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Autor: SOu.., Jo"Padro aalv.o d.,

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J. P. GALVAO DE SOUSA

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BIBLIOTECA
PROF. LIG'J.\uir :tl SP IUITO SANTO

o ]ORNALISMO E

A VERDADE NACIONAL

Discurso de paraninfo profendo a 20 de


Março de 1959 pelo Professor José Pedro Gal­
vcio de Sousa, Diretor da Escola de Jornalismo
"Casper Libero", na colaçcio de grau dos ba­
charelandos de 1958, em solenidade realizada
no "foyer" do Teatro Municipal.

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o jomalista e o dever
da veracidade, na época
da propaganda

Biblioteca CentraI
O jomalismo e a verdade nacional.
Ac. 236301 - R 715160 Ex. 1
Doaçào - Liguani Espirito Santo
13/08/1990 q:

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responsabilidade do jornalista nos dias A responsa­
A presentes pode ser devidamente avaliada bilidade do
( considerando-se que a vida de hoje decorre sob jornaU.ta
o signo da propaganda. Entre todas as técni­
cas utilizadas pelo homem contemporaneo, ­
muitas vezes fazendo o papel do aprendiz de
feiticeiro, sem lhe poder controlar os tremen­
dos efeitos, - a técnica da propaganda se
destaca pelo poder conferido aosseus manipu­
ladores sobre a vontade e o inconsciente
alheios.
Transposta do plano comercial para o
plano politico, ficou sendo a propaganda uma
das grandes armas da dominaçao exercida
sobre a sociedade de massas pelas minorias
organizadas com vistas à direçao do Estado.
Sob o totalitarismo moderno essa arma
começou a ser manejada com requintes de
perfeiçao. A propaganda criou ambiente pro­
picio aos ditadores, deu lastro popular aos
grandes chefes, disseminou as ideologias,
gerou os mitos. Desde os primeiros slogans da
revoluçao 'comunista da Russia, espalhando-se
pelo mundo todo, até à arrancada nazista na
Alemanha, dirigida pelo eficiente planeja­
mento de Goebbels e de seus auxil1ares, tudo
foi propaganda.
Nos paises tidos pelos mais exemplar­
mente democraticos, nao menos decisiva tem
sido a presença desse elemento, que se torna
o ponto nevralgico das campanhas eleitorais.

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É verdade, como diz Jean-Jacques Che­ astucias técnicas de publicidade empregadas


valier, que a nova técnica cientifica da pro­ pela América na produçao em massa, para
vender autom6veis, sais de banho e cortadq­
paganda é, por sua natureza, totalitaria. Nem
res de grama".
é menos verdade que as democracias modernas
estao a se encaminhar inexoràvelmente para Entretanto ha algo de mais sério nas
os rumos do totalitarismo, segundo o previa novas modalidades da propaganda politica.
Donoso Cortés, ha cem anos atras, e o tem Sua inspiraçao nao esta sòmente nos métodos
de ha muito usados pela publicidade comercial.
demonstrado, entre outros, Friedrich Hayek,
Procede de urna investigaçao psicanalitica de
analisando a atualidade politica do ocidente seI. humano, recorre à psicologia dos reflexos
A .ra da Somas fabulosas sao invertidas na propa­ condicionados de Pavlov, e dessa forma termi­
propacanda ganda pelo radio e pela televisio, em tempos na por suscitar um sistema elaborado à base
de eleiçao. Técnicos ero publicidade, persua­ de emoçoes e tendencias irracionais, apreen­
sores profissionais, consultores de imprensa, dendo o homem pelos nervos mais do que pela
especialistas em programas de televisao e até vontade, pelo inconsciente mais do que pela
preparadores de maquilagem começam a exer­ razao.
cer tarefas importantes nos partidos politicos. O irracionalismo é um dos traços ca­
Na Ultima campanha presidencial .dos Estados racteristicos da politica moderna. A propa­
Unidos a Iuta entre democraticos e republica­ ganda mais eficiente nao é a que traz argu­
nos terminou sendo urna contenda entre duas mentos, é a que gera estades emocionais. E
agencias de publicidade rivais. Aqueles pro­ isto é feito, por vèzes, com urna subtileza e
cessos de feira, postos em pratica para con­ uma sabedoria diab6lica, dando a impressao,
quistar 08 votos dos pioneiros do Oeste, ao eleitor mais esclarecido, de que ele esta
sobrevivem em pIeno século XX, unidos aos perfeitamente consciente, nao obstante ja se
processos técnicos mais avançados, numa encontre sob a açio daqueles entorpecentes
"atmosfera de circo", segundo a expressoes de propagandisticos.
André Siegfried. Nao é apenas no BrasU que Em seu conhecido ensaio sObre essa "nova
08 candidatos devem arrancar o palet6 e deixar f6rça politica", Jacques Driencourt féz ver
crescer os cabelos. TOda urna técnica de apre­ que es Miiller do Terceiro Reich, marchando
sentaçao em publico, de indumentaria e de com um Heil Hitler nos lé.bios em direçio ao
gesticulaçoes, é observada na propaganda elei­ Wahlala supremo, reaparecem, com outras fei­
torai norte-americana. çoes e particularidades, na Russia soviética de
Dai o ter dito The New York World Tele­ hoje e mesmo nas democracias ocidentais.
gram, em uma vistosa manchete : "Os mM­ O camarada Popov tem a sua existencia
cates tomam conta da campanha do Partido quotidiana minuciosamente regulamentada.
Republicano". E no texto corerspondente: "os Vive sujeito a um gigantesco aparelho de
polfticos estio começando a aplicar tOdas as persuasao. Na fabrica sio os alto-falantes, os
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"Monsieur Dupont vive na idade da pro­
cartazes, os retratos. Nos dias de descanso
paganda.
deve prestar atençao aos discursos, às senhas,
aos artigos oficiais do Partido. HMonsieur Dupont é o escravo da propa­
ganda" (J. DRIENCOURT, La propagande
O mesmo se da com Mister Babitt, simbolo nouvelle force politique, Lib. ArmandColin,
do mass man americano~ no seu pavor de ser Paris, cap. I).
originaI, na sua preocupaçao em fazer o que
Nio obstante, ele est! firmemente persua­
os outros fazem e pensar como os outros
dido de ser um cidadao livre, vivendo num pais
pensam,postulados sobre os quais se assenta
perfeitamente democratico. Mal se da conta
. a ciencia da propaganda. La em sua terra as de que vive numa ignorància absoluta dos
mentalidades dos homens, como as maquinas, neg6cios publicos. As informaçoes que recebe,
sio dirigidas pelos técnicos. Dai a. estandarti­ pelo radio ou pela imprensa, sao selecionadas,
zaçao, a idéia da superioridade do rendimento incompletas e até mesmo truncadas. Refle­
organizado em grande escala, o coletivismo tem interesses de partidos politicos ou de
materialista. grupos financeiros. Como no caso de Mister
Finalmente, na França doracionalismo e Babitt, a liberdade de pensamento se reduz
das tradiçoes democraticas, Monsieur Dupont frequentemente à liberdade, para os que de­
vive também submetido ao irracionalismo. teem o poder economico, de controlar os meios
Vale a pena reproduzir aqui a descriçao de informaçio . .
desta figura que representa o cidadao frane es Se ·o nosso saudoso Belmonte fosse vivo,

médio de 1950. poderia colocar ao lado de Monsieur Dupont o

HMonsieur Dupont passa sua existencla seu Juca Pato, e as diferenças, no genero de

numa perpétua atmosfera de artificio, de vida de um· e outro, nao seriam muito grandes.

irreal, de mentira. Cada um de seus dias é Por toda parte vivemos sob o signo da pro­

marcado pelas torrentes de informaçoes, .agi­ paganda, especialmente nas atormentadas

tado pelas vociferaçoes, fascinado pelos incita­ megal6polis das grandes concentraçoes de

mentos, martelado pela injunçoes, as exclama­ massas· e do progr~sso industriaI.

çoes, que se derramam sobre ele e de que lhe E com o citado autor podemos concluir:

embebem os sentidos tanto os alto-falantes e "·a Propaganda reina no mundo inteiro, quer

o radio, como os jornais, os anuncios, as bro­ seja no Brasil ou no Japao, da Turquia à Re­

churas, os discursos, e ainda o cinema e as publica Dominicana, e a vida, para a grande

conversaç6es, que afirmam, insinuam, denun­ massa dos individuos, nao é senao artificio,

ciam, revelam, acusam, ordenam. Em sua mentira e prestidigitaçao. Os homens ignoran1

casa, no seu trabalho, na rua, no trem ou no os acontecimentos que amanha vao fazer a

métro, Monsieur Dupont é o objeto continuo sua felicidade ou a sua desgraça, e que de

de solicitaçoes e de pressoes que o perturbam prop6sito SRO escondidos para eles: ignoram­
e atordoam.
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se uns aos autros, porque sio impedidos de se matutino paulistano,respondia pela negativa
conhecerem; sua sorte se joga nas bastidores" a esta questao: "Existe, realmente, liberdade
(loc. cit.) de imprensa no Brasil?". Apelava para a
experiència pessoal, trazendo o depoimento de
o '''no da O reino da propaganda fàcilmentese
duas décadas de militancia no nosso jorna­
mentira transforma no reino da mentira. Por isso nio
lismo. E louvando-se em fontes fidedignas do
nos deve causar admiraçao o fato de, com estrangeiro, universalizava as suas conclusOes,
base na propaganda politica, verdadeiras dita­
escrevendo: "a liberdade dé imprensa, no
duras ocultas serem instituidas nos regimes Brasil, é uma ficçao. EIa é a grande ficçio,
democraticos. A ditadura do poder econOmico, alms, do mundo capitalista contemporaneo e,
sobretudo, domina a tantos e tantos povos que por isso mesrno, da pr6pria democracia liberaI"
se julgam livres, fazenda com que muitas (Correio Paulistan:o, Il.IX.1956).
vezes as liberdades asseguradas pelas consti­ Nao nos esqueçamos de que coube 800 l1be­
tuiçoes nao passem de meras declaraçoes
ralismo inaugurar, no mundo moderno, o
juridico-formais, sem uma realidade efetiva regime da propaganda. Aperfeiçoado pelos
que .1hes corresponda. Estados totalitarios, tal regime teve iniclo com
É o que acontece com a liberdade de a Revoluçao de .1789, preparada no século
imprensa. anterior pelos fil6sofos e letrados que,nos
Por um lado, os excessos do sensaciona­ sal5es da nobreza decadente, difundiam a dou­
lismo; as reportagens policiais qua sao um trina revolucionaria, .minando assim a ordem
incitamento ao crime; os desmandos nas cri­ tradicional com a adesio das primeiras vitimas
ticasimprocedentes e impunes; o achincalhe inconscientes da propaganda. politica.
à autoridade, envolvendo, nas referéncias des­ Ao mesmo tempo em que instaurava o
respeitosas à pessoa dos governantes, o pr6prio reino da propaganda, a Revoluçio Francèsa
principio superior de ordem e hierarquia que proclamava o principio da liberdadede pen­
representam. samento entendido no falso sentido da equi­
Tudo isso nio é liberdade de imprensa. paraçio entre a verdade e o erro, o bem e o
É libertinagem. . mal, a virtude e o vicio. Negando 80S crenças
E coexistindo com tais abusos de um tradicionais do povo frances e pretendendo
direito mal assegurado pela constituiçao, q ue emancipar a razao de·todo e qualquer crltério
vemos, por outro 10001 As injun~oes miste· superior de verdade, o liberalismo colocava a
riosas, os siléncios inexplicavels, 05 recuos liberdade de expressao do pensamento· "para
surpreendentes, tudo aquilo que s6 se pode além do bem e do mal", e desta forma tirava à
compreender exclamando com o Poeta: "outro liberdade todo conteudo de verdade e de val o­
poder mais alto se alevantal" rizaçio ética, transformando-a num f1m em si
Eis por que um jornalista brasileiro, em mesmo e fazendo de cada homem o centro· do
série de art1gos publicados ha très anos num universo.
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Era a.. aplicaçio do principio do livre­ cujos programas nao contam e qué, na. sua.
e.xame à ordem politica. Era a cons~graçao do generalidade, nao passam de sindicatos <i:e
agnosticismo, gerado pela propaganda dos exploraçao publica. Mentira na justiçà,
enciclopeidstas no século XVIII. Era a edi­ atrelada ao carro dos poderosos. Mentira
ficaçao da ordem pclitica sem lhe ser dada por na policia, entrando em conluios com os cri..
alicerce ..a ordem moraI. Era a pIena secula­ minosos e com os corruptores da sociedade.
rizaçao da sociedade,. em bases puramente Mentira nas conferencias intemacionais, de
racionais, e nRo mais na submissao aos valores cujo seio desaparece toda confiança e é riSCada
supremos de ordem religiosa .. a pressuposiçao da boa fé, cimento. inabalavel
Perdido o· critério para distinguir o bem fora· do qual em vao se procurara corporificar
dc mal, a verdade do erro, nio admira que a juridicamente a comitas gentium.. Mentira na
liberdade de expressao do pensamento gerasse Organizaçao das Naçoes Unidas, que nunca
o dominio da mentira, e que a propaganda foram tao. desunidas como hoje, quando o
viesse a substituir os dogmas· de outrora com mundo esta a viver em pIena guerra fria entre
os mitos do presente. Nessa atmosfera de os dois grandes blocos que nele se defrontam.
mentira· estamos hoje todos envolvidos. Nao precisamos ir além. Eis ai"a grande o jornalista e
Mentira na familia, onde nao se distingue responsabilidade do jornalista nos dias que o dever da
o casamento do concubinato. Mentira na correm. O jornalista deve ser, por excelencia, veracidade
escola, onde nRo se aprende a amar ·averdade o homem da verdade. Se ele pactua com a
e odiar o erro. Mentira na economia, que deixa mentira e utiliza a propaganda para alastrar
de seruma atividade subordinada às neces­ a mentira, esta violando frontalmente o pri­
sidades do consumo e passa a girar em tOrno meiro dos seus deveres, a mais precipua das
da produçao e até da superproduçao. Mentira suas obrigaçoes:· o dever da veracidade. Seja
nas finanças do Estado, com a depreciaçao da por oportunismo ou por venalidade, seja por
moeda, a orgia das emissOes e a politica infla­ servilismo ao poder ou por espirito de oposiçao
cionaria levando a moeda a zero. Mentira n~ sistematica, quantas e quantas vezes o joma·
organizaçac .dos pcderes publicos, dizendo-se lista abdica da grandeza de sua missao e con­
separados, harmonicos e independentes entre tribui para consolidar o reino da mentirai
si, como se fOsse possivel quebrar a unidade Manejando a palavra como instruniento
do poder. Mentira no sistema representativo, I
I
de trabalho, na imprensa escrita ou falada,
qUftndo aventureiros beneficiarios da pro­ lembre-se o jornalista de que essa arma pode­
pagando eleitoral nao representam Senao. a rosissima, é apanagio do ser humano, a quem
si mesmo.s ou ~ pequenos. grupos, dizendo-se
\1
I confere faculdades quase divinas. Lembre-se
mandatarios de uma vontade popular inteira­ de que a palavra é a expressao do pensamento.
mente a1heia às confabulaçoes. das assembléias e o pensamento é o que faz a dignidade e 8
e .sem nehum recurso para exercer sobre elas grandeza do homem. Lembre-se, enfim, de
qualquer contrale. Mentira nos partidos, que a palavra deve significar para ele o culto
14 15

~~-'-~' ~ -

da verdade: veridico nas notfcias, exato nas


informaçoes, fiei nas reportagens e nas entre­
vlst~s, o jornalista digno de sua vocaçao rea·
liza o ideaI que o Ap6stolo Sio Paulo defulf
nestas duas palavras tio expressivas - "fazer
a verdade", tacere veritatem .
. Eis a sua resPQnsabilidade. Eia a nobreza
da sua profissao. E especiaimente nos dias de
hoje,quando a propaganda domina o mundo.
cabe ao jornalista colocar a propaganda ao
serviço da verdar.e, pa.ra que eIa nao seja o
t6xico das inte!~gencias, manipulado e difun­
dido contrabandlsticamente pelos mercenarios
da palavra. 2

Nem é outro o sentido do compromisso


que viestes hoje prestar, meus caros af1lhados,
e cujos dizeres passo a repetir, pedindo-vos, o jornalismo e os
pelo que tendes de mais caro, que conserveis
para sempre no .coraçio esta f6rmula por v6.~ objetivos nacionais
proferida e na qual deveis ver amelhor dire
triz que vas poderia dar o paraninfo.
Prometestes, por Deus e pelo Brasil, no
exercfcio do jornalismo, "manter-vos fiel ao~
ensinamentos recebidos nesta Escola,FAZEN·
DO DA PENA UM GLADIO DA VERDADE.
UMA ARMA DA JUSTIçA, UM FATOR DE
FORTALElMENTO ORGANICO DA ESTRU­
TURAS BASICAS DA VIDA BRASILEIRA.
Deciarastes mais que, no uso da liberdade de
expressao, sabereis respeitar a honra do pr6­
ximo e repelrr categòricamente tudo o que
seja contrarlo à ética da vossa profissio.

16
EXERCE a imprensa em nossos dias urna Fun~io
funçao publica. Integra-se, por isso mes­ publica da
mo, nas finalidades do Estado. Pode fortalecer imprensa
ou por ero risco a segurança nacional. Ou sera
um elemento de coesao da nacionalidade, OU
um fator de dissoluçao das estruturas sociais.
Como jomalistas, deveis ser homens da
verdade, e, dada esta funçao importantissillla
da imprenf?a na hora presente, deveis contri­
buir para a pIena instauraçao da verdade
nacional.
É o que nestes tres anos de Escola tende·s
aprendido. De tal maneira que se vos pedirem
uma definiçao da verdade nacional, nao tereis
dificuldade em encontra-Ia, pois v6s a vivestes
durante a vossa experiencia no curso de jor··
nalismo. Despertar a consciencia dos jomalis­
tas para a sua grande tarefa, compenetra-Ios
da funçao publica que vao exercer, integra-Ios
nas realidades nacionais e na dinàmica social
da época - eis o que devem fazer as escolas
de jornalismo.
Concitando-vos a servir. à verdade ' nacio­
nal, basta-me recordar alguma coisa do que fai
o Ultimo ano do vosso curso, para inferirdes
desde lego o que vos cumpre fazer.
Antes de mais nada, nao vos esqueçais de
urna das liç6es dadas na cadeira de Politica e
Administraçao.

19
Que é a
Que é a Naçao? - É uma comunidade de diante de n6s. E pudemos concluir que, na
Naçao?
cultura. É um complexo cultural em que na trajet6ria de tanto bri1ho do jornalismo em
- O passado,
varios elementos se conjugam, os quais cada nossa Patria, faltou e vai faltando ainda um
o presente, de um de per si nao bastam para caracteriza­ pensamento nacional a nortear a atividade dos
o futuro ... la, mas todos juntos a constituem na sua homens da imprensa.
essencia mais intima: a raça, a lingua~ o ter­
Desde os primeiros tempos da constituiçao
ritorio, as comuns aspiraçoes do povo, os cos­ do Brasil como nacionalidade separada de
tumes, .08 habitos sociais, as crenças, os feitos
Portugal, o que vimos foi a influencia das
dos antepassados, as recordaçoes dos momen­
idéias estrangeiras mais em voga sòbre as
tos de gloria, o estilo de vida e uma certa
elites dirigentes e as minorias letradas, entre
maneira uniforme de reagir perante avida.
as quais os jornalistas. Perdemos . assim · a
A palavra "naçao" - de nasci, nascer - indica
consciencia mais profunda da Naçao, nas suas
uma origem comum e também um mesmo
raizes hist6ricas, e, aexemplo do que se fazia
destino a realizar, mediante. a obra coletiva
dos homens de hoje, que vao prosseguindo a na França depois da Revoluçao de 1789, cujos
tarefa historica das geraçoes precedentes e vao principios chegavam até nos,quisemos come­
transmitindo aos posteros um grande Iegado çar tudo de novo e chegamos mesmo a pensar
de cultura. A Naçao é urna famflia historica, quea Naçao brasileira s6 começara a existir
e, como a famiIia, esta vinculada aos antepas­ em 1822. Deixavam-se levar os jornalistas
sados e se perpetua na descendencia que man­ politicos de entao, como os oradores, os depu­
tém o nome gentllicio. A Naçao é o passado, tados, os homens da administraçao, pelo fas­
o presente e o futuro. cinio que sòbre as geraçoes saidas dos bancos
A Naçao é o passado. Um retrospecto do academicos .exerciam as idéias de Montesquieu
A Naçio é o e ~ousseau, a constituiçao americana e a cons­
passado. jornalismo brasilejro. através da hist6ria bem
mostra como a atividade jornalistica, entre tituiçao francesa, o parlamentarismo britanicc
Retrospecto e o doutrinarismo de Guizot ou Benjamin
do jornalismo nos, esteve sempre ligada à realizaçao dos
grandes empreendimentos nacionais. Junta­ Constant.
brasileiro:
à procura mente com o Instituto Hist6rico e Geografico Assim foi durante o Império, e assim con­
de um de Sao Paulo, a nossa Escola promovia, du­ tinuou a ser no dealbar do regime republicano,
pensamento rante o ano Ietivo de 1958, a Exposiçao Re­ quando caiamos em Iamentaveis equivocos,
nacional. trospectiva de Jornalismo, que era, ao mesmo confundindo, po'r exemplo, federalismo e des­
tempo, o convite a um exame de consciencia centralizaçao, porque so conheciamos a téc­
coletivo. A experiencia dos que nos prece­ nica da descentralizaçao pela leitura do The
deram muito pode valer para nos ensinar Federalist e porque ignoravamos a nossa
quanto ao caminho certo a seguir. Seus.triun­ autentica formaçao, de base municipalista, em
fos, seus méritos e suas virtudes, mas também cujos caminhos hist6ricos, devidamente res­
suas deficiencias e seus malogros, passaram taurados, teriamos encontrado a resposta

20
certa ao justo anseio de liberdade locai e re­ Entre tais temas, quero destacar, no ter­ Um exemplo
gional contra os excessos da politica centra­ reno esportivo, o relacionado com um dos a considerar.
lizadora. acontecimentos que mais ·empolgaram a alma
A Naçio é o A Naç§.o é o presente. Quanto maior a nacional nestes Ultimos tempos: a vitoria do
presente. nossa vinculaç§.o afetiva à terra patria e à Brasil nocampeonato mundial de futeboL
Sintoniuçio comunidade dos nossos compatricios, tanto Poucas vezes vimos passar assim uma
da mocidacfe mais aguda sera em nos a capacidade para verdadeira corrente elétrica, de norte a sul do
com os sentir aquilo que interessa à sObrevivència, ao pais, dando aos brasileiros ocasiao magnifica
interesses fortalecimento e ao prestigio nacionais. Tal II de manifestarem em unissono o seu espirito
nacionai•. a sensibilidade da juventude, irrequieta, buli­ de brasilidade. Se muitos outros e belos
çosa e ardente, afadigando ilusoes e sonhando triunfos foram alcançados, no ano passado,
com o grande Brasil q ue recebemos dos nossos por jovens brasileiros que participaram de
maiores e queremos afirmar perante os con­ competiçoes esportivas em alheias plagas,
temporaneos. numa demonstraçao multiforme de virilidade
Estivestes sempre sintonizados com os in­ e de energia, a patentear o vigor da Raça,
nenhum entretanto teve como este o condao
teresses nacionais. Nas liçoes de vossos mes­
de fazer vibrar tao intensamente as cordas
tres procurastes elementos para a elaboraçao
mais senslveis do nosso patriotismo.
daquele pensamento nacional que nos tem
faltado. E em funçao deste ideaI participas­ Nao se veja nisto nenhuma exageraçao.
tes com entusiasmo das jornadas universita­ O fato ai esta, fria, serena, sociològicamente
registrado. E por sua vez tal fato nao signi­
rias e jornalisticas suscitadas pelas questoes
fica nenhuma exaltaçao deroasiada da nossa
mais palpitantes de cada momento. Assim gente, nenhum frenesi coletivo, como talvez
demonstrastes o vosso empenho em urna so­
à primeira vista possa parecer. Os que sabem
luçao brasileira para os problemas brasileiros; da popularidade do futebol em grande parte
destes o vosso apoio às campanhas para defe­ das naç5es da atualidade, e os que tem acoro­
sa do nosso subsolo; manifestastes a vossa panhado o desenvolvimento deste esporte
atençao para o problema da transferència. da entre n6s, nao extranharao aquelas demons­
capitaI, com vistas a fazer de Brasilia o mar­ traç6es em que se expandiu a natural exube­
co de um novo Brasil; e finalmente, no domi­ rancia da nossa gente de procedencia latina,
nio das letras, da arte, do folclore, tivestes hispanica, lusa, de mestiçagem aborigene e
também oportunidade para dar expansao a africana, e de vivencia geografica tropical.
essa sensibilidade juvenil que a alguns de vos Mas o que cumpre agora é realçar a
colocou à testa da revista Promoç{i,o e de liçao que encerra o fato em apreço, conside­
outras iniciativas destinadas a uma vivencia rado no seu sentido mais profundo. De ha
mais profunda dos grandes temas nacionais muito temos n6s, brasileiros, consciencia de
da hora presente. possuirmos um dos mais belos e aperfeiçoados
22 23
tipos de futebol no mundo todo. Nem sempre fibra de sua gente e na sua propria capaci­
é errado o ufanismo, e um dos seus aspectos dade de organizaçao.
mais . curiosos entre n6s, ùltimamente, tem Pois ai esta precisamente o ponte para o
sido o dos aficionados ao popular esporte bre­ qual desejo chamar a vossa atençao.
tao, o qual superou aqui a técnica dos velhos Donde veio tao estupendo triunfo? E
mestres que no-lo ensinaram, e levou as mul­ por que nao o colhemos das outras vezes? ..
tidoes dos grandes estadios e os frequentado­ Urna s6 tem sido a resposta, ditada pela evi­
res dos pequenos campos do interior à con­ dencia dos fatos: da organizaçao, que até aqui
vicçao de que somos os primeiros do mundo, nos faltara; do comando firme, disciplinador,
nesse terreno! eficaz, quer sob o ponte de vista técnico-des­
Entretanto, os primeiros do mundo eram portivo, quer sob o aspecto psicol6gico e prò­
sempre derrotados. Nas competiç5es interna­ priamente humano.
cionais apareciam para fazerem opapel do A ausencia deste comando e desta orga­
cavaleiro da triste figura. Muito alarde e nizaçao era um dos obstaculos que se interpu­
pouca eficiÉ~ncia. Decepç6es sobre decepç5es, nham às nossas ambiç5es, era um dos fatòres
extrinsecos que, uma vez removido, abriu o
Alguma coisa estava errada. Ou era . o caminho à vitoria. E outro elemento nega­
julgamento interno, uma valorizaçao super~ tivo era a circunstancia de, nestes illtimos
estimativa de n6s mesmos; ou eram fatores anos, andarmos a deturpar a nossa técnica
acidentais, extrinsecos, que importava elimi­ futebolistica mediante o emprego de sistemas
nar para nos apresentarmos tal como real­ e chaves de tòda sorte, importados de terras
mente o somos e quanto valemos. onde os homens, sua maneira de ser e suas
O campeonato mundial de futebol reali­ manifestaç5es ludicas sao de uma frieza e de
zado . na . Suécia veio, enfim, mostrar que a um calculismo que nao se compadecem com o
questio estava toda na segunda parte dessa genio latino, hispanico e luso, vivo em noSso

alternativa. Vencendo tal come vencemos, sangue, genio essencialmente individualista e

arrebatando as platéias estrangeiras e fasci­ improvisador, com as notas neste sentido

nando o Velho Mundo com o virtuosismo e a ainda mais acentuadas pelo atavismo indige­

disciplina dos nossos rapazes, mostramos n6s na e a influencia africana.

ser, no· futebol moderno, o que foram os gre­ Deixaram os nossos homens jogar à von..

gos da época classica nos jogos olimpicose os tade. .. como sabem... e eles se tornaram

cavaleiros medievais nos torneios do feuda­ invenciveis. Descobrimo-nos, ou melhor, re­

lismo, ou o que tem sido na arte de domar descobrimo-nos a nos mesmos, no terreno

touros bravios os garbosos cordoveses, sevi~ esportivo, e nos mostramos ao mundo tal

lhanos e rondenhos. Afirmamos o val or de qual o somos, sem os artificios postiços que

uma raça e de urna cultura. E os brasileiros nos deformavam e nos tiravam a autentici­
ganharam mais confiança em si mesmos, na dade cultural.

25
24
Tomo aqui a expressao "cultura" no sen­ condicionalismo geo-social e da forroaçao es­
tido sociologico moderno, abrangendo as va­ piritual e hist6rica de nossa gente. E o Brasi!
rias manifestaç6es coletivas de uro povo, sera nao apenas o "pais do futuro", ero que
desde a cultura intelectual até à cultura fisi­ um tao grande nUmero de pensadores estran­
ca; desde a ciencia dos laborat6rios até à mu­ geiros, depois de Stefan Zweig, anunciaro a
sicapopular; desde os planos de governo e grande potencia do século XXI, roas o pais
adrnlnistraçao até ao cultivo da terra e à do presente, assumindo dentro de poucos
técnica da industria; desde a forma superiol' anos, roenos do que podemos pensar, a pre­
da cultura dos povos, na vida solitaria e con­ eminencia para a qual a sua vocaça.o o enca­
templativa dos sabios, até às suas modalid8 minha na América, na lusitanidade, no mun­
des dlfundidas entre as massas pelos moder­ do hispànico, na comunidade atlantica e no
nos instrumentos de comunicaçao, o livro, a Ocidente.
re vista, o jornal, o teatro, o cinema, o radio e
a televisao. Esta .é a grande vocaçao imperial do Bra­
sil, perdida pelos homens q ue quiseram copiar
Ora bem, neste sentido é que a liçao a França, a Inglaterra e os Estados Unidos,
dada, no certame da Suécia pelos vencedores sem capacidade de dar ao mundo algo de
do campeonato mundial, pode servir, e muito,
novo e de afirmar a verdade nacional.
para nos corrigirmos de certos defeitos, que
impedem à verdade nacional manifestar-se ero E ainda dentro da ordem de idéias suge­ Um aemplo
t6da a sua plenitude noutros setores, especial­ rida pelo acontecimento ·que estamos comen­ do jornaUsmo
mente na politica, essa nobre atividade à tando, Quero registrar o que foi a colaboraçao como fator
qual . cumpre encaminhar a Naçao para os valiosa prestada à campanha de nossa reabi­ de COel'i o
seus destinos historicos. litaçao esportiva por um popular .orgao da nacional.
Manifestamos, no futebol, as nossas qua­ nossa imprensa, junto ao qual a Escola de
lidades, e deixamos expandir-se o nosso modo Jornalismo"Casper Libero" vem cumprindo o
de ser tipico. Mas ao mesroo tempo procura­ seu mistero Todos bem sabeis que uma onda
mos corrigir-nos dos nossos defeitos, subroe­ de descrédito e de criticas depreciativas, mor­
tendo-nos a uma disciplinainquebrantav·el e dazes, virulentas, partindo de certos cronistas
a urna organizaçao que nos estava faltando. irresponsa veis, começou, nos primordios da
o problema Eis o problema do Brasi!. Reajuste-se o organizaçao daquela campanha, a minar a
do Br.sil Estado à Naçao. Deixem-se as formas politi­ coesao espiritual indispensavel ao bom exito
cas que temos copiado de constituiç6es es­ e à vit6ria almejada. Nesse momento A Ga­
trangeiras mas nada significam para a reali­ zeta Esportiva levantou-se contra os agourei­
dade naciona!. Procure-se organizar o regime, ros viciados pelo sensacionalismo demolidor,
sob um comando Unico, eficiente e moraliza­ e pos-se a serviço da seleçao nacional, sem
dor, através de instituiç6es que tenham a fugir à verdade mas animando, fazendo cri­
marca da nossa autenticidade e decorram do tica construtiva, despertando o entusiasmo

26 27
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dos que partiam e dos qùe, ficando; aguarda­ blica, cumprindo-Ihes estar identificados com
vam ansiosos os primeiros resultados. DS objetivos nacionais permanentes.

Tao eficiente foi dai por diante, e durante Entre tais objetivos esta precisamente
todo · Q certame, · a atuaçao desenvolvida pelo aquela posiçaD de liderança reservada ao Bra­
matutino especializadO' da Fundaçao Casper si! e à qual nao podemos fugir sob pena de
Libero, - cujas maiores tiragens foram entao incidirmos num tremendo fracasso hist6rico.
alcançadas, - que, ao término da jornada e Liderança que nao significa imperialismo -­
na memoravel recepçao prestada aos vitorio­ o que fDi sempre contrario à nDssa indole e
80S pela cidade de Sao Paulo, o ambicionado às linhas de rumo da nossa politica exterior,
troféu trazido de Estocolmo era conduzido às fundada na medieval e lusitana idéia de con­
portas de A Gazeta, e ali se confra ternizavam, cordia - mas que representa, nas circuns­
como companheiros de um comum empreen­ tancias atuais do mundo, um imperativo
dimento, os chefes da delegaçao, os atIetas vindo da hist6ria, da economia, da geDpoli­
brasileiros e DS dirigentes de A Gazeta Es­ tica e da estratégia de defesa da civilizaçao
partiva. crista.
RecDrdD-vos tal Dcorrencia para que PO'S­ Precisamos, por isso mesmo, acabar com
sais compreender e sentir qual deve ser o a lenda de naçao subdesenvolvida, propicia a
papel da imprensa cDntribuindo para o forta­ gerar um certO' complexo de inferioridade,
lecimentD organicO' das estruturas basicas da para usar de linguagem ao gosto da época, e
vida nacional. Reconhecendo os méritDS dO' a nos cDlocar numa posiçao de mendicància
DiretDr daquele matutinD, bem avisadDs an­ em relaçao a outras potencias.
dastes escDlhendo a Carlos Joel Neli para Sem duvida, ha areas menos desenvolvi­
patrono da vossa turma. das a serem integradas na civilizaçao brasi­
Mas vamDS concluir. leira. É exato que nao ·atingimos ainda todo
A Naçio é o A Naçao é o futurO'. Na série de cDnfe­ o desenvolvimento economico e técnico que
futuro. rencias prDmovidas pela nossa Escola sobre a fora de desejar, resultando dai nao nos poder­
O Brasil e o posiçao dO' Brasi! no momento historicD mun­ mos equiparar a naç5es mais poderosas. Mas
mom'e nto dial, tivestes oportunidade de desvendar DS estas naç5es, em tempos idos, também atra­
hist6rico amplos e magnificos horizontes que se des­ vessaram fases semelhantes. Trata-se de um
mundiaf. cortinam à nossa nacionalidade, dependendD processo normal na vida dos povos, e nao de
de uma sabia politica exterior a lhe inspirar um retardamento patol6gico, um atrazo de
os estadistas. Verificastes nao ser hoje a po­ crese;imento decorrente duma espécie de fata­
litica externa assunto exclusivD das chance­ lidade acabrunhadora.
larias, e bem pudestes perceber que parte de Se temos caminhado lentamente, isto se
imensa responsabilidade ai cabe aos jornalis­ deve àqueles fatores extranhos à nossa for­
tas, na sua tarefa de orientar a opiniao pu­ maçao eque nos perturbam sobretudo na

28 29
ordem politica. Mas ainda assim o progredir distintivas vindas da lingua portuguesa e do
do Brasil, no dominio da produçao e da carater portugues, lingua e carater que, por
técnica, nao é algo que possa ser detido, a nao sua vez, nos abrem as portas do Oriente e nos
ser por uma catastrofe dà. natureza ou uma permitem uma inserçao no mundo africano;
subversao catastr6fica da ordem sociaI. quando refletimos em tao favoraveis condi- .
O que mais importa, como objeto do çoes com que nos dotou a Providencia, ­
nosso esforço, nao é o desenvolvimento econo­ ficamos n6s, brasileiros, atònitos ante a
mico. É a preservaçao da nossa originalidade ignorancia em que vivemos de nos mesmos, o
cultural, prestes a perder-se em meio às in­ alheamento dos homens publicps diante de
fluencias dos elementos dissociativos e anti­ tais condicionalismos e a falta de atuaçao,
nacionais. O que mais importa é procurar em sobre a generalidade dos nossos compatricios,
nos mesmos a fonte de uma energia renova­ dessas idéias-forças que expressam a propria
dora para o mundo, da qual tantas vezes nao substancia do ser nacional.
nos damos conta, deixando assim de perceber Idéias-fòrças para as quais a propaganda
as razoes decisivas de uma hegemonia que é muda, a propaganda que sabe apregoar 08
observadores alheios anunciam para n6s. estrangeirismos e faz acreditar nos mitos do
Quando pensamos, por exemplo, na inca­ século XX, por detras dos quais se esconde a
pacidade dos' Estad08 Unidos para a lideran­ dominaçao exercida pelos homens da alta
ça mundial, reconhecida por vultos eminentes finança e pelos demagogos.
daquela republica, como o publicista James
Ha, na gente do Brasil, virtualidades que
Burnham e o Embaixador Adolfo Berle Ju­
cumpre despertar, repelindo os fatòres inter­
nior; e quando, por outro lado, descobrimos,
nos e externos de desagregaçao: instituiçoes
nos paises hispanicos da América, esses com­
ponentes de profunda densidade humana, politicas que abastardam a Naçao e corrom­
herdados de Portugal e Espanha, e pelos pem os homens; a coletivizaçao da vida, pro..
quais nos tornamos os ultimos redutos da cedente do materialismo capitalista ou socia­
cultura ocidental e os primeiros rebentos lista; as correntes de idéias revolucionarias;
dessa sintesis viviente de amanha, de que a literatura e a imprensa dissolventes; o cine­
nos . fala o niestre peruano Victor Andrés Be­ ma e as formas artisticas que desintegram a
launde, da raza cosmica que aqui se vai for­ estrutura afetiva da nacionalidade.
jando, a raça dominante do futuro na visao Rechaçar tais elementos dissociativos e
do insigne mexicano José Vasconcelos; quan­ devolver o Brasil a si mesmo, tal é a vossa
do consideramos a abertura para tòdas as missao de jornalistas, arautos que deveis ser
raças, para todos os povos, para a compreell­ da formaçao de uma consciencia nacional.
sao fraternal das naçoes vizinhas e irmas, em Afirmai a Naçao brasileira, e confiai no
posiçao geografica privilegiada e com as notas futuro do Brasil - o "Brasll restituido", e
30 31
engrandecido pelo vosso empenho em fiel­

mente o servir, com a palavra impressa, atra­

vessando o tempo, ou com o verbo oraI, difun­

dido pelas ondas do espaço.

Dessa forma, fazenda a verdade, haveis de

reali zar a verdade nacional.

.3

Exortaçao final

..~2
Biblioteca Gentral - PUGPR

AO tristes as geraçoes sem ideaI. Passam A questio de


S sem deixar saudade. Reproduzem, na vida sempre.
humana, 'o espetaculo desolador que a natu­
reza nos apresenta numa primavera sem' flò­
res, num outono sem frutos, ou naquelas
trevas que, durante meses seguidos, se esten­
dem pelas regioes polares, confundindo os
dias e as noites. Sao as multidoes informes
dos homens sem marca.
Nao assim as geraçoes assinaladas pelo
idealismo e pelas convicçoes profundas. Guar­
dam a perene juventude dos que consagraram
a unia nobre causa a inocencia do seu espiri­
to. Sao as pleiades cintilantes dos homens
que se definiram.
A Naçao, valor temporal, projeta o ho­
mem em face da Eternidade, para a qual o
encaminha. Se os falsos nacionalismos do
nosso tempo lhe atribuiram um valor abso­
luto, foi por haverem desprendido o homem
do seu destino transcenden te. A fòrça da
nacionalidade brasileira esta exatamente em
ter nascido daq uelas geraçoes de inclitos in­
fantes e intrépidos navegantes, fiéis até à
morte ao serviço de Deus.
Definir-se perante a vida e Iutar por um
ideaI, nada ha de mais nobre para o homem.
E por isso q uero terminar com estas pa­
lavras de Louis Veuillot, o maior jomalista
cat6lico da França no século passado e talvez
o maior jornalista frances de todos os séculos:
35
- - - , _..
_~ . _ , - -- - _. - . - - - - . -_.­

"A questio de sempreesta em saber se o


homem deve nascer, viver e morrer, receber,
transmitir e deixar a vida, como criatura de
Deus a Deus destinada, ou como simples larva
originaria ùnicamente das fermentaçoes do I COMPROMISSO PROFERIDO
lOdo da terra". !
I NA COLAçAO DE CRAU
Ninguém pode fugir a éste magno proble­ \ j

ma da vida humana. Afasta.. lo é cair na me­

diocridade, é passar com as geraçoes que nio ;;~


I
l;

deixam saudade, é ser levado pelo vento como

a poeira da estrada. Enfrenta-Io é fazer a

opçio.

V6s ja a fizestes. Prossegui, sob as me­

lhores bençios de Deus.

pOR Deus e pelo Brasil, prometo,


no exercicio do jornalismo,
manter-me fiel aos ensinamentos
recebidos nesta Escola, fazendo da
pena um gltidio da verdade, uma
arma da justiça, um fator de far­
talecimento orgdnico das estrutu­
ras bcisicas da vieta brasileira. No
uso da liberdade de .expressao, sa­
berei respeitar a honra. do proximo
e hei de repelir categòricamente
tudo o que seja contrario à ética da
1 ';) minha profissiio.
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36