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Aula 10

Métodos de Interpretação Constitucional


I) Método Jurídico (Forsthoff)
Método Jurídico = Defende que a intepretação constitucional não difere
da interpretação das demais normas jurídicas. A Constituição deve, portanto, ser
interpretada através dos métodos clássicos de intepretação das leis em geral.

1) Quanto à origem:
1. Autêntica
2. Jurisprudencial
3. Doutrinária

2) Quanto ao meio:
1. Histórica
2. Lógico-sistemática
3. Teleológica
4. Literal ou gramatical

3) Quanto ao resultado:
1. Declaratória
2. Restritiva
3. Extensiva

1) Quanto à origem:

1. Autêntica
Conhecida também como a intepretação promovida pelo próprio
legislador. Ela se dá quando o próprio legislador, em nosso caso, legislador constituinte,
edita norma constitucional de caráter explicativo, interpretativo.
2. Doutrinária
É aquela promovida, como próprio nome dita, pela doutrina, em sentido
amplo, englobando os operadores do direito (e.g.: quando um advogado/Membro MP
defende uma tese em um processo), também promovida por juristas, professores.
Muito cuidado quando um juiz se manifesta em palestra, livro, nesse caso será
doutrinária.
E.g. PEC por iniciativa popular
Parte da doutrina se valendo da intepretação sistemática e teleológica,
interpretando o parágrafo único do art. 1º c/c art.14, III chega a um resultado
interpretativo extensivo, ampliando os legitimados para apresentação de PEC.
José Afonso da Silva chega à conclusão que o povo, dono do poder
soberano, exercer seu poder indiretamente (através de representantes eleitos para
tanto), mas também diretamente (através dos instrumentos previstos na CF), no caso
em exame, por iniciativa popular. O povo poderia diretamente participar de EC por
iniciativa popular (STF rejeita por ausência de previsão legal).
Existem Constituições Estaduais, como a do RJ, que preveem
expressamente PEC por iniciativa popular:

3. Jurisprudencial
É aquela levada a cabo pelos magistrados no exercício da função
jurisdicional.
E.g. 1: Art. 53, §1ºForo por prerrogativa de função, hoje, somente se aplica aos crimes
praticados após à diplomação + relacionados à função. Em outros termos, se o crime foi
praticado (teoria atividade, não resultado) antes da diplomação não há foro por
prerrogativa de função e, se praticado após a diplomação, sem pertinência â função,
também não haverá foro por prerrogativa de função.  Interpretação Restritiva
E.g. 2: Direitos migrantes, estrangeiros visitantes - Sistemático, Teleológico e extensivo
O STF, interpretando a Constituição como um todo e seguindo os §§ 2º,
3º, 5º que determina que o Brasil se submete à jurisdição internacional e respeita
tratados internacionais. Logo, nosso sistema jurídico não protege apenas brasileiros,
não apenas estrangeiros residentes, mas qualquer ser humano. Claro que não se
aplicam na mesma extensão, mas todos, em certa medida, estão protegidos pela
Constituição.

2) Quanto ao meio

1. Gramatical ou Literal
O intérprete busca revelar o sentido literal do texto interpretado. Nesse
caso, quando o resultado corresponder aos sentidos gramaticais possíveis, o resultado
será declaratório.
E.g. 1. Art. 53, §2º - prisão parlamentar apenas flagrante inafiançável
Quando o método gramatical corresponder aos resultados possíveis (nem
além, nem aquém) o resultado será declaratório
Jurisprudencial (STF), sistemática, histórica e teleológica  resultado extensivo
Gramatical  restritivo

2. Sistemático
Busca analisar o sistema como um todo, evitando, portanto, intepretação
de dispositivos constitucionais isolados, o que poderia levar a resultado interpretativo
contrário à Constituição considerada em sua totalidade. É a técnica de intepretação que
preza pela integridade e coerência do sistema. Hoje prevista expressamente pelo CPC e
direcionada aos juízos e tribunais.
Dizia o ex-Min. Eros Grau que a interpretação constitucional não se faz
“em tiras”, “em fatias”, em outros termos, não se deve interpretar dispositivos
isoladamente.
E.g.: 37, II – STF jurisprudencial, sistemática, teleológico  resultado
restritivo – SV 13

3. Histórico
O intérprete faz uma análise história do ato interpretado examinando,
desde o momento histórico em que o ato foi criado e, ainda, todo o processo histórico
de evolução até o momento presente em que o ato será aplicado.
E.g.: análise do STF quanto à imunidade parlamentar. Em um primeiro
momento, o STF entendia que a imunidade material – art. 53, caput – protegia o
parlamentar por qualquer palavra ou voto, independentemente de pertinência
temática. Em um segundo momento, o STF passa a exigir, para que a imunidade incida,
protegendo o parlamentar, que a manifestação tenha relação de pertinência temática
com as funções parlamentares. Tal exigência, contudo, só se aplica a pronunciamento
fora do ambiente parlamentar. Em outros termos, se a manifestação se der dentro do
ambiente das Casas Legislativas, não se aplica a exigência da pertinência temática.
Atualmente, o STF vem sinalizando, no sentido de alterar sua
jurisprudência, no sentido de aplicar o requisito de pertinência temática também dentro
do Congresso Nacional.

4. Teleológica ou finalística
Conforme essa técnica, o intérprete deve ter como norte a finalidade do
texto interpretado. Em outros termos, o intérprete busca interpretar a Constituição de
maneira que ela alcance os fins para o qual ela foi criada.
E.g.: MS 26690 – Possibilidade de membro do MP Estadual ingressar no MPF tendo
menos de 3 anos de prática. No referido caso concreto, o STF em interpretação
teleológica do §3º, art. 129, afastou a aplicação do mesmo ao caso concreto, pois a
aplicação do dispositivo ao método contrariaria a própria finalidade do dispositivo, qual
seja, filtrar aqueles que ingressam no MP, afastando, consequentemente, aqueles que
não estejam fática e objetivamente aptos a exercer a função. No caso, embora o
indivíduo tivesse menos tempo que o exigido, já estava apto objetivamente a exercer as
respectivas funções, pois já integra o MP e, consequentemente, já desempenha as
respectivas funções. Portanto, a aplicação do §3º, art. 129 iria contra a própria finalidade
do dispositivo.
Resultado Restritivo

3) Quanto ao Resultado

1. Declaratório
Se dá quando o intérprete não amplia ou restringe o texto interpretado,
simplesmente, como o nome indica, declara os sentidos gramaticalmente possíveis do
texto interpretado.
E.g.: Imunidade Prisional e Iniciativa Popular de PEC.

2. Extensiva
Através dessa técnica, o intérprete amplia o alcance do texto
interpretado, pois o texto diz menos que deveria.
E.g.: Jurisprudencial, sistemática, teleológica e resultado Extensivo
Art. 102, I, “a” – ADI lei distrital? O dispositivo é ampliado para alcançar leis distritais de
natureza estadual (municipal não)

3. Restritiva
O intérprete reduz o alcance do texto interpretado.
E.g.: art. 37, II; 53, caput.

Método Científico/espiritual
Conforme o método científico/espiritual, o intérprete deve se valer das
técnicas jurídicas, pois o Direito é ciência. Contudo, a intepretação constitucional não se
resume aos métodos clássicos, devendo levar em conta o espírito da Constituição, seus
valores. A depender de seus valores.
Os valores sevem como norte interpretativo, portanto, é possível que se
tenha dispositivos similares ou idênticos em Constituições diversas. O resultado
interpretativo, nesse caso, vai depender dos valores de cada Constituição.

Hermenêutico/Concretizador - Hesse
Konrad Hesse é autor da teoria da força normativa da Constituição. A
Constituição não meramente documento político, é documento jurídico regulado fatos
concretos. Portanto, toda interpretação constitucional é voltada à concretização, ou
seja, interpreta-se para concretizar. A função do intérprete é garantir que o dispositivo
constitucional interpretado tenha efetividade. Portanto, a intepretação se faz num
constante movimento vai e vem, do geral para o individual e vice-e-versa. O intérprete
parte da norma geral para hipótese concretas particulares de interpretação. O
intérprete densifica o texto, delimitando seu âmbito de intepretação.
Conforme esse método, busca-se concretizar a Constituição, garantir à
mesma aplicabilidade. Contudo, a prevalência não será na situação individualizada, será
sempre da situação geral. Em outras palavras, não sendo possível adequar a norma geral
ao caso concreto, prevalece a norma geral, por força do princípio constitucional da força
jurídica.

Método Tópico/Problemática (Vieehweg)


A intepretação deve ser voltada à resolução do problema, principalmente
ao se falar em intepretação judicial. A finalidade, portanto, deve resolver o problema
em exame, mesmo que, para tanto, se afaste a norma geral. Aqui também ocorre um
vai-e-vem (círculo hermenêutico), contudo, diferentemente do método anterior, a
prevalência será a solução do caso concreto e não a norma geral.
E.g.: Menos 3 anos prática (privilegiou a solução do caso concreto e não a norma geral)

Método Normativo/Estruturante (Müller)


Esse método parte de uma distinção de texto e norma. Texto são signos
ou símbolos linguísticos. Já norma é resultado da intepretação do texto. O texto é,
portanto, ponto de partida. A partir do texto, deve o intérprete proceder a 2 exames: 1)
o exame do programa normativo, que diz respeito ao conjunto de dados linguísticos,
sistemáticos, teleológicos, do texto interpretado – e.g.: imunidade material
parlamentar; já o 2º é o exame do âmbito normativo, aplicativo.
Método Comparativo (Häberle)
Esse método busca otimizar a intepretação constitucional através da
comparação entre Constituições do mesmo Estado, de Estados distintos. Há o que a
doutrina denomina “comércio entre constituições/jurisdições constitucionais”. Com
isso, é possível se minimizar os erros e maximizar os acertos.

Método Comparativo (Häberle)


A intepretação constitucional deve se pautar por uma análise evolutiva,
de modo a se manter a Constituição em consonância com o momento vigente. Embora
o texto, objeto de intepretação seja estático, o seu sentido é dinâmico, portanto a
intepretação tem por fim, acompanhar a própria dinâmica da sociedade.
A interpretação, portanto, deve buscar acompanhar a dinâmica da
própria sociedade. Nos EUA, no primeiro momento, interpretava-se o direito à
igualdade sob o aspecto formal, alcançado apenas os cidadãos americanos, homens e
brancos. Num segundo momento, amplia-se o referido direito para alcançar também os
negros, embora fosse admitida a segregação (iguais, mas separados). Já num terceiro
momento, a igualdade contempla todos sem segregação, chegando-se a própria ideia
de igualdade como diversidade ou pluralística. A jurisprudência americana, portanto, ao
longo do tempo, promoveu sucessivas leituras do mesmo direito de maneira a
acompanhar as mudanças que ocorreram na sociedade.

Sociedade Aberta dos Intérpretes da Constituição (Häberle)


Conforme esse método, a intepretação constitucional se legitima a partir
da abertura ao debate, da possibilidade de participação efetiva no debate constitucional
de setores da sociedade, trazendo, portanto, à discussão as mais variadas visões acerca
do dispositivo constitucional interpretado. O referido método se vale, portanto, da
abertura da jurisdição constitucional, com participação efetiva da sociedade.
E.g.: Audiências públicas, Amicus Curiae

Princípios de Intepretação
 Supremacia da Constituição
A Constituição é a norma com superioridade hierárquica sobre as demais
normas. A intepretação constitucional deve, portanto, levar em consideração o status
jurídico da Constituição, indicando uma intepretação verticalizada, com prevalência da
norma constitucional.
 Força Normativa da Constituição
A intepretação constitucional deve ser voltada à sua concretização. Em
outros termos, deve o intérprete, dentro do possível garantir ao dispositivo
constitucional interpretado a possibilidade de ser aplicado concretamente, de regular
situações. Deve o intérprete buscar dar ao texto aplicabilidade.
Art. 192, §3º - SV 7 – STF retirou do princípio da força normativa

 Máxima Efetividade
O intérprete deve dar máxima efetividade ao texto interpretado.
E.g.: Mandado de injunção, mesmo na ausência de lei regulamentadora, aplicando a lei
de MS por analogia.

 Unidade da Constituição
Conforme esse princípio, a Constituição é um documento único,
portanto, a intepretação de dispositivos constitucionais deve se valer de um exame
sistemático da Constituição. Com isso, se tem uma intepretação mais coerente, pois
leva, como dito, em consideração, a Constituição como documento unitário, único –
intepretação sistemática.

 Justeza ou Conformidade Funcional


Funciona como limite ao intérprete, indicando que este deve ser o mais preciso possível
quanto à intepretação de funções, atribuições, poderes constitucionais, de forma a
evitar sobreposição de funções, usurpação de funções, garantindo com isso, uma maior
harmonia entre os poderes do Estado, entre órgãos, instituições Constitucionais.
E.g. 1: Veto objeto de ADPF – cabe ao Congresso Nacional o controle do veto – art. 66,
§§4º e 5º
E.g. 2: Poder de investigação do MP – de forma a que o MP não invada a atribuição das
polícias
E.g. 3: AGU 103, §3º - Defensor Legis + art. 131 AGU representação dos interesses da
União – AGU não está obrigado a defender
 Princípio do Efeito Integrador
Tem relevância em Constituições chamadas de heterodoxas, complexas,
que não se valem de uma única ideia, orientação, mas se baseiam em ideias, princípios
distintos, por vez aparentemente conflitantes. É função do intérprete constitucional
buscar a integração dessas ideias, valores, princípios, evitando, com isso, a
incompatibilização dos mesmos. Integrar as mais diversas orientações a evitar
incongruências constitucionais.

 Concordância/Harmonização Prática
Similar, mas voltado a solucionar conflitos concretos entre direitos
constitucionais.
E.g.: Igreja volume alto à noite.

 Interpretação conforme a Constituição


 Interpretação da Constituição conforme a lei