um homem paranóico;
mas se analisarmos o ser humano na profundidade de seu ser, descobriremos
que o Reformador é que estava certo: o ser humano, na realidade, é muito
pior do que se possa imaginar. Por exemplo, quem concordaria com ele ao
descrever a realidade do ser humano, nestes termos?

Não há nada em nós, exceto podridão; nada, senão pecado e


morte. Então, permitamos que o Deus vivo, a fonte da vida, a
glória eterna e o infinito poder, venha e se aproxime de nossa
miséria, infelicidade e fragilidade, bem como deste profundo
abismo de toda iniquidade — o homem; permitamos não
somente que a majestade se aproxime deste homem, mas
também se torne um com ele, na pessoa de Jesus Cristo.[159]

2.2.3. Temia profundamente a Deus

Calvino temia a Deus e tremia de Deus, não movido por superstição,


mas por lúcido conhecimento. Quanto mais conhecemos a Deus, mais o
tememos, mais o amamos, mais o adoramos, mais o servimos, mais
desejamos ser dele de forma incondicional.
Daí, o conteúdo da questão inicial do Breve catecismo permear todas as
obras de Calvino — a glória de Deus: “... quer comais, quer bebais ou façais
outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). O grande
profeta Daniel diz que ao homem pertence “o corar de vergonha” (Dn 9.7-9);
a Deus pertence a glória inerente e a glorificação rendida por toda a criação.
Daí sua tão bela e sucinta expressão acerca de Deus:

Eu o recebo nestes termos: não só que uma vez ele criou este
mundo e de tal forma o sustém por seu imenso poder; o regula
por sua sabedoria; o preserva por sua bondade; rege-o com sua
justiça e equidade, especialmente ao gênero humano; suporta-o
em sua misericórdia; guarda-o em sua proteção; mas, ainda que
em parte alguma se achará uma gota ou de sua sabedoria e de
sua luz, ou de sua justiça, ou de poder, ou de retidão, ou de
genuína verdade, que dele não emane e de que não seja ele
próprio a causa; e, após recebidas, a atribuir-lhas com ações de
graças.[160]

Ao confrontar a grandeza de Deus com a baixeza do homem, ele


exclama com espanto:

Portanto, a humildade deve conquistar nossa mente e


transformar nosso coração, surgindo de nosso estudo da
majestade de Deus em sua Palavra magnífica.[161]

2.2.4. Via Deus como absolutamente soberano

Deus é o único a quem devemos glorificar. Ele é absolutamente


perfeito, eterno, infinito. Em nada depende do que criou para ser
absolutamente feliz. Calvino não suportaria ouvir o que escreveu um teólogo
contemporâneo: “Deus jamais seria feliz sem o homem”. Ele não suportaria
que a glória de Deus fosse ofuscada pela figura humana. Ele não suportaria
que sua soberania absoluta fosse tocada por algo ou alguém fora dele. Tudo é
mutável, menos ele; tudo o que foi criado é perecível, menos ele que é o
Criador de tudo. Ele é o único “Eu Sou”; nós viemos a ser por seu poder
criativo. Não existe no universo nada que possa frustrar sua vontade
soberana. Isaías interpretou bem a vontade absoluta de Deus: “Agindo eu,
quem me impedirá?” (Is 43.13).
A ideia de que Deus não pode salvar alguém se este não quiser é algo
profundamente abominável. Faz a vontade de Deus subserviente à vontade
humana. É impossível que a vontade do homem alienado de Deus e
totalmente corrompido, aliás, morto, seja maior que a de Deus. Aliás, a
vontade divina é irresistível. Deus deixa à sua própria sorte a pessoa que
resiste à ação do Espírito Santo. Quando chama alguém para a salvação ou
para seu serviço, esse alguém vai a ele querendo ou não. Na verdade, é ele
mesmo que faz com que o pecador o queira. Deixado à sua própria vontade,
nenhum pecador jamais escolheria Deus. Portanto, a visão calvinista do
conteúdo da Bíblia, no tocante a Deus e ao homem, é tão real e justa, que
causa repugnância no ser humano.
Daí a sociedade humana preferir um deus de sua escolha, de sua
invenção, fruto de suas maquinações, em vez do Deus real, criador e
mantenedor de tudo quanto existe, o Deus descoberto por João Calvino. Ele
preferiria que toda a humanidade perecesse no inferno eterno do que ser Deus
ofendido em sua glória e majestade. Sem transformação, o homem segue seu
curso não querendo a Deus nem o céu. O que precede não é a fé do homem, e
sim a mudança que o Espírito Santo causa no interior do homem. Daí a
verdadeira fé ser dom do Espírito. A fé natural do gênero humano não pode
levá-lo a parte alguma exceto ao inferno eterno. Calvino e o calvinismo
glorificam o Eterno e põem o homem em seu próprio lugar.
Certo dia, Calvino me inspirou a orar assim: “Senhor, se me salvas,
isso provém tão somente de tua mercê e graça; se me condenas ao inferno
eterno, e lá me lanças, isso provém de tua perfeita justiça, pois é justamente
isto que eu de fato mereço em razão de minhas misérias”.
Se me levas para o céu, lá te adorarei para sempre com ações de graças;
se me lanças no inferno, de lá ainda te adorarei como Deus justo e de lá te
louvarei como Senhor do céu e do inferno. Pois leio no Santo Livro que
“diante do nome de Jesus, todo joelho se dobrará e toda língua confessará que
ele é Senhor para a glória de Deus Pai” (Fp 2.10,11).
Dou-te graças, ó Senhor, porque a justiça perfeita de teu Filho Jesus
Cristo se tornou minha ante o teu justíssimo tribunal. Por isso me tornei justo
nele, mediante a fé. A certeza de que não vou morar no inferno, e sim
eternamente no céu com o Senhor, se baseia no que ele declarou no Gólgota:
“Está consumado” (Jo 19.30). Sim, seu sacrifício expiatório estava
consumado com validade também para mim. Em Jesus Cristo, o Cordeiro de
Deus que tira o pecado do mundo, já não devo nada, absolutamente nada à
justiça do Eterno. Esta é a suma de minha profissão de fé. É nisto que está
posta minha confiança incondicional. No tocante à salvação eterna, não ficou
para eu fazer absolutamente nada! O que me tocou fazer é em decorrência da
salvação absolutamente gratuita. A salvação é gratuita, no entanto, essa
salvação gratuita tem um preço a ser pago, não da vida eterna, mas da vida
aqui e agora, para a glória do Senhor que salva. A vida cristã é caríssima, se
quisermos agradar àquele que nos salva gratuitamente.

3. Amava profundamente a Bíblia


“Calvino era um cristão que, antes e acima de tudo, vivia e respirava a
Palavra de Deus.”[162]

3.1. Ela é a expressão da absoluta vontade divina

“Ele cria firmemente que, quando a Bíblia fala, Deus fala.”[163]


“... quando a Palavra é pregada, o próprio Deus está, de fato,
presente.”[164]
“Onde quer que seja pregado o evangelho, é como se o próprio Deus
viesse para o meio de nós.”[165]
Os pastores extraem toda sua autoridade ministerial da Santa Bíblia:

Que os pastores enfrentem todas as coisas sem medo, por meio


da Palavra de Deus, da qual foram constituídos administradores.
Que eles reúnam todo o poder, toda a glória e excelência do
mundo a fim de conferir a primazia à divina majestade desta
Palavra. Que, por meio dela, comandem a todos, desde a pessoa
mais notável até a mais simples. Que edifiquem o corpo de
Cristo. Que devastem o reino de Satanás. Que apascentem as
ovelhas, matem os lobos, instruam e exortem os rebeldes. Que
juntem e separem, que clamem com veemência, se for
necessário, mas que façam todas as coisas de acordo com a
Palavra de Deus.[166]

“Quando nos aproximamos da Bíblia, devemos crer que ela nos foi
comunicada pelo Espírito Santo.” “A Bíblia é a cartilha de Deus para seu
povo.” “Somos alunos da escola de Deus para o conhecimento de sua plena
vontade na Bíblia.” Estas são expressões recorrentes em todos os seus
escritos.
Ora, a não ser que a pessoa seja eleita, jamais crerá nestes conceitos
genuinamente bíblicos. É impossível que o incrédulo creia em tais
afirmações. No entanto, elas são a suma da verdade revelada na Santa
Escritura.
Lawson segue afirmando as palavras do próprio Calvino:

Certamente existe uma igreja de Deus onde vemos a Palavra ser


pregada e ouvida com exatidão, e onde vemos os sacramentos
serem administrados de acordo com o que Cristo estabeleceu...
uma assembleia na qual não se ouve a pregação da doutrina
sagrada não merece ser reconhecida como igreja... a exposição
da Bíblia deveria ocupar o primeiro lugar no culto de
adoração… A verdade de Deus é mantida pela pregação
autêntica do evangelho.[167]

Sobre a natureza do Escrito Sagrado, Calvino não elaborou nenhum


tratado específico, pois sempre seguiu os Pais da Igreja neste aspecto da
teologia cristã. Ele se refere à Santa Escritura como a palavra inspirada do
Deus Eterno. Ele nunca creu que a Bíblia contenha a revelação de Deus; ele
sempre creu e ensinou que ela é a Palavra de Deus escrita.
Muitos têm ensinado que Calvino nunca creu nem ensinou a inspiração
gráfica e literal da Bíblia.[168] O conteúdo de todos os seus escritos desmente
isso. Ele faz contínua menção de “Deus lhe ditou as palavras da profecia”.
Em todas as suas obras lemos que ele cria e ensinava a inspiração verbal da
Santa Escritura. É ele mesmo quem declara:

Toda a Escritura, ou a totalidade da Escritura, embora não faça


nenhuma diferença no sentido. Ele agora explica mais
plenamente sua breve recomendação. Primeiro, recomenda a
Escritura por causa de sua autoridade; e, a seguir, por causa do
benefício que dela advém. Para asseverar sua autoridade, ele
ensina que ela é inspirada por Deus. Porque, se esse é o caso,
então fica além de toda e qualquer dúvida que os homens devem
recebê-la com reverência. Eis aqui o princípio que distingue
nossa religião de todas as demais, ou seja: sabemos que Deus
nos falou e estamos plenamente convencidos de que os profetas
não falaram de si próprios, mas que, como órgãos do Espírito
Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu
comissionados a declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se
das Escrituras devem antes aceitar isto como o princípio
estabelecido, a saber: que a lei e os profetas não são ensinos
passados adiante ao bel-prazer dos homens ou produzidos pelas
mentes humanas como sua fonte, mas que foram ditados pelo
Espírito Santo.[169]
Ela nos foi transmitida, infalivelmente, pela instrumentalidade de
homens falíveis. O Espírito Santo, em sua soberania, nos deu a Bíblia através
daqueles homens a quem ele inspirou para que escrevessem sua vontade
revelada, sem erro, ainda que fossem homens como nós.

Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura


provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer
profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens
[santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo
(2Pe 1.20,21).

E aqui Calvino tece o seguinte comentário:


... a Escritura não veio de homem, ou através das sugestões
humanas. Pois você nunca se chegará bem preparado para lê-la,
a não ser que venha com reverência, obediência e docilidade;
mas tal reverência só existe quando nos convencemos de que
Deus nos fala, e não homens mortais. Então Pedro nos convida
especialmente a crer nas profecias como os oráculos
indubitáveis de Deus, porque não emanaram das sugestões
particulares dos próprios homens.[170]

3.2. Acomodação divina

Deus, para nos alcançar em nossa pobreza, acomodou-se à nossa capacidade


(ou incapacidade?). Calvino dizia que Deus desceu de sua excelsitude para
estar conosco em nosso trevoso abismo. Ele se condescendeu de nossa
miséria, nos falando por seu Espírito em sua Palavra escrita. (Num capítulo
próprio e específico ampliaremos esta ideia.)

3.3. Não ir além nem ficar aquém

Ninguém deve ir além do que está escrito, e nem ficar aquém. Devemos
contentar-nos com o que está escrito. Daí ser absurdo acusá-lo de inventar
doutrina, como, por exemplo, a predestinação, porquanto ele tinha aversão à
especulação humana. E diz que “toda e qualquer novidade em questão de
religião é falsa.”
3.4. Não se deve negligenciá-la

Negligenciar a Bíblia, tendo-a ao alcance da mão, é negar a própria salvação.


Possuir a Bíblia em casa e nunca compendiá-la é declarar a própria
incredulidade em Deus e em tudo o que provém de Deus. Significa possuir ao
seu alcance o tesouro celestial sem jamais usufruir-se dele. Esta é a miséria
de todas as misérias. Tal pessoa declara em silêncio sua máxima estupidez e
merece ser execrada para sempre. Como é possível que tal pessoa habite
eternamente com o Deus da Bíblia, no céu, se ela desdenha de seu santo
ensino, o qual ele nos deu como a vereda para a eternidade feliz?
Assemelha-se àquele homem que viveu a vida inteira mendigando
assentado sobre uma grande pedra. Ao falecer, o povo do lugar decidiu
remover também aquela pedra para não servir de uma nauseante lembrança. E
qual foi a surpresa de todos? Debaixo da pedra jazia ao longo de tanto tempo
um verdadeiro tesouro, enquanto aquele homem, ignorando a verdade,
morreu na mais plena miséria. Muitos homens e mulheres, jovens e idosos,
estão perecendo na mais profunda miséria espiritual, perdidos, enquanto a luz
divina se encontra ao alcance de sua mão! Esta é a miséria de todas as
misérias.
Morrer com a Bíblia ao alcance de sua mão, sem nunca a haver
compendiado, é encontrar-se com Deus na mais profunda miséria espiritual,
nas trevas mais densas que o ser humano possa experimentar. Significa
morrer sem haver degustado a coisa muitíssimo mais doce que o mel (Sl
19.10). É como ter o desejo de comer sua fruta preferida estando a árvore ao
alcance de sua mão.

3.5. Não torcer nem negar

Ninguém tem o direito de torcer nem de negar a Bíblia. Devemos


aceitá-la, não questioná-la. Esse foi o constante ensino do Reformador
genebrino. Ela nos foi dada pelo Espírito Santo a fim de a conhecermos e
crermos nela de todo o coração e de ensiná-la a outros. Nosso dever é nos
determos em suas santas páginas. A santificação é impossível sem a
assimilação do conteúdo do Santo Escrito.
Foi justamente isso que Calvino passou à comunidade genebrina e ao
mundo. Ele reformou Genebra com a Bíblia aberta, não só nas mãos, mas,
sobretudo, em seu coração inflamado de amor pela verdade divina.
3.6. Ela nos leva ao conhecimento de Deus e de nós mesmos

Esse conhecimento de Deus e de nós mesmos só se encontra na Bíblia. A


natureza não nos transmite isso. Ele começa suas Institutas com estas
palavras:

Quase toda a soma de nosso conhecimento, que de fato se deva


julgar como verdadeiro e sólido conhecimento, consta de duas
partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós
mesmos. Como, porém, se entrelaçam com muitos elos, não é
fácil, entretanto, discernir qual deles precede ao outro, e ao outro
origina.[171]

João Calvino se apropriou do mais sólido conhecimento da Santa


Escritura e dos Pais da Igreja para estabelecer sua reforma genebrina. Ele
morreu sem ter plena noção da grandeza de sua teologia e o vigor que ela
exerceria na reforma em outros países, inclusive nosso Brasil, embora
tardiamente, pois creio que, se a evangelização de nossa pátria fosse
acompanhada da substância dos escritos do Reformador, teríamos hoje
igrejas realmente evangélicas. Em consequência da negligência, hoje temos
uma repulsiva colcha de retalhos com o título “povo evangélico”, quando, na
verdade, não é evangélico, senão um doloroso arremedo da religião de nosso
Senhor.
Pessoalmente, dou graças a Deus pelo homem João Calvino, não só
porque ele reformou a igreja de nosso Senhor, mas também porque me deu o
privilégio de conhecer profunda e profusamente esse maravilhoso homem e
servo de Jesus Cristo através de seus escritos.
As igrejas brasileiras, realmente reformadas e, portanto, evangélicas,
deveriam sentir-se honradas e agradecidas por ter João Calvino como seu
mentor na correta interpretação da Bíblia e de propiciar à igreja um sistema
perfeito de governo. E hoje temos tudo isso em nosso idioma.

4. Seu propósito quanto à vida da Igreja

Calvino olhava não só ao seu redor, em seu viver cotidiano, senão que
seus olhos contemplavam o mundo inteiro cedendo à operação do Espírito
Santo para uma plena reforma da vida. Ele queria que a sociedade humana
fosse transformada de dentro para fora.

4.1. Integridade de vida

Mark R. Talbot faz uma curiosa afirmação sobre a imagem divina no


homem afetada pela queda.

Descrever nosso mundo como um palco quebrado é iluminador.


Por causa da desobediência de Adão e Eva, a vida humana até o
eschaton [o fim da história] é sempre encenada em um palco
quebrado, um palco coberto com os destroços de pecado e de
sofrimento.[172]

Dr. Herminsten Maia, em seu livro Calvino de A a Z, citando o Livro


dos Santos (Sl 100) e as Institutas II.5, afirma sobre a imagem divina no
homem:
Por meio da regeneração, Deus “cria de novo sua imagem em
seus eleitos”. Definindo arrependimento, Calvino escreve: “o
arrependimento é uma regeneração espiritual cujo objetivo é que
a imagem de Deus, obscurecida e quase apagada em nós pela
transgressão de Adão, seja restaurada [...] Assim, pois, mediante
essa regeneração, somos restabelecidos na justiça de Deus, da
qual tínhamos sido despojados por Adão. Pois a Deus agrada
restabelecer integralmente todos os que ele adota na herança da
vida eterna”.[173]

Calvino buscou viver uma vida íntegra, porquanto ele cria e ensinava
que todo o ensino da Santa Escritura só tem validade quando aplicado à vida
cotidiana. Todo seu ensino sobre a vida cristã está pautado num viver
responsável. E tudo isso só se consegue tendo como ponto de partida uma
vida em comunhão com Deus.
“Somente aqueles que têm acesso a Deus, e que vivem uma vida santa,
é que são seus genuínos servos.”[174]
E ele diz que nossa vida inteira tem de ser de progresso contínuo na
santificação: “Como na presente vida não atingiremos pleno e completo
vigor, é indispensável que façamos progresso até a morte”.[175]

4.2. Influência sobre a sociedade

A visão que Calvino tinha da Bíblia e como a interpretou, se posta em


prática pela igreja atual, no seio da sociedade, traria profundas mudanças em
todos os setores dessa sociedade.
Por exemplo, a visão teológica do pecado no ser humano desde seu
nascimento, da sociedade brasileira, é inteiramente pelagiana, isto é, ao
nascer, a pessoa não é pecadora, ou seja, nasce como se fosse um anjo. Aliás,
quase todos denominam uma criancinha de “anjinho”. Em que sentido? É que
a criancinha não tem ainda o germe do mal em seu ser. Só não sabem
explicar por que ninguém nunca conseguiu criar um filho ou filha sem se
contaminar pela prática do pecado. Ninguém sabe explicar por que o pecado
é tão universal que todos, a uma, são viciados pelo pecado desde a mais tenra
idade.
A Bíblia ensina, e Calvino interpretou corretamente, que desde a
gestação a criança recebe do pai e da mãe o germe do pecado. Nesse sentido,
a criança já é pecadora; não que cometa pecado, mas que já está pronta para
cometê-lo. A corrupção é uma herança natural. É impossível que a criança
nasça de pais corrompidos sem herdar deles essa natureza. Se ela herda dos
pais tudo o que natureza humana contém, então ela herda também dos pais a
natureza pecaminosa. O ditado, “filho de peixe, peixe é”, se aplica ao ser
humano: “filho de homem e mulher, é homem ou mulher” na íntegra. A
corrupção moral é inerente, e não acidental.
Quando os educadores criam leis contra a disciplina paterna aplicada
em seus filhos, estes querem dizer que a criança, por si só, tem condição de
ser boa. Como disse certo papa: “A pessoa é inerentemente boa”. No entanto,
a Bíblia afirma que a pessoa é inerentemente má. Ora, a própria experiência
da sociedade desmente esse ilusório pelagianismo. É nesse sentido que o
autor do livro de Provérbios preceitua: “A vara e a disciplina dão sabedoria,
mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe” (Pv 29.15).
Aqui, a vara e a disciplina não significam “pancadaria”, maus tratos,
violência contra o corpo de uma criança. O autor de Provérbios cria que a
criança já nasce propensa ao mal, e não ao bem. Este tem que ser ensinado,
imposto, a grande custo; aquele é natural e se desenvolve naturalmente.
Ora, é muito diferente nosso trato com a criança: se cremos ser ela um
“anjinho”, ou se cremos ser uma “pecadora”. Toda a educação da sociedade
sofreria uma radical reversão. O sistema educacional brasileiro não está
criando seres humanos decentes, tementes a Deus, respeitosos para com os
superiores e iguais. É só indagar dos professores e professoras sobre o
comportamento de seus alunos criados como se fossem totalmente livres e
bons. Pergunta-se: onde foi parar o respeito, o bom senso, o trato social, a
obediência aos pais e às autoridades etc.? O que foi feito da honestidade, da
retidão, da seriedade, do idealismo, do compromisso, da responsabilidade
etc.?
Ainda hoje, um lar governado pelo prisma do ensino bíblico calvinista,
com seriedade, com responsabilidade, conduzindo os filhos ao ensino da
Escritura desde cedo, ensinando aqueles princípios que devem reger a
sociedade, nos mínimos detalhes, sem dúvida é um lar diferenciado. Daí
promana bons cidadãos, bons líderes nacionais, bons profissionais, bons
cristãos. Estarrece ver e ouvir de membros de igrejas cristãs que agem com a
máxima conspurcação em todas as esferas, desde o alto escalão até o
proletariado. Sem dizer o quanto estarrece ver e ouvir de presídios
aglomerados por falta de espaço; ver homens e mulheres a quem chamam de
“menores” depredando, violentando, roubando, matando com fúria máxima.
Estarrece-nos ver a devastadora impunidade em razão da distorção do
conceito de pecado no ser humano desde sua gestação. Consterna-nos ouvir
as opiniões da maioria dos educadores que não têm uma ideia definida do que
está acontecendo com e na sociedade humana. Nunca vão diretamente à fonte
do problema. Formam circunlóquio que nunca chega ao núcleo da questão.
Sem o ensino bíblico, a sociedade está fadada ao caos.
É muito notório a todos o provérbio: “o conhecimento se adquire na
escola; mas a educação se adquire no lar”; “a educação do berço” é uma frase
repetida quase que diariamente. Isso só é possível se a sociedade humana
mudar seus conceitos de mal e bem. Dentre as denominações realmente
cristãs, o calvinismo brasileiro ainda é dos mais respeitáveis e respeitados.
Não é melhor porque o calvinismo, hoje, se deformou muitíssimo. O fato é
que os princípios oriundos da visão reformada da Bíblia, praticados com
seriedade, ainda pode e deve produzir seres humanos dignos de redirecionar
os múltiplos setores da sociedade brasileira.
Grande parte dos cristãos modernos prefere seguir os compêndios de
sociologia, antropologia, psicologia, direitos humanos, do que seguir os
princípios bíblicos na educação de seus filhos. A psicologia bíblica é
supremamente a melhor, porquanto ela provém da Santa Escritura que nos foi
dada pelo sapientíssimo Espírito Santo. É preciso haver uma mudança radical
na educação da família. Mas, que família? Se nos deixarmos levar pelo
pessimismo (ou realismo?), que família haverá amanhã? O único órgão da
sociedade que tem validade para produzir bons cidadãos e bons cristãos é a
família. Destruída esta, que nos sobrará para o futuro? E uma família digna
de honra é aquela que se compõe de um homem digno de ser “chefe” da
família; de uma mulher bem preparada e digna de ser mãe dos filhos
brasileiros. Somente um homem bom e uma mulher boa é que podem gerar
novos e bons filhos para o Brasil! Fora disso, temos uma sociedade
descarrilada.
Se o calvinismo brasileiro se soerguer como outrora, com força
pujante, com a dignidade da verdadeira religião de Jesus, para implantar lares
perenes, bem fundados nas páginas da Santa Bíblia, então teremos novas
gerações para um mundo melhor. Então, ficará para trás a era em que os
homens espancam as impotentes mulheres de maneira covarde, vergonhosa e
criminosa, de filhos despudorados que contribuem para a destruição dos
lares, das escolas, da sociedade como um todo; filhos sem regras, sem
disciplina, depredadores, cuja liberdade é mais bem traduzida como
“libertinagem”. O fato é que a nova geração humana se compõe de libertinos
irresponsáveis e perversos, que tiram a liberdade e roubam o direito dos
trabalhadores, idealistas. Pior, fazem isso impunemente. Que a Providência
nos proveja de sabedoria para o surgimento de uma nova sociedade e uma
nova igreja.
O calvinismo implementa o temor de Deus nas vidas, nos lares, nos
vários setores da sociedade. Quando este elemento fundamental desaparece,
com ele desaparece o resto da imagem divina no homem. Temor não é
propriamente medo, pavor; temor é respeito, reverência, restrição, dignidade
para com Deus e nossos semelhantes. Eu temo a Deus, temo a lei, temo as
autoridades como superiores a mim. Sem este princípio, a sociedade não tem
como suportar a carga das consequências nocivas e destruidoras.
Tomemos como exemplo o esporte. É possível conceber o esporte
como que destituído de regras, de normas, de princípios, de fundamentos? É
possível imaginar um lar sem esses mesmos fundamentos? É possível
imaginar uma sociedade boa e ordeira sem tais princípios e fundamentos?
“Minha liberdade só vai até onde começa a liberdade do próximo.” Então
minha liberdade é regulada. Meus direitos não podem surrupiar os direitos de
meu próximo. Isso nunca dará certo! Deus produz pessoas boas com sua
religião correta; esta religião correta produz lares bem constituídos; e esses
lares bem constituídos produzem indivíduos dignos de confiança.
O calvinismo prático faz isso com sua visão da soberania absoluta de
Deus, com sua visão de lares que disciplinam e corrigem corretamente os
filhos; com sua visão de uma sociedade íntegra que conduz bem os negócios
do país. Pois o calvinismo ensina que todos os departamentos de um país
pertencem a Deus. O governo é ministro de Deus; os magistrados são
ministros de Deus; todas as autoridades são ministras de Deus; os cientistas
são ministros de Deus; os educadores são ministros de Deus. Deus é o Senhor
absoluto de tudo e de todos e a tudo governa para um propósito
predeterminado. O respeito procede de Deus; o desrespeito procede do
maligno.
A disciplina procede de Deus; a indisciplina procede do maligno.
Quando digo “maligno”, quero dizer tanto a ação diabólica direta ou
indiretamente, quanto aos efeitos destrutivos da má natureza com que nascem
todos os seres humanos. A natureza pecaminosa que constitui o ser humano
já nasce pronta a exercer sua força destruidora. Nenhum pai ou mãe precisa
ensinar a criança a praticar o mal; ela o pratica naturalmente. Ambos têm que
ensinar seus filhos, e com muito empenho, a praticar o bem. É só observar
atentamente esta dolorosa realidade. Como é difícil implantar o bem na
criança! Deixada à sua vontade, ela procurará normalmente fazer dano aos
outros.
A educação mundial precisa adotar os princípios calvinistas do ensino
bíblico. E se verá que funcionam bem e melhorarão radicalmente a
sociedade.

4.3. Reforma do mundo através de missões

Calvino é tido como um homem completamente destituído do espírito


missionário. Quase a mesma censura lhe é lançada de não aprovar a música
na igreja. Prova-se, através de suas obras literárias e teológicas, que lhe são
lançadas muitas acusações falsas. Justamente como ele metrificou muitos
salmos para serem entoados como louvor ao Deus Supremo, também se pode
provar que ele nutria o espírito missionário. Talvez não com a mesma
intensidade que se pode detectar nos outros reformadores, pelo menos na
aparência.
J. Vanden Berg alega que isso se deve porque “não encontramos em
Calvino uma doutrina específica sobre missões”. Mas prossegue que
encontramo-la esparsa em todas as suas obras.[176] Ele diz ainda que “Calvino
não foi cego nem surdo às necessidades de um mundo pagão”.[177] Lemos
ainda que “em suas obras descobrimos que Calvino considerou a conversão
das nações e a expansão do reino de Deus no mundo inteiro”.[178] “Calvino
reconhece”, diz ele, “o caráter universal do chamado do evangelho e dirige
seus olhos para o estabelecimento de uma igreja universal, a qual reúne todas
as nações e estabelece o reino de Deus sobre toda a amplitude do mundo, e
sabe que a igreja tem que exercer uma parte ativa na grande tarefa de fazer
deste mundo o palco da glória de Deus”.[179]
Para o Reformador, o mundo tem de ser o palco e teatro do reino de
Deus triunfando através do evangelho.
NONA PARTE: DE REGRESSO A GOIÂNIA
Vale lembrar que foi em Goiânia que minha vida tomou outro rumo. Aqui foi
onde fui ordenado e minha vida, definida. Agora, eis-nos de volta,
provavelmente até o final da vida terrena. Ordenado em 1975, pastorado em
Paraíso de 1975 a 1977 e em Ceres de 1978 a 1986. Nossa peregrinação na
grande São Paulo foi de 1987 a 2004. Desse período em diante, residimos em
Aparecida de Goiânia e agora estamos residindo em Goiânia. Saímos de
Goiás ainda jovens, ainda cheios vigor e idealismo, e agora sabemos pela
própria experiência o que significa o peso dos anos; não a “melhor idade”,
como muitos a chamam, o que não passa de fantasia. Em termos
experienciais, o idoso enfrenta a fase final de sua peregrinação terrena. E
essa fase nem sempre é recoberta de saúde e vigor. Há uma infinidade de
idosos que vivem os piores momentos de sua vida. Quanto a nós, porém,
ainda nos resta vigor e disposição. É na velhice que ainda tenho realizado o
máximo de minha vida. No dizer do salmista: “Na velhice darão ainda fruto”
(Sl 92.14).
Depois que Cremilda se aposentou e deixou o Instituto Mackenzie, eu
me desvencilhei do terrível problema gerado por Edições Parakletos; estando
meus sogros já em estado senil e muito doentes, percebendo que poderíamos
mudar-nos para Aparecida de Goiânia onde eles moravam, sem que houvesse
alteração forçada, então lhe sugeri a seguinte solução: Já que seus pais
necessitam de cuidados especiais, e você, dentre os filhos, é filha única, e
seus irmãos não podem estar com eles, e eu posso continuar minhas
traduções e composições literárias em qualquer lugar, vamos para a grande
Goiânia; seus pais precisam de você.
1. Novo impacto de cosmovisão

Com parte do dinheiro que recebera dos acertos finais com o Instituto
Mackenzie, Cremilda comprou uma casa modesta nas proximidades da
residência de seus pais; então mudamo-nos para Aparecida de Goiânia. E
assim ela assumiu o papel de “mãe” dos velhos pais. Mal sabíamos que
aquela seria uma trajetória cheia de percalços e sem volta. Não houve um
choque de cosmovisões tão forte como aquele de quando saímos de Goiás,
porque já havíamos morado em Goiânia e no estado em tempos passados.
Mesmo assim, já adaptados na capital paulista, houve certa dificuldade de
adaptação e no enfrentamento de preconceitos da parte das igrejas da grande
Goiânia. Foi assim que ela deixou as lidas escolares e passou à convivência
com os pais já idosos e de temperamento dificílimo. E ela fez isso dia e
noite. Enquanto eu trabalhava em minha “oficina”, ela ia e vinha, sem cessar;
e assim cumpriu cabalmente o que lhe competia como filha.
2. Tentativas inglórias

Assim que chegamos, das primeiras coisas que cogitamos foi de nos
filiarmos à igreja que ficava a duas quadras de nossa casa. A princípio,
queríamos simplesmente estar presentes nos cultos. Logo descobriríamos
com profundo pesar que não seria fácil. Tentamos de imediato enturmar-nos
com aqueles irmãos, alguns já conhecidos, mas houve relutância e resistência
da parte da maioria deles. Havia uma grande e forte barreira gerada pelo
preconceito que obstruía nossa afinidade em Cristo. Era a igreja de meus
sogros. Havia tudo para ser também a nossa. Insistimos um pouco mais. O
pastor me convidou a dar um curso de liderança para uma classe seleta.
Consegui fazer isso durante aquele primeiro ano. Então, percebendo que se
esquivavam de mim e da metodologia de meu ensino, declarando que não
precisavam da cultura paulistana, acabei desistindo. Alguns diziam: “Não
adianta; temos nossos próprios costumes, e cremos que são melhores e
suficientes. Não precisamos de nada vindo de fora”. Com isso passei a
frequentar outra igreja mais distante, mas também não fui recebido de braços
abertos. Praticamente, estava sem igreja; aquele era um mundo estranho e eu
era um silencioso proscrito. Descobri que em Goiânia eu era desconhecido
até mesmo de muitos colegas de ministério. Creio que minhas idiossincrasias
colaboraram muito para esse infeliz impacto. Daí deglutir a seco a realidade
sem condenar a ninguém. Punha-me no lugar de todos e compreendia que no
lugar deles talvez eu fizesse o mesmo. Conclusão: O problema está radicado
em mim mesmo. E assim percebi que Goiânia seria meu longo exílio.

3. Presbitério Sudoeste de Goiânia

Viemos para a grande Goiânia sendo eu membro do Presbitério Unido


de São Paulo e auxiliar do pastor da Igreja Presbiteriana Unida, Rev. Carlos
Aranha. Já que nos mudamos definitivamente, então tinha que procurar o
presbitério da mesma região em que viemos morar. E assim me apresentei ao
Presbitério Sudoeste de Goiânia para que este viesse a ser doravante o meu
concílio.
Já era conhecido de alguns. Boa parte do concílio me olhava de viés e à
distância. Saíra de Goiás bem mais jovem, e agora enfrentava as mudanças
naturais da idade. Até que ponto de fato eu mudei? — perguntava a mim
mesmo. Eu não queria ser diferente. Tentava mostrar que eu era o mesmo de
outrora. Ninguém conseguia ver e sentir a dimensão de minha crise
existencial.
Cremilda fez o mesmo no âmbito do trabalho feminino. Tentou de
todos os modos para entrosar-se e foi “evitada” ou recebida com muita
restrição. Eu de um lado e ela do outro enfrentando cada um seus próprios
revezes. Parecia que esta não era de fato nossa antiga e amada Igreja
Presbiteriana. É terrível quando nos sentimos rejeitados pelos de casa. Ela
nasceu e cresceu na igreja e procurou servi-la bem; eu renasci nela e me
preparei para servi-la o máximo que pude. No entanto, a sensação nítida era
de repúdio. Sentíamos pessoas desagradáveis e não bem vindas. Aumentava
nosso senso de exilados.
Fui convidado a pregar na abertura de uma das reuniões do Presbitério.
Sabia que era um teste. Depois de pregar nunca indaguei se fui ou não bem-
sucedido. Faço o que faço em nome do Senhor Jesus e busco esquecer.
Nunca mais se repetiu. Nunca mais quiseram me ouvir. Nunca perguntei a
alguém o porquê da rejeição e afastamento. Não estranhei muito por ter a
nítida consciência de não ser orador. Quem me ouve uma vez dificilmente
quererá ouvir-me outra vez. Com certa angústia no coração, percebi que não
passei no teste. Chegava em casa e dizia para Cremilda que não mais voltaria
às reuniões. Sentia-me humilhado e discriminado. Eles não me envolviam
em suas discussões. Desde então, tornei-me um homem alijado do convívio
com os “irmãos em Cristo”, com pequena exceção.
Segundo o provérbio popular, eu “era um peixe fora d’água”. O
aquário deveria ser também meu, mas me “empurraram” para fora dele. De
início, fui integrado na Comissão de Legislação e Justiça. Esta foi a única
vez. Nas reuniões seguintes me davam, inclusive, livro de atas dos Conselhos
para examinar. Nunca me deram a tutoria de algum candidato à ordenação;
nunca me deram uma monografia para ler e avaliar. Era como se quisessem
dizer-me: “Aqui sabemos fazer perfeitamente bem essas coisas; não
precisamos de você”. Ou: “Descobrimos que sua cultura é muito pobre”. Por
fim, eu era deixado a perambular pelos corredores sem nenhuma tarefa.
É difícil uma atitude mais dura de suportar do que o descaso. Hoje,
olhando para trás, creio que o concílio nunca percebeu que agia assim para
comigo. Nunca percebeu que me discriminava e me magoava e ainda o faz.
Passei a sentir-me o pior dentre eles. Cheguei a pensar em entregar ao
Presbitério minha carteira de ministro e solicitar minha exclusão do rol de
ministros e da membresia da Igreja Presbiteriana do Brasil e viver no
anonimato, como apenas membro da Igreja celestial.
Esta é uma confissão muito forte e dolorosa. Com certeza, todos os
membros do concílio dirão que estou equivocado e imaginando coisas
inexistentes; que nunca agiram assim para comigo. Os que fazem o mal
costumam não perceber; só percebe quem o recebe. Enfim, eu não fiz o que
pretendera e continuei vertendo as obras de João Calvino para nosso idioma
como um homem destituído de apreço, à margem do caminho, quase um
proscrito. Então resolvi ser de fato um proscrito. Enfurnei-me em minha
“oficina” e desisti de procurar igreja para frequentar.
Que o meu concílio perdoe minha confissão franca, mas foi justamente
assim que me senti tratado — o membro mais indesejado entre eles. Cheguei
ao ponto de não mais querer frequentar as reuniões. Tanto é que depois de
jubilado não mais quis estar presente. Hoje vivo no isolamento. Só me vê
quem decide vir à nossa casa. Mais tarde, alguns resolveram aproximar-se e
tentar conhecer-me melhor — e deu certo. Creio que esses descobriram que
não sou o que pensavam e criam. Mas tenho que confessar ainda que nunca
recebi de meu concílio qualquer incentivo para fazer o que faço durante os
últimos anos de minha vida. Não me lembro de um deles falar-me: “Muito
bem, continue firme. Nós precisamos de sua contribuição”. Penso até que
meus antigos colegas não possuem nenhuma obra de Calvino em suas
estantes.
Por natureza, sou de espírito arredio, naturalmente propenso à reclusão.
Isso contrabalançou minha dura experiência. No entanto, o Senhor me deu
um rico depósito de conhecimento durante aquele tempo em São Paulo.
Todavia, e