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Português

Exercícios propostos
capítulo 4

Texto para a questão 121 d) Define-se um tempo – o fim do período ditatorial


de Getúlio Vargas.
De súbito, os alto-falantes da Rádio Anunciadora
e) Tem-se acesso a todos os elementos –
Serrana, presos aos postes telefônicos ao longo da Rua
personagens, espaço, tempo, ações – através de um
do Comércio, começaram a funcionar, e o ar se encheu
narrador.
de sons que pareciam sair da boca de enormes robôs.
O vento varria as vozes metálicas que apregoavam 122.  (UFG-GO) Leia a canção a seguir:
a excelência de dentifrícios, inseticidas, sabonetes, e
Aos quatro cantos o seu corpo
pediam ao público que só comprasse na “tradicional
Partido, banido.
Loja Caramês, onde um cruzeiro vale três”. Quando as
Aos quatro ventos os seus quartos,
vozes se calaram, romperam dos alto-falantes os acor-
Seus cacos de vidro.
des lânguidos dum velho tango argentino, e o choro
O seu veneno incomodando
das cordeonas abafou a lamúria do vento.
A tua honra, o teu verão.
Naquele minuto, o Veiguinha saiu da Casa Sol,
Presta atenção!
caminhou até a beira da calçada, trazendo debaixo
Presta atenção!
do braço um quadro que durante sete anos tivera pen-
Aos quatro cantos suas tripas,
durado na parede do escritório e, olhando para um
De graça, de sobra,
mulato que passava, exclamou:
Aos quatro ventos os seus quartos,
— Este é o dia mais feliz da minha vida!
1Dito isto, agarrou o quadro com ambas as mãos e Seus cacos de cobra,
O seu veneno arruinando
bateu com ele violentamente contra a quina da calçada,
A tua filha, a plantação.
partindo a moldura e o vidro. Depois, numa fúria que
Presta atenção!
o deixava apoplético, arrancou dentre os destroços do
Presta atenção!
quadro o retrato do ex-Presidente e rasgou-o em muitos
Aos quatro cantos seus gemidos,
pedaços, lançando-os ao vento num gesto dramático:
Seu grito medonho,
— Este é o fim de todos os tiranos!
Aos quatro cantos os seus quartos,
O mulato parou, olhou para o proprietário da Casa
Seus cacos de sonho,
Sol e disse:
O seu veneno temperando
— Deixe estar, um dia esse retrato volta pra parede.
2Os milicos derrubaram o Velho, mas ele caiu de pé A tua veia, o teu feijão.
Presta atenção!
nos braços do povo!
Presta atenção!
— 3”Viva o nosso Presidente! Viva o Estado Novo!”
Presta atenção!
Do outro lado da rua, à frente da Casa Sol, lia-se no
Presta atenção!
muro caiado, em largas letras de piche: “Queremos Getú-
BUARQUE, Chico; GUERRA Ruy. Calabar. O elogio da trai-
lio”. Logo abaixo, em garranchos brancos: 4”Viva Prestes!
ção. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 68-69.
Morra o fascismo!” E, entre a foice e o martelo, um mole-
que gravara no reboco, à ponta de prego, um nome feio. Na peça teatral Calabar, a personagem Bárbara
5Gardel silenciara: agora os violinos cantavam entoa a canção “Cobra-de-Vidro”, acima transcrita.
em melosa surdina, e a voz do sueste parecia também a) Considerando-se os gêneros literários, o que a
fazer parte da orquestra, bem como o rufar do motor presença desse texto na obra evidencia?
do Rosa-dos-Ventos. b) Analise a metáfora “cobra-de-vidro”.
Érico Veríssimo. O tempo e o vento. c) A quem se refere o jogo gramatical estabelecido
entre “seu, seus, suas” e “tua, teu” e que efeito ele
121.  (UFF-RJ) O fragmento de Érico Veríssimo é parte produz para a compreensão da mensagem da peça?
de uma obra classificada como pertencente ao gênero
123.  (CFTMG) Numere os fragmentos de texto de
épico ou narrativo.
acordo com os seguintes gêneros literários:
Assinale a opção que se afasta desta classificação.
1. lírico
a) Configura-se um personagem – O Veiguinha – que
2. satírico
desenvolve ações: sai da Casa Sol, conversa com
3. épico
outro personagem, quebra um quadro.
b) Registra-se a exposição de sentimentos de
( ) Quem por ti de amor desmaia,
personagens que não fazem parte de uma história.
Nesta praia geme e chora:
c) Compõe-se um espaço – a Rua do Comércio e seus
Vem, Pastora, por piedade
arredores.
A saudade consolar.

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Não recreiam sempre os montes Em 2008, comemora-se o centenário de sua morte,
Co’as delícias de Amalteia; ocorrida em setembro de 1908. Machado de Assis é
Vem, ó Glaura, a ruiva areia, considerado o mais canônico escritor da Literatura
Rio e fontes animar. Brasileira e deixou uma rica produção literária com-
Silva Alvarenga posta de textos dos mais variados gêneros, em que se
destacam o conto e o romance.
Segue o texto desse autor, em poesia.
( ) A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana, e vinha, A Carolina
Não sabem governar sua cozinha,
Querida, ao pé do leito derradeiro
E podem governar o mundo inteiro.
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Em cada porta um frequentado olheiro,
Trazer-te o coração do companheiro.
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Para levar à Praça, e ao Terreiro.
Que, a despeito de toda a humana lida,
Gregório de Matos
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.
( ) Nesta triste masmorra,
de um semivivo corpo sepultura, Trago-te flores, restos arrancados
inda, Marília, adoro Da terra que nos viu passar unidos,
a tua formosura. São pensamentos idos e vividos.

Amor na minha ideia te retrata; Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
busca, extremoso, que eu assim resista Pensamentos de vida formulados,
à dor imensa, que me cerca e mata. São pensamentos idos e vividos.
Tomás Antônio Gonzaga Machado de Assis

125.  (Ibmec-RJ) Ao avaliarmos o texto quanto a seu


( ) Este lugar delicioso e triste,
gênero literário, podemos afirmar que ele pertence:
Cansada de viver, tinha escolhido,
Para morrer, a mísera Lindoia. a) ao gênero narrativo, pois conta a história triste do
Lá reclinada, como que dormia, poeta.
Na branda relva, e nas mimosas flores; b) ao gênero lírico, pois expressa os sentimentos do
Tinha a face na mão, e a mão no tronco eu-poético.
De um fúnebre cipreste, que espalhava c) ao gênero dramático, pois evidencia o drama
Melancólica sombra. Mais de perto sentimental do poeta.
Descobrem que se enrola em seu corpo d) ao gênero épico, pois exterioriza e narra as
Verde serpente... emoções do eu-lírico de forma grandiloquente.
Basílio da Gama e) ao gênero descritivo, pois descreve os detalhes do
contexto físico da cena.
A sequência correta encontrada é:
a) 1, 2, 1, 3. Texto para a próxima questão
b) 1, 2, 3, 3.
Como prevenir a violência dos adolescentes
c) 2, 1, 3, 1.
d) 3, 2, 3, 1. (...) Quando deparo com as notícias sobre crimes
hediondos envolvendo adolescentes, como o ocorrido
124.  (CFTMG) Com relação aos gêneros literários, é
com Felipe Silva Caffé e Liana Friedenbach, fico pro-
incorreto afirmar que, no gênero:
fundamente triste e constrangida. Esse caso é conse-
a) lírico, o artista retrata criticamente a realidade. quência da baixa valorização da prevenção primá-
b) épico, o autor se apega à objetividade e à ria da violência por meio das estratégias cientifica-
impessoalidade. mente comprovadas, facilmente replicáveis e definiti-
c) lírico, a tendência do escritor é revelar as emoções vamente muito mais baratas do que a recuperação de
que o mundo causou nele. crianças e adolescentes que comentem atos infracio-
d) dramático, há ausência de narrador, apresentando-se nais graves contra a vida.
um conflito através do discurso direto. Talvez seja porque a maioria da população não se
deu conta e os que estão no poder nos três níveis não
Texto para a próxima questão
estejam conscientes de seu papel histórico e de sua
Joaquim Maria Machado de Assis é cronista, con- responsabilidade legal de cuidar do que tem de mais
tista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, roman- importante à nação: as crianças e os adolescentes,
cista, crítico e ensaísta. que são o futuro do país e do mundo.

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A construção da paz e a prevenção da violência (...) Com relação à idade mínima para a maioridade
dependem de como promovemos o desenvolvimento penal, deve permanecer em 18 anos, prevista pelo Esta-
físico, social, mental, espiritual e cognitivo das nossas tuto da Criança e do Adolescente e conforme orienta-
crianças e adolescentes, dentro do seu contexto familiar ções da ONU. Mas o tempo máximo de três anos de
e comunitário. Trata-se, portanto, de uma ação inter- reclusão em regime fechado, quando a criança ou o
setorial, realizada de maneira sincronizada em cada adolescente comete crime hediondo, mesmo em locais
comunidade, com a participação das famílias, mesmo apropriados e com tratamento multiprofissional, que
que estejam incompletas ou desestruturadas (...) urgentemente precisam ser disponibilizados, deve ser
(...) Em relação às crianças e adolescentes que revisto. Três anos, em muitos casos, podem ser absolu-
cometeram infrações leves ou moderadas – que deve- tamente insuficientes para tratar e preparar os ado-
riam ser mais bem expressas – seu tratamento para lescentes com graves distúrbios para a convivência
a cidadania deveria ser feito com instrumentos bem cidadã. (...)
elaborados e colocados em prática, na família ou pró- Zilda Arns Neumann, 69, médica pediatra e sanita-
xima dela, com acompanhamento multiprofissional, rista; foi fundadora e coordenadora nacional da Pas-
desobstruindo as penitenciárias, verdadeiras univer- toral da Criança. (Folha de S.Paulo, 26/11/2003.)
sidades do crime. (...)
(...) A prevenção primária da violência inicia-se 126.  (IFAL) Sobre o discurso da Dra. Zilda Arns, é ver-
com a construção de um tecido social saudável e pro- dadeiro dizer que:
missor, que começa antes do nascer, com um bom
a) se trata de uma prosa poética, de alto valor
pré-natal, parto de qualidade, aleitamento materno
literário.
exclusivo até seis meses e o complemento até mais de
b) se trata de um texto identificado como discurso
um ano, vacinação, vigilância nutricional, educação
argumentativo, constituindo-se em um autêntico
infantil, principalmente propiciando o desenvolvi-
artigo de opinião.
mento e o respeito à fala da criança, o canto, a oração,
c) se trata de um texto descritivo, com
o brincar, o andar, o jogar; uma educação para a paz
características autobiográficas.
e a não violência.
d) dentro da perspectiva classificatória moderna dos
A pastoral da criança, que em 2003 completa 20
gêneros, o texto em análise está enquadrado na
anos, forma redes de ação para multiplicar o saber e
categoria “gênero épico”.
a solidariedade junto às famílias pobres do país, por
e) se trata de um texto híbrido, com elementos do
meio de mais de 230 mil voluntários, e acompanhou
discurso narrativo e, também, descritivo.
no terceiro trimestre deste ano cerca de 1,7 milhão de
crianças menores de seis anos e 80 mil gestantes, de 127.  (ENEM) Gênero dramático é aquele em que o
mais de 1,2 milhão de famílias, que moram em 34.784 artista usa como intermediária entre si e o público a
comunidades de 3.696 municípios do país. representação. A palavra vem do grego drao (fazer)
O Brasil é o país que mais reduziu a mortalidade e quer dizer ação. A peça teatral é, pois, uma com-
infantil nos últimos dez anos; isso, sem dúvida, é resul- posição literária destinada à apresentação por ato-
tado da organização e universalização dos serviços de res em um palco, atuando e dialogando entre si. O
saúde pública, da melhoria da atenção primária, com texto dramático é complementado pela atuação dos
todas as limitações que o SUS possa ainda possuir, da atores no espetáculo teatral e possui uma estrutura
descentralização e municipalização dos recursos e específica, caracterizada: 1) pela presença de per-
dos serviços de saúde. A intensa luta contra a morta- sonagens que devem estar ligados com lógica uns
lidade infantil, a desnutrição e a violência intrafami- aos outros e à ação; 2) pela ação dramática (trama,
liar contaram com a contribuição dessa enorme rede enredo), que é o conjunto de atos dramáticos, manei-
de solidariedade da Pastoral da Criança. (...)” ras de ser e de agir das personagens encadeadas à
(...) A segunda área da maior importância nessa unidade do efeito e segundo uma ordem composta
prevenção primária da violência envolvendo crianças de exposição, conflito, complicação, clímax e desfe-
e adolescentes é a educação, a começar pelas creches, cho; 3) pela situação ou ambiente, que é o conjunto
escolas infantis e de educação fundamental e de nível de circunstâncias físicas, sociais, espirituais em que
médio, que devem valorizar o desenvolvimento do se situa a ação; 4) pelo tema, ou seja, a ideia que o
raciocínio e a matemática, a música, a arte, o esporte autor (dramaturgo) deseja expor, ou sua interpreta-
e a prática da solidariedade humana. ção real por meio da representação.
As escolas nas comunidades mais pobres deveriam
COUTINHO, A. Notas de teoria literária. Rio de
ter dois turnos, para darem conta da educação inte-
Janeiro: Civilização Brasileira, 1973. Adaptado.
gral das crianças e dos adolescentes; deveriam dis-
por de equipes multiprofissionais atualizadas e capa- Considerando o texto e analisando os elemen-
citadas a avaliar periodicamente os alunos. Urgente tos que constituem um espetáculo teatral, conclui-
é incorporar os ministérios do Esporte e da Cultura se que:
às iniciativas da educação, com atividades em larga a) a criação do espetáculo teatral apresenta-se como
escala e simples, baratas, facilmente replicáveis e um fenômeno de ordem individual, pois não é
adaptáveis em todo o território nacional. (...) possível sua concepção de forma coletiva.

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b) o cenário onde se desenrola a ação cênica é De modo geral, a musicalidade é um elemento
concebido e construído pelo cenógrafo de modo fundamental no texto lírico. Nesse texto de
autônomo e independente do tema da peça e do Vinicius de Moraes, além das rimas, a ocorrência
trabalho interpretativo dos atores. considerável de fonemas sibilantes /sê/ e a
c) o texto cênico pode originar-se dos mais variados semelhança de som de palavras como fez, “espuma”,
gêneros textuais, como contos, lendas, romances, “espalmadas”, “espanto” etc. consistem nos
poesias, crônicas, notícias, imagens e fragmentos principais recursos empregados pelo artista para
textuais, entre outros. alcançar a referida sonoridade.
d) o corpo do ator na cena tem pouca importância na 08. No texto anterior, pertencente ao gênero lírico,
comunicação teatral, visto que o mais importante predomina:
é a expressão verbal, base da comunicação cênica a) a antítese como figura de linguagem.
em toda a trajetória do teatro até os dias atuais. b) a referência a fatos presentes como
e) a iluminação e o som de um espetáculo cênico deflagradores do conflito do eu lírico.
independem do processo de produção/recepção c) a função conativa da linguagem.
do espetáculo teatral, já que se trata de linguagens d) os versos decassílabos.
artísticas diferentes, agregadas posteriormente à e) as rimas consoantes, pobres e interpoladas.
cena teatral. f) o emprego da linguagem figurada.
g) a expressão do conflito do eu lírico decorrente
128.  (UEM-PR) Leia o texto a seguir e assinale o que
da separação amorosa.
for correto.
16. Pode-se afirmar que:
Soneto de separação a) a antítese, figura de linguagem predominante
no texto anterior, exprime ideias cuja força
De repente do riso fez-se o pranto
significativa reside na oposição dos contrários.
Silencioso e branco como a bruma
É o que acontece no verso “E do momento
E das bocas unidas fez-se a espuma
imóvel fez-se o drama”, em que o conflito vivido
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
pelo eu lírico atinge seu ponto culminante.
b) no texto literário, dependendo do contexto,
De repente da calma fez-se o vento
uma mesma palavra pode ter uma significação
Que dos olhos desfez a última chama
objetiva (denotação) ou sugerir outras
E da paixão fez-se o pressentimento
significações, marcadas pela subjetividade
E do momento imóvel fez-se o drama.
do emissor (conotação). No verso “De repente
da calma fez-se o vento”, as palavras estão
De repente, não mais que de repente
empregadas em sentido figurado ou conotativo.
Fez-se de triste o que se fez amante
32. Pode-se afirmar que:
E de sozinho o que se fez contente.
a) o soneto, composto de dois quartetos e de dois
tercetos, é uma das formas poemáticas mais
Fez-se do amigo próximo o distante
tradicionais e difundidas na literatura ocidental
Fez-se da vida uma aventura errante
e expressa, quase sempre, conteúdo lírico.
De repente, não mais que de repente.
b) o soneto costuma conter uma reflexão sobre
Vinicius de Moraes
um tema ligado à vida humana. No texto
01. A teoria literária moderna reconhece três gêneros anterior, Vinicius de Moraes, ao retomar
literários fundamentais – o épico, o lírico e o esse modo tradicional de compor versos,
dramático – e, apesar de não prestigiar um em presta homenagem aos grandes clássicos
detrimento de outro, não aceita a mistura deles da literatura, reconhecendo, no presente, a
em uma mesma obra literária. Esses três gêneros herança cultural do passado.
podem ser subdivididos em espécies ou formas: o
Texto para a próxima questão
soneto é uma das formas dramáticas; a tragédia
é uma das formas épicas; a balada é uma das Para responder às questões adiante, leia os textos
formas líricas. a seguir.
02. No texto anterior, predomina o gênero dramático,
Psicografia
que tem a sua manifestação mais viva nos
aspectos trágicos, procurando representar os de Ana Cristina Cesar
conflitos e os dramas vivenciados pelos homens e
Também eu saio à revelia
a precariedade do mundo em que estão inseridos.
e procuro uma síntese nas demoras
Nesse caso específico, trata-se de representar o
cato obsessões com fria têmpera e digo
drama da separação de dois amantes.
do coração: não soube e digo
04. No texto anterior, predomina o gênero lírico,
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
caracterizado, essencialmente, por manifestar
na vida) e demito o verso como quem acena
a subjetividade do eu lírico, expressando-lhe
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
os sentimentos, as emoções, o mundo interior.

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Autopsicografia Texto para a próxima questão
de Fernando Pessoa Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou expli-
car como nós hoje em dia fazemos a nossa literatura.
O poeta é um fingidor.
Já me não importa guardar segredo; depois desta des-
Finge tão completamente
graça, não me importa já nada. Saberás, pois, ó leitor,
Que chega a fingir que é dor
como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
A dor que deveras sente.
Trata-se de um romance, de um drama. Cuidas que
vamos estudar a História, a natureza, os monumentos,
E os que leem o que escreve,
as pinturas, os sepulcros, os edifícios, as memórias da
Na dor lida sentem bem,
época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que
Não as duas que ele teve,
nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo
Mas só as que eles não têm.
da natureza, colori-los das cores verdadeiras da His-
tória... isso é trabalho difícil, longo, delicado; exige um
E assim nas calhas de roda
estudo, um talento, e sobretudo um tacto!... Não, senhor,
Gira, a entreter a razão,
a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.
Esse comboio de corda
Todo o drama e todo o romance precisa de:
Que se chama o coração.
Uma ou duas damas,
Um pai,
Vocabulário
Dois ou três filhos de dezanove a trinta anos,
comboio: trem de ferro
Um criado velho,
calhas de roda: trilhos sobre os quais corre o trem
Um monstro, encarregado de fazer as maldades,
de ferro.
Vários tratantes, e algumas pessoas capazes
129.  (UFSCar-SP) Na segunda estrofe do poema de para intermédios.
Fernando Pessoa, há um jogo de sentido estabelecido Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas,
entre os pronomes “ele” e “eles”. de Eugénio Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de
cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre
a) A quem se refere cada um desses pronomes?
uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul
b) Como se pode entender a dor, referida nesta
– como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns
estrofe, em relação a “ele” e “eles”?
e scrap-books; forma com elas os grupos e situações
130.  (UFU-MG) Pobre terra da Bruzundanga! Velha, que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos
na sua maior parte, como o planeta, toda a sua missão disparatados. Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns
tem sido criar a vida, e a fecundidade para os outros, poucos de nomes e palavrões velhos; com os nomes
pois nunca os que nela nasceram, os que nela viveram, crismam-se os figurões; com os palavrões iluminam-
os que a amaram e sugaram-lhe o leite, tiveram sos- se... (estilo de pintor pinta-monos). – E aqui está como
sego sobre o seu solo! nós fazemos a nossa literatura original.
(cap. V – Fragmento) In: Garrett, Almeida. Obra Com-
Lima Barreto, Os Bruzundangas
pleta – I, Porto, Lello & Irmão, 1963, p. 27-28.
Senhora Dona Bahia,
nobre e opulenta cidade, 131.  (Unesp) Almeida Garrett (1799-1854), que pertenceu
madrasta dos Naturais, à primeira fase do romantismo português, é poeta, pro-
E dos Estrangeiros madre. sador e dramaturgo dos mais importantes da Literatura
Dizei-me por vida vossa, portuguesa. Em Viagens na minha terra (1846), mistura,
em que fundais o ditame em prosa rica, variada e espirituosa, o relato jornalís-
de exaltar, os que aí vêm, tico, a literatura de viagens, as divagações sobre temas
e abater, os que ali nascem? da época e os comentários críticos, muitas vezes morda-
Gregório de Matos, Poesias selecionadas zes, sobre a literatura em voga, no período. Releia o texto
que lhe apresentamos e, a seguir, responda:
Lima Barreto e Gregório de Matos estão distan-
tes, cronologicamente, na Literatura brasileira. Mas a) a que gêneros literários se refere Almeida Garrett?
os autores podem ser aproximados pelo teor satírico b) quais os principais defeitos, segundo Garrett, dos
que imprimiram às suas obras. Tome os fragmentos escritores que elaboravam obras de tais gêneros?
citados para responder às questões seguintes.
Texto para a próxima questão
a) Fale sobre o tema que aproxima os dois textos.
b) Destaque do texto de Gregório de Matos um par João, o telegrafista
de versos que tenha “uma figura de oposição”
João telegrafista.
muito comum ao Barroco, classificando-a.
Nunca mais que isso,
c) Aponte na prosa de Lima Barreto “uma figura de
estaçãozinha pobre
efeito sonoro” que seja comum ao gênero lírico,
havia mais árvores pássaros
classificando-a.
que pessoas.

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Só tinha coração urgente. telegráfico adj. 1 relativo a telégrafo ou à telegra-
Embora sem nenhuma fia 2 transmitido ou recebido pelo telégrafo 3 relativo
promoção. a telegrama; semelhante a um telegrama 4 fig. Muito
A bater a bater sua única conciso, condensado, muito lacônico (...)”.
tecla. Código Morse: primeiro estágio das comunica-
ções digitais; uma forma de código binário em que
Elíptico, como todo todos os caracteres estão codificados como pontos
telegrafista. e traços.
Cortando flores preposições HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Sales.
para encurtar palavras, Dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa. Rio de
para ser breve na necessidade. Janeiro: Objetiva, 2001.
Conheceu Dalva uma Dalva
132.  (UFRJ) O projeto estético modernista caracte-
não alva sequer matutina
riza-se pela experimentação da linguagem.
mas jambo, morena.
Que um dia fugiu – único Uma das consequências do experimentalismo
dia em que foi matutina – da estética modernista é a dissolução de fronteiras
para ir morar cidade grande entre gêneros literários ou não literários e tipologias
cheia luzes joias. textuais. Explique como essa dissolução se revela no
História viva, urgente. poema de Cassiano Ricardo.
Texto para a próxima questão
Ah, inutilidade alfabeto Morse
nas mãos João telegrafista Nina
procurar procurar Dalva
todo mundo servido telégrafo. Chico Buarque
Ah, quando envelhece,
Nina diz que tem a pele cor de neve
como é dolorosa urgência!
E dois olhos negros como o breu
João telegrafista
Nina diz que, embora nova
nunca mais que isso, urgente.
Por amores já chorou
II Que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
Por suas mãos passou mundo,
mundo que o fez urgente,
Nina adora viajar, mas não se atreve
elíptico, apressado, cifrado.
Num país distante como o meu
Passou preço do café.
Nina diz que fez meu mapa
Passou amor Eduardo
E no céu o meu destino rapta
VIII, hoje duque Windsor.
O seu
Passou calma ingleses sob
chuva de fogo. Passou
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
sensação primeira bomba
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
voadora.
Posso imaginar por dentro a casa
Passaram gafanhotos chineses,
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
flores catástrofes.
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Mas, entre todas as coisas,
Quando me escreve
passou notícia casamento Dalva
com outro.
Nina anseia por me conhecer em breve
João telegrafista
Me levar para a noite de Moscou
o de coração urgente
Sempre que esta valsa toca
não disse palavra, apenas
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
três andorinhas pretas
E vou
(sem a mais mínima sensação simbólica)
pousaram sobre Disponível em: <http://www.chicobuarque.com.br/
seu soluço telegráfico. construcao/mestre.asp?pg=nina_2011.htm>.
Um soluço sem endereço – Dalva – e urgente. Acesso em: 02 ago. 2011.
RICARDO, Cassiano. Poemas murais. São
Paulo: José Olympio Editora, 1950. 133.  (UFF-RJ) Assinale a alternativa que identifica
corretamente procedimentos discursivos utiliza-
Vocabulário
dos em relação às vozes dos personagens, em Nina.
telegrafia s. f. 1 processo de telecomunicações que
transmite textos escritos (telegramas) por meio de a) A voz de Nina aparece em discurso indireto,
um código de sinais (código Morse), através de fios (...). mostrando a força do eu lírico, que não só se

280
expressa diretamente em 1ª pessoa, mas subordina 135.  (IFSP) Considere um trecho do poema O apa-
à sua própria fala o conteúdo das intervenções de nhador de desperdícios, de Manoel de Barros.
Nina.
Uso a palavra para compor meus silêncios.
b) A voz do eu lírico se sobrepõe à de Nina, que só
Não gosto das palavras
intervém por meio de falas entrecortadas em
fatigadas de informar.
discurso indireto livre.
Dou mais respeito
c) A voz de Nina se mescla à do eu lírico e todas as
às que vivem de barriga no chão
falas se tornam semelhantes e inexpressivas,
tipo água pedra sapo.
mesmo com a projeção da 1a e da 2a pessoas do
Entendo bem o sotaque das águas
discurso, em falas diretas.
dou respeito às coisas desimportantes
d) As vozes dos personagens estão em discurso
e aos seres desimportantes.
direto, criando, no texto, efeitos de vivacidade,
Prezo insetos mais que aviões.
verdade e emoção.
Prezo a velocidade
e) A voz do eu lírico, em discurso direto marcado
Das tartarugas mais que a dos mísseis.
pelo uso da 1ª pessoa, garante a verdade dos fatos
PINTO, Manuel da Costa. Antologia comentada da poe-
narrados e obscurece sentimentos, emoções e
sia brasileira do século 21. São Paulo: Publifolha, 2006.
pontos de vista dos personagens.
Pela leitura dos versos, pode-se concluir que o
134.  (Insper)
poeta:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, a) exalta a velocidade e a rapidez associadas aos
muda-se o ser, muda-se a confiança; avanços tecnológicos próprios do século XXI.
todo o mundo é composto de mudança, b) usa a linguagem para expressar as angústias e
tomando sempre novas qualidades. frustrações que sente diante da vida.
c) prefere o ambiente urbano, embora afirme
Continuamente vemos novidades, precisar de momentos de silêncio e de
diferentes em tudo da esperança; contemplação.
do mal ficam as mágoas na lembrança, d) reflete sobre o papel que as palavras
e do bem (se algum houve), as saudades. desempenham como veículo para a expressão do
eu lírico.
O tempo cobre o chão de verde manto, e) sente necessidade de educar e de informar os
que já coberto foi de neve fria, e, enfim, leitores, usando termos arcaicos e incomuns.
converte em choro o doce canto.
Texto para a questão 136
E, afora este mudar-se cada dia, O texto a seguir foi extraído de uma crônica de
outra mudança faz de mor espanto, Affonso Romano de Sant’Anna, cronista e poeta
que não se muda já como soía*. mineiro. Professor universitário e jornalista, escreveu
Luís Vaz de Camões para os maiores jornais do País. Com uma produção
diversificada e consistente, pensa o Brasil e a cultura
*soía: Imperfeito do indicativo do verbo soer, que
do seu tempo, e se destaca como teórico, como poeta,
significa costumar, ser de costume
como cronista, como professor, como administrador
cultural e como jornalista.
Assinale a alternativa em que se analisa correta-
mente o sentido dos versos de Camões. Porta de colégio
a) O foco temático do soneto está relacionado
Passando pela porta de um colégio, me veio a sen-
à instabilidade do ser humano, eternamente
sação nítida de que aquilo era a porta da própria vida.
insatisfeito com as suas condições de vida e com a
Banal, direis. Mas a sensação era tocante. Por isso,
inevitabilidade da morte.
parei, como se precisasse ver melhor o que via e previa.
b) Pode-se inferir, a partir da leitura dos dois
Primeiro há uma diferença de 1clima entre 6aquele
tercetos, que, com o passar do tempo, a recusa da
bando de adolescentes espalhados pela calçada, sen-
instabilidade se torna maior, graças à sabedoria e
tados sobre carros, em torno de carrocinhas de doces
à experiência adquiridas.
e refrigerantes, e aqueles que transitam pela rua.
c) Ao tratar de mudanças e da passagem do tempo, o
Não é só o uniforme. Não é só a idade. É toda uma
soneto expressa a ideia de circularidade, já que ele 2atmosfera, como se estivessem ainda dentro de uma
se baseia no postulado da imutabilidade. 8redoma ou aquário, numa bolha, resguardados do
d) Na segunda estrofe, o eu lírico vê com pessimismo
mundo. Talvez não estejam. Vários já sofreram a pan-
as mudanças que se operam no mundo, porque
cada da separação dos pais. 7Aprenderam que a vida
constata que elas são geradoras de um mal cuja
é também um exercício de separação. 9Um ou outro
dor não pode ser superada.
já transou droga, e com isso deve ter se sentido (equi-
e) As duas últimas estrofes autorizam concluir que a
vocadamente) muito adulto. Mas há uma sensação de
ideia de que nada é permanente não passa de uma
ilusão.

281
pureza angelical misturada com palpitação sexual, Cliente (Embaraçado, o chapéu na mão, uma gra-
que se exibe nos gestos sedutores dos adolescentes. vata de corda no pescoço magro.) — Manoel Pitanga
Onde estarão 4esses meninos e meninas dentro de de Moraes.
dez ou vinte anos? ANDRADE, Oswald. O rei da vela. São Paulo: Globo, 1994. p. 39.
5Aquele ali, moreno, de cabelos longos corridos,
O fragmento organiza-se segundo o modelo do
que parece gostar de esporte, vai se interessar pela
gênero literário que se define por:
informática ou economia; 5aquela de cabelos louros
a) ser produzido para a encenação pública.
e crespos vai ser dona de boutique; 5aquela morena
b) narrar os fatos notáveis da história de um povo.
de cabelos lisos quer ser médica; a gorduchinha vai
c) expressar as emoções e estados de alma do autor.
acabar casando com um gerente de multinacional;
5aquela esguia, meio bailarina, achará um diplomata. d) ridicularizar os vícios e atitudes reprováveis dos
seres humanos.
Algumas estudarão Letras, se casarão, largarão tudo
e passarão parte do dia levando filhos à praia e à Texto para a próxima questão
praça e pegando-os de novo à tardinha no colégio. [...]
Bocage no futebol
Estou olhando aquele bando de adolescentes com
evidente ternura. Pudesse passava a mão nos seus Quando eu tinha 3meus cinco, meus seis anos,
cabelos e contava-lhes as últimas histórias da carochi- morava, ao lado de minha casa, um garoto que era
nha antes que o 3lobo feroz as assaltasse na esquina. 2tido e havido como o anticristo da rua. Sua idade

Pudesse lhes diria daqui: aproveitem enquanto estão regulava com a minha. E 6justiça se lhe faça: — não
no aquário e na redoma, enquanto estão na porta da havia palavrão que ele não praticasse. Eu, na minha
vida e do colégio. O destino também passa por aí. E a candura pânica, vivia cercado de conselhos, por todos
gente pode às vezes modificá-lo. os lados: — “Não brinca com Fulano, que ele diz nome
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Affonso Romano de feio!”. E o Fulano assumia, aos meus olhos, as pro-
Sant’Anna: seleção e prefácio de Letícia Malard. Cole- porções feéricas de um Drácula, de um 1Nero de fita
ção Melhores Crônicas. p. 64-66. de cinema.
Mas o tempo passou. E acabei descobrindo que,
136.  (Uece) A crônica é um gênero, digamos, aberto. afinal de contas, o anjo de boca suja estava com a
Dentro dessa rubrica cabem vários conceitos. As qua- razão. Sim, amigos: — cada nome feio que a vida
tro opções abaixo apresentam características de crô- extrai de nós é um estímulo vital irresistível. Por
nica, mas só uma expressa as características apresen- exemplo: — os nautas camonianos. Sem uma sólida,
tadas pelo texto de Sant’Anna. Assinale essa opção. potente e jucunda pornografia, um Vasco da Gama,
um Colombo, um Pedro Álvares Cabral não teriam
a) Pequeno texto polêmico escrito para uma coluna
sido almirantes nem de barca da Cantareira. O que os
de periódico, assinada, com notícias e comentários
virilizava era o bom, o cálido, o inefável palavrão.
sobre cultura e política.
Mas, se nas relações humanas em geral, o nome
b) Conjunto de notícias e críticas a respeito de
feio produz esse impacto criador e libertário, que dizer
fatos da atualidade, de cunho memorialista ou
do futebol? Eis a verdade: — retire-se a pornografia
confessional.
do futebol e nenhum jogo será possível. Como jogar
c) Texto literário breve que espelha fatos ou
ou como torcer se não podemos xingar ninguém? O
elementos do cotidiano, sobre os quais o
craque ou o torcedor é um Bocage. Não o 4Bocage fide-
enunciador reflete e opina.
digno, que nunca existiu. Para mim, o 5verdadeiro
d) Breve narrativa literária de trama quase sempre
Bocage é o falso, isto é, o Bocage de anedota. Pois
pouco definida e sobre motivos extraídos do
bem: — está para nascer um jogador ou um torcedor
cotidiano imediato.
que não seja bocagiano. O craque brasileiro não sabe
137.  (CFTMG) Leia. ganhar partidas sem o incentivo constante dos rijos
e imortais palavrões da língua. Nós, de longe, vemos
Abelardo I (Sentado em conversa com o Cliente.
os 22 homens 7correndo em campo, matando-se, ago-
Aperta um botão, ouve-se um forte barulho de campa-
nizando, rilhando os dentes. Parecem dopados e real-
inha.) — Vamos ver...
mente o estão: — o chamado nome feio é o seu exci-
tante eficaz, o seu afrodisíaco insuperável.
Abelardo II (Veste botas e um completo doma-
RODRIGUES, Nélson. À sombra das chutei-
dor de feras. Usa pastinha e enormes bigodes retor-
ras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993.
cidos. Monóculo. Um revólver à cinta.) — Pronto
Seu Abelardo.
138.  (FGV-RJ) Considere os seguintes elementos de
composição textual:
Abelardo I — Traga o dossiê desse homem.
I. interação com o leitor;
Abelardo II — Pois não! O seu nome? II. incorporação de uma fala em discurso indireto;
III. procedimento intertextual;
IV. mistura de gêneros discursivos.

282
É correto afirmar que, no texto, ocorre apenas o enfrentar a fila das prioridades, foi finalmente rece-
que foi indicado em: bida pelo atendente que, em tom burocrático e ar
a) I e IV. displicente, lhe disse: “A senhora pode estar preen-
b) II e IV. chendo o formulário na internet”.
c) I, III e IV. Confusa, dona Geralda disse que não tinha com-
d) II e III. putador e nem sabia direito o que é internet. O rapaz
e) I, II, e III. insistiu: “É só pedir alguém para estar preenchendo
para a senhora”. “Mas quem? Só tenho a minha irmã,
Texto para a próxima questão
que não mexe com essas coisas”, ela retrucou. “Então
Sinal dos tempos a senhora vai a um cybercafé, que lá eles fazem tudo.
Tem um logo ali, na esquina.” – foi a resposta. E ela:
Na semana passada, os jornais do mundo inteiro
“Sambacafé? O que é isso?”. O moço, então, despa-
noticiaram, com alarde, o lançamento de um novo
chou-a com impaciência, repetindo que o formulário
aparelho celular, desses que fazem de tudo e mais um
tinha que ser preenchido pela internet e ponto final.
pouco. Nas redes sociais, o assunto “bombou”, como
A ele cabia a tarefa de fazer o cadastro, mas preferiu
se fosse um grande acontecimento. Os consumidores
fazer andar a fila.
deslumbrados e os aficionados por tecnologia fica-
Sim, algo está errado com o mundo.
ram, é claro, ansiosos para comprar o brinquedinho –
MACIEL, Maria Esther. Estado de Minas. Belo Hori-
alçado (até que surja um modelo mais incrementado)
zonte, 18 set. 2012. Caderno Cultura. Disponível em:
a condição de preciosidade do ano.
<http://impresso.em.com.br/>. Acesso em: 18.set.2012.
Uma frase no Twitter, entretanto, chamou-me a
atenção no meio de toda essa euforia. Dizia mais ou
139.  (CFTMG) Sinal dos tempos é exemplar do gênero
menos o seguinte: “quando as manchetes do mundo
textual que se caracteriza por:
são o lançamento de um celular, algo está errado com
o mundo”. Concordo e assino embaixo. Não por ser a) informar o leitor sobre fatos de interesse geral.
contra o avanço tecnológico, muito pelo contrário. b) persuadir o consumidor a adquirir certo produto.
O que me incomoda é, sim, a submissão neurótica c) defender um ponto de vista por meio de
das pessoas a essas novidades e a tudo o que recebe o estratégias argumentativas.
rótulo de “último lançamento”. d) expressar uma reflexão mais ampla a partir de um
Não deixa de ser patético, por outro lado, o des- fato do cotidiano.
compasso entre os lançamentos tecnológicos e os ser-
Texto para as próximas 4 questões
viços prestados à sociedade para o uso dessas novi-
dades, como ocorre no Brasil. Em matéria de telefonia O coração roubado
e acesso à internet, por exemplo, sabemos que os pre-
Eu cursava o último ano do primário e como já
ços daqui são de Primeiro Mundo, enquanto os servi-
estava com o diplominha garantido, meu pai me deu
ços são de quinta categoria. Os aparelhos estão cada
um presente muito cobiçado: Coração, famoso livro do
vez mais sofisticados e acessíveis, o consumo atinge
escritor italiano Edmondo de Amicis, bestseller mun-
mais e mais pessoas de diferentes estratos sociais,
dial do gênero infantojuvenil. Na página de abertura
mas o serviço está cada vez pior e com preços cada
lá estava a dedicatória do velho, com sua inconfun-
vez mais abusivos. Histórias de pessoas que ficam
dível letra esparramada. Como todos os garotos da
dias sem acesso à internet, por falta de assistência
época, apaixonei-me por aquela obra-prima e tanto
das operadoras, multiplicam-se. Sinais que despen-
que a levava ao grupo escolar da Barra Funda para
cam durante ligações telefônicas tornaram-se recor-
reler trechos no recreio.
rentes. Agora mesmo, escrevo sem internet em casa,
Justamente no último dia de aula, o das despedidas,
por causa do descaso da operadora. Isso ocorreu duas
depois da festinha de formatura, voltei para a classe a
vezes em menos de um mês. Na primeira, foram três
fim de reunir meus cadernos e objetos escolares, antes
dias sem sinal e sem assistência técnica. Na segunda,
do adeus. Mas onde estava o Coração? Onde? Desa-
o jeito foi cancelar a linha e contratar o serviço de
parecera. Tremendo choque. Algum colega na certa o
outra empresa. Enquanto não instalam a nova linha,
furtara. Não teria coragem de aparecer em casa sem
a internet do celular tem quebrado o galho, apesar de
ele. Ia informar à diretoria quando, passando pelas
o sinal cair a toda hora.
carteiras, vi a lombada do livro, bem escondido sob
Um outro descompasso – este de ordem social –
uma pasta escolar. Mas... era lá que se sentava o Plí-
concerne às pessoas que não têm acesso às novas
nio, não era? Plínio, o primeiro da classe em aplicação
tecnologias e são obrigadas a usá-las a todo custo.
e comportamento, o exemplo para todos nós. Inclu-
É o caso de dona Geralda, que nasceu na roça e veio
sive o mais limpinho, o mais bem penteadinho, o mais
para a cidade trabalhar como faxineira. Hoje apo-
tudo. Confesso, hesitei. Desmascarar um ídolo? Podia
sentada, vive com a irmã num bairro pobre e dis-
ser até que não acreditassem em mim. Muitos inveja-
tante. Quando soube, no mês passado, que tinha
vam o Plínio. Peguei o exemplar e o guardei em minha
direito a um benefício, a ser solicitado num órgão
pasta. Caladão. Sem revelar a ninguém o acontecido.
público, ela pegou dois ônibus e foi até lá. Depois de
Lembro do abraço que Plínio me deu à saída. Pare-

283
cia segurando as lágrimas. Balbuciou algumas pala- 140.  (CFTMG) “Sempre que o rumo de uma conversa
vras emocionadas. Mal pude retribuir, meus braços se levava às grandes decepções, aos enganos de falsas
recusavam a apertar o cínico. amizades, eu contava, a quem quisesse ouvir, o epi-
Chegando em casa minha mãe estranhou que eu sódio do embusteiro do Grupo Escolar Conselheiro
não estivesse muito feliz. Já preocupado com o giná- Antônio Prado, em breve desembargador ou secretá-
sio? Não, eu amargava minha primeira decepção. rio de Justiça.”
Afinal, Plínio era um colega que devíamos imitar
Na passagem acima, o termo grifado não pode ser
pela vida afora, como costumava dizer a professora.
interpretado como:
Seria mais difícil sobreviver sem o seu exemplo. Por
a) ardiloso.
outro lado, considerava se não errara em não delatá
b) trapaceiro.
-lo. “Vocês estão todos enganados, e a senhora tam-
c) mentiroso.
bém, sobre o caráter de Plínio. Ele roubou meu livro. E
d) cafajeste.
depois ainda foi me abraçar...”.
Curioso, a decepção prolongou-se ao livro de Ami- 141.  (CFTMG) “Curioso, a decepção prolongou-se ao
cis, verdadeira vitrina de qualidades morais dos alu- livro de Amicis...”
nos de uma classe de escola primária. A história de
O narrador faz essa observação no 4º parágrafo do
um ano letivo coroado de belos gestos. Quem sabe o
texto porque, ao ler o Coração:
autor não conhecesse a fundo seus próprios persona-
a) julga questionável a reputação de Amicis.
gens. Um ingênuo como nossa professora. Esqueci-o.
b) relembra experiências desagradáveis de sua
Passados muitos anos reconheci o retrato de Plínio
infância.
num jornal. Advogado, fazia rápida carreira na Justiça.
c) acha o conteúdo desinteressante para um homem
Recebia cumprimentos. Brrr. Magistrado de futuro
adulto.
o tal que furtara meu presente de fim de ano! Que
d) considera os valores abordados incompatíveis
toldara muito cedo minha crença na humanidade!
com a realidade.
Decidi falar a verdade. Caso alguém se referisse a ele,
o que passou a acontecer, eu garantia que se tratava 142.  (CFTMG) No 10º parágrafo, o emprego do dimi-
de um ladrão. Se roubava já no curso primário, ima- nutivo em “limpinho” e “penteadinho” revela que o
ginem agora... Sempre que o rumo de uma conversa narrador:
levava às grandes decepções, aos enganos de falsas
a) intenciona depreciar seu ídolo na escola primária.
amizades, eu contava, a quem quisesse ouvir, o epi-
b) relembra as qualidades de seu colega de forma
sódio do embusteiro do Grupo Escolar Conselheiro
afetuosa.
Antônio Prado, em breve desembargador ou secretá-
c) busca minimizar os efeitos de suas considerações
rio de Justiça.
a respeito de Plínio.
− Não piche assim o homem – advertiu-me
d) duvida da capacidade de sua professora primária
minha mulher.
em avaliar os alunos.
− Por que não? É um ladrão!
− Mas quando pegou seu livro era criança. 143.  (CFTMG) A passagem em que não se manifesta a
− O menino é o pai do homem – rebatia, voz do narrador-protagonista do texto é:
vigorosamente.
a) “Mas ... era lá que se sentava o Plínio, não era?” (2º
Plínio fixara-se como um marco para mim. Toda
parágrafo)
vez que o procedimento de alguém me surpreendia,
b) “Havia quantos anos não o abria?” (13º parágrafo)
a face oculta de uma pessoa era revelada, lembrava-
c) “Já preocupado com o ginásio?” (3º parágrafo)
me irremediavelmente dele. Limpinho. Penteadinho.
d) “− Por que não? É um ladrão!” (7º parágrafo)
E com a mão de gato se apoderando de meu livro.
Certa vez tomara a sua defesa: 144.  (Unicamp-SP) Leia.
− Plínio, um ladrão? Calúnia! Retire-se da
Noite de autógrafos
minha presença!
Quando o desembargador Plínio já estava aposen- Ivan Ângelo
tado mudei-me para meu endereço atual. Durante a
A leitora, vistosa, usando óculos escuros num
mudança alguns livros despencaram de uma estante
ambiente em que não eram necessários, se posta diante
improvisada. Um deles, Coração, de Amicis. Saudades.
do autor sentado do outro lado da mesa de autógrafos
Havia quantos anos não o abria? Quarenta ou mais?
e estende-lhe o livro, junto com uma pergunta:
Lembrei da dedicatória de meu falecido pai. Ele tinha
– O que é crônica?
boa letra. Procurei-a na página de rosto. Não a encon-
O escritor considera responder com a célebre
trei. Teria a tinta se apagado? Na página seguinte
tirada de Rubem Braga, “se não é aguda, é crônica”,
havia uma dedicatória. Mas não reconheci a caligra-
mas se contém, temendo que ela não goste da brinca-
fia paterna.
deira. (...) Responde com aquele jeito de quem falou
“Ao meu querido filho Plínio, com todo amor e cari-
disso algumas vezes:
nho de seu pai”.
REY, Marcos. O coração roubado. In: MACEDO, Adriano (org.).
Retratos da escola. Belo Horizonte: Autêntica. 2012. p. 69-71.

284
– É um texto de escritor, necessariamente de escri- e) defende um ponto de vista relativo ao exercício
tor, não de jornalista, que a imprensa usa para pôr teatral.
um pouco de lirismo, de leveza e de emoção no meio
146.  (UFPE) O dinamismo do mundo atual, os novos
daquelas páginas e páginas de dados objetivos, infor-
recursos de comunicação, a diversidade de atividades
mações, gráficos, notícias... É coisa efêmera: jornal
do dia a dia exigem do homem contemporâneo maior
dura um dia, revista dura uma semana.
rapidez em suas ações e corroboram com o surgimento
Já se prepara para escrever a dedicatória e ela
de novos textos literários, nos quais o poder de síntese
volta a perguntar:
reflete a nova realidade. Neles se diz muito com pou-
– E o livro de crônicas, então?
quíssimas palavras, tal qual ocorre no texto que segue.
Ele olha a fila, constrangido. Escreve algo brevíssimo,
Leia-o e analise as proposições a ele referentes.
assina e devolve o livro à leitora (...). Ela recebe o volume
e não se vai, esperando a resposta. Ele abrevia, irônico: Porém igualmente
– É a crônica tentando escapar da reciclagem do
É uma santa. Diziam os vizinhos. E D. Eulá-
papel. Ela fica com ambição de estante, pretensiosa,
lia apanhando.
quer status literário. Ou então pretensioso é o autor,
É um anjo. Diziam os parentes. E D. Eulália sangrando.
que acha que ela merece ser salva e promovida. (...)
Porém igualmente se surpreenderam na noite em
– Mais respeito. A crônica é a nossa última reserva
que, mais bêbado que de costume, o marido depois de
de estilo.
surrá-la, jogou-a pela janela, e D. Eulália rompeu em
Veja São Paulo, São Paulo, 25 jul. 2012, p. 170.
asas o voo de sua trajetória.
Vocabulário Marina Colasanti –
efêmero: de pouca duração; passageiro, transitório. Um espinho de marfim e outras histórias

A certa altura do diálogo, a leitora pergunta ao ( ) “Porém igualmente” são palavras usadas pela
escritor que dava autógrafos: autora para expressar a surpresa dos vizinhos
e parentes que acompanharam a trajetória da
“– E o livro de crônicas, então?”
protagonista, até que ela alçou voo e conseguiu
libertar-se da dominação e do poder do marido.
a) A pergunta da leitora incide sobre uma das
( ) No texto, há subliminarmente uma crítica
características do gênero crônica mencionadas
aos parentes e vizinhos de D. Eulália, os
pelo escritor. Explique que característica é esta.
quais acompanhavam seu sofrimento e nada
b) Explique o funcionamento da palavra então na
faziam em seu favor, embora a considerassem,
pergunta em questão, considerando o sentido que
metaforicamente, uma santa e um anjo.
esta pergunta expressa.
( ) O paralelismo dos dois primeiros parágrafos e
145.  (ENEM) as metáforas do último dão à narrativa ritmo e
melodia próprios da poesia, o que nos permite
A diva
reconhecer no texto um tom poético.
Vamos ao teatro, Maria José? ( ) A liberdade de D. Eulália é consequência da última
Quem me dera, violência do marido, personagem antagonista, que
desmanchei em rosca quinze kilos de farinha, lhe finalizou a trajetória de opressão.
tou podre. Outro dia a gente vamos. ( ) Com densidade, síntese e linguagem poética,
Falou meio triste, culpada, a narrativa de Marina Colasanti constitui um
e um pouco alegre por recusar com orgulho. relato de um só incidente. Por ser extremamente
TEATRO! Disse no espelho. breve, recebe a designação de miniconto, gênero
TEATRO! Mais alto, desgrenhada. que se ajusta à vida contemporânea.
TEATRO! E os cacos voaram
Texto para a próxima questão
sem nenhum aplauso.
Perfeita. Bocage no futebol
PRADO, A. Oráculos de maio. São Paulo: Siciliano, 1999.
Quando eu tinha meus cinco, meus seis anos, morava,
Os diferentes gêneros textuais desempenham ao lado de minha casa, um garoto que era tido e havido
funções sociais diversas, reconhecidas pelo leitor como o anticristo da rua. Sua idade regulava com a
com base em suas características específicas, bem minha. E justiça se lhe faça: — não havia palavrão que
como na situação comunicativa em que ele é produ- ele não praticasse. Eu, na minha candura pânica, vivia
zido. Assim, o texto A diva: cercado de conselhos, por todos os lados: — “Não brinca
a) narra um fato real vivido por Maria José. com Fulano, que ele diz nome feio!”. E o Fulano assumia,
b) surpreende o leitor pelo seu efeito poético. aos meus olhos, as proporções feéricas de um Drácula,
c) relata uma experiência teatral profissional. de um Nero de fita de cinema.
d) descreve uma ação típica de uma mulher Mas o tempo passou. E acabei descobrindo que,
sonhadora. afinal de contas, o anjo de boca suja estava com a
razão. Sim, amigos: — cada nome feio que a vida

285
extrai de nós é um estímulo vital irresistível. Por grandes jornais, são assinados pelos seus mais
exemplo: — os nautas camonianos. Sem uma sólida, renomados colunistas.
potente e jucunda pornografia, um Vasco da Gama, e) crônica – variedade ou gênero textual bastante
um Colombo, um Pedro Álvares Cabral não teriam livre, ocorrente no Brasil desde o século XIX, cuja
sido almirantes nem de barca da Cantareira. O que os proximidade com o cotidiano não impedia de,
virilizava era o bom, o cálido, o inefável palavrão. conforme o caso, explorar outras dimensões de
Mas, se nas relações humanas em geral, o nome feio sentido.
produz esse impacto criador e libertário, que dizer do
Texto para a próxima questão
futebol? Eis a verdade: — retire-se a pornografia do fute-
bol e nenhum jogo será possível. Como jogar ou como Não era feio o lugar, mas não era belo. Tinha,
torcer se não podemos xingar ninguém? O craque ou entretanto, o aspecto tranquilo e satisfeito de quem se
o torcedor é um Bocage. Não o Bocage fidedigno, que julga bem com a sua sorte.
nunca existiu. Para mim, o verdadeiro Bocage é o falso, A casa erguia-se sobre um socalco, uma espécie
isto é, o Bocage de anedota. Pois bem: — está para nascer de degrau, formando a subida para a maior altura
um jogador ou um torcedor que não seja bocagiano. O de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. Em
craque brasileiro não sabe ganhar partidas sem o incen- frente, por entre os bambus da cerca, olhava uma pla-
tivo constante dos rijos e imortais palavrões da língua. nície a morrer nas montanhas que se viam ao longe;
Nós, de longe, vemos os 22 homens correndo em campo, um regato de águas paradas e sujas cortava-as para-
matando-se, agonizando, rilhando os dentes. Parecem lelamente à testada da casa; mais adiante, o trem pas-
dopados e realmente o estão: — o chamado nome feio é sava vincando a planície com a fita clara de sua linha
o seu excitante eficaz, o seu afrodisíaco insuperável. campinada [...].
RODRIGUES, Nélson. À sombra das chutei- BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma.
ras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras. p.175.

Quando Bauer, o de pés ligeiros, se apoderou da


148.  (UEG-GO) Com relação ao tempo narrativo, nota-
cobiçada esfera, logo o suspeitoso Naranjo lhe par-
se que a utilização do pretérito imperfeito:
tiu ao encalço, mas já Brandãozinho, semelhante à
chama, lhe cortou a avançada. A tarde de olhos radio- a) aproxima o material narrado do universo
sos se fez mais clara para contemplar aquele combate, contemporâneo do leitor.
enquanto os agudos gritos e imprecações em redor b) confere ao texto um caráter dual, que oscila entre
animavam os contendores. A uma investida de Cár- o lírico e o metafórico.
denas, o de fera catadura, o couro inquieto quase se c) faz com que o tempo da narrativa se distancie, até
foi depositar no arco de Castilho, que com torva face certo ponto, do tempo do leitor.
o repeliu. Eis que Djalma, de aladas plantas, rompe d) torna o texto mais denso de significação, na
entre os adversários atônitos, e conduz sua presa até medida em que institui lacunas temporais.
o solerte Julinho, que a transfere ao valoroso Didi, e
Texto para a próxima questão
este por sua vez a comunica ao belicoso Pinga. (...)
Assim gostaria eu de ouvir a descrição do jogo Preto e branco
entre brasileiros e mexicanos, e a de todos os jogos: à
Perdera o emprego, 5chegara a passar fome,
maneira de Homero. Mas o estilo atual é outro, e o sen-
sem que 6ninguém 2soubesse: por constrangimento,
timento dramático se orna de termos técnicos.
afastara-se da roda 7boêmia escritores, jornalis-
ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando
tas, um sambista de cor que vinha a ser o seu mais
é dia de futebol. Rio: Record, 2002.
velho que antes costumava frequentar companheiro
de noitadas.
147.  (FGV-RJ) Ambos os textos – o de Nélson Rodri-
De repente, a salvação lhe apareceu na forma de
gues e o de Drummond – pertencem à modalidade
um americano, que lhe 3oferecia um emprego numa
textual conhecida como:
agência. Agarrou-se com unhas e dentes à oportuni-
a) colunismo social – variedade jornalística de crítica dade, vale dizer, ao americano, para garantir na sua
de costumes, que proliferou na imprensa de todo o nova função uma relativa estabilidade.
Brasil, a partir dos anos de 1950. E um belo dia vai seguindo com o chefe pela rua
b) poema em prosa – tipo de texto em que a prosa 10México, já distraído de seus passados tropeços, mas

narrativa, sem apresentar os aspectos formais tropeçando obstinadamente no inglês com que se
exteriores do poema (rimas, métrica etc.), entendiam – quando vê do outro lado da rua um preto
submete-se, no entanto, ao rigor construtivo agitar a mão para ele.
próprio da poesia. Era o sambista seu amigo.
c) paródia – uma variedade textual construída com Ocorreu-lhe desde logo que ao americano 4pode-
base no paralelismo com outro texto, geralmente ria parecer estranha tal amizade, e mais ainda
com intenção crítica ou jocosa. incompatível com a ética ianque a ser mantida nas
d) editorial – que consiste, modernamente, nos funções que passara a exercer. Lembrou-se num
textos que, ocupando as primeiras páginas dos átimo que o americano em geral tem uma coisa

286
muito séria chamada preconceito racial e seu cri- -intencionados e bem falantes. Havia a moscazinha
tério de julgamento da capacidade funcional dos que morava na parede de uma chaminé e voava à toa,
subordinados talvez se deixasse influir por essa desobedecendo às ordens maternas, e tanto voou que
odiosa deformação. Por via das dúvidas correspon- afinal caiu no fogo. Esses contos me intrigaram com o
deu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais [livro] Barão de Macaúbas. Infelizmente um doutor, uti-
discreta que lhe foi possível, mas viu em pânico que lizando bichinhos, impunha-nos a linguagem dos dou-
ele atravessava a rua e vinha em sua direção, sor- tores. — Queres tu brincar comigo? O passarinho, no
riso aberto e braços prontos para um abraço. galho, respondia com preceito e moral, e a mosca usava
Pensou rapidamente em se esquivar – não dava adjetivos colhidos no dicionário. A figura do barão
tempo: o americano também se detivera, vendo o manchava o frontispício do livro, e a gente percebia
preto aproximar-se. que era dele o pedantismo atribuído à mosca e ao pas-
Era seu amigo, velho companheiro, um bom sarinho. Ridículo um indivíduo hirsuto e grave, doutor
sujeito, dos melhores mesmo que já conhecera – acaso e barão, pipilar conselhos, zumbir admoestações.
jamais chegara sequer a se lembrar que se tratava RAMOS, G. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1986 (adaptado).
de um preto? Agora, com o gringo ali a seu lado, todo
Texto II
branco e sardento, é que percebia pela primeira vez:
não podia ser mais preto. Sendo assim, tivesse paciên- Dado que a literatura, como a vida, ensina na
cia: mais tarde lhe explicava tudo, haveria de com- medida em que atua com toda sua gama, é artificial
preender. Passar fome era muito bonito nos roman- querer que ela funcione como os manuais de virtude
ces de Knut Hamsun, lidos depois do jantar, e sem cre- e boa conduta. E a sociedade não pode senão esco-
dores à porta. Não teve mais dúvidas: virou a cara lher o que em cada momento lhe parece adaptado aos
quando o outro se 1aproximou e fingiu que não o via, seus fins, enfrentando ainda assim os mais curiosos
que não era com ele. paradoxos, pois mesmo as obras consideradas indis-
E não era mesmo com ele. pensáveis para a formação do moço trazem frequen-
Porque antes de 9cumprimentá-lo, talvez ainda temente o que as convenções desejariam banir. Aliás,
sem 8tê-lo visto, o sambista abriu os braços para aco- essa espécie de inevitável contrabando é um dos meios
lher o americano – também seu amigo. por que o jovem entra em contato com realidades que
SABINO, Fernando. A mulher do vizinho. 7.ed. se tenciona escamotear-lhe.
Rio de Janeiro: Record, 1962. p.163-4. CANDIDO, A. A literatura e a formação do homem.
Duas Cidades. São Paulo: Ed. 34, 2002. Adaptado.
149.  (CFTSC) Quanto ao gênero e ao assunto do texto,
Os dois textos, com enfoques diferentes, abor-
é correto afirmar que:
dam um mesmo problema, que se refere, simultanea-
a) trata-se de um conto que mostra como alguém, mente, ao campo literário e ao social. Considerando-
por necessidade, pode agir contra os seus se a relação entre os dois textos, verifica-se que eles
princípios. têm em comum o fato de que:
b) trata-se de uma fábula, cuja moral é a seguinte: a) tratam do mesmo tema, embora com opiniões
“Não devemos julgar os outros por nós mesmos”. divergentes, expressas no primeiro texto por meio
c) trata-se de uma crônica, cuja mensagem central da ficção e, no segundo, por análise sociológica.
é: “Nas horas difíceis, podemos contar com os b) foi usada, em ambos, linguagem de caráter
verdadeiros amigos”. moralista em defesa de uma mesma tese: a
d) trata-se de uma reportagem, cujo assunto é o literatura, muitas vezes, é nociva à formação do
preconceito de classe social no Brasil. jovem estudante.
e) trata-se de uma notícia, que relata um caso de c) são utilizadas linguagens diferentes nos dois
discriminação racial. textos, que apresentam um mesmo ponto de vista:
a literatura deixa ver o que se pretende esconder.
150.  (ENEM)
d) a linguagem figurada é predominante em ambos,
Texto I embora o primeiro seja uma fábula e o segundo,
um texto científico.
Principiei a leitura de má vontade. E logo emper-
e) o tom humorístico caracteriza a linguagem de
rei na história de um menino vadio que, dirigindo-se
ambos os textos, em que se defende o caráter
à escola, se retardava a conversar com os passarinhos
pedagógico da literatura.
e recebia deles opiniões sisudas e bons conselhos. Em
seguida vinham outros irracionais, igualmente bem-

287
Português
Exercícios propostos
capítulo 5

Texto para a próxima questão c) a cultura da periferia ainda tenta hoje transpor
O pobre é pop. A periferia é o centro do mundo. E barreiras para a sua inserção na vida cultural
a música popular brasileira nunca mereceu tanto ser brasileira.
chamada assim — embora esteja cada vez mais dis- d) os diferentes gêneros musicais cultivados pela
tante 1de um certo totem conhecido como MPB. periferia vêm, cada vez mais, fazendo frente às
A expansão da classe média tem impacto evidente demandas políticas do país.
sobre os padrões de consumo no Brasil, inclusive cul- e) a aceitação da produção cultural da periferia
tural. Mas o protagonismo das classes C, D e E nos pelas classes A e B decorre fundamentalmente da
novos fluxos de produção e circulação de música não redução da desigualdade social.
é efeito colateral de um aumento da renda familiar,
simplesmente. 152.  (UFPE – modificado) Fernando Pessoa, conside-
A periferia (cultural, social ou econômica) do Bra- rado o maior poeta do Modernismo português, pro-
sil cansou 2de esperar o seu lugar ao sol. E tomou pra duziu uma obra literária esteticamente variada. No
si o direito de dizer e fazer o que quer, do jeito que Brasil, na mesma década em que morre Pessoa, Carlos
pode, sabe e gosta. Drummond de Andrade avulta como uma das prin-
É uma mudança de paradigmas. Um processo cipais expressões literárias nacionais. A produção de
cumulativo, iniciado, ainda, nos idos dos anos 90 [do ambos apresenta um forte questionamento existen-
século passado], que se acentua e ganha relevo, sobre- cial do homem diante do mundo, como se percebe
tudo na última década. Uma força irrefreável, que arde nos dois textos abaixo. Leia-os e analise as afirmati-
em fogo brando. Ainda que só deixe a sombra da invi- vas apresentadas.
sibilidade 3(para ocupar espaços de validação pública,
como já foi a dita grande mídia) quando o caldo já ferve Texto I
há tanto, 6que só lhe resta entrar em erupção. Por seus Não sei quem sou, que alma tenho
próprios méritos. E, não raro, seus próprios meios.
Foi o que se deu, em boa medida, com fenômenos Não sei quem sou, que alma tenho.
da “periferia do bom gosto” como o sertanejo (no Bra- Quando falo com sinceridade não sei com que sin-
sil Central), o axé (na Bahia), o rap (em São Paulo), o ceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que
funk carioca (no Rio de Janeiro), o pagode (em São não sei se existe (se é esses outros).
Paulo), o forró (no Ceará) e, mais recentemente, o tec- Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias
nobrega (no Pará). que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim
Em comum, uma música de “gosto duvidoso”, 4que perpetuamente me aponta traições de alma a um
geralmente destoa da chamada “linha evolutiva da carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que
MPB”. E que, na sua incontinência habitual, se alastra eu tenho.
pelo país — com ou sem o suporte das grandes corpo- Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inú-
rações da indústria fonográfica e da mídia. meros espelhos fantásticos que torcem para reflexões
5É a emergência do pobre-star. Que viceja pelos
falsas uma única anterior realidade que não está em
grotões, nos quatro cantos do país, como sintoma nenhuma e está em todas.
de que as coisas (há tempos...) já não estão mais tão Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu
“sob controle”, como se supõe que um dia estiveram, sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em
do ponto de vista da agenda estética da elite cultural. mim, incompletamente, como se o meu ser participasse
O espanto com que o tecnobrega foi recebido no
de todos os homens, incompletamente de cada [?], por
Sudeste, há pouco mais de um ano, como algo “esqui-
uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
sito”, que “brotou do nada”, ilustra bem a crônica da
Fernando Pessoa
vida na bolha de um mundo globalizado que, em cer-
tos segmentos da sociedade brasileira, ainda não vol- Texto II
tou o olhar (e a escuta) para além do próprio umbigo. Verbo ser
VALE, Israel do. Tecnobrega, ditadura da feli-
Que vai ser quando crescer?
cidade e a erupção do pobre-star. CULT, São
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
Paulo: Bregantini, n. 183, p. 35, set. 2013.
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
151.  (Uneb) Na ótica do autor:
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro
a) o “pobre-star” deve ser visto sob uma perspectiva [nome, corpo e jeito?
antropológica. Ou a gente só principia a ser quando cresce?
b) a produção cultural da periferia é pouco É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
compreendida por aqueles que a olham de forma Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
convencional. Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.

288
Que vou ser quando crescer? 153.  (Unesp) No último período do texto, a discrepân-
Sou obrigado a? Posso escolher? cia dos possessivos teu e tua (segunda pessoa do sin-
Não dá para entender. Não vou ser. gular) com relação ao pronome de tratamento você
Vou crescer assim mesmo. (terceira pessoa do singular) justifica-se como:
Sem ser Esquecer.
a) possibilidade permitida pelo novo sistema
Carlos Drummond de Andrade
ortográfico da língua portuguesa.
( ) O texto de Fernando Pessoa reflete sobre as várias b) um modo de escrever característico da linguagem
formas que um “eu” pode assumir, gerando diversas jornalística.
identidades. Com ele, podemos compreender c) emprego perfeitamente correto, segundo a
melhor o projeto poético do autor português.
gramática normativa.
( ) No poema de Drummond, o sujeito poético
d) aproveitamento estilístico de um uso do discurso
questiona a própria identidade, através de uma
coloquial.
reflexão sobre o verbo “ser”, anunciado já no
título. Os versos “Ser; pronunciado tão depressa, e) intenção de agredir com mau discurso os donos da
e cabe tantas coisas? Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.” comunicação.
demonstram a impossibilidade de se definir a Texto para a próxima questão
própria identidade de forma absoluta.
( ) Em Pessoa, o sujeito do discurso, após vários A(s) questão(ões) a seguir toma(m) por base uma
questionamentos, chega à conclusão de que passagem de um livro de José Ribeiro sobre o fol-
os “não-eus” são criações imaginárias de um clore nacional.
“eu” verdadeiro. Contrariamente, o poema de Curupira
Drummond nos faz ver que o “eu” se multiplica
em diversos “eus”. Na teogonia* tupi, o anhangá, gênio andante, espí-
( ) Os dois poetas refletem, cada qual a seu modo, rito andejo ou vagabundo, destinava-se a proteger a
sobre a impossibilidade de o homem se definir, caça do campo. Era imaginado, segundo a tradição
com palavras, de forma única e absoluta. A colhida pelo Dr. Couto de Magalhães, sob a figura de
linguagem não consegue ter o alcance do sujeito um veado branco, com olhos de fogo.
em sua complexidade. Todo aquele que perseguisse um animal que esti-
vesse amamentando corria o risco de ver Anhangá
Texto para a próxima questão
e a visão determinava logo a febre e, às vezes, a lou-
A questão toma por base um texto de Millôr Fer- cura. O caapora é o mesmo tipo mítico encontrado
nandes (1924-2012). nas regiões central e meridional e aí representado por
um homem enorme coberto de pelos negros por todo o
Os donos da comunicação
rosto e por todo o corpo, ao qual se confiou a proteção
Os presidentes, os ditadores e os reis da Espanha da caça do mato. Tristonho e taciturno, anda sempre
que se cuidem porque os donos da comunicação duram montado em um porco de grandes dimensões, dando
muito mais. Os ditadores abrem e fecham a imprensa, de quando em vez um grito para impelir a vara. Quem
os presidentes xingam a TV e os reis da Espanha cas- o encontra adquire logo a certeza de ficar infeliz e de
sam o rádio, mas, quando a gente soma tudo, os donos ser malsucedido em tudo que intentar. Dele se origina-
da comunicação ainda tão por cima. Mandam na eco- ram as expressões portuguesas caipora e caiporismo,
nomia, mandam nos intelectuais, mandam nas moças como sinônimo de má sorte, infelicidade, desdita nos
fofinhas que querem aparecer nos shows dos horários negócios. Bilac assim o descreve: “Companheiro do
nobres e mandam no society que morre se o nome não curupira, ou sua duplicata, é o Caapora, ora gigante,
aparecer nas colunas. ora anão, montado num caititu, e cavalgando à frente
Todo mundo fala mal dos donos da comunicação, de varas de porcos do mato, fumando cachimbo ou
mas só de longe. E ninguém fala mal deles por escrito cigarro, pedindo fogo aos viajores; à frente dele voam
porque quem fala mal deles por escrito nunca mais vê os vaga-lumes, seus batedores, alumiando o caminho”.
seu nome e sua cara nos “veículos” deles. Isso é assim Ambos representam um só mito com diferente con-
aqui, na Bessarábia e na Baixa Betuanalândia. Parece figuração e a mesma identidade com o curupira e o
que é a lei. O que também é muito justo porque os jurupari, numes que guardam a floresta. Todos con-
donos da comunicação são seres lá em cima. Basta ver vergem mais ou menos para o mesmo fim, sendo que
o seguinte: nós, pra sabermos umas coisinhas, só sabe- o curupira é representado na região setentrional por
mos delas pela mídia deles, não é mesmo? Agora vocês um “pequeno tapuio” com os pés voltados para trás e
já imaginaram o que sabem os donos da comunicação sem os orifícios necessários para as secreções indis-
que só deixam sair 10% do que sabem? pensáveis à vida, pelo que a gente do Pará diz que
Pois é; tem gente que faz greve, faz revolução, faz ele é músico. O Curupira ou Currupira, como é cha-
terrorismo, todas essas besteiras. Corajoso mesmo, eu mado no sul, aliás erroneamente, figura em uma infi-
acho, é falar mal de dono de comunicação. Aí tua revo-
nidade de lendas tanto no norte como no sul do Brasil.
lução fica xinfrim, teu terrorismo sai em corpo e se você
No Pará, quando se viaja pelos rios e se ouve alguma
morre vai lá pro fundo do jornal em quatro linhas.
pancada longínqua no meio dos bosques, “os romeiros
Millôr Fernandes. Que país é este? 1978.
dizem que é o Curupira que está batendo nas sapupe-

289
mas, a ver se as árvores estão suficientemente fortes Basta!... Eu sei que a mocidade
para sofrerem a ação de alguma tempestade que está É o Moisés no Sinai;
próxima. A função do Curupira é proteger as flores- Das mãos do Eterno recebe
tas. Todo aquele que derriba, ou por qualquer modo As tábuas da lei! marchai!
estraga inutilmente as árvores, é punido por ele com Quem cai na luta com glória,
a pena de errar tempos imensos pelos bosques, sem Tomba nos braços da História,
poder atinar com o caminho de casa, ou meio algum No coração do Brasil!
de chegar até os seus”. Como se vê, qualquer desses Moços, do topo dos Andes,
tipos é a manifestação de um só mito em regiões e cir- Pirâmides vastas, grandes,
cunstâncias diferentes. Vos contemplam séculos mil!
O Brasil no folclore, 1970. Castro Alves. O século. Agosto de 1865.

(*) Teogonia, s.f.: 1. Filos. Doutrina mística rela- Na(s) questão(ões) a seguir assinale os itens corre-
tiva ao nascimento dos deuses e que frequente- tos e os itens errados.
mente se relaciona com a formação do mundo.
156.  (UnB-DF) Castro Alves, poeta da terceira fase do
2.Conjunto de divindades cujo culto forma o sis-
Romantismo brasileiro, há mais de cem anos compôs
tema religioso dum povo politeísta. (Dicionário
o poema do qual duas das estrofes finais estão trans-
Aurélio Eletrônico – Século XXI).
critas anteriormente. A partir delas, julgue os itens
154.  (Unesp) Tomando por base as informações que se seguem.
do texto, as ações de Anhangá, Caapora e Curupira
( ) texto é uma conclamação aos jovens no sentido
seriam consideradas, na atualidade:
de que corrijam os erros que vêm sendo cometi-
a) poéticas. dos ao longo dos séculos.
b) ecológicas. ( ) Os versos 1 e 2 apresentam construções metafóri-
c) comerciais. cas associadas à mocidade.
d) estéticas. ( ) Percebe-se, nos versos 15, 16 e 17, um sentimento
e) esportivas. de desesperança na capacidade que os moços
têm de mudar os rumos da história do Brasil.
Texto para a próxima questão
( ) Na história da literatura brasileira contemporâ-
Lídio Corró, um sentimental, sente um aperto nea, a geração VIOLÃO DE RUA, da qual fizeram
no peito, ainda há de morrer numa hora dessas, de parte Ferreira Gullar, na poesia, e Geraldo Van-
emoção. Pedro Archanjo mantém-se sério por um dré, na música popular, assumiu uma postura
momento; distante, grave, quase solene. De repente se político-literária, no início da década de sessenta,
transforma e ri, seu riso alto, claro e bom, sua infinita semelhante à de Castro Alves, um século antes.
e livre gargalhada: pensa na cara do professor Argolo,
Texto para a próxima questão
na do doutor Fontes, dois luminares, dois sabidórios
que da vida nada sabem. São mestiças a nossa face e Jardim da pensãozinha burguesa.
a vossa face: é mestiça a nossa cultura, MAS a vossa é Gatos espapaçados ao sol.
importada, é merda em pó. Iam morrer de congestão. A tiririca sitia os canteiros chatos.
Seu riso acendeu a aurora e iluminou a terra da Bahia. O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.
AMADO, Jorge. Tenda dos Milagres. Os girassóis amarelo!
São Paulo, Martins, s/d: p.163. resistem.

155.  (UFRJ) Transcreva integralmente o período do E as dálias, rechonchudas, plebeias, dominicais.


texto em que o autor faz uso de um recurso estilístico Um gatinho faz pipi.
através do qual a natureza reflete o estado de espírito Com gestos de garçom de restaurant-Palace
do personagem. Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
Texto para a próxima questão
– É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.
O século Manuel Bandeira. Libertinagem. In: Estrela da vida
inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 126 e 127.
E vós, arcas do futuro,
Crisálidas do porvir,
157.  (UPE – modificado) Com base no poema anterior,
Quando vosso braço ousado
analise as afirmativas a seguir e conclua.
Legislações construir
Levantai um templo novo, ( ) O elemento humano está ausente, mas se pode
Porém não que esmague o povo, perceber a prosopopeia logo no primeiro verso.
Mas lhe seja pedestal. ( ) O poeta está falando de sua vida, pois já morou
Que ao menino dê escola, em pensão.
Ao veterano – uma esmola... ( ) Morfologicamente, “gatinho” e “pensãozinha” têm
A todos – luz e fanal. em comum o sufixo diminutivo, que os apequena,

290
porém, semanticamente, esse sufixo opera em Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
sentido diverso para gato e pensão: para esta, Da vossa alta piedade me despido,
conota o amesquinhamento da vida; para aquele, Porque, quanto mais tenho delinquido,
a espontaneidade graciosa das crianças. Vos tenho a perdoar mais empenhado.
( ) O poeta faz uma abordagem temática das coisas Gregório de Matos. A Jesus Cristo Nosso Senhor.
simples e banais que compõem o cotidiano.
Observação:
158.  (UFPR) Leia o texto a seguir. hei pecado = tenho pecado
EURICÃO: Você não está entendendo nada! E como delinquido = agido de modo errado
ficaria eu? Você casa com Dodô, Benona com Eudoro, 159.  (Mackenzie-SP) É traço relevante na caracteriza-
Caroba com Pinhão. Não vê que eu fico só? No meio ção do estilo de época a que pertence o texto:
disso tudo, com quem casaria eu?
a) a progressão temática que constrói forças de
CAROBA: Com a porca. E, se ela não serve mais,
tensão entre pecado e salvação.
com Santo Antônio!
b) a linguagem musical que sugere os enigmas do
EURICÃO: Estão me ouvindo? É a voz da sabedo- mundo onírico do poeta.
ria, da justiça popular. Tomem seus destinos, eu quero c) os aspectos formais, como métrica, cadência e
ficar só. Aqui hei de ficar até tomar uma decisão. Mas esquema rímico, que refletem o desequilíbrio
agora sei novamente que posso morrer, estou nova- emocional do eu lírico.
mente colocado diante da morte e de todos os absur- d) a fé incondicional nos desígnios de Deus, única via
dos, nesta terra a que cheguei como estrangeiro e para o conhecimento verdadeiro e redentor.
como estrangeiro vou deixar. Mas minha condição e) a força argumentativa de uma poesia com marcas
não é pior nem melhor do que a de vocês. Se isso acon- exclusivas de ideais antropocêntricos.
teceu comigo pode acontecer com todos, e se aconte-
ceu uma vez pode acontecer a qualquer instante. Um Texto para as próximas 4 questões
golpe do acaso abriu meus olhos, vocês continuam As questões a seguir tomam por base um frag-
cegos! Agora vão, quero ficar só! mento do livro Comunicação e folclore, de Luiz Bel-
SUASSUNA, Ariano. O santo e a porca. Rio trão (1918-1986).
de Janeiro: José Olympio, 2003.
O bumba meu boi
Esse trecho é de O santo e a porca, de Ariano Suas-
Entre os autos populares conhecidos e praticados
suna, e mostra Euricão quando, já ao final da peça,
no Brasil – pastoril, fandango, chegança, reisado, con-
descobre que todo o dinheiro que guardou em sua
gada etc. – aquele em que melhor o povo exprime a sua
porca de madeira não valia mais nada por causa das
crítica, aquele que tem maior conteúdo jornalístico é,
mudanças de moeda. Sobre o texto, é correto afirmar:
realmente, o bumba meu boi, ou simplesmente boi.
01. Ao falar em “voz da sabedoria” e em “justiça
Para Renato Almeida, é o “bailado mais notá-
popular”, a personagem reflete uma das
vel do Brasil, o folguedo brasileiro de maior signi-
referências principais da peça, que une um
ficação estética e social”. Luís da Câmara Cascudo,
enredo recorrente na história da literatura
por seu turno, observou a sua superioridade porque
ocidental a situações de uma comédia de
“enquanto os outros autos cristalizaram, imóveis, no
costumes centrada em valores e figuras da
elenco de outrora, o bumba meu boi é sempre atual,
cultura regional.
incluindo soluções modernas, figuras de agora, voca-
02. Os tratos e destratos feitos com Santo Antônio
bulário, sensação, percepção contemporânea. Na
são um bom exemplo da praticidade da
época da escravidão mostrava os vaqueiros escravos
religiosidade popular, e as negociações com o
vencendo pela inteligência, astúcia e cinismo. Chiba-
santo de devoção criam espaço na peça para
teava a cupidez, a materialidade, o sensualismo de
muito do seu resultado cômico e crítico.
doutores, padres, delegados, fazendo-os cantar ver-
04. Coerentemente com o regionalismo brasileiro, a
sinhos que eram confissões estertóricas. O capitão-
peça valoriza a transformação e modernização
do-mato, preador de escravos, assombro dos mole-
dos costumes; daí o papel de Caroba e seu esforço
ques, faz-sono dos negrinhos, vai ‘caçar’ os negros que
para modificar a vida das outras personagens.
fugiram, depois da morte do Boi, e em vez de trazê-los
08. Apesar do tema humorístico, das cenas rápidas,
é trazido amarrado, humilhado, tremendo de medo.
da celeridade dos quiproquós, há, no fundo
O valentão mestiço, capoeira, apanha pancada e é
temático, um conflito entre os bens materiais e os
mais mofino que todos os mofinos. Imaginem a ale-
espirituais, encarnado na figura de Euricão.
gria negra, vendo e ouvindo essa sublimação aberta,
16. Euricão é uma personagem-tipo da literatura: ele
franca, na porta da casa-grande de engenho ou no
tem uma característica principal, a avareza, e é
terreiro da fazenda, nos pátios das vilas, diante do
sobre essa característica que toda sua ação na
adro da igreja! A figura dos padres, os padres do inte-
peça se sustenta.
rior, vinha arrastada com a violência de um ajuste
Texto para a próxima questão de contas. O doutor, o curioso, metido a entender de

291
tudo, o delegado autoritário, valente com a patrulha a) a perseguição aos escravos que fugiram das
e covarde sem ela, toda a galeria perpassa, expondo fazendas.
suas mazelas, vícios, manias, cacoetes, olhada por b) a vingança dos escravos contra o capitão-do-mato.
uma assistência onde estavam muitas vítimas dos c) a morte e a ressurreição do boi.
personagens reais, ali subalternizados pela virulência d) o castigo dos valentões, que acabam se mostrando
do desabafo”. covardes.
Como algumas outras manifestações folclóricas, o e) a crítica aos padres e religiosos em geral pela
bumba meu boi utiliza uma forma antiga, tradicional; sensualidade.
entretanto, fá-la revestir-se de novos aspectos, atua-
161.  (Unesp) “Chibateava a cupidez, a materiali-
liza o entrecho, recompõe a trama. Daí “o interesse
dade, o sensualismo de doutores, padres, delega-
do tipo solidário que desperta nas camadas popu-
dos, fazendo-os cantar versinhos que eram confis-
lares”, como o assinala Édison Carneiro. Interesse
sões estertóricas.”
que só pode manter-se porque o que no auto se apre-
senta não reflete apenas situações do passado, “mas Nesta passagem, Luís da Câmara Cascudo, men-
porque tem importância para o futuro”. Com efeito, cionado pelo autor, explica que, em apresentações do
tendo por tema central a morte e a ressurreição do bumba meu boi da época da escravidão:
boi, “cerca-se de episódios acessórios, não essenciais,
a) as pessoas da plateia eram convidadas a participar
muito desligados da ação principal, que variam de
do bumba meu boi para declamar versinhos
região para região... em cada lugar, novos persona-
ridículos.
gens são enxertados, aparentemente sem outro obje-
b) o auto era uma forma de fazer as pessoas
tivo senão o de prolongar e variar a brincadeira”. Con-
presentes confessarem estertoricamente os seus
tudo, dentre esses personagens, os que representam
pecados.
as classes superiores são caricaturados, cobrindo-
c) havia uma personagem que usava uma chibata
se de ridículo, o que torna “o folguedo, em si mesmo,
para agredir pessoas da plateia, enquanto
uma reivindicação”.
apontava seus defeitos.
Sílvio Romero recolheu os versos de um bumba
d) todos os presentes participavam do auto,
meu boi, através dos quais se constata a intenção
improvisando falas e declamações.
caricaturesca nos personagens do folguedo. Como o
e) o bumba meu boi satirizava em seu enredo
Padre, que recita:
personagens que apresentavam os mesmos
defeitos de pessoas reais.
Não sou padre, não sou nada
“Quem me ver estar dançando 162.  (Unesp) Aponte a alternativa que indica, entre os
Não julgue que estou louco; quatro termos relacionados a seguir, apenas os que,
Secular sou como os outros”. no fragmento apresentado, são empregados pelos fol-
Ou como o Capitão-do-Mato que, dando com o cloristas para referir-se ao bumba meu boi.
negro Fidélis, vai prendê-lo:
I. Bailado.
“CAPITÃO – Eu te atiro, negro II. Ritual.
Eu te amarro, ladrão,
III. Brincadeira. a) I e II.
Eu te acabo, cão.”
IV. Folguedo. b) II e III.
Mas, ao contrário, quem vai sobre o Capitão e o
amarra é o Fidélis:
c) I, II e III.
“CORO – Capitão de campo d) I, III e IV.
Veja que o mundo virou e) II, III e IV.
Foi ao mato pegar negro 163.  (Unesp) “O capitão-do-mato, preador de escra-
Mas o negro lhe amarrou. vos, assombro dos moleques, faz-sono dos negrinhos,
vai ‘caçar’ os negros que fugiram (...)”
CAPITÃO – Sou valente afamado
Como eu não pode haver Nesta passagem, levando-se em conta o contexto,
Qualquer susto que me fazem a função sintática e o significado, verifica-se que faz-
Logo me ponho a correr”. sono é:
Luiz Beltrão. Comunicação e folclore. São a) substantivo.
Paulo: Edições Melhoramentos, 1971. b) adjetivo.
c) verbo.
160.  (Unesp) O fragmento apresentado focaliza, por d) advérbio.
meio da opinião do autor e de outros folcloristas e) interjeição.
mencionados, o bumba meu boi, auto popular bra-
Texto para a próxima questão
sileiro bastante conhecido. A leitura do fragmento,
como um todo, deixa claro que o núcleo temático do
bumba meu boi é sempre:

292
(...) Um poeta dizia que o menino é o pai do homem. E repare o leitor como a língua portuguesa é
Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos engenhosa. Um contador de histórias é justamente
do menino. o contrário de historiador, não sendo um historia-
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de dor, afinal de contas, mais do que um contador de
“menino diabo”; e verdadeiramente não era outra histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor,
coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, nada mais simples. O historiador foi inventado por
indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de
um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu
me negara uma colher do doce de coco que estava Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é
fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um só fantasiar.
punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da traves- O certo é que se eu quiser dar uma descrição verí-
sura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estra- dica da tourada de domingo passado, não poderei,
gara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. porque não a vi.
Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de [...]
todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cor- Joaquim Maria Machado
del nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao de Assis, História de Quinze Dias.
dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava In: Crônicas
mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas
vezes gemendo – mas obedecia sem dizer palavra, ou, 165.  (Unesp) O “quiasmo” é um procedimento esti-
quando muito, um – “ai, nhonhô!” – ao que eu retor- lístico que consiste na construção de frases ou de
quia: “Cala a boca, besta!” – Esconder os chapéus das expressões segundo um princípio de retomada que
visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pode ser representado como “abba”, ou seja, os ele-
pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços mentos retomados se repetem em ordem inversa,
das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, como neste exemplar de Olavo Bilac: “Vinhas fatigada
eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que e triste, e triste e fatigado eu vinha”.
eram também expressões de um espírito robusto, por-
a) Demonstre que o segundo período do segundo
que meu pai tinha-me em grande admiração; e se às
parágrafo do texto de Machado de Assis foi escrito
vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por sim-
de acordo com o princípio do “quiasmo”;
ples formalidade: em particular dava-me beijos.
b) Explique o que quer significar o cronista com esse
Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto
período aparentemente contraditório.
da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a
esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e 166.  Qual a importância da divisão do estudo da his-
algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei tória da literatura de Língua Portuguesa em “estilos
o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes de época” (ou escolas literárias)?
puxei pelo rabicho das cabeleiras.
Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. 167.  Em que século se iniciam os estudos da Litera-
tura de Língua Portuguesa?
164.  (Unifesp) Para reforçar a caracterização do
“menino diabo” atribuída ao narrador, é utilizado
168.  Descreva as três eras com que se costuma dividir
principalmente o seguinte recurso estilístico:
a Literatura de Língua Portuguesa.
a) Amplo uso de metáforas que se reportam aos
169.  Em que século se inicia a literatura nacional
comportamentos negativos do menino.
(do Brasil)?
b) Seleção lexical que emprega muitos vocábulos
raros à época, particularmente os adjetivos. 170.  Qual é a escola literária que não pertence ao
c) Recurso frequente ao discurso direto para período conhecido como Era Romântica?
exemplificar as traquinagens do garoto.
a) Romantismo
d) Utilização recorrente de orações coordenadas
b) Realismo
sindéticas aditivas.
c) Parnasianismo
e) Emprego significativo de orações subordinadas
d) Arcadismo
adjetivas restritivas.
e) Simbolismo
Texto para a próxima questão
171.  (Fuvest-SP) Com relação às estéticas do Bar-
Crônica (15.03.1877) roco, Arcadismo, Trovadorismo, Simbolismo e
Romantismo:
Mais dia menos dia, demito-me deste lugar. Um
historiador de quinzena, que passa os dias no fundo a) coloque-as em ordem cronológica.
de um gabinete escuro e solitário, que não vai às tou- b) indique uma que ocorreu em Portugal e não
radas, às câmaras, à rua do Ouvidor, um historiador no Brasil.
assim é um puro contador de histórias.

293
Texto para a questão 172 Assinale:
a) se somente as afirmativas I e II estiverem
Apolo e as nove Musas, discantando
corretas.
com a dourada lira, me influíam
b) se somente as afirmativas II e III estiverem
na suave harmonia que faziam,
corretas.
quando tomei a pena, começando:
c) se somente a afirmativa II estiver correta.
“Ditoso seja o dia e hora, quando d) se somente a afirmativa III estiver correta.
tão delicados olhos me feriam! e) se todas as afirmativas estiverem corretas.
Ditosos os sentidos que sentiam
175.  (UFRGS-RS) Leia as estrofes abaixo, extraídas do
estar-se em seu desejo traspassando”...
poema O mito de Carlos Drummond de Andrade.
Camões
(...)
172.  Nos tercetos desse famoso soneto de Camões,
01 Mas eu sei quanto me custa
identifica-se o seguinte traço de referência clássica:
02 manter esse gelo digno,
a) a noção de herói 03 essa indiferença gaia
b) a exaltação do belo 04 e não gritar: Vem, Fulana!
c) a filosofia 05 Como deixar de invadir
d) o racionalismo
06 sua casa de mil fechos
e) a mitologia
07 e sua veste arrancando
173.  (PUC-RS) A renovação literária que se verifica no 08 mostrá-la depois ao povo
norte da Itália no século XIV, com as obras de Dante
Alighieri (1265-1321), Francesco Petrarca (1304-1374) e 09 tal como é ou deve ser:
Giovani Boccaccio (1313-1375), é considerada um marco 10 branca, intata, neutra, rara,
para o chamado Renascimento Cultural. Produzindo 11 feita de pedra translúcida,
obras de transição para a cultura renascentista, esses 12 de ausência e ruivos ornatos.
autores não:
(...)
a) glorificavam as conquistas humanas.
Assinale com V (Verdadeiro) ou com F (Falso) as
b) utilizavam uma linguagem popular.
afirmações abaixo sobre as estrofes citadas.
c) ironizavam a moral corrente.
( ) As estrofes, de tendência lírica, expressam
d) criticavam a cultura medieval.
os impulsos e as contradições do amor, o que
e) ignoravam a temática religiosa.
constitui uma inovação na tradição da poesia em
Texto para a próxima questão língua portuguesa.
( ) Ao designar a mulher como Fulana, Drummond
Texto
afasta-se da tradição clássica, que idealizava
Eu queria querer-te amar o amor, a figura feminina; mas, ao compará-la a uma
Construir-nos 1dulcíssima prisão; estátua, recupera uma antiga forma de culto
Encontrar a mais 2justa adequação: e veneração.
Tudo métrica e rima e nunca dor! ( ) No verso 04, a possibilidade do grito e do
3Mas a vida é real e de viés,
chamamento a Fulana simboliza o predomínio de
E vê só que cilada o amor me armou: um olhar machista e de uma atitude protetora em
Eu te quero e não queres como sou; relação à mulher anônima.
Não te quero e não queres como és... ( ) A leitura dos versos citados permite constatar que
Ah, Bruta flor do querer... o poema tematiza o sentimento amoroso e o desejo
Ah, Bruta flor, bruta flor! de posse, através de vários recursos poéticos, como
Caetano Veloso
a comparação entre a casa e o corpo da mulher.
( ) As aproximações entre uma mulher real e a sua
174.  (Mackenzie-SP) O texto exemplifica a relação idealização irônica ficam expressas pela indecisão
entre a canção popular brasileira e a tradição portu- de mostrá-la ao povo vestida ou despida, o que é
guesa clássica, na medida em que se vale: confirmado pelo título do poema.
A sequência correta de preenchimento dos parên-
I. da regularidade métrica decassilábica, típica da
teses, de cima para baixo, é:
Renascença.
a) F – V – F – V – F
II. do jogo de paradoxos na expressão do conflito
b) V – V – F – F – V
amoroso.
c) F – F – V – V – F
III. da mitologia greco-romana para concretizar o
d) F – V – V – F – F
aspecto sublime do amor.
e) V – F – V – F – V

294
Português
Exercícios propostos
capítulo 6

176.  (Espcex/Aman) É correto afirmar sobre o Trova- mas não o posso mais e decidi
dorismo que: que saibam todos o meu grande amor,
a tristeza que tenho, a imensa dor
a) os poemas são produzidos para ser encenados.
que sofro desde o dia em que vos vi.
b) as cantigas de escárnio e maldizer têm temáticas
amorosas.
Já que assim é, eu venho-vos rogar
c) nas cantigas de amigo, o eu lírico é sempre feminino.
que queirais pelo menos consentir
d) as cantigas de amigo têm estrutura poética
que passe a minha vida a vos servir (...)
complicada.
Disponível em: <www.caestamosnos.
e) as cantigas de amor são de origem nitidamente
org/efemerides/118>. Adaptado.
popular.
Texto para as próximas 2 questões 179.  (IFSP) Observando-se a última estrofe, é possível
afirmar que o apaixonado:
No português, encontramos variedades históricas,
tais como a representada na cantiga trovadoresca de a) se sente inseguro quanto aos próprios
João Garcia de Guilhade, ilustrada a seguir. sentimentos.
b) se sente confiante em conquistar a mulher amada.
Non chegou, madre, o meu amigo,
c) se declara surpreso com o amor que lhe dedica a
e oje est o prazo saido!
mulher amada.
Ai, madre, moiro d’amor!
d) possui o claro objetivo de servir sua amada.
Non chegou, madre, o meu amado, e) conclui que a mulher amada não é tão poderosa
e oje est o prazo passado! quanto parecia a princípio.
Ai, madre, moiro d’amor!
Textos para as próximas 2 questões
E oje est o prazo saido!
Cantiga
Por que mentiu o desmentido?
Ai, madre, moiro d’amor! Bailemos nós já todas três, ai amigas,
So aquestas avelaneiras frolidas, (frolidas = floridas)
E oje, est o prazo passado!
E quem for velida, como nós, velidas, (velida =
Por que mentiu o perjurado?
formosa)
Ai, madre, moiro d’amor!
Se amigo amar,
177.  (IFSP) No verso “Ai, madre, moiro d’amor!”, a fun- So aquestas avelaneiras frolidas (aquestas = estas)
ção sintática do termo madre é a seguinte: Verrá bailar. (verrá = virá)
a) sujeito. Bailemos nós já todas três, ai irmanas, (irmanas =
b) objeto direto. irmãs)
c) adjunto adnominal. So aqueste ramo destas avelanas, (aqueste = este)
d) vocativo. E quem for louçana, como nós, louçanas, (louçana
e) aposto. = formosa)
Se amigo amar,
178.  (IFSP) Considerando a terceira estrofe, assinale
So aqueste ramo destas avelanas (avelanas =
a alternativa que apresenta uma palavra formada por
avelaneiras)
parassíntese.
Verrá bailar.
a) desmentido
Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos, (men-
b) prazo
tr’al = enquanto outras coisas)
c) saido
d) d’amor So aqueste ramo frolido bailemos,
e) moiro E quem bem parecer, como nós parecemos (bem
parecer = tiver belo aspecto)
Texto para a próxima questão
Se amigo amar,
Cantiga de amor
So aqueste ramo so lo que bailemos
Afonso Fernandes Verrá bailar.
Airas Nunes, de Santiago. In: SPINA, Segismundo.
Senhora minha, desde que vos vi,
Presença da Literatura Portuguesa I. Era Medieval.
lutei para ocultar esta paixão
2. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1966.
que me tomou inteiro o coração;

295
Confessor medieval Textos para a próxima questão
(1960) Texto I
Irias à bailia com teu amigo, Ao longo do sereno
Se ele não te dera saia de sirgo? (sirgo = seda) Tejo, suave e brando,
Num vale de altas árvores sombrio,
Se te dera apenas um anel de vidro Estava o triste Almeno
Irias com ele por sombra e perigo? Suspiros espalhando
Ao vento, e doces lágrimas ao rio.
Irias à bailia sem teu amigo, Luís de Camões, Ao longo do sereno.
Se ele não pudesse ir bailar contigo?
Texto II
Irias com ele se te houvessem dito Bailemos nós ia todas tres, ay irmanas,
Que o amigo que amavas é teu inimigo? so aqueste ramo destas auelanas
e quen for louçana, como nós, louçanas,
Sem a flor no peito, sem saia de sirgo, se amigo amar,
Irias sem ele, e sem anel de vidro? so aqueste ramo destas auelanas
uerrá baylar.
Irias à bailia, já sem teu amigo, Aires Nunes. In: Nunes, J. J., Crestomatia arcaica.
E sem nenhum suspiro?
Texto III
Cecília Meireles. Poesias completas de Cecília Meire-
les. v. 8. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974. Tão cedo passa tudo quanto passa!
morre tão jovem ante os deuses quanto
180.  (Unesp) A leitura da cantiga de Airas Nunes e do Morre! Tudo é tão pouco!
poema Confessor medieval, de Cecília Meireles, revela Nada se sabe, tudo se imagina.
que este poema, mesmo tendo sido escrito por uma Circunda-te de rosas, ama, bebe
poeta modernista, apresenta intencionalmente algu- E cala. O mais é nada.
mas características da poesia trovadoresca, como o Fernando Pessoa, Obra poética.
tipo de verso e a construção baseada na repetição e
Texto IV
no paralelismo.
Os privilégios que os Reis
Releia com atenção os dois textos e, em seguida:
Não podem dar, pode Amor,
a) considerando que o efeito de paralelismo em cada
Que faz qualquer amador
poema se torna possível a partir da retomada,
Livre das humanas leis.
estrofe a estrofe, do mesmo tipo de frase adotado
mortes e guerras cruéis,
na estrofe inicial (no poema de Airas Nunes, por
Ferro, frio, fogo e neve,
exemplo, a retomada da frase imperativa), aponte
Tudo sofre quem o serve.
o tipo de frase que Cecília Meireles retomou de
Luís de Camões, Obra completa.
estrofe a estrofe para possibilitar tal efeito.
b) estabeleça as identidades que há entre o terceiro Texto V
verso da cantiga de Airas Nunes e o terceiro verso
As minhas grandes saudades
do poema de Cecília Meireles no que diz respeito
São do que nunca enlacei.
ao número de sílabas e às posições dos acentos.
Ai, como eu tenho saudades
181.  (Unesp) As cantigas que focalizam temas amoro- Dos sonhos que não sonhei!...
sos apresentam-se em dois gêneros na poesia trova- Mário de Sá Carneiro, Poesias.
doresca: as “cantigas de amor”, em que o eu poemá-
tico representa a figura do namorado (o “amigo”), e 182.  (Unifesp) A alternativa que indica o texto que faz
as “cantigas de amigo”, em que o eu poemático repre- parte da poesia medieval da fase trovadoresca é:
senta a figura da mulher amada (a “amiga”) falando de
a) I. c) III. e) V.
seu amor ao “amigo”, por vezes dirigindo-se a ele ou
b) II. d) IV.
dialogando com ele, com outras “amigas” ou, mesmo,
com um confidente (a mãe, a irmã etc.). De posse 183.  (Mackenzie-SP) Sobre a poesia trovadoresca em
desta informação: Portugal, é incorreto afirmar que:
a) classifique a cantiga de Airas Nunes em um a) refletiu o pensamento da época, marcada pelo
dos dois gêneros, apresentando a justificativa teocentrismo, pelo feudalismo e por valores
dessa resposta. altamente moralistas.
b) identifique, levando em consideração o próprio b) representou um claro apelo popular à arte, que
título, a figura que o eu poemático do poema de passou a ser representada por setores mais baixos
Cecília Meireles representa. da sociedade.

296
c) pode ser dividida em lírica e satírica. Texto para a questão 186
d) em boa parte de sua realização, teve influência
Dizia la bem talhada:
provençal.
“Agora viss’eu, penada,
e) as cantigas de amigo, apesar de escritas por
ond’eu amor hei”.
trovadores, expressam o eu lírico feminino.
184.  (Mackenzie-SP) Assinale a alternativa incorreta A bem talhada dizia:
a respeito das cantigas de amor. “Penada, viss’eu um dia
ond’eu amor hei.
a) O ambiente é rural ou familiar.
b) O trovador assume o eu lírico masculino: é o
Ca, se o viss’eu, penada,
homem quem fala.
nom seria tam coitada
c) Têm origem provençal.
ond’eu amor hei.
d) Expressam a “coita” amorosa do trovador, por
amar uma dama inacessível.
Penada, se o eu visse,
e) A mulher é um ser superior, normalmente
nom há mal que eu sentisse
pertencente a uma categoria social mais elevada
ond’eu amor hei.
que a do trovador.
Texto para a próxima questão Quem lh’hoje por mi rogasse
que nom tardass’e chegasse
Soneto de separação
ond’eu amor hei.
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma Quem lh’hoje por mi dissesse
E das bocas unidas fez-se a espuma que nom tardass’e veesse
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. ond’eu amor hei.
Vocabulário
De repente da calma fez-se o vento
Bem talhada: bem feita; elegante
Que dos olhos desfez a última chama
Penada: angustiada
E da paixão fez-se o pressentimento
ond’eu amor hei: aquele que eu amo
E do momento imóvel fez-se o drama.
que nom tardass’: que não demorasse
vesse: visse (verbo ver)
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante 186.  Complete com V (Verdadeiro) e F (Falso) as lacu-
E de sozinho o que se fez contente nas relacionadas às afirmações sobre a cantiga acima
e assinale a alternativa correta.
Fez-se do amigo próximo o distante
( ) Trata-se de uma cantiga medieval composta em
Fez-se da vida uma aventura errante
latim vulgar.
De repente, não mais que de repente.
( ) Do ponto de vista métrico, apresenta traços da
Vinicius de Moraes
poesia tradicional e folclórica.
( ) Apresenta paralelismo, refrão: trata-se de uma
185.  (Faap-SP) Releia com atenção a última estrofe:
cantiga de amigo.
“Fez-se de amigo próximo o distante ( ) Apresenta a “coita” amorosa: trata-se de uma
Fez-se da vida uma aventura errante cantiga de amor.
De repente, não mais que de repente”. a) V – V– F – V
b) V – V – V – F
Tomemos a palavra AMIGO. Todos conhecem o c) F – F – V – F
sentido com que esta forma linguística é usualmente d) F – V – V – F
empregada no falar atual. Contudo, na Idade Média, e) V – F – V – F
como se observa nas cantigas medievais, a palavra
Textos para as questões 187 e 188.
AMIGO significou:
Fragmento I
a) colega.
b) companheiro. Senhor, que mal vos nembrades¹
c) namorado. de quanto mal por vós levey
d) simpático. e levo, ben o creades,
e) acolhedor. que par Deus poder non ey²
de tan grave coyta sofrer!
Mays Deus vos leyxe part’aver³
da muy gran coyta que mi dades.

297
Vocabulário Os olhos verdes que eu vi
1- nem vos lembrais me fazen ora andar assí.
2- por Deus, já não poderei
Pero non devia a perder
3- Deus vos faça saber
homen, que ja o sén non há4,
Fragmento II de con sandece dizer;
e con sandece digu’eu ja:
— Vedes, senhor, quero-vos eu tal ben
Os olhos verdes que eu vi
qual mayor posso no meu coraçon,
me fazen ora andar assí.
e non diredes vós por ende non¹.
— Non, amigo, mays direy m’outre ren²: Vocabulário
Non me queredes vós a mi melhor 1 – louco
do que vos eu quer’³, amigu’e senhor. 2– Porém, quem quiser, entenderá esses olhos
quais são
Vocabulário
3 – Mas eu, quer morra, quer não
1- E não podereis dizer não
4 – que já o senso não possui
2- outra coisa ouvi, porém
3- não podeis me querer mais e melhor do que eu 189.  As cantigas surgiram em Portugal num momento
a vós em que a Europa vivia a transição da Alta Idade Média
(séculos V a X) para a Baixa Idade Média (séculos XI
187.  Observe as análises acerca das cantigas lidas e
a XV). A língua falada na região que se conhece hoje
assinale a alternativa correta.
como Portugal, evidenciada no texto em análise é o:
I. Verifica-se dois usos da palavra “senhor” nos
a) latim vulgar.
fragmentos. Em I, significa Deus; em II, significa
b) castelhano.
Senhora.
c) português provençal.
II. Em ambos os textos, verifica-se o sofrimento
d) moçárabe-português.
amoroso como tema principal e razão da
e) galego-portugês.
execução da cantiga.
III. No texto I, o interlocutor não responde ao eu 190.  Observe as afirmações feitas acerca do texto em
lírico e no texto II há a resposta do interlocutor análise e assinale a alternativa correta.
na cantiga.
I. “andar assi”, presente no último verso da
a) Todas estão corretas. primeira estrofe, refere-se à palavra “sandeu” e a
b) Somente I está correta. razão pela qual o eu lírico ficou “sandeu” são os
c) Está correto o que se afirma apenas em I e II. olhos que viu.
d) Está correto o que se afirma apenas em I e III. II. A cantiga é composta de quatro estrofes com
e) Somente III está correta. seis versos de oito sílabas poéticas e apresenta
refrão.
188.  Assinale a alternativa em que se faz uma afirma-
III. A julgar pelo tema e pelos sentimentos
tiva correta acerca das cantigas lidas.
expressados, trata-se de uma cantiga de amor
a) Ambas pertencem ao mesmo gênero poético: o trovadoresca.
gênero lírico.
a) Apenas I está correta.
b) Ambas possuem a mesma quantidade de versos
b) Apenas II está correta.
na estrofe.
c) Estão corretas apenas I e II.
c) Ambas possuem o mesmo número de
d) Estão corretas apenas II e III.
sílabas poéticas.
e) Estão corretas I, II e III.
d) Ambas possuem o mesmo esquema de rimas.
e) Ambas apresentam críticas a Leia os seguintes textos para a questão 191, ambos
comportamentos sociais. pertencentes ao trovadorismo português.
Texto para as questões 189 e 190 I
Amigos, non poss’eu negar Senhor, cuytad’ é o meu coraçon
a gran coita que d’amor hei, Por vós e moyro, se Deus mi person,
ca me vejo sandeu¹ andar, Porque sabede que, des que enton
e con sandece o direi: Vos vi, des y
Os olhos verdes que eu vi Nunca coyta perdi.
me fazen ora andar assí.
II
Pero quen-quer x’entenderá
Que coita tamanha ei a sofrer
aquestes olhos quaes son²;
Por amar amigu’ e não o veer!
e dest’alguén se queixará;
E pousarei sol o avelãal.
mais eu, ja quer moira³, quer non:

298
191.  Assinale a alternativa correta. Mas você não vem
Nem leva com você
a) O texto I é uma cantiga de amor e o texto II é uma
Toda essa saudade
cantiga de amigo.
Nem sei mais de mim
b) O texto II é uma cantiga de amor é o texto I é uma
Aonde vou assim,
cantiga de amigo.
Fugindo da verdade?
c) Ambos são cantigas de amigo.
Abandonada por você
d) Ambos são cantigas de amor.
Apaixonada por você
e) Ambos são cantigas de gesta.
Sem outro porto ou outro cais
Texto para a questão 192 Sobrevivendo aos temporais
Essa paixão ainda me guia...
Senhor fremosa, des aquel dia
Fafá de Belém
em que vos vi primeiro, des ento
nunca dormi com’ante dormia Texto II
nen ar fui led’e vedes porque non[1]:
Vi eu, madr’, andar
cuidand’em vós e non en outra ren[2]
as barcas eno mar:
e desejando sempr’o vosso bem.
e moiro-me d’amor.
Vocabulário Fui eu, madre, veer
1 – nem fui feliz, vede por que não. as barcas eno ler:
2 – eu só penso em você e em nada além. e moiro-me d’amor.
As barcas eno mar:
O texto, escrito em português arcaico, traz as mar- e foi-las aguardar:
cas do gênero lírico trovadoresco. e moiro-me d’amor.
As barcas eno ler
192.  Explique como é conhecido este tipo de texto,
e foi-las atender:
dando suas principais características (eu lírico, lín-
e moiro-me d’amor.
gua, regras seguidas e o tema abordado).
E foi-las aguardar
O texto a seguir é letra de canção do álbum Pás- e non o pud’achar:
saro sonhador, de autoria de Fafá de Belém, cantora e e moiro-me d’amor.
atriz brasileira. Leia-o e compare-o à seguinte cantiga E foi-las atender
medieval para responder às questões 193 a 195. e non o pude veer:
e moiro-me d’amor.
Texto I
Nuno Fernandes Torneol
Abandonada
Abandonada por você 193.  O texto I é a letra de canção do álbum Pássaro
Tenho tentado te esquecer sonhador, de autoria de Fafá de Belém, cantora e
No fim da tarde uma paixão atriz brasileira.
No fim da noite a solidão Observe as seguintes afirmações sobre ele e assi-
No fim de tudo a ilusão... nale a alternativa correta.
Apaixonada por você
I. Trata-se de uma manifestação típica do gênero
Tenho tentado não sofrer
lírico textual.
Lendo antigas poesias
II. Do ponto de vista temático, pode ser comparada
Rindo em novas companhias
às cantigas de amigo medievais.
E chorando por você...
III. Apresenta um recurso estilístico típico da poesia
Mas você não vem
amorosa trovadoresca, enfatizando uma ideia
Nem leva com você
central e repetindo-o em forma de estribilho.
Toda essa saudade
a) Todas as afirmativas estão corretas.
Nem sei mais de mim
b) Todas as afirmativas estão erradas.
Onde vou assim,
c) Está correto o que se afirma em I e II.
Fugindo da verdade?
d) Está correto o que se afirma em I e III.
Abandonada por você
e) Está correto o que se afirma em II e III.
Apaixonada por você
Sem outro porto ou outro cais 194.  A comparação dos dois textos permite afirmar:
Sobrevivendo aos temporais
a) Ambos trabalham com imagens de mar e
Essa paixão ainda me guia...
navegação, mas com uma diferença significativa:
Abandonada por você
o primeiro usa o mar como metáfora, enquanto
Apaixonada por você
o segundo trata o mar como uma referência
Eu vejo o vento te levar
objetiva a uma realidade vivida pelo sujeito lírico.
Mas tenho estrelas pra sonhar
E ainda te espero todo dia...

299
b) Os dois textos podem ser considerados Vocabulário
contemporâneos já que apresentam as mesmas 1- em troca de; 2- como se diz; 3- dinheiro suficiente;
características estilísticas. 4-sairei; 5- antes me algo; 6-pois; 7-hei, há; 8- de graça;
c) As escolhas sonoras, métrica, rimas e refrão 9- como se estivesse; 10- vestido e calçado; 11- nova-
aproximam os dois textos, já que ambos se mente; 12- na; 13- vossa casa; 14- tendes; 15- nenhum;
constroem da mesma forma. 16- graças; 17- salvo .
d) Ambos os textos se dirigem a um mesmo tipo
196.  Assinale a alternativa incorreta.
de interlocutor: o amado que abandonou uma
mulher (e enunciante do texto) e que está distante. a) Trata-se de uma cantiga de maldizer, que se
e) A afirmação da penúltima estrofe do texto distingue das de escárnio por apresentar
I (“Aonde vou assim,/Fugindo da verdade?”) sátira direta.
sintetiza o problema dos dois textos: as mentiras b) O eu lírico da canção é um homem, que se
do amigo que deixam o sujeito lírico desconsolado. dirige a uma mulher, Maria Garcia, revelando
seu sofrimento amoroso segundo as regras do
195.  Assinale a alternativa que contém a explicação
amor cortês.
correta da situação do poema II.
c) Pertence ao gênero satírico das cantigas medievais,
a) A moça procura o namorado que deveria ter em cujos temas há críticas que se referem a
voltado nas barcas e se decepciona porque não comportamentos políticos, sexuais, a nobres
o vê. traidores, a compositores incapazes, a rivais
b) A moça lamenta porque o namorado mentiu a amorosos, a mulheres de hábitos feios ou imorais, a
respeito da sua volta nas barcas. pessoas, profissionais ou proprietários pretensiosos.
c) A moça se lamenta para a mãe que foi procurar d) A crítica, nesta canção, é contundente e clara,
seu amigo nas barcas e não o achou. usa o baixo calão (palavrão) e dá nome à
d) A moça se lamenta para o amigo que não pessoa criticada.
consegue conversar com sua mãe. e) Pertence ao gênero medieval de importância
e) A moça se lamenta com o mar que seu amigo histórica bastante razoável, pelo registro social
mentiu sobre a volta marcada. que é feito.
Observe o texto que segue para responder à ques- Leia o texto a seguir, o qual é a letra de um funk
tão 196. escrito pelo grupo Os caçadores e responda às ques-
tões de 197 a 200.
Ben me cuidei eu, Maria Garcia,
en outro dia , quando vos fodi, Dona Gigi
que me non partiss’eu de vós assi
E aí, Big Mix?
como me parti já, mão vazia,
Mulher feia, tudo bem, né?
vel (1) por serviço muito que vos fiz;
Agora: feia, fedorenta e mentirosa?
que me non deste , como x’omen diz (2),
Aí não, neguinho!
sequer um soldo que ceass’(3) um dia .
Aí eu vou ter que zoar!
Mais detsa seerei (4) eu escarmentado “Eu sou a Dona Gigi.
de nunca foder já outra tal molher, Esse aqui é o meu esposo”
se m’ant’algo (5) na mão non poser,
“Esse aí é o seu esposo?”
ca (6) non ei (7) porque foda endoado (8);
sabedes como : ide-o fazer “É sim!”
con quen teverdes (9) vistid’e (10) calçado.
Se me vê agarrado com ela
Ca me non vistides nem me clçades
Separa que é briga, ‘tá ligado!?
nem ar (1) sel’eu eno ( 12 ) vosso casal (13 ),
Ela quer um carinho gostoso:
nen avedes (14) sobre min non pagades;
Um bico, dois soco e três cruzados!
ante mui ben e mais vos en direi:
‘tá com pena leva ela pra casa
nulho (15) medo , grad’a (16) Deus , e a el-Rei,
Porque nem de graça eu quero essa mulher!
non ei de força que me vós façades.
Caçadores estão na pista pra dizer como ela é...
E , mia dona , quen pregunta non erra; Caolha, nariz de tomada, sem bunda, perneta,
e vós , por Deus , mandade preguntar Corpo de minhoca, banguela, orelhuda, tem
polos naturaes deste logar unha encravada,
se foderan nunca en paz nen en guerra, Com peito caído e um caroço nas costas...
ergo (17) se foi por alg’ou por amor. Ih gente! Capina, despenca,
Id’adubar vossa prol , ai , senhor, Cai fora, vai embora,
c’avedes , grad’a Deus , renda na terra. Se não vai dançar,
Afondo Eanes do Coton Chamei dois guerreiros,

300
Bispo Macedo, com Padre Quevedo pra te exorcizar... 202.  As cantigas medievais são classificadas segundo
Oi, vaza! o gênero. Explique a que gênero pertence a can-
tiga transcrita explicando detalhadamente o seu
Fede mais que um urubu,
conteúdo.
Canhão! Vou falar bem curto e grosso contigo, hein...
Já falei pra vazar! Texto para as questões 203 a 205
Coisa igual nunca se viu...
A dentadura de Teresa
Oh vai pra... Puxa! Tu é feia!
Vamos tomar cerveja.
197.  O funk carioca é um estilo musical bastante con- Vamos tomar cerveja.
troverso e criticado por intelectuais e por parte da Tomar cerveja, tem razão,
população, geralmente por ter pouca criatividade Tem a inauguração
lírica e instrumental e por fazer, geralmente por meio da dentadura de Teresa.
de uma linguagem obscena e vulgar, apologia ao
crime, ao sexo e às drogas. Os elementos dessa descri- Teresa há muito tempo não comia.
ção se encaixam na canção transcrita? Justifique com Teresa dava pena, dava dó.
uma resposta completa. Teresa não comprava, nem vendia.
Não chorava, nem sorria,
198.  Ao retratar musicalmente um ambiente desco- Mas agora tá melhor.
nhecido da realidade brasileira, as favelas do Rio de Teresa agora está muito feliz.
Janeiro, o funk faz uso de uma variante linguística Teresa está contente, ora veja:
adequada a esta realidade. Explique, apoiando-se em Quem quiser ver como é boa a dentadura
passagens da canção. Leve coco e rapadura lá pra casa de Teresa.
Falcão
199.  O eu lírico da canção parece empenhado em Marcondes Falcão Maia, mais conhecido como
fazer uma “homenagem” a Dona Gigi, por meio de Falcão, é um cantor, compositor, apresenta-
uma canção. dor do estilo brega muito conhecido na atualidade
por sua irreverência, sarcasmo e comicidade.
a) Explique o que o levou a fazer essa homenagem.
b) Destaque do texto um exemplo de ironia. sar•cas•mo
Explique-a. (grego sarkasmós, -ou)
substantivo masculino
200.  As cantigas trovadorescas também apresen-
1. Ironia amarga e dura, por vezes conside-
tam, em certas composições, letras menos presas a
rada insultuosa.
modelos e convenções. Explique que gênero medieval
2. Escárnio
se aproxima do funk anteriormente transcrito, con-
“sarcasmo”. In: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
cluindo sobre a importância desse estilo como regis-
[em linha], 2008-2013. Disponível em: <http://www.priberam.
tro social.
pt/DLPO/sarcasmo>. Acesso em: consultado em 10 abr. 2014.
Texto para as questões 201 e 202
203.  Na canção anterior, o sujeito lírico parece convi-
A ũa velha quisera trobar
dar as pessoas para uma comemoração.
quand’em Toledo fiquei desta vez;
e veo-me Orraca López rogar a) Por que podemos afirmar que há certo sarcasmo
e disso-m’assi: — Por Deus que vos fez, em seu convite?
nom trobedes a nulha velh’aqui b) Que argumentação o sujeito lírico apresenta
ca cuidarám que trobades a mim. para comprovar que a nova aquisição de Teresa é
de qualidade?
Vocabulário
204.  A exemplo do que faz o músico Falcão atual-
ũa – uma
mente, na Idade Média havia um gênero poético que
veo-me – veio-me
retratava de modo irônico os indivíduos e os fatos da
roga – pedir
época de modo a provocar o riso dos ouvintes. Qual
disso-‘massi – e me disse a ssim
era ele?
nulha – nenhuma
cuidarám – pensarão
205.  Como a música se classificaria se fosse uma can-
201.  O texto anterior transcrito é exemplo de uma tiga medieval? Em que idioma estaria escrita?
das primeiras manifestações literárias em língua por-
tuguesa. É possível reconhecermos uma referência
ao nome da primeira escola literária em uma palavra
encontrada na cantiga. Explique que palavra é essa, o
que ela significa e que referência ela faz à escola lite-
rária a que pertence a cantiga.

301
Gabarito que se refere à tipologia textual, são os que se encontram desta-
121.  B há elementos da narrativa, para cados: “Um CONTADOR DE HIS-
122.  a qual também colabora a descri- TÓRIAS é justamente o contrá-
a) Demonstra a hibridização ção; no que tange ao gênero tex- rio de HISTORIADOR, não sendo
dos gêneros dramático e lírico. tual, sobressai a configuração de um HISTORIADOR, afinal de con-
b) Espécie de lagarto que, um texto telegráfico. tas, mais do que um CONTADOR
quando é cortado em dois, três, 133.  A DE HISTÓRIAS”.
mil pedaços, facilmente se refaz. 134.  D Logo, os elementos podem ser
Então, metaforiza que as ideias de 135.  D assim esquematizados: (a) “conta-
Calabar não morreram, pelo con- 136.  C dor de histórias”, (b) “historiador”,
trário, multiplicaram-se. 137.  A (b) “historiador” e (a) “contador
c) “Seu, seus, suas”, a Calabar. 138.  C de histórias”.
“Tua, teu”, ao leitor/espectador. 139.  D b) No trecho de Machado de
Aproxima Calabar dos ideais do 140.  D Assis, o “contador de histórias”
leitor/espectador, visando à sua 141.  D relata o que não viu, ou seja, o que
sensibilização ou à adesão a seus 142.  A ele faz “é só fantasiar”. O historia-
ideais. 143.  C dor, embora também conte his-
123.  A 144.  tórias, só as conta se forem verí-
124.  A a) Ivan Ângelo definiu o gênero dicas, como seria a descrição da
125.  B crônica como texto que explora “tourada de domingo passado”,
126.  B a função poética para imprimir caso fosse feita por quem a tivesse
127.  C emotividade ao relato e que, por visto.
128.  52 ser normalmente publicado em 166.  A divisão ajuda a compreen-
129.  jornais e revistas, tem caráter demos as relações entre um estilo
a) Os pronomes “ele” e “eles” transitório, passageiro. A pergunta literário e o momento histórico em
referem-se, respectivamente, ao da leitora incide sobre esta última que está inserido, muito embora
poeta e aos leitores do poema, “os característica, a efemeridade (“É possa existir certo distancia-
que leem”. coisa efêmera: jornal dura um dia, mento entre um e outro.
b) A dor para o poeta é, parado- revista dura uma semana”). 167.  Os primeiros manuscritos de
xalmente, fingida e sentida (“que b) A palavra “então” que encerra que se tem registro em galego-por-
chega a fingir que é dor” / “A dor a pergunta da leitora funciona tuguês datam do século XII d.C.
que deveras sente”). Já os leito- como contestação ao que havia 168.  Costuma-se dividir a Lite-
res concebem outras dores ao ler sido explicado anteriormente, pois ratura de Língua Portuguesa em
o texto, eles têm experiência inu- o fato de os livros terem existência três espaços de tempo: Era Medie-
sitada, ampliam os horizontes ao duradoura contrariava uma das val, Era Clássica e Era Romântica
fruir o texto. características citadas pelo autor. ou Moderna.
130.  145.  B 169.  A Era Nacional da literatura
a) Ambos fazem crítica à rea- 146.  V – V – V – V – V de Língua Portuguesa se inicia no
lidade do país: a exaltação do 147.  E século XVI, com o Quinhentismo.
estrangeirismo em detrimento 148.  C 170.  D
do nacionalismo. 149.  A 171. 
b) Em “exaltar” e “abater”, tem- 150.  C a) A ordem cronológica das
se a antítese. 151.  B escolas em questão é: Trova-
c) Pobre teRRa de BRuzun- 152.  V – V – F – V dorismo, Barroco, Arcadismo,
danga – (variante brasileira) de 153.  D Romantismo e Simbolismo.
“burundanga” – É a aliteração. 154.  B b) Trovadorismo é uma tendên-
131.  155.  Seu riso acendeu a aurora e cia exclusiva de Portugal, visto
a) Dramático – teatro e Épico – iluminou a terra da Bahia. que ocorre durante a Idade Média,
romance 156.  V – V – F – V período em que o Brasil ainda não
b) Imitação, pelos escritores 157.  F – F – V – V havia sido alcançado pela cultura
portugueses, dos escritores fran- 158.  27 (01 + 02 + 08 + 16) europeia.
ceses. Artificialismo na criação 159.  A 172.  E
literária. 160.  C 173.  E
132.  161.  E 174.  A
A dissolução revela-se no fato 162.  D 175.  A
de haver, num poema que per- 163.  A 176.  C
tence ao gênero lírico, a mescla 164.  D 177.  D
de elementos de diferentes níveis: 165.  178.  A
no que diz respeito ao gênero lite- a) Os elementos que formam o 179.  D
rário, está presente o épico; no “quiasmo”, no período em questão,

302
180.  191.  A ao contrário do que acontece na can-
a) Cecília Meireles retomou, de 192.  ção, que sugere que a mulher apa-
estrofe a estrofe, a oração subordi- O texto é conhecido como cantiga nhe e seja afastada do sujeito lírico.
nada adverbial condicional. de amor. Apresenta eu lírico mas- 200.  O funk transcrito se aproxima
Essas orações aparecem no 2º culino, linguagem trabalhada, não das cantigas do gênero satírico,
verso da 1a estrofe e, de corpo contém paralelismos nem refrão. especialmente as cantigas de maldi-
inteiro, na 2a e na 3a estrofe. Seu tema, o sofrimento amoroso, zer, que também fazem uma crítica
Também aparece na penúltima é trabalhado com obediência às direta, expõem o nome da pessoa e
estrofe, numa estrutura mais sim- regras do amor cortês. utilizam-se de linguagem chula.
ples, em que a condição é veicu- 193.  C 201.  Trata-se da palavra “trobar”
lada por meio da preposição “sem”. 194.  A ou “trovar”, que se refere a cantar
b) Com relação à metrificação, 195.  C em rimas. É ela que dá nome ao
os versos indicados nos dois tex- 196.  B estilo de época conhecido como
tos são idênticos, ou seja, são hen- 197.  A canção em questão não trovadorismo.
decassílabos, com acentos nas se encaixa em grande parte das 202.  A cantiga em análise per-
quintas e nas décimas primeiras características descritas no enun- tence ao gênero satírico, pois tem
sílabas. ciado. Embora apresente certa como propósito criticar e satirizar
181.  vulgaridade (bunda, orelhuda, costumes e atitudes. Na canção, o
a) A cantiga pode ser classifi- peito caído) e violência (um bico, alvo é Orraca López, que supos-
cada como um tipo de “cantiga de dois socos e três cruzados), faz isso tamente teria pedido ao trovador
amigo” conhecido como “Bailia ou com humor e muita criatividade. que não cantasse sobre uma velha
Bailada das Avelaneiras”. As carac- 198.  Para realizar a canção, o grupo em Toledo, alegando que pensa-
terísticas que evidenciam essa utiliza a variante linguística popu- riam que a canção era sua.
classificação são: presença do eu lar, que não se preocupa com regras 203. 
lírico feminino, insinuação de sen- gramaticais – a canção contém a) Porque a voz da canção con-
sualidade, paralelismo e refrão. diversos problemas de concordân- vida as pessoas para uma come-
b) O eu poemático do texto pode cia (como em “tu é feia), mistura moração no mínimo inusitada,
ser representado pela mãe ou por pessoas do discurso (“tu” e “você”), que é a inauguração da dentadura
uma amiga da moça, interpelan- além de utilizar expressões simples de uma mulher. A canção supõe
do-a com relação ao namorado. e cotidianas, como gírias (já falei que Teresa estava havia muito
O enunciado ajuda na resolução pra vazar e “tá ligado”). Embora tempo sem a peça.
do problema e faz com que o título desobedeça às normas gramati- b) O sujeito lírico instiga os con-
colabore na identificação, pois, por cais, está perfeitamente adequada vidados a levar comidas duras,
meio dele, pode-se perceber no eu ao cenário e ao discurso em que como coco e rapadura, para com-
poemático a figura de um confi- se encontra. provar a qualidade da dentadura
dente ou de um religioso que auxi- 199.  de Teresa.
lia a moça no que diz respeito ao a) Inicialmente, a “homenagem” 204.  Trata-se das cantigas do
seu envolvimento amoroso, mos- decorre da ideia de que Gigi é fedo- gênero satírico.
trando a ela os perigos do amor. renta e mentirosa. Segundo o can- 205.  Se fosse uma cantiga medie-
182.  B tor, esses atributos associados à val, seria uma cantiga de maldi-
183.  B feiura são imperdoáveis. zer, por mencionar o nome do alvo
184.  A b) A ironia consiste no fato de (muito embora a sutileza do con-
185.  C que, em uma homenagem, desta- vite pudesse permitir interpretá-la
186.  D cam-se as qualidades de um indiví- como contendo traços da cantiga de
187.  E duo, e o que a voz da canção apre- escárnio). Se fosse escrita na Idade
188.  A senta de Gigi são somente seus Média, estaria em galego-português.
189.  E defeitos. Além do mais, frequente-
190.  E mente premia-se o homenageado,

303
Anotações

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