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"Ridendo Castigat Mores" e o Auto da Barca do Inferno

“Ridendo castigat mores”, expressão latina que significa “a rir criticam-se os costumes”,
é a frase que melhor resume a intenção e o estilo próprio de Gil Vicente, poeta e
dramaturgo português do séc. XV, conhecido por todos nós.

Esta expressão é a forma mais adequada de iniciar a abordagem do “Auto da Barca do


Inferno” ou “Auto da Moralidade”, pelo facto de nesta obra ser bastante evidente a
sátira social que, através do seu cómico, critica a sociedade, tentando assim denunciar
tudo aquilo que na opinião do autor era merecedor de atenção e mudança.

É certo que Gil Vicente não foi o criador do teatro português, mas foi com ele que este
transcendeu o estado embrionário em que se encontrava, desde o século XIII, e passou
para um nível mais elevado, mais moderno, tal como diz Luís Francisco Rebello em “A
História do Teatro Português”, “Gil Vicente é ao mesmo tempo, o derradeiro medieval e
o primeiro dramaturgo moderno. E essa é talvez a faceta mais importante daquela
unidade que, acima de tudo, caracteriza a sua obra”.

O autor criou um teatro à parte da pré-história e fê-lo enquadrar-se na sua própria


contemporaneidade.

Assim, além de ser um espantoso feito literário, a obra vicentina possui algo enérgico
que sobressai espontaneamente em cada parágrafo, em cada linha, em cada palavra que
a constitui, ou seja, a obra retrata a sociedade portuguesa do seu tempo. O escritor vê
nela todos os pormenores que a caracteriza tais como as suas classes sociais, os seus
vícios, e os seus impulsos intelectuais e religiosos.

Já Deniz-Jacinto nos dizia em “O Tempo Encontrado”, (...) “foi ainda um corajoso


denunciante da venalidade dos grandes, não poupando até a mais alta hierarquia
eclesiástica.”

Devido a isto, e para conseguir abranger o máximo de características possível, Mestre


Gil usou personagens tipo, que iam desde personagens divinas e diabólicas, passando
por todas as classes.

Este facto é bem evidente no “Auto da Barca do Inferno”, obra escrita em 1517, pois
nela interagem personagens tão diferentes e únicas como o Anjo, o Diabo, o Fidalgo, o
Onzeneiro, o Parvo, o Sapateiro, o Frade, a Alcoviteira, o Judeu, o Corregedor, o
Procurador, o Enforcado e os Quatro Cavaleiros.

Mas por que razão pretendeu Gil Vicente juntar personagens tão distintas numa só obra?
Por uma simples razão: pelo facto de ansiar atingir o fundo da questão, chegar ao íntimo
do que o rodeava e do que observava quotidianamente.

Então, decidiu usar, na sua obra tão singular, personagens que, por serem tão diferentes,
conseguem caracterizar grupos inteiros, pois identificam a maioria das características
que definem um determinado estereótipo. Por exemplo, o Fidalgo, com o auxílio de
símbolos como o pajem, o manto e a cadeira, caracteriza a nobreza, pelo seu modo
tirano, vaidoso e poderoso. O Frade simboliza o Clero, pela presença de símbolos como
a moça, o casco, o broquel, a espada e o capelo (característico da vida religiosa). O
mesmo se vai passando com todas as outras personagens.

As personagens do Auto da Barca do Inferno podem ser encontradas, ainda hoje, no


nosso dia-a-dia, se não vejamos: o Onzeneiro, que emprestava dinheiro e que pedia o
dobro ou o triplo de volta, pode ser comparado com o actual monopólio da Banca, os
seus sistemas de créditos e os juros aplicados; a Alcoviteira, com as suas meninas e o
seu jeito depravado, pode ser hoje comparada com as donas de bordeis, que ganham a
vida com a exploração e gestão da prostituição; o Procurador e o Corregedor, que
actuam não sobre uma justiça com regras definidas e claras, mas segundo os seus
princípios e interesses particulares, podem ser comparados com o sistema judicial
actual, onde a justiça é muitas vezes difícil de se conseguir e sobretudo muito lenta.

Existem no total 13 personagens que, uma a uma, vão entrando em cena.

O Fidalgo é a primeira, e vem acompanhado pelo seu pajem, que lhe carrega a cadeira.
Este é escolhido como primeira personagem deste Auto, uma vez que era objectivo do
autor cativar os espectadores, neste caso a Nobreza, devido ao facto das suas peças
serem representadas na corte. Ele procura a salvação argumentando que partiu muito
repentinamente e que, além disso, merecia alguma consideração, pois era “fidalgo de
solar”. Porém, estes argumentos de nada lhe valem pois, para o Anjo, nenhuma destas
justificações é realmente pertinente e digna de ponderação.

Assim, de modo a justificar a sua atitude de negação, o Anjo acusa-o de, ainda em vida,
ter oprimido, explorado e desprezado o povo e de sempre ter tido uma atitude vaidosa e
presunçosa.

Por fim, quando se apercebe de que já não tem como argumentar a sua tão desejada
entrada na Barca da Glória, resigna-se à evidência de que o seu novo destino está já
marcado: terá de entrar na barca ardente. É neste momento que usa expressões como “Ó
barca como és ardente!”, ou “Maldito quem em ti vai!”.

Além desta personagem, como já dissemos, Quase todas as outras vão também para a
Barca do Inferno. São excepção a personagem do Parvo e dos 4 Cavaleiros. O primeiro,
graças à sua ingenuidade e inconsciência dos seus actos e, estes últimos, pela virtude
das suas acções, não chegam sequer a aproximar-se da Barca do Inferno, indo
directamente para a Barca da Glória.

Com isto, ambas as barcas seguem o seu próprio caminho, uma em direcção ao Inferno,
e outra em direcção ao Paraíso, terminando assim a obra.

É de realçar que a personagem do Judeu vai a reboque na barca do Inferno. Isto é


importante uma vez que vincula o carácter católico de Gil Vicente, não aceitando o
Judeu nem dentro da barca do Inferno.

Gil Vicente utilizou ao longo da obra três tipos de cómico: o de situação, o de


linguagem e o de carácter.
Este auto é assim uma obra que sobressai na literatura portuguesa quer pela sua
intemporalidade, quer pelo seu estilo cómico-satírico único.

Os objectos da crítica Vicentina – a corrupção na justiça, a prostituição, a ganância, a


usura, a vaidade, a presunção do estatuto social, entre outros – ainda fazem parte da
sociedade portuguesa contemporânea porque o cómico que criticava implicitamente a
sociedade quinhentista consegue, ainda hoje, criticar-nos provocando-nos o riso.

Foi este o objectivo principal de Vicente: criticar de uma forma cómica mas nem por
isso explícita e, assim, alterar os costumes de uma época marcada pela falta de valores
que se estendeu até aos nossos dias, ou talvez corrigir os costumes, respeitando assim o
ideal “ridendo castigat mores”.