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Doutor Amor

NACIONAIS-ACHERON
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by Pamela Silva

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Índice
1. Capítulo 1 - Riscos
2. Capítulo 2 - Apostas feitas
3. Capítulo 3 - Fatos
4. Capítulo 4 - Se divirta!
5. Capítulo 5 - Sem
arrependimentos
6. Capítulo 6 - Deixe-me te conhecer
7. Capítulo 7 - Pegue minha mão
8. Capítulo 8 - Esperança
9. Capítulo 9 - Todo mundo erra
10. Capítulo 10 - Perdão é divino
11. Capítulo 11 - Mandando tudo
pelos ares
12. Capítulo 12 - Meu espelho
13. Capítulo 13 - Jogadores
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14. Capítulo 14 - Tarde de amor


15. Capítulo 15 - Se Irritando
16. Capítulo 16 - Caminhos
17. Capítulo 17 - Companheiros de
batalha
18. Capítulo 18 - Tudo ficará bem
19. Capítulo 19 - Deixe de se
importar
20. Capítulo 20 - Mar
21. Capítulo 21 - No Chalé
22. Capítulo 22 - Uma Noite sem
estrelas
23. Capítulo 23 - Coragem e aliados
24. Capítulo 24 - Não direi adeus

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1. Capítulo 1 - Riscos

Capítulo 1 - Riscos
"Não importa quão estranho ou potencialmente problemático você seja, nós
podemos encontrar seu par perfeito! Venha hoje mesmo encontrar o amor da
sua vida!"

Sem dúvida alguma era um anúncio criativo, mas Kyle não conseguia
compreender o por que da animação do seu melhor amigo. O outro garoto o
encarava com os grandes olhos azuis brilhando de excitação, os cabelos
loiros desgrenhados ainda molhados do banho recente.
-Você devia secar o cabelo antes de vir a escola - comentou Kyle,
tranquilamente - Sabe que pode pegar um resfriado.
Anthony se largou na cadeira ao lado do amigo, puxando a janela aberta para
que pudessem observar seus próprios reflexos - O que você vê, meu amigo?
Kyle pensou por um instante, preocupado com o rumo daquela conversa -
Nós dois.
Anthony concordou com um aceno solene - Errado - disse com toda certeza -
Eu vejo Kyle, o aluno promissor, mas totalmente desligado de garotas, e
Anthony, aquele em quem todos perderam a fé - e diga-se de passagem -
muito interessado em garotas.
Kyle empurrou a janela de volta, sorrindo com a explicação absurda do
melhor amigo. É claro que ele mesmo não era feio, mas também não podia
ser chamado de "promissor". Os olhos incrivelmente negros nunca foram
destaque, muito menos os cabelos escuros escorridos.
-Talvez você devesse se preocupar mais com suas notas do que com garotas -
disse simplesmente, tentando voltar ao dever que faziam na sala sem
professor - Ou já se esqueceu que provavelmente vai pegar recuperação?
-No último semestre do último ano da minha vida estudantil - Anthony fez
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um careta, debruçando-se sobre os cadernos abertos sobre a mesa - É, eu não


me esqueci.
-Então se esforce!
-Vou me esforçar - respondeu com um sorriso animado - Se prometer que vai
comigo até o consultório desse tal Doutor Amor!
Kyle respondeu com uma carranca mal humorada, mas lentamente cedeu ao
sorriso do amigo - Tudo bem. Mas não vou participar dessa coisa esquisita.
-Claro! - riu Anthony, feliz da vida - Tudo que precisa fazer é esperar que eu
encontre o grande amor da minha vida!

-Tem certeza de que é nessa rua mesmo? - indagou Kyle, analisando a rua de
aparência abandonada.
-Claro - respondeu Anthony com sua confinaça inabalável - Não poderia ser
num lugar melhor. As flores do amor precisam de ar puro para desabrochar.
-Não acho que vá encontrar alguma flor aqui... Qual a indicação do local?
-"Sigam os corações" - leu Anthony, imediatamente apontando para um
enorme coração inflável, preso sobre um prédio de apenas dois andares.
-Sim, com certeza é fácil de achar - murmurou Kyle, rumando firme para a
entrada do local.
Até mesmo no interfone, ao lado número da sala, havia o adesivo brilhante de
um coração. Os dois se entreolharam, um tanto nervosos, mas Kyle sabia que
o amigo não desistiria de encontrar "o amor da sua vida". Apertou o botão,
sobressaltando-se com o estrondo produzido do outro lado, imediatamente
uma voz pastosa respondendo com um "oi" arrastado.
-Vi-viemos por causa do anúncio - adiantou-se Anthony, olhando de canto
para o amigo.

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-Isso parece um tanto suspeito - sibilou Kyle, olhando para os dois lados da
rua deserta - Acho mesmo que devemos ir embora!
-Podem entrar - disse a voz do outro lado, sem nenhuma vontade.
O estrondo da campainha ecoou pela rua, deixando os dois completamente
desconfortáveis. Pela primeira vez, Anthony pareceu indeciso.
-Ah, que seja! - exclamou Kyle, abrindo a porta.
Dentro do pequeno prédio, se sentiam ainda mais longe da realidade. Tudo
era silencioso e branco, quase imaculado. Subiram as escadas com relativa
segurança, fato comprovado pela trilha de corações que seguia pelo corredor
do segundo andar. A porta da sala 202 era completamente coberta pelos mais
variados tipos de corações , de todas as cores e em todos os tamanhos.
-Algo me diz que é aqui - declarou Anthony, todo orgulhoso.
Kyle fitou o amigo sem nem conseguir se surpreender mais com aquela
resposta. Bateu de leve na porta, pronto para acabar de vez com aquela ideia
maluca.
-Entre! - respondeu a mesma voz arrastada de antes.
Kyle novamente tomou a frente, entrando em uma saleta cor de rosa berrante,
cheia de mais corações e vasos de flores.
-Legal - riu Anthony, avançando até a mesa da recepcionista, uma jovem de
vinte e poucos anos, cabelos longos e negros parcialmente caidos sobre um
rosto entediado.
Se ergueu com alguma dificuldade, chamando atenção pelo jaleco branco que
usava... repleto de corações. Para Kyle eram corações demais, rosa demais,
mas Anthony parecia empolgado.
-Os dois vão participar? - indagou a recepcionista, piscando devagar.
-Não! - respondeu Kyle com pressa, sentando-se rápido no sofá rosa claro -
Eu só vou esperá-lo.
A recepcionista o o observou por um instante, virando-se em seguida - Tudo
bem. Meu nome é Karineee, pode me chamar se precisar.
Kyle continuou sentado por mais alguns minutos, vendo os dois seguirem

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para longe, e justamente quando pensou em sair dali e caminhar, a campainha


berrou de modo escandaloso, avisando que havia alguém no interfone. Kyle
continuou imóvel, olhando o aparelho com desconfiança. Mas a campainha
não parava e Karineee nem dava sinal de voltar.
Se aproximou com um suspiro - Ahm, oi?
-Oi! - respondeu uma voz visivelmente aliviada - Você é um cliente? Acho
que não o conheço. A Karineee não está? Esqueci minhas chaves, estou presa
do lado de fora...
-Tudo bem, eu posso abrir - respondeu Kyle, surpreso com a velocidade com
que ela fazia novas perguntas.
-Não! - rebateu a garota - Posso ser uma ladra assassina... como saberia? Me
faça alguma pergunta que eu deva saber.
-O que? - estranhou Kyle, sempre buscando pela figura desanimada de
Karineee - Ahm, tipo... O que posso perguntar? Como chegar até aqui?
-Seguindo os corações! - riu a menina.
Kyle deixou que ela entrasse, completamente chocado com aquilo tudo. Em
poucos minutos a porta foi aberta, revelando finalmente a garota estranha que
falava sem parar. E em tudo ela conseguiu surpreender Kyle; desde o rosto
angelical, os cabelos castanho claros presos em duas tranças, até o chapéu
escandaloso de cowboy e o jaleco cor de rosa, repleto de corações.
-Ah! Muito obrigado! - disse com um sorriso animado, ainda meio ofegante -
Já estou tão atrasada... Você realmente me salvou!
Kyle engoliu em seco, encarando-a com assombro - Quem é você?
-Eu? - repetiu a menina, surpresa - Ora, eu sou a Doutor Amor!

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2. Capítulo 2 - Apostas feitas

Capítulo 2 - Apostas feitas


-Sou a Doutor Amor, e você quem é? - a garota encarou-o com os grandes
olhos castanhos brilhando.
Kyle involuntariamente se encolheu, recuando um passo; suas costas bateram
na parede, mas ele estava mais preocupado com aquela figura animada
demais, viva demais, que tirava completamente sua concentração.
-K-Kyle - disse sem jeito.
-Clara - respondeu a garota, avançando dois passos enquanto colocava um
par de óculos muito redondos que a deixavam parecendo ainda mais
desconcertante.
Ela estava agora quase em cima de Kyle, o rosto do estudante passando do
pálido para um vermelho profundo, que tomou proporções ainda mais
aterradoras quando Clara estendeu a mão espalmada e tocou se abdômen,
pressionando-o para dentro.
-O-o que está fazendo? - Kyle tentou se afastar, percendo enfim que estava
preso contra a parede.
Clara nem deu pelo seu desconforto, empurrando os ombros do garoto com a
mão livre.
-O que... - Kyle sentiu a frase morrer nos lábios, surpreso com a sensação
boa.
-Melhor? - indagou a garota, sorrindo abertamente. Kyle concordou com um
aceno, sem voz para responder - Você parece se incomodar um pouco com
sua altura, por isso tende a se encolher. Mas as garotas não gostam de caras
que não tem confiança!
Kyle sentiu o rosto ficar vermelho novamente - É verdade que me acho alto
demais e me encolho um pouco, mas eu tenho confiança! Na verdade, tenho

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mais confiança do que muita gente!


Clara piscou um olho, encarando-o séria pela primeira vez.
-Era exatamente isso que queria ouvir - e sem esperar pela próxima reação do
garoto, pegou-o pela mão, arrastando-o pelo caminho que Anthony seguira
momentos antes - Vamos lá, Kyle! Temos muito o que fazer!
-Espera, eu não estou aqui para procurar alguém! - protestou enquanto se
afastava cada vez mais da saída - Você não entende, eu não quero isso...
-Vamos logo que o amor precisa de ação para acontecer - declarou a suposta
doutora, rindo de orelha a orelha - Onde há amor, não há hesitação!

-Eu sei que "onde há amor, não há hesitação"... mas isso! - exclamou Kyle,
apontando para o controle de video game que ele mesmo segurava.
Clara, sentada ao seu lado sobre uma pilha de almofadas, fitou-o com
interesse, um pirulito preso entre os dentes. Pela sala, em suas respectivas
mesas e televisões, outros três casais jogavam também, ainda tomados pela
timidez das pessoas que não se conhecem.
-Desse jeito eu vou ganhar - declarou a doutora, depois de alguns segundos,
voltando a olhar para a televisão.
Kyle virou-se rapidamente, apertando os botões freneticamente.
-Quando eu disse que precisa de ação, falava mais que tudo de uma decisão -
comentou Clara, mastigando o palito do pirulito - Você não pode se abrir
para as coisas boas se não decidir que vai ser assim. Antes de sair de casa,
você não decidi aonde vai, e como vai até lá? Que roupas vai usar, como quer
se parecer, que pessoas gostaria de conhecer... Tudo é decidido por você. As
coisas boas e as ruins, é você quem decide. Com o amor não é diferente. Se
quise se apaixonar a primeira vista, deve decidir e se abrir para essas
possibilidades.

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Kyle meneou a cabeça, lançando um breve olhar a Anthony, o corpo tenso,


sentado ao lado de uma menina de cabelos dourados.
-Não acho que seja tão fácil assim...
Clara deu uma risada curta e baixa, sempre concentrada no jogo - E não é.
Como você pode se apaixonar por um estranho se não gosta dessa ideia? "Ela
pode ser mal educada...", "Ela me parece o tipo de pessoa em quem não
confiaria..", "Não sei nada sobre ela...". É impossível que haja amor desse
jeito. Mas se você decidir se abrir e aceitar as possibilidades... a história
muda completamente.
Kyle meneou a cabeça - Quer dizer que posso mudar completamente meu
jeito de pensar?
-Se quer atrair garotas - riu Clara, deixando-o envergonhado.
-Não quero atrair garotas - respondeu Kyle, quase rápido demais - Mas se
você acredita tanto nessa sua teoria... Até mesmo alguém como eu, pode
acabar tão apaixonado, e por uma pessoa tão improvável, que mudaria até
mesmo minha percepção do mundo?
Clara tirou o pirulito da boca, apontando-o para o garoto - Um mês. É o
tempo que atendo de cada vez. Em um mês você vai estar apaixonado,
Kyle,posso garantir.
Kyle engoliu em seco, o coração incomodado com a certeza daquela garota
estranha.
Clara, por outro lado, parecia completamente a vontade, a ponto de se
aproximar ainda mais, empurrando-o com o ombro, os olhos voltados para o
lado de Anthony. O melhor amigos de Kyle agora ria com a garota de cabelos
dourados,como se já se conhecessem há eras.
-Quando jogamos, tendemos a ser mais competitivos - sussurrou
Clara,satisfeita - Ninguém consegue ser tímido e competitivo ao mesmo
tempo. Vencendo a primeira barreira, a personalidade de cada um pode vir a
tona naturalmente. E está feita a mágica!
-Todos esses truques... e a meneira certa é fazer uma garota ficar irritada? -
murmurou Kyle, surpreso com o modo como Anthony e a garota se
empurravam e riam, ainda jogando.

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Clara deu de ombros - É um jeito de ver as coisas.

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3. Capítulo 3 - Fatos

Capítulo 3 - Fatos
Anthony não ousou erguer os olhos do papel durante todo o tempo disponível
para resolverem a prova, ciente de que Kyle estava logo ao lado, mais
preocupado do que ele próprio. Há anos haviam falado sobre a faculdade,
assunto que Anthony até mesmo pasSam a evitar depois que as notas foram
decaindo. Kyle, por outro lado, provavelmente conseguiria ir para uma
universidade boa, mas deixaria de lado esses planos sem pensar duas vezes.
Eram amigos a tempo demais para que Anthony não sabesse dessa provável
reação.
Ele sente que deve me proteger, desde quando éramos pequenos. Acho que
ele nunca vai mudar, e antes que a vida dele acabe em segundo lugar, tenho
que definir um rumo para a minha.
Já do lado de fora da escola, os passos de Anthony os levavam facilmente
para a área quase deserta onde ficava o consultório da Doutor Amor, sua
animação tão visível, que só deixava Kyle ainda mais preocupado.
-Ei, não acha que está feliz demais com isso... Digo - Kyle engoliu em seco,
com medo de magoá-lo - Só acho que talvez esteja indo rápido demais - deu
um suspiro, percebendo que os ombros de Anthony já estavam mais baixos,
encolhidos - Ah, tudo bem! Qual o nome dela?
Anthony se voltou para o amigo com os olhos brilhando, um sorriso enorme
iluminando todo seu rosto - Bem, na verdade eu não sei!
-Como não sabe?? - espantou-se Kyle, pensando no fato de que até ele
mesmo sabia o nome de Clara, aquela louca com quem nem deveria ter
começado a conversar - Vocês não falaram sobre nada?
Anthony deu de ombros - Falamos... Basicamente nos ameaçamos durante o
jogo, trocamos palavras hostis... e depois marcamos de nos enfrentar mais
uma vez!

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-Ela é mais uma viciada em jogos - murmurou Kyle, agora sim preocupado
com o amigo e aquela suposta forma de se conhecer alguém.
Só não queria que Anthony se machucasse com uma garota que não
conseguiria entender a mente complexa e sensível do garoto.
-Onde há amor não há hesitação... - murmurou para si mesmo, tentando
acreditar no que a doutora dissera - Tenho que me abrir para as
possibilidades, não é?
Anthony fitou o amigo com um sorriso bobo nos lábios - Ficar falando
sozinho não atrai as garotas, sabe.
-Eu não quero saber de garotas! - bradou Kyle, ficando vermelho.
-Aaah! - exclamou Anthony,parecendo enfim perceber algo importante - Me
desculpa, cara! Tantos anos de amizade e nunca percebi qual seu interesse
verdadeiro!
Kyle inspirou profundamente, o rosto completamente em chamas - Corre,
Anthony! Mas corre de verdade!

Clara atendeu a porta enquanto saboreava um café que desprendia seu aroma
agradável por todo o corredor, a xícara tomada por diversos corações.
-Olá, garotos - cumprimentou, deixando-os passar - Ei, Anthony, Isabel já
está jogando.
-Legal! - comemorou o garoto, lançando um breve olhar ao amigo - Viu, o
nome dela é Isabel!
Anthony despediu-se com um aceno rápido e correu para o local onde a
garota de cabelos dourados já o esperava com um sorriso animado,
imediatamente fuzilando-o com um olhar determinado.
-E como vai o MEU parceiro de jogo? - sorriu Clara, estendendo a xícara de
café para o garoto, que negou com um breve aceno - Pronto para a próxima
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derrota?
Kyle observou o casal desconhecido que jogava silensiosamente, no canto
mais distante do quarto - Acha mesmo que sua técnica funciona? E de
qualquer jeito, não deveria ficar por perto?
Clara abriu seu melhor sorriso - Por que deveria? Eles acham que precisam
de mim, mas a verdade é que não sou necessária. O primeiro passo foi dado:
se arriscaram, apostaram em si mesmo, e agora estão conhecendo a reação
dos seus atos.
-E não tem um casal a menos?
Clara começou a se afastar, fazendo com que o garoto a seguisse - Talvez as
ações tiveram reações melhores do que eu mesma poderia prever... Eles
devem me ligar ainda hoje. Mas vão ficar bem, tenho certeza.
-Você é bem confiante - murmurou Kyle, seguindo-a na direção de uma mesa
baixa, rodeada por almofadas.
Sentaram-se a volta da mesa, um em frente ao outro, e o garoto não
conseguia deixar de pensar que não deveria estar ali. Anthony nem mesmo
pedira que ele fosse ao segundo encontro, mas se sentira na obrigação de ir. E
agora estava novamente frente a frente com aquela garota estranha.
-Ahm, quando tudo isso vai custar a eles? - murmurou meio sem jeito,
apelando para qualquer assunto que quebrasse o silêncio.
Clara acenou displicentemente, apontando para uma pequena placa na parede,
com o preço insignificante de cada encontro.
-Só isso? - exclamou Kyle, encolhendo-se em seguida, envergonhado -
Desculpa, mas isso é absurdamente barato!
-Bem, eu realizo trinta encontros seguidos - contabilizou com tranquilidade -
Isso me da algum lucro... eu acho.
Kyle meneou a cabeça - Você precisa urgentemente de ajuda para não falir!
-Ah, estou bem... É claro que temos um casal a menos, mas...
-Está decidido - rebateu Kyle, firme naquela ideia - Vou ajudar você nisso.
Clara o observou por um instante, pega de surpresa, e acabou surpreendendo

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o garoto quando sorriu sinceramente, de um jeito que ele ainda não tinha
visto.
-Obrigada, Kyle!
O garoto engoliu em seco, sem saber dizer o que estava sentindo.

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4. Capítulo 4 - Se divirta!

Capítulo 4 - Se divirta!

Kyle estendeu os pequenos panfletos impressos antes de ir a escola, feitos na


noite anterior, enquanto ainda estava sendo atormentado pelo sorriso
agradecido de Clara.
Mesmo que quisesse, agora não posso voltar atrás... Mas por que fui me
meter nisso?!
Suspirou profundamente, mas nunca sem parar de entregar os panfletos
coloridos do festival da Doutor Amor no final de semana. Bem, essa havia
sido a ideia maravilhosa para salvar Clara da falência. Havia conversado com
Karineee – a secretária quase tão estranha quando a doutora – e ela
confirmara que não ganhavam o suficiente para pagar o aluguel e a luz no
mesmo mês.
Mas de Karineee também viera a notícia formidável de que sua família
dispunha de uma pequena propriedade perto do centro da cidade; não era
muito grande e a construção em si não era das melhores, mas possuía um
jardim magnífico e um lago muito bonito. Seria o lugar perfeito para um
festival para casais. Clara tinha a habilidade necessária de conseguir dar cores
a tudo que tocava, e isso seria de grande ajuda. No fim, o trabalho de Kyle
era somente fazer parte da divulgação e cuidar da entrada e saída do dinheiro.
-Nunca vi você tão animado com uma garota que acabou de conhecer –
comentou Anthony, acenando para duas alunas do primeiro ano – Vocês vão,
não é mesmo? – indagou, elevando a voz.
As duas riram ao mesmo tempo e acenaram para os dois, mas somente
Anthony parecia feliz com isso.
-Não estou “animado com uma garota” – reclamou Kyle, vermelho – Estou
tentando ajudar. Sempre que posso faço isso. Você sabe...
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-Eu sei – concordou Anthony, empurrando o amigo com o ombro – Mas a


doutora é bem bonitinha, não é?
Kyle quase pulou para longe, controlando-se para não parecer mais nervoso
do que já estava – Então por que não tenta sair com ela e deixa a viciada em
games?
Anthony pareceu verdadeiramente chocado.
-Jamais poderia deixar Isabel! Ela e eu vamos namorar firme, ir para a
faculdade juntos, casar e jogar vídeo game até o fim dos nossos dias –
suspirou Anthony, fitando um ponto vazio no céu – Espero que você seja tão
feliz com a dra.Clara como nós seremos...
-Essa história está começando a me cansar.
Kyle guardou os panfletos na mochila, já planejando entrega-los no horário
do intervalo e entrou na escola, os olhos perdidos em cada rosto que passava.
Se Clara tinha mesmo razão, ele devia ser capaz de gostar de alguém de
verdade. Mas a primeira coisa que ele tinha que fazer era tentar pensar em
outra pessoa... era difícil reparar numa garota se o rosto sorridente daquela
maluca não parava de aparecer nos seus pensamentos.

Uma música animada ecoava pelo corredor antes mesmo que as portas
fossem abertas, fazendo os ânimos dos dois amigos oscilarem em direções
completamente opostas.
-Ela está dando uma festa no meio da semana! – riu Anthony, correndo em
direção a porta.
Ela é maluca, concluiu Kyle, imaginando se era tarde demais para dizer que
não estava se sentindo bem.
Anthony abriu a porta e deu de cara com Karineee, devidamente vestida de
Rei, a Sailor Marte, do anime Sailor Moon. A secretária apenas piscou sem
nenhum vestígio de se importar com o rosto surpreso dos dois, fazendo sinal
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para que entrassem.


Nem mesmo Anthony sabia o que dizer depois disso, mas sua animação
voltou imediatamente quando encontrou o consultório todo decorado com
balões e fitas coloridas, a música alta recebendo-os alegremente. Kyle seguiu
mais devagar, preparando-se para o que estaria por vir. Encontrou Anthony
pulando ao lado de uma Isabel vestida de Naruto-versão-feminina, e o casal
tímido tomava suco e conversavam tranquilamente, vestidos de Seiya e deusa
Athena.
-Ela tem até a peruca roxa – espantou-se Kyle, agora surpreso com o que ele
fora notar.
E logo ao lado da mesa de salgadinhos, o casal que não viera no encontro
anterior, completamente entrosados, vestidos de Goku e Chi-chi.
-Eles parecem bem – murmurou para si mesmo.
Sentiu ser empurrado para o lado, mas não estava preparado o suficiente para
vê-la de novo. Clara se afastou e ele pode ver que a garota estava vestida de
Akazawa Izumi, do anime Another. Nem era preciso dizer que ela parecia
outra pessoa, metida naquela uniforme escolar, os cabelos presos no alto em
dois rabos.
-Vo-você está ótima – murmurou sem jeito, mas sentindo-se na obrigação de
dizer alguma coisa.
Clara lhe estendeu um copo de suco, sorrindo – obrigada. Meu cabelo é mais
claro que o dela, e também não é tão longo, mas acho que pelo menos você
reconheceu.
-Não sabíamos que hoje teria uma festa – comentou, cuidando Anthony de
longe, cada vez mais perdido nos encantos do jutsu sexy ambulante.
-Desculpa, não tinha o número de vocês dois – disse com um aceno
displicente – E imaginei que teriam aula, então não poderiam vir vestidos.
Mas não se preocupe, estamos aqui para nos divertir!
Kyle sentiu o coração perder o compasso quando Clara o pegou pela mão,
arrastando-o na direção de uma televisão.
-Karaokê! – bradou mais alto que as conversas ou a música, já ligando o
aparelho.
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Kyle voltou-se para Anthony com pedido mudo de ajuda, mas o amigo estava
ocupado, rindo como um bobo.
-Desculpe, Clara, mas eu não acho que seja uma boa ideia...
A música começou, mas antes que Clara cantasse desafinadamente, ele ainda
não conseguia dizer de onde a conhecia. Até que...
-Espera! Isso é abertura de Pokémon! – disse, quase chocado.
Clara deu de ombros, trocando – Tudo bem se não gosta... Faça elevar... o
cosmo do seu coração!
-Não sei se abertura de anime conta como música – murmurou o garoto, mas
sob a insistência de Clara, acabou murmurando um pouco da música, muito
mais a vontade quando o casal animação resolveu cantar.
Kyle se afastou até uma parede, já nem tão surpreso em acabar ao lado
daquela garota maluca.
-E qual é a lição de hoje? – indagou por fim.
Clara fechou os olhos por um instante, inspirando profundamente – A única
que realmente importa. Divirta-se!

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5. Capítulo 5 - Sem
arrependimentos

Capítulo 5 - Sem arrependimentos


O final de semana chegou mais rápido do que Kyle poderia imaginar, e já
estava infinitamente arrependido de ter começado toda aquela história. Tudo
bem que queria ajudar, mas se aquela sua ideia não desse certo, Clara ficaria
duplamente magoada. E também, era bom que os recursos financeiros tivesse
algum retorno.
Completamente nervoso, o estômago embrulhado em papel alumínio, se
olhou no espelho pela última vez, cada vez menos confiante. Sua mãe
insistira que ele fosse de paletó escuro e uma camisa branca, e ele concordara
sem reclamar; mas nem chegaria perto da gravata! Estava bem... ele achava;
já não tinha certeza disso. Mas quando saiu de casa e deu de cara com
Anthony, todo elegante num terno caramelo, sentiu que pelo menos não
estaria sozinho.
-Uau, olha so quem tomou banho! - riu Anthony, bagunçando os cabelos do
amigo.
-Digo o mesmo. Onde conseguiu o paletó? - indagou curioso.
-Minha mãe disse que tenho que passar uma boa impressão - disse todo
orgulhoso, enquanto lentamente seguiam para o local da festa - A propósito,
marquei de pegar a Isabel em casa. Tudo bem?
Kyle deu de ombros. Não tinha nada contra a garota, na verdade, por causa de
Anthony, até mesmo começava a gostar dela. E pode compartilhar o choque e
a falta de palavras quando a menina saiu de casa saltitando, metido num
vestido vermelho de tirar o fôlego.
-Oi, pessoal! ficou na ponta dos pés para beijar Anthony no rosto, o que só
serviu para deixa-lo ainda mais grogue - Vocês estão bem?

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-Não... quer dizer! Você está ótima!- exclamou o garoto, enquanto Kyle só
conseguia concordar com um aceno nervoso.
E durante todo o caminho, assim como quando finalmente chegaram,
Anthony não conseguia deixar de olhar para a garota e sorrir, maravilhado.
Kyle apenas podia torcer para que ele não se machucasse demais.
A casa dos avós de Karineee seguia um padrão orienatal, totalmente incrível,
e as duas garotas haviam espalhado lanternas de papel e pequenos sinos que
balançavam alegremente. Karineee veio recebe-los vestindo uma yukata preta
muito elegante, e mais uma vez os dois não sabiam o que dizer. Ela estava
linda... e assustadora.
-Clara está colocando as lanternas na árvore - disse se ânimo, indicando os
fundos.
Kyle imediatamente seguiu para lá, sempre admirando o trabalho de
decoração que tinha tomado quase dois dias das garotas. Os fundos, onde
ficava o pequeno lago, estava repleto de mesinhas, cadeiras, flores e mais
lanternas. Era simplesmente lindo! Kyle olhava para o alto sem conseguir
deixar de sorrir; era como se estivesse sob um rio de estrelas, que levava
diretamente a ela.
-Ah, você está lindo! - exclamou Clara, fazendo-o virar-se de chofre.
A garota estava sob a maior árvore, de pé em um pequeno banco; usava uma
yukata azul claro com pequenas flores mais escuras, o cabelo preso com
displiscência. Kyle trincou os maxilares, tentando a todo custo respirar
normalmente, pensar como sempre. Se aproximou devagar, quase com
cuidado e lhe ajudou a descer.
-Você também - disse com firmeza, a palidez cobrindo seu rosto impassível.
Clara sorriu e se afastou, indo ajudar Karineee.
O que há comigo? Kyle não estava mais aguentando aquilo.

*
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Quando finalmente as pessoas começaram a chegar, o garoto pelo menos se


distraiu com as entradas, cada vez mais surpreso com o número de jovens que
vieram. Karineee e Clara estava ainda mais animadas, porque nunca haviam
atendido um público tão grande. Quando todos estavam bem instalados,
Karineee se e um rapaz assustadoramente paecido com ela subiram num
pequeno palco e tocaram melodias agradáveis, tornando tudo
excepcionalmente mágico. Os casais estavam simplesmente adorando.
-Muito obrigado, Kyle - sussurrou Clara, parada ao seu lado com um olhar
sonhador.
Kyle sentiu o rosto todo esquentar e seu auto controle foi para o espaço. Seu
coração batia anormalmente rápido.
-Você não deveria estar lá com eles - Clara indicou Anthony e Isabel,
visivelmente apaixonados, rindo numa mesa próxima.
Kyle se encolheu um pouco - Acho que eles estão mesmo bem, e não quero
atrapalhar.
-Mas você deveria mesmo se permitir gostar de alguém - Clara o encarou
com seriedade - Eu sei o que está fazendo, Kyle. Mas não pode se fechar para
sempre. Você tem medo de se machucar, mas não vai conseguir se proteger
de tudo. Pelo menos aproveite algo que pode lhe fazer bem.
Kyle continuou encarando a garota, sem saber o que dizer, até que ela mesma
desviou o olhar, sorrindo tranquilamente.
-M-mas e você... - começou o garoto, tentando conter sua vergonha -
Também não deveria... se abrir para as possibilidades.
Falei demais! Droga! Falei demais!
Clara riu abertamente - Ah, acho que isso não é mais para mim. Minhas
oportunidades já pasSamm...
Kyle franziu o rosto surpreso - Clara... quantos anos você tem?
Clara se voltou para ela com uma expressão indecifrável - Vinte e nove.

*
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Kyle sentiu seu chão desaparecer, e não havia nada que o fizesse se sentir
melhor; ou pelo menos, que fizesse sentir que aquilo era real. Se Clara tinha
mesmo vinte e nove anos, eles tinha onze anos de difereça, então...
-Kyle, estamos indo - avisou Anthony, mas o garoto simplesmente acenou -
Você não vem?
-Vou ajudar com a limpeza - disse sem emoção, perdido nos seus
pensamentos.
Não havia um limite para a idade que alguém aparentava ter? Como ele
podia... E afinal, por que isso estava lhe incomodando tanto? Não era como
se tivesse algum interesse naquela maluca, ele só... só estava surpreso.
Era tarde e apenas ele e Clara ainda estava do lado de fora; Karineee
terminava de guardar as coisas na cozinha. Kyle recolhia as mesas e cadeiras
enquanto a garota limpava as mesas.
De repente uma chuva fina começou a cair, pegando-os de surpresa, e em
poucos minutos a chuva aumentou dramaticamente.
-Vamos para dentro! - chamou Kyle.
-Vou terminar de recolher tudo - insistiu Clara, pegando algumas cadeiras.
-Mas vai ficar doente!
Kyle deu um suspiro e foi até ela, ajudando-a com as cadeiras restantes. Por
fim, voltaram-se para a mesa que ficara para trás, um de cada lado para poder
ergue-la.
O garoto firmou suas mãos sobre o tampo molhado, escorregando
violentamente o braço. Bateu o cotovelo e só não caiu por cima da mesa por
que Clara o segurou.
-Obrigado - murmurou sem jeito, erguendo os olhos.
Seus rostos estavam tão próximos agora que Kyle era capaz de jurar que
sentia o calor que emanava, o rosto corado e supreso. Não havia nada para ser
dito sem ninguém que pudesse explicar.
Kyle inconscientemente aproximou-se mais dela e tocou seu lábios com
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cuidado, beijando-a com carinho. Clara fechou os olhos por um segundo, o


tempo que durou aquela cena inesperada. Quando se encararam novamente,
ambos supresos e envergonhados, não sabiam o que fazer.
-Me desculpe -acabaram dizendo ao mesmo tempo.
Clara sorriu se jeito e saiu correndo dali.
Kyle nem poderia correr. Não conseguia mais sentir seu corpo.

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6. Capítulo 6 - Deixe-me te conhecer

Capítulo 6 - Deixe-me te conhecer


Anthony desceu as escadas de casa saltitando de alegria, nem um pouco
incomodado com a aula extra que tinham naquele sábado. A noite anterior
tinha sido divertidíssima e Isabel o deixara sonhando acordado com aquele
sorriso doce que só ela tinha. Por outro lado, a figura abatida e cheia de
olheiras nem de longe se parecia com seu amigo.
-Humm, você quer que eu pegue um pouco de maquiagem com a minha
irmã? - indagou Anthony, se aproximando do outro.
Kyle ergueu os olhos para encará-lo, parecendo ainda pior - Eu estou bem.
-Não parece - Anthony deu uma risada curta e sarcástica, passando um braço
pelos ombros de Kyle, enquanto começavam a andar - Até que horas ficou lá
com aquelas malucas, hein?
-Eu não demorei-murmurou Kyle sem vontade, o rosto corando um pouco -
Mas não consegui dormir.
Anthony parou surpreso, o rosto se abrindo num sorriso divertido - E por que
não?
Kyle engoliu em seco. Nem ele mesmo sabia direito por que. Clara... Eles
haviam se beijado, mas só por um instante. Nenhum dos dois parecia...
apaixonado. Mesmo que os pensamentos do garoto estivesse confusos e
acabassem sempre voltando para aquela cena em questão, não havia como.
Clara tinha vinte a nove anos! Tudo que ela não precisaria era de um
estudante sem nenhuma certeza para o futuro.
-Eu...
O celular de Anthony começou a tocar, fazendo Kyle se encolher de alívio. O
outro garoto apontou para o amigo, como se dissesse "essa conversa ainda
não acabou", mas perdeu completamente o fio da meada quando reconheceu
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o numero.
-Isabel! - disse alegremente, rindo a toa enquanto ouvia a menina falar - Não,
nós temos aula... por...
O rosto de Anthony ficou sério por um instante, depois voltou a sorrir - Tudo
bem! Espero você na frente da estação!
Desligou o celular e voltou a andar como se nada tivesse acontecido,
deixando Kyle morto de raiva.
-Pode pelo menos me dizer o que aconteceu pra vocês saírem juntos, quando
tem um encontro marcado com a Cla... digo, a dr.Love? - disse, o rosto
vermelho como um tomate maduro.
-Desculpa, cara! - pediu Anthony, sorrindo com animação - É que a dra.Clara
está doente,e ntão vou sair com a Isabel depois da aula.
Kyle sentiu o coração perder um compasso, a boca de repente seca e áspera -
Doente? Por que? Ela está bem?
-A Isabel também não sabe bem, ela só pediu para nos avisar que não pode ir
ao encontro hoje - respondeu o garoto, tranquilamente.
O coração de Kyle ainda batia de modo irregular. É mesmo, ela não tem o
nosso número, pensou com um sentimento estranho pesando no peito.
-P-posso falar com a Isabel?
Anthony fitou o amigo sem compreender, mas discou o número da garota
como ele havia pedido. Kyle apenas continuou olhando em frente, tentando
evitar que seus sentimentos ficassem tão visíveis.
-Isabel, é Kyle - disse rapidamente - Você sabe onde Clara mora? - esperou
pela resposta, os ombros arriando de alívio - Obrigado.
Devolveu o celular para Anthony e deu meia volta, desandando a correr.
-Kyle! - chamou Anthony, pego de surpresa - O que você vai fazer?
-LEMBREI DE ALGO IMPORTANTE! - mentiu o garoto, sem parar de
correr.
-ELA DEVE ESTAR BEM, IDIOTA! - respondeu Anthony, suspirando -
Boa sorte...
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Isabel não sabia qual o número do apartamento, mas quando chegasse lá ele
daria um jeito de descobrir. Sim, ela poderia estar bem, mas também não
sossegaria enquanto não a visse. Correu como nunca, agradecendo que
felizmente não ficava muito longe dali.
O prédio era pequeno e no mesmo perfil do lugar onde ficava o consultório;
meio afastado, uma vizinhança um tanto quanto pobre e duvidosa. Kyle
continuou correndo até que chegou ao portão, deparando-se com um
interfone em péssimo estado.
Não havia um número para falar com a recepção, e nem mesmo um porteiro a
vista para quam pudesse pedir ajuda. O painel mostrava vinte apartamentos, e
não havia nome algum que lhe desse alguma dica. O que ele podia fazer?
Tentar em todos os apartamentos? Mas se alguém se irritasse? Provavelmente
se negariam a responder... E se ela estivess dormindo e ele achasse que o
apartamento estava vazio? E se ela não estivesse? E se tivesse ido ao
hospital?! Na verdade essa possibilidade era grande e sensata! Qualquer
pessoa doente iria para o hospital! Mas... mas Clara realmente não era muito
sensata, então...
-Kyle?
O garoto engoliu em seco, antes de se voltar para a figura pálida, metida num
robe cor de rosa e pantufas fofas. Clara tinha o rosto vermelho por causa da
febre e olheiras tão profundas quanto as do garoto. Se encararam por alguns
segundos, sem saber o que dizer, até que Kyle percebeu que ela não deveria
estar ali.
-O que está fazendo aqui fora? Não deveria estar na cama? - indagou com a
voz estranha, trêmula.
-Tinha que por o lixo para fora - respondeu a garota.
Ela estava estranha, os olhos quase se fechando, a voz mais lenta. Kyle estava
ficando ainda mais preocupado com ela.
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-E você? - disparou ela de repente - Achei que vocês tivessem uma aula extra
hoje...
-Isabel me disse que você não estava bem - disse Kyle, antes que percebesse
o que isso parecia aos ouvidos dela - Pensei que... pudesse precisar de algo...
Clara deitou a cabeça de lado, sorrindo agradecida - Você é mesmo muito
atencioso.
Abriu o portão e entrou, ainda olhando o garoto imóvel e tenso, os olhos
fixos no chão. Não tinha como não gostar daquele menino, mas temia que as
coisas estivesse saindo do seu controle.
Deu um suspiro - Por que não entra? Você deve ter vindo correndo... pelo
menos tome um chá.
Kyle engoliu em seco e passou pelo portão, fechando-o atrás de si. Clara
abriu a porta e esperou pelo garoto, seguindo finalmente para o elevador.
Dentro daquela cabine fechada e pequena demais, Kyle tinha a impressão de
que ela podia até mesmo ouvir os batimentos desenfreados do seu coração,
mas a despeito de tudo, Clara sorria com tranquilidade.
Desceram no terceiro andar e seguiram até o apartamento 312, onde a garota
apontou para o número com um sorriso indecifrável.
-Não vá esquecer.
Abriu a porta e a deixou aberta para o garoto, seguindo para a sala, onde se
largou no sofá, fechando os olhos. Kyle entrou e fechou a porta, se
aproximando com cuidado.
-Isso me deixou cansada - comentou a garota, ainda de olhos fechados - Me
de só um minuto.
Kyle engoliu em seco, olhando ao redor. Era um apartamento comum, que se
alugava mobiliado; apenas alguns livros e desenhos mostravam que havia um
morador.
-S-será que eu posso fazer o chá? - murmurou sem jeito - Você não deve ficar
se esforçando...
Clara sorriu, apontando para uma porta logo adiante. Kyle seguiu para a
cozinha com as pernas trêmulas. Também era a primeira vez que estava numa

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situação dessas, no apartamento de uma mulher que nem conhecia direito...


alguém que fazia com que se sentisse tão errado e estranho.
Encheu uma chaleira com água e colocou esquentar enquanto pegava as
outras coisas. No sofá, Clara se sentiu melhor o suficiente para sentar, os
dedos agarrando as bordas com força.
-Me desculpe, Kyle - pediu com um sorriso culpado - Você deveria estar na
escola... Não quero causar problemas para você.
Kyle engoliu em seco, tremendo com a ideia de ser rejeitado, de ser mandado
embora.
-Tudo bem, minhas notas estão boas - respondeu com um pouco mais de
controle - Na verdade, minhas notas estão muito bem, então não precisa se
preocupar comigo.
Clara sentiu um aperto forte na garganta - Como não? Você é um garoto
incrível, e sinto que estou sendo errada.
Kyle largou a colher que segurava, espalhando açucar pelo chão. Era isso
mesmo. Ela achava que ele era novo demais, apenas um garoto, e o que
acontecera... Seus olhos ficaram subitamente marejados, seu peito doendo de
uma forma muito real. Se segurou na bancada, porque tinha a impressão de
que iria desmaiar; suas pernas fraquejavam o ar não era suficente para fazer
seu cérebro funcionar. Agarrou o peito com uma das mãos, os olhos teimando
em se encher de lágrimas. Como aquela dor poderia ser real? Como? Como
isso era possível?
Clara apareceu na porta, o rosto afogueado pela febre e agora preocupado
Fitou Kyle sem compreender, os olhos se enchendo de culpa e tristeza.
-Me desculpe, Kyle... - murmurou sem jeito, se encolhendo um tanto - Mas
nós sabemos que isso não é possível. Eu tenho vinte e nove anos! - lembrou-
lhe, seus próprios olhos ficando marejados.
Kyle se voltou para a garota, ainda segurando seu peito como se pudesse
parar aqueles batimentos dolorosos.
-O que isso importa se eu amo você?

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7. Capítulo 7 - Pegue minha mão

Capítulo 7 - Pegue minha mão


Clara continuou olhando para o garoto, sem vê-lo realmente. Repentinamente
aquela lembrança veio a tona, fazendo-a afundar naquele poço de desespero.
Todos os sentimentos que guardara durante tanto tempo, os pensamentos que
não se permitia ter... tantos anos cuidando para que nada daquela história
passasse pela barreira que formara a volto do seu coração. Tudo destruído em
questão de segundos!
Escorregou até o chão, contra a parede, e puxou os joelhos para si,
abraçando-os. Não queria deixar Kyle assustado, mas ela mesma não sabia
como lidar com aquilo. Trincou os maxilares, se impedindo de gritar, e
forçou-se a respirar normalmente.
-Clara! Clara, o que foi? Clara! - Kyle se ajoelhou ao seu lado, apavorado
com aquela reação.
De todos os pensamentos ruins e ideias de rejeição que o garoto imaginara,
nenhuma chegava perto disso.
Clara finalmente pareceu voltar a si, meneando a cabeça com um sorriso
abatido, os olhos cheios de lágrimas - Tudo bem, Kyle. Foi só uma lembrança
ruim.
Kyle franziu o rosto, tomando coragem para falar - Pode me contar se quiser.
As vezes isso ajuda.
Clara fitou o garoto sem saber o que fazer; ele era realmente a melhor pessoa
que poderia estar ali com ela, e se sentia incrivelmente bem ao seu lado. Mas
não queria fazê-lo sofrer com ele. Não faria isso com ele.
-Isso tem a ver com "as chances" que você perdeu - arriscou o garoto,
sentando-se ao seu lado - Por que se for, talvez seja hora de ir em frente. Não
é o que você mesma tenta ensinar aos outros, Clara?
A garota engoliu em seco, pousando o rosto nos joelhos, o olhar preso ao
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chão.
-Tem razão. Mas essa não é uma história feliz - murmurou com a voz fraca -
Foi a única vez que me apaixonei... foi a primeira vista, de verdade. Eu
confessei que estava apaixonada, mas fui rejeitada... eu tinha onze anos - deu
um suspiro - Foi a pior coisa que já tinha me acontecido. Doía tanto que nem
podia falar sobre isso. Acho que nunca deixer de amar essa pessoa... Não
desisti mas não lutei. É como uma história inacabada que me atormenta. Não
consigo me desprender... ou quem sabe não queira.
Kyle sentia o coração dolorido, percebendo que o amor de Clara era
destinado a alguém que estava longe, mas que não a deixaria em paz. De que
adiantava isso então? De que adiantava saber que a amava, se não havia
chances? Por que a vida seria tão irônica assim?
-E-e o que aconteceu com essa pessoa? - indagou com a voz alquebrada.
Clara negou com a cabeça - Sei que continua morando no mesmo lugar. Mas
nunca mais voltei lá.
Kyle saltou de pé em um instante, todas as suas células gritando que era cedo
demais para desistir sem lutar - E-então você tem que primeiro se libertar
dessa história do passado, não é?
Clara concordou com um aceno.
-Então vamos lá! - respondeu o garoto, o rosto sério e cheio de energia - Va-
vamos atrás dessa pessoa, para que você pelo menos saiba o que fazer. Você
pode escolher que não quer ficar comigo, mas pelo menos poderá ir em
frente!
Ficar comigo... As palavras ecoavam dentro do peito de Clara, deixando seus
batimentos ainda mais confusos. Mas no momento tinha que tomar uma
decisão. Olhou para a mão estendida de Kyle, esperando para poder ajuda-la.
E sorriu.
-Sim!

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Kyle ajudou a garota a chegar ao vagão certo do trem, seus passos cada vez
mais fracos. Pensando bem, talvez não fosse uma boa ideia levar alguém
doente para uma viagem de horas, atravessando metade do estado. Mas Clara
estava mesmo empolgada com essa ideia. Sentaram-se um em frente ao outro,
quase sozinhos naquele vagão que se iluminava rapidamente com o sol da
manhã.
-O que disse para a sua mãe? - indagou Clara, a voz sonolenta e pastosa.
Kyle fez uma careta - Ainda não falei com ela. A escola não vai ligar para
ela, então tenho até o final do dia para inventar uma desculpa.
Clara negou com a cabeça, um tanto incomodada.
-Não se preocupe - pediu Kyle, sentindo-se mal por deixa-la assim - Minha
mãe é legal... e não estou fazendo nada errado! Estou ajudando uma amiga...
não é verdade?
Clara sorriu um tanto, os olhos quase se fechando - Acho que tem razão.
Encostou a cabeça no vidro e se deixou adormecer, permitindo que Kyle
ficasse abandonado com seus pensamentos.

A cidade era costeira, pequena, e tinha muitos barcos pesqueiros ancorados


num pequeno porto. Tudo lembrava a peixe, desde os enfeites nas lojas até as
pinturas na praça, a forma do chafariz e os balões que um velhinho vendia em
frente uma barbearia das antigas.
-Poxa, esse lugar é incrível! - exclamou Kyle, andando a frente, fascinado.
-E eles gostam mesmo de peixes - riu Clara, ainda ainda abatida.
Kyle olhou para trás, e seu coração dava um pulo toda vez que seus olhos
batiam com os da garota, fazendo-o corar.

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-Vo-você não quer comer alguma coisa? Acho que podíamos comer antes
de... antes de...
-Acho uma boa ideia - concordou Clara, passando por ele - Se ainda estiver
aqui, tem um restaurante ótimo!
O restaurante da infância de Clara ainda estava aberto e puderam comer um
delicioso prato de peixe grelhado com legumes. Depois da refeição, a garota
até mesmo parecia melhor.
Seguiram para o endereço que Clara anotara cuidadosamente tantos anos
antes, mas conforme se aprioximavam, ela ficava cada vez mais relutante,
embora Kyle não percebesse, perdido nos seus próprios pensamentos.
E se ele for muito bonito? Por que eu não sou assim... Se ele tiver a idade da
Clara, e for mais bonito que eu... Sei que não sou lindo nem nada, mas sentia
que tinha alguma chance! MAS O QUE ESTOU PENSANDO?! Ele é o cara
que Clara ama! Não importa como ele seja... ela o ama.

O garoto parou imediatamente, enfim percebendo que Clara ficara para trás.
Voltou até ela, preocupado com sua saúde e seus sentimentos. Não queria que
ela sofresse mais. No fundo se sentia um idiota arrogante por fazê-la vir até
ali... mas não podia voltar atrás.
-Eu estou aqui com você - disse somente - Mas se quizer, nós podemos dar
meia volta e ir para casa.
Clara engoliu em seco, sorrindo para o garoto - Obrigado.
Seguiu em frente, dessa vez deixando Kyle para trás, observando-a com o
coração desenfreado. Seguiram até uma casa pequena com cerca de madeira
clara, parcialmente escondidos pelas trepadeiras que cobriam tudo, cheias de
flor e perfume. De onde estava, Clara podia ver um pequeno lago nos fundos
do jardim; um patinho nadava alegremente, e a garota quase saltou para trás
quando uma garotinha apareceu correndo.
Sua filha... Sentiu-se um tanto vazia, como se a verdade a deixasse, levando
toda a dor. Mas seu coração voltou a disparar.
Kyle se aproximou com cuidado, bsucando pela pessoa que deixara Clara tão
pálida.

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Nos fundos da pequena casa, ao lado de um laguinho, havia uma criança


brincando com um patinho, correndo alegre. Então de repente uma mulher
apareceu, abraçando-a com força; caíram as duas sentadas, onde continuaram
brincando. Era uma mulher jovem, mas possivelmente era a mãe da menina,
ambas tinham o mesmo cabelo castanho. Ela era uma mulher realmente linda,
e sorria com doçura...
O coração de Kyle pareceu perder um compasso, seus olhos buscando pelo
rosto de Clara. Ela sorria com uma felicidade palpável, as lágrimas puras
escorrendo pelo rosto rosado pela febre.
Então era isso. Aquela era a pessoa por quem Clara se apaixonara, quem
ainda ocupava seu coração.
Kyle se sentiu um tanto idiota por se preocupar em quem parceeria mais
bonito, ou quem era melhor aos olhos de Clara. Ele sabia que no fundo ela
nunca tivera as esperanças de conseguir alguma coisa além da libertação. Só
queria que agora ele mesmo tivesse uma chance...
Kyle sentiu seus dedos serem pressionados pelas mão quente de Clara, ela
mesma se aproximando, os olhos ainda na mulher quase escondida, lá ao
longe.
-Obrigado por estar aqui - sussurrou com a voz embargada - Não conseguiria
vir tão longe sem você.

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8. Capítulo 8 - Esperança

Capítulo 8 - Esperança
Kyle comprou as passagens mecanicamente, os pensamentos ainda longe.
Todas as suas ideias do que fazer a seguir, as palavras que poderiam consolar
ou tentar convencer Clara de que era melhor assim, não saiam.
Ela era apaixonada por uma garota. Era seu único e constante pensamento.
E para isso ele não preparara nenhum plano b. Apertou as passagens entre os
dedos, voltando para a plataforma com uma expressão decidida. Não
importava, afinal! Clara havia dado seu primeiro passo para longe do
passado, e para onde quer que ela decidisse seguir, ele - Kyle, quase dezoito
anos, terceiro ano do ensino médio, sem nenhuma pretensão na vida – estaria
lá!
Clara continuava no mesmo lugar, ainda calada, e seu rosto estava ainda mais
vermelho, como se a febre tivesse aumentado.
-Você está bem? – murmurou o garoto, sentando-se ao seu lado.
O trem se aproximou rapidamente, chamando a atenção da mesma; Kyle não
esperou que ela respondesse, apenas lhe estendeu a mão, ajudando-a a se
erguer. Seguiram para a porta quando os vagões estacionaram, parando
apenas quando chegaram aos acentos certos.
Novamente estavam quase sozinhos, o sol se pondo agradavelmente através
das casas baixas e cheias de enfeites de peixes, uma lembrança trivial de que
estavam bem longe de casa. Clara se sentou ao lado de Kyle sem dizer nada,
o olhar parado de antes. O garoto tampouco tentou obriga-la a falar,
imaginando que tipo de pensamentos estavam deixando-a tão calada. Não era
como se de repente ele soubesse tudo dela, ou fossem melhores amigos.
Mas foi completamente pego de surpresa quando Clara pousou a cabeça no
seu ombro, os olhos se fechando. Ela estava cansada, e Kyle não se
importava nem um pouco em ajudar. Encostou sua cabeça na dela, fechando
os olhos também. Possivelmente chegariam tarde, tinha que inventar uma boa
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desculpa para sua mãe... Mas a verdade é que estava mais preocupado com o
que Anthony iria perguntar. Ele sabia demais, as perguntas viriam com
certeza!
Mas isso podia esperar...

A cidade já estava escura quando finalmente voltaram, as luzes iluminando


suas pequenas ilhas de paz, assustadoramente vazias. Kyle continuou ao lado
de Clara, instintivamente rumando para o apartamento de Clara.
-Você tem que ir para casa – murmurou Clara, as palavras soando entranhas
por causa da respiração forçada.
Levou a mão ao rosto, estranhando a sensação dormente que sentia, o calor
muito errado.
-Imagina se vou deixar você ir sozinha – retrucou Kyle, confiante na sua
capacidade de acompanhar uma dama indefesa ... em partes.
Clara engoliu em seco, a visão embaçada de modo estranho.
-Kyle...
O garoto parou e se virou, a tempo de vê-la tombar para frente. Segurou-a
pelos ombros, forçando-a a ficar em pé.
-Ei, Clara! – chamou, assustado – Acho que você precisa ir ao hospital!
Clara abriu os olhos, tentando forçar um sorriso – Me desculpa por isso. Eu
só preciso dormir. Prometo que vou ficar bem.
-Não pode prometer uma coisa que não controla! – rebateu Kyle, virando-se
de contas, ainda segurando-a pelos braços.
Fazia algum tempo que não carregava ninguém assim, talvez desde que a
irmã mais velha quebrara o pé, dois anos antes, mas Clara parecia
terrivelmente fraca. A garota não protestou; muito pelo contrário, deixou que

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ele puxasse seus braços para frente, largando-os ali, e deitou a cabeça no
ombro de Kyle, fechando os olhos de novo.
-Você não devia fazer isso. Sou muito pesada – murmurou sem vontade.
-Tudo bem, você pesa menos do que imagina – disse com animação – E se
não pudesse carregar uma ou outra maluca de vez em quando, de que minha
vida valeria?
Clara riu em silêncio, aceitando o entusiasmo dele como um bálsamo. Mas
seus próprios pensamentos iam longe, lembrando-se do que ele mesmo
dissera.
-Mais uma regra, Kyle – disse com a voz fraca, um tanto quanto triste.
O garoto engoliu em seco, sem saber se deveria ficar ainda mais preocupado.
-Não prometa se não quiser cumprir – continuou a garota – Você disse antes
que não devia prometer algo que não podia controlar. Isso acontece o tempo
todo. As pessoas prometem que passarão a vida inteira juntas e logo se
esquecem. De repente o marido engorda e gasta mais tempo com o futebol e
propagandas de cerveja. Os anos passam e a esposa fica cansada de cuidar
dos filhos, o marido se incomoda com isso e percebe que a secretária é uma
garota de vinte e poucos anos.
Kyle sentia cada uma daquelas palavras como se fosse uma faca, arranhando
lentamente seu coração já ferido. Ela não era assim amarga! Ou era? Ele não
a conhecia de verdade, então como podia afirmar isso?
-Mas você não faz com que eles, seus pacientes, acreditem nisso? – indagou
com receio, o peso de Clara como se fosse uma âncora garantindo que aquilo
era real.
Clara deu de ombros – Acho que no fim eu vendo a esperança de que a
próxima pessoa será melhor que a anterior.
-Isso é cruel...
-Não é – retrucou a doutora, abrindo um sorriso renovado – Isso se chama
esperança. Corremos atrás de um sonho com todas as nossas forças, por isso é
tão bonito! Mesmo que o mundo grite que não é possível, você eu diremos
que é! E é nisso que eu acredito...

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Kyle sentiu a voz falhar, a garganta apertada de verdade. Respirou fundo


várias vezes antes de conseguir dizer aquilo, agradecendo que nem ela nem
ninguém pudesse ver seu rosto na penumbra.
-Não vou desistir tão facilmente – disse a meia voz, sem poder ter certeza de
que ela ouvira.
Clara sorriu para si mesma, entregando-se para o cansaço – Não estou
dizendo que deve.

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9. Capítulo 9 - Todo mundo erra

Capítulo 9 - Todo mundo erra


Anthony e Kyle seguiram calados, embora ambos tivessem milhões de coisas
que gostariam de falar, centenas de pensamentos. Anthony não era capaz de
esconder sua felicidade, cada vez mais dependente da presença de Isabel e a
certeza de que ela gostava de estar com ele.
-A doutora Clara está melhor? – comentou Anthony, sorrindo de orelha a
orelha – E não tente me convencer de que não foi ver ela ontem.
Kyle de repente ficou vermelho como nunca, olhando para os lados com
nervosismo. Mas não devia se espantar tanto, já que o garoto era seu melhor
amigo desde o jardim de infância, e do mesmo jeito que Kyle cuidava de
Anthony, o outro era o único capaz de perceber os sentimentos dele. Mas não
podia falar sobre isso no momento, ainda não.
-Não tente me desviar do assunto, a questão hoje é você e Isabel – disse,
tentando aparentar uma tranquilidade que não sentia – Como vocês estão
indo?
Anthony deu de ombros – Bem, eu acho... Já sei até o nome dela!
Os dois riram com vontade e a tensão conseguiu se desfazer, um peso enorme
abandonando Kyle pelo menos por enquanto.
-Não, cara, eu falo sério – continuou Anthony, ainda sorrindo – Acho de
verdade que nos damos bem, e até onde sei, ela gosta de mim.
Kyle concordou comum sorriso animado – Tenho que concordar, ela é a
primeira garota normal que aceita sair com você.
Anthony se fez de ofendido, empurrando o amigo com o ombro.
-Para sua informação, já sai com muitas garotas normais...
-Como aquela que achava você parecido com o Leonardo di Caprio e
obrigava você a abrir os braços e gritar “eu sou o rei do mundo”? – riu Kyle
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as gargalhadas.
-Gostava dela, era única. E eu não gritava! Podia falar normalmente... –
respondeu Anthony, sem esconder que também achava graça – E não
podemos esquecer da maluca da conspiração. Ela achava que sua família
pertencia a ordem Bonenberger, Kyle!
-Nem me fale – suspirou o garoto – Acho que aquela foi a pior de todas...
-Não, a pior foi aquela que não gostava de nada que fosse verde – discordou
Anthony com uma expressão de pânico – Achei que ia ter que arrancar a
grama do quintal, ela não parava de reclamar!
E os dois riram mais uma vez, quase esquecidos que estavam relativamente
atrasados para o encontro de Anthony, onde Kyle deveria ficar por perto para
“dar cobertura”. De repente o celular de Anthony começou a tocar, fazendo-o
silenciar no mesmo instante, já acenando para que o amigo se calasse.
-Isabel! – disse com animação, mas enquanto ela respondia sua expressão foi
murchando devagar – Ah, não... não tudo bem, eu entendo. Até amanhã,
então!
Desligou e se voltou para o amigo com uma cara de cachorrinho triste – Ela
não vai poder vir!
-Assim, em cima da hora? – estranhou Kyle, chateado pelo amigo.
Anthony soergueu os ombros, voltando a andar tranquilamente – Ela estava
meio estranha, acho que está doente... Aparentemente as garotas gostam de
pegar um resfriado, ajuda na relação, sabe como é...
-Cala a boca – resmungou Kyle, acertando um soco de leve no seu braço –
Mas e então? Vamos para o cinema com Clara?
-Finalmente passou seu e-mail para ela? – riu Anthony – Isso é um grande
avanço na relação confusa e romântica de vocês dois. E deixando a gozação
de lado, acho que devemos mesmo ir ao cinema.
Kyle sorriu para o amigo, concordando com a cabeça. Pegaram um ônibus até
o centro da cidade, e quando finalmente chegaram ao cinema, a sessão já
estava começando. Correram para dentro, os thrillers de outros filmes
enchendo a grande sala com sons de explosões e lutas.

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Kyle ainda queria saber como encontrar Clara e os outros membros daquele
grupo esquisito, e quase não reparou quando Anthony apontou para algumas
fileiras a frente.
-O que?
O garoto olhou na direção que o outro apontava e se segurou para não rir,
facilmente reconhecendo o chapéu de cowboy da estranha doutora. Enquanto
os dois lutavam para não gargalhar e ser expulsos, seguiram para lá. Clara
estava sentada ao lado de Karineee, ambas com enormes sacos de pipoca
colorida. Na fileira da frente o casal animação estava sentado ao lado do casal
timidez. Eram extremos opostos, mas parecia que tinham futuro.
-Olá, garotos – cumprimentou Clara, sorrindo com tranquilidade.
O estômago de Kyle afundou com brusquidão, a sensação desconfortável de
que borboletas esvoaçavam por ali. Queria poder se encolher e acabar com
aquele nervosismo, os batimentos tão acelerados que já achava necessário
procurar um médico.
Enquanto tudo isso acontecia em um segundo, Anthony sorriu e se sentou ao
lado. Kyle não sabia de reclamava ou agradecia não ter que se sentar ao lado
dela, encolhendo-se no acento mais distante. Clara continuou como se nada
tivesse acontecido.
Mas ela mesma disse que não devo desistir... Não importa quanto tempo vai
levar, eu vou estar aqui quando ela precisar! Não vou desistir!
-Vamos assistir comédia – murmurou Anthony – Faça o favor de mudar essa
expressão tensa, está me deixando preocupado!
Kyle engoliu em seco, o estômago ainda dando voltas. Já não estava se
sentindo tão bem quanto antes...
O filme começou e tentou pensar em outra coisa, mas aquele enjoo só
aumentava. A cada vez que tinha vontade de rir, e quando esses poucos
momentos acabaram, a sensação de que iria vomitar só multiplicava.
De repente levou a mão a boca, se erguendo.
-Me desculpa – disse como pode, saindo correndo.
-Kyle! – chamou Anthony, fazendo menção de se levantar, mas antes que

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pudesse fazê-lo, Clara passou rápido por ele, seguindo o amigo.


Anthony sorriu enquanto via os dois se afastarem rapidamente pelo corredor,
satisfeito – E o inocente Kyle ataca novamente...
Karineee se voltou para o garoto, sem nenhuma expressão que pudesse
demonstrar o que estava pensando; estendeu a pipoca para ele, que aceitou
com um sorriso grande.

Kyle entrou no banheiro e se jogou na primeira porta que encontrou aberta,


de joelhos diante do vaso sanitário, vomitando sem parar. Não havia visto
Clara segui-lo, e não esperava que ela fosse até ali.
Clara entrou no banheiro masculino sem pensar duas vezes e foi para o lado
do garoto, passando a mão na sua testa suada e fria. Se ergueu e vasculhou a
bolsa por alguns instantes, tirando uma toalha pequena que molhou e levou
para ele. Passou pelo pescoço de Kyle e em seguida em seu rosto, ajudando-o
a se sentar contra a parede quando se sentiu um tanto melhor. O rosto pálido
do garoto tinha um tom esverdeado nada saudável, os olhos um tanto
injetados.
-Você não está nada bem – murmurou Clara, preocupada – Já estava se
sentindo mal?
Kyle negou com a cabeça, mas esse pequeno movimento fez com vomitasse
de novo, cada vez mais fraco e trêmulo.
-Isso não é bom, vou levar você para casa – disse, pegando o celular do
bolso.
Mandou uma mensagem para Karineee, avisando que iria embora e pedindo
que avisasse Anthony, caso ele quisesse vir também. Quando Kyle pareceu
um tanto melhor, ajudou-o a se erguer e lentamente saíram do banheiro.
Foi Kyle quem primeiro reconheceu aquela voz feminina, as palavras que não
deveriam fazer sentido.
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-Vamos embora, eu vi eles aqui! – dizia Isabel, angustiada – Vi Clara e o


amigo dele...
Kyle ergueu os olhos, a expressão de Isabel e o rapaz que a segurava pela
mão, íntimo demais.
-Ah, não – sussurrou Clara, a voz desfalecendo.
Anthony saia da sala de projeção com o mesmo sorriso de antes, e nos
segundos que o tempo pareceu suspenso, toda a cor do seu rosto desapareceu,
porque era óbvio o motivo pelo qual Isabel estava estranha. O motivo de não
poder ter vindo.
O garoto engoliu em seco, os maxilares trincados com uma expressão de
decepcionada resignação.
-Você podia ter falado a verdade.

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10. Capítulo 10 - Perdão é divino

Capítulo 10 - Perdão é divino


Anthony ajudou Kyle a chegar até o quarto, e pelo menos a cor verde
desaparecera do rosto do garoto. Clara havia acabado de deixar os dois no
portão de casa, e subitamente fora tomada pelo horror da possibilidade da
mãe de Kyle vê-la ali.
Kyle se sentou no chão, as costas escoradas na cama, os olhos meio fechados.
Anthony se sentou ao lado amigo, ligando o vídeo game, sem dizer nada.
Deixou um controle ao lado do amigo, ainda calado, como se nada tivesse
acontecido.
-Não posso aguentar isso – murmurou Kyle, o mal estar dando lugar a
irritação – Você tem que pelo menos me dizer que está com raiva!
Anthony deu um meio sorriso triste – O que eu posso fazer? Essa não é a
primeira vez que acontece... E vou sobreviver! Gostava dela... mas não foi o
suficiente. Você também gosta da Clara, mas parece não ser o suficiente.
Kyle meneou a cabeça – Não vamos falar disso. Precisamos falar sobre você!
-Não – pediu Anthony, e pelo seu olhar, estava sofrendo mais do que admitia
– Por favor, não quero remoer essa história. Não deu certo... e só. Não quero
me sentir uma vítima. Mas ainda podemos encontrar uma solução para você.
Kyle observou o amigo por alguns segundos, um tanto tenso.
-Bem, se vai fazer você se sentir melhor... – aceitou o controle, dando início
as lutas – Mas não acho que vai poder encontrar uma solução para mim.
Anthony quase o derrubou com um soco no ombro, rindo de orelha a orelha –
Está admitindo que gosta dela?! Não acredito! Você está!
Kyle ficou vermelho como nunca, o humor oscilando drasticamente. Mas
mesmo que sentisse vontade de socar a cara de Anthony, aquela conversa que
acabaria com seus nervos era a única coisa que o impediria de pensar em si

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mesmo. Se ele pudesse rir com a tragédia romântica do outro... melhor então.
Tudo que Kyle queria era que seu melhor amigo não sofresse.
-Pode não rir, por favor – disse com a medida certa de rispidez – Minha
situação também está condenada. Ela tem vinte e nove anos.
-O QUE?! – Anthony encarava o amigo sem saber o que mais podia dizer, a
boca ainda aberta – Cara, eu... eu nem imaginava!
-Acho que ninguém poderia imaginar – murmurou Kyle, desanimado – Tipo,
não existe um limite para quão nova uma pessoa pode parecer?
A expressão de Anthony se desfez rapidamente, dando lugar para um sorriso
desconcertante que fez Kyle sentir o estômago embrulhado novamente.
-Percebe que se conseguir sair com ela, vai ser o único cara da nossa escola
com uma mulher de trinta?
Kyle se encolheu automaticamente, incomodado com aquilo.
-Para.
Anthony continuou imóvel, parecendo mais surpreso do que o amigo poderia
esperar – Fala sério, Kyle... é sério mesmo?
-Tem muitos “sérios” nessa frase, está me deixando preocupado.
-Não, Kyle – insistiu Anthony, o rosto mostrando que não estava mais
brincando – Você gosta mesmo dela! Você não está só interessado nela...
você está apaixonado!
-Pensei que fosse a mesma coisa – murmurou o garoto, envergonhado.
Anthony negou com a cabeça, ainda fitando o amigo com força – Isso é
realmente sério. Você nunca se apaixonou por ninguém, e nem sabia que
viveria para ver isso. Agora é uma questão de honra ajudar vocês dois a
vencerem essas barreiras que impedem... as flores do amor de florescerem!
Kyle suspirou – Nada de flores do amor, por favor...
-Não se preocupe! Minha nova motivação na vida vai ser ajudar vocês dois! –
Anthony parecia animado, mas de repente murchou, o ombros arriando para
uma postura deprimida – Mas acho que agora... eu vou para casa. De
repente... me sinto cansado.

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-Tudo bem – concordou Kyle, preocupado – Obrigado por me trazer em casa.


Não estava mesmo bem... Obrigado.
-Amigos são para isso – riu Anthony, se erguendo.
Saiu do quarto e em seguida da casa do amigo, rumando para a sua própria.
Sua dor era difícil de explicar; não amava Isabel, mas era doloroso saber que
ela o traíra. Traíra sua confiança. Isso ele não podia aceitar.

O celular de Kyle tocou por alguns segundos, aquela música que cantara com
Clara, uma abertura de anime, enchia o quarto sem que ele se lembrasse de
que deveria atender. Abriu os olhos num rompante, agarrando o celular antes
mesmo que tivesse acordado direito.
-Alo?
-Kyle, eu acordei você?
Kyle sentiu todo o sono desaparecer ao reconhecer a voz culpada de Isabel.
Deveria falar com ela? Ela pelo menos já falara com Anthony, porque era
com ele que deveria se desculpar. Embora nem ele, com toda sua calma e
maneira prática de encarar as coisas, achasse fácil perdoar aquilo. Mas de
qualquer jeito, olhou para o relógio em busca de uma desculpa. Não eram
nem nove horas da noite, um horário perfeitamente aceitável.
-Não, tudo bem – disse meio a contragosto. Também não ia perguntar que
motivo a levara a ligar.
Isabel demorou mais alguns para responder, a voz contida e fraca de quem
não se sentia bem.
-Você deve ter achado estranho eu ligar – murmurou – Mas não posso falar
com ele agora. Não estou pedindo que você transmita minhas desculpas para
ele... isso seria idiota.
-Provavelmente ele iria me bater – concordou Kyle, sorrindo sozinho no
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escuro.
Isabel riu, mas ainda se sentia envergonhada – Só queria que você dissesse a
ele que ainda vou explicar tudo, mesmo que ele não queira mais ouvir.
Kyle não podia dizer que achava certo deixar para depois, mas nenhum deles
parecia em condições de falar sobre qualquer coisa. Ela era verdadeira, pelo
menos; nesse ponto. E quem era ele para julgar? Eram apenas garotos, por
qualquer ângulo que procurasse olhar. Tinham tanta coisa para aprender
ainda. Todos eles.
-Ele vai ouvir – concordou – Não se preocupe, Isabel. Essas coisas
acontecem.
Isabel suspendeu a respiração por um segundo – Obrigado, Kyle.
Desligaram quase ao mesmo tempo, e novamente deitado, olhando para o teto
escuro, Kyle se perguntava se isso era o certo? E saberiam algum dia se era
certo? Talvez fossem questões filosóficas demais para uma noite como
aquela, coroada por uma dor de cabeça cada vez pior.
Fechou os olhos, mas abriu-os novamente quando percebeu uma claridade
estranha. Havia acabado de receber um novo e-mail pelo celular. Abriu a
mensagem sem muita curiosidade, mas seu coração perdeu o compasso
quando reconheceu o remetente.
Estou preocupada com você. Espero que esteja melhor.
Amanhã espero vocês dois. Por favor, não desistam. Garanto que a manhã
vai faze-los se sentir melhor. Os dois.
Boa noite, Kyle. Clara.
E mesmo que não quisesse parecer tão feliz e idiota, era impossível depois
disso.

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11. Capítulo 11 - Mandando tudo


pelos ares

Capítulo 11 - Mandando tudo pelos ares


-Tudo bem mesmo em ir? – insistiu Kyle, preocupado com a expressão calma
do amigo, como se estivesse tudo bem – Ela disse que ia ser importante, mas
se você não quiser...
-Cala a boca, Kyle! – riu Anthony, descendo as escadas da escola em direção
a saída – A dra. Clara disse que íamos nos divertir hoje, então não vejo por
que não devemos ir! Não se preocupe comigo, tudo bem? Eu já desencanei
dessa história... Juro!
Kyle concordou com um aceno, mas não conseguia deixar de pensar que ele
ainda não estava bem.
De qualquer maneira, Clara mandaram um e-mail pela manhã que exalava
animação. AviSam que os esperaria na saída da escola, e que deviam ir
preparados para a guerra. Agora que saiam da aula, ainda cercados pelos
colegas, a expressão “guerra” começava a incomodar.
-Quando ela disse “ir a guerra”, acha que ela falava do que? – sibilou
Anthony, olhando ao redor, procurando pela garota louca e sua trupe de
estranhos.
-Vindo dela... – Kyle deu de ombros, também procurando por ela – Pode ser
que nos solte em algum shopping para caçarmos... algo assim.
Anthony finalmente reconheceu o chapéu de cowboy da garota e seu jaleco
coberto de corações, e assim que ela também os viu, acenou com energia.
-Kyle! Anthony! – chamou com um sorriso contagiante, fazendo vários
alunos olharem para os dois com curiosidade.
É claro que Anthony resolveu tirar proveito da situação, enquanto Kyle
lutava para controlar seus batimentos descontrolados.
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-Clara! E... KARINEEE! – bradou ao reconhecer a outra no volante de uma


van vermelho vinho, logo ao lado da doutora.
Karineee se deitou sobre o banco do lado para poder acenar para os dois,
levando Anthony a loucura.
-Essa garota é das minhas – riu, puxando Kyle com pressa.
Clara sorriu para os dois com sua calma habitual, e se estava sentindo o
mesmo turbilhão de emoções que Kyle, tinha um pouco mais de prática em
esconder isso.
-Espero que estejam preparados para a hora da verdade, garotos – piscou para
Anthony, que sorria com animação a altura – Como eu sempre digo: erra é
humano e perdoar é divino. Mas mandar tudo pelos ares é maravilhoso!
-É isso ai! – concordou Anthony, entrando na pequena vã onde os dois casais
de sempre já estavam acomodados. O garoto ainda se virou e acenou com
superioridade para os colegas que ainda olhavam com curiosidade – Com
licença, senhores!
Kyle engoliu em seco, tomado pela vergonha, todos aqueles olhares estavam
lhe deixando cada vez mais tenso, mas seguiu com firmeza para a porta da
van.
-Cuidado com a cabeça – aconselhou Clara, justamente quando Kyle
conseguiu a proeza de escorregar o pé no degrau do carro – Cuidado.
Clara segurou-o pela mão, apertando seus dedos de leve. Kyle se largou no
banco com o coração aos pulos, o rosto tomado por uma palidez mortal. Clara
ainda segurava seus dedos quando seus olhos se encontraram, e o garoto se
permitiu uma esperança que jamais imaginara sentir.
Clara soltou-o e sorriu para todo o grupo – Bem, se estão todos prontos,
vamos lá!
Bateu a porta e se sentou ao lado de Karineee, a motorista oficial do grupo,
que fez também o favor de ligar a música num volume alto o suficiente para
animar os passageiros.
-Alguém sabe onde estamos indo? – indagou a garota animada com quem
eles raramente falavam.

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Na verdade, até aquele momento jamais haviam se misturado realmente. Era


como se os pares fossem pré-determinados desde o primeiro encontro. O
nome dela era Lisa, e seu suposto namorado se chamada André. Já o casal
tímido era composto por Sam e John, e no momento estavam no fundo da
van, sem trocarem palavra nem entre eles mesmos.
-Nenhuma ideia – riu Anthony – Mas acho que é isso mesmo que ela quer:
nos pegar de surpresa. Vindo da Clara, não podemos esperar os métodos
convencionais, não é mesmo?
-Sem dúvida – concordou André com uma risada gostosa – E ai? Vocês dois
estão namorando?
-NÃO! – bradaram os dois amigos ao mesmo tempo horrorizados, causando
um silêncio surpreso no grupo.
A silenciosa Lisa se controlava para não rir enquanto elevava a voz pela
primeira vez – Acho que ele quis dizer com garotas... não entre vocês.
Kyle abriu a boca mas não pode responder. Clara estava virada para trás, um
sorriso divertido lhe iluminando o rosto. Foi o tempo de um batimento do seu
coração confuso para que todos ali desandassem a gargalhar como nunca,
inclusive Anthony. Kyle meneou a cabeça, sorrindo para seu reflexo no
vidro. Por outro instante, viu que Clara o observava com uma expressão
desconhecida, mas quando virou-se para ela, já estava voltada para frente.
Só queria saber o que isso significa.

-Bem vindos, meus amigos! – bradou um rapaz magricelo, coberto de sardas


e tinta colorida cobrindo seu macacão – Bem vindos ao campo de paintball!
-Ahm, paintball? – murmurou Kyle, olhando ao redor, receoso.
O restante do grupo sorria animado, deixando-se levar pelo guia animado.
-Meu nome é Eddy, vou levar vocês aos vestiários, onde podem por os

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macacões – ia explicando o rapaz, sempre animado – Por favor, tirem


pulseiras, relógios, e tudo que não quiserem que acabe colorido! Mas não se
preocupem, a tinta sai com o banho, eu garanto!
Largou-os na frente dos vestiários – Encontro vocês daqui a pouco!
Lisa foi a primeira a correr para dentro, levando Sam pela mão. Karineee
seguiu com sua tranquilidade de sempre, seguida por Clara. Kyle apenas
respirou fundo e seguis os outros garotos, ainda sentindo-se desconfortável
com aquela sensação de vazio que lhe tomava a tranquilidade. Fato que não
passou despercebido pelo seu melhor amigo.
-Sofrendo por amor? – comentou Anthony, como quem não quer nada.
-O que quer dizer? – estranhou Kyle, olhando nervoso ao seu redor.
-Quero dizer isso mesmo que eu disse – insistiu Anthony, apontando para o
amigo – Você está sempre alerta, não parece escutar o que a gente diz, está
com cara de doente...
-Desculpa – murmurou Kyle, enfiando-se dentro de um macacão cor de terra
– É que toda vez que ela está por perto, meu estômago fica estranho, minhas
reações são histéricas... sei lá!
Anthony concordou com um aceno, já paramentado para o jogo, os óculos de
proteção pousados sobre os cabelos claros.
-É simples. Você fica nervoso perto dela. Bem, acho que já era de se esperar
– suspirou, filosoficamente – Talvez você deva aproveitar essa oportunidade
para solidificar a relação.
-Um campo de paintball? Sim, realmente me parece muito romântico –
zombou Kyle, terminando de se vestir.
-Mas não se esqueça de que você tem que ser rápido! – insistiu Anthony –
Sabe-se lá quanto tempo até que ela entenda que está errada e acabe com essa
mísera esperança que você tem.
Kyle parou a meio caminho da porta – Você acha que ela pode encontrar
outra pessoa?
Anthony deu de ombros – Como posso saber? Mas ela pode pensar que se
arranjar uma pessoa, você se sinta obrigado a partir para a próxima! Ela

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trabalha com isso... deve saber como essas coisas funcionam.


Kyle permaneceu imóvel por mais alguns segundos, então saiu dali com o
rosto sério, completamente determinado a fazer alguma coisa.
Assim que ele saiu dali, André e John apareceram, também prontos para sair.
E nos pensamentos de Anthony, tudo que tinha espaço era a certeza de que
sua ideia não falharia. Era disso mesmo que Kyle preciSam, desde o início:
um motivo para agir sem pensar.

O jogo era divertido, com certeza, mas não era o melhor lugar para Kyle
tomar uma atitude; encurralado atrás de uma pilastra, entre Anthony e Sam,
suas opções estavam ficando vagas.
-Quem diria que Karineee tivesse esse talento também – riu Anthony, sem
coragem de sair do lugar, toda a extensão do corpo marcada pela tinta
colorida.
Em algum lugar dali, Karineee tomara a posição de um atirador de elite, e sua
mira fabulosa estava deixando o time adversário com problemas. Kyle,
Anthony, Sam e André estavam levando uma verdadeira surra do time de
Clara, Karineee, Lisa e John.
-Tudo bem, hora de virar o jogo! – decretou Sam, a expressão séria,
surpreendendo a ambos o garotos – Kyle, quero que você vá para aquele
monte de feno e tente acertar Karineee. Anthony, você da cobertura a ele – os
dois acenaram em concordância – Agora!
Movido pela convicção da garota, Kyle saiu de trás da pilastra e correu com
todas as suas forças para o outro lado do campo. Se era a cobertura de
Anthony ou sua vontade de correr, não podia dizer, mas não foi acertado mais
nenhuma vez. Se jogou atrás do monte de feno, e só então percebeu que Clara
estava bem ali. Ambos caídos no chão, apontaram-se as armas de tinta, mas
nenhum iria atirar.

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-Acho que pensamos na mesma coisa – riu Clara, se sentando direito, a arma
repousando no colo.
Kyle se ajeitou, mais nervoso do que antes – Na verdade foi Sam. Acho que
ela gosta mesmo desse tipo de coisa...
Ficaram em silêncio por alguns instantes, concentrados nas risadas alegres
que ecoavam pelo campo. De repente os dois tentaram falar, mas perceberam
que o outro também falava e se calaram ao mesmo tempo.
-Me desculpe – pediu Kyle, angustiado. Clara abriu a boca para falar
novamente, mas o garoto foi mais rápido que ela – Clara, você quer sair
comigo?
A garota permaneceu com a boca entreaberta, lentamente transformando a
expressão relutante em um sorriso.
-Sim! Eu quero!

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12. Capítulo 12 - Meu espelho

Capítulo 12 - Meu espelho


Kyle engoliu em seco, parado no corredor com o rosto já vermelho, a
respiração descompassada. Carlos tinha quase dez anos a mais do que o
irmão mais novo, mas era de uma animação que sempre a deixava parecendo
uma adolescente. Na verdade, enquanto seus pensamentos vagueavam
naquele corredor, Kyle percebia quanto a irmã se parecia com Clara. Sim, as
duas realmente se dariam bem...
A porta de repente foi aberta, e o rosto alegre de Carlos fitou o do irmão, aos
poucos dominada pela curiosidade. A garota era uma cabeça mais alta que o
caçula, que também não era nada pequeno, os longos cabelos negros
deixando-a parecida com uma personagem de anime clássico, olhos
brilhantes e inteligentes como os do garoto.
-Katito? – chamou ela, fitando-o com interesse – Aconteceu alguma coisa?
Kyle abriu a boca algumas vezes, sem conseguir por em palavras a confusão
de pensamentos que passava por sua mente já confusa, e de alguma forma,
pedir a ajuda dela.
-É que... é que.... bem...
Carlos deu um suspiro sábio, dando espaço para que o garoto entrasse no seu
recanto sagrado chamado de quarto. Kyle passou pela porta antes que
perdesse de vez a coragem. O quarto de Carlos tinha as paredes recobertas de
pôsteres de animes famosos e outros que somente ela parecia conhecer,
miniaturas dos personagens de Naruto e Dragon Ball em uma estante no lado
mais distante. E ali perto da porta, seu santuário dos jogos eletrônicos, onde
ela gastava todo seu salário e as horas vagas. Ela era uma verdadeira viciada.
-Sente-se, Katito, e abra seu coração – convidou a garota, se jogando na cama
com a mesma empolgação.
Kyle se sentou sem jeito na cadeira em frente a escrivaninha, tentando não

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olhar para ela e perder tudo que lhe restava de coragem.


-É que eu... – o garoto suspirou com pesar, já se levantando novamente –
Esquece, não vai dar certo...
-Tem alguma coisa a ver com aquele grupo para adolescentes problemáticos
que a mamãe falou? – riu Carlos, fazendo o garoto parar. A menina riu
enquanto ele se sentava mais uma vez – Desculpa, mas foi o que ela disse. Na
verdade, acho que ela até concorda que você o frequente, afinal você nunca
saia, e agora aparece a cada dia com uma desculpa diferente... Qual é o nome
dela?
Kyle arregalou os olhos, pálido e horrorizado com a forma como ela podia
ser direta, mas também não podia mentir. Carlos era a única que poderia lhe
ajudar!
-C-Clara – disse sem jeito, os olhos fixos no assoalho.
Carlos rolou e se deitou de costas, os olhos no teto, parecendo pensar bastante
no nome – Onde já ouvi esse nome antes? Clara... Clara...
-Eu não sei, não é muito comum... – respondeu o garoto. Não é sobre o nome
dela que quero falar!
Carlos se sentou rapidamente, o rosto iluminado por um sorriso imenso –
Claro! É o nome da personagem principal de Claymore!
Kyle suspirou profundamente, recostando-se na cadeira giratória – Carlos... a
questão não é essa.
Carlos ergueu as mãos como em rendição, ainda sorrindo.
-É que eu quero sair com ela... amanhã – foi dizendo enquanto podia, dessa
vez encarando fixo um pôster no anime Lucky Star – Amanhã, depois da
aula...
-Por que não no final de semana? Ela também não vai ter aula amanhã? –
estranhou Carlos.
Kyle abriu a boca sem pensar direito no que iria responder, mas se conteve a
tempo de salvar a situação, mantendo a calma.
-Não posso esperar até o final de semana, e ela não se importa – disse
simplesmente – O problema é que não quero sair com ela vestindo meu
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uniforme escolar! Ia parecer que matamos aula – Bem, só eu iria parecer isso
– Você pode me ajudar ou não?
Carlos o observou por mais alguns segundos, sorrindo com doçura em
seguida. Se ergueu e seguiu até o irmão, abraçando-o sem ligar para os
protestos do garoto.
-Não se preocupe, Katito. Sua irmã vai ajuda-lo.

-Por que mesmo você tem que sair com ela hoje? – insistiu Anthony, sentado
no parapeito da janela do banheiro masculino.
Ali em um daqueles cubículos Kyle estava se trocando com pressa, um
sorriso brilhante no rosto incomumente animado. O garoto arrancou a
camiseta branca, passando desodorante e perfume numa velocidade
espantosa; vestiu a camiseta vermelho vinho que Carlos escolhera na noite
anterior, seguindo enfim para a pia.
-Por que cada minuto conta nessa história – decretou Kyle, brigando com a
pasta de dente – Você mesmo disse, lembra? Não posso permitir que ela
mude de ideia. Se fosse esperar pelo final de semana, ela provavelmente vai
inventar algum motivo esdruxulo para dizer que não pode sair comigo...
-Você usou a palavra “esdruxulo” – observou Anthony com surpresa – Isso é
uma coisa que me põe preocupado.
Kyle tentou dizer alguma coisa, mas a escova de dentes enfiada na boca não
permitiu que ele brigasse com o amigo como desejava. Cuspiu tudo e
enxaguou a boca com pressa, lavando o rosto. em seguida molhou as mãos e
passou nos cabelos, desarrumando-os.
-Carlos disse que assim ficaria bom... o que você acha? – Kyle se voltou para
o amigo, ansioso – O que você acha?
Anthony fez uma careta – Levando-se em conta que você não pode tomar um
banho... e teria que nascer de novo para ter uma aparência melhor...
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-Cala a boca, Anthony! – protestou o garoto, chateado.


Anthony riu com vontade, erguendo as mãos como em rendição.
Por que todo mundo está reagindo desse modo quando eu falo? Estranhou
Kyle, fitando o amigo com desconfiança.
-Eu só estou brincando, idiota! Você está muito bem, cara, juro! Verdade! –
Anthony desceu da janela , indo até a mochila do amigo – Quer que eu leve
isso para a sua casa?
-Não, tudo bem... – Kyle deixou os ombros baixarem conforme a tensão
desaparecia – Sua casa é bem antes, não ia te fazer ir até lá. Dai também
posso por de novo a camiseta do uniforme; não quero que minha mãe pense
que eu estou encontrando alguém por ai...
-Então não deveria dizer a ela que você está encontrando a Clara por ai? – riu
Anthony – Tudo bem, parei! Mas acho que já está na hora de você ir, não é?
Kyle recolheu todas as suas coisas, rindo a toa.
-Me deseje sorte! - pediu, já correndo para fora.
Anthony deu um muxoxo – Você não vai precisar! Você tem a Doutor Amor,
não é?
E continuou rindo sozinho, demorando a perceber que o sinal já tocara e
ainda estava na escola. De repente se sentiu um tanto abatido... como não se
sentia já há algum tempo.
-Ah, é mesmo – murmurou para si mesmo – Não tenho mais para quem ligar
quando saio daqui...

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13. Capítulo 13 - Jogadores

Capítulo 13 - Jogadores
Faziam poucos dias... dois, ou três... Não, não faz tanto tempo.
Faziam mesmo poucos dias desde que Isabel não era mais uma presença
constante na sua vida. E essa falta ele não estava bem preparado para sentir.
Se culpava por ter caído tão de cabeça naquela relação duvidosa, mas podia
também dizer que não era algo que ele controlasse. Na sua família as pessoas
eram feitas de um material resistente e antiquado que fazia com que todos os
laços fossem frios e sem verdadeira ligação emotiva. Até mesmo seu pai e
mãe... Vindos de um casamento arranjado, o casamento estava longe de ter
alguma coisa parecida com amor, mas haviam decidido que um divórcio
estava fora de questão. Eram dois estranhos que por algum motivo tinham
filhos em comum.
Anthony era emotivo, sofrera muito com essa desestabilidade afetiva dos
pais, mas pasSam a encontrar a felicidade que precisava em outras fontes
menos problemáticas. De alguma forma ficara bem. A irmã mais nova,
Georgia, decidira por conta que estudaria em um internato, e nas poucas
vezes que estava em casa, ficava fechada no quarto estudando ou sabe-se lá o
que fazendo. Ela também parecia bem... do seu jeito triste.
Entrou em casa e seguiu direto para o quarto, sem fome ou vontade de fazer
qualquer outra coisa. Largou suas coisas no assoalho assim que estava seguro
no seu recanto feliz, ligou o computador enquanto escolhia algumas roupas
para poder tomar banho, antes que seguisse para o banheiro, pos para tocar
sua coletânea de Shaman, a única coisa que poderia anima-lo naquele fim de
tarde terrível. A escola geralmente era alvo do ódio reprimido de muitos
adolescentes, já que perdiam praticamente o dia todo ali, mas desde que...
desde que Anthony se lembrava, era o único momento em que podia rir sem
se sentir culpado. Não que não amasse os pais, mas eles pareciam sempre
tristes e desgostosos com o mundo, e o pior era que pareciam querer que
todos se sentissem assim. O garoto simplesmente não podia ser verdadeiro

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quando estava perto deles.


Depois do banho arriscou descer até a cozinha e preparar um sanduíche,
voltando também comum uma lata de coca cola. Espalhou seu jantar sobre a
escrivaninha, finalmente passando os fones ao redor da cabeça, presenteando
a casa vazio com seu merecido silêncio. Lançou um último pela janela,
sentindo-se mais deprimido ainda por estar um dia tão bonito.
Virou-se para o computador, pronto para as missões do dia.

Sam, além de uma incrível estrategista, era líder da guilda Shadow Hunter,
num jogo online de batalhas medievais, e assim que descobrira a fascinação
do garoto por jogos, convidara ele para se unir ao grupo.
E Reino das Sombras se tornara seu passatempo favorito – na verdade, era até
mais do que um passatempo, era sua razão de não enlouquecer. Era sua
segunda noite jogando, e estava indo realmente bem.
Não estava online há nem um minuto e já recebera um comunicado da líder,
avisando que havia uma nova missão a sua espera.
-Vamos lá, então – disse com animação.
Seguiu direto para a aldeia onde deveria derrotar alguns guardas simples e
recolher um item raro que lhe valeria bastante no ranking dos jogadores. Mas
nem bem chegara lá, descobriu outro jogador, já em posse do tal item raro.
-Mas o que? – rosnou Anthony, sentando-se direito na cadeira, realmente
irritado – A missão era minha, droga!
Mandou uma mensagem para Sam, avisando da interferência. Em menos de
um minuto recebeu sua resposta.
Ah, deve ser a Rebecca8000... Mandei a missão para ela, mas como não
respondeu, achei que não estava. Desculpa, DarkAnthony.
Anthony xingou alto, jogando sua lata vazia no lixo. Bateu os dedos no
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teclado, ainda irritado com aquilo. Ele aceitara a missão, ela não podia
simplesmente tomar ela para si!
-Espera... Rebecca? – Anthony riu alto, se sentindo muito malvado – Espera,
ela é uma garota? Ah, ela vai ver só... – encolheu os ombros, agora culpado
com sua reação machista – Me desculpem, garotas que arrasam nos jogos...
mas essa eu não vou perdoar!
Na primeira oportunidade, encurralou o avatar da usuária Rebecca8000 em
uma área perigosa, deixando-a com sérios problemas. E obviamente não
demorou a receber uma mensagem.
Qual é o seu problema?!
Anthony riu alto, agora irritado de novo.
Qual é o SEU problema – digitou – Aquela missão era minha. Eu já havia
aceitado!
-Beca8000... – murmurou Anthony enquanto esperava a resposta da usuária
maligna – Por que esse oito mil? Oito mil vitimas do seu mau humor? Oito
mil motivos para sermos inimigos? Bem... nesse caso acho que seriam mais
de oito mil!
Anthony riu com vontade, calando-se de repente.
-Mais de oito mil? Não pode ser...
Recebeu uma mensagem nem um pouco simpática, mas não quis mais brigar.
Aquele “oito mil” havia acabado com as suas defesas.

Mais tarde, quando o relógio já marcava três horas e o sono pesava


realmente, se jogou na cama vestido, fechando os olhos imediatamente. Mas
não conseguia parar de pensar na sua nova inimiga, Beca8000. Oito mil...
mais de oito mil... Tinha vontade de rir ainda naquele momento... ela era
divertida afinal.

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-Ai, deveria ter ligado para o Kyle... queria saber como foi – murmurou para
a escuridão – Aiai, agora estou falando sozinho... talvez seja hora de parar...
Boa noite, Anthony.
Deu um suspiro cansado, sorrindo para o nada. Ali ninguém poderia lhe
ouvir.
-Boa noite, Isabel.

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14. Capítulo 14 - Tarde de amor

Capítulo 14 - Tarde de amor


Kyle correu com todas as suas forças até que passasse pelo portão da escola.
Naqueles poucos metros, imaginou a situação de todos os ângulos que sua
imaginação poderia conceber, e levando-se em conta que ele não tinha um
relógio onde pudesse conferir as horas, sempre via Clara esperando vários
minutos e indo embora chateada.
-Por favor não vá! – disse para o pátio vazio, enfim percebendo seu estado –
Pelo menos não tem ninguém aqui...
Do lado de fora, antes que ao menos se desse ao trabalho de ter esperanças,
murchou assim que não a viu, os ombros baixos e desanimados.
-Eu sabia... – disse num suspiro, surpreso como aquela constatação parecia
rasgar seu peito ao meio. Ela vai me mandar uma mensagem ou algo do
tipo... Imagino como ela se sente, tendo que dar um fora numa criança
teimosa... É exatamente isso que eu sou. Sou a droga de uma criança
teimosa!
Os tênis cor de laranja que surgiram no seu campo de visão não puderam ser
reconhecidos de imediato, e sua súbita depressão não permitiu que erguesse
os olhos com a devida animação.
-Nossa, a Karineee não ia me deixar enquanto não colocasse um vestido! –
exclamou aquela voz estridente e cheia de vida que fazia seu coração disparar
na mesma hora.
Kyle não podia falar; mesmo que soubesse o que dizer naquele momento,
seus batimentos desenfreados, a boca seca, a garganta apertada, eram fatores
que impediam a comunicação. Clara estava linda. Usava um vestido simples,
azul claro, e medonhamente combinava com os tênis de cor berrante. Os
cabelos caiam em ondas suaves ao redor do ombros, e estava tão feliz, que
mesmo que estivesse usando seu jaleco de corações e o chapéu de cowboy,
estaria fantástica.
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-Nossa, você se arrumou também! – riu, as maças do rosto um pouco coradas.


Fitou Kyle por mais alguns instantes, de repente preocupada – Ahm, você
está bem, Kyle? Está um pouco pálido...
-É que me esqueci de respirar – disse sem pensar, e quando Clara riu com
vontade, se encolheu de vergonha – Me desculpa... é que você está muito
bonita.
Clara deitou a cabeça de lado sobre o ombro, sorrindo de maneira doce – Que
bom que gostou. Já que não sou exatamente a garota certa para sair com
você, queria que pelo menos pudesse ficar bem...
-Clara – murmurou o garoto, os olhos cheios de uma ternura que não podia
expressar em palavras.
Num movimento inconsciente, estendeu a mão para pegar a dela, ainda
fitando-a sem piscar, e no mesmo instante ela riu com animação, agarrando
os dedos relutantes de Kyle.
-Não decidimos onde ir, não é? Mas eu sei de um lugar ótimo! –decretou,
quase correndo enquanto arrastava o garoto atrás de si.
Ela não sabe... quanto eu estou feliz.

O lugar que Clara conhecia e adorava era uma lanchonete numa área menos
movimentada do centro da cidade, um lugar pequeno, num prédio simples
com um inusitado formato arredondado. Assim que chegaram, Clara desviou
da entrada e puxou o garoto pela escada de metal que seguia a parede ao
redor do prédio, levando a um terraço coberto de mesinhas de metal. Os
guarda sois ainda estavam abertos, ignorando o por do sol que se alongava no
horizonte plano e longínquo, e arbustos recobriam as laterais do lugar,
enchendo de verde com o aroma das flores pequenas que brotavam fora de
época. Clara seguiu até uma mesa mais afastada, perto da lateral com a
melhor vista do lugar.

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De qualquer modo, eram os únicos ali em cima.


-Como sabia desse lugar? – espantou-se Kyle, se sentando nas cadeiras de
metal retorcido, formando motivos florais elegantes.
Clara deu de ombros, levemente sem jeito – Vinha aqui com minhas amigas...
na época do colégio.
-Ah – respondeu Kyle, sem saber o que mais poderia dizer – E você vem
desde então... Digo! Você vem sempre aqui?
Kyle não sabia onde se enfiar; talvez se pudesse se jogar dali de cima se
sentisse melhor. “Vem desde então” tinha sido a frase mais estúpida que
podia ter dito! Era declaradamente frisar a diferença de idade!
Idiota! Idiota! Idiota!
-Sim eu venho sempre aqui, desde o colegial... – riu Clara, lançando um
breve olhar para a escada, onde uma atendente animada aparecia – Oi,
Amanda! Pode nos trazer dois daqueles no capricho?
A jovem Amanda bateu continência para a frequentadora assídua, descendo
logo com o mesmo sorriso feliz.
Vai ver ela seja como Clara... pode ser que trabalhe aqui desde aquela
época...
-Você está muito calado, Kyle. Aconteceu alguma coisa? – estranhou a
garota, fitando-o com interesse – Eu sei que você é naturalmente calado, mas
hoje até estou estranhando...
Kyle engoliu em seco – É que fico nervoso e acabo dizendo coisas idiotas, e
não queria que você pensasse que sou idiota, porque fico doente só de
imaginar que você não queira mais falar comigo.
Clara concordou com um único aceno, o rosto sério – Então você é do tipo
que fala muito quando está nervoso – aquilo não era uma pergunta.
Cala a boca, se tem amor a vida! Kyle queria matar a si mesmo,
desaparecendo de vergonha, encolhido na cadeira, mas Clara não parecia se
importar que ele já fosse comprovadamente um idiota nato. Assim, sem
solução. Um idiota.
-Isso é bom – disse ela a meia voz, o olhar abatido pousado na mesa onde
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repousava as mãos – Quando eu fico ou nervoso, triste, ou mesmo com


raiva... não consigo dizer nada. quando era mais nova era ainda pior. Sinto
como se em todas as grandes cenas da minha vida, eu estivesse do lado de
fora do palco, esperando alguém me ditar as falas certas... Mas acho que
mesmo que houvesse alguém lá, eu não falaria nada. Não teria forças.
Kyle continuou lhe observando sem dizer nada e ela não parecia se importar
com seu silêncio.
É mesmo, ela me conhece muito bem.
-Foi quando me apaixonei por Nanda – continuou, referindo-se a mulher que
foram procurar naquela cidade litorânea, onde os sentimentos de Kyle haviam
tomado forma física. Ele sabia bem quem era Nanda – Eu não podia dizer a
ela... Era ainda pior porque parecia completamente errado. Estou feliz que
pelo menos isso tenha sido resolvido, obrigado.
Kyle se encolheu, e antes que tivesse que buscar desesperadamente por um
assunto, a atendente voltou com uma bandeja grande, presenteando-os com
dois milk shakes de chocolate e batata frita com queijo.
-Me desculpa, acabei pedindo meu lanche favorito e nem perguntei se você
gostava! – riu Clara, empurrando um dos copos para o garoto – Está tudo
bem assim?
-É claro. Milk shake e batata frita é meu alimento natural – comentou o
garoto, um pouco mais a vontade, e ambos conseguiram rir.
Clara se recostou na cadeira, observando o garoto com um sorriso que
beirava perigosamente a tristeza.
-O que foi? – estranhou Kyle.
Clara meneou a cabeça – Desculpa, não quis estragar a tarde... – deu um
suspiro profundo, ainda sorrindo – É que as vezes... É tão fácil quando
estamos juntos, parece certo! Mas... me sinto culpada, sinto que estou tirando
as chances que você tem de conhecer uma garota da sua idade, alguém que
possa ir para a faculdade, fazer planos... sair com alguém da sua idade...
-Por favor não faça isso – pediu Kyle, subitamente sério, encarando-a com
firmeza – Como acha que eu me sinto? Não pode imaginar quantas vezes eu
me pego pensando se você não ficaria melhor com alguém da sua idade,

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alguém que já trabalha e sabe o que quer da vida. Ou pelo menos alguém que
já não more com a mãe e possa... e possa lhe dar alguma perspectiva de
futuro! Então não se preocupe comigo... – Kyle ofegava com a necessidade
de dizer tudo aquilo de uma vez, antes que perdesse aquela coragem – Não se
preocupe comigo, porque vou para a faculdade se fizer você se sentir melhor!
E vou trabalhar para que quando a gente saia pelo menos não se sinta levando
o irmão mais novo para passear. E nunca mais vou sair do seu lado, então não
terá mais tempo de pensar bobagens!
Num movimento rápido, derrubando a cadeira onde estava sentada, Clara se
ergueu, debruçando-se sobre a mesa na direção do garoto. Segurando seu
rosto surpreso com as duas mãos, beijou-o com urgência, selando aquela
explosão de sentimentos que a pegara de surpresa. E enquanto Kyle estava
tão surpreso que nem se lembrara de fechar os olhos, ela lutava contra aquela
sensação desconfortável de que não daria certo.
Clara se afastou alguns centímetros em busca de ar, os olhos semi cerrados
ainda pousados nos lábios entreabertos e ofegantes do garoto.
-Enquanto você estiver aqui... não vou parar de acreditar nisso – disse
somente, buscando por ele novamente.

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15. Capítulo 15 - Se Irritando

Capítulo 15 - Se Irritando
-E então, vocês estão namorando? – indagou Anthony, calmamente, sem se
importar com a cara vermelha de Kyle, completamente envergonhado.
-Anthony, prefiro não falar disso... aqui – murmurou quase inaudivelmente,
os olhos correndo pela lan house lotada – Por que mesmo que não estamos na
sua casa?
-Todos esses caras estão com fones enfiados nos ouvidos, nenhum vai ouvir
nada – riu Anthony, se inclinando na direção do monitor quando recebeu uma
mensagem – O caso é que meu pai está em casa... não quero falar com ele.
Mas e então?
Kyle se encolheu – Bem, não tenho certeza... Clara nunca me da uma
resposta certa, não existe sim ou não com ele; sempre tem uma resposta
ambígua ou que me deixa ainda mais confuso! Mas eu acho que... que
estamos sim!
Anthony se voltou para o amigo com um sorriso enorme, largou o controle e
segurou o amigo pelos ombros, os olhos quase lacrimejantes.
-Cara, você não imagina como me deixa feliz com isso!
-N-não precisa exagerar – resmungou Kyle sem jeito, se encolhendo – Não é
melhor responder essa mensagem ai...
Anthony se sorriu de canto, abrindo a mensagem sem pressa.
Se aprontar mais uma, vou ai quebrar a sua cara!
-Ah, sim, você ainda não conhece Rebecca8000 – riu Anthony – Ela acha que
pode ganhar de mim...
Do nada o avatar de Anthony caiu morto com um tiro, deixando o garoto
atônito.

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-Bem, eu acho que ela consegue mesmo – suspirou Kyle, recostando-se na


cadeira ao lado do amigo.
Anthony digitou uma mensagem pouco gentil, resmungando com deus e o
mundo, ameaçando arrancar os fios do vídeo game dela e coisas assim, e em
poucos segundos recebeu a resposta: “Ops!”, e isso foi o fim.
Eu é que vou quebrar a sua cara! Respondeu o garoto, espumando de raiva.
-Ei, ela é uma garota... não pode ameaça-la assim – sorriu Kyle, surpreso com
a irritação do amigo.
A resposta de Rebecca8000 veio mais do que depressa, perguntando onde ele
estava.
-O que? Como assim? – estranhou Anthony, explicando de qualquer jeito o
endereço da lan house – O que ela quer com isso?
A resposta foi quase imediata.
Não sai dai. Estou indo fazer você engolir essas palavras.
Os dois garotos pularam no lugar ao ler aquilo, os rostos completamente
pálidos. Anthony se ergueu e saiu correndo dali, ao passo que Kyle teve o
bom senso de pagar o rapaz indignado que já ia atrás do primeiro.
-Espera Anthony, ela mora aqui? - indagou Kyle, aliviado ao ver que o amigo
não saíra correndo que nem um maluco.
-Eu não sei! Não falamos sobre nada, além das ameaças – comentou
Anthony, girando ao redor de si, procurando pela rua movimentada alguém
que pudesse se parecer com Rebecca800 – Como vou saber quem é?
Kyle também começou a procurar pela garota. Girou ao redor de si mesmo, e
seu coração quase parou quando percebeu que provavelmente era ela. O
cabelo curto num tom berrante de laranja, saia e meias listradas que
chegavam a metades das coxas, e que prontamente saltou uma grade de metal
e atravessou a rua correndo.
-T-Anthony – chamou Kyle sem forças para faze-lo se virar.
A garota passou por ele como um borrão e socou o braço de Anthony com
vontade, fazendo-o cair sentado no chão. Ainda chocado, Anthony encarou as
lentes dos óculos escuros com uma bela expressão de pavor.
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-Mas que droga! – exclamou o garoto, ainda no chão.


-Isso é por ter tentado me matar – rosnou a menina.
-Você me matou! Eu é que devia bater em você!
-Então vem! – respondeu a suposta Rebecca8000, erguendo os punhos.
Kyle porém não estava a fim de recolher ninguém depois de levar uma surra,
e mais do que depressa se pos no meio dos dois, sorrindo amigavelmente para
a garota.
-Você seria Rebecca? Meu nome é Kyle...
-Kyle, que nome lindo! – exclamou ela, parecendo uma pessoa
completamente diferente – Meu nome é ReRebecca, mas pode me chamar de
Rebecca, muito prazer!
-O prazer é meu – sorriu Kyle, encantado, e em seguida se voltou para o
amigo – Não pode bater nela, você é quem está sendo grosso.
-Vai ficar do lado dela? – bradou Anthony, se pondo em pé, e ao mesmo
tempo controlando sua irritação; não era do seu feitio ser rude com garotas,
principalmente garotas como aquela ali – Meu nome é Anthony, e não foi
minha intenção brigar com você.
-Jura? – riu Rebecca, puxando os óculos para cima do cabelo, encarando-o
com brilhantes olhos verdes – Não foi bem o que pareceu. No futuro, deixe
suas intenções mais claras...
Anthony engoliu em seco, controlando-se para não discutir mais.

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16. Capítulo 16 - Caminhos

Capítulo 16 - Caminhos
Assim que conseguiu fazer os dois se sentarem no banco de madeira, em
frente a praça central, Kyle se ofereceu para comprar refrigerante, torcendo
para que a desculpa não fosse óbvia demais.
Na verdade sua desculpa foi óbvia demais, Kyle...-Então... – comentou
Anthony, com a mesma expressão que usaria para comentar o tempo – Você
mora por aqui?
-Não – respondeu Rebecca prontamente, os pés balançando sem alcançar o
chão – Vim ver a Sam, mas parece que ela não está na cidade...
-Entendo... – Ela é amiga da Sam, droga! Não devia ter reclamado dela!
Anthony fuzilava os próprios tênis, imaginando quanta coisa Sam já deveria
ter contado a ela... Se bem que, conhecendo Sam pelos encontros da Doutor
Amor, era possível que ela não tivesse dito nada – Bem, você vai voltar ainda
hoje?
-Quer tanto assim que eu vá embora? – Rebecca fez uma expressão triste, os
olhos chegando a ficar marejados.
-Não! Não foi isso que eu quis dizer! – o garoto quase gritou a resposta, tão
surpreso com aquele rosto inocente que em nada se parecia com a garota que
o socara sem poder ter certeza de que era ele mesmo.
Rebecca encarou-o por um momento, desandando a rir em seguida, as
lágrimas escorrendo dos olhos brilhantes – Você é mesmo muito engraçado!
Idiota...
Ela me chamou de idiota...- Ei, como sabia que era eu?
Rebecca parou de rir, fitando-o com seriedade.
-Na verdade eu não sabia. Fiquei até aliviada quando você não me chamou de
maluca.

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-Você é maluca! – bradou o garoto, completamente irritado.


-Ah, Anthony... como você é malvado com a Rebecca – choramingou a
menina, fazendo sua melhor expressão de mágoa, bem em tempo de Kyle ver
tudo.
-Anthony! – chamou o amigo com o rosto sério – O que você está fazendo?

Clara abriu a porta com o mesmo sorriso alegre de sempre, ainda mais
contente ao ver a garota de cabelos berrantes entre os dois amigos.
-Que linda! – exclamou sem pensar, as mãos no rosto apaixonado.
Rebecca respondeu a altura, piscando seus lindos olhos verdes - Quem é ela,
baka? Me apresenta?
Anthony trincou os maxilares, desejando poder estrangula-la ali mesmo.
Agora ela vai me chamar de BAKA? Idiota na nossa língua não é o
suficiente?
Clara fez todos entrarem logo, levando-os para a sala dos encontros. Karineee
vagamente acenou enquanto eles passavam, os olhos fixos na abertura de One
Piece com sua música alegre. Kyle suspirou, imaginando como elas poderiam
ir pra frente se estavam sempre mais interessadas em animes do que no
trabalho. E falando nisso, tinha que ver que como andavam as finanças da
sua... namorada?
Ah, minha nossa, e se não formos isso? E se ela pensar que estamos indo
rápido demais? O que eu faço?
Enquanto guiava Anthony e Rebecca, por um instante, Clara passou os dedos
de leve pelo ombro de Kyle, deixando-o em pânico imediatamente. Se sentia
até idiota por ficar assim sempre que ela estava por perto, mas não podia
evitar. Seu coração disparava a uma velocidade vertiginosa e seu rosto já
deveria estar vermelho. Ainda mais quando Clara deliberadamente sorriu para
ele, piscando um olho.
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Sentou-se com pressa ao lado de Anthony, tentando não pensar naquilo, o


que até que poderia ser uma tarefa fácil com a presença de Rebecca, já que
ela falava pelos cotovelos, sempre animada.
-Ah, isso parece realmente legal! Deve ser divertido trabalhar nesse ramo,
srta.Clara – comentou a menina, observando tudo com interesse.
Anthony fitava-a com assombro. Onde está a garota que me socou sem
pensar duas vezes?
Clara fez uma careta, sentando-se de qualquer jeito no sofá – Ah, mas as
vezes nem tem tanta graça... Como esse último grupo que se acertou todo de
uma vez – e mais uma vez ela fez questão de lançar um olhar significativo ao
garoto encolhido logo a frente – Embora agora estejamos a procura de um par
para Anthony.
Rebecca sorriu maliciosamente, levando a mão aos lábios de modo afetado –
Pobre srta.Clara... deve ser uma tarefa e tanto encontrar uma garota para ele!
Os dois se encararam com fúria, mas aparentemente não pretendiam se matar
ali dentro, enquanto Clara ria com vontade. Kyle conseguiu relaxar um
pouco, percebendo enfim que Sam realmente não estava ali também,
sobrando apenas um taciturno John, sentado ali perto, sem parecer pensar em
nada.
-Sam está bem? – indagou enquanto seguia o olhar de John para Clara.
-Está sim, é a sua avó que parece estar um pouco doente – respondeu ela sem
se preocupar, sempre tranquila – Acho que ela retorna apenas no fim de
semana, de qualquer jeito.
-Que pena – murmurou Rebecca, um tanto desanimada – Vim de tão longe
para não poder vê-la... Isso deve ser uma lição para aprender a ligar antes!
Kyle ainda estava sorrindo quando percebeu as expressões medonhamente
abatidas de André e Lisa, chegando a ficar assustado. Anthony também
finalmente perceber a aura pesada.
-Minha nossa, não sei como ainda não começou a chover aqui dentro – disse
sem nenhum pingo de sensibilidade.
-Ela também é avó de vocês? – indagou Rebecca, também com muito tato.

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Os dois se merecem, concluiu Kyle com uma careta, voltando-se então para o
casal que geralmente emanava felicidade. Eles eram efetivamente o que
poderia existir de amor a primeira vista, e talvez chegassem mais perto de um
“felizes para sempre”, na concepção do garoto. Era até mesmo assustador vê-
los assim.
-Ah, desculpa – sorriu Lisa, e quanto mais ela tentava parecer feliz, mais
provava o contrário – Só estamos cansados...
Mas quando Kyle encontrou os olhos de Clara, sabia que não era só isso.

Depois que todos foram embora, até mesmo Karineee, Kyle conseguiu
relaxar consideravelmente, um suspiro profundo delatando sua situação antes
que Clara tivesse tempo de fazer as perguntas que estavam lhe rondando.
-Você parecia mesmo tenso. Aconteceu alguma coisa? – indagou, sentando-
se ao lado do garoto, o caderno de contabilidade sobre a mesa de centro.
-N-não – respondeu ele, quase depressa demais – Desculpa se pareci assim...
Não queria parecer...não queria dar a impressão de que nós... Eles poderiam...
-Seria tão ruim assim se eles descobrissem? – comentou Clara pensativa,
fitando o teto – Não acho que isso fosse incomoda-los... A menos que você
queira manter segredo, eu entendo! – disse, fitando-o com urgência.
Kyle ainda não tinha processado a primeira parte da conversa, a expressão
tola deixando-o ainda mais incrível aos olhos da garota.
O que é isso? Ela quer dizer que estamos... mesmo...
-Clara, nós estamos... – Kyle respirou fundo, tentando se impedir de enfartar
– namo... na...
Clara sorriu com animação, parecendo perdida depois – Eu acho que sim. A
menos que os adolescentes de hoje em dia não façam mais isso... ando meio
desatualizada...

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-Espera! – exclamou o garoto, o rosto numa mistura de vergonha e ansiedade


– Não! Digo, sim! Sim, isso... – e não sabia o que mais dizer, porque não
havia palavras que expressassem como estava se sentindo. Naquele momento,
só queria que tudo se acabasse para que o rosto de Clara continuasse
sorridente para sempre. Para sempre ali, onde pudesse tocar.
Clara se ergueu e caminhou até a frente do garoto, ajoelhando-se ali, as mãos
espalmadas uma de cada lado dele, prendendo-o ali.
-Não se preocupe, vamos fazer que isso de certo – disse com um sorriso
esperançoso, embora seus olhos parecessem tristes.
Kyle engoliu em seco, sem conseguir desviar seus olhos dos dela. Seria
sempre assim, então? Iria continuar sem forças para dizer o que pensava ou
sentia, dependendo das palavras dela. Não iria se importar se fosse assim,
mas será que bastaria para Clara? E se ela precisasse dessas palavras?
-Lisa vai embora – murmurou Clara, os olhos fixos no peito do garoto.
O estômago de Kyle afundou, deixando-o com uma sensação desconfortável.
Era por isso que os dois estavam daquele jeito. Era mesmo triste... eles
pareciam um casal tão certo.
Ah, é mesmo... final feliz não existe de verdade.
-Né, Clara... por que essas coisas acontecem? – disse quase sem pensar, os
olhos fitando-a de verdade.
A garota sorriu a sua maneira, segurando o rosto do garoto com delicadeza –
Eu também não sei.

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17. Capítulo 17 - Companheiros de


batalha

Capítulo 17 - Companheiros de batalha


Anthony não se ofereceu para carregar a mochila da garota e ela não parecia
ter vontade de se separar dela. Enquanto seguiam na direção da estação
rodoviária, a menina ia cantarolando as aberturas de anime que escutava com
os fones enfiados nos ouvidos. Repentinamente tirou um dos fones verde
limão e estendeu para o garoto, sorrindo com uma simpatia suspeita.
-Quer dividir?
Anthony fitou-a por alguns segundos, aceitando enfim aquela proposta de paz
– Obrigado.
O som alto machucou os ouvidos com o susto, mas era até acostumado com o
volume, rindo ao reconhecer a abertura de Chihaya Furu. Não era seu tipo de
anime favorito, mas sua irmã trouxera o DVD de presente em um dos seus
raros momentos de interação familiar.
-Eu amo essa música – comentou a menina, os olhos fechados por um
instante.
-É um anime incrível também – sorriu-lhe Anthony, deixando a menina
surpresa – É eu vi mesmo... E adorei! Falo sério, cheguei a procurar um
baralho de karuta...
Rebecca riu com vontade, chegando mais perto do garoto quando a distância
ameaçou puxar os fones. Volta e meia falavam sobre algum jogo ou um novo
lançamento de mangá, sempre sem propósito, sem nenhum roteiro que
deveria ser seguido. Afinal, nenhum dos dois estava preocupado em sair com
o outro; não havia a necessidade de parecer uma pessoal perfeitinha e mais
legal.
Quando chegaram na rodoviária, Anthony se jogou em um dos bancos,

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esperando a menina seguir até o guichê. Não havia fila alguma naquele início
de noite, e em menos de três minutos ela estava de volta, sorrindo com sua
animação cheia de altos e baixos.
-E ai? Quer que eu espere você embarcar? Que horas sai o seu ônibus? –
indagou Anthony, observando a estação praticamente vazia.
Não, aquele não era um bom lugar para uma garota ficar sozinha. Desejando
esmagar seu pescoço ou não, iria ficar ali com ela até que estivesse a salvo
dentro de um ônibus, seguindo para casa.
-Ah, você não precisa ficar aqui – riu Rebecca, alongando os braços – Na
verdade, parece que eu perdi o último ônibus.
-O QUÊ?! – Anthony saltou em pé, olhando ao redor como se do nada fosse
aparecer um ônibus com o letreiro CIDADE DA REBECCA – Como assim?
Que horas foi? Quando tem o próximo?
-Ahm, faz uma meia hora que saiu o último... Mas tem um antes das oito
horas da manhã! – exclamou a menina, jogando-se no banco de qualquer
jeito, a mochila largada ao seu lado – Não se preocupe, tem alguém por aqui
a noite toda.
-Não diga bobagens! – rebateu Anthony com ansiedade, realmente irritado –
Como se eu fosse deixar você aqui!
Rebecca encarou-o com tédio – E vai fazer o que? Dizer pra sua mãe que vou
dormir na sua casa?

-Mãe, essa é a Rebecca e ela vai dormir aqui – disse simplesmente,


arrastando a garota escada acima.
-Desculpe o incômodo! – desculpou-se a menina, sorrindo e acenando para a
mulher atônita que observava a cena com uma expressão chocada e abatida.
Anthony continuou calado e com pressa até chegar ao seu quarto; abriu a

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porta e empurrou Rebecca para dentro, fechando-se ali. Suspirou


profundamente, ainda escorado na parede, mas a menina nem se importava.
Largou a mochila na cama e seguiu para a escrivaninha, ligando o
computador do garoto.
-Eu pensei que ela fosse começar a chorar – murmurou Anthony, os olhos
semi cerrados – Ela deve achar mesmo que eu estou perdido.
-Seu pai não tentar lhe dar uma surra, não é? Ia ser um tanto tenso se eu
tivesse que bater nele, sabe como é, não posso usar minhas habilidades fora
dos tatames... – comentou a menina com tranquilidade, jogando seus próprios
tênis longe – Ei, será que posso tomar um banho?
Anthony engoliu em seco, rumando para o banheiro rapidamente. Tinha que
dar um jeito naquela zona o quanto antes; ela podia usar o banheiro da casa,
mas não queria que ela ficasse sob os olhares pesados da sua mãe.
Pelo menos queria que ela realmente fosse minha namorada e estivesse
trazendo ela aqui escondido... Me sentiria até melhor. É horrível receber a
culpa por algo que nem existe.
-Desculpa, se minha irmã não fosse tão pirada você podia usar o quarto dela –
comentou enquanto recolhia as roupas que deixara jogadas pelo chão – Mas
ela sempre deixa tudo trancado... Você tem roupa para trocar?
-Agradeceria se você me conseguisse uma camiseta – respondeu a menina,
sem pensar duas vezes.
Folgada...
-Saeko-chan? – riu a menina, obviamente interessada no papel de parede do
monitor – É, H.O.T.D. é um anime muito legal, pena que o ecchi apela
demais... Embora eu ache que você não vá concordar.
Anthony riu, já satisfeito com o estado do banheiro – Senhorita, seu banho...
Rebecca passou correndo por ele, a mochila pendurada no ombro.
-Eu como qualquer coisa – disse com um piscar de olhos angelical – Posso te
ensinar a jogar, mais tarde.
Anthony sorriu com sarcasmo – Cuidado para não se afogar.
E com sorrisos mútuos de uma simpatia perigosa, despediram-se. Anthony
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riu sozinho, descendo para a cozinha. É ele estava arriscando muita coisa com
aquela maluca, mas podia valer a pena.
Infelizmente não havia nada de interessante na geladeira. Voltou para o
quarto no momento que a menina saia com os cabelos molhados, vestindo
uma bermuda jeans bastante curta e a camiseta da banda Versailles que
pertencia ao garoto; ela parecia uns três anos mais nova e ainda mais fofa.
-Hum, essa camiseta fica melhor em você do que em mim – murmurou o
garoto, meio a contragosto, sorrindo em seguida – Estamos sem condimentos,
soldado. Vamos procurar a base das provisões?
-Claro, senhor!
Rebecca calçou os tênis sem meia mesmo e passou os dedos pelos cabelos
molhados. Anthony também colocou os tênis e aproveitou para pegar um
moletom no armário, jogando para garota.
-Está ficando frio – disse somente, e sem mais demora, saíram de casa.
Rebecca estranhou que Anthony não avisasse ninguém, ou mesmo que sua
mãe nem viesse lhes dar uma bronca. Mas existiam pais de todas as maneiras,
e se o seu era um tipo raro que presava a liberdade das escolhas e suas
consequências, muitos outros tentavam forçar os filhos a uma situação crítica
de convivência.
No mercado ali perto compraram pizza e refrigerante, voltando logo para
casa, rindo como velhos amigos.
-Tipo, o filho chega e o pai está com os braços erguidos na frente do
computador, ai ele pergunta: “Pai, o que você está fazendo?” E o pai diz:
“Ergue os braços, filho” – contava a menina, rindo enquanto falava – Ai tinha
uma imagem do Goku fazendo a Genki Dama e depois o filho e o pai com os
braços erguidos, o cara chorando: “Já fiz meu trabalho”.
Os dois riram com vontade, subindo a rua com animação. Anthony que
seguia mais a frente, parou tão de repente, que Rebecca chegou a bater nas
suas costas, recuando preocupada.
-O que foi?
Seguiu o olhar angustiado de Anthony até a frente da casa do garoto, onde
uma menina sentada no meio fio parecia tomar coragem para se aproximar.
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-Eu... não posso falar com ela ainda – murmurou quase sem querer,
assustado. Aquela sensação de traição, a dor... era recente demais.
Rebecca ajeitou ombros com um suspiro, séria do seu jeito prepotente.
-É mesmo? E vai estar pronto quando? Quando essa ferida estiver tão suja
que nem poderá mais ser curada – disse sem piedade – Acha que é o único
que está sofrendo? Ela não me parece bem. Pare de sentir pena de si mesmo.
Vá lá e mostre do que você é feito!
-Mas o eu...
-Agora! – sentenciou a garota, sorrindo quando os olhos assustados de
Anthony pararam nos seus.

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18. Capítulo 18 - Tudo ficará bem

Capítulo 18 - Tudo ficará bem


-Mas e você? – sibilou Anthony, olhando de canto para a garota de cabelos
dourados que ainda não os havia percebido.
-Eu espero aqui – decretou a menina, tomando a sacola de compras das mãos
deles, já recuando até a esquina escondida nas sombras – Vai logo, baka!
Anthony engoliu em seco, os punhos fechados com força; não estava pronto
para entender o lado dela da história. Mesmo que Isabel estivesse
arrependida, mesmo que dissesse que estava errada, ele não sabia o que dizer!
Mas Rebecca estava certa, não podia deixar que isso fosse ficando para trás,
acumulando mágoas.
Avançou até a garota, os passos meio incertos que ela não demorou a
perceber. Saltou em pé, o rosto corado pela vergonha de ser pega ali fora,
como se o vigiasse.
-Anthony! – exclamou, as mãos nervosas agarradas na barra da saia de
babados – Eu... Estava pensando se seria muito tarde... para falar com você...
Anthony parou a poucos passos dela, a expressão um tanto vaga, também não
muito a vontade.
-Tudo bem – disse apenas, indicando a casa – Quer entrar?
-Acho melhor não – respondeu a menina, rapidamente, os olhos fixos nos
próprios pés – Não vou demorar.
Anthony concordou com um aceno e lançou um breve olhar para trás, mas
não podia ver Rebecca dali. Isabel cravou as unhas na roupa, tentando conter
a agitação e o desconforto daquele momento, as palavras que havia ensaiado
hesitando em sair pela boca.
-Anthony eu... – trincou os maxilares, os olhos ficando marejados – Eu...
O choque da verdade foi como uma sensação de vazio. Enquanto olhava
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aquela garota encolhida que ameaçava cair no choro, Anthony teve certeza de
que jamais poderia ficar bravo com ela. Porque além de tudo que imaginara, e
por vezes desejara sentir, ela ainda era uma ótima amiga, e só queria que ela
ficasse bem.
Deu um meio sorriso gentil – Está tudo bem, Isabel – disse com tranquilidade
– Ninguém escolhe por quem se apaixona.
A garota o encarou quase sem acreditar, as lágrimas descendo sem controle
pelas faces pálidas. Diante da sua incapacidade de por em palavras a culpa e a
confusão que sentia, Anthony simplesmente lera seus pensamentos; afinal,
eles eram muito parecidos. O que um pensava saia pela boca do outro;
poderiam ser melhores amigos.
Anthony se aproximou e abraçou a garota, deixando que ela chorasse em seu
peito com vontade, o corpo todo tremendo com os soluços. Talvez fosse sua
decisão mais sábia de toda vida, e estava realmente feliz que conseguira agira
daquele modo. E no fundo, mesmo agora, enquanto abraçava aquela garota
por quem desejara estar apaixonado, estava inclinado a aceitar a única e
absoluta verdade de que não a amava desse jeito.
-Anthony, me desculpa! Eu não fiz por mal.... – chorava a menina – Nunca
quis mentir para você... mas não.... sabia o que.... fazer!
Anthony afagou os cabelos da menina, sorrindo com doçura – Está tudo bem,
eu sei – disse – Eu posso entender, não se preocupe.
-V-você... não me odeia? – indagou a menina, se afastando um pouco
enquanto secava os olhos no verso das mãos.
-É claro que não – riu Anthony, uma mão ainda sobre a cabeça da menina –
Não se preocupe mais com isso, ok? Você não teve culpa nisso, e agora já
estamos entendidos, então não tem por que chorar mais.
Isabel fungou com vontade, sorrindo com alguma dificuldade – Eu queria me
apaixonar por você, Anthony. Mas a garota que for sua namorada, terá muita
sorte!
Anthony passou os dedos pelos cabelos, erguendo o rosto como um modelo
prepotente.
-Muita sorte mesmo – disse com uma voz forçadamente séria.

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Isabel caiu na risada, seguida pelo garoto mesmo, e depois que ela já estava
se sentindo melhor, não demorou a partir, recusando que Anthony a
acompanhasse. O garoto ainda sorria consigo mesmo quando voltou para a
esquina, onde Rebecca ainda estava sentada a vontade.
-Pela sua cara de felicidade parece que reataram – sorriu-lhe a menina,
estendendo a mão para que Anthony lhe ajudasse a se erguer.
Anthony puxou-a para cima, rindo com animação – É, pode-se dizer que
estou mesmo feliz – concordou, voltando na direção de casa – Me sinto bem
melhor.
-Ela disse alguma coisa surpreendente? – perguntou Isabel, e pelo seu sorriso
enigmático, sabia o que estava fazendo.
-Na verdade não – respondeu o garoto, pensativo – Eu já sabia que ela
realmente se apaixonara por aquele outro cara... mesmo pelo pouco que
conheço dela, Isabel jamais ia sair com alguém sem um propósito. E se ela
realmente gosta dele...
-Mas você não gostava dela?
-Ainda gosto – retrucou o garoto, firme – Mas não posso dizer que a amo.
Talvez minha irritação e mágoa fosse porque eu mesmo estava me forçando a
sentir assim, como se devesse aparentar estar profundamente apaixonado por
ela.
-Entendo – sorriu Isabel, as mãos atrás da cabeça – E agora, como fica?
Anthony riu, entrando pelo portão de casa.
-Fica que ainda temos uma pizza para comer!

Mesmo tendo dormido no chão por ceder a cama a Rebecca, mesmo


chegando atrasado na escola porque fora leva-la na estação, mesmo assim,
Anthony se sentia muitíssimo bem. Assim que o sinal do intervalo tocou,

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virou-se para Kyle, despejando sobre ele os acontecimentos da noite,


enquanto a sala de aula esvaziava.
-E seus pais não disseram nada? – estranhou Kyle, o rosto mais sério que o de
sempre.
Anthony negou com a cabeça – E ninguém veio me perguntar nada essa
manhã. Talvez minha mãe me mate depois da escola, quando não tiver
testemunhas, mas ela provavelmente vai pensar na hipótese de que já
engravidei a Rebecca, ai um neto sem pai é muito pior.
-Por favor, nem pense nisso – suspirou Kyle, deitando a cabeça sobre a classe
– Ei, Lisa vai embora.
Anthony piscou com surpresa – “A” Lisa? A Lisa que conhecemos no
consultório da Clara?
-Eu não sei você, mas ela é a única Lisa que conheço – resmungou Kyle um
tanto irritado – Clara disse que ela foi aceita em uma universidade renomada,
por causa das suas ótimas referências... E ela vai embora com certeza.
-Bem, isso explica aquela tensão de ontem – murmurou Anthony, pensativo –
Vamos fazer alguma coisa por ela?
-Clara acha que devemos fazer um jantar – continuou o garoto, a voz
morrendo aos poucos – Ei, Anthony...
-Ahm?
-Como vai ser quando eu sair da escola? – a voz de Kyle quase sem podia ser
ouvida – Prometi a Clara que faria faculdade, mas... Como vai ficar se eu for
embora?

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19. Capítulo 19 - Deixe de se


importar

Capítulo 19 - Deixe de se importar


Do mesmo modo de sempre, os encontros no consultório da Doutor Amor
seguiram um após o outro, e na medida que se aproximava o fim daquela
sucessão de happy hours, mais Kyle tinha a certeza de que a garota sabia que
tudo aquilo era relevante. O fim seria homenageado com uma fantástica ida a
praia naquele fim de semana que começava na noite de sexta mesmo, com a
festa para Lisa, que voltava da sua inscrição na faculdade.
-Ne, Anthony, Clara deve saber que só precisamos de algumas palavras
encorajadoras, não é mesmo? – murmurou o garoto, o rosto achatado contra a
escrivaninha do quarto do amigo – Anthony... Anthony? Você pelo menos
está ouvindo?
-Não – respondeu o amigo com um sorriso debochado – É claro que estou
ouvindo, idiota, mas nem mesmo tive tempo de pensar no que disse. Eu acho
que Clara é uma pessoa fria e calculista, oportunista até o último fio de
cabelo. E Karineee com certeza é sua cúmplice, porque aquela animação toda
não é normal.
Kyle continuou calado, demorando mais alguns segundos para perceber que o
que ele falara era repleto de ironia. Revirou os olhos, bufando com irritação,
fazendo com que Anthony rolasse de rir, já pronto para saírem.
-Eu sei que nenhum de nós esperava que ela apontasse uma pessoa
desconhecida e dissesse “ei, você sai com essa garota”. Ou você esperava? –
riu Anthony, saindo do quarto.
Kyle se ergueu sem muita vontade e seguiu o amigo para fora, lançando um
olhar interessado pela casa escura e vazia. Os pais de Anthony eram pessoas
estranhas, mas pelo menos haviam parado de chateá-lo por tudo; na verdade
nem sobre Rebecca haviam perguntado.
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-Você acha que Lisa e André já se resolveram? – comentou Anthony – Acho


que eles se dão bem demais para que não encontrem uma maneira de
continuarem juntos. Estou torcendo para que eles fiquem juntos... Você não
quer que ele fiquem juntos? Hein, Kyle?
-Eu acho que eles tem vontade própria – Kyle não conseguia segurar o riso
depois daquela explosão de Anthony, como se estivesse na verdade falando
de uma novela – Mas por falar em ficarem juntos, Rebecca também vai?
Anthony concordou com um único aceno, sorrindo animado – Ela já avisou
Sam de que esse final de semana vai ficar com ela.
-Que bom que ela lembrou de avisar dessa vez – Kyle empurrou o amigo com
o ombro, os dois batendo forte contra a parede do corredor – Ou você queria
que ela dormisse por aqui?
-Mas é claro! – riu Anthony – Conhece outra garota que aceita virar a noite
jogando?
-Ficaram mesmo jogando? – Kyle ria com vontade, adorando o rosto
vermelho do amigo.
De repente a porta de um quarto foi aberta e a mãe de Anthony apareceu,
calada e séria, encarando-os do seu modo assustador. O coração de Kyle batia
tão rápido que achou que fosse enfartar, mas Anthony teve sangue frio
suficiente para puxa-lo pelo braço, levando-o escada a baixo.
ApresSamm os passos para fora, pasSamm pela porta, pelo portão, e se
afastaram calados até a esquina, onde como se recebessem um sinal,
desandaram a gargalhar até que o ar faltasse.
-Achei que fosse morrer! –exclamou Kyle, apoiado no muro de uma casa,
tentando se manter em pé.
-Você? – ria Anthony – Vi minha vida toda passar diante dos meus olhos!
-Se quiser posso dormir na sua casa depois – propôs o amigo, secando as
lágrimas que escorriam por causa das risadas – Sei que sua mãe não vai tentar
mata-lo enquanto houver testemunhas...
-Obrigado, você é um grande amigo mesmo...
E finalmente continuaram o caminho até aquele lugar de malucos. Como

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esperado, o consultório de Clara estava tomado de balões, mais corações,


velas coloridas, fitas brilhantes e doces e salgados de todos os tipos, assim
como um ponche de um aroma fascinante.
-Ei, se soubesse que Clara faria uma festa de despedida dessas... – Anthony
empurrou o amigo para dentro, de cara percebendo a figura pouco animada
de Karineee, sentada sobre a escrivaninha da recepção – Ei, Karineee! Vai
tocar alguma coisa hoje?
Karineee piscou sem mudar sua expressão de tédio – Tenho carta branca para
tocar vocês para fora se não se comportarem...
-É por isso que você tem meu coração! – exclamou Anthony, saltitando na
direção do grupo em frente – Lisa!... Ei, cadê a Lisa?
Clara terminou de arrumar os brigadeiros sobre uma mesa e se voltou para os
garotos – Não, ela ainda não chegou. Na verdade ela e André.
-Será que eles não vem? – assustou-se Anthony, fazendo uma cara de pavor
forçada.
-Vamos aproveitar da mesma forma! – exclamou uma voz estridente e
conhecida.
Anthony se voltou para a porta bem a tempo de ver o punho de Rebecca na
sua direção. A garota o acertou no ombro, fazendo-o se encolher.
-Baaaka! É claro que eles vem – riu a menina, jogando os cabelos laranja
para o lado –Ninguém falta a sua própria festa!
Sam apareceu logo depois da amiga, seguida de perto por John.
-Olá – disse a garota, sorrindo – Anthony, obrigado por deixar Rebecca vir.
Prometo que ela não vai abusar de você dessa vez...
Todos riram, até mesmos os alvos do comentário e o taciturno John.
Sam é uma garota tímida... mas John consegue ser mais. Concluiu Kyle,
olhando de relance para sua namorada sorridente. Esse pensamento inocente
foi o suficiente para deixa-lo completamente vermelho, mas ninguém parecia
muito interessado no seu nervosismo.
A porta da frente foi aberta e o casal mais animado dali apareceu com seus
melhores sorrisos, como se agora estivesse tudo bem.
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-Ah, que lindo! – sorriu Lisa, maravilhada com a decoração.


-Nossa, pessoal, obrigado por isso! – concordou André, a mão pousada na
cintura da eterna namorada.
Mesmo que fiquem separados, creio que ainda vão ficar bem. André é
corajoso... diferente de mim. Era involuntário; tinha dito a Clara que não
pensasse mais nas possibilidades ruins, mas era somente uma dúvida
aparecer, sua própria cabeça ficava cheia de perguntas.
-E então? – indagou Clara, sorrindo para ambos – Como foi o dia de
inscrição? Parece que uma coisa muito boa aconteceu por lá...
-Sim! – exclamou Lisa.
-Sim – concordou André, segurando-a contra si – Eu vou com ela.
Os olhares surpresos se iluminaram com alegria, e o casal comemorava
principalmente por poder contar com aqueles amigos especiais que torciam
tanto por eles. A noite estava só começando, o fim de semana prometia, e
agora tinham ainda mais motivos para comemorar.

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20. Capítulo 20 - Mar

Capítulo 20 - Mar
Passava da meia noite quando Clara e os outros se puseram a recolher toda
bagunça que tinham feito. Karineee, ajudada por John, levavam as mochilas
dos garotos para a van vermelho vinho estacionada do outro lado da rua, já
que cada segundo contava naquele fim de semana tão esperado.
-Não está muito cansada para dirigir? – indagou Kyle, ajudando Clara a
guardar os restos de comida na geladeira – Sei bem que você encontrou um
trabalho de meio período como fotógrafa...
Kyle ficara sabendo por acidente, ao passar justamente naquele estúdio onde
a garota começara a trabalhar naquela semana. Clara também não planejara
contar as novidades tão cedo, pega de surpresa; mas com sua maestria de
sempre, sorriu e piscou para o garoto, como se tivesse tudo planejado desde
sempre.
-É um bom lugar – disse apenas – Karineee me ajuda bastante... mas
praticamente dependo dela. Não é uma coisa muito justa. Quanto a dirigir,
vamos fazer dois turnos, não se preocupe.
-Nessas horas desejaria ser um pouco mais velho – murmurou o garoto
timidamente, terminando se guardar as coisas, agachado ao lado de Clara.
A garota se inclinou na sua direção, beijando-o na testa com carinho – Eu não
desejaria que fosse se outra forma.
Kyle sentiu o rosto ficar imediatamente vermelho e muito quente, mas pelo
menos já era uma sensação conhecida. Aceitou quando Clara lhe estendeu a
mão, ajudando-o a se erguer, e saíram de mãos dadas, tampouco ligando para
os olhares interessados – pelo menos naquele momento, em que ainda estava
entorpecido com a presença dela.
Silenciosos como conseguiam se aguentar, Rebecca e Anthony trocando
cotoveladas e muxoxos, saíram para a rua, agradecendo que nenhum vizinho

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tivesse reclamado da movimentação tardia. Foi quando Karineee enterrou a


mão na buzina, observando-os com apatia, um pirulito preso entre os lábios.
-Para! – sussurrou Clara entre risos, correndo até a amiga – Vão chamar a
polícia!
Os outros correram com pressa, as risadas já podendo ser ouvidas com
normalidade. Karineee apenas suspirou e saltou para o banco do carona,
liberando o lugar para a mais velha. Os outros de enfiaram nos bancos de
trás, cada qual mais risonho e animado. Lisa e André ficaram nos fundos, os
dois cansados demais para continuar participando da festa, o que os amigos
entendiam perfeitamente. Rebecca se sentou ao lado de Sam e John, numa
posição bem estratégica para que pudesse chatear Anthony a viagem toda,
sentado a sua frente.
Com a cabeça colada no vidro, Kyle se pegou imaginando se Clara não
poderia se sentar ao seu lado. Mas seria sempre assim, ela faria as coisas que
ele ainda não conseguisse. Esse pensamento as vezes o deixava deprimido,
mas lentamente ia tentando se acostumar com aquilo. Não era tão difícil com
Clara por perto. Ele dissera que tinha que ficar perto da garota para que ela
não pensasse besteira, mas isso servia para ele também.
Quando estava ao lado dela, sentia que podia resolver tudo, que aquelas
inquietações não eram nada demais. Clara lançou um último olhar para trás e
sorriu com vontade, piscando um olho para o garoto.
Da viagem, Kyle tinha vaga recordação de Anthony e Rebecca brigando para
jogar o psp que um deles trouxera, e ocasionalmente Sam mandando-os calar
a boca. Depois, em algum momento daquilo, quando o sono era pesado
demais, pararam no acostamento e Clara saiu do volante, trocando com
Karineee.
É mesmo, ela tem que descansar. Kyle já estava quase adormecendo
novamente quando a van voltou a se movimentar. Não teve sonhos naquela
noite estranha, mas se sentia invadido por um perfume adocicado que gostava
muito; tinha impressão que toda vez que inspirava, sua intensidade
aumentava, cada vez mais real.
Abriu os olhos de chofre, a claridade da manhã, mesmo que o sol ainda não
tivesse surgido, deixando-o em alerta. Em algum momento, tombara a cabeça
para o outro lado, ou talvez tivesse sido guiado até ali, e agora repousava
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contra o ombro de Clara, a cabeça da garota escorada na sua. Era o cheiro


dela que sentia o tempo todo, e esse pensamento era suficiente para faze-lo
queimar de vergonha. Moveu levemente a cabeça, procurando por Anthony.
O garoto adormecera ao lado de Karineee, no banco da frente, e esta dirigia
tranquilamente, uma dezena de pauzinhos de pirulitos amontoados perto do
volante.
Anthony nunca mais vai me deixar em paz. Provavelmente vai se sentir no
direito de me cobrar isso, como um favor... Mas também sorria. Ele era um
bom amigo, mesmo que oportunista.
De repente a estrada fez uma curva, saindo de entre as paredes de pedra que
cercavam o caminho, a visão do oceano preencheu toda a paisagem, como
um suspiro no meio do caos. Kyle inspirou profundamente, se movendo sem
querer. Clara abriu os olhos devagar, fitando seu rosto com interesse; o
garoto corou mais ainda, mas conseguiu sorrir.
-Bom dia – disse, e sentiu que desejava pode dizer aquilo para o resto da
vida, todos os dias quando ela abrisse os olhos; queria ser a pessoa que
desejaria do fundo do coração que aquele fosse o melhor dia, sempre e
sempre – O oceano, Clara.
A garota abriu ainda mais os olhos, o brilho de uma excitação infantil
tomando conta do seu rosto; sentou-se ereta e fitou o mar demoradamente,
tempo em que os outros começaram a acordar com a claridade natural.
Exclamações de alegria eram ouvidas enquanto se aproximavam de praia de
areia clara, a velocidade diminuindo aos poucos. Karineee parou a van ao
longo da calçada e Clara abriu a porta logo em seguida, um vento frio
fazendo-os se encolher. Não eram nem seis horas da manhã, o sono os
deixava com caras engraçadas, o frio era maior do que esperavam, mas
sorriam feito bobos.
Lisa e André se amontoavam sobre Sam e John, Rebecca sentada na porta,
ainda bocejando. Anthony estava na janela do banco da frente e Karineee
observava tudo com seu jeito calmo. Ali sentado com aqueles malucos, Kyle
se sentia mesmo feliz. Sentiu seus dedos serem apertados de leve, erguendo
os olhos para a garota que amava mais do que achava ser possível; Clara
continuava voltada para o mar, seus cabelos balançando suavemente com o
vento.

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Estava mesmo feliz de estar ali.


Num movimento súbito, Clara se virou e selou os lábios do garoto com um
beijo angustiado, a necessidade de poder toca-lo surpreendendo a ambos. O
sol nascia sobre o mar, arrancando suspiros e exclamações admiradas; para
Kyle, seu próprio sol havia surgido.

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21. Capítulo 21 - No Chalé

Capítulo 21 - No Chalé
Karineee ligou o rádio inesperadamente, a música Don’t be Cruel de Elvis
Presley fazendo-os rir. Clara se recostou no banco, mexendo os dedos no
ritmo da música animada.
-Que rádio é essa? – estranhou Anthony, encarando Karineee com
curiosidade, mas ele simplesmente deu de ombros.
Kyle continuou imóvel, ainda sem respirar, indiferente aos comentários
animados que continuavam quando a van voltou a se mover, seguindo na
direção da pequena cidade costeira onde Karineee e o irmão tinham um chalé.
-Vem cá, Karineee... seus pais são ricos ou alguma coisa assim? – murmurou
Anthony, se inclinando na direção dela.
Atrás de Clara, Rebecca percebeu a conversa e se escorou no banco da frente,
quase sobre a outra garota, toda interessada.
-Alguma coisa assim – concordou Karineee, sem dar mais sinais de que
falaria.
Anthony lançou um olhar para sua cúmplice que já sorria abertamente, mil
planos sendo passados por telepatia naquele momento.
A cidadezinha ainda dormia tranquila, principalmente porque aquele não era
um período de veraneio, mas felizmente o único supermercado já estava
abrindo as portas. Desderam todos os nove, correndo pegar dois carrinhos de
super mercado, dividindo o grupo. Anthony, Rebecca, Sam e John estavam
encarregados dos produtos de higiene e limpeza, assim como as bebidas. O
restante tinha que dar conta da comida necessária para o final de semana.
-Né, podemos comprar batata frita? – indagou Lisa, debruçada dentro do
freezer aberto.
-Mas não sai mais em conta comprarmos as batatas? – comentou André,
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abraçando a namorada, fazendo-a gargalhar.


-Economia doméstica não é mesmo o meu forte – riu a menina, arrastando
André na direção da batata.
-Karineee, o que acha de comprarmos repolhos? – comentou Clara, pensativa,
inconscientemente.
A outra garota concordou com um aceno, escolhendo várias opções de pão;
Clara seguiu para o lado de Kyle que ainda estava concentrado escolhendo
opções de macarrão instantâneo.
-Não consegue escolher? – riu a menina, parando ao lado dele.
-Na verdade estou verificando os preços – respondeu o garoto com
tranquilidade – Como o tempero é muito forte, vamos fazer um molho para
comer com o macarrão, então não muda muito.
Clara se jogou sobre o garoto, abraçando-o pelos ombros, rindo feliz – Você
é mesmo muito responsável, Kyle!
O garoto sentiu o rosto esquentar, os olhos correndo ao redor, mas não a
afastou, deixando-a dependurada nos seus ombros.
-Aprendi alguma coisa com minha mãe – disse sem jeito; de repente teve uma
ideia, esquecendo-se que estava completamente envergonhado – Ei, você tem
que conhece-las! Minha mãe e minha irmã...
Clara sorriu de modo indecifrável, aconchegando o rosto no ombro do garoto
– Isso é bom, não é...
-Parece que estamos casados! – riu Kyle, mas se encolheu em seguida, toda
sua pouca desinibição desaparecendo num piscar de olhos.
Mas Clara riu com vontade, ainda mais animada – Parece sim!
Karineee voltou com os pães, passando por eles com o carrinho. Kyle e Clara
se entreolharam, surpresos, se lançando na direção do macarrão instantâneo
antes que ela se fosse; encheram os braços com os pacotes e largaram no
carrinho de supermercado, rindo com a cara séria de Karineee.
Voltaram a se reunir no caixa e dividiram os custos, seguindo com as
compras para a van. Dali seguiram rapidamente para o chalé de frente para o
mar. Guardaram as compras – alguns deles, porque Rebecca e Anthony
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estava vistoriando as camas nos quartos de portas venezianas que levavam


diretamente para a areia da praia.
-Vamos comer alguma coisa e ir tomar um banho? – sugeriu Lisa,
empoleirada na bancada, descascando laranjas suculentas.
André se inclinou na direção da garota e a beijou rapidamente, roubando a
laranja das suas mãos.
-Obrigado – disse descaradamente.
-É para o suco! – protestou a menina, fitando-o com um olhar feroz.
John mostrou suas habilidades na cozinha, preparando panquecas de massa
doce que Clara jogava na frigideira com uma facilidade inesperada. Comeram
rapidamente e as meninas foram por seus biquínis, deixando os garotos na
sala com seus calções de banho e suas cores apáticas.
-Algo me diz que não temos criatividade para calções – comentou André,
contando três bermudas pretas.
Kyle suspirou, pronto para falar de Anthony, e enfim percebendo que ele não
estava ali. Seguiu devagar para o quarto, surpreendendo-se com a cena um
tanto inesperada. Rebecca e Anthony estava estirados em uma das camas
perto da varanda, os pés dependurados para fora por estarem na horizontal,
ambos em sono profundo.
Bem, pasSamm a madrugada jogando...
Voltou para a sala, negando com a cabeça para os olhares interessados que
recebeu. Lisa apareceu saltitando, metida em um biquíni cor de rosa cheio de
babados, um pouco a frente de Sam e seu maio preto discreto. Karineee
parecia uma super modelo, seu biquíni com estampa de flores verdes e pedras
douradas, uma canga em tons pastel contrastando de modo elegante. E Clara,
é claro que usando um shorts jeans e um moletom largo.
Kyle sorriu abertamente, maravilhado com aquela garota. Ela era exatamente
o que precisava. Seguiu para o seu lado, sem perceber que Kyle a fitava
demoradamente e se surpreendeu quando ele enterrou um boné colorido na
sua cabeça, beijando-a rapidamente.
Lisa abriu a boca para expressar sua surpresa, mas André pousou uma mão
em seu ombro, piscando significativamente para a namorada. Os outros, se
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estavam tão surpresos como ela, conseguiram não aparentar.


-Praaaaaia! – bradou a mesma Lisa, quando achou que o silêncio era demais,
e correu para fora.
Sam e André correram atrás dela, seguidos de perto por Clara e Kyle, e logo
depois Karineee e John, que mesmo calado sorria de modo tranquilo.

Rebecca virou-se para deitar de bruços e rolou para fora da cama, caindo
pesadamente. Anthony se sentou com cara de sono, olhando ao redor,
confuso. Quando a menina se ergueu, os cabelos completamente embolados,
o mau humor de quem acabara de acordar do pior jeito possível, levou mais
alguns segundos para compreender o que tinha acontecido.
-O que está fazendo no chão?
Rebecca meneou a cabeça – Ah, você sabe né... Tirando um cochilo.
Anthony concordou um aceno, se erguendo, ainda um tanto zonzo; ajudou
Rebecca a se erguer, seguindo para a sala; pela varanda daquele cômodo,
viam ao longe um grupo conhecido, correndo na beira da praia.
-Né, eles foram sem a gente – resmungou a menina, não exatamente
aborrecida.
-Quer ir também? – indagou Anthony, observando-a com um sorriso bobo.
-Não, o sol está muito quente – retorquiu a menina, virando-se para encara-lo
com um sorriso animado – Vamos fazer algo especial!
-Tipo o que? – estranhou Anthony, afastando-se inconscientemente.
-Yakisoba!

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22. Capítulo 22 - Uma Noite sem


estrelas

Capítulo 22 - Uma Noite sem estrelas


O que poderia ser considerado um grande aprendizado naquele fim de
semana? Definitivamente Rebecca não sabia cozinhar, mas Anthony tinha
neurônios suficientes para tornar um desastre num almoço vegetariano digno
de capa de revista. Clara se queimava com facilidade, portanto jamais deveria
sair de casa de protetor solar; Kyle por seu lado, descobriu que um dos mais
singelos prazeres da vida é passar creme nas costas da garota por quem está
apaixonado.
Lisa e André pareciam um casal em lua de mel, e seus planos futuros
chegavam a dar enjoos de tão melosos e cheios de flores. Mesmo que as aulas
da faculdades fossem ser cansativas e mais difíceis do que o ano que ambos
estavam terminando, não tinham mais receios do futuro; tudo que
enxergavam parecia envolto na aura da prosperidade.
A tarde correu com tranquilidade e mais banhos de mar – Kyle agora
encarregado de levar o protetor solar – e quando a noite chegou, jantaram a
beira de uma fogueira na praia, uma música suave embalando as risadas que
ecoavam na noite deserta. O céu sem lua parecia sombrio, o mar rugia com
ferocidade, mas estavam bem. Mesmo que um vento frio soprasse com força,
ninguém tinha vontade de entrar.
Karineee obviamente não sabia o que significava menor de idade,
presenteando-os com batidas de limão e morango regadas a algo que a
garganta inexperiente de Kyle não conseguia identificar.
-Apenas uma – avisou Clara, fitando todos eles com seriedade; sorriu em
seguida, erguendo seu copo – Portanto aproveitem!
O primeiro gole era estranho; a doçura do leite condensado e do morango
desaparecendo sob um líquido muito forte que queimava toda boca conforme
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desciam pela garganta.


-Está forte demais? – riu Clara, inclinando-se na direção do garoto,
verdadeiramente preocupada.
Kyle apenas negou com a cabeça, sentindo o rosto esquentar. Tomou mais
um gole, acostumando-se aos poucos com o gosto improvável. Rebecca e
Anthony eram o que se poderia chamar de companheiros de copo, e seriam
bêbados incrivelmente divertidos, se Clara não tivesse dado limite para as
bebidas.
Também foi depois desse copo e muitas risadas, quando já haviam comidos
batatas assadas e refrigerante, que Sam se espreguiçou sorrindo, e
inconscientemente fez todos olharem para ela. Aquela expressão calma,
quase como se estivesse se divertindo de algo que só ela soubesse, não era
natural dela, e por si só era algo para ser notado.
-Achei que era hora de vocês saberem, já que acabamos contando tudo uns
aos outros – disse com um olhar doce que passou por todos os presentes,
demorando-se alguns segundos em John – Eu e John não estamos juntos.
-Aaah! – exclamou Lisa, quase saltando em pé – Como assim?
Sam riu um tanto, dando de ombros – Assim como você deve imaginar que é
– disse sem extinguir seu sorriso – Simplesmente não estamos namorando.
Para nós não muda nada realmente, mas achei que deveriam saber.
Involuntariamente os olhares de voltaram para John, e para surpresa geral, ele
desandou a rir! Ria as gargalhadas, se divertindo com as expressões confusas
e um tanto desanimadas.
-Qual a graça? – resmungou Rebecca, olhando ao redor sem entender.
John secou as lágrimas que escorriam pelos olhos sem controle – Vocês!
Nunca vi uma notícia irrelevante como essa deixar um grupo tão abatido! –
apontou para Sam, agora um pouco mais sério – Não estamos deixando vocês
nem nada, ainda somos amigos e acho que sempre fomos somente isso. Estou
realmente feliz por ter entrado naquele consultório estranho naquele primeiro
dia.
Clara sorriu e pegou a mão de Kyle, ainda conseguindo surpreender o garoto.
Os olhares ainda estavam sobre Sam e John, a conversa voltava aos poucos, e

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de algum modo ele entendia a necessidade dela. Se ergueu sem chamar mais
atenção do que o normal, e rumou para a casa que se erguia graciosa entre as
dunas.
Karineee prontamente tirou seu violão do estojo e começou a tocar junto com
a música que vinha do rádio, seguida de imediato pela voz alegre de Rebecca,
fazendo as vezes de vocalista. Anthony riu, imitando o som de uma guitarra
desafinada.
-Acabou com a música! – riu André, jogando-se na direção do garoto.
Lisa riu e começou a fazer o som da bateria, quase rolando de rir. André
bufou audivelmente, começando a fazer a segunda voz para Rebecca. A
verdade é que riam mais do que conseguiam cantar, suas vozes podiam ser
ouvidas na imensidão da noite que se alongava aos poucos, prometendo uma
madrugada tranquila.
Eles nem mesmo perceberam quando Clara saiu do seu lugar, rumando
silenciosa para a casa onde Kyle já a esperava. Seus pés afundavam na areia
seca, deixando depois um rastro na madeira da varanda. A casa escura a
recebeu com calma, seus passos fazendo o assoalho ranger.
Tinha quase certeza de onde o garoto estava, e realmente conseguiu encontra-
lo logo, sentado na outra varanda que dava vista para a imensidão das dunas,
os cotovelos fincados nos joelhos, a cabeça sobre as mãos. Parecia sério
demais naquela penumbra, encarando um horizonte desconhecido.
Clara sorriu e atravessou a pouca distância entre eles com dois passos, se
jogando ao lado do garoto; Kyle talvez não estivesse tão distraído assim
porque nem mesmo pareceu surpreso.
-Parece muito sério – observou a garota, fitando-o abertamente.
Kyle se encolheu, mas com a pouca luz era impossível dizer se seu rosto
estava novamente corado – Desculpe, não quis parecer assim. Só estava
pensando... em nada, em particular.
Deitou as costas contra o encosto do sofá de palha trançada, fazendo sinal
para Clara se deitar. A garota enrolou os cabelos com os dedos, deitando-se
nas pernas de Kyle, os olhos erguidos para o rosto do garoto.
Mesmo que não admitisse, alguma coisa incomodava seus pensamentos.

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-Eu venci – disse Clara a sua maneira solene.


Kyle encarou-a sem entender – Venceu o que?
-Disse que isso iria acontecer – continuou com tranquilidade – Disse que em
um mês estaria completamente apaixonado e até sua maneira de pensar e ver
o mundo mudariam.
Kyle sorriu sem jeito – Não está se vangloriando demais, senhorita Clara?
Clara piscou, sorrindo – Mas eu sei que é exatamente assim. E não tenho
vergonha nenhuma em dizer que comigo acontece da mesma forma. Pode
parecer imaturo e fraco da minha parte, ainda mais quando tento unir pessoas
que nem se conhecem direito, mas havia jurado que nunca mais me
apaixonaria.
-Nunca mais? – murmurou Kyle, engolindo em seco – Ainda bem que mudou
de ideia...
Clara estendeu as duas mãos na direção do rosto do garoto, enterrando seus
dedos nos cabelos negros dele; arqueou o corpo com sua própria força
aproximando seus rostos até que pudesse tocar aquela boca que tanto
necessitava.
-Foi você – murmurou contra os lábios do garoto – Foi você quem me fez
mudar de ideia.

Os olhos de Clara estavam quase fechados, uma manta de lã sobre os dois


que corajosamente haviam recusado sair daquela varanda, aconchegados no
sofá de palha.
-Você disse que iria fazer faculdade se eu quisesse – disse Clara com a voz já
pastosa pelo sono – Foi da boca pra fora?
Kyle meneou a cabeça – Não, eu quero mesmo fazer faculdade.
Clara bocejou com vontade, enterrando o rosto no peito do garoto.
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-Já pensou em que?


Kyle fitou o teto por alguns instantes, como se fosse tomar coragem para
falar – De cinema.
Clara riu contra sua camiseta, o hálito quente dela fazendo seu coração
disparar.
-Acho que seria incrível – disse ela – Com toda sua sensibilidade, não tenho
dúvidas de que vai se tornar um diretor incrível.
Kyle ainda não havia decidido exatamente o que gostaria de fazer dentro do
cinema, mas ver Clara animada com aquilo fazia parecer muito certo.
-Pena que minha mãe não pense desse jeito – disse com uma nota de tristeza
– Ela diz que isso é coisa de criança, que não sei como a vida é difícil. Diz
que não vou ganhar dinheiro suficiente e depois vou me arrepender de não ter
estudado para algo mais sério.
Clara esfregou o rosto como um bichinho, sorrindo com ternura, os olhos
fechados pelo sono – Para mim, as mães são como o primeiro obstáculo na
nossa vida. É como se fosse obrigação delas impor uma dificuldade no nosso
caminho, algo como “se esse garota não passa nem por mim, como pode
esperar fazer algo sozinho?”. É o trabalho delas nos obrigar a lutar.
-É uma forma única e incrível de ver as coisas – observou Kyle,
verdadeiramente surpreso – Mas acho que você fala por experiência própria,
não é mesmo?
-Só consegui sair de casa com vinte e um anos – murmurou a garota, sem se
abater – Não tinha medo de ficar sozinha, mas não tinha coragem de
abandonar aquela mulher. Me sentia culpada. Mas chegou um momento em
que teria que sair ou nunca mais falaria com ela.
-E o que aconteceu?
-Passei dois anos trabalhando dezesseis horas por dia, só para não ter que
aceitar a derrota e voltar – sentenciou, abrindo os olhos para encara-lo – Vale
a pena quando sabemos o que mais desejamos. Eu queria poder fazer minhas
escolhas excêntricas sem ser alvo de reprovação o tempo todo. E você o que
quer? Tem que começar por ai...
-O que eu quero? – murmurou Kyle para si mesmo, ajeitando-se melhor
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contra o sofá.
Aquilo não era muito fácil de responder. E quando achou que tinha
encontrado uma resposta para Clara, ela já estava dormindo.
Tudo bem, a resposta não era para ela. Ela sabe... sou eu quem deve saber.

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23. Capítulo 23 - Coragem e aliados

Capítulo 23 - Coragem e aliados


O que mais foi aprendido naquele fim de semana incrível? Karineee tinha a
maior lista de telefones de desconhecidos que alguém já tivera a chance de
ver.
-C-como mesmo você conseguiu esses números? – murmurou Kyle, contendo
a vontade imensa de rir.
Karineee coçou a cabeça com displicência, um dos pés descansando sobre o
painel do carro, Clara dirigindo ao seu lado.
-Hum, teve um estranho que me deu um cartão quando estávamos no
supermercado... um garoto que me passou seu número de celular no
estacionamento... um senhor na praia... ah e um menino quando fui comprar
espigas de milho! – disse ao seu modo apático – Acho que queriam que eu
ligasse, mas ia ser muito cansativo...
-Você não precisava ligar para todos – comentou André, ainda chocado.
Anthony parecia maravilhado com aquela história – Agradeço que Karineee
não seja homem. Imagina se ela nascesse com esse mesmo fascínio absurdo.
Não ia sobrar garota nenhuma pra gente!
-Falou o cara que pega todas – riu Rebecca com um sorriso cínico.
-E você! Só pegaria alguém se fosse treinadora Pokémon! – rebateu o garoto
com raiva, fazendo todos rirem as gargalhadas.
Apenas Rebecca permaneceu calada, o mesmo sorriso de superioridade –
Pelo menos ainda teria essa opção, diferente de algumas pessoas...
E a risada foi geral, deixando Anthony ainda mais mal humorado.
A tarde de domingo chegava logo ao fim, um por do sol parcialmente
nublado presenteando-os com uma paisagem bonita que não haviam podido
apreciar na ida. Quando finalmente voltaram para a cidade, Clara distribuiu
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gradativamente os adolescentes, assim como Karineee.


-Vai voltar para casa? – indagou Anthony para sua terrível inimiga.
Rebecca fez uma careta – Ônibus só pela manhã, lembra?
-Não ia ficar na casa da Sam? – insistiu o garoto, tentando não parecer
ansioso demais.
Rebecca cruzou os braços sobre o peito enquanto Clara estacionava na frente
da casa do loirinho.
-Está me convidando para mais um super massacre no vídeo game? – riu,
apanhando sua própria mochila, Anthony saltando para a calçada.
-Massacre? Acho que não me lembro disso – Anthony jogou sua mochila nos
ombros e tomou a de Rebecca das suas mãos, correndo para o portão de casa.
-Ha, não lembra! – riu a garota, seguindo-o com uma risada debochada – Vou
te mostrar porque sou Rebecca8000.
Kyle deu um suspiro profundo, olhando finalmente ao redor. Restava
somente ele ali. Não sabia se saia dali e se sentava ao lado de Clara no banco
da frente, mas antes que conseguisse lidar com aquela situação
desesperadora, a van estava em movimento. Recostou a cabeça na janela e
continuou calado, um tanto cansado e enjoado.
-Né, você podia jantar lá em casa – murmurou a meia voz, os olhos perdidos
nos carros que passavam por eles, a cidade que mudava a cada metro.
Clara não respondeu de imediato, perdida nos seus próprios pensamentos por
tanto tempo que ele achou que ela não o escutara.
-Será que é uma boa ideia? – respondeu a garota, os dedos apertando o
volante com força – Tenho medo da reação da sua família. Eu sou muito...
-Mais velha – Kyle meneou a cabeça, quase irritado – Não acha que podemos
lidar com isso? Isso não importa para nós dois, então não quero que importe
para as outras pessoas. Mesmo minha mãe e minha irmã. Elas vão ter que
entender e aceitar de qualquer jeito.
Clara suspirou com cansaço, mas sorriu em seguida, voltando a sua animação
habitual – Então vamos lá! Vamos nos arriscar um pouquinho!

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Quando finalmente desceram em frente a casa do garoto, ambos estavam


mais tensos do que gostariam de admitir.
-Ela é sua mãe, não fique tão assustado – riu Clara, tentando disfarçar o
próprio nervosismo.
Kyle fez uma careta – E você é uma mulher feita, não deveria estar com
medo da minha mãe.
Os dois se entreolharam e desandaram a rir até que ficassem ofegantes,
apavorados com a ideia de passar pela porta da frente. Kyle secou as lágrimas
que se formaram no canto dos olhos, controlando o riso nervoso; estendeu a
mão para o rosto de Clara, se aproximando para beija-la.
-Não importa o que aconteça aqui, amo você incondicionalmente –
murmurou, colando seus lábios ao de Clara.
A porta da frente se abriu silenciosamente, a figura enérgica de Carlos
estacando quando viu aquilo.
-Katito!

Os dois se separam no mesmo segundo, apavorados e pálidos como se


tivessem sido pegos cometendo um crime hediondo, as respirações suspensas.
Carlos que estava encarando o irmão com o rosto surpreso, voltou-se para a
outra garota, os olhos se arregalando ainda mais.
Clara por seu lado sentiu o chão ceder sob seus pés, perdendo de vez
qualquer coragem que existisse até então.
Carlos meneou a cabeça, sorrindo abertamente – Por deus! Não podia
imaginar que fosse essa Clara!
Clara engoliu em seco, o coração descompassado; sentia a garganta seca e os
olhos embaçados, como se não tivesse mais forças para enxergar. Carlos
desceu os últimos degraus até onde eles permaneciam calados e petrificados,

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Kyle ainda tentando processar tudo.


-Se Kyle tivesse me dito exatamente quem era a adorada Clara, poderia ter
dito a ele – piscou um olho para a garota estática a sua frente; voltou-se para
o irmão, indiferente ao clima surreal – Nós fomos colegas na escola.
Kyle engoliu um verdadeiro bolo que se formara na garganta, as palavras
travando e se amontoando ali mesmo, dificultando a passagem de ar. Clara
inconscientemente se encolheu, a sensação de que iria começar a chorar.
Isso é pior do que eu pensava! Kyle sentia-se afundar num mar de perguntas
e acusações que com certeza surgiriam de todos os lados. Carlos e Clara
eram colegas! Elas tem a mesma idade! Carlos com certeza não vai apoiar
isso... Se elas pelo menos não se conhecessem, se elas...
-Ah, pelo amor dos deuses do RPG – Carlos revirou os olhos, quase chocada
com aquele silêncio todo – Não façam essas caras. Eu disse que fomos
colegas, não que era velha demais para você! Não ponham palavras na minha
boca.
Kyle piscou, recuperando-se momentaneamente do torpor – O que disse?
Você não vê problemas nisso?
Carlos fez uma cara de horror tão forçada que era hilária – O que posso
fazer? Meu pobre irmãozinho caiu nas garras de uma mulher mais velha! –
revirou os olhos mais uma vez – Me poupe, Katito, você sabe muito bem
cuidar de si mesmo. Quanto a Clara, não acredito que ela possa estar
interessada em... no seu... dinheiro? Ah, esqueci, você não tem nenhum! –
fingiu pensar mais um pouco, muito séria – Ah, sim, ela pode estar se
divertindo com um carinha mais novo e lindo... mas não. Vamos e viemos, se
ela quisesse podia estar com alguém mais a altura, irmãozinho.
Bateu de leve no alto da cabeça do garoto, frisando a pouca altura que ele
ainda tinha. Ele estava realmente irritado agora; se ela queria deixa-lo
animado definitivamente tinha escolhido as palavras erradas. Mas para sua
surpresa total, Clara começou a rir.
-Sim, você é definitivamente a Carlos que eu conheci!
Carlos abraçou a garota com vontade e assim permaneceram por alguns
instantes de feliz reencontro; quando Carlos finalmente se afastou um pouco,
sorria de modo doce para os dois.
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-Imagino que você queira falar com a mamãe – disse para o garoto,
recebendo um olhar desesperado em resposta – Vou ficar por perto. Alguém
tem que proteger a Clara.
Novamente não foram suas melhores palavras, Carlos...

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24. Capítulo 24 - Não direi adeus

Capítulo 24 - Não direi adeus


Kyle queria que pelo menos sua mãe largasse a faca de cozinha, mas ela
parecia indiferente a situação. Será que ela nem mesmo sentia a tensão que
emanava dele? Tinha certeza de que mãe nasciam com uma espécie de sexto
sentido para essas coisas... Será que ela não podia fazer o favor de descobrir a
história toda por si mesma e lhe poupar das explicações constrangedoras que
ele com certeza não conseguiria dar?
Apertou as mãos em punhos, a garganta seca e apertada. Se estivesse sozinho
nessa história, já teria dado meia volta e corrido para seu quarto, só voltando
mais tarde com um sorriso abatido que tentava dizer que não fora nada,
estava tudo bem. Afinal, quantas vezes já não dissera aquilo? Quantas coisas
deixara “para depois” com medo de falar, de impor sua vontade? Até mesmo
sobre a faculdade parara de falar! Afinal... não queria ter que ouvir mais uma
vez “isso é muito bonito, mas vai se sustentar como?”... Ouvir essas coisas
doía muito, ainda mais da boca daquela mulher que sempre lhe apoiava.
Mas agora era diferente. Havia alguém que iria lhe apoiar sempre. Tinha
certeza de que Clara provavelmente iria lhe apoiar nas decisões mais
esdruxulas e improváveis, simplesmente porque confiava nele. Talvez não
fosse a escolha mais sábia de Clara... Quem em sã consciência iria confiar
tanto num adolescente quem ainda não sabia nem metade do que era
necessário para não quebrar a cara na primeira dificuldade.
Como aquela...
Era exatamente por isso que era diferente. Porque aquela doida pirada estava
sentada na sua sala, esperando que ele tomasse as rédeas da sua vida. Era por
isso que dessa vez tinha coragem.
-Mãe... preciso falar uma coisa...

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Clara involuntariamente encolheu os ombros ao ouvir Kyle se pronunciar.


Não conseguia ouvir o que ele dizia, e até agradecia que fosse assim. Talvez
já tivesse infartado se pudesse acompanhar cada palavra. Carlos parecia
tranquila, empurrando-a com o ombro gentilmente, um sorriso bobo com os
olhos na direção da cozinha.
-Ei, agora ele deve ter dito que precisam conversar – sussurrou com uma nota
de divertimento na voz – Ela vai olhar para ele com uma cara
assustadoramente feliz, ele vai tomar coragem e falar... e então ela vai surtar!
Clara abriu a boca para questionar justamente aquele último comentário
preocupante, mas no mesmo instante ouviram a mulher começar a gritar.
-Ah, minha nossa – sussurrou a garota, mas Carlos apenas ria.

-Como assim? Mais velha? Você acha que pode namorar uma mulher mais
velha? Uma mulher? – a mãe de Kyle balançava a cabeça com vontade,
negando de todos os modos aquela ideia – E a escola? E seus planos? E a
faculdade? E...
A lista de coisas que Clara supostamente estava impedindo o garoto de ter
tinha vários itens interessantes, mas Kyle não ouviu mais nada depois da
“faculdade”. Não era Clara quem mais lhe dava apoio. Era justamente ela
quem mais queria que ele fizesse tudo aquilo.
-Não seja tão dramática mãe...
A mulher reagiu como se tivesse levado um soco, tamanha sua surpresa,
encarando-o com as feições tão iguais as do filho.
-Não estou sendo dramática, estou sendo realista – disse entredentes, agora

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muito mais assustadora – Você acha que sabe muita coisa, que sabe com o
que está lidando, mas ainda não sabe de nada! A mesma coisa com seus
sonhos bobos de futuro, onde tudo parece muito bonito, mas não tem ideia de
como os adultos sofrem!
-E como vou descobrir isso se você nem me deixa respirar? – bradou Kyle de
repente, a respiração irregular, suas costelas sumariamente esmagadas pelos
batimentos desenfreados.
Não queria chegar aquele ponto, não queria magoar sua mãe, porque no
fundo tudo que ela queria era protegê-lo, mas ele já estava pronto para lutar
suas próprias batalhas. Ele tinha que lutar.
-Me desculpe, mãe – disse mais calmo, finalmente conseguindo olha-la nos
olhos sem nenhum medo de ser repreendido – Me desculpe, mas amo aquela
mulher, e não vou mudar de ideia só porque não vai ser fácil.
Suspirou, voltando-se para a porta, um peso enorme tirado dos seus ombros,
mas se lembrou de algo, olhando para a mãe por cima do ombro.
-A propósito, vou fazer faculdade de cinema. Por que é isso que eu quero.
E seguiu com passos decididos para a sala de estar, onde estava o que ele
queria. A pessoa que podia acreditar nele mesmo quando não acreditava nem
em si mesma; a única pessoa louca o suficiente para amá-lo.
A mulher deixou que o filho saísse dali, seus pensamentos atormentando-a
porque em maior parte concordavam com ele. Era isso então, ele estava
crescendo. Não. Quem queria enganar? Seu filho já estava crescido. E mesmo
que estivesse tão furiosa que suas mãos tremiam, e jamais admitiria isso!,
estava orgulhosa dele. Era seu filho. Estava feliz que conseguisse se manter
tão firme em suas decisões, e nem sua presença aterradora e todo temor que
devia impor conseguiram demove-lo. De algum modo... seu trabalho estava
feito. Era uma boa mãe.
Ainda pensando sobre isso, se surpreendeu quando o garoto atravessou a
cozinha correndo a se jogou num abraço que não se repetia há bastante
tempo. Se agarrou a cintura da mãe, escondendo seu rosto no peito dela,
agora sim completamente aliviado. E mesmo que ela jamais fosse admitir, e
que ainda estivesse muito irritada, sorriu de canto, beijando o alto da cabeça
do garoto.
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-Seu tolo.

Rebecca se ajeitou na cadeira em frente a escrivaninha, e isso queria dizer


que uma das suas longas pernas estava dobrada contra o peito e a outra estava
escorada ao lado do monitor do computador, em sua pose mais confortável.
Ela estava massacrando uma equipe de patrulha que invadira seu território de
caça no jogo online onde conhecera Anthony, e a cada vez que ela ria
diabolicamente, Anthony se sentia nas nuvens.
Seus pais estavam propositalmente ignorando os dois, como se esse tipo de
tratamento pudesse fazer com que o garoto mudasse de ideia. Ou talvez eles
sentissem que estava tudo bem mesmo; quem sabe, uma vez naquela longa
vida cheia de mágoas e ressentimentos, eles finalmente tivessem se dado
conta de que o garoto tinha sentimentos e entendia tudo que acontecia ao seu
redor. Mas Anthony ainda não queria admitir que eles pudessem se importar
com ele; tudo que o machucava ainda era recente demais. É claro que ele ia
ouvir tudo que eles tinham a dizer, tal como um pedido de desculpas, e se
eles não quisessem lhe ouvir depois de tudo, não teria mais importância. Eles
não eram seres sobrenaturais que tomaram forma para cuidar dele; eram
simples humanos que por uma sucessão de péssimas escolhas, estavam
vivendo daquele jeito.
Anthony podia cuidar da sua vida, não das deles. E logo sua irmã descobriria
que tinha que ser feliz por conta própria. Ela descobriria. Todos um dia
descobrem.
-Você não está a fim de comer uma pizza com bastaaante queijo? – Rebecca
fez questão de enfatizar bem a parte que mais lhe interessava, lançando um
olhar significativo para o garoto, os dedos um instante suspensos acima do
teclado do computador.
Anthony se escorou nos braços, a cabeça um tanto jogada para trás com um
sorriso bobo nos lábios.

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-Acho que estou apaixonado – disse simplesmente.


-E eu tenho certeza de que estou com fome – retrucou Rebecca, encarando-o
com uma careta engraçada – O que tem a dizer sobre isso, Don Juan?
-Que minha futura esposa come muito – piscou um olho sem se importar com
o que ela disse, erguendo-se para procurar comida para sua “futura esposa”.
Antes de sair do quarto, beijou o alto da cabeça da menina, deixando-a
completamente atônita. Rebecca se recuperou em alguns segundos, antes
mesmo que ele tivesse chegado a porta do quarto.
-Não pense que pode me comprar com pizza – disse com uma irritação muito
suspeita – Não concordei com nada e nem vou. Para sua informação, eu não
namoro.
-Quer logo passar para o casamento? – riu Anthony, desviando de uma
almofada que voou na sua direção.
-Como eu disse, não concordei com nada – rosnou a menina, voltando a jogar
– Pizza não é o suficiente para me manter por perto.
Anthony meneou a cabeça, sorrindo enquanto saia dali, sua voz alta o
suficiente para que ela escutasse – Mas sempre podemos tentar uma
macarronada, lasanha, saladas... e não vamos nos esquecer das sobremesas!
Sim, as sobremesas...
Rebecca escondeu o rosto com uma mão, sorrindo apenas para si mesma; e
somente para aquele quarto vazio, admitindo que era difícil ficar entediada
com aquele garoto por perto. No fim, não ia se importar de ficar ali por mais
um tempo. Só um tempo mais...
Tempo suficiente para que todos ali se acostumassem com sua presença
silenciosa, até mesmo a irmã reclusa, que conseguia conversar com a garota
de cabelos coloridos. Tempo suficiente para os dois se esquecerem de por um
nome naquela relação. Até o dia em que Anthony colocou um anel no dedo
dela, que nem mesmo tirara os olhos da tela do computador, e qualquer um
aceitou aquilo com normalidade.
Afinal, não tinha que ser como se esperava. Contanto que fossem felizes.

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”Querido Kyle; Você tem me pedido para contar as novidades, mas isso tem
ficado cada vez mais difícil! Tanta coisa tem acontecido que é complicado
por tudo no papel... Anthony e Rebecca continuam na mesma, daquele jeito
que só os dois tem. Fico muito feliz quando os vejo, acho que é o sinal de que
nem todas as pessoas precisam seguir regras para ser feliz. Não é o nosso
caso mesmo?
Toda vez que os vejo não posso deixar de lembrar de você, e como sinto sua
falta. Felizmente meu tempo tem sido ocupado pelos encontros no
consultório e as manhãs no estúdio de fotografia. Acho que finalmente me
sinto completa, captando o segundo mágico que dura um olhar de amor
verdadeiro, um sorriso cheio de significado. Isso é mágico. E não me deixa
esquecer de você. Isso é bom.
Lisa e André sempre mandam notícias e querem saber de você, o que está
achando da faculdade. Parece que eles se divertem bastante, e é claro que
continuam juntos. Tenho certeza de que jamais vão se separar! Almas como
as deles são puras e tendem e se unir. Isso é lindo não é?
Karineee manda lembranças, do jeito dela, sabe, sem muita empolgação.
Tenho certeza de que ela sabe que está tudo bem. Karineee sempre sabe de
tudo.
Sam também saiu da cidade, mas aparece bastante, acho que está
trabalhando com o pai numa indústria de roupas... Acho que ela tem muito
bom gosto, então deve estar se dando bem. Há mais ou menos dois dias
cruzei com John. Ele estava com uma garota bonita que sorria muito. Ele
olhou para mim e sorriu. Tenho certeza de que está bem.
Todos estão conseguindo viver não é mesmo? Apesar das dificuldades todos
tem coragem e força para continuar lutando. Nessas horas sinto muito
orgulho mesmo. Principalmente de você, o meu Kyle.
Sua irmã me liga bastante e conversamos como velhas amigas, o que acho
que somos mesmo. Sua mãe tem sido muito atenciosa e posso dizer que nos
damos bem. Ela me trouxe almoço no final de semana! Disse que estava

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sobrando, mas depois Carlos me disse que ela queria fazer porque você
havia dito algum dia que era minha comida favorita. Foi a coisa mais linda
que ela poderia fazer por mim, e foi ainda mais precioso porque tentou
esconder isso com uma desculpa boba. Sua mãe é mesmo uma boa pessoa.
Mas e você? Como está indo? Espero que esteja bem, sinto muito não poder
estar ai para lhe dar apoio... Por favor, divida seus pensamentos comigo,
porque todo meu amor está com você. Todos os dias, espero que se lembre
disso. Sinta meu amor e o abraço que não posso lhe dar agora, e de o seu
melhor!
Com todo amor que é possível sentir, sua Clara.”
Kyle guardou a última carta de Clara no meio dos cadernos e se preparou
para voltar a aula, há quase um ano seguindo aquela rotina de maneira
obstinada, cada nota comemorada como se fosse seu prêmio derradeiro. Para
os amigos que conquistara na faculdade, toda aquela empolgação tinha nome
e endereço, e escrevia periodicamente, recarregando a carga energética
daquele garoto magricela. E ele tinha mesmo talento. Não era somente a
namorada cega de amores, todos ali tinham certeza de que ele tinha
sensibilidade para a sétima arte.
Ele tinha certeza. Tinha confiança em si mesmo!
-Kyle! – chamou uma voz rouca que se tornara conhecida – KYLE!
O garoto se virou com alguma irritação; já estava atrasado para a aula e agora
Lucca queria faze-lo perder a segunda chamada?
-O que foi?
-Sua namorada – disse estendendo um envelope cor de creme, a respiração
entrecortada pela pressa em chegar até ali, os cabelos desarrumados – Pediu
desculpas... por ser... assim tão de repente...
Kyle nem havia escutado direito e já rasgava o envelope, expondo um bonito
convite em tons claros, e numa caligrafia elegante e dourada, as palavras:
Convite de Casamento.
O garoto sentiu o estômago afundar de forma repentina, todo seu ar
escapando dos pulmões.
Me desculpe avisar tão de repente, Kyle... mas eu encontrei alguém.
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Parece repentino, mas você sabe como eu sou... Vamos nos casar.
Sim, tudo fazia sentido, ela finalmente tinha percebido. Quem eles estavam
tentando enganar? Aquela relação estava fadada ao fracasso desde o
princípio... eles estavam apenas adiando o inevitável. É claro que ele não
queria que isso acontecesse, é claro que ele a amava... mas se era o que ela
queria ele...
Não! Ele não conseguia pensar assim! Tudo que queria era ouvir da boca de
Clara que não havia mais chance alguma, queria que ela dissesse que estava
mesmo acabado. Não podia terminar com ele enviando um maldito convite
de casamento... Era isso que ela pensava a respeito dos dois? E aquelas
palavras apaixonadas? Tudo fora... em vão?
-Ela disse que só recebeu o convite há dois dias e nem sabia se poderia vir...
Acha que consegue se arrumar a tempo?
As palavras de Lucca demoraram a fazer sentido, lentamente tirando-o
daquela onda de pensamentos depressivos e revoltados.
-O-o que disse? – murmurou, os olhos passando pelo convite de casamento
onde dois nomes desconhecidos lhe acusavam de forma hostil.
Kyle engoliu em seco, ainda atônito demais com a própria estupidez.
-Acha que consegue, Kyle? Ela disse que vai espera-lo na igreja...
Kyle nem mesmo esperou ele terminar de falar e já estava correndo, ouvindo
ao longe os gritos de incentivo de Lucca. Sim, ele podia se arrumar a tempo.
Tinha tempo para reencontrar aquela maluca.
De maneira sobre humana, conseguiu tomar um banho rápido e trocar de
roupa, apanhando um paletó abandonado para usar com as mesmas jeans de
sempre. Atravessou aquela cidade como um condenado, rindo a toa com a
possibilidade de ver Clara.
Quando seus olhos se encontraram, todo mundo desapareceu ao seu redor e a
abraçou com força, selando seus lábios de maneira desesperada. Não havia
mais nada entre eles, assim como nunca houvera. Mesmo a distância era algo
passageiro e leviano. Se encararam alguns segundos em silêncio, tudo que
não podiam por em palavras passando de um para o outro como ondas
contínuas de entendimento.

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PERIGOSAS

Kyle não tinha palavras suficientes para dizer como estava feliz. E nem era
preciso, porque ela sabia.
Clara tomou as mãos do garoto entre as suas e as beijou, sorrindo com os
olhos fixos nos dele.
-Eu estava te esperando.

Não existe fim quando você pode escrever sua própria história.

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