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100 anos de Armistício

Grande Guerra

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MEMÓRIAS DE FAMÍLIA

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Grande Guerra • Memórias de Família

ÍNDICE

Grande Guerra • Memórias de Família ÍNDICE Pai e filho foram a duas guerras Catarina Gomes

Pai e filho foram a duas guerras

Catarina Gomes

LER ARTIGO

Ir à guerra e ver o mundo:

uma herança para a família

Catarina Gomes

LER ARTIGO

O bisavô deixou-lhe “um gráfico da fome”

Catarina Gomes

LER ARTIGO

A mãe de Yolanda esperou

uma década pelo seu “inimigo”

Catarina Gomes

LER ARTIGO

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O soldado que conheceu de perto o Cristo das Trincheiras

O

soldado que conheceu de perto

o

Cristo das Trincheiras

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

O evadido que pediu ajuda para os seus homens

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

O avô sobreviveu dentro de um bote à deriva

Catarina Gomes

LER ARTIGO

Quando os heróis não se suicidavam

Catarina Gomes

LER ARTIGO

As leituras no chalet rosa

Catarina Gomes

LER ARTIGO

3

Grande Guerra • Memórias de Família

Para inglês ver

Catarina Gomes

LER ARTIGO

Um pé ferido salvou-o do massacre de Cuangar

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

do massacre de Cuangar Patrícia Carvalho LER ARTIGO O médico que foi para a guerra protegido

O médico que foi para a guerra protegido por uma promessa

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

Só Felizardo foi à guerra

Catarina Gomes

LER ARTIGO

Francisco Diogo não voltou o mesmo

Catarina Gomes, Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

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Grande Guerra • Memórias de Família

O sino que não cabia

Catarina Gomes

LER ARTIGO

de Família O sino que não cabia Catarina Gomes LER ARTIGO O voluntário coberto de medalhas

O voluntário coberto de medalhas

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

O cabo português do senhor professor

Catarina Gomes

LER ARTIGO

A fotografia que resgatou uma história

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

A lembrança de uma velha senhora

francesa que lhe serviu café sob fogo

Catarina Gomes

LER ARTIGO

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O soldado que regressou quando já ninguém o esperava Patrícia

O soldado que regressou quando já ninguém o esperava

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

Em horas de pausa,

o médico disparava

Catarina Gomes

LER ARTIGO

O enigma do tio António

Catarina Gomes

LER ARTIGO

A última fotografia

Catarina Gomes

LER ARTIGO

O velho guerreiro

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

6

Grande Guerra • Memórias de Família

O soldado que se revoltou, já depois da guerra

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

Um médico na rectaguarda

Catarina Gomes

LER ARTIGO

ARTIGO Um médico na rectaguarda Catarina Gomes LER ARTIGO Um alentejano na frente de guerra Patrícia

Um alentejano na frente de guerra

Patrícia Carvalho

LER ARTIGO

A uma madrinha de guerra

Catarina Gomes

LER ARTIGO

As histórias do avô prisioneiro de guerra

Filomena Lança

LER ARTIGO

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Grande Guerra • Memórias de Família

Um poeta nas trincheiras

Luís Miguel Queirós

LER ARTIGO

Um poeta nas trincheiras Luís Miguel Queirós LER ARTIGO Um capitão da Brigada do Minho que

Um capitão da Brigada do Minho que morreu em combate

Luís Miguel Queirós

LER ARTIGO

O barbeiro de La Lys

Jaime Rocha, escritor

LER ARTIGO

Um alferes monárquico na guerra dos republicanos

Luís Miguel Queirós

LER ARTIGO

O médico que andou desaparecido na Flandres

Luís Miguel Queirós

LER ARTIGO

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Grande Guerra • Memórias de Família

Memórias de um médico na frente moçambicana

Luís Miguel Queirós

LER ARTIGO

na frente moçambicana Luís Miguel Queirós LER ARTIGO Dois filhos de Leotte do Rego que combateram

Dois filhos de Leotte do Rego que combateram em La Lys

Luís Miguel Queirós

LER ARTIGO

que combateram em La Lys Luís Miguel Queirós LER ARTIGO Regresso das tropas do Corpo Expedicionário

Regresso das tropas do Corpo Expedicionário Português em 1919

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Pai e filho foram a duas guerras Catarina Gomes Q

Pai e filho foram a duas guerras

Catarina Gomes

Q uando, em 1964, António Espadinha Monte foi chamado a ir para

a Guerra Colonial parecia que a história se estava a repetir. Ele, tal

como o pai, também era o único filho homem e, tal como tinha

acontecido com o pai na Primeira Guerra Mundial, era chamado

a ir defender os interesses de Portugal, lá longe. Cada um a seu tempo, tiveram que deixar para trás a aldeia alentejana de Peroguarda para partirem do mesmo cais, em Lisboa. António Espadinha para passar dois

anos da sua vida na cidade moçambicana de Tete, de 1964 a 1965, o pai, José Manuel do Monte, para rumar até Brest, França, em 1917.

Manuel do Monte, para rumar até Brest, França, em 1917. O pai de António Espadinha Monte,

O pai de António Espadinha Monte, José Manuel do Monte, é o primeiro homem de pé, à esquerda MIGUEL MADEIRA

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O pai nunca lhe deu conselhos, nunca disse lhe tinha

O pai nunca lhe deu conselhos, nunca disse lhe tinha medo que o filho partisse. Mas, quando chegou a vez de António Espadinha Monte embarcar, a guerra já não era assim tão estranha, tinha crescido a ouvir histórias de um soldado na Primeira Guerra Mundial. Descreve o pai como uma pessoa “retraída” em termos emocionais. O pouco que foi contando desse tempo, em família, “era às vezes com um copinho a mais”, nessas alturas às vezes até cantava o hino francês e falava da miséria que via entre a população francesa, dos miúdos com fome que na rua pediam às tropas portuguesas que viam passar, “biscuit, biscuit”. Nas histórias que foi ouvindo ao pai

Foi então que, horrorizado, observou que veio à superfície da lagoa o cadáver de um militar alemão, já a desfazer- se pela putrefacção. Bem tentou vomitar a água que tinha bebido, mas em vão

António Espadinha Monte, sobre o pai

percebia-se que as condições daquela guerra tinham sido piores do que as da sua. Contou-lhe daquela vez em que estavam nas trincheiras sem água e em que a sede era tanta que uma poça de água que acumulava as águas da chuva lhe pareceu irresistível, e muito límpida. Era perigoso ir até lá, estava mesmo à vista das linhas alemãs, mas o pai de António Espadinha rastejou até ao sítio e conseguiu beber até ficar completamente saciado. Voltou a salvo. Pouco depois, o exército alemão começou a bombardear com artilharia pesada as trincheiras portuguesas. Uma

das granadas acabaria por cair sobre a poça de água onde o pai tinha estado a beber. “Foi então que, horrorizado, observou que veio à superfície da lagoa o cadáver de um militar alemão, já a desfazer-se pela putrefacção. Bem tentou vomitar a água que tinha bebido, mas em vão”, contou ao PÚBLICO António Espadinha Monte.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família As condições de higiene eram tão más que era vulgar

As condições de higiene eram tão más que era vulgar os soldados apanharem piolhos, mas nada disso podia transparecer nas cartas para as famílias, que eram censuradas pela instituição militar, diz. “Então, numa das cartas à minha avó, ele referiu que ‘na aldeia estava mal com o Zé Piolhinho, mas ali na Flandres já tinha feito as pazes com ele e davam- se agora muito bem’”. A carta iria chegar a Peroguarda (distrito de Beja) tal como tinha sido escrita e a avó de António Espadinha Monte ficaria a saber que o filho tinha piolhos. Dizia-lhe o pai que nunca ficou a saber se matou alguém durante os diversos combates, por estar o inimigo longe da vista, ouvia-o. Houve uma vez que, durante a noite, o pai estava de vigia na trincheira e, no meio do silêncio, começou a ouvir uma tosse que não se calava, sempre na mesma direcção, do lado do inimigo. “Pensou que podia tratar-se de uma patrulha inimiga que procurasse aproximar-se das linhas portuguesas, ou mesmo do início de um ataque de infantaria alemão. Decidiu atirar uma granada na direcção da tosse. A tosse nunca mais voltou a fazer-se ouvir.” Ficou a dúvida. António Espadinha Monte nunca teve este tipo de experiências na guerra colonial. Diz que, na prática, nunca foi combatente, uma vez que o distrito de Tete, nessa altura, ainda vivia uma “paz podre”, como conta no livro que escreveu entretanto, Dois anos em Tete-Memórias de um alferes expedicionário. De Moçambique fazia chegar ao pai, pelo correio, bobines gravadas com a sua voz onde contava as histórias da sua guerra. “Ele ria- se com as minhas histórias de África”. Era essa a intenção.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Ir à guerra e ver o mundo: uma herança para

Ir à guerra e ver o mundo:

uma herança para a família

Catarina Gomes

“E ste senhor tão bem posto, de cigarro pendurado na mão

esquerda, é o meu bisavô na sua farda militar durante a Primeira

Grande Guerra. Neste ano de centenário, lembrei-me desta foto

e de como, de alguma forma, a minha família é herdeira do facto

como, de alguma forma, a minha família é herdeira do facto de este homem - António

de este homem - António Tomaz da Conceição, nascido em 1893 - ter estado na guerra, na Flandres.

O meu bisavô é daquelas

figuras que ganham uma espécie de estatuto mítico nas famílias. Daqueles de quem se contam histórias. Eu já

não me lembro dele - creio que morreu mais ou menos quando nasci, em 1973.

É verdade que ele já não

era bem como os homens da sua geração e do seu lugar, a Barrada, uma aldeia perto de Abrantes, onde só

O bisavô de Ana Gomes era dos poucos da sua aldeia que sabiam ler

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família havia agricultores às voltas com uma terra seca cheia de

havia agricultores às voltas com uma terra seca cheia de calhaus rolados

e onde os dotes dos noivos se mediam pelo número de oliveiras que

cada família tinha. O meu bisavô tinha um padrinho militar que o levou para a cidade, onde fez a 4ª classe. Era dos poucos homens na aldeia que sabia ler. Tenho ideia de me contarem que até tinha um livro - uma enciclopédia, creio, que trouxe da Flandres. Teve a sorte de não ir para as trincheiras: trabalhava na cozinha.

Durante o seu tempo de guerra, teve por companhia uma cabrinha de estimação (se acabou na panela, não sabemos). Escrevia as cartas para os soldados enviarem à família - cartas que não lhe eram ditadas, mas que ele inventava, e que lia depois para os soldados aprovarem. Contava, a chorar, como as francesas beijavam e abraçavam os soldados e as mulas que entravam em Paris. Voltou da guerra inteiro e sem mazelas. A filha mais velha, a minha avó, nasceu em 1923. Contra tudo o que seria de esperar num homem daquele meio, numa altura em que os pais não queriam que as filhas (mulheres) estudassem “porque era só para escreverem cartas aos namorados que os pais não podiam ler”, o meu bisavô pôs as três filhas na escola até à 4ª classe. Mais do que isso: quis que todas aprendessem uma profissão. Dentro das opções da época, a minha avó tornou-se costureira; a filha do meio aprendeu tecelagem; e a mais nova ficou de aprender o ofício com uma das outras duas. Segundo comentam alguns netos, o meu bisavô quis isto para as filhas não só porque era, por natureza, um homem inteligente, curioso

e com visão, mas porque tinha visto e vivido outras coisas, que cá

as pessoas não conheciam, na Flandres. Imagino que tivesse visto indústrias, mulheres e crianças a trabalhar fora de casa, tudo o que aqui, numa aldeia do interior, não existia. Suponho que a este primeiro salto na formação e no trabalho se deve depois o facto de os meus avós

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família terem feito tudo para que os filhos estudassem na universidade

terem feito tudo para que os filhos estudassem na universidade - não só o meu pai, como a minha tia. Sem tudo isto a nossa vida - dos filhos, netos, e bisnetos - teria sido muito diferente.

Relato de Ana Gomes, bisneta de António Tomaz da Conceição

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O bisavô deixou-lhe “um gráfico da fome” Catarina Gomes D

O bisavô deixou-lhe “um gráfico da fome”

Catarina Gomes

D izem que as crianças de hoje têm muita facilidade em lidar com as tecnologias, mas Isabel Braz lembra-se de, desde muito pequenina, saber exactamente como pôr a funcionar aquele gravador de bobines, de o rebobinar para voltar a ouvir o bisavô António Braz a

falar das suas histórias passadas na Primeira Guerra Mundial, em Angola e depois em França. “Os miúdos gostam de ouvir histórias”.

em França. “Os miúdos gostam de ouvir histórias”. Capitão António Braz num campo de prisioneiros na

Capitão António Braz num campo de prisioneiros na Alemanha MIGUEL MADEIRA

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Nunca as ouviu de viva voz, quando o bisavô morreu,

Nunca as ouviu de viva voz, quando o bisavô morreu, aos 92 anos, tinha ela 9 anos, mas aquelas histórias gravadas ficaram-lhe na cabeça. É assim que, quando Isabel Braz, licenciada em Gestão de Empresas, decidiu finalmente escrever um livro sobre a história do bisavô, tudo lhe saiu, naturalmente, na primeira pessoa, como se pudesse ter sido ele escrevê-lo,

apesar lhe ter sido difícil “ter de se colocar no papel de um homem, militar,

a viver uma experiência de guerra tão longínqua”, contou ao PÚBLICO. Assim começa o livro as Memórias Esquecidas-A vida do capitão António Braz (Chiado Editora) que deverá ser lançado em Setembro: “O que eu

mais temia concretizou-se praticamente três anos depois de ter iniciado

a Grande Guerra. A ordem para mobilizar para França estava escrita nas

minhas mãos (

bisneta, recriando os acontecimentos vividos por ele. Quando terminou o livro, é como se Isabel Braz tivesse finalmente conseguido fazer a vontade ao bisavô que queria muito que alguém da família lhe escrevesse a vida, com princípio, meio e fim. Ele deixou muita coisa escrita em apontamentos, cartas, portais, mas achava-se sobretudo homem de factos, não se via capaz de contar uma história. O que deixou escrito em forma de livro, em 1936, fê-lo porque sentiu, naquele momento, que se impunha “repor a verdade”. O livro Como os Prisioneiros Portugueses foram Tratados na Alemanha, editado em 1935 pela Tipografia Popular de Elvas, é feito em resposta a Aquilino Ribeiro. Admirador do escritor, estava um dia a ler-lhe um escrito intitulado Alemanha Ensanguentada, sobre as impressões do escritor beirão durante uma viagem na Alemanha, no pós Primeira Guerra Mundial, quando, de repente, lê o testemunho de um alemão que tinha sido intérprete no campo de prisioneiros onde ele tinha estado, Breesen. O alemão a quem Aquilino dava voz dava “a entender que entre nós havia rixas e desarmonias, o que não são factos verdadeiros. As horas tristes que passámos em cativeiro só nos permitiram ter sentimentos de solidariedade, estabelecendo elos de amizade que se vincularam pela vida

)

Parti de Elvas no dia 7 de Agosto de 1917”, escreve a

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família fora. Quanto muito havia uma má disposição natural entre homens

fora. Quanto muito havia uma má disposição natural entre homens que tinham fome. Posso efectivamente testemunhar que a fome dá mau estar psicológico e uma irritabilidade difícil de disfarçar.” Um dos documentos que deixou e que a família guardou documenta

essa experiência no campo alemão, dando conta de como era meticuloso

o capitão Braz. Criou um “gráfico da fome” onde diariamente foi

apontando a sua perda de peso. O seu peso antes de ser preso era de 86

quilos. “A primeira vez que me pesei, no dia 10 de Julho, tinha 72 quilos, menos 14 quilos que o meu peso normal. Pesei-me de novo 16 dias depois e já só pesava 68 quilos.” Como homem de factos quis dar a conhecer o que passava, ele que nas cartas que enviava para Portugal nem podia dizer abertamente à família que passava fome, por causa da censura alemã nos campos. Mandava fotos suas e a mulher, Adelaide, lá percebeu que ele vinha emagrecendo de imagem para imagem, conta Isabel Braz, passando então

a eviar comida nas encomendas que mandava para a Alemanha. “Tendo

recebido umas encomendas de casa, aumentei 500 gramas. Regressando

à alimentação oficial, um mês depois voltei a perder um quilo”. Em vida, acabou por ver reposta “a verdade” sobre a realidade dos prisioneiros portugueses nos campos alemães pela pena do próprio Aquilino Ribeiro. Em Abóboras no Telhado, o escritor acaba por contar

a versão dos presos portugueses, das condições difíceis lá vividas. Isabel

Braz termina assim o livro que escreve como se fosse o bisavô: “Fiquei satisfeito com o que li e tranquilo por se fazer justiça. Aquilino era um homem de bem e não podia deixar em branco tamanha imprecisão.” O escritor repôs a verdade em vida, a bisneta contou-lhe a história.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família A mãe de Yolanda esperou uma década pelo seu “inimigo”

A mãe de Yolanda esperou uma década pelo seu “inimigo”

Catarina Gomes

N aquele tempo parecia que a ilha do Faial era o centro do mundo e, de alguma forma, era. À época, as comunicações, feitas sobretudo por telégrafo, circulavam através de enormes cabos debaixo do mar mas que para atravessarem o oceano entre a Europa e a América

precisavam de ajuda a meio do Atlântico. Para fazer funcionar este enorme vaivém de mensagens os grandes do mundo instalaram-se então na ilha açoreana do Faial.

do mundo instalaram-se então na ilha açoreana do Faial. Quando se conheceram, o alemão Max tinha

Quando se conheceram, o alemão Max tinha 17 anos, a mãe de Yolanda (a primeira criança à esquerda) tinha 10 anos

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Habituada a ser porto de marinheiros, agora chegavam técnicos de

Habituada a ser porto de marinheiros, agora chegavam técnicos

de cabotelegrafia de todo o mundo. Primeiro instalou-se a inglesa

Telegraph Construction and Maintenance Company, mais tarde

americana Commercial Cable Company e a alemã Deutsch-Atlantische Telegraphengesellschaft”. Foram para o Faial técnicos vindos de Inglalerra, Alemanha, Estados Unidos, mas também de Itália, França, Canadá. As famílias tradicionais da cidade da Horta apreciavam a vinda destes

estrangeiros que se instalavam na ilha e que lhes pareciam respeitadores

e de bom trato, e abriam-lhes as portas das suas casa, em cházinhos e

bolinhos, lanches, piquenique e serões. Eles traziam animação e novos costumes, a empresa alemã, por exemplo, pedia aos seus funcionários que soubessem tocar um instrumento e eles até formaram uma banda, a

Horta Band, os ingleses trouxeram consigo o ténis, o crocket, o futebol, as corridas de barcos a remos, as garden parties.

a

O jovem alemão Max Corsépius havia de chegar numa dessas levas,

empurrado por uma mãe que pediu ao Estado alemão um emprego para

o mais velho de quatro filhos, depois de o pai ter morrido. O emprego

seria “numa ilha no Atlântico”. É já no Faial que o jovem Max surge, numa fotografia, muito hirto, com o boné da companhia, ao lado das crianças da família Goulart Silveira de Medeiros. Ele tinha 17, uma das menina ao seu lado, Hortênsia Medeiros, tinha 10. Brincavam todos. À medida que Yolanda Corsépius vai mostrando as fotografias daquela que é a origem da sua família é concisa a legendá-las: “a menina vai crescendo, o menino

está sozinho, era bonito, tocava violino

”.

A Primeira Guerra Mundial apanha açoreanos e estrangeiros numa

vida cultural intensa e um cosmopolitanismo que não se encontrava no continente, diz Yolanda, que tem 82 anos e vive em Lisboa. O conflito já tinha começado há quase dois anos, em 1914, mas a neutralidade de Portugal parecia deixar a guerra ao largo, tudo continuava nesta serena animação. Num acto que precedeu a entrada de Portugal na guerra, a Inglaterra insta o seu tradicional aliado a “requisitar” todos os barcos alemães

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família nos seus portos, na metrópole com mais de 70 navios,

nos seus portos, na metrópole

com mais de 70 navios, em Março de 1916. Os tripulantes alemães foram presos, relembra Yolanda. Daí em diante todos os alemães serão vistos como “inimigos”. Alguma imprensa portuguesa da altura dá conta de um anti-germanismo que também ajuda a criar. Uma capa do Século Ilustrado mostra a caricatura destes “teutónicos”, aos pés têm copos de cerveja, mostra Yolanda

num dossier com recortes e postais da altura. Os alemães entre os 16

e aos 45 anos seriam obrigatoriamente detidos. Escreve o jornal O

Século que só assim “fica o país livre dos seus mais ferozes inimigo… Capazes das façanhas mais baixas e dos crimes mais tremendos”, cita um artigo do Expresso de 17 de Novembro de 2001, intitulado «O lado desconhecido da primeira Guerra».

e colónias. Assim fez Portugal, em 1916,

O jovem Max Corsépius há-de ser um destes alemães que passa a ser

visto como “súbdito inimigo”. Ele e outros compatriotas são, primeiro,

obrigados a permanecerem no bairro do Faial

os funcionários da sua nacionalidade, depois são transferidos para a ilha

Terceira, onde ficarão

no castelo de São João Baptista, em Angra do Heroísmo. A um tempo chegarão a estar naquele espaço exíguo 700 alemães, mulheres e crianças incluídas, descreve no seu pequeno livro sobre este campo Yolanda, que tem nacionalidade portuguesa e alemã. Um campo igual será criado no continente para aprisionar os alemães, ficarão no forte de Peniche, refere

o mesmo artigo do Expresso.

onde estavam instalados

no chamado Depósito de Concentrados Alemães,

E Hortênsia? “A menina ficou no Faial, a chorar, mas muito activa,

ficou a aprender alemão, a arte de desenho a carvão e o bordado e rendas tradicionais dos Açores”, e continuaram a escrever-se, continua Yolanda. Sobreviveu um postal dessa troca entre “prometidos”, que a filha guardou:

“7/9/1916. Meu amor! A nossa chegada foi tal e qual como vês nesta vista. Podemos sair no castelo só para fazer passeios no Monte Brasil, os quais me fazem tão triste sem ti. Uma infinita saudade do teu, sempre teu, Max”.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família A companhia de cabos submarinos alemã recomeçará a sua actividade

A companhia de cabos submarinos alemã recomeçará a sua actividade em 1926. Desde 1916 que estavam separados. “Ela esperou dez anos por ele”. No mês seguinte à sua chegada casaram-se, ela já tinha 26 anos, ele 32, continua Yolanda. Da união nascerão três meninos de seguida e quando vem a menina, de tão ansiada, levará o nome de uma princesa italiana, Yolanda. Os pais hão-de ficar juntos apenas dez anos, a mãe adoece, dela a filha reteve pouco mais do “um sorriso” e uma última prenda, “esta bonequinha é para a menina”, disse-lhe, já doente, será enviada para Lisboa, onde acabará por morrer em 1936, quando Yolanda tinha quatro anos. Mais tarde, o pai de Yolanda viajará para a Alemanha com os três filhos mais crescidos, mas ela, por ser ainda pequena, tinha sete anos, é deixada com a avó materna. Corria o mês de Maio de 1939. Brevemente regressariam. Em Setembro quiseram voltar à Horta mas estala entretanto a II Guerra Mundial e o pai e os três irmãos são impedidos de sair da Alemanha. Esteve um ano sem ter notícias da família. Todos os alemães foram-se embora, mais uma vez, ficou Yolanda. “A sua neta como tem 11 anos e não tem mais ninguém pode ficar”, disseram as autoridades portuguesas à sua avô materna, que foi quem a criou na Horta. Já em plena Segunda Guerra Mundial, Yolanda lembra-se de o Faial continua a ser um sítio por onde o mundo passava. Lembra-se de haver espiões que ficavam hospedados na cidade, um deles, inglês, chegou a ser seu amigo, chamava-lhe carinhosamente Uncle Joe. Com a morte da avó, aos 23 anos, vai tentar ser alemã na Alemanha. Esteve 14 meses mas não se adaptou. “O meu pai era um estranho para mim”. Haveria depois de ser enfermeira, de tirar a sua especialização em enfermagem pediátrica nos Estados Unidos e de correr mundo nas suas viagens. Faz questão de sublinhar que a sua é uma história banal na Horta, onde houve dezenas destes casamentos mistos, resultado da época dourada

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família dos cabos submarinos na Horta, ela contabilizou-os a todos e

dos cabos submarinos na Horta, ela contabilizou-os a todos e deixou-os registados em pequenos livros que tem deixado para memória futura. A curiosidade pelo mundo que vinha até ela naquela ilha ficou. “Em nenhuma terra se conviveu tanto”. Durante a II Guerra Mundial lembra- se de ser pequena e abordar os estrangeiros que aportavam na Horta, para lhes fazer perguntas, cautelosa no início, com medo de ser encarada como uma pequena inimiga: “I’m german, do you mind if I talk to you?”, e os estrangeiros respondiam, afáveis, “how interesting, sit down”. E ela contava-lhes a sua vida, como fez com o PÚBLICO.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O soldado que conheceu de perto o Cristo das Trincheiras

O soldado que conheceu de perto o Cristo das Trincheiras

Patrícia Carvalho

A

única certeza de António Machado era aquela fotografia, de um homem aprumado, fardado, montado num cavalo, a data que aponta para o ano de 1918 e a localização: França. O homem a

cavalo é António da Silva Pinheiro, bisavô de António Machado, que integrou o Corpo

Pinheiro, bisavô de António Machado, que integrou o Corpo Expedicionário Português. O resto são pouco mais

Expedicionário Português. O resto são pouco mais que mitos, rumores e histórias por confirmar, que o bisneto, de 25 anos, bem gostava de ver deslindados. António Machado sabe que o bisavô nasceu a 19 de Janeiro de 1896, no Porto, e que foi para a Grande Guerra, como soldado, mas pouco mais. Pelo menos, pouco mais que defenda com unhas e dentes. Tem muitas dúvidas. A fotografia induziu-o em erro, e pensou que o avô fizesse parte de algum grupo

António da Silva Pinheiro chegou a ser dado como morto nos jornais

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família de cavalaria, mas, afinal, diz agora que ele era da

de cavalaria, mas, afinal, diz agora que ele era da Infantaria. “Há histórias que circulam na família, mas não sei se passam de rumores. Diz-se que ele chegou a ser dado como morto, nos jornais, mas afinal regressou. E conta-se também que ele estava no contingente que

levou o Cristo das Trincheiras para as linhas recuadas, mas não sei se será um mito”, diz ao PÚBLICO o bisneto do soldado português.

A interacção de António da Silva Pinheiro com o Cristo das Trincheiras

até pode ser um mito familiar, mas não é de todo improvável que o soldado se tenha cruzado com a imagem que repousa, hoje, na Casa do Capítulo do Mosteiro da Batalha, velando o túmulo do Soldado Desconhecido.

A imagem do Cristo crucificado estava numa intersecção de estradas, no

sector português da Flandres, entre as localidades de Lacouture e Neuve- Chapelle. A figura era uma companhia diária dos soldados portugueses e, tal como eles, sofreu duramente com a ofensiva alemã de 9 de Abril de 1918, que ficou conhecida como a Batalha de la Lys. No final dos bombardeamentos, a imagem perdera uma das mãos, parte das pernas, ambos os pés e tivera o peito atravessado por uma bela. Neuve-Chapelle tinha sido quase varrida do mapa, os mortos portugueses ascendiam a mais de 7500, mas o Cristo, ainda que mutilado, continuava no seu lugar.

A imagem estava tão entranhada nas memórias dos soldados que

viveram esse dia que, em 1958, o Governo Português pediu ao Governo Francês que deixasse o Cristo vir para Portugal. A imagem, que permanecera no mesmo local, nos 40 anos que se tinham passado desde o final da guerra, foi então transportada de avião para Lisboa a 4 de Abril de 1958 e, quatro dias depois, de carro para a Batalha. Uma vez que o Cristo francês nunca terá deixado o local onde estava implantado, até ser transferido para Portugal, é muito provável que história de família de António Machado, sobre um alegado transporte da imagem para as linhas recuadas, não passe mesmo de um mito. Mas poucos duvidarão que António da Silva Pinheiro se cruzou com ele.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Sem grandes certezas, o bisneto agarra-se à fotografia, provavelmente tirada

Sem grandes certezas, o bisneto agarra-se à fotografia, provavelmente tirada em campanha, de Silva Pinheiro a cavalo e confessa que atribui ao documento “um valor inestimável”.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O evadido que pediu ajuda para os seus homens Patrícia

O evadido que pediu ajuda para os seus homens

Patrícia Carvalho

J oão de Almeida Sousa Sacadura foi militar até morrer. Durante a I Guerra Mundial, lutou nas campanhas de África e da Europa, recebeu medalhas e distinções, foi preso pelos alemães e fugiu. Nascido em Viseu, morreu em África, onde passou parte da

sua vida. A sobrinha, Fernanda Sacadura, ainda guarda fotografias e documentos deste tio com uma vida a lembrar um livro de aventuras. Fernanda também se

vida a lembrar um livro de aventuras. Fernanda também se lembra de uma caixa de madeira,

lembra de uma caixa de madeira, com o número 7, que pertencera ao espólio do tio aquando da sua passagem pelo Corpo Expedicionário Português, mas essa já não

a tem. “Ofereci o baú ao

Museu Militar do Porto”, diz a sobrinha do homem nascido em Viseu, a 17 de

Junho de 1896, que foi para

a guerra como alferes mas

morreria como capitão, com apenas 45 anos.

João Sacadura conseguiu fugir de um campo de prisioneiros, conta a sua sobrinha

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Fernanda ainda se lembra de ouvir o pai contar o

Fernanda ainda se lembra de ouvir o pai contar o orgulho que sentia quando “via o irmão passar a cavalo com as peças de artilharia”. A João Sacadura a Grande Guerra apanhou-o em Angola, onde participou nas chamadas “campanhas do Cuanhama”, a tentativa frustrada de Portugal ocupar este território no sul de Angola, a fim de assegurar a integridade da então colónia, perante as forças alemãs. Segundo uma notícia publicada pelo “Diário de Luanda”, aquando da morte do português, João Sacadura “assentou praça em 1914”, o ano do início da guerra, e depois da campanha de África, em 1914 e 1915, partiria para França, já como parte do Corpo Expedicionário Português. Aí, acabaria por ser feito prisioneiro, mas, como conta ao a sua sobrinha- neta, Carla Megre, filha de Fernanda Sacadura, “como primeira obrigação de um oficial prisioneiros de guerra conseguiu evadir-se”. João Sacadura terá, então, pedido à Cruz Vermelha Francesa para os que permaneciam presos. “Ele não gostava dos ingleses, achava que não queriam saber dos soldados portugueses. E o Governo português, a mesma coisa. O Corpo Expedicionário Português foi completamente abandonado pelo Governo. O meu tio pediu auxílio à Cruz Vermelha Francesa para os portugueses que morriam à fome nos campos de prisioneiros”, diz ao PÚBLICO Fernanda Sacadura. Já dos alemães, o alferes parecia “não ter muitas razões de queixa”, acrescenta. A actuação de João Sacadura no teatro de guerra mereceu-lhe várias condecorações. Além de vários louvores, recebeu a medalha comemorativa do Sul de Angola, a Cruz de Guerra, a medalha comemorativa das Campanhas de França (1917-18), a da Vitoria, de Comportamento Exemplar e, a 5 de Outubro de 1926, já depois de ser promovido a tenente, foi agraciado pelo regime saído do golpe de 28 de Maio, com a distinção de cavaleiro da Ordem de Aviz. Depois da guerra, João Sacadura continuou na vida militar, exercendo várias funções durante a ditadura. Fernanda Sacadura recorda o que se lembra de ouvir contar sobre a passagem do tio por S. Tomé, como

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família comandante da polícia, entre 1927 e 1928. “Ele foi alertado

comandante da polícia, entre 1927 e 1928. “Ele foi alertado para uma evasão dos prisioneiros, que eram quase todos presos políticos, mas muitos, para fugir aos guardas, atiraram-se ao mar e foram comidos por tubarões. Nessa altura, ele pediu transferência para Luanda”. E foi em Luanda que João Sacadura haveria de morrer, já depois de ter casado e ter tido um filho. O seu funeral, como descreve o Diário de Luanda, teve honras militares e a presença de altos representantes civis e militares. Um colega de Sacadura “transportou o boné, a espada e as medalhas” do português. João Sacadura, que chegou a ser ajudante de campo do Governador- Geral de Angola Bento Roma (1930), ostenta na sua campa apenas a indicação de que foi “capitão de artilharia” e que esteve em “França e Angola”, durante a I Guerra Mundial.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O avô sobreviveu dentro de um bote à deriva Catarina

O avô sobreviveu dentro de um bote à deriva

Catarina Gomes

O vídeo a preto e branco dura cinco minutos, não tem som, chama-

se Afundamento do Augusto Castilho. O filho de Esperança Matos

encontrou-o por acaso na Cinemateca Digital e mandou o link

à mãe. Foi filmado em 1918 por alemães que quiseram deixar

registado para a história as imagens daquele sobrelotado bote salva-vidas a afastar-se no mar, talvez para depois tentar saber que destino teria. As

mar, talvez para depois tentar saber que destino teria. As O navio português Augusto Castilho foi

O navio português Augusto Castilho foi bombardeado por um submarino alemão Miguel Madeira

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família caras dos homens mal se distinguem, é lusco-fusco, as ondas

caras dos homens mal se distinguem, é lusco-fusco, as ondas reflectem a luz mas Esperança Matos sabe: “uma das personagens daquele bote é o meu avô”, José Batista Martins, diz ao PÚBLICO.

Ela era jovem quando o avô morreu, em 1986, mas sempre ouviu aquela história do avô marinheiro que fez parte dos sobreviventes que resistiram ao afundamento do navio caça-minas português Augusto Castilho, depois de ter sido bombardeado por um submarino alemão, em plena Primeira Guerra Mundial. Morreram no confronto seis pessoas, incluindo o comandante, mas os alemães condoeram-se daqueles portugueses, conta Esperança Matos. Os feridos ainda receberam tratamento ministrado pelo médico do navio alemão e deram-lhes um bote salva-vidas para que chegassem a terra, “embora em muito mau estado”, contava o avô, “e umas bolachas,

e mandaram-nos à vida”. Depois os alemães ficaram a filmar o pequeno

barco a desaparecer no meio das ondas, deixado à sua sorte. “Os alemães eram poderosos e podiam tê-los matados a todos, mas deixaram-nos ir”, diz Esperança de Matos, que conta que os alemães quiseram dar uma ultima oportunidade de sobrevivência aos portugueses. “Tiveram respeito por aqueles homens que eram como que uma formiga em luta contra um elefante”.

O que aconteceu nos dias seguintes dava um filme. “Era uns a

remar e outros a tirar água”. Alguns dos homens estavam feridos dos bombardeamentos, outros foram ficando doentes, desidratados, “um deles começou a ter ataques e tiveram que o lançar ao mar. A sobrevivência falou mais alto”, contava o avô de Esperança Matos. Chegaram a terra e o avô acabou por voltar à sua aldeia natal, feito herói,

“com as crianças a mandarem-lhe flores, o chão atapetado. Eu era criança

e lembro-me”. Mais tarde a Marinha Portuguesa homenageou o avô, tendo-

lhe erigido uma lápide na sua terra natal - Fragoso, concelho de Barcelos.

O Portal da Marinha atesta a aventura. Diz que o Augusto de Castilho era

um arrastão de pesca a vapor que tinha sido requisitado pelo Governo

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Português durante a guerra, classificado como patrulha de alto mar,

Português durante a guerra, classificado como patrulha de alto mar,

“tendo sido

um dos navios portugueses que mais encontros teve com

submarinos alemães.” Em 21 de agosto de 1918 estavam a dar vigilância a um vapor de passageiros, o San Miguel, do Funchal para Lisboa, com nevoeiro denso, “avistou nas proximidades do Cabo Raso, às 6h30 um grande submarino alemão em meia imersão, rompendo fogo contra ele. Apesar de começar a navegar a toda a velocidade, foi atingido por três granadas.” No dia 23 do mesmo mês, novamente foi perseguido por outro submersível. Pouco mais de dois meses, em 14 de Outubro de 1918, foi bombardeado e afundou. Mais uma vez, patrulhava o paquete San Miguel, com passageiros e carga, em viagem da Madeira para os Açores. “Pelas 6 horas da manhã, um submarino de enormes dimensões, conforme o relato dos sobreviventes, atacou o paquete: era o U-139, um cruzador-submarino armado com duas peças de 150 mm, cujo alcance era muito superior às do Augusto Castilho, tendo-se este colocado entre o paquete e o submarino apesar da sua manifesta inferioridade. Os sobreviventes, alguns deles feridos, embarcaram no salva-vidas e no bote do navio e conseguem percorrer os cerca de 370 quilómetros que os

separavam da ilha de São Miguel. O salva-vidas encontra-se hoje preservado

no Museu de Marinha, refere o portal oficial. Esperança

em 1968, 50 anos depois do combate, os seus avós foram numa viagem pelo

Atlântico depositar uma coroa de flores no local de combate.

Matos conta que

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Quando os heróis não se suicidavam Catarina Gomes No início,

Quando os heróis não se suicidavam

Catarina Gomes

No início, falava-se pouco deste avô que Helena Caxide nunca chegou a conhecer, era como se a família prolongasse o espírito de uma época em que o suicídio era pecado. Era inexplicável aquele silêncio, porque, para ela, o avô sempre tinha sido “um herói. Despertava em mim uma curiosidade enorme”. Foi em resposta às suas perguntas que foi descobrindo “o sofrimento que acarretou para ele e para toda a família a sua participação na I Guerra Mundial.” António Júlio dos Santos Caxide embarcou para a Flandres a 9 de Setembro de 1917. Esteve desde essa data até ao momento do confronto de La Lys, em 9 de Abril de 2018, a viver nas trincheiras. Contava desse tempo que, para conseguir

nas trincheiras. Contava desse tempo que, para conseguir Por se ter suicidado depois de regressar da

Por se ter suicidado depois de regressar da guerra, o Estado cortou a pensão à viúva de António Caxide DR

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família sobreviver, teve que comer ratos e raízes. Após a batalha,

sobreviver, teve que comer ratos e raízes. Após a batalha, foi dado como desaparecido em combate em Lisboa, a 29 de Abril de 1918, conta a neta. A família não sabe com precisão o que se passou durante e após a batalha. “Sabemos, sim, que ficou em poder das tropas alemãs, bastante doente, por ter sofrido a inalação dos gases tóxicos”. Graças a pesquisa feita já pelo pai de Helena, nos anos 1970 e 1980, descobriram que acabou por ser identificado no hospital militar de Bruxelas, na Bélgica, a 4 de Janeiro de 1919. No mês seguinte, foi considerado incapacitado por junta médica, para todo o serviço, “devido às graves sequelas físicas que eram efeito dos gases tóxicos durante a batalha. Tinha fortes dores e frequentes problemas pulmonares, como pleurisias com derrames nos pulmões. Tinha que ir regularmente fazer dolorosos tratamentos a Lisboa, ao Hospital Militar e ao Hospital Colonial”, relata. Foi evacuado para Portugal no navio Gascon, chegando a 25 de Abril de 1919. “Após tudo o que lutou e tudo o que sofreu fisicamente, como doente e prisioneiro (embora ele tenha sempre dito que nunca foi maltratado pelos alemães, e sempre o respeitaram enquanto prisioneiro), revelou ser um homem nobre de carácter”. Por causa dos seus problemas de saúde, acabou por aprender a fazer tratamentos de feridas, a usar seringas. Assim, “quando voltou para a sua aldeia, era a ele a quem recorriam pessoas doentes, para lhes dar injecções, tratar de ferimentos, e até fazia pomadas”, recorda-se em família. Contava-se que todos os dias ele tinha que se injectar a si próprio com medicamentos para suportar as mazelas da guerra. “Tinha momentos em que a dor física e a dor psicológica lhe causavam muito sofrimento.” Tinha o pai de Helena Caxide apenas oito anos quando António Caxide, usando a sua própria arma, disparou contra si, no ouvido. “Ainda sobreviveu dois dias, com imenso sofrimento, e arrependido do que havia feito, mas acabou por falecer a 10 de Outubro de 1944.” Por causa desta morte prematura, toda a família foi afectada. A vida dos filhos foi feita em instituições - embora tenham tido oportunidade

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família de estudar nos Pupilos do Exército, por o pai ter

de estudar nos Pupilos do Exército, por o pai ter sido militar -,

“completamente sós e com o estigma de um pai que se tinha suicidado, algo naquela época visto com desconsideração, mesmo como um pecado,

e que, nesse tempo, se sobrepunha a tudo, ao heroísmo demonstrado

durante a guerra, à sua resistência, ao ter sobrevivido aos ferimentos, à sua nobreza de carácter, como pai, e o enfermeiro e cuidador de tanta gente, na sua aldeia natal de Castedo do Douro.”

Mas pior havia de acontecer, conta Helena. Por se ter tratado de suicídio, retiraram à sua avó a pensão de viuvez. Ficou sozinha com cinco filhos. A neta conta como este corte sempre foi visto como uma profunda injustiça. A viúva do combatente teve que fazer face a esta situação. “Sei que

trabalhou muito, chegava a fazer muitos quilómetros a pé para chegar aos campos que possuía, e que trabalhava duramente. Chegou a desmaiar,

e a levantar-se novamente, para continuar a trabalhar, pois aquele tipo

de trabalho era demasiado para aquela pequena mulher. À sua maneira, Alice Gaspar Pimentel foi também uma grande lutadora.” Mais tarde, foi o filho mais novo, o pai de Helena Caxide, que já, como oficial militar de carreira, conseguiu que se corrigisse “a lamentável

decisão. Por volta de 1980, a minha avó viu ainda ser corrigido o erro,

e voltou a receber por breves anos a pensão a que tinha direito e lhe recusaram nos anos em que mais precisou”.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família As leituras no chalet rosa Catarina Gomes D esde sempre

As leituras no chalet rosa

Catarina Gomes

D esde sempre que Miguel Alegre, de 18 anos, se lembra de passar boa parte das férias de Verão naquele chalet rosa, na aldeia de Valezim,

no meio da Serra da Estrela. Entre os muitos retratos de antepassados que ali existem havia um que sobressaía e descreve-lhe a figura,

“corpo magro, bigode preto, olhos penetrantes, sempre muito digno”. Conhecia-lhe também o nome: Albano Manuel de Senna Fonseca. Mas o que dava corpo àquela pessoa, que não estava no chalet rosa mas que era como se estivesse,

não estava no chalet rosa mas que era como se estivesse, eram a quantidade de escritos

eram a quantidade de escritos do homem que era seu bisavô e que Miguel encontrava espalhados pela casa, em papéis, cadernos, sebentas, dentro de gavetas cheias de mofo. Desde os seus 12 anos aquelas leituras significaram que, sem sair de casa, sentia estar a ler histórias de aventuras, a descobrir tesouros no meio dos papéis. Depois de tudo o que foi lendo, Miguel Alegre acredita hoje que foram “dois os anos

O bisavô de Miguel Alegre conta nos seus apontamentos que na partida os homens choraram

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família definidores e aglutinadores de toda aquela vida: 1917 e 1918.

definidores e aglutinadores de toda aquela vida: 1917 e 1918. A guerra, involuntária e inadvertidamente, constituía-se como pilar integrador daquela existência. Como poderia uma experiência tão curta influir de tal modo na essência de um homem nascido a 1888 e falecido a 1952?”, escreveu num texto em que reuniu algumas das suas reflexões sobre este bisavô que conta transformar em livro. Sobre a partida para guerra Miguel leu que o bisavô, que era capitão de artilharia, quis chorar: “Entrámos nas carruagens a dissimular as lágrimas escondidas, há quem tenha a pretensão de estar alegre para se ajudar, mas todos se sentem autómatos empurrados por força desconhecida. Entramos no túnel e naquela penumbra de ambiente exterior e interior, ouvem-se os primeiros soluços e, logo a seguir, a voz do meu Comandante Tenente-Coronel Pires Leitão que, a chorar também, nos diz ‘Chorem à vontade, rapazes, que eu também estou a chorar!’ […] Entrávamos em mundo novo. Ia começar a viagem.” Numa recordação de batalha o bisavô de Miguel Alegre relatava que “às 10 e meia da noite, dois bombas de aeroplano inimigo mataram e feriram quase metade dos meus soldados, dos meus melhores soldados. Horríveis os estragos, terríveis os momentos de sofrimento! […] Ficavam no cemitério de Steenbecque os que morreram logo, ficando decepados no acampamento.” Miguel Alegre lembra ao PÚBLICO outra cena escrita que o marcou, e que mostra o que descreve como um momento de “insurreição” e outro de “imoralidade”: “Revolta na Infantaria 7 por não querer mais trincheiras. Retira com os oficiais e passam pelo meu acantonamento em St. Venant. Enchem os ouvidos dos meus soldados […] de frases que preparam para a insubordinação”. Num dos parágrafos que transcreveu para o seu caderno o bisavô descreve uma casa que os militares portugueses encontram abandonada, na povoação francesa de Steenbecque, em que os donos tinham fugido e deixado tudo, “imagens, postais, retratos! Tudo! Até roupas… Que os soldados roubavam e estragavam. Era isto a guerra…”

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família No resto da sua vida, o bisavô Albano Manuel de

No resto da sua vida, o bisavô Albano Manuel de Senna Fonseca pouco falou da guerra em família. As experiências mais marcantes deixou-as no papel e Miguel Alegre agradece-lhe. “Há muita gente que morre e não deixa nada, ele deixou tanta coisa escrita que se acaba por conhece-lo”. Estas leituras de Verão terão contribuído para a sua escolha de estudos. Miguel Alegre está quase de partida para Inglaterra, onde vai começar a tirar História na University College London. Antes disso, ainda vai passar as tradicionais semanas férias ao chalet rosa onde descobriu o que o avô viu e sentiu há mais de 100 anos.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Para inglês ver Catarina Gomes N ão foi na Primeira

Para inglês ver

Catarina Gomes

N ão foi na Primeira Guerra Mundial que nasceu a expressão “para inglês ver” mas ela parecer ter sido talhada para um dos episódios passados na guerra que Gaspar Santos, português que foi oficial médico do Corpo Expedicionário Português em França, mais contava

em família e que os punha a todos a rir lá em casa, contaram ao PÚBLICO a sua neta, Leonor Santos, e o

em casa, contaram ao PÚBLICO a sua neta, Leonor Santos, e o seu filho, Emílio Santos.

seu filho, Emílio Santos. Gaspar Santos esteve em França de Maio de 1917 até Agosto de 1918. Um dia um soldado português foi trazido, sob prisão, por um oficial inglês “por ter andado a roubar sulipas para se aquecer”, aquelas travessas da madeira em que assentam os carris de caminho-de-ferro, explica a neta. O oficial inglês vinha denunciar a grave falha ao oficial português mais graduado, para que tomasse medidas. Gaspar Santos pôs semblante carregado.

Gaspar Santos foi médico em Moçambique e em França

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O tom veemente com que estava a falar ao seu

O tom veemente com que estava a falar ao seu conterrâneo fazia-o parecer solidário com o inglês mas o aparente ralhete foi algo como: “então você deixou-se apanhar pelo inglês, tem que roubar mas não pode deixar que os ingleses o apanhem e não se atreva rir-se”, reconstitui Leonor Santos, que tem 52 anos e ainda conviveu com o avô durante 24 anos. Para Leonor Santos, este episódio cómico é bem o espelho da pessoa que o avô era. “Um homem fantástico, inteligentíssimo”, um militar que se via sobretudo como médico e que distinguia bem entre “ordens estúpidas e ordens inteligentes”, ele fazia por apenas acatar as segundas, diz. “Quando não faziam sentido não eram para se cumprir”. Como oficial, Gaspar Santos tinha uma vida privilegiada face aos soldados, mas conhecia-lhes as dificuldades, conta o filho, sabia bem que as condições miseráveis em que viviam os soldados portugueses, que para se aquecerem até a sulipas de linhas férreas tinham que recorrer. “Foi médico militar até ao resto dos seus dias mas não havia pessoas mais antimilitarista”, lembra o filho. A cena termina com o oficial inglês a agradecer-lhe a reprimenda. Neta e fillho lembram também como ele lhes contava como faziam pouco dos portugueses por andarem agasalhados com as pelicas alentejanas de pele de carneiro e que por causa dessa vestimenta lhes começaram a chamar mé-més. Os franceses também encaravam com estranheza o facto de os portugueses lhes irem às hortas roubar as folhas dos nabos, que eles não aproveitavam. Como estavam incorporados nas tropas inglesas, serviam-lhes rações daquele país, e o que eles queriam era “a sopinha portuguesa”, comenta Emílio Santos. O espírito independente do avô esteve presente até ao fim da vida, conta Leonor Santos. “Quando os netos lhe faziam uma pergunta nunca nos dava a solução, punha-nos a pensar”, andava sempre a dizer-lhes “é preciso exercitar a massa cinzenta”. Leonor Santos lembra que este seu espírito independente esteve presente desde cedo. O avô acabou o curso em 1915 e, nessa altura,

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família escolheu como tese de final de curso a questão do

escolheu como tese de final de curso a questão do aborto como um problema de saúde pública. “O júri não o deixou defender a tese, deram-

lhe uma tese em substituição que já estava feita. A cabeça andava mais à frente do que o seu tempo”. O avô era também membro da Maçonaria.

A família dá mais importância a estas memórias vivas do que aos

objectos que ficaram desse tempo. Mas ainda restam alguns lá por casa, algumas fotos, cartas e postais, o capacete enferrujado, o capote usou-o

filho

ser comidas pelas traças, conta Emílio Santos.

até ficar estragado e as fardas estiveram num baú mas acabaram por

A ida para França, e antes disso (entre 1916 e 1917) a sua colocação no

Norte de Moçambique, onde esteve também durante a Primeira Guerra Mundial com a Cruz Vermelha, serviu indirectamente à família para conhecer os hábitos dos seus antepassados desse tempo. Porque ficou muita da correspondência que a família lhe mandava. Ele era o segundo mais velho de oito irmãos. Se não fosse a guerra talvez Leonor não soubesse tanto de como eram as suas vidas naqueles tempos em Portugal, de como eles viviam em Lisboa e iam passar as suas férias à Trafaria e à Algueirão, que hoje são subúrbios de Lisboa. O avô guardou as muitas cartas que recebia da família e Leonor acha sempre piada ao postalinho do lagarto do Jardim zoológico de Lisboa enviado para França ao irmão que estava na guerra pela irmã mais nova. Com apenas oito ano a pequena Marieta, de oito anos, terminava a carta para o seu “querido Gaspar” com a espontaneidade de quem é criança: “já estou maçada de escrever”.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Um pé ferido salvou-o do massacre de Cuangar Patrícia Carvalho

Um pé ferido salvou-o do massacre de Cuangar

Patrícia Carvalho

A

s histórias que José Joaquim Fernandes contou ao filho, Manuel Leal Fernandes, acabariam por aparecer no livro que este escreveria, muitos anos depois de o pai ter participado, em Angola, na Grande Guerra. Em Angola: As Brumas do Mato, Manuel conta, referindo- se ao pai: “O massacre de Cuangar, lá nas terras do fim do mundo, na imensa Angola, nunca lhe saiu da memória. Aí passara quase dois anos. Um ataque traiçoeiro massacrara amigos e companheiros de armas. Um golpe inesperado num pé que

o

levara a ser evacuado para

o

Hospital de Sá da Bandeira

livrara-o da morte.” José nascera muito longe

do mato africano. Foi em Bismula, Sabugal, que o filho de João Fernandes

e Luísa Nunes nasceu, a

Depois de ter ficado ferido José Joaquim Fernandes levou três meses a ser transportado

e Luísa Nunes nasceu, a Depois de ter ficado ferido José Joaquim Fernandes levou três meses

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família 25 de Maio de 1891. Mas o concelho do interior

25 de Maio de 1891. Mas o concelho do interior do país era demasiado pequeno e apertado para quem aprendera a ler e escrever e tinha sede de aventura. Com 17 anos perdeu a mãe e, a 5 de Agosto de 1911, assentou praça no Regimento de Infantaria 12, na Guarda, e a 12 de Janeiro de 1912 foi incorporado no 1.º Batalhão. A 29 de Abril, finda a instrução, recusa- se a voltar a casa e oferece-se, em vez disso, para substituir um soldado recrutado para África. Por aí andou por Luanda, Moçâmedes, Sá da Bandeira e Cuangar. E foi neste posto fronteiriço que a Grande Guerra o apanhou, já como membro da 1.ª Companhia Europeia de Infantaria de Angola. O soldado português esteve colocado em Cuangar entre 26 de Dezembro de 1912 e 1 de Agosto de 1914, dia em que ficou gravemente ferido num pé e, sem meios de socorro convenientes nas imediações, foi evacuado para o hospital de Sá da Bandeira. O caminho, contudo, foi penoso. José contou ao filho que, transportado num carro de bois, levou três meses a atingir o destino, sempre acompanhado pelo medo de perder o pé e a perna, que se foi aguentando à custa de água, sal e plantas locais. Quando, finalmente, chegou ao hospital, já as tropas alemãs tinham atravessado o rio e atacado o posto fronteiriço, a 31 de Outubro. Morreram 22 pessoas, incluindo dois oficiais, um sargento, cinco soldados europeus e treze africanos, além de dois civis, o comerciante Sousa Machado e uma mulher. Foi no hospital que o português soube do incidente que foi conhecido como “massacre de Cuangar” e também que alguns colegas tinham conseguido sobreviver, fugindo pelo mato. Após a convalescença, José passa a integrar a 4.ª Companhia de Depósito de Angola, a partir de 14 de Maio de 1915 e é aí que aguarda o regresso a Lisboa. Embarca em Moçâmedes, a 18 de Julho, no paquete Zaire, e termina o serviço militar já na capital portuguesa, a 9 de Setembro de 1915, como refere a caderneta militar que Manuel Fernandes fez chegar à investigadora Manuel Portela, do Instituto de

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da

História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O serrano que se voluntariara para ser soldado em África, para conhecer o mundo, acabou por regressar a Bismula e foi aí, na sua casa, que relatou ao filho, vezes sem conta, as histórias vividas na Grande Guerra em África.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O médico que foi para a guerra protegido por uma

O médico que foi para a guerra protegido por uma promessa

Patrícia Carvalho

L

uís António Martins Raposo não tinha qualquer apetência por guerras. Não sonhava em ser soldado nem em combater, de arma ao ombro, nem sequer em ser herói. O que Luís queria era ser médico

e, por isso, é que deixou Caçarelhos, em Vimioso, e rumou ao centro do país, para ingressar na

em Vimioso, e rumou ao centro do país, para ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade

Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Mas a Grande Guerra havia de se intrometer no futuro que, porventura, idealizara, e Luís lá partiu para França, enquanto a sua noiva fazia promessas à santa da aldeia, ansiosa pelo regresso do médico. Nascido a 20 de Maio de 1892, Luís concluiu o curso de Medicina em 1916, o ano da mobilização portuguesa para a guerra. Nas Memórias que escreveu, dedicadas à

A intervenção do médico valeu-lhe

a Cruz de Guerra

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família família, o transmontano recorda esses dias. “Em fins de Abril

família, o transmontano recorda esses dias. “Em fins de Abril do meu 5.º e último ano de Curso (1916) soube na minha aldeia, onde gozava as últimas férias da Páscoa como estudante, que havia sido mobilizado para uma Divisão de Instrução em Tancos. Tratava-se da primeira e até essa altura inocente manifestação da nossa entrada na 1.ª Guerra Mundial”, escreveu o médico. Luís Raposo explica depois como foi “clinicando” na aldeia de Caçarelhos, “para matar o tempo”, até que, no último dia do ano, foi “convocado para a guerra”. O transmontano iria para França como médico do Corpo Expedicionário Português. “Ia, assim, iniciar forçadamente uma carreira para a qual jamais me sentira com vocação”, escreveu, mais tarde, nas suas memórias. O médico descreveu, depois, vários episódios da sua passagem pelas trincheiras, em França. Desde o dia indefinido de Fevereiro em que desembarcou em Brest (“Frio de gelar, como se calcula”), passando pelo percurso até Aire-Sur-La-Lys, em que viveu “três dias de frio e de fome” como não se lembrava de ter passado. Luís traça o trajecto até Quernes, onde permaneceu “até depois do fatídico 9 de Abril” e recorda, depois “com emoção” o baptismo de fogo que experimentou “na noite de Santo António”, a 12 de Junho. “Súbita e inesperadamente os alemães desencadearam um fortíssimo ataque com artilharia, morteiros, metralhadoras e gases asfixiantes, como que a presentear as tropas portuguesas pela sua recente entrada em actividade”, escreveu Luís Raposo. Ele ocupou-se do Posto de Socorro da frente e garante que durante toda a noite não houve “um minuto de descanso, tantos os feridos e gaseados assistidos e tantas as deficiências compreensivelmente verificadas neste primeiro e delicado contacto com a guerra a sério”. Sobre os gaseados que lhe passaram pelas mãos, o médico escreveria: “Dos muitos quadros temerosos e cruéis oferecidos pela guerra foi este, sem dúvida, o mais impressionante.”

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família A intervenção do médico valeu-lhe a Cruz de Guerra e,

A intervenção do médico valeu-lhe a Cruz de Guerra e, em Fevereiro de

1919, Luís Raposo regressava a Portugal, “num navio inglês improvisado de hospital”. À sua espera estava Antónia de Jesus Moreira, a sua noiva. Quando viu o médico partir para a guerra, Antónia dirigiu-se à Nossa Senhora da Batalha, imagem que existia na capela da sua terra, em Peredo, Macedo de Cavaleiros, e fez-lhe uma promessa. Voltasse o seu Luís intacto da guerra e ela, Antónia, vestiria a Santa da Batalha de cetim e ouro.

O vestido branco, debruado a ouro, e o manto azul, também debruado,

foram feitos em Braga ou Penafiel e ainda existem. Quanto a Antónia,

casou com Luís e juntos tiveram três filhos. Luís pôde, então, dedicar-se a exercer Medicina longe da guerra e, ao longo do seu percurso profissional

– como recorda o seu neto Miguel Raposo e outros familiares do médico, em depoimentos compilados pela investigadora Margarida Portela, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa

– foi responsável por instalar em Coimbra uma delegação do Instituto Português de Oncologia. Morreu um mês antes de completar 93 anos.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Só Felizardo foi à guerra Catarina Gomes F elizardo Simões

Só Felizardo foi à guerra

Catarina Gomes

F elizardo Simões e Manuel Simões eram gémeos. Foram os dois mobilizados para a guerra com 27 anos mas, numa revista à formatura, o irmão Manuel pediu ao militar de alta patente que só um deles fosse enviado, “para que ficasse um a ser amparo da mãe”,

que já tinha 71 anos, conta o seu neto, Manuel Simões Rodrigues Marques. O militar em causa compadeceu-se do pedido, chamou o oficial que o acompanhava e disse-lhe para

tomar nota do nome do irmão que fazia o pedido, para que fosse só ele a ir para a guerra. Apesar de serem gémeos, Manuel quis escapar-se e deu o nome do irmão. “Só um foi um para a guerra, mas foi o Felizardo”, lembra o neto que recorda que Manuel Simões sempre foi “o mais descarado dos irmãos”. Já casado e com dois filhos, Felizardo embarcou então para França, no dia 26 de Maio de 1917, com 28 anos de idade, na 1.ª Companhia

26 de Maio de 1917, com 28 anos de idade, na 1.ª Companhia Felizardo Simões escrevia

Felizardo Simões escrevia à família que na guerra havia homens com saias, chamavam-se escoceses

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família do Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro, integrado no

do Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro, integrado no Corpo Expedicionário Português, e por lá andou quase dois anos. Em família diz-se que morreu em 1934 com 47 anos, quinze anos antes de o neto ter nascido. “A família afirmava que ele tinha morrido novo, resultado do gás mostarda que tinha inalado na guerra.” Depois de regressar da ainda teve mais cinco filhos. Nasceram em Albergaria dos Doze, no concelho de Pombal, tendo

o irmão gémeo que ficou, Manuel Simões, mais tarde ido viver para as

Caldas da Rainha. “Houve muita troca de correspondência, que a família

guardou ao longo destes quase 100 anos” e Manuel Simões Rodrigues Marques destaca um excerto: a 30 de Setembro de 1917 escrevia à esposa

um postal, com a fotografia de dois soldados, onde dizia: “Minha querida, saúde, bem assim Amélia e mãe, que eu bem. Envio-te este postal que é para vocês verem que na guerra também andam homens com saias e são os melhores guerreiros. Chama-se escocês e o outro é inglês” “É histórico que tudo correu mal ao Corpo Expedicionário Português e

o avô Felizardo não fugiu à regra, com a suas insubordinações, registadas

na sua Caderneta Militar”, continua a relatar o seu neto. Mas o Estado Português reconheceu que “O Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro foi a Unidade Portuguesa que, com maior persistência e assiduidade, mais cooperou na zona de guerra, onde prestou notáveis e assinalados serviços, em circunstâncias por vezes difíceis e arriscadas e muitas vezes debaixo de fogo da artilharia inimiga”.

A povoação de onde era Felizardo, Albergaria, no concelho de Pombal,

é de solo pobre, a agricultura pouco cultivo dava. Mas com a construção do caminho-de-ferro começaram novos dias. Os dois irmãos foram ambos foram empregados da CP. Mas só Felizardo foi à guerra.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Francisco Diogo não voltou o mesmo Catarina Gomes, Patrícia Carvalho

Francisco Diogo não voltou o mesmo

Catarina Gomes, Patrícia Carvalho

G uarda-os como tesouros, aos seis postais que, como neta mais velha da sua avó, acabaram por ir para às suas mãos naquele dia em que, tinha Alexandra Róldão 17 anos, a avô lhe disse “vai lá tirar ao álbum os que quiseres”.

Os postais de que mais gosta são os bordados à mão, Kisses for my darling, diz um deles. Alguém deve ter dito ao irmão da sua bisavô paterna, Francisco Diogo, o que queriam dizer aquelas palavras em inglês,

“beijos para a minha querida”. Como não tinha namorada, mandou-os às irmãs e à mãe, juntamente com algumas palavras de circunstância

e à mãe, juntamente com algumas palavras de circunstância Alexandra Roldão guarda vários postais enviados pelo

Alexandra Roldão guarda vários postais enviados pelo seu tio bisavó

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família “muito estima que ao receber este bilhete te ia encontrar

“muito estima que ao receber este bilhete te ia encontrar de boa saúde, eu felizmente bem com os meus camaradas”. Seria o tipo de discurso que a censura militar deixaria passar, diz ao PÚBLICO Alexandra Roldão que, é professora de Economia mas que por via deste seu tio bisavó vem lendo sobre o tema. Pouco sabe desse familiar longínquo, mas os postais são a sua ligação

à sua história, isso e umas vagas referências passadas da bisavó, contadas ao seu pai. Sabe-se que regressou da guerra mas que não veio o mesmo. Os gases, dizia a bisavó que tinha sido o gás mostarda, deixaram-lhe marcas para o resto da sua vida, que haveria de ser curta. O seu boletim individual do Corpo Expedicionário Português, preservado no Arquivo Histórico Militar, revela que Francisco Diogo embarcou para França a 20 de Janeiro de 1917. Um mês depois, a 21 de Fevereiro, “baixou a uma ambulância”, por causas desconhecidas, mas de que só teria alta a 31 de Março. Poderá ter sido uma doença adquirida na viagem ou algo que tenha sucedido no treino ou na vida diária, nas marchas difíceis e rigorosas, enuncia a historiadora Margarida Portela, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. Foi apenas o primeiro de vários episódios de doença do soldado que, iria receber tratamentos de saúde pelo menos mais duas vezes. A juntar aos episódios de doença, Francisco viu a sua passagem pela frente de guerra marcada também por histórias de indisciplina, traduzidas em castigos, em três alturas diferentes, o mais grave dos quais o condenou a 15 dias de detenção, já depois do final da guerra,

a 13 de Março de 1919. O jovem soldado cumpriu a pena e foi posto

em liberdade a 3 de Abril, podendo então regressar a casa com os restantes sobreviventes do muito massacrado do Regimento de Infantaria 22, a 25 de Abril. Quando voltou a Portugal ainda casou, comprou uma quinta perto de Lisboa, mas seria dos problemas respiratórios que nunca o

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família abandonaram ou da infidelidade da mulher, a família sabe apenas

abandonaram ou da infidelidade da mulher, a família sabe apenas que se suicidou, enforcado. As razões de ter decidido pôr fim à vida quem tinha conseguido sair da guerra vivo só podem ser feitas de especulação. É o que resta em família, poucos factos, muita imaginação.

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Grande Guerra • Memórias de Família

O sino que não cabia

Catarina Gomes

Memórias de Família O sino que não cabia Catarina Gomes O s dois filhos partiram de

O s dois filhos partiram de Covelo de Gerês para a guerra ao mesmo tempo. A mãe, Carolina Rosa Gonçalves, ficou na aldeia sem nada saber mas decidiu fazer o que podia pelo seu regresso tornando pública a promessa de que, se voltassem os dois filhos sãos e salvos,

mandaria construir o sino que passaria a tocar no campanário a Igreja. São Bento faria por isso. Cada um de sua vez, regressaram, bem. Primeiro Manuel Lopes Pereira, e depois Domingos Lopes Pereira. Fez-se festa para assinalar o seu retorno, mas havia que pagar a promessa.

assinalar o seu retorno, mas havia que pagar a promessa. Todo o dinheiro que a família

Todo o dinheiro que a família tinha não chegava para pagar o sino prometido. Para isso venderam uma terra, um lameiro, que é como se chamam às terras húmidas, que ficava num sítio chamado no Alto da Lomba e lá mandaram então fabricá-lo.

Domingos Lopes Pereira e a sua mulher no dia do casamento

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Uma vez concluído o sino, este devia ser colocado na

Uma vez concluído o sino, este devia ser colocado na igreja, mas era demasiado grande e não entrava no campanário. O milagre, o regresso dos filhos da Casa da Forja, tinha que ser anunciado, dizia a família, disso fazia parte a divida para com São Bento. Reza a história familiar que se mandou rachar um carvalho ao meio e montar uma estrutura de madeira para pendurar o sino, para se poder ouvi-lo tocar. E ele ali terá ficado anos, até que a madeira, carcomida pelo tempo, cedeu e o sino caiu. Ao cair danificou-se e partiu-se, já não badalava, razão pela qual foi então vendido. Manuel Miranda, neto de Manuel Lopes Pereira e trineto de Domingos Lopes Pereira vive fora de Portugal mas quis saber mais sobre esta história da sua família. Na aldeia conseguiu saber que um senhor tinha recebido os restos do sino, tendo-se mandado fazer um novo, agora no nicho. Manuel Miranda contou à historiadora Margarida Portela, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, que em 1913 os dois mancebos partiram, junto com outros jovens de Covêlo do Geres (distrito de Vila Real), para prestarem serviço militar, só depois foram para a guerra, em África e em França. O irmão Manuel Lopes Pereira, nascido a 5 de Junho de 1893, partiu para Angola em 3 de Fevereiro de 1915, desembarcando em Moçâmedes. Da sua estadia ali pouco se sabe. No entanto Manuel Miranda ouviu a história de que, para além dos ataques possíveis dos alemães, a sede era tanta que, um dia, Manuel Lopes terá bebido excrementos de um animal. Sabe-se depois que desembarcou em Lisboa a 15 de Outubro de 1916. Casou no mês seguinte, tendo tido 10 filhos. A guerra na França precisava entretanto de mais homens. Desembarcou em França em 31 de Maio de 1917, onde esteve até ao seu regresso, a 28 de Fevereiro de 1919. Depois da guerra foi sempre agricultor, vivendo em Covelo e trabalhando as suas propriedades, de onde tirava, não sem dificuldades, o rendimento que lhe permitia sustentar a família, contou o seu neto. Tinha dois filhos com deficiência, um deles surdo-mudo. “Manuel Lopes Pereira foi, depois

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família da guerra, um dos muitos esquecidos pelas autoridades, abandonado à

da guerra, um dos muitos esquecidos pelas autoridades, abandonado à sua sorte, sem que lhe tenham alguma vez providenciaram qualquer tipo de melhoria na sua vida, como o não fizeram com tantos outros combatentes por Portuga”, escreve a historiadora Margarida Portela. Viria a falecer, muitos anos depois, em 1990, com 97 anos. Segundo Manuel Miranda, a sua participação no conflito era um grande orgulho, comprovado pela sua dupla condecoração, com medalhas de cobre que atestam operações no sul de Angola, e a sua presença em França, combatendo contra os Alemães em La Lys. Os relatos dizem que chegou à sua aldeia quando se semeava o milho. Seu irmão tornaria algum tempo depois, quando já se cortava o milho. Domingos Lopes Pereira voltava quando se começava já a temer por falta de notícias suas. Tinha embarcado para França em 22 de Abril de 1917, de onde só regressou em 20 de Março de 1918. Teve uma relação por essa altura com uma senhora, do qual teve a sua única filha, falecidas não muitos anos depois em Lisboa. Domingos decidiu-se então a partir para o Brasil, em 1921. Ali casou, às vésperas da sua morte, a 30 de Março de 1931. Na opinião da sua mãe, ele e o irmão, com percursos de vida tão diferentes, contaram sempre com a protecção de São Bento.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O voluntário coberto de medalhas Patrícia Carvalho A José Ribeiro

O voluntário coberto de medalhas

Patrícia Carvalho

A José Ribeiro Barbosa não foi preciso que a guerra o chamasse, para

têxtil, alistou-se como voluntário, ainda antes de fazer 20 anos.

se juntar ao exército. Nascido em Joane, Vila Nova de Famalicão, a 29

de Janeiro de 1887, e oriundo de uma família de industriais da área do

1887, e oriundo de uma família de industriais da área do Por isso, em 1906, já

Por isso, em 1906, já tinha sido integrado no Regimento de Infantaria n.º 8 de Braga e foi aí que fez o curso da Escola do Exército. Em 1911, José Ribeiro Barbosa foi promovido a alferes e dois anos depois a tenente. Já durante a Grande Guerra, em 1917, chegou a capitão e era já essa a patente que ostentava quando, a 22 de Abril de 1917, acompanhou o 1.º Batalhão de Infantaria n.º29 de Braga para França. Os primeiros anos da guerra, entre 1914 e

José Ribeiro esteve colocado em pontos diversos da frente francesa

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família 1916 passara-os numa comissão de serviço, em Cacheu, na Guiné.

1916 passara-os numa comissão de serviço, em Cacheu, na Guiné. A história de José Ribeiro Barbosa foi contada pelo seu neto, Dino Ramalhete, à investigadora Margarida Portela, do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Socias e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Além dos factos recolhidos sobre o avô, Dino Ramalhete apresentou também um conjunto de artefactos cuidadosamente guardados: a espada militar de José, as várias condecorações que recebeu, cartuchos que trouxe para Portugal após

a sua passagem pelas batalhas da Flandres, várias fotografias e até um

recorte do jornal Lusitano, em que a imagem de José Ribeiro Barbosa figura numa secção designada “Galeria da Grande Guerra”. De óculos redondos, bigode e ar afável, o avô de Dino Ramalhete não parece, à primeira vista, o combatente descrito como de uma bravura e coragem dignos de uma medalha. A sua fotografia, não fosse

a farda militar, poderia levar-nos a pensar que estávamos, de facto, na

presença de um homem de paz, e não de um voluntário do exército. As condecorações que recebeu, contudo, não deixam margem para dúvida sobre a sua dedicação ao cargo. Em França, conforme descreveu o neto, José Ribeiro Barbosa participou em diferentes batalhas e esteve colocado em pontos diversos da frente, além de ter sido director da Escola de Esgrima de Baionetas e de ter cursado a Escola de Granadeiros e Metralhadoras Ligeiras. Esteve na primeira linha de defesa do sector Boutillerie (Fleurbaix), onde

o seu batalhão conseguiu repelir um ataque alemão, fazendo vários

prisioneiros, e comandou a 1.ª Companhia de Infantaria, no sector de Ferme de Bois (Richebourg) e em Ferme de Bois II, onde os alemães voltaram a ser travados. Quando o 9 de Abril de 1918 chegou, o dia da célebre Batalha de La Lys, José foi colocado à frente da 2.ª Companhia do Grupo de Ciclistas. Dino Ramalhete não refere se o avô foi, então, feito prisioneiro, mas José Ribeiro Barbosa só regressaria a Portugal a 5 de Junho de 1919, a bordo

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família de um dos navios ingleses que transportou os portugueses de

de um dos navios ingleses que transportou os portugueses de regresso a casa, o Northwestern Miller. Seguiram-se louvores e condecorações, todos destinados a enaltecer o comportamento e o valor do famalicense durante a guerra. “Nada pedia aos seus que não praticasse e não fizesse na frente do combate”, é uma das qualidades atribuídas a José Ribeiro Barbosa e que bem podia servir- lhe de epitáfio. Pela sua participação na Grande Guerra passou a carregar ao peito a Cruz de Guerra, a Medalha da Vitória, a Medalha Comemorativa da Campanha de França “Legenda 1917-1918”, a Cruz Vermelha de Dedicação, a Medalha de Agradecimento da Cruz Vermelha Portuguesa, a Medalha de Prata da Classe de Comportamento Exemplar. De regresso a casa, José Ribeiro Barbosa continuou a sua carreira militar e seria um dos apoiantes do Movimento de 28 de maio de 1926, que iria impor a ditadura em Portugal até 1974. Sob a batuta da ditadura, foi governador civil de Braga durante três anos e recebeu o grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo. Para o famalicense, a vida sob o regime que pôs fim à 1.ª República não iria, contudo, durar muito tempo. Como tantos outros portugueses que passaram pelas trincheiras da Flandres, morreria prematuramente, com apenas 43 anos, em Braga.

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Grande Guerra • Memórias de Família

O cabo português do senhor professor

Catarina Gomes

O cabo português do senhor professor Catarina Gomes Q uem diria que os dotes de carpintaria

Q uem diria que os dotes de carpintaria que António Pereira dos

Santos aprenderia na sua terra, no lugar de Amoínha Nova,

concelho de Valpaços, lhe viriam a ser de valia em tempo de guerra.

O percurso deste 1º cabo, nascido a 1895, contado pelo seu neto, Gil

deste 1º cabo, nascido a 1895, contado pelo seu neto, Gil Manuel Morgado dos Santos, e

Manuel Morgado dos Santos,

e bisneto, Gil Filipe Calvão

Santos, foi feito de percalços.

Esteve na famosa batalha de La Lys, sobreviveu, mas foi lá que pelas 12 horas do dia 9 de Abril de 1918, começou um longo episódio da sua vida em guerra – ali foi capturado pelas forças alemãs. Durante

a guerra, mais de 7 mil

portugueses foram feitos prisioneiros. Ao todo, e ao longo de mais de um ano, teve passagem por cinco locais

António Pereira dos Santos manteve um diário durante o conflito

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família de aprisionamento. Primeiro foi transportado para a prisão de Lille,

de aprisionamento. Primeiro foi transportado para a prisão de Lille, em seguida para Bruxelas, na Bélgica. A 16 de Abril chegou ao campo de prisioneiros de Friedrichsfeld, na região do Rhein, Alemanha; no dia 9 de Maio foi transferido para o campo de Ságan (actual Azagan, na Polónia), onde permaneceu dois meses. Seguiu então para o campo de Heilsberg (actual Lidzbark Warminski, na Polónia), onde ficou apenas quatro dias. A 15 de Julho foi levado para o campo de Stallupönen (actual Nesterov, na Rússia). Havia de ser neste último campo que teria o seu contacto mais marcante com o “inimigo”. Cerca de três semanas depois da sua chegada, um professor procurou no campo alguém que lhe pudesse fazer uns

trabalhos de carpintaria. A sorte calhou ao militar português. A requisição era apenas por alguns dias, mas o professor, a mãe e a irmã – com quem este vivia – simpatizaram com António Pereira dos Santos e, por isso, solicitaram ao oficial responsável pelo campo de Stallupönen que o prisioneiro ficasse até ao final da guerra. “O comandante autorizou a que

o português permanecesse ‘por algum tempo’, avisando o professor de

que, se ele escapasse, ‘não lhe ia ficar barato’”, escreve a historiadora Fátima Mariano, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, a quem os familiares do militar contaram esta história. António Pereira dos Santos ficou então responsável pela lida da casa (excepto a confecção das refeições) e passou até a receber o salário da criada, que entretanto tinha sido despedida. Segundo os familiares deste

1º cabo português, terá sido durante este período que o militar começou

a escrever o seu diário, onde conta a história de como “um professor

prussiano acabou por amenizar os dias de cativeiro de um prisioneiro português”, resume a investigadora. Após a assinatura do Armistício, António Pereira dos Santos é obrigado

a sair de casa do professor e a regressar ao campo de prisioneiros, para poder iniciar a sua viagem de regresso a casa, também ela atribulada. Ainda permaneceu 15 dias em Stallupönen. No início de Dezembro foi

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família transferido para Heilsberg, onde ficou até 3 de Janeiro de

transferido para Heilsberg, onde ficou até 3 de Janeiro de 1919. Neste dia, saiu do campo de prisioneiros inserido num grupo de italianos, fazendo- se passar por um deles. No dia seguinte, estavam em Dantzig (actual Gdansk, na Polónia) de onde, a 8 do mesmo mês, partiu num vapor em direcção a Copenhaga, na Dinamarca. Permanece na região até 22 de Janeiro, altura em que parte para Cherburgo, em França, onde chegou quatro dias mais tarde. Finalmente, a 2 de Fevereiro de 1919 zarpou com destino a Lisboa, onde desembarcou no cais de Alcântara três dias depois. Rumou depois a norte, tendo chegado à sua aldeia natal. Foi com base no seu diário e noutros documentos, fotografias e memórias de conversas passadas que, como forma de homenagem, os seus dois descendentes publicaram, em 2008, o livro que dá conta destas suas atribulações em tempo de guerra. Decidiram chamar-lhe António Pereira dos Santos – De Chaves a Copenhaga – A saga de um combatente. Pouco tempo depois do regresso a casa, António Pereira dos Santos mudou-se para a freguesia de Santa Leocádia, concelho de Chaves, para gerir a casa agrícola de uma tia materna, que enviuvara. Aqui conheceu Carolina Augusta Gomes, oito anos mais velha, com quem casaria a 24 de Outubro de 1921. Viveriam na mesma freguesia até ao fim dos seus dias. Tiveram quatro filhos: dois rapazes e duas raparigas. No diário que chegou até hoje lembra agruras da guerra, recorda com ironia “uma lauta refeição três bolachas e um pouco de carne”. Mesmo apesar de todas as dificuldades este foi talvez o momento mais marcante da sua vida, o que explicará que quando morreu, a 7 de Janeiro de 1976, aos 81 anos, tenha querido ser enterrado com o capote que usou na guerra, para onde partiu com 22 anos, e que usava muitas vezes como almofada.

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Grande Guerra • Memórias de Família

A fotografia que resgatou uma história

de Família A fotografia que resgatou uma história Patrícia Carvalho A fotografia do tenente Aurélio de

Patrícia Carvalho

A fotografia do tenente Aurélio de Mendonça e Pinho estava esquecida

entre papéis, até ao dia em que Nuno Borges de Araújo, casado com

uma prima do militar português, a resgatou, de uma casa de família, na

Guarda. A impressão foto-mecânica mostra um homem em pose, olhos

grandes, bigode e de costas bem direitas, como quem mostra a farda com orgulho.

A legenda que acompanha a

imagem, impressa pela firma Marques Abreu & C.ª, do Porto, explica que quem nos olha é Aurélio de Mendonça e Pinho,

tenente de Artilharia 2, “Morto Heroicamente em França nos combates de 9 d’Abril de 1918”. Nascido a 12 de Junho de 1891, em Açores, Celorico da Beira, Aurélio era filho de José Rodrigues Ferreira de Pinho

e Maria de Jesus Mendonça e

Pinho. Morreu sem ter casado

e sem descendência, pelo

Carlos Ferreira, barbeiro dos oficiais, salvou-se das trincheiras MIGUEL MADEIRA

ter casado e sem descendência, pelo Carlos Ferreira, barbeiro dos oficiais, salvou-se das trincheiras MIGUEL MADEIRA

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família que, quase cem anos depois, a sua memória podia ter

que, quase cem anos depois, a sua memória podia ter sido completamente apagada, não fosse a imagem descoberta por Nuno Borges de Araújo. “Não tenho muita informação sobre ele. A minha sogra é que sabia alguma coisa, mas não muito, também”, diz ao PÚBLICO. Nuno Borges de Araújo contou o pouco que sabia deste parente afastado da esposa à investigadora Margarida Portela, do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciência Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, juntando um rosto ao nome gravado numa das campas do Cemitério Português de Richebourg, em França. Nuno nunca lá esteve, mas descobriu, através do grupo de Facebook Corpo Expedicionário Português 1916-19, que o primo da mulher estava enterrado no talhão D, fila 1, coval 20. Afonso da Silva Maia, que criou o grupo e mora em França, enviou-lhe fotos da campa de Aurélio, com a pedra esverdeada pelos anos. As conversas trocadas nessa página de Facebook permitiram a Nuno

descobrir que o tenente pertencia ao 1º Grupo de Baterias de Artilharia que,

a 9 de Abril de 1918, durante a famosa Batalha de La Lys, estava a poucos

quilómetros da frente, tendo sofrido fortemente com o fogo da artilharia

alemã. Ferido, Aurélio acabaria por não resistir e acabou por perder a vida

a 9 de Abril. “Morreu no mesmo dia em que o meu avô foi feito prisioneiro

pelos alemães, em Lacouture”, diz. Aurélio de Mendonça e Pinho, morto aos 26 anos, ao comando da sua bateria, foi um dos mais de cem mil soldados portugueses que participaram

na Grande Guerra, do Norte de França até África. Quase oito mil homens morreram, incluindo muitos do Corpo Expedicionário Português, enviado para França. Aurélio foi um deles, enquanto o avô de Nuno foi feito prisioneiro. Soldados da mesma guerra, na mesma área de batalha, quem sabe se não se terão conhecido, nas trincheiras enlameadas da Flandres?

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família A lembrança de uma velha senhora francesa que lhe serviu

A lembrança de uma velha senhora francesa que lhe serviu café sob fogo

Catarina Gomes

T inha José Ferreira 20 anos quando foi considerado “apto para o

serviço”. Corria 1915 e ele passava ainda os seus dias a calçar a aldeia

de Lomba, concelho de Paredes (distrito do Porto). Era tamanqueiro

de profissão, um calçado de madeira que era comum entre os mais

um calçado de madeira que era comum entre os mais pobres, e ainda estava longe de

pobres, e ainda estava longe de saber que um dia lhe iriam atribuir o número 321 e fazê-lo embarcar para muito longe dali. Quando é chamado para a instrução ainda tem tempo de pedir uns dias de licença para se casar, a 2 de março de 1917, antes de partir para Brest, a povoação francesa que era para muitos a primeira vez que viam França, a 22 de Julho de 1917. No ano seguinte haveria de ser um dos que participaria naquela que ficou conhecida como a batalha de La Lys. É engraçado que ao neto, Afonso da Silva Maia, pouco tenha contado

José Ferreira sofreu com os gases inalados na frente de batalha

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família sobre o que viveu nesse combate que aconteceu a 9

sobre o que viveu nesse combate que aconteceu a 9 de Abril de 1918. Marcou-o mais a história de uma figura que encontrou quando foram obrigados a fugir da frente, “depois de resistirem o mais que podiam”. Para trás tinham ficado muitos portugueses feitos mortos ou prisioneiros. Debaixo de fogo ele e um camarada, durante uma curta acalmia nos bombardeamentos inimigos, conseguiram abrigo numa casa quase em total ruína, pensando que se encontrava desabitada. Lá dentro consta que

uma velha senhora francesa que, segundo o soldado contou ao neto, lhes ofereceu café e sorriu. A senhora tinha preferido ficar ali a partir com os outros habitantes, por não conseguir nem andar nem deixar a sua casa, contou o neto à historiadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, Margarida Portela. Quando ficam novamente sob fogo – escutam-se bombardeamentos e zumbidos dos tiros de metralhadora – os militares portugueses decidem sair da habitação arruinada. José Ferreira contava sempre que tentaram convencer a velha senhora a fugir com eles mas que ela recusou, convencendo-os eles a serem rápidos a escapar do local. Ainda terá ficado

a vê-los partir, a velha senhora, de uma janela, e no mesmo instante

em que se afastam, a casa é bombardeada e tudo é reduzido a pó. Anos depois José Ferreira contava que considerava aquela velha senhora o seu “anjo da guarda”. O então soldado do Corpo Expedicionário Português desembarcará em Lisboa a 3 de Agosto de 1918. Voltará a Lomba, terá oito filhos com

a mulher, Olinda Torres Maia, com quem mal tinha tido tempo de estar

casado. O neto conta que no resto da sua vida, morre em 1960 com um tumor pulmonar, terá tido sequelas relacionadas com os gases inalados na frente de batalha. Voltará a passar os seus dias a fabricar tamancos.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O soldado que regressou quando já ninguém o esperava Patrícia

O soldado que regressou quando já ninguém o esperava

Patrícia Carvalho

Q uando Francisco do Carmo Laboreiro de Villa-Lobos regressou da

o Armistício e, em Lisboa, o sentimento entre quem lhe guardava

os bens era o de que Francisco teria sido mais uma das vítimas

Grande Guerra já ninguém o esperava. Tinham passado meses desde

mortais do Corpo Expedicionário Português, em França. Por isso, quando o lisboeta desembarcou na capital portuguesa, a 15 de

quando o lisboeta desembarcou na capital portuguesa, a 15 de Abril de 1919, descobriu que todos

Abril de 1919, descobriu que todos os seus bens tinham sido vendidos. Durante uns dias, a sua única posse foi a farda que trazia vestida, e até esta sofreu as consequências do perda dos bens de Francisco – como era proibido usar uniforme militar nas ruas, após o final da guerra, o soldado português teve de substituir os botões e arrancar as divisas da Arma de Infantaria.

Quando voltou Francisco de Villa-Lobos percebeu que lhe tinham vendido todos os seus bens

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Francisco do Carmo Laboreiro de Villa-Lobos nasceu em Lisboa, a

Francisco do Carmo Laboreiro de Villa-Lobos nasceu em Lisboa, a 5 de Fevereiro de 1899. Oriundo de uma família aristocrata com raízes no Alentejano, percebeu cedo que o estatuto familiar não era sinónimo de

felicidade, quando, com apenas 10 anos, ficou órfão. O resto da infância passou-a na casa da avó paterna, com o irmão e as duas irmãs, e, com apenas 16 anos, alistou-se no Exército.

A Grande Guerra já tinha começado e, em breve, os portugueses

haveriam de ser chamados a participar activamente em combate. Francisco embarcou para França a 8 de Agosto de 1917, como soldado da

3.ª Companhia do Batalhão de Infantaria n.º 2. A sua placa de identidade ostentava o número 61239.

O lisboeta haveria de sobreviver à Batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918,

que roubou a vida a tantos portugueses, e antes do final da guerra ainda foi transferido para a 2.ª Companhia do 2.º Batalhão da 5.ª Brigada de Infantaria e, mais tarde, para a 2.ª Companhia do 3.º Batalhão da Brigada do Minho. Após a assinatura do Armistício, a 11 de Novembro de 1918, nos bosques que rodeiam a cidade francesa de Compiègne, Francisco passou para a 2.ª Companhia do Batalhão de Infantaria n.º 14. A Grande Guerra tinha terminado, mas os seus efeitos estavam muito longe do fim. Para Francisco, as provações da guerra incluíram a inalação de gás mostarda, nas trincheiras da Flandres, o que acabaria por lhe afectar a saúde para sempre. A 11 de Abril de 1911, o soldado embarcou no S.S. Nenominée, da Star Lines, rumo a Lisboa. A chegada à capital foi brindada com a surpresa de que já falámos, mas nada que Francisco Villa-Lobos não ultrapassasse. De regresso a casa, Francisco casou com a namorada, Sara, e teve três filhos. Segundo o neto, também de nome Francisco, em memória do avô – e que contou a sua história à investigadora Fátima Mariano, do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa -, a inalação de gás mostarda, na Flandres, acabaria por ditar a morte prematura do soldado português. Com apenas

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família 34 anos, em 1933, Francisco do Carmo Laboreiro de Villa-Lobos

34 anos, em 1933, Francisco do Carmo Laboreiro de Villa-Lobos acabaria por morrer. Está sepultado na cripta do talhão dos Combatentes da Grande Guerra do Cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Em horas de pausa, o médico disparava

Catarina Gomes

Em horas de pausa, o médico disparava Catarina Gomes A vida dos médicos na guerra era

A vida dos médicos na guerra era suposto ser calma, com algum

que conta o neto de José Joaquim Machado Guimarães Júnior é

conforto, na rectaguarda, como acontecia com outros oficiais. O

que essa não era uma vida que tivesse bastado ao avô, que partiu

não era uma vida que tivesse bastado ao avô, que partiu com 27 anos para França,

com 27 anos para França, como voluntário no exército, acabando por fazer parte do Serviço Médico do Corpo Expedicionário Português. Embarcou a 15 de Fevereiro de 1917 rumo a Brest. O neto, Nuno Borges de Araújo, conta que em família sempre se recordou

a sua passagem pela frente

de batalha portuguesa, a

fazer o que era de médico – tratar de feridos e doentes

– mas também, em horas de

pausa, a pegar na sua arma

Joaquim Machado Guimarães Júnior foi louvado por “serviços que não são da sua profissão”

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família e a fazer uso dela. Numa das vezes em que

e a fazer uso dela. Numa das vezes em que isso aconteceu, o tenente-

médico terá ido para a torre de uma igreja semi-arruinada com uma metralhadora, e desse ponto favorável terá morto muitos alemães, não deixando que passassem em direcção à linha portuguesa, contou à historiadora Margarida Portela, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, o seu neto. Dos registos oficiais deste médico natural de Guimarães, descendente

de uma família com tradição na área dos têxteis do vale do Ave, não fazem parte menções directas a estas intervenções não clínicas, até porque tal não faria parte da sua competência na frente e nem deveria ser autorizado

a tal, refere seu neto. Ainda assim, foi louvado em 24 de Outubro de 1917

pelo cumprimento das suas funções e por “serviços que não são da sua profissão”, refere a historiadora. José Joaquim esteve na batalha de La Lys. Foi primeiro dado como desaparecido e depois soube-se do seu cativeiro, tendo sido feito prisioneiro em La Couture, a 9 de Abril de 1918. Segundo o que o próprio tenente-médico relatou aos familiares, quando se viu aprisionado desfez- se dos seus galões e de qualquer identificação que levassem os alemães a julgá-lo oficial. Possivelmente poderá tê-lo feito para evitar interrogatórios ou uma eventual execução. Ele assim aparece, sem sinais de patente, num postal alemão da época que mostra uma coluna de prisioneiros portugueses e ingleses a caminhar com ar desolado. José Joaquim referia ter estado em dois campos de prisioneiros

alemães. Referia ter perdido 30 quilos. As condições eram deploráveis, tendo sempre referido que chegou a lavar a roupa em charcos, para poder manter algumas condições de asseio. Terminada a Guerra, regressou ao Corpo Expedicionário Português a 16 de Janeiro de 1919, vindo da Holanda, como tantos outros prisioneiros que, aos poucos, foram enviados da Alemanha para a França e depois para Portugal. Passou alguns dias em Paris e partiu rumo a Lisboa a bordo do navio inglês Hellenus. Desembarca na capital portuguesa a 29

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família de Janeiro de 1919. Vinha debilitado, refere Nuno Borges de

de Janeiro de 1919. Vinha debilitado, refere Nuno Borges de Araújo. Como resultado dos gaseamentos a que foi sujeito durante o conflito, e em particular no 9 de Abril, a sua voz voltou a mesma. Deixou o Exército em 1941, mas continuou a ser médico em Braga. Morreu em 1952 vítima de um derrame cerebral. Recebeu a mais alta condecoração, a Ordem da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito, “por ter prestado com a maior dedicação e zelo serviços da sua especialidade debaixo de fogo inimigo por ocasião da batalha de 9 de Abril de 1918”. Como mostra o seu registo militar, nesse dia, acompanhou espontaneamente, sob um intenso bombardeamento, uma companhia que se dirigia para um posto a ocupar, fazendo pensos aos feridos durante todo o trajecto que efectuou, refere a historiadora Margarida Portela. Curioso é referir que se recusou a pagar pela medalha, como lhe pediam, ficando apenas com o papel que lha concedia. Dizia que “se lhe tinham atribuído a mesma, uma vez ganha lhe devia ser dada e não paga”.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O enigma do tio António Catarina Gomes S empre se

O enigma do tio António

Catarina Gomes

S empre se ouviu falar do “tio António” lá em casa. Havia dele uma foto e uma história longínqua de que tinha estado a lutar em França na Primeira Guerra Mundial, sabia-se que tinha morrido, mas não

se sabia onde estava o seu corpo. Mas na família tinha sido passada,

de geração em geração, a obrigação de nunca o esquecer, a este tio que era uma figura quase fantasmagórica. A mãe do militar, Aparecida, tinha passado esse dever de lembrança ao seu filho, Manuel Domingos Francisco e este, por sua vez, tinha-o feito aos seus quatro filhos.

e este, por sua vez, tinha-o feito aos seus quatro filhos. Só cerca de 100 anos

Só cerca de 100 anos depois do conflito é que a família descobriu a campa de António Francisco

MIGUEL MADEIRA

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Para o mais novo dos quatro, José, o único nascido

Para o mais novo dos quatro, José, o único nascido já em França, para onde o pai emigrou no início dos anos 1960, o tio António ajudou-o. Na sua infância e adolescência no país que era o seu mas não era bem, chegou a surgir-lhe como resposta pronta sempre que ouvia um

comentário xenófobo, do estilo «os portugueses vieram para França ‘tirar

o pão aos franceses’”. Ele retorquia com essa figura quase mítica, um tio

português que tinha desaparecido em França a defendê-los também a eles, aos franceses, contou ao jornal Le Monde. “Quando eu era pequeno o meu pai falava-me muito do tio António. Mostrou-me uma foto dele, tirada em 1916. Ele sonhava saber onde ele estava”. O que se sabia era que tinha saído de Lisboa a 21 de Outubro de 1917, um dos cerca de 50 mil homens enviados pelo governo português para França a partir de 1917. Nunca deu notícias,

era analfabeto. Depois do Armísticio, a família esperou-o em Alcaria do Coelho, uma aldeia do distrito de Beja. Uma carta expedida da Bélgica, com uma mecha de cabelo e umas palavras em francês, que a professora da aldeia traduziu, anunciavam que António tinha morrido de peritonite num hospital de Liège, a 22 de Janeiro de 1919, com 25 anos. Os pais de Francisco morreram sem nunca saberem onde foi enterrado o filho. Foi José, hoje com 44 anos, quem deslindou o mistério do tio desaparecido. Tornou-se professor de liceu e com os estudos que

o pai não teve e a ajuda da Internet andou à procura do tio-avô.

Descobriu primeiro os seus papéis militares, mas não o sítio onde estariam os seus restos mortais. Durante a sua pesquisa soube que havia um cemitério onde os portugueses tinham sido enterrados, foi até lá em Fevereiro deste ano. “Olhou por cima do muro e a primeira campa na qual o meu olhar caiu, na primeira fila à esquerda, estava o nome António Francisco”. Encontrou o tio avô. Ligou ao pai, Manuel Domingos Francisco, hoje com 90 anos, e sentiu-lhe a voz a tremer do outro lado da linha.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Foi no cemitério de Richebourg que ao jornalista do Le

Foi no cemitério de Richebourg que ao jornalista do Le Monde, Benoît Hopquin, o foi encontrar, a 9 de Abril deste ano, na primeira vez que viu a campa do tio António, uma das 1830 estrelas que têm escrito “morto pela pátria”. Um enigma familiar que demorou quase um século a ser deslindado.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família A última fotografia Catarina Gomes P edia desculpa à irmã

A última fotografia

Catarina Gomes

P edia desculpa à irmã por eventualmente não estar muito bem na fotografia e poder não lhe agradar o retrato, a culpa não era sua mas sim da má qualidade dos fotógrafos na frente, escrevia. O soldado Francisco Carolino surgia assim fardado, luvas colocadas, bornal a

tiracolo, em pose, apenas as botas enlameadas e o chão de terra retiravam à foto tornada postal (no verso escrevia estas suas considerações) alguma da solenidade que o fotografado provavelmente lhe quis dar. Tem o

que o fotografado provavelmente lhe quis dar. Tem o 75 cigarro na mão que tem encostada

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cigarro na mão que tem encostada a um banco alto de pau onde, pousado sobre um pano branco, repousa um

livro, um cenário fotográfico típico para a época. Enviada de França a 20 de Fevereiro de 1918, para

a sua irmã, cujo nome não

menciona, esta ficará sendo

a última foto em vida deste

soldado e as últimas notícias que a sua família receberá dele. Atestam os dados do Arquivo Histórico Militar, recolhidos pela historiadora

Francisco Carolino foi um dos cerca de 8 mil portugueses que morreram no conflito

Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família do Instituto de História Conteporânea da Universidade Nova de Lisboa,

do Instituto de História Conteporânea da Universidade Nova de Lisboa, Margarida Portela, que o soldado nº 528, pertencente a Infantaria 17, terá morrido umas duas semanas após o dia da fotografia, a 9 de Abril de 1918. Perdia assim a vida, solteiro, aos 24 anos, um dos quase 8 mil homens portugueses que perderam a vida durante este conflito. Todos os seus nomes podem ser consultados num memorial virtual desenvolvido pelo Arquivo Histórico Militar. Nascido a 10 de Novembro de 1894 no concelho alentejano de Moura, morador na Rua do Rei, Sobral da Adiça, filho de Manuel Francisco Ribeiro e Carolina Maria, Francisco Carolino fez parte do Corpo Expedicionário Português em França, para onde partiu a 8 de Agosto de 1917. Estas são as palavras da missiva, tal qual as escreveu, que o relator desta história, Rui Santos Vargas, fez chegar ao Instituto de História Contemporânea: Minha quirida [querida] e nunca esqueçida [esquecida] irmã do meu coração dizeijo [desejo] que ao riçeberes [receberes] deste meu ritrato tevá [retrato te vá] encontrar gozando uma perfeita e filis saude [feliz saúde] em companhia do mano Antonio e das minhas sobrinhas e de toda a familia. Querida irmã, eu te ofereço o meu ritrato [retrato] não sei se ficaras contente se não desculpa, de serem tão mal teradas e [tiradas é] porque o ritratistas [os retratistas] são ruins por hoje nada mais a gora da [agora dá] saudades ao mano Antonio Jose ao mano Francisco á mana Maria e vizinhos ás minhas sobrinhas e saudades ás tuas cunhadas e ao teu sogro e beijinhos ás minhas sobrinhas e a gora [agora] tu minha quirida [querida] e nunca esquecida irmã riçebi [recebe] muitos abraços deste teu irmão que te dizeja [deseja] ver e não te pode ter junto. Francisco Carolino. Espero resposta na volta do correio”.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O velho guerreiro Patrícia Carvalho L uís Veríssimo d’Azevedo não

O velho guerreiro

Patrícia Carvalho

L uís Veríssimo d’Azevedo não era um jovem inexperiente quando partiu para a frente de guerra, em França. Nascido a 21 de Maio de 1866, em Leiria, Luís não só tinha idade suficiente para ter sido louvado por um rei português, pelo seu “selo e dedicação” no cargo

de professor da Escola Central de Sargentos da Arma de Infantaria, como já estava casado pela terceira vez. A sua vida militar tinha começado a 21 de Janeiro de 1886, quando se voluntariou para o Regimento de Infantaria 23. Daí até partir para França, já como major, passariam décadas e vários cargos. Quando embarca para França, a 20 de Junho de 1917, fá-lo como membro

do Estado-Maior da Artilharia

de 1917, fá-lo como membro do Estado-Maior da Artilharia e como responsável pelo 1.º G.B.M. (Grupo

e como responsável pelo 1.º

G.B.M. (Grupo de Baterias de Morteiro), do qual seria nomeado comandante a 5 de Setembro desse ano. Na véspera de Natal de 1917, começa a gozar uma licença

de 25 dias e, quando regressa

à frente, em Janeiro de 1918,

Luís Veríssimo d’Azevedo estava casado pela terceira vez quando partiu para a frente

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família atribuem-lhe o comando interino da 1.ª Divisão. O seu desempenho

atribuem-lhe o comando interino da 1.ª Divisão. O seu desempenho foi notado e conduziu à sua promoção a tenente-coronel, ainda em Fevereiro, mas é a partir de Março, com o início da poderosa ofensiva alemã contra as linhas portuguesa e britânica que os louvores voltam a marcar a sua carreira. Na sua ficha de combate, está referido: “Louvado pela forma como executou o bombardeamento das posições inimigas pelas 5 horas do dia 9 de Março, neutralizando a maior parte das baterias, pela excelente preparação do raid, pela maneira como as baterias do seu comando fecharam a barragem a coberto da qual a infantaria pôde operar.” O mesmo texto seria utilizado para referir uma intervenção similar dez dias depois, a 19 de Março. O sobrinho-bisneto do português, Ricardo Charters d’Azevedo, que levou a história do tenente-coronel à investigador Margarida Portela, do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, contou que Luís conseguiu manobrar a artilharia sob o seu comando, em pleno combate, sem provocar qualquer baixo nos soldados do Corpo Expedicionário Português. Luís Veríssimo d’Azevedo também participaria na Batalha de La Lys e, de novo, voltaria a ser louvado, recebendo diversas condecorações. Recebeu a medalha comemorativa da Campanha de França e foi condecorado pelo rei Jorge V, de Inglaterra, com a Croix de Guerre avec Palme. A 3 de Maio de 1920 foi ainda agraciado com a medalha inglesa “Officer of the British Empire”. Na recta final da guerra, o tenente-coronel foi ainda nomeado presidente do júri do Tribunal de Guerra em 24 de Junho de 1918, cargo que exerceu até 21 de Julho e, posteriormente, comandante militar de Chebourg. Com a assinatura do Armistício, Luís Veríssimo d’Azevedo não regressaria a Portugal de imediato, tendo permanecido em França até 1920, provavelmente envolvido no repatriamento dos combatentes portugueses. Embarcou, finalmente, rumo a Lisboa, 8 de Fevereiro de 1920, no navio Pedro Nunes.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O tenente-coronel iria reformar-se em 1936, antes de se iniciar

O tenente-coronel iria reformar-se em 1936, antes de se iniciar o segundo conflito militar que atravessaria a sua vida. Morreu em plena II Guerra Mundial, a 31 de Maio de 1942, com 76 anos. Os seus louvores, em Portugal e no estrangeiro, descrevem-no como “um oficial zeloso, muito competente, muito cumpridor, enérgico e disciplinador”.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O soldado que se revoltou, já depois da guerra Patrícia

O soldado que se revoltou, já depois da guerra

Patrícia Carvalho

M

anuel da Piedade era daqueles homens para quem as suas povoações são demasiado pequenas para satisfazer os seus sonhos. Nascido em Britiande, Lamego, a 27 de Junho de 1893, quis conhecer o mundo para lá dos limites da pequena vila e, assim acredita a família, foi essa a razão para se alistar no exército. O desejo levou-o tão longe quanto Angola, para onde partiu como soldado artilheiro. Viveu a Grande Guerra em África, mas também na Europa, como atestam as fotografias guardadas pelo seu neto, Manuel Mesquita, e que integram

o espólio disponibilizado

à investigadora Margarida

Portela, do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências

Manuel da Piedade veio a ser castigado como opositor à ditadura

de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Manuel da Piedade veio a ser castigado como opositor

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, para o

Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, para o projecto Portugal 1914-18. Manuel Mesquita não sabe muito da vida do avô durante a guerra, mas sabe que o 2.º Sargente possuía uma condecoração militar, com referência à sua participação na guerra no Sul de Angola 1914-15 e em França 1917-18. Manuel da Piedade recebeu ainda a Medalha da Vitória e, segundo o neto, foi-lhe atribuída uma medalha de Mérito Militar de 3.ª Classe, em cobre. Apesar de a família não ter esta última peça, Manuel Mesquita não tem grandes dúvidas sobre a sua existência. “Posso (quase) confirmar, por testemunho de minha mãe, que o ouviu dizer a meu avô, que lhe tinha sido atribuída essa medalha, mas que nunca lhe tinha sido imposta em cerimónia oficial, por não ser bem quisto”, explica ao PÚBLICO o neto do militar.

É que, entretanto, a guerra acabara, mas não a vida militar de

Manuel da Piedade, e esta não se desenvolveu como o regime ditatorial, introduzido no país a 28 de Maio de 1926, o desejava.

O antigo soldado da I Guerra Mundial estava aquartelado na

Figueira da Foz quando, a 3 de Fevereiro de 1927 decidiu avançar, com os seus companheiros, para o Porto, para ajudar à revolta contra a ditadura. Piedade tomou assim parte no que ficou conhecido como

o “pronunciamento da Mealhada” e, por isso, seria condenado, em

Tribunal Militar, a sete anos de degredo em Angola. Manuel da Piedade teria, contudo, parte da pena comutada, numa

amnistia, e, em 1930, estava de regresso a Portugal, onde casou com Maria Pestana Simões, a 17 de Fevereiro. A mãe de Manuel Mesquita seria

a única filha do casal. O 2.º sargento ainda prestaria algum serviço em

Coimbra, nos anos de 1934 e 1935, mas o facto de ser visto como opositor não lhe dava qualquer expectativa de uma carreira militar – nunca mais foi promovido e, em 1937, foi reformado compulsivamente. Depois disto, Piedade continuou a não ter a vida facilitada, graças

à sua conotação anti-regime, e só encontraria alguma estabilidade

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família financeira quando foi convidado a participar como sócio na sociedade

financeira quando foi convidado a participar como sócio na sociedade que iria explorar o Café Nicola na Figueira da Foz. Foi nessa sucursal do famoso café lisboeta, como gerente, que Manuel da Piedade se manteve até à reforma. Morreria a 6 de Junho de 1977, mas antes ainda procurou alguma justiça para a sua carreira militar. Após o 25 de Abril de 1974 pediu ao Estado “o que considerava que lhe era devido”, diz o neto, e conseguiu, desta forma, obter a pensão devida como combatente.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Um médico na rectaguarda Catarina Gomes “24 de Março de

Um médico na rectaguarda

Catarina Gomes

“24 de Março de 1917: É um sábado, um dia triste apesar da extrema claridade do céu. De manhã ainda uns últimos retoques nas malas, umas visitas de fugida, combinar umas determinações e andar ligeiro, pois o tempo, como

um cavalo, marcha impávido até à hora de partida. Nunca se passou um dia tão rapidamente. Uma tristeza imensa me dominava por ter que deixar os meus queridos, Deus sabe por quanto tempo e se para sempre!

meus queridos, Deus sabe por quanto tempo e se para sempre! 83 Minha mulher! Minha filha

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Minha mulher! Minha filha querida! Meus pais! Tornar- vos-ei a ver???”. Assim escreve Raúl de Carvalho, nascido em 1888, na primeira entrada do seu pormenorizado diário, em vésperas de partir para a guerra, em França, na sua qualidade de médico analista. A viagem até Paris demorará duas semanas. Teve uma passagem pela guerra calma, resguardado dos conflitos, primeiro na estância balnear de Paris-Plage, com outros

Raúl de Carvalho deixou vários cadernos com as suas impressões do seu tempo de guerra

Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família médicos. Como ainda não havia um hospital português pouco mais

médicos. Como ainda não havia um hospital português pouco mais podem fazer do que vacinar tropas e tratá-las de doenças venéreas, escreve a historiadora Margarida Magalhães Ramalho, que organizou as suas memórias em forma de um livro que se ficou a chamar Quando Raúl foi à guerra (edições Matéria Prima). Depois é destacado para Calais, onde a guerra, com os seus bombardeamentos, já se torna presente no seu dia-a-dia. Perto de Calais, em Ambleteuse chefia o laboratório de um hospital militar Os seus relatos não são sobre questões militares ou a vida nas

trincheiras. “Homem meticuloso por natureza” deixa nos seus quatro organizados cadernos as suas impressões pessoais de tudo um pouco, das pequenas intrigas e desavenças entre oficiais, ao que comiam, ao preço das coisas, a sua opinião sobre as mulheres locais. Lamenta, por exemplo, as mulheres francesas que, com o marido fora na guerra, se prostituem, culpando tanto a elas como aos homens que as procuram, aconselhando antes: “há tanta mulher não casada que pode satisfazer os nossos desejos sem que a gente a faça pecar tão grandemente e sem que nós fiquemos tão mal com a nossa consciência”. A última entrada do diário é de 8 de Outubro de 1917: “Passei a noite a fazer o resto das malas que estavam quase todas concluídas. Grande alegria é esta de fazer as malas para partirmos para o pé dos nossos queridos; o coração parece que me não cabia no peito, caramba! Deitei- me, sempre a pensar na felicidade de ir ver os meus”. A família desconhece se terá voltado a França depois destes primeiros sete meses de permanência na guerra (os diários são apenas deste período). De volta a Lisboa, Raúl de Carvalho vai enveredar definitivamente pela área farmacêutica e, em 1923, será o primeiro português a ter um doutoramento em Farmácia. A historiadora Margarida Magalhães Ramalho foi amiga da família de Raúl Carvalho, que vivia em Lisboa, e conheceu de perto “este velho senhor de barbicha branca que

guardava e catalogava tudo o que

encontrava, desde recortes de jornais

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família a bocados de lápis ou pedaços de cordel. Tornou-se definitivamente

a bocados de lápis ou pedaços de cordel. Tornou-se definitivamente para mim, o avô Raúl, cujas excentricidades e manias ainda hoje fazem sorrir os seus bisnetos e trinetos”, escreve no prefácio do livro.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Um alentejano na frente de guerra

Patrícia Carvalho

Um alentejano na frente de guerra Patrícia Carvalho A Grande Guerra já se aproximava do fim

A Grande Guerra já se aproximava do fim quando, a 6 de Setembro de 1918, Dimas José Rosado enviou ao irmão, Leandro José Rosado, soldado condutor do Corpo Expedicionário Português, uma fotografia de corpo inteiro. Com uns bigodes de fazer inveja, relógio

preso com a corrente no colete e a mão a repousar sobre uma cadeira em que está pousado um vaso, Dimas chegava assim às mãos do irmão, com um recado escrito no verso: “Offreço [Ofereço] ao meu mano Leandro esta

no verso: “Offreço [Ofereço] ao meu mano Leandro esta minha futugrafia [fotografia] como prova de recordação

minha futugrafia [fotografia] como prova de recordação e da amizade. Dimas José Rosado.” A letra, redonda e floreada, deixava ainda espaço para identificar o local onde Leandro receberia a imagem:

“Front em Vermelles 6 de Setembro de 1918. França”. Os dois irmãos eram filhos de Domingos Rosado e Violante Jesus e nasceram na Gafanhoeira, Arraiolos, distrito de Évora. Leandro foi recrutado a 29 de Julho de 1915, quando o pai já tinha morrido, e era, na altura, solteiro. Integrado no contingente do distrito de Évora, concluiu a recruta a 4 de Junho de

Fotografia-postal que Dimas José Rosado enviou ao seu irmão

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família 1916, passando a fazer parte do quadro permanente. Vinte dias

1916, passando a fazer parte do quadro permanente. Vinte dias depois passou no exame do curso de instrução elementar, tendo dado provas de que sabia ler, escrever e contar. Sem estas capacidades, Leandro não poderia ter sido o soldado condutor n.º 425, mas talvez tivesse partido para França com outras funções. Assim, foi mesmo como soldado condutor que o alentejano integrou o C.E.P., conforme contou o seu sobrinho-bisneto, Paulo Rosado, à investigadora Margarida Portela, do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Leandro Rosado embarcou para França a 20 de Abril de 1917, como membro do 4.º Grupo de Bateria de Artilharia (4.º G.B.A.) e a 1 de Novembro desse ano concluiu a formação na Escola de Morteiros e Metralhadoras. Pela documentação que recolheu, o sobrinho-bisneto de Leandra acredita que esteve em Vermelles (como está escrito na fotografia que Dimas enviou para França), mas que participou também em operações de guerra desde La Bassée até à ocupação do Escalda, no sector de La Tournai (Bélgica). Louvado pelo “zelo, dedicação e coragem” durante o serviço, o alentejano regressou a Portugal a 19 de Maio de 1919, passando à reserva. Só iria receber a baixa definitiva do serviço a 31 de Dezembro de 1944, já um outro conflito de proporções catastróficas, a II Guerra Mundial, se aproximava do fim. Do que recolheu da história familiar, Paulo Rosado diz que o tio-bisavô terá casado com Rosa Guedelha, mas que o casal nunca teve filhos. A família acredita que Leandro poderá ter estado sujeito aos efeitos de gases, como o gás mostarda, usados durante a Grande Guerra, associando os problemas respiratórios de que ele padecia a essa situação. Do relato de Paulo Rosado não consta a data de nascimento nem da morte do soldado condutor alentejano.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família A uma madrinha de guerra Catarina Gomes P ouco se

A uma madrinha de guerra

Catarina Gomes

P ouco se sabe do combatente Pedro Augusto Soares que terá estado, segundo consta, em França, como membro do Corpo

Expedicionário Português. O que restou da sua partipação é apenas este postal-fotografia que dirige à sua madrinha de guerra.

Nele, Pedro Augusto Soares remete a sua profunda amizade àquela

que, em Portugal, esperaria uma palavra sua e lhe enviaria umas linhas de consolo e amparo em horas mais difíceis. “Seu affilhado de guerra, Pedro Augusto Soares.

“Seu affilhado de guerra, Pedro Augusto Soares. Minha madrinha Ofereço-te o meu retrato como prova

Minha madrinha Ofereço-te o meu retrato como prova d´amizade tem a desculpar em ser tam ensegneficante lembrança.» Na fotografia postal surge o soldado combatente totalmente fardado, pousando em pé para uma fotografia tradicional na sua época, junto de uma mesa. O postal pertence a Nuno Borges de Araújo, é de um familiar distante da sua mulher, de quem pouco se sabe.

Pedro Augusto Soares manda esta imagem para a sua madrinha de guerra

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família No imaginário português o termo madrinha de guerra surge sobretudo

No imaginário português o termo madrinha de guerra surge sobretudo associado à Guerra Colonial, mas o nascimento desta figura feminina

a quem, na prática, cabia animar o espírito do combatente, nasceu em

França precisamente na Primeira Guerra Mundial. São deste conflito os primeiros afilhados de guerra. As madrinhas de guerra foram introduzidas em Portugal pela associação Assistência das Portuguesas às Vítimas da Guerra, presidida

pela condessa de Ficalho, uma organização católica e monárquica. Desempenharam um papel de relevo na sua actividade mulheres como

a Maria Amélia de Carvalho Burnay, Maria Josefa de Melo e Maria van

Zeller. Apostou na formação de enfermeiras, contando com a colaboração técnica de Reinaldo dos Santos e Domítilia de Carvalho, contribuindo bastante para a constituição do Grupo Auxiliar das Damas Enfermeiras. Do ponto de vista assistencial, preocupava-se com o apoio às famílias dos soldados, promovendo, em 1917, a iniciativa “Venda da Flor”, através da qual foi possível recolher fundos importantes, referem informações disponíveis no portal sobre a Primeira Guerra Mundial do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. A Cruzada das Mulheres Portuguesas acabaria por também adoptar esta figura com receio de que as mulheres católicas, através das cartas trocadas com os seus afilhados de guerra, os doutrinassem na religião católica.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família As histórias do avô prisioneiro de guerra Filomena Lança M

As histórias do avô prisioneiro de guerra

Filomena Lança

M uitos anos depois de ter voltado, Aniceto José gostava de se sentar

no canto da chaminé, na sua casa do monte alentejano, a beber

chá e a contar histórias aos netos. Sabia muitas, e por vezes

contava-nos também coisas do tempo da Grande Guerra.

vezes contava-nos também coisas do tempo da Grande Guerra. De como o frio apertava nas trincheiras

De como o frio apertava nas trincheiras e os soldados comiam sopa aguada dentro dos capacetes que usavam na cabeça. E dos alemães, que o fizeram prisioneiro na batalha de La Lys e que, no fim de contas, assim lhe salvaram a vida. Era o herói da família, este avô que nunca matou ninguém porque lhe deram

a tarefa de maqueiro e que a

família deu como morto, mas que conseguiu regressar são

e salvo da maior aventura da sua vida.

Aniceto José fotografado com a sua farda

de militar MIGUEL MADEIRA

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Aniceto José nasceu em 1895 na aldeia da Trindade, entre

Aniceto José nasceu em 1895 na aldeia da Trindade, entre Beja e Castro

Verde, no coração do Alentejo. Era ainda adolescente quando lhe morreu

o

pai e habituou-se desde cedo a trabalhar na lavoura e a cuidar da mãe

e

das cinco irmãs. Tinha 20 anos quando foi chamado a fazer a tropa e

22 quando, num dia que nós imaginamos cinzento e chuvoso, partiu do

monte da Caxia, onde então vivia, para o comboio que o haveria de levar

a Lisboa para embarcar para a Flandres.

A partida esteve longe de ser pacífica. Houve quem desertasse e quem simplesmente lhe desse para andar pela cidade, onde, quase de certeza,

a maioria nunca tinha estado. O avô contava que muitos embarcaram à

força, “por ordem do Sidónio Pais, que os vendeu a todos aos ingleses por uma libra por cabeça”. Não era homem de ligar muito à política, mas do Sidónio Pais nunca gostou. Os recrutas de Beja integraram o Regimento de Infantaria 17 do corpo Expedicionário Português (CEP), que embarcou para França a 21 de Agosto de 1917. Ninguém sabia muito bem o que iria encontrar, mas era certo que não seria bom e o avô Aniceto haveria de levar o coração na boca. Mesmo aos netos, que o consideravam um herói, reconheceu muitas vezes o medo que teve, que todos tinham, escondidos nas trincheiras à espera dos bombardeamentos alemães. Nunca matou ninguém, mas viu a morte de frente tantas vezes, que lhes perdeu a conta, porque, como maqueiro, tinha de recolher do campo de batalha os mortos e os feridos. Disso não gostava muito de falar. Preferia contar

coisas sobre os alemães, que o fizeram prisioneiro a 9 de Abril de 1918, na histórica batalha de La Lys Esteve oito meses em Wesel, junto à fronteira com a Holanda onde, nas margens do Reno, ficava o campo de prisioneiros de guerra de Friedrichsfeld. Desse tempo sobreviveu um postal, enviado à mãe, Joaquina Maria: “Minha querida mãe, muito lhe desejo a sua saúde e bem

e assim como as minhas manas e meus sobrinhos e toda a nossa família

que me pertence, que este seu filho goza saúde. Minha mãe, peço que me

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família diga as novidades. Sem mais, abrace muito as minhas manas

diga as novidades. Sem mais, abrace muito as minhas manas e recomende

a toda a nossa vizinhança. Aniceto José” Aprendeu a ler na tropa, mas pedia a alguém que lhe escrevesse as cartas. E foi isso que deu origem a uma grande confusão, que levaria a família a dá-lo como morto: num outro postal que chegou ao Alentejo, lia-se que ele estava “na companhia do padrinho”, que também tinha ido para a guerra. Acontece que, pouco tempo antes, chegara a notícia de que

o padrinho tinha morrido, pelo que a família pensou que aquela era uma

forma de os colegas contornarem a censura que se fazia à correspondência

dos prisioneiros e assim lhe dizerem que ele estava morto.

Aniceto regressou a Portugal a 18 de Janeiro de 1919, poucos dias depois de fazer 24 anos. Pediu a um compadre que fosse à frente, dar a notícia

à mãe e às irmãs e assim evitar comoções, mas entre nós, os netos,

imaginávamo-lo a chegar ao monte em apoteose, com as manas ainda de luto, a abraçá-lo e a desmaiarem de emoção. Voltou à sua vida de lavrador, casou com Bárbara da Lança Palma

e tiveram seis filhos, 10 netos, 13 bisnetos e quatro trinetos. Morreu tranquilamente, durante o sono, aos 88 anos.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Um poeta nas trincheiras Luís Miguel Queirós O 2.º sargento

Um poeta nas trincheiras

Luís Miguel Queirós

O 2.º sargento José Alagoinha, enviado para as trincheiras da Flandres

em Abril de 1917, era um patriota e era um poeta. Num caderno

de campanha que levava para todo o lado, lêem-se estas quadras,

parte de um extenso poema com data de 26 de Julho de 1918, que

transcrevemos actualizando apenas a ortografia: “(…)Os portugueses na guerra/ Têm sido muito gabados/ Não deixam mal a terra/ Dos nossos antepassados. // Os pequenos portugueses/ Não receiam combater/ Noite

e dia quantas vezes/ Sem dormir e sem comer. (…)”.

Noite e dia quantas vezes/ Sem dormir e sem comer. (…)”. José Alagoinha com seus companheiros

José Alagoinha com seus companheiros em França MIGUEL MADEIRA

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Alagoinha sabia que “Todos esperam o dia/Do fim à guerra

Alagoinha sabia que “Todos esperam o dia/Do fim à guerra ser dado”, como escreve no mesmo poema, mas enquanto esse dia não chegasse, havia que não fazer má figura. Foi o seu caso, a julgar pela documentação militar, que só regista louvores e que nada tem a apontar-lhe no capítulo disciplinar. Era um homem sério e que estava interessado em seguir a carreira militar. Mas também não lhe faltava humor, e talvez isso o tenha ajudado a chegar à provecta idade de 96 anos. Num outro poema do seu diário, dá divertida conta dos progressos que ia fazendo na aprendizagem da língua de Victor Hugo, que talvez treinasse com as “amigas francesas” cujas moradas – segundo contou ao PÚBLICO o seu bisneto José Luís Albuquerque Ferreira –, constavam do seu caderno, a par de “poemas, letras de canções que cantavam nas trincheiras” ou ainda relações das quantidades de alimentos (“batata, arroz, banha”) de que o seu grupo dispunha para vários dias. “Dire dizem que é dizer/ Voir dizem que é ver/ Joli dizem que é bonito/ Palavreado tão esquisito/ Não consigo compreender// Água chamam-lhe de l’eau/ Conquistador conquerant/ Não faz mal ça ne fait rien/, O belo dizem que é beau/ Ao novo chamam nouveau/ Être arrivé ser chegado/ Boire dizem que é beber/ E não consigo compreender/ Porque tudo está mudado”, verseja Alagoinha num poema datado de “Brest, 20 de Agosto de 1918”. Coma ajuda dos documentos que a família conservou e das informações prestadas pelo seu bisneto – que teve o privilégio pouco comum de ter podido conviver com o seu bisavô até aos 15 ou 16 anos –, a investigadora Margarida Portela reconstituiu o percurso deste soldado português da I Guerra. Nascido a 4 de Novembro de 1894 na Quinta do Carmo, em Estremoz, foi alistado, como já se disse, em 1914. Promovido em 1916, era já 2.º sargento quando embarcou rumo a Brest, integrado no Corpo

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Expedicionário Português, no dia 21 de Abril de 1917, poucas

Expedicionário Português, no dia 21 de Abril de 1917, poucas semanas após se terem registado as primeiras baixas de soldados portugueses na frente europeia do conflito.

A caderneta militar de Alagoinha indica que este terá regressado

a Portugal em Setembro de 1918, em circunstâncias que Margarida

Portela está ainda a tentar apurar. Certo é que logo em Março de 1919 foi promovido a 1.º sargento, tendo-se casado no mesmo ano com

Joaquina Rosa de Oliveira. No final da década de 20 concluiu um curso da Escola Central de

Sargentos, que depois lhe permitiu integrar o quadro auxiliar dos Serviços de Engenharia, escreve Margarida Portela, observando que

o empenho em ascender na carreira foi uma constante no percurso

de José Alagoinha. Um esforço coroado de êxito: em meados dos anos 60, quando estava em vias de se tornar septuagenário, ostentava já a

patente de major e dirigia o Depósito Geral de Material de Engenharia. Da sua passagem pela I Guerra, além do que se deduz do caderno que deixou, sobreviveram algumas memórias familiares. José Luís Albuquerque Ferreira lembra-se, por exemplo, de que a sua avó lhe contava que uma das funções do pai era avisar os seus companheiros de trincheira do momento em que tinham de colocar as máscaras anti-gás.

A máscara foi, aliás, um dos objectos que José Alagoinha trouxe

consigo, a par do já referido caderno e de um curiosíssimo copo de chumbo trabalhado, que usava para beber água na frente de batalha. Uma recordação da guerra que, antes de o ser, era já um “souvenir”, mas da Exposição Universal de Paris, de 1900. Gravado em relevo no copo, vê-se um desenho do Palais de L’Electricité expressamente construído para a exposição parisiense. Não se sabe que estranhas circunstâncias levaram este copo às mãos de um rapaz de Estremoz, mas é curioso que este objecto, símbolo das promessas científicas e técnicas de um século que nascia sob o signo

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família da esperança, fosse parar, década e meia mais tarde, às

da esperança, fosse parar, década e meia mais tarde, às trincheiras dessa guerra a que justamente chamaram o suicídio da Europa.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Um capitão da Brigada do Minho que morreu em combate

Um capitão da Brigada do Minho que morreu em combate

Luís Miguel Queirós

A 4.ª Brigada de Infantaria do Corpo Expedicionário Português (CEP) já tinha conquistado uma reputação de bravura na frente de batalha muito antes de lhe ser confiada, em Fevereiro de 1918, a defesa do sector de Fauquissart, em Laventie, na Flandres francesa, perto da fronteira com a Bélgica, onde ainda se encontrava nesse fatídico dia 9 de Abril de 1918, quando foi dizimada pelos alemães na batalha de La Lys. Conhecida por Brigada do Minho, porque os seus vários batalhões tinham ali sido recrutados, a brigada suportara com denodo vários ataques inimigos desde o Verão de 1917, e os seus feitos chegaram a Portugal, onde um grupo de mulheres do Minho decidiu homenagear as tropas da região. Conta a Ilustração Portuguesa, no

as tropas da região. Conta a Ilustração Portuguesa, no A última foto conhecida de Luís Gonzaga

A última foto conhecida de Luís Gonzaga

MIGUEL MADEIRA

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família seu número de 5 de Agosto de 1918, que lhes

seu número de 5 de Agosto de 1918, que lhes foi “oferecida uma bandeira pelas senhoras daquela província”.

A dita bandeira, que a burocracia de tempo de guerra fez com que só

chegasse ao seu destino meses depois, quando a Brigada do Minho já se encontrava em Laventie, tinha sido bordada, diz a revista, “pela filha do coronel Barbosa e pela esposa do capitão do [Batalhão] 3, Luiz Gonzaga do Carmo Pereira Ribeiro, hoje desaparecido em combate”.

O coronel Adolfo Almeida Barbosa era então o comandante da 4.ª

Brigada. Condecorado pelo Governo inglês pelos seus feitos na guerra,

sobreviveu ao conflito, chegou a general e veio a morrer em 1928. Luiz Gonzaga do Carmo Pereira Ribeiro não teve a mesma sorte. Após a batalha de 9 de Abril, foi dado como desaparecido em combate, mas o seu cadáver acabou por aparecer em Laventie. Foi inicialmente sepultado em Le Touret, mas os seus restos mortais estão hoje no Cemitério Militar Português de Richebourg l’Avoué, onde se encontram as campas de quase dois mil combatentes portugueses na I Guerra. Morto em combate aos 32 anos, Luiz Gonzaga não está esquecido, e graças às investigações de um sobrinho-neto, Carlos Ribeiro, é hoje possível reconstituir o essencial do seu percurso militar. Filho de Duarte Dias Pereira Ribeiro e de D. Deolinda Rosa da Silva Pereira Ribeiro, Luiz Gonzaga do Carmo Pereira Ribeiro nasceu a 21 de Junho de 1885 em Viana do Castelo, numa casa da então Rua de S. Sebastião (hoje de Manuel Espregueira) em cujo rés-do-chão funcionava a farmácia paterna, a Aurea Vianense.

A família vivera antes na Póvoa do Lanhoso, onde nascera o primogénito do

casal, António Manuel Pereira Ribeiro, que veio a ser bispo do Funchal durante mais de 40 anos. A sua sagração como bispo, em Fevereiro de 1915, foi a primeira sagração episcopal ocorrida no país após a implantação da República. Luiz Gonzaga tinha ainda outro irmão, Joaquim, que seguiria a carreira do pai e veio a ser director do Sanatório de Paredes de Coura, e duas irmãs, Conceição e Dores.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Segundo as informações prestadas por Carlos Ribeiro à investigadora Margarida

Segundo as informações prestadas por Carlos Ribeiro à investigadora Margarida Portela, do Instituto de História Contemporânea da

Universidade Nova, o seu tio-avô Luiz Gonzaga alistou-se no Regimento de Cavalaria n.º2 de Lanceiros d’El-Rei em 1905, em plena monarquia, e ali se manteve até ao final de 1909, transitando em Novembro desse ano para

o Regimento de Infantaria n.º3 de Viana do Castelo.

Dois meses depois, em Janeiro de 1910, obteve licença para se casar com Maria Isabel da Cunha Palhares, mãe dos seus três filhos: Maria Amália, Margarida Maria e António Manuel, o mais novo, nascido em 1915. Por essa

altura, Luiz Gonzaga chegara já a tenente, e é nessa qualidade que embarca para França, em Abril de 1917, integrado na 4.ª Brigada de Infantaria do CEP. No final de Setembro é promovido a capitão, e em Novembro

é proposto para receber a Medalha de Comportamento Exemplar, grau

prata. Na mesma ocasião passa a acumular as suas funções com o cargo de ajudante de Brigada, que só manteve até Janeiro de 1918. No início desse ano esteve em gozo de licença e passou algum tempo em Portugal com a família. Regressou ao serviço no dia 6 de Março. Um mês depois, tombava no campo de batalha.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O barbeiro de La Lys Jaime Rocha, escritor T oda

O barbeiro de La Lys

Jaime Rocha, escritor

T oda a gente o conhecia por “Senhor Carlos” ou por Carlos Ferreira. O seu nome era Carlos de Souza Ferreira. Cantava, tocava, fazia teatro, tinha voz de tenor. Foi barbeiro em La Lys. Carlos Ferreira, meu avô materno, nasceu em Leiria a 27 de Maio

de 1894. A mãe morreu quando ele tinha 3 anos. Criou-o a avó. Aos 18 anos foi para a Nazaré trabalhar numa barbearia. Ali conheceu Maria

Rocha, filha de pescadores. Casou aos 27 anos e teve três filhos, Adelina, Isabel (ainda viva, com 91

e teve três filhos, Adelina, Isabel (ainda viva, com 91 100 anos) e José Carlos. Mas

100

anos) e José Carlos. Mas antes disso, com os seus vinte anos, viu-se incorporado como soldado de infantaria no contingente de portugueses que seguiu para a frente da batalha na Flandres, em 1917. Esteve em La Lys mas não correu perigo real. Por um lado era o barbeiro dos oficiais que preferiam mantê- lo na retaguarda, ileso e pronto para cortar barbas e cabelos. Os soldados faziam a barba a si próprios, alguns

Carlos Ferreira, barbeiro dos oficiais, salvou- se das trincheiras MIGUEL MADEIRA

Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família deles mesmo dentro das trincheiras. Mas os oficiais não prescindiam

deles mesmo dentro das trincheiras. Mas os oficiais não prescindiam dos serviços de um barbeiro de mão hábil. «Se não fosse essa a minha profissão, vinha de lá sem uma perna ou sem um braço, isto se viesse vivo!», costumava ele dizer. Por outro lado, a sua capacidade para contar histórias, cantar e tocar guitarra e viola, destacava-o entre os outros militares. «Ó Carlos, canta lá um fado». «Ó Ferreira, toca aí uma guitarrada», pediam constantemente os portugueses que serviam às ordens dos britânicos e que tinham saudades do seu sul. Estava sempre pronto para animar os soldados e mesmo «as altas patentes», como ele lhes chamava, gostavam de o ter por perto. Graças ao seu prestígio, não como combatente mas como suporte moral das tropas, foi escolhido para integrar o contingente português que desfilou em Londres, no dia do Desfile da Paz, a 29 de Julho de 1919. Assistindo à Parada, no palanque real, junto ao Rei George V, à rainha e ao Príncipe de Gales, o futuro Eduardo VIII, achavam-se o ex-rei de Portugal, exilado em Inglaterra, e a sua mulher Eugénia Vitória. Mas o maior orgulho do meu avô nessa visita a Inglaterra foi um episódio que não se acha documentado a não ser pelas suas palavras que todos tiveram sempre por honradas:

«Eu lanchei com a rainha D. Amélia», dizia-me ele. E eu nunca duvidei. Como nunca duvidei quando afirmava:

«O meu pai teve 56 filhos de várias mulheres, mas a todos assumiu e deu o nome de família. Uma vez em Leiria estive à mesa com 15 irmãos que andavam espalhados pela Nazaré, Leiria, Almeirim e Lisboa». Regressou de França, em 1919. Já casado, com filhos adolescentes, foi viver para Alcobaça para que eles prosseguissem estudos na Escola Agrícola Vieira Natividade. O seu cartão da Liga dos Combatentes, da delegação de Alcobaça, data de 1 de Março de 1935. A seguir, rumou

a Leiria para os filhos continuarem a estudar nos cursos Comercial e

Industrial. Ali, tornou-se cabeleireiro de senhoras na rua do mercado,

a única rua em que a minha avó Maria Rocha aceitaria viver. Porque

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família era ali que diariamente chegavam, da Nazaré, as camionetas com

era ali que diariamente chegavam, da Nazaré, as camionetas com as peixeiras que iam vender ao mercado. Era uma “Little Nazaré”. Ali passei os Agostos da minha infância, ajudando o meu avô a escovar as senhoras, alcançando os ganchos e aprendendo a fazer ondulações. As clientes diziam que o senhor Carlos, com o cabelo às ondas e o bigode, era parecido com o Vittorio de Sica. Os seus olhos brilhavam ao ouvir isto, tanto como quando me falava, orgulhoso, da batalha de La Lys. Está sepultado no talhão dos Combatentes da Grande Guerra, no cemitério da Nazaré.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Um alferes monárquico na guerra dos republicanos Luís Miguel Queirós

Um alferes monárquico na guerra dos republicanos

Luís Miguel Queirós

M á fortuna, a do monárquico José Estevão Coelho de Magalhães,

enviado para as trincheiras da Flandres, como alferes do Corpo

de Artilharia Pesada (CAP), a travar uma guerra que não era a

sua, ao serviço de um governo que desprezava e de um regime

sua, ao serviço de um governo que desprezava e de um regime em que se não

em que se não revia. Mas era um patriota e serviu com denodo: a sua documentação militar, investigada pela historiadora Margarida Portela, não regista a menor censura e, pelo contrário, inclui um louvor, reconhecendo o zelo, dedicação e capacidade de sacrifício que demonstrara na frente de batalha. Único varão entre seis irmãos – um outro rapaz morrera ainda bebé –, José Estevão sobreviveu à guerra e regressou à casa paterna

José Estevão sobreviveu quatro anos à guerra – morreu aos 28 anos

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família em Abril de 1919. Vinha surdo – “com os bombardeamentos,

em Abril de 1919. Vinha surdo – “com os bombardeamentos, ensurdeceu por tal forma que era preciso escrever-lhe tudo”, conta a sua irmã mais nova, Maria José, numas memórias de família –, mas mostrava-se alegre e não aparentava outros danos físicos ou psicológicos. O pior parecia ter passado e o futuro mostrava-se risonho. Por pouco tempo. Em Janeiro de 1822, José Estevão adoeceu gravemente, tendo morrido poucos meses depois, no dia 23 de Abril, com apenas 28 anos. A família sempre atribuiu esta morte precoce aos gaseamentos sofridos no front. O seu impedido – que depois da guerra se tornaria seu criado de quarto – contou que certa vez tinham sido fortemente gaseados e que José Estevão, se expusera mais do que qualquer outro. À falta de máscaras anti-gás, o alferes pusera todos os soldados a inalar o pouco amoníaco de que dispunham, não tendo guardando nenhum para si próprio. Rita Van Zeller, neta da irmã mais nova de José Estevão Coelho de Magalhães, admite que “estas histórias heróicas” que circulam nas famílias são sempre difíceis de confirmar, mas tanto os louvores da hierarquia militar à capacidade de liderança do seu tio-avô, como o carácter que este demonstrou noutras circunstâncias, tornam o episódio bastante plausível. Tendo desistido da carreira militar com que sempre sonhara por não querer servir o regime republicano, José Estevão estudava Engenharia Civil na Bélgica quando a guerra rebentou e, em Agosto de 1914, os alemães invadiram o país. A família andou com o coração nas mãos, sem notícias dele e sabendo-o na zona ocupada. E já começavam a desesperar,

quando

mais cedo e corrido menos riscos na viagem, mas decidira juntar-se a um grupo de compatriotas, cujo regresso a Portugal ajudou a financiar. José Estevão Coelho de Magalhães nasceu a 2 de Setembro de 1893 na bela Quinta do Mosteiro, na Maia, que a sua avó paterna, Rita de Moura Miranda, adquirira em 1874, e onde o seu pai, o conselheiro Luiz de Magalhães, o conhecido intelectual da geração de 70, recebia convidados

finalmente apareceu em casa. Poderia, na verdade, ter chegado

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família tão ilustres como Antero de Quental, Oliveira Martins ou Eça

tão ilustres como Antero de Quental, Oliveira Martins ou Eça de Queiroz, que faz mesmo referência à propriedade: trocando-lhe deliberadamente

o nome para Quinta de Refaldes, elogia-lhe a “serenidade rural” numa das

cartas de Fradique Mendes. “Estou vivendo pinguemente em terras eclesiásticas, porque esta quinta foi de frades”, escreve Eça por interposto Fradique. “Agora pertence a um amigo meu, que é, como Virgílio, poeta e lavrador, e canta

piedosamente as origens heróicas de Portugal, enquanto amanha os seus campos e engorda os seus gados”.

O alferes do CEP era neto e homónimo do célebre parlamentar e

jornalista José Estevão (1809-1862), um dos “bravos do Mindelo”, cujos

feitos heróicos durante o cerco do Porto se tornaram lendários. Fundador do influente jornal liberal Revolução de Setembro, orador inflamado, oposicionista crónico, grão-mestre da Maçonaria, político envolvido em sucessivas conspirações e revoltas, várias vezes exilado, José Estevão dificilmente poderia estar mais à esquerda no arco político da monarquia constitucional. Nunca pactuou, todavia, com as tendências republicanas que já no seu tempo começavam a ganhar influência nos meios liberais mais radicalizados.

O seu filho, Luiz de Magalhães, herdou-lhe essas convicções

monárquicas. Ministro dos Negócios Estrangeiros no governo de João Franco, exilou-se em Londres após a implantação da República

e veio mais tarde a envolver-se no golpe de que resultaria, em 1919,

a efémera Monarquia do Norte. Condenado e preso, estava ainda na

cadeia quando o seu filho, o alferes José Estevão Coelho de Magalhães, regressou da guerra. “A família era toda monárquica e, portanto, não apoiava a entrada de Portugal na guerra, que via como uma manobra do governo republicano para se legitimar internacionalmente”, disse ao PÚBLICO Rita van Zeller. O que não impediu o seu tio-avô, uma vez mobilizado, de “cumprir o que achava ser a sua obrigação”.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família Pelas memórias deixadas por duas filhas de Luiz de Magalhães,

Pelas memórias deixadas por duas filhas de Luiz de Magalhães, percebe-se que José Estevão era adorado pelos pais e pelas irmãs e que a sua morte deve ter constituído um duríssimo golpe. E talvez também por isso, a sua memória continua hoje tão viva na família, passados quase cem anos sobre a sua morte. Aos muitos objectos do seu tio-avô que a família conserva, Rita van Zeller veio recentemente juntar uma série de fotografias totalmente desconhecidas, digitalizadas a partir de um envelope com negativos que tinha ficado esquecido. Mostram José Estevão acompanhado de vários camaradas, provavelmente já na Flandres francesa. A investigação de Margarida Portela à sua documentação militar permite resumir o essencial do seu percurso desde que embarcou para Inglaterra a 18 de Janeiro de 1918, integrado no CAP. A 2 de Março estava já em França e no final de Abril movia-se nas linhas da frente, trabalhando com as tropas britânicas. Ele que “não simpatizava nada com os ingleses”, diz Rita van Zeller, porque não lhes perdoara ainda a humilhação do Ultimato de 1890. Margarida Portela não descobriu indicações, no entanto, de que José Estevão tenha estado presente na fatídica batalha de La Lys, a 9 de Abril. Sabe-se que em Julho foi transferido para uma nova bateria de artilharia pesada, à qual ainda estava adstrito quando retirou da frente após o Armistício de 11 de Novembro. Desconhece-se o seu paradeiro nos meses seguintes, mas em Março de 1919 encontrava-se em Cherbourg. A 15 de Abril embarcou em Brest, regressando finalmente a Portugal, à quinta onde nascera e onde não tardaria a morrer.

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família O médico que andou desaparecido na Flandres Luís Miguel Queirós

O médico que andou desaparecido na Flandres

Luís Miguel Queirós

A história de um oficial-médico que acabou por ser encontrado num lugar muito provável: num hospital inglês Luís Carlos da Costa Guerra Charters d’Azevedo acabara de se licenciar em Medicina e Cirurgia quando foi mobilizado para a

frente europeia da I Grande Guerra, na Flandres francesa Partiu a 31 de Agosto de 1916 como tenente miliciano médico do Corpo Expedicionário Português, informa o seu neto, o engenheiro e escritor Ricardo

Charters d’Azevedo, que se tem dedicado a investigar a história familiar. “Andava pela frente, num automóvel-ambulância, com um chauffeur e um enfermeiro”, explica o neto, que era ainda criança quando o avô morreu de cancro, em 1953, com pouco mais de 60 anos de idade. Ricardo Charters d’Azevedo nunca

de 60 anos de idade. Ricardo Charters d’Azevedo nunca Charters d’Azevedo (sentado à direita) entre um

Charters d’Azevedo (sentado à direita) entre um grupo de militares

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família soube quem conduzia o seu avô, mas veio a conhecer

soube quem conduzia o seu avô, mas veio a conhecer o seu enfermeiro:

“Encontrei-o mais tarde em Lisboa: era barbeiro na Rua do Ouro”. Uma das histórias mais curiosas da passagem de Luís Carlos Charters d’Azevedo é justamente a de um improvável encontro. Nos campos da Flandres, em plena guerra, deu de caras com um seu conterrâneo de Leiria, o padre José Ferreira de Lacerda, que andava perdido. O próprio padre Lacerda evocará o episódio no jornal O Mensageiro, em Outubro de 1939, quando a Europa acabava de mergulhar de novo na guerra. Citando excertos de uma carta que o amigo médico lhe endereçara

– “Agora que novamente na fronteira franco-alemã se desenvolvem

acontecimentos semelhantes aos da Grande Guerra, mais me recordo do nosso encontro numa manhã cinzenta, fria e nevada numa estrada perto de Roquetoire (…)” –, o padre Lacerda conta o episódio aos leitores de O Mensageiro: “Nessa manhã saíra de Teroane em procura de soldados de Leiria e dum colega capelão. É certo que ia munido duma carta e estavam

sinalizadas as estradas, mas tantas voltas dei que não sabia onde estava. Estradas, caminhos, casas era tudo cinzento e igual. Valeu-me o encontro felicíssimo com o meu querido amigo, que me indicou a posição e o caminho a seguir”. E o padre evoca ainda as “dezenas e dezenas de feridos” que ajudou a meter em macas e a “mais de uma dezena” que ajudou a morrer, “recebendo as suas últimas palavras, recomendações para a família,

objectos sagrados, cartas, retratos

d’Azevedo, nas suas funções de médico, esteve em posição tristemente privilegiada para testemunhar as horríveis consequências da guerra. Mas, “como muitos dos que viveram aquele horror, não gostava de contar o que lá passara”, diz o seu neto. Nascido em Leiria em 1891, o futuro médico era neto de um grande proprietário na região, José Maria Henriques de Azevedo, 1º visconde de São Sebastião, e filho único do engenheiro Roberto Charters Henriques d’Azevedo. Quando partiu para a guerra, era já casado e pai

”.

Também Luís Carlos Charters

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Grande Guerra • Memórias de Família

Grande Guerra • Memórias de Família de um filho, Roberto, que veio a ser o engenheiro

de um filho, Roberto, que veio a ser o engenheiro Roberto Charters d’Azevedo, secretário-geral do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, director na Gulbenkian e autor de trabalhos pioneiros no campo da televisão experimental. Na sua passagem pela guerra, Luís Carlos desempenhou funções na Coluna de Transporte de Feridos n.º 2, um trabalho que o levava a circular entre os postos avançado da frente de batalha, e foi ainda adjunto do chefe do Serviço de Saúde da 2ª Divisão. Após a batalha de La Lys perdeu-se-lhe o rasto. “Esteve dois ou três meses desaparecido”, conta o seu neto, “até que alguém passou por um hospital militar inglês e lá estava ele”. Sabe-se pouco sobre este singular episódio, mas Ricardo Charters d’Azevedo imagina que, na confusão que se seguiu à destruição do destacamento português, o seu avô terá ido parar àquele hospital de campanha inglês e, “como teria muito que fazer, terá ficado por lá”. Com ascendentes britânicos na família – a sua avó era filha de um oficial inglês, William Charters, que veio para Portugal combater as tropas de Napoleão – o médico português relacionar-se-ia facilmente com ingleses, observa ainda o seu neto. Certo é que foi licenciado do serviço militar em 1919 e recebeu a medalha da Vitória em 1920. Regressado a Portugal, trabalhou nos hospitais militares da Estrela e de Campolide e especializou-se depois em otorrinolaringologia. Pelo seu consultório de Lisboa passaram doentes célebres, como o marechal Carmona. Durante os meses de férias que passava na propriedade da família em Leiria, a Vila Portela, dava consulta gratuita aos seus conterrâneos.

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Grande Guerra • Memórias de Família Memórias de um médico na frente moçambicana Luís Miguel Queirós

Memórias de um médico na frente moçambicana

Luís Miguel Queirós

J oaquim de Araújo foi uma testemunha privilegiada de alguns dos mais duros combates da guerra em Moçambique O famalicense Joaquim Alves Correia de Araújo, enviado como alferes-médico para a frente moçambicana em Maio de

1917, era um observador metódico e imparcial, virtude que tende compreensivelmente a rarear no cenário violento de um teatro de guerra, propício a emoções fortes e empolamentos patrióticos Por isso mesmo é tão precioso o diário que nos deixou: um caderno de 77 páginas que uma sua sobrinha-neta, Teresa Araújo, historiadora

páginas que uma sua sobrinha-neta, Teresa Araújo, historiadora Joaquim Alves Correia de Araújo em Moçambique, 1917

Joaquim Alves Correia de Araújo em Moçambique, 1917

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Grande Guerra • Memórias de Família e arquivista na Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, tem

e arquivista na Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, tem vindo

pacientemente a decifrar, e que tenciona publicar em breve. Destacado no posto de Chomba, onde se instalara um Hospital de Sangue, e depois no Hospital dos Combatentes, na ilha de Xefina, na baía da então Lourenço Marques, o jovem médico de V. N. de Famalicão esteve ainda noutros locais-chave do conflito e foi uma testemunha privilegiada da actuação das tropas portuguesas em Moçambique

durante a I Guerra. Um bom exemplo da sua objectividade, que em nada diminui a

vivacidade dos seus relatos, é este passo do diário, transcrito por Teresa Araújo, no qual descreve o modo como se reagiu em Chomba à notícia de que “grossas colunas alemãs” tinham atravessado o Rovuma: “Às 5h de 22 [de Julho de 1917] tudo batia em debandada. Automóveis e carregadores transportavam continuadamente pessoal e bagagens, não esquecendo os penicos. Os lugares eram disputados (…). Todos os serviços ficaram abandonados. O director do Hospital pôs-se na alheta

e deixou os doentes, de que a custo se evacuou parte. Os medicamentos ficaram encaixotados. Tomei a direcção, por nomeação dos meus colegas que ficaram (…). A desordem era enorme, a confusão não se descreve…”.

Nos apontamentos do médico, diz a sua sobrinha-neta, percebe-se que respeitava mais os adversários alemães do que os aliados ingleses.

E irritava-se deveras com o amadorismo das forças portuguesas,

lamentando a “figura tristíssima que muitos oficiais fazem”, chorando e implorando para os mandarem para casa. Ma o diário também regista momentos felizes: uma noite de Natal com

o indispensável bacalhau, ou a notícia do armistício, a 11 de Novembro

de 1918, que o médico celebrou com champanhe no vapor que já o trazia de regresso a casa. Nascido em 1889 em Requião, freguesia do concelho de V. N. Famalicão, Joaquim Alves Correia de Araújo era o segundo dos oito

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Grande Guerra • Memórias de Família filhos de um casal de abastados proprietários rurais. O pai,

filhos de um casal de abastados proprietários rurais. O pai, Manuel, foi presidente da junta de paróquia local e vereador da Câmara de V. N. Famalicão antes e depois da implantação da República. E muitos dos seus familiares exerceram, em sucessivas gerações, cargos públicos na freguesia e no concelho. O seu irmão Armindo veio a presidir à Câmara de Famalicão na década de 50, e um seu tio, Francisco Alves Correia de Araújo, fora o primeiro presidente da autarquia após o golpe de 1926 e voltou a sê- lo ao longo de quase toda a década de 30. Foi com o seu patrocínio, conta Teresa Araújo, que Manoel de Oliveira realizou em 1940 o documentário Famalicão. O intermediário terá sido um filho do autarca, Virgílio, que estudara com o futuro cineasta num colégio em La Guardia, na Galiza. Manuel e a sua mulher, Bambina, eram suficientemente abastados para poder proporcionar uma educação cuidada a toda a sua extensa prole, e Joaquim não foi excepção. Licenciou-se pela recém-criada Faculdade de Medicina do Porto, tendo defendido tese em Fevereiro de 1917, já após ter sido mobilizado, com um trabalho intitulado O método de Carrel e o soluto de Dakin no tratamento das feridas infectadas. No preâmbulo à sua tese, diz a sua sobrinha-neta, exprime a sua perplexidade pelo facto de os jovens médicos sem tese de final de curso poderem ser mobilizados para exercer clínica militar, quando estavam impedidos de a exercer enquanto civis. Chegado a Moçambique, é integrado na chamada coluna dos Macondes e colocado no posto de Chomba, onde fica cerca de um ano. É depois transferido para o hospital de Xefina, onde terá usado um medicamento da sua própria autoria que, segundo memórias conservadas na família, obteve resultados excepcionais na luta contra a febre biliosa. Regressado a Portugal, trabalhou no Regimento de Sapadores do Caminho-de-Ferro e no Hospital Militar da Estrela, em Lisboa, tendo

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Grande Guerra • Memórias de Família sido promovido a capitão-médico em 1922. Pediu depois transferência para

sido promovido a capitão-médico em 1922. Pediu depois transferência para uma unidade de Santo Tirso, e quando esta foi extinta passou formalmente à reserva, embora tenha continuado a exercer medicina, designadamente no Hospital Militar do Porto, onde se manteve até 1947. Morreu quase octogenário, em 1968.

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Grande Guerra • Memórias de Família Dois filhos de Leotte do Rego que combateram em La

Dois filhos de Leotte do Rego que combateram em La Lys

Luís Miguel Queirós

A o contrário da generalidade dos militares portugueses evocados nestas páginas, o contra-almirante Jaime Daniel Leotte do Rego (1867-1923) não precisa de ser resgatado do esquecimento Figura de relevo da fase final da monarquia e do período da I

República, são muitas as obras de referência que abordam a sua vida e o seu trajecto político e militar. E quem quiser informações mais

político e militar. E quem quiser informações mais Leotte e o ministro da Guerra, Norton de

Leotte e o ministro da Guerra, Norton de Matos, de partida para o exílio MIGUEL MADEIRA

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Grande Guerra • Memórias de Família detalhadas, encontra-as na biografia que lhe dedicou Maurício de Oliveira,

detalhadas, encontra-as na biografia que lhe dedicou Maurício de Oliveira, publicada em 1967, por ocasião do seu centenário. Durante a I Guerra, Leotte do Rego comandou a Divisão Naval e Defesa

e foi o responsável pela apreensão dos barcos alemães que estavam nos

portos portugueses. Já havia combates com os alemães em África desde