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FIM DE MILENIO PAZE TERRA z € dedicado aos proce de mudan eran eC RUTeLtCaTeee soc Menetete tre redes ¢ identidade tiene Aten Or keo nes Pore EMenintiee urate Mer taco tnnc nent ere eee Coretta tatismo industrial de conduzir a transi Og a tey ees Reni crentte Oe) Rotice teeter emorercre tence} Reettee CON Roser acta hse cern cs amet om contd como exemplo a Afriea, a pobreza urba- ere omar event Paterson We eeoanY CNT eco estuda a globalizacao do crime organi Plorrce ect acerte tet ee Recent Pyro rCchee ees eats Remo Mere tren em vortices lteter tacts toe erie} Presence orontcn bal, e reflete sobre as contradigoes da uni- Frere eee eae co meen ree tes ee Pertenece Na conclusao geral a trilogia, ineluida neste volume, Castells une os fios de seus Pere ore rc earn ont uma interpretacdo sistematica do nosso Pen eRG TTC Reon Tere Settee Ce Were nea Cc Suro tee Wee eateries Pe oro eR En cess KCen rnc RMUwoe emt oer eon eon ces Bora @ scare) 3. A empresa em rede: a cultura, as insti- reer eon cntcatceen em centennt cone terennt UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA, BIBLIOTECA CENTRAL AERA DA INFORMAGAO ECONOMIA, SOCIEDADE E CULTURA Volume III o FIM DE MILENIO Dy wo 2 oh ae re (ft \ J UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA BIBLIOTECA CENTRAL Manuel Castells FIM DE MILENIO Volume IIT Traduc@o: Klauss Brandini Gerhardt e Roneide Venancio Majer 6 reimpressdo D PAZ E TERRA | BIBLIOTECA CENTRAL j op $4 32EY © Manuel Castells Translated from End of Millennium: The Information Age: Economy, Society and Culture, volume Ill, Second ed., by M. Castells. This edition is published by arrangement with Blackwell Publishing Ltd, Oxford. Translated by Editora Paz e Terra S/A from the original English language version. Responsibility of the accuracy of the translation rests solely with Editora Paz.e Terra S/A and is not the responsibility of Blackwell Publishing Ltd. CIP-Brasil. Catalogagdio-Na-Fonte (Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ, Brasil) ‘So Paulo: Paz e Terra, 1999, Ilustragao de capa: 1. E. Repin, Barge Haulers on the Volga, 1870-1873 State Russian Museum, St Petersburg foto AKG Londres. 344f Castells, Manuel, 1942 Fim de milénio / Manuel Castells ; tradugio Klauss Brandini Gerhardt ¢ Roneide Venancio Majer. - ‘Sao Paulo : Paz e Terra, 1999 . - (A era da informagao : economia, sociedade e cultura ; v.3) ‘Tradugao de: End of Millennium Inclui bibliografia ¢ indice remissivo ISBN 978-85-7753-051-9 1. Tecnologia da informagio — Aspectos sociais. 2. Tecnologia da informagaio — Aspectos politicos. 3. Sociedade da informagao. 4. Tecnologia e civilizagio. 5. Historia social — 1970—. 6, Histéria econdmica — 1990—. L. Titulo. IL. Série, 99-1332 CDD 303.483 CDU 316.422.44 00999 210 999 007840 Direitos adquiridos pela EDITORA PAZ E TERRA LTDA. Rua do Triunfo, 177 Santa Ifigénia, Sao Paulo, SP — CEP 01212-010 Tel.: (11) 3337-8399 vendas@pazeterra.com.br www. pazeterta.com.br 2012 Impresso no Brasil / Printed in Brazil MBIVERSIDADE FEDERAL DO PARA BIBLIOTECA CENTRAL Sumario Figuras... Tabelas.... Quadros . Agradecimentos Tempo de Mudanga. 1. Acrise do estatismo industrial e o colapso da Unido Soviética ........ O modelo extensivo de crescimento econémico e os limites do hiperindustrialismo . Aquestio tecnolégica.... Aabdugao da identidade e a crise do federalismo soviético .. Atiltima Perestroika... Nacionalismo, democracia e a desintegragao do Estado soviétic As cicatrizes da hist6ria, as ligdes para a teoria, o legado para a sociedade ... 2. O surgimento do Quarto Mundo: capitalismo informacional, pobreza e exclusiio social . Rumo a um mundo polarizado? Uma visio global .. A desumanizagio da Africa.. Marginalizagio e integracao seletiva da Africa subsaariana na economia informacional/global.. O apartheid tecnol6gico da Africa no despontar da Era da Informagao. . 120 O Estado predatério.. 28 45 S7 66 76 82 108 116 8 Sumétio Zaire: a apropriagdo pessoal do Estado. Nigéria: petréleo, etnia e predagao militar... Identidade étnica, globalizagao econémica e formagao dos Estados na Afric A dificil situagio da Africa Aesperanga da Africa? A conexio sul-africana .... Adeus a Africa ou de volta ao continente negro? A politica e a economia da autoconfianga. O novo dilema norte-americano: desigualdade, pobreza urbana e exclusio social na Era da Informagao As duas faces da América ...... O gueto do centro das cidades como sistema de exclusao social Quando a subelasse vai para o inferno Globalizagao, superexploragiio e exclusao social: a perspectiva das criangas.. Aeexploracio sexual de criangas ... A matanga de criangas: o massacre da guerra e os soldados mirin Por que se desperdicam as criangas... Conelusao: os buracos negros do capitalismo informacional.. 3. Aconexiio perversa: a economia do crime global .... Globalizagao organizacional do crime, identificagao cultural dos criminosos 205 Apilhagem da Russia... A perspectiva estrutural .. - oe A identificagao dos atores Mecanismos de acumulacao Narcotréfico, desenvolvimento e dependéncia na América Latina. Quais so as conseqiiéncias econdmicas da industria da droga para a América Latina? Por que a Colombia? O impacto do crime global sobre a economia, a politica e a cultura UMIVERSIDADE FEDERAL DO PARA BIR AS FOAM THAR 4. Desenvolvimento e crise na regiao do Pacifico asiatico: a globalizagaio e 0 Estado... ‘Amudanea de destino da regitio do Pacifico asiatic O Japiio de Heisei: Estado desenvolvimentista versus Sociedade da Informagao. 259 Um modelo social do processo desenvolvimentista japoné: 261 Sol poente: a crise do modelo japonés de desenvolvimento 272 O fim da “politica Nagatacho”..... 286 Hatten Hokka e Johoka Sgakai: uma relagao contraditéria O Japao ea regiao do Pacific Decapitar 0 dragio? Quatro tigres asidticos com cabega de dragao e suas sociedades civis Acompreensao do desenvolvimento asiatico Cingapura: construgao nacional pelo Estado via empresas multinacionais ... Coréia do Sul: a produgao estatal do capitalismo oligopolista . Taiwan: capitalismo flexivel sob a égide de um Estado inflexivel . Modelo econdmico versus realidade em Hong Kong: empresas de pequeno porte em uma economia mundial ¢ a verso colonial do Estado do bem-estar social Acriagao dos tigres: semelhancas e diferengas no processo de desenvolvimento econémico O Estado desenvolvimentista na industrializagao do Leste Asiatico: conceito de Estado desenvolvimentista 322 Osurgimento do Estado desenvolvimentista: da politica de sobrevivéncia ao processo de construgdo nacional .. 324 O Estado e a sociedade civil na reestruturagao do Leste Asidtico: como 0 Estado desenvolvimentista obteve éxito no processo de desenvolvimento Caminhos divergentes: os tigres asidticos na crise econdmica. 10 Sumétio Democracia, identidade e desenvolvimento no Leste Asiatico na década de 90 Onacionalismo desenvolvimentista chinés com caracteristicas socialistas 348, . 348 Anova revolugao chinesa .. Capitalismo guanxi? A China na economia global... Os Estados desenvolvimentistas regionais da China e os empresarios burocraticos (capitalistas) ... Superando as dificuldades? A China na crise econémica asiatica ... a 365 Democracia, desenvolvimento e nacionalismo na nova China .... : Conclusio: a globalizacio eo Estado... . 373 5. Aunificagao da Europa: globalizagao, identidade e o Estado em rede... 385 Aunificagao européia como uma seqiiéncia de reagdes defensivas: uma perspectiva de meio século... . 386 Globalizagao e integragao européia .. A identidade cultural e a unificagdo européia A institucionalizacao da Europa: o Estado em red Identidade européia ou projeto europeu? .... Conclus&o: depreendendo nosso mundo . 411 Génese de um novo mundo... . 412 Uma nova sociedade .... Os novos caminhos da transformagao social .. 428 Depois deste milénio... O que deve ser feito?... Final. Resumo do indice dos volumes Ie IL... Bibliografia. . 471 Indice remissivo.. 1.1 1.2 3 21 22, 2.3 24 BS 2.6a 2.6b 2F 2.8 2.9 2.10 4.1 UMIVERSIDANE FEDERAL DO PARA Figuras Renda nacional soviética, 1928-87: estimativas alternativas.... 33 Renda nacional soviética: papel dos insumos no crescimento da produgao... 33 Taxas de crescimento do PNB soviético, 1951-8 35 Indice do PIB per capita em uma amostragem de 55 pafse: Conectividade internacional .... Produgao de alimentos per capita 119 143 Numero de casos de AIDS por milhao na Africa, 1990... Crescimento anual da renda familiar da classe média, 1947-94. Salérios pagos por hora (homens) de acordo com percentil de salério, 1973-95. Salérios pagos por hora (mulheres) de acordo com percentil de salétio, 1973-95 .. Variagdo anual média na renda familiar, 1947-94 Porcentagem de trabalhadores que recebem salérios da linha de pobreza, 1973-95... Taxas de encarceramento nos EUA, 1850-199 Ntimero de detentos em penitencidrias federais ou estaduais ou em pris6es locais nos EUA, 1985-95 Valores do Japao em agGes e terrenos em bilhées de ienes, 1976-96..... 276 13 14 1.6 21 22 2.3 24 258 2.6 27 28 4.1 Tabelas Evolugio da renda nacional soviética, 1928-87: estimativas alternativas Crescimento da produgao e indices de inflagao na Unido Soviética, 1928-90... Insumos e produtividade na Unido Soviética, 1928-90..... ‘Taxas de crescimento do PNB, forga de trabalho e capital soviéticos, com indices de investimento/PNB e produgdo/capital .. Saldo do intercdmbio de produtos e recursos entre as reptiblicas, 1987... Composigdo étnica das repiblicas auténomas da Riissia, 1989. PIB per capita em uma amostragem de 55 paises . PIB per capita das economias em desenvolvimento, 1980-96 Valor das exportacdes mundiais, pafses subdesenvolvidos ¢ Africa subsaariana, 1950-90... Composigdo das exportacées (%), 1990... Porcentuais de participagao da Africa subsaariana em exportacdes mundiais de grandes categorias de produtos.... Relagdes comerciais de paises africanos selecionados, 1985-94 .... Taxas de crescimento setorial (porcentagem média anual da variagiio do valor agregado), 1965-89 .. Estimativa de soropositivos adultos (15 a 49 anos) nas cidades e reas rurais em paises africanos selecionados, c. 1987 ... Investimento estrangeiro contratado na China pela fonte, 1979-92 29 31 32, 37 65 101 109 110 ll 112 113 114 146 356 bo PARA 4.1 Modelo social do desenvolvimento japonés, 1955-85 263 4.2. Estrutura e processo de desenvolvimento econdmico em Hong Kong, 1950-85... 314 OSIVERSIDADE FEDERAL DO PARA, BIBLIOTECA CENTRAL Agradecimentos Este volume encerra 12 anos de trabalhos de pesquisa tendo em vista ela- borar uma teoria da Era da Informagao de cunho socioldgico, intercultural e fundada em bases empiricas. Ao final desta jornada, que marcou e, em certa medida, exauriu, minha vida, gostaria de consignar publicamente meus agra- decimentos a diversas pessoas ¢ instituigdes cuja contribuicao foi decisiva para aconclusao desta obra, escrita em trés volumes. Expresso a mais profunda gratiddo 4 minha mulher, Emma Kiselyova, cujo amor e apoio me deram o fervor ¢ a energia necessdrios para escrever este livro, e cujo trabalho de pesquisa se mostrou essencial em varios capitulos, especialmente no capitulo 1 sobre o colapso da Unido Soviética, fendmeno pes- quisado por ambos, na Russia e na Calif6rnia. Esse capitulo jamais poderia ter sido desenvolvido sem seus conhecimentos pessoais da experiéncia soviética, sua andlise das fontes em idioma russo e suas corregGes dos diversos erros que cometi em versées sucessivas do texto. Emma também foi a principal pesqui- sadora para a elaboracao do capitulo 3 sobre a economia do crime global. O capitulo 4, acerca do Pacffico Asidtico, dependeu em grande parte da contribuigdo e dos comentérios de trés colegas que, ao longo dos anos, tém sido incansdveis fontes de consulta para minhas idéias e informag6es sobre as socie- dades asidticas: professor You-tien Hsing da Universidade de Colimbia Briténica; professor Shujiro Yazawa, da Universidade Hitotsubashi de Téquio; © professor Chu-joe Hsia, da Universidade Nacional de Taiwan. O capitulo 2, que trata da exclusao social, nao poderia existir sem a extraordindria assistén- cia em pesquisa de meu colaborador Chris Benner, aluno de doutorado em Berkeley no perfodo 1995-7. Varias pessoas, além das acima referidas, prestaram sua generosa contri- buigo, na forma de informagdes e idéias, ao trabalho de pesquisa apresentado neste volume. Meus sinceros agradecimentos a Ida Susser, Tatyana Zaslavs- kaya, Ovsey Shkaratan, Svetlana Natalushko, Valery Kuleshoy, Alexander 16 Agradecimentos Granberg, Joo-Chul Kim, Carlos Alonso Zaldivar, Stephen Cohen, Martin Carnoy, Roberto Laserna, Jordi Borja, Vicente Navarro e Alain Touraine. Gostaria ainda de agradecer aos colegas que teceram comentarios sobre as primeiras verses deste volume, ajudando-me a corrigir alguns de meus erros: Ida Susser, Tatyana Zaslavskaya, Gregory Grossman, George Breslauer, Shujiro Yazawa, You-tien Hsing, Chu-joe Hsia, Roberto Laserna, Carlos Alon- so Zaldivar e Stephen Cohen. Durante todos esses anos, diversas instituigdes de pesquisa prestaram-me apoio indispensdvel para o trabalho aqui apresentado. Agradego aos diretores e aos colegas dessas instituigdes que me ensinaram muito do que sei a respeito das sociedades em todo o mundo. Uma das mais importantes dessas instituigdes € minha residéncia intelectual desde 1979: a Universidade da California em Berkeley, e mais especificamente as unidades académicas em que trabalho: o Departamento de Planejamento Regional e Urbanfstico, Departamento de Sociologia, Centro de Estudos sobre a Europa Ocidental, Instituto de Desen- volvimento Regional e Urbano, e a Mesa Redonda de Berkeley sobre Econo- mia Internacional. Outras instituigdes que prestaram todo o apoio para a realizag&io de meu trabalho acerca dos temas abordados neste volume durante a tiltima década incluem: 0 Instituto de Sociologia de Nuevas Tecnologias, e Programa de Estudios Rusos, Universad Autonoma de Madrid; Associagaio Russa de Sociologia; Centro de Estudos Avangados de Sociologia, Instituto da Juventude, Moscou; Instituto de Economia e Engenharia Industrial, Academia Soviética (e, posteriormente, Russa) de Ciéncias, Novosibirsk; Universidade da Califérnia, Programa de Pesquisas sobre a Bacia do Pacifico; Faculdade de Ciéncias Sociais, Universidade Hitotsubashi, Téquio; Universidade Nacional de Cingapura; Universidade de Hong Kong, Centro de Estudos Urbanos; Uni- versidade Nacional de Taiwan; Instituto Coreano de Estudos de Colénias de Povoamento; Instituto de Tecnologia e Economia Internacional, Conselho Estatal, Pequim; Centro de Estudios de la Realidad Economica e Social, Cochabamba, Bolivia; Instituto Internacional de Estudos do Trabalho da Orga- nizacao Internacional do Trabalho, Genebra. Reservo uma mengio especial a John Davey, ex-diretor editorial da Blackwell Publishers. Por mais de vinte anos ele tem me orientado em técnicas de redagao e comunicaciio, além de prestar valiosos servigos de assessoria em editoragao. Sua contribuig&o pessoal na forma de comentarios sobre a conclu- sao deste volume foi decisiva. Meu trabalho escrito jamais pode ser dissociado de minha interagao intelectual com John Davey. ———ee ll FECA CENTRAL BE Gaceimentos "7 Gostaria também de citar 0 nome de algumas pessoas que desempenha- ram papel fundamental no meu desenvolvimento intelectual global durante os Ultimos trinta anos. Seu trabalho e seu pensamento encontram-se, de diversas formas, presentes nesta obra, estando contudo sob minha inteira responsabili- dade. Sao eles: Alain Touraine, Nicos Poulantzas, Fernando Henrique Cardoso, Emilio de Ipola, Jordi Borja, Martin Carnoy, Stephen Cohen, Peter Hall, Vicente Navarro, Anne Marie Guillemard, Shujiro Yazawa e Anthony Giddens. Tive a sorte de crescer, em uma rede global, em meio a uma geragao excepcio- nal de intelectuais comprometidos tanto com a compreensao como coma trans- formacio do mundo, ao mesmo tempo mantendo a distancia necessria entre a teoria e a pratica. Finalmente, cabe-me ainda consignar agradecimentos a meus cirurgides, Dr. Peter Carroll e Dr. James Wolton, ¢ a meu médico, Dr. James Davis, todos do Centro Médico de Sao Francisco da Universidade da Califérnia, cujos cui- dados e profissionalismo deram-me 0 tempo ea energia necessarios para a con- clusao desta obra. Maio de 1997 Berkeley, Califérnia O autor e os editores agradecem também a autorizacao concedida para a reproducio do material apresentado abaixo: Carmen Balcells Literary Agency e Farrar Straus & Giroux Inc.: excerto de “Too Many Names” de Extravagaria de Pablo Neruda, traduzido para o inglés por Alastair Reid (Farrar Straus & Giroux, 1974), copyright © da tradu- cao 1974 de Alastair Reid; Blackwell Publishers: tabela 1.4, Padma Desai (1987); Carfax Publishing Company, PO Box 25, Abingdon, Oxon OX14 3UE: tabelas 1.1, 1.2¢ 1.3e figuras 1.1 e 1.2, Mark Harrison: Europe-Asia Studies 45 (1993); The Economist: figuras 2.3 e 4.5, copyright © The Economist, Londres 1996; Random House UK Ltd: linhas de um dos poemas de Pablo Neruda, de Collected Poems (Cape, 1970); MLE. Sharpe Inc., Armonk, NY 10504: figuras 2.5, 2.6a, 2.7 e 2.8, Lawrence Mishel, Jared Bernstein e John Schmitt (1996); 18 Agradecimentos V.H. Winston & Son Inc.: tabela 1.6, D.J.B. Shaw: Post-Soviet Geogra- phy (1993), © V.H. Winston & Son Inc., 360 South Ocean Boulevard, Palm Beach, FL 33480. Todos os direitos reservados. Foram envidados todos os esforgos para encontrar e entrar em contato com os detentores dos direitos de reprodugao antes da publicagao. Se notifica- da a editora ter imensa satisfago em corrigir quaisquer erros ou omissdes nos casos em que nao tenha sido possivel fazé-lo. UNIVERSIDADE FEDERAL Do PARA LIOTECA CENTRAL Tempo de Mudanga Costuma-se pensar que a virada de um milénio seja uma época de mudan- gas. Mas nem sempre isso € verdade: o fim do primeiro milénio, de forma geral, ndo apresentou novidades. Quanto ao segundo, aqueles que estiverem esperan- do algum tipo de raio fatal ter’o de preocupar-se em acertar os relégios de for- macorreta, visto que, em termos estritamente cronolégicos, o segundo milénio termina & meia-noite do dia 31 de dezembro do ano 2000, e nao de 1999 como a maioria das pessoas comemorario ou terao comemorado. Ademais, estamos mudando de milénio apenas com base no calendario gregoriano do cristianis- mo, religizioem minoriadestinadaa perder a primaziano multiculturalismo que caracterizard o préximo século. No entanto, este representa de fato um tempo de mudangas, independen- temente de como 0 calculemos. Nos tiltimos vinte e cinco anos deste século que se encerra, uma revolugio tecnolégica com base na informagao transformou nosso modo de pensar, de produzir, de consumir, de negociar, de administrar, de comunicar, de viver, de morrer, de fazer guerra e de fazer amor. Constituiu- se uma economia global dinamica no planeta, ligando pessoas e atividades importantes de todo o mundo e, a0 mesmo tempo, desconectando das redes de poder e riqueza as pessoas € 0s territérios considerados nao pertinentes sob a perspectiva dos interesses dominantes. Uma cultura de virtualidade real, cons- trufda em torno de um universo audiovisual cada vez mais interativo, permeou a representacaio mental e a comunicagao em todos os lugares, integrando a diversidade de culturas em um hipertexto eletrénico. O espago eo tempo, bases materiais da experiéncia humana, foram transformados 4 medida que 0 espago de fluxos passou a dominar o espago de lugares, e o tempo intemporal passou a substituir o tempo cronolégico da era industrial. ExpressGes de resistencia social a l6gica da informacionalizacao e da globalizagao sao construfdas em torno de identidades primérias, criando comunidades defensivas em nome de Deus, da localidade, da etnia ou da familia. Ao mesmo tempo, instituigdes 20 ‘Tempo de Mudanca sociais bdsicas importantes, como 0 patriarcalismoe o Estado-nacio, sio ques- tionadas sob a pressio conjunta da globalizagio da riqueza e informagao e da localizagao de identidade e legitimidade. Esses processos de mudanga estrutural, analisados nos dois volumes anteriores desta obra, levam a uma transformagao fundamental dos contextos macropoliticos e macrossociais que definem e condicionam a ago social e a experiéncia humana em todo o mundo. Este volume examina algumas dessas macrotransformagées e procura explicd-las como resultado da interagio entre 0s processos que caracterizam a Era da Informagao: informacionalizagao, glo- balizagao, atividades em rede, construgao de identidades, crise do patriarcalis- mo e do Estado-nagao. Embora nao afirme que todas as dimensées importantes da transformagao histérica estejam representadas neste volume, acredito: que as tend€ncias documentadas e analisadas nos capitulos seguintes logram consti- tuir um novo cenrio hist6rico, cujas dinamicas provavelmente terdo efeitos duradouros em nossa vida e na vida de nossos filhos. Nao € poracaso que o volume comecacom uma anélise do colapso do comu- nismo soviético, A Revolugao Russa de 1917 e o movimento comunista interna- cional que ela promoveu representaram o fendmeno politico e ideolégico predominante no século XX. O comunismo e a Uniaio Soviética, juntamente com as reagGes contrarias por eles desencadeadas em todo o mundo, marcaram de for- ma decisiva sociedades e pessoas durante o século. E, assim mesmo, esse império poderoso, com sua forte mitologia, desintegrou-se em apenas alguns anos, consti- tuindo um dos exemplos mais extraordindrios de inesperada mudanga hist6rica. Defendo que as raizes desse processo, que caracteriza o fim de uma €poca hist6- rica, residem na inabilidade demonstrada pelo estatismo ao administrar a transi- ao paraa Era da Informagio. O capitulo 1 busca oferecerbaseempiricaaessatese. O fim do comunismo soviético e a apressada adaptagao do comunismo chinés ao capitalismo global deixaram apenas uma nova marca de capitalismo mais enxuto € mais mesquinho, pelo menos em seu alcance planetario. A rees- truturagao do capitalismo nos anos 70 e 80 demonstrou a versatilidade de suas regras operacionais e sua capacidade de utilizar a légica do sistema de redes da Era da Informagao com eficiéncia para promover um enorme avango nas forgas produtivas e no crescimento econémico. No entanto, ela também expos a légi- ca excludente do capitalismo, A medida que milhées de pessoas e grandes regides do planeta estdo sendo excluidas dos beneficios do informacionalismo, tanto no mundo desenvolvido como nos pafses em desenvolvimento. O capitu- 102 documenta essas tendéncias, relacionando-as 4 natureza nao controlada das redes capitalistas globais. Além disso, 4 margem do capitalismo global, surge QAIVERSIDADE FEDERAL DO PARA SIBLIOTECA CEM ‘Tempo de Mudanga 21 um novo ator coletivo que poder4 mudar as regras das instituigdes econdmicas e politicas nos proximos anos: o crime global. Na verdade, aproveitando-se do caos mundial que se seguiu 4 desintegragao do império soviético, manipulando populagées e territérios exclufdos da economia formal e utilizando os instru- mentos do sistema de redes globais, atividades criminosas proliferam pelo pla- neta e interligam-se para constituir uma economia emergente do crime global que penetra os mercados financeiros, 0 comércio, os negGcios € os sistemas poli- ticos de todas as sociedades. Essa conexAo perversa representa uma caracteris- tica significativa do capitalismo informacional global. Uma caracteristica cuja importancia em geral é reconhecida na mfdia, mas nao integrada em anilise social, falha terica que tentarei corrigir no capitulo 3 deste volume. Concomitantemente, tem havido extraordindria expansio capitalista, 0 que inclui centenas de milhdes de indivfduos no processo de desenvolvimento, sobretudo na regidio do Pacifico asidtico (capitulo 4). O processo de incorpora- Ao de regides dindmicas da China, india, bem como do Leste e Sudeste Asiati- co — na esteira do desenvolvimento japonés — em uma economia global interdependente muda a histéria e estabelece base multicultural de interdepen- déncia econédmica. Tudo isso sinaliza o fim do dom{nio ocidental que caracte- rizou a era industrial desde seu inicio. Também aponta a interdependéncia das crises econdmicas surgidas em continentes diferentes. Diante do turbilhdo da globalizagao e com 0 abalo dos alicerces culturais e geopoliticos do mundo na forma em que se apresentavam, os paises europeus uniram-se — nao sem problemas —no processo de unificagao da Europa que, simbolicamente, visa unificar suas moedas e, portanto, as economias por volta da virada do milénio (capitulo 5). Entretanto, as dimens6es culturais e politi- cas, essenciais para o processo da unificagao européia, ainda se apresentam ins- taveis. Com isso, o destino da Europa, em tiltima andlise, dependeré (como nas demais regides do mundo) da resolugdo dos enigmas histéricos decorrentes da transi¢fo ao informacionalismo e da mudanga do Estado-nagao para uma nova interagdo entre as nagGes e o Estado, sob a forma do Estado em rede. Apés estudar essas transformagdes macrossociais/politicas que definem alguns dos principais debates de nossos tempos, farei uma conclusao de cara- ter mais analitico. Abordarei n&o apenas os tépicos apresentados neste volume, mas as relagGes entre esses temas € os processos analisados nos dois volumes precedentes. Contando com abenevoléncia do leitor, a conclusao deste volume proporé material para a construgao de uma teoria social em aberto sobre a Era da Informagio. Com isso quero dizer que, ap6s investigar nosso mundo, tenta- rei depreendé-lo. GHIVERSIDADE FEDERAL D® PARA BIBLIOTECA CENTRAS, A crise do estatismo industrial e o colapso da Unido Soviética Quando a Unido Soviética produzir cingitenta milhdes de toneladas de ferro- gusa, sessenta milhdes de toneladas de ago, quinhentos milhdes de toneladas de carvao e sessenta milhdes de toneladas de petroleo, estaremos garantidos contra todo e qualquer infortinio. Stalin, discurso em fevereiro de 1946' Este capitulo foi pesquisado, elaborado e escrito em parceria com Emma Kiselyova. Ele esta fundamentado basicamente em dois conjuntos de informa- Ges. O primeiro deles é a pesquisa de campo que realizei entre os anos de 1989 e 1996 em Moscou, Zelenogrado, Leningrado, Novosibirsk, Tyumen, Khabarovsk e Ilha Sacalina de acordo com a programagiio de pesquisas do Programa de Estu- dios Rusos, Universidad Autonoma de Madrid, e do Programa da Bacia do Pacffi- coimplantado pela Universidade da Calif6rnia, em cooperacdo com aAssociagao Socioldgica da Riissia; o Instituto de Economia e Engenharia Industrial, Acade- mia Russa de Ciéncias, Secdo Siberiana; e 0 Centro de Estudos Sociolégicos Avangados, Instituto da Juventude, Moscou. Quatro grandes projetos de pesquisa foram co-dirigidos por mim e O. I. Shkaratan, V. I. Kuleshoy, S. Natalushkoecom E, Kiselvoyae A. Granberg, respectivamente. Referéncias especfficas a cada um dos projetos so apresentadas nas notas de rodapé correspondentes ao assunto tra- tado na pesquisa. Agradeco a todos os meus colegas russos pela contribuigao para que eu pudesse compreender a Unio Soviética, sem me esquecer de desoneré-los. de qualquer responsabilidade pelos meus eventuais erros e interpretagao pessoal dos pontos identificados. O segundo conjunto de informagées coletadas paraaela- boracao deste capitulo refere-se a fontes documentais, bibliograficas eestatisticas, basicamente reunidas e analisadas por Emma Kiselyova. Gostaria também de consignar meus agradecimentos a Tatyana Zaslavskaya, Gregory Grossman e George Breslauer por seus comentarios extensos e detalhados fornecidos para a redacio da primeira verso deste capitulo. 24 Acctise do estatismo industrial e o colapso da Uniio Soviética A contradigao que se tornou aparente a partir da década de 50 entre 0 desen- volvimento das forgas de produgao e as necessidades cada vez maiores da sociedade, de um lado, e a crescente obsolescéncia das relagées produtivas do velho sistema de planejamento econ6mico, do outro, acentuava-se mais ¢ mais a cada ano. Aestrutura conservadora da economia eas tendéncias volta- das a extensos programas de investimentos, juntamente com um sistema de planejamento econdmico atrasado, foi pouco a pouco impondo-se como um freio ¢ um obstéculo ao desenvolvimento econdmico do pats. Abel Aganbegyan, The Economic Challenge of Perestroika, p. 49 Aeconomia mundial é um organismo tnico, e nenhum Estado, independente de seu sistema social ou situacao econdmica, pode se desenvolver de forma alheia a essa realidade. Isso nos impele a criar mecanismos fundamentalmen- te novos para o funcionamento da economia mundial, uma nova estrutura de divisdo internacional do trabalho, Ao mesmo tempo, o crescimento da econo- mia mundial revela as contradigdes ¢ os limites inerentes ao modelo tradicio- nal de industrializagio. Mikhail Gorbachev, discurso as Nagdes Unidas, 1988? Um dia vamos perceber que na realidade somos o tnico pafs do mundo que procura ingressar no século XXI coma ideologia ultrapassada do século XIX. Boris Yeltsin, Memoirs, 1990, p. 245° O colapso repentino da Unido Soviética, e com ele a derrocada do movi- mento comunista internacional, dé origem a um enigma hist6rico: por que razao, na década de 80, os lideres soviéticos pressentiram a necessidade imediata de iniciar um processo de reestruturagao radical, de proporgées tais que acabou levando A desintegragao do préprio Estado? Afinal, a Unido Soviética nao era apenas uma superpoténcia militar; o pais ocupava a posicao de terceira maior economia industrial do mundo, sendo o maior produtor de petréleo, gas natural e metais raros, e 0 tinico pais auto-suficiente em matérias-primas e recursos energéticos. E verdade que sintomas de graves problemas econémicos se faziam sentir desde a década de 60 e que a taxa de crescimento vinha apresentando sucessivas quedas desde 1971, atingindo um ponto de equilibrio por volta de 1980. No entanto, também as economias do ocidente haviam experimentado uma desaceleracao no crescimento da produtividade, apresentando ainda taxas de crescimento econ6mico negativo em alguns anos das duas tiltimas décadas, sem terem sofrido conseqiiéncias catastr6ficas. A tecnologia soviética parece ter se tornado ultrapassada em algumas dreas criticas, mas, de modo geral, o pro- WBUVERSIIADE FEDERAL La PAR IOTECA CENTRAS. Accrise do estatismo industrial e o colapso da Unido Soviética 28 gresso cientifico do pais manteve seu nivel de exceléncia em alguns dos princi- pais campos do conhecimento: matemitica, fisica, quimica, ficando somente a biologia com alguma dificuldade de se recuperar das trapalhadas de Lysenko. A difusdo desses conhecimentos cientfficos para fins de atualizagao tecnolégica no parecia impossfvel, tendo em vista o avango do programa espacial soviéti- co sobre o desempenho sofrivel da NASA nos anos 80. A agricultura continua- va passando por uma crise permanente, e a escassez de bens de consumo fazia parte da rotina. Contudo, as exportages de energia e matérias-primas, ao menos até 1986, vinham fornecendo reservas em moeda forte para serem utilizadas sempre que necess4rio em importagdes emergenciais, de modo que as condigées de vida dos cidadaios soviéticos passaram a ser melhores, nao piores, em meados da década de 80, quando comparadas as da década anterior. Além disso, o poder soviético nao estava sendo seriamente desafiado no plano externo nem interno. O mundo entrara em uma era de relativa estabilida- de nas j4 reconhecidas esferas de influéncia das superpoténcias. A guerra no Afeganistao vinha causando sofrimento e desgastando a imagem politica e 0 orgulho militar, mas nao menos que os danos infligidos & Franca pela Guerrada Argélia ou aos Estados Unidos pela do Vietna. A dissidéncia politica limitava- se a pequenos circulos intelectuais, tao respeitados quanto isolados; aos judeus que desejavam sair do pais; e a “conversas de boteco” sobre politica, uma tra- digdo russa profundamente arraigada. Embora houvesse algumas greves e reyoltas, sobretudo associadas 4 escassez de alimentos e aos aumentos de prego, nao se podia falar da existéncia de verdadeiros movimentos sociais. Aresposta a opressao sobre as diversas nacionalidades e minorias étnicas era 0 ressentimento e, nas reptiblicas balticas, a hostilidade expressamente declara- da aos russos, mas poucas vezes esses sentimentos eram articulados na forma de agGes coletivas ou movimentos de opiniao parapoliticos. As pessoas demonstravam-se insatisfeitas com o sistema e expressavam suarejeigao das mais diversas maneiras: ceticismo, pequenos furtos no trabalho, faltas, suicidio e alcoolismo generalizado. Entretanto, com a era do terror stali- nista hd muito superada, a repressao politica era limitada e muito seletiva, e a doutrinagao ideolégica tornara-se mais um ritual burocrético do que propria- mente uma fervorosa inquisigao. Nomomentoem que o longo perfodo do gover- no Brejnev logrou sucesso em instaurar a normalidade e também o marasmo na Unido Soviética, as pessoas aprenderam a se enquadrar no sistema, conduzindo suas préprias vidas da melhor forma possivel, afastando-se ao m4ximo das vias de acesso ao Estado. Embora a crise estrutural do estatismo soviético estivesse fermentando nas caldeiras da histria, poucos de seus atores pareciam té-la per- 26 ‘Acrise do estatismo industrial e 0 colapso da Unido Soviética cebido. E provavel que a segunda revolugao russa, que desmantelou 0 império soviético, colocando um ponto final em uma das mais ousadas e onerosas expe- riéncias humanas, seja a tinica mudanga historica de importancia fundamental ocorrida sem a intervengao de movimentos sociais e/ou uma guerra de grandes proporgées. O Estado criado por Stalin parece ter intimidado seus inimigos e obtido sucesso em inibir o potencial de revolta da sociedade por longo tempo. O véu do mistério hist6rico toma-se ainda mais espesso ao considerarmos 0 processo de reforma promovido por Gorbachev, Por quee de que maneira esse pro- cesso fugit ao controle? Afinal, ao contrério da imagem simplista veiculada pela imprensa ocidental, a Unido Soviética, e antes dela a Russia, passara por “uma perestroika ap6s a outra”, titulo dado por Van Regemorter a sua excelente andlise hist6rica dos processos de reforma na Riissia.‘ Da Nova Politica Bconémica dos anos 204s reformas na administragdo econdmica implantadas por Kosygin no final da década de 60, passando pela profunda reestruturagao de Stalin na década de 30 e pelorevisionismo de Kruchev na de 50, a Unido Soviética avangara/recuara com muita rapidez, fazendo de perfodos alternados de continuidade e reforma uma caracteristica sistémica. Com efeito, foi assim especificamente que 0 sistema sov: tico reagiu A questo da transformagao social, to necessdria a qualquer sistema politico durdvel. No entanto, com a grande excegdo de Stalin, com sua impiedosa capacidade de mudar as regras do jogo a seu favor, o aparato do partido sempre foi capaz de exercer controle sobre as reformas dentro dos limites impostos pelo siste- ma, lancando mio, quando necessario, de expurgos politicos e substituigao de lide- rangas. Como é que no final da década de 80, esse partido veterano e sagaz, fortalecido pelas incessantes batalhas decorrentes de reformas cuidadosamente administradas, pdde perder controle politico a ponto de ter de recorrer a um golpe desesperado, articulado as pressas, que acabou precipitando sua derrocada? ‘Avento a hipétese de que a crise que induziu as reformas de Gorbachev apresenta uma natureza hist6rica distinta das verificadas em situagGes anterio- res, impingindo tal diferenga no processo reformista propriamente dito, tornan- do-o mais arriscado e, em tiltima anilise, incontrolavel. Sustento a idéia de que aturbulenta crise que abalou os alicerces da economia e sociedade soviéticas de meados dos anos 70 em diante constituiu a expressio da incapacidade estru- tural do estatismo e da versio soviética do industrialismo de assegurar a transi- cao para a sociedade da informacio. Entendo por estatismo 0 sistema social organizado em torno da apropria- do do excedente econdmico produzido na sociedade pelos detentores do poder no aparato do Estado, ao contrario do capitalismo, em que o excedente € apro- priado pelos detentores do controle das organizagdes econémicas (vide volu- URIVERSIVADE Feene D BIBLIOTECA CENTRAA A.ccrise do estatismo industrial e o colapso da Unido Soviética a7 me I, prélogo). Enquanto o capitalismo esté voltado & maximizagio do lucro, o estatismo preocupa-se com a maximizagao do poder, ou seja, procura ampliar a capacidade militar e ideolégica do aparato do Estado para impor suas metas sobre um numero maior de sujeitos e em niveis mais profundos de suas cons- ciéncias. Quanto ao industrialismo, refiro-me a um mecanismo de desenvolvi- mento em que as principais fontes de produtividade consistem no aumento quantitativo dos fatores de produgao (capital, trabalho e recursos naturais), jun- tamente com a utilizagéo de novas fontes de energia. J4 o informacionalismo é tratado aqui como um mecanismo de desenvolvimento em que a principal fonte de produtividade é entendida como a capacidade qualitativa de otimizar acom- binag&o e o emprego dos fatores de produgaio com base na informagao e no conhecimento. O surgimento do informacionalismo é indissociével de uma nova estrutura social, a sociedade em rede (vide volume I, capitulo 1). O ulti- mo quarto do século XX tem sido marcado pela transigao do industrialismo para o informacionalismo e da sociedade industrial para a sociedade em rede, tanto para 0 capitalismo como para 0 estatismo, concomitantemente a revolu- gio promovida pela tecnologia da informagiio. Na Uniaio Soviética, essa tran- sigdo exigiu medidas que abalaram os interesses da maquina burocratica do Estado e da nomenklatura do partido. Ao perceber a importancia de garantir a transigdo do sistema para um patamar mais elevado de forgas produtivase capa- cidade tecnolégica, os reformistas, liderados por Gorbachev, apostaram tudo no apelo a sociedade para vencer a resisténcia oferecida pela nomenklatura ao processo de transformagiio. A glasnost (abertura) colocou a uskorenie (acelera- ¢4o [econémica]) na linha de frente da perestroika (reestruturacao). E a hist6- ria tem demonstrado que diante do contato da sociedade russa com um espago politico livre, tal sociedade recusa-se, justamente por ter sido reprimida por tanto tempo, a enquadrar-se em politicas estatais pré-moldadas, assume vida politica prépriae torna-se imprevisfvel e incontrolavel. Isso € o que Gorbachev, na tradi¢do de Stolypin, aprendeu uma vez mais, as proprias custas. Ademais, a abertura 4 expresso politica para a sociedade russadeu vazio 4 pressao contida das identidades nacionais — distorcidas, reprimidas e mani- puladas durante o stalinismo. A busca por fontes de identidade distintas da decadente ideologia comunista provocou o esfacelamento da ainda fragil iden- tidade soviética, enfraquecendo 0 Estado soviético de forma decisiva. O nacio- nalismo, inclusive 0 russo, tornou-se a expressdo maxima dos conflitos entre sociedade e Estado, sendo 0 fator politico imediato que culminou no processo de desintegragao da Unido Soviética. 28 A crise do estatismo industrial ¢ 0 colapso da Unio Soviética No cere da crise que levou 0 pais a perestroika e desencadeou 0 naciona- lismo encontrava-se a incapacidade do estatismo soviético de assegurar a trans go parao novo paradigma informacional, paralelamente ao processo que ocorria no resto do mundo. Tal hipétese nao é, em absoluto, original. Na realidade, trata- se apenas da aplicagéio de um velho ideal marxista, segundo o qual sistemas sociais especfficos podem emperrar o desenvolvimento de forgas produtivas, admitidamente apresentadas aqui em uma inversao hist6rica que chega a ser ir6- nica. Espero que a andlise submetida a apreciagao do leitor agregue valorem sua especificidade. Por que 0 estatismo demonstrou-se estruturalmente incapaz de dar prosseguimento a reestruturacao necessaria para adaptar-se ao informaciona- lismo? Com certeza, nao foi culpa do Estado per se. O Estado japonés e, além da costa do Mar do Japio, o Estado desenvolvimentista, cujas origens e conquistas so analisadas adiante (vide capitulo 4), tém sido instruments decisivos para 0 fomento a inovagiio tecnolégica e competitividade global, bem como para a transformagao de paises bastante tradicionais em sociedades informacionais avangadas. Deve-se ressaltar que estatismo nao é o mesmo que intervencionismo estatal. Entende-se por estatismo um sistema social especifico voltado para a maximizago do poder do Estado, em que a acumulagao de capital e a legitimida- de social esto subordinadas aquela meta precfpua. O comunismo soviético (a exemplo do que ocorre em todos os sistemas comunistas) foi estruturado com 0. propésito de assegurar o controle total do partido sobre o Estado e do Estado sobre a sociedade, mediante 0 duplo comando formado por uma economia de planeja- mento central e uma ideologia marxista-leninista viabilizada por um aparato cul- tural submetido a controles rigorosos. Foi este sistema especifico, e nao o Estado considerado em sua totalidade, que demonstrou sua incapacidade de navegar nas Aguas turbulentas da transi¢aio histérica entre industrialismo e informacionalis- mo. As razGes, as formas ¢ as hipsteses referentes aos acontecimentos que leva- ram a essa conclusao constituem a matéria deste capitulo. O modelo extensivo de crescimento econdmico e os limites do hiperindustrialismo Estamos tio acostumados a depreciar as perspectivas sobre a economia russa durante os tltimos anos, que muitas vezes nos esquecemos de que, porum longo perfodo, sobretudo na década de 50 ¢ até o final dos anos 60, de modo geral, o PNB soviético cresceu mais rapidamente que na maioria dos paises do mundo, muito embora isso tenha sido conquistado a enormes custos humanos ImUVERSIDADE FEDERAL DW FAS BIBLIOTECA CENTRAL A crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unio Sovietica 29 e ambientais.* Nao ha como negar que os niimeros oficiais das estatisticas soviéticas superestimaram grosseiramente a taxa de crescimento, em especial durante a década de 30. O importante levantamento estatistico de G.I. Khanin,° reconhecidoem sua totalidade apenas nadécada de 90, parece indicar que aren- danacional da Uniao Soviética entre os anos de 1928 e 1987 naio aumentou 89,5 vezes, como as estatisticas oficiais nos fizeram crer, mas s6 6,9 vezes. Nao obs- tante, de acordo com 0 proprio Khanin (cujo trabalho devemos considerar como 0 limite mais baixo na escala da estimativa: vide tabelas 1.1-1.3 e figuras 1.1 e 1.2), o crescimento anual médio da renda nacional soviética foi de 3,2% no perfodo compreendido entre 1928-40, 7,2% em 1950-60, 4,4% em 1960-65, 4,1% em 1965-70 e 3,2% em 1970-75. Apés 0 ano de 1975, o pafs atravessou uma fase que beirou a estagnagao, apresentando crescimento negativo em 1980-82 e apds 1987. Tabela 1.1 Evolucdo da renda nacional soviética, 1928-87: estimativas alternativas (variagtio no perfodo, porcentagem anual) Pertodo TsSut CIA Khanin* 1928-40 13.9 61 3,2 1940-50 48 20 16 1928-50 10,1 42 25 1950-60 10,2 52 72 1960-65 65 48 44 1965-70 Wd 49 41 1970-75, 57 3.0 42 1975-80 42 19 1,0 1980-85 35 18 0,6 1985-87 3.0 27 2,0 1950-87 66 38 3.8 1928-87 19 39 3,3 *TsSU: Agéncia Central de Estatfsticas (da URS). °1928-41 “1941-50 Fontes: dados compilados por Harrison (1993:146) a partir das seguintes fontes — ‘TsSU; Khanin; produto material Ifquido, calculado com base em Khanin (1991b: 85); CIA: PNB, cal- culado com base na CIA (1990a: tabela A-1). 30 A crise do estatismo industrial ¢ 0 colapso da Unio Soviética Contudo, de modo geral e durante a maior parte da existéncia da Unido Soviética, a taxa de crescimento econémico foi mais acelerada que a verificada no Ocidente, e seu ritmo de industrializagao, um dos mais répidos da histéria. Observe-se que 0 desempenho de um sistema deve ser avaliado de acor- do com suas préprias metas. A partir dessa perspectiva, pode-se dizer que durante meio século a Unido Soviética obteve um sucesso extraordindrio. Se deixarmos de lado (sera possivel?) as dezenas de milhées de pessoas (sessenta milhes?) que morreram em decorréncia de revolugdes, guerras, fome, traba- lhos forgados, deportagao e execugGes; a destruigao das culturas, histéria e tra- digdes nacionais (tanto na Russia como nas demais reptiblicas); a violagio sistematica dos direitos humanos e liberdade politica; a degradacdio generaliza- da de um meio ambiente até entao praticamente intocado; a militarizagao da economia e a doutrinagdo da sociedade; se, por apenas um momento dedicado aandlise, formos capazes de enxergar o processo histérico com olhos bolche- viques, nfo experimentaremos senaio uma sensagfio de deslumbramento dian- te das dimensées heréicas da saga comunista. Em 1917, os bolcheviques eram um punhado de revolucionarios profissionais, representando pequena fracio do movimento socialista, o qual, por sua vez, era apenas parte de um movimen- to democratico mais amplo que promoveu a Revolucao de fevereiro de 1917, quase que exclusivamente nas maiores cidades de um pais cuja populagao ru- ral representava 87% do total.’ E no entanto, lograram no s6 arrebatar o poder no golpe de outubro, livrando-se de qualquer tipo de concorréncia da parte de todas as demais forgas politicas, mas também vencer uma guerra revoluciond- ria atroz contra os remanescentes do exército czarista, a Guarda Branca e as for- cas expediciondrias estrangeiras. No processo, eles também liquidaram 0 exército camponés anarquista de Makno e os marinheiros revolucionarios de Kronstadt. Além disso, embora contassem com uma estreita base social na for- ma de uma minguada classe proletdria urbana, 4 qual mal se agregavam alguns elementos da intelligentsia, os bolcheviques conseguiram criar, em tempo recorde, a despeito do isolamento internacional, uma economia industrializa- da suficientemente desenvolvida em apenas duas décadas para fornecer os equipamentos militares capazes de esmagar a maquina de guerra nazista. Imbufda de uma infatig4vel determinago buscando superar o capitalismo, jun- tamente com uma parandia defensiva até certo ponto compreensivel, a Unido Soviética, um pafs pobre, de modo geral, em pouco tempo tornou-se uma poténcia nuclear, mantendo-se a altura dos Estados Unidos, do ponto de vista estratégico-militar, e saindo na frente na corrida espacial j4 por volta de 1957, para a surpresa e perplexidade dos governos do Ocidente que haviam acredita- WAIVERSIDADE FEDERAL be eS BIBLIOTECA CENTRAK A ctise do estatismo industrial e 0 colapso da Unido Soviética 31 Tabela 1.2 Crescimento da produgio. indices de inflagdo na Unido Soviética, 1928-90 (variagio no perfodo, porcentagem anual) Crescimento real da produgdo Inflagao dos precos poratacado Indistria —Construgéo——~Renda Real Oculta Nacional TSU 1928-40, 170 = 13,9 88 - 1940-50 _ — 48 2,6 _ 1950-60 1,7 123 10,2 0,5 _ 1960-65 86 1 65 06 = 1965-70 85 70 1d 19 _ 1970-75 14 70 37 0,0 _ 1975-80 44 — 42 -0,2 — 1980-85 = - 35 i — 1985-87 = - 3,0 = - 1928-87 _ - 19 — = Khanin 1928-41 109 _ 32 18,5 89 1941-50 = — 16 59 32 1950-60, 85 84 72 1,2 18 1960-65 7.0 3 44 2.2 16 1965-70 45 32 41 46 26 1970-75 45 37 32 23 2.3 1975-80 3.0 _ 1,0 27 29 1980-85 _ = 06 — — 1985-87 _ _— 2,0 = _ 1928-87 = - 33 — _ 1980-82 - = 2,0 - _ 1982-88 . — 18 - - 1988-90" _ _ 46 — - *TsSU: Agéncia Central de Estatisticas (da URSS). "1955-60. “Preliminar. Fontes: compilado por Harrison (1993: 147) a partir das seguintes fontes —TsSU; 1928-87: “Renda Nacional” calculada com base em Khanin (1991b: 85); “demais colunas” calculadas a partir de Khanin (1991a: 146 (indtistria); 167 (construgao); 206, 212 (pregos por atacado); 1980-90; calcula- dos com base em Khanin (1991b: 29) 32 ‘A crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unio Soviética ‘Tabela 1.3 _Insumose produtividade na Unido Soviética, 1928-90 (variagao no perfodo, porcen- tagem anual) Estoque de Produtividade — Producdopor _Intensidade ativos fixos do capital trabalhador de uso de materiais TssU’ 1928-40 87 9 1940-50 10 41 1950-60 94 8,0 1960-65 97 60 1965-70 82 68 1970-75 87 46 1975-80 1A 34 1980-85, 65 3,0 1985-87 49 3,0 1928-87 72 67 0.2 Khanin . 1928-41 33 13 LP 1941-50 24 13 re 1950-60 54 5,0 05 1960-65 59 41 04 1965-70 51 3.0 04 1970-75, 39 19 10 1975-80 19 0.2 10 1980-85 0,6 0.0 10 1985-87 0,0 2.0 05 1928-87 39 -06 22 08 1980-82 13 25 25 1982-88 19 14 07 1988-90" 05 41 34 “TSU: Agéncia Central de Estatisticas (da URS), *1,7-2%. «Preliminar. Fontes: dados compilados por Harrison (1993:151) a partir das seguintes fontes —TsSU; 1928-87: calculado com base em Khanin (1991b: 85); 1980-90: calculado com base em Khanin (1991b: 29). 33, Se u a 3 1928 1941 1950 1960 1965 . 1970 1975 1980 1985 1987 Figura 1.1 Rendanacional soviética, 1928-87: estimativas alternativas Fonte: compilado por Harrison (1993:145) a partir dos nimeros constantes na tabela 1.1 . Residual : HB Materiais [HB Mio-de-obra 6 HB capital e & & 1928-41 1950-60 1965-70 _ 1975-80 1985-87 1941-50 1960-65 1970-75 1980-85 1928-87 Figura 1.2 Rendanacional soviética: papel dos insumos no crescimento da producio Fonte: compilado por Harrison (1993:149) a partir dos nmeros apresentados por Khanin.(1991a.b) ~ 443764 | 34 Accrise do estatismo industrial e 0 colapso da Unio Soviética do em sua propria mitologia sobre a incapacidade de 0 comunismo desenvol- ver uma economia industrial avangada. O prego pago por tais feitos, inegaveis, foi a deformacio irreversivel da economia. Na base da légica econémica soviética havia uma série de priorida- des em cascata.’ A agricultura tinha de ser explorada ao maximo para subsidiar aindistria e alimentar as populag6es urbanas, bem como ter seu contingente de mao-de-obra comprometido em fungao da necessidade de operdrios na indi tria.’* Bens de consumo, moradia e servigos tinham de ceder lugar aos bens de capital e 4 extragao de matérias-primas, para que o socialismo rapidamente tivesse condicgGes de atingir um grau de auto-suficiéncia em todas as linhas de produgao consideradas indispensdveis. A indiistria pesada foi colocadaa servi- ¢0 da produgao industrial militar, pois o poderio militar era o objetivo maior do regime e o principal sustentéculo doestatismo. A l6gica leninista-stalinista, que considerava a forga bruta, em sua forma mais purae simples, a raison d’étre do Estado — de todos os Estados, em tiltima anélise — perpassou todos os niveis da organizagao institucional da economia soviética, manifestando-se ao longo de toda a hist6ria do pais sob diversas formas ideolégicas. Para assegurar 0 cumprimento de tais prioridades a risca e “levar 0 poder politico aos postos de comando da economia,” conforme apregoado pelo slo- gan comunista, estabeleceu-se uma economia de planejamento central, a pri- meira do género em toda a histéria mundial, excetuadas algumas economias pré-industriais submetidas ao controle central. Claro, em uma economia como essa, 0s precos assumem fungio meramente contébil, nao podendo encerrar nenhuma relacao entre oferta e procura." Assim, toda a economia era movi- mentada por meio de decisdes administrativas verticalizadas entre as institui- ges responsdveis pelo planejamento e os ministérios executivos e entre os ministérios e as unidades de produgao."* Os vinculos entre as unidades de pro- dugiio nao eram exatamente horizontais, uma vez que suas relagées ja haviam sido preestabelecidas por seus respectivos érgaos administrativos. No cerne dessa estrutura de planejamento centralizada, duas instituig6es davam as dire- trizes da economia soviética. A primeira delas era 0 Gosplan, ou Conselho Estatal de Planejamento, que definia as metas econémicas nos chamados pla- nos qilingtienais, para em seguida determinar as medidas para implantacao de cada produto, ano a ano, estipulando metas de produgao e quotas de forneci- mento a cada uma das unidades da indiistria, construgio, agricultura e até mes- mo servi¢os. Entre outros detalhes, os “precos” para cerca de duzentos mil produtos eram fixados anualmente pelo governo central. Nao é de surpreender A crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unido Soviética 35 que o sistema de programacao linear dos soviéticos fosse um dos mais sofisti- cados do mundo.'* Aoutra grande instituicdo econémica, menos visivel porém mais signifi- cativa, a meu ver, era 0 Gossnab (Conselho Estatal de Fornecimento de Mate- riais e Equipamentos), encarregado do controle de todos os suprimentos para cada transago em todo o pafs, desde um prego até um elefante. Enquanto 0 Gosplan se preocupava com a coeréncia de seus modelos matemiticos, o Gossnab, com seu “radar onipresente”, era quem de fato liberava o fornecimen- to de suprimentos, exercendo o controle efetivo sobre os fluxos de mercadorias e materiais e, por conseguinte, monitorando todo e qualquer tipo de escassez, um aspecto fundamental do sistema soviético. O Gosbank, ou banco central, jamais desempenhou papel econémico relevante, uma vez que a circulacao de crédito e de recursos era conseqiiéncia direta das decisGes tomadas pelo Gos- plan, segundo a interpretagiio e os métodos de implantagao determinados pelo Estado e em conformidade com as diretrizes do comité central do partido."* Para atingir rapidamente o estdgio de industrializagdo necessdrio e con- quistar as metas estabelecidas nos planos, o Estado soviético recorreu mobi- % 8B ° 1952 1955 1958 1961 1964 1967 1970 1973 1976 1979 * Figura 1.3. Taxas de crescimento do PNB soviético, 1951-80. As taxas anuais de crescimento foram obtidas a partir da média de trés anos e plotadas com base no ano intermedisirio de cada perfodo analisado Fonte: elaborado a partir da tabela 1.4, col. 2 UHIVERSIDADE FEDERAL DO PARA MIBLIOTECA CENTRAL 36 Actise do estatismo industrial e 0 colapso da Unido Soviética lizagao total de recursos humanos e naturais de um pafs imenso e rico, cuja area ocupa um sexto da superficie do globo.'’ Este modelo extensivo de crescimento econémico caracterizou a Unido Soviética nao sé durante a fase de acumulagdo primitiva de riquezas dos anos 30,'° mas também no perfodo pés-stalinista.”” Portanto, de acordo com Aganbegyan, em um perfodo qitingiienal tipico do pés-guerra, a aplicagao bisica de recur- sos e investimentos em infra-estrutura aumentou uma vez e meia, a extragao de combustfveis e matérias-primas cresceu de 25% a 30%, ¢ 10a 11 milhdes de novos trabalhadores foram recrutados, dos quais grande parte foi transfe- rida para os novos setores de produgo, Essa tendéncia marcou todo 0 perfo- do compreendido entre 1956 e 1975. O tiltimo perfodo qitingiienal em que houve crescimento substancial na utilizagio de recursos foi 1971-75. Naque- le periodo, um indice composto representando a evolugao de todos os recur- sos utilizados na produco demonstrou um crescimento de 21%." Assim, 0 modelo soviético de crescimento econémico pode ser caracteri- zado como tipico de uma economia industrial nos primeiros estagios de desen- volvimento. Sua taxa de crescimento existia em fung&o do volume de investimentos em bens de capital e insumos, em que mudangas técnicas tinham import&ncia menor, ¢ 0 retorno sobre 0 investimento potencialmente diminuia a proporgdo que o suprimento de recursos se esgotava (vide tabela 1.4 figura 1.3). Em termos econométricos, foi um modelo de crescimento caracterizado pela fungao da elasticidade constante da produgao com retornos constantes & escala." O destino desse modelo dependia de sua capacidade de mantera absor- Ao dos recursos adicionais ou entao aumentar a produtividade por meio de avancos tecnolégicos e/ou emprego de vantagens comparativas no comércio internacional. Entretanto, a economia soviética desenvolveu-se em regime de autarquia e, por longo periodo, em ambiente mundial hostil que gerou no pafs uma men- talidade de estado de sitio.” O comércio foi reduzido a itens essenciais, sempre condicionado, no tocante a importagdes e exportagdes, a questées de seguran- ganacional. A aquisigao predatoria de recursos adicionais nunca foi de fato uma opgao para a Uniaio Soviética, mesmo depois de o Tratado de Yalta ter reconhe- cido sua ocupagiio da Europa Oriental. Seus Estados vassalos, desde a Ale- manha Oriental até Cuba e Vietna, eram considerados, em vez de colénias econémicas, pecas para manobras politicas, sendo que alguns deles (por exem- plo, Cuba) constituiam enormes despesas para o orgamento soviético.” Curiosamente, essa prevaléncia dos critérios politicos sobre os econdmicos A crise do estatismo industrial e o colapso da Unidio Soviética 37 Tabela 1.4 Taxas de crescimento do PNB, forga de trabalho e capital soviéticos, com indices de investimento/PNB e produgao/capital. Taxa de crescimento Ano PNB Forca de Capital Investimento— Produgiio/ (%) trabalho (%) bruto/PNB capital (média) (homem/hora) (%) (%) 1951 3,1 0,1 1d 0,82 1952 59 05 15 0,81 1953 5,2 21 8.6 0,78, 1954 48 il 10.5 0,74 1955 8,6 16 10,6 0,73, 1956 84 19 10,3 0,72 1957 3.8 06 99 0,68 1958 16 2.0 10,0 0,66 1959 58 -1,0 97 0,64 1960 40 03 92 178 0,61 1961 5.6 0,7 89 18,1 059 1962 3.8 14 88 179 0,56 1963 “11 07 88 193 0,51 1964 11,0 29 8.6 19,1 0,52 1965 6,2 35 8,2 18,9 0,51 1966 51 25 1d 19,2 0,50 1967 46 20 72 19.9 0,49 1968 6.0 19 7 20,2 0,48 1969 2.9 47 72 20,3 0,46 1970 pi 2,0 78 21,0 0,46 1971 39 21 81 20,7 0,45 1972 19 18 82 22,9 0,42 1973 13 1s 80 22,3 0,42 1974 39 2,0 18 23,0 0,40 1975 Le 12 16 24,6 0,38 1976 48 08 9 24,5 0,37 1977 3,2 1s 10 24,6 0,36 1978, 34 15 69 25,2 0,35 1979 08 1 67 25,2 0,33 1980 14 it 65 25,4 0,31 OPNB eo investimento (informagGes disponiveis a partir de 1960) so expressos em rublos de 1970; dados sobre capital so expressos em rublos de 1973. Os indices de producdo/capital so calculados pela média, dividindo-se os valores absolutos de producao e capital durante um determinado ano. Este tiltimo corresponde A média do capital no infcio de dois anos consecutivos. Fonte: dados compilados e elaborados por Desai (1987: 17) @NIVERSIDADE FEDERAL DO PARG BIBLIOTECA CENTRAL 38 Acctise do estatismo industrial e o colapso da Unio Soviética estendeu-se também as relagGes entre a Russia e as repUblicas soviéticas nao tussas. A Unido Soviética € um caso tinico de dominagaio nacional em que hou- ve uma discriminagao inversa na destinagao de investimentos e recursos, em que a Riissia distribuia as demais reptiblicas uma quantidade de recursos bem maior do que a obtida dessas republicas.” Dada a tradicional desconfianga soviética em relagdo & imigragao estrangeira, e com base na crenga do poten- cial ilimitado de recursos nas dreas asidtica e setentrional do pafs, a orientag’o econémica do governo nao se preocupou com a ampliacao do alcance geogra- fico do império, mas sim com uma mobilizag4o mais efetiva dos recursos soviéticos — humanos e naturais (pondo as mulheres para trabalhar fora e bus- cando fazer as pessoas trabalharem com mais afinco). As deficiéncias desse modelo extensivo de crescimento econémico decorreram diretamente das caracterfsticas que asseguraram o sucesso histori- co das metas politicas do Estado soviético. Os sacrificios exigidos na agricul- tura, bem como a politica brutal de coletivizaciio, impuseram um obstdculo intransponivel a produtividade rural, nao sé em termos de cultivo, mas também de colheita, armazenamento e distribuigao da produgaio.” Muitas vezes, a pro- dugio era abandonada nos campos de forma deliberada, ou estragava nos arma- zéns, ou ainda durante a longa viagem de transporte aos silos localizados o mais distante possivel das aldeias camponesas para evitar saques de uma populagio rural ressentida e indigna de confianga. Sistematicamente, pequenas proprie- dades rurais privadas contribufam com parcelas cada vez maiores de produgio, mas eram de porte muito reduzido, sendo muitas vezes submetidas a controles e abusos para compensar a diferenca em relagfio a uma agricultura ruinosa. Como a Uniio Soviética passou de um estado de emergéncia para uma socie- dade que tentava alimentar seus cidadaos, os déficits agricolas tornaram-se car- ga onerosa sobre 0 orgamento do Estado e sobre as importagdes soviéticas, retirando, pouco a pouco, os recursos destinados ao investimento industrial. Aeconomia de planejamento central, perduldria em demasia, porém efi- caz na mobilizagao de recursos para o cumprimento de metas prioritarias, era também a fonte de uma série intermindvel de rigidos controles e desajustes que causavam queda na produtividade 4 medida que a economia se tornava mais complexa, tecnologicamente avangada e mais diversificada em termos organi- zacionais. No momento em que a populagao teve condigdes de manifestar pre- feréncias de consumo acima do nivel de subsisténcia, em que os avangos tecnol6gicos impuseram a transformagao de procedimentos de trabalho prees- tabelecidos, e em que, pura e simplesmente o porte da economia, interdepen- dente do ponto de vista funcional de uma vasta escala geogréfica, escapou aos A crise do estatismo industrial e o colapso da Unidio Sovié 39 métodos de planejamento das autoridades do Gosplan, a economia de coman- do comegou a padecer de disfungées sistémicas na pratica de implementagao do plano. Burocracias verticalizadas, que exerciam o controle com mio de fer- To, estagnadas ante a uma era de flexibilidade, tornaram-se cada vez mais ana- crénicas, vagando pelos caminhos incertos de suas préprias interpretacgdes das tarefas a serem cumpridas segundo o planejamento. A despeito do enorme volume de recursos alocados pela Unido Soviética para o avango da ciéncia e da pesquisa e desenvolvimento (P&D), ¢ apesar de o pais contar com o maior ntimero de cientistas e engenheiros entre a popula- ao economicamente ativa em relagdo a qualquer outro pafs importante do mundo,” o sistema também desestimulou a busca pela inovagdo em uma época de mudangas tecnolégicas fundamentais. Como inovagées invariavelmente representam risco e imprevisibilidade, as unidades de produgao, em todos os niveis, eram sistematicamente desestimuladas a assumir tais empreitadas. Além do mais, 0 sistema de contabilidade adotado pela economia planejada impunha um grande obstaculo 4 inovacio voltada 4 melhoria da produtividade, tanto em termos tecnolégicos quanto gerenciais. Isso se explica pelo fato de que o desempenho de cada unidade era mensurado com base no valor bruto da pro- dugiio expresso em rublos. Tal valor da producio (conhecido como valovaya produktsiya, val) incluia o valor de todos os insumos utilizados. A comparagao do val em relagao ao ano imediatamente anterior indicava o grau de realizagao do plano e, em tiltima andlise, a recompensa para os administradores e traba- Ihadores. Dessa forma, nao havia interesse em reduzir o valor dos insumos de determinado produto, empregando, por exemplo, recursos tecnolégicos mais avangados ou adotando um método mais eficiente de administragao, pois 0 sis- tema val nfo refletiria esses ganhos na forma de maior valor agregado.” A orga- nizagio verticalizada da producio, inclusive a produgio cientifica, impos enormes dificuldades para o estabelecimento de relagées de sinergia entre pro- dug&o e pesquisa. De maneira geral, a Academia de Ciéncias manteve-se isola- da da indistria, e cada ministério dispunha de seu préprio sistema de apoio a pesquisa, normalmente & parte dos demais ministérios, e atuando poucas vezes em regime de cooperagao. Solugées tecnolégicas parciais ad hoc constituiam Tegra na economia soviética logo no momento em que inovacées tecnolégicas absolutamente fora de planejamento abriam terreno nas economias capitalistas avangadas no despontar da Era da Informagio.” Do mesmo modo, as prioridades estabelecidas por raz6es politicas para cada ramo e setor da economia permitiram a realizagao das metas do Partido Comunista, sendoresponséveis ainda pela conquista da posigao de superpotén- 40 Accrise do estatismo industrial e 0 colapso da Unite Sowietics cia em cerca de trés décadas. Contudo, prioridades sist€micas resultaram em desequilibrios sistémicos entre os setores e desajuste cronico entre oferta e pro- cura na maioria dos produtos e processos. Uma vez que nao havia como os pregos refletirem tais desajustes por serem estipulados por decisdes adminis- trativas, a diferenga acabava levando a escassez. A falta de toda a sorte de pro- dutos transformou-se em um aspecto estrutural da economia soviética.* Ea escassez trouxe consigo o desenvolvimento de métodos para lidar com ela, do consumidor a loja, do fabricante ao fornecedor, de administrador para adminis- trador. O que comegou como solugao pragmatica para contornar o problema da escassez, em uma rede de favores reciprocos, acabou como um enorme sistema de intercambio econ6mico informal, cada vez mais organizado a base de paga- mentos ilicitos, em dinheiro ou em espécie. Considerando que a obediéncia a burocratas encarregados das atividades de supervisao e a proteco por parte de tais burocratas era pré-requisito para que o sistema funcionasse desrespeitando as regras em tamanhas proporg6es, o partido e o Estado viram-se imersos em » uma gigantesca economia paralela, uma dimensao fundamental do sistema soviético, que foi analisado de forma minuciosa por Gregory Grossman, um dos maiores estudiosos da economia da Unido Soviética.” Por vezes, defende- se a tese de que essa economia paralela tenha mitigado os rigores do sistema, criando um mecanismo préximo ao de mercado que permitiu que a verdadeira economia funcionasse. De fato, tao logo os administradores e democratas des- cobriram as benesses da economia mareada por perfodos de escassez, a falta de produtos era induzida com freqiiéncia, bastando para isso seguir a risca as rigo- rosas regras do plano, gerando assim a necessidade de afrouxar os controles do sistema — a certo prego. A economia paralela, que se desenvolveu considera- velmente durante os anos 70 com a anuéncia da nomenklatura do partido, cau- sou profunda mudanga na estrutura social soviética, desarticulando e onerando uma economia planejada que, por definigao, nao mais podia planejar, pois 0 interesse dominante das autoridades responsdveis pelo acesso as portas do apa- rato administrativo era cobrar comissées por fora em vez de receber as recom- pensas previstas no sistema pela realizagao das metas de planejamento.” O isolamento internacional da economia soviética demonstrou-se fun- cional para o sistema A medida que possibilitou a operacionalizagio do plano (praticamente invidvel em uma economia aberta) e por haver protegido a pro- dugao das pressdes da concorréncia internacional. Contudo, justamente pelo mesmo motivo, a indtistria e a agricultura soviéticas ficaram impossibilitadas de competir na economia mundial, logo no momento histérico da formacao de um sistema global e interdependente. Quando a Unido Soviética se viu forgada A crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unio Soviética 41 aimportar mercadorias, desde m4quinas avangadas e bens de consumo a rac¢io animal, descobriu 0 efeito danoso das limitagdes causadas por sua diminuta capacidade de exportar seus bens manufaturados em troca. Recorreu entao a um enorme volume de exportagées de petréleo, g4s, matérias-primas e metais preciosos, que na década de 80 representavam 90% das exportagoes soviéticas para o mundo capitalista, com o petréleo e 0 gas respondendo, sozinhos, por dois tergos dessas exportagées.”' Esse tipo de configuracéio no comércio exte- tior, tipica de economias subdesenvolvidas, esta suscet{vel 4 secular depreciagaio dos pregos de matérias-primas vis d vis os precos de produtos manufaturados, ficando também muito vulnerdvel as flutuagées no prego do petréleo nos mer- cados internacionais.* Tal dependéncia da exportagdo de recursos naturais des- viou boa parte dos recursos energéticos e matérias-primas do curso dos investimentos na propria economia soviética, o que comprometeu ainda mais o modelo extensivo de crescimento. Por outro lado, quando o prego do petré- leo caiu, em 1986, a capacidade de importagao da economia foi severamente abalada, agravando o problema da escassez de bens de consumo e insumos agricolas.” Entretanto, talvez a falha com efeito mais devastador sobre a economia soviética tenha sido precisamente o ponto forte do Estado soviético: um com- plexo militar-industrial inchado e um orgamento insustentdvel para defesa. Na década de 80, os gastos com defesa da Uniao Soviética eram estimados em cer- cade 15% do PNB, mais que o dobro do orgamento dos EUA parao mesmo fim no auge do plano militar de defesa do governo Reagan. Outras estimativas ele- vam esse porcentual para cerca de 20-25% do PNB.* Por volta de 40% de toda aprodugdo industrial estava vinculada a defesa, e a produgdio de empresas cujas atividades se inclufam no 4mbito do complexo militar-industrial correspondia acerca de 70% de toda a produgao industrial. Mas os danos causados a econo- mia civil por essa gigantesca industria militar foram mais profundos.*’ As empresas operantes nesse ramo de atividade concentravam o que havia de melhor entre cientistas, engenheiros e m&o-de-obra qualificada, que por sua vez dispunham das melhores méquinas, bem como acesso a recursos tecnolé- gicos. Dispunham de centros de pesquisa préprios com as tecnologias mais avangadas do pais, além de gozarem de prioridade na distribuigao das quotas de importagao. Portanto, detinham a nata do potencial industrial, humano e tecno- l6gico da Uniao Soviética. E uma vez alocados ao setor militar, raramente esses recursos retornavam a atividades produtivas e aplicagdes civis. Descobertas tecnol6gicas independentes eram raridade, e a proporgiio de bens produzidos pelo setor civil em relagdo a produgao total das empresas atuantes no setor mili- 2 A crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unitio Soviética tar em geral era inferior a 10%. Mesmo assim, a maioria dos aparelhos de TV e outros bens de consumo eletrénicos eram produzidos por empresas militares, como derivados de sua principal atividade. Desnecessario dizer que, em conse- qiiéncia da dependéncia organica por parte de tais empresas do Ministério da Defesa, 0 interesse pela satisfagao do cliente era minimo. O complexo militar- industrial agia como um buraco negro na economia soviética, absorvendo a maior parte da energia criativa da sociedade e fazendo-a desaparecer em um abismo de inércia invisivel. Afinal, a militarizagfio da economia é um atributo l6gico do sistema que da prioridade absoluta ao poder do Estado em nome do préprio poder do Estado. O fato de um pafs empobrecido, eminentemente rural epouco desenvolvido como a Uniao Soviética no inicio do século ter sido capaz de se tornar uma das maiores poténcias militares da historia em apenas trés décadas necessariamente haveria de implicar um prego a economia civil e ao dia-a-dia dos cidadaos soviéticos. Os lideres soviéticos nao estavam desatentos as contradigdes e pontos de estrangulamento que vinham se desenvolvendo na economia planejada, De fato, conforme mencionado anteriormente, a hist6ria da Unido Soviética foi dominada por esforgos periddicos de reforma e reestruturagiio.* Kruchey ten- tou trazer as conquistas do socialismo para mais perto dos lares soviéticos mediante a melhoria da produgo agricola e maior atengiio aos bens de consu- mo, & moradia e aos beneffcios sociais, sobretudo as pensdes.” Além disso, Kruchev vislumbrou uma nova forma de economia, capaz de estimular o com- pleto desenvolvimento das forgas produtivas. A ciéncia e a tecnologia seriam colocadas a servigo do desenvolvimento econémico, e o pais usufruiria dos recursos naturais provenientes da Sibéria e das republicas do extremo oriente e da Asia Central. Na esteira do entusiasmo causado pelo langamento bem-suce- dido dos primeiros sputniks, 0 21° Congresso do Partido, extrapolando a base dos indicadores de crescimento, previu que a URSS chegaria a condi¢ao de paridade econémica com os Estados Unidos em vinte anos. Assim, a estratégia global que visava a derrota do capitalismo se reverteu, da inevitabilidade de um confronto armado, para uma politica de coexisténcia e concorréncia pacificas. Kruchev de fato acreditava que 0 efeito-demonstracao das conquistas do socia- lismo, em tltima andlise, levaria os partidos comunistas e seus aliados ao poder no resto do mundo.* Entretanto, antes de engajar-se no movimento comunista internacional visto sob essa perspectiva tao grandiosa (contestada pelos comu- nistas chineses), ele sabia que a burocracia do Estado soviético deveria passar por mudangas. Com a linha dura do partido na defensiva em decorréncia da revelacao das atrocidades cometidas por Stalin no 20° Congresso do Partido, A. crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unido Soviética a Kruchev fechou os ministérios econdémicos, limitou o poder do Gosplan e transferiu a responsabilidade para os conselhos econ6micos regionais (sovnar- khozy). A burocracia reagiu, como era de se esperar, com a reconstrugao das redes informais de controle e gerenciamento hierarquico de recursos que eram escassos. A desorganizagao do sistema de planejamento daf resultante levou a quedas na produgio e 4 desaceleragao significativa na taxa de crescimento da agricultura, principal alvo das reformas promovidas por Kruchev. Antes que Kruchev pudesse reagir & sabotagem de suas politicas, admitidamente defi- cientes por seu voluntarismo excessivo, o aparato do partido encenou um golpe interno que pds fim ao mandato de Kruchev em 1964. Logo apés a queda de Kruchev, os poderes do Gosplan foram restituidos, e novos ministérios foram criados, mediante os quais as autoridades de planejamento puderam fazer cum- prir suas diretivas. Areforma econémica no estava de todo paralisada, porém vinha sendo redirecionada do nivel da administracao estatal para o empresarial. As reformas realizadas por Kosygin em 1965,” inspiradas pelos economistas Liberman e Nemchinovy, deram maior poder de decisao aos administradores de empresas e passaram a testar um sistema de pregos em que se pagava por recursos com a produgao, Dedicou-se maior atengdo aos bens de consumo (cuja produgao, pela primeira vez, cresceu mais rapido que a de bens de capital no perfodo 1966-70). Aagricultura beneficiou-se de incentivos, o que resultou em aumento substan- cial na produgao no qiiinqiiénio 1966-71. Nao obstante, ao se depararem coma légica da economia planejada, essas reformas nao puderam resistir por muito tempo. As empresas que apresentaram ganhos de produtividade através da liberdade recém-adquirida foram impostas maiores quotas de produgao para o ano seguinte. Os administradores e trabalhadores com espirito empreendedor (como no caso da empresa que em 1967 se transformou no modelo das refor- mas, 0 complexo quimico de Cheniko em Tula), sentiram-se presos a uma ver- dadeira armadilha, pois eram punidos com a intensificagio do ritmo de trabalho, ao passo que as empresas que mantiveram um nivel de produgaio est4- vel, dentro dos padrées considerados normais, eram deixadas ao sabor de sua propria rotina burocratica. No inicio dos anos 70, Kosygin perderia o poder, e 0 potencial inovador das timidas reformas promovidas até entdo esmaeceria. Nao obstante, os primeiros dez anos da era Brejnev (1964-75) testemu- nharam um crescimento econémico moderado (pouco acima de 4% ao ano, em média), acompanhado de estabilidade politica e de melhoria lenta e constante das condigées de vida da populagio. O termo “estagnagao” (zastoi), normal- mente aplicado ao periodo do governo Brejnev, nao faz justiga 4 primeira parte 44 A crise do estatismo industrial ¢ 0 colapso da Unido Soviética de seu mandato."' A relativa estagnacio instalou-se de 1975 em diante e, em 1980, registrou-se uma taxa zero de crescimento. As causas de tal estagnagio parecem ter sido estruturais, representando os fatores diretamente respons4- veis pela implantagao da perestroika de Gorbachev. Padma Desai apresentou dados empiricos, bem como uma interpretagio econométrica, do atraso no crescimento da economia soviética (vide figura 1.3), cujas principais razGes podem ser imputadas a taxa decrescente de mudan- cas tecnolégicas e aos retornos cada vez menores propiciados pelo modelo extensivo de acumulagao.” Abel Aganbegyan também atribui a desaceleragao do crescimento econémico ao esgotamento do modelo de industrializagaéo com base no uso extensivo de capital, mao-de-obra e recursos naturais.* O atraso tecnolégico levou a queda na produgao nos campos de petréleo e gas natural, nas minas de carvao, na extragao de minério de ferro e de metais raros. O custo da exploragao de novos recursos tinha enorme aumento em conseqiiéncia das grandes distancias e das barreiras geograficas criadas pelas condig6es indspi tas das dreas setentrionais e orientais do territério soviético. A oferta de mao- de-obra diminuia na economia soviética 4 medida que as taxas de natalidade caiam, em decorréncia do programa educacional e do desenvolvimento econ6- mico, e porque o processo de assimilagao da mulher na forga de trabalho esta- va praticamente conclufdo. Portanto, um dos pilares do modelo extensivo de acumulagao, isto é, aumento quantitativo lento e constante da forca de trabalho, desapareceu. O influxo de capitais também estava limitado pela queda no retor- no sobre investimentos em uma mesma fungao produtiva, caracterfstica de eco- nomias nos primeiros estagios de industrializacdo. Para produzir a mesma quantidade, sob as novas condigdes econémicas do sistema, era necessdrio 0 emprego de mais capital, conforme indicado pela queda vertiginosa no fndice producdo-capital (vide tabela 1.4). Esse atraso também estava relacionado a dinamica e a l6gica burocratica inerentes ao modelo de acumulagao. Stanislav Menshikov, em trabalho conjun- to com uma equipe de jovens economistas do Instituto de Economia da Acade- mia de Ciéncias em Novosibirsk na década de 70, desenvolveu um modelo intersetorial para a economia soviética. Em suas palavras: Anilises econémicas demonstraram que os responsdveis pelas decises em termos de investimentos, produgdo e distribuicdo na verdade nao tinham como objetivo a melhoria do bem-estar da populagdo, o incentivo ao progres- so tecnolégico ea manutengfio das taxas de crescimentoem um nivel suficien- temente elevado de modo a preservar equilibrio econémico. Em vez disso, tomavam-se decisdes com o propésito de maximizar o poder dos ministérios A crise do estatismo industrial ¢ 0 colapso da Unio Soviética 45 na luta pela partilha dos recursos materiais, naturais, financeiros, intelectuais e de mo-de-obra, todos excessivamente centralizados. Nossas andlises eco- nOmico-financeiras revelaram que o sistema padecia de uma inexordvel inér- cia, estando fadado a tornar-se cada vez mais ineficiente.“ Tal ineficiéncia passou a ser gritante quando as exigéncias de consumo de uma populagdo com um grau de escolaridade mais elevado e maior autocon- fianga comecou a pressionar 0 governo, nao por meio de movimentos sociais que contestavam o sistema, mas pela expressao fiel da exigéncia dos cidadaos por um aumento gradativo no nivel de bem-estar social, tal como prometido pelo governo.* Entretanto, dois importantes problemas estruturais pareciam impedir 0 sistema de promover a prépria reestruturacao por volta dos anos 80. De um. lado, 0 esgotamento do modelo extensivo de crescimento econémico implica- va a necessidade de mudanga para um novo equacionamento da produgao, no qual os avancos tecnolégicos pudessem adquirir maior importancia, e os bene- ficios trazidos pela revolugio tecnolégica fossem empregados para aumentar substancialmente a produtividade da economia como um todo. Para tanto, seria necessdrio que uma parcela dos excedentes de producaio pudesse ser des- tinada ao consumo, sem comprometer a atualiza¢o do aparato militar. De outro lado, a excessiva burocratizagao do sistema de administrac¢do econémi- ca, bem como as conseqiiéncias funestas de seu corolério, qual seja, 0 cresci- mento da economia paralela, tinha de ser ajustada mediante uma reforma nas instituig6es de planejamento, mantendo sob controle os circuitos paralelos de apropriagiio e distribuigdo de bens e servicos. Em ambas as frentes — moder- nizago tecnoldgica e regeneragdo da m4quina administrativa — os obstécu- los eram tremendos. Aquestao tecnolégica Apesar das deficiéncias existentes no sistema de planejamento centrali- zado, a Uniao Soviética logrou desenvolver uma poderosa economia industrial. Quando, em 1961, Kruchev langou 0 desafio ao mundo, afirmando que nos anos 80 a URSS produziria mais bens industriais que os EUA, a maioria dos observadores ocidentais julgou a afirmagao ridfcula, mesmo estando na estei- ra do “efeito sputnik”. Ironicamente, no entanto, ao menos de acordo com as estatisticas oficiais e a despeito do atraso econémico e do caos social, na déca- 46 A crise do estatismo industrial ¢ 0 colapso da Uniio Soviética da de 80 a produgdo da URSS era substancialmente maior que a dos EUAem diversos setores da indtistria pesada: 80% mais ago, 78% mais cimento, 42% mais petr6leo, 55% mais fertilizantes, o dobro de ferro-gusa e cinco vezes mais tratores.** O problema, contudo, era que nesse interim, o sistema de produgao mundial passava pelo proceso de transigao para a indistria quimica e eletr6ni- ca, além de estar ingressando na revolugao biotecnolégica, justamente as areas em que a economia e tecnologia soviéticas encontravam-se bastante ultrapas- sadas.*’ De acordo com todas as anilises e indicadores disponiveis, a Unido Soviética passou ao cargo da revolugiio da tecnologia da informagiio que var- reu o mundo em meados dos anos 70. Em um estudo que realizei em conjunto com Svetlana Natalushko, em 1991-3, sobre as maiores empresas de microele- trdnica e telecomunicag6es de Zelenogrado (0 Vale do Silicio soviético, a 25 km de Moscou),* a imensa defasagem tecnolégica da industria eletrénica soviética em relag&o ao Ocidente saltou aos olhos, nao obstante a alta compe- téncia técnica dos profissionais de ciéncia e engenharia entrevistados. Por exemplo, em plena década de 90, as empresas russas ainda nao tinham condi- Ges de projetar chips de tamanho inferior a um micron, e suas “camaras lim- pas” eram tio “sujas” que elas néo conseguiam nem mesmo produzir os chips mais avangados que projetavam. Na realidade, a principal razdo que nos foi apresentada para o subdesenvolvimento tecnolégico era a falta de equipamen- tos adequados para a produgao de semicondutores. Hist6ria semelhante ocor- reucoma inddstria da informatica que, segundo as observagées de outro estudo que realizei nos institutos de pesquisa da Seco Siberiana da Academia de Cién- cias em Novosibirsk, em 1990, parecia estar cerca de vinte anos atrasada em comparagio as similares japonesa e norte-americana.* A revolugao promovida pelo PC (personal computer) sobrepujou a tecnologia soviética por completo, exatamente como fez com a IBM. Contudo, ao contrario da IBM, a Unido Soviética levou mais de uma década para comegar a projetar e produzir seu clone de PC, tao parecido com o Apple I que chega a despertar suspeitas.® Na outra ponta desse espectro, em computadores de alta performance, que devem ter sido o ponto forte de um sistema tecnolégico estatal, o nivel m4ximo de desempenho dos computadores soviéticos em 1991 — ano em que a produgao atingiu seu ponto mais alto na URSS — era mais de duas ordens de grandeza inferior ao do Cray Research (instituto de pesquisa e desenvolvimento de supercomputadores nos EUA) sozinho.* Quanto & maior parte da infra-estru- tura tecnolégica essencial, a avaliacao do sistema de telecomunicagdes sovié- tica efetuada por Diane Doucette em 1992 também constatou atraso em relagaio a qualquer um dos principais paises industrializados.* Mesmo nas principais A crise do estatismo industrial e © colapso da Unido Soviética a7 tecnologias com aplicagées militares, no final dos anos 80 a Unido Soviética estava bastante atrasada em relagéo aos EUA. Em um estudo comparativo sobre tecnologia militar envolvendo os EUA, a OTAN, 0 Japaio e a URSS, rea- lizado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 1989, a Unido Soviética foi considerada o pafs menos avangado em 15 dos 25 tipos de tecno- logia submetidas & avaliacdo, nao atingindo a condigio de paridade em relagio aos EUA em nenhum campo tecnolégico.® A avaliagdo da tecnologia militar realizada por Malleret e Delaporte também parece confirmar este fato.* Mais uma vez, nao existe uma raziio Obvia e direta para tal atraso. A Unido Soviética nao s6 possufa sdlida base cientifica e uma tecnologia avancada o suficiente para vencer os EUA na corrida ao espago no final da década de 50, como também a doutrina oficial do governo Brejnev introduziu a “revolugao cientifica e tecnolégica” (RCT) como pega fundamental da estratégia soviéti- ca para derrotar o Ocidente e erigir 0 comunismo sobre uma base tecnolégica impulsionada pelas relagdes socialistas de produgdo.** Tampouco esta priorida- de se traduzia pura e simplesmente em retérica ideolégica. A importancia atri- bufda a RCT tinha o respaldo de investimentos macigos em ciéncia, P&D e treinamento de profissionais da rea técnica, de modo que, por volta de 1980, a URSS contava com mais cientistas e engenheiros proporcionalmente ao total da populacao do que qualquer outro pafs importante do mundo.” Assim, temos diante de nés a idéia totalmente inusitada de que “o siste- ma”, ndo 0 povo, nem a falta de recursos materiais destinados ao desenvolvi- mento técnico e cientifico, foi responsavel por corroer suas prOprias estruturas, provocando atraso tecnolégico logo em um momento crucial de mudanga de paradigma nos demais paises do mundo. De fato, até o inicio dos anos 60, nao havia indicios de atraso significativo da Uniao Soviética nos principais campos tecnolégicos, com a grande excegao das ciéncias biolégicas, devastadas pelo Lysenkoismo.* Porém, tao logo o fenémeno da descontinuidade se instaurou na evolugao tecnoldgica, tal como ocorreu no Ocidente a partir dos anos 70, a pesquisa cientifica nao pode mais contribuir para o progresso tecnolégico, ¢ os esforgos de aprendizagem por intermédio da engenharia reversa langou a Unido Soviética em uma causa desde 0 inicio perdida contra o ritmo acelerado da inovagao tecnoldgica, observado nos Estados Unidos e Japao.® “Alguma coisa” aconteceu durante a década de 70 que ocasionou atraso tecnolégico na URSS. Contudo, essa “coisa” nao ocorreu na Uniaio Soviética, mas nos pafses capitalistas avangados. Diante das caracteristicas da nova revolucao tecnolégi- ca, com base na tecnologia da informacio e na répida difusio das conquistas tecnolégicas em uma ampla gama de aplicag6es, o sistema soviético encontrou 48 A crise do estatismo industrial ¢ 0 colapso da Unio Soviética enormes dificuldades de assimilagao e adaptacao dessa nova realidade as suas finalidades. Nao foi a crise do periodo de estagnagao de Brejnev que emperrou o desenvolvimento tecnolégico. Esse fato pode ser atribufdo a incapacidade de © sistema soviético integrar-se de maneira efetiva tio aclamada “revolugiio técnico-cientifica” que contribuiu para sua estagnagao econémica. Sejamos mais especificos quanto aos motivos dessa incapacidade. O primeiro deles foi a absorgao dos recursos econémicos, ciéncia e tec- nologia, maquindrio avancado e capacidade intelectual pelo complexo militar- industrial. Esse vasto universo, que no inicio da década de 80 respondeu por cerca de dois tergos da produgo industrial, recebendo, juntamente com as for- cas armadas, de 15% a 20% de todo o PNB soviético,® transformou-se em um gigantesco repositério de ciéncia e tecnologia fadado ao desperdicio: recebeu os melhores talentos e equipamentos disponiveis, dando em troca 4 economia civil apenas aparelhos elétricos e bens de consumo eletré6nicos mediocres."' Poucos dos avangos tecnolégicos descobertos, utilizados ou aplicados no com- plexo militar-industrial foram revertidos em beneficio da sociedade, principal- mente por motivos de seguranga, mas também por causa do controle das informagGes que tornavam as empresas militares verdadeiros oligop6lios de know-how industrial avangado. Além disso, a l6gica das empresas militares, tanto no Leste como no Oeste, estava e esta, sobretudo, voltada a agradar um tinico cliente: 0 Ministério da Defesa.* Portanto, as tecnologias foram desen- volvidas, ou adaptadas, para atender aos requisitos altamente especificos da indiistria militar, o que explica as dificuldades considerdveis de qualquer pro- jeto de conversao tanto na Riissia como nos EUA. Quem é que precisa, no mer- cado consumidor ou na indistria, de um chip projetado para resistir a uma explosao nuclear? O que salvou as indtstrias eletrénicas norte-americanas — que trabalhavam para 0 Ministério da Defesa— da répida obsolescéncia foi sua relativa abertura 4 concorréncia por parte de outras empresas norte-america- nas, bem como dos fabricantes japoneses de componentes eletrnicos.® Jé as empresas soviéticas, atuando em uma economia fechada, sem incentivo a exportagao e sem qualquer outra finalidade seno seguir as especificagdes de um Ministério da Defesa nao necessariamente a par de todas as tiltimas inova- cdes tecnolégicas, embrenharam-se em uma cruzada tecnolégica cada vez mais afastada das necessidades da sociedade e dos processos de inovagao do resto do mundo.™ A l6gica imposta pelas necessidades militares sobre 0 desenvolvimento tecnolégico teve ampla responsabilidade pelo sucateamento dos computadores soviéticos, que nao ficavam muito atras de seus equivalentes do Ocidente entre A.crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unido Soviética 49 meados da década de 40 e meados dos anos 60, sendo um elemento fundamen- tal no progresso conquistado pelo programa espacial soviético em seus primér- dios.® Os projetos para computadores comegaram na Academia de Ciéncias de Kiev nos anos 40, sob a diregdo do Professor S. A. Lebedev. O primeiro pro- tétipo, chamado de MESM, foi construfdo em 1950, apenas quatro anos apés 0 primeiro computador norte-americano, o UNIAC. Com base nesses protétipos, no final dos anos 50 ena década de 60, foi desenvolvida uma série completa de computadores de grande porte (mainframes): M-20, BASM-3M, BASM-4, M- 220 e M-222. Essa linha de desenvolvimento atingiu seu auge em 1968 coma fabricagdio de uma poderosa maquina, o BESM-6, capaz de executar oitocen- tas mil operacGes por segundo, tornando-se a forga motriz da computagdo soviética durante as duas décadas seguintes. Contudo, essa foi a tiltima grande inovagao de uma industria de informatica endégena na URSS. Em 1965, sob pressdo dos militares, o governo soviético decidiu adotar 0 modelo IBM 360 como padrio para o Sistema Unificado de Computagao do COMECON (Con- selho de Assisténcia Econémica Mtitua), organizagao internacional dos paises do Leste Europeu liderada pela URSS. Desse momento em diante, a IBM e os computadores digitais, e mais tarde alguns computadores de fabricagao japo- nesa, passaram a constituir a norma na Unido Soviética. Em vez de desenvol- ver seus proprios projetos e linhas de produg&o, os centros de P&D e fabricas de componentes eletrénicos (todos eles sob responsabilidade do Ministério da Defesa) puseram-se a contrabandear computadores do Ocidente e langar mao da engenharia reversa para reproduzir os modelos, adaptando-os as especifica- ges militares dos soviéticos. A KGB foi incumbida, em cardter altamente prio- ritdrio, de adquirir o que houvesse de mais avangado no Ocidente em termos de know-how e equipamentos, sobretudo na industria eletronica, por quaisquer meios que fossem necessarios.” A transferéncia de tecnologia do Ocidente, de forma aberta ou velada, tanto de projetos como de equipamentos, tornou-se a principal fonte para a revolugao da tecnologia da informacao na Unido Soviéti- ca, Esse fato necessariamente levou ao atraso tecnoldgico, pois a defasagem entre 0 momento em que um novo computador chegava ao mercado mundial (ou cafanas maos dos agentes da KGB) e a época em que as fabricas soviéticas estavam aptas a produzi-lo tornou-se cada vez maior em relagdo aos produtos fabricados com tecnologia de ponta, em especial apés a aceleragao da corrida tecnoldgica no final dos anos 70. Uma vez que esse procedimento foi também aplicado aos componentes eletrénicos e programas de software, os atrasos ocorridos em cada um dos segmentos da industria foram se acumulando, fazen- do com que a defasagem tecnolégica se multiplicasse. O que havia sido uma 50 A cise do estatismo industrial e o colapso da Unitio Soviética situagéio com préxima da paridade no inicio da década de 60 em termos de pro- jetos para computadores transformou-se em um atraso de vinte anos no desen- volvimento e fabricagdo de produtos da area de informatica.* O mesmo aconteceu com os programas de software. As maquinas sovié- ticas dos anos 60 operavam com base na linguagem ALGOL, desenvolvida no proprio pais, que poderia ter langado as bases para a integraciio de sistemas, atualmente o maior desafio da computagao. No entanto, na década de 70, para trabalharcom computadores semelhantes aos americanos, cientistas soviéticos desenvolveram sua propria versio do FORTRAN, que nao demorou para se tor- nar obsoleto em fungdo dos novos lancamentos de programas de software no Ocidente. Por fim, recorreram a cépias ilegais de qualquer tipo de software fabricado nos Estados Unidos, introduzindo o mesmo mecanismo deatraso tec- nolégico em um campo em que os matemiticos russos poderiam, em primeira mio, ter ampliado os limites do conhecimento cientifico, E por qué? Por que, paradoxalmente, os militares soviéticos e a KGB optaram por dependerem da tecnologia dos EUA? Os pesquisadores que entre- vistei do Instituto de Sistemas de Informatica da Academia de Ciéncias de Novosibirsk apresentaram-me um argumento convincente, elaborado a partir de sua propria experiéncia. O desenvolvimento da ciéncia da computagao em regime de isolamento do resto do mundo era muito incerto em um campo amplamente inexplorado para satisfazer as liderancas militares e politicas, em alerta constante. O que aconteceria com o poderio soviético, que depende da informatica, se seus pesquisadores deixassem passar despercebida uma novae essencial descoberta ou se a trajetéria tecnolégica a qual se vinculavam se des- viasse perigosamente do Ocidente, seguindo uma trajetéria ainda nao testadae comprovada? Sera que nao seria tarde demais para alterar a rota se um dia os Estados Unidos percebessem que a URSS nio dispunha de um nivel adequado de desenvolvimento na area de informatica para defender-se com eficdcia? Assim, 0s lideres soviéticos (provavelmente uma decisao da alta ctipula comu- nicada pela KGB) optaram por uma abordagem conservadora e livre de riscos: vamos adotar as mesmas méquinas que “eles” tém, ainda que leve algum tem- po para reproduzir os computadores “deles”. Afinal, para acionar os botées da hecatombe nuclear, alguns anos de atraso tecnolégico nos circuitos eletrénicos nao fariam grande diferenga, desde que o sistema funcionasse. Deste modo, os interesses do alto comando militar do Estado soviético resultaram no paradoxo de tornar a Unido Soviética dependente dos Estados Unidos na drea absoluta- mente fundamental da tecnologia da informagao. A crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unido Soviética 31 Por outro lado, em seus primeiros estdgios de desenvolvimento, as empresas japonesas fabricantes de componentes eletr6nicos também copiaram a tecnologia norte-americana, logrando sucesso em estabelecer uma relagao de paridade em diversas dreas essenciais em uma ou duas décadas, ao passo que na Unido Soviética esse procedimento surtiu efeito contrario. Por qué? A prin- cipal razao parece estar no fato de que os japoneses (e mais tarde outros paises asidticos) tinham de concorrer com as firmas das quais adquiriam a tecnologia, de modo que eram obrigados a manter-se atualizados, enquanto o ritmo de desenvolvimento tecnolégico nas empresas soviéticas era ditado por procedi- mentos de aquisi¢ao de equipamentos impostos pelos militares e por uma eco- nomia de comando que atribufa maior importancia 4 quantidade que a qualidade. A auséncia de concorréncia interna ou externaaliviava qualquer tipo de pressdo sobre as empresas soviéticas para buscar inovagdes em um ritmo mais acelerado que 0 considerado necessario na opiniao dos planejadores do Ministério da Defesa.” Quando a corrida tecnolégica do programa “Guerra nas Estrelas” orientada pelos militares deixou transparecer 0 tio temido atraso tec- noldgico da URSS em relagao aos EUA, o alerta do alto comando soviético, declarado mais abertamente pelo comandante das Forgas Armadas, Marechal Ogarkoy, foi um dos fatores que levaram a perestroika, apesar da queda politi- ca do proprio Ogarkov.” Nao obstante, a Unido Soviética ainda dispunha de recursos cientificos, industriais e tecnolégicos fora do setor militar que teriam permitido a melhoria de seu desempenho tecnolégico, mesmo com a falta de novas descobertas no setor militar. Porém, uma segunda camada da légica estatista impedia o desen- volvimento desse processo. O funcionamento da economia de comando, con- forme mencionado anteriormente, baseava-se na realizagao do plano, nfo na melhoria de produtos e processos, Esforgos relacionados & inovagdo sempre implicam algum risco, tanto no resultado como na capacidade de obtengao dos materiais necessdrios para atuar em novas dreas de produgio. O sistema de pro- dugo industrial soviético nao previa nenhum tipo de incentivo para a conquis- ta desse objetivo. Sem dtivida, a possibilidade de fracasso estava presente em qualquer iniciativa empreendedora. A inova¢ao tecnoldgica nao era recompen- sada, mas podia resultar em sancGes.” Uma légica simplista e burocratica pre- dominava sobre o processo decisdrio tecnolégico, como em todas as demais reas da administragio econdmica. Um caso bastante elucidativo pode ajudar aesclarecer esse argumento.” O espaco entre a maioria dos conectores de chips fabricados nos EUA é de 1/10 de polegada. O Ministério Soviético de Eletr6ni- ca, encarregado de fazer c6pias dos chips norte-americanos, optou por adotar 0 52 A crise do estatismo industrial ¢ 0 colapso da Unigo Sovigsics sistema métrico em suas especificagdes, mas 1/10 de polegada equivale a uma medida métrica no minimo estranha: 0,254mm. Para simplificar as coisas, como normalmente ocorre com a burocracia soviética, decidiu-se pelo arre- dondamento, criando-se uma “polegada métrica”, ou seja, um espacamento de 0,25mm. Portanto, os clones soviéticos de chips se parecem com seus equiva- lentes norte-americanos, mas nao encaixam em um soquete fabricado no Oci- dente. O erro foi descoberto tarde demais, e 0 resultado foi que, em pleno 1991, os equipamentos soviéticos para montagem de semicondutores nao podiam ser utilizados para fabricagdo de chips do mesmo tamanho que os empregados no Ocidente, excluindo assim qualquer possibilidade de exportagao da produgiio soviética para a indtistria microeletrénica. Vale lembrar ainda que a pesquisa cientifica e a produgao industrial eram separadas institucionalmente. A poderosae bem aparelhada Academia de Cién- cias era um instituto voltado apenas a pesquisa, com seus proprios programas e critérios, estando dissociada das necessidades e problemas das empresas indus- triais.” Impossibilitadas de contarem com contribuigdes da Academia, as empresas utilizavam os centros de pesquisa de seus préprios ministérios. Como qualquer tipo de intercémbio entre esses centros exigiria contatos formais entre ministérios no contexto do planejamento econdmico, centros de pesquisa apli- cada também nao se comunicavam. Tal separagao estritamente vertical, impos- ta pela légica institucional da economia de comando, acabou bloqueando por completo o processo de “aprendizado na pratica”, considerado vital para o esti- mulo a inovagao tecnolégica no Ocidente. A falta de interaco entre ciéncia fundamental, pesquisa aplicada e produgao industrial levou a extrema rigidez no sistema de produgio, a auséncia de experimentagiio objetivando novas des- cobertas tecnolégicas e a aplicag4o muito restrita de tecnologias especificas para usos limitados, precisamente no momento em que o avango nas tecnolo- gias da informagao se fundamentava na interaciio constante entre os diferentes campos do conhecimento tecnolégico por meio da comunicacio via redes de computadores. Os Iideres soviéticos passaram a se preocupar cada vez mais com a falta de interagao produtiva entre a ciéncia e a indistria, pelo menos a partir de 1955, durante uma conferéncia convocada por Bulganin para discutir a questo. Durante os anos 60, Kruchev e, depois, Brejnev apostavam na ciéncia e na tec- nologia para superar 0 capitalismo. No final da mesma década, na esteira de prudentes reformas econémicas, introduziram-se as “associages entre a cién- ciaea producio”, que estabelecia relagdes horizontais entre empresas e centros de pesquisa.” Mais uma vez, os resultados foram paradoxais. De um lado, as A crise do estatismo industrial 0 colapso da Unido Soviética 33 associagdes ganharam maior autonomia e ampliaram a interagdo entre seus componentes industriais e cientificos. De outro, por serem recompensadas com base no aumento do diferencial de produtividade vis a vis outras associagdes, desenvolveram uma tendéncia & auto-suficiéncia, rompendo os lagos com outras associagées de produgdo e com o restante do sistema de ciéncia e tecno- logia, uma vez que se reportavam aos respectivos ministérios aos quais eram afiliadas. Ademais, os ministérios nao demonstravam grande interesse em coo- perar com entidades alheias as suas esferas de influéncia, ea Academia de Cién- cias resistia a qualquer tentativa de limitag4o de sua autonomia burocritica, utilizando habilmente como argumento 0 pavor causado pela possibilidade de retroceder 4 excessiva submissao existente nos tempos de Stalin. Embora Gor- bachev tentasse repetir a experiéncia mais tarde, as relagdes horizontais entre a pesquisa cientifica e as empresas industriais jamais funcionaram efetivamente na economia planejada, impedindo a aplicagio efetiva das descobertas tecno- légicas mediante diferentes canais de instrug6es ministeriais transmitidas de maneira vertical. Um caso que merece ser comentado, servindo de exemplo para a incapa- cidade inerente da economia de planejamento central de assimilar processos de raépida inovacao tecnolégica, é 0 do experimento da cidade cientifica de Akademgorodok, proxima a Novosibirsk." Em 1957, Kruchey, ao retornar dos Estados Unidos, teve a intengao de reproduzir 0 modelo dos campi universita- rios norte-americanos, convencido de que, nas condig6es apropriadas, a ciéncia soviética poderia ultrapassar seu equivalente no Ocidente. Assessorado por um matemiatico de renome, Lavrentiev, Kruchev deu inicio 4 construgao de uma cidade voltada por completo ciéncia na taiga siberiana, a beira do Ob (lago arti- ficial da regiaio), adjacente a Novosibirsk, o principal centro industrial e politi- co da Sibéria, porém propositadamente separada dessa cidade. Alguns dos melhores talentos da ciéncia, de preferéncia, jovens e dindmicos, receberam incentivos para se estabelecerem ali, distantes da burocracia académica de Moscou e Leningrado, e um pouco mais independentes de seu controle ideolé- gico direto, Na década de 60, Akademgorodok floresceu como um grande cen- tro cientifico nas disciplinas de fisica, matemética, informatica, materiais avangadose economia, entre outras. No seu auge, nos anos 80, Akademgorodok chegou a abrigar vinte Institutos da Academia de Ciéncias, bem como uma pequena universidade de elite, a Universidade Estadual de Novosibirsk. Ao todo havia quase dez mil pesquisadores e professores, 4.500 alunos e milhares de téc- nicos e auxiliares. Essas instituigdes cientificas trabalhavam na vanguarda de suas disciplinas. Com efeito, em economia e sociologia, Akademgorodok ren- 34 A crise do estatismo industrial € 0 colapso da Unio Sowiétics deu alguns dos primeiros lideres intelectuais da perestroika. inclusive Abel Aganbegyan e Tatyana Zalavskaya. Todavia, a despeito do grau de exceléncia alcangado pela cidade cientifica da Sibéria, sua integracao com a indistria jamais ocorreu de fato, mesmo considerando sua proximidade com o centro industrial siberiano, onde estavam situadas as maiores indtistrias da defesa, inclusive fabricas de componentes eletrOnicos e aeronaves. A separagao entre os dois sistemas era tal que a Academia de Ciéncias criou suas préprias oficinas industriais em Akademgorodok para produzir as maquinas necessérias As expe- riéncias cientificas, ao mesmo tempo em que as indiistrias eletronicas de Novosibirsk continuavama trabalhar com seus centros de pesquisa sediados em Moscou. Segundo pesquisadores entrevistados em 1990-2, esse cenario era o resultado do desinteresse das indistrias por tecnologia de ponta: seus planos de produgao eram elaborados de acordo com as méquinas jé instaladas, sendo que qualquer mudanga no sistema de produgdo implicaria o ndo-cumprimento das quotas estabelecidas pelo governo. Portanto, as mudangas tecnolégicas somente podiam ser efetuadas por iniciativa da respectiva unidade do Gosplan, a quem caberia fazer o pedido para ainstalagdao de novas maquinas, ao mesmo tempo estipulando uma nova quota de produgao. Os calculos do Gosplan, no entanto, nao se baseariam nas maqui- nas possivelmente resultantes das pesquisas de vanguarda realizadas pelos ins- titutos académicos. Em vez disso, o Gosplan preferia utilizar a tecnologia disponivel no mercado internacional, visto que a tecnologia mais avangada do Ocidente adquirida em segredo pela KGB estava reservada para o setor militar. Desta forma, uma das experiéncias mais ousadas da era Kruchev, concebida com 0 propésito de aliar ciéncia e tecnologia para formar a base de um novo processo de desenvolvimento em uma das regides mais ricas do mundo em recursos naturais, em tiltima anilise, fracassou diante do peso inamovivel do estatismo soviético. Assim, concomitantemente a aceleragao do ritmo de inovagao tecnolégi- ca no Ocidente, durante toda a década de 70 e inicio dos anos 80, a Unio Soviética passava a depender cada vez mais de importagdes de mAquinas e transferéncia de tecnologia para seus principais setores industriais, financiadas pela abundancia de recursos resultante das exportagGes de gas e petrdleo sibe- rianos. Havia um volume consideravel de desperdicio. Marshall Goldman entrevistou varios executivos ocidentais que trabalhavam com exportag6es de tecnologia para a URSS no inicio da década de 80.” De acordo com esses exe- cutivos, os equipamentos importados eram subaproveitados (0 grau de eficién- cia de uso correspondia a cerca de dois tergos do obtido pelos pafses do Accrise do estatismo industrial e o colapso da Unido Soviética Ocidente); 0 Ministério do Comércio Exterior tentava reter seus parcos recur- sos em moeda forte, enquanto as maiores empresas tinham interesse em esto- car pilhas de equipamentos de tiltima gerag4o e grandes quantidades de pegas de reposigao sempre que obtinham autorizagao para importar; a desconfianca entre os ministérios inviabilizava a harmonizagao das politicas de importagao, resultando em incompatibilidade entre os equipamentos; e longos periodos de amortizagao para cada tipo de equipamento importado em uma determinada fabrica redundavam em obsolescéncia tecnolégica, bem como na dolorosa coe- xisténcia de méquinas e procedimentos de diversas geragdes tecnolégicas. Além disso, logo tornou-se evidente que era impossfvel modernizar a tecnolo- gia de um segmento da economia sem reformular todo o sistema. Justamente porque a economia planejada criou uma relagio de estreita dependéncia entre suas unidades, era invidvel recuperar o atraso tecnolégico em algumas 4reas criticas (por exemplo, eletrénica) sem que se permitisse que cada elemento do sistema interagisse com os demais. Fechando o circulo, a ldgica do uso de par- cos recursos tecnoldgicos do exterior para um segmento restrito e indispens4- vel do sistema reforgou a primazia concedida ao setor militar-industrial, além de instituir de vez uma cisao profunda entre dois sistemas tecnoldgicos cada vez mais incompativeis, a industria bélica e a economia de sobrevivéncia. Por fim, a repressio ideoldgica e a politica de controle de informagdes constitufam obstéculos decisivos para o avango e disseminacao de novas tec- nologias voltadas precisamente para o processamento de informagées.” E ver- dade que nos anos 60 os excessos do stalinismo foram deixados para tras, sendo substitufdos pelas grandiosas perspectivas de “revolugao cientifica e tecnol6- gica” como a base material do socialismo. Lysenko foi afastado logo apés a queda de Kruchev, nao sem antes ter exercido o terror intelectual durante vinte anos; a “cibernética’” deixou de ser considerada uma ciéncia burguesa; mode- los matematicos foram adotados na economia; a andlise de sistemas passou a ser objeto de comentarios favoraveis nos circulos marxistas-leninistas; e, 0 mais importante, a Academia de Ciéncias recebeu um volume significativo de recursos materiais e considerdvel autonomia burocratica para cuidar de seus proprios assuntos, inclusive o exercicio de seus proprios controles. Porém, a ciéncia e tecnologia soviéticas continuaram padecendo dos males da burocra- cia, controle ideolégico e repressao politica.® O acesso 4 comunidade cientifi- ca internacional permaneceu bastante restrito, limitando-se a um seleto grupo de cientistas vigiados de perto, o que prejudicou 0 intercAmbio de idéias e expe- riéncias no campo cientifico. As informagGes das pesquisas eram filtradas, ea divulgagio das descobertas, controladas e restritas. Muitas vezes os burocratas 56 Acrise do estatismo industrial ¢ 0 colapso da Unisio Soviética da ciéncia impunham suas opiniées sobre todos aqueles que tentassem contes- tare inovar, encontrando apoio na hierarquia politica, A presenga da KGB nos principais centros de pesquisa cientifica manteve-se uma constante até o final do regime soviético. A reprodugio de informagées ¢ a comunicacio irrestrita entre os pesquisadores soviéticos e entre eles e o mundo exterior continuaram sendo tarefas diffceis por um longo tempo, constituindo enorme obstaculo engenhosidade cientffica e difusao tecnolégica. Seguindo o genial instinto de Lenin de exercer controle sobre o fornecimento de papel como recurso basico para controle de informagGes nos desdobramentos da revolugao, as m4quinas para impressdo, reprodugao, processamento de informagGes e comunicagao permaneceram sujeitas a controles rigorosos. Maquinas de escrever eram rari- dades, de uso cuidadosamente monitorado. O acesso a cépias reprograficas sempre exigiu autorizagao prévia dos funciondrios do governo encarregados da seguranca: duas assinaturas autorizadas para a reproducao de um texto russo, e trés assinaturas autorizadas para um texto nao russo. O uso de linhas telef6ni- cas para ligagGes interurbanas e por telex também era controlado por meio de procedimentos especiais desenvolvidos em cada organizagao. E a simples nogao de um “computador pessoal” j4 era, por si 86, subversiva 4 burocracia soviética. A difusao da tecnologia da informagao, tanto de méquinas como de know-how, dificilmente poderia ocorrer em uma sociedade em que 0 controle das informagées era fundamental para manter a legitimidade do Estado, bem como para controle da populacao. Quanto mais as tecnologias de comunicagio tornavam o mundo exterior acessivel ao imagindrio dos cidadiios soviéticos, tanto mais, objetivamente falando, se complicavam as formas de acesso a essas tecnologias a uma populagao que, de modo geral, passara de um perfodo de ter- ror submisso a uma rotina de passividade marcada pela falta de informagio e de visdes alternativas do mundo. Portanto, em esséncia, 0 estatismo soviético negou a si mesmo a difusao de tecnologias da informagio no sistema social. Sem essa difusao, as tecnologias da informagio nao tiveram condigGes de se desenvolver além das atribuigdes especificas e funcionais designadas pelo Estado, impossibilitando 0 processo de inovaciio espontanea pelo uso e intera- go em rede que caracterizam o paradigma da tecnologia da informacio. Assim, no 4mago da crise tecnolégica da Uniiio Soviética reside a légica fundamental do sistema estatista: prioridade exagerada ao poderio militar; con- trole politico-ideol6gico de informagées pelo Estado; os principios burocraticos da economia de planejamento central; isolamento do resto do mundo; e incapa- cidade de modernizagio tecnoldgica de certos segmentos daeconomiae da socie- dade sem modificar todo o sistema em que tais elementos interagem entre si. A cise do estatismo industrial ¢ o colapso da Unio Soviética 37 As conseqiiéncias desse atraso tecnolégico logo no momento em que os paises capitalistas avangados se engajavam em um processo de transformagao tecnolégica fundamental foram repletas de significado para a Unido Soviética e, em tiltima andlise, tornaram-se um dos principais fatores que contribufram para sua queda. A economia nao conseguiu alterar o modelo de desenvolvimen- to extensivo para um sistema intensivo, o que acelerou seu declinio. Acrescen- te defasagem tecnolégica impediu o ingresso da Unido Soviética na concorréncia econémica mundial, fechando as portas aos beneficios do comér- cio internacional que seriam obtidos caso 0 pais nao se ativesse somente ao papel de fornecedor de energia e matérias-primas. A populagdo com nivel edu- cacional superior viu-se cercada por um sistema tecnoldgico cada vez mais dis- tante do utilizado por sociedades industriais semelhantes. A aplicagao de computadores a um sistema burocratico e a uma economia de comando aumen- tou a rigidez dos controles,” confirmando a hipotese segundo a qual a raciona- lizagao tecnoldgica da irracionalidade social aumenta a desordem. Finalmente, © proprio aparato militar acabou padecendo de uma crescente defasagem tec- nol6gica vis-a-vis a indiistria bélica de seus concorrentes,® agravando ainda mais a crise do Estado soviético. A abducao da identidade e a crise do federalismo soviético Muitos de nossos problemas nacionais sito causados pela natureza contradi~ t6ria dos dois principios estabelecidos como 0s alicerces da Federagao Rus- sa: o principio territorial-nacional e o principio territorial-administrativo. Boris Yeltsin, Rossiyskaya gazeta, 25 de fevereiro de 1994 Desde sua introdugao, as reformas promovidas por Gorbachev tiveram por objetivo explicito a reestruturagdo econémica e a modernizagao tecnolégi- ca. Contudo, essas nao eram as tinicas deficiéncias do sistema soviético. As bases do Estado federal soviético multinacional e de miltiplas etnias e cama- das foram langadas sobre a areia movedi¢a de uma histéria reconstruida e par- camente sustentadas por uma repressao impiedosa.*' Apés deportagdes em massa de grupos ¢tnicos inteiros para a Sibéria e a Asia Central sob o regime de Stalin,” foi imposta uma proibigdo implacavel 4 expressio aut6noma do nacio- nalismo entre as mais de cem nacionalidades e grupos étnicos existentes na Unido Soviética. Embora houvesse manifestagGes nacionalistas isoladas (por exemplo, Arménia, abril de 1965; Geérgia, abril de 1978), por vezes esmaga- 58 crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unitio Soviética das pela forga (por exemplo, Tbilisi, margo de 1956), a maioria das expresses nacionalistas foi subjugada por um longo perfodo, sendo reassumidas por inte- lectuais dissidentes apenas em raros momentos de relativa tolerancia sob Kruchev ou no final dos anos 70." Nao obstante, foi a pressao exercida pelo nacionalismo, utilizada de acordo com os interesses pessoais das elites politi- cas das reptiblicas, que acabou levando a experiéncia reformista soviética ao fracasso, resultando na desintegracao da Unido Soviética. O nacionalismo, inclusive o russo, forneceu a base ideolégica para mobilizagao social em uma sociedade em que ideologias estritamente politicas, nao desenvolvidas a partir de uma identidade histérico-cultural, sofreram os golpes do ceticismo e da des- crenga alimentados por sete décadas de doutrinamento nos temas da utopia comunista." Emboraa incapacidade de o estatismo soviético adaptar-se as con- digdes econémicas ¢ tecnoldgicas de uma sociedade da informagao tenha sido o principal motivo subjacente a crise do sistema soviético, foi o ressurgimento da identidade nacional, seja historicamente enraizado, seja reinventada politi- camente, o primeiro elemento a contestar 0 Estado soviético ea principal causa de sua destruigdio. Se as dificuldades econémicas e tecnolégicas induziram as reformas de Andropov e Gorbachev nos anos 80, a questo explosiva do nacio- nalismo rebelde e as relagdes federalistas na Uniaio Soviética foram os princi- pais fatores politicos responsdveis pela perda do controle do processo reformista por parte da lideranga soviética. As razées desse ressurgimento irreprimivel do nacionalismo na Unido Soviética nos anos da perestroika devem ser buscadas na histéria do comunis- mo soviético. Na realidade, trata-se de uma hist6ria complexa que vai além da imagem simplista de pura repressao das culturas nacionais / étnicas do Estado soviético. Com efeito, um dos maiores historiadores sobre nacionalidades nao- russas na Unido Soviética, o professor de histéria arménia Ronald Grigor Suny, argumenta que: Dispersa na poderosa ret6rica nacionalista esté toda e qualquer nogo do grau em que os longose dificeis anos de governo do Partido Comunista de fato con- seguiram dar prosseguimento ao processo de “formagao de nagdes” que ante- cedeu 0 periodo revoluciondrio. A medida que a atual geragao assiste & autodestruigiio da Unido Soviética, desaparece a ironia do fato de que a URSS caiu vitima ndo s6 de seus efeitos negativos sobre os povos naio-russos como também de sua prépria contribuigao “progressiva” ao processo de formagao de nagées... A politica profundamente contraditéria do Estado soviético ali- mentou a singularidade cultural de povos distintos. Portanto, ela contribuiu para uma maior solidariedade étnica e conscientizago nacional nas repibli- A crise do estatismo industrial e 0 eolapso da Unio Soviética 59) cas ndo-russas, a despeito de ter frustrado uma articulacdo completa de uma agenda nacional ao exigir obediéncia a uma ordem politica imposta. Tentemos reconstruir a l6gica desse enorme paradoxo politico.” A Uniao Soviética foi fundada em dezembro de 1922 e sua natureza de Estado federal e multinacional foi estabelecida na Constituigaio de 1924." Ori- ginalmente esse Estado incluia: a Federagao Russa das Republicas Socialistas Soviéticas (FRRSS), constituida, além da prépria Riissia, de diversas republi- cas auténomas nio-russas; a Reptiblica Socialista Soviética da Ucrania; Reptblica Socialista Soviética da Bielo-Russia; ¢ a Federagao Transcau- casiana das Reptiblicas Socialistas, uma entidade artificial, potencialmente explosiva, que reunia sob sua bandeira povos inimigos h4 séculos, tais como os georgianos, os azeris, os arménios e uma série de grupos étnicos de menor porte, entre os quais inguchétios, ossetianos, abkhazes e mesquetianos. A par- ticipagaio na Unido na qualidade de pafs membro estava aberta a todas as Reptiblicas soviéticas e socialistas do mundo, incluindo as existentes e as futu- ras. Em setembro de 1924, duas outras reptiblicas foram incorporadas: Usbe- quistdo (formado a partir da integragdo territorial forgada da populacio local ao Turquestao, Bucara e Coresma) e Tureménia. Em 1936, trés novas Reptiblicas da Uniao foram criadas com os nomes de Tadjiquistéo, Quirguistéo e Casaquistdo. Também em 1936, a Federagao Transcaucasiana foi dividida em trés reptiblicas, a saber, Geérgia, Arménia e Azerbaidjao, deixando em cada uma dessas reptiblicas enclaves étnicos significativos que acabaram funcio- nando como bombas-relégio nacionalistas. Em 1940, a absorgao forgada da Est6nia, Let6nia, Litudnia e Moldavia (tomada da Roménia) na URSS comple- tou a estrutura republicana da Unido Soviética. Sua expansio territorial tam- bém incluiu a anexacao de Carélia e Tuva como repiiblicas auténomas na FRRSS, bem como a incorporacao de novos territ6rios a oeste da Ucrdnia e oeste da Bielo-Ruissia, tomados da Polénia no periodo de 1939 a 1944, e Cali- ningrado, que antes pertencia & Alemanha, em 1945.” A formagio do Estado federalista da Unido Soviética foi resultado de um acordo obtido a partir de amplos debates politicos e ideolégicos realizados durante o perfodo revoluciondrio.” Originariamente, a postura bolchevique negava a importncia da nacionalidade como critério significativo para a for- macio do novo Estado, pois 0 internacionalismo proletario com base nas clas- ses pretendia superar as diferencas nacionais entre as massas trabalhadoras e exploradas, manipuladas em confrontos entre etnias pelo imperialismo bur- gués, conforme demonstrado por ocasiao da Primeira Guerra Mundial. Contu- 60 ‘Accise do estatismo industrial e 0 colapso da Unido Soviética do, em janeiro de 1918, anecessidade premente de estabelecer aliangas milita- res na guerra civil subseqtiente ao golpe bolchevique de outubro convenceu Lenin da importancia do apoio das forgas nacionalistas externas 4 Riissia, sobretudo na Ucrania. Em janeiro de 1918, o Terceiro Congresso de Sovietes Russos adotou a “Declaragdo dos Direitos dos Povos Trabalhadores e Explo- rados”, destacando a conversao do antigo Império Russo para a “unido frater- nal da Reptblicas Soviéticas da Russia, que se reuniria livremente sob 0 regime federalista”.”' A essa “federalizacao interna” da Riissia, os bolcheviques acres- centaram o projeto de “federalizagao externa” de outras nagdes em abril de 1918, convocando, de forma explicita, a integrarem a Unido os povos da Polé- nia, Ucrania, Criméia, Transcaucasia, Turquestio, Quirguistao “e outros”. Porém, o debate mais importante girava em torno do principio sob 0 qual aiden- tidade étnica e nacional seria reconhecida no novo Estado soviético. Lenin e Stalin demonstraram-se contrarios as opinides dos socialistas que desejavam ver as culturas nacionais reconhecidas em todos os niveis da estrutura do Esta- do, tornando as instituicdes da Unido Soviética uma verdadeira multicultura. Eles opuseram a essa visdo o princtpio da territorialidade como fundamento para a nacionalidade.” Além disso, 0s direitos étnicos / nacionais seriam ins- titucionalizados na forma de Reptblicas, Reptiblicas Aut6nomas e Regides Auténomas. Em conseqiiéncia, houve a encapsulagao completa da questdo nacional na estrutura de multiplas camadas do Estado soviético: as identidades eram reconhecidas contanto que tivessem condigGes de se enquadrar nas insti- tuigdes governamentais. Essa era considerada a expressao do principio do cen- tralismo democratico por conciliar 0 projeto do Estado soviético unitério com oreconhecimento da diversidade de seus sujeitos territoriais.” Assim, a Unido Soviética foi construfda com base no princfpio da dupla identidade: as identi- dades étnicas / nacionais (inclusive a Russia) e a identidade soviética como 0 alicerce da cultura de uma nova sociedade. Além da ideologia, o princfpio territorial do federalismo soviético foi implantado mediante a aplicagao de uma ousada estratégia geopolitica com 0 objetivo de disseminar 0 comunismo no mundo todo. A.M. Salmin propés um. modelo interessante de interpretagao da estratégia leninista-stalinista subja- cente ao federalismo soviético.* Nessa perspectiva, a Uniio Soviética era um sistema institucional centralizado, porém flexivel, com uma estrutura que deveria permanecer aberta e adaptavel ao ingresso de novos membros que se integrariam ao sistema ao mesmo tempo que a causa do socialismo tivesse um avango inexordvel por todo o mundo. E por essa raziio que a Constituigao Soviética de 1924 assegurava as Reptblicas o direito nao sé de ingressar na A crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unido Soviética 61 Unido, mas também de separar-se dela, tornando tais decisdes soberanas e reversiveis. A histéria demonstrou a dificuldade da aplicago desse direito de secessao na pratica do Estado soviético. No entanto, foi esse principio, herda- do dos primeiros debates revolucionérios e reproduzido nas Constituigdes de 1936 e 1977, que proveu o fundamento juridico e institucional para os movi- mentos separatistas durante a era Gorbachev, conseqiientemente tomando a ideologia revolucionaria ao pé da letra, revertendo e, em ultima andlise, des- mantelando, a singular configuragao do federalismo soviético.* No modelo geopolftico proposto por Salmin, que parece se encaixar nas informag6es hist6ricas sobre as origens do Estado soviético,% cinco circulos concéntricos foram tragados como 4reas de seguranga e também ondas de expansao do Estado soviético, na qualidade de principal baluarte do comunis- mo mundial. O primeiro deles foi a Russia e suas repuiblicas-satélite autono- mas, organizadas sob a égide da FRRSS. Este cfrculo foi considerado 0 centro do poderio soviético, a ponto de, paradoxalmente, a Federagao Russa ter sido.a tinica reptiblica da URSS a nao dispor de organizagdes especificas do Partido Comunista, a tinica sem um presidente do Soviete Supremo da Republica, e uma federacfio cujas instituigdes republicanas eram as menos desenvolvidas do Estado. Em outras palavras, a FRRSS era reserva de dominio do PC soviético. Vale ressaltar que a FRRSS nao fazia fronteira com 0 mundo capitalista poten- cialmente hostil. Em torno desse poder central, um segundo circulo protetor era constitufdo pelas reptiblicas pertencentes 4 Unido, formalmente com os mes- mos direitos garantidos 4 FRRSS. Como diversas reptiblicas auténomas da ERRSS (por exemplo, a Chechénia) eram tao nao-russas quanto algumas da Unido, parece que o verdadeiro critério para sua classificag4o como pertencen- te 4 Unido ou auténoma era justamente o fato de as reptiblicas da Unido terem fronteiras em contato direto com o mundo exterior, agindo portanto como uma rea territorial neutra para fins de seguranga. O terceiro cfrculo era formado pelas “democracias populares”, fora dos limites da Unido Soviética, mas sob seu controle direto, tanto militar como territorial. A princfpio, era este 0 caso da Coresma e Bucara (posteriormente diluidas entre o Usbequistéo e a Turcmé- nia), Mongolia e Tannu-Tura. Na década de 40, as democracias populares da Europa Oriental também cumpriram esse papel. O quarto cfrculo era represen- tado pelos Estados vassalos pré-soviéticos (categoria formada por paises como Cuba, Vietna e Coréia do Norte); a China jamais foi considerada parte dessa categoria apesar da vitéria do comunismo: ao contrario, nao demorou muito para que fosse encarada como ameaga geopolitica. Finalmente, um quinto cfr- culo foi formado pelo movimento internacional comunista e seus aliados em mo industrial ¢ 0 colapso da Unido Soviética todo o mundo, como embrides da expansao do Estado soviético por todo 0 pla- neta no momento em que as circunstncias histéricas precipitariam a inexora- vel derrocada do capitalismo.” Essa tensdo constante entre o universalismo da utopia comunista a-his- torico, baseado em classes, ¢ 0 interesse geopolitico em apoiar as identidades étnicas/nacionais como potenciais aliados territoriais constitutram os fatores determinantes da esquizofrenia da politica soviética no tocante 4 questao nacional. Por um lado, as culturas e idiomas nacionais foram estimulados, e em alguns casos reconstrufdos, nas reptiblicas pertencentes 4 Unido, nas auténo- mas € nos territérios fundamentados na etnia (krai). As politicas korenizatsiya (baseadas no nativismo) receberam o apoio de Lenine Stalin até a década de 30, incentivando 0 uso de linguas e costumes nativos, implementando programas de “agiio afirmativa”, isto é, politicas de recrutamento e de promogées favord- veis as minorias nos aparatos do Estado e do partido nas repiiblicas, e fomen- tando o desenvolvimento de elites politicas e culturais endégenas nas instituigdes republicanas.%* Embora essas politicas tenham softido os reveses da repressao antinacionalista durante os anos da coletivizagao, foram reaviva- das sob os governos Kruchev e Brejnev, resultando na consolidagao de podero- sas elites étnicas/nacionais nas repiblicas. Kruchev, ele proprio um ucraniano, foi tao longe na visao de federalismo soviético claramente inclinada a favore- cer 0 néo-russos a ponto de decidir, de stibito, em 1954, a transferéncia da Criméia, historicamente um territ6rio russo, para a Ucrania, 0 que teria ocorri- do, segundo consta dos arquivos, apds uma noite de bebedeira & véspera do dia nacional da Ucrania. Além disso, nas repiblicas da Asia Central e da regifio do Céucaso, durante o governo Brejney, as tradicionais redes étnicas de patrona- gem aliaram-se as filiacdes partidérias visando estabelecer um sistema muito bem estruturado que reunia a nomenklatura, o clientelismo ¢ a economia para- lela em uma rede hierdrquica de lealdade pessoal que se estendia até o Comité Central de Moscou, um sistema que Helene Carrere d’Encausse denominou “Mafiocracia”.” Assim, quando em dezembro de 1986 Gorbachev tentou fazer uma limpeza na corrup¢ao vigente no aparato do partido no Casaquistao, 0 afastamento de um antigo protégé de Brejnev (0 préprio Brejnev iniciou sua carreira como chefe do partido no Casaquistio), o casaque Dinmukhammed Kunaey, e sua substituic¢&o por um russo como secretario do partido, causou Jevantes em massa em Alma-Ata em defesa dos direitos étnicos dos casaques.'” O maior paradoxo dessa politica de nacionalidades foi que a cultura e as tradigSes nacionais russas foram oprimidas pelo Estado soviético.'" As tradi- A crise do estatismo industrial e © colapso da Unido Soviética 6 gGes, 0 folclore e os simbolos religiosos russos foram perseguidos ou ignora- dos, conforme as necessidades da politica comunista ao longo da hist6ria. A redistribuigao de recursos econémicos foi realizada no sentido inverso do anteriormente ditado por um “imperialismo russo”: a Russia era a grande per- dedora nas trocas entre as reptiblicas,'” situagao esta que se repetiria na era pés- comunista (vide tabela 1.5). Remetendo-nos a teoria geopolitica do Estado soviético segundo Salmin, o sistema atuava como se a preservagao do poderio comunista na Rtissia dependesse da capacidade de o partido atrair outras nagGes para 0 sistema, nao s6 subjugando-as por meio de repressao, mas tam- bém cooptando sua obediéncia ao fornecer mais recursos e direitos do que aqueles cedidos aos cidadaos russos. Naturalmente que isso nao exclui a discri- minagiio étnica nas principais instituigdes do Estado, por exemplo, no exército ena KGB, cujos comandantes eram, em sua esmagadora maioria, russos; ou na politica de russificagdo existente na lingua, na midia, na cultura e na ciéncia."" Entretanto, de maneira geral, 0 nacionalismo russo era reprimido (exceto durante a guerra quando o ataque das tropas nazistas forgou Stalin a ressuscitar Alexander Nevsky) tanto quanto a identidade cultural das nagdes nao-russas sujeitas ao controle do Estado. Como resultado, quando 0 relaxamento dos con- troles proporcionado pela glasnost de Gorbachev permitiu 0 ressurgimento do nacionalismo, 0 nacionalismo russo nao foi apenas uma das iniciativas com maior respaldo popular, mas também, efetivamente, um fator decisivo para 0 desmantelamento da Uniao Soviética, visto que se aliou aos movimentos nacionalistas democraticos atuantes nas reptiblicas balticas. Por outro lado, apesar de sua especificidade étnica/nacional bastante marcada, as repiblicas muculmanas da Asia Central foram 0 ultimo bastidio do comunismo soviético, abragando a causa da independéncia somente nos estertores do processo. Isso ocorreu porque as elites politicas dessas reptiblicas estavam sob o patrocinio direto de Moscou, e seus recursos dependiam, em grande medida, do processo de redistribuic’o motivado pelas diretrizes politicas do Estado soviético." As expressdes nacionalistas auténomas, por sua vez, foram duramente reprimidas, sobretudo durante os anos 30, quando Stalin decidiu esmagar toda e qualquer oposigao a seu programa de industrializagao acelerada e desenvol- vimento do poderio militar, a serem implantados a qualquer custo. O principal lider nacionalista comunista ucraniano, Mykola Skypnyk, cometeu suicidio em 1933, ao perceber que os sonhos de emancipagio nacional dentro da Unido Soviética haviam sido mais uma ilusao na extensa lista de promessas nao cum- pridas da revolugio bolchevique.” As reptiblicas balticas e a Moldavia foram cinicamente anexadas em 1940 com base no pacto de nfo-agressao assinado 64 Accrise do estatismo industrial e o colapso da Unio Soviética Tabela 1.5 Saldo do intercdmbio de produtos e recursos entre as reptiblicas, 1987 Saldo total Saldo da produgao Imobilizado Recursos de (bilhoes de rublos) (bilhoes mdo-de-obra de rublos) (mithoes de pessoas —anos) Repiiblica Direto Total Riissia 3,65 4,53 15,70 0,78 Uerdniae Moldavia. 2,19 10,30 8.61 0.87 Bielo-Raissia 3,14 7.89 1,33 0,42 Casaquisto “5,43 15,01 -17,50 -0,87 Asia Central 5,80 “1341 20,04 0,89 Transcaucasiana 3,20 1,8 2,48 0,57 Repiblicas balticas -0,96 0,39 “3,22 0,05 Total 0,00 “1,37 “12,63 0,74 Fonte: Granberg (1993a) em 1939 entre Ribbentrop e Molotov, e as expressGes nacionais nessas dreas foram reprimidas com severidade até a década de 80.'* Além disso, os grupos étnicos e nacionais de lealdade considerada duvidosa foram submetidos & deportagao em massa dos territérios onde haviam originalmente se estabeleci- do, tendo suas reptiblicas auténomas dissolvidas: foi este 0 caso dos tartaros da Criméia, alemaes do Volga, mesquetianos, chechenos, inguchétios, balkars, karachais e kalmiks.'” Como se nao bastasse, milhdes de ucranianos, estonia- nos, letdes ¢ lituanos suspeitos de haverem colaborado com o inimigo durante a Segunda Guerra Mundial tiveram destino semelhante. O anti-semitismo foi uma constante no Estado soviético, fazendo-se presente em todos os mecanis- mos de promogio politica e profissional.'* Ademais, a politica de industriali- zagao e colonizagao das regides orientais levaram 4 emigracao (induzida pelo Estado soviético) de milhdes de russos para outras reptiblicas, de modo que se tornaram uma minoria bastante considerdvel, ou até mesmo 0 maior grupo étni- co (como no Casaquistao) embora continuassem sendo representados pelas eli- tes autéctones de cada reptiblica (vide tabela 1.6). Quando da derrocada da Unido Soviética, cerca de sessenta milhées de cidadaos viviam fora de sua ter- ranatal."” Tal estrutura federativa amplamente artificial era mais um sistema de A crise do estatismo industrial e 0 colapso da Unio Soviética 65 cooptagao de elites locais/regionais do que um reconhecimento de direitos nacionais. O poder de fato sempre esteve nas maos do PC soviético, que obede- cia a uma organizagao hierarquica distribuida por todo o territ6rio soviético, transmitindo ordens diretamente de Moscou para a organizagao do partido em cada reptiblica, reptiblica auténoma ou oblast.'"" Além disso, com a mistura de diferentes populagdes nacionais em to grande escala, e durante tanto tempo, surgiu uma nova identidade soviética, constitufda nao s6 de ideologia, mas de lagos de familia, amizade e relagGes de trabalho. Assim, 0 Estado soviético reconheceu identidades nacionais, com a bizarra excegao da identidade russa, porém, ao mesmo tempo, definiu a identi- dade em instituigdes organizadas com base na territorialidade, enquanto as populagées nacionais se misturaram em toda a Unido Soviética. Concomi- tantemente a esse processo, o Estado praticou a discriminagao étnica e proibiu expressGes nacionalistas aut6nomas alheias 4 esfera do poder comunista. Essa politica contradit6ria criou uma estrutura institucional muito instdvel que sé perdurou enquanto a repressao sistémica péde ser imposta com o auxilio das elites politicas nacionais comunistas que detinham interesses no Estado fede- Tabela 1.6 Composigdo étnica das repiblicas auténomas da Reissia, 1989 Parcela da populagao (%) Repiiblica Area (mithares de km’) Grupo titular Russos Bachkiria 144 219 39,3 Buridtia 351 24,0 70,0 Checheno-Inguchétia 19 10,7 23,1 Tehuvéchia 18 678 26,7 Daguestio 50 27.5 (Avares) 9.2 Kabardino-Balkaria 13 57.6 319 Kalmfkia 6 45,4 31,7 Carélia 172 10,0 73,6 dos Komis 416 23,3 57,7 dos Maris 23 433 475 Moldavia 26 32,5 60,8 Ossétia do Norte 8 53,0 29.9 Tantéria 68 48,5 433 Tuva 11 64,3 32,0 Udmiirtia 2 309 58,9 Takttia 3103 33,4 50,3 Fonte: Shaw (1993; 532)